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Structure concepts Writings Jacques Lacan

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Escritos by Jacques Lacan (z-lib.org)

Abertura desta coletânea


O seminário sobre “A carta roubada ”


Essa é precisamente a questão a que Freud retoma mais uma vez em Para-além do princí pio do prazer, para marcar que a insistência na qual encontramos o caráter essencial dos fenôme­ nos do automatismo de repetição não lhe parece poder encontrar outra motivação senão a pré-vital e transbiológica. Essa conclu­ são pode surpreender, mas é de Freud falando daquilo sobre o qual ele foi o primeiro a falar. É preciso ser surdo para não ouvi-lo. Não se há de pensar que, sob sua pena, isso seja um recurso espiritualista: trata-se da estrutura da determinação. A matéria que ela desloca em seus efeitos ultrapassa em muito, em extensão, a da organização cerebral a cujas vicissitudes alguns .53. deles são atribuídos, mas os outros nem por isso deixam de continuar ativos e estruturados como simbólicos, por se mate­ rializarem de uma outra maneira.
Assim é que, se o homem chega a pensar a ordem simbólica, é por estar primeiramente aprisionado nela em seu ser. A ilusão de que ele a formou com sua consciência provém de ter sido através de uma hiância específica de sua relação imaginária com o semelhante que ele pôde entrar nessa ordem como sujeito. Mas ele só pôde fazer essa entrada pelo desfilamento radical da fala, ou seja, o mesmo do qual reconhecemos, no jogo da criança, um momento genético, mas que, em sua forma completa, repro­ duz-se toda vez que o sujeito se dirige ao Outro como absoluto, isto é, como o Outro que pode anulá-lo, do mesmo modo que pode agir com ele, isto é, fazendo-se objeto para enganá-lo. Essa


dialética da intersubjetividade, cujo uso necessário demonstra­ mos ao longo dos três últimos anos de nosso seminário no Sainte-Anne, desde a teoria da transferência até a estrutura da paranóia, apóia-se facilmente no seguinte esquema:


doravante familiar para nossos alunos, e onde os dois termos médios representam o par da objetivação imaginária recíproca que destacamos no estádio do espelho.
A relação especular com o outro, pela qual efetivamente quisemos, a princípio, restituir à teoria do narcisismo, crucial em Freud, sua posição dominante na função do eu, só pode reduzir à sua subordinação efetiva toda a ação da fantasia trazida à luz pela experiência analítica, ao se interpor, como exprime o esquema, entre esse aquém do Sujeito e esse para-além do Outro em que de fato se insere a fala, na medida em que as existências que se fundamentam nesta estão inteiramente à mercê de sua fé.


De nossos antecedentes


Para-além do “Princípio de realidade ”


Convém, pois, reconhecer que esses contextos, longe de terem sido forjados por uma concepção objetiva da realidade psíquica, são apenas o produto de uma espécie de desgaste conceitual, onde se vêem os traços das vicissitudes de um esforço específico que impele o homem a buscar, para seu próprio conhecimento, uma garantia de verdade: garantia que, como se percebe, é transcendental por sua posição e continua a sê-lo, portanto, em sua forma, mesmo quando o filósofo vem a negar sua existência.


qual verdadeiro vício mental próprio de uma escola, transformam-se realmente no pau .76. para toda obra das reviravoltas da teoria


engrama


Tamanho, portanto, é o dinamismo de conceitos extraídos de uma dialética transcendental que, · por neles se fundamentar, a psicologia associacionista fracassa, e o faz ainda mais fatalmente na medida em que os recebe esvaziados da reflexão que eles comportam, para constituir seu objeto em termos positivos: com efeito, a partir do momento em que os fenômenos se definem em função de sua verdade, eles ficam submetidos, em sua própria concepção, a uma classificação de valor. Tal hierarquia não apenas vicia, como vimos, o estudo objetivo dos fenômenos, no que tange a sua importância no próprio conhecimento, como também, subordinando à sua perspectiva todo o dado psíquico, falseia a análise e lhe empobrece o sentido


Tal concepção, portanto, distingue duas ordens nos fenômenos psíquicos: de um lado, os que se inserem em algum nível das operações do conhecimento racional, e de outro, todos os demais, sentimentos, crenças, delírios, assentimentos, intuições, sonhos.
Os primeiros exigiram a análise associacionista do psiquismo;
os últimos devem explicar-se por algum determinismo estranho à sua “aparência” e chamado de “orgânico” , por reduzi-los, quer ao suporte de um objeto fí sico, quer à relação de um fim biológico.


Verdade da psicologia e psicologia da verdade


Revolução do método freudiano


Se quisermos reconhecer uma realidade característica das reações psíquicas, não convém começarmos por escolher entre elas: é preciso começar por não escolher. Para aquilatar sua eficiência, há que respeitar sua sucessão. Decerto não se trata de restituir-lhes a cadeia através do relato, mas o momento mesmo do depoimento pode constituir um fragmento significativo delas, desde que se exija a íntegra de seu texto e que se o liberte dos grilhões do relato.


Descrição f enomenológica da experiência psicanalítica


Mas o psicanalista, por não desvincular a experiência da linguagem da situação que ela implica, a do interlocutor, toca no fato simples de que a linguagem, antes de significar alguma coisa, significa para alguém. Pelo simples fato de estar presente e escutar, esse homem que fala dirige-se a ele, e, já que ele .831 impõe a seu discurso não querer dizer nada, resta o que esse homem quer lhe dizer. O que ele diz, com efeito, pode “não ter nenhum sentido” , mas o que ele lhe diz contém um sentido. É no movimento de responder que o ouvinte o sente; é suspendendo esse movimento que ele compreende o sentido do discurso.


Então, reconhece neste uma intenção, dentre aquelas que repre­ sentam uma certa tensão da relação social: intenção reivindica-tória, intenção punitiva, intenção propiciatória, intenção demons­ trativa, intenção puramente agressiva. Sendo essa intenção assim compreendida, que se observe como a transmite a linguagem.


De duas maneiras, das quais a análise é rica em ensinamentos:
ela se exprime, mas sem ser compreendida pelo sujeito, naquilo que o discurso relata do vivido, na medida em que o sujeito assume o anonimato moral da expressão: é a forma do simbo­ lismo; ela é concebida, mas negada pelo sujeito, no que o discurso afirma do vivido, na medida em que o sujeito sistematiza sua concepção: é a forma da denegação. Assim, a intenção revela-se, na experiência, inconsciente enquanto expressa, consciente en­ quanto reprimida. Ao passo que a linguagem, por ser abordada por sua função de expressão social, revela ao mesmo tempo sua


unidade significativa na intenção e sua ambigüidade constitutiva como expressão subjetiva, depondo contra o pensamento, sendo mentirosa com ele


Não haverá um limite em que essa atitude deva fazer cessar o monólogo? Se o sujeito prossegue nele, é em virtude da lei da experiência; mas, acaso continua ele a se dirigir ao ouvinte realmente presente, ou antes, agora, a algum outro, imaginário porém mais real: ao fantasma da lembrança, à testemunha da .84. solidão, à estátua do dever, ao mensageiro do destino?


Mas essa mesma imagem que o sujeito presentifica por sua conduta e que nela se reproduz sem cessar, ele a ignora, nos dois sentidos da palavra, ou seja: ignora que aquilo que ele repete em sua conduta, quer o tome ou não por seu, ele não sabe que essa imagem o explica; e ignora que desconhece essa importância .851 da imagem quando evoca a lembrança que ela representa.


enquanto o analista acaba de reconhecer essa imagem, o sujeito, pelo debate que conduz, acaba de lhe impor o papel dela. É dessa posição que o analista extrai o poder de que irá dispor para sua ação sobre o sujeito.


A partir daí, com efeito, o analista age de maneira a que o sujeito tome consciência da unidade da imagem que nele se refrata em efeitos díspares, conforme ele a represente, a encar n e ou a conheça. Não descreveremos aqui como procede o analista em sua intervenção. Ele opera em dois registros, o da elucidação intelectual, pela inter pretação, e o da manobra afetiva, pela trans f erência; mas, fixar os tempos delas é uma questão de técnica, que as define em função das reações do sujeito; ajustar sua velocidade é uma questão de tato, pelo qual o analista é alertado sobre o ritmo dessas reações.


Digamos apenas que, à medida que o sujeito prossegue na experiência e no processo vivido onde se reconstitui a imagem, a conduta deixa de imitar sua sugestão, as lembranças retomam sua densidade real, e o analista vê o fim de seu poder, doravante inutilizado pelo fim dos sintomas e pelo arremate da personali­ dade.


Discussão do valor ob jetivo da experiência


Trabalho de ilusionista, poderia se dizer, se não tivesse como fruto justamente resolver uma ilusão. Sua ação terapêutica, ao contrário, deve ser essencialmente definida como um duplo movimento pelo qual a imagem, a princípio difusa e fragmentada, é regressivamente assimilada ao real, para ser progressivamente desassimilada do real, isto é, restaurada em sua realidade própria.
Ação que testemunha a eficiência dessa realidade.


E mais, deixem-nos dizer do desafio que aí se pode ver para bom uso. Na observação mesma que nos relata, o observador pode esconder aquilo que empenha de sua pessoa: as intuições de suas descobertas têm, em outros lugares, o nome de delírio, e sofremos por entrever de que experiências provém a insistência de sua perspicácia. Sem dúvida, as vias por onde a verdade se revela são insondáveis, e houve até matemáticos que confessaram tê-la visto em sonho ou nela esbarrado numa colisão trivial qualquer. Mas, é decente expor sua descoberta como oriunda de um processo mais conforme à pureza da idéia. A ciência, como a mulher de César, não deve ser alvo de suspeita.


O ob jeto da psicologia de fine-se em termos essencialmente relativistas


É por intermédio do complexo que se instauram no psiquismo .90. as imagens que dão forma às mais vastas unidades do compor­ tamento: imagens com que o sujeito se identifica alter n adamente, para encenar, como ator único, o drama de seus conflitos. Essa comédia, situada pelo espírito da espécie sob o signo do riso e das lágrimas, é uma commedia dell’arte, no sentido de que cada indivíduo a improvisa e a toma medíocre ou sumamente expres-siva, conforme seus dons, é claro, mas também segundo uma lei paradoxal que parece mostrar a fecundidade psíquica de toda insuficiência vital. Commedia dell’arte, além disso, por se en-cenar segundo um roteiro típico e papéis tradicionais. Ali pode-mos reconhecer os mesmos personagens que tipificaram o fol-clore, os contos e o teatro infantil ou adulto - a ogra, o bicho-papão, o avarento, o pai nobre -, que os complexos exprimem por nomes mais eruditos. Reconheceremos, numa imagem para a qual nos levará a outra vertente deste trabalho, a figura do arlequim.


O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica


A agressividade em psicanálise


TESE I: A agressividade se manifesta numa experiência que é subjetiva por sua própria constituição


TESE II: A agressividade, na experiência, nos é dada como intenção de agressão e como imagem de desmembramento corporal, e é nessas modalidades que se demonstra eficiente


TESE III: Os impulsos de agressividade decidem sobre as razões que motivam a técnica da análise


Aliás, como nos surpreendermos com essas reações, nós que denunciamos os impulsos agressivos ocultos sob todas as chamadas atividades filantrópicas?


O que procuramos evitar, através de nossa técnica, é que a intenção agressiva no paciente encontre o apoio de uma idéia atual de nossa pessoa, suficientemente elaborada para que possa organizar-se nas reações de oposição, denegação, ostentação e mentira que nossa experiência nos demonstra serem os modos característicos da instância do eu no diálogo.


TESE IV: A agressividade é a tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico, e que determina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades característico de seu mundo


TESE V: Tal noção da agressividade, como uma das coorde­nadas intencionais do eu humano, e especialmente relativa à categoria do espaço, faz conceber seu papel na neurose moderna e no mal-estar da civilização


O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada


Intervenção sobre a transferência


Do sujeito enfim em questão


Ao publicá-lo, supomos um interesse em sua leitura, incluído o mal-entendido.


o discurso inédito em que desde então vimos trabalhando a cada quarta-feira do ano letivo


Quanto ao sujeito colocado em questão, a análise didática será nosso ponto de partida. Sabemos que assim se denomina uma psicanálise que alguém se propõe empreender com um objetivo de formação - especialmente como um elemento de habilitação para praticar a psicanálise.


pronto para acrescentar que a psicanálise não tem o privilégio de um sujeito mais consistente, porém deve, antes, permitir esclarecê-lo igualmente nas vias de outras disciplinas.


É para o seu bem que a técnica se elabora, sabendo moderar sua ajuda. Dessa paciência e moderação é que se trata de tornar capaz o psicanalista. Mas, no fim das contas, a incerteza que subsiste quanto ao próprio término da análise tem como efeito deixar entre o paciente e o sujeito que lhe é anexado apenas a diferença, prometida ao segundo, da repetição da experiência, sendo até legitimado que a equivalência de princípio entre as .231. duas mantém-se com pleno efeito na contratransferência.


Até a objeção a ser extraída das trevas que subsistem no fim da didática pode permanecer como letra morta, frente ao intocável da rotina costumeira.


É o sujeito em questão na psicanálise didática que constitui o problema, e que nela permanece como sujeito intacto.


ingenuidade da perversão pessoal, entendendo-se a coisa como dando margem a um certo esclarecimento.


O familionário provém do célebre trocadilho de Heine, citado por Freud já na Introdução de O chiste e sua relação com o inconsciente. Os outros dois neologismos, criados por Lacan, são: f aufilosophe, homófono de f aux philosophe e que joga com as acepções de f au filer .alinhavar, insinuar( -se), intrometer( -se)., resultando em português em algo como “metido a filósofo” ; e flousophie, que remete afloue philosophie (filosofia vaga, imprecisa, solta, frouxa), mas também a flouer (intrujar, trapacear, passar o conto do vigário).


O significante só tem sentido por sua relação com outro significante. É nessa articulação que reside a verdade do .235. sintoma. O sintoma tinha um ar impreciso de representar alguma irrupção da verdade. A rigor, ele é verdade, por ser talhado na mesma madeira de que ela é feita, se afirmarmos materialisticamente que a verdade é aquilo que se instaura a partir da cadeia significante.


antes de mais nada, que haja psicanalistas.


Agora, pelo menos, podemos contentar-nos com a idéia de que, enquanto perdurar um vestígio do que instauramos, haverá psicanalistas para responder a certas urgências subjetivas, ainda que qualificá-los com o artigo def i nido fosse dizer demais, ou, mais ainda, desejar demais.


Variantes do tratamento-padrão


Decerto, o descaso do psicanalista quanto aos rudimentos exigidos pelo emprego da estatística só encontra paralelo no que ainda é costumeiro na medicina. É entretanto, no seu caso, mais inocente. Pois ele dá menos importância a apreciações sumárias como ” melhor” , ” muito melhor” e até “curado” , alertado que é por uma disciplina que sabe ressaltar a pressa de concluir como um elemento em si questionável.


Alertado por Freud a examinar de perto os efeitos, em sua experiência, daquilo cujo perigo a expressão furor sanandi anuncia, ele não faz muita questão, no final das contas, de exibir tais aparências.


Assim, se admite a cura como um benefício adicional do tratamento psicanalítico, ele se precavém contra qualquer abuso do desejo de curar, e o faz de maneira tão habitual que, ao simples fato de uma inovação motivar-se neste, inquieta-se em .3251 seu foro íntimo, ou reage no foro do grupo através da pergunta automática que desponta de um ” será que isso ainda é psicanálise?” .


No silêncio que é privilégio das verdades indiscutíveis, os psicanalistas encontram o refúgio que os torna impermeáveis a quaisquer outros critérios, salvo os de uma dinâmica, uma tópica e uma economia que eles são incapazes de fazer valer do lado de fora.


Toda discussão da questão presente inicia-se, pois, por um mal-entendido, que se destaca ainda mais por se produzir na contraluz de um paradoxo vindo de dentro.


a inoportunidade de aceitar presentes, a rejeição do uso de termos técnicos na análise, a evitação dos contatos sociais, a abstenção de responder a perguntas, a objeção por princípio às pré-condições e, muito curiosamente, o pagamento de todas as sessões a que se deixa de comparecer.”


inoportunidade de aceitar presentes


a evitação dos contatos sociais


critérios terapêuticos da análise


JP, citado, p.95. Encontraremos esse artigo, integralmente traduzido, nas últimas páginas da coletânea desse autor publicada sob o título de Technique de la psychanalyse, Paris, PUF, 1958.


Sob certos aspectos fundamentais, as técnicas praticadas pelos grupos opostos são tão diferentes quanto a água .3271 do vinho.”


aqueles que têm a função de participar de tal formulação compartilhariam, ainda que grosseiramente, as mesmas opiniões, falariam a mesma linguagem técnica, seguiriam sistemas idênticos de diagnóstico, prognóstico e seleção de casos, e praticariam, ainda que de maneira aproximativa, os mesmos métodos técnicos. Nenhuma dessas pretensões resistiria a um exame mais rigoroso.”


putativo


Discernimos aí que os dilemas com que se atrapalha o praticante provêm das reduções com que seu pensamento trai sua .329. ação. Contradições que nos cativam, quando drenadas em sua teoria, elas parecem forçar-lhe a pena com uma certa anankê semântica em que se lê ab in f eriori a dialética de sua ação.


A condição do mal-entendido que assinalamos entravar a psicanálise no caminho de seu reconhecimento revela-se, pois, reforçada por um desconhecimento que é interno a seu próprio movimento.


Uma psicanálise, padrão ou não, é o tratamento que se espera de um psicanalista.


É nas solicitações exercidas sobre o homem real pela ambigüidade dessa via que tentaremos medir, com o efeito que ele experimenta através delas, a noção que adota a partir disso.
Se ele realiza sua tarefa nessa ambigüidade, com efeito, é que ela não o detém mais do que é comum à maioria das práticas humanas; mas, se é permanente nessa prática particular a questão do limite a atribuir a suas variantes, é porque não se vê nela o limite em que se detém a ambigüidade.


Pois a própria locução em que a língua recolhe sua .331. intenção mais ingênua - a de entender o que ele “quer dizer” - já deixa claro que ele não o diz. Mas o que quer dizer esse “quer dizer” pode ainda ser entendido de duas maneiras, e compete ao ouvinte que seja uma ou outra: ou o que o falante quer lhe dizer através do discurso que lhe dirige, ou o que esse discurso lhe ensina sobre a condição do falante. Assim, não apenas o sentido desse discurso reside naquele que o escuta, como é também de sua acolhida que depende quem o diz, ou seja, ou é o sujeito a quem ele dá sua confiança e autorização, ou é esse outro que lhe é dado por seu discurso como constituído.


distingue um mal-estar


um efeito de fuga


apócrifa


o inconsciente se define como um sujeito efetivamente constitutivo, já que sustenta os sintomas em seu sentido antes de ser revelado, e que é diretamente experimentado quando se o reconhece na astúcia da desordem em que o recalcado faz uma composição com a censura, no que, note-se de passagem, a neurose se aparenta com a condição mais comum da verdade na fala e na escrita.


“é ao Eu que compete a tarefa de compreender o sentido das palavras”


O despertar que pretende que, ali onde desaparece todo vislumbre de verdade, a dialética recupera seu direito de aparentar que não deve ser inútil na prática, simplesmente por lhe dar um sentido.


barafunda


Se fingir estar fingindo é, com efeito, um momento possível da dialética, nem por isso a verdade que o sujeito confessa, para que a tomemos por uma mentira, se distingue do que seria seu erro. Mas a manutenção dessa distinção só é possível numa dialética da intersubjetividade em que a fala constituinte seja suposta no discurso constituído.


De fato, ao fugir do para-aquém da razão desse discurso, ele é deslocado a um para-além. Se o discurso do sujeito podia, a rigor e conforme o caso, ser posto entre parênteses, na perspectiva inicial da análise quanto à função de engodo ou obstrução que ele pode exercer na revelação da verdade, é a título de sua função de signo, e de maneira permanente, que ele é hoje desvalorizado.
Pois já não é apenas que se o despoje de seu conteúdo para atentar para seu ritmo, seu tom, suas interrupções ou sua melodia.
Qualquer outra manifestação da presença do sujeito logo parece dever ser-lhe preferida: sua apresentação na chegada e seu andar, a afetação de suas maneiras e o cumprimento na hora de sua despedida; uma reação de atitude na sessão prende mais a atenção do que um erro de sintaxe, e é mais apreciada por seu indício de tônus do que por sua importância gestual. Um acesso emocional ou um borborigmo visceral são testemunhas buscadas da mobilização da resistência, e a parvoíce a que vai o fanatismo da vivência chega a descobrir na inter-subodoração o auge do requinte.


Do Eu na análise e de sua finalidade no analista


aporia


chicanice


Há que apelar para o sentimento primeiro dado pelo analista, que não é, afinal, que o Eu seja seu forte, ao menos quando se trata do dele e do capital que ele pode extrair disso.


S. Ferenczi, “A elasticidade da técnica psicanalítica”


Não será esse o osso que exige que o psicanalista tenha que ser psicanalisado, princípio que S. Ferenczi eleva à categoria de segunda regra fundamental? E não se curva o analista ante este julgamento de Freud que bem podemos dizer que foi o último, .3401 já que foi proferido por ele dois anos antes de morrer, qual seja, que “ele geralmente não atinge, em sua própria personalidade, o grau de normalidade a que gostaria de fazer seus pacientes chegarem” ?21 Esse veredito espantoso, e que não há por que desdizer, retira do psicanalista o benefício daquela desculpa que é possível impor, justamente, em favor de qualquer elite: a de que ela é recrutada entre o comum dos mortais.


Onde fica o fim da análise no que concerne ao eu? Como sabê-lo, desconhecendo a função dele na ação mesma da psicanálise? Socorramo-nos pela via de crítica que submete uma obra à prova dos próprios princípios que ela sustenta.
E submetamos a ela a chamada análise do caráter. Esta é exposta como baseada na descoberta de que a personalidade do sujeito estrutura-se como o sintoma que ela sente como estranho, ou seja, ela abriga inadvertidamente um sentido, o de um conflito recalcado. E a investida do material que revela esse conflito é obtida como segundo tempo de uma fase preliminar do tratamento, a qual W. Reich, em sua concepção que se tornou clássica na análise, 24 acentua expressamente ter por finalidade fazer o sujeito considerar essa personalidade como um sintoma.


É certo que esse ponto de vista mostrou seus frutos numa objetivação de estruturas tais como os chamados tipos de caráter “fálico-narcísico” e “masoquista” , até então desconhecidos, por serem aparentemente assintomáticos, sem falar dos tipos de caráter, já assinalados por seus sintomas, da histérica e do compulsivo, cujo agrupamento de traços, qualquer que seja o valor que convém atribuir à teorização deles, constitui uma .3421 contribuição preciosa para o conhecimento psicológico.


congênere


o desejo de fazer seu desejo ser reconhecido.


Esse desejo, onde se verifica literalmente que o desejo do homem se aliena no desejo do outro, de fato estrutura as pulsões descobertas na análise, segundo todas as vicissitudes das substituições lógicas, em sua fonte, sua direção e seu objeto;
26 entretanto, longe de essas pulsões, por mais que recuemos em sua história, mostrarem derivar da necessidade de uma satisfação natural, elas só fazem modular-se em fases que reproduzem todas as formas da perversão sexual: pelo menos, esse é o mais evidente e o mais conhecido dos dados da experiência analítica.


a deiscência da harmonia natural exigida por Hegel como sendo a doença fecunda, a falha afortunada da vida, onde o homem, ao se distinguir de sua essência, descobre sua existência.


Não há, com efeito, outra realidade senão esse toque da morte cuja marca ele recebe em seu nascimento, por trás do novo encanto que assume no homem a função imaginária. Pois é justamente o mesmo “instinto de morte” que, no animal, manifesta-se nessa função, se nos detivermos na consideração de que, ao servir à fixação específica ao congênere no ciclo sexual, a subjetividade não se distingue da imagem que a cativa, e o .346. indivíduo só aparece aí como representante passageiro dessa imagem, como passagem dessa imagem representada para a vida.
Somente ao homem essa imagem revela sua significação mortal, e de morte ao mesmo tempo: que ele existe. Mas essa imagem só lhe é dada como imagem do outro, ou seja, é-lhe arrebatada.


Assim, o Eu nunca é senão metade do sujeito; e é ainda aquela que ele perde ao encontrá-la. Compreende-se, pois, que faça questão dela e procure conservá-la em tudo o que parece reproduzi-la nele mesmo ou no outro, e que lhe ofereça, com a efígie, a semelhança.


Desmistificando o sentido do que a teoria chama de “identificações primárias” , digamos que o sujeito sempre impõe ao outro, na diversidade radical dos modos de relação, que vão desde a invocação da fala até a simpatia mais imediata, uma forma imaginária que leva o selo ou os selos sobrepostos das experiências de impotência em que essa forma se modelou no sujeito: e essa forma não é outra senão o Eu.


Mas ele sabe menos bem que aquilo que responde é menos importante, no caso, do que o lugar de onde responde. Pois não pode contentar-se com a precaução de evitar entrar no jogo do sujeito, uma vez que o princípio da análise da resistência ordena-lhe objetivá-la.


Assim, para que a relação de transferência pudesse escapar desses efeitos, seria preciso que o analista houvesse despojado a imagem narcísica de seu Eu de todas as formas do desejo em que ela se constituiu, para reduzi-la à simples figura que a sustenta sob suas máscaras: a do mestre/senhor absoluto, a morte.
É justamente aí, portanto, que a análise do Eu encontra seu término ideal: aquele em que o sujeito, havendo reencontrado as origens de seu Eu numa regressão imaginária, toca, através da progressão rememoradora, em seu fim na análise, ou seja, a subjetivação de sua morte.


M.Balint, ” Amor pela mãe e amor matemo” , Intemat. J. Psycho-Anal., 1949, p.251.


M. Balint, “Mudanças dos objetivos e das técnicas terapêuticas da psicaná­ lise” , lntemat. J. Psycho-Anal., 1950. Ver as observações sobre a two-bodies psychology, p.l23-4.


A pergunta, transposta agora para o saber do analista, adquire força por não comportar a resposta de que o analista sabe o que faz, já que foi o fato patente que ele o desconhece, na teoria e na técnica, que nos levou a deslocá-la para lá.
Pois, admitindo-se que a análise nada modifica no real, e que “muda tudo” para o sujeito, enquanto o analista não sabe dizer em que consiste sua operação, o termo “pensamento mágico” , para designar a confiança ingênua que o sujeito de quem ele cuida confere a seu poder, afigura-se apenas o álibi de seu próprio desconhecimento.


Ora, o analista se distingue por fazer de uma função que é comum a todos os homens um uso que não está ao alcance de todo o mundo, quando ele porta a palavra falada.


Por certo, esse discurso intermediário, mesmo como discurso .353. do engano e do erro, não deixa de testemunhar a existência da fala em que se funda a verdade, porquanto só se sustenta ao se propor como tal e, mesmo ao se dar abertamente como discurso da mentira, só faz afirmar com mais força a existência dessa fala. E se descobrimos, por essa abordagem fenomenológica da verdade, a chave cuja perda leva o logicismo positivista a buscar o “sentido do sentido” , acaso isso também não faz reconhecer nela o conceito do conceito, na medida em que ele se revela na fala em ato?


na análise classicamente conhecida pelo nome de “Homem dos Ratos” , a grande virada se acha no momento em que Freud compreende o ressentimento provocado no sujeito pelo calculismo que sua mãe lhe sugere como princípio da escolha de uma esposa. Que a proibição que esse conselho comporta, para o sujeito, de ficar noivo da mulher a quem ele pensa amar, que tal proibição seja referida por Freud à fala do pai dele, contrariando fatos patentes, sobretudo aquele que prima sobre todos - o de que esse pai está morto -, causa bastante surpresa, mas se justifica no nível de uma verdade mais profunda,


se a interpretação de Freud, ao desfazer em todo o seu alcance latente essa cadeia, leva a jogar por terra a trama imaginária da neurose, é que, para a dívida simbólica que se promulga no tribunal do sujeito, essa cadeia o faz comparecer ali ainda menos como seu legatário do que como sua testemunha viva.


Vê-se muito bem, nesse discurso inteiramente público, como o problema se afigura grave, e também como é pouco ou nada apreendido. O desejável não é que os analisados sejam mais “introspectivos”, mas que compreendam o que fazem; e o remédio não é que os institutos sejam menos estruturados, mas que não se ensine neles um saber pré-digerido, mesmo que .3571 resuma os dados da experiência analítica.


engenheiros da alma


O analista, com efeito, só pode enveredar por ela ao reconhecer em seu saber o sintoma de sua ignorância, e isso no sentido propriamente analítico de que o sintoma é o retor n o do recalcado no compromisso, e de que o recalcado, aqui como alhures, é a censura da verdade. A ignorância, de fato, não deve ser entendida aqui como uma ausência de saber, mas, tal como o amor e o ódio, como uma paixão do ser; porque ela pode ser, à semelhança deles, uma via em que o ser se forma.


Tampouco signif i ca que não se tenha reconhecido que esse desejo deve ser tratado à semelhança do desejo de amar no neurótico, do qual a sabedoria sempre soube que ele é a antinomia do amor - não é a isso que visam os melhores autores, ao declarar que toda análise didática tem a obrigação de analisar os motivos que fizeram o candidado escolher a carreira de analista?
4


M. Gitelson, “Problemas terapêuticos na análise do candidato normal” , Inter n ar. J. Ps y cho-Anal., 1954, n” 2 , p.l74-83.


essa fi gura obscena e feroz que a análise chama de Supereu, e que convém compreender como a hiância aberta no imaginário por toda rejeição (Ver w ei f ung) dos mandamentos da fala.


M. Balint, ” Formação analítica e análise didática” , lnter n at. J. Psycho-Anal., 1954, 35, n”2, p.157-62.


É que a análise, por progredir essencialmente no não-saber, liga-se, na história da ciência, a seu estado anterior à sua definição aristotélica, que se chama dialética. Do mesmo modo, a obra de Freud, por suas referências platônicas, ou mesmo pré-socráticas, traz o testemunho disso.


De um desígnio


Pois deixar-se conduzir dessa maneira pela letra de Freud até o clarão que ela necessita, sem marcar encont r o prévio, não recuar ante o resíduo, reencontrado no fim, de seu começo enigmático, e inclusive não considerar resolvido, ao cabo do processo de espanto com que se nele se ingressou, foi nisso que um lógico experiente nos trouxe a garantia daquilo em que consistia nossa busca, quando, já se iam três anos, enten­ díamos autorizar-nos de um comentário literal de Freud.


Precisamente pelo que a verdade que ela introduz, a do inconsciente, deve à letra da linguagem, àquilo que chamamos signif i cante.
Isto, se incidentalmente nos dá conta da qualidade de escritor .365. de Freud, é decisivo sobretudo para fazer o psicanalista inte­ ressar-se ao máximo possível pela linguagem e pelo que ela determina no sujeito.


Esse efeito de verdade culmina num velamento irredutível em que se marca a primazia do signif i cante, e sabemos pela doutrina freudiana que nenhum real participa mais dele do que


o sexo. Mas o sujeito só tem sobre ele um controle sobrede­ terminado: o desejo é desejo de saber, suscitado por uma causa conexa à formação de um sujeito, mediante o que essa conexão só se prende ao sexo por um viés gauche


a presentif i cação necessária de um furo que já não deve ser situado no transcendental do conhecimento -lugar, em síntese, muito bem-vindo para ser transposto por um recuo -, mas num lugar mais próximo, que nos pressiona a esquecê-lo.


lá onde o ser, tão inclinado a fugir de seu gozo como se mostra na experiência, nem por isso deixa de supor, .366. nem de maneira menos permanente, que tenha acesso a ele por direito. Pretensão que só escapa ao cômico em função da angústia provocada pela experiência que a reduz.


Em suma, lê-se Freud como se escreve na psicanálise; basta dizer isso.


Trata-se da própria repetição, cuja fi gura, tanto quanto Kierkegaard, ele renova para nós: na divisão do sujeito, destino do homem científico. Que se afaste disso outra confusão: nada a ver com o eter n o retomo.
A repetição é única ao ser necessária e, aquela que fica a nosso encargo, não conseguiríamos levá-la a termo se ficasse em nosso indicador o comando de seu circuito.


Introdução ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Vemeinung ” de Freud


que ninguém toque, se não for engenheiro hidráulico especializado, nos potenciais desse mana sublime. Todos esses preceitos, convém dizer, e seus adereços teóricos serão abando­ nados por nossa atenção, porque são simplesmente macarrônicos.


Que nos diz Freud ali, de fato? Ele nos desvenda um fenômeno estruturante de qualquer revelação da verdade no diálogo. Existe a dificuldade fundamental que o sujeito encontra naquilo que tem a dizer; a mais comum é a que Freud demonstrou no recalque, ou seja, essa espécie de discordância entre o signif i cado e o significante que é determinada por toda censura de origem social.
A verdade pode sempre ser comunicada, nesse caso, nas entre­ linhas. Ou seja, quem quer dá-la a entender sempre pode recorrer à técnica indicada pela identidade entre a verdade e os símbolos que a revelam, isto é, atingir seus fi ns introduzindo num texto, deliberadamente, discordâncias que correspondem criptograf i ca­ mente às impostas pela censura.


Daí a importância da indicação que nos deu Freud a partir da dele, ou seja, a de que quando o sujeito se interrompe em seu discurso, vocês podem ter certeza de que está tomado por um pensamento relacionado com o analista.
Essa indicação, vocês a verão confirmada, na maioria das vezes, ao formularem ao sujeito a pergunta: “Em que você está pensando neste instante, relacionado com aquilo que aqui o cerca e, mais exatamente, comigo, que o escuto?” E mais, a satisfação íntima que vocês poderão extrair ao ouvir comentários mais ou menos indelicados sobre sua aparência geral e seu humor do dia, sobre o gosto que denota a escolha de sua mobília ou a maneira como vocês se enfatiotaram, não basta para justificar sua inicia­ tiva, se vocês não souberem o que esperam dessas observações;


Aí se há de reconhecer a fórmula pela qual int r oduzimos, nos primórdios de nosso ensino, aquilo de que se trata aqui. O sujeito, dizíamos, começa a análise falando de si sem falar com vocês, ou falando com vocês sem falar de si. Quando puder falar de si com vocês, a análise estará terminada.


O eu de que estamos falando é absolutamente impossível de distinguir das captações imaginárias que o constituem dos pés à cabeça, tanto em sua gênese como em seu status, em sua função como em sua atualidade, por um outro e para um outro. Em outras palavras, a dialética que sustenta nossa experiência, situando-se no nível mais envolvente da eficácia do sujeito, obriga-nos a compreender o eu, de ponta a ponta, no movimento de alienação progressiva em que se constitui a consciência de si na fenomenologia de Hegel.


Vocês são de uma geração que pôde provar que essa arte é desconhecida pelos demagogos, que são tão incapazes de se desprender das abstrações quanto um psicanalista comum. É por isso que as próprias guerras que eles vencem só fazem gerar contradições em que mal se tem a oportunidade de reconhecer seus efeitos prometidos.


Do sublime ao ridículo há apenas um passo


Pois o homem que, no ato da fala, reparte com seu semelhante o pão da verdade, partilha a mentira.
Mas, basta dizer isso? E poderia a fala aí retraída não se extinguir diante do ser-para-a-morte, depois de se haver dele aproximado num nível em que somente o chiste ainda é viável, sendo que as aparências de seriedade para responder à sua gravidade já não funcionavam senão como hipocrisia?
Assim, a morte nos traz a questão daquilo que nega o discurso, bem como de saber se é ela que introduz neste a negação. Pois a negatividade do discurso, na medida em que faz existir o que não está ali, remete-nos à questão de saber o que o não-ser, que .380. se manifesta na ordem simbólica, deve à realidade da morte.
Assim é que o eixo dos pólos em que se orientava um primeiro campo da fala, cuja imagem primordial é o material da téssera (onde encontramos a etimologia do símbolo), é aqui atravessado por uma dimensão secundária não recalcada, mas necessaria­ mente um engodo. Ora, é dela que surge, com o não-ser, a definição da realidade.
Desse modo, já vemos saltar o cimento com que a chamada nova técnica costuma tapar suas fissuras, qual seja, um recurso, desprovido de qualquer crítica, à relação com o real.


Resposta ao comentário de Jean Hyppolite sobre a “Verneinung ” de Freud


Eis por que os textos de Freud revelam ter, no final das contas, um verdadeiro valor formativo para o psicanalista, ao habituá-lo, como ele deve estar - nós o ensinamos expressamente -, ao exercício de um registro fora do qual sua experiência não é mais nada.


uma relação do sujeito com o ser, e não do sujeito com o mundo.


análise do “Homem dos Lobos” .2 Acho que ainda está presente em sua memória a alucinação cujo vestígio o sujeito encontra com a lembrança. Ela surgiu erraticamente em seu quinto ano de vida, assim como na ilusão, cuja falsidade seria demonstrada, de já tê-la contado a Freud. O exame desse fenômeno se tor n ará para nós mais leve pelo que conhecemos de seu contexto. Pois não é de fatos acumulados que pode surgir uma luz, mas de um fato bem relatado, com todas as suas correlações, isto é, com aquelas que, na impossi­ bilidade de compreender o fato, justamente o esquecemos -salvo pela intervenção do gênio que, não menos justamente, já formula o enigma como se conhecesse sua ou suas soluções.


A saber, a “intelectualização” do processo analítico, de um lado, e a manutenção do recalque, malgrado a conscientização do recalcado, de outro.
É assim que Freud, em sua inf l exível inf l exão à experiência, constata que, embora o sujeito tenha manifestado em seu com­ portamento um acesso, e não sem audácia, à realidade genital, esta permaneceu como letra morta para seu inconsciente, onde reina sempre a “teoria sexual” da fase anal.
Desse fenômeno, Freud discer n e a razão no fato de que a posição feminina assumida pelo sujeito, na captação imaginária do trauma primordial (ou seja, aquele cuja historicidade dá à comunicação do caso seu principal motivo), tor n a-lhe impossível aceitar a realidade genital sem a ameaça, desde então inevitável para ele, da castração.


Um recalque é algo diferente de um juízo que rejeita e escolhe


Deixo a critério de vocês julgar que tipo de malefício é preciso admitir no destino dado aos textos de Freud em francês, se nos recusarmos a crer que os tradutores combinaram entre si tomá-los incompreensíveis, sem falar do que acrescenta a esse efeito a completa extinção da vivacidade de seu estilo.


Tal é a afirmação inaugural, que já não pode ser renovada senão através das formas veladas da fala inconsciente, pois é somente pela negação da negação que o discurso humano permite voltar a ela.


  • o sujeito não quererá “saber nada disso no sentido do recalque” . Pois, com efeito, para que ele tivesse que conhecê-lo nesse sentido, seria preciso que isso, de algum modo, tivesse vindo à luz pela simbolização primordial. Mais uma vez, porém, que acontece com isso? O que acontece, vocês podem ver: o que não veio à luz do simbólico aparece no real.
    Porque é assim que se deve compreender a Einbeziehung ins /ch, a introdução no sujeito, e a Austossung aus dem Ich, a expulsão para fora do sujeito. É esta última que constitui o real, na medida em que ele é o domínio do que subsiste fora da simbolização. E é por isso que a castração, aqui suprimida pelo sujeito dos próprios limites do possível, mas igualmente subtraí­ da, por isso, das possibilidades da fala, vai aparecer no real, erraticamente, isto é, em relações de resistência sem transferência - diríamos, para retomar a metáfora de que nos servimos há pouco, como uma pontuação sem texto.
    Pois o real não espera e não espera nomeadamente o sujeito, já que nada espera da fala. Mas está ali, idêntico à sua existência, ruído onde tudo se pode ouvir, e prestes a submergir com seus estrondos o que o “princípio de realidade” constrói nele sob o nome de mundo exter n o. Isso porque, se o juízo de existência funciona mesmo como o entendemos no mito freudiano, é justamente às custas de um mundo do qual a astúcia da razão .3891 retirou duas vezes sua parte.
    Não há outro valor a dar, com efeito, à reiteração da divisão entre o fora e o dentro articulada pela frase de Freud: Es ist,

wie man sieht, wieder eine Frage des Aussen und Innen. “Trata-se novamente, como se vê, de uma questão do fora e do dentro.” Em que momento, de fato, surge essa frase? - Primeiro houve a expulsão primária, isto é, o real como exter n o ao sujeito.
Depois, no interior da representação (Vorstellung), constituída pela reprodução (imaginária) da percepção primária, a discrimi­ nação da realidade como aquilo que, do objeto dessa percepção primária, não apenas é instaurado como existente pelo sujeito, mas pode ser reencontrado (wiederge f u nden) no lugar onde este pode apoderar-se dele. É somente nisso que a operação, por mais desencadeada que seja pelo princípio do prazer, escapa a seu domínio. Mas, nessa realidade que o sujeito tem que compor segundo a gama bem temperada de seus objetos, o real, como suprimido da simbolização primordial, já está presente. Pode­ ríamos até dizer que fala sozinho. E o sujeito pode vê-lo emergir dela sob a forma de uma coisa que está longe de ser um objeto que o satisfaça, e que só da maneira mais incongruente concer n e à sua intencionalidade atual: é a alucinação, como algo que se diferencia radicalmente do fenômeno interpretativo. Coisa da qual vemos aqui, sob a pena de Freud, o testemunho transcrito tal como ditado pelo sujeito.


O sujeito lhe conta, com efeito, que, “quando tinha cinco anos, estava brincando no jardim ao lado de sua babá e fazia entalhes na casca de uma das nogueiras (cujo papel conhecemos em seu sonho). De repente, observou, com um terror inexprimí­ vel, que havia cortado seu dedo mínimo (da mão direita ou esquerda? - ele não sabe), e que esse dedo estava preso apenas pela pele. Ele não sentiu nenhuma dor, porém uma grande ansiedade. Não teve coragem de dizer o que quer que fosse à babá, que estava apenas a alguns passos dele; deixou-se cair num banco e assim permaneceu, incapaz de lançar outro olhar para o dedo. No fim, acalmou-se, olhou bem para o dedo e -vejam só. - ele estava perfeitamente intacto.”


Poderíamos dizer que o sentimento do dé jà vu vem ao encontro da alucinação errática, que é o eco imaginário que surge como resposta a um ponto da realidade que pertence ao limite onde ele foi suprimido do simbólico.
Isso quer dizer que o sentimento de irrealidade é exatamente o mesmo fenômeno que o sentimento de realidade, se designar-.3921 mos por esse termo o “clique” que assinala o ressurgimento, raro de obter, de uma lembrança esquecida. O que faz com que o segundo seja sentido como tal é que ele se produz no interior do texto simbólico que constitui o registro da rememoração, ao passo que o primeiro corresponde às formas imemoriais que aparecem no palimpsesto do imaginário, quando o texto, ao se interromper, desnuda o suporte da reminiscência.


Mas o sujeito não experimenta um sentimento menos convin­ cente ao esbarrar no símbolo que originalmente suprimiu de sua Bejahung. Pois nem por isso esse símbolo entra no imaginário.
Ele constitui, diz-nos Freud, aquilo que não existe propriamente;
e é como tal que ek-siste, pois nada existe senão sobre um suposto fundo de ausência. Nada existe senão na medida em que não existe.
Do mesmo modo, é isso que aparece em nosso exemplo. O conteúdo da alucinação, tão maciçamente simbólico, deve seu aparecimento no real ao fato de não existir para o sujeito. Com efeito, tudo indica que este continuou fixado, em seu incons­ ciente, numa posição feminina imaginária que tira todo o sentido de sua mutilação alucinatória.
Na ordem simbólica, os vazios são tão significativos quanto os cheios; realmente parece, ao ouvir Freud hoje, que é a hiância de um vazio que constitui o primeiro passo de todo o seu movimento dialético.
É justamente isso que explica, ao que parece, a insistência do esquizofrênico em reiterar esse passo. Em vão, já que, para ele, todo o simbólico é real.
E bem diferente, nisso, do paranóico, de quem mostramos em nossa tese as estruturas imaginárias preponderantes, isto é, a .393. retro-ação para um tempo cíclico, que toma tão difícil a anamnese de seus distúrbios, de fenômenos elementares que são apenas pré-signif i cantes, e que só depois de uma organização discursiva longa e penosa conseguem estabelecer, constituir, esse universo sempre parcial a que se chama um delírio.


quem roubou, roubará


Não darei outra prova disso senão o corpo de delito prometido em meu exemplo, ou seja, justamente o que o sr. Kris nos apresenta como o troféu de sua vitória. Ele acredita ter atingido o objetivo, e comunica isso a seu paciente: “Só as idéias dos outros é que são interessantes, são as únicas boas de pegar;
apossar-se delas é uma questão de saber como proceder” -assim traduzo o engineering, pois acho que ele faz eco ao célebre how to norte-americano, vejamos se não é isto: uma questão de planejamento.


A coisa f reudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise


Situação do tempo e lugar deste exercício


Na verdade, se algo dessa ordem se passou, é só a nós mesmos que cabe responsabilizar.


apagado da preocupação e do estilo, senão da memória, aqueles que dela saíram, com o recalque de suas lembranças desagradá­ veis.


Não lamentaremos com vocês esse esquecimento


Estaria eu lhes ensinando alguma coisa, ao lhes dizer que esses textos - aos quais dedico há quatro anos um seminário de duas horas, todas as quartas-feiras, de novembro a julho, sem haver ainda empregado mais de um quarto deles, supondo-se que meu comentário pressuponha seu conjunto - nos deram, a mim e aos que me seguem, a surpresa de verdadeiras descobertas?
Elas vão de conceitos que se mantiveram inexplorados a detalhes clínicos deixados ao sabor de nossa exploração, e que atestam a que ponto o campo de que Freud teve a experiência ultrapassava as vias que ele se encarregou de nos abrir, e a que ponto sua observação, que às vezes dá a impressão de ser exaustiva, pouco se suscitava ao que ele tinha que demonstrar.


a descoberta de Freud questiona a verdade, e não há ninguém que não seja pessoalmente afetado pela verdade.


Confessem que é uma colocação bem estranha eu jogar-lhes na cara esse dito que quase passa por mal afamado, por estar proscrito das boas companhias. Pergunto, no entanto, se ele não está inscrito no próprio cer n e da prática analítica, já que também esta sempre refaz a descoberta do poder da verdade em nós, e até em nossa ca r n e.


xperiência única, aliás bastante abjeta, mas que é impossível recomendar em demasia aos que pretendem introduzir-se no princípio das lou­ curas do homem, pois, por se mostrar aparentada com toda uma gama de alienações, ela as esclarece.


a saber, nos objetos da relação pré-edipiana, a merda e as pregas do cu.


Não basta atribuir a uma espécie de cegueira do homem o fato de a verdade nunca ser para ele uma jovem tão bela como no momento em que a luz erguida por seu braço, no emblema proverbial, sur­ preende-a nua. E é preciso fazer-se um pouco de bobo para fingir não saber nada do que acontece depois disso. Mas persiste a estupidez de uma franqueza taurina a se perguntar onde, afinal, se teria podido buscá-la antes, já que o emblema não ajuda a indicar o poço, lugar inconveniente e até malcheiroso, em vez do escrínio onde toda forma preciosa deve conservar-se intacta.


Eu, a verdade, falo.


O discurso do erro, sua articulação cor n o ato, podia testemunhar a verdade contra a própria evidência.


Mas nem por isso tor n astes obsoletos ou sem prazo vossos .41o1 débitos para comigo. É de após ontem e antes de amanhã que eles estão datados. E pouco importa que vos precipiteis adiante para honrá-los ou para vos furtardes deles, porque é por trás que eles vos pegarão em ambos os casos. Quer fujais de mim no embuste, quer penseis apanhar-me no erro, junto-me a vós no equívoco contra o qual não tendes refúgio. Ali onde a fala mais cautelosa exibe um ligeiro tropeço, é para com sua perfídia que ela falta, divulgo-o agora, e daqui em diante não será nada fácil agir como se nada houvesse, em boa ou má companhia. Mas, não há por que vos fatigardes em vigiar-vos melhor. Mesmo que as jurisdições conjuntas da polidez e da política decretassem inaceitável tudo o que se valesse de mim para se apresentar de maneira tão ilícita, não vos desobrigaríeis por tão pouco, pois a intenção mais inocente fica desconcertada ao não mais poder calar que seus atos falhos são os mais bem sucedidos e que seu fracasso premia seu mais secreto anseio. Aliás, para avaliar vossa derrota, acaso não é o bastante ver-me escapar, primeiro, da torre da fortaleza em que julgáveis com mais certeza me reter, situando-me não em vós, mas no próprio ser? Vagabundeio pelo que considerais como o menos verdadeiro em essência: pelo sonho, pelo desafio ao sentido da piadinha mais gongórica e pelo nonsense do mais grotesco trocadilho, pelo acaso, e não por sua lei, mas por sua contingência, e nunca procedo com maior certeza para mudar a face do mundo do que ao lhe dar o perfil do nariz de Cleópatra.


Que um faro mais certeiro que todas as vossas categorias vos guie pelo trajeto a que vos incito: pois, se a astúcia da razão, por mais que ela vos desdenhasse, perma­ neceu acessível a vossa fé, eu, a verdade, serei contra vós a grande enganadora, porquanto não é apenas pela falsidade que passam meus caminhos, mas pela falha estreita demais de en­ contrar na ausência do fingimento e pela nuvem inacessível do sonho, pelo fascínio imotivado do medíocre e pelo impasse sedutor do absurdo.


A volta às trevas que consideramos esperada neste momento dá o sinal para um murder part y iniciado pela proibição de que qualquer um saia, já que, a partir desse momento, todo o mundo pode esconder a verdade sob a roupa, ou, como na galante ficção das “jóias indiscretas” , no ventre. A pergunta geral é: quem fala? E não deixa de ter pertinência. Infelizmente, as respostas são meio precipitadas.


Fez-se questão apenas de repetir, segundo Freud, o dito de sua descoberta: isso fala, e sem dúvida o faz onde menos seria de se esperar, ali onde isso sofre


A primeira rede, do significante, é a estrutura sincrônica do material da linguagem, na medida em que cada elemento adquire nela seu emprego exato por ser diferente dos outros; é esse o princípio de distribuição que rege sozinho a função dos elementos da língua em seus diferentes níveis, desde o par da oposição fonemática até as locuções compostas, das quais é tarefa da mais moder n a pesquisa destacar as formas estáveis.


Analisemo-la. Ao contrário da forma que a tradução inglesa .4171 não consegue evitar - “Where the id was, there the ego shall be” -, Freud não disse das Es nem das lc h, como faz habi­ tualmente para designar essas instâncias em que havia ordenado, já fazia dez anos, sua nova tópica; e isso, considerado o rigor inf l exível de seu estilo, dá ao emprego delas nessa frase uma ênfase particular. Seja como for - sem ter sequer de confirmar pela crítica inter n a da obra de Freud que ele efetivamente escreveu Das Ich und das Es para manter essa distinção funda-mental entre o verdadeiro sujeito do inconsciente e o eu, este constituído em seu núcleo por uma série de identificações alie­ nantes -, evidencia-se aqui que é no lugar, Wo, onde Es, sujeito desprovido de qualquer das ou de qualquer outro artigo objeti-vante (é de um lugar de ser que se trata) era, war, é nesse lugar que soll, devo - e é um dever moral que se anuncia aí, como confirma a única frase que sucede a esta para encerrar o capítulo7 - Ich, .eu., ali devo .eu. (como se anunciava ce suis-je, antes de se dizer c’est moi) werden, tor n ar-me, isto é, não sobrevir, nem tampouco advir, mas vir à luz, desse lugar mesmo como lugar de ser.


A resistência aos resistentes


é que a partir de então eles sabiam demais e não sabiam o bastante da verdade para fazer com que seus pacientes, que não a conheciam menos, a reconhecessem


O discurso do outro


“Seguramente, a concepção que é exposta com toda essa tranqüilidade, bem como o acolhimento que ela recebe, fazem supor que, ao contrário do lugar-comum que diz que os ingênuos são iludidos, é ainda bem mais fácil que os ingênuos iludam. E a hipocrisia que se revela na declaração mediante a qual o remorso aparece com curiosíssima regularidade nesse discurso, a de que é preciso falar com o sujeito ‘na linguagem dele’, dá ainda mais o que pensar no que tange à profundeza dessa ingenuidade


“Mas, não estamos aqui para divagar entre a náusea e a vertigem. A verdade é que, por mais que eu seja um púlpito a lhes falar, sou o paciente ideal, já que comigo não é preciso ter tanto trabalho, os resultados se obtêm de imediato, estou curado de antemão. Uma vez que se trata apenas de substituir meu .426. discurso pelo seu, sou um eu perfeito, já que nunca tive outro e que me entrego a vocês para que me informem sobre as coisas


a que meus dispositivos de regulagem não lhes permitem adap­ tar-me diretamente, isto é, todas aquelas que não são suas dioptrias, sua altura e a dimensão de seus papéis.”


é na desagregação da unidade imaginária cons­ titutiva do eu que o sujeito encontra o material significante de seus sintomas. E é do tipo de interesse que nele desperta o eu que provêm as significações que dele desviam seu discurso


A paixão imaginária


Esse interesse do eu é uma paixão cuja natureza já fora vislum­ brada pela linhagem dos moralistas, onde era chamada de amor­ próprio, mas da qual somente a investigação psicanalítica soube analisar a dinâmica em sua relação com a imagem do próprio corpo. Essa paixão introduz em toda relação com essa imagem, constantemente representada por meu semelhante, uma signifi­ cação que me interessa tanto, isto é, que me faz ficar numa tal dependência dessa imagem, que acaba por ligar ao desejo do outro todos os objetos de meus desejos, mais estreitamente do que ao desejo que eles suscitam em mim.


Situação que se simboliza no “Tu estás outro” da querela transitivista, forma original da comunicação agressiva


A ação analítica


Isso quer dizer que o analista intervém concretamente na dialética da análise se fazendo de morto, cadaverizando sua posição, como dizem os chineses, seja por seu silêncio, ali onde ele é o Outro, Autre com A maiúsculo, seja anulando sua própria resistência, ali onde é o outro, autre com a minúsculo. Em ambos os casos e sob as respectivas incidências do simbólico e do imaginário, ele presentifica a morte.


O que se chama lógica ou direito nunca é nada além de um corpo de regras que foram laboriosamente ajustadas num momento da história, devidamente datado e situado por um sinete de origem, ágora ou foro, igreja ou partido. Nada esperarei dessas regras, portanto, fora da boa-fé do Outro, e, em desespero de causa, só me servirei delas, se o julgar conveniente ou for obrigado a isso, para divertir a má-fé.


O lugar da fala


O Outro é, portanto, o lugar onde se constitui o .eu. que fala com aquele que ouve, o que um diz já sendo a resposta, e o outro decidindo, ao ouvi-lo, se esse um falou ou não.


As leis da rememoração e do reconhecimento simbólico, com efeito, diferem em sua essência e sua manifestação das leis da reminiscência imaginária, isto é, do eco do sentimento ou do sinete (Pragung) instintivo, mesmo que os elementos que orde­ nam as primeiras como significantes sejam retirados do material a que as segundas dão significação.


A dívida simbólica


Pois as uvas verdes da fala através da qual o filho recebeu cedo demais de um pai a autenticação do nada da existência, bem como as vinhas da ira que corresponderam às palavras de falsa esperança com que sua mãe o enganou, amamentando-o no leite de seu verdadeiro desespero, embotam-lhe ainda mais os dentes do que o ter sido desmamado de um gozo imaginário, .4341 ou mesmo o ter sido privado desses cuidados reais.


e que encontra sua resposta na dívida simbólica pela qual o sujeito é responsável como sujeito da fala.


A formação dos futuros analistas


É a essa articulação da verdade que Freud se refere ao declarar insustentáveis estas três apostas: educar, gover n ar e psicanalisar.
E por que o seriam, com efeito, a não ser pelo fato de que neles o sujeito só pode ser falho, por correr pelas bordas que Freud reserva à verdade?
É que a verdade revela-se complexa por essência, humilde em seus préstimos e estranha à realidade, insubmissa à escolha do sexo, aparentada com a morte e, pensando bem, basicamente desumana, Diana, talvez … Actáion, muito culpado que estás na perseguição à deusa, presa a que se prende, monteiro, a sombra em que te transformas, deixa ir-se a matilha sem que teu passo se apresse - Diana, pelo que eles valerem, reconhecerá os cães …


A psicanálise e seu ensino


No inconsciente, que é menos profundo do que inacessível para o aprofundamento consciente, isso f ala: um sujeito no sujeito, transcendente ao sujeito, formula ao fi lósofo sua questão desde a ciência dos sonhos.


que, uma metonímia mais vasta englobando suas metáforas, a verdade do inconsciente deve desde então ser situada nas entrelinhas;
que Freud, no instinto de morte, interroga-se sobre o fautor dessa verdade.


Isso é o que confirma, por sua impagável declaração, a teoria em voga: que o eu do analista, que é compreensível que seja chamado no mínimo de autônomo, é o parâmetro da realidade do qual a análise, para o analisando, constituiria a prova.
Não pode tratar-se de nada dessa ordem nos confins da análise, mas do simples restabelecimento de uma cadeia simbólica cujas três dimensões:
de história de uma vida vivida como história, de sujeição às leis da linguagem, as únicas passíveis de sobredeterminação, e de articulação intersubjetiva pela qual a verdade entra no real, indicam as direções em que o autor tenciona traçar as vias da formação do analista.


O inconsciente é esse discurso do Outro em que o sujeito recebe, sob a forma invertida que convém à promessa, sua própria mensagem esquecida.


É necessário indicar que tal colocação julga ultrapassado o .4 4 0. momento em que se tratava de fazer reconhecer a existência da psicanálise e, por assim dizer, produzir em favor dela atestados de bom comportamento.
Considero sabido que essa disciplina dispõe, por conseguinte, em toda convenção de mentes autorizadas, de um crédito mais do que suficiente no que concer n e a sua existência qualificada.
Ninguém, nos dias atuais, tomará como coisa de desequili­ brado, se for preciso julgar sua capacidade civil ou jurídica, o fato de alguém se fazer psicanalisar. Antes, quaisquer que sejam suas extravagâncias, por outro lado, esse recurso será posto na conta de um esforço de crítica e de controle. Sem dúvida, justamente os que houverem aplaudido esse recurso se mostrarão, ocasionalmente, ao mesmo tempo, muito mais reservados quanto a seu emprego em relação a eles mesmos ou a seus parentes. O fato é que o psicanalista carrega consigo a confiança que lhe é depositada - com incrível presteza, verdade seja dita - de ser um entendido no assunto, e que os mais reticentes dentre seus colegas psiquiatras, por exemplo, não se incomodam em passar para a suas mãos toda uma ordem de casos com os quais não sabem o que fazer.


O fato é que não seria sem razão que um de nós, levantando-se nesse momento, poderia inquietar-nos com tudo o que nossa cultura propaga invocando o nome de Freud, e af i rmar que, seja qual for a qualidade disso, sua ordem de grandeza não deixa de se comparar ao que ela veicula, querendo ou não, invocando o nome de Marx.
Mas também pesaria na balança um nome de Freud mais engajado, e com obrigações mais confusas que o nome de seu modelo de comparação.


exegetas


as interferências de sua voz


O sintoma psicanalisável, seja ele normal ou patológico, distingue­ se não apenas do índice diagnóstico, mas de qualquer forma apreensível de pura expressividade, por se sustentar numa estru­ tura que é idêntica à estrutura da linguagem. E com isso não nos referimos a uma estrutura a ser situada numa pretensa semiologia generalizada, a ser arrancada de seu limbo, mas à estrutura da linguagem tal como se manifesta nas línguas que chamarei positivas, as que são efetivamente faladas por massas humanas.


Sem dúvida, as lições de uma mulher de talento que revolu­ cionou nosso conhecimento das formações imaginárias na crian­ ça, e cujos temas qualquer iniciado há de reconhecer, se eu tiver a extravagância de chamá-la de tripeira, nos ensinarão a dizer à criança que as uvas-objetos-maus devem realmente ser arranca­ das das tripas da cegonha, e que é por isso que ela tem medo da raposa. Não digo que não. Mas tenho mais confiança na fábula de La Fontaine para nos introduzir nas estruturas do mito, isto é, naquilo que exige a intervenção desse inquietante quarto elemento cujo papel, como significante na fobia, parece-me muito mais instável.


Pois cabe dizer que nada nem ninguém, até época recente, nem na seleção do analista nem em sua formação, jamais levou em conta nem pensou em se ocupar de seus preconceitos conscientes mais cegos sobre o mundo em que vive, nem com sua patente ignorância, nesse passatempo, do rudimento de letras clássicas necessário para orientá-lo na realidade de suas próprias operações.


“Pois as uvas verdes da fala através da qual o filho recebeu cedo demais de um pai a autenticação do nada da existência, bem como as vinhas da ira que corresponderam às palavras de falsa esperança com que sua mãe o enganou, amamentando-o no leite de seu verdadeiro desespero, prejudicam-lhe ainda mais os dentes do que o ter sido desmamado de um gozo imaginário, .451. ou mesmo o ter sido privado de tais cuidados reais.” Não ficaremos surpresos, com efeito, ao perceber que a neurose histérica e a neurose obsessiva pressupõem em sua estrutura os termos sem os quais o sujeito não pode ter acesso à noção, na primeira, de sua facticidade em relação a seu sexo e, na segunda, de sua existência. À qual uma e outra dessas estruturas constituem uma espécie de resposta.
Respostas decerto submetidas à condição de se concretizarem numa conduta do sujeito que é a pantomima delas, mas que não têm menos direito à qualidade de “pensamento formado e arti­ culado” que Freud outorga àquelas formações mais curtas do inconsciente que são o sintoma, o sonho e o lapso.
Por isso mesmo, é um erro tomar essas respostas como simplesmente ilusórias. Elas nem sequer são imaginárias, a não ser na medida em que a verdade faz surgir ali sua estrutura de ficção.
Se a questão de saber por que o neurótico ” se engana” tem um começo mais bem orientado, muitas vezes ela só faz mostrar, ao derivar para a parvoíce de uma função qualquer do real, o escorregão grosseiro em que os analistas caíram de costas, junto com os predecessores de Freud, num caminho mais apropriado para os cascos de uma cabra divina.
E como, de resto, é mais espirituosa a forma escrita de uma palavra do que o emprego que dela faz um pedante, o “se” do “se engana” - que seria um erro isolar como representando o neurótico


“A quem o neurótico engana?”


Mas o gozo de que o sujeito é assim privado transfere-se para o outro imaginário que o assume como gozo de um espetáculo, qual seja, o oferecido pelo sujeito na jaula em que, com a participação de algumas feras do real, quase sempre obtida à custa delas, ele persegue a proeza dos exercícios hípicos mediante os quais comprova sua capacidade de estar vivo.


É somente do lugar do Outro que o analista pode receber a investidura da transferência que o habilita a desempenhar seu papel legítimo no inconsciente do sujeito, e a tomar a palavra em intervenções adequadas a uma dialética cuja particularidade essencial define-se pelo privado.
Qualquer outro lugar, para o analista, o reduz a uma relação dual que não tem outra saída senão a dialética de desconheci­ mento, denegação e alienação narcísica que, em todos os ecos de sua obra, Freud martela como sendo própria do eu.


Qualquer retomo a Freud que dê ensejo a um ensino digno desse nome só se produzirá pela via mediante a qual a verdade mais oculta manifesta-se nas revoluções da cultura. Essa via é a única formação que podemos pretender transmitir àqueles que nos seguem. Ela se chama: um estilo.


Situação da psicanálise e f ormação do psicanalista em 1956


parti-pris


Que afluência unânime não se obteria ao colapsar psicanálise e formação para anunciar o estudo da situação do psicanalista.
E quão edificante seria estendê-lo até os efeitos de seu estilo de vida. Tocaremos tão-somente por um instante em sua relação com o mundo, para introduzir nosso tema.


eu não gostaria de viver


com um psicanalista


Como não haveríamos de ficar satisfeitos com esse efeito de segregação intelectual como um fruto da distância que mantemos pela incomunicabilidade de nossa experiência?


Esses lembretes triviais, é claro, permanecem opacos sob essa forma. Para saber o que é a transferência, é preciso saber o que acontece na análise. Para saber o que acontece na análise, é preciso saber de onde vem a fala. Para saber o que é a resistência,


é preciso saber o que encobre o advento da fala: e isso não é uma dada disposição individual, mas uma interposição imaginária que ultrapassa a individualidade do sujeito, na medida em que estrutura sua individualização especificada na relação dual


regra analítica imposta ao paciente -a de nada omitir do que lhe vier à cabeça e de, para esse fim, renunciar a qualquer crítica e a qualquer escolha


atenção flutuante


Se foi tão fecunda a colheita que eles obtiveram, tanto das divagações, nunca tão permitidas de saírem de uma boca, quanto dos lapsos, nunca tão oferecidos ao orifício de um ouvido, não foi sem razão.


o esgotamento das fantasias, a regressão instintiva, a desarticulação da defesa, o enxugamento da angústia, a liberação da agressividade, a identificação com o eu forte do analista, a manducação imaginária de seus atributos, a dinâmica, ah. a dinâmica, onde se reconstrói a relação de objeto


Pena se perderem na tradução as assonâncias e alusões desse trecho de Lacan.
Exemplo disso são f aire les comes à (troçar, mais especif i camente com o gesto do indicador e do mínimo reservado aos “cor n udos” ) e ressuscitant les comeilles auxquelles nous revoilà bayant (construção que remete não só ao idiomatismo bayer aux comeilles . embasbacar-se diante de algo, mas ainda à expressão comeilles de la f able . plagiários, ” papagaios” ). Outra assonância aparece em voletement oblique.volet narquois (volteios oblíquos/viés malicioso). Por fim, tirer nos auspices (de auspicium . avis, ave, e spicere, examinar . ler presságios no vôo dos pássaros) admite igualmente o sentido de invocar o apoio, a proteção de alguém


um drama esquecido atravessa as eras no inconsciente.


o eco do significante


a conexão da pater n idade com a morte, que Freud destaca explicitamente em muitos relatos clínicos, permite ver de onde esse significante extrai sua posição primordial.


Não se trata de nível mental, naturalmente, mas do fato de que a ordem simbólica só é abordável por seu próprio aparelho. Pode-se fazer álgebra sem saber escrever? Do mesmo modo, não se pode tratar do mínimo efeito de significante, nem tampouco enfrentá-lo, sem pelo menos desconfiar do que está implicado num fato de escrita.


Mas que necessidade pode ter o analista de um ouvido a mais, quando às vezes parece ter dois de sobra, ao enveredar a todo vapor pelo mal-entendido fundamental da relação de compreen­ são? Nós repetimos a nossos alunos: “Abstenham-se de com­ preender.” e deixem essa categoria nauseante para os senhores Jaspers e consortes. Que um de seus ouvidos ensurdeça, enquanto o outro deve ser aguçado. E é esse que vocês devem espichar na escuta dos sons ou fonemas, das palavras, locuções e frases, sem omitir as pausas, escansões, cortes, períodos e paralelismos, pois é aí que se prepara a literalidade da versão sem a qual a intuição analítica fica sem apoio e sem objeto.


A história mostra-nos em Freud a preocupação que o guiou na organização da AIP, ou Associação Inter n acional de Psica­ nálise, especialmente a partir de 1912, quando apadrinhou a forma de autoridade que prevaleceria nela, determinando nas minúcias das instituições o modo de exercício e transmissão dos poderes: trata-se da preocupação, claramente confessada em sua correspondência, de assegurar a manutenção de seu pensamento na íntegra, mesmo quando ele já não estivesse presente para defendê-lo


Para se transmitir, não dispondo da lei do sangue, que implica a geração, nem da lei da adoção, que pressupõe a aliança, resta-lhe a via da reprodução imaginária, que, por uma modalidade de fac-símile análoga à impressão, permite, por assim dizer, sua .4761 tiragem num certo número de exemplares em que o único se pluraliza.
Esse modo de multiplicação não deixa de encontrar nessa situação afinidades favoráveis. Pois não nos esqueçamos de que a entrada na comunidade está sujeita à condição da análise didática, e há mesmo uma certa razão para que tenha sido no círculo dos didatas que veio à luz a teoria que faz da identificação com o eu do analista a finalidade da análise.


A oposição da insuficiência, sugerida por um formalismo puro, é dialeticamente insustentável. A mais ínf i ma premissa da suficiência ejeta de seu campo a insuf i ciência, porém, do mesmo modo, a idéia da insuficiência como uma categoria do ser exclui radicalmente de todas as outras a Suficiência. É uma ou outra, incompativelmente.
Precisamos de uma categoria que, sem implicar a indignidade, indique que estar fora da suficiência constitui seu lugar, e que se está habilitado a ocupá-lo em se permanecendo nele. Donde, para os que aí se alinham, a denominação de Sapatinhos Aper­ tados parece-nos boa, pois, além de constituir uma marca visível o bastante para que numa assembléia seja fácil distingui-los, ela os define por esse estado: eles estão sempre com os sapatos apertando 21 e, no fato de se acomodarem a isso, manifestam a suficiência velada de sua oposição à Suficiência.


Entre a posição assim marcada e a Suficiência, no entanto, persiste um hiato que nenhuma transição é capaz de preencher. E o escalão que a simula na hierarquia é apenas uma ilusão de ótica.


Mas, afinal, que poderiam dizer os Sapatinhos Apertados?
Fazer perguntas? Eles não fazem nada disso, por três razões das quais duas lhes são conhecidas.
A primeira razão é que eles são analisandos e um bom analisando não faz perguntas - fórmula que convém entender no mesmo nível de peremptoriedade com que o provérbio “não se faz economia de palitos” encerra a réplica a um pedido de contas considerado inoportuno num célebre pastiche de Claudel.
A segunda razão é que é estritamente impossível, na linguagem corrente na comunidade, fazer uma pergunta sensata, e que seria preciso ter o descaramento de Huron, ou o topete monumental da criança para quem o Rei está nu, para tecer um comentário sobre isso - único sésamo, entretanto, capaz de permitir que ali se inicie uma conversa.
A terceira razão é desconhecida dos Sapatinhos Apertados nas condições usuais e só aparecerá no fim de nosso enunciado.
Quanto às Suficiências, para que precisam falar? Bastando a si mesmas, elas não têm nada a dizer umas às outras e, no silêncio dos Sapatinhos Apertados, ninguém a quem responder.


Ali, o sim tem com o não uma compatibilidade que não é de equilíbrio, mas de redundância.
Dá na mesma dizer que um não se dá sem o outro, ou melhor, já que isso é evidente, tanto faz não dizê-lo.


pro f issões deli­ rantes


Vê-se aqui a função do Um A Mais, como também que é preciso que ele seja Um Sem Mais, pois qualquer Mais Um seria Um Demais, ao fazer recaírem todos os números dois numa presunção que permanece irremissível, por se conhecer como irremediável.
Esse Um A Mais já estava no número três, condição preliminar da série na qual melhor se mostrou a nós. E isso demonstra que a alegria do número dois da Suficiência exige que sua dualidade se exceda nesse Um A Mais: e que, portanto, a Beatitude, sendo o excesso da Suficiência, tenha seu lugar fora dela.
Contudo, não podendo esse Um A Mais que é cada Beatitude ser outra coisa senão Um Sem Mais, ela fica fadada, devido à sua posição, ao monólogo. E é por isso que, ao contrário das Suficiências que nada têm a dizer umas às outras, as Beatitudes se f alam, embora não para se dizer algo a mais.
Pois esse Um A Mais em que o número três se reúne é, seguramente, a mediação da Fala, porém, ao se manter no Outro do qual deveria desligar-se para retomar ao Mesmo, ele só forma .481. em sua boca esta forma que fecha: o O de um Oráculo, que somente o apetite dos Bem-Necessários pode romper, até fazer dele o U de um Veredito.
Mas as duas superfluidades que aqui se conjugam, pela conivência da carência do Discurso Inconsistente com o excesso do Discurso .motivado, nem por isso satisfazem uma à outra.
Não mais do que o punhado de bolinhas que nele se possam colocar conseguirá, algum dia, tomar um coador mais apropriado para servir a sopa.


Não há campo em que alguém se exponha mais totalmente do que ao falar da análise


O de que, devendo uma política de silêncio tenaz encontrar sua via para a Beatitude, o analfabetismo em seu estado congênito não fica sem esperança de ter sucesso.


o benefício que eles haviam extraído de sua análise pessoal, diremos aqui o que de mais freqüente e fundamental surgiu na homenagem que eles prestavam a seus didatas; é algo que cabe numa palavra: desintelectualização.


Ah. como se sentiam enfim libertos, os queridos filhos, eles que, quase todos, atribuíam seu ingresso na psiquiatria aos anseios insatisfeitos daquele ano maldito que o ciclo de estudos franceses inf l ige na companhia das idéias. Não, não era isso, agora eles sabiam, que os havia guiado: que alívio e que benefício terem-se livrado por tão pouco, pois, uma vez desfeito esse erro e substituído pela convicção de que esse prurido era justamente, de fato, o que se chama pelo nome maldito de intelectualismo, quão reto enf i m é o caminho, com que facilidade o pensamento encontra seu caminho para a natureza. - e porventura os movimentos de nossas vísceras não estão aí para nos assegurar isso?
Eis o que faz com que um bom aluno analista dessa espécie se distinga ao primeiro relance, para quem quer que tenha visto um deles alguma vez: por esse ar interior, e até posterior, que o mostra apoiado no feto macerado de suas resistências.
Desintelectualização: a palavra não indica que alguém se tome burro por causa disso; ao contrário dos temores ou das esperanças vulgares, a análise é totalmente incapaz de modificar coisa alguma nessa matéria.
O estudo da inteligência, cujo grau a psicologia behaviorista julgou poder superpor à mensuração daquilo que o animal é capaz de englobar no comportamento de desvio, muitas vezes pareceu-nos poder beneficiar-se, pelo menos quanto ao homem, de uma referência mais ampla: nominalmente, do que chama-.4841 ríamos conduta do rastro.
Não há uma vez que levemos nosso cãozinho a seu passeio obrigatório sem que nos impressione o proveito que se poderia tirar de seus procedimentos para a análise das capacidades que respondem pelo sucesso do homem na sociedade, bem como das virtudes em que os antigos empenhavam sua meditação, sob o título de Meio-de-Conseguir. Que ao menos esta digressão des­ faça o mal-entendido a que teríamos dado ensejo em alguns: o de nos imputarem a doutrina de uma descontinuidade entre psicologia animal e psicologia humana, que está muito longe de nosso pensamento.
Simplesmente quisemos sustentar que, para operar correta­ mente nos efeitos que a análise distingue no homem como sintomas, e que, por se prolongarem tão diretamente em seu destino, ou mesmo em sua vocação, parecem cair junto com eles


sob o mesmo corte - o da linguagem -, decerto é preferível não permanecer completamente iletrado; ou, mais modestamente, sustentar que nem todo erro possível deve ser afastado do esforço que se faria para estar empenhado nisso.


Caso do sr. Valdemar.


Aqueles para quem o itinerário da Fenomenologia do espírito é familiar se sairão melhor nesse desvendamento e se surpreen­ derão menos com a paciência que parece adiar nesse meio qualquer incursão interrogativa. Mas a moderação dos questio­ namentos não se limita aos pleiteantes, e não foi um novato que se instruiu em sua coragem ao dar-lhe a seguinte motivação:
“Não há campo em que alguém se exponha mais totalmente do que ao falar de psicanálise.”


os srs. H. Hartmann, E. Kris e R. Loewenstein


De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose


I. Rumo a Freud


II. Depois de Freud


III. Com Freud


o estado do sujeito S (neurose ou psicose) depende do que se desenrola no Outro A. O que nele se desenrola articula-se como um discurso (o inconsciente é o discurso do Outro), do qual Freud procurou inicialmente definir a sintaxe relativa aos fragmentos que nos chegam em momentos privilegiados, sonhos, lapsos, chistes.
Nesse discurso, como estaria o sujeito implicado, se dele não fosse parte integrante? Ele o é, com efeito, enquanto repuxado para os quatro cantos do esquema, ou seja, S, sua inefável e estúpida existência, a, seus objetos, a’, seu eu, isto é, o que se reflete de sua forma em seus objetos, e A, lugar de onde lhe pode ser formulada a questão de sua existência.


Uma verdade da experiência, para a análise, é que a questão de sua existência coloca-se para o sujeito, não sob a feição da angústia que ela suscita no nível do eu, e que é apenas um elemento de seu cortejo, mas como uma pergunta articulada: “Que sou eu nisso?” , concernente a seu sexo e sua contingência no ser, isto é, a ele ser homem ou mulher, por um lado, e por outro, ao fato que poderia não sê-lo, os dois conjugando seu mistério e enlaçando-o aos símbolos da procriação e da morte. Que a questão de sua existência inunde o sujeito, suporte-o, invada-o ou até o dilacere por completo, é o que testemunham ao analista as tensões, as suspensões e as fantasias com que ele depara; mas resta ainda dizer que é sob a forma de elementos do discurso particular que essa questão no Outro se articula. Pois é por esses fenômenos se ordenarem nas figuras desse discurso que eles têm fixidez de sintomas, que são legíveis e se resolvem ao serem decifrados.


no nível do questionamento, não do lugar do sujeito no mundo, porém de sua existência como sujeito, questionamento este que, a partir dele, vai estender-se à sua relação intramundana com os objetos e à existência do mundo, na medida em que ela também pode ser questionada para-além de sua ordem.


ESQUEMA R:


IV. Do lado de Schreber


Imanente nesses seres, cuja captura por sua inclusão no ser de Schreber ameaça sua integridade, Deus não deixa de ter o suporte intuitivo de um hiperespaço, onde Schreber vê as próprias transmissões significantes conduzirem-se ao longo de fios que materializam o trajeto parabólico pelo qual elas entram em seu crânio, através do occipital.


Com isso acabaremos, enfim, por nos espantar com o fato de que o sujeito atormentado por esses mistérios não hesite, por mais Criado que seja, em antepor com suas palavras as ciladas de uma consternadora estupidez de seu Senhor, nem em se manter em oposição e contra a destruição que ele O acredita capaz de empregar em relação a ele e em relação a qualquer um, através de um direito fundamentado em nome da Ordem do Mundo (Weltordnung), um direito que, por estar do seu lado, motiva o singular exemplo da vitória de uma criatura a quem uma cadeia de desordens fez tombar sob o golpe da “perfídia” de seu criador.


Afinal, quando é que você se sentirá à vontade, quando está em sua casa?


Então nos parece realmente que, se o Criado I assume ali o lugar em P deixado vago pela Lei, o lugar do Criador designa-se por esse liegen lassen .deixar largado., esse abandono funda­mental em que parece desnudar-se, pela foraclusão do Pai, a ausência que permitiu construir-se na primordial simbolização o M da Mãe.
De um ao outro, uma linha que culminaria nas Criaturas da fala, ocupando o lugar do filho recusado às esperanças do sujeito (v. infra, Pós-escrito), seria assim concebível como contornando o furo cavado no campo do significante pela foraclusão do Nome-do-Pai


É em torno desse buraco em que falta ao sujeito o suporte da cadeia significante, e que não precisa, como se constata, ser inefável para ser pânico, que se trava toda a luta em que o sujeito se reconstrói. Essa luta, ele a conduziu em sua honra, e as vaginas do céu (outro sentido da palavra Vorho f e, v. supra), as jovens miraculadas que cercavam as bordas do furo com sua corte, fizeram sua glosa com seus gorjeios de admiração arrancados de suas goelas de harpias: ” Ver j l uchter Kerl. Sujeitinho danado.” Em outros tempos, um espertalhão. Infelizmente, por antífrase.


Como podemos perceber ao observar que não é por estar foracluído do pênis, mas por ter que ser o falo, que o paciente estará fadado a se tornar uma mulher. Sem dúvida, a adivinhação do inconsciente adverte o sujeito, desde muito cedo, de que, na impossibilidade de ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher que falta aos homens.
Está justamente nisso o sentido da fantasia - cuja relação foi muito ressaltada em seu escrito e que citamos acima - do período de incubação de sua segunda enfermidade, isto é, a ideia de que “seria belo ser uma mulher na hora da copulação” . Esse lugar-comum da literatura schreberiana fixa-se aqui em seu lugar.


O primeiro é o de uma prática transexualista, nem um pouco indigna de ser aproximada da “perversão” , cujos traços foram esclarecidos, desde então por numerosas observações


Seja como for, vemos nosso sujeito entregar-se a uma atividade erótica que ele ressalta ser estritamente reservada à solidão, mas cujas satisfações ele confessa. Quais sejam, as que lhe são dadas por sua imagem no espelho, quando, revestido com as bugigangas da ornamentação feminina nada, diz ele, na parte superior de seu corpo, lhe parece ser de feitio a não poder convencer qualquer amante eventual do busto feminino


Ao que convém ligar, cremos nós, o desenvolvimento, alegado como percepção endossomática, dos chamados nervos da volúpia feminina em seu próprio tegumento, nomeadamente nas zonas onde se supõe que eles sejam erógenos na mulher.
Uma observação - a de que, ocupando-se incessantemente da contemplação da imagem da mulher, jamais desligando seu pensamento do suporte de algo de feminino, a volúpia divina é ainda mais satisfeita - faz com que nos voltemos para o outro aspecto das fantasias libidinais.
Este liga a feminilização do sujeito à coordenada da copulação divina.


Jean-Marc Alby,


Contribution à l’étude du transsexualisme


Seguramente, com efeito, quando Schreber houver terminado sua transformação em mulher, ocorrerá o ato de fecundação divina, com o qual está bem claro (S. 3-Introd.) que Deus não pode comprometer-se, num obscuro encaminhamento através dos órgãos. (Não nos esqueçamos da aversão de Deus pelos viventes.)


Aqui, mais uma vez, podemos colocar sob o signo da criatura o ponto decisivo de onde a linha escapa em suas duas ramificações, a do gozo narcísico e a da identificação ideal. Mas no sentido de que sua imagem é a isca da captura imaginária em que tanto uma quanto a outra se enraízam. E, também nesse caso, a linha gira em torno de um furo, precisamente aquele em que o “assassinato d’ almas” instalou a morte. Terá esse outro abismo sido formado pelo simples efeito, no imaginário, do vão apelo feito no simbólico à metáfora paterna? Ou deveremos concebê-lo como produzido num segundo grau pela elisão do falo, que o sujeito reduziria, para resolvê-la, à hiância mortífera do estádio do espelho? Seguramente, o vínculo - dessa vez genético - desse estádio com a simbolização da Mãe como primordial não pode deixar de ser evocado, para motivar essa solução.


ESQUEMA 1:


Apenas apontamos aqui, na dupla curva da hipérbole que ele desenha, exceto pelo deslizamento dessas duas curvas ao longo de uma das retas diretrizes de sua assíntota, o vínculo tornado sensível, na dupla assíntota que une o eu delirante ao outro divino, de sua divergência imaginária no espaço e no tempo com a convergência ideal de sua conjunção.

Toda a espessura da criatura real, ao contrário, interpõe-se para o sujeito entre o gozo narcísico de sua imagem e a alienação da fala em que o Ideal do eu assumiu o lugar do Outro.
Esse esquema demonstra que o estado terminal da psicose não representa o caos petrificado a que levam as consequências de um sismo, porém, muito antes, essa evidenciação de linhas de eficiência que faz falar, quando se trata de um problema de solução elegante.


Reunidas na forma desse esquema, destacam-se as relações pelas quais os efeitos de indução do significante, recaindo no imaginário, determinam esse transtorno do sujeito que a clínica designa sob as feições de crepúsculo do mundo, exigindo, para responder a ele, novos efeitos de significante. Mostramos em nosso seminário que a sucessão simbólica dos reinos anteriores e, depois, dos reinos posteriores de Deus, o inferior e o superior, Ariman e Ormuzd, bem como as mudanças de sua “política” (termo da língua fundamental) em relação ao sujeito, fornecem justamente essas respostas às diferentes etapas da dissolução imaginária, que as lembranças do doente e os atestados médicos aliás conotam suficientemente, por restabele­cer ali uma ordem do sujeito.
Quanto à questão que aqui promovemos sobre a incidência alienante do significante, guardaremos o nadir de uma noite de julho de 94 em que Ariman, o Deus inferior, revelando-se a Schreber no mais impressionante aparato de seu poder, interpelou-o com esta palavra simples e, no dizer do sujeito, corrente na língua fundamental: Luder.


o grande Outro tem essas impertinências


Resta a disposição do campo R no esquema, na medida em que ela representa as condições em que a realidade é restabelecida para o sujeito: para ele, uma espécie de ilhota cuja consistência lhe é imposta, depois da prova, por sua constância; para nós, ligada ao que a torna habitável para ele, mas que também a distorce, ou seja, excêntricos remanejamentos do imaginário, I, e do simbólico, S, que a reduzem ao campo do descompasso entre ambos.


No esquema I, a manutenção do trajeto Saa’ A simboliza a opinião que formamos, pelo exame desse caso, de que a relação com o outro como semelhante, e até uma relação tão elevada quanto a da amizade, no sentido em que Aristóteles faz dela a essência do laço conjugal, são perfeitamente compatíveis com a relação fora-do-eixo com o grande Outro e com tudo o que ela comporta de anomalia radical, qualificada na velha clínica, impropriamente, mas não sem uma certa força de abordagem, de delírio parcial.


No auge da dissolução imaginária, o sujeito mostra, em sua apercepção delirante, um recurso singular ao critério de realidade que é o de voltar sempre ao mesmo lugar, e mostra por que os astros o representam eminentemente: esse é o motivo designado por suas vozes pelo nome de ligação às terras

Estou aqui


Mais valeria, no entanto, jogar esse esquema no lixo, se ele tivesse, à semelhança de tantos outros, que ajudar alguém a esquecer numa imagem intuitiva a análise que a sustenta.


é na relação do homem com o significante que se situa esse drama.
O perigo que evocaremos, de delirar com o doente, não é para nos intimidar, como não intimidou a Freud.
Com ele, sustentamos que convém escutar aquele que fala, quando se trata de uma mensagem que não provém de um sujeito para-além da linguagem, mas de uma fala para-além do sujeito.
Pois é então que ouvimos essa fala, que Schreber capta no Outro, quando, de Ariman a Ormuzd, do Deus maligno ao Deus ausente, ela traz a admoestação em que se articula a própria lei do significante: “A/ler Unsinn hebt sich au f .” -“Todo absurdo se anula.”


O ser do homem não apenas não pode ser compreendido sem a loucura, (5751 como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade


V. Pós-escrito


Ensinamos, seguindo Freud, que o Outro é o lugar da memória que ele descobriu pelo nome de inconsciente, memória que ele considera como objeto de uma questão que permanece em aberto, na medida em que condiciona a indestrutibilidade de certos desejos. A essa questão respondemos com a concepção da cadeia significante, na medida em que, uma vez inaugurada pela sim-


bolização primordial (que o jogo do Fort. Da., evidenciado por Freud na origem do automatismo de repetição, torna manifesta), essa cadeia se desenvolve segundo ligações lógicas cuja influência sobre o que há por significar, ou seja, o ser do ente, se exerce pelos efeitos de significante descritos por nós como metáfora e metonímia.


É num acidente desse registro e do que nele se realiza, a saber, na foraclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro, e no fracasso da metáfora paterna, que apontamos a falha que confere à psicose sua condição essencial, com a estrutura que a separa da neurose.
Essa formulação, que trazemos aqui como uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, prossegue sua dialética: porém nós a deteremos aqui, e vamos dizer por quê.
É que por nossa parada, primeiro, vale indicar o que se descobre.
Uma perspectiva que não isole a relação de Schreber com Deus de seu relevo subjetivo, que a marca com traços negativos que a fazem afigurar-se mais uma mistura do que uma união do ser com o ser, e que, na voracidade que aí se compõe com o asco, na cumplicidade que suporta sua exação, não mostra nada, para chamarmos as coisas por seu nome, da Presença e do Júbilo que iluminam a experiência mística: oposição que não apenas demonstra, mas que fundamenta a espantosa ausência, nessa relação, do Du, isto é, do Tu, vocábulo (Thou) que certas línguas .576. reservam para o chamado de Deus e para o apelo a Deus, e que é o significante do Outro na fala.


Para que a psicose se desencadeie, é preciso que o Nome-do­ Pai, ver w oi f en, foracluído, isto é, jamais advindo no lugar do Outro, seja ali invocado em oposição simbólica ao sujeito.
É a falta do Nome-do-Pai nesse lugar que, pelo furo que abre no significado, dá início à cascata de remanejamentos do significante de onde provém o desastre crescente do imaginário, até que seja alcançado o nível em que significante e significado se estabilizam na metáfora delirante.
Mas, como pode o Nome-do-Pai ser chamado pelo sujeito no único lugar de onde poderia ter-lhe advindo e onde nunca esteve?
Através de nada mais nada menos que um pai real, não forço­ samente, em absoluto, o pai do sujeito, mas Um-pai.
É preciso ainda que esse Um-pai venha no lugar em que o sujeito não pôde chamá-lo antes. Basta que esse Um-pai se situe na posição terceira em alguma relação que tenha por base o par imaginário a-a’, isto é, eu-objeto ou ideal-realidade, concernindo ao sujeito no campo de agressão erotizado que ele induz.
.5781 Que se procure no início da psicose essa conjuntura dramática.
Quer ela se apresente, para a mulher que acaba de dar à luz, na figura de seu marido, para a penitente que confessa seu erro, na pessoa de seu confessor, para a mocinha enamorada, no encontro com o “pai do rapaz” , sempre a encontramos, e a encontraremos com mais facilidade ao nos guiarmos pelas ” situações” , no sentido romanesco desse termo. Entenda-se aqui, de passagem, que essas situações são, para o romancista, sua verdadeira fonte, ou seja, aquela que faz brotar a “psicologia profunda” a que nenhuma visada psicológica poderia fazê-lo ter acesso.


Para passarmos agora ao princípio da foraclusão (Ver w ei f ung) do Nome-do-Pai, é preciso admitir que o Nome-do-Pai reduplica,


A tentativa não haveria de custar nada, ao que parece, àqueles que, em sua busca das coordenadas do “ambiente” da psicose, vagam qual almas penadas da mãe frustradora para a mãe saciadora, não sem sentir que, ao se dirigirem pelo lado da situação do pai de família, eles queimam, como se diz no jogo do chicote-queimado.
Além disso, nessa busca tateante de uma carência paterna, cuja distribuição entre o pai tonitruante, o pai indulgente, o pai onipotente, o pai humilhado, o pai acabrunhado, o pai derrisório, o pai caseiro ou o pai passeador não deixa de inquietar, não seria abusivo esperar algum efeito de descarga do seguinte comentário: que os efeitos de prestígio que estão em jogo nisso tudo, e onde (graças aos céus) a relação ternária do Édipo não é totalmente omitida, já que a reverência da mãe é considerada decisiva, reduzem-se à rivalidade entre os dois pais no imaginário do sujeito - ou seja, ao que se articula na pergunta cujo endereçamento parece ser regular, para não dizer obrigatório, em toda infância que se preza: “De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe?” Não visamos reduzir nada com essa aproximação, antes pelo contrário, pois essa pergunta, onde a criança nunca deixa de concretizar a repulsa que sente pelo infantilismo dos pais, é .5791 precisamente aquela com que essas verdadeiras crianças que são os pais (nesse sentido, não há outras senão elas na farm lia) pretendem mascarar o mistério de sua união ou sua desunião, conforme o caso, ou seja, daquilo que seu rebento sabe muito bem ser todo o problema, e que ele se formula como tal.
Dir-nos-ão, quanto a isso, que enfatizamos precisamente o vínculo de amor e respeito pelo qual a mãe coloca ou não o pai em seu lugar ideal. E curioso, responderemos, para começar, que quase não se mencionem os mesmos vínculos em sentido inverso, o que revela que a teoria participa do véu lançado sobre o coito dos pais pela amnésia infantil.
Mas, o ponto em que queremos insistir é que não é unicamente da maneira como a mãe se arranja com a pessoa do pai que convém nos ocuparmos, mas da importância que ela dá à palavra dele - digamos com clareza, a sua autoridade -, ou, em outras palavras, do lugar que ela reserva ao Nome-do-Pai na promoção da lei.


Mais ainda, a relação do pai com essa lei deve ser considerada em si mesma, pois nela encontraremos a razão do paradoxo pelo qual os efeitos devastadores da figura paterna são observados, com particular freqüência, nos casos em que o pai realmente tem a função de legislador ou dela se prevalece, quer ele seja, efetivamente, daqueles que fazem as leis, quer se coloque como pilar da fé, como modelo de integridade ou de devoção, como virtuoso ou virtuose, como servidor de uma obra de salvação, de algum objeto ou falta de objeto que haja, de nação ou natalidade, de salvaguarda ou salubridade, de legado ou legalidade, do puro, do pior ou do império, todos eles ideais que só lhe fazem oferecer demasiadas oportunidades de estar em posição de demérito, de insuficiência ou até de fraude e, em resumo, de excluir o Nome-do-Pai de sua posição no significante.
Não é preciso tanto para obter esse resultado, e nenhum dos que praticam a análise de crianças negará que a mentira da conduta é percebida por elas a ponto de ser devastadora. Mas, quem articula que a mentira assim percebida implica a referência à função constitutiva da fala?
Verifica-se, assim, que um pouco de severidade não é demais para dar à experiência mais acessível seu sentido verídico. As .580. conseqüências que podemos esperar disso, no exame e na técnica, são julgadas em outro lugar.


Niederland fornece o exemplo notável disso, 34 chamando a atenção para a genealogia delirante de Flechsig, construída com os nomes da linhagem real de Schreber - Gottfried, Gottlieb, Fürchtegott e sobretudo Daniel, que se transmite de pai para filho e do qual ele fornece o sentido em hebraico, para mostrar, na convergência de todos para o nome de Deus (Gott), uma cadeia simbólica importante, por manifestar a função do pai no delírio.


Igualmente incerta é a tentativa em que se empenha o sr.
Niederland, no mesmo artigo, de frisar, dessa vez a partir do sujeito, e não mais do significante (termos que lhe são estranhos, é claro), o papel da função paterna no desencadeamento do delírio.
Se ele pretende, com efeito, poder designar o ensejo da psicose .581. na simples assunção da paternidade pelo sujeito, o que é o tema de seu ensaio, é contraditório tomar por equivalentes a decepção de suas esperanças de paternidade, assinalado por Schreber, e seu acesso à Corte Suprema, pelo qual seu título de Seni i tspri i -sident sublinha a qualidade de Pai (conscrito )36 que ela lhe confere: isto, como a única motivação de sua segunda crise, sem prejuízo da primeira, que o fracasso de sua candidatura ao Reichstag explicaria da mesma maneira.
Já a referência à posição terceira, em que o significante da paternidade é invocado em todos esses casos, seria correta e desfaria essa contradição.
Mas, na perspectiva de nossa formulação, é a foraclusão (Verwerfung) primordial que domina tudo por seu problema, e as considerações precedentes não nos pegam desprevenidos.


Termo em que culmina o processo pelo qual o significante “desatrelou-se” 42 no real, depois de declarada a falência do


O Sol é uma puta


Nome-do-Pai - isto é, do significante que, no Outro como lugar do significante, é o significante do Outro como lugar da lei.


A direção do tratamento e os princí pios de seu poder


I. Quem analisa hoje?


Il. Qual é o lugar da interpretação?


III. Em que ponto estamos com a transferência?


IV. Como agir com seu ser


Será esse o procedimento da análise, um progresso da verdade?
Já escuto os coxas-grossas a murmurarem sobre minhas análises intelectualistas, quando sou o primeiro, ao que eu saiba, a preservar nelas o indizível.


V. É preciso tomar o desejo ao pé da letra


Tr a umdeutung


Mas isso, é claro, não passa de um mal-entendido. Não se fica curado porque se rememora. Rememora-se porque se fica curado. Desde que se descobriu essa fórmula, a reprodução dos sintomas já não constitui problema, mas somente a reprodução dos analistas; a dos pacientes está resolvida.


O desejo é aquilo que se manifesta no intervalo cavado pela demanda aquém dela mesma, na medida em que o sujeito, articulando a cadeia significante, traz à luz a falta-a-ser com o apelo de receber seu complemento do Outro, se o Outro, lugar da fala, é também o lugar dessa falta.


se o desejo efetivamente está no sujeito pela condição, que lhe é imposta pela existência do discurso, de que ele faça sua necessidade passar pelos desfilamentos do significante; e

  • se, por outro lado, como demos a entender anteriormente, abrindo a dialética da transferência, é preciso fundar a noção do Outro com maiúscula como sendo o lugar de manifestação da fala (a outra cena, eine andere Schauplatz, de que fala Freud na
    Traumdeutung),
  • deve-se afirmar que, obra de um animal presa da linguagem, o desejo do homem é o desejo do Outro.

Ele adivinha a impotência em que se encontra de desejar sem destruir o Outro e, com isso, destruir seu próprio desejo, na medida em que ele é desejo do Outro.


Opinião verdadeira não é ciência, e consciência sem ciência não passa de cumplicidade de ignorância. Nossa ciência só se transmite ao articular oportunamente o particular.


Observe-se:
.641. 1. Que a fala tem aqui todos os poderes, os poderes especiais do tratamento;
2. Que estamos muito longe, pela regra, de dirigir o sujeito para a fala plena ou para o discurso coerente, mas que o deixamos livre para se experimentar nisso;
3. Que essa liberdade é o que ele tem mais dificuldade de tolerar;
4. Que a demanda é propriamente aquilo que se coloca entre parênteses na análise, estando excluída a hipótese de que o analista satisfaça a qualquer uma;
5. Que, não sendo colocado nenhum obstáculo à declaração do desejo, é para lá que o sujeito é dirigido e até canalizado;
6. Que a resistência a essa declaração, em última instância, não pode ater-se aqui a nada além da incompatibilidade do desejo com a fala.


Observação sobre o relatório de Daniel Lagache:


Portanto, quando Daniel Lagache parte da escolha que nos propõe, entre uma estrutura como que aparente (que implicaria a crítica daquilo que o caráter descritivo comporta de natural) e uma estrutura que ele pode declarar distante da experiência (já que se trata do “modelo teórico” que ele reconhece na metapsicologia analítica), essa antinomia desconhece um modo da estrutura que, por ser terceiro, não deve ser excluído, ou seja, os efeitos que a combinatória pura e simples do significante determina na realidade em que se produz. Pois, é ou não o estruturalismo aquilo que nos permite situar nossa experiência como o campo em que isso fala? Em caso afirmativo, ” a distância da experiência” da estrutura desaparece, já que opera nela não como modelo teórico, mas como a máquina original que nela põe em cena o sujeito.


Heinz Hartmann


Isso, como se sabe, vai muito mais longe, tão longe quanto a lei abrange a linguagem, e a verdade, a fala: sua existência já é sustentada, inocente ou culpada, antes que ela venha ao mundo, e o tênue fio de sua verdade não pode fazer com que ela já não costure um tecido de mentira. É por isso mesmo que haverá, grosso modo, um erro de pessoa, isto é, quanto aos méritos dos pais, em seu Ideal do Eu, ao passo que, no velho processo de justificação no tribunal de Deus, o novo homenzinho retomará um dossiê anterior a seus avós: sob a forma do Supereu deles.


D.
Lagache, La psyclu m alyse et la structure


longe de ser preciso que o Eu-sujeito se esforce por repelir o Eu-objeto para se fazer “transcendente” a ele, o sujeito verdadeiro, para não dizer o bom sujeito, o sujeito do desejo, tanto no esclarecimento da fantasia quanto em seu refúgio fora do discer n imento, não é nada além da Coisa,9 que é dele o que há de mais próximo, embora mais lhe escape.


o adiamento temporal, a inibição e a representação pelo contrário.


confundir afir­ mação com certeza


como haveria de ser assim, se entre afirmação e certeza se estabelece aquele vínculo, senão de precedência, ao menos de precessão lógica, no qual têm lugar justamente as incertezas geradas pela ação em sua trilha de verificação?


Felizmente, a resposta vem, antes de mais nada, no furo que ele cava para si na linguagem.


onde cremos poder designar o leito em que elas oscilam entre uma cadeia da enunciação, na medida em que ela marca o lugar em que o sujeito está implícito no puro discurso (imperativo, voz em eco, epitalâmio, grito de .664. “fogo.” ), e uma cadeia do enunciado, na medida em que o sujeito é nela designado pelos shi f t ers (ou seja, .Eu., todas as partículas e fl exões que indicam sua presença como sujeito do discurso e, com esta, o presente da cronologia).


Evoca-se aqui um bedelhudo, a objetar que isso não pode ser o inconsciente, já que, como todos sabem, este desconhece o tempo. Ele que retor n e às aulas de gramática para distinguir o tempo da cronologia, para distinguir as “formas de aspecto” , que consideram na enunciação aquilo que acontece com o sujeito, daquelas que situam o enunciado na linha dos acontecimentos.
Então ele não confundirá o sujeito do consumado com a presença do passado. Despertará, sem dúvida, para o entendimento de que a tensão comporta tempo e de que a identificação se faz no ritmo de uma escansão.


Digamos apenas que esse lugar não invoca nenhum ser su­ premo, já que, lugar de Mais-Ninguém, só pode ser de alhures que se faz ouvir o é do impessoal, do qual, no devido tempo, 16 nós mesmos articulamos a questão quanto ao Isso. Ela não depara, essa questão cujo significante o sujeito pontua, com outro eco senão o silêncio da pulsão de morte, que foi preciso que entrasse em jogo para provocar o fundo de depressão reconstituído pela sra. Melanie Klein no talento que a guia ao longo das fantasias.


crer que o problema da psicanálise estaria em corrigir sabe-se lá qual curvatura do Eu


é preciso pen­ sarmos o sujeito como o sujeito em que isso pode falar, sem que ele nada saiba a respeito (e do qual até convém dizer que nada sabe a seu respeito enquanto fala).


situar-se no interior do cone que delimita a possibilidade da ilusão


O funcionamento desse modelo, de um lado, abarca a função de desconhecimento que nossa concepção do estádio do espelho instaura como princípio da formação do Eu. Ele permite enun­ ciá-la de uma forma que se pode dizer generalizada, ligando melhor à estrutura os efeitos da assunção da imagem especular, tais como supusemos poder interpretá-los no momento jubilatório em que ela é eletivamente observada, do 6º ao 18º mês, basean­ do-os numa prematuração perceptiva inscrita numa discordância do desenvolvimento neurológico.
As relações entre as imagens i’(a) e i(a), em nosso modelo, não devem ser tomadas à letra de sua subordinação óptica, mas como sustentando uma subordinação imaginária análoga.
Em i ‘(a), com efeito, não há somente o que o sujeito do modelo espera dela, porém já uma forma do outro que sua pregnância, não menos do que o jogo das relações de imponência que aí se iniciam, introduz como um princípio de falso domínio e de alienação intrínseca, numa síntese que requer uma adequação bem diferente.


conquista do inconsciente, de avento da história e de reconstrução do significante, se não denegarmos simplesmente que seu meio seja de fala -, que uma psicanálise seja capaz de reformular um Eu assim constituído em seu status imaginário.


O Ideal do Eu é uma formação que surge nesse lugar simbólico.
E é nisso que ele se prende às coordenadas inconscientes do Eu.
Para dizê-lo, Freud escreveu sua segunda tópica, e, tendo-o dito, como ao lê-lo fica perfeitamente claro, nem por isso ele o fez para franquear o retomo do eu autônomo.
Pois a questão que ele inaugura na Psicologia das massas e análise do Eu é a de como um objeto, reduzido a sua realidade mais estúpida, porém colocado por um certo número de sujeitos numa função de denominador comum, que confirma o que diremos de sua função de insígnia, é capaz de precipitar a identificação com o Eu Ideal, inclusive no débil poder do infortúnio que no fundo ele revela ser. Será preciso lembrarmos, para tomar inteligível a importância dessa questão, a fi gura do Führer e os fenômenos coletivos que deram a esse texto seu peso de vidência no cer n e da civilização? - Sim, sem dúvida, já que, por uma cômica inversão daquilo que Freud quis trazer de remédio para o mal-estar dela, foi na comunidade à qual ele .678. legou o cuidado com este, que a síntese de um Eu forte se enunciou como palavra de ordem, no cer n e de uma técnica em que o praticante se concebe como surtindo efeito por enca r n ar, ele mesmo, esse Ideal.


Chamamos atenção para o desejo, sobre o qual se costuma esquecer que, muito mais autenticamente do que uma busca de ideal, é ele que regula a repetição significante do neurótico e sua metonímia. Não é nesta observação que diremos como lhe é preciso sustentar esse desejo como insatisfeito (e eis a histérica) ou como impossível (e eis o obsessivo).


É que nosso modelo não toma mais clara a posição do objeto a. Pois, por dar imagem a um jogo de imagens, ele não pode descrever a função que esse objeto recebe do simbólico.
Justamente aquela que lhe confere seu uso como arma no posto avançado fóbico, contra a ameaça do desaparecimento do desejo; e como fetiche na estrutura perversa, como condição absoluta do desejo.
O a, objeto do desejo, no ponto de partida em que o situa nosso modelo, é, tão logo funciona nele … , o objeto do desejo.
Isso quer dizer que, como objeto parcial, ele não é apenas parte ou peça desvinculada do dispositivo que aqui imagina o corpo, mas elemento da estrutura desde a origem e, por assim dizer, da distribuição das cartas da partida que se joga. Na medida em que é selecionado nos apêndices do corpo como indício do desejo, ele já é o expoente de uma função que o sublima antes mesmo que ele a exerça - a do indicador erguido para uma ausência da qual o será? nada tem a dizer, a não ser que ela é de onde isso fala.


Para ter acesso a esse ponto, situado para-além da redução dos ideais da pessoa, é como objeto a do desejo, como aquilo que ele foi para o Outro em sua ereção de vivente, como o wanted ou o unwanted de sua vinda ao mundo, que o sujeito é chamado a renascer para saber se quer aquilo que deseja … É esse o tipo de verdade que, com a invenção da análise, Freud trouxe à luz.


O mesmo acontece com a lei moral, e pela mesma razão que nos faz caminhar da linguagem para a fala. E descobrir que o Supereu, em seu imperativo íntimo, é de fato “a voz da cons­ ciência” , isto é, antes de mais nada uma voz, bastante vocal, e sem maior autoridade senão a de ser uma voz grossa: a voz sobre a qual pelo menos um texto da Bíblia nos diz que ela se fez ouvir pelo povo aglomerado em tomo do Sinai, não sem que esse artifício sugira que, em sua enunciação, ela lhe devolveu seu próprio rumor, nem por isso sendo menos necessárias as Tábuas da Lei para conhecer seu enunciado.
Ora, nessas tábuas, para quem sabe ler, nada se escreveu à parte as leis da própria Fala. O que quer dizer que com a per-sona começa de fato a pessoa, mas, onde fica a personalidade? Uma ética se anuncia, convertida ao silêncio, não pelo caminho do pavor, mas do desejo: e a questão é saber como a via de conversa da experiência analítica conduz a ela.
Calar-nos-emas aqui sobre sua direção prática.


A significação do f alo


Sabemos que o complexo de castração inconsciente tem uma função de nó:
1 º· na estruturação dinâmica dos sintomas, no sentido analítico do termo, quer dizer, daquilo que é analisável nas neuroses, nas perversões e nas psicoses;
2º. numa regulação do desenvolvimento que dá a esse primeiro papel sua ra tio, ou seja, a instalação, no sujeito, de uma posição inconsciente sem a qual ele não poderia identificar-se com o tipo ideal de seu sexo, nem tampouco responder, sem graves incidentes, às necessidades de seu parceiro na relação sexual, ou até mesmo acolher com justeza as da criança daí procriada.
Existe aí uma antinomia inter n a na assunção de seu sexo pelo homem (Mensch): por que deve ele assumir-lhe os atributos apenas através de uma ameaça, ou até mesmo sob o aspecto de uma privação? Sabemos que Freud, em O mal-estar na cultura, chegou a sugerir um desconserto não contingente, porém essen­ cial, na sexualidade humana, e que um de seus últimos artigos referiu-se à irredutibilidade, em qualquer análise finita (endliche), das seqüelas que resultam do complexo de castração no incons­ ciente masculino e do Penisneid no inconsciente da mulher.


º· por que a própria menina se considera, nem que seja por um momento, castrada, na acepção de privada de falo, e castrada pela operação de alguém, que primeiro é sua mãe, ponto impor­ tante, e em seguida seu pai, mas de tal maneira que temos de reconhecer nisso uma transferência no sentido analítico do termo;
2º. por que, em ambos os sexos, a mãe, mais primordialmente, é considerada como provida do falo, como mãe fálica;
3º. por que, correlativamente, a significação da castração só adquire de fato (clinicamente manifesta) seu alcance eficiente na formação dos sintomas, a partir de sua descoberta como castração da mãe;
4º. esses três problemas culminam na questão da razão, no desenvolvimento, da fase fálica. Sabemos que Freud especif i ca com esse termo a primeira maturação genital - como aquilo que se caracterizaria, por um lado, pela dominância imaginária do atributo fálico e pelo gozo masturbatório -, e que, por outro lado, localiza esse gozo da mulher no clitóris, assim promovido à função do falo, e com isso parece excluir, nos dois sexos, até o término dessa fase, isto é, até o declínio do Édipo, qualquer .687. localização instintiva da vagina como lugar da penetração genital.


Dafne e Cloé


Se resumíssemos esse debate, só faóamos alterar a autêntica diversidade das posições adotadas por uma Helene Deutsch, uma Karen Homey e um Emest Jones, para nos limitar aos mais eminentes.


Precisemos que essa promoção da relação do homem com o significante como tal nada tem a ver com uma posição “cultu­ ralista” no sentido corrente do termo, aquela em que sucedeu a Karen Homey, por exemplo, antecipar-se na querela do falo por sua posição, qualificada por Freud de feminista. Não se trata da relação do homem com a linguagem como fenômeno social, e nem mesmo de uma questão de algo que se pareça com a psicogênese ideológica que conhecemos e que não é superada pelo recurso peremptório à noção totalmente metafísica, por sua petição de princípio de apelo ao concreto, que é derrisoriamente veiculada sob o nome de afeto.


Isso fala no Outro, dizemos, designando por Outro o próprio lugar evocado pelo recurso à palavra, em qualquer relação em que este intervém. Se isso fala no Outro, quer o sujeito o ouça ou não com seu ouvido, é porque é ali que o sujeito, por uma anterioridade lógica a qualquer despertar do significado, encontra seu lugar signif i cante. A descoberta do que ele articula nesse lugar, isto é, no inconsciente, permite-nos apreender ao preço de que fenda (Spaltung) ele assim se constituiu.


A demanda em si refere-se a algo distinto das satisfações por que clama. Ela é demanda de uma presença ou de uma ausência, .691. o que a relação primordial com a mãe manifesta, por ser prenhe desse Outro a ser situado aquém das necessidades que pode suprir. Ela já o constitui como tendo o “privilégio” de satisfazer as necessidades, isto é, o poder de privá-las da única coisa pela


qual elas são satisfeitas. Esse privilégio do Outro, assim, desenha a forma radical do dom daquilo que ele não tem, ou seja, o que chamamos de seu amor.


Há, portanto, uma necessidade de que a particularidade assim abolida reapareça para-além da demanda. E ela de fato reaparece, mas conservando a estrutura receptada pelo incondicionado da demanda de amor. Por um reviramento que não é uma simples negação da negação, a potência da pura perda surge do resíduo de uma obliteração. Ao incondicionado da demanda, o desejo vem substituir a condição “absoluta” : condição que deslinda, com efeito, o que a prova de amor tem de rebelde à satisfação de uma necessidade. O desejo não é, portanto, nem o apetite de satisfação, nem a demanda de amor, mas a diferença que resulta da subtração do primeiro à segunda, o próprio fenômeno de sua fenda (Spaltung).


O falo é o significante dessa própria Au j h ebung .suspensão., que ele inaugura (inicia) por seu desaparecimento. É por isso que o demônio do Aidos (Scham)1 surge no exato momento em que, no mistério antigo, o falo é desvelado


1 . o sujeito só designa seu ser ao barrar tudo aquilo que ele .693. significa, como se evidencia em ele querer ser amado por si mesmo, miragem que não se reduz a ser denunciada como gramatical (pois ela abole o discurso);
2. o que é vivente desse ser no urverdri i ngt encontra seu significante ao receber a marca da Verdri i ngung do falo (mediante o que o inconsciente é linguagem).
O falo como significante dá a razão do desejo (na acepção em que esse termo é empregado como “média e razão extrema” da divisão harmônica).


l’épreuve du désir de l’Autre, se refere à experimentação que realiza o sujeito ao se defrontar com o desejo do Outro: experiência padecida que é ao mesmo tempo prova e provação


Essa experiência do desejo do Outro, a clínica nos mostra que ela não é decisiva pelo fato de o sujeito nela aprender se ele mesmo tem ou não um falo real, mas por aprender que a mãe não o tem. É esse o momento da experiência sem o qual nenhuma conseqüência sintomática (fobia) ou estrutural (Penis- .694. neid ) que se refira ao complexo de castração tem efeito. Aí se assina a conjunção do desejo, dado que o significante fálico é sua marca, com a ameaça ou a nostalgia da falta-a-ter.


Esses ideais adquirem vigor pela demanda que estão em condições de satisfazer, e que é sempre demanda de amor, com seu complemento de redução do desejo à demanda.
Por mais paradoxal que possa parecer essa formulação, dize­ mos que é para ser o falo, isto é, o significante do desejo do Outro, que a mulher vai rejeitar uma parcela essencial da femi­ nilidade, nomeadamente todos os seus atributos na mascarada.
É pelo que ela não é que ela pretende ser desejada, ao mesmo tempo que amada. Mas ela encontra o significante de seu próprio desejo no corpo daquele a quem sua demanda de amor é ende­ reçada. Não convém esquecer que, sem dúvida, o órgão que se reveste dessa função significante adquire um valor de fetiche.
Mas, para a mulher, o resultado é que convergem no mesmo objeto uma experiência de amor, que, como tal (cf. acima),


priva-a idealmente daquilo que ele dá, e um desejo que ali encontra seu significante. Eis por que podemos observar que a falta de satisfação própria à necessidade sexual, em outras palavras, a frigidez, é relativamente bem tolerada por ela, en­ quanto a Verdri i ngung inerente ao desejo é menor do que no homem.


Se de fato sucede ao homem satisfazer sua demanda de amor na relação com a mulher, na medida em que o significante do falo realmente a constitui como dando no amor aquilo que ela não tem, inversamente seu próprio desejo do falo faz surgir seu significante, em sua divergência remanescente, dirigido a “uma outra mulher” , que pode significar esse falo de diversas maneiras, quer como virgem, quer como prostituta. Daí resulta uma ten­ dência centrífuga da pulsão genital na vida amorosa, que tor n a a impotência, nele, muito mais difícil de suportar, ao mesmo tempo que a Verdri i ngung inerente ao desejo é mais acentuada.
Nem por isso se deve acreditar que a espécie de infidelidade que aí se afiguraria constitutiva da função masculina lhe seja própria. Pois, se olharmos de perto, veremos que o mesmo desdobramento é encontrado na mulher, exceto pelo fato de que o Outro do Amor como tal, isto é, enquanto privado daquilo que ele dá, é mal discer n ido no recuo onde vem substituir o ser do mesmo homem cujos atributos ela tanto estima.


Poderíamos acrescentar, neste ponto, que a homossexualidade masculina, conforme a marca fálica que constitui o desejo, constitui-se na vertente deste, e que a homossexualidade femi­ nina, em contrapartida, como mostra a observação, orienta-se por uma decepção que reforça a vertente da demanda de amor.
Estes comentários mereceriam ter maiores nuances mediante um retor n o à função da máscara, na medida em que ela domina as identificações em que se resolvem as recusas da demanda.


O fato de a feminilidade encontrar seu refúgio nessa máscara, em virtude da Verdri i ngung inerente à marca fálica do desejo, tem a curiosa conseqüência de fazer com que, no ser humano, a própria ostentação viril pareça feminina.


Juventude de Gide ou a letra1 e o desejo


Jean Delay, La jeunesse d’André Gide


É ao fechar o livro que o leitor se dá conta de que nele nada foi motivado senão pelo cuidado de uma pesagem exata e delicada. O toque de humor com que o autor tempera sua operação, a módicos intervalos, é apenas o lugar dado à graça que estrutura as coisas: tanto assim que o tom que ele mantém surpreende por sustentar sua naturalidade, ao ser conduzido paralelamente à modulação, única no gênero, que seu modelo fez ouvir em sua obra.


toda verdade: que ela se revela numa estrutura de fi cção


Gide tentou a experiência de uma psicanálise com a sra. Sokolnicka


Kant com Sade


Retenhamos o paradoxo de que é no momento em que o sujeito já não tem diante de si objeto algum que ele encontra uma lei, a qual não tem outro fenômeno senão alguma coisa já significante, que é obtida de uma voz na consciência e que, ao se articular nela como máxima, propõe ali a ordem de uma razão puramente prática, ou vontade.


Para que essa máxima sirva de lei, é necessário e suficiente que, na experiência de tal razão, ela possa ser aceita como universal por direito de lógica. O que, lembremos sobre esse direito, não quer dizer que ela se imponha a todos, mas que valha para todos os casos, ou, melhor dizendo, que não valha em nenhum caso, se não valer em todos.


“Tenho o direito de gozar de teu corpo, pode dizer-me qualquer um, e exercerei esse direito, sem que nenhum limite .769. me detenha no capricho das extorsões que me dê gosto de nele saciar.”


consentimento


Mas, afora o fato de que, se há uma coisa a que nos habituou a dedução da Crítica, foi a distinguir o racional do tipo de sensatez que não passa de um recurso confuso ao patológico, sabemos agora que o humor é o trânsfuga na comicidade da própria função do ” Supereu” - o que, para animar com uma metamorfose essa instância psicanalítica e arrancá-la do retor n o de obscurantismo em que a empregam nossos contemporâneos, pode igualmente apurar o sabor da prova kantiana da regra universal com a pitada de sal que lhe falta.
Assim, não somos nós incitados a levar mais a sério aquilo que se nos apresenta como não o sendo em absoluto? Não perguntaremos, é claro, se é necessário nem suficiente que uma sociedade sancione um direito ao gozo, permitindo a todos valerem-se dele, para que a partir daí sua máxima pretexte o imperativo da lei moral.


É preciso, evidentemente, reconhecer-lhe esse caráter, pela simples razão de que seu mero anúncio (seu querigma) tem a virtude de instaurar, ao mesmo tempo, quer a rejeição radical do patológico, de qualquer consideração por um bem, uma paixão ou mesmo uma compaixão, ou seja, a rejeição pela qual Kant liberta o campo da lei moral, quer a forma dessa lei, que é também sua única substância, na medida em que a vontade só se obriga a ela ao rejeitar de sua prática toda razão que não seja de sua própria máxima.


querigma


Certamente, esses dois imperativos, entre os quais pode ser esticada até o estilhaçamento da vida a experiência moral, são-nos impostos, no paradoxo sadiano, como ao Outro, e não como a nós mesmos.


a máxima sadiana é, por se pronunciar pela boca do Outro, mais honesta do que o recurso à voz interior, já que desmascara a fenda, comumente escamoteada, do sujeito.
O sujeito da enunciação distingue-se dela tão claramente quanto do “Viva a Polônia” , onde apenas se isola o que sua .7711 manifestação sempre evoca de f un.


É pelo fato de que nenhum homem pode ser de outro homem propriedade, nem de algum modo seu apanágio, que não se pode disso fazer um pretexto para suspender o direito de todos de usufruírem dele, cada qual a seu gosto


apanágio


O que ele sofrerá de coerção não é tanto por violência, mas por princípio, e a dificuldade para quem faz dela uma máxima está menos em fazê-lo consentir nisso do que em pronunciá-la em seu lugar.
Portanto, é realmente o Outro como livre, é a liberdade do Outro que o discurso do direito ao gozo instaura como sujeito de sua enunciação, e não de uma maneira que difira do tu és que se evoca do fundo mortífero de qualquer imperativo.4 Mas esse discurso é não menos determinante para o sujeito do enunciado, ao provocá-lo a cada endereçamento de seu conteúdo equívoco, já que o gozo, ao se confessar impudente­ mente em suas próprias palavras, faz-se pólo de uma dupla em que o outro está no fosso que ele já perfura no lugar do Outro, para ali erguer a cruz da experiência sadiana.


ignomínia


Imaginemos uma réplica de Epícteto na experiência sadiana:
“Vê, tu a quebraste” , diz ele, apontando para sua per n a. Acaso reduzir o gozo à miséria desse efeito em que tropeça sua busca não é transformá-lo em horror?
O que mostra que o gozo é aquilo pelo qual se modifica a experiência sadiana. Pois ele só projeta monopolizar uma vontade ao já havê-la atravessado para se instalar no mais íntimo do sujeito que ele provoca mais além, ao atingir seu pudor.
Pois o pudor é ambiceptivo das conjunturas do ser: entre dois, .772. o despudor de um constitui por si só a violação do pudor do outro. Canal que justifica, se necessário fosse, o que logo de início produzimos da asserção, no lugar do Outro, do sujeito.
Interroguemos esse gozo, precário por estar preso, no Outro, a um eco que ele só suscita ao aboli-lo pouco a pouco, por lhe juntar o intolerável. Não nos parece, afinal, que ele só se exalta por si mesmo, à maneira de uma outra e horrível liberdade?


Esse objeto, acaso não o vemos decaído de sua inacessibilidade, na experiência sadiana, e revelado como o Ser-aí, Dasein, do agente do tormento?


arauto


Certos fenômenos da voz, nomeadamente os da psicose, têm mesmo essa faceta do objeto. E a psicanálise não estava longe, em sua aurora, de referi-los à voz da consciência.


voz, mesmo louca, impõe a idéia do sujeito, e não convém que o objeto da lei sugira uma malignidade do Deus real.


Seguramente, o cristianismo educou os homens a serem pouco atentos ao aspecto do gozo de Deus, e é nisso que Kant impõe seu voluntarismo da Lei-pela-Lei, que remete, por assim dizer, à ataraxia da experiência estóica. Podemos pensar que Kant está sob a pressão daquilo que ouve muito de perto, não de Sade, .7731 mas de um certo místico de sua região, no suspiro que sufoca o que ele vislumbra para-além, por ter visto que seu Deus é desprovido de rosto: Grimmigkeit? Sade diz: Ser-supremo-em­ maldade.


ataraxia


Essa fantasia tem uma estrutura que reencontraremos mais adiante e na qual o objeto é apenas um dos termos onde pode extinguir-se a busca que ela representa. Quando o gozo se petrifica aí, ele se tor n a o fetiche negro em que se reconhece a forma efetivamente oferecida em um certo tempo e lugar, ainda nos dias atuais, para que nela se adore seu deus.
É isso que advém do executor na experiência sádica, quando sua presença se resume, em última instância, a não ser mais do que seu instrumento.
Mas o fi xar-se seu gozo nela não o livra da humildade de um ato em que ele não pode entrar senão como ser ca r n al e, até a medula, servo do prazer.
Duplicação que não ref l ete nem reciproca (por que não mu­ tuaria ela?) a que se operou no Outro pelas duas alteridades do sujeito.
O desejo, que é o fautor dessa fenda do sujeito, sem dúvida se conformaria em se dizer vontade de gozo. Mas essa denomi­ nação não o tor n aria mais digno da vontade que ele invoca no Outro, provocando-a até o extremo de sua separação de seu pathos, pois, para fazê-lo, ele já começa derrotado, fadado à impotência.
É que ele começa submetido ao prazer, cuja lei é fazê-lo girar em sua meta cada vez mais repentinamente. Homeostase sempre encontrada depressa demais pelo vivente, no limiar mais baixo da tensão em que ele vegeta. É sempre precoce a queda da asa pela qual lhe é dado poder assinar a reprodução de sua forma.


Asa que, no entanto, deve aqui ser elevada à função de figurar o laço do sexo com a morte. Deixemo-la repousar sob seu véu eleusino.


Daquela vontade rival estimulante, portanto, o prazer já não é aqui senão um cúmplice precário. No momento mesmo do gozo, estaria simplesmente fora do jogo, se a fantasia não interviesse para sustentá-lo pela própria discórdia em que ele sucumbe.
Para dizê-lo de outra maneira, a fantasia toma o prazer apropriado ao desejo. E repitamos que desejo não é sujeito, por .774. não ser indicável em parte alguma num significante da demanda, seja ela qual for, por não ser articulável nele, ainda que nele se articule.
A captura do prazer na fantasia é aqui fácil de apreender.
A experiência fisiológica demonstra que a dor é de ciclo mais longo, sob todos os aspectos, do que o prazer, já que uma estimulação a provoca no ponto em que o prazer acaba. Por mais prolongada que a suponhamos, no entanto, como o prazer ela tem seu fim: é o esvaecimento do sujeito.
Esse é o dado vital do qual a fantasia vai se servir para fixar, no sensível da experiência sadiana, o desejo que aparece em seu agente.


onde a punção o se lê “desejo de”


Modulemos a fantasia sadiana com um novo esquema dentre esses:


A linha inferior satisfaz a ordem da fantasia, na medida em .775. que esta sustenta a utopia do desejo.
A linha sinuosa inscreve a cadeia que permite um cálculo do sujeito. É orientada, e sua orientação constitui ali uma ordem em que o aparecimento do objeto a no lugar da causa se esclarece pelo caráter universal de sua relação com a categoria da causa­ lidade, o qual, ao forçar o limiar da dedução transcendental de Kant, instauraria no eixo do impuro uma nova Crítica da Razão.
Resta o V, que, estando por cima nesse lugar, parece impor a vontade que domina a história toda, mas cuja forma também evoca a reunião do que ele divide, mantendo-o unido por um vel, isto é, permitindo escolher o que fará o $ (S barrado) da razão prática com o S, sujeito bruto do prazer (sujeito “patoló­ gico” ).
É realmente com a vontade de Kant, portanto, que se encontra no lugar dessa vontade, que só se pode dizer de gozo explicando que se trata do sujeito reconstituído da alienação, ao preço de ser apenas o instrumento do gozo. Assim, Kant, por ser ques­ tionado “com Sade” , ou seja, com Sade fazendo as vezes, tanto para nosso pensamento quanto em seu sadismo, de instrumento, confessa o que está incluído no sentido do “Que quer ele?” que doravante não falta a ninguém.


A exigência, na aparência das vítimas, de uma beleza sempre classificada de incomparável (e, além disso, inalterável, cf. supra) é uma outra história, da qual não nos podemos livrar com alguns postulados banais, forjados às pressas, sobre a atração sexual.
Neles veremos, antes, a caricatura daquilo que demonstramos, na tragédia, sobre a função da beleza: barreira extrema que proíbe .7761 o acesso a um horror fundamental. Pensemos na Antígona de Sófocles e no momento em que nela eclode o Eros aníkhate mákan.5


Ou então, para pôr em seu devido lugar aqueles tormentos do infer n o que nunca puderam ser imaginados para-além daquilo cuja manutenção tradicional os homens garantem neste mundo, porventura havemos de suplicar-lhes que pensem em nossa vida cotidiana como devendo ser eter n a?


Nada se deve esperar, nem mesmo desespero, de uma besteira, em suma sociológica, e que só registramos para que, do lado de fora, não se espere nada demais, no que concer n e a Sade, dos círculos em que se tem uma experiência mais garantida das formas do sadismo.


Notadamente quanto ao que se difunde de equívoco no tocante à relação de reversão que uniria o sadismo a uma idéia sobre o masoquismo, que de fora não se imagina a misturada que essa idéia suporta. Mais vale encontrar nisso o valor de uma historinha, famosa, sobre a exploração do homem pelo homem - definição do capitalismo, como se sabe. Mas, e o socialismo? É o contrário.


Constatemos, antes, que Sade não é tapeado por sua fantasia, na medida em que o rigor de seu pensamento passa para a lógica de sua vida.


É que uma fantasia, com efeito, é bastante perturbadora, pois não se sabe onde situá-la, 12 por ela estar ali, inteira, em sua natureza de fantasia que só tem realidade de discurso e que nada espera de seus poderes, mas que lhes pede, isto sim, que se ponham em dia com seus desejos.


É bom ser caridoso Mas, com quem? Essa é a questão.


Um certo sr. Verdoux a resolvia todos os dias, pondo mulheres no fomo até ele mesmo ser condenado à cadeira elétrica. Achava que os seus desejavam viver com conforto. Mais esclarecido, o Buda se dava a devorar aqueles que não conhecem o caminho.
Apesar desses exemplos eminentes, que bem poderiam basear-se apenas num mal-entendido (não é certo que a tigreza goste de comer Buda), a abnegação do sr. Verdoux provinha de um erro que justifica a severidade, já que um grãozinho de Crítica, que não custa caro, tê-lo-ia evitado. Ninguém duvida que a prática da Razão teria sido mais econômica, assim como mais legal, mesmo que seus familiares tivessem tido que passar um pouco de fome.


Se nos leram até este ponto, sabem que o desejo, mais exatamente, apóia-se numa fantasia da qual pelo menos um pé está no Outro, e justamente o pé que importa, mesmo e sobretudo se vier a claudicar.


Atenhamo-nos, por conseguinte, a dizer que uma prática como a psicanálise, que reconhece no desejo a verdade do sujeito, não


pode desconhecer o que virá depois, sem demonstrar aquilo que recalca.


O desprazer é aí reconhecido por expenencia como dando pretexto ao recalque do desejo, ao se produzir no caminho de sua satisfação - mas também como dando a forma assumida por essa mesma satisfação no retomo do recalcado.
Similarmente, o prazer redobra sua aversão ao reconhecer a lei, por dar suporte ao desejo de satisfazê-la que é a defesa.
Se a felicidade é a satisfação ininterrupta do sujeito com sua vida, como a define muito classicamente a Crítica, 16 é claro que ela se recusa a quem não renuncia à via do desejo. Essa renúncia pode ser pretendida, mas ao preço da verdade do homem, o que fica bastante claro na reprovação a que se expuseram, diante do ideal comum, os epicuristas e até os estóicos. Sua ataraxia destitui sua sabedoria. Não se lhes leva minimamente em conta que eles rebaixem o desejo, pois não apenas não se considera a Lei tão elevada assim, como também é por isso, quer o saibamos, quer não, que ela é sentida como derrubada.


O direito ao gozo, se fosse reconhecido, relegaria a uma era desde então caduca a dominação do princípio do prazer. Ao enunciá-lo, Sade faz com que se insinue para todos, por uma fresta imperceptível, o antigo eixo da ética: que não é outro senão o egoísmo da felicidade.
À qual não se pode dizer que qualquer referência esteja extinta em Kant, pela própria familiaridade com que ela lhe faz com­ panhia e, mais ainda, pelos rebentos que dela captamos nas exigências com que ele argumenta igualmente a favor de uma recompensa no para-além e de um progresso cá embaixo.


Com o que se demonstra, por outra visão, que o desejo é o avesso da lei. Na fantasia sadiana, vemos como eles se sustentam.
Para Sade, sempre se está do mesmo lado, o bom ou o mau;
nenhuma afronta mudará nada. Portanto, é o triunfo da virtude:
esse paradoxo só faz reencontrar o sarcasmo próprio do livro edificante, por demais almejado por Justine para que ela não o defenda.


François de La Mothe Le Vayer (1588-1672), escritor e fi lósofo cético e libertino que se tomou preceptor de Luís XIV. (N.E.)


Não é apenas que nele, como em todo o mundo, a ca r n e seja fraca; é que o espírito é impetuoso demais para não ser tapeado.
A apologia do crime impele-o apenas ao reconhecimento indireto da Lei. O Ser supremo é restaurado no Malefício.


Subversão do su jeito e dialética do dese jo no inconsciente f reudiano


da práxis que se autoriza do nome psicanálise


É preciso aqui tirar um padrão da idéia, para a qual conf l ui todo um pensamento tradicional, de habilitar a expressão não infundada “estado do conhecimento” . Quer se trate dos estados de entusiasmo em Platão, dos graus do samadhi no budismo, ou do Erlebnis, experiência vivida do alucinógeno, convém saber o que uma teoria qualquer autentica disso.


noófora


Se conduzimos o sujeito a algum lugar, é a uma decifração que já pressupõe no inconsciente essa espécie de lógica em que se reconhece, por exemplo, uma voz interrogativa, e até o encaminhamento de uma argumentação.


atar mais intimamente o regime do saber ao da verdade.


Eis-nos pois levados à fronteira sensível entre a verdade e o saber, a qual se pode dizer, afinal, que nossa ciência, à primeira vista, parece ter mesmo retomado a solução de fechar.


Selbstbewusstsein, o ser de si consciente, todo-consciente.


protopático


O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que em algum lugar (numa outra cena, escreve ele) se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo e na cogitação a que ele dá forma.


Qual seja, a maneira certa de responder à pergunta “Quem está falando?” , quando se trata do sujeito do inconsciente. Pois essa resposta não poderia provir dele, se ele não sabe o que diz e nem sequer que está falando, como nos ensina a experiência inteira da análise.
Com o que o lugar do inter-dito, que é o intra-dito de um entre-dois-sujeitos, é justamente aquele em que se divide a transparência do sujeito clássico, para passar aos efeitos def ading que especificam o sujeito freudiano, por sua ocultação por um significante cada vez mais puro: quer esses efeitos nos levem .801. aos confins em que lapso e chiste em sua colusão se confundem, quer até onde a elisão é tão mais alusiva ao esconder em sua toca a presença, que é espantoso que a caça ao Dasein não tenha tirado maior proveito disso.


Pelo que chegaríamos ao paradoxo de conceber que o discurso na sessão analítica só tem valor por tropeçar ou até se interromper:
como se a própria sessão não se instituísse como ruptura num discurso falso, digamos, naquilo que o discurso realiza ao se esvaziar como fala, ao não ser mais do que a moeda de efígie desgastada de que fala Mallarmé, passada de mão em mão “em silêncio” .


Não exponhamos aqui nossa doutrina da loucura. Pois esta digressão escatológica está aí apenas para apontar com que hiância se separam, a freudiana da hegeliana, essas duas relações do sujeito com o saber.
E porque não há raiz mais segura do que os modos como disso se distingue a dialética do desejo.
Pois em Hegel, é ao desejo, à Begierde, que compete a responsabilidade pelo mínimo de ligação que o sujeito precisa guardar com o antigo conhecimento, para que a verdade seja imanente à realização do saber. A astúcia da razão significa que o sujeito, desde a origem e até o fim, sabe o que quer.
É aí que Freud reabre, na mobilidade de onde saem as revoluções, a junção entre verdade e saber.
Pois nela se vincula o desejo ao desejo do Outro, mas nesse circuito reside o desejo de saber.


Topamos aqui a parada do desafio que nos fazem, ao traduzir pelo substantivo ” instinto” o que Freud chama de Trieb: o que drive traduziria muito bem em inglês, mas que é evitado ali


efetivamente um saber, mas um saber que não comporta o menor conhecimento, já que está inscrito num discurso do qual, à semelhança do grilhão de antigo uso, o sujeito que traz sob sua cabeleira o codicilo que o condena à morte não sabe nem o sentido nem o texto, nem em que língua ele está escrito, nem tampouco que foi tatuado em sua cabeça raspada enquanto ele dormia.


que o desejo seja articulado é justa­ mente por isso que ele não é articulável. Entenda-se: no discurso que lhe convém, ético, e não psicológico.


Vamos poupá-los das etapas, dando-lhes logo de saída a função dos dois pontos de cruzamento nesse primeiro grafo. Um, co­ notado por A, é o lugar do tesouro do significante, o que não quer dizer do código, pois não é que se conserve nele a corres­ pondência unívoca entre um signo e alguma coisa, mas sim que o significante só se constitui por uma reunião sincrônica e enumerável, na qual qualquer um só se sustenta pelo princípio de sua oposição a cada um dos demais. O outro, conotado por s(A), é o que se pode chamar a pontuação, onde a significação se constitui como produto acabado.
Observe-se a dissimetria entre um, que é um local (mais lugar do que espaço), e o outro, que é um momento (mais escansão do que duração).


Mensagens de código e códigos de mensagem distinguir-se-ão como formas puras no sujeito da psicose, aquele que se contenta com esse Outro prévio.


o significante exige um outro lugar - o lugar do Outro, o Outro-testemunha, o testemunho Outro que não qualquer de seus parceiros - para que a Fala que ele sustenta possa mentir, isto é, colocar-se como Verdade.


Como quer que seja, o que o sujeito encontra nessa imagem alterada de seu corpo é o paradigma de todas as formas da semelhança que levarão para o mundo dos objetos um toque de hostilidade, projetando nele a transformação da imagem narcí­ sica, que, do efeito jubilatório de seu encontro no espelho, transforma-se, no confronto com o semelhante, no escoadouro da mais íntima agressividade.


É essa imagem que se fixa, eu ideal, desde o ponto em que o sujeito se detém como ideal do eu. O eu, a partir daí, é função de domínio, jogo de imponência, rivalidade constituída. Na captura que sofre de sua natureza imaginária, ele mascara sua duplicidade, qual seja, que a consciência com que ele garante a si mesmo uma existência incontestável (ingenuidade que se espraia pela meditação de um Fénelon) não lhe é de modo algum imanente, mas transcendente, uma vez que se apóia no traço unário do ideal do eu (o que o cogito cartesiano não desconhece8).
Donde o próprio ego transcendental se vê relativizado, implicado como está no desconhecimento em que se inauguram as identi­ ficações do eu.


A luta que a instaura é bem denominada como de puro prestígio, e o desafio, pondo em jogo a vida, é adequado para fazer eco ao perigo da prematuração genérica do nascimento, ignorado por Hegel e do qual fi zemos a mola dinâmica da captura especular.


Mas a morte, justamente por estar impressa na função do desafio - aposta mais honesta que a de Pascal, ainda que também se trate de um pôquer, já que aqui cobrir a aposta é limitado -, mostra, ao mesmo tempo, o que é elidido tanto de uma regra prévia quanto do regulamento conclusivo. Pois é preciso, afinal de contas, que o vencido não pereça, para que produza um escravo. Em outras palavras, o pacto é em toda parte anterior à


violência, antes de perpetuá-la, e aquilo a que chamamos sim­ bólico domina o imaginário, pelo que podemos indagar-nos se o assassinato é mesmo o absoluto Mestre/Senhor.


o tema da Astúcia da razão, cujo erro, anterior- .81 1. mente apontado, não apequena seu peso de sedução. O trabalho, diz-nos ele, a que se submete o escravo, renunciando ao gozo por medo da morte, será justamente a via pela qual ele realizará a liberdade. Não há engodo mais manifesto politicamente e, ao mesmo tempo, psicologicamente. O gozo é fácil para o escravo e deixará o trabalho na servidão.
A astúcia da razão seduz pelo que nela ressoa de um mito individual muito conhecido pelo obsessivo, de quem sabemos que a estrutura não é rara na intelligentsia. Mas, por menos que este escape à má-fé do professor, é bem difícil ele se enganar quanto ao que é o seu trabalho que deve dar-lhe acesso ao gozo.
Prestando uma homenagem propriamente inconsciente à história escrita por Hegel, é freqüente ele encontrar seu álibi na morte do Mestre/Senhor. Mas, que acontece com essa morte? Ele simplesmente a espera.


o aspecto irremediavelmente extravagante que o incons� ciente conserva por suas raízes lingüísticas.


não há demanda que não passe de algum modo pelos desfilamentos do significante


Seria um erro acreditarmos que o mito freudiano do Édipo acaba, quanto a esse aspecto, com a teologia. Pois não basta agitar o fantoche da rivalidade sexual. E mais conviria ler nele o que, em suas coordenadas, Freud impõe à nossa ref l exão, pois elas retor n am à pergunta de onde ele mesmo partiu: que é um Pai?

  • É o Pai morto - responde Freud, mas ninguém o escuta, e, quanto ao que Lacan retoma disso sob a rubrica de Nome­ do-Pai, é lamentável que uma situação pouco científica continue a deixá-lo privado de seu público normal.
    10 Mas a reflexão analítica tem girado vagamente em tor n o do .813. problemático desconhecimento, entre alguns primitivos, da fun-ção do genitor, e houve até quem debatesse sobre isso, sob a bandeira contrabandeada do “culturalismo” , a respeito das for-mas de uma autoridade à qual nem se pode dizer que algum setor da antropologia tenha trazido uma definição de alguma amplitude.

Será porventura preciso que se nos alie a prática, que em algum momento talvez adquira força de uso, de inseminar artificialmente as mulheres, desrespeitada a proibição fálica, com o esperma de grandes homens, para que extraiam de nós um veredito sobre a função pater n a?


O Édipo, todavia, não pode manter-se indefinidamente em cartaz em formas de sociedade nas quais se perde cada vez mais o sentido da tragédia.


Partamos da concepção do Outro como lugar do significante.
Qualquer enunciado de autoridade não tem nele outra garantia senão sua própria enunciação, pois lhe é inútil procurar por esta num outro significante, que de modo algum pode aparecer fora desse lugar. É o que formulamos ao dizer que não existe metalinguagem que possa ser falada, ou, mais aforisticamente, que não há Outro do Outro. É como impostor que se apresenta,


para suprir sua falta, o Legislador (aquele que alega erigir a Lei).


Porém não a Lei em si, não mais do que aquele que dela se autoriza.
Que dessa autoridade da Lei o Pai possa ser tido como o representante original, eis o que exige especificar sob qual modalidade privilegiada de presença ele se sustenta, para-além do sujeito levado a ocupar realmente o lugar do Outro, ou seja, a Mãe. A pergunta, portanto, é afastada.


O desejo se esboça na margem em que a demanda se rasga .8141 da necessidade: essa margem é a que a demanda, cujo apelo não pode ser incondicional senão em relação ao Outro, abre sob a forma da possível falha que a necessidade pode aí introduzir, por não haver satisfação universal (o que é chamado de angústia).
Margem que, embora sendo linear, deixa transparecer sua ver-tigem, por mais que seja coberta pelo pisoteio de elefante do capricho do Outro. É esse capricho, no entanto, que introduz o fantasma da Onipotência, não do sujeito, mas do Outro em que se instala sua demanda (já era tempo de esse clichê imbecil ser recolocado, de uma vez por todas, e por todos, em seu devido lugar), e, juntamente com esse fantasma, a necessidade de seu refreamento pela Lei.


o momento de umf ading ou eclipse do sujeito, estreitamente ligado à Spaltung ou fenda que ele sofre por sua subordinação ao significante.
Isso é o que simboliza a sigla ($0a)


A própria delimitação da “zona erógena” que a pulsão isola do metabolismo da função (o ato de de v oração conceme a outros órgãos além da boca, perguntem ao cão de Pavlov) é obra de um corte que se beneficia do traço anatômico de uma margem ou uma borda: lábios, “cerca dos dentes” , borda do ânus, sulco peniano, vagina, fenda palpebral e até o pavilhão da orelha (evitamos aqui as precisões embriológicas). A erogeneidade respiratória é pouco estudada, mas, evidentemente, é pelo espas­ mo que ela entra em jogo.


na medida em que o Outro é solicitado (che vuoi) a responder pelo valor desse tesouro, isto é, a responder, certamente, de seu lugar na cadeia inferior, mas nos significantes que constituem a cadeia superior, ou seja, em termos de pulsão.


Aquilo a que é preciso nos atermos é que o gozo está vedado a quem fala como tal, ou ainda, que ele só pode ser dito nas entrelinhas por quem quer que seja sujeito da Lei, já que a lei se funda justamente nessa proibição.
Com efeito, viesse a Lei a ordenar “Goza” , o sujeito só poderia responder a isso com um “Ouço” , 15 onde o gozo não seria mais do que subentendido.
Mas não é a Lei em si que barra o acesso do sujeito ao gozo;
ela apenas faz de uma barreira quase natural um sujeito barrado.
Pois é o prazer que introduz no gozo seus limites, o prazer como ligação da vida, incoerente, até que uma outra proibição, esta incontestável, se eleve da regulação descoberta por Freud como processo primário e pertinente lei do prazer.


De fato, a imagem do Pai ideal é uma fantasia de neuróticos.
Para-além da Mãe, Outro real da demanda de quem se quereria que ela acalmasse o desejo (isto é, o desejo dele), perfila-se a imagem de um pai que fecharia os olhos aos desejos. Mediante o que fica ainda mais acentuada do que revelada a verdadeira função do Pai, que é, essencialmente, unir (e não opor) um desejo à Lei.
O Pai desejado pelo neurótico, como se vê, é claramente o Pai morto. Mas é também um Pai que seria perfeitamente senhor/mestre de seu desejo, o que teria o mesmo valor para o sujeito.


Voltando à fantasia, digamos que o perverso imagina ser o Outro para garantir seu gozo, e que é isso que o neurótico revela, .825. ao se imaginar perverso: ele, para se assegurar do Outro.
Eis o que for n ece o sentido da pretensa perversão situada no princípio da neurose. Ela existe no inconsciente do neurótico como fantasia do Outro. Mas isso não quer dizer que, no perverso, o inconsciente esteja plenamente a céu aberto. Também ele se defende, à sua maneira, em seu desejo. Pois o desejo é uma defesa, 16 proibição 16 de ultrapassar um limite no gozo.


É por não ter visto o rabo de Sócrates, se nos permitirem dizê-lo segundo Platão, que não nos for n ece os detalhes, que o sedutor Alcibíades exalta nele o agalma, a maravilha que ele gostaria que Sócrates lhe cedesse, declarando seu desejo: declarando-se flagrantemente, nessa ocasião, a divi­ são do sujeito que ele traz em si.


Assim é a mulher por trás de seu véu: é a ausência do pênis que faz dela o falo, objeto do desejo. Evoquem essa ausência de maneira mais precisa, fazendo-a usar um mimoso postiço debaixo do (tra)vestido de baile a fantasia, e vocês, ou sobretudo ela, verão que tenho razão: o efeito é 100% garantido, como o ouvimos de homens sem rodeios.


filósofos, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas


Que há em comum - para tomarmos as cerca de oito definições que Dwelshauvers coteja num livro antigo (1916), mas não tão fora de época pelo fato de que o heteróclito não se veria reduzido a refazê-lo em nossos dias -, que há em comum, com efeito, entre o inconsciente da sensação (nos efeitos de


contraste ou de ilusão ditos óticos), o inconsciente do automa-.831 1 tismo desenvolvido pelo hábito, o co-consciente (?) da dupla personalidade, as irrupções ideativas de uma atividade latente que se impõe como orientada na criação do pensamento, a telepatia que se pretende relacionar com este último, o capital adquirido ou integrado da memória, o passional que nos ultra-passa em nosso caráter, o hereditário que se reconhece em nossos dons naturais, o inconsciente racional, enfim, ou o inconsciente metafísico implicado pelo ” ato do espírito” ?


Betty Friedan


deon­ tologia


propedêutico


Ponto de partida auspicioso, posto que, interpelando do mesmo modo qualquer analista, não importa a que credo tenha sido antes levado, será que ele pode dizer que, no exercício de suas funções (sustentar o discurso do paciente, restabelecer-lhe o efeito de sentido, implicar-se nele por responder, bem como por se calar), algum dia teve a sensação de estar lidando com algo que se assemelhasse a um instinto?


Com o sujeito, portanto, não se fala. Isso fala dele, e é aí que ele se apreende, e tão mais forçosamente quanto, antes de - pelo simples fato de isso se dirigir a ele - desaparecer como sujeito sob o signif i cante em que se transforma, ele não é absolutamente nada. Mas esse nada se sustenta por seu advento, produzido agora pelo apelo, feito no Outro, ao segundo signif i cante.


Esse subor n o secundário não apenas conclui o efeito da primeira, projetando a topologia do sujeito no instante da fantasia, .836. mas o sela, recusando ao sujeito do desejo que ele se saiba efeito de fala, ou seja, que saiba o que ele é por não ser outra coisa senão o desejo do Outro.
É nisso que todo discurso tem o direito de se considerar, por esse efeito, irresponsável. Todo discurso, exceto o daquele que ensina, quando ele se dirige a psicanalistas.
Quanto a nós, sempre nos acreditamos passíveis de ser res­ ponsabilizados por tal efeito, e, embora não estando à altura da tarefa de lhe fazer frente, foi essa a proeza secreta de cada um de nossos ” seminários” .


De sua “filosofia” , a maioria deles guardou apenas uma mistura de fórmulas, um catecismo desordenado que os anestesia para qualquer surpresa da verdade.


A resistência, igual em seu efeito de negar a despeito de Hegel e Freud, desgraça da consciência e mal-estar da civilização.


Koiné


Nosso ensino é anátema por se increver nessa verdade.


os enunciados hegelianos, mesmo a nos atermos a seu texto, são propícios para dizer sempre Outra-coisa. Outra­ coisa que corrige seu vínculo de síntese fantasística, enquanto conserva seu efeito de denunciar as identificações em seus engodos.


Isso não é insolúvel, se o abre-te sésamo do inconsciente é ter um efeito de fala, ser estrutura de linguagem, mas exige do analista que ele reconsidere o modo de seu fechamento.


Hiância, pulsação, uma alter n ância de sucção


Hiância, pulsação, uma alter n ância de sucção, para seguirmos certas indicações de Freud: é disso que precisamos dar conta, e foi isso que tratamos de fazer fundamentando-o numa topologia.
A estrutura daquilo que se fecha inscreve-se, com efeito, numa geometria em que o espaço se reduz a uma combinatória: ela é, propriamente falando, o que ali se chama de uma borda.


nachtraglich


Havendo fechamento e entrada, não está dito que eles separam:
eles dão a dois campos seu modo de conjunção. Estes são, respectivamente, o sujeito e o Outro, só devendo esses campos ser substantivados aqui a partir de nossas teses sobre o incons­ ciente.
O sujeito, o sujeito cartesiano, é o pressuposto do inconsciente, como demonstramos no devido lugar.
O Outro é a dimensão exigida pelo fato de a fala se afirmar como verdade.
O inconsciente é, entre eles, seu corte em ato.


A primeira, a alienação, é própria do sujeito. Num campo de objetos, não é concebível nenhuma relação que gere a alienação, a não ser a do significante. Tomemos por origem o dado de que nenhum sujeito tem razão de aparecer no real, salvo por nele existirem seres falantes. Concebe-se uma física que dê conta de tudo no mundo, inclusive de sua parte animada. Um sujeito só se impõe nela por haver no mundo significantes que não querem dizer nada e que têm de ser decifrados.


Portanto, não é o fato de essa operação se iniciar no Outro .841. que a faz qualificar de alienação. Que o Outro seja para o sujeito o lugar de sua causa significante só faz explicar, aqui, a razão por que nenhum sujeito pode ser causa de si mesmo. O que se impõe não somente por ele não ser Deus, mas porque o próprio Deus não poderia sê-lo, se tivéssemos que pensar nele como sujeito - sto. Agostinho percebeu isso muito bem, recusando o atributo de causa de si mesmo ao Deus pessoal.


“a bolsa ou a vida”


“a liberdade ou a morte”


É preciso estar atento ao fato de que o que resta, de qualquer modo, fica desfalcado: será a vida sem a bolsa - e será também, por haver recusado a morte, uma vida algo incomodada pelo preço da liberdade.


num prazo mais longo, será preciso abandonar a vida depois da bolsa, e por fim restará apenas a liberdade de morrer.


licor n e


Seja como for, é sob a incidência em que o sujeito experimenta, nesse intervalo, uma Outra coisa a motivá-lo que não os efeitos de sentido com que um discurso o solicita, que ele depara .844. efetivamente com o desejo do Outro, antes mesmo que possa sequer chamá-lo de desejo, e muito menos imaginar seu objeto.


O que ele coloca aí é sua própria falta, sob a forma da falta que produziria no Outro por seu próprio desaparecimento. De­ saparecimento que, se assim podemos dizer, ele tem nas mãos, da parte de si mesmo que lhe cabe por sua alienação primária.
Mas o que ele assim preenche não é a falha que ele encontra no Outro, e sim, antes, a da perda constitutiva de uma de suas partes, e pela qual ele se acha constituído em duas partes. Nisso reside a torção através da qual a separação representa o retomo da alienação. É por ele operar com sua própria perda, a qual o reconduz a seu começo.


Essa é uma operação cujo desenho fundamental vai ser reen­ contrado na técnica. Pois é na escansão do discurso do paciente, à medida nele intervém o analista, que veremos ajustar-se a pulsação da borda pela qual deve surgir o ser que reside para­ aquém dela.


na secção do cordão, o que o recém-nascido perde não é, como pensam os analistas, sua mãe, mas seu complemento anatômico. Aquilo que as parteiras chamam de secundinas.


Pois bem, imaginemos que, toda vez que se rompem as membranas, pela mesma saída escapa um fantasma, o de uma forma infinitamente mais primária da vida, e que não estaria apta a reproduzir o mundo como microcosmo.


A referência à teoria eletromagnética, e nomeadamente a um .847. chamado teorema de Stokes, nos permitiria situar na condição de essa superfície apoiar-se numa borda fechada, que é a zona erógena, a razão da constância do ímpeto da pulsão, na qual Freud insiste tanto. 7


O que nossa experiência demonstra de vacilação no sujeito, no tocante a seu ser de masculino ou feminino, deve ser menos relacionado com sua bissexualidade biológica do que com o fato de não haver nada em sua dialética que represente a bipolaridade do sexo, a não ser a atividade e a passividade, isto é, uma polaridade pulsão-ação-de-fora, totalmente imprópria para re­ presentá-la em seu fundamento.


Do lado do vivente, como ser que deve ser captado na fala, como alguém que nunca pode enfim advir nela por inteiro, nesse para-aquém do limiar que no entanto não é dentro nem fora, não há acesso ao Outro do sexo oposto senão através das chamadas pulsões parciais, onde o sujeito busca um objeto que lhe reponha a perda de vida que lhe é própria, por ele ser sexuado.


  • a pulsão freudiana nada tem a ver com o instinto

A libido não é o instinto sexual. Sua redução, em última instância, ao desejo viril, indicada por Freud, bastaria para nos advertir disso.


A libido em Freud é uma energia passível de uma quantimetria tão mais fácil de introduzir na teoria quanto é inútil, já que nela só são reconhecidos alguns quanta de constância.


tão prodigiosamente atormentada por exigências idílicas.


Wunschgedanken (wish f ul thinking) e à onipotência do pensa­ mento: não é a megalomania que se denuncia aí, mas a conci­ liação dos contrários.


Mas Freud nos revela que é graças ao Nome-do-Pai que o homem não permanece preso ao serviço sexual da mãe, que a agressão contra o Pai acha-se no princípio da Lei, e que a Lei está a serviço do desejo que ela institui pela proibição do incesto.
Pois o inconsciente mostra que o desejo está agarrado à proibição, que a crise do Édipo é determinante para a própria maturação sexual.


O desejo é desejo de desejo, desejo do Outro, como dissemos, ou seja, submetido à Lei.


a relação do sujeito com o objeto perdido.
Não faltam objetos que passam por lucros e perdas para ocupar seu lugar. Mas é em número limitado que eles podem desem­ penhar um papel que se simbolizaria da melhor maneira possível pela automutilação do lagarto, por sua cauda desprendida com desolação. Desventura do desejo nas sebes do gozo, espreitadas por um deus maligno.


as identificações determinam-se ali pelo desejo, sem satis­ fazer a pulsão.
Isso porque a pulsão divide o sujeito e o desejo, o qual só se sustenta pela relação, que ele desconhece, dessa divisão com um objeto que a causa. Tal é a estrutura da fantasia.


Podemos aqui apenas observar que, exceto pelo libertino que .854. foi o grande cômico do século XVII, não se atentou, não mais do que no século das luzes, contra o privilégio do médico, apesar de não menos religioso do que outros.
Pode o analista proteger-se com essa antiga investidura, quan­ do, laicizada, ela ruma para uma socialização que não poderá evitar nem a eugenia nem a segregação política da anomalia?
Haverá o psicanalista de dar seqüência não a uma escatologia, mas a direitos de uma finalidade primordial?


Koyré é nosso guia aqui, e sabemos que ele ainda é desco­ nhecido.


cogito


cientificismo


Brücke


Helmholtz


Du Bois-Reymond


quem dentre vocês nos escreverá um ensaio, digno de Lamennais, sobre a indiferença em matéria de política?


únicos homens da verdade que nos restam: o agitador revolucionário, o escritor que com seu estilo marca a língua - sei em quem estou pensando - e o pensamento renovador do ser do qual temos o precursor.


André Breton, James Joyce e Martin Heidegger


Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis


É conhecida a minha repugnância de sempre pela denominação “ciências humanas” , que me parece ser a própria voz da servidão.


É do lado da lógica que aparecem os diversos indícios de .8611 refração da teoria em relação ao sujeito da ciência. Eles são diferentes quanto ao léxico, quanto ao morfema sintático e quanto à sintaxe da frase.
Daí as diferenças teóricas entre um Jakobson, um Hjemslev e um Chomsky.


lá onde isso estava, lá, como sujeito, devo .eu. advir.


Que essas inscrições se misturam era algo a ser resolvido simplesmente na topologia: estava ao alcance da mão uma superfície em que o direito e o avesso acham-se em condições de se juntar por toda parte.


Não sou, no entanto, causa de mim mesmo, e não por ser a criatura. Com o Criador acontece a mesma coisa.


A causa de si spinozista pode tomar emprestado o nome de Deus. Ela é Outra Coisa.


Esse destino comum do ego e de Deus, aqui assinalado, é o mesmo proferido de maneira contundente pelo contemporâneo de Descartes, Angelus Silesius, em suas adjurações místicas, e que lhes impõe a forma do dístico.


dardejamentos


Uma ciência econômica inspirada no Capital não conduz necessariamente a usá-lo como poder de revolução, e a história parece exigir outros auxílios que não uma dialética predicativa.
Sem falar num aspecto singular que não desenvolverei aqui, que é o de que a ciência, se a examinarmos de perto, não tem memória. Ela esquece as peripécias em que nasceu uma vez constituída, ou seja, uma dimensão da verdade, que é exercida em alto grau pela psicanálise.


“Lá vem ele. Que é esse sujeito sofredor senão aquele de quem tiramos nossos privilégios, e que direito lhe dão sobre ele suas intelectualizações?”


É realmente sob a forma de significante que aparece aquilo que tem de ser mobilizado na natureza: trovão e chuva, meteoros e milagres.
Tudo ali está por ser ordenado segundo as relações antinômicas em que se estrutura a linguagem.
O efeito da demanda, portanto, tem de ser ali interrogado por nós, no intuito de verificar se nele encontramos a relação com o desejo definida por nosso grafo.
Somente pela via, a ser adiante descrita, de uma abordagem que não seja um recurso grosseiro à analogia é que o psicanalista pode se qualificar, por uma competência, para ter algo a dizer sobre a magia.
A observação de que ela é sempre magia sexual tem aqui seu valor, mas não basta para autorizá-lo a isso.


fazemos prevalecer o princípio de que ser amigo de todo o mundo não basta para preservar o lugar de onde temos que operar.


Digamos que o religioso entrega a Deus a incumbência da causa, mas nisso corta seu próprio acesso à verdade. Por isso ele é levado a atribuir a Deus a causa de seu desejo, o que é propriamente o objeto do sacrifício. Sua demanda é submetida ao desejo suposto de um Deus que, por conseguinte, é preciso seduzir. O jogo do amor entra por aí.
O religioso, desse modo, instala a verdade num status de culpa. Daí resulta uma desconfiança em relação ao saber, tanto mais sensível nos Padres da Igreja quanto mais eles se mostram dominadores em matéria de razão.
A verdade é neles remetida a fins que chamamos escatológicos, quer dizer que ela aparece apenas como causa final, no sentido de ser reportada a um juízo de fim do mundo.
Donde o ranço obscurantista que é daí levado para todo uso científico da finalidade.


Se existe fantasia, é no mais rigoroso sentido da instituição de um real que cobre a verdade.


Pela psicanálise, o significante se define como agindo, antes de mais nada, como separado de sua significação. É esse o traço de caráter literal que especifica o significante copulatório, o falo, quando, surgindo fora dos limites da maturação biológica do sujeito, ele se imprime efetivamente, sem poder ser o signo que representa o sexo existente do parceiro, isto é, seu signo bioló­ gico; lembremo-nos de nossas fórmulas diferenciadoras do sig­ nificante e do signo.


Essa teoria do objeto a é necessária, como veremos, para uma integração correta da função, no tocante ao saber e ao sujeito, da verdade como causa.


A magia só é para nós tentação se vocês fizerem a projeção de suas características no sujeito com quem lidam - para psicologizá-lo, ou seja, desconhecê-lo.


De um lado, extraiamos o (nada-de) do (nada-de-pênis), a ser posto entre parênteses, para transferi-lo para o nada-de-saber, que é a não-hesitação da neurose.


COMENTÁRIO FALADO SOBRE A VERNEINUNG DE FREUD


Primeiro, devo agradecer ao dr . Lacan por sua insistência em que eu lhes apresentasse esse artigo de Freud, porque isso me proporcionou a oportunidade de uma noite de trabalho, e a de trazer o fi lho dessa noite para vocês


“Na vida cotidiana, percebi que quando, como é freqüente, ouvimos dizer ‘certamente não quero ofendê-lo com o que vou lhe dizer’, há que traduzir isso por ‘quero ofendê-lo’. Essa é uma vontade infalível.” Mas essa observação leva Freud a uma generalização cheia de ousadia, na qual ele levanta o problema da denegação na medida em que esta poderia ser a própria origem da inteligência. É assim que compreendo o artigo em toda a sua densidade filosófica.
Do mesmo modo, ele dá o exemplo daquele que diz: “Vi tal pessoa em meu sonho. O senhor se pergunta quem poderia ser. Certamente não era minha mãe.” Nesse caso, é sistemático, pode-se ter certeza de que é justamente ela.


“Vou lhe dizer o que não sou; atenção, é precisamente isso que sou.”


Au j h ebung


não cabe a mim dizê-lo …
Dr. LACAN: Cabe sim. A quem caberia, senão ao senhor?


É a palavra dialética de Hegel, que ao mesmo tempo quer dizer negar, suprimir e conservar, e, no fundo, suspender. .881. Na realidade, pode ser a Au j h ebung de uma pedra, ou também a cessação de minha assinatura de um jor n al.


Primeira etapa: eis o que não sou. Disso se concluiu o que sou. O recalque continua a subsistir sob a forma da denegação.
Segunda etapa: o psicanalista me obriga a aceitar em minha inteli­ gência o que eu negava há pouco; e Freud acrescenta, depois de um travessão e sem dar outras explicações -: “O próprio processo do recalque ainda não foi suspenso (au f gehoben) por isso.”


A afirmação primordial não é outra coisa senão af i rmar; mas negar é mais do que querer destruir.


A função do juízo … .884. deve, de uma coisa, dizer ou desdizer uma propriedade, e deve, de uma representação, declarar ou contestar sua existência na realidade.


Vocês estão sentindo que importância tem esse mito da formação do fora e do dentro: é a da alienação, que se baseia nesses dois termos.


Só que, como nos diz Freud, ” a efetuação da função do juízo só se tor n a possível pela criação do símbolo da negação” . 18 Por que Freud não nos diz: o funcionamento do juízo se tor n a possível pela af i rmação? É que a negação vai desempenhar um papel, não como tendência para a destruição, nem tampouco no interior de uma forma de juízo, mas como atitude fundamental de simbolicidade explícita.


Porque há uma dif i culdade aí. Que significa, portanto, essa dissimetria entre a af i rmação e a negação? Significa que todo o recalcado pode ser novamente retomado e reutilizado numa espécie de suspensão, e que, de certo modo, em vez de fi car sob a dominação dos instintos de atração e de expulsão, pode produzir-se uma margem do pensamento, um aparecimento do ser sob a forma do não ser, que se produz com a denegação, isto é, onde o símbolo da negação fi ca ligado à atitude concreta da denegação.


“A essa maneira de compreender a denegação corresponde perfei- .887. tamente que não se descubra na análise nenhum ‘não’ vindo do incons-ciente … ”


Eis o resumo: não se encontra na análise nenhum “não” vindo do inconsciente, mas o reconhecimento do inconsciente, pelo lado do eu, mostra que o eu é sempre desconhecimento; mesmo no conhecimento, sempre encontramos do lado do eu, numa fórmula negativa, a marca da possibilidade de deter o inconsciente, ao mesmo tempo recusando-o.
“Não há prova mais forte de que se conseguiu desvelar o inconsciente do que quando o analisado reage com esta frase: ‘Não pensei nisso’, ou então, ‘Estou longe de (jamais) haver pensado nisso’.”


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