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Seminar 23 O sinthome

Seminar 23 O sinthome

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Seminário 23 - O sinthoma (1975-76)

elação


Esse possível, eu disse tempos atrás que é o que cessa de se escrever. Ao vê-los assim tão numerosos, acho que inclusive há alguns que já estão acostumados a ouvir o que invento. Mas de modo algum notaram, e sequer eu mesmo o fiz, que é preciso colocar uma vírgula. O possível é o que cessa, vírgula, de se escrever . Ou, melhor, que cessaria, de tomar o caminho de se escrever, no caso em que adviria, enfim, o discurso que evoquei, o tal discurso que não seria da ordem do semblante.


tudo, ma s isso não


É preciso escolher a via por onde tomar a verdade. Ainda mais porque a escolha, uma vez feita, não impede ninguém de submetê-la à confirmação, ou seja, de ser herético de uma boa maneira.


A boa maneira é aquela que, por ter reconhecido a natureza do sinthoma, não se priva de usar isso logicamente, isto é, de usar isso até atingir seu real, até se fartar.


Quando falamos e usamos um advérbio, quando dizemos real-mente, mental-mente, heroica-mente, o acréscimo desse mente já é, em si, indicativo de que mentimos. Há mentira indicada em todo advérbio. Não é por acaso que ela está aí. Ao interpretar­ mos, devemos prestar atenção nisso.


É surpreendente que isso não tenha ocorrido aos filósofos ingleses.
Eu os chamo assim porque não são psicanalistas. Acreditam ferreamente que a fala não tem efeito. Estão errados. Imaginam que há pulsões, e isso quando se dispõem a não traduzir Trieb por instinct. Não imagi­nam que as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer.


O obsessivo é mais apegado a isso que qualquer outro, porque, como eu disse em algum lugar e me lembraram disso recentemente, ele é como a rã que quer ser tão gorda quanto o boi.


perversão quer dizer apenas versão em direção ao pai


Em que o artifício pode visar expressamente o que se apresenta de início como sintoma? Em que a arte, o artesanato, pode desfazer, se as­ sim posso dizer, o que se impõe do sintoma? A saber, a verdade.


o sujeito é o que um significante representa para um outro significante,


Em análise, todo sujeito conta o seguinte: ele é sempre e nada mais do que uma suposição.


Contudo, a experiência demonstra-nos que essa suposição está sem­pre entregue ao que chamarei de uma ambiguidade. Quero dizer que, como tal, o sujeito sempre é não somente duplo, mas dividido. Tra­ta-se de dar conta do que, dessa divisão, instaura o real.


só há verdade na medida em que ela apenas pode ser dita pela metade, tal qual o sujeito que ela comporta. Para exprimi-lo conforme o enunciei, a verdade só pode se meio-dizer.


Como ponto de partida, assinalo que não espero de maneira alguma sair da debilidade. Como qualquer um, saio dela apenas na medida dos meus recursos. Isto é, como certo-de-não-sair-do-lugar - o certo desse lugar não sendo assegurado por nenhum progresso verificável, exceto com o passar do tempo.


É na medida em que o sinthoma volta a se ligar ao inconsciente e o imaginário se liga ao real que lidamos com alguma coisa da qual surge o sinthoma.


O que prevalece é o fato de que as três rodinhas participam do imaginário como consistência, do simbólico como furo, e do real como lhes sendo ex-sistente.


Só se é responsável na medida de seu savoir-faire.
Que é o savoir-faire? É a arte, o artifício, o que dá à arte da qual se é capaz um valor notável, porque não há Outro do Outro para operar o Juízo Final. Pelo menos sou eu quem o enuncio assim.
Isso quer dizer que há alguma coisa da qual não podemos gozar.
Chamemos isso de o gozo de Deus, estando aí incluído o sentido de gozo sexual.
A imagem que se faz de Deus - admitindo-se que ele ex-siste - implica ou não que ele goza do que cometeu? Responder que ele não ex-siste resolve a questão, devolvendo-nos o fardo de um pensamento cuja essência é inserir-se na realidade - primeira aproximação da pala­vra real, que tem um outro sentido em meu vocabulário -, nessa reali­dade limitada que se atesta pela ex-sistência do sexo.


É claro que o próprio esboço do que chamamos de pensamento, tudo que faz sentido, comporta, desde que mostre sua cara, uma referência, uma gravitação ao ato sexual, por menos evidente que seja esse ato. A própria palavra ato implica a polaridade ativo-passivo, o que já é engajar-se em um falso sentido. É o que chamamos de conhecimento, com esta ambiguidade - o ativo é o que conhecemos, mas imaginamos que, esforçando-nos para conhecer, somos ativos.
O conhecimento, portanto, desde o início, mostra o que ele é - enganoso. É justamente por isso que tudo deve ser retomado desde o iní­cio a partir da opacidade sexual. Digo opacidade considerando que, primeiramente, não percebemos que o sexual não funda em nada qualquer relação.


O que é um fato? É justamente ele quem o faz. Só há fato pelo fato de o falasser o dizer. Não há outros fatos senão aqueles que o falasser reconhece como tais dizendo-os. Só há fato pelo artifício.


O amor-próprio é o princípio da imaginação. O falasser adora seu corpo, porque crê que o tem. Na realidade, ele não o tem, mas seu corpo é sua única consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo instante. Já é um grande milagre que ele subsista durante o tempo de sua consumação, que é de fato, pelo fato de dizê-lo, inexorável. Nada pode ser feito, ela não é reabsorvível.


Isso não é verdadeiro para o corpo considerado como tal - quero dizer adorado, posto que a adoração é a única relação que o falasser tem com seu corpo - senão quando ele adora assim um outro, um outro corpo. Isso é sempre suspeito, pois comporta o mesmo desprezo ­ desprezo verdadeiro, posto que se trata de verdade.


É fazer o que fiz efetivamente, e nada mais - seguir o rastro do real, que consiste e que ex-siste apenas no nó.


Condensação dos verbos “ser”, “enxugar” e “sofrer”, contidos no verbo “essu yer’.


Portrait of the Artist as a Young Man


A beleza segundo Hogarth


O citado Hogarth, que muito se interrogou sobre a beleza, achava que ela tinha sempre alguma coisa a ver com essa dupla inflexão. Claro que isso é uma besteira.


vincular a beleza a alguma coisa diferente do obsceno, isto é, ao real. Em suma, de bela só haveria a escrita. Por que não?


Ele acha que é analista porque leu muitos livros analíticos. É uma ilusão muito difundida, justamente entre os analistas. E, assim, ele analisa Ulisses.


A análise é isso. É a resposta a um enigma, e uma resposta, convém inclusive dizê-lo a partir desse exemplo, completamente besta. É justamente por isso que é preciso conservar a corda. Quero dizer que corremos o risco de tartamudear, se não soubermos onde a corda termina, ou seja, no nó da não-relação sexual.

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É de suturas e emendas que se trata na análise. Mas convém dizer que devemos considerar as instâncias como realmente separadas. Ima­ ginário, simbólico e real não se conf u ndem.


Encontrar um sentido implica saber qual é o nó, e emendá-lo bem graças a um artif ício


o verdadeiro dá prazer, e é isso que o distingue do real. O real não dá, f orçosamente, prazer.


a partir da minha prá­ tica, isto é, a partir das conf i dências que recebo, uma vez que me rela­ ciono com pessoas que preparo para que sintam prazer em dizer o verdadeiro.
T odo o mundo - ou, melhor, Freud - diz que, se consigo isso, é porque elas me amam, graças ao que tentei captar da transf erência, isto é, porque elas me supõem saber. Pois bem, é evidente que não sei tudo.


Um retrato do artista quando jovem


Q uan­ do se escreve, pode-se muito bem tocar o real, mas não o verdadeiro.


Ste p hen, o H erói


Encontramos isso em Kant, mas, enf i m, quem lê Kant? É muito pertinente em Kant.


A imaginação de ser o redentor, pelo menos na nossa tradição, é o protótipo da pai-versãi. Na medida em que há relação de filho com pai, surge essa idéia tresloucada do redentor, e isso há muito tempo. O sadismo é para o pai, o masoquismo é para o filho. Freud, de todo modo, tentou se desprender desse sadomasoquismo. Esse é o único ponto onde há uma relação suposta entre o sadismo e o masoquismo.
Esses dois termos não têm estritamente nenhuma relação entre si.
Para pensar dessa f orma, é preciso verdadeiramente crer que isso se dá como no esquema em que uma reta infinita penetra em um toro. Pen­ so que assim já é uma imagem suficiente. É preciso verdadeiramente crer no ativo e no passivo para imaginar que o sadomasoquismo possa ser explicado por uma polaridade.


Por que não conceber o caso de Joyce nos termos seguintes? Seu desejo de ser um artista que fosse assunto de todo o mundo, do máxi­ mo de gente possível, em todo caso, não é exatamente a compensação do fato de que, digamos, seu pai jamais foi um pai para ele? Que não apenas nada lhe ensinou, como foi negligente em quase tudo, exceto em conf i á-lo aos bons padres jesuítas, à Igreja diplomática?


Depositei alguma esperança - e não tomem isso como uma sedução ou um mimo -nessas f érias. Muita gente vai embora. Na minha clien­ tela, é impressionante. Mas, aqui, não é assim, vejo sempre que está lotado. T udo isso me exaspera, porque não é muito de bom-tom.
Falando claro, esperava que a sala fi casse menos cheia e, assim, eu pudesse passar para as conf i dências, me instalar no meio da sala, sei lá.
Se a sala estivesse apenas pela metade, seria melhor, eu poderia falar de maneira um pouco mais íntima.
Ainda assim, seria simpático se eu pudesse ter quem me respondes­ se, que colaborasse, que se interessasse. Parece-me difícil alguém se inte­ ressar pelo que se torna uma busca .recherche.. Quero dizer que começo a f azer o que a palavra busca implica, ou seja, a girar em círculos.
Havia um tempo em que eu era um pouco dado a alardes. Dizia como Picasso -Eu não procuro, acho. Mas agora me custa mais trilhar meu caminho.


Evocarei para vocês, casualmehte, o que pensei - façam o que qui­ serem do meu pensamento.


sinthoma fa l a s impostas.


Pelo menos é assim que o próprio paciente articula alguma coisa que se parece em tudo com o que há de mais sensato na ordem de uma articulação que posso chamar de lacaniana. Como é que todos nós não sentimos que as f alas das quais dependemos são, de algum modo, impostas?


É justamente por isso que o que chamamos de doente vai algumas vezes mais longe do que o que designamos como um homem saudá­ vel. A questão é antes saber por que um homem dito normal não per­ cebe que a f ala é um parasita, que a fala é uma excrescência, que a fala é a forma de câncer pela qual o ser humano é afligido. Como pode haver quem chegue inclusive a senti-lo?


Impressionante, há alguma coisa de comum na maneira como as coisas se enodam, alguma coisa que se marca por uma certa direção, orientação, digamos, dextrogiria, da compensação enodada, da com­ pensação pelo sinthoma. Não deixa de ficar claro que o que resulta dessa compensação é dif erente conforme o lugar onde ela se coloque.


quando a correção é f eita no lugar onde o erro se produz.


Permito-me dizer que o sinthoma é, muito precisamente, o sexo ao qual não pertenço, isto é, uma mulher. Se uma mulher é um sinthoma para todo homem, fi ca absolutamente claro que há necessidade de en­ contrar um outro nome para o que o homem é para uma mulher, pos­ to que o sinthoma se caracteriza justamente pela não-equivalência.
Pode-se dizer que o homem é para uma mulher tudo o que quise­ rem, a saber, uma af l ição pior que um sinthoma. V ocês podem inclusi­ ve articular isso como lhes f or conveniente. Trata-se mesmo de uma devastação. Se não há equivalência, vocês são obrigados a especificar o que concerne ao sinthoma.


T rata-se de situar o que o sinthoma tem a ver com o real, o real do inconsciente, se o inconsciente for real. Como saber se o inconsciente é real ou imaginário? É ef etivamente a questão. Ele participa de um equívoco entre os dois.
Por conseguinte, é nisso que, graças a Freud, estamos engajados, e engajados a título de sinthoma. Quero dizer que, doravante, é com o sinthoma que temos de nos haver na própria relação sexual, que Freud tomava por natural, o que não quer dizer nada.


A noção de par colorido está aí para sugerir que, no sexo, não há nada além do que, digamos, o ser da cor, o que por si sugere que pode haver mulher cor de homem, ou homem cor de mulher.


Se colocamos a rodinha vermelha como suporte do que concerne ao simbólico, os sexos, nesse caso, ficam opostos como, para retomar meus termos, o imaginário e o real, como a idéia e o impossível.


Daí a clareza que resulta acerca do que é uma mulher - aqui, ela é não-tod a por não ser apreendida, por permanecer estranha para Joyce, por não fazer sentido para ele. Aliás, será que uma mulher faz algum sentido para o homem?


A psicanálise, em suma, nada mais é do que curto-circuito passando pelo sentido - o sentido como tal, definido por mim há pouco pela copulação da linguagem, posto que é a partir dela que dou suporte ao inconsciente, com nosso próprio corpo.


Disse-lhes, a esse respeito, que não há relação sexual. Mas isso é di­ vagação, porque f az parte do sim ou não. A partir do momento em que digo não hd , já é muito suspeito que não seja verdadeiramente um pe­ daço de real, posto que o estigma do real é de a nada se ligar, tal como disse há pouco.


O primeiro passo da psicanálise é nunca nos reconhecermos no que somos porque o que somos, quando somos homem, é da ordem da copulação, isto é, do que transborda essa copulação na não menos citada e, de modo significativo, cópula, constituída pelo verbo ser .


A história é a maior das f antasias, se assim podemos nos exprimir. Por trás da história dos f atos pelos quais os historiadores se interessam, há o mito.


só conseguiu encontrar esta solução


sinthoma tal que não há nada a fazer para analisá-lo.


Por isso, retorno com meu grande cl. que pode igualmente ser a pri­ meira letra da palavra fa ntasia.


No final das contas, ele faz amor com seu inconscien­ te, e mais nada


Não é sempre que os católicos f azem essa leitura. Podemos até di­ zer que o catolicismo, durante séculos, consistiu em impedir seus se­ guidores de lerem a Bíblia.


Já é bastante por hoje. É preciso rir um pouco de tempos em tempos.


Tampouco se trata de uma coisa completamente estranha. Direi até mais, é o que torna sensível, permite roçar, mas de um modo com­ pletamente ilusório, aquilo a que chamamos de reminiscência, e que consiste em imaginar, a propósito de alguma coisa que f az função de idéia, mas não é uma, que a gente se reminiscedela, se posso me expri­ mu assim.


O verdadeiro é dizer conforme à realidade. A realidade, nesse caso, é o que fu nciona, fu nciona verdadeiramente. Mas o que fu nciona ver­ dadeiramente não tem nada a ver com o que designo como real. É uma suposição completamente precária que meu real -pois preciso de f ato colocá-lo como meu ativo - condicione a realidade, aquela, por exemplo, da audição de vocês. Há aí um abismo, estamos longe de as­ segurar que seja transponível.


coisas que chamamos de f reudianas


Não penso que a psicanálise seja um sinthoma. Penso que ela é uma prática cuja ef i cácia, apesar de tudo tangível, implica, para mim, fazer o que chamam de meu nó, a saber, esse nó triplo que está no qua­ dro. Por isso, suspendo a abordagem desse terceiro que se distingue da realidade e que chamo de real. Por isso, também não posso dizer eu penso, posto que é um pensamento ainda completamente f echado, isto é, em última análise, enigmático.


Penso que não se pode conceber o psicanalista de outra f orma se­ não como um sinthoma.


Falo do real como impossível na medida em que creio justamente que o real - enf i m, creio, se esse é meu sintoma, digam-me -, é preciso dizê-lo bem, o real é sem lei. O verdadeiro real implica a ausência de lei. O real não tem ordem. É o que quero dizer dizendo que a única coisa que chegarei talvez um dia a articular diante de vocês é algu­ ma coisa concernente ao que chamei de um pedaço de real.


Agradeço-lhes pelas perguntas, exceto a seguinte: -Seu charuto torto é um sintoma de seu real?
Certamente. Meu charuto torto está estritamente relacionado com a questão que coloquei sobre a reta, igual e nomeadamente torta.


o dito não é de modo algum f orçosamente verdadeiro.


As pessoas escrevem suas recordações de inf ância. Isso tem conseqüên­ cias. É a passagem de uma escrita para outra escrita.
A psicanálise é outra coisa. Ela passa por um certo número de enunciados. Não está dito que ela leva à via de escrever. O que estou lhes impondo através de minha linguagem é que se deve prestar muita atenção quando alguém vem nos pedir, em nome de não sei que inibi­ ção, para ser colocado em condições de escre v er. Quanto a mim, pres­ to muita atenção quando me acontece, como a todo mundo, de ter alguém me pedindo isso. Não está de modo algum definido que, com a psicanálise, vai se conseguir escrever. Para f alar propriamente, isso supõe uma investigação a propósito do que significa escrever.


A questão é a seguinte - o que se passa quando alguma coisa acon­ tece a alguém em conseqüência de uma f alha?
Essa f alha não está condicionada unicamente pelo acaso. Com ef ei­ to, o que a psicanálise nos ensina é que uma f alha jamais se produz por acaso. Há, por trás de todo lapso, para chamá-lo por seu nome, uma finalidade signif i cante. Se há um inconsciente, a f alha tende a querer exprimir alguma coisa, que não é somente o que o sujeito sabe, uma vez que o sujeito reside nessa divisão mesma que representei em outros tempos pela relação de um significante com outro significante.
A f alha exprime a vida da linguagem, sendo que vid a para a lingua­ gem signif i ca algo muito diferente do que chamamos simplesmente vid a . O que significa morte para o suporte somático tem tanto lugar quanto vid a nas pulsões que provêm do que acabo de chamar de vida da linguagem. As pulsões em questão provêm da relação com o corpo, e a relação com o corpo não é uma relação simples em homem ne­ nhum - além disso, o corpo tem fu ros. É inclusive o que, no dizer de Freud, teria de colocar o homem na via desses f uros abstratos concer­ nentes à enunciação do que quer que seja.


Quem sabe o que se passa no seu corpo? Eis ai alguma coisa extra­ ordinariamente sugestiva. Para alguns, chega a ser o sentido que dão ao inconsciente. Entretanto, se há uma coisa que tenho articulado desde o princípio com cuidado, é que o inconsciente nada tem a ver com o f ato de um monte de coisas ser ignorado quanto a seu próprio corpo. Quanto ao que se sabe ele é de uma natureza bem dif erente mesmo. Sabe-se um monte de coisas provenientes do significante.


O inconsciente de Freud é justamente a relação que há entre um corpo que nos é estranho e alguma coisa que f az círculo, ou mesmo reta infi­ nita, e que é o inconsciente, essa duas coisas sendo, de todo modo, equivalentes uma à outra.


a psicologia não é outra coisa senão a imagem conf u sa que temos de nosso próprio corpo. Mas essa imagem conf u sa não deixa de compor­ tar afetos, para chamar isso pelo nome.


T er relação com o próprio corpo como estrangeiro é, certamente, uma possibilidade, expressada pelo fato de usarmos o verbo ter . T em­ se seu corpo, não se é ele em hipótese nenhuma. É o que faz acreditar na alma, e depois disso não há razão para se deter, e achamos também que temos uma alma, o que é o cúmulo.


Até onde vai, se posso dizer assim, a pai-versão? -escrita como vocês sabem, desde o tempo em que a escrevo.
A pai-versão é a sanção do f ato de que Freud f az tudo se ater na fu nção do pai. E o nó bo é isso.


toda sexualidade humana é perversa, se acompanhamos bem o que diz Freud. Ele nun­ ca conseguiu conceber a tal sexualidade sem ser perversa, e é justa­ mente nesse aspecto que interrogo a f ecundidade da psicanálise.


que a psicanálise sequer é capaz de inventar uma nova perver­ são. É triste. Se a perversão é essência do homem, quanta inf ecundida­ de nessa prática


Tra­ ta-se de saber por que diabos tal enunciado foi pronunciado. É uma questão de enunciação. E a enunciação é o enigma elevado à potência da escrita.


V ocês precisam perceber que o que eu lhes disse sobre as relações do homem com o seu corpo atém-se inteiramente ao fato de o homem dizer que o corpo, seu corpo, ele o tem. Dizer seu já é dizer que ele o possui, como se f osse, naturalmente, um móvel. Isso nada tem a ver com qualquer coisa que permita def i nir estritamente o sujeito, que, por sua vez, só se def i ne de modo correto na medida em que é representado por um significante junto a outro signif i cante.


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