
The 4 plus 1 Conditions of Analysis Antonio Quinet
As 4 mais 1 condições da análise
by Antonio Quinet
Introdução
Dar início a uma psicanálise, a partir da demanda de alguém, depende do psicanalista com seu to de decisão.
É o analista com seu ato que dá existência ao inconsciente, promovendo a psicanálise no particular de cada caso
Freud, pois ele estabeleceu apenas uma única regra para a psicanálise:
a associação livre, que é a resposta à pergunta sobre o início do tratamento.
Disse-me, então, num claro tom de queixa, que eu não devia continuar a perguntar de onde provinha isso ou aquilo, mas que a deixasse contar o que tinha a dizer-me.
O paciente — escreve Freud no final de sua obra — deve dizer-nos não apenas o que pode dizer intencionalmente e de boa vontade, coisa que lhe proporcionará um alívio semelhante ao de uma confissão, mas também tudo o mais que sua auto-observação lhe fornece, tudo o que lhe vem à cabeça, mesmo que lhe seja desagradável dizê-lo, mesmo aquilo que lhe pareça sem importância ou realmente absurdo. Se depois dessa injunção ele conseguir pôr sua autocrítica fora de ação, nos apresentará uma massa de material — pensamento, idéias, lembranças — que já está sujeita à influência do inconsciente.”
Do lado do analista, afora o preceito da atenção flutuante, não há regras, mas a ética da psicanálise, regida pelo desejo do analista.
I.As funções das entrevistas preliminares
As entrevistas preliminares, que têm suas funções diagnóstica, sintomal e transferencial.
Se não são as condições elevadas artificialmente ao estatuto de regras, o que pode qualificar o psicanalista? A resposta só pode ser uma: é a passagem do analisante ao analista no interior do próprio processo analítico — passe que é correlato ao final de análise.
Uma limitação no tempo, incluindo a finitude que é o próprio final de análise onde há dissolução do vínculo analítico, cuja duração não pode ser prevista, ao contrário do cartel que tem seu tempo delimitado.
A condição do término de análise como +1, da mesma forma que no cartel, é responsável pelo “bom andamento” das outras condições: na decisão de dar início à análise, incluindo desde então seu fim; na utilização do divã, ao possibilitar ao analista bancar o objeto a para o analisante; no deixar-se investir e desinvestir pelo capital libidinal do sujeito; no corte da sessão, interrompendo a cadeia de significantes do analisante.
Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é aquilo, Não deves afirmar ou negar nada.
Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade, E o que quer que seja negado não é verdadeiro.
Como alguém poderá dizer com certeza o que Aquilo possa ser Enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que É?
E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma Região Onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir?
Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhes apenas o silêncio, Silêncio — e um dedo apontando o caminho.
pelo menos uma função desse tratamento de ensaio: a do estabelecimento do diagnóstico e, em particular, a do diagnóstico diferencial entre neurose e psicose.
O sujeito sabe-se candidato a analisante, e fica na expectativa de que o analista por ele escolhido venha a confirmar que também o escolheu: para a análise se desencadear é necessário, além da escolha do candidato, a escolha por parte do analista. Na constituição dessa dupla escolha, o sujeito será impelido a elaborar sua demanda de análise, o que é verificado, como veremos, na prática, como um fator de histerização ($ S1) na produção do sintoma analítico.
A demanda de análise pode ser considerada em termos de sua produção, sendo um produto da oferta do psicanalista. “Consegui, em suma, diz Lacan, o que no comércio comum se gostaria de poder realizar tão facilmente — com a oferta, criei a demanda”
Para Lacan só há uma demanda verdadeira para se dar início a uma análise — a de se desvencilhar de um sintoma.
A analisabilidade é função do sintoma e não do sujeito
Esse sujeito pode se apresentar ao analista para se queixar de seu sintoma e até pedir para dele se desvencilhar, mas isso não basta. É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo.
Com esse sintoma, o sujeito se dirige ao analista com uma pergunta — O que isto quer dizer? O que significa isso? Tal posição inclui um saber, pois supõe que o analista detém a verdade de seu sintoma, sob a forma de uma produção — o sujeito histérico encosta o mestre (S1) contra a parede para que o mestre produza um saber (S2). Saber sobre o gozo que está em causa e que vem mostrar a verdade escamoteada do sintoma. Manobra fadada ao insucesso devido à impotência do saber em dar conta da verdade do gozo (a), constituindo, no entanto, um laço social pela própria definição de discurso para Lacan
O enigma ($) é dirigido ao analista (S1), que é suposto deter o saber: o analista é assim incluído nesse sintoma, completando-o. Nas entrevistas preliminares trata-se, portanto, de provocar a histerização do sujeito, desde que o histérico é o nome do sujeito dividido, ou seja, o próprio inconsciente em exercício.
É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico diferencial estrutural por meio dos três modos de negação do Édipo — negação da castração do Outro — correspondentes às três estruturas clínicas. Um tipo de negação nega o elemento, mas o conserva, manifestando-se de dois modos: no recalque (Verdrängung) do neurótico, nega conservando o elemento no inconsciente e o desmentido (Verleugnung) do perverso, o nega conservando-o no fetiche. A foraclusão (Verwerfung) do psicótico é um modo de negação que não deixa traço ou vestígio algum: ela não conserva, arrasa. Os dois modos de negação que conservam implicam a admissão do Édipo no simbólico, o que não acontece na foraclusão.
Cada modo de negação é concomitante a um tipo de retorno do que é negado. No recalque, o que é negado no simbólico retorna no próprio simbólico sob a forma de sintoma: o sintoma neurótico. No desmentido, o que é negado é concomitantemente afirmado retornando no simbólico sob a forma de fetiche do perverso. Na psicose, o que é negado no simbólico retorna no real sob a forma de automatismo mental, cuja expressão mais evidente é a alucinação.
Na neurose, o complexo de Édipo, diz-nos Freud, é vítima de um naufrágio, que equivale à amnésia histérica. O neurótico não se recorda do que aconteceu em sua infância — amnésia infantil, mas a estrutura edipiana se presentifica no sintoma.
Na perversão, há admissão da castração no simbólico e concomitantemente uma recusa, um desmentido.
retorno desse tipo de negação particular do perverso é cristalizada no fetiche, cuja determinação simbólica pode ser apreendida através de sua estrutura de linguagem
A dúvida é característica do neurótico porque denota uma divisão do sujeito, onde há um sim e um não. Na psicose, a certeza — certeza delirante por excelência — já mostra, portanto, um distúrbio na linguagem.
Em relação à cura, como efeito terapêutico esperado numa análise, concordamos com Lacan quando diz que um sujeito, enquanto tal, é incurável: ele não pode ser curado de seu inconsciente. Por mais análise que se faça, mesmo que se atravesse a fantasia e se chegue ao final, o inconsciente não vai deixar de se manifestar — o sujeito é barrado ($), como testemunha a persistência dos lapsos, sonhos e chistes nos sujeitos já analisados.
As funções das entrevistas preliminares
é psicótico, é importante que o analista o saiba, pois a condução da análise não poderá ter como referência o Nome-do-Pai e a castração. Daí a importância de se detectar a estrutura clínica do sujeito nas entrevistas preliminares.
Outra maneira de interpretar o texto freudiano é considerar que, para Freud, há uma contra-indicação da psicanálise para psicóticos.
Se o sujeito é psicótico, é importante que o analista o saiba, pois a condução da análise não poderá ter como referência o Nome-do-Pai e a castração. Daí a importância de se detectar a estrutura clínica do sujeito nas entrevistas preliminares.
Nas entrevistas preliminares, é importante, então, no que diz respeito à direção da análise, ultrapassar o plano das estruturas clínicas (psicose, neurose, perversão) para se chegar ao plano dos tipos clínicos (histeria — obsessão), ainda que “não sem hesitação”, para que o analista possa estabelecer a estratégia da direção da análise sem a qual ela fica desgovernada.
A base da estratégia do analista na direção da análise se refere à transferência, à qual o diagnóstico deve estar correlacionado.
Dado que o analista será convocado a ocupar na transferência o lugar do Outro do sujeito a quem são dirigidas suas demandas, é importante detectar nesse trabalho prévio a modalidade da relação do sujeito com o Outro.
Trata-se de um Outro detentor de gozo, que impede seu acesso ao sujeito. É um Outro a quem nada falta e que não deve, portanto, desejar — o obsessivo anula o desejo do Outro. É nesse lugar do Outro que ele se instala, marcando seu desejo pela impossibilidade. Trata-se de um Outro que comanda, legifera e o vigia constantemente. A fantasia do obsessivo traz a marca do impossível desvanecimento do sujeito para escapar do Outro
Ao situar o Outro como mestre e senhor, o obsessivo fica na posição de escravo, trabalhando e se esforçando em enganar o senhor pela demonstração das boas intenções manifestadas em seu trabalho. Contudo, ele mesmo se tapeia ao acreditar que é “seu trabalho que lhe deva dar o acesso ao gozo”. O mito do senhor e do escravo é para Lacan um mito do obsessivo.
A histérica não é escrava; ela desmascara a função do senhor fazendo greve. No entanto, está sempre à procura de um senhor, de um mestre: inventa um mestre, não para se submeter a ele, mas para reinar, apontando as falhas de sua dominação e mestria. A histérica estimula o desejo do Outro e dele se furta como objeto — é o que confere a marca de insatisfação a seu desejo
“No começo da psicanálise é a transferência”, nos diz Lacan, e seu pivô é o sujeito suposto saber. O surgimento do sujeito sob transferência é o que dá o sinal de entrada em análise, e esse sujeito é vinculado ao saber.
A resolução de se buscar um analista está vinculada à hipótese de que há um saber em jogo no sintoma ou naquilo de que a pessoa quer se desvencilhar. É o que Jacques-Alain Miller chama de pré-interpretação, feita pelo sujeito de seu sintoma
A posição do analista não é a de saber, nem tampouco a de compreender o paciente, pois se há algo que ele deve saber é que a comunicação é baseada no mal-entendido.
todo paciente novo implica a constituição da própria psicanálise: o saber que se tem sobre outros casos não vale de nada, não pode ser transposto para aquele caso.
Qual o efeito do estabelecimento desse sujeito suposto saber? É o amor. Com o surgimento do amor se dá a transformação da demanda, uma demanda transitiva (demanda de algo, como por exemplo, livrar-se de seu sintoma) torna-se uma demanda intransitiva (demanda de amor, de presença, já que o amor demanda amor).
Não basta a demanda de se desvencilhar de um sintoma; é preciso que este apareça ao sujeito como um ciframento — portanto, algo a ser decifrado — na dinâmica da transferência, pelo intermédio do sujeito suposto saber.
O analista deve estar disposto a pagar o preço de se ver reduzido, ele e seu nome, a um significante qualquer, em nome desse agalma, no qual Lacan reconheceu o objeto a como um “mais-gozar em liberdade e de consumo mais curto
O surgimento desse sujeito suposto saber é correlato ao objeto a, do qual o analista, diferentemente de Sócrates, deve “fazer-de-conta”, provocando assim a torção dos termos do que era o discurso histérico e fazendo com que o candidato à análise entre no discurso analítico propriamente dito.
Ao criticar os autores que têm como meta da análise a relação com a realidade, ou seja, o fim da análise como adaptação à realidade, ele chama a atenção para o fato de Freud proceder com o Homem dos Ratos na ordem inversa: “Ou seja, ele começa por introduzir o paciente a um primeiro discernimento (repérage) de sua posição no real, ainda que este acarrete uma precipitação, não hesitemos em dizer, uma sistematização dos sintomas.”
Esta retificação introduz a causalidade da neurose na não escolha entre a moça rica e a moça pobre, apontando a divisão do sujeito.
ética da psicanálise, que é a ética do desejo
A retificação subjetiva de Freud consiste em perguntar “qual é sua participação na desordem da qual você se queixa?”.
qual é sua participação na desordem da qual você se queixa?”.
Com o neurótico obsessivo, ela se situa no plano da retificação da causalidade, que se apresenta como conseqüência: sua impossibilidade de agir que é correlata à sua modalidade de sustentação do desejo como impossível.
Com a histérica, a retificação subjetiva visa à implicação do sujeito em sua reivindicação dirigida ao Outro, fazendo-o passar da posição de vítima sacrificada à de agente da intriga da qual se queixa, e que sustenta seu desejo na insatisfação. “O que deve efetuar o sujeito para se desvencilhar de seu papel da ‘bela alma’ é precisamente, diz Zizek, um tal sacrifício do sacrifício: não basta ‘sacrificar tudo’, é preciso ainda renunciar à economia subjetiva em que o sacrifício traz o gozo narcísico.”
Nessas duas modalidades, trata-se de introduzir o sujeito em sua responsabilidade na escolha de sua neurose e em sua submissão ao desejo como desejo do Outro. A retificação subjetiva aponta que, lá onde o sujeito não pensa, ele escolhe; lá onde pensa, é determinado, introduzindo o sujeito na dimensão do Outro
uma psicanálise, experiência do inconsciente, tributária da função da fala e do campo da linguagem.
II. O divã ético
A principal razão do divã na análise não é, portanto, nem de ordem histórica nem pessoal: ela se deve à estrutura da transferência. Trata-se de uma tática, cujo objetivo é dissolver a pregnância do imaginário da transferência, para que o analista possa distingui-la no momento de sua pura emergência nos dizeres do analisante
A utilização do divã é, pois, uma modalidade da regra de abstinência: um não ao gozo pulsional na análise, uma vez que o “tratamento analítico deve o máximo possível efetuar-se num estado de frustração, de abstinência”.
adulto tem vergonha de suas fantasias e as dissimula aos outros, tratando-as como o que lhes é mais íntimo, preferindo confessar suas faltas a contar suas fantasias
Se a cama é o leito do sono, o divã não é para se ficar deitado no berço esplêndido das regressões a um infantilismo da libido. Se a cama é para dormir e sonhar, o divã é para relatar e despertar
III. Que tempo para a análise?
4a proposição: O tempo em análise deve ir contra o tempo do neurótico.
5a proposição: O tempo da sessão deve incluir em si mesmo e a cada sessão a finitude da análise. Assim, cada sessão de análise contém o final da análise.
É assim que procede, na procura do sentido, um mestre budista, segundo a técnica zen. Cabe aos próprios alunos procurarem as respostas às suas próprias questões.
O inconsciente é estruturado como uma linguagem
A primeira proposta de Lacan é: pontuando. É por intermédio da pontuação do texto do analisante que o analista fará com que o inconsciente exista: através de uma pontuação, o discurso comum é transformado em manifestação do inconsciente.
Assim, só depois de uma frase ser terminada é que se entenderá seu sentido
O indivíduo tem em sua história pontos enigmáticos, de tal forma condensados que apontam para um determinado gozo, o que faz com que esse ponto volte sempre em seu discurso. Esse ponto enigmático retorna na compulsão à repetição, emergindo na fala que o sujeito dirige ao Outro onde coloca o analista.
Esse ponto, aparentemente sem sentido para ele, é um enigma, e como todo enigma pleno de sentido. O sujeito começa, então, a conferir um sentido a esse evento para, mais adiante, atribuir-lhe um outro sentido;
um tempo depois conferirá ainda um outro sentido e assim por diante.
Sabemos que a análise, como uma experiência de ressignificação, vai permitir diversas interpretações do mesmo evento, ou seja, diversos outros significantes podem ser associados ao evento, por ele ter uma estrutura significante.
a cena primitiva do coito anal.
Isso permitirá ao sujeito assumir sua história, ou seja, inserir nela sua própria participação; história construída por meio dessa fala dirigida ao analista, possibilitando várias ressignificações.
Ao situar-se o analista como aquele que vai suspender a sessão num determinado momento (ou seja, o que dará o ponto final na frase), aponta-se que é o analista que decidirá do sentido, que é sempre o sentido do Outro. O analista é, sob este aspecto, o senhor da verdade, desmistificando assim a suposta neutralidade do analista.
O sujeito, que não admite nenhum significante último que diga o que ele é, é produzido pelo desenrolar da cadeia significante. Marca-se, assim, a importância de que é uma pontuação que produzirá o sujeito.
O sujeito é um efeito da orientação no tempo da cadeia de significantes, um efeito retroativo.
O analista vem, assim, “naturalmente” ocupar o lugar do Outro, pelo próprio endereçamento da fala do analisante na constituição da transferência. É ao analista como Outro que o sujeito vai endereçar suas demandas.
Que tempo para a análise?
O tempo da sessão de análise não pode ser externo à experiência analítica, que é uma experiência de linguagem, como se ele fosse um Outro do analista, ao qual o analista estivesse submetido e do qual o analisante recebesse uma garantia contra seus caprichos.
Nesse sentido, o corte da sessão como escansão vai introduzir a dimensão do desejo inconsciente que surge como um enigma: função do desejo do analista, que se apresenta como um x, como uma incógnita a ser decifrada
O que nos interessa para o nosso tema é a estrutura dessa certeza antecipada que existe na asserção em que o sujeito se declara. O que constitui a singularidade do ato de concluir na asserção subjetiva é ele antecipar a certeza devido à tensão temporal presente na situação. A pressa tem a função de precipitar esse ato de declaração.
O encurtamento da sessão, tal como Lacan teoriza, não visa outra coisa senão precipitar no sujeito o momento de concluir, para que o sujeito se declare. De fato, a análise nos ensina que a pressa é amiga da conclusão.
A introdução na sessão analítica da estrutura temporal da certeza antecipada define o tempo na análise como contraponto do tempo do neurótico. Não é à toa que os neuróticos reclamam tanto das sessões curtas. O drama de Hamlet nos revela a dificuldade do neurótico em agir: é sempre tarde demais ou ainda não é chegada a hora
o neurótico deseja enquanto Outro
Mas é o sujeito histérico quem seduz para — quando é chegada a “hora da verdade” — furtar-se como objeto e manter seu desejo sustentado pela insatisfação.
A histérica procurará provocar a falta no Outro com seus atrasos e suas faltas
A questão para Lacan é como o analista pode através de suas intervenções cortar as hesitações do sujeito e precipitar um efeito de verdade.
a sessão é descontinuidade, pontuação, ruptura no discurso; inscrevendo-se a sessão no processo analítico como um corte, o analista é o depositário das elaborações e associações que o paciente faz fora da sessão.
Assim, a elaboração se situa fora das sessões e é uma tarefa do analisante.
Lacan usou várias expressões para se referir a essa função do analista — papel de gravação, testemunha, depositário, referência, guardião, tabelião, escriba
Isso não resulta de raciocínio, diz D.T. Suzuki, mas acontece justamente quando se desiste dele, quando se percebe que ele de nada adianta e quando, psicologicamente, esgotou-se toda a força da vontade.
a quatro as modalidades do objeto a: objeto oral, objeto anal, olhar e voz — objeto real fora da cadeia significante
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É por ter rodado e rodado por seus significantes em busca daquele que lhe diria o que é sem tê-lo encontrado, que o analisante poderá buscar a certeza no outro pólo da estrutura — que é esse objeto — onde se encontra a designação de seu ser como objeto tal como está explicitado em sua fantasia ($ a).
É somente após esta passagem — momento de passe na análise — de se experimentar como objeto que, no momento de concluir, o analisante vira analista. É por ter feito essa passagem em sua análise que o analista poderá dirigir as análises de seus analisantes para esse ponto fora do significante.
A certeza que implica o ato analítico só é possível do lado do objeto, devendo o analista levar o analisante a esse ponto de certeza, onde se encontra o seu ser, cuja consistência é apenas lógica, dado que a psicanálise não é uma ontologia. O paradoxo da psicanálise consiste em chegar a esse ser pela via da linguagem: ele é o que resta do processo como impossível a ser dito.
A presença do analista, com seu corte interrompendo o desenrolar sem fim da cadeia significante, inclui em si mesma a estrutura que vai permitir a finitude da análise, arrancando o sujeito de uma temporalidade infinita. O final da análise é assim incluído a cada sessão.
são favorecidos o ego e a adaptação à realidade em vez das formações do inconsciente e de sua decifração.
A libido é o que se satisfaz no sintoma, é o que constitui sua resistência sob dois aspectos: resistência ao deciframento e resistência do sujeito a abandonar o seu sintoma, o gozo do sintoma.
O que é, o que é: o sujeito só pode dele desfrutar com a condição de não possuí-lo?”
A resposta é o objeto a, produto do trabalho do significante sobre o gozo que só vai funcionar como objeto mais-de-gozar enquanto objeto perdido
IV. Capital e libido
Um analista não discute que o dinheiro deve ser considerado, em primeira instância, como meio de autopreservação e de obtenção de poder, mas sustenta que, ao lado disto, poderosos fatores sexuais acham-se envolvidos no valor que lhe é atribuído”.
O dinheiro pode ser um sinal de amor. Menos quando o dinheiro é dado do que quando é pedido, como uma demanda do Outro — cujo protótipo encontramos na situação da mãe pedindo ao filho para lhe dar suas fezes.
Dar dinheiro não é tanto um sinal de amor, na medida em que amor é dar o que não se tem, a não ser quando se dá o dinheiro que não se tem — aquele que faz falta.
A própria enunciação “estou com fome.” se situa na dimensão do Outro, escapando ao registro animal que, quando tem fome, se alimenta e assunto encerrado
A necessidade faz aparecer a dimensão da falta-a-ter; a demanda e o desejo fazem aparecer outro registro da falta — a falta-a-ser. Falta-a-ser esse objeto que complementaria o Outro, falta-a-ser esse objeto que o Outro gostaria que eu fosse
sobretudo para que alguém se submeta às fantasias do pagante, sem manifestar-se como sujeito desejante.
Paga-se para que o Outro não faça surgir a dimensão enigmática de seu desejo, que é o instrumento da função designada por Lacan como o desejo do analista
O analista, diferentemente da prostituta — equivalência muito comum na análise, quando no próprio gesto do pagamento o analisante sente a si mesmo ou ao analista como prostituta —, vai contra a fantasia do sujeito.
Longe de se submeter a esse enquadramento em que o indivíduo, numa riqueza de detalhes, sabe exatamente do que precisa para gozar, ele faz surgir a dimensão do desejo do Outro como enigmática, como um x.
O analista vai contra a fantasia do sujeito assim como vai contra o gozo, no intuito de fazer surgir a dimensão do desejo marcado pela falta.
O gesto do analista de cobrar mostra que ele não está ali de graça e que não está interessado em fazer do analisante um objeto de seu gozo, de suas pesquisas, objeto de sua experiência clínica para, por exemplo, ingressar como membro em uma sociedade psicanalítica, fazer sucesso nas jornadas clínicas etc. Esse pagar mostra que algo do desejo do analista é também amoedável pelo dinheiro e que a análise está colocada dentro de um laço social.
Demonstra-lhes que ele próprio rejeitou uma falsa vergonha sobre esses assuntos ao dizer-lhes voluntariamente o preço com que avalia seu tempo.
Quanto à hipocrisia, Freud rejeita a posição do filantropo desinteressado, mostrando que assim o analista se sentiria prejudicado, vindo a situar o analisante no papel de perseguidor, ou seja, daquele que o explora, pois imaginaria esse outro (o analisante) como alguém a quem estivesse prestando um favor.
Freud termina dizendo que “nada na vida é tão caro quanto a doença e a estupidez”.
A doença, diferentemente da estupidez, é uma questão da psicanálise. A Freud interessa saber como a doença e o sintoma, em particular, podem ser amoedados pelo dinheiro. O sintoma é caro para o sujeito.
o sintoma é o melhor amigo do neurótico
O neurótico ama seu sintoma como a si mesmo porque este lhe é caro — o que é constatável, na análise, em sua dificuldade em abandoná-lo —, uma vez que seu capital está investido no sintoma
O benefício primário, em que o sintoma é uma satisfação libidinal substitutiva, sendo o melhor investimento do capital do sujeito. Cair doente, diz Freud, envolve uma economia de esforço psíquico. A doença é uma maneira de se fazer economia: é a solução mais conveniente quando há conflito mental. Ficar doente é invariavelmente a obtenção de alguma vantagem. É a fuga para a doença.
O benefício secundário concerne à transformação da relação do sujeito com seu sintoma. Este é sentido inicialmente como um corpo estranho (ou hóspede indesejável, segundo outra metáfora utilizada por Freud), mas em seguida o sujeito acaba encontrando meios de tirar ainda mais vantagens dele, além da satisfação pulsional que o sintoma proporciona.
Na análise, vemos a transferência de capital do sintoma para um objeto: o analista. Em vez de o sujeito se beneficiar recebendo uma pensão de invalidez por seu sintoma, ele paga, e seu capital é transferido ao analista. Além desta transferência de capital em forma de dinheiro, há a transferência de libido, aqui tratada da mesma maneira.
resistência em abrir mão do gozo incluído na doença, impedindo os efeitos terapêuticos da análise, podendo até levar à ruptura do vínculo analítico.
Na análise, o sujeito paga por essa transferência de um banco seguro chamado sintoma a um Outro sem garantias. Por melhor que sejam as indicações, por mais amor que o saber suposto lhe confira, este Outro é sempre sem garantias. É natural que o sujeito resista a pagar com dinheiro e a largar a segurança do banco em que a sua libido está investida.
Se o dinheiro serve para amoedar o capital da libido, o preço a ser pago para além do registro da necessidade não pode ser barateado. É só quando o preço é elevado para aquele sujeito que ele pode equivaler ao preço do sintoma, tendo cada analisante, portanto, o seu preço. O analista não pode ter um preço fixo para todo e qualquer um que venha bater à sua porta, pois isto seria situar sua práxis não no registro da libido, e sim no da prestação de serviços, não no registro da libido, mas no do time is money.
Num segundo tempo, o sujeito opta pelo deciframento desta cifra, supondo um saber embutido no sintoma do qual ele é sujeito.
é necessário para que o indivíduo procure análise que ele suponha no sintoma uma questão a ser decifrada, questão que diga respeito à sua posição como sujeito — sobre o sexo, sobre a vida, tal como a cifra de seu destino
No registro imaginário, podemos dizer que se trata do amor de transferência — o registro da reciprocidade, do amar e ser amado — em que o sujeito ama e se sente levado em consideração em suas queixas e seu sofrimento. No registro simbólico, trata-se da entrada do sujeito na cadeia significante propriamente dita, ou seja, da entrada na associação livre: o sujeito encontra no analista o Outro a quem endereça sua produção significante. O efeito real é um remanejamento da libido.
Trata-se da transferência do sofrimento pelo preço pago com o sintoma para o sofrimento do bolso, pois pagar implica também sofrimento, privações, sacrifícios, cálculos, etc.
Trata-se de fabricar um objeto que se chama analista, e o dinheiro se presta bem a isso, pois se paga analista para dele desfrutar. O analista se vende como objeto que tem valor inicialmente contabilizável: tanto por sessão. Assim, o analista é um objeto libidinalmente investido e que vai amoedar-se com o dinheiro.
“Se não cobrássemos, entraríamos no drama de Atreu e de Tiestes que é o de todos os sujeitos que nos vêm confiar sua verdade.” Não cobrar é entrar na tragédia do analisante como depositário de uma carta roubada da qual ele quer desvencilhar-se. Ao receber as tragédias do analisante e ao fazê-lo pagar por elas, o analista tira o corpo fora da jogada.
O sujeito vem prestar contas de seus crimes e para tal ele paga com dinheiro, maneira de colocar em movimento a dívida simbólica — dívida que o sujeito paga pela entrada no simbólico.
Ao fazer pagar, o analista mostra que não está ali por amor, por sacrifício, ou por ideal, e muito menos para gozar das histórias escabrosas dos pacientes. Fazer pagar é significar que o analista não se interessa pelo sujeito como objeto, mas que para ser o depositário das histórias de alto valor do sujeito, ele quer dinheiro com o qual poderá escolher os objetos que quiser.
O preço “tem como função amortecer algo de infinitamente mais perigoso do que pagar em dinheiro, que consiste em dever algo a alguém”.
O analista também paga, nos diz Lacan em A direção da cura e os princípios de seu poder.
Ele paga nos três registros: Simbólico, Imaginário e Real.
S — com palavras — a interpretação.
I — com sua pessoa — prestando-se aos fenômenos decorrentes da transferência, apagando-se como eu.
R— com seu ser — em seu ato anulando-se como sujeito no faz- de-conta de ser objeto a.
O analista como o Outro do amor a quem o analisante dirige suas demandas é valioso por ser suposto deter o objeto precioso causa de seu desejo (a)
É por esse objeto valioso, agalma, que o analista é suposto deter, e que ele não só não dá como tampouco possui — é por esse objeto que é nada que o analisante paga.
Na análise, só há um recibo: é a forma com que cada analista significa ao analisante que o que foi dito está dito, sem poder ser desdito: o sujeito é responsável pelo seu dito. Eis o que o psicanalista com sua pontuação, anuência ou seu corte da sessão significa ter recebido. Em última instância, o recibo do analista é o próprio corte da sessão. Por intermédio do corte ele significa ter recebido aquilo que o analisante lhe depositou. Nesse sentido, o recibo vem antes mesmo do gesto de pagamento.
O ato psicanalítico é o ato realizado a partir do advento do sujeito como objeto, quando o sujeito se destitui como analisante para instituir-se como analista, podendo suportar bancar o objeto causa de desejo para um analisante.
É este mesmo ato que, uma vez deposto o sujeito suposto saber encarnado pelo analista, fará esse analisante reinstaurá-lo já como analista para um outro sujeito, ao dar início a uma análise
o analista só se autoriza por si mesmo.
Para Freud, o que se encontra no horizonte da análise é uma falta, que desvela a negativização do falo para ambos os sexos. Por um lado, falta o significante que diria o que ele é. Os significantes identificatórios do sujeito têm na análise o destino de perderem sua função (ou pelo menos de terem sua função abalada), revelando-se tal como são: significantes que não definem o sujeito, mas aos quais ele está assujeitado.
Não falta porém ao sujeito apenas o significante que o definiria, mas o próprio ser: o sujeito é falta-a-ser. O que permite ao analista abrir mão de sua condição de sujeito na condução da análise é o processo que em sua própria análise o levou à destituição subjetiva quando de seu término.
A destituição subjetiva corresponde à queda dos significantes-mestres que representavam o sujeito, significantes da identificação ideal advindos do Outro .I(A)..
É esse final de análise quando o analisante “sabe ser um rebotalho” a condição para que ele, quando for analista, conduzindo a análise de outros sujeitos, possa também ser largado no final como o dejeto da experiência.
experimentar-se como faltante, como aquele a quem falta o complemento que a fantasia preenche.
A destituição subjetiva, diz Colette Soler, é fazer o sujeito reconhecer-se como objeto
A destituição subjetiva e a travessia da fantasia criam a condição da possibilidade do ato analítico, dado que no ato não há sujeito.
só depois do ato o analista poderá interrogar-se sobre o que o fez agir e dar a razão desse ato em uma construção.
V. O ato psicanalítico e o fim de análise
a O ato psicanalítico e o fim de análise 105
Se o ato é desvinculado do pensamento é por ser incompatível com a hesitação que denota a divisão do sujeito.Para o neurótico, como nos ensina Hamlet, o ato é difícil de ser realizado: ou bem ele o posterga como faz o obsessivo que, em vez de realizar o ato, pensa sob a forma da dúvida; ou bem já perdeu a oportunidade como é o caso da histérica, que também em vez de agir pensa, mas sob a forma da queixa de tê-la deixado passar.
Não há saber do ato analítico. Este se realiza num momento em que o sujeito não se encontra aí. O sujeito realiza o ato sem pensar em nada, de uma maneira puramente acidental.
Mas é fato que abrir um consultório, aceitar demandas de análise, declarar-se psicanalista e começar a atender, na grande maioria dos casos, é um ato anterior ao final de análise e ao passe propriamente dito.
Só-depois, o analista encontrará a razão desse ato em sua própria análise quando sobrevirá o ato analítico no momento de concluir.
A interrupção da análise por um acting-out, que é uma transferência sem análise, levará a uma perenização da transferência, pois não foi operada a dissolução do sujeito suposto saber que é seu pivô. O acting-out, sendo uma mensagem dirigida ao Outro, implica sempre o sujeito suposto saber. Nesta modalidade de interrupção, o sujeito traz à cena o objeto de sua fantasia, numa atuação..
Se o “ato analítico está à mercê do acting-out é, a nosso ver, pelo fato de o analista estar tanto num como no outro do lado do objeto, sendo que toda diferença reside entre o bancar o (a) do primeiro e o mostrar o (a) do segundo.
O final da análise é contemporâneo da destituição do sujeito suposto saber. Se o sujeito, como vimos, é destituído de suas identificações e do objeto que o complementa na fantasia, ele também é desvinculado do saber.
O saber adquirido na própria análise pessoal em que o analista como analisante experimentou-se como objeto e se separou dele, esvaziando-o de gozo. E também saber relativo ao impossível a ser dito, ao impossível da relação sexual.
Saber adquirido do inconsciente de seu analisante que se vai depositando naquela análise específica e que poderíamos denominar como o saber que envolve as relações do sujeito com o objeto a.
O que faz um sujeito, ao ter-se experimentado como objeto e se separado de seu gozo, querer bancar esse objeto para um outro sujeito?
— O que faz um sujeito após ter percebido a futilidade da suposição de saber atribuída ao Outro restituir o sujeito suposto saber no lugar de analista para um sujeito