
The Neurotic Calculus of Enjoyment
O cálculo neurótico do gozo (Christian Ingo Lenz Dunker -Dunker etc.)
PARTE I Gozo E TEORIA DO VALOR
PROBLEMA DOS CONCEITOS ECONÔMICOS DE FREUD A LACAN
As RAÍZES DA NOÇÃO DE GOZO EM LACAN
O gozo na matriz lingüística
O gozo na matriz ético-jurídica
O gozo na matriz econômico-política
O gozo na matriz lógico-formal
A FALTA E O EXCESSO: MODULAÇÕES DO GOZO EM UM CASO DE HISTERIA
O CÁLCULO NEURÓTICO DO GOZO
Sacrifício, restituição e resto
A crise de gozo
A DIMENSÃO QUANTITATIVA NA PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA
PARTE II DA ESTRUTURA AO SINTOMA
DESENCADEAMENTO DA NEUROSE: UM FALSO PROBLEMA?
A NOÇÃO FREUDIANA DE VERSAGUNG E O GOZO COMO PARASITA
PRODUÇÃO, SUSTENTAÇÃO E FRACASSO DE SINTOMAS
Sintoma e identificação
Sintomas transitórios, típicos e individuais
A sustentação do sintoma na família
Fantasma e traço de gozo
PARTE III QUADROS CLÍNICOS
NEUROSE DE CARÁTER
NEUROSE TRAUMÁTICA
NEUROSE DE DESTINO
NEUROSES ATUAIS: NEURASTENIA E NEUROSE DE ANGÚSTIA
NEUROSE NARCÍSICA
ALÉM DO CÁLCULO: A SUPLÊNCIA
Introdução
Como o instinto, o gozo é limitado por processos que chamamos de naturais por estarem fora do discurso, e dos quais, por tanto, nada sabemos.
Entretanto, se a medida de nossa impossibilidade de enunciar o gozo deve-se ao fato de sermos efeitos da lingua gem - e, portanto, condenados, necessariamente, a modalidades de· gozo parcial-, é a -própria linguagem que permite formular hipóteses lógicas sobre as modalidades pelas quais o ser vivo é adquirido pela linguagem a ponto de essa aquisição produzir sujeito. Isso resume a importância e a atualidade expressas nas páginas deste livro.
O saber se debulha, se enumera, se detalha, e o rosário se desfia sozinho, fazendo do sujeito um empregado da linguagem
A partir do instante em que se encontra aparelhado com a linguagem, o sujeito visa um saber sobre o gozo. Mas ele só o perde, mais um pouco, porque o cálculo o esquadrinha em sig nificante, infletindo-o na língua. Não é surpreendente que, então, o sujeito faça do saber o meio de gozo possível, retirando da perda de gozo, que o saber implica, o possível de gozo, através de ur n a economia de repetição? Através de um cálculo da sua mais valia, que, cor n o diz Lacan, é traço de cinzel do discurso, impresso a cada repetição, nas modalidades pelas quais ele pode simular o gozo absoluto no gozo possível.
fazer a teoria trabalhar e operar
práticas discursivas que levaram a um certo esgotamento da criatividade conceitual.
o uso do texto de Lacan como mero argumento de autoridade, o achatamento do texto de Freud de forma a fazê-lo confessar apenas o que interessava comprovar como já sabido, a recusa deliberada ao trabalho crítico construtivo e a soberba indiferença com relação ao que se produz em campos institucionalmente vizinhos ou mesmo ao que vem sendo feito em outras tradições dentro da psicanálise.
Dunker, C.l.L. Tempo e linguagem na psicose da criança
Boa parte da psiquiatria, e do senso comum de nossa época, afirmam que os sintomas constituem um prejuízo psíquico ao sujeito. O sintoma pode limitar, constranger e empobrecer a vida do neurótico É algo que está em excesso e que, portanto, deveria ser sumariamente eliminado, controlado ou amenizado. Isso deve ser feito, na medida do possível, de modo permanente, pela transformação das causas que o produzem.
Outro ponto elementar para a questão é de que os sintomas possuem sentido e função. Como consequência dessa tese, devemos estar dispostos a apreender o sintoma como efeito de um laborioso trabalho de construção psíquica e, igualmente, como uma espécie de “forma de vida”. Constituir um sintoma é uma tarefa árdua para o sujeito e disso depende uma parte do valor que a partir de então este passa a ter. O sintoma não é, portanto, apenas um problema, mas uma solução, uma resposta, por vezes precária, para conflitos que constituem o próprio sujeito e localizam o ser em sua ex-sistência. O sintoma, neste último sentido, pode assumir a função de uma espécie de religião particular, mas também de uma obra de arte à procura de um destinatário.
borda do cálculo.
Um valor do qual se desconhece o percurso de produção e as regras de seu cifra mento.
O gozo não cessa de não se inscrever no sintoma porque seu valor representa um paradoxo para o sujeito
Bauman, Z. Modernidade e a111 bivalê11cia
PARTE I Gozo E TEORIA DO VALOR
PROBLEMA DOS CONCEITOS ECONÔMICOS DE FREUD A LACAN
expressões quantitativas tais como “muito”, “pouco”, “maciçamente”, “intensamente”
Surge a impressão de que sempre se está a falar de diferenças dispostas segundo uma continuidade, de acordo com uma gradação, onde a combinação, a mistura e a co-presença de processos e dimensões é a tônica. No caso lacaniano se dá o oposto: tudo é uma questão de qualidades, diferenças irredutíveis, descontinuidades e rupturas.
.
De fato há muitos ganhos a considerar neste giro anti essencialista, nesta crítica da metafísica fisicalista, prisioneira do contexto científico no qual se desenvolveu a obra de Freud e de uma parcela substancial de seus continuadores. No entanto este movimento crítico redundou, paralelamente, na condenação ao ostracismo de certos temas clínicos freudianos, por parte da tradição lacaniana que se seguiu.
O ensino de Lacan parece caminhar de uma interpretação lingüística do inconsciente (a teoria do significante) para uma teoria dialética do sujeito (a subversão do sujeito), terminando por tematizar a paradoxalidade do objeto (a teoria das pulsões)
tanto na teoria do aparelho psíquico quanto na psicopatologia ou na prática da cura o elemento quantitativo é decisivo no entender de Freud.
Lacan, como se sabe, procura reler Freud de modo a desbiologizar seus conceitos. Em linhas gerais isso significará uma substituição regrada, sistemática e argumentada de noções quantitativas por noções qualitativas
Não menos decisivo é o fato quantitativo para a capacidade de resistência a contrair uma neurose. Interessa o montante de libido não aplicada que uma pessoa pode conservar flutuante, e a quantia da fração de sua libido que é capaz de desviar-se do sexual para as metas da sublimação.
A teoria da sexuação apóia-se assim em uma desproporção, incomensurabilidade ou não pareamento sistemático entre os elementos envolvidos em uma suposta totalidade.
Não se deve atribuir tais críticas apenas a mazelas políticas institucionais ou rancores históricos
a noção de gozo (jouissance) para sinalizar a presença incômoda de noções quantitativas no interior de seu sistema teórico
uma instância metapsicológica conhecida como Real
pontos de vista tópico, dinâmico e econômico
o tema do desencadeamento da neurose (esquecido por trás da noção de estrutura), o tema do caráter (esquecido por trás da noção de imaginário) e o tema da formação, fracasso e deslocamento de sintomas específicos (esquecidos por trás da noção de metáfora paterna)
paradoxalidade: prazer e desprazer, desejo e aversão, satisfação e insatisfação, amor e ódio. A tensão entre estes pares em oposição constituiu um dos pilares da reflexão ética da modernidade e ainda hoje organiza a concepção comum sobre a felicidade e o bem-estar, geralmente alinhado aos primeiros elementos da série. Ocorre que a noção de gozo parece combinar ou desfazer essas oposições. O uso teórico e a experiência clínica nos levam a reconhecer a existência de algo como uma satisfação insatisfatória, ou um desprazer prazeroso ou ainda uma aversão desejante na relação do sujeito com seu sofrimento. Esse conjunto de oxímoros por si só serviria como definição preliminar do gozo
Na neurose o gozo se mostra pelo apego e pelo valor que o sujeito confere ao seu sintoma, mais exatamente para o que é produzido pela economia do sintoma sob forma de ganho primário. Uma ligação intensa com aquilo que não lhe serve para nada e que não obstante toca-lhe no mais fundo de sua experiência subjetiva.
grupos sintomáticos que giram em torno da repetição, como a neurose de guerra, a neurose traumática e a neurose de destino
Narcisismo na neurose, em particular sobre o difuso campo formado pelas neuroses narcísicas, os transtornos borderline e os estados limites.
As RAÍZES DA NOÇÃO DE GOZO EM LACAN
Em lugar da energética de Freud proponho a economia política.
Lacan
Da ordem jurídica (o gozo como direito a), à esfera sexual e ao júbilo imaginário, o gozo comporta ainda um cenário de leitura ligado à economia-política (Seminário XVII) e à ética (Seminário VII)
axiologia
O gozo na matriz lingüística
O gozo é interditado a quem fala.
Lacan
sobre teoria da cultura ou sobre estética
Amplo entrando em associação com noções como as de desprazer, insatisfação, dor, asco, masoquismo erógeno,1 ao lado de noções como as de libido, gozo sexual, satisfação e mais prazer (Mehrlust).
Vê-se que o gozo realiza-se em uma repetição, que nesta repetição algo perdido é retomado, mas que nesta retomada preserva-se apenas um parco simulacro da experiência que a repetição visa reconstituir.
propriedade geral da linguagem no que diz respeito à repetição
A fala onde a antecipação da intencionalidade de seu autor, o seu caráter fático ou meramente reprodutivo, impõe-se completamente ao dizer. É a fala que parece não ser feita para ser escutada, mas meramente ouvida.
“No começo percebo logo aquele tom de queixa e fico à espera do próximo pedido. Aí ela começa a falar e falar. As palavras vão se desagregando, vão se tornando todas iguais até que só consigo distinguir o tom de voz. Depois é como se entrasse um único zumbido e aquilo vai irritando sem que eu perceba. É cor n o rádio ligado ou música ambiente que perturba e cansa sem que a gente se dê conta. É uma sensação ruim e difusa que vai tomando conta sem que eu consiga fazer nada.”
Dunker, C.I.L. La can e a clínica da interpretação
O gozo mostra-se assim como uma satisfação em segunda potência, isto é, uma satisfação extraída da satisfação do outro. Mais especificamente uma satisfação mediada é interditada pela linguagem. Mediada porque no chiste trata-se da articulação entre significantes segundo as regras que constituem os processos primários, regras estas que comandam as formações inconscientes. Por exemplo, a condensação reúne o valor psíquico de duas representações em uma terceira, o deslocamento transfere o valor de uma representação para outra.
O gozo exige portanto esta mediação da linguagem para se realizar. Compreende-se assim por que, às vezes, ele é referido como uma forma de “satisfação inconsciente”, isto é, uma forma de satisfação realizada por intermédio do processo primário, que atua como uma regra de composição ou articulação entre as representações. Isso permite falar do gozo como um afeto inconsciente, no duplo sentido de afeto, ou seja, de uma sensação no corpo (encare) e de uma afetação ou apassivação do sujeito. O inconsciente, no sentido tópico, estaria às voltas com a tarefa de tramitar o gozo; de inscrevê-lo ou organizá-lo, de conferir a ele algum valor psíquico.
Esta dupla passagem, do inconsciente ao gozo e do gozo ao inconsciente seria semelhante à inclusão ou exclusão de um elemento em uma operação de cálculo, como se afirma algumas linhas abaixo no mesmo texto: “Fazer passar o gozo ao inconsciente, quer dizer para a contabilidade, é, com efeito, um duplo deslocamento.”
Mas uma perda que produz mítica e retrospectivamente um momento originário onde este se mostraria não perdido. Portanto, são as trocas, as relações ou a própria distribuição da libido que criam, necessariamente, a representação futura ou passada da experiência de totalidade. Inversamente, é desta ficção de totalidade que o gozo se mostrará sempre parcial, fragmentário ou ainda localizado no órgão.
Até nossos dias a humanidade sonhou apreender e fixar este instante fugitivo em que foi permitido acreditar ser possível enganar a lei da troca, ganhar sem perder, gozar sem partilhar
relação a outros significantes, o que determina sua significação. Por exemplo, a palavra portuguesa angústia ou francesa angoisse pode ter a mesma significação que o alemão Angst, mas não o mesmo valor, isso por várias razões, em particular porque, por exemplo, ao falar da sensação produzida por um animal ameaçador, o alemão dirá Angst e o brasileiro medo. Isso ocorre porque na comparação entre termos semelhantes angústia se colocará ao lado de termos como ansiedade e medo em português, sem correlato direto com o seu valor em alemão. Ou seja, a palavra pode ser trocada por uma significação aproximada, mas não possui, comparativamente, o mesmo valor.
O conceito de valor é utilizado por Saussure para representar a possibilidade que um signo possui de ser substituído e comparado dentro de um sistema de linguagem.
este discurso do inconsciente está, como disse da última vez, articulado ao valor de gozo
Se o falo não é o pênis é porque o falo é o valor atribuído ao pênis
Se o falo é o representante da falta é porque a atribuição de valor introduz o sujeito simultaneamente na esfera do desejo e do gozo:
” … o falo é o significante da razão do desejo (na acepção em que o termo é empregado como ‘média e extrema razão’ da divisão harmônica)
Ao ler o falo como um operador relacional Lacan permite dist i ngui-lo de sua idéia intuitiva, ou seja, na doutrina freudiana o falo:
a) não é uma fantasia (um efeito imaginário)
b) não é um objeto (parcial, interno, bom, mau, etc.)
c) não é um órgão (pênis ou clitóris que ele simboliza, etc)
Essa duplicidade aparece claramente no conceito de castração: “A castração significa que é preciso que o gozo seja recusado (refusé), para que possa ser atingido na escala inversa da lei do desejo.”
o caráter híbrido do problema representado pela disparidade entre o valor linguístico de troca, consignado pelo falo, e o valor de uso, de consumo ou de abuso, representado pelo gozo.
À altura do Seminário XX chega-se à tese de que o objeto a, e não o falo, funciona como causa do desejo. Inversamente o significante, e não o objeto, é a causa do gozo. Mas causa indireta, se assim podemos dizer, na medida em que o que conta nesta causalidade é que o significante não pode apreender como significante, mas apenas como letra. Mesmo com esta manobra de inversão o problema permanece, ou seja, o falo e suas noções derivadas jamais recobrem perfeitamente o campo delimitado pelo objeto a.
O gozo na matriz ético-jurídica
O gozo é um mal porque comporta o mal do próximo.
Lacan
Lacan insiste na idéia de que o gozo é algo que se imagina e se· antecipa como realizado no Outro
O que deste Outro retorna ao sujeito sempre portará a marca da parcialidade, da falta ou mesmo da insatisfação.
Lembremos de que o termo satisfação, etimologicamente, refere-se àquilo que é o bastante, aquilo que basta, introduzindo assim a noção de limite como coextensiva à de satisfação. O limite, por sua vez, pode ser representado pela idéia de lei, mas também pela ideia de um certo patamar de prazer, ou de desprazer, suportável pelo sujeito.
instituição de um superego mais benevolente.
Lacan investirá contra a possibilidade de um superego benevolente, ou regulador como o chama Braunstein,26 uma vez que seu fundamento reside no caráter insens�to da lei como um imperativo. Kant e Sade fazem assim um círculo “vicioso” em torno da universalidade do imperativo que representa a lei. ” … ao tu deves de Kant, se substitui facilmente o fantasma sadeano do gozo erigido em imperati vo, puro fantasma seguramente, e quase irrisório, mas de modo algum exclui a possibilidade de sua ereção em uma lei universal”
Strachey, J. The nature of therapeutic action of psycho-analysis.
Jeremy Bentham, o idealizador do panopticum é também conhecido pela sua. apresentação do indivíduo como um ser movido pela procura do prazer e pelo cálculo que este envolve em relação aos sacrifícios decorrentes. É curioso que sua teoria tenha se desenvolvido à luz do problema da restituição do gozo no caso da transgressão. Bentham coloca, muito objetivamente, o problema relativo ao criminoso: como este pode reparar o mal feito à sociedade. Sua tese é de que seria possível o cálculo exato desta “medida da falta”, desde que se pudesse contar com uma totalidade fechada onde nenhum desperdício, nenhum prazer ou sacrifício pudessem ser excluídos da contabilidade. Crime e castigo formariam assim uma equação de soma zero, tal qual a lei de Talião, que Freud afirma vigorar no inconsciente
A psicanálise, no entanto, deriva de uma tradição que acaba por problematizar e trazer à luz paradoxos contidos em cada elo desta cadeia. Vários autores têm mostrado como Freud, em que pese sua confiança na razão e no esclarecimento, é também herdeiro do iluminismo sombrio, de Sade a Nietszche e de Hobbes a Schoppenhauer. Em Lacan esta herança aparece sob a influência exercida por autores como La Rochefoucauld, Gracián e Bataille.
desenvolvimento industrial da época: seria isso um bem? Residiria a felicidade na consecução do consumo? A tarefa de Bentham , mas também de Stuart Mill e Adam Smith foi introduzir um agente auto-regulador na ideia de consumo por intermédio do princípio da utilidade. As trocas e os valores morais encontrariam “naturalmente” seu limite na medida em que se encontrasse um universo fechado onde nenhum outro agente ou fundamento gerisse o sistema.
De Kafka a Orwell, dos relatos de experiências limite em campos de concentração ou sob regimes totalitários, tematiza-se cada vez mais este caráter insensato da lei quando ela se consagra a realizar o ideal de completamente da demanda, e em contrapartida de apagamento do desejo. Desejo e gozo formam assim uma antinomia ética cujo mediador encontra-se na idéia de lei.
Isso nos leva a considerar, ainda no século XVIII, a literatura inaugurada por Sade, a literatura maldita e libertina. Sade nos apresenta um duplo projeto. Por um lado o levantamento exaustivo e uma descrição minuciosa de todas as formas de prazer, como vemos em Os 120 dias de Sodoma. Levantamento que carrega a marca da totalidade que vimos em Bentham. Por outro lado há, em Sade, um projeto social de instituição de uma nova lei, não mais fundada na interdição e na moral cristã, mas no imperativo do acesso universal e natural ao gozo.
“Franceses, um esforço a mais se quereis ser republicanos”, o capítulo mais importante de A filosofia na alcova,31 procura mostrar como tal imperativo é uma espécie de coroamento, de ultra-
passamento necessário e conseqüente da Revolução Francesa.
Observe-se como no próprio enunciado está presente esta expressão que indica o gozo: “um esforço a mais”. Um esforço pressupõe um ato livre da vontade, um sacrifício que vai além.
Sade argumenta que tal esforço iria apenas no sentido de dar forma racional à natureza humana. Ele chega a imaginar formas políticas que poderiam dar expressão concreta a este projeto: a República Sadeana ou ainda o Clube dos Ladrões e Libertinos. Quando não o faz diretamente isso transparece nas masmorras, castelos isolados ou porões obscuros que compõem os cenários privilegiados de sua literatura. Lugares para tópicos, fechados em sua alteridade totalizada e, nesta condição, realização imaginária, sem falta, do gozo.
Sade precisa enfim apresentar e persuadir o outro, mesmo que apenas como interlocutor literário, para levar adiante seu discurso
Daí o papel crucial desempenhado por Justine, a virtuosa e incorruptível donzela que resiste, com todas suas forças, a assumir a conversão libertina proposta pelos heróis sadeanos. A impressão é que se Justine ceder à carne, de corpo e alma, o discurso sadeano se reduziria a um inventário sem interlocutor.
A questão ética do gozo implica sempre colonização, submissão ou assujeitamento do outro. Trata-se do reconhecimento do mal radical, mas não essencial, na relação com o outro
O homem tenta satisfazer sua necessidade de agressão à custa de seu próximo; explorar seu trabalho sem retribuição, utilizá-lo sexualmente sem seu consentimento; apropriar-se de seus bens; humilhá-lo; infligir-lhe sofrimento, martirizá-lo e matá-lo
Lasnik-Penot, M.-C. A construção do conceito de gozo em Lacan. Percurso, São Paulo, ano IV, n. 8, 1992.
o mater n a g O a pode ser lido como a conjunção do sujeito ao objeto (S v a), acrescido da disjunção do sujeito ao objeto (S /. a)
A relação entre desejo e gozo é uma relação não dialetizável. Entre ambos há um trabalho circular e contínuo de ciframento e deciframento, por meio do qual o gozo se converte em desejo e o desejo em gozo. Esse trabalho é mediado por uma instância dual, a lei, que simbolicamente interdita o gozo e por meio do superego obriga ao gozo
O gozo na matriz econômico-política
teoria social lacaniana (Zizek, Lacan, Butler
Stavrakakis, Y. Lacan & the political.
Substituindo-se o dinheiro, ou o capital, por outras matrizes de cálculo, tais como o direito, a linguagem ou o poder, encontraremos sempre esta espécie de isomorfismo na problemática relação entre objeto a e - . p .
Os conceitos de falo, como significante, a idéia da antinomia entre desejo e gozo e noção de objeto a mais-de-gozar são conceitos forjados por Lacan a partir, respectivamente, da lin güística estrutural de Saussure, da ética trágica e da economia política de Marx. Nisso observamos uma curiosa convergência: todos eles referem-se a algo que é condição de possibilidade de troca ou de intercâmbio. Referem-se ao que permite operar, regular ou tornar proporcional certas heterogeneidades.
O gozo na matriz lógico-formal
É no real, fazendo buraco, que o gozo ex-siste.
Lacan
” … o falo está predestinado a dar corpo ao gozo na dialética do desejo”.
50 E ao mesmo tempo: ” … o gozo fálico se torna anômalo ao gozo do corpo” .51
A teoria da suplência
a teoria do Sinthome
o conceito de letra ocupa na matriz lingüística
o que está perdido no gozo não se recupera todo nas suas formas de restituição, neste caso sob forma de signo de amor. O amor, assim como o prazer ou a letra e ainda a arte no sentido da estética sublimatória, faz borda ao gozo. Quando o gozo ganha corpo, no duplo sentido de unidade (corpus) e de cadáver (corpse) será sempre na forma de um equívoco, troca ou engano. A totalização do gozo será marcada por um índice muito preciso: “Não é isso - aí está o grito por onde se distingue o gozo obtido do gozo esperado”
Lacan, J. A terceira (1974). Che Voi? psicanálise e cultura. Cooperativa Cultural Jacques Lacan, Porto Alegre, p. 28, 1986.
trabalho isolando três inscrições distintas do gozo:
a) o gozo fálico: situado entre o simbólico e o real;
b) o gozo do Outro: situado entre o real e o imaginário;
c) o sentido (ou gozo do sentido): situado entre o simbólico e o imaginário
A FALTA E O EXCESSO: MODULAÇÕES DO GOZO EM UM CASO DE HISTERIA
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é a verdadeira .
Perder o nada é um empobrecimento.
Manuel de Barros
situa-se entre a descrição e a literatura, entre a ficção e o relato
Barros, M. Livro sobre nada
Havia nela uma espécie de crença mágica de que algum dia ele “iria mudar”. Todos os sacrifícios que ela fazia se justificavam em nome disso. Cuidava da casa, sustentava econômica e socialmente o marido.
Tinha pouco interesse por sexo o que ela relacionava vagamente às sucessivas infide lidades do marido.
Ocorre que após um longo e turbulento desenlace ela é lançada no que chamou de sua liberdade. Curiosamente esta liberdade redunda em um período de depressão, falta de ânimo, pessimismo e incapacidade para articular qualquer projeto. Algumas iniciativas, antes tolhidas pelo marido, recebiam agora livre curso, mas, não lhe traziam qualquer satisfação. Ela estava livre mas não sabia gozar desta liberdade: como um passarinho com saudade da gaiola, segundo uma metáfora por ela utilizada. É nesta circunstância que ela vem a saber de um fato que a abala sobremaneira. Seu ex-marido envolvera-se com a antiga amiga e confidente.
Três sintomas apareciam em ligação direta com este acontecimento: idéias recorrentes e intrusivas em torno de vingança, uma inibição relacional, que a remetia à fantasia de um
destino solitário e infeliz, e um medo difuso de que algo trágico e violento aconteceria com ela. Como medida protetora, para reduzir a intensidade deste medo ela passa a praticar certos rituais supersticiosos antes de sair ou chegar em casa. Verifica se nenhum objeto, jóias em particular, está faltando e também se vê obrigada a telefonar para sua própria casa antes de chegar, para ter certeza de que ninguém está lá.
um ato extremo para saber afinal quanto ela valia para ele, quanto ele sentiria sua falta.
Se ao menos você fosse homem, não teria que passar por isso
Cobra decididamente menos do que seu trabalho vale, tendo o mercado por referência. Gosto que me paguem menos, assim é como se eu tivesse dado algo a mais. Fico com a sensação que os outros me devem algo.
Estar a mais ou estar a menos formam assim um circuito pelo qual o gozo é calculado. Estar a menos, estar em dívida ou em insuficiência, é a posição a partir da qual se articulam os significantes que marcam a falta para este sujeito, os significantes fálicos que viabilizam seu desejo, mas também o alienam. Estar a mais, como elemento excluído, sem importância, elemento que não conta, caracteriza, inversamente, sua posição como objeto. A juntura dos ditos parentais parecia articular o sintoma, como significação do Outro (s(A)), da seguinte forma:
Você está a mais como filha e a menos como mulher.
que está a mais frente ao casal formado por sua agora ex-amiga e seu ex-marido
O pai e seus representantes gozam ao excluí-la. Ela goza ao se fazer excluída. Sua condição de faltante, ou de causa para o desejo do Outro se equiparava, provisoriamente, à sua condição de objeto para o gozo do Outro (- . p . a).
O CÁLCULO NEURÓTICO DO GOZO
Ela sacrificava-se pelo marido, em diferentes sentidos . As coisas se complicam quando ela percebe a inutilidade deste sacrifício. Quando ela põe em questão tanto a causa (o em nome do que) quanto os fins (o para que) que regem este sacrifício, ela se vê lançada em uma crise de gozo e em um aprofundamento de sua divisão subjetiva.
Observe-se como a lógica neurótica do sacrifício se desdobra em inúmeras variantes procedentes das diversas narrativas modernas. Na narrativa do trabalho, por exemplo, isso significou o engajamento em uma atividade alienante, desprazerosa e hostil que oferecia em troca a promessa de ascensão social e de acesso a bens de consumo. Um sacrifício que poderia organizar a vida de um sujeito, baseando-a na sua carreira ou na promessa contínua e adiada de libertação, dignidade ou realização.
Senett, R. A corrosão do caráter -conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo
narrativa do amor romântico. Nela o sacrifício aparece sob forma de tensão entre a promessa e a decepção. A promessa de um amor concluído, fechado em si mesmo e em consonância com as exigências da vida familiar, representou um dos mais fortes ideais da modernidade. A decepção que ele gerou decorre da força de sua promessa. O amor torna-se assim um valor intrínseco, em função do qual todos os sacrifícios são legítimos. Inversamente o sacrifício tornou-se a medida da legitimidade do amor.
Sacrifício, restituição e resto
Mas por que digo que o gozo contido na promessa fálica é desproporcional ao gozo encontrado no objeto? Aqui encontramos o grão de areia no cálculo neurótico do gozo. Entre o valor de troca e do valor de uso, Lacan introduz um terceiro elemento, ou seja, aquilo que está fora do valor, aquilo que não se inscreve na atribuição de valor: o real
O impossível, o inominável, a Coisa, o resíduo, o dejeto são por sua vez exemplos do que não admite valor no plano do uso
Miller, J.-A. Los signos del goce.
Sinthome. Aqui se supõe que alguma liberdade tenha sido conquistada quanto ao destino do gozo
Soller, C. Variáveis do fim de análise
atributos de menos valia fálica, inerentes à neurose -inútil, falta-a-ser, a-mais, todas expressões que apontam para um sacrifício existencial, ou identificatório, inútil, do ponto de vista do gozo.
como manter uma certa distância entre o Ideal e o objeto, uma vez que tal distância constituiria a “mola mestra da direção do tratamento”
A clínica contemporânea parece marcada pela hegemonia destas duas formas de apresentação do sintoma. D� um lado as neuroses de caráter, as histerias com sérias dificuldades de implicação subjetiva, pacientes que trazem demandas difusas em torno, por exemplo, de autoconhecimento ou de uma anestesia psíquica generalizada, casos onde o sofrimento se apresenta sob forma de estabilização da significação. O sujeito parece aceitar seu sintoma, amá-lo pela via da identificação como uma parte inamovível de si mesmo. É o que Freud descreveu como processo de formação do caráter. Aqui é como se o ideal se desligasse do objeto, quer pela degradação simbólica deste ideal, quer pela inflação imaginária do objeto. Nas duas situações o objeto confunde-se com o seu semblante.
No extremo oposto, há os analisantes que estão às voltas com o desencadeamento quase permanente de uma crise de gozo: estados limites, condições precárias de sobrevivência psíquica, pânico, atuações continuadas, pacientes que trazem demandas urgentes e parecem estar sempre na iminência de um colapso. São casos onde o sofrimento psíquico se apresenta sob forma de instabilidade da significação com oscilações de humor e contraste disruptivo dos afetos. Aqui é como se o ideal entrasse em colusão com os objetos, fenômeno que Freud descreveu na esfera do narcisismo, em “Psicologia das massas e análise do ego”, mas também em “Luto e melancolia”. Nesta situação o objeto perde seu semblante e sua sombra ou luminosidade cai sobre o eu. Essas duas formas de apresentação do sintoma poderiam ser separadas segundo outros critérios.
A angústia, por exemplo, parece estar em falta no primeiro caso, e em excesso no segundo.
Soller isola duas formas de sacrifício: a condicional e a incondicional. O sacrifício condicional se verifica quando a escolha de um mais-de-gozar exclui um outro, isto é, quando um mais-de-gozar é trocado ou substituído por outro
É o que se observa, por exemplo, no que Helene Deutsch chamou de “renúncia feminina”, ou seja, abdicar das aspirações pessoais para vê-las realizadas de forma indireta no objeto masculino eleito. Poderíamos falar ainda da mãe que se priva de qualquer satisfação para vê-la realizada, por procuração, em seus filhos. É ainda o que se articula na reivindicação histérica por justiça ou no cálculo obsessivo das compensações. O gozo perdido hoje será restituído amanhã, a privação de gozo no sujeito será restituída como realização de gozo no Outro, e assim por diante. É importante salientar que esta forma de cálculo do gozo apresenta-se clinicamente pela hegemonia do modo subjuntivo no discurso. Em expressões como Quando eu fizer … ou Se ele consentisse… costuma ficar clara a posição sacrificial do sujeito em relação ao objeto que condiciona seu gozo
No sacrifício incondicional, ao contrário, o objeto é desti tuído de seu semblante. A disjunção entre o gozo perdido e o gozo restituído, na sua parcialidade de mais-de-gozar, fica clara. Aqui o sujeito goza da privação em si mesma e não a tomando como um meio para um determinado fim. Sibony,9 em um pequeno ensaio sobre o sacrifício na antiga cultura Asteca, afirma que neste caso o sacrifício procura fundar o objeto ao se confundir com ele. É o que se verifica na anorexia, por exemplo, e em todas as formas onde o objeto é nadificado, excluindo-se do campo do valor.
Sibony, D. Variaciones sobre el sacrif í cio
A crise de gozo
O tratamento psicanalítico deve, na medida do possível, ser efetuado num estado de privação e abstinência.
Freud
É conhecida a afirmação de Freud de que a diferença entre a neurose
Esta fissura no estilo de vida, este peso insuportável da existência, estes acasos e repetições que costumam representar o ultrapassamento de um certo limite do sofrimento psíquico tolerável constituem outra maneira de considerar o problema
às condições de insatisfação com o próprio sintoma. Mais precisamente com a insuficiência ou instabilidade do sintoma para articular, regular e distribuir o gozo.
crise de gozo
o paciente não pede apenas que o sintoma seja removido, mas se queixa de sua súbita inadequação e falta de efetividade
Isso produz um interessante impasse tematizado desde Freud:
o sujeito “quer” livrar-se dos sintomas mas não da paradoxal forma de satisfação que estes propiciam, ou seja, do seu benefício primário. O que faz do projeto clínico da psicanálise uma operação de perda, de luto ou de extração de gozo que vai no sentido contrário ao que o paciente, como “cliente” ou “usuário”, pede ou espera.
atravessados por reaparições de “crises de gozo”.
A psicanálise é também, mas não apenas, uma forma de psicoterapia.
Zizek, S. Looking Awry
Roudinesco, E. Por que a psicanálise?
Miller, J.-A. Psicoterapia e psicanálise. ln: Forbes, J. (org.) Psicanálise ou psicoterapia
a lacuna de saber que acompanha toda crise de gozo. Lacuna no sentido em que todo sintoma se faz envolver por uma rede de narrativas, explicações e justificativas que fornecem uma espécie de consistência e ordenação ao mal-estar que este propicia. Não afirmamos com isso que pacientes apresentem-se, at u almente, à análise, destituídos de conjecturas sobre seu mal-estar, mas que estas são via de regra ineficazes, insuficientes ou duvidosas. O sintoma tem uma história e esta história é sempre fragmentária, repleta de incoerências e contradições, já nos dizia Freud. Em que pese tais atributos ela sempre está investida de uma unidade imaginária, simétrica à que encontramos no plano do eu. A lacuna no saber pode ser apresentada como uma ruptura dessa unidade imaginária que torna o sintoma “compreensível” e tolerável ao próprio sujeito
A crise de gozo se desencadeia por uma mudança, ruptura ou deslizamento do sintoma. O sintoma adquire certa estabilidade ao se consolidar em estrutura de metáfora. Na metáfora há um elemento, metaforizado, que permanece em elisão, em elipse para que a metáfora se sustente. Quando este elemento perde o caráter de exterioridade ao conjunto que este permite simbolizar, a estrutura da metáfora se desfaz
Mas nem tudo no sintoma se reduz à sua estrutura de metáfora. Freud já afirmara que a interpretação do sintoma conduz a fantasias que o sustentam. Lacan denominou o articulador central destas fantasias inconscientes de fantasma. É ao fantasma que se remetem às formações parciais de gozo que se apresentam nos sintomas específicos. Por isso diversos autores referem-se à crise de gozo através de expressões como “abalo” ou “vacilação” do fantasma. Mas se o fantasma exprime esta relação estática do sujeito ao objeto a, como explicar esta instabilização?
Lacan apresenta a estrutura do fantasma em duas versões. Uma genérica, escrita pelo matema (S O a) e outra específica onde este se divide no fantasma na histeria ( -�) O A e o fantasma na neurose obsessiva IA. O .p (a, a’, a”, a”’, .. . )
Pois tudo o que está em questão para Dora, como para toda histérica, é ser fornecedora deste signo sob forma imaginária. O devotamento da histérica, sua paixão por se identificar com todos os dramas sentimentais, de estar ali, de sustentar nos bastidores tudo o que possa acontecer de apaixonante, e que, no entanto, não é da sua conta, é aí que está a mola, o recurso em torno do que vegeta e prolifera todo o seu comportamento.
Mas enquanto esta moeda neurótica permaneceu estável, isto é, enquanto o Homem dos ratos sabia como pagar, para ter o gozo restituído, podemos dizer que sua identificação ao sintoma fazia consistência. Ocorre que a impossibilidade de pagar uma dívida contraída na ocasião da compra de novos óculos alterou sensivelmente este “metabolismo dos objetos”, produzindo uma série de efeitos que vão desde a confusão e amedrontamento até a despersonalização e agitação que caracteriza sua chegada ao consultório de Freud. Pode-se dizer, de forma imprecisa, que o Homem dos ratos foi lançado em uma crise obsessiva, uma crise de gozo.
a’, ( a”, ( a”’, … ) Ou seja, o falo deixa de ser uma unidade de medida eficaz para o cálculo do valor de gozo do objeto. Em outras palavras, a estratégia neurótica de inscrição do gozo, tanto na neurose obsessiva quanto na histeria, estaria marcada pela equivalência entre perda e restituição. O gozo a menos, imposto pela castração, seria tornado equivalente de um gozo a mais, compreendido pelas formações fálicas de restituição, como o sintoma. A pressuposição neurótica é de que menos e mais são comensuráveis e reversíveis e por isso a falta no Outro se identifica à demanda no sujeito.
Uma situação cuja origem revela a não proporcionalidade entre valor de uso e valor de troca.
A DIMENSÃO QUANTITATIVA NA PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA
ganharam relevo e que o modelo de tratamento foi formado. Não se pode descon h ecer as incursões de freudianos e pós-freudianos sobre as psicoses e as perversões mas elas são nitidamente uma ampliação ou um prolongamento inves
com a procura do agente patógeno, em
No segundo grupo temos a Gradiva, Moisés e Cristoph Haiz mann, como “casos históricos”.
O período seguinte da obra de Freud está marcado por sucessivas revisões na forma de conceber e descrever a estrutura da neurose. Migração do paradigma representado pela histeria para o paradigma da neurose obsessiva, com uma breve incursão intermediária em torno das psicoses.
Para isolar o grupo das neuroses atuais (neurose de angústia, neurastenia e hipocondria) o critério é a etiologia diferencial. O agente etiológico se localiza nas práticas sexuais e no estilo de vida que o sujeito mantém e que acabam por produzir um certo estado da libido do qual tais agrupamentos de sintomas seriam efeitos. Assim o acúmulo da “toxina sexual”, fruto da abstinência sexual, se expressaria na forma de angústia na neurose de angústia. A aderência da libido ao corpo se expressaria na hipocondria. A satisfação mecânica e sem o desenvolvimento de um pré-prazer redundariam na neurastenia como efeito da masturbação ou do declínio da potência.
No caso da neurose de caráter, da neurose de destino e das neuroses narcísicas leva-se em conta a assimilação do eu ao sintoma. O sintoma torna-se “egosintônico”, isto é ajustado, integrado ao eu, de modo que a inconciliabilidade, o conflito e o sofrimento que dele derivam passam a fazer parte das próprias identificações que organizam o modo de vida neurótico.
Há uma anestesia generalizada, abreviação da intensidade da satisfação e uma redução da intensidade percebida sob a insatisfação.
Finalmente no grupo da neurose traumática e da neurose de guerra o eixo de caracterização é uma situação específica de atualização de um conflito neurótico clássico. Pode-se atribuir o agrupamento de sintomas formados ao que Freud chamou de disfuncionamento das pulsões. Os sonhos de repetição, as lembranças recorrentes, a despersonalização e o desamparo que caracterizam tais quadros surgem como efeito desta.
Soma-se a isso os desenvolvimentos pós-freudianos que acabaram pulverizando o campo nosológico a partir da inclusão de novos critérios, a saber: derivação de descrições psiquiátricas (por exemplo, drogadição), elevação de sintomas específicos e de múltipla incidência ao estatuto de quadros clínicos autônomos (por exemplo, depressão, angústia, inibições sexuais), assimilação de processos contingenciais à esfera de quadros neuróticos (por exemplo, neurose de abandono e de fracasso) ou ainda assimilação da noção de neurose à de transtorno da personalidade (por exemplo, personalidade borderline, histriônica, narcisista, esquiva, dependente, etc)
De fato, a noção de estrutura deriva desse critério freudiano axial: o modo de defesa fundamental. Um exemplo disso se pode ver na análise de Lacan sobre a relação entre a primeira afirmação (Bejahung), a forma de recusa (Verneinung) e o retorno do recusado (Verdri i ngung/ V en u er f u . ng/ Verleugnung)
Pela noção de formação de substitutos ou de sintomas
incompatibilidade entre o “impulso ativo libidinal repri mido”4 e uma temida “lesão do eu”, motivada por um não poder (devido a uma força superior) ou a um não-querer (devido aos ideais do eu).
Finalmente no tópico dedicado à regressão Freud distingue uma regressão do eu (histeria de conversão), uma regressão da libido (neurose obsessiva) e uma regressão a uma forma de neurose infantil (histeria de angústia). Aqui o critério é uma certa proporção entre as exigências do eu e as exigências do objeto libidinal para determinar o ponto sobre o qual a regressão se efetivará (fixação) mas também sobre seu sucesso ou fracasso na captação e conjugação da libido no eu e no objeto.
destino.
Ou seja, para cada ponto do modelo estrutural há uma espécie de anti modelo. Este antimodelo é sempre representado por uma situação clínica onde a presença do excesso, do mais além do limite do sintoma é nítida. Eles são todos casos de sintomas na borda da estrutura. Sintomas para os quais Freud usava a expressão “neurose”, no sentido fraco do termo. Na mesma direção podemos incluir as formações substitutivas, as formações reativas e as formações de caráter. Todas elas modulações do sofrimento psíquico que não se inscrevem plenamente na descrição metapsicológica da formação de sintomas.
Esta zona nebulosa formada pelo que extrapola o nível do sintoma mas não chega a estabelecer-se como estrutura, pode ser abordada pelo ângulo inverso.
os estudos sobre o autismo (Mahler), a observação de bebês (Bick) e a maternagem (Winnicott) reforçam, quer pela via da relação de objeto, quer pela via da constituição do eu, a idéia da neurose definida pela regressão e pelas defesas egóicas. A criança tornou-se, por esta via, a matriz psicopatológica fundamental da psicanálise, o ponto de Arquimedes a partir do qual se poderia ler, diagnosticar e intervir sobre a neurose do adulto. Entre a criança e o adulto a diferença é quantitativa e não qualitativa. Entre ambos vigora a continuidade e não a ruptura.
Silva Jr., N. Metodologia psicopatológica e ética em psicanálise: o princípio da alteridade hermética
Lacan permite reler os diversos elementos freudianos utiliza dos na equação etiológica substituindo a predisposição biológica pela noção de história e de anterioridade do Outro, a experiência infantil pelo tema da castração, a fixação pela noção de fantasma e a indisponibilidade do objeto (Versagung) pela ampliação do conceito de falo e posteriormente pela introdução da ideia de objeto a.
.
O sintoma e os traços clínicos tornam-se assim redutíveis à estrutura; são, por assim dizer, acontecimentos prescritos e organizados pela sobredeterminação estrutural. Entende-se assim por que alguns autores chegam à afirmação de que “o infantil é a estrutura”. A estrutura, na psicanálise de Lacan, ocupa o lugar teórico reservado ao tema da experiência infantil na psicanálise anglo-saxônica.
o presente trabalho se insere.
Não se pode dizer que esta seja uma alternativa completamente original. Em julho de 1997, psicanalistas ligados à Associação Mundial de Psicanálise reuniram-se em uma pequena cidade da França com o objetivo declarado de resolver o impasse deixado pela noção de estrutura clínica. A conversação de Arcachon, como depois ficou conhecida, pretendia abolir os impasses da noção de estrutura clínica substituindo-a pela clínica do real, ou clínica borromeana, cujo fundamento é a teoria generalizada da foraclusão. A ideia, ao que parece, ainda depende de uma análise mais fecunda dos últimos textos de Lacan, bem como de uma prova clínica mais consistente de seus efeitos. Em linhas gerais o que esse movimento teórico visa é reintroduzir a noção de funcionamento, em última instância, de função, em uma psicanálise impregnada, até então, pelo antifuncionalismo estruturalista.
La Sagna, P. Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica
- Os inclassificáveis do gozo: onde se reuniriam as formas clínicas em que a expressão “abuso”, seria a expressão-chave.
Inclui-se desde o abu s o de psicotrópicos até o abuso sexual ou o abuso no pensamento delirante. - Os inclassificáveis do corpo: para onde convergem desde os transtornos alimentares (bulimia, anorexia, obesidade mórbida) até os dismorfismos, as rupturas da imagem corporal.
- Os inclassificáveis do Outro inexistente: onde o sofrimento psíquico deriva ou se articula no parceiro, cônjuge, amante ou família, até mesmo psicanalista, que alberga sobre si a função de suplência para a inexistência do Outro.
Nasio, J.-D. Os ol/ios de Laura
PARTE II DA ESTRUTURA AO SINTOMA
DESENCADEAMENTO DA NEUROSE: UM FALSO PROBLEMA?
Uma parte de mim é permanente;
outra parte se sabe de repente.
Ferreira Gullar
Uma mulher ” .4 Tornou-se lugar comum argumentar que nas entrevistas preliminares é preciso cuidado com a função diagnóstica de modo a evitar o desencadeamento de uma psicose. Seria possível, nesta linha, pensar que há certas condições subjetivas onde o paciente se apresenta à análise sem uma neurose desen cadeada? Neste caso, não seria função do tratamento tornar este desencadeamento possível?
Calligaris, C. Introdução a uma clínica diferencial das psicoses.
O que levanta o problema acerca de quais circunstâncias tornam um sintoma insuportável e em que termos este deixa de ser um artefato subjetivo para contenção do gozo.
desse acontecimento mencionando que ele equivaleria ao reconhecimento de uma certa consistência inefável do gozo, consistência esta que se oporia ao “gozo calculável”, Leguil, por sua vez, fala de uma espécie de abalo no fantasma, ou de “separação entre sintoma e fantasma”, como algo presente no início e no fim de uma análise.
Laurent, E. As entradas em análise. Opção Lacaniana
Leguil, F. A entrada em análise e sua articulação com a saída
“Encontro com o real”, “vacilo do sintoma” ou ainda “crise de gozo”.
ponto de sustentação para a fantasia fundamental, elemento organizador das fantasias secundárias e dos sintomas. A fixação como terceira condição causal exprime a perda e retenção do gozo na esfera da castração e seu recalcamento.
indisponibilidade do “objeto real no mundo externo”
Não é mais uma dificuldade em atender as transformações da realidade, mas de uma dificuldade em “modificar-se para atender a novos intuitos e novas exigências da realidade”
masturbação e que não consegue se aproximar do objeto de amor quando este se coloca como uma possibilidade real
A jovem que se dedica a cuidar do pai e não consegue deslocar sua afeição para um pretendente, quando este efetivamente se coloca em cena e finalmente o caso da mulher casada que se atendo à condição de esposa fiel e perfeita mãe para os filhos não consegue introduzir suas fantasias ou inclinações polígamas
recusa em “dar um passo à frente do ponto de vista da vida real”
único tipo de satisfação possível ao sujeito
cai-se enfermo tanto quando se põe de lado um ideal (primeiro caso) como quando se procura atingi-lo (segundo caso).
Juranville, A. Lac,rn e a filosofia
’ c) inibição da pulsão (paralisação do objeto a) d) insuficiência psíquica em face das exigências pulsionais (paralisação da função fálica)
Eu não faço nada, fico ali parado, preso, pensando, no vazio
Não consegue trabalhar pois implica com tudo
destacam: ele perde o emprego, realiza uma operação delicada e seu pai morre passando sua mãe a viver com outro homem.
O segundo aspecto diz respeito às modificações no plano do caráter: irritação, desconforto, recrudescimento da escrupulosidade e da obsessão com a limpeza e ordem.
Não tenho como pagar por isso. Talvez nós pudéssemos sair e acertar as coisas em um jantar
como ele sabe que não pode pagar por isso e depois assinalo que para alguém que não pode sair de casa, muito menos comer fora, um convite para jantar não deixa de ser surpreendente.
A NOÇÃO FREUDIANA DE VERSAGUNG E O GOZO COMO PARASITA
objeto. A relação com a falta de objeto é portanto decisiva para a estrutura neurótica, como argumentou Lacan no Seminário IV. Mas quanto de “falta de objeto” cabe ao neurótico suportar? Quanto é necessário amar antes que a “fuga para a doença” se torne inevitável? Ou ainda, qual o montante além do qual a sublimação torna-se um subterfúgio inútil? Tais perguntas seriam consideradas descaradamente improcedentes se nos lembramos que a noção de falta está submetida a um binarismo estrito, de extração estruturalista em Lacan. Nele a falta não se opõe a qualquer forma de positividade, falta não é carência, mas abertura constituinte do ser. Considerada esta restrição, ainda assim é necessário reconhecer a importância clínica do gradiente, da intensidade e da receptividade do objeto no plano da sua indisponibilidade quantitativa e, não apenas qualitativa.
incidência da falta: como insatisfação da pulsão, em face do objeto, como interdição, face ao agente, ou como efeito, em face da privação.
simbólico (castração), real (privação) e imaginário (frustração).
Na frustração o objeto é definido como real, na privação o objeto é simbólico e na castração o objeto é imaginário. Lacan especifica ainda que no caso da frustração seu agente é simbólico, o pai simbólico, cuja introdução na dialética entre identificação e escolha de objeto é crucial para a constituição do sujeito enquanto estrutura. O agente da frustração é o pai enquanto função simbólica que priva a mãe, frustra a criança e apresenta a castração no campo do Outro.
Em outras palavras, ao inscrever o falo no campo do Outro, pela incidência do Nome-do-Pai, no interior da metáfora paterna, decide-se a estrutura da neurose. No entanto se isso prescreve a possibilidade de constituição de sintomas, no sentido amplo do termo, isso não garante a sustentação ou consistência deste sintoma diante do objeto no Real.
dependente da frustração (Versagung), segundo a tese de Freud. A frustração encontra-se preservada imaginariamente na formação do caráter, sob forma de história identificatória. Por outro lado, a frustração se reatualiza na forma de um encontro com o Real, que desencadeia a formação de sintomas. Finalmente, é como ruptura do narcisismo que a frustração incidirá sobre o eu.
Birman, J. Mal-estar na atualidade
Hanns, L. A teoria pulsional na clínica de Freud.
Peron, P. A noção de cura na obra de Freud. 2000
Bruno, P. Satisfação e gozo
Dor, J. Estrutura e perversões
do exagero escópico que se produz diante do uso irrefreado da internet ou da passividade induzida pela televisão
Nestas narrativas circula uma moeda narcísica cuja principal característica é a insaciedade. Quanto maior a promessa de satisfação maior a decepção com o objeto.
Quanto dinheiro será suficiente ao capitalista? Qual o limite para a coleção de signos do apelo amoroso? A cultura baseada na promessa de satisfação universal, pelo acesso a bens, pelo uso possível do semblante de objeto ou pela equivalência entre o direito a e a obrigação de , formam as arestas do que Roudinesco 14 chamou de cultura depressiva, isto é, uma cultura que induz à depressão pela sobreposição do Ideal ao objeto, tendo por efeito o esvaziamento da experiência de satisfação. Há portanto um segundo grupo de interesse psicopatológico que pode ser pensado a partir desta degradação do gozo fálico, a partir da colusão do falo ao objeto.
A função do Nome-do-Pai é justamente inscrever o falo no campo do Outro. Se esta operação não se realiza com pleno sucesso, uma parte do corpo ou uma forma específica de objeto perde sua investidura fálica. Resta portanto o objeto destituído de seu valor de troca, o objeto ou órgão, idêntico a si mesmo, cerne do no caráter insano de seu uso.
na transferência um caso particular da repetição
o repetir e o duvidar na neurose obsessiva, a indiferença e o asco na histeria
PRODUÇÃO, SUSTENTAÇÃO E FRACASSO DE SINTOMAS
Sintoma e identificação
Tempo de compreender, diria Lacan, onde a operação de recalcamento é desfeita e refeita, onde o sentido se fecha e se abre alternadamente. Tempo onde há uma certa suspensão do saber. Do ponto de vista de um sintoma já constituído, poderíamos dizer que se trata de um vacilo ou de uma instabilização, que se mostra pelo estranhamento frente a certos significantes que representam a questão do sujeito.
Períodos de desinteresse e alheamento tornam-se cada vez mais recorrentes diante de assuntos e tarefas que antes tomavam sua atenção e o envolviam completamente
E ainda me pagam por isso. Mal sabem eles que eu o faria de graça se pudesse
Ele não sabe mais quem é o chefe
ilícitas;
c) era uma profissão de respeito e de relativo status social, o que lhe permitiria impressionar as mulheres.
Ele não sabia mais o que era e onde estava o “correto”. Este significante tornara se enigmático e insensato. A lacuna no saber era crucial para entender a confusão, o tempor e a inibição ao trabalho.
quase homófono (coreto). Antítese entre bagunça e ordem.
a) a ruptura da identificação fálica, organizativa do gozo no plano do caráter;
b) insuficiência do sintoma para reorganizar o gozo;
c) suspensão do saber e emergência de um significante enigmático.
Sintomas transitórios, típicos e individuais
os afetos são sempre recíprocos
Esta sensibilidade ao pequeno outro, seja pela via agressiva ou da paixão, exprimiria assim um efeito secundário da transitividade própria ao imaginário
Obras Completas de Sándor Ferenczi
Freud detalha a conhecida, e exaustivamente explorada, distinção entre as variantes da identificação, ou seja:
a) Como a forma mais antiga e originária de laço com o outro (identificação primária);
b) como substituto regressivo de uma escolha de objeto;
c) como deslocamento de um elemento comum, seja ele um traço (Einziger Zug), um desejo (identificação histérica) ou um sintoma (identificação pelo sintoma).
A sustentação do sintoma na família
análise do sintoma: o narrativo, o quantitativo e o estrutural. Do ponto de vista narrativo o sintoma se transmite na família pois esta é o pequeno universo de alteridades capaz de definir em que termos e por quais meios o sofrimento é legítimo, e por contraste, qual forma de mal-estar se caracterizará como si n toma. Em outras palavras, qual forma de apresentação do desprazer é legítima e qual é problemática
cálculo do gozo: amor x dinheiro, ou seja, o que cifra a relação instável entre o falo e o objeto a.
Fantasma e traço de gozo
Lacan raramente volta ao tema da família após seu escrito seminal sobre este tema
Lacan, J. (1969). Duas notas sobre a criança. Opção Lacaniana, n. 21, abril de 1998.
Eiguer, A. Um divã para a família. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, p. 43
Dizia-se na Viena da época de Freud que a psicanálise, na verdade, produziu os sintomas que pretendia curar. Talvez devamos voltar, pelo avesso, à fecundidade dessa ironia.
PARTE III QUADROS CLÍNICOS
NEUROSE DE CARÁTER
Reich oferece como exemplos para traços de caráter a timidez, ataques violentos de ira, negligência flagrante, inclinação para a mentira, bebida, ostentação, enfim, condições psicológicas que podem marcar um “estilo de vida” ao qual o eu se identifica e se aliena. Um estilo de gozo, portanto, do qual o sujeito não se queixa. Quando o faz, a queixa é geralmente indireta, decorrente de sua inviabilidade ou dos transtornos relacionais secundariamente produzidos.
Reich, W. (1932). Análise do caráter.
A neurose de caráter se traduz, pois, por entraves difusos nas atividades da pessoa, por impasses imaginários nas relações com a realidade. Ela é tanto mais pura quanto mais subjetivamente integrados ao sentimento de autonomia pessoal estiverem os entraves e impasses
um modo de relação (tipo sublimado e tipo reativo), uma forma de defesa contra a angústia (personalidade neuró tica), um estilo sexual (caráter frígido), um aspecto da pulsão (traço uretra., anal, fálico) e como uma forma abreviada ou in cipiente de estruturas clínicas (caráter compulsivo, cíclico, es quizóide). Contra esta dispersão do conceito seria pertinente pensar que o caráter é apenas a intrusão do gozo na esfera do eu (moi). Em vez de mapear todas as incidências de gozo possíveis, bastaria pensá-lo como exterioridade íntima do eu.
Peniche., O. Teoria psicanalítica das neuroses -fundamentos e bases da doutrina psicanalítica.
as exceções, os que fracassam quando triunfam e os que delinqüer n por sentimento de culpa
A natureza cometeu comigo uma grave injustiça negando-me a bela figura que faz os homens serem amados. Tenho direito a ser uma exceção, a passar por cima dos impedimentos que detêm aos outros. E ainda me é lícito exercer a injustiça, pois ela foi comet i da comigo
Nada se ganha, ao contrário, tudo se perde, quando nosso desejo se cumpre sem contentamento:
vale mais ser aquilo que destruímos do que por destruição viver em duvidosa alegria
o caráter nada mais é do que uma narrativa
o DSM-IV 16 nos oferece um roteiro com dez tipos de transtornos de personalidade divididos em três grupos: A (paranóide, esquizóide, esquizotípica), B (anti-social, borderline, histriônica, narcisista) e C (esquiva, dependente, obsessivo-compulsiva). A maior parte dos casos, como se vê, parece indicar apenas formas mais brandas dos grandes quadros clássicos. São maneiras descritivas de reter o invólucro formal do sintoma tomando como referente às narrativas culturais hegemônicas
O caráter controla as relações do homem com seus objetos. O caráter significa sempre uma limitação, mais ou menos extensiva, das possibilidades de amor e ódio. O caráter significa pois uma limitação da capacidade para love and enjoyment, para o amor e alegria. A dimensão da alegria, de grande alcance, supera a categoria de gozo de um modo que seria preciso destacar. ( … ) Balint pensa que a experiência analítica proporcionará mais elementos sobre este ponto. Por minha parte, me inclino a pensar assim, na condição de percebermos que a análise pode modificar profundamente o caráter
o eu possui a estrutura de um sintoma
“Tipos libidinais ” .2 3 Já na esfera da segunda tópica, postula-se a existência de três tipos: o eró tico, o compulsivo e o narcisista. O primeiro se define pela inequívoca ligação com a dimensão amorosa: ser amado e a angústia frente à perda do amor são as figuras elementares deste tipo. No caso do tipo compulsivo, a singularidade passa pelo lugar central ocupado pelo supereu e pela consciência moral. Finalmente o tipo narcísico se apresenta como uma
prontidão para a atividade, incluindo-se de forma predominantemente ativa na vida amorosa.
NEUROSE TRAUMÁTICA
Em “Além do princípio do prazer”, pode-se argumentar que a repetição mnêmica do trauma é uma forma de elaborar o acontecido. Repetir, não apenas em vez de lembrar, mas repetir para esquecer.
A angústia deixa de ser apenas um efeito do recalcamento mal-sucedido (histeria de angústia) ou a expressão psíquica de um excesso libidinal (neurose de angústia) para ser a causa do recalcamento e a matriz básica dos afetos
A procura pela ima gem de referência para o trauma explorou diferentes aspectos na esfera do infantil: separação, desamparo (Hil f l osigkeit), passividade (masoquismo originário), ou fragmentação da imagem corporal (corps morcelé).
Lacan afirma que no trauma o sujeito agarra-se ao significante que está nas bordas do real. A neurose traumática, neste sentido, assemelha-se a um cercamente do inominável, à construção de um envoltório para o que não se pode dizer. A condição para o sucesso desta empreitada parece residir em uma curiosa inversão das relações entre desejo e realidade.
Não me refiro aqui ao conceito de real, aquilo que não cessa de não se inscrever, aquilo que volta sempre no mesmo lugar, que não possuindo fissuras se deduz e se representa sob a figura lógica do impossível.
Não penso que Lacan abandone o conceito, aliás freudiano, de realidade, como se atesta por exemplo no chamado esquema R, onde há uma tentativa de delimitar o espaço psíquico conferido à realidade. A realidade é uma articulação simbólico-imaginária, ordenada pela relação entre os objetos, os ideais, o eu e a alteridade. Em outras palavras a realidade
é um conjunto de relações, não uma coleção de entes. Freud distingue três formas de realidade: a realidade material, a realidade histórica e a realidade psíquica. Lacan desconstruirá a noção de realidade psíquica para isolar desta a noção de Real.
Mas resta ainda essa forma menor, intermediária, do conceito de realidade, diversa do real mas ainda irredutível ao campo da ontologia, no sentido tradicional e metafísico do termo empregado pelas ciências, por exemplo.
Ora a noção de realidade interessa ao que está em questão porque na neurose traumática justamente o que parece faltar é a própria realidade. A realidade como encobrimento é o que é mobilizado pelo sujeito para fazer anteparo ao real
O trabalho positivo do trauma corresponde aos esforços para devolver ao trauma a sua vigência, vale dizer:
a) recordar a experiência esquecida;
b) torná-la real e objetiva (Real);
c) repetir a experiência acontecida.
Empenhos que se resumem à esfera da fixação e da compulsão à repetição. Já o trabalho negativo do trauma segue uma via oposta, denominada por Freud, de reações de defesa, entre as quais se destacam:
a) evitações, inibições e fobias;
b) modificações do caráter;
c) limitações do eu
relação direta ao objeto a. Recuperando a idéia de Spitz, de que na experiência catastrófica o sujeito se agarra aos últimos vestígios do que a antecedeu, Lacan dirá que: “O mecanismo da neurose traumática está especialmente caracterizado pelo fato de que em uma seqüência fundamental de neurose traumática como tal, é a última recordação viva da cadeia o que subsiste.
A primeira série ilustra-se pela repetição insensata, intrusiva e incontrolável do evento traumático, sob forma de lembranças, sonhos e imagens recorrentes. Sonhos que, em geral, vão até o último instante antes do acontecimento traumático. É o trabalho construtivo ou positivo do trauma.
Freud comenta que a presença de um dano físico, particularmente a aparição da dor, costuma diminuir os efeitos deletérios do trauma. Assim um soldado que apenas viu seus companheiros serem fulminados durante a guerra e temeu agudamente pela sua própria morte terá maior possibilidade de desenvolver como sintoma uma neurose de guerra (um subgrupo da neurose traumática) do que aquele que foi acometido, nas mesmas condições, por algum ferimento ou dolo corporal. O fato clínico depõe a favor da hipótese da encorpsificação do gozo pela dor. Ao encontrar um equivalente no corpo, a exterioridade do gozo, bem como sua mistura ou imbricamento com a pulsão permanecem articuladas.
Masud R. Khan, M. O conceito de trauma cumulativo
era preciso reconhecer que a neurose traumática tornara-se um bom meio para produzir associações, um ótimo caminho para recordar e repetir … mas só isso. Os ganhos nesta linha se faziam à custa de uma re-traumatização constante que punha em perigo o próprio tratamento.
Diz-se que na análise é preciso lembrar para poder esquecer. Neste caso, a segunda parte da equação parecia não ocorrer.
NEUROSE DE DESTINO
Nunca se vai mais longe do que quando já não se sabe para onde se vai.
Goethe
Por volta do final da década de 1920 o tema do destino passa a ocupar as preocupações de Freud. Aspectos biográficos como a morte de um de seus filhos e a descoberta do câncer em sua mandíbula, bem como, os turbulentos momentos históricos que precedeu à Segunda Guerra Mundial têm sido apontados por inúmeros autores para explicar a aparição do tema. Sua obscura relação com a noção de pulsão de morte representaria um motivo interno para a valorização do destino como uma questão analítica.
neuroses traumáticas reativamente (pela compulsão à repetição), nas neuroses de destino a repetição colhe o sujeito na posição de passividade. Alguns exemplos disto são trazidos por Freud:
a) o benfeitor que se vê continuamente às voltas com a ingratidão de seus protegidos;
b) o homem cujas amizades terminam sempre em traição;
c) as pessoas que passam a vida entre a idealização e a decepção com uma figura de autoridade;
d) amantes cuja relação amorosa passa sempre pelas mesmas fases e encontra sempre o mesmo desenlace
Irmãos Karamazov
quanto mais se procura fugir ao destino melhor se o cumpre. “O destino conduz quem consente e arrasta quem não consente”
há um saber interditado aos homens
Saber suposto cor n o forma de nor r i . ear, organizar e localizar aquilo a que o homem está submetido. Saber-limite, para além do qual o protagonista comete o excesso, o ultrapassamento, que os antigos chamavam de hybris e que funciona como motor do destino trágico
noções como as de for tuna, acaso ou risco acabam sempre reintroduzindo a ambigüi dade onde antes havia discriminação, acaso onde havia previsibilidade e caos onde antes estava a ordem
remissão ao lugar do Outro.
Sabe-se que Freud pensou a religião basicamente a partir do tema do pai, de seu assassinato, da sua revivescência for madora de ideais e de fratrias. Há, no entanto, aspectos da religiosidade que são mais bem compreensíveis a partir da construção compartilhada deste saber sobre o gozo. Nem sempre o lugar estruturalmente atribuído ao pai coincide com o saber sobre o gozo. Em outras palavras, a identificação com o pai simbólico não é, necessariamente, a única via de acesso ao saber sobre o gozo. Por exemplo, nas inúmeras religiões formadas em torno da noção de destino ou predestinação, ou onde as práticas adivinhatórias ocupam um lugar ritualístico importante, o ponto determinante da crença no destino parece ser este lugar imaginariamente exterior à cadeia significante. O transe, a dissociação e os estados de obnubilação ou êxtase são exemplos desta possibilidade
O superego torna-se um “glutão” - quanto mais tem, mais quer.
Estou aqui
a vergonha é o afeto típico da situação onde se é denunciado por um saber. Na vergonha aquilo que deveria permanecer entre-sabido, ou semi sabido, torna-se exposto, torna se todo-sabido pelo Outro
o segredo é condição da vergonha. Lembremos de que junto com a culpa e o asco, a vergonha forma o trio de afetos herdeiros do complexo de Édipo
A vergonha é o sentimento próprio da exclusão e da segregação inerentes ao processo civilizatório
Nem mesmo a morte o libertará desta repetição, o que não o impede de suicidar-se … diversas vezes. Em outras palavras, seu destino torna-se insensato e trágico na medida em que nele nada de substancial pode ser alterado. Nada de importante pode surpreendê-lo e nada de novo pode alterar a rotina onde dia após dia ele se vê perdendo a mulher a quem ama. Esta mesma decepção é seu destino, e este destino é um descentramento em face do próprio presente, que ele habita, mas ao qual ele não pertence, pois nele não se gesta nenhum futuro ou se constrói qualquer experiência do passado. O protagonista evidencia, inicialmente, uma odiosa indiferença pelo outro. Tal indiferença é inversamente proporcional ao pertencimento ao próprio destino.
O sujeito moderno nasce sob a égide da autonomia e da promessa de “fazer seu próprio destino”. Ser autor, diretor e protagonista de sua própria obra. Nessa trajetória há um fracasso possível, o da incompletude do projeto. Mas há uma segunda e mais angustiante forma de fracasso. Aquela que ocorre quando o sujeito triunfa. Quando seu destino é uma consequência lógica e necessária de suas próprias ações, deliberações e comandos, seja isso verdadeiro ou meramente uma conjectura, sobrevém a “perda de satisfação” e o sentimento de não pertencer, verdadeiramente, a este destino demiúrgica mente criado.
NEUROSES ATUAIS: NEURASTENIA E NEUROSE DE ANGÚSTIA
Como é fatal sobreviver.
Paulo Bonfim
este vazio possa ser tomado sim como um objeto, cuja melhor figuração seria o nada
As referências de Lacan à presença do nada nas estruturas clínicas são inúmeras. É o nada que o anoréxico come, que o obsessivo coleciona e que o histérico demanda. O nada faz parte de uma das definições mais precisas do conceito de gozo, ou seja, o gozo é aquilo que não serve para nada. Poderíamos aventar se não é este nada que o alcoolista bebe ou que o drogadito consome, um nada que faz do ato de consumo sempre o primeiro ato, que impede o sujeito de contar e que o faz um consumidor perene do mesmo. Se uma estrutura clínica tem sempre como correlato uma forma particular de cálculo do gozo, nos parece que no caso das neuroses atuais o fracasso deste cálculo pode ser atribuído à emergência de um elemento incontável, incapaz de inscrição no valor fálico: o nada.
A ideia de que o nada pode ser tomado como um objeto aparece na seguinte passagem: “Pois se o amor é dar o que não se tem é bem certo que o sujeito possa esperar que se lhe dê, posto que um psicanalista não tem outra coisa que lhe dar.
Mas inclusive esse nada, ele não o dá, e mais vale assim: e por esse nada se lhe pagam … ”
a forma como o sujeito lida com o nada é a forma como ele produz seu sintoma no lugar da não relação sexual
é preciso incluir o nada como variável no cálculo neurótico do gozo
Temos então com a entrada deste objeto não especulari zável uma desorganização da série das identificações e uma conseqüente ruptura da série dos sentidos. Ora a série das identificações compreende a relação do significante mestre com o sujeito (S), com o eu ideal (i) e com os objetos (a’, a” … ).
Estamos, neste lado, na face do falta-a-ser. Na neurose de angústia a introdução do nada como elemento identificatório paralisa o movimento da identificação, o que poderíamos representar da seguinte maneira: S(i(a) (a) (a))
Como o atestam as fórmulas da sexuação, o falo se encontra no lado masculino e o objeto a no lado feminino, quanto mais a falta se inscreve no plano fálico menos gozo. Inversamente quanto mais produção de gozo menos inscrição fálica da falta. O caso limite dessa relação seria representado pelo gozo sem nenhum suporte fálico especular, ou seja a angústia
“medo de ficar louco” e a “sensação de que de repente tudo deixará de ter valor”
Nossa hipótese é de que a neurose de angústia, ou se preferimos seu nome moderno, o transtorno do pânico, redunda de colapso do cálculo neurótico do gozo. Vimos que este cálculo se processa pela equivalência ou proporcionalidade estabelecida pelo sintoma entre falta e restituição. Isto inscreve o sujeito em relação à posição fálica e a um modo de gozo ao preço da produção de um resto - o a-mais-de-gozar. Podemos propor agora que na neurose de angústia trata-se de um retorno da função do nada sem a formação de um sintoma, no sentido estrito do termo, isto é como retorno do recalcado. Trata-se de uma espécie de incoordenação entre falo e mais-de-gozar cujo traço fundamental é a angústia e a iminência de fragmentação, catástrofe ou desmantelamento, inclu sive corporal
a angústia pela falta (fálica) e a angústia pelo excesso (mais-de-gozar)
NEUROSE NARCÍSICA
Não podemos evitar a morte nem tampouco “sair dos limites”.
Morrer e sair dos limites são, aliás, uma só coisa.
Georges Bataille
.O termo “neurose” em associação com narcisismo ficou praticamente interditado. Em seu lugar vimos surgir as personalidades “como se” (Deutsch), os transtornos narcísicos, o falso self (Winnicott), a personalidade borderline (Stern) e mais recentemente os estados limites (Bergeret).
defensivo em associação direta com as neuroses narcísicas. Ao contrário da neurose, estruturada a partir do recalcamento, da psicose (foraclusão) e da perversão (recusa), as neuroses narcísicas foram pensadas, desde o início, não a partir de um processo defensivo específico, mas a partir de uma forma de organização do eu.
Os elementos-chaves na descrição do quadro revelam-se, quase sempre, arranjos que procuram cercar uma experiência subjetiva a partir do que ela não é, ou seja, pela sua negatividade, por exemplo: tendência à instabilidade, ausência de sintomas bem organizados, precariedade de fronteiras internas, falta de coesão do self , e amortecimento ou esvaziamento dos afetos nas relações, empobrecimento do humor e da vida de fantasia. 5
transtornos narcísicos em termos de uma oscilação de afeto, de condutas anti-sociais (sexo casual, drogadição, agressividade impulsiva) e de uma co-presença da angústia de abandono e angústia de separação, proliferam argumentos descritivos do tipo: nem isto nem aquilo, isto e ao mesmo tempo o seu contrário
O supereu admite, nesta época, três inflexões, ele é um sucedâneo das instâncias ideais (Ideal de eu, Eu Ideal), uma função de auto observação, crítica e julgamento e, a que nos parece mais importante, o lugar onde cultivam-se as pulsões de morte
No transtorno narcísico haveria uma espécie de sabotagem do prazer, uma “anhedonia borderline”.
Isso vai desde o típico sentimento de apatia, tédio e futilidade que acompanha historicamente a descrição dos transtornos do narcisismo até o cinismo e o descomprometimento generalizado com qualquer formação de ideal. Anzieu fala disso ao mencionar que o estado limite traz consigo a sensação de que se é um espectador desinteressado da própria existência. A tese mobilizada para explicar tal aspecto mostra claramente uma sobreposição entre a estrutura do sujeito e o estado do ego: “Para Lacan, o Eu tem normalmente esta estrutura, que o perverte e o aliena. De acordo com minha experiência, esta configuração em anel de Moebius é específica do estado limite.
Mas, como afirma Freud no texto em questão: “só a morte é de graça”. Ao parear o menos de gozo, do sintoma, com o mais de gozo, da ausência de proibição, o prazer e a satisfação, como formas de desvio para o gozo, perdem seu valor. Ao tornar o sacrifício uma forma de acesso ao gozo e não uma forma de recusá-lo, o sacrifício torna-se inútil. A ausência de limites, a transgressão e o virtual embaraço com as regras sociais surgem assim cor n o efeito da inutilidade do sacrifício. Um sacrifício que busca sua conclusão, que procura seu encerramento em algum ponto de retorno. Mas neste ponto de retorno, neste significante mestre (S1), a neurose narcísica, ao contrário, só encontra lugar para um relançamento. Por isso pode-se dizer que se no fantasma o gozo assume a forma temporal do instante e se na esfera do eu, este corresponde à forma temporal da com preensão, vemos como nas neuroses narcísicas, assim como nas neuroses atuais a forma temporal do gozo é a conclusão, a conclusão antecipada.
Relata seu funcionamento social enfatizando uma posição cínica e a importância assumida pela imagem que ela se imagina produzindo, e manipulando, no outro. A regra do jogo, como dizia, é, esteja sempre em outro lugar. Isso se fazia acompanhar de um erotismo muito pobre. A sedução, como um fim em si mesmo, tornava-se uma compulsão e uma defesa contra o desejo.
Essa substituição contínua de sua posição acaba por se revelar uma estratégia cujo produto é sua própria apresentação como uma espécie de mercadoria de valor nulo. Pode ser trocada por qualquer coisa mas não possui, em si, utilidade alguma. Nessas trocas de posição, que na verdade a mantém no mesmo lugar, acrescenta-se um mais-de-gozo, em tudo similar à agregação de valor própria da mais-valia
Aquilo que funciona como valor de troca no inconsciente é o falo, ou seja, o significante que representa a falta, o que funciona como valor de uso é o gozo. O cálculo neurótico do gozo efetua uma falsa identificação entre os dois produzindo assim o “mais-de-gozar” cujo objeto funciona como uma mercadoria.
Tal objeto-mercadoria guarda dentro de si a contradição que o originou, apresenta-se assim como um objeto insustentável, paradoxal, de antemão indisponível. Forma-se assim o dispositivo sintomático clássico pelo qual se pode ter acesso ao desejo. Ocorre que, no caso em questão, este objeto privilegiado é o próprio eu.
Quinet propôs que na melancolia haveria um destrincamento ou uma desfusão das pulsões que corresponderia a uma separação entre as duas valências do objeto a, ou seja, como objeto agalmático ou causa do desejo (Eros) e como objeto residual, dejeto do simbólico (pulsão de morte). O sujeito se identificaria a este objeto caído do simbólico, tal como o exemplifica o delírio de negação, descrito por Cotard. Isso definiria a posição estrutural do sujeito melancólico, no quadro geral das psicoses.
McDougall, J. Teatros do eu
sei muito bem que o Outro não existe, que não há fundamento natural para nossas crenças ou garantia última para nossas ações, mas … , mesmo assim, continuo a agir como se não soubesse disso
Isso permite colocar o cinismo, mas não a ironia, como exemplo crucial do estilo do funcionamento narcísico atual e sua “descrença” constitutiva como uma forma de negação da negação que inviabiliza o posicionamento do sujeito
Segundo Zizek, nesta situação o ponto chave não é apenas a dificuldade de inscrever-se por identificação simbólica a algum traço unário socialmente disponível no campo do Outro.
Muito menos sustentar uma identificação imaginária a algum jogo de linguagem, regra reguladora para o gozo. Não se trata nem da renúncia, que por sinal esse tipo de paciente costuma realizar na forma de um sacrifício inútil ao Outro .I(a)., nem da restituição, que nestes casos trará sempre a marca da transgressão, da exceção ou do ultrapassamento do limite .i(a)..
Para Zizek o organizador central dos quadros borderline é o supereu. Não o supereu herdeiro do Complexo de Édipo, mas o supereu materno, tal qual Lacan sugere: “Será que não há por trás do supereu paterno, o supereu materno, ainda mais exigente, ainda mais opressivo, ainda mais devastador, ainda mais insistente na neurose do que o supereu paterno?”
ALÉM DO CÁLCULO: A SUPLÊNCIA
Não há progresso. O que se ganha de um lado, perde-se de outro.
Como não se sabe o que se perdeu, acredita-se que se ganhou.
Lacan
O progresso da análise acaba por mostrar sob qual forma de negatividade o cálculo do gozo organiza os sintomas para cada sujeito. É comum que para o obsessivo este reconhecimento possua a marca do indecidível, do incontável ou do inescapável. Na histeria, por sua vez, o caminho de redução do gozo do sintoma muitas vezes está marcado pelo encontro com o indiscernível ou com o inominável. A experiência do negativo habita, como vimos, as inúmeras formas de encorpsificação do gozo, no discurso, no corpo e no Outro. Nessa parasitagem o gozo aparecerá sempre in negativo, como resto a mais ou a menos, mas sempre sob a sombra da totalidade.
desta experiência exterior. Mas, como mostrou Guyomard, há um gradual declínio dessa esperança dialética em Lacan. O que se vê surgir em seu lugar é uma teoria da suplência, como tentativa de cernir o indefinível, o resto, o dejeto, sem ao mesmo tempo torná-lo um terceiro elemento, a ser incluído ou excluído.
A suplementaridade é um conceito que aparece contemporaneamente em Lacan e no pós-estruturalismo. Na teoria da desconstrução, por exemplo, a “lógica da suplementaridade”, envolve um programa crítico de ruptura com formas de leitura e interpretação de texto baseadas na imanência do sentido e no fechamento da significação. A idéia de totalização do sentido supõe uma complementaridade entre autor e leitor, ou ainda entre texto e contexto. Essa circularidade participaria de uma crença , a ser desconstruída, na identidade do sentido. A suplementaridade constitui assim uma ênfase conceitual baseada na diferença, na repetição diferenciante e ao mesmo tempo uma alternativa ao dualismo estruturalista.
Lacan por sua vez emprega a noção de suplência em três contextos distintos:
a) Para designar a função estabilizante do delírio na psicose. Assim na foraclusão do Nome-do - Pai é suplamentada, mas não complementada, pelo delirio quando este ganha uma forma específica.
b) Para designar a função do amor na sua relação com a castração. Assim o amor suplementa mas não complementa a falta inaugurada pela castração.
c) Para designar a relação entre o Outro gozo e o gozo fálico. Assim o gozo feminino suplementa o gozo fálico, mas não o complementa posto que este continua a se articular a partir da falta fálica.
Se perguntarmos sobre a consistência deste elemento, o falo, encontraremos sempre a dimensão da falta, da hiância, da carência constitutiva do ser. A dialética domina a compreensão deste elemento fálico desde as variantes da incidência do Outro (Simbólico, Imaginário ou Real), até os modos de inflexão da falta (privação, castração, frustração) e as formas de sua veiculação (demanda, desejo, necessidade, amor). Temos sempre o elemento e o conjunto em uma relação de dupla negação sobredeterminada.
Freud dizia que a cura em psicanálise ocorre por acréscimo. Podemos dizer que para o último Lacan, a cura está na suplência, na identificação ao sinthoma como atestado de incompletude do sintoma. Clinicamente isso permite a divisão da análise em duas partes. A relação que o pequeno Hans mantém com o seu sintoma é emblemática desta primeira fase do tratamento: o gozo do sintoma, diz ele, não conta, é uma “besteira”. No início o próprio sintoma, segundo a imagem formulada por Freud, é comparável a uma bela dama que um dia aparece subitamente em uma cidade. Como não se sabe de onde veio, espera-se que um dia, igualmente sem aviso, vá embora. Na primeira parte o cálculo do gozo é levado ao seu ponto de paroxismo. Os caminhos da formação de sintomas são refeitos e as articulações significantes para sua redução, subjetivação e deslocamento são realizadas. Isso nem sempre redunda em uma remoção do sintoma, mas sempre em uma redução da sua capacidade de engendrar sofrimento.
A segunda parte da análise geralmente começa quando o sujeito sente “saudades” de seu sintoma e se vê diante da difícil tarefa de encontrar um novo destino para o que se precipitou a partir do trabalho da transferência. De fato, é apenas neste segundo tempo que a expressão genérica “o sintoma” é propriamente aplicável. No começo há apenas sintomas, diversos e desarticulados entre si. Sintomas em crise de gozo, ou gozo em cálculo estável, delimitado pelo caráter. O meio da análise, se é que pode sustentar a ambigüidade desta noção, foi muito bem examinado por Nasio através da chamada “crise transferencial”. Ponto onde se coloca agudamente a possibilidade de uma interrupção mas também onde fica claro o esgotamento do caráter fálico da transferência. Se no primeiro momento o trabalho se orientava para as vicissitudes do cálculo do gozo, no segundo momento começam a ganhar força os temas e questões ligados à suplência.
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