Translate
The Others in Lacan

The Others in Lacan

Analyzing content...
Published:

Os Outros em Lacan

Os Outros em Lacan (Passo-a-Passo Psicanálise Livro 94.
Quinet Antonio

Introdução

Assim, abordamos o pequeno outro, o semelhante, igual e rival, que se encontra no par do estádio do espelho, sendo, portanto, do registro do imaginário.
Outro, cujo discurso é o inconsciente, que se manifesta nos sonhos, lapsos, sintomas e chistes e que, por ser da ordem do simbólico, é tecido de linguagem e pode ser “encarnado” no Outro do amor - inclusive o amor de transferência -, ao qual se dirigem as demandas e ao qual está articulado o desejo.

o objeto a, o outro pulsional no registro do real, que é o objeto causa de desejo, que se apresenta na fantasia e que se manifesta na angústia quando a falta falta - é o objeto condensador de gozo como objeto da pulsão em suas modalidades de objeto oral, anal, olhar e voz.

Gozo estruturado pelos discursos que constituem os laços sociais

Unico laço social que trata o outro efetivamente como sujeito é o discurso do analista.
Além do gozo fálico masculino, que Lacan conceitualiza a partir das fórmulas da sexuação. Este nos oferece uma outra lógica - distinta da lógica fálica que rege o ser e o ter, a medida e a razão - que nos abre para o outro como radicalmente diferente, imprevisível e sempre surpreendente. É a lógica do não todo, a lógica da diferença, enquanto diferença radical.

O pequeno outro

Ou o vejo com tudo aquilo que eu gostaria de ter - que inveja. Por que ele tem e eu não tenho,
se encontra em competição e se compara para ver quem tem melhor desempenho no trabalho, no sexo etc.

Pois o eu e o outro entram numa luta pelo reconhecimento mútuo e recíproco.
Essa bipolaridade caracteriza o registro imaginário e constitui a infelicidade do homem, pois o outro, quando não é objeto de desejo, é um estorvo, um inferno.
Um eu nunca vem sozinho - ele está sempre acompanhado do outro, seu eu ideal. Eis por que a instância do eu é fundamentalmente paranoica.

A indissociabilidade entre o eu e o outro traz a marca, e é datada, do estádio do espelho.
ódio: “Que ame por sua vez sem poder possuir o objeto de seu amor.”

Uma base narcisista do amor: amo a mim mesmo através do outro, amo o outro eu mesmo,
amor por esse eu que vejo no outro, o amor por esse outro mim mesmo, amor pela imagem de mim mesmo como outro é o que Freud denominou de narcisismo e que corresponde ao registro do imaginário de Lacan.

O grande Outro

O grande Outro como discurso do inconsciente é um lugar
É o alhures onde o sujeito é mais pensado do que efetivamente pensa
É de onde vêm as determinações simbólicas da historia do sujeito
É o arquivo dos ditos de todos os outros que foram importantes para o sujeito em sua infancia e até mesmo antes de ter nascido.
É um lugar simbólico, lugar dos significantes, onde as cadeias significantes do sujeito se articulam determinando o que o sujeito pensa, fala, sente e age.
Você será um nem-isso-nem-aquilo.

Isso não é um alívio, a gente saber que, estruturalmente, não está preso a ter que ser tal ou tal coisa? O sujeito não “é” isso ou aquilo. Ele é um vazio, um furo no conjunto da linguagem, deslizando nas cadeias significantes. Em outros termos, como diz Lacan, ele é o significante “pulado” na sequência de significantes do Outro.
O sujeito se encontra alienado a esses significantes que são do Outro, como lugar do inconsciente. Na análise o sujeito vai pouco a pouco descobrindo quais são esses significantes e se desalienando do Outro, abrindo a possibilidade de mais deslizamentos de sua experiência subjetiva. São “identidades” da ordem do semblante, um faz de conta.
O grande Outro é o conjunto de significantes que marcam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais - eles sustentam suas fantasias inconscientes e imaginárias, a qual arranca o sujeito do centro do psiquismo, na medida em que o sujeito não é autônomo e determinante, e sim determinado pelo que se desenrola no Outro do inconsciente, que se estabelece como uma “heteronomia radical”.

Ideal do Eu

Significantes recalcados no inconsciente que foram ditados e exigidos que assim eu fosse
Esses significantes são recalcados e constituem o Ideal do eu, que é um Ideal do Outro .I(A)., por ser constituído pelos ditos de todos aqueles que ocuparam para o sujeito o lugar do Outro.
O Ideal do eu é o ponto de onde eu me vejo como amável. É por isso que o sujeito tenta se adequar aos significantes determinados pelo Outro pela via da identificação simbólica, e o eu tenta se moldar de acordo com o

eu ideal

percebido como outro, através da identificação imaginária.

Se na infância o narcisismo primário é sustentado pelos ditos dos familiares mais próximos, o narcisismo secundário o é pela “introjeção” desses ditos, ou seja, pelo Ideal do eu que tomou o lugar dos pais.

O drama do neurótico é que ele sempre encontra um outro que encarna o eu ideal com todos os atributos que ele gostaria de ter e ser, para ser amado pelo Outro. E ainda por cima o sujeito personaliza no pequeno outro o lugar do Outro, a quem endereça seu amor, por quem se apaixona e a quem elege como parceiro das venturas e desventuras do amor. Constitui-se assim o trágico do amor: o sujeito ama e quer ser amado pelo Outro e se sente ameaçado por um outro (que encarna seus ideais) rival que ele teme que o Outro ame.

Demanda

Ao articular a fala, o lugar do Outro aparece, e esse lugar é transferido a quem endereço minha fala, que é também minha demanda… de amor. Ao falarmos estamos demandando.A demanda é sempre demanda de amor: demanda de presença, demanda de provas de amor. E o amor demanda amor.

O sujeito procura no analista o Outro do amor do qual espera uma palavra: de amor, de saber, de atenção. E assim ele “situa” o inconsciente na poltrona do analista (como o lugar do Outro) porque aí se desenrolam as associações contidas em sua demanda.
as associações lhe venham quando ainda está em casa, ou indo para a sessão, e que grande parte delas se desenrole já na sala de espera ou no trajeto do consultório.

O sujeito faz existir o Outro como lugar encarnado em alguém que media, apazigua as relações imaginárias e agressivas com o outro. Assim, o sujeito oscila entre a alienação e a separação em relação ao Outro.

Antes de vir ao mundo já lhe dão um nome, um sexo, um time de futebol, uma profissão; ele já nasce em uma determinada classe social com seus valores e preconceitos e num país com sua cultura e sua língua - tudo isto constituirá o Outro para ele.

Garantia

Sendo o Outro barrado, não há garantia nenhuma de nada. Pois a garantia falta, falta até a garantia de que o Outro exista, de que o Outro do amor que acolhe minhas demandas exista para responder “presente”.
O sujeito em sua vida procura um Outro em que possa se ancorar: seu amor e sua segurança. Mas o Outro falta por estrutura, e o sujeito ao longo da vida só encontra alguns substitutos, e mesmo assim jamais a completude, pois o Outro é incompleto e inconsistente.

O objeto a

o objeto a, causa de desejo. Para que você eleja alguém como parceiro sexual ele tem que conter ou estar nesse lugar de objeto para você. Por possuir o objeto que desperta seu desejo, aquele que você ama é também seu parceiro sexual - ele vira então seu objeto de desejo
E isso lhe dá vontade de olhar para ele, ouvir sua voz, pegá-lo, agarrá-lo, abraçá-lo, beijá-lo, comê-lo, pegar um pedacinho dele para guardar com você, entrar dentro dele, fazê-lo entrar dentro de você. E até mesmo despedaçá-lo. As suas pulsões - sempre parciais - se satisfazem ao reduzir o Outro a um objeto. Pois o objeto a é o verdadeiro parceiro na sexualidade.
O objeto a é aquilo atrás do qual passamos a vida correndo. Procuramos aquele objeto que um dia nos deu uma suposta satisfação sem igual.

Mas nunca o reencontramos a não ser tão somente seus substitutos, transitórios e fugazes.
a satisfação total do bebê com o seio num primeiro encontro é uma construção fictícia
O objeto a é tanto causa de desejo quanto objeto mais-de-gozar. Como causa de desejo, corresponde ao objeto perdido, desde e para sempre, da plena satisfação; como mais-de-gozar, é o objeto da angústia e objeto alvo - e efêmero - da satisfação pulsional.

Os objetos pulsionais se declinam segundo as pulsões, ou seja, em objeto oral, objeto anal, olhar (para a pulsão escópica) e voz (para a pulsão invocante).
O olhar é esse objeto efêmero, evanescente, que não se apreende e que emerge quando dois olhares se encontram e o sujeito se sente simultaneamente olhando e sendo olhado.

Amor

No amor, a escolha do objeto é sempre ao mesmo tempo narcísica, por ser feita à imagem (i) e à semelhança do eu, e objetal (a) por conter o objeto a: pois aí se encontra em jogo tanto o imaginário do espelho quanto o objeto pulsional, como é possível ler no matema i(a).

satisfação pulsional, se encontra também presente no âmbito da oralidade, ao beijar, chupar, mamar, comer, beber, fumar e até mesmo se drogar; e no âmbito da analidade, no prazer propriamente anal de defecar e ser penetrado, como suas metáforas de expulsão, corte, explosões de ira, evacuação, sujar e também de retenção, avareza, economizar, limpar etc. Os objetos a propriamente ditos correspondentes às pulsões oral e anal não são exatamente o seio e a merda que são, no entanto, seus paradigmas, e sim o nada para o objeto oral e a metáfora para o objeto anal -podendo aí ser utilizado qualquer objeto que satisfaça essas pulsões.

Satisfação

A satisfação da pulsão é paradoxal, pois ela exige uma satisfação constante que, no entanto, é impossível devido ao status do objeto perdido. A pulsão jamais se satisfaz inteiramente, pois responder totalmente à exigência pulsional implica o gozo total, a morte

Agressividade

Ao reduzir o Outro a um objeto de seu gozo, a pulsão visa saciar o impossível de um gozo sem entraves a despeito da Lei. O próximo, transformado em objeto, e que a pulsão busca enlaçar, é certamente um objeto sexual, mas não só, pois, segundo Freud, ele é “também alguém em quem se tenta satisfazer sobre ele a sua agressividade, … humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo”. O outro é, portanto, objeto da pulsão de morte.

Fantasia

Na fantasia, o sujeito se encontra em relação com o objeto a - em conexão e disjunção com ele ($ 0 a). O sujeito está nos dois polos da fantasia: ora como sujeito fazendo do outro seu objeto; ora como objeto do Outro que aparece então no lugar do sujeito. Sendo assim, a fantasia mostra que todo mundo é bipolar: sujeito e objeto.

Supereu

O objeto a é também um dos nomes do supereu: o olhar que vigia e a voz que critica. Temos nesses dois últimos objetos as duas funções do supereu apontadas por Freud: a função de vigilância, com a qual mede o eu em relação ao Ideal do eu, e a função de criticá-lo, corrigi-lo e xingá-lo, dizendo-lhe “seja assim” e “não seja assim”.
Sem esse enquadramento, que é cultural e, portanto, simbólico, a inclinação do homem é tratar o outro como seu objeto de gozo e nele saciar suas pulsões eróticas e de morte, conforme vimos na seção O objeto a.

O outro do laço social

Gozo

A civilização, nos indica Freud, exige do sujeito a renúncia pulsional, sem a qual ele não poderia estar em sociedade com o outro. Para Lacan, trata-se de uma “canalização” ou, em outros termos, de um enquadramento do gozo, de um esquadrinhamento do campo do gozo pelos laços sociais que o compõem. Os laços sociais são compostos pelo gozo que a linguagem limita e enquadra, sendo esta responsável pelo estabelecimento do vínculo e por sua manutenção, impedindo, dessa forma, sua ruptura. Devido a essa característica linguageira - que não passa necessariamente pelas palavras faladas -, Lacan denomina os laços sociais de discursos. Pois, de fato, eles se sustentam e equivalem aos discursos - narrativas, descrições, coordenadas, regras, normas - que se tecem sobre eles.

Os matemas dos discursos

Laços sociais

Os discursos como laços sociais de Lacan estão em correspondência ao que Freud nomeou como “as profissões impossíveis”: governar, educar e psicanalisar. Eles são uma proposta de formalização dessas modalidades de vínculo entre as pessoas.
Governar equivale ao discurso do mestre (DM); educar, ao discurso universitário (DU); e psicanalisar, ao discurso do analista (DA). E acrescentou mais dois: o fazer desejar, que equivale ao discurso da histérica (ou histérico) (DH); e o fazer comprar, do discurso capitalista (DC).

Os tipos de laços sociais não são em número ilimitado. Lacan conta cinco cujos paradigmas encontram-se nos seguintes pares de agente-outro: o senhor e o escravo; o professor e o aluno; a histérica e o médico; o analista e o analisante; a mercadoria e o consumidor.

o que não quer dizer que o casal não entre e circule pelos discursos existentes, fazendo o outro de escravo, comandando, ensinando, provocando, dividindo, fazendo falar e se vendendo.

Resumindo, o poder, o saber, o sujeito e o gozo estão presentes em todas essas práticas, porém, de modos distintos. São laços sociais estruturados em torno da relação do agente e de seu outro (o parceiro), revelando a “verdade” a partir da qual cada agente se autoriza a agir, e inscrevendo o que é esperado que o comandado, o outro, produza.

Elementos (S1, S2, $, a)

O S2 não representa aqui um segundo significante, e sim a rede de todos os significantes que se articulam em um saber. Esse saber é encarnado pelo escravo ou o subordinado no discurso do mestre, e pelo professor no discurso universitário. Trata-se do saber teórico ou prático produzido pelo mestre ou pelo médico no discurso da histérica; e no discurso do analista é o saber que sustenta o ato analítico, ou seja, aquele que o analista adquiriu e elaborou a partir de sua experiência analítica, da prática textual e do caso que está conduzindo.


O S1 e o S2 são os agentes dos discursos da dominação, o DM e o DU, pois seus agentes utilizam a propriedade de comando própria do significante. Os dois elementos que não são da ordem do significante são os agentes dos discursos do avesso da dominação: o sujeito ($) como falta-a-ser no DH, e o objeto a fora do simbólico no DA.


O sujeito, “significante pulado da cadeia”, é o efeito da articulação dos significantes, ou seja, é aquele que não tem identidade própria, a não ser dividido. $ é o sujeito não identificado; sua identificação (Sx/$) aparece no DM. É também o sujeito que se expressa dividido no sintoma endereçado a um mestre, como no DH. E no DU ele é o sujeito revoltado e sintomatizado, ao ser tratado como objeto. No DC ele é o consumidor, o que vai consumir a mercadoria - os objetos lançados no mercado - produzida pela tecno-ciência financiada pelo capital. No DA o outro é o sujeito da fala, do desejo e da associação livre que se expressa pela boca do analisante, e ao fazê-lo produz a sua desidentificação ij.


O objeto a é o mais-de-gozar que, em cada discurso, tem uma significação. É o objeto precioso e agalmático do DM; o aluno no DU (sobre o qual incide um saber); o objeto que sustenta a verdade da provocação do sujeito dirigida ao médico no DH; e no DC ele é a mercadoria, objeto que Lacan nomeia de gadget, produto que a sociedade de consumo vende como se fosse o objeto de desejo do consumidor. No DA, trata-se do objeto que causa o desejo, objeto da fantasia cujo semblante é sustentado pelo analista. Fica evidenciado que, na análise, o analista não está como sujeito, e sim como objeto.

Poder

No discurso do mestre é o governante, no discurso universitário é o autor (a referência), no discurso da histérica é o médico ou o mestre, no discurso capitalista é o capital, e no discurso do analista é o único laço em que se desvela que o poder é do próprio significante, que aí está como um significante-mestre “desencarnado” que comanda as identificações do sujeito.

Saber - S2, encarnado pelo outro: escravo ou universitário, produzido pelo médico, pelo analista

E no DU ele é o sujeito revoltado e sintomatizado, ao ser tratado como objeto.
No DC ele é o consumidor, o que vai consumir a mercadoria - os objetos lançados no mercado - produzida pela tecno-ciência financiada pelo capital.
No DA o outro é o sujeito da fala, do desejo e da associação livre que se expressa pela boca do analisante, e ao fazê-lo produz a sua desidentificação ij.
No DA, trata-se do objeto que causa o desejo, objeto da fantasia cujo semblante é sustentado pelo analista
Fica evidenciado que, na análise, o analista não está como sujeito, e sim como objeto.

Dominante

O que caracteriza cada discurso é aquilo que está no lugar do agente, que é o lugar do semblante, ou seja, aquele que vai fazer de conta de agente, vai representar esse papel. Neste lugar está o que em poesia, segundo Jakobson, se chama de a dominante: elemento que governa, determina e transforma todos os outros elementos. No DM a dominante é a lei, no DH é o sintoma, no DU é o saber, e no DA é o mais-de-gozar. A dominante exerce diretamente a sua influência sobre todos os outros elementos do discurso. Assim, o que caracteriza a ação de governar é a lei; do educar, é o saber; no caso da histeria, ou seja, do fazer desejar, é a divisão do sujeito expressa no sintoma; e o que domina o discurso do analista é o analista como semblante de objeto a com seu desejo, pois é ele quem dirige o tratamento.

a dominante: elemento que governa, determina e transforma todos os outros elementos. No
DM a dominante é a lei, no DH é o sintoma, no DU é o saber, e no DA é o mais-de-gozar.
o que domina o discurso do analista é o analista como semblante de objeto a com seu desejo, pois é ele quem dirige o tratamento.

Todo discurso que trata o outro como objeto pode, portanto, ser chamado de DU: aquele que trata o outro como um mestre e senhor é o DH, e, ao tratarmos o outro como um comandado que tem a técnica e sabe fazer determinada coisa para nós, estamos no DM.

O discurso do analista, DA, é o único laço social que trata o outro como um sujeito

Ato

Quem é o outro em cada laço social?
o ato governamental, o ato educativo, o ato histérico e o ato analítico.
Cada modalidade de ato é caracterizada por seu agente: a lei, o saber, o sintoma e o objeto a.
O ato histérico é fazer desejar, o que mostra algo que todos vivemos, ou seja, que cortejar, seduzir, atrair, azarar faz laço social.
O ato é sempre histérico quando produz no outro o desejo, inclusive o desejo de saber, e promove a verdade do gozo sexual.
O ato analítico ocorre nesse laço social inédito, no qual são promovidas as desindentificações aos ideais do Outro e a libertação do sujeito do poder mortífero, das palavras que o determinaram, pois o ato analítico desaliena o sujeito.
O governante aqui - por mais que diga que está representando o país ou a empresa ou a repartição -, na verdade, autoriza-se a partir de sua subjetividade, pois por “baixo” de seu cargo há um sujeito ($ no “lugar” da verdade). Em seu ato de governar, comandar, dar ordens, ele espera de seu subordinado a produção de algo, como um objeto ou uma tarefa que lhe são preciosos: uma tarefa, a manufatura de um produto qualquer, uma comida bem-feita, uma roupa, uma peça de carro numa fábrica etc. representados, neste matema do discurso do mestre, pelo objeto a.

desejante, no DH, que também podemos chamar de “o provocante”, se autoriza de seu gozo impelindo o outro, elevado à categoria de mestre, a produzir um saber sobre sua verdade sexual

E no DA, o sujeito ($) produz o significante de sua singularidade - seus significantes-mestres.
Nossa sociedade se estrutura com os laços sociais da dominação e seus avessos: o DA é o avesso do DM e o DH é o avesso do DU. O DH faz objeção ao totalitarismo perverso do saber, pois coloca o sintoma como agente e faz obstáculo a continuar a obedecer ao burocrata do saber. O DA desvela a hipocrisia do “Sx encarnado” que faz função de mestre e senhor, mostrando que o mestre é o significante.

O outro e o ato
O outro do mestre/senhor é o escravo. O outro do saber é o objeto. O outro do sujeito é o mestre. O outro do objeto é o sujeito. Todo discurso que trata o outro como objeto pode, portanto, ser chamado de DU: aquele que trata o outro como um mestre e senhor é o DH, e, ao tratarmos o outro como um comandado que tem a técnica e sabe fazer determinada coisa para nós, estamos no DM. O discurso do analista, DA, é o único laço social que trata o outro como um sujeito.


Os quatro discursos determinam quatro distintas formas de ato: o ato governamental, o ato educativo, o ato histérico e o ato analítico. Cada modalidade de ato é caracterizada por seu agente: a lei, o saber, o sintoma e o objeto a. O que caracteriza um governo não é o que dizem os políticos, mas sim seus atos. O ato de educar é o tratamento do outro objetivado pelo saber: o que pode ocorrer na sala de aula, na administração, na mesa do bar, no consultório do analista. O setting psicanalítico não define o discurso, as palavras pronunciadas tampouco, e sim o ato. O ato histérico é fazer desejar, o que mostra algo que todos vivemos, ou seja, que cortejar, seduzir, atrair, azarar faz laço social. O ato é sempre histérico quando produz no outro o desejo, inclusive o desejo de saber, e promove a verdade do gozo sexual. O ato analítico ocorre nesse laço social inédito, no qual são promovidas as desindentificações aos ideais do Outro e a libertação do sujeito do poder mortífero das palavras que o determinaram, pois o ato analítico desaliena o sujeito.
No DM quem ocupa o lugar do agente é quem tem o poder, como o governante, o patrão, o chefe que se relaciona com os seus “outros”: o governado, o empregado, o subordinado. O governante aqui - por mais que diga que está representando o país ou a empresa ou a repartição -, na verdade, autoriza-se a partir de sua subjetividade, pois por “baixo” de seu cargo há um sujeito ($ no “lugar” da verdade). Em seu ato de governar, comandar, dar ordens, ele espera de seu subordinado a produção de algo, como um objeto ou uma tarefa que lhe são preciosos: uma tarefa, a manufatura de um produto qualquer, uma comida bem-feita, uma roupa, uma peça de carro numa fábrica etc. representados, neste materna do discurso do mestre, pelo objeto a.
O educador, no DU, se autoriza do autor, da bibliografia, para impor o saber ao outro (o estudante) objetivado, e tem como resultado, por mais paradoxal que possa parecer, um revoltado, um contestador, um cara-pintada. O DU é também o laço que constitui a burocracia, no qual o burocrata se autoriza de uma regra (SJ para mandar no funcionário. O analista, em seu discurso, o DA, se autoriza do saber do inconsciente para obter do sujeito-analisante sua pura diferença, sua particularidade: o significante-mestre de sua identificação primordial. O desejante, no DH, que também podemos chamar de “o provocante”, se autoriza de seu gozo impelindo o outro, elevado à categoria de mestre, a produzir um saber sobre sua verdade sexual.
Assim, há um efeito, ou “produção”, provocado por cada laço social. No DM são os objetos de gozo fabricados, manufaturados, que saem das fábricas. O DU produz o sujeito dividido ($) que se revolta ou sintomatiza ao ser tratado como objeto a. No DH é o saber (S2) que o mestre (SJ fabrica, o que faz Lacan apontar a afinidade da ciência com o DH. E no DA, o sujeito ($) produz o significante de sua singularidade - seus significantes-mestres.
Nossa sociedade se estrutura com os laços sociais da dominação e seus avessos: o DA é o avesso do DM e o DH é o avesso do DU. O DH faz objeção ao totalitarismo perverso do saber, pois coloca o sintoma como agente e faz obstáculo a continuar a obedecer ao burocrata do saber. O DA desvela a hipocrisia do “Sx encarnado” que faz função de mestre e senhor, mostrando que o mestre é o significante.

DC

DC é um discurso que não propõe o laço social do sujeito com o outro, e sim com um objeto (a) fabricado pela ciência e tecnologia (S2). Aqui o sujeito é reduzido a consumidor, e o objeto causa de seu desejo é um gadget

completude não mais com uma pessoa, e sim com um parceiro conectável e desconectável ao alcance da mão

A sociedade regida pelo discurso capitalista se nutre pela fabricação da falta de gozo, ela produz sujeitos insaciáveis que, em sua demanda de consumo, nunca conseguem comprar tudo o que supostamente desejam. Promove assim uma nova economia libidinal. Por outro lado, ao colocar a mais-valia no lugar da causa do desejo - faz querer ganhar sempre mais -, essa sociedade transforma cada um num explorador em potencial de seu semelhante para dele obter um lucro de um sobretrabalho não contabilizado e querer tirar vantagem em tudo. Vale tudo para fazer consumir cada vez mais os objetos produzidos pelo capitalismo científico-tecnológico.

O DC fabrica um sujeito animado pelo “desejo capitalista” e interpreta sua falta estrutural, falta-a-ser, em falta-a-ser-rico; e a falta-de-gozo se inscreve como a falta-a-ter-dinheiro. Produz-se, assim, o sujeito descapitalizado. O resultado disso é que o DC produz o sujeito inadimplente, o sujeito da dívida eterna: interna e externa.
O discurso do capitalista não é regulador e instituinte como o DM, ele é segregador. A única via para tratar as diferenças na sociedade científico-capitalista é a segregação determinada pelo mercado: os que têm ou não acesso aos produtos da ciência. É um discurso que não forma propriamente laço social, ele segrega - daí a proliferação dos sem: terra, teto, emprego, comida etc.

no DH temos a Sintomocracia e no DA a a-cracia, onde se trata do governo de a (mais-de-gozar) - que se desvela como impossível de governar, pois esta forma de laço se encontra, segundo Lacan, no “polo oposto a toda vontade de dominar”. Ele constitui a saída do discurso capitalista, pelo esvaziamento dos imperativos de gozo.

Notas

Os Outros em Lacan (Passo-a-Passo Psicanálise Livro 94.
Quinet Antonio

Assim, abordamos o pequeno outro, o semelhante, igual e rival, que se encontra no par do estádio do espelho, sendo, portanto, do registro do imaginário


Outro, cujo discurso é o inconsciente, que se manifesta nos sonhos, lapsos, sintomas e chistes e que, por ser da ordem do simbólico, é tecido de linguagem e pode ser “encarnado” no Outro do amor - inclusive o amor de transferência -, ao qual se dirigem as demandas e ao qual está articulado o desejo


o objeto a, o outro pulsional no registro do real, que é o objeto causa de desejo, que se apresenta na fantasia e que se manifesta na angústia quando a falta falta - é o objeto condensador de gozo como objeto da pulsão em suas modalidades de objeto oral, anal, olhar e voz.


gozo estruturado pelos discursos que constituem os laços sociais


único laço social que trata o outro efetivamente como sujeito é o discurso do analista.


além do gozo fálico masculino, que Lacan conceitualiza a partir das fórmulas da sexuação. Este nos oferece uma outra lógica - distinta da lógica fálica que rege o ser e o ter, a medida e a razão -que nos abre para o outro como radicalmente diferente, imprevisível e sempre surpreendente. É a lógica do não todo, a lógica da diferença, enquanto diferença radical.


Ou o vejo com tudo aquilo que eu gostaria de ter - que inveja. Por que ele tem e eu não tenho


se encontra em competição e se compara para ver quem tem melhor desempenho no trabalho, no sexo etc


Pois o eu e o outro entram numa luta pelo reconhecimento mútuo e recíproco.


Essa bipolaridade caracteriza o registro imaginário e constitui a infelicidade do homem, pois o outro, quando não é objeto de desejo, é um estorvo, um inferno.


Um eu nunca vem sozinho - ele está sempre acompanhado do outro, seu eu ideal. Eis por que a instância do eu é fundamentalmente paranoica


A indissociabilidade entre o eu e o outro traz a marca, e é datada, do estádio do espelho.


ódio: “Que ame por sua vez sem poder possuir o objeto de seu amor.” Um


a base narcisista do amor: amo a mim mesmo através do outro, amo o outro eu mesmo


amor por esse eu que vejo no outro, o amor por esse outro mim mesmo, amor pela imagem de mim mesmo como outro é o que Freud denominou de narcisismo e que corresponde ao registro do imaginário de Lacan


O grande Outro como discurso do inconsciente é um lugar


É o alhures onde o sujeito é mais pensado do que efetivamente pensa


É de onde vêm as determinações simbólicas da historia do sujeito


É o arquivo dos ditos de todos os outros que foram importantes para o sujeito em sua infancia e até mesmo antes de ter nascido.


É um lugar simbólico, lugar dos significantes, onde as cadeias significantes do sujeito se articulam determinando o que o sujeito pensa, fala, sente e age.


Você será um nem-isso-nem-aquilo.


Isso não é um alívio, a gente saber que, estruturalmente, não está preso a ter que ser tal ou tal coisa? O sujeito não “é” isso ou aquilo. Ele é um vazio, um furo no conjunto da lingu


agem, deslizando nas cadeias significantes. Em outros termos, como diz Lacan, ele é o significante “pulado” na sequência de significantes do Outro.


O sujeito se encontra alienado a esses significantes que são do Outro, como lugar do inconsciente. Na análise o sujeito vai pouco a pouco descobrindo quais são esses significantes e se desalienando do Outro, abrindo a possibilidade de mais deslizamentos de sua experiência subjetiva. São “identidades” da ordem do semblante, um faz de conta.


O grande Outro é o conjunto de significantes que marcam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais - eles sustentam suas fantasias inconscientes e imaginárias.


a qual arranca o sujeito do centro do psiquismo, na medida em que o sujeito não é autônomo e determinante, e sim determinado pelo que se desenrola no Outro do inconsciente, que se estabelece como uma “heteronomia radical”.


significantes recalcados no inconsciente que foram ditados e exigidos que assim eu fosse


Esses significantes são recalcados e constituem o Ideal do eu, que é um Ideal do Outro .I(A)., por ser constituído pelos ditos de todos aqueles que ocuparam para o sujeito o lugar do Outro.


O Ideal do eu é o ponto de onde eu me vejo como amável. É por isso que o sujeito tenta se adequar aos significantes determinados pelo Outro pela via da identificação simbólica, e o eu tenta se moldar de acordo com o eu ideal, percebido como outro, através da identificação imaginária.


Se na infância o narcisismo primário é sustentado pelos ditos dos familiares


mais próximos, o narcisismo secundário o é pela “introjeção” desses ditos, ou seja, pelo Ideal do eu que tomou o lugar dos pais


O drama do neurótico é que ele sempre encontra um outro que encarna o eu ideal com todos os atributos que ele gostaria de ter e ser, para ser amado pelo Outro. E ainda por cima o sujeito personaliza no pequeno outro o lugar do Outro, a quem endereça seu amor, por quem se apaixona e a quem elege como parceiro das venturas e desventuras do amor. Constitui-se assim o trágico do amor: o sujeito ama e quer ser amado pelo Outro e se sente ameaçado por um outro (que encarna seus ideais) rival que ele teme que o Outro ame.


Ao articular a fala, o lugar do Outro aparece, e esse lugar é transferido a quem endereço minha fala, que é também minha demanda… de amor. Ao falarmos estamos demandando


A demanda é sempre demanda de amor: demanda de presença, demanda de provas de amor. E o amor demanda amor.


O sujeito procura no analista o Outro do amor do qual espera uma palavra: de amor, de saber, de atenção.


E assim ele “situa” o inconsciente na poltrona do analista (como o lugar do Outro) porque aí se desenrolam as associações contidas em sua demanda.


as associações lhe venham quando ainda está em casa, ou indo para a sessão, e que grande parte delas se desenrole já na sala de espera ou no trajeto do consultório


o sujeito faz existir o Outro como lugar encarnado em alguém que media, apazigua as relações imaginárias e agressivas com o outro


Assim, o sujeito oscila entre a alienação e a separação em relação ao Outro.


Antes de vir ao mundo já lhe dão um nome, um sexo, um time de futebol, uma profissão; ele já nasce em uma determinada classe social com seus valores e preconceitos e num país com sua cultura e sua língua - tudo isto constituirá o Outro para ele


sendo o Outro barrado, não há garantia nenhuma de nada. Pois a garantia falta, falta até a garantia de que o Outro exista, de que o Outro do amor que acolhe minhas demandas exista para responder “presente


O sujeito em sua vida procura um Outro em que possa se ancorar: seu amor e sua segurança. Mas o Outro falta por estrutura, e o sujeito ao longo da vida só encontra alguns substitutos, e mesmo assim jamais a completude, pois o Outro é incompleto e inconsistente


o objeto a, causa de desejo. Para que você eleja alguém como parceiro sexual ele tem que conter ou estar nesse lugar de objeto para você


Por possuir o objeto que desperta seu desejo, aquele que você ama é também seu parceiro sexual - ele vira então seu objeto de desejo


E isso lhe dá vontade de olhar para ele, ouvir sua voz, pegá-lo, agarrá-lo, abraçá-lo, beijá-lo, comê-lo, pegar um pedacinho dele para guardar com você, entrar dentro dele, fazê-lo entrar dentro de você. E até mesmo despedaçá-lo. As suas pulsões - sempre parciais - se satisfazem ao reduzir o Outro a um objeto.


Pois o objeto a é o verdadeiro parceiro na sexualidade


O objeto a é aquilo atrás do qual passamos a vida correndo. Procuramos aquele objeto que um dia nos deu uma suposta satisfação sem igual.


Mas nunca o reencontramos a não ser tão somente seus substitutos, transitórios e fugazes.


a satisfação total do bebê com o seio num primeiro encontro é uma construção fictícia


O objeto a é tanto causa de desejo quanto objeto mais-de-gozar. Como causa de desejo, corresponde ao objeto perdido, desde e para sempre, da plena satisfação; como mais-de-gozar, é o objeto da angústia e objeto alvo - e efêmero - da satisfação pulsional.


Os objetos pulsionais se declinam segundo as pulsões, ou seja, em objeto oral, objeto anal, olhar (para a pulsão escópica) e voz (para a pulsão invocante).


O olhar é esse objeto efêmero, evanescente, que não se apreende e que emerge quando dois olhares se encontram e o sujeito se sente simultaneamente olhando e sendo olhado


No amor, a escolha do objeto é sempre ao mesmo tempo narcísica, por ser feita à imagem (i) e à semelhança do eu, e objetal (a) por conter o objeto a: pois aí se encontra em jogo tanto o imaginário do espelho quanto o objeto pulsional, como é possível ler no matema i(a).


satisfação pulsional, se encontra também presente no âmbito da oralidade, ao beijar, chupar, mamar, comer, beber, fumar e até mesmo se drogar; e no âmbito da analidade, no prazer propriamente anal de defecar e ser penetrado, como suas metáforas de expulsão, corte, explosões de ira, evacuação, sujar e também de retenção, avareza, economizar, limpar etc. Os objetos a propriamente ditos correspondentes às pulsões oral e anal não são exatamente o seio e a merda que são, no entanto, seus paradigmas, e sim o nada para o objeto oral e a metáfora para o objeto anal -podendo aí ser utilizado qualquer objeto que satisfaça essas pulsões.


A satisfação da pulsão é paradoxal, pois ela exige uma satisfação constante que, no entanto, é impossível devido ao status do objeto perdido. A pulsão jamais se satisfaz inteiramente, pois responder totalmente à exigência pulsional implica o gozo total, a morte


Ao reduzir o Outro a um objeto de seu gozo, a pulsão visa saciar o impossível de um gozo sem entraves a despeito da Lei. O próximo, transformado em objeto, e que a pulsão busca enlaçar, é certamente um objeto sexual, mas não só,


pois, segundo Freud, ele é “também alguém em quem se tenta satisfazer sobre ele a sua agressividade, … humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo”. O outro é, portanto, objeto da pulsão de morte


Na fantasia, o sujeito se encontra em relação com o objeto a - em conexão e disjunção com ele ($ 0 a). O sujeito está nos dois polos da fantasia: ora como sujeito fazendo do outro seu objeto; ora como objeto do Outro que aparece então no lugar do sujeito. Sendo assim, a fantasia mostra que todo mundo é bipolar: sujeito e objeto.


O objeto a é também um dos nomes do supereu: o olhar que vigia e a voz que critica. Temos nesses dois últimos objetos as duas funções do supereu apontadas por Freud: a função de vigilância, com a qual mede o eu em relação ao Ideal do eu, e a função de criticá-lo, corrigi-lo e xingá-lo, dizendo-lhe “seja assim” e “não seja assim”.


Sem esse enquadramento, que é cultural e, portanto, simbólico, a inclinação do homem é tratar o outro como seu objeto de gozo e nele saciar suas pulsões erótica e de morte, conforme vimos na seção O objeto a.


A civilização, nos indica Freud, exige do sujeito a renúncia pulsional, sem a qual ele não poderia estar em sociedade com o outro. Para Lacan, trata-se de uma “canalização” ou, em outros termos, de um enquadramento do gozo, de um esquadrinhamento do campo do gozo pelos laços sociais que o compõem. Os laços sociais são compostos pelo gozo que a linguagem limita e enquadra, sendo esta responsável pelo estabelecimento do vínculo e por sua manutenção, impedindo, dessa forma, sua ruptura. Devido a essa característica linguageira - que não passa necessariamente pelas palavras faladas -, Lacan denomina os laços sociais de discursos. Pois, de fato, eles se sustentam e equivalem aos discursos -narrativas, descrições, coordenadas, regras, normas - que se tecem sobre eles.


Os maternas dos discursos
Elementos:
Os tipos de laços sociais não são em número ilimitado. Lacan conta cinco cujos paradigmas encontram-se nos seguintes pares de agente-outro: o senhor e o escravo; o professor e o aluno; a histérica e o médico; o analista e o analisante; a mercadoria e o consumidor


o que não quer dizer que o casal não entre e circule pelos discursos existentes, fazendo o outro de escravo, comandando, ensinando, provocando, dividindo, fazendo falar e se vendendo.


No discurso do mestre é o governante, no discurso universitário é o autor (a referência), no discurso da histérica é o médico ou o mestre, no discurso capitalista é o capital, e no discurso do analista é o único laço em que se desvela que o poder é do próprio significante, que aí está como um significante-mestre “desencarnado” que comanda as identificações do sujeito.


E no DU ele é o sujeito revoltado e sintomatizado, ao ser tratado como objeto.


No DC ele é o consumidor, o que vai consumir a mercadoria - os objetos lançados no mercado - produzida pela tecno-ciência financiada pelo capital.


No DA o outro é o sujeito da fala, do desejo e da associação livre que se expressa pela boca do analisante, e ao fazê-lo produz a sua desidentificação ij.


No DA, trata-se do objeto que causa o desejo, objeto da fantasia cujo semblante é sustentado pelo analista


Fica evidenciado que, na análise, o analista não está como sujeito, e sim como objeto.


a dominante: elemento que governa, determina e transforma todos os outros elementos. No DM a dominante é a lei, no DH é o sintoma, no DU é o saber, e no DA é o mais-de-gozar.


o que domina o discurso do analista é o analista como semblante de objeto a com seu desejo, pois é ele quem dirige o tratamento.


Todo discurso que trata o outro como objeto pode, portanto, ser chamado de DU


: aquele que trata o outro como um mestre e senhor é o DH, e, ao tratarmos o outro como um comandado que tem a técnica e sabe fazer determinada coisa para nós, estamos no DM.


O discurso do analista, DA, é o único laço social que trata o outro como um sujeito


o ato governamental, o ato educativo, o ato histérico e o ato analítico.


Cada modalidade de ato é caracterizada por seu agente: a lei, o saber, o sintoma e o objeto a.


O ato histérico é fazer desejar, o que mostra algo que todos vivemos, ou seja, que cortejar, seduzir, atrair, azarar faz laço social.


O ato é sempre histérico quando produz no outro o desejo, inclusive o desejo de saber, e promove a verdade do gozo sexual.


O ato analítico ocorre nesse laço social inédito, no qual são promovidas as desindentificações aos ideais do Outro e a libertação do su


jeito do poder mortífero das palavras que o determinaram, pois o ato analítico desaliena o sujeito.


O governante aqui - por mais que diga que está representando o país ou a empresa ou a repartição -, na verdade, autoriza-se a partir de sua subjetividade, pois por “baixo” de seu cargo há um sujeito ($ no “lugar” da verdade). Em seu ato de governar, comandar, dar ordens, ele espera de seu subordinado a produção de algo, como um objeto ou uma tarefa que lhe são preciosos: uma tarefa, a manufatura de um produto qualquer, uma comida bem-feita, uma roupa, uma peça de carro numa fábrica etc. representados, neste materna do discurso do mestre, pelo objeto a.


desejante, no DH, que também podemos chamar de “o provocante”, se autoriza de seu gozo impelindo o outro, elevado à categoria de mestre, a produzir um saber sobre sua verdade sexual


E no DA, o sujeito ($) produz o significante de sua singularidade - seus significantes-mestres.


Nossa sociedade se estrutura com os laços sociais da dominação e seus avessos: o DA é o avesso do DM e o DH é o avesso do DU. O DH faz objeção ao totalitarismo perverso do saber, pois coloca o sintoma como agente e faz obstáculo a continuar a obedecer ao burocrata do saber. O DA desvela a hipocrisia do “Sx encarnado” que faz função de mestre e senhor, mostrando que o mestre é o significante.


é um discurso que não propõe o laço social do sujeito com o outro, e sim com um objeto (a) fabricado pela ciência e tecnologia (S2). Aqui o sujeito é reduzido a consumidor, e o objeto causa de seu desejo é um gadget


completude não mais com uma pessoa, e sim com um parceiro conectável e desconectável ao alcance da mão


A sociedade regida pelo discurso capitalista se nutre pela fabricação da falta de gozo, ela produz sujeitos insaciáveis que, em sua demanda de consumo, nunca conseguem comprar tudo o que supostamente desejam Promove assim uma nova economia libidinal. Por outro lado, ao colocar a mais-valia no lugar da causa do desejo - faz querer ganhar sempre mais -, essa sociedade transforma cada um num explorador em potencial de seu semelhante para dele obter um lucro de um sobretrabalho não contabilizado e querer tirar vantagem em tudo. Vale tudo para fazer consumir cada vez mais os objetos produzidos pelo capitalismo científico-tecnológico.


O DC fabrica um sujeito animado pelo “desejo capitalista” e interpreta sua falta estrutural, falta-a-ser, em falta-a-ser-rico; e a falta-de-gozo se inscreve como a falta-a-ter-dinheiro. Produz-se, assim, o sujeito descapitalizado. O resultado disso é que o DC produz o sujeito inadimplente, o sujeito da dívida eterna: interna e externa.


O discurso do capitalista não é regulador e instituinte como o DM, ele é segregador. A única via para tratar as diferenças na sociedade científico-capitalista é a segregação determinada pelo mercado: os que têm ou não acesso aos produtos da ciência. É um discurso que não forma propriamente laço social, ele seg


rega - daí a proliferação dos sem: terra, teto, emprego, comida etc.


no DH temos a Sintomocracia e no DA a a-cracia, onde se trata do governo de a (mais-de-gozar) - que se desvela como impossível de governar, pois esta forma de laço se encontra, segundo Lacan, no “polo oposto a toda vontade de dominar”. Ele constitui a saída do discurso capitalista, pelo esvaziamento dos imperativos de gozo.


Reading books with ReadEra
https://play.google.com/store/apps/details?id=org.readera.hl=en