
The Great Cases of Psychosis
D. Os Grandes Casos de Psicose (NASIO, J) (z-lib.org)-1
Todos os grandes psicanalistas deixaram-nos o testemunho excepcio-nal de uma experiência clínica perturbadora e rica em ensinamentos.
Aqui estão, comentados pela primeira vez, os mais célebres casos de psicose da história da psicanálise: Schreber, cujas Memórias revelaram a Freud os mecanismos mais íntimos da paranóia e do narcisismo;
Dick, o menino autista cuja análise permitiu a Melanie Klein confirmar sua hipótese de que o sadismo é um componente sadio do homem normal; A pequena Piggle, menina desestruturada que pôs Winnicott no caminho do conceito de mãe suficientemente boa; Joey, o menino autista cuja cura impressionante reforçou a convicção de Bettelheim em seu projeto de tratar o autismo no meio institucional (a Escola Ortogênica); a menina esquizofrênica tratada por Dolto e a quem dei o nome de “Menina do espelho”, para sublinhar o poder alienante da imagem especular; Dominique, o adolescente psicótico cujo tratamen-to, também realizado por Françoise Dolto, foi um campo de pesquisa fecundo para sua teoria das castrações simboligênicas; e, por último, As irmãs Papin, que Lacan jamais conheceu, mas cuja loucura assas-sina foi a ilustração mais exemplar da passagem ao ato paranóica.
a clínica dos grandes mestres está tão viva quanto nossa clínica atual.
a vida do pacien-te, seus sintomas e o desenrolar da análise; a importância do caso para a teoria e uma seleta bibliográfica relativa ao caso.
psicose transi-tória
As três funções de um caso:
didática, metafórica e heurística O caso é uma ficção A gestação de um caso clínico:
o papel do “esquema da análise”
Assim, em psicanálise, definimos o caso como o relato de uma experiência singular, escrito por um terapeuta para atestar seu encontro com um paciente e respaldar um avanço teórico. Quer se trate do relato de uma sessão, do desenrolar de uma análise ou da exposição da vida e
dos sintomas de um analisando, um caso é sempre um texto escrito para ser lido e discutido. Um texto que, através de seu estilo narrativo, põe em cena uma situação clínica que ilustra uma elaboração teórica. É por essa razão que podemos considerar o caso como a passagem de uma demonstração inteligível a uma mostra sensível, a imersão de uma idéia no fluxo móvel de um fragmento de vida, e podemos, finalmente, concebê-lo como a pintura viva de um pensamento abstrato.
É essa a função didática do caso:
transmitir a psicanálise por intermédio da imagem, ou, mais exatamen-te, por intermédio da disposição em imagens de uma situação clínica, o que favorece a empatia do leitor e o introduz sutilmente no universo abstrato dos conceitos.
Para nosso leitor transformado em ator, o semelhante é aprendido pelo semelhante; ao ler o relato das sessões, ele se imagina sofrendo o que o paciente sofre e intervindo como intervém o terapeuta.
Compreen-de que a “mãe suficientemente boa” é a mãe simbólica, isto é, a duplicação psíquica da pessoa real da mãe, uma estatueta mental que a criança pode maltratar e agredir, sem destruí-la e sem destruir a si
de acordo com os princípios winnicottianos, a meta última da ação do psicanalista é criar no analisando, ao final de seu tratamento, a certeza de que ele pôde amar e agredir seu terapeuta de maneira simbólica, isto é, sem tê-lo realmente possuído nem destruído
“analista suficientemente simbolizável”. Suficientemente simbolizá-vel para sobreviver, como representação psíquica, às projeções pulsio-nais do analisando; um analista que trabalhou, na realidade da análise, de maneira suficientemente pertinente para imprimir no psiquismo do paciente a imagem simbólica de um terapeuta inalterável, condição essencial para que o analisando termine sua análise sem culpa em relação àquele que se prestou à dominação da transferência.
Em suma, o valor didático de um caso reside no poder irresistível da história clínica para captar o ser imaginário do leitor e conduzi-lo sutilmente, quase sem que ele se aperceba, a descobrir um conceito e a elaborar outros.
à maneira de um diretor cênico que fizesse do conceito teórico o personagem central de uma trama, que tem um começo, atinge um clímax e tem um desfecho; um diretor que procu-rasse criar em seu espectador uma tensão tão cativante quanto o sus-pense de um drama.
“Eu, o inconsciente, falo: sinto excitações penianas Tenho o falo e me acredito onipotente Desejo, ao mesmo tempo, possuir e ser possuído por meus pais, além de eliminar meu pai Sinto prazer em fantasiar Meu pai ameaça me castigar, castrando-me Vejo a ausência do pênis-falo numa menina e em minha mãe Angustio-me Paro de desejar meus pais e salvo meu pênis Assim, supero a angústia Esqueço tudo: desejo, fantasias e angústia Separo-me sexualmente de meus pais e faço minha a moral deles Começo a compreender que meu pai é um homem e minha mãe é uma mulher, e, aos poucos, começo a me aperceber de que também pertenço à linhagem dos homens (…).”
Eis a cena: ainda mal desper-tado de uma noite de sono, Schreber imagina que seria belíssimo ser uma mulher vivenciando um coito. Já essa simples evocação presenti-fica a hipótese freudiana que faz da paranóia masculina a expressão mórbida de uma fantasia infantil e inconsciente, de conteúdo homosse-xual: a de ser sexualmente possuído pelo pai e gozar com isso. Em seu devaneio erótico, Schreber é uma mulher inebriada com a volúpia da penetração, mas, em sua fantasia subjacente, é, na verdade, um garoti-nho que goza ao se entregar ao desejo sexual do pai. Por isso, o fato de um psicanalista evocar esse chavão, esse episódio marcante da doença de nosso presidente neuropata, equivale a afirmar uma das principais proposições que explicam a origem da paranóia: o amor inconsciente pelo pai é projetado para fora, na pessoa de um homem perseguidor a quem se odeia e de quem se tem medo. A causa da paranóia é a reativação aguda de uma fantasia homossexual edipiana. Como vemos claramente, o conceito de projeção paranóica apaga-se diante do exem-plo que se tornou seu substituto.
foi justamente graças às espantosas Memórias de um doente de nervos, comentadas por Freud, que Lacan pôde conceber pela primeira vez a idéia de significante do Nome-do-Pai e a idéia correlata de fora-clusão, noções que desde então renovaram a compreensão do fenôme-no psicótico.2 Para completar, não nos esqueçamos do papel desempe-nhado pelo célebre caso do Homem dos Lobos (episódio da alucinação do dedo cortado) no nascimento do conceito lacaniano de foraclusão.
Viço e rigor, inocência e saber são as qualidades primordiais de um clínico receptivo ao acontecimento transferencial que convoca à escrita.
a inteligência pré-consciente de minha escuta é incon-testavelmente diferente, uma vez que, a partir da teoria psicanalítica geral, faço uma reconstrução das principais fantasias subjacentes aos sintomas próprios do analisando.
impele o clínico a escre-ver.
o esquema do analista, longamente amadurecido, torna-se, no instante da escuta, uma cena marcada por uma grande nitidez.
Gostaria de dar aqui um exemplo, extraído de minha clínica, que mos-tra essa passagem do esquema à imagem. Refiro-me a Antoine, um homem de 40 anos que me consultou por causa de sua impotência sexual. Depois de algumas sessões, eu soube que, quando menino, ele havia apanhado freqüentemente do pai, um homem violento que tam-bém aterrorizava sua mulher. Progressivamente, como faço com a maioria de meus pacientes, vim a elaborar um esquema conceitual para orientar a escuta. Reconstruí, assim, a fantasia que supostamente expli-caria a impotência de Antoine. Mas, de que fantasia se tratava? A partir de uma hipótese que me é familiar, ou seja, que sempre devemos buscar a causa do sofrimento neurótico na relação edipiana com o genitor do mesmo sexo, eu disse a mim mesmo — eis o esquema da análise — que, em seu inconsciente, nosso analisando havia assumido perante o pai violento o lugar da mãe. Com isso, havia-se identificado com uma mulher espancada, que sofria a brutalidade de um homem. Assim, para ele, a virilidade seria sinônimo de violência, e a feminilidade, sinônimo de sofrimento.
a virilidade seria sinônimo de violência, e a feminilidade, sinônimo de sofrimento
Fui então tomado por uma nova percepção, que representava um garotinho de sete anos, miúdo, de pé, esmagado entre o corpo maciço de um pai ameaçador e o corpo minguado de uma mãe em prantos.
Que aconteceu? Sem dúvida, um acontecimento acima de tudo transferencial, já que essas imagens surgidas em minha mente foram a expressão fantasística do recalcado inconsciente do paciente. Digo “do paciente” porque deixei que brotasse na consciência minha percepção inconsciente do inconsciente do paciente. Meu inconsciente funcionou, nesse momento, como um instrumento de percepção. Mas esse aconte-cimento transferencial não poderia ter ocorrido sem a existência prévia de minhas reflexões teóricas, que apuraram a sensibilidade de meu inconsciente e legitimaram o cenário das cenas percebidas. É exata-mente essa relação ajustada e fluente entre a teoria e o inconsciente do psicanalista que formalizo, ao dizer: a fantasia primordial do paciente, reconstruída intelectualmente pelo analista, transforma-se, no aqui e agora da sessão e graças a um incidente transferencial, numa fantasia percebida.
Teórico sólido, passível de se surpreender, e clíni-co sutil, dotado de um esquema da análise
Em suma, por que redigimos um caso? Primeiro, por necessidade, a necessidade irresistível de escrever, para temperar a intensidade de
uma escuta que se transforma em olhar. Depois, por desejo, o desejo de dar um testemunho da vivacidade de nossa atividade analítica. E por último, também escrevemos levados pela certeza de pertencer à comu-nidade psicanalítica, por sua vez nascida da formalização de uma ex-periência primordial — a de Freud — e consolidada, há um século, pelos inúmeros escritos nascidos da prática de várias gerações de psi-canalistas.
é igualmente indispensável, a meu ver, fazer com que o do-cumento seja lido pelo paciente que é objeto dele, solicitando sua concordância para uma comunicação ou até uma publicação eventuais.
Para não perturbar o curso normal do tratamento e poder redigir a exposição a partir do conjunto do material, é preferível entrar em con-tato com o paciente depois de terminada a análise.
É certo que os doentes nunca falariam, se pensassem na possibilidade de uma exploração científica de suas confidências, e é igualmente certo que teria sido inútil pedir-lhes autorização para publi-cá-las.
há que não ter escrúpulos, expor-se, entregar-se como pasto, trair-
se, portar-se como um artista que compra tintas com o dinheiro das despesas de casa e usa os móveis como lenha para aquecer seu modelo.
Sem alguns desses atos criminosos, não se pode realizar nada correta-mente.”
“(…) Só submeter o material obtido a um trabalho de síntese depois de terminada a análise.”
Freud ficava desolado ao constatar a imensa distância que separava o fato vivido do fato escrito, o fato real do fato narrado, e ao constatar o quanto a escrita, não conseguindo jamais descrever o real psíquico, só podia fornecer dele uma representação empobrecida.
“Que embrulhada quando tentamos descrever uma análise. Que lástima despedaçar o grande trabalho artístico que a natureza criou na esfera psíquica.”
O eu expulsa para fora uma idéia que se tornou intolerável para ele, por ser demasiadamente investida, e, com isso, separa-se também da reali-dade externa da qual essa idéia é a imagem psíquica. “O eu”, escreveu Freud, “desprende-se da representação inconciliável, mas ela está in-separavelmente ligada a um fragmento da realidade, de modo que o eu, ao praticar esse ato, separa-se também, no todo ou em parte, da reali-dade.”1 Assim, o eu fica impotente e, às cegas, amputa uma parte de si mesmo — a representação de uma realidade que lhe é insuportável.
Que quer dizer “desprender-se”, “expulsar para fora de si”, “amputar de si” ou “ foracluir a representação” ? Significa que uma repre-sentação psíquica, já demasiadamente superinvestida pelo eu, fica su-bitamente privada de qualquer significação. A expulsão, metáfora es-pacial, equivale à retirada brutal da significação, metáfora econômica.
Mas, quer empreguemos uma ou outra dessas metáforas, o resultado é idêntico: o eu é vazado em sua substância, e a esse furo no eu corres-ponde um furo na realidade.
a percepção pelo eu do pedaço rejeitado, sob a forma de uma alucinação ou um delírio.
Se descrevêssemos esse mesmo processo em termos energéticos, diríamos: superinvestimento excessivo de uma representação, retirada violenta de todo o investimento feito nela, constituição de um ponto cego no eu, renegação completa da realidade correspondente e, por último, substituição da realidade perdida por uma outra realidade, ao mesmo tempo interna e externa, chamada delírio ou alucinação.
o paciente psicótico não é globalmente afetado, pois, fora dos acessos delirantes, preserva uma relação perfeitamente sadia com seu meio.
“O emitente recebe do receptor sua própria mensa-gem, sob forma invertida.” O emitente, isto é, o sujeito, ouve-se dizer suas próprias palavras como se viessem de fora, proferidas por um outro externo que falasse com ele
Enquanto o neurótico, surpreso, admi-te que seu inconsciente fala através dele e que ele é seu agente involun-tário, o psicótico, por sua vez, repleto de certeza, tem a convicção dolorosa e inabalável de ser vítima de uma voz tirânica que o aliena.
loteamen-tos ajardinados para operários
Schreber ameaçado em sua mente. Esse fenômeno do “falar na cabeça” ou da “língua dos nervos” “nada tem a ver com a fala nor-mal”, escreve ele; “são palavras que se intrometem na mente e nela se desenrolam, como quando se recita uma lição de cor. Contra essas palavras, a vontade não tem nenhum poder. Assim, podemos ser obri-gados a pensar ininterruptamente”. Esse castigo divino talvez seja o que mais sofrimento impõe a Schreber. As vozes o insultam sem parar ou lhe anunciam o fim do mundo, através do descolamento do sol
Com Deus, Schreber mantém relações feitas de uma mescla de adoração e revolta: acusa-o por todos os seus males, considera-o ridí-culo e tolo, mas, paralelamente, confere-lhe todas as virtudes e todas as glórias.
Deus o ensurdece com pequenos ruídos que se tornam enormes: cada palavra pronunciada em sua presença, cada passada ou cada apito de trem ressoa como uma pancada violenta, que provoca em sua cabeça uma dor intolerável.
Schreber ameaçado em seu corpo. Nenhuma parte de seu corpo é poupada. Ah, quanto ele tem sofrido. Reduziram sua estatura e intro-duziram um verme em seus pulmões, pulmões que depois se contraíram até quase desaparecer. Retiraram-lhe seus intestinos. Seu esôfago foi picado em pedacinhos. Suas costelas foram quebradas e ele engoliu parte da laringe. Seu estômago foi substituído pelo de um judeu. Os nervos da cabeça foram-lhe arrancados. Seus dedos paralisavam-se quando ele tocava piano e ele era obrigado a olhar noutra direção, para impedi-lo de acompanhar a partitura. Todavia, a mais abominável de todas as torturas era a “máquina-de-atar-cabeça”: homúnculos compri-miam-lhe o crânio num torno, girando uma manivela.
O milagre dos urros. Às vezes, os raios aproveitavam um descuido de sua vigilância (quando ele cochilava, por exemplo, ou quando estava conversando) para fugir. Imediata e infalivelmente, produzia-se o “mi-lagre do urro”. Ao soltar seu urro, Schreber provava a Deus que não estava morto nem idiotizado (não havia perdido a cabeça). Vez por outra, ele despertava de um sono profundo para dar alguns gritos, a fim de mostrar a seu perseguidor que, mesmo dormindo, continuava dono da situação. Em certos dias, esses urros ocorriam centenas de vezes e podiam durar cinco a dez minutos, o que abalava dolorosamente seu cérebro. Durante esses acessos, os raios divinos eram tomados de an-gústia, gritavam “socorro” e refluíam docilmente para seu corpo.
“Eis um presidente da Corte de Apelação que se deixa foder.”
é meu dever oferecer aos raios divinos a volúpia e o gozo que eles buscam em meu corpo
— dar sentido a uma experiência de desmoronamento que, a prin-cípio, deixou-o como que aniquilado;
— descobrir um vínculo possível com o outro, ali onde ele parecia haver desaparecido;
— restabelecer uma forma de temporalidade, ali onde o abismo extratemporal o deixara como que morto.
“Um dia”, escreveu Schreber, “de manhã, ainda deitado na cama (não sei mais se meio adormecido ou já desperto), tive uma sensação que me perturbou da maneira mais estranha, quando pensei nela de-pois, em completo estado de vigília. Foi a idéia de que deveria ser realmente bom ser uma mulher submetendo-se ao coito. Essa idéia era tão alheia a todo o meu modo de sentir que, permito-me afirmar, se me ocorresse em plena consciência, eu a teria rejeitado com tal indigna-ção que, de fato, depois de tudo o que vivi nesse ínterim, não posso afastar a possibilidade de que ela me tenha sido inspirada por uma influência externa que estava em jogo.”
barulhos na parede o impedem de dormir
haver perdido toda a ligação com os outros
um desmoronamento temporal e o chama de “meu tempo sagrado”: “(…) era como se cada noite tivesse tido a duração de vários séculos, de modo que, durante essa imensidão de tempo, poderiam ter ocorrido as mais profundas transformações na espécie humana, na própria Terra e em todo o sistema solar.”
o delírio é uma tentativa de cura
O desmoronamento, a aniquilação do mundo em Schreber corres-ponde, para Freud, à retirada da libido do interesse pelos objetos. A reconstrução delirante é, portanto, um reinvestimento libidinal pro-gressivo.
Voltemos à postura que faz de Deus um equivalente paterno. De fato, Freud constatou a ausência ou o fracasso da experiência da castra-ção e do Édipo em Schreber. O caráter insustentável da irrupção femi-nina deve ser ligado à impossibilidade de inscrever psiquicamente a castração. A representação feminina, marcada pela ausência do pênis — que está no cerne da neurose e do desejo —, foi rejeitada em bloco nesse caso. Tratou-se da rejeição maciça de uma representação incon-ciliável, no dizer de Freud.
Em Schreber, a posição feminina não pôde ser elaborada à maneira neurótica da bissexualidade. A passividade em relação ao pai não assu-miu uma forma edipiana, nem mesmo a do Édipo invertido. Para ele, essa feminilidade era radicalmente inaceitável. Não podia ser mediati-zada. Seria prontamente chamada de uma feminilidade em ato, uma transformação real.
Ali onde se inscreve a passagem ao ato no esquizofrênico encon-tramos, em Schreber, um tratamento progressivo pelo delírio. Ele ten-tou elaborar uma construção no lugar da construção edipiana. O pai tornou-se cósmico — o Sol — e divino. A feminilidade só era possível se fosse absoluta: ser mulher de Deus. Para ele, essa era uma maneira de aceitar o que se impunha de fora para dentro, de encontrar uma razão para essa coerção, inscrevendo-a numa exigência universal e divina.
No final das contas, continuava a ser uma maneira de recusar a falta.
fazendo do delírio uma metáfora estabilizada do futuro indefi-nido.
auto-erotismo, narcisismo e amor objetal.
A escolha homossexual seria de natureza narcísica e precederia a escolha heterossexual: o sujeito, a princípio, toma a si mesmo como objeto amoroso. Essas tendências homossexuais são posteriormente desviadas para o investimento social: amizade, camaradagem, espírito corporativo. Os paranóicos se defenderiam da sexualização desses in-vestimentos sociais, sempre ligados a uma proximidade narcísica mui-to acentuada.
Eis a fórmula-matriz:
“Eu (um homem) o amo (a ele, um homem).” Todo o trabalho consiste em contradizer essa frase, de acordo com diversas modalida-des.
- Mudando o verbo: “eu não o amo, eu o odeio”, o que se conver-te, por projeção — mecanismo a que voltaremos —, em “ele me odeia”. É essa transformação que leva ao delírio de perseguição. “Eu não o amo”, expressão de recusa, “eu o odeio”, inversão no contrário, “porque ele me persegue”, explicação.
- Já não é o verbo que muda, e sim o objeto da proposição que é contradito. “Não é a ele que amo, é a ela”, o que se transforma, também por projeção, em “é ela que me ama”, instalando a posição erotomaníaca.
- O que se contradiz é o sujeito da proposição: “não sou eu que amo o homem, é ela que o ama.” Vem então o delírio de ciúme.
- A proposição inteira é rejeitada. “Eu não o amo, só amo a mim mesmo.” É o delírio de grandeza.
Além das reversões e das inversões projetivas nas fórmulas freu-dianas do “eu o amo”, o importante está no tratamento da linguagem que se exprime nelas.
retirada não elimina o mundo externo, mas o despoja de interesse libidinal. Schreber continua a ver os outros, mas eles já não passam de sombras de homens “feitos às pressas”. Toda a tentativa, todo o traba-lho consiste em restabelecer as ligações libidinais. É isso que os raios do delírio exprimem. O delírio dispõe e combina: ele organiza.
esse interesse pela psicose
O procedimento inicial foi idêntico ao de Freud: dar crédito, dar valor à palavra — no caso, ao próprio texto de Schreber.
Fazer-se, como diz a expressão, “secretário do alienado”
O que impressionou Lacan foi o interesse de Schreber pela palavra.
Enquanto Freud destacara a retirada do investimento libidinal do mun-do externo, Lacan sublinhou a focalização nos fenômenos da fala. O psicótico demonstra atenção pelo registro da linguagem como tal. Na verdade, basta abrir o livro de Schreber para constatar que a linguagem é objeto de um tratamento particular.
Essas palavras não param, invadem-no, vêm de toda parte, mas, acima de tudo, concernem a ele, dirigem-se a ele. Os raios do divino, tela do delírio, são, antes de mais nada, raios que falam. Falam a “língua fundamental”, que Schreber também chama de língua da eternidade, de caráter enigmático e externo. Essa língua ora exprime uma verdade absoluta e opaca, ora repete ritornelos, “refrãos” cansativos. O sentido sempre parece escapar. Às vezes, as frases são interrompidas pouco antes do término que viria fechá-las e lhes dar significação.
o importante para Schreber é que a fala se mantenha. Essa fala, muitas vezes, é a própria expressão de seu sofrimento. Ela nunca o deixa em paz, nunca lhe dá sossego, e, ao mesmo tempo, paradoxal-mente, é absolutamente necessário que perdure.
o vínculo a ser reencontrado, o sentido a ser dado, só pode provir da fala. Há uma necessidade de dizer alguma coisa sobre a experiência atravessada.
É a fala que liga Schreber a uma forma de realidade, por mais perturbada que seja. A ligação a ser mantida com alguém, com o “ele” das fórmulas freudianas, é, sem dúvida, a ligação com Deus. É Deus quem fala. Quando a fala pára, Schreber se confronta com o vazio, com o horror, é “deixado largado”. Largado pelo Outro, ele não é mais nada. O Outro da linguagem aparece aqui como tal.
sobrevivência da fala como fundadora da existência humana.
Sem ela, Schreber não existe mais. Já não passa de um urro, um apelo sem palavras, derradeiro grito antes do vazio, emitido justamente para invocar a fala. Ele fica obrigado à “ação contínua do pensamento”, que é muito desagradável e desgastante, segundo nos diz. Fica ligado a uma pura cadeia discursiva.
O delírio, como enunciamos em diferentes momentos, vem na poste-rioridade, para dar significação à falta de sentido inicial. Para o para-nóico, não se trata apenas de compreender, mas de compreender tudo.
Essa é a única saída que se oferece, e que não se fechará jamais. O delírio, mesmo que pareça estabilizar-se numa construção precisa e complexa, continua a ser uma construção imaginária, de equilíbrio precário; tem sempre que sustentar uma certeza.
A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego
Melanie Reizes nasceu em Viena em 1882, numa família judia. Foi a última de quatro filhos e, quando veio ao mundo, seu pai, que era médico, tinha 50 anos. Ele nunca demonstraria muito interesse pela filha caçula e não tardaria a mergulhar na senilidade. A mãe, Libussa, vinte anos mais moça que o marido, era um personagem complexo e onipresente. Bonita e culta, autoritária e insatisfeita.
Emmanuel deixou-se morrer, longe de todos, aos vinte anos. O luto foi ainda mais terrível para a família por repetir outro luto antigo: quando Melanie ainda não tinha cinco anos, Sidonie, uma irmã três anos mais velha do que ela, havia morrido de tuberculo-se. Mais tarde, Melanie renunciaria a seu desejo adolescente de se tornar médica e psiquiatra. Apenas faria, durante algum tempo, cursos de arte e de história.
Casou-se muito jovem com Arthur Klein, um amigo de seu irmão, apenas um ano depois do falecimento de Emmanuel. Um casamento sem amor. Melanie acompanhou o marido, que era engenheiro quími-co, muitas vezes indo para regiões isoladas. Levava uma vida de dona de casa e “atirou-se”, em suas palavras, na maternidade. Teve três filhos: Erich, Hans e Melitta. Hans morreria num acidente de alpinis-mo, Melitta se tornaria psicanalista e se desentenderia com a mãe.
No conturbado contexto político e social da época, ela emigrou sucessivamente para Budapeste, Berlim e Londres, havendo conhecido três grandes figuras da primeira geração de psicanalistas: em Budapeste, Sándor Ferenczi, com quem entrou em análise; em 1924
em Berlim, Karl Abraham, com quem empreendeu uma segunda etapa da análise, interrompida pela morte repentina do psicanalista; e por fim, Ernest Jones convidou-a a ir para Londres e a incitou a se instalar na cidade. Isso foi feito em 1926, com os filhos. Nesse ínterim, Klein havia-se divorciado.
Estamos no palco de um teatro lúdico e assustador, projetado num mundo de pavor, destruição e desamparo, mas no qual podem nascer uma palavra ou um gesto de amor. Era exatamente esse mundo, esse universo infantil, que Melanie Klein trazia dentro de si. Foi essa mulher singular, habitada por esse universo fantástico profundamente alicerça-do em suas construções teóricas, que Dick encontrou em seu caminho desolado e que lhe abriu um espaço novo e extraordinário.
No consultório dela, era possível permitir-se muitas coisas, sem correr demasiado perigo. Podia-se brin-car de comer ou de destruir.
Assim, o universo de Dick foi-se ampliando. Ele passou a se interessar mais pelas pessoas, pelas coisas e por seus nomes.
As posições psicanalíticas de Melanie Klein. Foi depois de uma depressão que Melanie Klein fez sua primeira análise, com Sandor Ferenczi. Tinha 35 anos e passaria rapidamente da posição de analisan-da à de analista
Essa primeira comunicação feita à Sociedade Psicanalítica da Hungria va-leu-lhe a nomeação como membro da Sociedade, embora ela ainda não recebesse pacientes e sua própria análise só houvesse durado dois anos.
O contexto das idéias da época a respeito do tratamento psicanalí-tico de crianças era, essencialmente, o defendido por Anna Freud:
— Não pode haver psicanálise de crianças.
— A criança não produz associações verbais como o adulto.
— Não se pode interpretar o Édipo para as crianças: sendo o mundo infantil um mundo em constituição, ele depende mais de medi-das propedêuticas e educativas do que propriamente analíticas.
Onde estava Melanie Klein ao receber Dick, em 1929? No começo, ela recebia seus jovens pacientes em casa e eles levavam seus próprios brinquedos. Muito depressa, entretanto, ao longo dos diferentes trata-mentos, o dispositivo e o enquadre analítico precisaram-se, ganharam forma. Ela passou a receber as crianças num cômodo reservado para esse fim, com uma pia, paredes laváveis e uma caixa de brinquedos
pertencente a cada criança, que ficava lá. O tratamento era feito à razão de cinco sessões semanais de cinqüenta minutos.
A descoberta da técnica do brincar e da existência da transfe-rência com as crianças
Para Melanie Klein, portanto, no consultório analítico, todas as produções da criança decorriam da transferência e podiam ser objeto de interpretação.
(b) A interpretação. Essa é a base do tratamento analítico. É a interpretação que permite ter acesso ao inconsciente, por intermédio das fantasias inconscientes. Como procedia Klein? Ela costumava es-perar que a criança, através de suas representações simbólicas (em especial o brincar), repetisse um mesmo tema, antes de interpretar a fantasia inconsciente correspondente. Com Dick, Klein esbarrou numa dificuldade, pois tratava-se de uma criança que não brincava, donde ela teve que modificar sua técnica.
A consideração da angústia está no centro do tratamento. Esse é o pivô da técnica. A angústia é um motor, mas é também um freio.
Ora se trata de aliviá-la, ora de fazê-la emergir, através da interpreta-ção, conforme ela esteja manifesta ou latente.
Em resumo, os aspectos técnicos fundamentais de Melanie Klein são: a técnica do brincar e da transferência, a interpretação, o manejo e o tratamento da angústia e o estabelecimento da situação analítica.
Melanie Klein situava-se e se afirmava como continuadora de Freud e de seus principais discípulos, em particular Abraham. Adotava uma concepção genética do desenvolvimento sexual da criança. Entre-tanto, se retomou a idéia freudiana das “fases”, inverteu-lhes a crono-logia, situando o aparecimento de alguns processos e do supereu muito mais precocemente do que Freud havia contemplado.
Recordemos rapidamente que as fases do desenvolvimento sexual, segundo Freud, ordenam-se a partir da fase oral, seguida pela fase anal e, por fim, pela fase genital, e que, para ele, o Édipo desenrolava-se entre os dois e os cinco anos de idade. Para Freud, além disso, o supereu era herdeiro do complexo de Édipo. Num texto fundamental, intitulado “Primeiras fases do complexo de Édipo”, Melanie Klein situou o con-flito edipiano no segundo semestre do primeiro ano de vida do bebê. E constatou nesse mesmo período o aparecimento de um supereu precoce e feroz.
desde o começo, as pulsões destrutivas estão em jogo e o bebê é um “grande sádico” ou um “grande assassino”, pelo menos em suas fantasias.
Freud havia insistido na sexualidade infantil. Já Melanie Klein insistiu na violência e na destrutividade do universo fantasístico da criança.
para Melanie Klein, o bebê fica às voltas, nesse momento, com a mais aterrorizante das situações ansiogênicas: a que é desenca-deada pelos ataques imaginários que visam não somente ao seio, mas também à mãe e, no ponto culminante do sadismo, ao objeto compósito que ela chama de “pais combinados”
É também o eu que é levado a criar relações objetais, sob a pressão da angústia
Como a criança deseja destruir os órgãos (pênis, vagina, seio) que representam os objetos, ela passa a temê-los. Essa angústia a impele a assemelhar seus órgãos a outras coisas. Por causa dessa equivalência, tais coisas, por sua vez, tornam-se objetos de angústia e, desse modo, a criança é forçada a estabelecer ininterruptamente novas equações, que constituem a base de seu interesse por objetos novos e do próprio simbolismo
Hoje em dia, Dick é considerado por muitos especialistas um me-nino autista. Observe-se, de passagem, que só quinze anos depois é que Leo Kanner veio a descrever essa entidade clínica.
The Piggle. Relato do tratamento psicanalítico de uma menina,
o objeto transicional, a elaboração da fantasia da “mamãe preta” e a dinâmica da análise.
se livrar da “mamãe preta” em prol de uma mãe suficientemente bo
capacidade de se separar de Winnicott
diante de platéias variadas: médicos, assistentes sociais e professores
A primeira é: ela tem um papai preto e uma mamãe preta. A mamãe preta vem atrás dela à noite e diz: ‘Onde estão os meus mamás?’ (…) Às vezes, a mamãe preta coloca-a dentro da privada. A mamãe preta, que mora em sua barriga e com quem se pode falar pelo telefone, está sempre doente, sendo difícil tratá-la
O analista observou que era uma garotinha de ar sério, que obvia-mente estava ali para trabalhar.
O objeto transicional. Tal como Winnicott no-lo apresenta, esse objeto aparece, a princípio, como um consolador. Consola a criança de sua separação recém-vivenciada da mãe. Representando a mãe, ajuda-a a suportar as ausências dela. É dotado das qualidades da mãe dos momentos de calma, é prestativo e benevolente. Sua existência tangível ajuda a criança a passar da representação de um objeto que ela contro-laria em suas fantasias para um objeto que controla na realidade. Essa dominação do objeto real prepara a criança para aceitar que a realidade externa existe independentemente dela.
simbolizar essa mãe benevolente
ende da mãe. Por razões que estão ligadas ao nível de desenvolvimento da criança, essa mãe, que se dis-tinguiu dela, passa a ser objeto, em sua mente, de três representações.
Três imagens maternas diferentes predominam em seu pensamento, alternadamente, cada qual correspondendo à dinâmica psíquica do mo-mento.
As três imagens maternas. A primeira imagem representa uma mãe satisfatória, prestimosa e disponível — em suma, viva e saudável. Ela predomina nos momentos de calma, de tranqüilidade, e também nos momentos em que a criança pequena sente uma tensão pulsional em que não há agressividade implicada.
A segunda imagem representa uma mãe má, frustrante e persecu-tória. Uma mãe que censura o bebê por obter satisfações à custa dela e por fazê-la adoecer. Essa imagem predomina nos momentos de tensão pulsional em que a agressividade da criança está implicada, em parti-cular na hora das refeições, quando a criança pequena imagina que a satisfação de sua fome acarreta uma deterioração do corpo da mãe.
A terceira imagem, a mais complexa, representa uma mãe dotada de qualidades contrastantes, isto é, às vezes boa e gratificante, às vezes Um caso de D.W. Winnicott 95
Os roteiros fantasísticos da pequena Piggle. A mamãe preta arranha a mãe da realidade, puxa seus “mamás” (seios), suja-a e a mata. Às vezes, essa mamãe preta reclama seus “mamás”, que se encontram perfurados por buracos e jogados nas privadas. É como doente que a mamãe preta vive na barriga de Piggle, e é difícil fazê-la melhorar. Os personagens pretos contaminam e enegrecem quem se aproxima deles
Se tentarmos discernir as imagens maternas com que a menina se confronta, constataremos que duas imagens de mãe se sucedem de maneira caótica. A primeira a se impor é a imagem de uma mãe má, alternadamente perseguida e destruída, depois perseguidora e destrui-dora. Vez por outra, há uma tentativa de elaboração de uma imagem de mãe unificada, mas as coisas correm mal. A mãe má que é posta em contato com outras imagens, como a da mãe da realidade, por exemplo, contamina todo o mundo, e essas outras imagens, por sua vez, tornam-se destrutivas ou destruídas.
a voracidade é a marca de um desejo imperioso, insaciável, representado numa fantasia de esvaziar, esgotar, devorar o seio materno
uma fantasia que a aterrorizava e lhe estragava a vida.
A voracidade tornava intolerável a idéia de dividir algo com outra pessoa, no caso, um bebê. Por isso, em suas brincadeiras, Piggle asse-nhoreou-se do nascimento potencial dos bebês com quem seria obriga-da a dividir a mãe. Nas brincadeiras com o pai, os bebês nasciam a seu bel-prazer e, ao mesmo tempo, ela podia ser todos os bebês que nas-ciam.
Você odeia e gosta da Susan ao mesmo tempo.”
Gabrielle foi embora com o pai, deixando toda a desordem para Winnicott arrumar. Foi a primeira vez que se sentiu segura de que ele tinha a capacidade de suportar a bagunça e a sujeira.
Dias depois, os pais telefonaram para Winnicott para lhe comuni-car uma enorme mudança em Gabrielle: ela se tornara uma criança mais expansiva. Brincava com a irmãzinha e se sentia menos persegui-da. Também se tornara mais carinhosa com a mãe e brincava com ela com freqüência.
Winnicott aceita a destrutividade. Depois desse ato destrutivo, Win-nicott lhe garantiu que não havia problema e que se arranjaria com os estragos que ela havia feito. Observe-se que, nesse momento, ele atri-buiu um valor positivo às manifestações agressivas de Gabrielle. Para Winnicott, estas eram um sinal da confiança que a menina depositava nele e, portanto, ele pôde aceitá-las sem ser afetado pela sujeira e pela confusão que Gabrielle deixara. Segundo suas próprias palavras, Win-nicott “sobreviveu à destruição”. Obviamente, isso significa que con-tinuou vivo, mas comporta também outras significações. Sobreviver era tolerar a agressividade de Gabrielle, não ser afetado por ela, mas era também não se ausentar por um tempo que ultrapassasse a capaci-dade da menina de manter uma representação viva dele; era ainda não praticar represálias, isto é, continuar a ter a mesma qualidade de pre-sença em relação à menina. De fato, a análise continuou e Winnicott manteve sua atenção e sua disponibilidade. Continuou pronto a ajudar Gabrielle nas empreitadas difíceis, quer se tratasse da manipulação de coisas, de idéias ou de sentimentos.
A mãe suficientemente boa. Winnicott mostra-nos aqui um terapeuta que se porta como uma mãe suficientemente boa, isto é, uma mãe que
sobrevive à agressividade dos filhos. Como a mãe pode fazer na reali-dade cotidiana, Winnicott, através de sua atitude, ajudou Gabrielle a reconhecer seu ódio e a assumir a culpa acarretada por ele. Ajudou-a a imaginar que ela podia restringir e até reparar os efeitos de sua destru-tividade, mediante fantasias positivas e atos construtivos, reparadores.
Todavia, o relato clínico da terceira parte nos mostrará que, em sua função de “mãe que sobrevive”, Winnicott revelou-se parcialmente falho.
capacidade de ficar sozinha na presença de alguém
Winnicott abordou o tema do preto: “Será que preto é o que você não vê?”
“Eu não consigo ver o senhor, porque o senhor é preto”, respon-deu ela.
E o terapeuta replicou: “Quer dizer que eu sou preto quando estou longe e você não consegue me ver? Então, você pede para vir me ver, e olha bem para mim, e eu deixo de ser preto.”
“Quando eu vou embora e olho para o senhor, o senhor fica todo preto, não é, Dr. Winnicott?” indagou Gabrielle. E Winnicott lhe ex-plicou: “Por isso, depois de um certo tempo, você tem que me ver para me fazer ficar branco outra vez. Quando o intervalo é grande, você começa a se preocupar com a coisa preta que sou eu, depois de ficar preto, e não sabe mais o que é a coisa preta.”
“Nós vamos mandar uma faca para o senhor cortar seus sonhos, e vamos mandar nossos dedos para levantar as coisas, e vamos mandar umas bolas de neve para o senhor lamber quando a neve chegar, e vamos mandar uns lápis de cor para o senhor desenhar um homem.
Vamos mandar um terno para o senhor usar quando for para a facul-dade.
Lembranças para as suas flores e as suas árvores e os peixes do seu aquário.
Com carinho, Gabrielle.”
Você sabe consertar as coisas, e agora não precisa de mim para consertá-las. Então, eu sou o Sr. Winnicott.
Gabrielle também sabe consertar as coisas.
E Gabrielle exclamou: “Fui eu que fiz o senhor.”
A capacidade de reparação. A consulta que se seguiu mostra que as dificuldades em função das quais Gabrielle fora ver Winnicott haviam encontrado uma solução. A menina passara a confiar em sua própria capacidade de reparar, de consertar. Assim, pôde reconhecer sua agres-sividade sem experimentar uma angústia intolerável, pois sabia restau-rar o que havia danificado. Para consertar, não precisava mais do Dr.
Winnicott. Além disso, dispunha de um Winnicott consertador que estava sempre a sua disposição, um Winnicott transformado num obje-to muito bom, que era parte integrante de sua psique.
A resolução da transferência. Por fim, assistimos ao que podemos considerar uma grande cena final, na qual Winnicott e Gabrielle se entregaram de bom grado a uma brincadeira que representava a resolu-ção da transferência e da contratransferência. Acabaram com a vida de um Dr. Winnicott e de uma Gabrielle doente. Esses assassinatos recí-procos aconteceram sem remorso, sem culpa. No contexto da brinca-deira, os dois deram livre curso a sua destrutividade. Ambos sabiam perfeitamente que as representações de uma Gabrielle doente e seu médico não tinham mais razão de ser, pois estava terminado o trabalho analítico
livro The Piggle
a acolhida da destrutividade do paciente pelo terapeuta, a fim de desa-tivá-la através de sua simbolização.
Os móbeis teóricos do caso Joey Autismo e esquizofrenia segundo Bettelheim A origem do autismo segundo Bettelheim A evolução de Joey durante a primeira infância
reflexão sobre o autismo
Será um longo trajeto pelo tempo de vida de Joey, escandido em três momentos:
— sua chegada, aos nove anos e meio, à Escola Ortogênica, onde ele passou nove anos;
— sua partida, por volta dos dezoito anos e meio, a pedido dele, para ir morar com os pais;
— sua volta, três anos depois, para visitar a Escola.
Na época, era um menino desprovido de tudo o que consideramos como características infantis; também não tinha um comportamento vegetativo: cada gesto que fazia evocava a tensão de um cabo de aço prestes a se romper. Como um robozinho, ele parecia ser acionado por controle remoto. Mas era um robô habitado por um desespero total. Era preciso um esforço significativo, consciente e voluntário para conside-rá-lo uma criança: um instante de desatenção e ele escapulia para o nada.
“Craque. Explosão.”, gritava. Chegado o momento de fazer “o mundo explodir”, tudo estourava, desintegrava-se, extinguia-se: Joey, o mundo, a existência… Depois, não havia mais vida, mais nada.
A mãe de Joey vivia uma grande tristeza: um homem por quem estivera apaixonada havia morrido num ataque aéreo. Pouco tempo depois, ela conheceu um militar, também ele marcado por uma história de amor infeliz. Os dois se casaram e tentaram apagar essas provações, levando uma vida social agitada. Foi então que nasceu Joey, um bonito bebê, forte e saudável. Em pouquíssimo tempo, entretanto, o menino começou a sofrer de cólicas. Passou a bater violentamente com a cabe-ça e a se balançar ritmicamente, de frente para trás e de um lado para outro.
A mãe, esgotada, angustiada com a idéia de ser uma mãe precária, deixava-o sozinho no berço durante a maior parte do tempo. A gravidez e o nascimento do filho haviam provocado em sua vida transtornos que lhe eram difíceis de suportar. É claro que ela prodigalizava ao filho os cuidados essenciais à sobrevivência, mas não conseguia acompanhá-los de uma presença terna, afetuosa e humanizadora. Joey chegou a um estado de completo vazio afetivo. E foi nesse nada que viveu seus primeiros anos. De certa maneira, era o bebê ideal para essa mãe: ela podia simplesmente ignorá-lo.
Uma raiva destrutiva levou Joey a querer destruir a si mesmo, e ele cometeu uma grave tentativa de suicídio.
Como curar Joey?
Para Joey, a essa altura, ter afetos implicava o risco de ser destruído.
insensibilidade vital lhe era assegurada exclusivamente pelo funciona-mento das máquinas.
Portanto, foi uma máquina que foi recebida na escola, uma máqui-na tão fascinante que todos, inclusive as outras crianças e as serventes, respeitavam sua aparelhagem complicada e até a protegiam. Assim como um bebê tem que estar em contato com a mãe para mamar, Joey tinha que ser ligado na tomada para poder funcionar, em todos os momentos de sua vida.
Tornou-se ativo, um homo faber, criador dos utensílios e objetos de que precisava para sobreviver
Nessa época, Joey admitiu que as lâmpadas também podiam lhe fazer mal, e que havia lâmpadas boas e ruins, úteis e nocivas. Pela primei-ra vez, instaurou-se uma certa ordem humana em seu universo de máquinas.
Pela primeira vez ele ousa falar de seus afetos com alguém, enquanto vivera até então no terror de ser destruído pelos outros, inventando inin-terruptamente uma maquinaria mais complexa para afastá-los.
Aproxima-se dela e até se permite querer que ela o trate como um bebê. Finalmente, aventura-se no mundo da relação.
Mas o Ken da realidade não tinha muito interesse para Joey: o Kenrad imaginário é que foi seu deus durante seis meses.
Houve então uma divisão dos poderes em “bom” e “mau”, e havia lanternas boas e más: o mundo se diferenciou.
Aos poucos, ele substituiu os circuitos elétricos pela intimidade humana. Começou a encontrar energia e segurança na alimentação, a ponto de substituir as lâmpadas por bombons que levava nos bolsos.
Chegou até a falar de outras crianças dizendo “eles”.
“Esse menino como eu”, dizia, não era bom nem mau, nem totalmente poderoso nem totalmente impotente. Podia abrir-se e se fechar como uma válvula, ou seja, regular a si mesmo.
Quando se tornou capaz de sentir emoções, quando desejou ser amado e quis ser ator de sua própria vida, ele formulou o desejo de voltar a morar com os pais
Em breve vou continuar os estudos, arranjar um emprego e ganhar meu próprio dinheiro. E vou comprar minhas próprias roupas e as coisas de que precisar
Eu realmente me tornei capaz de falar com as pessoas sobre os meus sentimentos com mais facilidade (…), na hora em que começo a ter um sentimento, e não depois de esperar uma porção de tempo.
Autismo e esquizofrenia segundo Bettelheim
distinguiu três níveis na esquizofrenia:
— No nível mais baixo, o sujeito deixa de agir por si e também não reage a seu meio. Desinveste todos os aspectos da realidade interna e externa. É o caso da criança autista muda.
— No nível intermediário da esquizofrenia situa-se o sujeito que, até certo ponto, ainda age, embora seus atos não estejam de acordo com suas tendências inatas. Todos os seus atos são motivados pela angústia de morte, que é onipresente em sua realidade interna. Por outro lado, como ele retira o investimento da realidade externa, não pode haver uma interação com essa realidade. É o caso da criança autista não muda. Joey estava nessa categoria.
— No terceiro nível da esquizofrenia encontramos o sujeito que age sobretudo em função de uma realidade interna superinvestida, como prisioneiro de um combate extremamente violento com o mundo externo, que parece hostil e esmagador. Para Bettelheim, essa é a forma menos grave de esquizofrenia.
Para que a criança pequena sinta o desejo de se relacionar com esse mundo, e para que possa desenvolver sua personalidade, suas primeiras trocas e contatos devem colocar-se sob o signo da mutualidade.
Mas, que entendemos por mutualidade? Ela é tudo o que caracte-riza uma relação em que cada um age relacionando-se com o outro.
Segundo Bettelheim, é a falta de mutualidade no encontro com a reali-dade externa que constitui o fator principal do retraimento autístico, temporário ou crônico, da criança pequena. Assim, ele procura escla-recer os respectivos papéis desempenhados pelos dois personagens fundamentais nessa ausência de mutualidade: o bebê e a mãe. Num primeiro momento, Bettelheim extrai as conseqüências dessa falha pelo lado da mãe.
sorriso, seu choro e seus gestos deparam com a indiferença ou desper-tam respostas maternas não adaptadas. Essa atitude da mãe acarreta uma inibição dos esforços da criança para agir por si, isto é, segundo suas tendências inatas. Assim, ela pode vir a perder a esperança de influenciar o mundo externo para que este corresponda a suas aspira-ções. Perdida a esperança, a criança renuncia a agir sobre seu meio e entra numa posição de ensimesmamento autístico.
De fato, ficamos sabendo que, por ocasião de seu nascimento, a mãe não queria vê-lo e pensava nele mais como uma coisa do que como uma pessoa. Por isso, ele foi acolhido sem amor, sem rejeição e sem ambivalência: foi sim-plesmente ignorado no plano afetivo. Só era tocado em caso de neces-sidade, nunca era embalado no colo e não se brincava com ele; quando tinha fome antes do horário previsto da mamadeira, deixavam-no cho-rar. O pai só intervinha para castigá-lo, quando ele se tornava incômodo demais.
outras crianças têm histórias semelhantes à de Joey e nem por isso se tornam autistas
O encontro com uma “situação limite”. Diante das dificuldades encontradas na concepção de uma etiologia do autismo, Bettelheim voltou à reflexão teórica que havia elaborado em 1960, em seu livro O coração consciente. Foi nesse livro, predominantemente dedicado a um estudo sobre os campos de concentração, que ele destacou a idéia de “situação limite”, que descrevia as condições de vida dos prisionei-ros: “O que mais a caracterizava era o fato de que não se podia fugir dela; era sua duração, incerta mas potencialmente igual à da vida; era o fato de que não se podia prever nada que lhe dissesse respeito, de que a própria vida estava em perigo a cada instante, e não havia nada que se pudesse fazer (…)
O espaço e o tempo no universo autístico. Para Bettelheim, a criança autista, ao utilizar diferentes objetos e ao repetir certos movimentos, delimita uma fronteira que a protege das intromissões do mundo exter-no. Joey, com suas máquinas, materializou um espaço em que os outros não deviam introduzir-se. O espaço ocupado por sua cama, transforma-da em fortaleza por todos os aparelhos que asseguravam seu sono e sua respiração, é um exemplo disso.
A organização temporal desse mundo autístico visa afas-tar a ameaça sempre presente da destruição da vida. Tal destruição pode sobrevir a qualquer momento, donde é imperativo cristalizar o tempo, para que nada dessa ordem possa acontecer. É através de se-qüências de comportamentos repetitivos que a criança detém o escoar do tempo. Assim, ela age como um condenado à morte que fumasse eternamente o último cigarro. Para deter o tempo, a criança autista tem que viver num universo imutável; essa é a principal coerção a que fica sujeita.
A causalidade no universo autístico. Ainda para atender a essa ne-cessidade vital de imobilização, a criança autista inventa uma forma de causalidade. À sua maneira, ela ordena os acontecimentos que se pro-duzem, estabelecendo uma lei particular de causalidade que não tem as características de uma lei humana. É uma lei absoluta, sem apelação, que prevê de uma vez por todas a ordem dos acontecimentos.
a criança autista está alienada numa lógica de sobrevivên-cia. Entretanto, embora se porte como louca, ela não raciocina como alguém de cabeça fraca. O fechamento de seu espaço de sobrevivência a protege da extrema agressividade do mundo externo. O tempo que se cristaliza protege-a da morte iminente.
Para que a criança autista retome o contato com o mundo externo e se inscreva num tempo cronológico, ela precisa ter o sentimento de que pode, por um lado, combater o mundo sem correr o risco de ser destruída, e, por outro, modificar esse mundo em seu benefício.
Numa perspectiva terapêutica, portanto, trata-se de propor a essa criança um mundo em que ela possa entrar em pé de igualdade. Um mundo que se adapte a sua loucura e a seus sintomas, que são para ela uma necessidade vital.
imagem inconsciente do corpo
F. Dolto e J.-D. Nasio, L’Enfant du miroir
“A imagem do corpo é a fantasia das relações afetivas e eróticas com a mãe, das relações eróticas que foram castradas, cada qual a seu tempo.”2 A imagem do corpo não existe para uma única pessoa. Só se constrói e só existe na relação com alguém.
Não havia uma linguagem comum entre nós, de modo que eu não podia lhe dizer nada.
A falta da relação com o outro, quer se trate da mãe ou de outra pessoa mediadora, pode ser dramática para a criança. Isso é o que nos conta A criança do espelho.
Abandono e despedaçamento
Ela se viu num país estrangeiro, imersa numa língua que não co-nhecia, tendo acabado de ganhar um irmãozinho ou irmãzinha e, por-tanto, tendo visto a mãe com o corpo transformado e, depois, ocupada com esse bebê; sem dúvida, estava internalizando seu novo lugar de irmã mais velha, entregue a uma babá que mal podia falar com ela e que cuidava muito do recém-nascido.
Ela perdeu a tal ponto seus referenciais que, em dois meses, tornou-se esquizofrênica
Nessa menina, podemos dizer que ver-se aos pedaços em espelhos múltiplos, sem ninguém para apoiá-la nesse momento, provocou uma regressão a uma imagem do corpo anterior, não adaptada a sua situação atual, e acarretou uma identificação “com as múltiplas imagens visuais recortadas”
Esse outro, numa comunicação de linguagem com a criança, lhe permite compreender que se trata apenas de uma imagem, e de uma imagem dela (ou deles). Desumanizante significa algo que coisifica ou anima-liza, que faz sair do processo de intercomunicação que é específico do ser humano.
“choque de perceber que sua imagem do corpo não basta para responder”
Recalcamento da imagem do corpo na experiência escópica
Que fazer com essas duas realidades: a de sua imagem do corpo, já formada nela, e a de sua imagem visual, que ela descobre no espelho, e entre as quais não há correspondência? O efeito benéfico dessa pro-vação está em obrigar a criança, pouco a pouco, a aderir a sua repre-sentação na imagem escópica. Ela é obrigada a isso, porque tal ima-gem, ao mesmo tempo, vem expressá-la como um ser em meio à mul-tidão. Essa aprendizagem é o advento de uma autonomia até então impossível. Nisso, a prova do espelho é primordial. Mas, para que a criança possa aderir a essa imagem visual de si, ela tem que rejeitar a imagem do corpo que garantia a continuidade de seu ser e que, agora, é incompatível com a representação escópica.
A imagem do corpo não é rejeitada nem perdida, mas radicalmente recalcada. A partir deste momento, poderemos falar mais explicita-mente de imagem inconsciente do corpo. Depois da prova do espelho, a imagem do corpo fica definitivamente inconsciente. Mas, mesmo depois de se tornar inconsciente, seu papel não deixa de ser essencial.
Ela continua, sem que o saibamos, a assegurar nossa coesão interna.
A imagem inconsciente do corpo na transferência
Uma metáfora de linguagem vem substituir a metáfora corporificada e, em vez de as costas se enrijecerem, dizemos que “estamos sobrecarregados”; em vez de sentir dor no estômago, dizemos que estamos fartos de alguma coisa. Do mesmo modo, na análise, uma metáfora lingüística pode libertar o corpo de sua invalidação. “Você pode pegá-la com sua boca de mão” devolve à mão a função dela, uma função que ela havia perdido, ao perder seu vínculo com a zona erógena oral.
Léon, o menino sem costas
Léon não ficava de pé sozinho. Movia-se escorando-se nas paredes e, depois, apoiava-se na mesa com a mão para se sentar,
Uma vez sentado, não conseguia ficar com as costas eretas. Precisava sempre de um apoio: móveis, paredes ou alguém que o segurasse. Só vivia sentado, estatelado. Os exames feitos não haviam revelado ne-nhuma causa neurológica. Ele ficava em grande desvantagem, é claro, em sua vida social e escolar; mostrava-se quase totalmente passivo. Era tido como débil mental. Seis meses de reeducação psicomotora não o fizeram progredir, ao contrário. No entanto, Léon mostrava-se cheio de boa vontade.
a partir do momento em que ele pudera sentar-se, ela o havia instalado numa cadeira alta. Nesta, Léon passava dias inteiros, à altura da mesa de trabalho dos pais, que eram costureiros num ateliê de confecções da família. Ele os ficava vendo trabalhar, muito esperto, sorridente, sem criar problemas, sem incomodar. Havia-se adaptado a essa imobilidade e, sem dúvida, até extraía dela algum prazer.
Para esse menino, as imagens do corpo haviam-se construído, ao mesmo tempo, a partir:
— do olhar: Léon introjetara o movimento habilidoso dos dedos e das mãos dos costureiros, o que lhe permitiu tocar piano;
— da voz: ele era capaz de cantarolar, por ter ouvido a mãe entoar cânticos religiosos em bretão e em latim no ateliê. Observe-se que não havia nenhuma coesão das imagens entre si.
eis que, na quarta sessão, Françoise Dolto compreendeu que, na verdade, Léon respondia… só que de maneira adiada; respondia na sessão seguinte, isto é, com um atraso de oito dias. Ela lhe disse isso, felicitando-o por se dar tempo para refletir. Pôde-se então ler no olhar do menino, que até então não exprimira nada, a alegria de ter sido compreendido. Assim se iniciou a transferência.
vejamos melhor da próxima vez
F. Dolto: “A cadeira está contente?”
Léon: “Oh, sim. (com convicção). Ela está mais contente que o homem.”
F. Dolto: “Ah, é?”
Léon: “É, sim, quando ele for embora, ela vai ficar com as costas dele, do homem, e ele não vai mais ter costas.”
Assistimos a um derramamento de pala-vras, como uma evacuação excrementícia, diríamos, a respeito de fan-tasias de imagens do corpo confusas e disparatadas. E tudo isso a partir de uma cadeira, um móvel e costas coisificadas
Agnès, ou a ausência da imagem do corpo olfativa
Mas estávamos em plena guerra e era difícil as pessoas se deslocarem; assim, o pai telefonou para ela.
Françoise Dolto disse que, na época, estava pensando na importân-cia da imagem olfativa, que parecia preceder a imagem oral. Propôs ao pai que fosse ao hospital buscar uma camisola ou uma roupa de baixo usada por sua mulher, certificando-se de que essa peça preservasse todo o odor da mãe. Depois, ele deveria colocá-la em volta do pescoço do bebê ao lhe oferecer a mamadeira.
Foi o que ele fez. Mais tarde, o pai e a mãe telefonaram a Françoise Dolto para lhe anunciar que, para sua grande surpresa, o bebê havia devorado prontamente todo o conteúdo da mamadeira.
O destino dessas imagens do corpo, no plural, é serem submetidas a castrações, isto é, a proibições estruturantes que irão remanejá-las.
a ima-gem do corpo constitui-se na linguagem.
Essa imagem também é habitada pelo desejo. Essa é a dimensão dinâmica da imagem do corpo, que Dolto chama de imagem dinâmica.
Essa “imagem dinâmica corresponde ao desejo de existir e de perse-verar num futuro. Esse desejo, como fundamentalmente marcado pela falta, está sempre aberto para o desconhecido”.21 Dolto insiste muito no termo desejo e, para falar da dinâmica do corpo, emprega a expres-são sujeito desejante.
uma mesma imagem do corpo — a imagem basal, a imagem funcional e a imagem erógena —
atório e car-diovascular, assim como o peristaltismo intestinal, são os lugares pri-vilegiados do corpo como esteio da imagem basal. Quando essa ima-gem basal fica em perigo, a própria vida fica ameaçada.
As imagens funcionais e erógenas. As imagens funcionais e eróge-nas ora são apresentadas separadamente, como no livro A imagem inconsciente do corpo, ora juntas, como no artigo de 1961 intitulado “Personalogia e imagem do corpo”.22 A imagem funcional visa à realização do desejo. É uma imagem do corpo em movimento, enquanto a imagem basal é uma imagem de 150 Os grandes casos de psicose
As imagens funcionais e erógenas. As imagens funcionais e eróge-nas ora são apresentadas separadamente, como no livro A imagem inconsciente do corpo, ora juntas, como no artigo de 1961 intitulado “Personalogia e imagem do corpo”.22 A imagem funcional visa à realização do desejo. É uma imagem do corpo em movimento, enquanto a imagem basal é uma imagem de
estabilidade. A imagem funcional é oscilante como as tensões, é uma imagem descontínua. Se a imagem basal é o lugar das pulsões de morte, a imagem funcional é o veículo das pulsões de vida.
A imagem funcional anal tem uma dimensão de expulsão que se origina na expulsão dos excrementos. Ela permite a sublimação das pulsões anais. Pode exprimir-se, por exemplo, pela mão, no fato de atirar ou lançar, quer para livrar-se de alguma coisa, quer para enviar um objeto a alguém.
A imagem funcional oral da mão exprime-se, ao contrário, pelo fato de segurar, de guardar. A imagem funcional anal pode exprimir-se na expulsão agradável de um objeto parcial substancial e sutil: por exemplo, no fato de expelir o ar para falar, assobiar ou cantar.
Em todas as suas modalidades, a elaboração da imagem funcional enriquece o prazer, proveniente de uma zona erógena, nas relações com os outros. Na história da menina da boca de mão, era a imagem funcio-nal da mão que tinha sido invalidada. A preensão não funcionava mais.
A sublimação das pulsões orais pelo deslocamento para as mãos não podia ser feita.
A imagem erógena, como todas as dimensões da imagem incons-ciente do corpo, é uma imagem que integra a relação com alguém. Mais precisamente, no entanto, ela liga, por assim dizer, o que há de praze-roso ou desprazeroso nessa relação com o lugar do corpo onde se concentra esse prazer ou desprazer.
“O importante”, diz ainda Françoise Dolto, “é descrever como esses três componentes da imagem do corpo se metabolizam, transfor-mam-se e se reformulam, levando em conta as provações enfrentadas pelo sujeito e as limitações com que ele depara, sobretudo sob a forma das castrações simboligênicas que lhe são impostas; é descrever, por-tanto, como as vicissitudes de sua história permitem, no melhor dos casos, que sua imagem basal garanta sua coesão narcísica. Para isso, é necessário: 1. que a imagem funcional permita uma utilização adap-tada do esquema corporal; 2. que a imagem erógena abra para o sujeito o caminho de um prazer compartilhado (…).”23
A castração, com efeito, consiste em proibir, no momento adequa-do, aquilo que seria prejudicial à criança ou aos outros. As proibições de cada castração abrem caminho, portanto, para gozos maiores, e sobretudo para gozos que estejam mais de acordo com o estado da libido num dado momento.
Françoise Dolto falou numa série de castrações: castração umbili-cal, castração oral, castração anal, castração do espelho, castração pri-mária e castração genital edipiana. Em todas essas ocasiões, a cada castração, as imagens do corpo são reformuladas. Visto que as moda-lidades do desejo mudam, a relação com os outros se modifica e a imagem inconsciente do corpo, que é resultante dela, também se modi-fica.
ir-se tornando
Sabe, isso que te espera não é tão desconhecido assim, eu também passei por isso e prometo te apoiar, te acompanhar
É fácil perceber que, para impor a castração, proibindo a estagnação e apoiando a travessia, é preciso que o próprio adulto tenha passado por ela, isto é, que a tenha recebido. É preciso que ele tenha feito essa travessia, que tenha vivido esse momento angustiante em que se larga uma coisa, tendo como única esperança de agarrar uma outra a palavra daquele que diz: “Vamos, ande.” Naturalmente, essas palavras são fictícias; trata-se de uma verbalização do que os adultos exprimem em seu comportamento, seus atos e seus ditos.
Esses momentos de trocas, de encontros, são, para a criança, simbolizadores de seu ser/estar no mundo.
O conjunto deixa de ser coerente, a imagem do corpo deixa de ser coesa.
existem experiências que prejudicam de maneira duradoura a imagem do corpo; para ficarmos nos terremotos, podemos citar o caso da pessoa que, semanas depois do acontecimento, não consegue parar de tremer. É que a imagem basal foi afetada.
a mareação: certamente, existe nessa náusea algo de uma imagem do corpo que não consegue se estabilizar, ou seja, continuar a ser ela mesma em meio ao movimento. Assim, a imagem do corpo se inverte e provoca vômitos. A imagem do corpo, que tem sua origem na relação com alguém, orienta-se da boca para o ânus, uma vez que se alicerça no peristaltismo intestinal. Ela se inverte por com-pleto quando engolimos mal, e provoca um enjôo que impede que sufoquemos.
um exemplo de despedaçamento da imagem do corpo numa criança pequena; trata-se de um distúrbio que vemos com freqüência, de uma forma ou de outra, na Maison Verte: uma criança pequena, que mal consegue ficar sentada e ainda não tem motricidade suficiente para mudar de posição a seu critério, é derrubada por outra, maior, para quem nada constitui obstáculo. A criança cai de repente e não necessa-riamente sente dor, podendo estar sentada num tapete macio, mas co-meça a chorar. Um adulto que está por perto a reergue e tenta acalmá-la, mas os gritos continuam e até aumentam. Essa pessoa, que a criança não conhece particularmente, é incapaz de consolá-la. Chega a mãe ou o pai, pega-a no colo e lhe diz algumas palavras. Imediatamente, a criança pára de soluçar, sua respiração se acalma e ela recupera a serenidade.
Françoise Dolto dizia que, no momento em que cai subitamente, a criança é como um quebra-cabeça que se desfaz. Ela perde sua coesão, suas imagens do corpo dissociam-se de seu esquema corporal. A pessoa que é estranha para a criança não pode fazer muita coisa por ela, porque a imagem do corpo não lhe está ligada sob nenhum aspecto. Ao contrá-rio, a coesão da criança instaura-se, originalmente, na ligação com a imagem do corpo da mãe e do pai. Quando ela reencontra a voz, o cheiro e o toque do corpo deles, a imagem do corpo que os liga também volta para o lugar e a criança recupera sua coesão.
Quando evocamos um despedaçamento, como um quebra-cabeça que se desfaz, não se trata de o corpo se despedaçar. Também não é a representação visual que se despedaça: o que há é uma dissociação entre as imagens do corpo e o esquema corporal.
A imagem do corpo: relacional, inconsciente, maltratada e restaurável
— A imagem do corpo só se constitui e só continua a existir na relação com alguém.
— Ela se constrói com várias pessoas e pode ser diferente, confor-me as pessoas.
— A imagem do corpo é uma montagem de múltiplas imagens parciais do corpo, articuladas umas com as outras.
— A imagem basal garante a segurança e a continuidade do sujeito.
— A imagem dinâmica é portadora do desejo.
— A imagem funcional e a imagem erógena visam a realização do desejo.
— As imagens do corpo são modificadas pelas castrações, para se tornarem mais compatíveis com o estado da libido num dado momento.
— A imagem do corpo é recalcada pela experiência do espelho.
Torna-se então definitivamente inconsciente.
— Quando uma imagem do corpo é ameaçada, o sujeito pode regredir e se fixar numa imagem do corpo arcaico, que o captura como que numa armadilha.
— Quando uma imagem do corpo é ferida, ela pode exprimir-se através do mau funcionamento do corpo biológico.
— A imagem inconsciente do corpo pode dissociar-se do esquema corporal, quando não está suficientemente consolidada para suportar uma provação.
— A imagem inconsciente do corpo só pode ser decifrada na rela-ção com alguém e, mais precisamente, na transferência com o analista.
— E é na transferência que a imagem inconsciente do corpo, mal-tratada, pode ser restaurada.
Psicose, imagem do corpo e castração simboligênica
Dominique tinha quatorze anos. Ao longo dos anos, havia-se encerrado progressivamente em si mesmo, tornando-se cada vez mais indiferente ao que o cercava.
Mas, e se considerássemos que a atividade plástica compulsiva de Dominique constituía, justamente, a prova última, incessantemente exibida, por nunca ser reconhecida, de que ele estava tentando deses-peradamente sobreviver como Sujeito? Foi nisso que apostou Françoi-se Dolto, numa análise cuja narrativa tornou-se emblemática: O caso Dominique.
“Ora, é verdade que você faz maluquices.”, disse-lhe Dolto. Mas, ao acrescentar que, juntos, eles tentariam compreender o que o havia deixado assim, ela reconheceu Dominique como um Sujeito completo, precondição e postulado fundadores de sua clínica e de seu sistema teórico.
as psicoses infantis
aos france-ses, defensores de um estruturalismo intransigente
desejo de um Sujeito primordial
Dolto convi-da o leitor a seguir o mesmo caminho. Procura conduzi-lo à redesco-berta viva dos fundamentos da psicanálise, e não à apropriação de um saber
A vontade de ficar mais perto da verdade que do saber
Entendeu-se que, ao construir sua obra através de um diálogo contínuo com seus leitores ou seus ouvintes, Dolto libertou-se das fronteiras acadêmicas entre a psicanálise e os engajamentos pessoais. A referên-cia ao inconsciente regeu sua prática, assim como suas proposições a respeito da sociedade ou suas meditações espirituais, cada um desses campos, por sua vez, alimentando sua elaboração teórica.
não existe ausência de saber, mas desconhecimento de uma ver-dade já presente
O que a criança experimenta em seus primeiros anos de vida é uma série de iniciações ao desejo do qual sua própria vida é testemunha.
a imagem do corpo nem por isso deixa de representar a unidade que Dolto afirmava ser primária. Ela é o espaço simbólico que unifica e ata o desejo e o corpo pulsional, o Sujeito e o corpo próprio: “Uma imagem desenvolvida e acabada dela mesma convoca .a criança., tanto no plano biológico quanto no plano emocional”, dizia Dolto. Assim referida às leis do desejo inconsciente, a imagem do corpo distingue-se radicalmente do esquema corporal: ao contrário deste, a imagem do corpo traz a marca da ordem simbólica e tem lugar na dialética da alteridade promovida por Lacan. A imagem do corpo constrói-se na linguagem, é marcada por traços simbolizados da relação com o outro.
castração simboligênica. Ela chamava de castrações simboligêni-cas, ao mesmo tempo, as proibições de perenização de certas modali-dades do desejo, proibições com que a criança deve deparar nas etapas fundamentais de seu desenvolvimento, e os efeitos que essas proibições surtem nela. Aos pais, a quem compete a tarefa de iniciar a criança nas castrações, Dolto dizia que eles deviam “dar” a castração.
Se dissermos que a imagem do corpo é sincrônica por natureza, uma síntese totalmente realizada a cada instante, as castrações simbo-ligênicas seriam seu par diacrônico. À dialética do desejo e do corpo próprio, que institui a imagem do corpo, as castrações simboligênicas acrescentam a da sucessão das zonas erógenas, de seus objetos e das manifestações da lei
A idéia lacaniana de um sujeito psicótico radicalmente excluído da ordem sim-bólica, que lhe estaria foracluída, é incompatível com a do Sujeito doltoiano.
Para Dolto, muito embora exista uma ferida na ordem simbólica na origem da psicose, ela é, de certo modo, mais localizada e mais identi-ficável: concerne apenas à imagem do corpo, e não ao Sujeito. No sistema teórico doltoiano, a psicose é a expressão de uma alienação numa imagem do corpo arcaica, isto é, numa imagem do corpo que se furtou às castrações simboligênicas. Não é a ordem simbólica em si que é excluída da cena psicótica, mas apenas seus efeitos de “marcação”, em etapas precoces e decisivas do desenvolvimento
falta uma castração simboligênica na origem da psicose, e o Sujeito fica alienado numa ética arcaica do desejo
A falta da castração simboligênica era, para Dolto, a própria definição do trauma: um acon-tecimento não é traumatizante em si — traumático é o fato de ele não ter podido ser simbolizado, por não ter sido articulado com uma castra-ção simboligênica.
São necessárias três gerações para que apareça uma psicose
É graças à pulsão de morte que o Sujeito pode abandonar temporariamente o fardo de seu desejo
tal como ele fica durante o sono ou no orgasmo.
suas representações inconscientes do desejo, mobiliza-das pelo encontro
Se a questão é, certamente, favorecer as modifi-cações inconscientes induzidas pela análise da criança, a abertura do sistema de tratamento para a família efetiva permite à criança, além disso, “encontrar o Édipo” com seus pais reais, e não com seu terapeu-ta. Durante a análise de Dominique, por exemplo, Dolto aceitou as múltiplas trocas de cartas com a mãe do adolescente e, acima de tudo, a decisão do pai de interromper o tratamento — o que ela julgou menos custoso para Dominique do que uma ruptura do precário equilíbrio libidinal familiar.
Dominique Bel, de quatorze anos, era o segundo de um conjunto de três filhos
Paul-Marie
Sylvie
A mãe afirmou que Dominique fora um filho muito desejado, embora se houvesse “esperado mais uma filha”. Mas acrescentou que o achara muito feio ao nascer: era cabeludo e moreno como o avô materno. Dominique desenvolvera-se normalmente, sendo apenas um pouco “difícil e exigente”, mas, em contrapartida, muito precoce na linguagem.
Sra. Bel
Os exames e o eletroencefalograma tinham sido normais, donde se propusera que ele iniciasse uma psicoterapia
encoprese
Dominique era julgado incapaz de se orientar no tempo e no espaço, “incapaz de viver sozinho”. Em casa, brincava com pequenos automóveis, mas não fazia nada de práti-co.
algu-mas coisas não podiam mudar de lugar
Georges
Dera-se mal como pai, militar aposentado de alta patente, descrito como um ser rígido
Talvez você tenha-se disfarçado de maluco para não ser repreendido.
Françoise Dolto logo propôs a Dominique voltar a se encontrar com ele e lhe enunciou as regras fundamentais da análise: conversas a cada quinze dias, nas quais ele expressaria tudo o que pensasse, inclu-sive os sonhos de que se lembrasse, em palavras, desenhos ou modela-gens; e falou do sigilo a respeito do conteúdo das sessões, um sigilo a que ele mesmo não estaria obrigado.
“não se trata, em absoluto, de uma simples criança débil, mas de um menino psicótico inteligente”, e lhe propôs a análise para “tentar deter a evolução para a loucura”
As sessões deveriam ser pagas, mas não haveria pagamento das sessões a que ele faltasse
— do lado de Dominique: qual era sua imagem do corpo atualizada na transferência? Como se inscrevia para ele a diferença sexual? Que castração da imagem do corpo deixara de ser dada?
— do lado da família: quem era o portador do falo? Quem o encarnava? Que era reconhecido como fálico nessa família?
reformular suas defesas em moldes obsessivos.
Foi uma sessão de clima quase maníaco. Dominique passou velozmente de um assunto a outro, numa espécie de fuga para adiante, contra um fundo de grande ansiedade
com a questão da atribuição de um falo às mulheres.
aceder a uma imagem do corpo sexuada e fálica
O tom foi diferente. Já não foi o da sugestão interrogativa, mas o da enunciação: “Você pode amar seus pais como pais, mas não
pode apaixonar-se por seus pais. Não é a mesma coisa amar os pais e amar os outros, ou as mulheres.”
Dominique foi com a mãe e Paul-Ma-rie, que queria conhecer Françoise Dolto. Ela aquiesceu, desde que Dominique estivesse de acordo.
F. Dolto associou a esses ditos o desprazer provocado por suas enunciações das leis do desejo, pois “de fato, .eu. lhe dei a proibição do incesto, ao lhe dizer que não se deitasse mais na cama da mãe”.
sagitalmente
seu pai achava que eles estavam perdendo tempo e dinheiro ao pagarem sessões para o rapaz e que as mudanças estavam ligadas “à chegada da idade”, e continuava a ver somente a cirurgia como saída para os problemas.
A mãe acrescentou que era o marido que ela deveria levar para fazer terapia.
Mal decorrido um ano, podia falar em seu próprio nome e dar lugar à palavra do pai. Havia-se tornado uma pessoa entre outras, sujeito de sua fala. Por sua vez, Dolto aceitou a interrupção do tratamento: considerou que essa decisão paterna havia operado um desmame em relação a ela. Apesar de tudo, achou que Dominique “dificilmente poderia evoluir fora da neurose, num meio familiar que se habituara tão bem com sua psicose”, e que “sua cura deve criar sérios problemas libidinais para seu pai e seu irmão”.
afastado de qualquer disputa fálica
Em torno de Dominique, portanto, os representantes masculinos, os representantes fálicos, estavam mortos ou apagados, ou eram incoe-rentes. Em contrapartida, todo o valor fálico havia-se concentrado nas mulheres: na irmã, na mãe — e na pessoa de Françoise Dolto, na transferência. Nesse contexto patogênico, Dominique tornara-se inca-paz de sustentar seu narcisismo, isto é, “seu ir-se tornando no espírito de seu sexo”, segundo o uso que Dolto fazia dessa expressão. A ferida narcísica precoce, ligada à regressão oral, só fizera agravar-se, na im-possibilidade de encontrar representantes masculinos suficientemente válidos para sustentar a busca identificatória do menino.
O sujeito e a imagem do próprio corpo, o simbólico e as mediações imaginárias, tudo isso está ligado muito antes de o estádio do espelho vir fixar sua estrutura
Dolto também soube traçar os elementos de um ensino, a fim de que outros além dela pudessem ouvir, tanto neles mesmos quanto no semelhante, o arcaico e as feridas impensadas de antes da linguagem.
Narrativa do ato homicida A singularidade do ato criminoso A personalidade das irmãs Papin Efeitos do ato criminoso em Léa e Christine Os móbeis teóricos do crime das irmãs Papin As condições de um delírio a dois O personagem materno Fatores desencadeantes do crime A dinâmica paranóica do crime A alucinação e a inelutabilidade da passagem ao ato
René Lancelin
Christine e Léa Papin
2 de fevereiro de 1933.
Jean-Paul Sartre1 e Simone de Beauvoir fizeram das irmãs duas “vítimas” da luta de classes. Simone de Beauvoir escreveu:2 “Somente a violência de seu crime nos faz avaliar a atrocidade do crime invisível no qual, como se percebe, os verdadeiros assassinos ‘apontados’ são os patrões.” Quanto aos surrealistas, eles as transfor-maram em “heroínas”. Éluard e Benjamin Péret, a partir de maio de 1933,3 passaram a evocá-las como “ovelhas desgarradas”, diretamente saídas de um “canto de Maldoror”.4 Entre os surrealistas instaurou-se uma imagem em cujo cerne o crime das duas irmãs, servindo de painel para o espectador, aparecia como o supremo meio de expressão
O que, portanto: criminosas, vítimas, heroínas ou psicopatas
Motivos do crime paranóico: o crime das irmãs Papin
foi pelos ensinamentos de sua paciente Aimée e das “irmãs dela na psicose”, Léa e Christine, assim como pelos das belas histéricas de Freud, na época deste, que Lacan fez sua entrada no mundo analítico.
Cinco aspectos reterão nossa atenção:
— a subitaneidade do ato;
— sua falta de motivo aparente;
— sua violência e ferocidade;
— seu rigor;
— a simetria entre as protagonistas.
uma agressão instantaneamente levada ao paroxismo da fúria
Então, o que houve? Um ferro de passar com defeito, um fusível queimado que fez a casa espaçosa mergulhar na penumbra, talvez um olhar de censura, um brilho de humor nos olhos da Sra. Lancelin, e tudo desmoronou. A esse motivo fútil, a esse motivo insignificante respondeu a horrível carnificina
Que horror, portanto, aqueles olhos arrancados de vítimas vivas, “as metáforas mais batidas do ódio”, como escreveria Lacan; mas, para Christine e Léa, não havia metáfora: foi ao pé da letra, em sua mais pura literalidade, que elas executaram o “vou te arrancar os olhos”: estamos diante de uma clínica do Real.
Meu crime é grande demais para que eu diga o que é
Por fim, uma última observação a propósito da simetria das prota-gonistas desse drama. Ao par de patroas correspondia o par de empre-gadas. Ao par mãe-filha das Lancelin correspondia o par Christine-Léa, irmãs, sem dúvida, mas a natureza profunda de cujo vínculo, como descobriremos, era a de uma ligação entre mãe e filha. Simetria e reversibilidade dos dois pares, muito bem destacada por esta frase de Christine: “Prefiro acabar com a raça de nossas patroas a elas acaba-rem com a nossa.”
Isabelle e Christine / Christine e Emilia / Christine e Léa / Léa e a sobrinha de Clémence / Léa e Clémence, sua mãe.
dentre os acontecimentos de sua vida, os que nos pareceram constituir as coordenadas obrigatórias do acionamento do ato criminoso
Clémence, sua mãe
Como era estranho, de fato, o funcionamento dessa mãe que não criou Chris-tine nem Léa, mas que as internou e as mudou de lugar a seu critério, durante toda a infância e a adolescência delas, até o momento em que as duas foram trabalhar para os Lancelin.
confiou-a a Isabelle, uma cunhada solteira
Instituto do Bom Pastor
irmã mais velha, Emilia
Clémence tratou de lhe arranjar um emprego. E, durante anos, colocou e tirou Christine de uma casa após outra
Em pouco tempo, chegou a vez de Léa, cujo esquema infantil assemelhara-se em todos os pontos ao de Christine: entregue a uma mãe de criação com um mês, na casa de uma tia de Clémence, depois retomada e prontamente inter-nada no orfanato Saint-Charles, de onde Clémence a retirou quando lhe pareceu que ela estava em idade de trabalhar, aos treze anos.
por que Clémence entregava, retomava, tornava a internar e buscava novamente uma ou outra de suas filhas? É nosso entendimento que, com isso, ela procurava certificar-se repetidamente de seu domínio sobre as filhas, de seu direito de vigiá-las, a elas que, em todas as situações, deveriam continuar-lhe “submissas”. Foi essa a expressão da própria Clémence.
rompimento súbito, completo, sem palavras e sem motivo das filhas com a mãe.
Têm inveja de vocês e de mim
Tratava-se também de persegui-ção: ela estaria sendo perseguida através das filhas. Era um perseguidor não identificado, designado por um “eles” impessoal. “Eles vão der-rubar vocês pra ser donos de vocês, vão fazer o que quiser com vo-cês.”.
Essas cartas atestam um estado de tensão, um estado de urgência, a urgência de escapar desse “eles” persecutório. Era de um complô que se tratava, de um complô em que os empregadores se fariam cúmplices de Deus para praticar, com toda a impunidade, o seqüestro de crianças que estava em questão. São duas cartas, portanto, que constituem ver-dadeiras provas materiais de um crime, paradigma do conhecimento paranóico, nas quais foi o funcionamento da própria Clémence com as filhas que, totalmente desconhecido dela como algo que a movia, foi atribuído ao outro, projetado nesse “eles” — um monstro anônimo e devorador de crianças que, por ser anônimo, obviamente estava em toda parte, já que era dela mesma, Clémence, que se tratava. “A gente pensa que tem amigos e são grandes inimigos”, escreveu ela a suas filhas nessas cartas.
“colocou”
Christine sentia saudade daquele amor encerrado no Bom Pastor
Christine seria cozinheira e governanta, e Léa, arrumadeira
Bem alimentadas, bem instaladas e bem tratadas, elas seriam ali o que sempre tinham sido: empregadas perfeitas, limpas, honestas, per-feitamente conhecedoras de seu serviço. Em silêncio, como no conven-to, trabalhavam duro e bem o dia inteiro, dispondo de uma ou duas horas na parte da tarde para descansar e se recolher a seu quarto. Nunca pediam autorização para sair; sua grande saída era a missa das oito aos domingos, à qual elas compareciam de luvas e chapéu, arrumadas com capricho e elegância certeiros.
Em seis anos de vida na casa dos Lancelin, nunca esboçaram o menor sinal de se encontrarem com qualquer rapaz, nem tampouco com as jovens domésticas empregadas nas casas vizinhas.
Nem tampouco com os comerciantes do bairro, que, não conseguindo arrancar delas dez palavras seguidas, achavam-nas esquisitas. Nunca iam a festas, nunca ao cinema. Inseparáveis, sua grande alegria era ficarem em seu quarto, “nossa casinha”, como gostavam de dizer.
Assim recolhidas num encerramento amedrontado e delicioso, fora do mundo, fora do tempo, que faziam? Ora, elas bordavam. Bordavam seu enxoval: anáguas de tecido delicado, calcinhas com babados em cama-das, camisolas com as iniciais bordadas, adornadas com as mais belas rendas — um enxoval luxuoso, digno das moças de melhor dote na cidade. Mas, para quem eram essas roupas íntimas? Para que noivo?
Para que namorado? Elas, que nunca deixariam nenhum homem se aproximar. Isso era uma promessa, um juramento entre as duas: ne-nhum homem jamais as separaria.
Felicidade a dois, completude narcísica, mundo fechado em que uma era para a outra a totalidade do universo, compartilhando tudo, numa transparência total: o trabalho, o descanso, as diversões, os me-dos, as apreensões, as mágoas, Clémence, a Senhora e, mais tarde, a
responsabilidade igual pelo crime. A respeito delas, falou-se muito em “almas siamesas”, casal psíquico. Isso merece um esclarecimento. O vínculo foi sempre assimétrico entre Christine e Léa. Era Christine quem protegia, ensinava, ordenava, mimava e consolava, enquanto Léa se deixava amar. Não estamos diante de dois seres idênticos, mas antes, da roupa e seu forro, do original e sua cópia, da voz e seu eco
Christine e Léa não suportavam “receber ordens”
Christine e Léa não suportavam “receber ordens”.
Sobretudo Christine, cuja natureza desconfiada e altiva não admitia nenhuma observação, nem de sua mãe, Clémence, que a cumulava de críticas, nem de patroa alguma. Qualquer observação lhe era absoluta-mente intolerável — uma ferida narcísica vivida como persecutória, que comportava para ela, infalivelmente, um suposto prazer do outro em humilhá-la.
Por isso, seu “fazer” era perfeito, impecável. Sua “obra” perfeita
sua dedicação inesgotável ao trabalho, era, para Christine, a muralha que mantinha na coleira o monstro persecutório, aquele monstro perse-cutório que fazia assomar nela uma tensão agressiva cuja pressão a ultrapassava e a inundava. Pois não havia Christine, num dia em que a Senhora puxara com dois dedos a manga de Léa, fazendo-a ajoelhar-se para apanhar um papel que escapara à arrumação, um papel caído no piso reluzente, não havia Christine, “com as bochechas pegando fogo” e a respiração entrecortada, num momento de fúria que aterrorizara Léa, derrubado as chapas de ferro do fogão, com grande estardalhaço, para aplacar sua cólera? Christine e Léa ameaçaram, em eco: “Ela que não comece nunca mais, senão…” Sim, sua sensibilidade à mais ínfima observação, à menor “beliscadura”, ficava à flor da pele, inelutável, extrema. Porém os barulhos e a fúria da cozinha nunca chegavam à sala íntima/escritório onde a Senhora gostava de ficar, para saborear o con-forto acolchoado de sua casa, que agora tinha um cheiro muito bom de cera e resplandecia como uma “moedinha nova”, graças ao trabalho das duas moças.
um gesto de afeição, que instaurou entre elas e a Sra. Lancelin um vínculo de outra ordem: um vínculo materno, a face apaziguada e civilizada da maternidade, em enorme contraste com a face possessiva, reivindicatória e invejosa de sua mãe. “Ela é muito boa, a madame”
O segundo acontecimento foi o rompimento posterior de Léa e Christine com a mãe, Clémence. Um rompimento súbito, definitivo, sem motivo aparente, sem briga e sem uma só palavra, num domingo de outubro. Clémence, interrogada sobre o acontecimento, viria a de-clarar: “Eu nunca soube por que motivo minhas filhas não queriam mais me ver.” Léa e Christine, interrogadas por sua vez, evocaram as “observações” de Clémence que as aborreciam. De novo a palavra “observações”. Vemo-nos aí no cerne do espelho das palavras, do espelho dos seres, do espelho das paixões deslocadas umas para as outras.
A partir de então, com Clémence fora do páreo, foi a Sra. Lancelin que ocupou todo o espaço materno
Foi na prefeitura de Le Mans que se encenou o terceiro ato
Num estado de extrema tensão e hiperex-citação, apresentaram seu pedido ao prefeito: fazer com que Léa fosse emancipada. Mas, de quem e de quê? Elas não sabiam dizer.
Se eu fosse o senhor, não ficaria com essas moças: elas são verdadeiras perseguidas
houve um ferro defeituoso que queimou os fusíveis, mergulhando a grande casa na penumbra e Christine e Léa na confusão, e houve uma suposta observação, um brilho de humor nos olhos daque-la mãe e daquela filha unidas, que as enfrentavam, dois olhares em que elas leram algo de terrível: “empregadas imprestáveis”, “empregadas inúteis”.
Silenciar aqueles olhares… Não ver mais os olhos que as lançavam nas trevas, em suas trevas.
Lendo seus depoimentos, é como se lêssemos duas vezes.
a partir do mês de abril, foram as crises de Christine que passaram a ocupar o primeiro plano. Crises cujo objeto, cujo centro era Léa. Com insistência, ela gritava que lhe “dessem Léa”, que lhe “le-vassem Léa”. Eram crises de extrema violência, que em várias ocasiões exigiram o uso da camisa-de-força. Crises, enfim, que pareciam, sob diversos aspectos, uma repetição do ato criminoso: o mesmo grau de agitação, as mesmas tentativas reiteradas de arrancar os próprios olhos ou os olhos daqueles que supostamente a separavam de Léa: os da carcereira e até os de seu advogado, que nunca deixou de lhe dedicar uma atenção benevolente e afetuosa.
recusando o real que a separava de Léa.
Ver Léa, tê-la a seu lado para apagar a alucinação aterrorizante que agora se impunha a ela: “Léa, pendurada numa árvore, com as pernas cortadas.” Sua agitação foi tamanha, na noite de 12 de julho, que uma carcereira que a acudiu veio depois a declarar: “Christine talvez fosse um monstro, mas uma dor como aquela seria capaz de enternecer uma pedra.” As pedras não se enterneceram e as paredes não se abriram para lhe dar passagem. Mas o coração da carcereira, ao contrário, comoveu-se. Contrariando todas as instruções, ela lhe levou Léa.
Quando Christine a viu, precipitou-se sobre a irmã, segurou-a e a apertou em seus braços até quase sufocá-la. Léa desmaiou e Christine a fez sentar-se na beira da cama, tirou-lhe a blusa e, com olhos assus-tadores e num estado de exaltação crescente, com a respiração ofegan-te, suplicou-lhe: “Diga que sim, diga que sim…” Léa começou a sufo-car e a se debater, tentando escapar daquele furor. O chefe da carcera-gem teve que separá-las e amarrar Christine.
Que sombra, que imagem, que marionete de seu teatro teria Chris-tine abraçado nessa noite? Nunca saberemos, mas o que sabemos, em contrapartida, é que, depois desse abraço, que seria o último, Christine mergulhou num desconhecimento total de Léa. Nunca mais reclamou sua presença, nunca mais pronunciou seu nome, até morrer.
Ao mesmo tempo que se operou essa separação, tão selvagem quanto definitiva, e que se rasgou o laço que unia solidamente as duas irmãs, instaurou-se em Christine um delírio místico, que passou a ocu-pá-la desde então. Como figurante em seu próprio julgamento, numa indiferença e numa ausência radicais, foi de joelhos que ela recebeu o veredicto que a condenou à morte, à cabeça decepada. Não formulou nenhum pedido no sentido de escapar a seu destino, recusando-se a assinar qualquer recurso da sentença e qualquer pedido de clemência.
Foi nas mãos de Deus, do Deus de Emilia, que ela depositou sua sorte.
Christine morreu em 18 de maio de 1937, não no cadafalso, mas no manicômio judiciário de Rennes, de uma morte a que se entregara desde aquela noite de julho em que se havia separado de Léa para sempre.
Léa, condenada a dez anos de trabalhos forçados, saiu da prisão por conduta exemplar em 1943 e voltou para junto da mãe, Clémence, com quem viveu até o fim de seus dias. Morreu em 1982
Foi essa a história das irmãs Papin, filhas de Clémence: Emilia foi destinada a Deus, Christine, à loucura, e Léa, a Clémence, sua mãe
sabemos que Christine e Léa, como afirmaram no tribunal, nunca tinham tido patrões tão corretos quanto a família Lancelin
loucura a dois
contágio de um sujeito pela loucura de outro, a ponto de uni-los, como um par psicológico, num mesmo delírio
um indivíduo equilibrado não se deixaria levar pelo delírio de um alienado. Do mesmo modo, um alienado tem pouquíssima proba-bilidade de ser contaminado pelas idéias delirantes de outro, ficando cada um encerrado em seu próprio delírio.
As condições de um delírio a dois
um sujeito ativo, que impõe um delírio a outro sujeito sobre quem exerce uma influência segura. Este último, receptivo e disposto à docilidade, aos poucos se deixa dominar pela loucura do outro
duas pessoas de uma mesma família — irmão e irmã, mãe e filha, ou, na situação em exame, duas irmãs. Essa possibilidade também existe entre marido e mulher.
é preciso que esses dois indivíduos, durante um longo período, vivam num mesmo meio e cultivem os mesmos interesses, as mesmas apreensões e as mesmas esperanças, surdos às influências externas
Sob a forma da confidência, os dois atores compartem suas aspirações e sofrimentos, que se tornam um bem comum aos dois, do qual eles falam nos mesmos termos e o qual têm a possibilidade de reformular de maneira quase idêntica. Portanto, é no tempo, simultâneo nas duas mentes, que se realiza esse trabalho, a ponto de transformá-las em mentes siamesas.
— A terceira condição necessária à instauração de uma loucura a dois prende-se à verossimilhança do delírio: quanto menos brutal ele é, mais se torna comunicável. Um louco extremamente alucinado, exces-sivamente perseguido, implacável em suas reivindicações e afirma-ções, tem pouca probabilidade de arrastar um outro, mesmo frágil, para sua própria loucura.
Em outras palavras, o contágio é tão mais fácil quanto mais o delírio se mantém dentro de limites aceitáveis.
O personagem materno
Christine e Clémence, a mãe — duas psicóticas frente a frente, com o delírio da filha corresponden-do ao delírio da mãe.
Em relação às filhas, ela estava numa relação de apropriação
Conto com vocês 2, apesar da minha dor sofrida porque me disseram que eles fez de tudo pra fazer vocês entrarem num convento.” Nessa mesma carta, ela chegou a denunciar os eclesiásticos, bem como as patroas de suas meninas, por afastarem dela suas filhas: “Afastaram vocês da sua mãe (…) eles vão derrubar vocês pra ser donos de vocês (…) vão fazer o que quiser com vocês. Partam, não dêem os 8 dias de aviso aos patrões, vão embora.”
“Na vida nunca se sabe o que espera a gente (…) têm inveja de vocês e de mim (…). Desconfiem, a gente pensa que tem amigos e muitas vezes são grandes inimigos, incrusive aqueles que cerca a gente mais de perto.”
só encontrara esse caminho para fugir de sua domi-nação
A mãe, aliás, nunca a aceitou nem perdoou, e não mais lhe dirigiu a palavra. Ser privada de uma filha era da ordem do insuportá-vel. Acima de tudo, era preciso que isso não se repetisse. E, como vimos, por pouco Christine não seguiu Emilia nesse caminho.
as filhas haviam rompido toda e qualquer relação com ela
Até então, ela fazia o que queria com as moças. Colocava-as ou as retirava das casas dos patrões a seu bel-prazer, tirava-lhes os salários e não parava de lhes fazer observações desagradáveis
Quando essa mulher .Clémence. nos via, ela nos enchia de críticas
Enquanto esse tipo de relacionamento perdurou, Clémence teve a sensação de estar mandando no jogo.
estava de olho nas filhas e as segurava com mão de ferro.
Foi desse olhar persecutório e dessa dominação da mãe que Christine tentou escapar. Isso porque, se a mãe fez um delírio de ciúme (tendo as filhas por objeto), Christine fez um delírio paranóico de perseguição e reivin-dicação (libertar-se, livrar-se dessa dominação).
Se o histérico sofre no corpo e o obsessivo, nos pensamentos, o paranóico, por sua vez, sofre com o outro, o semelhante. Assim era o funcionamento mental de Christine, um funcionamento que se baseava na percepção do outro como perseguidor.
Para que as irmãs chegassem à situação de lhes ser possível cometer um crime, para que chegassem ao ponto extremo a que decaíram
Fatores desencadeantes do crime
Primeira condição: tentativa de romper o vínculo materno. Christi-ne tentou furtar-se à dominação de Clémence, objeto invasivo e perse-cutório. Seu primeiro movimento foi romper todas as relações com ela.
Depois, não apenas Christine deixou de lhe dar seus salários, como chamou a “Madame” de mãe. Visivelmente, porém, isso não bastou para marcar a separação. Algum tempo depois, sobreveio o incidente da prefeitura, no qual Christine proferiu acusações contra o prefeito da cidade, a quem fora solicitar a emancipação de Léa.
Léa, esse duplo de Christine, era menor e estava realmen-te sob a tutela materna. Era como se a própria Christine o estivesse. Ao libertar a irmã caçula daquela que a subjugava, era a si mesma que estava tentando libertar;
ao solicitar ao prefeito a emancipação, era da mãe que ela a exigia, na verdade. É que se operou um deslizamento metonímico do significante “mãe” .mère. para o significante “prefei-to” .maire.. Esse deslocamento produziu-se sendo favorecido pela semelhança fonética entre as duas palavras.
Em virtude da superposição dos dois significantes, a demanda de emancipação tornou-se indizível. Como demanda que não podia ser dita, transformou-se na queixa persecutória. As irmãs estavam agita-das. O prefeito tentou tranqüilizá-las. Christine, entretanto, foi ao co-missariado denunciá-lo, por as estar perseguindo em vez de protegê-las. Essas eram exatamente as mesmas censuras que ela formulava a respeito da mãe. Ao acusar um de perseguição, na verdade estava acusando o outro (Clémence).
transferência materna para a futura vítima
uma transferência favorecida por sua vontade de escapar à perseguição de Clémence e pela necessidade de preencher o lugar que a mãe deixara vazio
no dia em que a Sra. Lancelin concordou
não procurava satisfazer seus próprios interesses à custa das moças. Era uma mãe suportável, que se preocupava com o bem-estar delas
vimos as jovens empregadas chamarem a Sra. Lancelin de “mamãe”, em segredo
guição e sua expectativa da proteção. Mas, como todo paranóico, ela continuou em estado permanente de alerta, à espreita de qualquer sinal que pudesse representar uma ameaça
Ora, nessa relação, como em qualquer uma, havia contratempos:
palavras indelicadas e gestos desazados
Desnecessário dizer que esse foi um incidente muito mal visto por Christine
Observações.” Era assim que Christine chamava as críticas, tanto as provenientes de Clémence quanto as da Sra. Lancelin. Esse signifi-cante, “observações”, que remete ao olhar, circulou entre a mãe e a patroa e reforçou a transferência, que aos poucos tornou-se negativa.
Decididamente, a patroa não parecia muito diferente da mãe delas. E o fantasma da perseguição ressurgiu.
Por algum tempo, no entanto, Christine encontrou um modo de se haver com essa situação, encenando o que se poderia chamar de “cui-dar convenientemente de um filho”
Terceira condição: o olhar
O efeito do olhar assumiu toda a sua importância. Christine encenava sua posição de “boa mãe” sob o olhar da Sra. Lancelin, que se tornou a perseguidora, como fora Clémence.
Através desse novo esquema relacional, Christine a faria ver, iria mos-trar-lhe como se deve agir com uma criança. O olhar da patroa tinha uma importância capital. Era ele que sustentava toda a cena. Por um lado, permitia a Christine investir numa identidade válida e, por outro, permitia que ela se reparasse através de Léa, que oferecesse a si mesma uma vida imaginária mais feliz. Era isso que estava em jogo.
Com efeito, em sua loucura, nem todos os paranóicos matam as pessoas por quem se sentem perseguidos. Que aconteceu de particular?
A dinâmica paranóica do crime
“Ela me deu um pontapé, e eu a cortei em pedaços para me vingar do chute que ela me deu, no mesmo lugar em que fui atingida.” Mas acrescentou: “Nunca tive nenhum motivo para querer mal a minhas patroas.”
Então, por que ela achou que a Sra. Lancelin queria acabar com sua vida? Christine falou de uma cólera imensa que a teria invadido quando ela se viu na presença da patroa. Sem dúvida, sentiu um impulso furioso de destruir a Sra. Lancelin. Mas, como estamos diante do especular, do jogo de espelhos, da reciprocidade, não foi em si mesma que ela flagrou essa intenção homicida: Christine julgou vê-la no olhar daquela que a confrontava. “Ela quer me matar”, pensou. Essa é a economia mental comum do paranóico, de todo paranóico.
“Vocês não prestam para nada”
para nada” englobava a posição materna de Christine em relação a Léa, essa outra ela que, de repente, viu-se sujeita a todas as ameaças. Mas não foi só isso. Foi não apenas uma anulação da cena
montada por Christine, o desmoronamento de seu universo, como tam-bém uma anulação da identidade que ela havia fabricado para si e que só decorria dessa montagem. Com isso, ela foi negada em sua condição de sujeito, remetida ao nada de seu ser, a um dejeto. E o acionamento da pulsão criminosa apareceu como uma tentativa de retomada da consistência do ser.
agira a partir de uma “outra cena”
Quanto à ablação dos olhos, ela decorreu do princípio da recipro-cidade: ela está me matando com o olhar, eu mato seu olhar. Isso explica a violência, a crueza do ataque. “Eu não presto para nada, tenho que morrer, não adianta me alimentar”, diria Christine, tempos depois, quando estava na prisão. Isso nos confirma que aquele “impres-tável” ressoara, efetivamente, como uma sentença de morte.
A alucinação e a inelutabilidade da passagem ao ato
eve uma alucinação: Léa estava pendurada numa árvore, com as pernas cortadas
ela pediu para ver o marido e o filho;
— declarou que as senhoras Lancelin não haviam morrido e, ao mesmo tempo, implorou perdão por seu crime;
— tentou furar os próprios olhos;
— acabou atirando-se contra as paredes e portas, chamando por Léa, numa recusa dessas realidades tangíveis que a separavam da irmã.
“a alucinação é o aparecimento, no real, daquilo que não pode advir no simbólico”
Esse elemento fundamental que falta, que não pôde ser simboliza-do, é a castração. E foi essa a questão que se descortinou para Christi-ne. Havia alguma coisa de insuportável naquela alucinação: era a re-presentação de um corpo mutilado, de um corpo castrado — o corpo de Léa, isto é, de Christine
gesto de arrancar os olhos
Num caso, o olhar da Sra. Lancelin, e no outro, o próprio olhar de Christine para a alucinação provocaram uma hiperexcitação incontrolável. Em ambos os casos, Christine agiu.
Esse apelo a Deus como salvador seria sua última tentativa de instauração do Nome-do-Pai, do pai simbólico, do portador da lei que, como dissemos, não pudera inscrever-se.
Christine deslizou progressivamente para a esquizofrenia, ou, como chegaram a dizer alguns, para o autismo
Foi com esse espírito de descoberta que J.-D. Nasio propôs a tese da foraclusão localizada, para explicar as manifestações ditas “psicó-ticas” — delírios ou alucinações — que ocorrem em pacientes que não apresentam, obrigatoriamente, uma patologia de psicose, e, inversa-mente, para explicar comportamentos ditos “normais” em pacientes diagnosticados como “psicóticos”.
O conceito de foraclusão localizada foi criado por J.-D. Nasio para dar nome ao mecanismo responsável por estados psicóticos e por fenôme-nos pontuais e transitórios, de caráter psicótico, que ocorrem em sujei-tos neuróticos como Mariane, cujo caso apresentaremos. Trata-se do aparecimento de momentos alucinatórios, de convicções delirantes pontuais, de passagens ao ato fulgurantes, de eclosões psicossomáticas marcantes, ou até de pesadelos tão intensamente vividos que o sujeito que lhes serve de palco não consegue voltar a dormir. A esses distúr-bios, que desconcertam o paciente e surpreendem o psicanalista, Nasio dá o nome de formações do objeto (a), para contrastá-los com as for-
mações do inconsciente que são o sonho, o lapso, o ato falho e até a interpretação psicanalítica.
Mariane: um exemplo clínico que mostra a necessidade do conceito de foraclusão localizada
Os encontros eram sempre difíceis de marcar e nunca regulares
Na adolescência, Mariane tinha vivido um “momento psicótico”, um episódio de foraclusão. Cometera-se um infanticídio em sua cidade natal. Mariane, então com dezoito anos, tivera uma descompensação:
descobrira-se num estado confusional, com a convicção delirante de ser a autora do assassinato. Assim, ficara deprimida, tornando-se incapaz de se preparar para o exame final do curso secundário: não conseguia mais se concentrar nem memorizar nada. O incidente, que havia durado algumas semanas, tinha sido minimizado pelas pessoas de seu círculo
havia nascido depois de dois irmãos mortos, os quais teria sido encarregada de substituir. Ela fora uma criança extremamente esperta e superprotegida.
A mãe, que nunca tinha feito o luto de seus dois bebês mortos antes do nascimento de Mariane, vivera diversos episódios depressivos; “ela acabou como um dejeto humano”, disse Mariane. Essa mulher também havia exigido que sua filha mais velha, nascida de um primeiro casa-mento — meio-irmã de nossa paciente —, desse a seu primeiro filho o nome de um dos dois bebês mortos.
no nível consciente, Mariane sabia que não era a assassi-na, mas isso não reduziu sua crença delirante. Ela se sentiu decidida-mente culpada. Ficou deprimida e viveu um momento de “confusão mental”. Portanto, ela era habitada por duas correntes contrárias, in-compatíveis entre si, e a que predominava não era a corrente conscien-te, que obedecia à lógica da razão, mas a outra.
um “fato” surgiu no lugar de um “dito”
Um significante foi convocado, mas não se apresentou (foraclusão) e, em seu lugar, surgiu a formação delirante
Foi a intensidade do impacto de um acon-tecimento trágico que revelou em Mariane sua impossibilidade de sim-bolizá-lo; foi justamente a força desse apelo que evidenciou sua inca-pacidade de responder. É essa impotência absoluta, essa não resposta radical, que Nasio denomina de “foraclusão localizada”
identificando-se com a mãe infanticida: “fui eu que matei a menina”
- “Eu odeio as crianças como minha mãe, que já matou duas.”
- “Logo, eu sou mãe.”
- “Logo, sou mulher do meu pai, que, aliás, já me tocou…” (con-teúdo sexual).
- Eis a proposição foracluída: “Tenho toda razão de temer minha mãe, porque minha mãe quer matar a criança que eu sou” — uma proposição intolerável. Aqui, o sujeito da ação é a mãe.
- Essa proposição abolida ressurge no real sob a forma delirante:
“Sou a assassina da criança.” Aqui, o sujeito da ação é Mariane.
O afeto ligado à foraclusão é a angústia de morte, a angústia de ser morta pela mãe, que poderia formular-se da seguinte maneira: “Toda mãe odeia o filho, não existe mãe sem ódio.”
“Se um pai pode fazer tudo, ele não é mais pai, e sim um sedutor, não existe mais pai…”
Foi justamente por não ter sabido responder com palavras, imagens e emoções à violência que o infanticídio significava que Mariane mergulhou na confusão. Se, ao contrário, ela tivesse sen-tido indignação, e caso se houvesse lembrado dos medos que sua pró-pria mãe lhe inspirava, a jovem Mariane teria produzido um significan-te que a faria existir como sujeito. De fato, o sujeito é gerado no ato simbólico de dizer.
“A culpa é sua se…” Na esteira dessa emergência, Mariane foi como que impelida a fugir da mãe que eu representava, e não tardou a me anunciar que havia decidido espaçar nossos encontros e passar a vir
Esse momento da análise foi fecundo. Mariane nunca havia conhe-cido seus dois irmãos mortos, mas percebera a que ponto eles ainda estavam presentes para sua mãe; ela nunca vira a menina morta pela mulher infanticida; não tinha nenhuma imagem dela, e, no entanto, essa criança “sem corpo”, sem idade, sem nenhuma característica física que lhe fosse conhecida, provocara na adolescência um semidelírio. No interior do tratamento analítico, nesse momento exato em que Mariane quis fugir, uma criança igualmente sem corpo, morta por uma mãe fantasiada, habitou o entre-dois da relação transferencial, sem que a paciente tivesse consciência disso; mas ela sentiu medo, “isso a inter-pelou”, como diríamos em linguagem corrente. E se isso acontecesse com ela?… Havia uma criança vagando no primeiro plano da cena — não uma criança precisa, mas uma espécie de abstração desligada do contexto. Para parafrasear Nasio em Os olhos de Laura, eu diria que um filho “de ninguém”, produzido entre “a escuta” da analista e “um dito” da analisanda, havia “materializado” a transferência e dado vida ao inconsciente.
Freud “Há, entretanto, uma espécie de defesa muito mais poderosa e eficaz.
Nela, o eu rejeita a representação incompatível, juntamente com seu afeto, e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorri-do. (…) o eu rompe com a representação incompatível, mas ela fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade .da castração., de modo que, ao consumar esse ato, o eu também se desliga, no todo ou em parte, da realidade.”1 “Não houve nenhuma formulação de um juízo sobre a questão de sua existência .da castração., mas foi como se ela .a castração. não existis-se.”2 “Seria incorreto dizer que a percepção internamente recalcada é proje-tada para fora; antes, como percebemos agora, deveríamos dizer que o que foi abolido internamente retorna do lado de fora. (…) Um desliga-mento como esse da libido, devemos admitir, tanto pode ser um pro-cesso parcial, uma retirada da libido de um único complexo, quanto um processo geral.”3
“(…) realidades produzidas por foraclusão coexistem com realidades produzidas por recalcamento.”
“Assim é tramada nossa realidade: um tecido em que há constantemen-te um fio que se rompe e uma bainha que se refaz. (…) não deveríamos escrever ‘nossa realidade’, como se ela fosse a mesma desde sempre, como se a castração adviesse apenas uma vez, de uma vez por todas.
Ao contrário, toda vez que o fio se rompe e que o limite do tecido se instaura, temos uma realidade entre outras.”
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