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from the book Writings Jacques Lacan

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Escritos by Jacques Lacan
Jacques Lacan

única imprudência que nunca nos enganou: a de não nos fi armos a nada senão à experiência do sujeito que é a matéria única do trabalho analítico.


Análise do eu e psicologia das massas, comete um erro, já que não há nesse artigo outra coisa senão a teoria da identif i cação.


Freud ligou o eu por uma referência dupla, uma ao corpo próprio, que é o narcisismo, e outra à complexidade das três ordens de identif i cação


diacronia


Para situá-la no estádio do espelho, saibamos primeiramente ler ali o paradigma da definição propriamente imaginária que se dá da metonímia: a parte pelo todo. Pois não omitamos o que nosso conceito envolve da experiência analítica da fantasia, essas imagens ditas parciais, as únicas a merecer a referência de um arcaísmo primevo, que reunimos sob o título de imagens do corpo despedaçado, e que se confirmam pela asserção, na fenomenologia da experiência kleiniana, das fantasias da cha­ mada fase paranóide.


esse ou um ou outro é o retor n o depressivo da segunda fase em Melanie Klein; é a figura do assassinato hegeliano


Até o cego está sujeito a isso, por se saber objeto do olhar


conviria saber o que seria o eu num mundo em que ninguém soubesse nada da simetria em relação a um plano.


da fi cção do cego filósofo à do filósofo cego, a questão do sujeito.


Intervenção sobre a trans f erência


Em suma, trata-se do efeito psicológico que se produz por uma tarefa inacabada, quando ela deixa uma Gestalt em suspenso: por exemplo, pela necessidade geralmente sentida de dar a uma frase musical seu acorde resolutivo


Numa psicanálise, com efeito, o sujeito propriamente dito constitui-se por um discurso em que a simples presença do psicanalista introduz, antes de qualquer intervenção, a dimensão do diálogo


existem doenças que falam, e de nos fazer ouvir a verdade do que elas dizem


pietismo


propedêuticas


“Esses fatos estão aí, dizem respeito à realidade, e não a mim mesma. O que o senhor quer mudar nisso aí?” Ao que Freud responde através de:
Uma primeira inversão dialética, que nada fica a dever à análise hegeliana da reivindicação da “bela alma” , aquela que se insurge contra o mundo em nome da lei do coração: “Veja” , diz ele a Dora, “qual é sua própria parte na desordem de que você se queixa”


Um segundo desenvolvimento da verdade, isto é, que foi não apenas pelo silêncio, mas pela cumplicidade da própria Dora, e mais ainda sob sua proteção vigilante, que pôde perdurar a ficção que permitiu à relação dos dois amantes prosseguir.


Ao mesmo tempo, a relação edipiana revela-se constituída em Dora por uma identificação com o pai, favorecida pela impotência


sexual deste, aliás vivenciada por Dora como idêntica à prepon­ derância de sua situação de fortuna


Essa identificação transparece, .220. com efeito, em todos os sintomas conversivos apresentados por Dora, e sua descoberta dá início à eliminação de um grande número deles.


A segunda inversão dialética, que Freud efetua através da observação de que, ali, não é realmente o pretenso objeto do ciúme que constitui seu verdadeiro motivo, mas que ele mascara um interesse pela pessoa do sujeito-rival, interesse este cuja natureza, muito menos assimilável no discurso comum, só pode exprimir-se dessa forma invertida. Daí surge:
Um terceiro desenvolvimento da verdade: o fascinado apego de Dora pela Sra. K. (“a deslumbrante brancura de seu corpo” ), as confidências que ela ouve, a um ponto que permanecerá insondado, sobre a situação das relações desta com o marido, e o fato patente das trocas de amabilidades entre as duas, como embaixatrizes mútuas de seus desejos junto ao pai de Dora.


Se é dessa mulher, portanto, que você sente tão amargamente estar despossuída, como não lhe querer mal por esse acréscimo de traição, por ter sido dela que partiram as imputações de intriga e perversidade em que agora todos se aliam para acusar você de uma mentira? Qual é o motivo dessa lealdade que a faz guardar-lhe o segredo último das relações entre vocês (ou seja, a iniciação sexual, já identificável nas próprias acusações da Sra.
K.)?


À terceira inversão dialética, aquela que nos for n eceria o valor real do objeto que é a Sra. K. para Dora. Isto é, não o de um indivíduo, mas o de um mistério, o mistério de sua própria feminilidade, quer dizer, de sua feminilidade corporal - como se evidencia, sem nenhum véu, no segundo dos dois sonhos cujo estudo compõe a segunda parte da exposição do caso Dora, sonhos a que rogamos que as pessoas se reportem, para ver como .221. sua interpretação se simplifica com nosso comentário.


a imagem mais longínqua de sua primeira infância


é Dora, provavelmente ainda in f ans, chupando seu polegar esquerdo, enquanto com a mão direita puxa a orelha do irmão, um ano e meio mais velho do que ela


Parece que temos aí a matriz imaginária em que vieram desaguar todas as situações que Dora desenvolveu em sua vida


Por aí podemos tirar a medida do que agora significam para ela a mulher e o homem.
A mulher é o objeto impossível de separar de um desejo oral primitivo, e no qual é preciso, no entanto, que ela aprenda a reconhecer sua própria natureza genital. (É espantoso, aqui, que Freud não veja que a determinação da afonia, durante as ausências do Sr. K. (p.369), exprime o violento apelo da pulsão erótica oral no “enfim sós” com a Sra. K., sem que seja preciso invocar a percepção daf ellatio experimentada pelo pai (p.4410), quando todos sabem que o cunnilingus é o artifício mais comumente adotado pelos ” senhores abastados” cujas forças começam a abandoná-los.) Para ter acesso a esse reconhecimento de sua feminilidade, ser-lhe-ia preciso realizar a assunção de seu próprio corpo, sem o que ela continua exposta ao despedaçamento


funcional (para nos referirmos à contribuição teórica do estádio do espelho), que constitui os sintomas de conversão.


E todas as suas relações com os dois homens manifestam a agressividade em que vemos a dimensão característica da alienação narcísica


o problema de sua condição está, no fundo, em se aceitar como objeto do desejo do homem, e é esse o mistério, para Dora, que motiva sua idolatria pela Sra. K.


Isso decorre, diríamos, de um preconceito, justo aquele que falseia inicialmente a concepção do complexo de Édipo, fazen­ do-o considerar como natural, e não como normativa, a primazia do personagem pater n o: é o mesmo preconceito que se exprime com simplicidade no conhecido refrão: “Tal como o fio para a agulha é a menina para o menino.”


Freud tem pelo Sr. K. uma simpatia de longa data, já que foi ele quem lhe levou o pai de Dora (p.l 8 17 ) e que se exprimiu em numerosas apreciações (nota, p.27 18 ). Após o malogro do trata­ mento, ele continua a sonhar com uma “vitória do amor”


Em razão de sua contratransferência, Freud volta com exces­ siva constância ao amor que o Sr. K. inspiraria em Dora, e é curioso ver como sempre interpreta no sentido de uma confissão as respostas, embora variadíssimas, que Dora lhe opõe. A sessão em que ele acredita havê-la reduzido a “não mais contradizê-lo” (p.9320), e ao fim da qual julga poder exprimir-lhe sua satisfação, é concluída por Dora num tom bem diferente. “Não foi grande coisa o que apareceu” , diz ela, e é no começo da sessão seguinte que se despede de Freud.


nem todos os “benefícios” da neurose são lucrativos unicamente para o neurótico


O Sr. K. só teve tempo de dizer algumas palavras, embora, é verdade, tenham sido decisivas:
“Minha mulher não é nada para mim.” E a façanha logo teve sua recompensa: uma grande bofetada - justamente aquela de que Dora sentiria o contragolpe violento, muito depois do tra-


tamento, numa nevralgia transitória - veio expressar ao desas­ trado: “Se ela não é nada para você, que é você para mim?”


contratransferência, definida como a soma dos preconceitos, das paixões, dos embaraços e até mesmo da infor­ mação insuficiente do analista num dado momento do processo dialético?


a transferência não é nada de real no sujeito senão o aparecimento, num momento de estagnação da dialética analítica, dos modos permanentes pelos quais ele cons­ titui seus objetos.


a transferência não resulta de nenhuma propriedade misteriosa da afetividade e, mesmo quando se trai sob uma aparência de emoção, esta só adquire sentido em função do momento dialético em que se produz.


a neutralidade analítica adquire seu sentido autêntico na posição do dialético puro, que, sabendo que tudo o que é real é racional (e vice-versa), sabe que tudo o que existe, inclusive a doença contra a qual ele luta, é e será sempre equivalente ao nível de sua particularidade, e que só existe progresso para o sujeito através da integração a que ele chega de sua posição no universal: tecnicamente, pela projeção de seu passado num discurso em devir.


Quanto a nós, pensamos que, se inovamos, não é de nosso gosto fazer disso um mérito.


Urgente, em todo caso, parece-nos a tarefa de destacar, em noções que se enfraquecem num uso rotineiro, o sentido que elas resgatam tanto de um retorno à sua história quanto de uma reflexão sobre seus fundamentos subjetivos.
É essa, sem dúvida, a função de quem ensina, da qual todas as outras dependem, e é nela que melhor se inscreve o valor da experiência.


parvoíce


Nada há de criado que não apareça na urgência, e nada na urgência que não gere sua superação na fala.


A) Função do imaginário, digamos, ou, mais diretamente, das fantasias na técnica da experiência e na constituição do objeto nas diferentes etapas do desenvolvimento psíquico.


Noção das relações libidinais de objeto


extensão do método às psicoses


Importância da contratransferência e, correlativamente, da formação do psicanalista.


Tor n a-se grande o perigo quando, além disso, ele abandona sua linguagem, em benefício de linguagens já insti­ tuídas e das quais ele conhece pouco as compensações que elas oferecem à ignorância.


Com efeito, falar da perda do sentido da ação analítica é tão verdadeiro e tão inócuo quanto explicar o sintoma por seu sentido, .245. enquanto esse sentido não é reconhecido.


para-além dessa fala, é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente. Pondo desde logo o espírito prevenido em alerta, porquanto é possível que ele tenha de reavaliar a idéia segundo a qual o inconsciente é apenas a sede dos instintos.


etnográfica


A lingüística, frisamos, ou seja, o estudo das línguas existentes em sua estrutura e nas leis que nela se revelam - o que deixa de fora a teoria dos códigos abstratos, impropriamente elevada à categoria da teoria da comunicação, ou a chamada teoria, constituída pela física, da informação, ou qualquer ser n i ologia mais ou menos hipoteticamente generalizada.


nenhuma significação se sustenta a não ser pela remissão a uma outra significação


não há língua existente à qual se coloque a questão de sua insuficiência para abranger o campo do signifi­ cado, posto que atender a todas as necessidades é um efeito de sua existência como língua


ilusão de que o significante atende à função de representar o significado, ou, melhor dizendo:
de que o significante tem que responder por sua existência a título de uma significação qualquer.
Pois, mesmo ao se reduzir a esta última fórmula, a heresia é a mesma. É ela que conduz o positivismo lógico à busca do sentido do sentido, do meaning o f meaning, tal como se deno­ mina, na língua em que se agitam seus devotos, o objetivo.
Donde se constata que o texto mais carregado de sentido des­ faz-se, nessa análise, em bagatelas insignificantes, só resistindo a ela os algoritmos matemáticos, os quais, como seria de se esperar, são sem sentido algum.


ao ter que se aproximar das plaquinhas esmaltadas que lhe servem de suporte, o olhar pestanejante de um míope talvez tivesse razão em questionar se é realmente ali que convém ver o significante, cujo significado, nesse caso, receberia da dupla e solene procissão da nave superior as derradeiras honras.


no nível da frase, quando ela é interrompida antes do termo significativo: Eu nunca … , A verdade é que … , Talvez, também … Nem por isso ela deixa de fazer sentido, e um sentido ainda mais opressivo na medida em que se basta ao se fazer esperar


Donde se pode dizer que é na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que ele é capaz nesse mesmo momento.


a noção de um deslizamento incessante do significado sob o significante


Digamos que a poesia moder n a e a escola surrealista fizeram­ nos dar um grande passo nisso, ao demonstrar que qualquer conjunção de dois significantes seria equivalente para constituir uma metáfora, caso não se exigisse a condição da máxima disparidade entre as imagens significadas para a produção da .5071 centelha poética, ou, em outras palavras, para que tenha lugar a criação metafórica.


A centelha criadora da metáfora não brota da presentificação de duas imagens, isto é, de dois significantes igualmente atua­ lizados. Ela brota entre dois significantes dos quais um substituiu o outro, assumindo seu lugar na cadeia significante, enquanto o significante oculto permanece presente em sua conexão (meto­ nímica) com o resto da cadeia.


Portanto, é entre o significante do nome próprio de um homem e aquele que o abole metaforicamente que se produz a centelha poética, ainda mais eficaz aqui, para realizar a significação da pater n idade, por reproduzir o evento mítico em que Freud re­ construiu a trajetória, no inconsciente de todo homem, do mistério pater n o.


É fato que a letra mata, dizem, enquanto o espírito vivif i ca


A obra completa de Freud nos apresenta uma página de refe­ rências filológicas a cada três páginas, uma página de inferências lógicas a cada duas páginas e, por toda parte, uma apreensão dialética da experiência, vindo a analítica linguageira reforçar ainda mais suas proporções à medida que o inconsciente vai sendo mais diretamente implicado.


rébus


é preciso entendê-lo, como afirmei a princípio, ao pé da letra.


A Entstellung, traduzida por transposição, onde Freud mostra a precondição geral da função do sonho, é o que designamos anteriormente, com Saussure, como o deslizamento do signifi­ cado sob o significante, sempre em ação (inconsciente, note-se) no discurso.


A Verdichtung, condensação, é a estrutura de superposição dos significantes em que ganha campo a metáfora, e cujo nome, por condensar em si mesmo a Dichtung, indica a conaturalidade desse mecanismo com a poesia, a ponto de envolver a função propriamente tradicional desta.


A Verschiebung ou deslocamento é, mais próxima do termo alemão, o transporte da significação que a metonímia demonstra e que, desde seu aparecimento em Freud, é apresentado como o meio mais adequado do inconsciente para despistar a censura.


O fato de o sonho dispor da fala não modifica nada, visto que, para o inconsciente, ela é apenas um elemento de encenação .512. como os demais. É justamente quando o jogo e também o sonho esbarrarem na falta de material taxêmico para representar as articulações lógicas da causalidade, da contradição, da hipótese etc., que eles darão provas de ser, um e outro, uma questão de escrita, e não de pantomima.


a regra analítica deve ser observada tão mais religiosamente quanto mais é apenas fruto de um feliz acaso. Em outras palavras, Freud nunca soube muito bem o que estava fazendo.


É somente por um abuso terminológico, por­ tanto, que se confunde o psíquico com o inconsciente nesse sentido, e que assim se qualifica de psíquico um efeito do inconsciente no somático, por exemplo.


a estrutura metonímica, indicando que é a conexão do significante com o significante que permite a elisão mediante a qual o significante instala a falta do ser na relação de objeto, servindo-se do valor de envio da significação para investi-la com o desejo visando essa falta que ele sustenta


a estrutura metafórica, que indica que é na substituição do significante pelo significante que se produz um efeito de signi­ ficação que é de poesia ou criação, ou, em outras palavras, do advento da significação em questão


Talvez eu seja apenas objeto e mecanismo (e portanto, nada além de fenômeno), mas, certamente, na medida em que o penso, eu sou - de modo absoluto. Sem dúvida, os filósofos introdu­ ziram aí importantes correções, nominalmente a de que, naquilo que pensa (cogitans), nunca faço senão constituir-me como objeto (cogitatum).


aparências .semblants.


Esse jogo significante da metonímia e da metáfora, incluindo sua ponta ativa que fixa meu desejo numa recusa do significante ou numa falta do ser e ata minha sorte à questão de meu destino, esse jogo é jogado, até que a partida seja suspensa, em seu inexorável requinte, ali onde não estou, porque ali não me posso situar.


penso onde não sou, logo sou onde não penso


eu não sou lá onde sou joguete de meu pensamento; penso naquilo que sou lá onde não penso pensar.


O mecanismo de duplo gatilho da metáfora é o mesmo em que se determina o sintoma no sentido analítico. Entre o signi­ ficante enigmático do trauma sexual e o termo que ele vem substituir numa cadeia significante atual passa a centelha que fixa num sintoma - metáfora em que a car n e ou a função são tomadas como elemento significante - a significação, inaces­ sível ao sujeito consciente onde ele pode se resolver.


E os enigmas que o desejo propõe a toda “filosofia natural” , seu frenesi que imita o abismo do infinito, o conluio íntimo em que ele envolve com o gozo o prazer de saber e o de dominar, não decorrem de nenhum outro desregramento do instinto senão sua captação nos trilhos - eter n amente estendidos para o dese jo de outr a coisa - da metonímia. Daí sua fixação “perversa” nas reticências da cadeia significante 29 em que a lembrança enco­ bridora se imobiliza, onde a imagem fascinante do fetiche se erige em estátua.


Não há outro meio de conceber a indestrutibilidade do desejo inconsciente - como não há necessidade que, ao ver proibida sua saciação, estiole, em último caso consumindo o próprio organismo. É numa memória, comparável ao que é chamado por esse nome em nossas moder n as máquinas de pensar (baseadas numa realização eletrônica da composição significante), que jaz essa cadeia que insiste em se reproduzir na transferência, e que é a de um desejo morto.


É a verdade do que esse desejo foi em sua história que o sujeito grita através de seu sintoma


na coextensividade do desenvolvimento do sintoma e de sua resolução curativa revela-se a natureza da neurose: fóbica, histérica ou obsessiva, a neurose é uma questão que o ser coloca para o sujeito “lá de onde ele estava antes que o sujeito viesse ao mundo”


A perífrase, o hipérbato, a elipse, a suspensão, a antecipação, a retratação, a denegação, a digressão e a ironia são as figuras de estilo (as figurae sententiarum de Quintiliano ), e a catacrese, a litotes, a antonomásia e a hipotipose são os tropas cujos termos se impõem à pena como os mais adequados para rotular esses mecanismos.


Será possível ver nisso apenas um simples modo de dizer, quando são exatamente essas as figuras que estão em ato na retórica do discurso efetivamente proferido pelo analisado?


É que a uma nova verdade não podemos contentar-nos em dar lugar, porque é de assumir nosso lugar nela que se trata. Ela exige que nos mexamos. Não se pode atingi-la por uma simples habituação. Habituamo-nos com o real.
A verdade, nós a recalcamos.


amância


Qual é, pois, esse outro a quem sou mais apegado do que a mim, já que, no seio mais consentido de minha identidade comigo mesmo, é ele que me agita?


Sua presença só pode ser compreendida num grau secundário da alteridade, que já o situa, a ele mesmo, numa posição de mediação em relação a meu próprio desdobramento de mim comigo mesmo como também com o semelhante.


esse outro é o Outro invocado até mesmo por minha mentira como garante da verdade em que ela subsiste.


Mas, nas proposições através das quais inicio com ele uma negociação de paz, é num lugar terceiro, que não é nem minha fala nem meu interlocutor, que o que ela lhe propõe se situa


Conhece-te a ti mesmo” ; são as vias que a ele conduzem que ele nos dá para revisar.


É que ao tocar, por pouco que seja, na relação do homem com o significante, no caso, na conversão dos procedimentos da exegese, altera-se o curso de sua história, modificando as amarras de seu ser.
É por isso que o freudismo, por mais incompreendido que tenha sido e por mais confusas que sejam suas conseqüências, afigura-se, ante qualquer olhar capaz de entrever as mudanças que vivemos em nossa própria vida, como constituindo uma revolução inapreensível, mas radical. Acumular os depoimentos é desnecessário:38 tudo o que interessa não apenas às ciências humanas, mas ao destino do homem, à política, à metafísica, à literatura, às artes, à publicidade, à propaganda e, através delas, à economia, foi afetado por ela.


se o sintoma é uma metáfora, dizê-lo não é uma metáfora, nem tampouco dizer que o desejo do homem é uma metonímia. Porque o sintoma é uma metáfora, quer se queira ou não dizê-lo a si mesmo, e o desejo é uma metonímia, mesmo que o homem zombe disso.


Digamos que, no investimento de capital da empresa comum, .587. o paciente não é o único com dificuldades a entrar com sua quota. Também o analista tem que pagar:

  • pagar com palavras, sem dúvida, se a transmutação que elas sofrem pela operação analítica as eleva a seu efeito de interpretação;
  • mas pagar também com sua pessoa, na medida em que, haja o que houver, ele a empresta como suporte aos fenômenos singulares que a análise descobriu na transferência;
  • e haveremos de esquecer que ele tem que pagar com o que há de essencial em seu juízo mais íntimo, para intervir numa ação que vai ao cer n e do ser (Ker n unseres Wesens, escreveu Freud .6.): seria ele o único a ficar fora do jogo?

No entanto, o ser é o ser, seja quem for que o invoque, e temos o direito de perguntar o que ele vem fazer aqui.


O analista é ainda menos livre naquilo que domina a estratégia e a tática, ou seja, em sua política, onde ele faria melhor situando-se em sua falta-a-ser do que em seu ser.
Dizendo as coisas de outra maneira: sua ação sobre o paciente lhe escapa, juntamente com a idéia que possa fazer dela, quando ele não retoma seu começo naquilo pelo qual ela é possível, quando não retém o paradoxo do que ela tem de retalhada, para .590. revisar no princípio a estrutura por onde qualquer ação intervém na realidade.


o educador não está nem perto de ser educado, se pode julgar com tanta leviandade uma experiência que, no entanto, ele próprio teve de atravessar.


Só que essa interpretação, quando ele a faz, é recebida como proveniente da pessoa que a transferência lhe imputa ser. Aceitará ele beneficiar-se desse erro de pessoa? A moral da análise não contradiz isso, desde que ele interprete tal efeito, sem o que a análise se reduziria a uma sugestão grosseira.
Posição incontestável, exceto pelo fato de que é como pro­ veniente do Outro da transferência que a fala do analista continua a ser ouvida, e de que com isso o momento de o sujeito sair da transferência é adiado ad in f i nitum.


C.Q.N.R.P.D.


Não há autor que se confronte com ele sem proceder destacando toda sorte de intervenções verbais que não são a interpretação:
explicações, gratificações, respostas à demanda … etc.


no caso do Homem dos Ratos, com o pacto que regeu o casamento dos pais deste, com o que se passou, portanto, muito antes do nascimento dele, que Freud reencontra ali uma mistura de condições - honra salva no último minuto, traição sentimental, compromisso social e dívida prescrita - das quais o grande roteiro compulsivo que lhe foi levado pelo paciente parece ser o decalque criptográfico, e no qual vem a motivar enfim os impasses onde se desgarram sua vida moral e seu desejo.


Interpretação da qual o mínimo que se pode dizer é que ela é inexata, uma vez que é desmentida pela realidade que presume, mas que mesmo assim é verdadeira na medida em que Freud nela dá mostras de uma intuição em que ele antecipa o que introduzimos sobre a


função do Outro na neurose obsessiva, demonstrando que essa função, na neurose obsessiva, admite ser sustentada por um morto, e que, nesse caso, não poderia ser mais bem exercida do .598) que pelo pai, uma vez que, estando efetivamente morto, ele retomou à posição que Freud reconheceu como sendo a do Pai absoluto.


Não é apenas que eu não possa citar minhas próprias análises para demonstrar o plano em que incide a interpretação, por não poder a interpretação, revelando-se coextensiva à história, ser comunicada no meio comunicante em que se passam muitas de nossas análises sem risco de trair o anonimato do caso. É que, em certa ocasião, consegui dizer o bastante sem falar demais, ou seja, deixar claro meu exemplo sem que ninguém, a não ser o interessado, o reconhecesse.


Tampouco se trata de que eu considere o Homem dos Ratos um caso que Freud tenha curado, pois, se eu acrescentasse que não creio que a análise não tenha tido nada a ver com a trágica conclusão de sua história com sua morte no campo de batalha, o quanto não estaria eu contribuindo para infamar aqueles que mal pensam nisso?


Digo que é numa direção do tratamento que se ordena, como acabo de demonstrar, segundo um processo que vai da retificação das relações do sujeito com o real, ao desenvolvimento da transferência, e depois, à interpretação, que se situa o horizonte em que a Freud se revelaram as descobertas fundamentais que até hoje experimentamos, no tocante à dinâmica e à estrutura da neurose obsessiva. Nada mais, porém também nada menos.


Essa mostarda depois do jantar que o paciente respira


É que, ademais, essa retificação em Freud é dialética e parte dos dizeres do sujeito para voltar a eles, o que significa que uma interpretação só pode ser exata se for … uma interpretação.
Tomar o partido do objetivo, aqui, é um abuso, nem que seja pelo fato de o plágio ser relativo aos costumes vigentes


Nem o meio de acabar com profundidade, pois é na superfície que ela é visível como herpes em dia de festa a fl orescer no rosto.


Menos degradada em seu relevo analítico parece-nos a segunda face em que surge aquilo que se furta da transferência, ou seja, o eixo tomado da relação de objeto.


Daí a noção de introjeção intersubjetiva, que é nosso terceiro erro, se instalar, lamentavelmente, numa relação dual.


Muitas vezes, mais vale não compreender para pensar, e é possível percorrer léguas compreendendo sem que disso resulte o menor pensamento.


Deus sabe o que acontece quando alguma coisa, por ser verdadeira, já não pode recair na dúvida.


Já escuto os coxas-grossas a murmurarem sobre minhas análises intelectualistas, quando sou o primeiro, ao que eu saiba, a preservar nelas o indizível.


Ouvir não me força a compreender. O que ouço não deixa de ser um discurso, mesmo que tão pouco discursivo quanto uma interjeição. Pois uma interjeição é da ordem da linguagem, e não do grito expressivo. É uma parte do discurso que não cede a nenhuma outra no que tange aos efeitos de sintaxe numa língua determinada.
Naquilo que ouço, sem dúvida, nada tenho a replicar, se nada .617. compreendo disso ou se, ao compreender algo, tenho certeza de estar enganado. Isso não me impediria de responder. É o que se faz, fora da análise, em casos similares. Eu me calo. Todos concordam em que frustro o falante, e ele em primeiríssimo lugar, assim como eu. Por quê?
Se eu o frustro, é que ele me demanda alguma coisa. Que eu lhe responda, justamente. Mas ele sabe muito bem que isso seriam apenas palavras. Tais como as recebe de quem quiser.
Ele nem tem certeza de que me seria grato pelas boas palavras, muito menos pelas ruins. Essas palavras não são o que ele me pede. Ele me pede… pelo fato de que fala: sua demanda é intransitiva, não implica nenhum objeto.
É claro que sua demanda se manifesta no campo de uma demanda implícita, aquela pela qual ele está ali: de ser curado, de ser revelado a si mesmo, de ser levado a conhecer a psicanálise, de ser habilitado como analista. Mas essa demanda, ele sabe, pode esperar. Sua demanda atual nada tem a ver com isso, nem sequer é dele, pois, afinal, fui eu que lhe fiz a oferta de falar.
(Somente o sujeito é transitivo aqui.) Consegui, em suma, aquilo que se gostaria, no campo do comércio comum, de poder realizar com a mesma facilidade:
com a oferta, criei a demanda.


Por intermédio da demanda, todo o passado se entreabre, até recônditos da primeira infância. Demandar: o sujeito nunca fez outra coisa, só pôde viver por isso, e nós entramos na seqüência.


Pois, se o amor é dar o que não se tem, é verdade que o sujeito pode esperar que isso lhe seja dado, uma vez que o psicanalista nada mais tem a lhe dar. Mas nem mesmo esse nada ele lhe dá, e é bom que seja assim: e é por isso que se paga a ele por esse nada, e generosamente, de preferência, para deixar bem claro que, de outro modo, isso não valeria grande coisa.
Mas, se na maioria das vezes a transferência primária man­ tém-se no estado de sombra, não é isso que impede essa sombra de sonhar e de reproduzir sua demanda, quando não há mais nada a demandar. Essa demanda, por ser vazia, será ainda mais pura.
Observa-se que o analista, no entanto, dá sua presença, mas creio que a princípio ela é apenas a implicação de sua escuta, e que esta é apenas a condição da fala. Aliás, por que exigiria a técnica que ele a fizesse tão discreta, se assim não fosse? É mais tarde que sua presença se faz notar.
Além do mais, o sentimento mais agudo de sua presença está ligado a um momento em que o sujeito só pode se calar, isto é, em que recua até mesmo ante a sombra da demanda.
Assim, o analista é aquele que sustenta a demanda, não, como se costuma dizer, para frustrar o sujeito, mas para que reapareçam os significantes em que sua frustração está retida.


As necessidades subordinam-se às mesmas condições conven­ cionais que são próprias do significante em seu duplo registro - sincrônico, de oposição entre elementos irredutíveis, e dia­ crônico, de substituição e combinação -, pelas quais a lingua-gem, se certamente não preenche tudo, estrutura a totalidade da .6191 relação inter-humana.


A bondade é decerto mais necessária ali do que em outros lugares, mas não tem como curar o mal que engendra. O analista que quer o bem do sujeito repete aquilo em que ele foi formado, e até, ocasionalmente, deformado. A mais aberrante educação nunca teve outro motivo senão o bem do sujeito.


É preciso tomar o desejo ao pé da letr a


Esses votos podem ser piedosos, nostálgicos, incômodos, brincalhões. Uma senhora pode ter um sonho que não é movido por outro desejo senão o de dar a Freud, que lhe expôs a teoria de que o sonho é um desejo, a prova de que não é nada disso.
O aspecto a reter em mente é que esse desejo se articula num discurso muito ardiloso. Porém não menos importante é perceber as conseqüências de Freud se satisfazer em reconhecer ali o desejo do sonho e a confirmação de sua lei pelo que quer dizer o desejo em seu pensamento.


ao sonho de uma histérica, no fato de que nele se satisfaz por deslocamento - aqui, precisamente por alusão ao desejo de uma outra - um desejo da véspera, que é sustentado em sua posição eminente por um desejo de ordem bem diversa, na medida em que .621. Freud o ordena como o desejo de ter um desejo insatisfeito


Quero oferecer um jantar. Mas só me resta um pouco de salmão defumado. Tenho a idéia de fazer compras, mas me lembro que é domingo à tarde e que todas as lojas estão fechadas. Digo a mim mesma que vou telefonar para alguns fornecedores. Mas o telefone está com defeito. Assim, tenho que renunciar à minha vontade de oferecer um jantar.


Relembro o automatismo das leis pelas quais se articulam, na .622. cadeia significante:
a) a substituição de um termo por outro para produzir o efeito de metáfora;
b) a combinação de um termo com outro para produzir o efeito de metonímia


O verdadeiro dessa aparência é que o desejo é a metonímia .6231 da falta-a-ser.


Freud não pretende ali, em absoluto, esgotar do sonho os problemas psicológicos. Basta lê-lo para constatar que em pro­ blemas pouco explorados (continuam raras, senão pobres, as pesquisas sobre o espaço e o tempo no sonho, sobre seu estofo sensorial, sonho em cores ou atonal - e o odorífero, o saboroso e a pitada táctil porventura entram nele, se o vertiginoso, o túrgido e o pesado ali estão?) Freud não toca. Dizer que a doutrina freudiana é uma psicologia é um grosseiro equívoco.
Freud está longe de alimentar esse equívoco. Adverte-nos, ao contrário, de que no sonho só lhe interessa a elaboração. Que quer dizer isso? Exatamente o que traduzimos por sua estrutura de linguagem.


E o sonho, diz-nos Freud, sem que pareça ver nisso a menor contradição, serve antes de mais nada ao desejo de dormir. É retração narcísica da libido e desinvestimento da realidade.


Aliás, sabe-se por experiência que, quando meu sonho chega a alcançar minha demanda (não à realidade, como se diz impro­ priamente, que pode preservar meu sono), ou àquilo que mostra aqui ser-lhe equivalente, a demanda do outro, eu desperto.


Mas isso, é claro, não passa de um mal-entendido. Não se fica curado porque se rememora. Rememora-se porque se fica curado. Desde que se descobriu essa fórmula, a reprodução dos sintomas já não constitui problema, mas somente a reprodução dos analistas; a dos pacientes está resolvida.


Ser ou não ser, dormir, sonhar, talvez, os pretensos sonhos mais simples da criança (“simples” como a situação analítica, sem dúvida) mostram, simplesmente, objetos miraculosos ou interditos.


É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua recusa como um desejo (anorexia mental).


Aqui, é única a oportunidade para mostrar a figura que enunciamos nestes termos: que o desejo inconsciente é o desejo do Outro - uma vez que o sonho é feito para satisfazer o desejo do paciente para-além de sua demanda, como é sugerido pelo fato de ele ter sucesso. Não é por não ser um sonho do paciente que ele tem menos valor para nós, se, por não se dirigir a nós, como acontece com o analisado, dirige-se tão bem a ele quanto o poderia fazer o analista.


A importância de preservar o lugar do desejo na direção do tratamento requer que esse lugar seja orientado em relação aos efeitos da demanda, os únicos atualmente concebidos como princípio do poder da análise.
Que, com efeito, o ato genital tenha que encontrar seu lugar na articulação inconsciente do desejo, é essa a descoberta da análise, e foi precisamente por isso que nunca pensamos em .6341 ceder à ilusão do paciente de que facilitar sua demanda em prol da satisfação da necessidade de algum modo seu problema resolveria. (E muito menos autorizá-lo com o clássico coitus normalis dosim repetatur.)


antes de mais nada, é para o sujeito que sua fala é uma mensagem, porque ela se produz no lugar do Outro. Que, em virtude disso, sua própria demanda provenha dele e seja formulada como tal não significa apenas que ela está submetida ao código do Outro. É que é desse lugar do Outro (ou mesmo de sua época) que ela data.


Quer se pretenda frustradora ou gratificante, toda resposta à demanda na análise conduz a transferência à sugestão.


Quem não sabe levar suas análises didáticas até o ponto de viragem em que se revela, tremulamente, que todas as demandas que se articularam na análise - e, mais que qualquer outra, a que esteve em seu princípio, a de tor n ar-se analista, que então esgota seu prazo - não passaram de transferências destinadas a manter instaurado um desejo instável ou duvidoso em sua problemática, este nada sabe do que é preciso obter do sujeito para poder garantir a direção de uma análise, ou para simples­ mente fazer nela uma interpretação com conhecimento de causa.


A resistência do sujeito, quando se opõe à sugestão, é apenas desejo de manter seu desejo. Como tal, conviria incluí-la na categoria de transferência positiva, já que é o desejo que mantém a direção da análise, fora dos efeitos da demanda.


A fantasia é a própria ilustração dessa possibilidade original.
Eis por que qualquer tentação de reduzi-la à imaginação, na impossibilidade de admitir o próprio fracasso, é um contra-senso permanente, um contra-senso do qual a escola kleiniana, que nisso levou as coisas muito longe, não sai, por não poder nem mesmo entrever a categoria do significante.


Digamos que a fantasia, em seu uso fundamental, é aquilo mediante o qual o sujeito se sustenta no nível de seu desejo evanescente, evanescente porquanto a própria satisfação da de­ manda lhe subtrai seu objeto.


se o desejo é a metonímia da falta-a-ser, o Eu é a metonímia do desejo.


Para onde vai, portanto, a direção do tratamento? Talvez baste interrogar seus meios para defini-la em sua retidão.
Observe-se:
.641. 1. Que a fala tem aqui todos os poderes, os poderes especiais do tratamento;
2. Que estamos muito longe, pela regra, de dirigir o sujeito para a fala plena ou para o discurso coerente, mas que o deixamos livre para se experimentar nisso;
3. Que essa liberdade é o que ele tem mais dificuldade de tolerar;
4. Que a demanda é propriamente aquilo que se coloca entre parênteses na análise, estando excluída a hipótese de que o analista satisfaça a qualquer uma;
5. Que, não sendo colocado nenhum obstáculo à declaração do desejo, é para lá que o sujeito é dirigido e até canalizado;
6. Que a resistência a essa declaração, em última instância, não pode ater-se aqui a nada além da incompatibilidade do desejo com a fala.


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