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Seminar 20 Mais Ainda Encore Letra Freudiana

Seminar 20 Mais Ainda Encore Letra Freudiana

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Seminário 20 - Mais Ainda - Encore -Letra Freudiana-

Há alguma coisa, de uns tempos para cá, que me favorece, é que há tam­ bém em vocês, na grande massa daqueles que estão aqui presentes, um mesmo - aparentemente um mesmo - “eu não quero saber nada disso”


“eu não quero saber nada disso”, até que vocês alcancem o mesmo, ainda falta um bocado. E é bem isso, é bem isso que faz com que só quando o de vocês lhes parecer suficiente, vocês possam, se estiverem, inversamente} entre meus analisantes, vocês pos­ sam, normalmente, se desligar de sua análise. Não há, ao contrário do que se diz, nenhum impasse de minha posição de analista com o que faço aqui, com relação a vocês.


É aí que está a essência do direito, que é repartir, distribuir, retribuir o que é do gozo.


Aqui eu aponto a reserva que esse campo do direito implica: direito ao gozo. O direito não é o dever. Nada força ninguém a gozar, exceto o supereu. O supereu é o imperativo do gozo: Goze. É o mandamento que parte de onde? É bem aí que se encontra o ponto axial que o discurso analítico interroga


E o que o discurso analítico demonstra que, justamente no que diz res­ peito a um desses seres como sexuado, o homem, enquanto provido do órgão dito fálico - eu disse I dito’ -, o sexo corporal, o sexo da mulher - eu disse 1 da’ mulher - justamente, não há, não existe ‘a’ mulher. A mulher é ‘não-toda’, o sexo da mulher não lhe diz nada, a não ser por intermédio do gozo do corpo.


: o gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não consegue, eu diria, gozar do corpo da mulher, precisamente porque aquilo de que ele goza é desse gozo, o do órgão.34 E é por isso que o supereu, tal como indiquei há pouco, com o ‘Goze.’, é correlato da castração, que é o signo de que se reveste a confissão de que o gozo do Outro, do corpo do outro,35 não se pro­ move senão pela infinitude


Aquiles e a tartaruga, esse é o esquema do gozar, de um lado do ser sexuado.
Quando Aquiles deu aquele passo e transou com Briseida, tal como a tartaruga, ela também avançou um pouco, isso porque ela é ‘não toda’, ‘não toda’ dele.
Falta um pouco. E foi preciso que Aquiles desse o segundo passo, como vocês sabem, e assim por diante.


O que distingue o anonimato do que é chamado de gozo, ou seja, o que é ordenado pelo direito, uma geometria, justamente, a heterogeneidade do lugar, é que há um lugar do Outro.
Desse lugar do Outro, de um sexo como Outro, como Outro absoluto, que nos permite propor o mais recente desenvolvimento dessa topologia, proporei aqui o termo compacidadeY Nada mais compacto do que uma falha, se estiver bem claro que, em algum lugar, está dado que a interseção de h1do o que aí se fecha sendo admitida como existente, num número finito de conjuntos, disso resulta, é uma hipótese, que a interseção existe num número infinito


Sabe-se muito bem o quanto os analistas se divertiram em torno desse Dom Juan, do qual fizeram tudo, inclusive, o que é o cúmulo, um homossexual. Será que ao cent r á-lo no que acabo de lhes desenhar, nesse espaço do gozo sexual a ser recoberto, do Outro50 lado, por conjuntos abertos e terminando nessa finitude … eu marquei bem que não disse que era o número e, no entanto, é claro que isso ocorre, pois af inal podem ser contadas. O que é essencial no mito feminino de Dom Juan é exatamente isso, é que ele as tem ur n a por ur n a. E é isso que é o Outro sexo, o sexo masculino, no que se refere às mulheres. E exatamente nisso que a imagem de Dom Juan é capital, porque fica indicado que, afinal de contas, ele pode fazer ur n a lista delas e que, a partir dos nomes, pode-se contá-las. Se há mille e tre delas, é exatamente porque podem ser tor n adas uma por uma, e aí está o essencial.


Outro com O maiúsculo em “Outro lado”, para marcar bem que é do lado do gozo do Outro, considerado como um espaço compacto, onde se desdobram recobrimentos abertos ao infinito dos quais se pode extrair, precisamente porque esse espaço é compacto, um sub-recobrimento finito (portanto, extrair “uma por uma” do infinito). O gozo do Outro lado é oposto aqui ao gozo fálico, ele também considerado um espaço compacto, mas onde se desdobra, desta vez, uma subfamília finita de espaços fechados, cuja interseção é não vazia, o que permite concluir, sempre porque o espaço é compacto, que todas as fam í lias - inclusive, pois, as famílias infini­ tas - têm elas próprias uma interseção não vazia (e, portanto, tirar uma conclusão sobre algo de infinito, onde a hipótese incide sobre o finito).


Jeremy Bentham nasceu em 1748 numa periferia de Londres. Ele se tomou advogado em 1763, mas nunca exerceu e, além de seu interesse pelas ciências, pela química e a botânica, dedicou-se à redação de numerosas obras relativas às leis, na esperança de introduzir um rigor quanto à formulação, rigor ainda ausente da legislação inglesa.
A Teoria das ficções obra publicada pela primeira vez em Londres, em 1932, é constituída por um conjunto de textos relativos à linguagem. Os parágrafos abaixo são tirados da Introdução da referida obra:
O objetivo de Bentham, por suas observações linguísticas, foi compreender e mos­ trar em que as palavras, necessárias a todas as ciências, não são inocentes, e ele esperou, através de análises lógicas, chegar a fazer com que seu emprego, judi­ cioso e não ambíguo, seja possíveP São palavras como qualidades, quantidade, movimento, relação, liberdade etc ..
Trata-se, portanto, de ficções enquanto representadas por palavras e não existindo senão através das palavras que as designam ou as representam. Nesse sentido, pode-se dizer que se trata de ficções, não ligadas à imaginação nem criadas por ela, mas criadas pela linguagem e somente pela linguagem?


o que constitui aqui o peso de minha presença: é que vocês gozam com isso. Minha presença sozinha, pelo menos eu ouso acreditar nisso, minha presença sozinha em meu discurso, minha pre­ sença sozin h a é min h a tolice.


Onde está, no discurso analítico, o sublime da tolice? É por isso que estou, ao mesmo tempo, legitimado a deixar em repouso minha participação na tolice, na medida em que aqui ela nos engloba e a invocar quem poderá, sobre esse ponto, me trazer a réplica daquilo que, provavelmente, em outros campos …
Mas não, é claro, já que se trata de alguém que me escuta aqui, e que por isso está suficientemente introduzido ao discurso analítico.


E a tautologia inicial ’ a é a’ da qual Wittgenstein diz que é um forçamento despro­ vido de sentido é, propriamente, o que institui o sentido, pois algo ocorre ali dentro, ou seja, no ‘a é a’, a se apresenta inicialmente como o suporte indiferen­ ciado inteiramente potencial de tudo o que pode lhe acontecer como determi­ nação


Cf. Charles S. Peirce (1839-1914): o signo, segundo Peirce, é composto de três partes: o repre­ sentamen (uma representação), o objeto e o interpretante. Ex: a imagem (re p resentamen) de uma placa “PARE” (objeto) provoca a mudança no comportamento do motorista (interpretante), que aciona o freio do veículo.


O que institui a defasagem - essa defasagem de onde nasce a repetição - é a impossibilidade de alguma coisa ser esse algo e, ao mesmo tempo, inscrevê-lo.
Isso quer dizer que a existência de alguma coisa só se inscreve para outra coisa e, consequentemente, só se inscreve quando é outra coisa que é dada. E se é que se trata de existência pontual, a existência de alguma coisa só se inscreve justamente no momento em que ela declina, pois é de uma outra existência que se trata.


o amor não pode ser belo porque seus objetos são belos


que ele não vê o encare.


discordância essencial entre o nome e o nome de nome, e é o que chamarei de efeito de esmagamento (écrasement)


a repetição é o representamen da morte.


linguisteria


Eu me lanço na “linguisteria”, o que me deixa ter alguma parte com os lin­ guistas, não sem explicar que tantas vezes eu sofra, eu receba, afinal de contas alegremente, da parte de tantos linguistas, mais de uma censura. Certamente não de Jakobson, mas é porque ele me tem em boa conta, em outras palavras, ele me ama, é como eu exprimo isso na intimidade. Mas se vocês esperam o que eu poderia dizer do amor, isso só fará confirmar, em suma, certa disjunção que, por sorte, eu encontrei esta manhã, exatamente às oito e meia, quando come­ çava a tomar notas - é sempre a essa hora que o faço - sobre o que tenho a lhes dizer. Não que eu não tivesse pensado nisso há mais tempo, mas só foi redigido no final. E encontrei isso: “linguisteria”.


“L’ étourdit”. In: Scilicet 4. Paris: Seuil, Le champ freudien, 1973, p. 5.


“o dizer é justamente o que fica esque­ cido por trás do que é dito no que se ouve”


Contudo, é pelas consequências do dito que se julga o dizer. Mas o que se faz do dito fica em aberto. Pode-se fazer uma porção de coisas, como se faz com os móveis, por exemplo, a partir do momento em que se enfrentou um cerco ou um bombardeio.


Será que tomando a linguagem na “linguisteria” … a noção que parece pro­ movida como aparelho fácil, propício a fazer funcionar a linguagem na linguís­ tica de um modo não tolo, o que implicava códigos e mensagens, transmissão,


sujeito e, portanto, também espaço, distância .. P Será que apesar do sucesso fulminante dessa função de informação, sucesso tal que se pode dizer que a ciência inteira vem a ser infiltrada por ela … Estamos no nível da informação molecular, do gene e dos enrolamentos de nucleoproteínas em torno das hastes de DNA, elas próprias enroladas uma em torno da outra, e tudo isso ligado por laços hormonais, são mensagens que são enviadas, registradas … O que dizer disso, já que da mesma forma o sucesso dessa fórmula tem sua origem incontes­ tável numa linguística que não é somente imanente, mas perfeitamente formu­ lada? Em resumo, a noção que chega a se estender até os próprios fundamentos do pensamento científico, ao se articular como neguentrópica … 18 Será que não existe aí algo que pode nos fazer levantar essa questão: se é bem de outro lugar o que com minha “linguisteria” eu recolho e, legitimamente, quando me sirvo da função do significante.19


O que é o significante? O significante, tal como o herdei de uma tradição linguística20 que, é importante notar, não é especificamente saussuriana,Z1 ela remonta a bem antes, não fui eu quem o descobriu,Z2 isso remonta aos estoicos, de onde ela se reflete em Santo Agostinho23 e deve ser estruturada em termos topológicos. E no que se refere à linguagem, o significante é, em primeiro lugar,


o que tem efeito de significado e é importante não elidir que entre os dois escre­ ve-se uma barra, há algo como uma barra a ser ultrapassada


ao elemento significante, ao fonem


não se pode dizer tudo, mas que se possam dizer tolices, tudo está aí


E aí está a prova na qual, na análise de qualquer um, por mais tolo que ele seja, um certo Real pode ser alcançado.


Para situar meu significante, antes de deixá-los, eu lhes proponho que pesem o que se inscrevia, na última vez, no início de minha primeira frase, que comporta o ” gozar de um corpo”, de um corpo que, “o Outro, O simboliza”,41 e comporta talvez algo de natureza a determinar uma outra forma de substância:
a substância gozante.
Não estará aí o que supõe propriamente e justamente, sob tudo o que aqui significa a experiencia psicanalítica, substância do corpo, com a condição de que ela se defina somente pelo que se goza? Somente propriedade do corpo, vivo, sem dúvida, mas não sabemos o que é estar vivo, senão apenas nisso, que um corpo, isso se goza. E mais ainda, caímos imediatamente nisso, que ele só se goza por ‘corporizá-lo’ de modo significante.
Isso quer dizer algo bem diferente da pars extra partem da substância extensa, como salienta admiravelmente essa espécie de kantiano - devo dizer que isso é um assunto já antigo que está em alguma parte de meus Escritos, 42 que se lê mais ou menos bem - essa espécie de kantiano que era Sade, ou seja, que só se pode gozar de uma parte do corpo do outro, como ele o exprime muitíssimo bem, pela simples razão de que nunca se viu um corpo se enrolar completamente, totalmente em torno do corpo do outro até incluí-lo, fagocitá-lo. E por isso mesmo que estamos reduzidos simplesmente a um pequeno abraço,43 assim, a pegar um antebraço ou qualquer outra parte … Ui.
E gozar tem essa propriedade fundamental que é em suma o corpo de um que goza de uma parte do corpo do outro,44 mas essa parte também goza, o que agrada ao outro mais ou menos, mas é um fato que ele não pode ficar indife­ rente a isso. E acontece mesmo de produzir-se algo que ultrapassa o que acabo de descrever, marcado por toda a ambiguidade significante, ou seja, o gozar do corpo é um genitivo que, conforme vocês o façam objetivo ou subjetivo,


tem essa nota sadiana, que mencionei rapidamente, ou, ao contrário, extática, “subjestiva”,45 que diz que, em suma, é o outro46 que goza.
Certamente só existe aí um nível bem localizado … E o mais elementar no que se refere ao gozo, ao gozo no sentido em que mencionei, na última vez, que ele não é um signo do amor. É o que precisa ser sustentado, e é claro que isso nos leva daí, do nível do gozo fálico, ao que chamo propriamente de gozo do Outro, na medida em que aqui ele é apenas simbolizado e é ainda outra coisa, ou seja, esse ‘não todo’ que terei de articular


O significante é a causa do gozo. Sem o significante, como até mesmo abor­ dar essa parte do corpo? Como, sem o significante, centrar esse algo que, do gozo, é a causa material? Assim, por mais vago e confuso que isso seja, é uma parte que, do corpo, é significada nessa abordagem


Eu brinquei um dia acerca de um lapso literal, calam i, como é chamado … Eu fiz toda ur n a das minhas conferências,53 do ano passado, sobre o lapso ortográ­ fico que eu havia feito numa carta: Tu ne sauras jamais combien je t’ai aimé … diri­ gido a ur n a mulher e terminado em -mé em lugar de -mée.54 Disseram-me então que, tor n ado cor n o lapso, isso queria talvez dizer que eu era homossexual. Mas o que articulei, no ano passado, foi que quando se ama, não se trata de sexo.


O signo linguístico une um ‘conceito’ e uma ‘imagem acústica’, termos que Saussure substitui, respectivamente, por ‘significado’ e ‘significante’. O ‘signo’ faz referência a uma entidade menor do que a frase, provavelmente o vocábulo.
O elemento linguístico consiste em dois termos: de um lado, um objeto, fora do sujeito (desenho da árvore), do outro lado, o nome, o outro termo vocal ou mental (arbor).


O significante é imotivado, isto é, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem nenhuma ligação natural na realidade. O vínculo que une o sig­ nificante ao significado é radicalmente arbitrário.


O signif i cante, de natureza auditiva, representa uma extensão. Essa exten­ são é mensurável numa só dimensão: é uma linha. Esses elementos se apresen­ tam um após o outro e formam uma cadeia.


Esses Escritos, é bastante sabido que eles não se leem facilmente. Posso fazer-lhes então uma pequena confidência autobiográfica: é que ao escrever Escritos, era precisamente isso que eu pensava - isso vai talvez até esse ponto ­ que eles não eram para ser lidos.


Naturalmente, isso supõe que desenvolvamos essa dimensão, o que não pode ser feito sem dizê-lo. O que é a dimensão da tolice? A tolice tem pelo menos esta, que se pode proferir, é que a tolice não vai longe. No discurso, no discurso corrente, seu tempo é curto. Isso é algo, é claro, em que eu me apoio, se posso assim dizer, quando faço essa coisa que nunca faço sem tremer de medo, ou seja, voltar ao que proferi anteriormente. Isso sempre me dá muito medo, o medo, justamente, de ter dito tolices, isto é, algo que, diante do que proponho agora, eu pudesse considerar que não se sustenta mais.


De todo modo, esse ‘se reler’ representa uma dimensão que deve ser situ­ ada propriamente naquilo que, do ponto de vista do discurso analítico, é a fun­ ção do que se lê. O discurso analítico tem, com relação a isso, um privilégio, ele parece difícil. E foi daí que eu parti, no que marcou uma data importante: uDo que eu ensino’? como eu me exprimi, que talvez não queira dizer exatamente o que parecia enunciar, ou seja, acentuar o ‘eu’, isto é, o que eu possa proferir, mas talvez também acentuar o ‘do’, ou seja, de onde isso vem, um ensinamento do qual eu sou o efeito.


O marxismo não me parece, e a qualquer exame que seja, mesmo o mais aproximativo, poder passar por ur n a concepção do mundo. Ao contrário, é muito marcante, por todos os tipos de coordenadas, que o enunciado do que diz Marx - o que não se confunde obrigatoriamente com a concepção do mundo marxista - é, propriamente falando, outra coisa que chamarei mais for­ malmente de um evangelho, ou seja, de um anúncio. Um anúncio de que algo que se chama história instaura outra dimensão do discurso, em outras palavras, a possibilidade de subverter completamente a função do discurso cor n o tal, quero dizer, propriamente falando, do discurso filosófico, na medida em que sobre ele repousa ur n a concepção do mundo.
A linguagem revela-se, portanto, muito mais vasta, cor n o campo, muito mais rica de recursos, do que ser simplesmente aquele onde possa se inscrever um dis­ curso que é aquele que, ao longo do tempo, se instaurou pelo discurso filosófico.
Não é porque nos seja difícil não levá-lo de todo em conta, na medida em que desse discurso, discurso filosófico, alguns pontos de referência são enunciados e são difíceis de eliminar completamente de todo o uso da li n guagem. Não é por causa disso que devemos a todo custo prescindi r dele, com a condição de perce­ ber que não há nada mais fácil do que cair de novo no que chamei ironicamente, até mesmo com ur n a nota cômica, de ‘concepção do mundo’, mas que tem um nome mais moderado, bem mais preciso, que se chama a ‘ontologia’. A ontolo­ gia é especialmente aquilo que, por um determinado uso da linguagem, enfati­ zou, produziu, de um modo acentuado, produziu, na linguagem, o uso do verbo copulativo/4 de um modo tal que ele foi, em suma, isolado cor n o significante.


Não há nenhuma realidade pré-discursiva, cada realidade se funda e se define por um discurso. E é bem nisso que importa percebermos do que é feito o discurso analítico, e não ignorarmos o que, sem dúvida, só tem aí um espaço limitado, ou seja, Deus meu, que aí se fala daquilo que o verbo ‘foder’16 enuncia perfeitamente, aí se fala de ‘foder’ - o verbo, em inglês to fu ck -e aí se diz que isso não vai bem. E uma parte importante do que se confia no discurso analítico e convém salientar, muito precisamente, que não é privilégio dele.


É claro que, no que eu chamei há pouco de discurso, escrevendo-o quase numa só palavra, o disco-ursocorrente, disco também fora de campo, fora do jogo de qualquer discurso, ou seja, apenas disco, no disco que é afinal o ângulo sob o qual podemos considerar todo um campo da linguagem, aquele que efetiva­ mente dá sua substância, seu estofo para ser considerado disco, ou seja, isso gira e gira muito exatamente para nada. Esse disco é exatamente o que se acha no campo de onde os discursos se especificam, campo onde tudo isso se afunda, onde qualquer um é capaz, tão capaz quanto outro, de enunciar, mas por um cuidado com o que chamaremos com justiça de ‘decência’, o faz, Deus meu, o menos possível. O que faz o fundo da vida, com efeito, é que tudo o que se refere às relações homens e mulheres, o que chamamos de coletividade, não vai bem. Não vai bem e todo mundo fala disso, e uma grande parte de nossa atividade se passa a dizê-lo.


Não existe a menor realidade pré-discursiva, pela boa razão de que o que faz a coletividade e que ao evocá-la, há pouco, chamei de homens, mulheres e crianças, isso não quer dizer exatamente nada como realidade pré-discursiva:
os homens, as mulheres e as crianças não passam de significantes. Um homem não é nada além de um significante. Uma mulher procura um homem a título de significante. Um homem procura uma mulher - isso vai lhes parecer curioso - a título do que só se situa a partir do discurso, pois se o que afirmo é ver­ dadeiro, ou seja, que a mulher é ‘não toda’, há sempre alguma coisa nela que escapa ao discurso


a diferença que há entre o uso da letra na álgebra e o uso da letra na teoria dos conjuntos, porque isso nos interessa diretamente


não lhes direi que leiam Philippe Sollers, ele é ilegível, é claro, como eu, mas vocês podem ler Joyce, por exemplo


Então vocês verão como isso começou a se produzir. Vocês verão que a linguagem se aper­ feiçoa e sabe brincar, sabe brincar com a escrita. Joyce, eu admito que ele não seja legível. E certamente não é traduzível em chinês.

Tem a tradução em Chinês


Afinal de contas, não está excluído que a andorinha leia a tempestade, mas também não se tem certeza disso


O que há em seu discurso analítico é que o sujeito, o sujeito do incons­ ciente, vocês o supõem, vocês supõem que ele saiba ler. Não é nada além disso, sua história do inconsciente. E que não somente vocês supõem que ele saiba ler, mas supõem que ele possa aprender a ler. Só que o que vocês lhe ensinam a ler não tem então absolutamente nada a ver, em caso algum, com o que vocês possam escrever dele. É isso.


o homem, longe de ter-se abalado no que quer que fosse pelo fato de a terra não estar no centro, ele a substituiu muito bem pelo sol.
O importante é que haja um centro e já que agora é evidente, é claro, que o sol também não é um centro, que ele fica passeando através de um espaço, cujo estatuto fica cada vez mais precário estabelecer, e que o que permanece bem no centro é simplesmente essa boa rotina que faz com que o significado con­ serve, afinal de contas, sempre o mesmo sentido; e que esse sentido, ele é dado


pelo sentimento que cada um tem de fazer parte de seu mundo, pelo menos, isto é, de sua pequena família e de tudo o que gira em torno; e que cada um, cada um de vocês, eu falo mesmo para os esquerdistas, vocês estão aí - mais do que imaginam, e numa medida que deveriam avaliar - ligados a um certo número de preconceitos que lhes servem de base e que limitam o alcance de suas insurreições ao termo mais curto, àquele muito precisamente no qual isso não lhes cause nenhum incômodo e, nomeadamente, não numa concepção do mundo que, quanto a ela, permanece sempre perfeitamente esférica. O signifi­ cado encontra seu centro onde quer que vocês o coloquem. Não é, até segunda ordem, o discurso analítico, tão difícil de sustentar em seu descentramento, e que ainda tem de fazer sua entrada na consciência comum, que pode de alguma maneira subverter o que quer que seja.


É propriamente fabuloso que a função do Outro, do Outro como lugar da verdade e, para dizer tudo, do único lugar, embora irredutível, que possamos dar ao termo do ser divino, de Deus, para chamá-lo pelo nome, Deus (Dieu) seja propriamente o lugar onde se produz, se me permitirem esse termo, o dieu, o dieure, o dire.28 Por um nada, o dizer vai dar Deus … Enquanto se disser alguma coisa, a hipótese de Deus estará presente. E é justamente por tentar dizer alguma coisa que se define este fato que, em suma, só podem ser ver­ dadeiramente ateus os teólogos, ou seja, aqueles que falam de Deus. Não há nenhum outro meio de sê-lo, a não ser escondendo a cabeça entre os braços, em nome de não sei que medo, como se algum dia esse Deus tivesse efetivamente manifestado uma presença qualquer. Em compensação, é impossível dizer o que quer que seja sem, imediatamente, fazê-lo subsistir, nem que seja sob essa forma do Outro, do Outro, também dito: a verdade.2


Todas as necessidades, todas as necessidades do ser falante são contamina­ das pelo fato de estarem implicadas ‘numa outra satisfação’ - sublinhem estas três palavras - para a qual elas podem faltar - as ditas necessidades, bem entendido.


Eu recusei, simplesmente, a partir de ideia de que, Deus meu, as pessoas que não me aceitam, eu não procuro convencê-las. Não se deve convencer. O próprio da psicanálise é não vencer, con 7 ou não.


Mas evidentemente, afinal de contas, o que eu lia para vocês agora há pouco, as quatro primeiras linhas, vocês ouvem bem as palavras, vocês supõem que isso queira dizer alguma coisa, assim, alguma coisa, naturalmente vocês não sabem o quê, mas: “Toda arte, toda pesquisa, toda ação … ” tudo isso, o que quer dizer cada uma dessas palavras? De todo modo, foi porque ele colocou muitas em seguida e então isso nos chega impresso, depois de ter sido copiado, assim, durante muito tempo, que supomos que haja alguma coisa que se sus­ tente no meio de tudo isso, e é exatamente a partir do momento em que nos fazemos a pergunta, a única: onde é que isso os satisfazia, coisas desse tipo?
Pouco importa qual tenha sido então seu uso, sabe-se que isso se veiculava, que havia volumes de Aristóteles. Isso nos desconcerta, mesmo assim, e muito pre­ cisamente neste ponto: ’ onde é que isso os satisfazia?‘. Isso só é traduzível deste modo: onde é que teria havido falta para um certo gozo? Dito de outra forma, por que, num texto como este, por que ele se atormentava assim?


A realidade é abordada com os aparelhos do gozo


O necessário, o que lhes proponho acentuar desse modo, o que “não cessa” de quê? Pois bem, justamente “de se escrever”. Essa é uma maneira muito boa de repartir pelo menos quatro categorias modais. Eu lhes explicarei isso em outra ocasião, mas já lhes dou um pouquinho mais desta vez. O que “não cessa de não se escrever” é uma categoria modal que não é justamente aquela que vocês teriam esperado para se opor ao necessário, que seria antes o contingente. Mas imaginem que o necessário está conjugado ao impossível, e esse “não cessa de não se escrever” é sua articulação. Mas deixemos isso … O necessário, na medida em que ele “não cessa de se escrever”, é que, o que se produz é o gozo que não seria preciso/não faltaria.27 É esse o correlato de que não há relação sexual. E é o substancial da função fálica.


Sim, se houvesse outro, não seria necessário que fosse aquele


É também por isso que, se é bem verdade o que eu lhes digo, que eventu­ almente me exaspera, foi daí que parti, supon h o que vocês não se lembrem, é que quando me esqueço de mim Ue m’oublie) ao ponto de … p’oublier, ou seja, de toutblier34 -há um ‘tudo’ nisso -, pois bem, eu mereço ter de aguentar isso.
Aguentar que seja de mim que falem, e não, não do meu livro. Exatamente como aconteceu - por toda parte é a mesma coisa - em Milão, onde talvez não fosse exatamente de mim que falassem quando diziam que para mim, as mulheres não existem, mas não era certamente daquilo que eu acabara de dizer.


aquilo que costuma­ mos ver surgir no lugar do Real, ou seja, o fantasma


E, afinal de contas, se Aristóteles não se compreende tão facilmente por causa da distância que nos separa dele, está bem aí o que justificava, quanto a mim, eu lhes dizer que ler não é, de modo algum, algo que nos obrigue a compreender - é preciso lê-lo primeiro.


  • eu não fui ‘excluído’, eu me retirei, o que é bem diferente

mas Pnfim, o que importa? Não chegamos a esse ponto, sobretudo porque esses termos, ‘excluído’, ‘excluir’, em nossa topologia, têm toda sua importância. Pessoas bem-intencio­ nadas ficaram, em suma, surpresas de ouvir dizer - era apenas um eco - mas cor n o essas pessoas, Deus meu, é preciso dizê-lo, eram da pura tradição filo­ sófica - daquela que se prevalece disso, razão pela qual eu digo pura - não há nada de mais filosófico do que o materialismo, e o materialismo se crê obrigado, Deus sabe por quê - é o caso de dizê-lo - a se precaver contra esse Deus, sobre o


“a escrita é, no real, a erosão do significado”


qual eu disse que ele dominou, na filosofia, todo o debate do amor … O mínimo que se possa dizer é que houve certo mal-estar, tendo em vista a ponte, o tram­ polim, a manutenção para mim de ur n a audiência que me fora oferecida a par­ tir dessa intervenção calorosa: é que eu colocava entre o homem e a mulher um certo Outro, com O maiúsculo, e no dizer daqueles que se faziam veículos desinteressados desse eco, um certo Outro que parecia não ser nada menos do que o bom e velho Deus de sempre.


Evidente­ mente, eles ouvem, ouvem, mas infelizmente eles compreendem e o que com­ preendem é um pouco precipitado.


em que, justamente, ele existe, esse bom velho Deus. O modo sob o qual ele existe não agradará talvez a todo o mundo e especialmente não aos teólogos, que são, como eu já disse há tempos, bem mais fortes do que eu em prescindir da existência dele. In f e­ lizmente, não estou inteiramente na mesma posição porque, justamente, tenho de lidar com o Outro. Esse Outro que, se há apenas Um sozinho, deve ter bem alguma relação com o que aparece, então, do outro sexo.


Salvo, é claro, aqueles sobre os quais eu disse há pouco, inci­ dentalmente, que eles me odeiam sob o pretexto de que me dessupõem o saber


esse ser, tal como ele se sustenta na tra­ dição filosófica, isto é, onde ele se assenta no próprio pensar, que supostamente é seu correlato, pois bem, que a isso muito precisamente eu oponha que, nesse mesmo caso, somos enganados pelo gozo, que o pensamento é gozo, que o que traz o discurso analítico é o que já estava esboçado na filosofia “do ser” (entre aspas), ou seja, que há gozo do ser.


E o ser da significância, eu não vejo em que eu rebaixe os ideais - os ideais, eu disse - porque está inteiramente fora dos limites da épura do materialismo, inteiramente fora dos limites de sua épura, reconhecer que a razão desse ser da significância é o gozo, na medida em que ele é gozo do corpo.


Parece-me já ter escandido - estou premido pelo tempo - parece-me já ter escandido que, para tomar as coisas do lado em que, logicamente: Quantifica­ dor t. x, isto é, todo x é função, função matemática de .D de x … Isso que dizer que do lado em que (o homem) se coloca, em suma, por escolha … as mulheres são livres de aí se colocarem também se isso lhes der prazer, hem? Todos sabem que há mulheres fálicas. É claro que a função fálica não impede os homens de serem homossexuais, mas é também ela que lhes serve para se situar como homens e abordar a mulher.
Como eu tenho de falar de outra coisa - da mulher, precisamente - passo rapidamente, pois suponho que já lhes repeti isso o suficiente para que vocês o tenham na cabeça. Eu digo que, a menos que haja castração, ou seja, algo que diga não a essa função fálica - e Deus sabe que não é simples - não há chance alguma de que o homem goze do corpo da mulher, em outras palavras: faça o amor. Este é o resultado da experiência analítica. O que não impede que ele possa desejá-la de todas as maneiras, mesmo quando essa condição não é reali­ zada: não somente ele a deseja cor n o lhe faz todo tipo de coisas que se asseme­ lham surpreendentemente ao amor.
Ao contrário do que afirma Freud, é o homem, quero dizer, aquele que se sente macho sem saber o que fazer com isso, e sendo ao mesmo tempo ser falante, que aborda a mulher, cor n o se diz, que pode mesmo crer que a aborda, porque a esse respeito, as convicções de que eu falava na última vez, as con­ vicções29 não faltam. Só que, o que ele aborda, porque ali está a causa de seu desejo, é o que designei cor n o objeto pequeno a, aí está o ato de amor, justa­ mente. Fazer amor, cor n o o nome o indica, isso é poesia, mas há um mundo entre a poesia e o ato. O ato de amor é a perversão polir n orfa do macho, isso no ser falante. Não há nada mais garantido, mais coerente, mais estrito quanto ao discurso freudiano.


eu vejo meus alunos muito menos aplicados à minha leitura do que o aluno mais medíocre quando é movido pelo desejo de ter um mestrado; não há um só de meus alunos que não tenha feito ur n a trapalhada sobre não sei o quê, a falta de significante, o significante da falta de significante e outros palavreados a respeito do falo


Há um gozo - digamos a palavra - um gozo ‘dela’, dessa ela que não existe, que não significa nada. Há um gozo, há um gozo dela, do qual talvez ela mesma não saiba nada, a não ser que o experimenta, isso ela sabe. Ela sabe, é claro, quando isso acontece. E isso não acontece com todas elas.
Mas enfim, sobre o tema da pretensa frigidez, afinal, é preciso levar em conta a moda também e as relações entre os homens e as mulheres, isso é muito importante. Pois, bem entendido, tudo isso, como no amor cortês e, infeliz­ mente, no discurso de Freud, está recoberto por considerações menores que exerceram suas devastações exatamente como o amor cortês; toda espécie de considerações menores sobre o gozo clitoridiano, sobre o gozo que chamamos, como podemos, de ‘o outro’, justamente aquele que eu estou tentando fazer vocês abordarem pela via da lógica, porque até segunda ordem, não há outra.
Há uma coisa certa e que, de todo modo, deixa alguma chance ao que eu proponho - que, desse gozo, a mulher nada sabe - é que já faz tempo que lhes suplicamos, que lhes suplicamos de joelhos - e eu falava, na última vez, das psicanalistas mulheres - que tentassem ao menos nos dizer algo, abordar isso.
Pois bem, nada. Nem uma palavra. Nunca pudemos tirar nada delas. Então chamamos isso como podemos: gozo vaginal, o polo posterior do focinho do útero e outras bobagens, é caso de dizer. Mas afi n al, se elas simplesmente o experimentassem e não soubesse nada a respeito, isso permitiria também lan­ çar muitas dúvidas do lado da famosa frigidez de que eu falava há pouco, não é? E que é também um tema literário, não é?


BLOCH, 0., WARTBURG, W.Von. Díctionnaire étt p nologique de la langue fr ançaise. Paris: PUF, 1975.


D’ ANVERS, H. Amour est tout


Há algumas pessoas e, justamente, na maioria das vezes mulheres, ou então pessoas de talento, como São João da Cruz … sim, porque não se é obrigado, quando se é macho, a se colocar do lado V x . .P x., pode-se também se colocar do lado do ‘não todo’. Há homens que estão nesse lugar tanto quanto as mulheres, isso acontece, e que se acham bem aí. Eles entreveem, digamos, apesar … enfim, eu não disse apesar de seu falo, apesar do que os atrapalha, a esse título, eles experimentam a ideia, em todo caso, de que em algum lugar poderia haver um gozo que estivesse além. É o que se chama de místicos.


Eu creio no gozo d’ A mulher, na medida em que ele é ‘a mais’, com a condição de que esse ‘a mais’, vocês coloquem aí uma cortina, até que eu o tenha bem explicado.


Em outras palavras, não foi por acaso que Kierkegaard42 descobriu a existência numa pequena aventura de sedutor. E se castrando, é renunciando ao amor, que ele pensa alcançá-la. Mas talvez, afinal de contas, por que não? Regina, também ela talvez 11 ex-sistisse”. Esse desejo de um bem, em segundo grau, que não fosse causado por um pequeno a, era talvez por intermédio de Regina que ele tinha essa dimensão.


quando uma passagem ao ato de meus colegas psica­ nalistas me forçou a pôr um fim nele


Esse fantasma constitui também, para esse sujeito, na medida em que ele está preso nele, como tal, o suporte do que é chamado expressamente, na teoria freudiana, de princípio de realidade.


Se ele não é simplesmente esse lugar onde a verdade balbucia, esse Outro merece, de algum modo, representar aquilo a que JÁ mulher tem relação, como na última vez eu lhes disse, de um modo de certa forma metafórico. Desde o início, do qual se articula o inconsciente, JÁ mulher - e certamente só temos disso testemunhos esporádicos, por isso os tomei em sua função de metáfora - tem fundamentalmente essa relação ao Outro por estar, na relação sexual, relacionada ao que se enuncia, ao que pode ser dito do inconsciente, radical­ mente o Outro. Ela é o que tem relação a esse Outro, e é isso que eu gostaria hoje de tentar articular mais de perto. E ao significante desse Outro, na medida em que, como Outro, ele só pode permanecer sempre Outro. Certamente, aqui só podemos proceder por um trilhamento tão difícil que não é possível apreen­ der nenhum.9 E é por isso que, me aventurando, como faço cada vez, diante de vocês, só posso aqui supor que vocês evocarão - e, para tanto, preciso lembrar­ lhes - que não há Outro do Outro. É por isso que esse significante, com esse parêntese aberto, marca esse Outro como barrado S(J Á ).


precisamos qualif i car todos de gadgets, aos quais vocês são agora sujeitos, infinitamente mais longe do que pensam. Todos esses instrumentos, Deus meu, do microscópio à rádio-televisão, tornam-se ele­ mentos da existência de vocês. Isso é algo cujo alcance vocês não podem nem mesmo avaliar atualmente, mas não deixa de fazer parte do que eu chamo de discurso científico, na medida em que um discurso é o que determina, como tal, uma forma completamente renovada de laço social.


é enquanto seu gozo é radicalmente Outro que, em suma, A mulher tem mais relação com Deus do que tudo o que se pode dizer, seguindo a via do que manifestamente, em toda a especulação da antiguidade, só se articula como o Bem do homem.
Em outros termos, se nós pudermos - o que é nosso fim, o fim de nosso ensina­ mento, na medida em que ele persegue o que se pode dizer e enunciar do dis­ curso analítico - dissociar esse pequeno a e esse grande A, reduzindo o primeiro ao que é do imaginário, e o outro, ao que é do simbólico. Que o simbólico seja o suporte do que foi feito Deus, está fora de dúvida; que o imaginário é o que é sustentado por esse ref l exo do semelhante ao semelhante, é o que é certo.


Os perversos, começamos, de todo modo, a encontrar alguns deles, não é? Aqueles que Aristóteles não queria absolutamente ver, de modo algum


Vimos que há neles uma subversão da conduta, apoiada, se posso assim dizer, num saber-fazer, que está ligado inteiramente a um saber, e ao saber, Deus meu, da natureza das coisas, uma embreagem direta, se posso dizer assim, da conduta sexual, sobre - é preciso dizê-lo - o que é a verdade dessa conduta sexual, ou seja, sua amoralidade. Ponham 11 alma” aí, no início, se vocês quise­ rem: 11 almoralidade”.
Há uma moralidade - eis a consequência - uma moralidade da conduta sexual, que é o subentendido de tudo o que foi dito do Bem. Só que, à custa de dizer, de falar do bem, isso leva a Kant, onde a moralidade - em duas pala­ vras, desta vez - confessa o que ela é. E foi o que pensei que devia propor num pequeno artigo, II Kant com Sade”, ela confessa que ela é Sade, a moralidade.
Vocês escreverão Sade como quiserem, com S maiúsculo, para homenagear esse pobre idiota, que nos deu, sobre isso, escritos intermináveis; ou com um s minúsculo, para dizer que é, afinal de contas, a maneira dela de ser agradá­ vel, pois é uma antiga palavra francesa34 que quer dizer isso. Ou então, melhor ainda, com c cedilha 11 çade”, ou seja, que a moralidade, de todo modo, é preciso dizê-lo, termina no nível do ça (isso), e isso é bastante curto.


Não é porque há animais que vêm a ser falantes - para quem, por habita­ rem o sign i ficante, resulta que sejam sujeitos dele e que tudo para eles esteja em jogo no nível do próprio fantasma, de um fantasma perfeitamente desarticulá­ vel, de um modo que dê conta de que eles sabem muito mais do que pensam, quando agem - não basta que seja assim para que tenhamos aí o começo de uma cosmologia.
Essa é a eterna ambiguidade do termo inconsciente, não é? O inconsciente é suposto sob o pretexto de que no ser falante, há em algum lugar algo que sabe mais do que ele, e é claro, o que ele sabe tem limites, é claro, o ser do inconsciente. Mas enfim, esse não é um modelo aceitável do mundo. Em outros termos, não é porque basta que ele sonhe para … 39 que ele veja aparecer esse


imenso bricabraque, esse guarda-móveis com o qual ele, particularmente, tem de se virar, o que faz disso seguramente uma alma, e uma alma eventualmente amável, quando algo se dispõe a amá-la.


Havia alguém, de nome Empédocles,40 do qual, como por acaso, Freud se serviu de vez em quando, como de um saca-rolhas. Havia alguém de nome Empédocles, de quem só sabemos três versos, mas do qual Aristóteles tira con­ sequências, quando enuncia que, em suma, para Empédocles, o Deus era o mais ignorante de todos os seres, e isso muito precisamente por não conhecer o ódio.
Foi o que mais tarde os cristãos transformaram em dilúvios de amor, mas infe­ lizmente isso não cola, porque não conhecer o ódio é também não conhecer o amor. Se Deus não conhece o ódio, está claro, para Empédocles, que ele sabe menos sobre isso do que os mortais. De modo que se poderia dizer que, quanto mais o homem prestar-se, para a mulher, a confusão com Deus, isto é, com aquilo de que ela goza, menos ele odeia (iZ hait)jmenos ele é (il est) - com as duas ortografias41 - e nesse caso também, já que afinal não há amor sem ódio, menos ele ama.


Eu gostaria bem de ter, de vez em quando, uma resposta, ou mesmo um protesto. Não tenho muita esperança, pois uma das pessoas que outrora me deu essa satisfação - é verdade que só lhe supliquei que cumprisse esse papel há cerca de meia hora - pediu-me para desistir. Mas se houvesse alguém, que, por acaso, do que eu disse na última vez e que me fez sair daqui, eu mesmo, digamos, bastante inquieto, para não dizer mais, e que à releitura revelou-se para mim mesmo perfeitamente suportável - este é o meu modo de dizer que estava muito bom - eu não ficaria descontente se alguém pudesse me dar o testemunho de ter ouvido alguma coisa do que eu disse. Bastaria que uma mão se erguesse, para que a essa mão, se posso dizer assim, eu desse a palavra. Vejo que ninguém se manifesta, de modo que preciso continuar. Não será talvez tão bom desta vez


não se conhece amor sem ódio


Certamente, esse imaginário, eu o designei expressamente com o I, aqui isolado, do termo imaginário, e não é senão pelo revestimento da imagem de si, que vem envolver o objeto causa de desejo, que se sustenta, na maioria das vezes - esta é a própria articulação da análise - a relação objetai.


E, no entanto, não se pode dizer que essa rede que foi levada tão longe, a da lógica matemática, precisamente, na medida em que, face ao que culminou com uma filosofia que foi bem forçada a sair de suas próprias trincheiras - o ponto culminante foi Hegel - não se pode dizer que, diante dessa plenitude dos contrastes dialetizados na ideia de uma progressão histórica, da qual nada nos atesta a substância, não se pode dizer que, diante disso, o que se enuncia por essa formalização tão bem feita que só se sustenta pelo escrito, ou seja, algo que não nos serve, que não nos serviria, se fosse preciso, no processo analítico, senão pelo que aí se designa: aquilo que retém os corpos invisivelmente?


E onde se designa esse algo, centrando o Simbólico, algo que importa, com a condição, é claro, de saber servir-se dele. Mas servir-se para quê? Para reter uma verdade congruente. Não a verdade que tem a pretensão de ser toda, mas aquela, justamente, com a qual temos de lidar, a de um ‘meio-dizer’, a que evita chegar à confissão, confissão que seria o pior, a que se resguarda, desde a causa do desejo


o que é S(A) senão a impossibilidade de dizer toda a ver­ dade, de que eu falava há pouco.


A verdade, então, a verdade é isso, só que não se alcança nunca, a não ser por vias tortuosas. A verdade - que habitualmente somos levados a invocar - é preciso simplesmente lembrar, para não se enganar, que não se deve crer que já se está mesmo no semblant. E que antes do semblant, pelo qual, efetiva­ mente, tudo se sustenta para se relançar no fantasma, que antes disso, deve ser feita uma distinção severa do Imaginário e do Real. Não se deve crer que esse semblant, sejamos, de alguma forma, nós mesmos que o sustentemos. Nós não somos nem mesmo semblant. Somos, eventualmente, o que pode ocupar seu lugar e fazer reinar aí, o quê? Aquilo que, seguramente, para nos limitarmos a este imediato de hoje, nos permite dizer que, afinal de contas, o analista, em todas as ordens de discurso que são aquelas, em todo caso, que se sustentam atualmente - e esta palavra, atualmente, não é pouca coisa, se dermos ao ato seu pleno sentido aristotélico - de todos os discursos que se sustentam atual­ mente, é realmente o analista que, pondo o objeto a no lugar do semblant, está


na posição mais conveniente para fazer o que é justo fazer, ou seja, interrogar, interrogar como saber o que se refere à verdade.


O estatuto do saber implica, como tal, que já há saber e, no Outro, que ele é para ser tomado (à prendre), é por isso que ele é feito de aprender (apprendre).
O sujeito resulta de que ele deva ser aprendido (appris), esse saber, e mesmo avaliado (mis à prix), ou seja, é seu custo que o avalia, não como valor de troca, mas como de uso. O saber vale exatamente na medida em que ele custa beau­ coup (muito) - escrevam beau-cout (belo custo) - porque se tem de deixar aí a própria pele, pois é difícil. Difícil de quê? Pois bem, menos de adquiri-lo do que de gozar dele


No gozar, sua conquista, a desse saber, se renova a cada vez que esse saber é exercido, o poder que ele dá permanecendo sempre voltado para o seu gozo. É estranho que isso nunca ten h a sido ressaltado, que o sentido desse saber esteja inteiramente aí, que a própria dificuldade de seu exercício seja o que realça a de sua aquisição. É porque a cada exercício essa aquisição se repete, que não se coloca como questão qual dessas repetições, qual delas deve ser posta como primeira, no que foi aprendido.


saber de um próprio Marx, na política, que não é pouca coisa, pois bem, não se faz “commarxe”, se vocês me permitirem, da mesma forma que do de Freud não se pode fazer 1 fraude’. Basta olhar para ver que, por toda parte onde não são encontrados, esses saberes … Não tê-los feito entrar na pele, através de duras experiências … Pois bem, isso logo cai, isso não se importa, nem se exporta. Não há informação que permaneça, senão na medida de um 1 formado pelo uso’.


Marx e Lênin … Freud e Lacan não são acoplados no ser. E pela letra que eles encontraram - encontraram no Outro - que, como seres de saber, eles pro­ cedem, dois a dois, num Outro suposto. O novo que há em seu saber é que não está suposto que o Outro saiba alguma coisa disso. Não, bem entendido, o ser que aí fez letra, pois foi do Outro que ele fez letra, à sua custa, à custa de seu ser, Deus meu, e para cada um, não de nada … Mas também não de muito …
Para dizer a verdade,23 esses seres, de onde se faz a letra,Z4 eu vou lhes fazer sobre eles uma pequena confidência. Não creio, apesar de tudo o que puderam dizer, por exemplo, de Lênin, que o ódio (la haíne) nem o amor (l’amour), que a hainamoration, que isso tenha realmente sufocado algum deles. Não me venham com histórias a respeito da Sra. Freud, sobre isso tenho o testemun h o de Jung.
Ele dizia a verdade, e esse era mesmo seu erro: ele só dizia isso.


Sim, o que atrapalha é isso, é que o Outro, o lugar (le lieu), como eu lhes disse, não saiba nada. Não se pode mais odiar Deus, se ele próprio não sabe nada, nada do que acontece, notadamente. Quando se podia odiá-lo, podia-se acreditar que ele nos amava, pois ele não nos retribuía. Isso não era aparente, embora em certos casos tenham forçado isso.
En f im, como estou chegando ao cabo desses discursos que tenho a coragem de prosseguir diante de vocês, eu gostaria - já que é uma ideia que me vem e que, afinal de contas, é uma ideia sobre a qual eu refleti um pouquinho, não é?
É que o Cristo, em suma, cujo infortúnio é explicado por uma ideia de salvar os homens, eu acho que era mais de salvar Deus que se tratava, devolvendo, enfim, um pouco de presença, de atualidade, a esse ódio de Deus, sobre o qual, é claro, nós somos, e por isso mesmo, um tanto apáticos. E por isso que eu digo que a imputação do inconsciente é um fato de caridade incrível. Eles sabem, eles sabem, os sujeitos. Mas enfim, apesar disso, eles não sabem tudo (ils ne savent pas tout). No nível desse pas tout (‘não todo’ /‘não tudo’), só resta o Outro a não saber, é o Outro que faz o pas tout, na medida em que ele é a parte do “pas savant du tout” (“do que não sabe absolutamente nada”), nesse pas tout.


Eu não lhes falo muito do que é publicado, quando se trata de algo meu, sobretudo porque, de modo geral, preciso esperar bastante para que, para mim, o interesse daquilo se distancie


distância que há do dizer ao dito


que só podemos tratar do inconsciente a partir do dito, e do dito do analisante


a linguística estrutural


linguística dita transformacional


oposição da estrutura de superfície à estrutura de profundidade


Temos, portanto, duas possibilidades para a teoria linguística transfor­ macional: por um lado, ser intencional realista, por outro lado, ser extensional nominalista.


Pois o próprio do dito é o ser, cor n o eu lhes dizia há pouco, mas o próprio do dizer é ’ ex-sistir’ com relação a qualquer dito que seja


Eu penso em vocês. Isso não quer dizer que eu os pense


como uma ciência ainda (encare) - depois do que se pode dizer do inconsciente - ainda é possível?


O inconsciente … - eu começo pelas min h as fórmulas difíceis, que suponho devam ser assim - o inconsciente … - tudo o que desenvolverei hoje vai tornar isso mais acessível, mas eu dou aqui minhas fórmulas - “o inconsciente não é que o ser pense”, como está, contudo, implicado no que dizem dele, isso na ciência tradicional. “O inconsciente é … ” - depois de dizer o que ele não é, digo o que ele é - ” … é que o ser, falando … ” - quando é um ser que fala - ” … é que o


ser, falando, goze”. E eu acrescento: “e não queira saber nada, mais nada disso.” E acrescento que isso quer dizer: “não saber nada de nada.”


Tudo indica, é esse o sentido do inconsciente, não só que o homem já sabe tudo o que ele tem a saber, mas que esse saber é perfeitamente limitado a esse gozo insuficiente, que constitui que ele fale.


O taoísmo, por exemplo, ou outras doutri­ nas da salvação, para as quais a questão não é de verdade, mas de via, como indica o nome tao. De via, se elas conseguirem prolongar alguma coisa que se assemelhe a isso.


tendo até mesmo como efeito que há pessoas que são gentis, elas fazem como os cães, apanham a bola para mim e a trazem de volta, trouxeram-na de volta


É assim que Freud re-salva o pai, no que ele imita Jesus Cristo, modestamente, sem dúvida. Ele não se empenha muito nisso, mas contribui, com sua pequena parte, como o que ele é, ou seja, um bom judeu, não totalmente inteirado. Isso é excessivamente difun­ dido … E preciso que sejam reagrupados para que eles tomem o freio nos dentes.


quando ele é suposto pensar secreto, ele tem secreções, quando é suposto pen­ sar concreto, ele tem concreções, quando é suposto pensar informação, ele tem


hormônios, ou então ele se aplica ao A.D.N.,23 Adonai, Adônis, enfim, tudo o que vocês quiserem …


“eu te peço que recuses o que te ofereço, porque não é isso


Da mesma forma eu não disse 11 por­ que é só isso”, eu disse “porque não é isso.”. É o grito pelo qual se distingue o gozo obtido do gozo esperado: é onde se especifica o que se pode dizer na linguagem. A negação tem toda a aparência de vir daí, mas nada além disso. A estrutura, por se ligar aí, não demonstra nada senão que ela é do próprio texto do gozo, na medida em que, ao marcar de que distância ele falta, aquele (gozo) de que se trataria, se fosse isso, ela não apenas o supõe, aquele que seria isso, ela sustenta um outro.


Aristóteles era bastante inteligente para isolar no intellect-agent aquilo de que se trata na função do Simbólico. Ele simplesmente viu que era ali, no Simbólico, que o intelecto devia agir. Mas ele não era bastante inteligente, não o suficiente, não tendo gozado com a revelação cristã, para pensar que uma palavra, mesmo que fosse a dele, para designar esse vou. ; que só se sustenta pela linguagem, dissesse respeito ao gozo que, no entanto, se designa em sua obra, metaforicamente, por toda parte. Porque toda essa história da matéria e da forma, o que é tudo isso, o que isso sugere como velha história relativa à copulação? Isso lhe teria permitido ver que não é isso, de modo algum, que não há o menor conhecimento. O mínimo que se possa dizer é que os gozos, que sustentam seu semblant, são algo como o espectro da luz branca. Com a ún i ca condição que se veja que o gozo de que se trata está fora do campo desse espec­ tro. Trata-se de metáfora.


Vou lhes fazer uma pergunta: que importância pode ter, na doutrina cristã, que Cristo tenha uma alma? Essa doutrina só fala da encarnação de Deus num corpo, e que é preciso que a paixão sofrida nessa pessoa tenha feito o gozo de uma outra. Não há nada que falte ali, especialmente alma. O próprio Cristo, ressuscitado, vale por seu corpo e seu corpo é o meio pelo qual a comunhão com sua presença é in-cor p o-ração,31 pulsão oral, com a qual a esposa de Cristo, a Igreja, como é chamada, se contenta perfeitamente, não tendo nada a esperar de uma copulação …


A dit-mension32 da obscenidade, é por aí que o cristianismo reaviva a reli­ gião dos homens. Não vou lhes dar uma definição da religião, porque não há história da religião como também não há história da arte. As religiões são como as artes, uma lixeira, não têm a menor homogeneidade.


Há aí um buraco e esse buraco se chama o Outro, pelo menos foi assim que pensei poder denominá-lo. O Outro, enquanto lugar onde a palavra (p arole), por ser depositada-prestem a atenção nas ressonâncias-funda a verdade e, com ela, o pacto que faz suplência à inexistência da relação sexual, na medida em que ele seria pensado, pensamento pensável. Em outras palavras, o discurso não seria reduzido anãopartir-lembrem-sedotítulodeumdosmeusseminários-senãodosemblant.34 Que o pensamento só aja no sentido de uma ciência sendo suposto ao pensar, isto é, que o ser seja suposto pensar, é isso que funda a tradição filosóf i ca a partir de Parmênides


O mais inverossímil, a história louca, aquela que, quanto a mim, faz o delí­ rio de min h a admiração, eu me curvo até o chão, quando leio Santo Tomás, porque é incrivelmente bem feito. Para que a filosofia de Aristóteles tenha sido reinjetada por Santo Tomás no que se poderia chamar de ’ consciência cristã’, se isso tivesse um sentido, é algo que pode ser explicado porque … Enfim, é como para os psicanalistas … Os cristãos têm horror37 do que lhes foi revelado, e eles têm toda a razão.


Essa hiância inscrita no próprio estatuto do gozo, enquanto dit-mension do corpo, isso no ser falante, é o que reaparece com Freud, através desse teste - eu não digo nada a mais - que é a existência da palavra (p aro/e). Onde isso fala, isso goza. O que não quer dizer que isso saiba alguma coisa, porque, de todo modo, até segunda ordem, o inconsciente não nos revelou nada sobre a fisiologia do sistema nervoso, não? Nem mesmo sobre o funcionamento da ereção, ou das ejaculações precoces …


No taoísmo, por exemplo, vocês certamente não sabem o que é, muito pou­ cos o sabem, enfim, eu o pratiquei - pratiquei os textos, evidentemente - no taoísmo, e o exemplo disso é patente na própria prática do sexo, é preciso reter a ejaculação4° para ficar bem. O budismo, é claro, é o exemplo trivial por sua renúncia ao próprio pensamento, porque o que há de melhor no budismo é o zen e o zen consiste nisso, em lhe responder com um latido,41 meu caro amigo


vocês sabem que mártir quer dizer testemun h a - mártires de um sofrimento mais ou menos puro. Isso foi nossa pintura, até que se fizesse o vazio, começando seriamente a se ocupar de ‘quadradinhos’


A economia do gozo, isso é algo que não está ainda ao alcance de nossa mão, contudo, é importante, haveria um pequeno interesse que chegássemos lá.
Mas para lhes dizer o que se pode ver disso, a partir do discurso analítico, é que talvez tenhamos uma pequena chance de encontrar algo, de vez em quando, por vias essencialmente contingentes … E é por isso que, se meu discurso de hoje não fosse algo de absolutamente, de inteiramente negativo, eu recearia ter entrado no discurso filosófico. Mas mesmo assim, há uma via, pois já vimos algumas sabedorias que duraram um bocado de tempo. Por que não encontra­ ríamos, com o discurso analítico, algo que desse uma ideia de um truque pre­ ciso? E afinal, o que é a energética, senão também um truque matemático? Este não será matemático, é por isso mesmo que o discurso do analista46 se distingue do discurso científico. Enfim, essa chance, vamos colocá-la sob o signo da boa sorte, ainda (encare).


A visaram-me esta manhã, enquanto eu estava trabalhando, no último momento de meu trabalho, que no dia 12 de junho a sala estaria ocupada com exames orais. De todo modo, eu não tinha a intenção de me encontrar com vocês no dia 12 de junho por ser a terça-feira de Pentecostes. No dia 19 de junho os exames continuarão, portanto, não posso prever se poderei continuar no dia 19 o que enuncio este ano. Façam como quiserem, tentem a sorte, façam uma petição, enfim, o que acharem melhor. E este o ponto. E evidente que, como só fui avisado esta manhã, não pude preparar as coisas de modo a fazer hoje a conclusão, se é que em algum desses anos houve propriamente uma conclusão, pois forçosamente o que lhes enuncio não pode senão permanecer, até certo ponto, em aberto. Não é um privilégio. As coisas, cada ano, ficam em aberto sobre certo número de pontos, em suspenso. Aliás, é sobre isso que terei hoje de me estender amplamente


Eu vou dizer, é minha a função, vou dizer uma vez mais, porque eu me repito, vou dizer uma vez mais o que é do meu dizer, e que se enuncia “não há metalinguagem”. Quando eu digo isso, falo aparentemente da linguagem do ser, à parte, bem entendido, que, como assinalei na última vez, o que eu digo é o que não há. O ser é, em outras palavras,4 o não-ser não é. Há ou não há.


Eu digo, portanto, sempre mais do que sei.


Essa discordância do saber e do ser é o que é nosso tema.12 Isso não impede que se possa dizer também que aí não há discordância, quanto ao que conduz o jogo, segundo meu título deste ano, Encare. É a insuficiência do saber pela qual estamos ainda (encare f en cor p s)13 tomados, e é por aí que esse jogo do Encare se conduz, não que sabendo mais ele nos conduzisse melhor, mas haveria talvez melhor gozo: acordo entre o gozo e seu fim. Ora, o fim do gozo - é o que nos ensina tudo o que Freud articula do que ele chama, inconsideradamente, de pulsão parcial - o fim do gozo está desvinculado daquilo a que ele conduz, ou seja, a que nós nos reproduzamos.


Quando vocês rabiscam alguma coisa, algo de que certamente eu também não me privo, pois é com isso que preparo o que tenho a dizer, é notável que seja preciso se assegurar com o escrito


Então, quando vocês rabiscam, como se diz, é sempre sobre uma página e com linhas, e assim nos vemos imediatamente mergulhados na história das dimensões.


O objeto a não é nenhum ser, o objeto a é o que supõe de vazio uma demanda.
E afinal de contas, é só definindo-a como situada pela metonímia, isto é, pela pura continuidade assegurada do começo ao fim26 da frase, que podemos ima­ ginar o que pode ser um desejo que nenhum ser sustenta, quero dizer, que é sem outra substância além daquela assegurada pelos próprios nós. E a prova é que, enunciando esta frase: “eu te peço que recuses o que te ofereço”, eu só pude motivá-la com esse “porque não é isso” de que falei, e que retomei na última vez. E que quer dizer que, no desejo de toda demanda, não há senão o pedido desse algo que, com relação ao gozo, seria satisfatório, seria a Lustbe­ f r iedigung, satisfação suposta no que se chama, também impropriamente, no discurso psicanalítico, de pulsão genital, aquela onde se inscreveria uma rela­ ção que seria a relação plena, a relação inscritível, do Um com o que permanece irredutivelmente o Outro.
Foi sobre isso que insisti: o parceiro desse “eu” (j e) que é o sujeito, sujeito de toda frase de demanda, seu parceiro não é o Outro, mas sim esse algo que vem substituí-lo, sob a forma dessa causa de desejo


saber, não passa de um sonho, um sonho do corpo, na medida em que ele fala.
Não há sujeito do conhecimento, há sujeitos que se dão correlatos no objeto a, correlatos de palavra de gozo, enquanto gozo de palavra


Para dizer tudo, a reciprocidade entre o sujeito e o objeto a é total. Para todo ser falante, a causa de seu desejo, quanto à estrutura, é estritamente equivalente, se posso dizê-lo, à sua dobradura, ao que chamei de sua divisão de sujeito. Isso nos explica que, durante tanto tempo, o sujeito tenha podido crer que o mundo sabia tanto quanto ele: é que ele é simétrico, é que o mundo, o que chamei na última vez de “o pensado” (le pense ), é o equivalente, é a imagem em espelho do pensamento (la pensée).28 Por isso, na medida em que o sujeito fantasia, não houve, até o advento da ciência mais moderna, nada além de fantasma, quanto ao conhe­ cimento. E foi isso que permitiu essa escala de seres, pela qual estava suposto num ser, dito Ser Supremo, o que era o bem de todos. O que é também o equivalente disso: que o objeto a pode ser dito, como seu nome o indica, (a)sexuado, e vocês sabem que o Outro só se apresenta para o sujeito sob uma forma (a)sexuada.
Isso quer dizer que tudo o que foi o suporte, o suporte substituto, substi­ tuto do Outro, sob a forma do objeto do desejo, tudo o que se fez dessa ordem é (a)sexuado. E é muito precisamente nisso que o Outro, como tal, permanece na doutrina - não sem que possamos avançar um pouco mais - permanece na teoria freudiana como um problema, expresso no que Freud repetia: “O que quer a mulher?” A mulher sendo, nesse caso, o equivalente da verdade. É por isso que essa equivalência que eu produzi se justifica.


Contudo, para simplesmente começar hoje o que eu poderia lhes dizer ainda, vou lhes mostrar algo. Pois não basta ter encontrado ur n a solução geral do problema para um número infinito de nós borror n eanos, seria preciso ter o meio de mostrar que é ‘a única’ solução


A comunicação implica a referência


6 BATESON, G. Perceval le fou, autobiographie d’un schizophrene.


Dizer que há um sujeito não é nada mais do que dizer que há hipótese. A única prova que tenhamos de que o sujeito se con f unda com essa hipótese, e que seja o indivíduo, o indivíduo falante que o sustente, é que o significante se torne signo.


o inconsciente, ou seja, ” alíngua”


O sujeito nunca é senão pontual e evanescente, ele só é sujeito por um significante e para outro significante.


O significante, como mestre, ou seja, enquanto ele assegura a unidade, a unidade dessa copulação do sujeito com o saber, é isso o significante-mestre


Se é verdade que não há relação sexual, é porque simplesmente, o gozo - o gozo do Outro tomado como corpo - esse gozo é sempre inadequado, perverso, de um lado, na medida em que o Outro se reduz ao objeto a, e eu direi louco, do outro lado, na medida em que se trata da maneira enigmática pela qual se estabelece esse gozo do Outro como tal. Será que não é pelo enfrentamento desse impasse, dessa impossibilidade, definindo como tal um Real, que é posto à prova o amor, já que do parceiro, ele só pode realizar o que chamei - por uma espécie de poesia, para me fazer entender - o que chamei de coragem, diante desse destino fatal? Será mesmo de coragem que se trata ou dos caminhos de um reconhecimento? De um reconhecimento cuja característica não é talvez senão isso: que essa relação dita sexual, que se tornou aí relação de sujeito a sujeito - do sujeito, na medida em que ele não é senão o efeito do saber incons­ ciente - reconhecimento da maneira pela qual essa relação de sujeito a sujeito cessa de não se escrever?


Pois bem, deixo-os fazerem suas apostas, porque afinal de contas, há mui­ tos que acreditam me conhecer e que pensam que encontro nisso uma in f inita satisfação narcísica. Ao lado do trabalho que isso me dá, devo dizer que isso me parece pouca coisa. Façam suas apostas, e depois, qual será o resultado? Isso quererá dizer que aqueles que tiverem adivinhado certo, que eles me amam?
Pois bem, é justamente esse o sentido do que acabo de lhes enunciar hoje: saber o que o parceiro vai fazer não é uma prova do amor.


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