
Writings Jacques Lacan
Escritos by Jacques Lacan (z-lib.org)
O seminário sobre “A carta roubada”
Três tempos, por tanto, ordenando três olhares, sustentados por três sujeitos, alter n adamente enca r n ados por pessoas diferentes.
O primeiro é o de um olhar que nada vê: é o Rei, é a polícia.
O segundo, o de um olhar que vê que o primeiro nada vê e se engana por ver encoberto o que ele oculta: é a Rainha, e depois, o ministro.
O terceiro é o que vê, desses dois olhares, que eles deixam a descoberto o que é para esconder, para que disso se apodere quem quiser: é o ministro e, por fim, Dupin.
Pilhéria - suficiente para nos fazer ressaltar nesse relato, muito pelo contrário, uma verossimilhança tão perfeita, que se pode dizer que a verdade aí revela sua ordenança de ficção.
É que o duplo e até triplo filtro subjetivo através do qual ela nos chega - a narração, pelo amigo e íntimo de Dupin (que doravante chamaremos de narrador geral da história), do relato pelo qual o Inspetor dá conhecimento a Dupin da narrativa que lhe fizera a Rainha - não é apenas a conseqüência de um arranjo fortuito.
Por que mentes para mim”, é exclamado quase sem fôlego, “sim, por que men tes para mim, dizendo-me que vais a Cracóvia, para que eu creia que estás indo a Lemberg, quando, na realidade, é a Cracóvia que vais?”
Assim, mesmo que as afirmações de Dupin não nos desafias-sem tão manifestamente a nos fiarmos nelas, ainda seria preciso .22. fazermos essa tentativa contra a tentação contrária
i lológico
Piquem uma carta / letra em pedacinhos, e ela continuará a ser a carta / letra que é, e num sentido muito diferente daquele de que a Gestalttheorie pode dar conta, com o vitalismo insidioso de sua noção do todo.
Pois o significante é unidade por ser único, não sendo, por natureza, senão símbolo de uma ausência. E é por isso que não podemos dizer da carta / letra roubada que, à semelhança de outros objetos, ela deva estar ou não estar em algum lugar, mas sim que, diferentemente deles, ela estará e não estará onde estiver, onde quer que vá.
Seria demais pedir-lhes isso, sem dúvida, não em razão de sua falta de visão, mas, antes, da nossa. Pois sua imbecilidade não é de tipo individual, nem corporativo, mas de origem subjetiva. É a imbecilidade realista, que não se limita a se dizer que nada, por mais que uma mão venha a enterrá-lo nas entranhas do mundo, jamais estará escondido ali, uma vez que outra mão poderá encontrá-lo, e que o que está escondido nunca é outra coisa senão aquilo que f alta em seu lugar, como é expresso na ficha de arquivo de um volume quando ele está perdido na biblioteca. E este, de fato, estando na prateleira ou na estante ao lado estaria escondido, por mais visível que parecesse. É que só se pode dizer que algo falta em seu lugar, à letra, daquilo que pode mudar de lugar, isto é, do simbólico. Pois, quanto ao real, não importa que perturbação se possa introduzir nele, ele está sempre e de qualquer modo em seu lugar, o real o leva colado na sola, sem conhecer nada que possa exilá-lo disso.
Poderíamos até admitir que a carta tivesse um sentido com pletamente diferente, senão mais ardoroso, para a Rainha, do que o que ela oferece ao entendimento do ministro. A marcha dos acontecimentos não seria sensivelmente afetada por isso, nem mesmo se ela fosse estritamente incompreensível para qualquer leitor desavisado.
anódino
Queremos dizer que, para que esse uso concernisse realmente à carta, o ministro, que afinal estaria autorizado a isso por servir ao Rei, seu mestre e senhor, poderia apresentar à Rainha ad moestações respeitosas, mesmo que tivesse que se precaver do efeito de retomo contra ele que elas teriam através de garantias apropriadas; ou introduzir alguma ação contra o autor da carta, o qual, por ficar fora da jogada nos mostra quão pouco se trata, aqui, da culpa e do erro, e sim do sinal, signo de contradição e de escândalo que a carta constitui, no sentido em que o Evangelho diz que esse sinal deve vir, sem considerar o infortúnio de quem se faça seu portador; ou poderia até mesmo submeter a carta, transformada em peça de um processo, ao “terceiro persona gem” , habilitado a saber se dela faria surgir um julgamento especiaJ 29 para a Rainha ou a desgraça para o ministro.
O ministro, portanto, não é absolutamente louco nessa estagnação de loucura, e é por isso que tem de se comportar segundo o modo da neurose. Assim como o homem que se retirou para uma ilha para esquecer … o quê? - ele esqueceu … -, também o ministro, não fazendo uso da carta, acaba por esque cê-la.
Não lhe resta, justamente, nada além de responder à mesma pergunta sobre o que resta de um significante quando ele já não tem significação. Ora, essa foi justamente a pergunta com que o interrogou aquele que Dupin agora encontra no lugar marcado pela cegueira.
Sem dúvida, eis que aí vemos o audacioso reduzido à condição da cegueira imbecil em que mergulha o homem diante das letras de muralha que ditam seu destino. Mas, para convocá-lo ao encontro destas, que efeito se pode esperar das simples provo cações da Rainha, para um homem como ele? O amor ou o ódio.
Um é cego e o fará entregar as armas. O outro é lúcido, mas .41. despertará suas suspeitas. Contudo, se for realmente o jogador que nos dizem ser, ele interrogará pela última vez suas cartas .cartes. antes de baixá-las e, nelas lendo seu jogo, levantar-se-á da mesa a tempo de evitar a vergonha.
Como fi car sentado, quando nos colocamos na situação de não mais ter que responder à pergunta de um sujeito senão fazendo-o
primeiro deitar-se? É evidente que fi car de pé não é menos incômodo.
De nossos antecedentes
O estádio do espelho como formador da função do eu
Basta compreender o estádio do espelho como uma identifi cação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem - cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago.
Essa forma, aliás, mais deveria ser designada por . eu.-ideal,2 se quiséssemos reintroduzi-la num registro conhecido
como Gestalt, .95. isto é, numa exterioridade em que decerto essa forma é mais constituinte do que constituída, mas em que, acima de tudo, ela lhe aparece num relevo de estatura que a congela e numa simetria que a inverte, em oposição à turbulência de movimentos com que ele experimenta animá-la.
Assim, essa Gestalt, cuja preg nância deve ser considerada como ligada à espécie, embora seu estilo motor seja ainda irreconhecível, simboliza, por esses dois aspectos de seu surgimento, a permanência mental do .eu., ao mesmo tempo que prefigura sua destinação alienante; é também prenhe das correspondências que unem o .eu. à estátua em que o homem se projeta e aos fantasmas que o dominam, ao autômato, enfim, no qual tende a se consumar, numa relação ambígua, o mundo de sua fabricação.
Com efeito, para as imagos -cujos rostos velados é nosso privilégio ver perfilarem-se em nossa experiência cotidiana e na penumbra da eficácia simbólica3 -, a imagem especular parece ser o limiar do mundo visível, a nos fiarmos na disposição especular apresentada na alucinação e no sonho pela imago do corpo próprio, quer se trate de seus traços individuais, quer de suas faltas de firmeza ou suas projeções objetais, ou ao obser varmos o papel do aparelho especular nas aparições do duplo em que se manifestam realidades psíquicas de outro modo heterogêneas.
A agressividade em psicanálise
Podemos dizer que a ação psicanalítica se desenvolve na e pela comunicação verbal, isto é, numa apreensão dialética do sentido. Ela supõe, portanto, um sujeito que se manifeste como tal para um outro.
A agressividade, na expenencia, nos é dada como intenção de agressão e como imagem de desmembramento corporal, e é nessas modalidades que se demonstra efi ciente
A eficácia própria dessa intenção agressiva é manifesta: nós a constatamos freqüentemente na ação formadora de um indivíduo sobre as pessoas de sua dependência: a agressividade intencional corrói, mina, desagrega; ela castra; ela conduz à morte: “E eu que acreditava que você era impotente.”, gemia num uivo de tigresa uma mãe a seu filho, que acabara de lhe confessar, não sem dificuldade, suas tendências homossexuais. E pudemos ver que sua permanente agressividade de mulher viril não deixara de surtir efeitos; sempre nos foi impossível, em casos seme lhantes, desviar seus ataques da própria empreitada analítica.
São as imagens de castração, emasculação, mutilação, desmembramento, desagregação, even tração, devoração, explosão do corpo, em suma, as imagos que agrupei pessoalmente sob a rubrica, que de fato parece estrutural, de imagos do corpo despedaçado.
Os impulsos de agressividade decidem sobre as ra zões que motivam a técnica da análise
Particularmente, logo lhe fica patente, e aliás confirmada, a abstenção do analista em lhe responder em qualquer plano de conselho ou projeto. Há nisso um limite que parece ir ao encontro do fim desejado e que deve justificar-se por algum motivo profundo.
Que preocupação condiciona, portanto, diante dele a atitude do analista? A de oferecer ao diálogo um personagem tão desprovido quanto possível de características individuais; nós nos apagamos, saímos do campo em que possam ser percebidos o interesse, a simpatia e a reação buscados por aquele que fala no rosto do interlocutor; evitamos qualquer manifestação de nossos gostos pessoais, escondemos o que pode traí-los, nos despersonalizamos e tendemos, para esse fim, a representar para o outro um ideal de impassibilidade.
Nisso, não exprimimos apenas a apatia que tivemos de realizar em nós mesmos para estar em condições de compreender nosso sujeito, nem tampouco preparamos o realce de oráculo que, contra esse fundo de inércia, deve assumir nossa intervenção interpretativa.
Queremos evitar uma cilada, que esse apelo já encerra, mar-.10?. cado pelo eter n o patético da fé, que o doente nos dirige. Ele comporta um segredo: “Toma para ti”, dizem-nos, “essa dor que pesa sobre meus ombros; mas, satisfeito, sereno e confortável como te vejo, não podes ser digno de portá-la.”
Não posso aceitar a idéia de ser libertado por outro que não eu mesmo
Claro, numa exigência mais insondável do coração, é a par ticipação em seu sofrimento que o doente espera de nós. Mas é a reação hostil que guia nossa prudência, e que já inspirara a Freud sua cautela contra qualquer tentação de bancar o profeta.
Somente os santos são suficientemente desprendidos da mais profunda das paixões comuns para evitar os contragolpes agres sivos da caridade.
austera
Com efeito, um dos aspectos da ação analítica é efetuar a projeção do que Melanie Klein denomina de maus objetos inter n os, mecanismo paranóico, por certo, mas aqui bem siste matizado, filtrado de alguma forma e estancado sob medida.
Gestalt visual de seu próprio corpo
é numa identificação com o outro que ela vive toda a gama das reações de imponência e ostentação, cuja ambivalência estrutural suas condutas revelam com evidência, escravo identificado com o déspota, ator com o espectador, seduzido com o sedutor.
confundem-se os dois momentos em que o sujeito nega a si mesmo e acusa o outro, e neles descobrimos a estrutura paranóica do eu que encontra sua analogia nas negações fundamentais valorizadas por Freud nos três delírios, o do ciúme, o da erotomania e o de interpretação.
Deixemos por aqui a crítica de todos os abusos do cogito ergo sum, para lembrar que o eu, em nossa experiência, representa o centro de todas as resistências ao tratamento dos sintomas.
Essa concepção faz-nos compreender a agressividade impli cada nos efeitos de todas as regressões, de todos os abortamentos, de todas as recusas do desenvolvimento típico do sujeito, e especialmente no plano da realização sexual, ou, mais exatamen te, no interior de cada uma das grandes fases determinadas na vida humana pelas metamorfoses libidinais cuja grande função a análise demonstrou: desmame, Édipo, puberdade, maturidade, ou mater n idade, ou mesmo clímax involutivo.
Aqui, o indivíduo natural é tido por nada, já que o sujeito humano efetivamente o é diante do Senhor absoluto que lhe é dado na morte. A satisfação do desejo humano só é possível se mediatizada pelo desejo e pelo trabalho do outro. Se, no conf l ito entre o Senhor e o Escravo, é o reconhecimento do homem pelo homem que está em jogo, é também numa negação radical dos valores naturais que ele é promovido, ou seja, que se exprime na tirania estéril do senhor ou na tirania fecunda do trabalho.
No homem “liberado” da sociedade moder n a, eis que esse despedaçamento revela, até o fundo do ser, sua pavorosa fissura.
É a neurose de autopunição, com os sintomas histérico-hipocon dríacos de suas inibições funcionais, com as formas psicastênicas de suas desrealizações do outro e do mundo, com suas seqüências sociais de fracasso e de crime. É essa vítima comovente, evadida de alhures, inocente, que rompe com o exílio que condena o homem moder n o à mais assustadora galé social, que acolhemos quando ela vem a nós; é para esse ser de nada que nossa tarefa cotidiana consiste em reabrir o caminho de seu sentido, numa frater n idade discreta em relação à qual sempre somos por demais desiguais.
O que constitui a singularidade do ato de concluir, na asserção subjetiva demons-
trada pelo sofisma, é que ele se antecipa à sua certeza, em razão da tensão temporal de que é subjetivamente carregado, e que, sob a condição dessa mesma antecipação, sua certeza se confirma numa precipitação lógica que determina a descarga dessa tensão, para que enfim a conclusão fundamente-se em não mais do que instâncias temporais totalmente objetivadas, e que a asserção se des-subjetive no mais baixo grau.
Primeiro, ressurge o tempo objetivo da intuição inicial do movimento, que, como que aspirado entre o instante de seu início e a pressa de seu fim, parecera estourar como uma bolha. Atingido pela dúvida que esfolia a certeza subjetiva do momento de concluir, eis que ele se condensa como um núcleo no intervalo da primeira moção suspensa, e manifesta ao sujeito seu limite no tempo para compreender que passou para os outros dois o instante do olhar e que é chegado o momento de concluir.
que eles novamente lhe mostrem o caminho ou que ele mesmo o descubra
Certamente mais próxima de seu valor verdadeiro ela se afigura, apresentada como conclusão da forma aqui demonstrada da asserção subjetiva antecipatória, ou seja, como se segue:
lQ) Um homem sabe o que não é um homem;
2Q) Os homens se reconhecem entre si como sendo homens;
3Q) Eu afirmo ser homem, por medo de ser convencido pelos homens de não ser homem.
—
Reading books with ReadEra
https://play.google.com/store/apps/details?id=org.readera.hl=en