
The Stolen Letter and other Crime and Mystery Stories
A Carta Roubada: e outras Histórias de Crime e Mistério
A carta roubada
Não, tudo bem. Recebi informações pessoais, oriundas de uma pessoa altamente colocada, de que um certo documento de extrema importância foi roubado dos aposentos reais. O indivíduo que a subtraiu é conhecido; não existe a menor dúvida de quem seja: de fato, há testemunhas que viram quando ele se apossou desse papel. Sabe-se, também, que ele ainda está em posse do referido documento.
– E como sabem disso? – quis saber Dupin.
– Infere-se claramente – replicou o chefe de polícia – da própria natureza do documento e do não surgimento de certas consequências, que certamente ocorreriam, no momento em que o documento saísse das mãos do ladrão. Digamos que ele não chegou a utilizá-lo da maneira como ele deve planejar empregá-lo, caso tenha ocasião para tanto.
– Seja um pouco mais explícito – disse eu.
– Bem, eu posso aventurar-me um pouco mais além e dizer que esse papel confere a seu portador um certo poder em determinado círculo, no qual tal poder é imensamente valioso.
O comissário gostava de empregar o jargão diplomático.
– Ainda assim não entendi bem – disse Dupin.
– Não? Bem… A revelação do conteúdo desse documento a uma terceira pessoa, que não identificaremos, colocaria em questão a honra de uma certa personagem, de posição extremamente elevada; este fato confere ao portador do documento uma ascendência sobre esta personagem ilustre, cuja honra e paz de espírito ficam deste modo comprometidas.
– Mas esta ascendência – interpus eu – dependeria do conhecimento, por parte do ladrão, de que a pessoa roubada soubesse a identidade do próprio ladrão. Quem ousaria…?
– O ladrão – disse G… – é o ministro D…, que é capaz de ousar qualquer coisa, tanto digna como indigna. O método do furto não foi menos engenhoso do que ousado. O documento em questão – uma carta, para falarmos com franqueza – tinha sido recebido pela personagem roubada enquanto esta se achava sozinha no boudoir.4. real. Enquanto a examinava, esta personagem foi subitamente interrompida pela entrada de outra personagem exaltada de quem ela especificamente desejava esconder o conteúdo da carta. Depois de uma tentativa apressada e frustrada de colocá-la dentro de uma gaveta, ela foi forçada a depô-la, aberta como estava, sobre o tampo de uma mesa. O endereço, entretanto, achava-se na parte superior e, estando o conteúdo escondido, a carta não despertou atenção. Foi neste momento que entrou o ministro D…, cujo olhar de lince imediatamente pousou sobre o papel, reconheceu no endereço a caligrafia do remetente, observou a confusão da personagem que era a destinatária e, de imediato, desvendou o segredo. Depois de algumas transações de negócios de estado, realizadas apressadamente, como é de seu costume, ele retirou do bolso uma outra carta cujo envelope era parecido com o da carta em questão, abriu-a, fingiu que a estava lendo e então colocou-a exatamente ao lado da que já se encontrava sobre a mesa. Continuou a conversação durante cerca de quinze minutos, sempre tratando dos assuntos públicos. Finalmente, ao despedir-se, ele retirou de cima da mesa a carta que não lhe pertencia. Sua legítima proprietária viu o que ele estava fazendo, mas, naturalmente, não ousou atrair atenção para o ato, na presença da terceira personagem que permanecia ao seu lado. O ministro retirou-se, deixando sua própria carta – que não tinha a menor importância – sobre a mesa, no lugar da outra.
Eis aqui, portanto – disse-me Dupin –, precisamente o que você exigiu para tornar a ascendência completa – o conhecimento do ladrão de que o perdedor tem conhecimento da identidade de quem o roubou.
– Sim – respondeu o chefe de polícia –, e o poder assim obtido vem sendo usado, já há vários meses, para a obtenção de resultados políticos, tendo chegado a um ponto muito perigoso. A personagem roubada está inteiramente convencida, e tem mais certeza disto a cada dia que passa, da necessidade de recuperar sua carta. Mas isto, naturalmente, não pode ser feito às claras. Finalmente, levada ao desespero, ela me confidenciou o assunto.
Todos os idiotas são poetas: esta é uma coisa que o comissário de polícia sente na alma; e ele é meramente culpado de um non distributio medii.10. ao inferir a partir daí que todos os poetas são idiotas.
– Mas este é realmente o poeta? – indaguei. – Sei que são dois irmãos e que ambos adquiriram reputação nas letras. O ministro, segundo creio, escreveu tratados eruditos sobre cálculo diferencial. Ele é matemático e não poeta.
– Não, você está enganado. Eu o conheço bem: ele é ambos. Sendo poeta e matemático, certamente raciocina bem. Sendo apenas matemático, talvez ele nem raciocinasse… e então estaria nas mãos do comissário de polícia.
Diga a um desses cavalheiros, por favor, tão somente para fazer uma experiência, que você acredita que possa haver ocorrências em que x2 + px não seja totalmente igual a q, e, depois que conseguir fazê-lo entender o que você quer dizer, saia de seu alcance o mais depressa possível, pois, sem sombra de dúvida, ele vai tentar nocauteá-lo.
Todavia, eu sei que ele é ao mesmo tempo matemático e poeta, e, deste modo, minhas medidas foram adaptadas à sua capacidade, com referência também às circunstâncias que o rodeavam.
Eu sabia que ele era um palaciano e também um intriguant.14. de considerável ousadia.
antecipar – e os acontecimentos
a agir com simplicidade. Se não o fizesse deliberadamente, seria induzido a ela por uma questão de escolha. Você se recordará, talvez, de quão desesperadamente o chefe de polícia riu, quando eu lhe sugeri, em nossa primeira entrevista, que era bem possível que este mistério o perturbasse tão profundamente pelo simples fato de ser tão evidente.
o documento deveria permanecer sempre à mão, caso ele pretendesse lançar mão do mesmo para qualquer propósito; e sobre a evidência decisiva, obtida pelo comissário, de que não se achava escondido dentro dos limites da busca ordinária desse dignitário –, tanto mais me satisfiz de que, a fim de esconder a carta, o ministro tinha recorrido ao expediente abrangente e sagaz de não tentar absolutamente escondê-la.
Finalmente, meu olhar, enquanto percorria o circuito da sala, recaiu sobre um porta-papéis barato, feito de cartão comum filigranado, pendurado por uma fita azul e ensebada, presa a uma pequena maçaneta de latão abaixo do centro do tampo da lareira.
Neste porta-papéis, que tinha três ou quatro compartimentos, tinham sido colocados cinco ou seis cartões de visita e um único envelope. Este último estava muito sujo e amassado. Tinha sido rasgado quase em dois, bem na metade, como se a intenção inicial de rasgá-lo completamente, antes de jogá-lo fora como uma coisa inútil, tivesse sido alterada ou suspensa por uma decisão momentânea. Tinha um grande lacre negro, com o sinete de D… colocado muito conspicuamente sobre ele, sendo dirigido, com letra pequena e feminina ao próprio ministro D… Tinha sido atirado descuidadamente e até mesmo com desprezo em uma das divisões superiores do porta-papéis.
para todas as aparências
uma correspondência inútil
Neste caso, agi como partidário da dama em questão. Durante dezoito meses, o ministro a teve em seu poder. Agora, é ela que o tem no seu. Isto porque, sem saber que não está mais em posse da carta, ele vai prosseguir com suas exigências, tal como se ainda estivesse. Assim, inevitavelmente, ele mesmo provocará a destruição de sua carreira política. Sua queda, igualmente, não será mais precipitada do que comprometedora.
Na presente situação eu não tenho a menor simpatia – pelo menos, não sinto qualquer piedade – por aquele que vai descer. Ele é aquele monstrum horrendum, um homem genioso, sem qualquer princípio moral. Confesso, entretanto, que gostaria bastante de ficar sabendo do caráter preciso de seus pensamentos, quando, ao ser desafiado por aquela que o comissário denomina “uma certa personagem”, ele seja obrigado a abrir o envelope que eu deixei para ele no porta-papéis.
Un dessein si funeste,
S’il n’est digne d’Atrée, est digne de Thyeste.