
Theory and Clinic of Psychosis
Sumário
Teoria e Clínica da Psicose - Antônio Quinet
CONCEITOS
I. Psicose: uma Estrutura Clínica
II. O Outro de Schreber
III. Que Realidade para o Louco?
IV. O Gozo na Psicose
V. Foraclusão e Descrença
VI. As Teorias Medievais do Amor e a Erotomania
CLÍNICA
VII. Curável e Incurável
VIII. Da Esquizofrenia à Paranoia
IX. Tratamento Psicanalítico da Psicose
X. A Melancolia nos Clássicos
FENÔMENOS
XI. Apresentação de Pacientes
XII. Um Problema de Herança
XIII. Hélène, Elle N.
XIV. Incorporação do Significante
XV. A Psicose do Homem dos Lobos
ARTES
XVI. O Caso “Dom Casmurro” – As Mordidas do Ciúme
XVII. Arte Virgem – A Função da Pintura na Psicose
Psicose e Laço Social - Quinet
Parte I
Discurso como laço social
Introdução
Tratamento pelos discursos
O campo do gozo e seus discursos
Foraclusão e fora-do-discurso
Parte II
Esquizofrenia e paranóia
Introdução
Os quatro As da esquizofrenia
As tentativas de cura do autismo
O Um paranóico e a Verhaltung
O visco imaginário e o empuxo-à-fama
Freud e o Homem dos Lobos
Hipocondria e paranóia
O refugiado dos símbolos falsos
Crime e responsabilidade
Parte III
Melancolia
Introdução
Dor psíquica e dor de existir
Freud e os clássicos da psiquiatria
A Coisa melancólica
“Luto e melancolia” revisitado
Estado depressivo
O Inconsciente a céu aberto da Psicose - Colette Soler
A VARIEDADE DA PSICOSE
O PSICÓTICO E O ANALISTA
A PSICOSE EM AÇÃO
O que do encontro se descrever, Pierre Naveau
Introdução
UMA QUERELA DOUTRINAL
A querela do falo
O mundo no qual nos abandonamos
A castração do pai
O silêncio de Helene Deutsch
A reivindicação de Karen Homey
II CLÍNICA DA RECUSA
A mulher que diz não
A separação entre o amor e o desejo
A vingança
A dialética entre a transferência positiva e a transferência negativa
Caráter e insistência
III
A angústia em um caso de anorexia e de bulimia feminina
O momento da angústia
Uma mulher orgulhosa
O circuito de um gozo autoerótico
Dar ao em excesso (en-trop) invisível uma consistência
O Outro entalado na garganta
O enigma da mulher magra
O objeto expulso
A obscenidade da coisa
Comer demais, dizer demais sobre isso
Apagar o fogo que queima em seu corpo
IV POÉTICA DO IMPOSSÍVEL DE DIZER
O Outro, este é o problema
A contingência e a marca
O horror do gozo sexual
O sexo da mulher
A defesa do infinito contra o finito
O gozo do idiota
A ética do encontro e a ética do celibatário
VARIEDADE DOS GOZOS
Leitura dos Seminários , , , , e
V A abordagem da mulher pelo homem: um caminho lógico
O valor de verdade de uma função proposicional
Os quantificadores lógicos
A função fálica .PHI.(x) e a castração como operação lógica
Duas mulheres e dois gozos
VI
O neurótico e o mestre
O mestre/senhor segundo Hegel
O mito segundo Kojeve
Uma outra leitura
O mestre segundo Pascal
A matriz de Lacan
Neurose obsessiva e histeria
O obsessivo e a dívida
A histérica e o gozo do homem
Conclusão dessa nova abordagem da neurose
VII
Os dois gozos da histérica
Os dois gozos
A recusa do corpo
O absoluto do gozo
O ao menos um
Vlll
Os homens, as mulheres e os semblantes
A histérica e a mulher
Una escolha política
O corte do sexo
A fantasia do homem
O semblante, o véu e o pudor
Duas observações de Lacan sobre o gozo da mulher
O Penisneid e a devastação mãe-filha
O amor cativo
O que sabe uma mulher?
O nó
A hipótese
O furo
A coragem
O QUE ACONTECE NA OCASIÃO DE UM ENCONTRO
X Quando um acontecimento de corpo se produz
Uma mulher é, para um homem, um sintoma
O amor como acontecimento de copo
Vicissitudes do ciúme
Ver e saber
A não relação e o exílio
A fantasia do ser-a-três
A armadilha do ciúme
Trair ou não trair, esta é a questão
XII
O encontro do impossível ao contingente
A solidão do ser falante
O destino fatal
A contingência
O ser do parceiro
O amor e o saber
O drama do amor
A cada um seu exílio
O impossível
A ponta de saber
A crueldade melancólica, Jacques Hassoun
INTRODUÇÃO
Jano melancólico
De uma outra paixão
Não sei o quê …
Esse homem não é nada para mim
Na interseção da paixão e da angústia: a espera
I would prefer not to
O sol negro da melancolia
Clínica da Identificação, Clara Cruglak
Introdução
I PARTE - Das Razões
Capítulo I: Razões clínicas da identificação
- Dos enigmas e confusões
- Identificação - Identificações
- Mostração e escrita
- Escrita do furo
Capítulo II: Do primordial a série - Primeira identificação
- Incorporação
- Argumento mítico
- Do que o mito não vela
- Topologia: identificação e reviramento de toro
- Estrutura e corpo
- Função incorpórea
- Incorporação de vazio: um interior que não é endo
- Expulsão de gozo: um interior que advém endo no exterior
Capítulo III: A série das identificações - Identificação ao Real do Outro real
- Identificação ao Simbólico do Outro real
- Identificação ao Imaginário do outro real
PARTE - Da Clinica
Capítulo IV: A identificação na neurose e na psicose - Lugar e função paterna
- Da clínica
Capítulo V: A identificação no luto e na melancolia - Tempos de um luto
- Reação frente a perda
- Função do falo
- Disfunção de (-phi)
- Dimensão não especular do objeto a
- Função do semelhante
Capítulo VI: Sublimação e criação - Sublimação
- Vazio e Coisa
- Criação
Capítulo VII: Notas sobre a adição - O inacessivel
- Necessidade - demanda - desejo
- Do objeto particular
- Conjectura
- Identificação: segundo tempo
- Traço unário - gozo
- Gozo tóxico
- Uma escrita possível
Capítulo VIII: Identificação e corpo - Corpo e nome próprio
- O corpo na conversão e no fenômeno psicossomático
- A economia da pulsão
- Fenômeno psicossomático
- Identificação: terceiro tempo
Coisa de Louco, Lúcia Castello Branco
I - Ensaios
- A Loucura das Palavras
Então a vida é isto
Palavra em ponto de P
Epifaniar, vociferir, vociferar
De uma escrita que não seria a da impostura
Loucuraturas
Suz/o/suz
Fragmentos sobre as infinitas possibilidades do esquecimento - As Palavras da Loucura
Lacan com Gil
Em Nome do pai, em nome do filho
Pensa-se-lhe que es-me amatur Dei
Da elasticidade da palavra
O real do gozo e a concretude da palavra
Quasi modo
II - Escritos
O escritor
Ônibus, carrinho, formiguinha, elefante
A vida é bela
Paranóia - masturbação - controle emocional
Miolos/calvo/ couro/crânio/cabeça
III - Objectotens
IV - Entrevista “Em Idioleto Manoclês Archaico”
Psicóticos e Adolescentes: Por que se drogam tanto?
Capítulo 1 - Psicóticos e adolescentes: por que se drogam tanto?
Capítulo 2 - Oficina clínica: Adolescência e Toxicomania
Capítulo 3 - Oficina clínica: Psicose e Toxicomania
Capítulo 4 Toxicomania & Adolescência
Os grandes casos de Psicose
Que é um caso?
Observações psicanalíticas sobre as psicoses
Um caso de S. Freud: Schreber ou a paranóia
Um caso de M. Klein: Dick ou o sadismo
Um caso de D.W. Winnicott: A pequena Piggle ou a mãe suficientemente boa
Um caso de B. Bettelheim: Joey ou o autismo
Um caso de criança de F. Dolto: A menina do espelho ou a imagem inconsciente do corpo
Um caso de adolescente de F. Dolto: Dominique ou o adolescente psicótico
Um caso de J. Lacan: As irmãs Papin ou a loucura a dois
As psicoses transitórias à luz do conceito de foraclusão localizada
Aula 1 - O PSICÓTICO E O ANALISTA
O ser do Analista
fazer os pacientes se engajarem na terapia, lidar com sua angústia e suas demandas, manejar o amor transferencial, pôr de lado nossos sentimentos favoráveis (ou contrários) ao paciente, manter nossos preconceitos fora do contexto terapêutico, trabalhar com a agressão, o sarcasmo e a crítica do paciente, e assim por diante.
a frustração do analista por ter perdido a oportunidade de intervir, por sua fala, sua ação, seus cálculos, seu desejo, insegurança, as faltas do Analista: falta teoria, falta estrutura, falta trabalho, etc
Se seus pacientes presumissem que ele possuía um vasto conhecimento, e por isso fossem mais receptivos ao efeito do tratamento, tanto melhor; caso contrário, ele poderia prescindir dessa suposição.
analistas devem manter seus sentimentos pessoais e seus traços de caráter fora da terapia, revelando o mínimo possível deles mesmos, de seus hábitos, preferências e antipatias. Todo traço individualizante do analista atrapalha as projeções do analisando. Quanto menos concreto e nítido o analista parecer aos olhos do analisando, mais fácil será usá-lo como uma tela em branco.
a perspectiva de Lacan não é a de que os sentimentos contratransferenciais não existem, mas de que eles se situam no nível imaginário e, por isso, devem ser postos de lado pelo analista. Não devem ser revelados ao analisando, já que isso situaria analista e analisando no mesmo nível, como outros imaginários um para o outro, sendo ambos capazes de ter sentimentos, “grilos” e inseguranças semelhantes.8 Isso impede que o analisando ponha o analista no papel de Outro.
Pela própria natureza de seu trabalho, é comum o analista ser associado, aos olhos do analisando, com os valores da ordem estabelecida: trabalho árduo, sucesso acadêmico, seriedade, capitalismo etc. O fato de o analista se vestir de uma dada maneira, viver numa certa parte da cidade, decorar sua casa ou seu consultório num certo estilo e assinar as revistas específicas encontradas na sala de espera leva o analisando, muitas vezes, a vê-lo como representante de certos valores – valores que o analisando pode rejeitar por completo, tentar em vão abraçar ou buscar com sucesso, embora sentindo-se alienado nessa busca. É óbvio que tais valores estão ligados à “pessoa do analista”, ou seja, ao analista como indivíduo
Assim, o analista deve estar vigilante para destacar essas atribuições como interpretáveis – como mais reveladoras sobre o analisando que sobre o analista.
O analisante
Desejo do Analista, gozo do Psicótico
O desejo do analista na psicose está sozinho, pois o Outro, que fala pela boca do analisante, não é suposto desejar e sim gozar. Exemplo ilustrativo é o caso de um paciente que me contou que em sua análise precedente, feita com uma mulher, ele tinha a impressão de gozar, literalmente, quando falava. Seu corpo, outrificado, era sacudido por orgasmos, tendo mesmo a impressão de ejacular. Aí evidentemente não se está no registro do desejo, mas do gozo. Na medida em que o desejo é correlacionado à falta, à falta-a-ser, própria do neurótico, é difícil falar-se de desejo na psicose onde não há inclusão da falta do Outro, o qual emerge na figura do analista, não como suposto desejar, mas como um Outro que goza
É claro que o paciente não quer realmente mudar. Se surgiram sintomas, se o paciente se empenha num comportamento sintomático, é porque uma grande quantidade de energia ficou presa nesses sintomas. O paciente investiu muito na manutenção das coisas do jeito que estão porque extrai dos sintomas aquilo a que Freud se referia como uma “satisfação substituta”, e não se pode induzi-lo facilmente a abrir mão dela
Na verdade, é comum os pacientes procurarem a terapia por já não terem qualquer vontade de viver, ou de fazer coisa alguma, ou por intuírem que sua libido está sufocada e murchando. Em suma, seu desejo está morrendo.
Tais pacientes terminarão o tratamento quando seu próprio desejo de seguir adiante houver se tornado suficientemente forte e decidido
contratransferência: os sentimentos do terapeuta despertados em suas relações com o paciente.
Se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – tem de ser sacrificada.
Satisfação”, contudo, talvez seja um termo “limpo” ou “arrumado” demais para descrever o tipo de prazer que os sintomas proporcionam. Todos nós conhecemos pessoas que vivem reclamando de falta de prazer na vida, porém nunca buscam a terapia. É que elas obtêm certa satisfação da sua própria insatisfação, bem como das queixas: de culpar os outros por sua falta de satisfação. Do mesmo modo, algumas pessoas extraem enorme prazer de se torturar, de se submeter a experiências dolorosas e assim por diante. Os franceses têm uma ótima palavra para esse tipo de prazer na dor, ou de satisfação na insatisfação: jouissance .gozo..
sintoma que proporcionava o gozo já não funciona, ou se encontra em perigo.
o que o terapeuta oferece, no começo, é uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente.
Freud e muitos outros analistas mencionam que os analisandos que tendem a faltar alegando estar fisicamente doentes curiosamente param de adoecer e de faltar a tantas delas quando lhes são cobradas as sessões a que faltam.
O inconsciente nunca é aceito, o (sentido) imaginário predomina.
Em suma, qual é a postura que adotam com respeito aos objetos ideais designados pelo Outro parental, pelo Outro educacional, pelo Outro social?
A análise almeja dissipar progressivamente as relações imaginárias do analisando com seus amigos, colegas e irmãos (relações que tendem a preocupá-lo nas etapas iniciais da análise) mediante o trabalho de associação – conhecido como “elaboração”, ou, como costuma dizer Lacan, como “o trabalho da transferência” –, a fim de pôr em foco as relações simbólicas do paciente
Assim, a meta da análise, tal como conceituada por Lacan no início da década de 1950, é penetrar na dimensão imaginária que encobre o simbólico e confrontar as relações do analisando com o Outro. Nessa conceitualização, o imaginário e o simbólico operam em sentidos conflitantes. Enfatizar o simbólico é diminuir a importância do imaginário. No entanto, se o analista se deixar colocar no papel de alguém parecido com o analisando (um outro imaginário, em contraste com o Outro simbólico), o ego do analista é que ficará situado num extremo do eixo imaginário, justapondo-se ao ego do analisando, e a análise ficará empacada em disputas de poder e identificações rivalizantes. Ao cair na armadilha das identificações imaginárias, o analista perde de vista a dimensão simbólica – “a única dimensão que cura”, no dizer de Lacan.
investigar suas próprias apreensões e reservas.
sujeito constitui-se como uma postura adotada em relação a essa perda de gozo. O objeto pode ser entendido como o objeto (agora perdido) que proporcionava esse gozo, como uma espécie de resto-lembrete desse gozo perdido.
Pois o prazer, quando proibido pelos pais, assume um significado adicional, um significado que envolve os pais e o desejo dos pais. O prazer corporal “ingênuo”, “simples”, é transformado em gozo – algo muito mais erótico, sujo, travesso e malvado, algo realmente excitante –, graças à proibição. A proibição erotiza. Quanto mais forte a proibição, maior se torna a carga erótica do ato específico que é proibido.
Isso é uma maravilha.
Pode-se matar o pai por isto.”
A luta suprema da análise – a de fazer o analisando assumir a responsabilidade por sua castração, em vez de exigir do Outro uma compensação por ela – é travada entre o analisando e o analista, que fica no lugar do Outro (e, ao mesmo tempo, do objeto perdido). O analisando deve ser levado até o ponto de não mais culpar o analista (como objeto ou Outro) por seus problemas, e de não mais buscar compensação ou retribuição. Ao mesmo tempo, confrontado com o desejo constante do analista de que ele continue em análise, o analisando deve chegar a um ponto em que os desejos do analista não tenham poder ou influência sobre ele.
Desejo do Analista
para que ele não queira a qualquer custo fazer de um psicótico um neurótico.
Podemos estender a todos os “psi”a precaução que Freud preconizou aos analistas contra o desejo de curar e a de Lacan contra o desejo de querer o bem do paciente.
A foraclusão implica sempre o retorno no real daquilo que foi foracluído no simbólico.
e sim deixá-lo fazer sintoma sem Nome-do-Pai, um sintoma que pode ir do delírio à arte, passando por todas as artimanhas.
É o desejo do analista, e não o enfraquecido desejo dos analisandos, que lhes permite prosseguir. desejo de que o paciente fale, sonhe, fantasie, faça associações e interprete.
Desejo do Analista com relação ao analisante psicótico? Desejo de estabilização, desejo de laço social, desejo de que ame e trabalhe?
Embora não seja possível ao terapeuta lhe prometer felicidade nem cura, se necessário ele pode estender ao analisando a promessa de uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com as pessoas, um novo modo de funcionar no mundo
A posição do Analista
Interpretação, pontuação, não responder à demanda.
Neurose: dialética do desejo.
Psicose: Secretário.
Manobrar a transferência é dirigi-la com o objetivo estratégico de barrar o gozo do Outro que invade o sujeito na psicose. Quem faz essa manobra é o analista pelo seu ato e, como tal, ele não se deixa manobrar pelo paciente que o colocará, por decorrência lógica da estrutura, em posição de objeto de uma erotomania mortífera. Para tanto, é necessário que o analista apreenda sempre em que lugar o analisante o situa. Por intermédio de seu ato, o analista se contrapõe à manobra do analisante com uma outra manobra, para que este se instaure como sujeito e não como objeto do gozo do Outro.
Se há “vantagens” em que o psicótico situe, ou tenda a situar, seu analista como seu Outro, ela consiste no fato de que o Outro aí está sendo presentificado pelo analista e possibilitando a este esvaziar o gozo do Outro que o paciente lhe atribui. A “vantagem” é a própria transferência. Trata-se para o analista de orientar a direção da cura do psicótico no sentido de passar do Outro não barrado ao Outro barrado: A → A/ . Isto significa promover o esvaziamento do Outro, provocar a falta no Outro, criando condições para fazer advir o significante e barrar o gozo proibido àquele que fala. Se a única maneira de cingir o real é por intermédio do simbólico, é pela fala que algo de esvaziamento do gozo pode vir a se produzir.
o analista, no começo, é uma pessoa como outra qualquer, e só aos poucos é que a “pessoa” do analista cede lugar ao analista como ator, função, ocupante de um lugar, tela em branco ou espelho
A interpretação não tem praticamente nenhum efeito benéfico até que o analisando formule uma verdadeira demanda de análise e o analista comece a funcionar como pura função.
o analista sugere, com sua pontuação, que há outra leitura
possível, mas sem dizer qual é, nem sequer se ela é clara ou coerente
Ao enfatizar as ambiguidades, os duplos sentidos e os lapsos, o analista não chega propriamente a transmitir a ideia de que sabe o que o paciente “realmente quis dizer”, mas insinua que outros sentidos, talvez sentidos reveladores, são possíveis.
A pontuação do analista menos aponta ou amarra uma significação particular do que sugere um nível de significados a que o paciente não tem prestado atenção: significados não intencionais, significados inconscientes.
O sujeito que se supõe saber algo de importância na psicanálise é o inconsciente do analisando.
A “autoridade final” no setting analítico, portanto, reside no inconsciente do analisando, não no analista como uma espécie de mestre do saber que apreende de imediato o que o analisando diz e o significado de seus sintomas. O analista, ao enfatizar sistematicamente o inconsciente e, no princípio, ao restringir suas intervenções à pontuação e à escansão, não se apresenta como alguém que já tenha visto aquilo tudo centenas de vezes e que, portanto, compreenda de imediato.5 Contudo, o analisando, que talvez esteja prestando atenção a manifestações do inconsciente pela primeira vez, tende a ver o analista como representante ou agente de cada uma dessas manifestações. O analisando não assume tais manifestações, e sim recusa a responsabilidade por elas. A responsabilidade é jogada no analista, e este deve concordar em ocupar o lugar dessas manifestações, dessas incógnitas. Portanto, talvez possamos dizer que não é o inconsciente do analisando que é a autoridade suprema, e sim o inconsciente tal como se manifesta através do analisando, pois essas manifestações são renegadas por ele como alheias ou estranhas, e não suas.
Toda vez que o analisando expressa sua impressão de que o analista reprovou alguma coisa, cabe a este transformar isso em tema de interpretação: o analista não aceita nem recusa a projeção, mas a trata como um campo fecundo para associação, elaboração e interpretação
o analista permite que as projeções transferenciais continuem, interpretando não o fato da transferência (“você está projetando essa atitude em mim”), mas seu conteúdo – aquilo que é transferido ou projetado – e procurando religá-lo a sua fonte ou ponto de origem.
analista na posição de causa do desejo do analisando é, segundo Lacan, a força motriz da análise; em outras palavras, essa é a posição que o analista deve ocupar para que a transferência leve a algo além da identificação com o analista como ponto final da análise (identificação que é considerada a meta da análise por alguns psicanalistas).
Em outras palavras, somente ao presentificar na relação com o analista os conflitos psíquicos – como a agressão contra um dos pais ou o ódio a um parente – é que o paciente pode elaborá-los. Elaborá-los não significa que eles sejam intelectualmente vistos e “processados”, mas que o conflito libidinal interno que mantém instaurada uma relação sintomática com alguém precisa ter a possibilidade de se repetir na relação com o analista, e de se desenrolar.
Quando o analista tem a preocupação de “ser ele mesmo” ou “ela mesma”, ou de ser o “bom pai” ou a “boa mãe”, é provável que tente se distanciar imediatamente do papel em que o analisando o coloca, dizendo algo como “Não sou seu pai”, ou “Você está projetando”. A mensagem transmitida por esse tipo de afirmação é “Não me confunda com ele”, ou “Projetar não é apropriado”. Mas melhor seria o analista não estimular nem desestimular a situação de confusão de identidade que surge por meio da transferência de afetos e deixar a projeção de personas diferentes ocorrer como for o caso – a não ser, claro, que vá tão longe que chegue a pôr em risco a própria continuidade da terapia.
o analista diz algo polivalente o bastante para que tenha repercussão mesmo não sendo compreendido, para que desperte a curiosidade e o desejo de saber por que o analista disse o que disse, e para que convide a novas projeções.
quanto mais claro o significado atribuído pelo terapeuta, mais fácil para o paciente é identificar o terapeuta com determinada visão, opinião ou teoria e se rebelar contra ela no nível consciente
terapeuta com determinada visão, opinião ou teoria e se rebelar contra ela no nível consciente. O terapeuta passa a representar uma perspectiva específica (social, econômica, política, psicanalítica) e, seja o paciente favorável ou contrário a ela, isso impede o progresso da terapia.
Os analisandos, em sua maioria, acabam captando as motivações sexuais repetidamente frisadas pelo analista e começam, eles mesmos, a frisar esses temas sem qualquer ajuda externa. Mas há sempre algo que os analisandos não compreendem.
Uma das observações mais notáveis de Lacan sobre a interpretação é que ela bate no real, e uma das coisas que ele pretende dizer com isso é que ela bate naquilo em torno do qual o analisando gira repetidamente, sem conseguir formulá-lo. Há momentos em que o analista tem a impressão de que o analisando volta reiteradas vezes a alguma coisa, abordando-a por numerosos ângulos, mas sem nunca se dar por satisfeito com o que consegue dizer sobre ela.
Num caso assim, se o analista tiver uma boa ideia do que é aquilo em torno do qual o analisando gira sem parar, ele pode oferecer uma interpretação que tente enunciá-lo
A interpretação restabeleceu um elo que faltava na cadeia de seus pensamentos e sentimentos, e poderíamos dizer que “bateu no real”, no sentido de ter verbalizado (ou simbolizado) algo que, até então, nunca tinha sido posto em palavras
O analista não pede que o sujeito melhore nem que se torne normal;o analista não solicita nada, não impõe nada. Está ali para que o sujeito possa ganhar acesso à verdade do seu desejo, seu próprio desejo, e não para responder à demanda do Outro.
Escansão
Outra maneira pela qual o analista pode intervir nos primeiros estágios é interromper a sessão num ponto que lhe parece de particular importância: talvez o paciente esteja negando algo vigorosamente, ou afirmando algo que descobriu, ou contando uma parte reveladora de um sonho, ou talvez tenha acabado de cometer um lapso. Ao interromper a sessão nesse ponto, o analista o acentua de forma não verbal, deixando claro ao paciente que acredita que aquilo é significativo e não deve ser tratado levianamente.
Depois de eles terem dito o que importa, não há necessidade de dar prosseguimento à sessão
Escandir a sessão numa formulação particularmente marcante do analisando é um modo de manter a atenção concentrada no essencial.
A ordem simbólica, verdade, fala, sentido, compreensão?
À parte o fato de que toda afirmação pode constituir uma negação, o sentido nunca é óbvio.
O sentido é extremamente individual, em certos aspectos, e todos usam as palavras e expressões em sentidos sumamente particulares.
O sentido nunca é transparente, e o analista deve agir como quem não compreende, a ponto de se fingir de surdo, se necessário, para levar o paciente a explicitar o que quer dizer
a psicanálise está menos interessada no que ele quis dizer do que no que efetivamente disse.
No entanto, a fala truncada – na qual o contexto pode ficar bem pouco claro – certamente merece ser enfatizada, porque sua elucidação pode levar a um material novo e particularmente inesperado.
É por isso que Lacan dizia que o sentido é imaginário (Seminário 3, p.65.68.). Com isso não indicava que o sentido não existe, ou que é simplesmente algo que sonhamos na nossa imaginação. Lacan deixava implícito que o sentido está ligado a nossa autoimagem, à imagem que temos de quem e do que somos.
o sentido exclui aquilo que não combina com nossa autoima
Ao privilegiar o que os pacientes efetivamente diziam, e não o que pretendiam dizer, ao frisar as ambiguidades e lapsos que apareciam em suas falas, Lacan, como Freud, deu prioridade ao inconsciente em relação ao ego
Ao nunca presumir que compreendia o que eles queriam dizer, ao nunca dar a impressão de que falava a língua deles, ao atentar para as ambiguidades da fala deles e ao que se expressava como que nas entrelinhas, ele deu margem à emergência de novos sentidos, bem como à percepção de seus analisandos de que, na verdade, eles pouco tinham ideia do que diziam, de por que o diziam, ou até de quem falava quando abriam a boca.
receptivos à escuta do inconsciente, a ouvir a outra voz que fala através deles, e a tentar decifrá-la.
Apesar da intenção consciente de comunicar algo muito específico, o significado das palavras do indivíduo é sempre determinado por outras pessoas, pelo Outro.
Mas essa é a natureza da “comunicação”: falamos para expressar algo a outras pessoas, mas elas determinam – para nossa desolação, muitas vezes – o sentido do que foi dito, e às vezes baseiam decisões sérias na sua interpretação do que dissemos. O poder do ouvinte é considerável.
Demanda, desejo, dialética, frustração
Desejo do Analista, gozo do Psicótico
O desejo do analista na psicose está sozinho, pois o Outro, que fala pela boca do analisante, não é suposto desejar e sim gozar. Exemplo ilustrativo é o caso de um paciente que me contou que em sua análise precedente, feita com uma mulher, ele tinha a impressão de gozar, literalmente, quando falava. Seu corpo, outrificado, era sacudido por orgasmos, tendo mesmo a impressão de ejacular. Aí evidentemente não se está no registro do desejo, mas do gozo. Na medida em que o desejo é correlacionado à falta, à falta-a-ser, própria do neurótico, é difícil falar-se de desejo na psicose onde não há inclusão da falta do Outro, o qual emerge na figura do analista, não como suposto desejar, mas como um Outro que goza
os pacientes fazem novas demandas ao analista ao longo de toda a análise: demanda de interpretação, de reconhecimento, de aprovação e assim por diante.
O termo de Lacan para essa mudança – essa troca da demanda pelo desejo, esse abrir mão da fixação em prol do movimento – é “dialetização
Significa que o desejo é posto em movimento, libertado da fixação inerente à demanda.
levar os analisandos a sondarem seus próprios motivos de maneira mais aprofundada
Assim, a estratégia de “frustrar as demandas do paciente” é adotada não tanto para “manter os limites da situação analítica”, mas para trazer o desejo à tona
Ceder a todas as demandas do paciente pode até, no final, deixá-lo angustiado, porque quando não há falta – quando tudo que se pede é atendido – o desejo fica bloqueado. Não resta nada para desejar.
Entendida dessa maneira, a interpretação é familiar para os pais que acalmam o filho quando ele tem pesadelos interpretando-os para a criança. Esses pais procuram oferecer uma interpretação simples e tranquilizadora, destinada a acalmar o nervosismo da criança e lhe dar algo tangível a que ligá-lo: um programa de televisão visto mais cedo naquele dia, um personagem de um conto de fadas ou algo assim. Os pais que fazem essas interpretações podem saber ou não que, ao prenderem uma associação possível ao sonho, estão bloqueando o caminho de outras (por exemplo, o fato de que o personagem assustador do conto de fadas foi associado, na cabeça da criança, ao seu pai). Mas a preocupação dominante neles é muito prática: acalmar o filho.7
Em vez de fixar um significado em particular, ela deve procurar sugerir numerosos significados.
O que nos interessa é o que o inconsciente do analisando acha da interpretação – ou seja, o que é visto ou projetado por seu inconsciente quando lhe é concedido o papel de Outro (aqui, o Outro que sabe)
O desejo humano, estritamente falando, não tem objeto. Na verdade, ele não sabe muito bem o que fazer com objetos. Quando você consegue o que quer, não pode mais querê-lo, porque já o possui. O desejo desaparece ao atingir seu objeto aparente.
O obsessivo deseja algo inatingível, daí a realização de seu desejo ser estruturalmente impossível. O histérico, por outro lado, trabalha para manter insatisfeito um certo desejo;
Mas a afirmação de Lacan é que, mesmo depois de uma “análise bem-sucedida”, o desejo busca, essencialmente, sua própria continuação; todavia, graças a uma reconfiguração do sujeito em relação à causa de seu desejo, o desejo já não impede a busca de satisfação pelo sujeito (como veremos mais adiante).4
O analista, ao atribuir sentido a todas essas coisas, torna-se a causa das indagações, ponderações, ruminações, sonhos e especulações do analisando – em suma, a causa do desejo do analisando.
descobrimos que certos objetos são cobiçados pelo Outro e aprendemos a querê-los, nós mesmos, moldando nosso desejo no desejo do Outro.
todo sintoma provém de pelo menos dois desejos, forças ou impulsos conflitantes: amor e ódio, apetite sexual e inibição, e assim por diante
A análise, nesses casos, pareceria simplesmente envolver um desatamento dos nós do desejo do analisando.Mas a sujeição, submissão ou subjugação do neurótico ao Outro é muito maior do que essa metáfora (“desatar os nós do desejo”) sugere. O desejo do neurótico não é “dele”, para começo de conversa, porque nunca foi subjetivado. A subjetivação é a meta da análise – a subjetivação da causa, isto é, do desejo do Outro como causa.
a relação fundamental entre o sujeito (não o ego) e sua causa eletiva, o sujeito tal como posicionado em relação à causa. A notação ou fórmula lacaniana para isso é , onde o S atravessado pela barra representa o sujeito dividido em consciente e inconsciente, o representa a causa do desejo e o losango representa a relação entre os dois.
a reiterada tentativa dos neuróticos de adotar o ideal do eu do Outro encontra-se no próprio âmago de sua neurose: eles ficam presos à demanda do Outro.
tão logo surge um novo representante do Outro – quando, por exemplo, o analisando não se identificou inteiramente com o analista, de sorte que ainda é capaz de seguir uma profissão diferente, com um chefe a impressionar, outros profissionais de sucesso a imitar e assim por diante –, o mesmo problema tende a ressurgir: o neurótico tenta discernir o que esse novo Outro quer dele e conformar-se a isso (ou revoltar-se contra isso, mas pelas mesmas razões).
Transferência
Em certo sentido, portanto, há aí duas etapas do trabalho da transferência: 1. o analista deve contornar as demandas do analisando, a fim de incentivar seu desejo a vir à tona, por mais sufocante que seja isso sob a influência coercitiva do desejo do Outro, o que implica uma transição de e 2. o analista deve acarretar uma reformulação da interpretação que o analisando faz do desejo do Outro e uma mudança em sua posição subjetiva, que se baseia nessa interpretação. Podemos nos referir à primeira etapa como dialetização (do desejo) e à segunda como reconfiguração (ou travessia da fantasia fundamental).
analisando transita de ser o sujeito que demanda (bem como sujeitado à demanda do Outro) para ser o sujeito que deseja (além de estar sujeito ao desejo do Outro), e, mais adiante, para ser o sujeito que goza (e que não mais está sujeito ao Outro)
Aula 2 - Estrutura Clínica Diagnóstico
Entrevistas Preliminares
Subcategorías da Psicose:
Do mesmo modo que podemos fazer a clínica diferencial dos retornos no real, conforme se trate de paranóia, esquizofrenia ou mania, podemos diferenciar as referidas soluções.
os diagnósticos lacanianos encontram aplicação imediata, orientando os objetivos do clínico e indicando a posição que o terapeuta deve adotar na transferência.
algumas metas e técnicas usadas com os neuróticos são inaplicáveis aos psicóticos. Não só elas são inaplicáveis, como podem até se revelar perigosas, desencadeando um surto psicótico
ele é crucial para determinar a abordagem geral do terapeuta no tratamento de um paciente individual, para situá-lo corretamente na transferência e para que o terapeuta faça tipos específicos de intervenções.
Entretanto, situar o paciente em termos preliminares como mais provavelmente neurótico ou psicótico é muito importante, e a própria impossibilidade de o clínico situar um paciente nesse nível deve incliná-lo a agir com cautela nas entrevistas preliminares
A distinção lacaniana elementar entre imaginário e simbólico pode servir como poderosa ferramenta clínica na distinção entre psicose e neurose. O neurótico, embora tenda a expor uma multiplicidade de conflitos mais ou menos significativos com amigos e colegas – isto é, com outros semelhantes a ele –, comumente deixa claro ao terapeuta, desde as primeiras sessões, que sua queixa principal é quanto ao Outro simbólico. Isso pode expressar-se através de reclamações sobre pais, figuras de autoridade, expectativas sociais ou problemas de autoestima, todos os quais sugerem um conflito no nível em que o paciente se vê, em termos dos ideais do Outro (ou seja, no nível do seu ideal do eu ou supereu), como insatisfatório, insuficiente, culpado
O psicótico, por outro lado, apresenta as coisas de outra maneira: o conflito parece dar-se com outros da sua idade – rivais, concorrentes ou amores. Eles não estão todos tentando obter a aprovação de uma mesma figura de autoridade; em vez disso, um deles está usurpando o lugar do psicótico
Causa, Nome do Pai, RSI
o que leva Lacan a definir sua ética como ética do bem dizer.
Trata-se de uma ética relativa à implicação do sujeito, pelo dizer, no gozo que seu sintoma denuncia - ética de bem dizer o sintoma.
evitando assim o furor sanandi de exigir a qualquer custo a suspensão do sintoma. Pois lá onde há sintoma, está o sujeito.
É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico estrutural por meio de três modos de negação do Édipo – negação da castração do Outro – correspondentes às três estruturas clínicas.13 “Um modo, recalque (Vendrängung) do neurótico, nega o elemento, mas o conserva no inconsciente. Outro, o desmentido (Verleugnung) do perverso, nega-o mas também o conserva, dessa vez no fetiche. Já a foraclusão (Verwerfung) do psicótico é um modo de negação que não deixa rastro ou vestígio algum: ele não conserva, arrasa. Os dois modos de negação que conservam o elemento implicam a admissão do Édipo no simbólico, o que não acontece na psicose.”
A essas formas de negação correspondem as modalidades de retorno da operação de negação da castração: o retorno do recalcado no sintoma neurótico, o retorno do desmentido no fetichismo do perverso e o retorno do foracluído nas alucinações e delírios do psicótico
O mal-estar na civilização é o mal-estar dos laços sociais.
três formas fundamentalmente diferentes de negação (Verneinung):
O indivíduo torna-se neurótico por causa do recalcamento
a foraclusão é a causa da psicose
O paciente não está na fronteira entre duas estruturas clínicas: o clínico é que hesita na fronteira em suas ponderações diagnósticas.
A foraclusão, assim como o recalcamento, não é algo que o clínico possa “ver” diretamente, não está disponível à percepção. Ela deve ser inferida do material clínico apresentado aos analistas e no que eles conseguem provocar.
A foraclusão envolve a rejeição radical de determinado elemento da ordem simbólica
ela envolve o elemento que, em certo sentido, lastreia ou ancora a ordem simbólica como um todo. Quando esse elemento é foracluído, toda a ordem simbólica é afetada
a linguagem funciona de maneira muito diferente na psicose e na neurose.
De acordo com Lacan, o elemento foracluído na psicose concerne intimamente ao pai.
a função paterna numa família nuclear coloca-se geralmente entre a mãe e o filho, impedindo que a criança seja inteiramente atraída para dentro da mãe e impedindo a mãe de tragar seu filho. Lacan não afirma que todas as mães tendem a sufocar ou devorar seus filhos (embora algumas o façam); o que ele diz, antes, é que as crianças “percebem” o desejo da mãe/Outro maternod como perigoso ou ameaçador
desejo do filho de que a mãe o tome como a única coisa que importa (o que, em última instância, aniquilaria a criança como ser separado da mãe), e em outros, a reação a uma autêntica tendência, por parte da mãe, a obter com o filho uma espécie de satisfação que ela não conseguiu obter em outros lugares.
Em qualquer dos casos o resultado é o mesmo: o pai mantém a criança a certa distância da mãe, frustrando a tentativa do filho de se tornar ou permanecer eternamente uma coisa só com a mãe, ou proibindo a mãe de obter certas satisfações com o filho, ou ambas as coisas. Dito de outra maneira, o pai protege o filho do désir de la mère (que tanto significa o desejo da criança pela mãe quanto o desejo materno) – ou seja, de um perigo potencial. O pai protege a criança da mãe como desejo (como desejante ou desejada), instalando-se como aquele que proíbe, impede, frustra e protege: em síntese, como aquele que dita a lei em casa, dizendo à mãe e ao filho o que é e o que não é permitido.
A função paterna é uma função simbólica
o funcionamento do pai como parte da fala – isto é, como um elemento no discurso da mã
Aqui, a função paterna é exercida pelo nome “pai”, na medida em que a mãe se refere a ele como uma autoridade que está além dela, um ideal que está além dos seus próprios desejos
Na psicanálise lacaniana, a função paterna é considerada tudo ou nada: ou o pai (como nome, substantivo ou “Não.”) foi capaz de assumir a função simbólica em questão, ou não foi. Não há meio-termo.4
De modo similar, ou a função paterna é atuante numa certa idade, ou nunca o será.
A psicanálise lacaniana, embora proponha ajudar o psicótico, não tem como modificar sua estrutura: uma vez psicótico, sempre psicótico.
A NÃO REESCRITA DO IMAGINÁRIO PELO SIMBÓLICO
O estádio do espelho corresponde à época em que a vida da criança ainda é extremamente incoordenada, um mero feixe de percepções e sensações sem qualquer unidade. De acordo com Lacan, a imagem especular da criança é a primeira a lhe proporcionar uma imagem de sua unidade e coerência, uma imagem que ultrapassa tudo que já foi alcançado em termos de desenvolvimento. A imagem especular é jubilantemente investida de libido pela criança e internalizada, tornando-se o núcleo, o cerne, a matriz ou o molde do ego infantil. Sucessivas “autoimagens”, refletidas para a criança por pais, professores e outras pessoas, cristalizam-se em torno dela. Lacan considera que o estádio do espelho proporciona uma imagem estruturante, que introduz ordem no caos anterior de percepções e sensações. Ele leva ao desenvolvimento de um sentimento do eu, antecipando uma espécie de unidade ou identidade pessoal que ainda está por ser realizada. E é ele que finalmente torna a criança capaz de dizer “eu
a criança é forçada a abrir mão de certo gozo, de certa relação com a mãe, em função de uma demanda ou uma ameaça feita pelo pai. Em suma, isso corresponde ao que Freud chama de “recalcamento primário”, ou ao que poderíamos denominar “recalcamento inicial”.34
A proibição, como vimos, cria o desejo: só quando algo me é recusado é que vejo pela primeira vez o que quero, o que me falta, o que não posso ter
O sentido primário, o significado fundamental originado pela metáfora paterna, é que meu desejo por minha mãe é errado. Não importa o que eu venha a pensar dele mais tarde – achando, por exemplo, que eu não deveria ter cedido à proibição do meu pai, porque ele nunca me ofereceu nada em troca, nunca me proporcionou satisfações substitutas –, esse primeiro sentido, uma vez estabelecido, é inabalável e não pode ser extirpado.
O resultado da metáfora paterna é, antes, ligar um significado específico a determinadas palavras (Figura 7.3), sem considerar um referente absoluto (isto é, sem recorrer a uma realidade absoluta mítica que ultrapasse a realidade criada ou recortada do real pela linguagem). A metáfora paterna cria um significado fundador, inabalável.
Quando, posteriormente, todo o resto pode ser questionado, inclusive os porquês desse sentido fundador, é precisamente pelo fato de, antes de mais nada, aquele ponto de capitonê original – uma espécie de nó – ter sido atado. Sem ele, tudo se desarticula. Como disse Rachel Corday, por mais que ela tentasse juntar um sentimento de eu numa ponta, ele “se desatava .constantemente. na outra”. Sem esse ponto importantíssimo, o tecido do seu eu se desfazia, e era por isso que tantas vezes ela “perdia o fio da meada”.39
Imaginário
– o das imagens visuais, auditivas, táteis, olfativas e de outras percepções sensoriais de toda sorte,
Simbólico
O sujeito na psicose tem, portanto, relação com o significante, mas de uma maneira anômala, pois a cadeia significante é tomada em bloco.
O registro imaginário é reestruturado, reescrito ou “substituído” pelo simbólico, pelas palavras e frases usadas pelos pais para expressar sua visão do filho
A substituição do imaginário pelo simbólico (a via do “normal” ou do “neurótico comum”) leva à eliminação ou pelo menos à subordinação de relações imaginárias, caracterizadas por rivalidade e agressividade (como foi visto no Capítulo 3), a relações simbólicas, dominadas pela preocupação com ideais, figuras de autoridade, lei, desempenho, realização, culpa etc
Na psicose, essa reescrita não ocorre. No nível teórico, podemos dizer que isso se deve ao estabelecimento malsucedido do ideal do eu, ao não funcionamento da metáfora paterna, à não iniciação do complexo de castração e a uma variedade de outras coisas. O importante é que o imaginário continua a predominar na psicose, e que o simbólico, na medida em que chega a ser assimilado, é “imaginarizado”: é assimilado não como uma ordem radicalmente diferente, que reestrutura a primeira, mas assimilado simplesmente por imitação de outras pessoas.
Na medida em que o ideal do eu serve para ancorar o senso que se tem de si mesmo, para ligá-lo à aprovação ou ao reconhecimento por um Outro parental, sua ausência deixa o indivíduo com uma ideia precária de si, com uma autoimagem passível de murchar ou evaporar em certos momentos cruciais
Assim, ele encontra a semelhança da formação dos sonhos com a formação dos sintomas neuróticos, a analogia do sonho com a alucinação e seu parentesco com a psicose.
A perda de Realidade na Neurose e na Psicose
Foraclusão
é porque o que está “foracluído” do lado de dentro retorna no lado de fora, ou seja, na realidade, sob a forma de delírios e alucinações.
O excluído está incluído do lado de fora, daí, foracluído. Assim como o que importa clinicamente na neurose é não só o recalque mas sobretudo o retorno do recalcado (o sintoma e outras formações do inconsciente), na psicose o que interessa ao clínico é o retorno do foracluído.
A alucinação é uma forma típica de “pensamento” do processo primário e desempenha um papel nos devaneios, fantasias e sonhos. Portanto, está presente em todas as categorias estruturais – neurose, perversão e psicose
Ao sondarmos a natureza subjetiva da experiência, alguns traços distintivos se destacam. Por exemplo, o paciente havia ficado surpreso com essa imagem ou visão e dissera a si mesmo que sua ex-mulher não poderia ter entrado na casa sem ele notar, e com isso questionou a realidade não da sua experiência (a imagem ou visão), mas do conteúdo da imagem. Ele havia olhado de relance para duas pessoas sentadas ali perto e, ao olhar novamente para o corredor, a ex-mulher tinha sumido. Em momento algum ele acreditou que a pessoa estivesse realmente lá; achou que tinha visto alguma coisa – isto é, acreditou na visão –, mas não confiou nela.7 Não acreditou que aquilo que se havia apresentado fosse real ou tivesse qualquer motivo para ser tomado como real.
Em termos superficiais, poderíamos dizer que ele soube distinguir entre a fantasia (a realidade psíquica) e a realidade (a concepção ocidental da realidade social/física que ele havia assimilado ao longo da vida inteira).
A certeza é característica da psicose, ao passo que a dúvida não o é
Em contraste, o que domina o quadro clínico no caso da neurose é a dúvida
Mas a alucinação autêntica requer um sentimento de certeza subjetiva por parte do paciente, a atribuição de uma autoria externa, e está relacionada ao retorno de fora de algo que tinha sido foracluído
e nesse processo tal língua nos moldará: ela molda nossos pensamentos, nossas demandas e nossos desejos
como vir a estar na linguagem, como encontrar nela um lugar para nós mesmos e como torná-la nossa no máximo grau possível
De modo ainda mais radical, podemos rejeitar quase completamente a nossa língua materna, se a associarmos a nossos pais e a um discurso (educacional, religioso, político etc.) que execramos, só nos sentindo à vontade numa língua estrangeira.20
A alienação nunca é completamente superada, porém ao menos uma parte da língua acaba sendo “subjetivada”, tornada própria.
o psicótico tem a impressão de ser possuído por uma língua que fala como se viesse não de dentro, mas de fora.
O louco nos Quatro Discursos
Psicose e laço social:
Antes de chegarmos ao discurso do analista, vejamos por quais discursos o louco tem sido tratado.
O louco nos quatro discursos
O louco é tratado pela psiquiatria, pela polícia, ou ainda, pela assistência social. A repressão trata o louco com a injunção à adaptação à norma para que ele produza trabalho. Aqui tem-se a estrutura do discurso do mestre
O agente da polícia, por exemplo, atua sobre o louco:
(S1 → S2) para que este produza o objeto (a) com o qual aquele poderá gozar: seja objeto de divertimento, sejam objetos de consumo produzidos pelo trabalho forçado dito terapêutico.
A psiquiatria universitária trata o louco não como sujeito, mas como objeto – de estudo, exames, cuidados, farmacopeia.
No laço social promovido pela antipsiquiatria, o psiquiatra se dirige ao louco para que este produza um saber – o elogio da loucura. Aqui tem-se a estrutura do discurso da histérica.
Governar corresponde ao discurso do mestre/senhor, em que o poder domina; educar constitui o discurso universitário, dominado pelo saber; analisar corresponde ao laço social inventado no início do século XX por Freud, em que o analista se apaga como sujeito por ser apenas causa libidinal do processo analítico, e fazer desejar é o discurso da histérica dominado pelo sujeito da interrogação (no caso da neurose histérica, trata-se da interrogação sobre o desejo), que faz o mestre não só querer saber mas produzir um saber.
O discurso como laço social é um modo de aparelhar o gozo com a linguagem, na medida em que o processo civilizatório, para permitir o estabelecimento das relações entre as pessoas, implica a renúncia da tendência pulsional em tratar o outro como um objeto a ser consumido: sexual e fatalmente. Pois a inclinação do homem é ser o lobo do outro homem, ou seja, abusar dele sexualmente, explorá-lo, torturá-lo, matá-lo, saciando no outro sua pulsão de morte erotizada. A civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional. Todo laço social é portanto um enquadramento da pulsão, resultando em uma perda real de gozo.
quando o médico cala e, ocupando o lugar de objeto causa de desejo em transferência, faz o paciente segredar aquilo que ele mesmo nem sabia que sabia, vemos a emergência do discurso do analista.
Não importa o que aconteça, continue avançando; continue trabalhando para o saber. Não importa os meios nem os fins – não deixe de produzir saber
Mas, em contraposição a uma ciência universitalizante, só é possível uma ética do particular como propõe a psicanálise, que inclua o sujeito cuja essência, segundo Espinosa, é o desejo.
Trata-se de objetivar, objetalizar para aplicar o saber. Isto não é segredo nem novidade no âmbito médico.
Eis a divinização do saber promulgada pela idealização do discurso universitário da ciência. Deus é o cúmulo do saber.
Contra o imperativo do ter, a psicanálise propõe a ética da falta-a-ter, que se chama desejo, e a gestão, não do capital financeiro, mas do capital da libido, por definição sempre no negativo.
será que não são os “males” que agora são criados e categorizados em novas síndromes para serem então tratados pelas novas drogas?
tratamento psiquiátrico a partir de uma clínica do sujeito é um dever ético que a psicanálise propõe à psiquiatria.
o conceito de Inconsciente e de suas leis da fala e da linguagem; no segundo, dos conceitos de angústia e de pulsão; e no terceiro período, dos conceitos de repetição, pulsão de morte e seus sucedâneos (o supereu, o mal-estar, o masoquismo).
E o sujeito é definido como equivalente à falta de um significante que diga o que ele é: o sujeito é um significante pulado da cadeia, falta-a-ser.
O gozo, enquanto tal, não se deixa apreender totalmente, ele está sempre extravasando, transbordando, escapando.
ele não se deixa reduzir ao sexo, pois não se deixa aprisionar pelo significante fálico.
O campo do gozo é, antes de tudo, um campo operatório e conceitual, estruturado pela linguagem por meio de seus aparelhos, que são aparelhos de tratamento do gozo nos laços sociais: os discursos. São eles que constituem a realidade
Ao ser aparelhado pelos discursos onde se inscreve o ser falante, o falasser, como o gozo se manifesta? Na repetição, como Freud detectara, que é repetição significante, a qual constitui o inconsciente como uma rede de saber.
No campo do gozo, os elementos que compõem os discursos – S1, S2 e objeto a – são, portanto, modalidades de gozo, e o sujeito () é resposta do real.
No campo do gozo, o Um do significante (S1) só existe como o significante do transbordamento, significante do excesso e do fracasso, que, apesar de mestre, não o domina. Ele é o significante do encontro marcado e faltoso com o sexo, o significante do trauma que se repete ao longo da vida do sujeito.
o S2, o significante binário, é o saber definido como meio de gozo, como aparece no discurso do mestre
o impossível como real: impossível de ser escrito e de ser suportado. Esse real é tributário da pulsão de morte não-simbolizável que retorna no laço social sob a forma de gozo, trazendo as impossibilidades nos laços entre os homens.
Um dizer é aquilo que, não sendo propriamente da ordem da fala, funda um fato. Os discursos fundam fatos, que são os laços entre as pessoas.
E, partindo do que se chama, na lógica da teoria dos conjuntos,“ a permutação circular”, propõe quatro lugares (agente, verdade, outro e produção) e quatro elementos que vão permutar nos lugares (S1, S2, a, A barrado).
Mas o que é o S1? É um significante tomado a partir de sua propriedade de comando.
Assim o comando próprio ao significante-mestre é um comando de gozo, como é desvelado no discurso do mestre.
O S2 é a repetição do S1. A repetição, conceito fundamental da psicanálise, é retomada por Lacan no campo do gozo, a partir de Freud. Trata-se da repetição da primeira experiência de satisfação: estamos sempre buscando repeti-la e sempre fracassando em alcançá-la
Quando S1 se repete não é mais o S1, e sim o S2. Eis o paradoxo da repetição. É uma repetição de gozo, mas que implica o reencontro com a falta de gozo. Essa repetição que não cessa forma a própria rede de significantes – eis o saber inconsciente (S2), o qual se constitui, portanto, através da repetição do S1 comemorando o gozo.
O mestre/senhor (S1) comanda o escravo (S2) a produzir os objetos (a) dos quais ele irá gozar. É o escravo que detém o saber para produzir os objetos, e esse saber constitui seus meios de gozo. O S2 como saber é um meio através do qual o sujeito goza – com o Inconsciente. Essa nova conceituação nos indica que o saber é também uma forma de gozar.
O sujeito é uma resposta do real da repetição significante do gozo.
Mas na verdade é a mais-valia de Marx que é uma forma do objeto mais-de-gozar.
O que é o mais-de-gozar? Na repetição, em que o sujeito está sempre procurando obter novamente aquela experiência que o S1 comemora, há um gozo de busca, e também um gasto. E o resultado é o gozo fracassado
A barra presente nas duas frações que compõem cada discurso não corresponde exatamente à barra do recalque, como no matema do signo lingüístico que Lacan vai tomar de Saussure, o do significante/significado (S/s). A barra da primeira fração de cada discurso representa a interceptação da apreensão de qual é a verdade em causa em cada laço social. No discurso do mestre (S1/), o governo parece se instaurar a partir de leis, projetos de sociedades, programas etc. representados no matema (sua fórmula) pelo S1. Mas, na verdade, o que é escamoteado é que há sempre sujeitos () sustentando esse governar, essa dominação que é imposta ou aplicada aos outros sujeitos que devem cumprir as ordens; eles devem saber fazer, saber obedecer e saber produzir.
No discurso universitário, a educação se dá pela aplicação do saber (S2/S1) como saber universal, sustentado, porém, por autores, inventores ou descobridores (S1) desse saber. No discurso histérico (/a), se o agente do discurso é o sujeito do inconsciente com seu sintoma e sua divisão (), a verdade na qual esse discurso se embasa é o objeto a, mais-de-gozar (a) escondido do qual o sujeito se esmera em ser o porta-bandeira para atiçar o mestre. E no discurso do analista (a/S2), o analista como semblante de objeto a se sustenta em seu ato na verdade do saber sobre a castração, a falta e a inexistência da relação sexual.
do lado do analista aquela figura que Lacan chamou de sujeito suposto saber.
Assim a barra da primeira fração é aquilo que indica o representante e o representado em cada laço social. O representado, escamoteado pela barra, é o que sustenta a verdade de cada discurso. O agente de cada laço social é o agente da verdade para o outro produzir alguma coisa.
O lugar do agente do discurso é o lugar da “dominante”.
Trata-se daquilo que determina o agir do sujeito, ou seja, ele age de acordo com a dominante do discurso em que está inserido.
o mestre (S1), o saber (S2), o sujeito (S barrado) ou o objeto (a).
No discurso do mestre a dominante é a lei, no da histérica é o sintoma, no do universitário é o saber e no do analista, o mais-de-gozar.
o que vai dominar o discurso do analista é o próprio analista com seu desejo, pois é ele que dirige o tratamento.
e no discurso do analista, a referência não é o analista, é o analisante. Não há análise se o analisante não é “dominado” pelo objeto causa de desejo.
Todo discurso que trata o outro como objeto pode ser chamado de discurso universitário. Todo laço social que trata o outro como um mestre é discurso da histérica. Quando alguém trata o outro como um escravo ou como um saber produzir, estamos no discurso do mestre.
o significante-mestre (S1). No discurso do mestre o S1 é a lei que encarna o mestre; no discurso da histérica, o S1 é o mestre; e no universitário ele é o autor. Em cada um destes discursos, o S1 pode ser encarnado por alguém: o governante, o próprio mestre, o autor. O discurso do analista revela que esse S1é apenas um significante, que não precisa necessariamente ser encarnado por ninguém.
A barra da segunda fração dos matemas dos discursos refere-se ao que o outro de cada laço social deve produzir. No caso do discurso do mestre são os objetos de gozo para o mestre, a sociedade, a fábrica etc. No discurso do universitário o que é produzido é o sujeito dividido (S barrado) que se revolta ou sintomatiza ao ser tratado como objeto a. No discurso da histérica é o saber (S2)que o mestre (S1) fabrica e no discurso do analista o analisante (S barrado) produz o significante de sua singularidade, como por exemplo o sintoma analítico.
O mal-estar é o produto dos discursos dominantes em nossa civilização: do mestre, do universitário e do capitalista. Os discursos do avesso da civilização levam a pulsão em consideração (representada pelo objeto a): como verdade, no discurso histérico, e no lugar de agente, no discurso do analista.
O laço de educar, do discurso universitário – que estruturalmente não se distingue do laço de burocratizar –, gera, ao tratar os indivíduos como objetos, o sujeito patológico, o sujeito do sintoma, o sujeito-castração.
É o único, insisto, em que o significante-mestre não pode ser encarnado por ninguém e se desvela como ele é: puro significante.
no discurso do analista, a a-cracia, onde se trata do governo de a (mais-degozar) – que se desvela como impossível de governar, pois esta forma de laço se encontra no “pólo oposto a toda vontade de dominar”.
No lugar da verdade encontra-se o capital (S1) como significante-mestre desse discurso; o sujeito é reduzido a um consumidor (S barrado) de objetos, os gadgets (a) produzidos pela ciência e tecnologia (S2).
Por outro lado, ao colocar a mais-valia no lugar da causa do desejo, essa sociedade transforma cada um num explorador em potencial de seu semelhante para dele obter um lucro de um sobretrabalho não contabilizado.
Esse sujeito como falta-a-ser é o sujeito como falta-a-ser-rico; e a falta-de-gozo se inscreve como a falta-a-ter-dinheiro: é o sujeito descapitalizado. Assim, o discurso do capitalista produz o sujeito inadimplente, o sujeito da dívida que se eterniza. Cria a dívida que só aumenta: começa-se a pagar os juros, os juros dos juros e os juros dos juros dos juros.
O senhor absoluto moderno, que vem no lugar hegeliano da morte, é o capital, em relação ao qual, vaticina Lacan, somos todos proletários.
É, de fato, uma clínica do semidizer, pois em nenhum discurso, seja qual for o laço social, a verdade se mostra completamente. É uma clínica do ato e não da palavra.
O setting não define o discurso, tampouco as palavras pronunciadas, e sim o ato.
O ato analítico ocorre nesse laço inédito em que a desidentificação aos ideais do Outro é promovida e o sujeito é liberado das amarras do mestre do significante.
Aula 3 - Clínica da Psicose
O louco nos quatro discursos
Que significa tratamento? Na linguagem psicanalítica significa tratamento por um intermédio de um discurso.
Demanda do Psicótico
Manobra na transferência
Final de análise na Psicose
Direção do tratamento:
O trabalho da psicose será sempre, portanto, uma maneira de o sujeito tratar os retornos no real, de efetuar conversões que civilizem o gozo até torná-lo suportável.
Demanda do Psicótico
2 formas
Havendo uma multiplicação de significações, ele vem pedir ao analista a significação derradeira para que possa fazer cessar o sem-fim do significante e a perplexidade que se abate sobre o sujeito.
o pedido ao analista de fazer barreira ao gozo do Outro – barreira ao Outro que o persegue, que fala em sua cabeça, que o manipula ou que o olha na rua. Trata-se de um pedido de asilo para exilar-se do Outro. Esse pedido também é feito ao asilo, ao hospício, onde a barreira é de concreto como se o Outro pudesse ser barrado na porta.
Estratégias na direção do tratamento:
As mais identificáveis são as que se servem de um simbólico de suplência, que consiste em construir uma ficção diferente da ficção edipiana e em levá-la a um ponto de estabilização, obtido pelo que Lacan situou, em certa época, como uma metáfora de suplência: a metáfora delirante.
A mesma solução, que consiste em cobrir a coisa com uma ficção apensa a um significante ideal, funciona em muitos casos, mas não exige forçosamente a inventividade delirante do sujeito.
Civilizar a coisa pelo simbólico é também a via de algumas sublimações criacionistas. A promoção do pai é uma delas, aliás, como dizia Lacan em seu seminário sobre A ética… Assim, é concebível que essas sublimações sejam particularmente convocadas na psicose, como provam tantos nomes conhecidos: Joyce, Hölderlin, Nerval, Rousseau, Van Gogh etc. Nem todas as sublimações são do mesmo tipo, mas as que provêm da construção de um novo simbólico têm uma função homogênea ao que é o delírio para Schreber.
Pintura
Tratamento do real pelo real
no qual se deposita um gozo que é transformado até se tornar “estético”, como se diz, enquanto o objeto produzido impõe-se ao real.
Há outros tipos de solução que não usam o simbólico, mas procedem a uma operação real sobre o real do gozo não aprisionado na rede da linguagem. Assim é a obra — pictórica, por exemplo —, quando ela não joga com o verbo, mas parteja ex nihilo um objeto novo, sem precedentes —
Sintomas, Delírios, Automatismo
não há ninguém que não esteja concernido pela loucura, não só a do outro, como também a sua própria.
O sintoma na psicose, como delírio ou alucinação, é uma tentativa de cura da foraclusão do Nome-do-Pai. O medicamento jamais é tentativa de cura.
Incluir o sujeito no tratamento.
por um lado a inclusão do sujeito do inconsciente, com sua fala, sua história e seus sintomas, manifestações de sua singularidade
incluir o sujeito no tratamento é fazê-lo co-responsável por ele, solicitando do sujeito seu comprometimento, a começar pelo reconhecimento da “escolha” de sua patologia. Essa inclusão se opõe a paternalizá-lo ou prestar-lhe cuidados de maternagem. O psiquiatra não é nem pai nem mãe.
aquele que cortou os laços com as exigências da civilização, tais como renunciar às pulsões sexuais em função do outro. O psicótico recusa radicalmente essa renúncia, por recusar a lei simbólica e a regra universal da castração para todo homem. Incluir o psicótico na sociedade não equivale a adaptá-lo e nem a tentar fazê-lo um igual, denegando sua diferença. A inclusão de que se trata é a inclusão da diferença radical no seio da sociedade de supostos iguais – por exemplo, a sociedade de cidadãos.
Direção do Tratamento
Foraclusão do Nome-do-Pai
os distúrbios de linguagem como efeitos do Inconsciente a céu aberto, a questão da realidade e os fenômenos imaginários que a ela se vinculam, o real do gozo sem suas amarras fálicas que acometem o sujeito, as modalidades de emergência do objeto a no campo da realidade, a descrença em uma lei própria do sujeito que é, daí, correlativa a uma certeza naquilo que vem do Outro
Não é possível, portanto, transformar um sujeito psicótico em um neurótico: não se injeta o Édipo e nem se fabrica o recalque primário. Mas é possível tratar o gozo por meio da linguagem, se o analista abster-se de querer inserir o sujeito na norma fálica.
Na psicose, de forma geral, toda tentativa de cura é uma tentativa de inserção no laço social, inclusão em algum discurso.
Talvez o paciente seja psicótico
Pintura, Escrita, Formas de Suplência
A função da Pintura na Psicose
Na psicose, principalmente, o quadro tem a função de servir de pasto ao olhar sedento do Outro que visa o ser do sujeito. Este faz a pintura para tentar aí depositar, fixar, desviar de si o olhar mortífero do Outro. Eis o que nos mostra Octávio Inácio, que transforma o bem-te-vi em um desenho bem visto, transladando o olhar acusatório que emerge na realidade para os seus personagens fálicos, alados e equinos. Assim, a pintura permite deslocar esse olhar que faz irrupção no campo da realidade do sujeito para vigiá-lo e puni-lo. Colocar o olhar na tela para melhor enquadrá-lo pode ser o ato equivalente a uma tentativa de cura realizada pelo delírio, quando lhe é oferecida a possibilidade de fazê-lo como permitiu Nise da Silveira, a pioneira. A consequência do ato pictural é um apaziguamento do gozo que invade o sujeito com o olhar vigilante e a voz da injúria que parte do Outro. Este me parece ser o fundamento da melhora dos sujeitos psicóticos que se dedicam a uma atividade pictórica.
Se a escrita teve para James Joyce a função de suplência, a pintura pode certamente exercer a mesma função para outro sujeito, apaziguando e barrando o gozo do Outro do qual é vítima.
Ausência de Metáforas
Não sei de onde vem a minha voz.” As “fronteiras” do ego não são simplesmente flexíveis, como às vezes são descritas na neurose, mas praticamente inexistentes, levando a um perigoso sentimento de que outra pessoa ou força está tentando usurpar o lugar do doente. Sem a ajuda da linguagem, que denomina e delimita – quando sua estrutura é assimilada, e não apenas imitada –, as relações imaginárias prevalecem, como veremos adiante.
Comprova-se que a linguagem não é assimilada pelos psicóticos pelo fato de eles serem incapazes de criar metáforas como os neuróticos sabem fazer. É óbvio que usam metáforas, já que estas são parte de toda língua natural; e são bem capazes de empregar as metáforas utilizadas pelos que os cercam, as encontradas em suas leituras etc. Entretanto, são incapazes de cunhar novas metáforas.
O discurso do psicótico é curiosamente desprovido de metáforas originais, especificamente dos recursos poéticos por meio dos quais a maioria das pessoas consegue criar novos significados.
Na psicose, a metáfora paterna não funciona, e a estrutura da linguagem (que permite a possibilidade da substituição metafórica) não é assimilada
interrupção de uma frase proferida pela voz ouvida pelo psicótico rompe a cadeia que vinha se formando e expõe seus componentes como unidades ou coisas isoladas, e não como elos. Isso sugere uma perturbação no processo habitual de criação de sentido, e se relaciona com a ideia de que para o psicótico as palavras são coisas.
Muitas vezes já se observou que os psicóticos mostram certa predileção por neologismos.
Incapaz de criar novos sentidos usando as mesmas velhas palavras e a metáfora, o psicótico é levado a cunhar novos termos, aos quais atribui uma importância que frequentemente descreve como inefável ou incomunicável
Os pequenos outros
A distinção lacaniana elementar entre imaginário e simbólico pode servir como poderosa ferramenta clínica na distinção entre psicose e neurose. O neurótico, embora tenda a expor uma multiplicidade de conflitos mais ou menos significativos com amigos e colegas – isto é, com outros semelhantes a ele –, comumente deixa claro ao terapeuta, desde as primeiras sessões, que sua queixa principal é quanto ao Outro simbólico. Isso pode expressar-se através de reclamações sobre pais, figuras de autoridade, expectativas sociais ou problemas de autoestima, todos os quais sugerem um conflito no nível em que o paciente se vê, em termos dos ideais do Outro (ou seja, no nível do seu ideal do eu ou supereu), como insatisfatório, insuficiente, culpado
O psicótico, por outro lado, apresenta as coisas de outra maneira: o conflito parece dar-se com outros da sua idade – rivais, concorrentes ou amores. Eles não estão todos tentando obter a aprovação de uma mesma figura de autoridade; em vez disso, um deles está usurpando o lugar do psicótico
Na psicose, assim como o imaginário não é sobrescrito pelo simbólico, as pulsões nunca são hierarquizadas no corpo, exceto por imitação. Em outras palavras, a hierarquia que pode ser aparente não é irrevogável: não representa um sacrifício tão definitivo do gozo quanto a hierarquização por que passa o neurótico durante a socialização, e na qual a libido é canalizada (mais ou menos completamente) do corpo em geral para as zonas erógenas.
as zonas erógenas. Somente nessas zonas o corpo continua vivo, em certo sentido, ou real. Nelas, a libido (ou gozo) é canalizada e contida. Não é o que acontece na psicose: a hierarquia das pulsões que é obtida imaginariamente pode desabar quando a ordem imaginária que a sustenta vacila. O corpo, que em sua maior parte fora libertado do gozo, é subitamente inundado por ele, invadido por ele. E o gozo volta violentamente, diríamos, porque é bem possível que o psicótico o vivencie como um ataque, uma invasão ou um arrombamento.
A ausência da função paterna afeta todas as funções simbólicas, de modo que não é de admirar que afete tudo que comumente associamos à moral e à consciência.
significa, antes, que até a menor provocação pode levá-lo a ter um comportamento gravemente punitivo
Por isso, o psicótico é mais propenso à ação imediata, e é atormentado por pouca ou nenhuma culpa
O psicótico pode manifestar vergonha, mas não culpa. A culpa exige o recalcamento: só é possível sentir culpa quando se sabe ter desejado secretamente infligir danos, ou ter se comprazido em fazê-lo. Na psicose, nada é recalcado, de modo que não há segredos guardados de si mesmo.
Essa posição feminina pode ficar encoberta durante um longo período, enquanto o homem psicótico se identifica com os irmãos e amigos varões, imitando-os em sua tentativa de agir como homem. Quando ocorre um surto psicótico, as identificações imaginárias ou “muletas imaginárias” (Seminário 3, p.231.240.) do paciente desmoronam, e sua posição essencialmente feminina reemerge ou se impõe a ele
pai que estabeleceu apenas uma relação imaginária com seu filho varão, não uma relação simbólica
quando falta a função paterna na vida do menino, a totalização não ocorre, e o menino adota um certo elemento da estrutura feminina
O psicótico, por outro lado, caracteriza-se pela inércia, pela falta de movimento ou dialética em seus pensamentos e interesses
O psicótico, porém, reitera vez após outra as mesmas frases; a repetição substitui a explicação. A “dialética do desejo” não tem lugar. Não há nenhum desejo propriamente humano nas psicoses. Onde falta a estrutura da linguagem, falta também o desejo. Onde falta o recalcamento – onde a transparência não deu lugar à opacidade, no tocante a meus pensamentos e sentimentos, que resulta do recalcamento –, faltam também o questionamento e a reflexão intrigada: não posso questionar meu passado, minhas motivações nem sequer minhas ideias e sonhos. Eles simplesmente existem.
Formas de estabilizar a metáfora Paterna
Com o psicótico, porém, o terapeuta deve incentivar essa atividade de criação de sentido, porque o ego é a única coisa com que se pode trabalhar: o terapeuta precisa construir no psicótico um senso de eu que defina quem ele é e qual é seu lugar no mundo.
“metáfora delirante” (Escritos, p.577.584.): um novo ponto de partida com base no qual o psicótico estabelece o significado do mundo e de tudo que existe nele
Lacan refere-se a essa nova visão de mundo como metáfora delirante porque, em alguns aspectos, ela faz as vezes da metáfora paterna, permitindo que palavras e significados se liguem de maneira relativamente estável e duradoura.
Ele conseguiu finalmente encontrar um lugar para si num mundo de sua própria criação.
O questionamento lacaniano dos discursos que incentivam a eliminação da função paterna seria mais ou menos assim: “Pode alguma coisa da ordem da metáfora paterna – que proporciona o vínculo fundamental entre significante e significado, entre linguagem e sentido – ser instaurada sem o pai como função simbólica? Caso contrário, há alguma outra maneira de introduzir um terceiro, isto é, de triangular a relação mãe/filho e prevenir a psicose? Como se pode fazer isso sem contar com a ordem simbólica e com sua capacidade de interceder no imaginário, no mundo da rivalidade e da guerra? Será que um dos sexos não tem que desempenhar o papel do representante simbólico?”
Estratégias na direção do tratamento:
As mais identificáveis são as que se servem de um simbólico de suplência, que consiste em construir uma ficção diferente da ficção edipiana e em levá-la a um ponto de estabilização, obtido pelo que Lacan situou, em certa época, como uma metáfora de suplência: a metáfora delirante.
A mesma solução, que consiste em cobrir a coisa com uma ficção apensa a um significante ideal, funciona em muitos ca-sos, mas não exige forçosamente a inventividade delirante do sujeito.
Civilizar a coisa pelo simbólico é também a via de algumas sublimações criacionistas. A promoção do pai é uma delas, aliás, como dizia Lacan em seu seminário sobre A ética… Assim, é concebível que essas sublimações sejam particularmente con-vocadas na psicose, como provam tantos nomes conhecidos: Joyce, Hölderlin, Nerval, Rousseau, Van Gogh etc. Nem todas as sublimações são do mesmo tipo, mas as que provêm da cons-trução de um novo simbólico têm uma função homogênea ao que é o delírio para Schreber.
Pintura
Tratamento do real pelo real
no qual se deposita um gozo que é transformado até se tornar “estético”, como se diz, enquanto o objeto produzido impõe-se ao real.
Há outros tipos de solução que não usam o simbólico, mas procedem a uma operação real sobre o real do gozo não aprisionado na rede da linguagem. Assim é a obra — pictórica, por exemplo —, quando ela não joga com o verbo, mas parteja ex nihilo um objeto novo, sem precedentes —
A metáfora delirante construída por um psicótico serve para compensar justamente a falta de um princípio explicativo dessa ordem
os delírios do psicótico – quando liberados para seguir seu curso – movem-se no sentido de criar um mundo em que lhe seja atribuído um lugar importante, um papel crucial. A cosmologia delirante do psicótico serve para explicar o porquê do seu nascimento e o propósito de sua vida na Terra. Portanto, também ela tenta unir a palavra ao sentido, como a metáfora paterna.
Os Outros da Psicose
Quem é esse Outro? Na paranóia, o outro é sem lei e quer prejudicar o sujeito. Na esquizofrenia, o sujeito se retrai autistamente em relação ao outro da injúria alucinatória. O melancólico é o indigno do outro e culpado pela ruína do social;o maníaco é o pródigo que faz do outro sua fartura, e o megalomaníaco é o Um que se considera o outro de todos os outros e quer ordenar o social.
Segundo Lacan, na psicose, o Outro está excluído e o sujeito só lida com o pequeno outro.
Aula 4 - Esquizofrenia
Mas há também um avesso dos discursos como um todo que é representado pelo avesso ao laço social estabelecido, que é o psicótico. Ele é esse fora que nos remete ao fato de que nós estamos presos aos discursos.
A direção do tratamento na esquizofrenia vai no sentido daquilo que não se efetuou para ele e que ele mesmo se esforça em realizar. Daí o clínico não dever a qualquer custo eliminar os sintomas do sujeito, o que não quer dizer que não deva indicar a medicação para atenuá-los. A medicação deve ser um auxiliar na análise dos esquizofrênicos.
O analista pode secretariar o esquizofrênico em suas tentativas de estabelecer pares de oposição significante e promover a pontuação em sua fala para possibilitar a precipitação do sentido.
Nesse sentido, são tentativas de fazer laço social: o delírio pode até inventar um outro do amor, pelo qual o sujeito se apaixona. Os delirantes não apenas amam seus delírios como a si mesmos, mas são apaixonados pelo Outro, e são os amados do Outro.
enquanto na esquizofrenia preponderam os distúrbios da associação de idéias (Bleuler), na paranóia predominam as interpretações.
ao auto-erotismo no caso dos esquizofrênicos e ao narcisismo na paranóia. Daí encontrarmos nos primeiros, em relação ao estádio do espelho, as imagens do corpo despedaçado e portanto tendência à fragmentação do corpo (não-unificado), inconstituição do eu, assim como a dispersão do sentido
No registro do Real, no que concerne ao gozo, verifica-se na esquizofrenia a fragmentação do gozo do corpo, da fala e do pensamento – o gozo está disperso e tende a invadir todas as instâncias sem enquadramento algum, de forma anárquica
Aula 5 - Paranóia - Estou aqui
enquanto na esquizofrenia preponderam os distúrbios da associação de idéias (Bleuler), na paranóia predominam as interpretações.
ao auto-erotismo no caso dos esquizofrênicos e ao narcisismo na paranóia. Daí encontrarmos nos primeiros, em relação ao estádio do espelho, as imagens do corpo despedaçado e portanto tendência à fragmentação do corpo (não-unificado), inconstituição do eu, assim como a dispersão do sentido. Na paranóia prepondera a fixação à imagem do outro (a-a’), o congelamento do sentido e a enfatuação do eu que vai até a megalomania.
No registro do Real, no que concerne ao gozo, verifica-se na esquizofrenia a fragmentação do gozo do corpo, da fala e do pensamento – o gozo está disperso e tende a invadir todas as instâncias sem enquadramento algum, de forma anárquica.
Na paranóia, em contraposição, há uma concentração do gozo no Outro, na figura do perseguidor, da pessoa amada ou odiada, do traidor etc.
Na paranóia, elas se transformam no delírio de perseguição;há um retorno do ódio do Outro contra o sujeito e o ódio do Outro se inverte: é o Outro que odeia, e o sujeito é seu objeto
na melancolia, o fenômeno é da ordem do afeto, enquanto na paranóia ele se encontra no âmbito do pensamento.
o sintoma é signo de um conflito psíquico indicando a divisão do sujeito.
ele é uma metáfora, pois nele trata-se de um significante que vem no lugar de outro significante, recalcado.
Além disso, ele é uma mensagem cifrada de gozo, já que o sintoma é a forma de gozar do neurótico, explicitada em sua fantasia inconsciente.
Aula 6 - Melancolia
Tristeza, Depressão
Na clínica, a depressão não existe; o que encontramos são estados depressivos que ocorrem em algum momento na vida de um indivíduo e apresentam uma história subjetiva precisa.
Por outro, há um combate ferrenho à depressão – Abaixo os deprimidos. –, por ela ir contra os ideais da produtividade e contra o imperativo da saúde e do bom humor que caracterizam nossa sociedade utilitarista e de consumo.
tudo isso pode efetivamente contribuir para o estado depressivo de um sujeito desorientado em relação a seu desejo, perdido de seus ideais.
A tristeza, como sentimento humano, demasiadamente humano, é a expressão da dor própria à existência e se refere a uma posição do sujeito que faz parte da estrutura psíquica. Se essa posição não deixa de ser estrutural, a ela o sujeito não deve ceder, posto ser uma posição relativa ao gozo que se opõe ao desejo.
Oferecendo um tratamento pela via do desejo, a psicanálise torna possível para o sujeito o caminho que parte da dor de existir e segue em direção à alegria de viver. Para isso, todavia, é necessário que o sujeito queira saber, tendo a coragem de se confrontar com a dor que morde a vida e sopra a ferida da existência, a fim de fazer da falta que dói a falta constitutiva do desejo.
O que provoca a dor psíquica? A primeira resposta de Freud, em sua correspondência com Fliess, é que a dor é produzida pela dissolução das associações na cadeia dos pensamentos inconscientes, como ocorre na melancolia, em que há um “furo no psiquismo”. Essa quebra da cadeia de significantes é concomitante a uma “hemorragia” de libido. Por outro lado, “a dor corresponde a um fracasso do aparelho psíquico”, quando ele deixa de ser eficiente e grandes quantidades de energia irrompem.
Isto porque todas essas perdas têm um significado: castração, que resume os “determinantes finais e definitivos”. Eis por que são dolorosas, e o sujeito, para sair da dor, deve fazer o luto do que perdeu.
Encontramos aqui o fundamento freudiano do que desencadeia o luto, a depressão e a melancolia: é a perda daquilo que escamoteava a castração. No caso do neurótico, a castração que se inscreve como a falta de um significante que complete o Outro – (S(A barrado)) – evocando a negativação do falo no imaginário (-φ); no caso do psicótico, a falta de inscrição simbólica da castração, que se manifesta como furo real correlativo à elisão do falo (Φ0)
O afeto depressivo da dor de existir remete ao furo de gozo próprio à estrutura de linguagem.
De quem é a culpa? Aí aparecem três culpados.5 Em primeiro lugar, o sujeito culpa a sociedade, que não coloca à sua disposição objetos adequados para seu gozo. Em segundo lugar, diz que a culpa é do Outro, ou seja, o Outro não dá o que ele quer. Mas o Outro, enquanto tal, é inconsistente, porque também a ele o gozo falta. “A culpa seria do Outro se ele existisse”
O sujeito pode até pensar que o Outro é inteiro por causa do ideal do eu – I(A) – que o representa, mas quando o ideal cai e o sujeito se depara com a falta no/do Outro, ele não pode mais culpá-lo. E assim surge o terceiro culpado: o sujeito acaba tomando para si a culpa da castração como inadequação do gozo.
O sentimento de culpa é o índice do supereu que vigia, critica e pune o sujeito.
O não dar conta é sempre a queixa do impotente, mas na verdade trata-se de um prestar contas.
Esses traços remetem à posição do sujeito como objeto.
Na neurose, a tristeza e seu cortejo fúnebre indicam a posição do sujeito como objeto de gozo na fantasia.
. A baixa autoestima ou, em termos freudianos, a perda narcísica, é mais um efeito que uma causa do afeto depressivo, que corresponde a um abalo no eu ideal, sustento imaginário do sujeito na posição de objeto de amor e admiração do Outro, este situado como ideal do eu
Trata-se de uma perda do gozo fálico vinculada ao narcisismo do sujeito.
Como afeto depressivo, a tristeza é enganadora, pois todo sentimento é mentiroso em relação à sua representação: le senti-ment, o senti-mente para usar um jogo de palavras caro a Lacan
De um lado, o sujeito do significante, determinado pela linguagem, sujeito do inconsciente; do outro, o objeto a, sem sentido, sem representação, fora do Simbólico, rechaço do inconsciente
No desencadeamento da depressão neurótica, o abalo do significante-mestre, que fazia as vezes de ideal para o sujeito, faz vacilar sua fantasia, uma vez que esta se encontra articulada às cadeias significantes do sujeito referidas à circulação de seu desejo.
Em contrapartida, quando, no fim de análise, o sujeito está no momento de travessia da fantasia, ele se experimenta nos dois pólos desta, ou seja, como sujeito do inconsciente às voltas com os significantes-mestre que lhe dão o ancoramento simbólico e como objeto que ele foi ou deixou de ser para o Outro
Diagnóstico
A melancolia é uma forma clínica da tristeza a ser diferenciada do luto e do estado depressivo neurótico. Pretendo aqui situá-la no âmbito da ética em relação à tristeza para entregar ao sujeito a escolha do destino que dará a seu desejo. Para que, ao se confrontar com os impasses do desejo, ele não fique triste e acovardado, mas queira saber, decifrar, criar. E do saber formalizado sobre seu desejo, fazer poesia; do matema fazer poema. Ética do bem-dizer.
os dois grandes tipos clínicos da neurose – histeria e neurose obsessiva – e à psicose um terceiro tipo clínico que é a melancolia, base da psicose maníaco-depressiva.
A causa incógnita, ou perda desconhecida, corresponde estruturalmente ao “furo no psiquismo” descrito por Freud, e, em Lacan, à foraclusão do Nome-do-Pai.
A dor de existir, o simples fato de ser vivente, preço de ser sujeito da fala, se transforma na dor do preço a pagar pelo crime de estar vivo, o qual se materializa na busca de um crime efetivamente perpetrado.
A humildade e a auto-acusação, que são parte integrante da justificação delirante, são fenômenos necessários mas não suficientes para o diagnóstico da melancolia, pois não são elementares. A auto-acusação não é patognomônico da melancolia; ela pode estar presente em outras formas de psicose e também na neurose. A humildade engloba o sentimento de incapacidade, de não ser digno de estima e de merecer o mal de que sofre. Por sua vez, a tentativa de suicídio tem o sentido de suprimir um ser tão incapaz, inútil e inclusive perigoso para os demais
No delírio de ruína, eles pensam ter perdido sua riqueza moral, intelectual e material. É o avesso do delírio de grandeza, em que os doentes se atribuem imensas riquezas e múltiplos talentos e capacidades.
A melancolia, a esquizofrenia e a paranóia situam-se no âmbito da foraclusão do Nome-do-Pai. Isso significa que devemos abordar a questão da melancolia a partir dos fenômenos da ordem da linguagem e dos fenômenos do gozo.
relação entre a melancolia e a “anestesia sexual”. Trata-se de uma indiferença, falta de vontade de tudo e especialmente falta de vontade sexual. Há, portanto, abolição do desejo na melancolia: desejo . 0;
uma perda da vitalidade, um cansaço, fraqueza
A melancolia, diferentemente das neuroses de transferência, não faz economia da angústia
a melancolia pode se transformar em mania.
a perda do melancólico é indefinida. Ele sabe que perdeu alguma coisa, mas não sabe o quê
A hemorragia é descrita como uma excitação escorrendo por um furo, que funciona como um ralo. Esse furo no psiquismo é equivalente ao furo no Simbólico, à foraclusão do Nome-do-Pai.
a melancolia desvela “a origem sórdida de nosso ser.
a ambivalência, ambivalência de amor e ódio pelo pai, que faz parte do complexo de Édipo
Por sua vez, na melancolia o ódio ao Outro retorna e aparece como autorecriminação por sua morte. O sujeito é o culpado pela morte do Outro, ou seja, a pulsão hostil passa para o Real e o sujeito se considera o assassino.
o melancólico se identifica com o pai morto”, ou seja, há uma identificação com o pai como objeto perdido.
Isso nos permite concluir que, na melancolia, diferentemente da paranóia, há a foraclusão do amor, restando esse puro ódio que o sujeito voltará contra si próprio.
a Coisa é aquilo que, do Real, padece do significante.
há o gozo da Coisa, e esse gozo é esvaziado pelo significante
O sujeito é coisificado: todo o Simbólico se retira e ele se torna a “Coisa melancolizada
Digamos que ele compõe a melancolia a partir desse tripé: luto, narcisismo e teoria pulsional
Se essa perda é da ordem de um ideal, o que temos em jogo é um significante-mestre que poderia ser sustentado por alguém, ou um significante idealizado como a Pátria, a Liberdade etc., isto é, um S1 que ocuparia esse lugar de suplência à foraclusão do Nome-do-Pai.
Quando esse significante é perdido – ou a sua sustentação –, ele não pode mais ficar nesse lugar, e a melancolia é desencadeada, pois o sujeito se vê diante desse “furo no psiquismo.
O ideal do eu é o traço do Outro, ou melhor, a insígnia do Outro que situa o eu ideal para o sujeito, i(a), como aquele objeto imaginário, amado pelo Outro, com o qual o sujeito se identifica
No caso do enlutado, o trabalho de luto fará com que o sujeito retire o investimento libidinal do objeto perdido e reinvista em um outro objeto, ou seja, erija um outro ideal do eu, seja um ideal abstrato, seja um objeto de amor. Já no caso do melancólico isso não ocorre; ele se identifica com o objeto perdido, “a sombra do objeto cai sobre o eu.
Freud utiliza o conceito de narcisismo para explicar que todo o processo melancólico é “auto” .selbst., nele próprio, não partindo em direção ao outro
A análise da melancolia nos ensina que o eu não pode se matar a não ser quando ele pode, por um retorno de investimento de objeto, tratar a si mesmo como um objeto, quando ele consegue dirigir contra si mesmo a hostilidade que visa a um objeto e que representa a reação originária do eu contra os objetos do mundo exterior.
Freud interpreta que essa acusação que o melancólico dirige contra si mesmo na verdade está sendo dirigida ao objeto perdido, àquele que morreu, àquele que o abandonou
na melancolia o eu se cindiu em uma parte que critica e noutra que é criticada, ou seja, ele já indica a estrutura do supereu, que trata sadicamente o sujeito como um objeto.
Quando o sujeito perde aquele que vem cumprir a função do Outro que cuida e ama, ele se vê diante da castração.
Ora, sabemos que esse eu, que é um eu corporal, construído a partir da insígnia do Outro – I(A) –, é o que vem no lugar de (-φ), ou seja, no lugar do que falta ao Outro.
O sujeito se depara com essa falta até que ele possa voltar a colocar outra pessoa nesse lugar vazio e continuar a sua vida amorosa.
O enlutado tem lembranças em que demonstra um grande amor pela pessoa perdida, assim como um grande ódio.
No caso do melancólico, podemos dizer que há uma foraclusão do Outro do amor; ele perde esse Outro que ama e cuida, e o que lhe sobra é um supereu extremamente cruel, que odeia o sujeito.
O que eu fiz para merecer isso?”, que é uma forma de sustentar o Outro a partir de seu desejo.
no trabalho de luto o sujeito estava desprendendo uma energia enorme para dar conta da perda do objeto amado.
Quando consegue concluir esse trabalho, aparece um alívio, uma alegria, que vem de uma energia que agora é liberada.
No caso do delírio de pequenez ou delírio de ruína, o sujeito se encontra sempre em seu centro, foi por causa dele, de alguma coisa que ele fez, que ele se arruinou, arruinou a família, o bairro, o país e o mundo.
Freud situa o ideal do eu (o que os pais queriam que eu fosse) como herdeiro do narcisismo infantil, ou seja, é o ideal do eu – I (A) – que sustenta no adulto a imagem do eu – i(a) – do sujeito. O supereu é descrito como herdeiro do complexo de Édipo, que se tornará presente na angústia – sempre angústia de castração –, denotando a presença do objeto a.
A paixão amorosa – e Lacan diz que há algo parecido na loucura – ocorre quando o sujeito, de maneira contingente, encontra na mesma pessoa a conjunção do ideal do eu e do eu ideal.
a auto-acusação na melancolia: o sujeito identificado com o objeto atrai a cólera do supereu contra ele próprio.
O homem não apenas é muito mais imoral do que ele acredita, como também muito mais moral do que ele sabe.
O supereu pode conseguir “levar o eu à morte, se este não consegue se defender desse tirano”. Mas como o eu se defenderia do supereu? Ora, com a mania. Para Freud, a mania não é uma defesa contra a depressão, mas sim contra o supereu. O sujeito escapa do supereu no processo melancólico virando maníaco.
O objeto a apresenta duas valências: de objeto agalmático (objeto de desejo) e de rebotalho (dejeto do Simbólico).
sexualidade: Para haver a apreensão do objeto, é necessário esse componente de pulsão de morte, o “sadismo” da sexualidade (que nos faz
para transar, reduzir o outro a um objeto para nosso gozo).
destruição: na destruição, como na guerra, pulsão de morte e Eros atuam.
Há um gozo envolvido na destruição e, como ele diz, o homem não abandona um gozo sem mais nem menos. Toda destruição implica a pulsão: a guerra é uma orgia de gozo
vontade de poder, na qual encontramos a satisfação da pulsão, que explica a atração pelo poder e o sadismo da tirania do mestre presente no S1.
Não há mais a pulsação da vida porque Eros se retraiu – e é Eros que está do lado da vida, da cultura, da cadeia significante, da linguagem.
O delírio reconstitui um Outro para o sujeito, o que é a função de qualquer delírio.
enquanto o paranóico é um condenado.” Este se sente perseguido por algo que não fez; foi condenado injustamente, toda a culpa cabe ao Outro. Ele é sempre um réu inocente. Mas não é um resignado como o melancólico, que acata inteiramente sua situação de indiciado, tem aquela humildade, sobre a qual Freud chama a atenção, e da qual não tem a menor vergonha.
Não é impossível a auto-acusação transformar-se em heteroacusação, assim como não é impossível encontrarmos traços de perseguição no melancólico. Acho mais difícil encontrarmos traços de auto-acusação no paranóico que traços de acusação do Outro no melancólico.
Direção do Tratamento
O sujeito está sempre aquém das contas que tem que prestar aos olhos do Ideal – e o credor é o supereu. Fazer as suas contas, ou acertar as contas, é realizar que aquilo que ele julgava ser impotente para resolver é impossível. A passagem da impotência (que corresponde à falência do desejo) ao impossível marca a saída da depressão. Trata-se da passagem do “eu não dou conta” do deprimido ao “o que não tem remédio, remediado está” da castração assumida pelo sujeito.
Tudo perdemos”, diz Lady Macbeth, “quando o que queríamos obtemos sem nenhum contentamento.
Essas formas da tristeza são extravios do desejo.
O tristonho, seja deprimido ou melancólico, é aquele que não se orienta no inconsciente, e cujo desejo se encontra extraviado. Ele está portanto desorientado em relação ao desejo inconsciente. Ele mal-diz o desejo; ou seja, não tem um dizer sobre ele e nem quer saber nada sobre ele. Eticamente falando, o sujeito triste é um frouxo, pois mantém uma relação frouxa com a cadeia inconsciente do desejo. A tristeza é uma frouxidão do desejo.
Orientar-se no Inconsciente significa saber quais são as cadeias significantes, os significantes primordiais que determinam no sujeito suas ações, suas fantasias, seus sintomas, ou seja, as vias por onde corre seu desejo.
Estar orientado em relação à estrutura que o determina como sujeito é, portanto, condição para ele cumprir o dever ético de bem-dizer proposto pela psicanálise.
o sujeito se encontra dividido em relação a seus desejos – o que não é motivo para recuar, mas para tentar bem pensá-los (para Espinosa), bem decifrá-los (para Freud), bem dizê-los (para Lacan).
Desejar é correlativo ao pensar, e o pensar ao agir.
O desejo leva à ação, a tristeza diminui a potência da ação.
Se, melancolicamente, o poeta diz que a tristeza não tem fim, a psicanálise mostra com a clínica a partir de Freud que a tristeza tem uma história: inicia uma perda, se constitui como covardia moral e rejeição do saber e termina com sua transmutação em gaio saber e desejo de existir.
O mal-dizer da tristeza corresponde ao calar-se, refugiar-se no silêncio, no isolamento onde o Outro está excluído, como dissemos.
O sujeito triste está desorientado na estrutura dos significantes que determinam para ele onde se articula seu desejo.
Como saber, trata-se de um saber orientar-se no inconsciente, como já dissemos, e também saber lidar com a falta a partir da linguagem.
O sentir-se frouxo, sinal de impotência, tem como correlato o sentimento de culpa, que é o indício de que o sujeito cedeu de seu desejo. Essa gama de afeto que faz do sujeito triste, covarde, sentir-se frouxo e daí culpado nos permite inserir o afeto depressivo no âmbito da ética.
o sintoma analítico com sua transferência de libido arranca o sujeito da covardia moral para pô-lo ao trabalho sobre o desejo
melancolia, caracterizando-a por uma “depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda atividade e a diminuição do sentimento de auto-estima, que se manifesta em auto-acusação e auto-injúria, indo até a espera delirante de punição.”
Quando saem do estupor e começam a recuperar alguma vivacidade, eles “ficam surpresos como se acordassem de um pesadelo; a cura é um despertar”
O delírio, diz ele, nada mais é senão “uma tentativa de interpretação do estado de aniquilamento profundo, de dor moral ou das causas que a produziram, e para as quais o paciente procura a razão ou prevê as conseqüências”
Travessia a ser efetuada e ultrapassada para o sujeito chegar ao gaio saber – um saber alegre que lhe confere o entusiasmo necessário para levar outro sujeito a fazer a experiência da análise, abrindo mão da saudade do Pai, e encontrar a melhor forma de lidar com o pior
Mania
Quando maníaco, sob o império do desvario metonímico da linguagem, o sujeito desvela-se como mortificado pelo significante, revelando em sua fala (que é uma fala de pura associação por assonância) que a palavra é de fato o assassinato da coisa. É o retorno no real do rechaço do inconsciente.
A mania, portanto, aparece como o avesso da melancolia. Se o sujeito fica triste porque perdeu o objeto, ficará extremamente contente quando encontrar o objeto em si mesmo.
Ele então se pergunta se a característica do objeto não resulta da sedimentação de investimentos de objetos abandonados. Isso é a própria composição do eu: o eu vai se compondo a partir da identificação com objetos abandonados.
Maníaco, o sujeito do desejo, metonimicamente, passa de significante em significante, sem jamais se deter, pois jamais encontra seu objeto de satisfação
Aula 7 - Efeitos Terapeuticos
A empolgação de Freud conhece um declínio na segunda tópica com a descoberta do automatismo de repetição e da reação terapêutica negativa, que o leva a postular a pulsão de morte. Ele confessa em 1932 em sua Conferência 34 nunca ter sido “um entusiasta da terapia” e, embora afirmando o valor terapêutico indiscutível da análise, termina dizendo que “não é tanto como terapia que gostaria de recomendar a psicanálise ao interesse dos senhores e sim por causa de seu conteúdo de verdade…”. Se o efeito terapêutico é necessário, ele não é, pois, suficiente. A psicanálise deve produzir um efeito de verdade para o sujeito – caso contrário ela não se distinguiria de outra terapia qualquer que, por mais obscurantista que seja, não deixa de operar ao usar a palavra, nem que seja por sugestão.
Curável e incurável. Término de análise. Em relação ao neurótico. A neurose como referência.
Ao final de cinco anos de análise, todos os fenômenos corporais haviam desaparecido, bem como os da série de automatismo mental, e o paciente pôde separar-se de seu analista para compartilhar a “infelicidade incomum” de seus semelhantes.
Cura em Schreber.
Metáfora delirante substitutiva do Nome-do-Pai.
Que faz Schreber senão cons-truir uma versão do casal original diferente da versão paterna, na qual o gozo excessivo encontra um sentido e uma legitima-ção na fantasia de procriação de uma humanidade futura? Ele inventa e sustenta, por sua simples resolução, uma “ordem do universo” que é curativa das desordens do gozo cuja experiência ele sofreu, e, ali onde o Nome-do-Pai foracluído não promove a signif i cação fálica, advém uma signif i cação da suplência: ser a mulher de Deus, com a vantagem de que o gozo desde então consentido localiza-se na imagem do corpo, e com a diferença de que a signif i cação de castração do gozo é excluída, em prol de um gozo da relação com Deus que ruma para a inf i nitude. Há uma única restrição: essa inf i nitude não é atualizada — ainda não —, mas adiada para o inf i nito.
Aula 8 - Casos clínicos
As irmãs Papin
Narrativa do ato homicida
A singularidade do ato criminoso
A personalidade das irmãs Papin
Efeitos do ato criminoso em Léa e Christine
Os móbeis teóricos do crime das irmãs Papin
As condições de um delírio a dois
O personagem materno
Fatores desencadeantes do crime
A dinâmica paranóica do crime
A alucinação e a inelutabilidade da passagem ao ato
O personagem materno
Trata-se de Clémence, a mãe. A ligação particular que unia as duas irmãs ordenou, deu uma certa forma a esse crime. Mas o que constituiu a dinâmica, o motor desse ato demente, foram duas loucuras, as de duas pessoas que eram habitadas, cada uma delas, por seu próprio delírio: não eram as duas irmãs, e sim Christine e Clémence, a mãe — duas psicóticas frente a frente, com o delírio da filha corresponden-do ao delírio da mãe. É aí que se situa o eixo autêntico original do crime, e não na loucura de Christine e Léa, que foi apenas seu efeito secundário.
A partir de agora, falaremos essencialmente de Christine. É que Léa só fez girar nas áreas de influência de sua irmã mais velha, só fez sobreviver.
Vejamos, primeiramente, a loucura da mãe. Em relação às filhas, ela estava numa relação de apropriação. E era através das filhas que se sentia perseguida. Suas filhas eram afastadas dela. Clémence o disse em suas cartas a Christine e Léa. Citemos suas palavras: “Conto com vocês 2, apesar da minha dor sofrida porque me disseram que eles fez de tudo pra fazer vocês entrarem num convento.” Nessa mesma carta, ela chegou a denunciar os eclesiásticos, bem como as patroas de suas meninas, por afastarem dela suas filhas: “Afastaram vocês da sua mãe (…) eles vão derrubar vocês pra ser donos de vocês (…) vão fazer o que quiser com vocês. Partam, não dêem os 8 dias de aviso aos patrões, vão embora.”
Num outro momento, ela predisse: “Na vida nunca se sabe o que espera a gente (…) têm inveja de vocês e de mim (…). Desconfiem, a gente pensa que tem amigos e muitas vezes são grandes inimigos, incrusive aqueles que cerca a gente mais de perto.” E escreveu ainda: “Afastaram vocês da sua mãe pra vocês não verem nada do que eles fez com vocês (…) Deus nunca vai admitir de encerrar 2 moças. Quanto mais a gente é honestos, mais a gente sofre com os católicos.” Podemos supor que o desejo de Clémence de impedir as filhas de vestirem o hábito tenha sido uma decorrência da vocação religiosa de Emília, a primogênita, que só encontrara esse caminho para fugir de sua dominação. A mãe, aliás, nunca a aceitou nem perdoou, e não mais lhe dirigiu a palavra. Ser privada de uma filha era da ordem do insuportável. Acima de tudo, era preciso que isso não se repetisse. E, como vimos, por pouco Christine não seguiu Emilia nesse caminho.
As cartas em questão são cartas prementes, escritas por uma mãe desnorteada, porque as filhas haviam rompido toda e qualquer relação com ela. Até então, ela fazia o que queria com as moças. Colocava-as ou as retirava das casas dos patrões a seu bel-prazer, tirava-lhes os salários e não parava de lhes fazer observações desagradáveis. Christine diria, mais tarde: “Quando essa mulher .Clémence. nos via, ela nos enchia de críticas.” Enquanto esse tipo de relacionamento perdurou, Clémence teve a sensação de estar mandando no jogo. Em síntese, estava de olho nas filhas e as segurava com mão de ferro. Foi desse olhar persecutório e dessa dominação da mãe que Christine tentou escapar. Isso porque, se a mãe fez um delírio de ciúme (tendo as filhas por objeto), Christine fez um delírio paranóico de perseguição e reivindicação (libertar-se, livrar-se dessa dominação).
Se o histérico sofre no corpo e o obsessivo, nos pensamentos, o paranóico, por sua vez, sofre com o outro, o semelhante. Assim era o funcionamento mental de Christine, um funcionamento que se baseava na percepção do outro como perseguidor.
São essas duas loucuras, portanto, que constituirão o ponto de partida de nosso exame do crime das irmãs Papin. Para que as irmãs chegassem à situação de lhes ser possível cometer um crime, para que chegassem ao ponto extremo a que decaíram, seriam necessárias pelo menos três condições, que abordaremos sucessivamente.
Analogia
Talles e Regina, a mãe — dois psicóticos frente a frente, com o delírio do filho correspondendo ao delírio da mãe.
Em relação aos filhos, ela estava numa relação de apropriação.
De ter que cuidar de dois inúteis.
Ou ele sai do lugar lá ou ele larga, deixa em paz.
Desconfiem.
Empuxo a sair de casa. Empurrar os filhos para fora de casa. Só dão despesas.
Até então, ela fez o que queria com o Gustavo, mudar de casa, mudar de cidade. Colocava-o ou o retirava das casas a seu bel-prazer, tirava-lhes os salários e não parava de lhes fazer observações desagradáveis.
Quando essa mulher .Regina. nos via, ela nos enchia de críticas.
Enquanto esse tipo de relacionamento perdurou, Regina teve a sensação de estar mandando no jogo.
São insuportáveis.
Exploração.
Querem que sejamos úteis. Produtivos. Processo seletivo: entra um, sai outro. O que permanece é para o patrão.
Delírio de Reivindicação
Christine e Léa não suportavam “receber ordens”.
Sobretudo Christine, cuja natureza desconfiada e altiva não admitia nenhuma observação, nem de sua mãe, Clémence, que a cumulava de críticas, nem de patroa alguma. Qualquer observação lhe era absolutamente intolerável — uma ferida narcísica vivida como persecutória, que comportava para ela, infalivelmente, um suposto prazer do outro em humilhá-la.
Por isso, seu “fazer” era perfeito, impecável. Sua “obra” perfeita, sua dedicação inesgotável ao trabalho, era, para Christine, a muralha que mantinha na coleira o monstro persecutório, aquele monstro persecutório que fazia assomar nela uma tensão agressiva cuja pressão a ultrapassava e a inundava. Pois não havia Christine, num dia em que a Senhora puxara com dois dedos a manga de Léa, fazendo-a ajoelhar-se para apanhar um papel que escapara à arrumação, um papel caído no piso reluzente, não havia Christine, “com as bochechas pegando fogo” e a respiração entrecortada, num momento de fúria que aterrorizara Léa, derrubando as chapas de ferro do fogão, com grande estardalhaço, para aplacar sua cólera? Christine e Léa ameaçaram, em eco: “Ela que não comece nunca mais, senão…” Sim, sua sensibilidade à mais ínfima observação, à menor “beliscadura”, ficava à flor da pele, inelutável, extrema. Porém os barulhos e a fúria da cozinha nunca chegavam à sala íntima/escritório onde a Senhora gostava de ficar, para saborear o conforto acolchoado de sua casa, que agora tinha um cheiro muito bom de cera e resplandecia como uma “moedinha nova”, graças ao trabalho das duas moças.
Primeira condição: tentativa de romper o vínculo materno. Christine tentou furtar-se à dominação de Clémence, objeto invasivo e persecutório. Seu primeiro movimento foi romper todas as relações com ela.
Depois, não apenas Christine deixou de lhe dar seus salários, como chamou a “Madame” de mãe. Visivelmente, porém, isso não bastou para marcar a separação. Algum tempo depois, sobreveio o incidente da prefeitura, no qual Christine proferiu acusações contra o prefeito da cidade, a quem fora solicitar a emancipação de Léa A irmã caçula representava para Christine um outro eu, uma espécie de prolongamento dela mesma, reforçado por sua presença permanente. Christine a cercava de atenções e a protegia, dando-lhe profundas demonstrações de amor. Agindo assim, reparava a si mesma através dela. Ora, Léa, esse duplo de Christine, era menor e estava realmente sob a tutela materna. Era como se a própria Christine o estivesse. Ao libertar a irmã caçula daquela que a subjugava, era a si mesma que estava tentando libertar; e, ao solicitar ao prefeito a emancipação, era da mãe que ela a exigia, na verdade. É que se operou um deslizamento metonímico do significante “mãe” .mère. para o significante “prefeito” .maire.. Esse deslocamento produziu-se sendo favorecido pela semelhança fonética entre as duas palavras.
Em virtude da superposição dos dois significantes, a demanda de emancipação tornou-se indizível. Como demanda que não podia ser dita, transformou-se na queixa persecutória. As irmãs estavam agitadas. O prefeito tentou tranquilizá-las. Christine, entretanto, foi ao comissariado denunciá-lo, por às estar perseguindo em vez de protegê-las. Essas eram exatamente as mesmas censuras que ela formulava a respeito da mãe. Ao acusar um de perseguição, na verdade estava acusando o outro (Clémence).
Segunda condição: transferência materna para a futura vítima. A segunda condição para criar uma situação perigosa foi a transferência materna feita por Christine para a Sra. Lancelin — uma transferência favorecida por sua vontade de escapar à perseguição de Clémence e pela necessidade de preencher o lugar que a mãe deixara vazio. Mas, que entendemos por transferência? A seguirmos Freud, trata-se de uma rememoração. Mas é uma rememoração posta em ato, encenada como num palco: em vez de rememorar um sentimento de amor ou de ódio, ama-se ou se odeia a pessoa sobre quem incide a transferência. Essa transferência instaurou-se no dia em que a Sra. Lancelin concordou em contratar os serviços de Léa, a pedido de Christine, e se consolidou em decorrência de sua intervenção a respeito dos salários das duas irmãs.
No começo, a patroa parecia totalmente diferente de Clémence: não procurava satisfazer seus próprios interesses à custa das moças. Era uma mãe suportável, que se preocupava com o bem-estar delas. Aliás, vimos as jovens empregadas chamarem a Sra. Lancelin de “mamãe”, em segredo. Sob as asas pacificadoras dessa nova mãe, Christine finalmente pôde sentir-se protegida. Encontrou nisso uma verdadeira possibilidade de organizar um universo em função de seu delírio de perseguição e sua expectativa da proteção. Mas, como todo paranóico, ela continuou em estado permanente de alerta, à espreita de qualquer sinal que pudesse representar uma ameaça.
Ora, nessa relação, como em qualquer uma, havia contratempos:
palavras indelicadas e gestos desazados, como, por exemplo, no dia em que a Sra. Lancelin puxou Léa pela manga e a pôs de joelhos para apanhar um papel caído no chão. Desnecessário dizer que esse foi um incidente muito mal visto por Christine.
“Observações.” Era assim que Christine chamava as críticas, tanto as provenientes de Clémence quanto as da Sra. Lancelin. Esse significante, “observações”, que remete ao olhar, circulou entre a mãe e a patroa e reforçou a transferência, que aos poucos tornou-se negativa.
Decididamente, a patroa não parecia muito diferente da mãe delas. E o fantasma da perseguição ressurgiu.
Por algum tempo, no entanto, Christine encontrou um modo de se haver com essa situação, encenando o que se poderia chamar de “cuidar convenientemente de um filho”. Dali por diante, ela é que ocuparia o lugar de “boa mãe” que fora da Sra. Lancelin, enquanto Léa ocuparia o de Christine menina.
Terceira condição: o olhar. O efeito do olhar assumiu toda a sua importância. Christine encenava sua posição de “boa mãe” sob o olhar da Sra. Lancelin, que se tornou a perseguidora, como fora Clémence.
Através desse novo esquema relacional, Christine a faria ver, iria mostrar-lhe como se deve agir com uma criança. O olhar da patroa tinha uma importância capital. Era ele que sustentava toda a cena. Por um lado, permitia a Christine investir numa identidade válida e, por outro, permitia que ela se reparasse através de Léa, que oferecesse a si mesma uma vida imaginária mais feliz. Era isso que estava em jogo.
Essa iniciativa revelou-se o último recurso para fugir da perseguição. Então, cuidado. Era preciso que não houvesse falhas, que nada fizesse Christine decair de sua posição de “mãe amorosa”. Caso contrário, todo o equilíbrio de seu mundo correria o risco de se romper, arrastando-a para seu caos. Nesse caso, um verdadeiro abismo se abriu diante dela. Portanto, tratava-se de uma situação explosiva; dali em diante, tudo dependeria do que fosse lido no olhar da patroa: Christine estava “de olho” na Sra. Lancelin.
Analogia
Talles fez um delírio paranóico de perseguição e reivindicação (libertar-se, livrar-se dessa dominação)
Assim era o funcionamento mental de Christine, um funcionamento que se baseava na percepção do outro como perseguidor.
“Quando essa mulher .Regina. nos via, ela nos enchia de críticas.
Ela que manda, não pode tirar as coisas do lugar, existir do lado dela.
Eu não sei porque que você sai da casinha.
Me deixa sozinha.
Me dá sossego.
Mãe invasiva.
Dar o salário para a mãe.
Alugar casa, pagar as contas da casa, viagens, telefone.
Para o irmão também notebook, cursinho, telefone, casa para morar, alimentação, vôo de avião, psiquiatra. Conserto de notebook.
Gustavo, esse duplo de Talles, era menor e estava realmente sob a tutela materna. Era como se o próprio Talles o estivesse. Ao libertar o irmão caçula daquela que o subjugava, era a si mesmo que estava tentando libertar;
Através da Universidade.
Saia de casa e vá para o mundo.
Não fica dentro de casa com essa mulher doida não, escutando as merdas que ela fala.
Transferência materna: Rayssa.
Uma tentativa de instaurar a mãe boa. A Rayssa é boa.
Morar juntos.
Viajar juntos.
Ela paga pra mim.
uma transferência favorecida por sua vontade de escapar à perseguição de Regina e pela necessidade de preencher o lugar que a mãe deixara vazio.
no dia em que a Rayssa concordou em emprestar dinheiro.
Em alugar uma casa para morarmos juntos.
Que me ouviu chorar e fez uma proposta de trabalho.
Era tudo que eu queria. Um trabalho. Sair daquela situação.
No começo, a Rayssa parecia totalmente diferente de Regina: não procurava satisfazer seus próprios interesses à custa das moças. Era uma mãe suportável, que se preocupava com o bem-estar delas.
Sob as asas pacificadoras dessa nova mãe, Talles finalmente pôde sentir-se protegido. Encontrou nisso uma verdadeira possibilidade de organizar um universo em função de seu delírio de perseguição e sua expectativa da proteção. Mas, como todo paranóico, ele continuou em estado permanente de alerta, à espreita de qualquer sinal que pudesse representar uma ameaça.
Observações.” Era assim que Talles chamava as críticas, tanto as provenientes de Regina quanto as da Rayssa. Esse significante, “observações”, que remete ao olhar, circulou entre a mãe e a amiga-patroa e reforçou a transferência, que aos poucos tornou-se negativa. Decididamente, a Rayssa não parecia muito diferente da mãe dele. E o fantasma da perseguição ressurgiu.
Por algum tempo, no entanto, Talles encontrou um modo de se haver com essa situação, encenando o que se poderia chamar de “cuidar convenientemente dos estudos”
Delírio a dois
As condições de um delírio a dois Assim, é preciso que haja condições muito particulares para gerar esse fenômeno. Quais são elas?
— É necessário que haja dois sujeitos presentes: um sujeito ativo, que impõe um delírio a outro sujeito sobre quem exerce uma influência segura. Este último, receptivo e disposto à docilidade, aos poucos se deixa dominar pela loucura do outro. Trata-se, na maioria das vezes, de duas pessoas de uma mesma família — irmão e irmã, mãe e filha, ou, na situação em exame, duas irmãs. Essa possibilidade também existe entre marido e mulher.
— Além dessa primeira condição, para que o delírio se torne comum a ambos, é preciso que esses dois indivíduos, durante um longo período, vivam num mesmo meio e cultivem os mesmos interesses, as mesmas apreensões e as mesmas esperanças, surdos às influências externas. Sob a forma da confidência, os dois atores compartem suas aspirações e sofrimentos, que se tornam um bem comum aos dois, do qual eles falam nos mesmos termos e o qual têm a possibilidade de reformular de maneira quase idêntica. Portanto, é no tempo, simultâneo nas duas mentes, que se realiza esse trabalho, a ponto de transformá-las em mentes siamesas.
— A terceira condição necessária à instauração de uma loucura a dois prende-se à verossimilhança do delírio: quanto menos brutal ele é, mais se torna comunicável. Um louco extremamente alucinado, excessivamente perseguido, implacável em suas reivindicações e afirmações, têm pouca probabilidade de arrastar um outro, mesmo frágil, para sua própria loucura.
Em outras palavras, o contágio é tão mais fácil quanto mais o delírio se mantém dentro de limites aceitáveis. Somente essa condição permite que as convicções de um se implantem na razão do outro.
Em resumo, aquele que designamos como “o fraco” — neste caso, Léa — só consente nesse jogo da loucura a dois quando a história o concerne pessoalmente e quando sua inteligência não se rebela. Sua participação nos acontecimentos, uma parte dos quais têm ligações com a realidade, permite que se transponha a passagem que leva do julgamento falho ao delírio.
Convém esclarecer que, na maioria dos casos, “o fraco” é menos duramente atingido por essa loucura do que seu parceiro. Muitas vezes, basta separar os dois protagonistas para que o segundo, privado da produção delirante do parceiro, se recupere, chegando até a criticar suas divagações anteriores. Léa estava nesse caso exemplar: sua personalidade era absolutamente aniquilada pela de Christine, esta uma psicótica autêntica, que exercia sobre a irmã um domínio desmedido.
Essa análise fenomenológica foi feita há muito tempo, em especial por Lasègue, em meados do século XIX. Foi uma análise importante, porque introduziu um pouco de ordem num quadro que até então parecia confuso
Com Lucas Barbosa
Convívio.
Confissão dos pensamentos, dos sofrimentos, os outros são detestáveis.
Delírio dentro do razoável.
Anticapitalista, anti-universitário.
Anti-empresarial.
Sob a forma da confidência, os dois atores compartem suas aspirações e sofrimentos, que se tornam um bem comum aos dois.
A mãe, as filhas e a Paranóia
As irmãs Papin
Como era estranho, de fato, o funcionamento dessa mãe que não criou Chris-tine nem Léa, mas que as internou e as mudou de lugar a seu critério, durante toda a infância e a adolescência delas, até o momento em que as duas foram trabalhar para os Lancelin.
Christine tinha apenas vinte e oito dias de nascida quando Clémence, sua mãe, confiou-a a Isabelle, uma cunhada solteira. Com Isabelle, Christine viveu sete anos de dias tranqüilos e felizes, cujo curso Clémence interrompeu, para retomá-la e interná-la logo em seguida no Instituto do Bom Pastor, com sua irmã mais velha, Emília — sim, porque as irmãs Papin eram três, e não duas, mas isso é outra história.
Assim, foi entre os muros altos do Bom Pastor, mas sob o olhar benevolente e protetor de Emília, que logo vestiria o hábito, que Christine passou oito anos, oito anos durante os quais aprendeu a trabalhar e a obedecer.
Christine tinha quinze anos quando Clémence foi buscá-la, apressada e transtornada — Clémence, a mãe a quem Christine acabara de participar seu desejo de seguir o caminho traçado pela irmã, Emília, e também vestir o hábito, incentivada nessa vocação pelas religiosas do Bom Pastor. Para Clémence, era demais. Com que então, depois de Emília, também sua segunda filha, Christine, lhe seria retirada, roubada, raptada por uma força obscura e maior que a dela, dela, Clémence?
Assim, ela foi buscar Christine antes que fosse tarde demais, enquanto ainda havia tempo de reivindicar seus direitos sobre ela.
Christine já estava em idade de trabalhar, de ganhar dinheiro, e portanto, Clémence tratou de lhe arranjar um emprego. E, durante anos, colocou e tirou Christine de uma casa após outra. Em pouco tempo, chegou a vez de Léa, cujo esquema infantil assemelhara-se em todos os pontos ao de Christine: entregue a uma mãe de criação com um mês, na casa de uma tia de Clémence, depois retomada e prontamente internada no orfanato Saint-Charles, de onde Clémence a retirou quando lhe pareceu que ela estava em idade de trabalhar, aos treze anos.
Neste ponto coloca-se uma pergunta em nosso discurso. Uma pergunta crucial para nós: por que Clémence entregava, retomava, tornava a internar e buscava novamente uma ou outra de suas filhas? É nosso entendimento que, com isso, ela procurava certificar-se repetidamente de seu domínio sobre as filhas, de seu direito de vigiá-las, a elas que, em todas as situações, deveriam continuar-lhe “submissas”. Foi essa a expressão da própria Clémence.
Mas isso não basta para explicar tudo. Na realidade, houve duas cartas escritas por Clémence a suas duas filhas, em fevereiro e março de 1931, ou seja, quase exatamente dois anos antes do crime e dois anos depois do rompimento súbito, completo, sem palavras e sem motivo das filhas com a mãe. São essas duas cartas que nos revelam mais de perto, sem dúvida, o mecanismo que estava em ação em Clémence, e que era propriamente “delirante”. Nessas cartas, tratava-se da inveja que sentiriam dela, Clémence, e de suas filhas: “Têm inveja de vocês e de mim”, escreveu ela, textualmente. Tratava-se também de perseguição: ela estaria sendo perseguida através das filhas. Era um perseguidor não identificado, designado por um “eles” impessoal. “Eles vão derrubar vocês pra ser donos de vocês, vão fazer o que quiser com vocês.”
Essas cartas atestam um estado de tensão, um estado de urgência, a urgência de escapar desse “eles” persecutório. Era de um complô que se tratava, de um complô em que os empregadores se fariam cúmplices de Deus para praticar, com toda a impunidade, o sequestro de crianças que estava em questão. São duas cartas, portanto, que constituem verdadeiras provas materiais de um crime, paradigma do conhecimento paranóico, nas quais foi o funcionamento da própria Clémence com as filhas que, totalmente desconhecido dela como algo que a movia, foi atribuído ao outro, projetado nesse “eles” — um monstro anônimo e devorador de crianças que, por ser anônimo, obviamente estava em toda parte, já que era dela mesma, Clémence, que se tratava. “A gente pensa que tem amigos e são grandes inimigos”, escreveu ela a suas filhas nessas cartas.
Mas, tentemos voltar a Christine e Léa na casa dos Lancelin. Foi Clémence, sempre Clémence, quem “colocou” Christine. Ela estava com vinte e dois anos. Desde a separação de Emília, Christine sentia saudade daquele amor encerrado no Bom Pastor, e investiu toda a sua afeição na irmã caçula, Léa, que tinha então dezesseis anos. Christine queria vê-la, vê-la sempre a seu lado, tanto assim que, passadas algumas semanas, pediu à Sra. Lancelin que a contratasse para auxiliá-la, para ajudá-la nas tarefas domésticas. A Sra. Lancelin concordou, radiante: Christine seria cozinheira e governanta, e Léa, arrumadeira.
As regras em vigor na casa foram incluídas na contratação e enunciadas pela Senhora. Somente a Senhora cuidaria das empregadas, daria as ordens e formularia as observações necessárias ao bom andamento dos trabalhos.
Não haveria nenhuma familiaridade entre a classe das criadas e a dos patrões. Entre um grupo e outro, nenhum intercâmbio. Eram essas as regras da casa, regras que convinham perfeitamente a Christine, cujo caráter desconfiado e altivo não se adaptava bem a nenhuma familiaridade. Além disso, Léa estava a seu lado, e Léa concordou.
Bem alimentadas, bem instaladas e bem tratadas, elas seriam ali o que sempre tinham sido: empregadas perfeitas, limpas, honestas, perfeitamente conhecedoras de seu serviço. Em silêncio, como no convento, trabalhavam duro e bem o dia inteiro, dispondo de uma ou duas horas na parte da tarde para descansar e se recolher a seu quarto. Nunca pediam autorização para sair; sua grande saída era a missa das oito aos domingos, à qual elas compareciam de luvas e chapéu, arrumadas com capricho e elegância certeiros.
De uma altivez distante com todos, mas polidas e deferentes, elas eram e continuaram a ser, até o fim, verdadeiras “pérolas”, pelas quais todos os amigos dos Lancelin os invejavam: empregadas, “criadas-modelo”. Empregadas modelares, sem dúvida, mas, ainda assim, empregadas estranhas, misteriosas. Para começar, havia aquela afeição exclusiva que as unia. Em seis anos de vida na casa dos Lancelin, nunca esboçaram o menor sinal de se encontrarem com qualquer rapaz, nem tampouco com as jovens domésticas empregadas nas casas vizinhas.
Nem tampouco com os comerciantes do bairro, que, não conseguindo arrancar delas dez palavras seguidas, achavam-nas esquisitas. Nunca iam a festas, nunca ao cinema. Inseparáveis, sua grande alegria era ficarem em seu quarto, “nossa casinha”, como gostavam de dizer.
Assim recolhidas num encerramento amedrontado e delicioso, fora do mundo, fora do tempo, que faziam? Ora, elas bordavam. Bordavam seu enxoval: anáguas de tecido delicado, calcinhas com babados em camadas, camisolas com as iniciais bordadas, adornadas com as mais belas rendas — um enxoval luxuoso, digno das moças de melhor dote na cidade. Mas, para quem eram essas roupas íntimas? Para que noivo?
Para que namorado? Elas, que nunca deixariam nenhum homem se aproximar. Isso era uma promessa, um juramento entre as duas: nenhum homem jamais as separaria.
Felicidade a dois, completude narcísica, mundo fechado em que uma era para a outra a totalidade do universo, compartilhando tudo, numa transparência total: o trabalho, o descanso, as diversões, os medos, as apreensões, as mágoas, Clémence, a Senhora e, mais tarde, a responsabilidade igual pelo crime. A respeito delas, falou-se muito em “almas siamesas”, casal psíquico. Isso merece um esclarecimento. O vínculo foi sempre assimétrico entre Christine e Léa. Era Christine quem protegia, ensinava, ordenava, mimava e consolava, enquanto Léa se deixava amar. Não estamos diante de dois seres idênticos, mas antes, da roupa e seu forro, do original e sua cópia, da voz e seu eco.
Outro traço estranho, ainda mais inquietante do que estranho, era a melindrosa susceptibilidade das moças a qualquer forma de censura ou observação. Sim, Christine e Léa não suportavam “receber ordens”.
Sobretudo Christine, cuja natureza desconfiada e altiva não admitia nenhuma observação, nem de sua mãe, Clémence, que a cumulava de críticas, nem de patroa alguma. Qualquer observação lhe era absolutamente intolerável — uma ferida narcísica vivida como persecutória, que comportava para ela, infalivelmente, um suposto prazer do outro em humilhá-la.
Por isso, seu “fazer” era perfeito, impecável. Sua “obra” perfeita, sua dedicação inesgotável ao trabalho, era, para Christine, a muralha que mantinha na coleira o monstro persecutório, aquele monstro persecutório que fazia assomar nela uma tensão agressiva cuja pressão a ultrapassava e a inundava. Pois não havia Christine, num dia em que a Senhora puxara com dois dedos a manga de Léa, fazendo-a ajoelhar-se para apanhar um papel que escapara à arrumação, um papel caído no piso reluzente, não havia Christine, “com as bochechas pegando fogo” e a respiração entrecortada, num momento de fúria que aterrorizara Léa, derrubado as chapas de ferro do fogão, com grande estardalhaço, para aplacar sua cólera? Christine e Léa ameaçaram, em eco: “Ela que não comece nunca mais, senão…” Sim, sua sensibilidade à mais ínfima observação, à menor “beliscadura”, ficava à flor da pele, inelutável, extrema. Porém os barulhos e a fúria da cozinha nunca chegavam à sala íntima/escritório onde a Senhora gostava de ficar, para saborear o conforto acolchoado de sua casa, que agora tinha um cheiro muito bom de cera e resplandecia como uma “moedinha nova”, graças ao trabalho das duas moças.
Três episódios iriam atravessar a superfície lisa dessa existência, três episódios que, como um drama em três atos, iriam entretecer-se e se desatar na trágica noite de 2 de fevereiro:
— A Sra. Lancelin, comovida com a “seriedade” e a dedicação de suas empregadas, desviou-se da regra de neutralidade que havia enunciado no começo. Resolveu intervir para que, dali por diante, Christine e Léa guardassem consigo a íntegra de seus salários, dos quais sua mãe se apoderava desde sempre.
Foi um acontecimento da maior importância, porque, a partir daí, a Sra. Lancelin passou a ser vista por um novo prisma. Já não era simplesmente uma patroa, mas uma mulher que se preocupava com a felicidade e o bem-estar de suas empregadas. Léa e Christine acolheram esse gesto como um gesto de afeição, que instaurou entre elas e a Sra. Lancelin um vínculo de outra ordem: um vínculo materno, a face apaziguada e civilizada da maternidade, em enorme contraste com a face possessiva, reivindicatória e invejosa de sua mãe. “Ela é muito boa, a madame”; aliás, no segredo de suas confidências, porventura não passaram elas a chamá-la de “mamãe”?
— O segundo acontecimento foi o rompimento posterior de Léa e Christine com a mãe, Clémence. Um rompimento súbito, definitivo, sem motivo aparente, sem briga e sem uma só palavra, num domingo de outubro. Clémence, interrogada sobre o acontecimento, viria a declarar: “Eu nunca soube por que motivo minhas filhas não queriam mais me ver.” Léa e Christine, interrogadas por sua vez, evocaram as “observações” de Clémence que as aborreciam. De novo a palavra “observações”. Vemo-nos aí no cerne do espelho das palavras, do espelho dos seres, do espelho das paixões deslocadas umas para as outras.
A partir de então, com Clémence fora do páreo, foi a Sra. Lancelin que ocupou todo o espaço materno. A tensão aumentou em casa, o caráter das duas irmãs tornou-se mais sombrio e mais taciturno, elas se ensimesmaram ainda mais e passaram a já não dirigir a palavra a ninguém.
— Foi na prefeitura de Le Mans que se encenou o terceiro ato. À prefeitura elas se dirigiram num dia do mês de agosto, quando os Lancelin estavam de férias. Num estado de extrema tensão e hiperexcitação, apresentaram seu pedido ao prefeito: fazer com que Léa fosse emancipada. Mas, de quem e de quê? Elas não sabiam dizer. Diante do prefeito atônito, as duas evocaram um suposto seqüestro, reiterando ao mesmo tempo, vigorosamente, seu desejo de continuarem juntas na casa dos Lancelin, onde estavam muito bem.
Procedimento confuso e atrapalhado, incompreensível para o prefeito, que as encaminhou prontamente ao comissariado central. Lá, diante do comissário estupefato, elas se disseram perseguidas — perseguidas pelo “prefeito, que, em vez de defendê-las, as perseguia”. Em suma, o mal-estar do comissário foi tamanho que, tão logo o Sr. Lancellin voltou, ele mandou chamá-lo para lhe fazer um alerta, atrevendo-se até a enunciar um “Se eu fosse o senhor, não ficaria com essas moças: elas são verdadeiras perseguidas.” Mas, sendo ele mesmo, René Lancelin não permitia que ninguém se intrometesse. Assim, fez ouvidos moucos e chegou até a se esquecer do aviso. Esqueceu-o até a noite em que… houve um ferro defeituoso que queimou os fusíveis, mergulhando a grande casa na penumbra e Christine e Léa na confusão, e houve uma suposta observação, um brilho de humor nos olhos daquela mãe e daquela filha unidas, que as enfrentavam, dois olhares em que elas leram algo de terrível: “empregadas imprestáveis”, “empregadas inúteis”.
Silenciar aqueles olhares… Não ver mais os olhos que as lançavam nas trevas, em suas trevas.
Tudo se transtornou, desencadeando-se a orgia sangrenta.
A loucura de Christine
Mas, a partir do mês de abril, foram as crises de Christine que passaram a ocupar o primeiro plano. Crises cujo objeto, cujo centro era Léa. Com insistência, ela gritava que lhe “dessem Léa”, que lhe “levassem Léa”. Eram crises de extrema violência, que em várias ocasiões exigiram o uso da camisa-de-força. Crises, enfim, que pareciam, sob diversos aspectos, uma repetição do ato criminoso: o mesmo grau de agitação, as mesmas tentativas reiteradas de arrancar os próprios olhos ou os olhos daqueles que supostamente a separavam de Léa: os da carcereira e até os de seu advogado, que nunca deixou de lhe dedicar uma atenção benevolente e afetuosa. As mesmas exibições eróticas, levantando bem alto as saias, com palavras obscenas, mordendo quem se aproximasse, atirando-se nas paredes e janelas, recusando o real que a separava de Léa.
Ver Léa, tê-la a seu lado para apagar a alucinação aterrorizante que agora se impunha a ela: “Léa, pendurada numa árvore, com as pernas cortadas.” Sua agitação foi tamanha, na noite de 12 de julho, que uma carcereira que a acudiu veio depois a declarar: “Christine talvez fosse um monstro, mas uma dor como aquela seria capaz de enternecer uma pedra.” As pedras não se enterneceram e as paredes não se abriram para lhe dar passagem. Mas o coração da carcereira, ao contrário, comoveu-se. Contrariando todas as instruções, ela lhe levou Léa.
Quando Christine a viu, precipitou-se sobre a irmã, segurou-a e a apertou em seus braços até quase sufocá-la. Léa desmaiou e Christine a fez sentar-se na beira da cama, tirou-lhe a blusa e, com olhos assustadores e num estado de exaltação crescente, com a respiração ofegante, suplicou-lhe: “Diga que sim, diga que sim…” Léa começou a sufocar e a se debater, tentando escapar daquele furor. O chefe da carceragem teve que separá-las e amarrar Christine.
Que sombra, que imagem, que marionete de seu teatro teria Christine abraçado nessa noite? Nunca saberemos, mas o que sabemos, em contrapartida, é que, depois desse abraço, que seria o último, Christine mergulhou num desconhecimento total de Léa. Nunca mais reclamou sua presença, nunca mais pronunciou seu nome, até morrer.
Ao mesmo tempo que se operou essa separação, tão selvagem quanto definitiva, e que se rasgou o laço que unia solidamente as duas irmãs, instaurou-se em Christine um delírio místico, que passou a ocupá-la desde então. Como figurante em seu próprio julgamento, numa indiferença e numa ausência radicais, foi de joelhos que ela recebeu o veredicto que a condenou à morte, à cabeça decepada. Não formulou nenhum pedido no sentido de escapar a seu destino, recusando-se a assinar qualquer recurso da sentença e qualquer pedido de clemência.
Foi nas mãos de Deus, do Deus de Emília, que ela depositou sua sorte.
Christine morreu em 18 de maio de 1937, não no cadafalso, mas no manicômio judiciário de Rennes, de uma morte a que se entregara desde aquela noite de julho em que se havia separado de Léa para sempre.
Léa, condenada a dez anos de trabalhos forçados, saiu da prisão por conduta exemplar em 1943 e voltou para junto da mãe, Clémence, com quem viveu até o fim de seus dias. Morreu em 1982.
Analogia
Clemence: Regina
Christine: Talles
Léia: Gustavo
Talles e Gustavo não suportavam “receber ordens”
Sobretudo Christine, cuja natureza desconfiada e altiva não admitia nenhuma observação, nem de sua mãe, Clémence, que a cumulava de críticas, nem de patroa alguma. Qualquer observação lhe era absolutamente intolerável — uma ferida narcísica vivida como persecutória, que comportava para ela, infalivelmente, um suposto prazer do outro em humilhá-la.
Por isso, seu “fazer” era perfeito, impecável. Sua “obra” perfeita, sua dedicação inesgotável ao trabalho, era, para Christine, a muralha que mantinha na coleira o monstro persecutório, aquele monstro persecutório que fazia assomar nela uma tensão agressiva cuja pressão a ultrapassava e a inundava. Pois não havia Christine, num dia em que a Senhora puxara com dois dedos a manga de Léa, fazendo-a ajoelhar-se para apanhar um papel que escapara à arrumação, um papel caído no piso reluzente, não havia Christine, “com as bochechas pegando fogo” e a respiração entrecortada, num momento de fúria que aterrorizara Léa, derrubado as chapas de ferro do fogão, com grande estardalhaço, para aplacar sua cólera? Christine e Léa ameaçaram, em eco: “Ela que não comece nunca mais, senão…” Sim, sua sensibilidade à mais ínfima observação, à menor “beliscadura”, ficava à flor da pele, inelutável, extrema. Porém os barulhos e a fúria da cozinha nunca chegavam à sala íntima/escritório onde a Senhora gostava de ficar, para saborear o conforto acolchoado de sua casa, que agora tinha um cheiro muito bom de cera e resplandecia como uma “moedinha nova”, graças ao trabalho das duas moças.
O segundo acontecimento foi o rompimento posterior de Léa e Christine com a mãe, Clémence. Um rompimento súbito, definitivo, sem motivo aparente, sem briga e sem uma só palavra, num domingo de outubro. Clémence, interrogada sobre o acontecimento, viria a declarar: “Eu nunca soube por que motivo minhas filhas não queriam mais me ver.” Léa e Christine, interrogadas por sua vez, evocaram as “observações” de Clémence que as aborreciam. De novo a palavra “observações”. Vemo-nos aí no cerne do espelho das palavras, do espelho dos seres, do espelho das paixões deslocadas umas para as outras.
“empregadas imprestáveis”, “empregadas inúteis”
Filhos imprestáveis, filhos inúteis
Indiferença em ter a cabeça decepada.
Como diz minha mãe, o alívio da vida. Ter alívio.
Indiferença ao significado disso.
Tragédia. Do olhar dos outros. O que os outros vão dizer.
O prazer de ter assassinado as patroas.
Elas mexeram com quem não devia.
Brincaram com a pessoa errada.
Não brinquem comigo não. Eu estou falando sério.
O uso do imperativo.
Tira essa colcha dessa cama.
Isso não é colcha de gente dormir não.
Anda, sai do caminho.
Teoria Lacaniana
Deprimido, o sujeito é resposta do Real, fora do Simbólico, lá onde nem a vida tem sentido, apenas o pulsar do existir que não deixa de ser dor.
Aula 9 - Psiquiatria, Psicoterapias, Neurociências
preocupação de se constituir uma língua comum entre psiquiatras de todo o mundo, como um esperanto que pudesse terminar com o mal-entendido próprio à comunicação.
podemos nos perguntar se não estaria havendo uma inversão do procedimento psiquiátrico: os medicamentos determinam os diagnósticos.
Em outros termos, a estrutura é apreendida pela psicanálise e os fenômenos, pela psiquiatria.
Na psiquiatria, os objetos produzidos pelo saber da neurociência são os medicamentos que podem facilmente virar objetos de consumo quando a psiquiatria entra no discurso do capitalista.
O psiquiatra da reforma não pode ser o agente do capital. Nem o psiquiatra das neurociências, cujas pesquisas já são impulsionadas pelo capital e pela política de resultados que devem ser “evidentes para todos”.
A psicanálise é atualmente o que se inscreve contra o mainstream comandado pela psiquiatria e pela indústria farmacêutica
Estou aqui -
Referência Bibliográfica
- Introdução clínica à psicanálise lacaniana by Bruce Fink .Fink, Bruce. (z-lib.org)
- Teoria e clínica da Psicose, Quinet
- Psicose e Laço social: esquizofrenia, paranóia e melancolia - Quinet
- Psicose e Laço social: melancolia - Quinet
- O inconsciente a céu aberto
- Memórias de um doente dos nervos
- Freud
- Lacan