
Seminar 19...ou worse
Seminário 19 - …ou pior (1971-72)
não existe metalinguagem.
O que significa isso? Dizendo-o, eu pareceria estar apenas formulando um paradoxo, pois de que lugar eu diria? Como o digo na linguagem, já seria suficiente afirmar que há um no qual posso dizê-lo.
Nada feito. Todas as vezes que se trata de lógica, é necessário que a metalinguagem seja elaborada como uma ficção. Ou seja, que forjemos no interior do discurso aquilo a que se chama uma linguagem-objeto, mediante a qual é a linguagem que se torna meta. Estou falando do discurso comum, sem o qual sequer existe meio de estabelecer essa divisão. Não existe metalinguagem - nega que essa divisão seja sustentável.
A formulação foraclui na linguagem que exista discordância.
Logo, ao esvaziar esse verbo, faço dele um argumento, isto é, uma substância. Não é dizer, mas um dizer
De fato, vocês estão vendo que, ao simplesmente esboçarmos o primeiro passo, vamos deslizando assim, sem sequer termos tido tempo de nos virarmos, para o centro de alguma coisa a que uma máquina nos leva. É a máquina que eu desmonto. Mas - faço esta observação para uso de alguns - não é para demonstrar que se trata de uma máquina, muito menos para que um discurso seja tomado por uma máquina de discursos, como fazem alguns quando querem, justamente, discorrer sobre o meu. Nisso, o que demonstram é que não discorrem sobre o que faz um discurso, ou seja, o real que nele se esgueira. Desmontar a máquina não é, de modo algum, o mesmo que acabamos de fazer, isto é, ir sem maior cerimônia ao furo do sistema, ou seja, ao real que nele passa - e como passa., já que ele os achata.
A boa teoria é aquela que desbrava o mesmo caminho em que o inconsciente ficou reduzido a insistir. Ele já não teria que fazê-lo, se o caminho estivesse bem aberto, mas nem assim isso quer dizer que tudo estaria resolvido, muito pelo contrário. Uma vez que a teoria daria esse bem estar, ela mesma deveria ser leve, leve a ponto de nem parecer ter algo a ver com isso. Deveria ter a naturalidade que, até hoje, somente os erros têm. Nem todos, é claro, mais uma vez. Mas será que isso torna mais certo haver alguns que sustentam essa naturalidade que em tantos outros é de fachada?
é justamente porque o ser é falante que existe o complexo de castração
nada impede que lhe imputemos, a essa falta, um suplemento de feminilidade. A mulher, a verdadeira, a mulherzinha, esconde-se justamente atrás dessa falta. Esse, aliás, é um requinte em plena conformidade com o que nos ensina o inconsciente, que nunca acerta tanto quanto ao errar .rater..
Nessas condições, para ter acesso ao outro sexo, realmente é preciso pagar o preço, o da pequena diferença, que passa enganosamente para o real por intermédio do órgão, justamente no que ele deixa de ser tomado como tal e, ao mesmo tempo, revela o que significa ser órgão.
Um órgão só é instrumento por meio disto em que todo instrumento se baseia: é que ele é um significante.
É como significante que a transexual não o quer mais, e não como órgão. No que ela padece de um erro, que é justamente o erro comum.
Sua paixão, a do transexual, é a loucura de querer livrar-se desse erro, o erro comum que não vê que o significante é o gozo e que o falo é apenas o significado. A transexual não quer mais ser significado como falo pelo discurso sexual, o qual, como enuncio, é impossível. Existe apenas um erro, que é querer forçar pela cirurgia o discurso sexual, que, na medida em que é impossível, é a passagem do real.
somente a homossexual, escrevam no feminino, sustenta o discurso sexual com toda a segurança
que a mulher só saiba gozar numa ausência
Em vista da hora, só poderei indicar rapidamente, no tocante a tudo o que se coloca como relação sexual, instituindo-a por uma espécie de ficção chamada casamento, que seria uma boa regra o psicanalista dizer-se, quanto a esse ponto - eles que se virem como puderem.
Essa é a regra que ele segue na prática. Ele não o diz, nem sequer a si mesmo, numa espécie de falsa vergonha, por se acreditar no dever de amenizar todos os dramas. É uma herança de pura superstição. Ele banca o médico. O médico nunca se arvorou a assegurar a felicidade conjugal. Mas, como o psicanalista ainda não se apercebeu de que não existe relação sexual, o papel de protetor dos casais o obceca
Será que não há nisso alguma coisa a ser apreendida?
Se é no pomo de uma certa falha do real - indizível, propriamente falando, já que seria ela que determinaria todo discurso - que residem as linhas desse campo, que são as que descobrimos na experiência psicanalítica, não será conveniente, provável, próprio para se induzir, que o que a lógica desenhou, ao relacionar a linguagem com o que é postulado de real, possa nos permitir situar certas linhas, inventá-las?
Eis o esforço teórico que designo por esta leveza que encontraria uma insistência. Não será possível encontrar aí uma orientação?
prosdiorismos
Todo o problema talvez esteja, justamente, em que decerto existem homens e mulheres, e em que, para resumir, eles não fazem nada além de existir.
Não vemos muito bem o que é designado por um existe qualquer, no uso correto que se deve fazer dele, senão a partir do momento em que a lógica se permite descolar-se um pouco do real, na verdade a única maneira que ela tem, em relação a ele, de poder situar-se, isto é, a partir do momento em que ela só se certifica daquela parte do real - que é a matemática - em que é possível uma verdade. Esse existe não é, por exemplo, nada além de um número para satisfazer uma equação.
numa gramática que pretendia ir das palavras ao pensamento, o que já diz tudo. O embarque na semântica é o naufrágio certeiro.
Só há foraclusão do dizer, do fato de alguma coisa que existe poder ser dita ou não
a relação sexual, que não existe - no sentido de que não se pode escrevê-la -, essa relação sexual determina tudo o que se elabora a partir de um discurso cuja natureza é ser um discurso rompido.
É uma pessoa que me admira, como dizem. Para mim, pouco se me dá que me admirem.
O que gosto é que me tratem bem. Só que, mesmo entre essas pessoas, é raro isso acontecer.
É quando escrevo que descubro alguma coisa.
Isto é fato, pelo menos para mim. O que não quer dizer que, se eu não escrevesse, não descobriria nada. Mas, enfim, talvez eu não percebesse.
escrever alguma coisa para me poupar aqui, digamos, do cansaço, ou do risco, ou de uma porção de outras coisas, bem, afinal, isto não dá muito bons resultados. Mais vale eu não ter nada a ler para vocês. O escrito em que faço algumas descobertas, de tempos em tempos, aquele em que posso preparar o que tenho a dizer aqui, não é o mesmo tipo de escrito.
A primeira vez que se entra na lógica propriamente dita, com Aristóteles e os Analíticos, também se recorre à letra, mas não, em absoluto, da mesma forma que quando a letra vem no lugar do significante que retoma. Ela surge ali para marcar um lugar, o lugar de um significante que, por sua vez, é um significante que se espalha, que, pelo menos, pode espalhar-se por toda parte. Mas, afinal, vê-se que a letra foi feita para isso. E de tal maneira que é assim que se manifesta inicialmente.
um campo chamado matemático, e no qual não se pode escrever qualquer coisa. Também não vou me dedicar a ele. Vou sim plesmente assinalar que é nisso que esse domínio se distingue
Aqui
Em outras palavras, não há ensino senão matemático, o resto é brincadeira
a Meta f í sica de Aristóteles
Não é que eu não admire a estupidez .connerie.. Direi mais, eu me prosterno diante dela.
Quanto a vocês, vocês não se prosternam. São eleitores conscientes e organizados. Não votam nos estúpidos .cons.. É aí que saem perden do. Um sistema político bem-sucedido deve permitir que a estupidez tenha seu lugar. E, aliás, as coisas só correm bem quando é a estupidez que impera. Dito isto, não há aí uma razão para nos prosternarmos.
Parmênid e s de Platão
Com efeito, na verdade- como vou dizer isto?-, a estupidez serve de prova quanto à autenticidade. O que predomina é a autenticidade da estupidez. Talvez esse termo, autê n tico, seja sempre meio complicado entre nós, pelas ressonâncias etimológicas gregas. Há línguas em que ele é mais bem representado, por echt. Com isso se faz um substantivo que deve ser Echtheit. Não vem ao caso. Não há nada mais autêntico, aliás, do que a estupidez. Então, talvez essa autenticidade não seja a de Aristóteles, mas a Meta f í sica -ref i ro-me ao texto-, ela é autêntica.
Isso não pode ser feito de pedaços nem fragmentos. Está sempre à altura da estupidez.
O real é o que comanda toda a fu nção da signif i cância. O real é aquilo com que vocês deparam, justamente por não poderem escre ver em matemática seja o que for. O real é o que concerne a que, no que é a fu nção mais comum, vocês se banham na significância, mas não podem segurá-los todos ao mesmo tempo, os significantes. Isso é proibido pela própria estrutura deles. Quando vocês têm alguns, um embrulho deles, não têm os outros. Eles são recalcados. Isso não significa que vocês não os digam, aind a as sim. Justamente, vocês os dizem inter, eles são interditos. O que não os impede de dizê-los. Mas vocês os dizem censurados. Ou tudo o que é a psicanálise não tem nenhum sentido, deve ser jogado no lixo, ou o que estou lhes dizendo com isto deve ser a sua verdade primeira.
Naturalmente, há nisso algo de arbitrário. Não vou me desculpar, refugiando-me com os matemáticos. Eles fazem o que querem, e eu também, aliás.
Gozar é usufruir de um corpo. Gozar é abraçá-lo, é estreitá-lo, é picá-lo em pedaços. No direito, ter o usufruto de algo é justamente isso, é poder tratar alguma coisa como um corpo, ou seja, demoli-la, não é? Essa é a modalidade mais regular de fruição, e é por isso que esses enunciados têm sempre uma ressonância sadiana
Como vocês acreditam saber o que é a castração, penso que ficarão contentes, ao menos por um momento. Mas creiam que, se escrevo tudo isto no quadro - e vou continuar-, é justamente porque eu, de minha parte, absolutamente não sei o que é a castração, e espero, com a ajuda deste jogo de palavras, chegar a que fi nalmente o dia clareie, isto é, que saibamos que a castração é algo por que é preciso passar.
Enquanto não soubermos disso, não haverá discurso sadio, ou seja, que não deixe na sombra metade de seu status e de seu condiciona mento. E só o saberemos depois de pôr em jogo, em diferentes níveis de relações topológicas, uma certa maneira de mudar as letras e ver como isso se distribui.
todos os significantes não podem estar presentes ao mesmo tempo,
desse primeiro trabalho lógico, pelo qual Aristóteles foi o responsável. O que lhe deu tamanho prestígio decorre do fato de que isso é fantasticamente gozoso, a lógica, justamente porque se atém ao campo da castração.
Que haja desde o início o homem e a mulher é, para começar, uma questão de linguagem
O que a lógica se propunha tratar, inicialmente, em sua ambição de conquista, não era nada menos do que a rede do discurso na medida em que ela se articula. Ao se articular, essa rede deveria fechar-se num universo que supostamente encerraria e cobriria como uma malha fi na o que era oferecido ao conhecimento. A experiência lógica mostrou que isso acontecia de outra maneira.
O discurso ingênuo como tal inscreve-se de imediato como verdade.
Ora, desde sempre pareceu fácil demonstrar a esse discurso que ele não sabe o que diz. Não estou falando do sujeito, falo do discurso.
Esse é o começo da crítica do sofista. A qualquer um que enuncie o que é sempre postulado como verdade, o sofista demonstra que ele não sabe o que diz. Essa é a origem de toda dialética.
Digo isto para todos os analistas, para aqueles que se arrastam, que dão voltas, atrapalhados com as relações edipianas do lado do Pai.
Quando eles não saem daí, não saem do que se passa do lado do Pai, isso tem uma causa muito precisa: é que seria preciso o sujeito admitir que a essência da mulher não está na castração.
O corte é f eito num ponto que não é, de modo algum, especialmente desejável
realiz a r através de um trabalho
Existe uma resposta para essa pergunta, como para qualquer uma, em razão de que só a formulamos, como toda pergunta, quando já temos a resposta. V ocês a têm, portanto, mesmo que não saibam. A esta pergunta, que é isso, a necessid a de?, vocês já respondem ao fazerem logicamente sua bricolagem de todos os dias, essa bricolagem feita por um certo número dos que aqui se encontram, ao estarem comigo em análise. Há alguns, não-todos, é claro, que vêm confiar-se a mim, aliás sem poderem ter, antes de certa decisão tomada, o sentimento de que, ao virem me ver, eles supõem que eu mesmo seja essa bricolagem. Ao fazerem essa bricolagem, portanto, todos, mesmo os que não a confiam a mim, já respondem à pergunta. Como? Simplesmente ao repetirem de maneira incansável essa bricolagem. É a isso que chamamos, num certo nível, sintoma. Em outro, automatismo, termo pouco apropriado, mas do qual a história pode dar conta.
colmatagens
o livro de Frege chamado Os fu nd a mentos da arit m ét i ca
genitivo objetivo ou do genitivo subjetivo
Lacan també m f e z “p al e stra s ·; na cape h do hos p it a l de Sainte-Anne,
sempiterna
A fu nção da f ala, faz tempo que o enunciei, é ser a única f orma de ação que se coloca como verdade. Indagar o que é a f ala é uma pergunta supérflua. Não apenas eu f alo, como vocês f alam e até isso fa l a , como eu disse, caminha por si, é um f ato, e eu diria até a origem de todos os fatos, porque o que quer que seja só chega à categoria de f ato quando é dito
Talvez tenha sido sabido
Van Gulik
A vid a sexual na antiga China
está bem claro que mais é com o .l. maiúsculo que com o outro, o parceiro, que todos se relacionam
Mesmo assim, não se deixem enganar: existem homos e homos. Não estou f alando de André Gide. Não se deve acreditar que ele era homo.
Não percamos o fi o da meada, trata-se do sentido. Para que uma coisa tenha sentido, no estado atual do pensamento, é triste dizê-lo, mas é preciso que ela se coloque como normal. Foi por isso mesmo que André Gide quis que a homossexualidade fosse normal.
Em dois tempos, isso vai ficar sob a redoma do normal, a tal ponto que teremos em psicanálise novos clientes que virão dizer-nos: Estou procurand o você porque não tenho sid o normalmente homossexual. Vai virar um engarrafamento.
ao ler Freud, fica muito claro que, no começo, uma condição mínima para se entrar em análise era ter uma boa f ormação universitária. Isso é verdade, notadamente, para todos os pacientes aceitos por Freud. Devo sublinhá-lo porque f oi o discurso universitário, do qual falei muito mal, e pelas melhores razões, f oi ele, apesar disso, que impregnou o discurso analítico.
o nosso Gide é realmente exemplar quanto a esse aspecto.
Ele não nos tira do nosso probleminha, longe disso. O negócio dele é ser desejado, como vemos corriqueiramente na exploração analítica.
Há pessoas a quem faltou na primeira infância serem desejadas. Isso as impele a f azerem coisas para que isso lhes suceda, já tarde. É muito difundido.
olhem bem para a pared e .
o S1 e o S2• Para que vocês pudessem entender alguma coisinha, designei o primeiro como significante-mestre e o segundo como saber
Da análise, ao contrário, há uma coisa que deve prevalecer: é que há um saber que se extrai do próprio sujeito. No lugar do polo do gozo, o discurso analítico põe o S barrado. É do tropeço, do ato fa lho, do sonho, do trabalho do analisando que resulta esse saber. Esse saber, este não é suposto: ele é saber, saber caduco, migalha de saber, submigalha de saber.
averroísmo
a análise linguística agora faz parte da pesquisa cientí fica. O que pode signif i car isso? A definição da pesquisa científica -neste ponto, eu me deixo levar um pouco - é exatamente isto, que não é preciso procurar muito: ela é uma pesquisa bem-denominada, no sentido de que não se cogita de descobrir, pelo menos, nada que perturbe o público.
É essencial precisar-se o estatuto do verbo, porque logo lhes de cantarão os substantivos, conforme eles tenham peso maior ou menor.
Existem substantivos pesados, por assim dizer, que são chamados de concretos, como se houvesse outra coisa, como substantivos, que não substitutos. Mas, enf i m, há que haver substância. É por isso que creio ser urgente assinalar desde logo que não lidamos senão com sujeitos.
Deixemos as coisas nes.te ponto, por ora.
Sei que é muito cativante ler Wittgenstein
Durante toda a sua vida, com admirável ascetismo, Wittgenstein enunciou isto que resumo: aquilo que não se pode dizer, pois bem, não falemos nisso. Com o que ele não podia dizer quase nada. Descia a todo instante da calçada e ficava na rua, ou seja, tornava a subir na calçada, def i nida por essa exigência.
Meu amigo Kojeve, em suma, formulou expressamente a mesma regra. Deus sabe que não a observava. Mas não é por ele a haver for mulado que me julguei obrigado a ficar na demonstração viva que dela deu Wittgenstein.
Ao que me parece, é precisamente daquilo que não se pode falar que se trata, quando designo pelo não é isso a única coisa que motiva uma demanda como que me recuses o que te o f e reço. E, no entanto, se há uma coisa perceptível para todo o mundo, é justamente este não é isso.
É o que enfrentamos a cada instante da nossa vida.
Não é apenas nesse saltitar do não é isso que te o f e reço para o não é isso que podes recusar, nem tampouco para o não é isso que te peço, que quero insistir. É no seguinte:
O que não é isso talvez não seja, em absoluto, o que te ofereço, e entendemos mal as coisas a partir daí. De fato, o que quer dizer que te ofereça? Não quer dizer, em absoluto, que eu dê, como basta refletir para perceber. Também não signif i ca que você pegue, o que daria um sentido ao recusar. Quando ofereço alguma coisa, é na esperança de que você o devolva. E é por isso mesmo que existe o potl a tch.
O potlatch é aquilo que extravasa, aquilo que transborda a impos sibilidade que há no oferecer, a impossibilidade de que ele seja uma dádiva. É por essa razão que o potl a tch tornou-se completamente estranho para nós em nosso discurso. O que não torna espantoso que façamos dele, na nossa nostalgia, aquilo que é sustentado pelo impossível, ou seja, o real - mas, justamente, o real como impossível.
Se não é mais no o que de o que te o f e reço que reside o não é isso, observemos o que decorre do questionamento do oferecer como tal.
Se é não aquilo que te ofereço, mas o fo to de eu te oferecer que te peço que recuses, retiremos a oferta - esse famoso substantivo verbal que seria um substantivo menor e que, no entanto, é algo bem diferente.
o brasão de armas da família Borromeu
o mais típico do verbo binário é, por exemplo, eu te encho .emmerde., ou eu te olho, ou eu te fa lo ou eu te devoro
Eu lhes dei o nó mínimo. Mas vocês poderiam acrescentar-lhe ou tros. Porque não é isso, o quê? O que eu dese j o. E quem não sabe que a propriedade da demanda é, muito precisamente, não poder situar o que vem a ser o objeto do desejo? O que eu te ofereço não é o que desejas, eu te peço que o recuses. Poderíamos facilmente obturar a coisa com o que tu dese j a s , e então a carta de amuro se estenderia indef i nidamente.
Quem não vê o caráter f undamental dessa concatenação para o discurso analítico?
Eu disse faz tempo, faz muito tempo, e ainda há quem se entrete nha com isso, que uma análise só termina quando alguém pode dizer
não eu fa lo contigo, nem eu fa lo de mim, mas é de mim que te fa lo.
Será que não está claro que aquilo em que se baseia o discurso do analisando é justamente isto, peço-te que me recuses o que te o f e reço, porque ndo é isso? É essa a demanda fu ndamental, e é ela que, ao negligenciar, o analista torna cada vez mais pregnante.
Ironizei, em certa época: da oferta o analista cria a demanda. Mas a demanda que ele satisfaz é o reconhecimento deste dado fu ndamental:
que o que se demanda não é isso.
A ilusão da rel a ção sexual O Hum e o H outro O todo e o não-tod o Dualid a d e do goz o fe minino A emer gência exorbitante d o Um
nó borromeano: ref i ro-me a uma cadeia de três, e tal que, ao se separar um dos anéis dessa cadeia, os outros dois não podem mais se manter juntos nem por um instante
L GUÉM: O que é uma topologia?
Que pessoa gentil. Uma topologia tem uma definição matemática. É abordada por relações não métricas, deformáveis. É o caso daqueles tipos de círculos flexíveis que constituem o meu peço-te que me recuses o que te o f e reço. Cada um é uma coisa fechada e fl exível, que só se sustenta por estar encadeada nas outras. Nada se sustenta sozinho.
Essa topologia, por sua inserção matemática, está ligada a relações de pura significância, como demonstrou meu último seminário. É na medida em que esses três termos são três que vemos que pela presença do terceiro se estabelece entre os outros dois uma relação. É isso que significa o nó borromeano.
peço-te que me recuses o que te o f e reço
origem puramente topológica da linguagem. Essa origem topológica, penso poder explicá-la a partir de que ela está ligada a algo que chega ao ser f alante pela vertente da sexualidade. Será que o ser falante é f alante por causa de alguma coisa que sucede com a sexualidade, ou será que essa alguma coisa sucede com a sexualidade porque ele é o ser falante? Esse é um assunto no qual me abstenho de tomar uma decisão, deixando-a aos cuidados de vocês.
Não existe segundo sexo, a partir do momento em que entra em fu ncionamento a linguagem. Ou, para dizer as coisas de outra maneira, no que concerne ao que é chamado de heterossexualidade, o heteros, palavra que serve para dizer “outro” em grego, está na posição de se esvaziar como ser para a relação sexual. É precisamente esse va zio por ele oferecido à f ala que eu chamo de lugar do Outro, ou seja, aquele em que se inscrevem os efeitos da referida fala.
O cad a um que empreguei primeiro tem o efeito de lhes relembrar que a relação afetiva, se assim me atrevo a dizer, não deixa de evocar o horizonte do um a um, do a cad a um sua cad a uma. Essa correspon dência biunívoca faz eco ao que sabemos ser essencial para presenti ficar o número.
Aquele que conhece a condição do ser falante, em todo caso, não deve admirar-se com o fato de que, a partir desse fundamento, o encontro deva justamente repetir-se como único. Não é preciso fazer entrar em jogo aí nenhuma dimensão de virtude. A própria exigência daquilo que se produz de único no ser falante é que ele se repita. É por isso mesmo que é somente a partir do modelo animal que se sustenta e se fomenta a f antasia que chamei de anímica. Essa é uma fantasia que está aí para dizer que a linguagem não existe, o que não é sem interesse no campo analítico.
relações entre os sexos. Já apontei que, na busca ou na caça sexual, os meninos se encorajam em bando e que as meninas, por sua vez, gostam de se apresentar aos pares, enquanto isso as beneficia.
Do imaginário, ao contrário, temos uma experiência. Ela não é cômoda, mas a psicanálise nos permitiu expô-la. Para dizer as coisas cruamente é cruel que seja preciso dizer -, não me será difícil fazer-me entender, se eu disser que, em todo encontro sexual, ora, meu Deus, se há uma coisa que a psicanálise permite af i rmar, é justamente um perfil qualquer de outra presença, para o qual o termo vulgar orgia .partouze, pour tous, por todos. não é absolutamente descabido.
um certo Sócrates, manifestamente histérico, digo, em termos clínicos.
Temos o relato de suas manifestações de ordem cataléptica.
Não é por eu ter-me servido de uma formulação feita da irrupção da matemática na lógica que me sirvo dela exatamente da mesma maneira.
lógica, quais sejam, a negação, a conjunção, a disjunção e a implicação
A universal só faz surgir para a mulher a função fálica, da qual ela participa, como vocês sabem - essa é a experiência, cotidiana demais, infelizmente, para não dissimular a estrutura. Mas a mulher só par ticipa dela ao querer arrebatá-la do homem, ou então, meu Deus, ao lhe impor o serviço dela, no caso, … ou pior, caberia dizer, em que ela lha devolvesse. Mas isso não universaliza a mulher, nem que seja por isto, que é a raiz do não tod a : por ela encerrar em si um gozo diferente do gozo fálico, o gozo dito propriamente feminino, que não depende dele em absoluto.
Se a mulher não é toda, é porque o seu gozo é duplo
tem até certa dignidade, de modo que a publicarei, se ainda voltar a publi car, o que não depende de mim. Seria preciso que outros publicassem um pouco comigo, isso me animaria. Se eu a publicar, ficará visível o cuidado com que situei então - já f azia uns cinco anos que eu o dissera num certo número de registros - a metáf ora paterna, o nome próprio etc. Havia tudo o que era preciso para dar, com a Bíblia, um sentido à elucubração mítica dos meus ditos. Porém não o f arei nunca mais. Não o f arei nunca mais porque, afinal, posso contentar-me em formular as coisas no nível da estrutura lógica, que, af i nal, tem lá os seus direitos.
Sem dúvida, o ser f alante é alguma coisa, talvez sim. O que é o que ele não é? Acontece que esse ser é absolutamente inapreensível.
E é ainda mais inapreensível por ser forçado a passar pelo símbolo para se sustentar. Um ser, quando vem a ser apenas pelo símbolo, é justamente um ser sem ser. Pelo simples fato de f alarem, vocês todos participam desse ser sem ser. Em contrapartida, o que se sustenta é a existência, na medida em que existir não é ser, é depender do Outro.
Vocês realmente estão aí, todos, por algum lado, existindo, mas, no que concerne a seu ser, não fi cam tão tranquilos. De outro modo, não viriam buscar a certeza em tantos esforços psicanalíticos.
A passagem na vida corriqueira, o fato de haver todos e al guns em todas as línguas, eis o que nos obriga a dizer que a linguagem, af i nal, deve ter uma raiz comum. E, como as línguas são muito prof u nda mente dif erentes em sua estrutura, é realmente preciso que isso esteja relacionado com alguma coisa que não é linguagem. É compreensível
que, neste ponto, as pessoas escorreguem. Esse ser além da linguagem, pressentimos que ele só pode ser matemático, só pode ser número, e, a pretexto disso, imagina-se que se trate da quantidade. Mas talvez não seja ao número propriamente dito, em toda a sua realidade, que a linguagem dá acesso. Talvez ela seja capaz somente de reter o zero e o um. Seria por aí que se faria a entrada desse real, esse real que é o único que pode estar além da linguagem, único domínio onde se pode formular uma impossibilidade simbólica.
Esse mito só pode funcionar num horizonte de delírio
O Eros não é, de ma neira alguma, uma tendência para o Um, muito longe disso.
A articulação precisa dos dois níveis mostra que é somente na discórdia que se funda a oposição entre os sexos, na medida em que de modo algum eles poderiam se instituir a partir de um universal.
Ao contrário, no nível da existência, encontramos uma oposição que consiste na anulação, no esvaziamento de uma das fu nções, a do Outro.
Esse esvaziamento encerra a possibilidade da articulação da linguagem.
Suas fa ntasias goz a m com vocês Apenas pensamentos A ontol o gia é uma ver gonha O impossível não se tramg r id e A mulher entre centro e ausência
Nós - enfatizo este nós .on. sem me deter nele, pois eu não daria um passo -, nós só gozamos com o Outro. É mais dif ícil acrescentar isto, que pareceria se impor, visto que eu disse que o que caracteriza o gozo se esquiva: só o Outro usufrui de nós. É justamente esse o abismo que nos oferece a questão da existência de Deus, que deixo no horizonte como se inefável.
Quando digo que só gozamos com o Outro, o importante não é a relação daquilo que poderíamos acreditar que é nosso ser com aquilo que goza, mas sim que não usufruímos dele sexualmente - não existe relação sexual - nem somos usufruídos por ele. Vocês estão vendo que lalír;tgua, que escrevo numa palavra só, lalín�ua, mas que é uma boa moça, resiste nesse ponto. Ela faz beicinho. E realmente preciso dizer, goza-se com o Outro mentalmente.
Ele deve ser lido com inocência.
Vocês só gozam com suas fantasias. É isso que daria peso ao idealis mo, que ninguém, por outro lado, apesar de ele ser incontestável, leva a sério. O importante é que suas fantasias gozam com vocês.
É por isso, como já disse muitas vezes, que estou no lugar do analisando, e é nisso que ele é instrutivo.
O que é escrito foi pensado? Esta é a questão. Talvez já não possa mos dizer por quem foi pensado
A fileira .queue. de pensamentos de que falei é o próprio sujeito, o sujeito desses pensamentos, o sujeito como hipotético.
Quantas vezes, nos diálogos fi losóficos, vocês viram o argumento “Se você não me acompanha até este ponto, não há filosofià’? O que vou lhes dizer é exatamente a mesma coisa. Das duas, uma: ou é válido aquilo que ainda é comumente aceito em tudo o que se escreve sobre a psicanálise, em tudo o que flui da pena dos psicanalistas, a saber, que aquilo que pensa não é pensável, e, nesse caso, não há psicanálise, ou então, para que possa haver psicanálise e, em suma, interpretação, é preciso que isso de que parte a fileira de pensamentos tenha sido pensado, pensado como pensamento real.
só sou apreensível nos meus pequenos mistérios. O que se escreve sobre a Coisa deve ser considerado como o que se escreve vindo dela, não de quem escreve.
É isso que faz com que a ontologia - em outras palavras, a con sideração do sujeito como ser - seja uma vergonha .honte., se vocês me permitem.
Portanto, vocês entenderam, é preciso saber de que se fala. Ou o logo existo é apenas um pensamento, para demonstrar que é o impen sável. que pensa, ou é o f ato de dizê-lo que pode agir sobre a Coisa, o bastante para que ela gire de outra maneira. E é por isso que todo pensamento é pensado, a partir de suas relações com o que se escreve dele. Caso contrário, repito, nada de psicanálise.
Acho que já lhes encheram tanto os ouvidos e a cabeça com a distinção entre a essência e a existência que vocês já não estão satisf eitos com ela.
O que deixa uma sombra de sentido no discurso de Hegel é uma ausência, e precisamente a ausência da mais-valia, tal como extraída do gozo no real do discurso do mestre/senhor. Mas, ainda assim, essa au sência assinala alguma coisa. Ela realmente assinala o Outro não como abolido, mas justamente como impossibilidade de um correlato, e é ao presentif i car essa impossibilidade que ela colore o discurso de Hegel.
Ensinei coisas que não pretendiam transgredir nada, e sim circunscrever certo número de pontos nodais, pontos de impossibilidade
Devo dizer que eu estava tão inteiramente ocupado com a minha voz que, de minha parte, esses Cahiers pour l’ A nal y se, para lhes resumir a coisa, não posso fazer tudo, não posso ler o P armênides, reler a Fenomenologia e outras coisas, e ler também os Cahiers pour l’ A nal y se. Eu precisava me recuperar. Mas agora eu os li de ponta a ponta, são algo formidável.
Nesse gênero, nunca se f ez nada melhor do que, não direi a religião, porque, como lhes explicarei amplamente, não se faz etnologia quando se é psicanalista, e mergulhar a religião num termo geral é o mesmo que fazer etnologia. Também não posso dizer que exista apenas uma, porém existe aquela em que nos banhamos, a religião cristã. Pois bem, acreditem, ela se arranja muito bem com as transgressões de vocês.
Aliás, é tudo o que ela deseja. É isso que a consolida. Quanto mais há transgressões, mais isso lhe convém.
É justamente disso que se trata. A questão é demonstrar onde está a verdade do que sustenta de pé um certo número de discursos que entravam vocês.
O que vem a ser para a mulher essa segunda barra, que só pude escrever ao def i ni-la como não-tod a ? Ela não está contida na f unção fálica, mas nem por isso é sua negação. Sua forma de presença está entre o centro e a ausência. Centro - essa é a função fálica de que ela participa singularmente, posto que o ao menos um que é seu parceiro no amor renuncia a tal fu nção por ela, esse ao menos um que ela só encontra no estado de ser apenas pura existência. Ausência - é o que
lhe permite deixar aquilo por cujo meio ela não participa disso, na ausência que não é menos gozo por ser ausência de gozo, goz a usência (j ouissabsence..
A associação não é livre
ocês f oram f ormados
desde a infância a pegar caronas nos autores .auteur-stop.. Desde o tempo em que isso virou costume, essa maneira de vocês se dirigirem aos tais fu lanos como autoridades, vocês deveriam saber que isso não leva a parte alguma. Embora, é claro, possa levá-los bem longe.
eínzíger Zug
Por si só, isso já seria uma razão para enunciar algumas proposições já trilhadas sobre o Um em outro lugar, se não houvesse o seguinte�.
primeiro passo da experiência analítica é introduzir nela o Um, co o o analista que se é. Nós o f azemos dar o passo de entrada, e com iss a primeira f orma de manifestação do analisando é censurar o analista por ser apenas um entre muitos. E, desse modo, o que ele manifesta, mas sem se aperceber disso, é claro, é que ele não tem nada a ver com esses outros, e é por isso que gostaria de ficar sozinho com o analista, para que isso f aça dois.
Ele não sabe que a questão seria dele perceber que dois é esse Um que ele acredita ser, e no qual se trata de ele se dividir.
- a fu nção da pressa na lógica, sei um pouquinho sobre ela, mas preciso me apressar, o tempo me apressa -
Como em todos os diálogos, alguém nos explica como sucedeu essa coisa louca, que em nada se assemelha a seja lá o que for que se possa chamar de diálogo.
É aí que podemos realmente sentir, se já não o soubéssemos pela vida corriqueira, que nunca se viu um diálogo levar a coisa alguma. Nessa literatura que é datada, o chamado diálogo tem por fu nção delimitar qual é o real capaz de dar a ilusão de que se pode chegar a algum lugar dialogando com alguém. Então, vale a pena prepararmos esse troço, dizermos de que geringonça se tratava.
tauto ananke ou gar oun ti de alethe
O diálogo é isso, quando é o Um que fala.
Naturalmente, a associação não é livre. Se fosse, não teria nenhum interesse. Mas é a mesma coisa que a tagarelice, f oi feita para domesti car pardais. É claro que a associação é ligada. Não vejo qual seria seu interesse se fosse livre. A tagarelice em questão, como não é qualquer um que f ala, e sim o Um, podemos ver a que ponto ela é ligada, porque isso é muito demonstrativo.
Depois de se ter dito que havia o ar, a água, a terra e o fogo, não restava outra coisa senão recomeçar. O passo de Parmênides consistiu em ele perceber que o único f ator comum em toda essa substância era ela ser dizível.
Chamo de debilidade mental o fato de alguém ser um ser falante que não está solidamente instalado num discurso. É isso que valoriza o débil. Não há nenhuma outra def i nição que lhe possa ser dada, senão a de ser o que chamamos de meio fora de esquadro, o que quer dizer que entre dois discursos ele oscila. Para ficar solidamente instalado como sujeito, é preciso a pessoa se ater a um, ou então saber o que faz. Mas não é por se ficar à margem que não se sabe o que está dizendo.
chiquê
Quando os senhores eram feitos prisio neiros, tornavam-se escravos, e, quando os escravos eram libertados, bem, tornavam-se senhores.
V ejam todo o esforço com que Hegel se extenuou no nível da Fenome nologia, o medo da morte, a luta de morte por puro prestígio, e tome de histórias, e tome de exageros, mediante o que - isto é o essencial a se obter - há um escravo. Mas pergunto a todos os que tremem de emoção para trocar os papéis: já que o escravo sobrevive, o que impede que, imediatamente após a luta de morte de puro prestígio, não venha o medo da morte, quem muda de campo?
álefe
particípio passado
Se escolhi o Uniano .Unien., perdoem-me, foi porque ele é um anagrama de tédio .ennui.
Eu, pelo menos, esforço-me por lê-lo de um modo que absolutamente não é o aceito.
Quanto ao Par m ênid e s, é admirável ver a que ponto ele cria embara ços, no nível do discurso universitário. A maneira de todos os que prof e rem coisas doutas em nome da Universidade é sempre prodigiosamente embaraçada, como se se tratasse de uma aposta, de um exercício pura mente gratuito, de balé. O desenrolar das oito hipóteses concernentes às relações do Um com o Ser permanece problemático, um objeto de escândalo. Alguns se distinguem mostrando a coerência delas, mas essa coerência parece gratuita no conjunto, e o próprio confronto dos inter locutores parece confirmar o caráter anistórico, digamos, do conjunto
Isto não é evidente, haver um. Tem jeito de ser evidente porque, por exemplo, existem seres vivos, e porque vocês têm toda a aparência, cada um de vocês, tão bem-arrumados aí , de serem totalmente independentes uns dos outros e de constituírem, cada um, o que hoje em dia chamamos de uma realidade orgânica, sustentada como um indivíduo. Foi justa mente nisso que toda uma primeira filosof i a obteve um apoio seguro.
Esse real de que estou falando, o discurso analítico é a conta certa para nos lembrar que o acesso a ele é o simbólico. Não acessamos o referido real senão no e através do impossível que somente o simbólico def i ne.
Não é por termos f eito progressos na biologia, desde Plínio, no que concerne à vida, que isso é um progresso absoluto. Se um cidadão romano visse como vivemos - inf elizmente, está fora de cogitação invocá-lo pessoalmente no momento -, é provável que ficasse trans tornado de horror. Como não podemos prejulgar senão a partir das ruínas deixadas por essa civilização, a ideia que podemos f azer dela é imaginar o que serão os restos da nossa num tempo equivalente, se é que se pode supô-lo.
Estou f alando baixo. É isso aí, pior para vocês, é assim que estou falando hoje, sem dúvida porque não posso fazer coisa melhor.
É um emprego engraçado do tempo, mas, enfim, por que não? - du rante o fim de semana, sucede-me escrever para vocês. É uma maneira de falar. Escrevo porque sei que nos veremos durante a semana. E foi assim que lhes escrevi no último fim de semana. No intervalo, tive tempo de esquecer esta escrita, e acabo de relê-la durante meu jantar apressado para chegar aqui na hora. Começarei por ela. É meio difícil, mas talvez vocês tomem notas. Depois disso, direi as coisas que pensei desde então, pensando mais realmente em vocês.
Eu tinha escrito isto (que, é claro, jamais entregarei para publi xaçáo, não vejo por que aumentaria o conteúdo das bibliotecas)
Como é escrito, vocês precisam atenção, quero dizer, não acreditar que compreendem.
O amuro repercute de maneira diversa, com os meios disponíveis, os recursos do que chamamos, justamente, a borda, os recursos da borda, do bord-homem .bord-homme.. O bord-homem, isto me inspi rou, eu o escrevi assim: brrom-brrom-uap-uap. Isso foi um achado de uma pessoa que, nos velhos tempos, me deu filhos. É uma indicação concernente à voz, à a-voz .a-voix., que, como todos sabem, alardeia .aboie., e também ao a-olhar .la-regara ’ . , que não ao lha .aregarde. tão de perto. E à astúcia .astuce. que cria o a-suga .la-tSuce.. E há ainda o a-merd a .la-merde., que de vez em quando produz grafites de in tenções bem injuriosas nas páginas jornalísticas a meu respeito. Em suma, assim é a-vida ./a-vie.. Como dizem, uma pessoa que se diverte momentaneamente, isso é divertido. É verdade, em suma.
Quando conhecem perfeitamente uma língua e leem um texto, vocês compreendem, sempre compreendem. Isso deveria deixá-los meio que de sobreaviso. Vocês compreendem no sentido de que sabem de antemão o que se diz ali. É claro que o texto pode se contradizer.
A verdade é que percebem ter compreendido depressa demais, isto é, pularam esse elemento essencial, um significante, que possibilita a mudança de nível que lhes deu por um instante a sensação de uma contradição.
Nunca se deve saltar um significante. É na medida em que o sig nificante não os detém que vocês compreendem. Ora, compreender é estar sempre compreendido, pessoalmente, nos efeitos do discurso, discurso este que ordena os ef eitos do saber já precipitados pelo simples formalismo do significante. A psicanálise nos ensina que todo saber ingênuo está associado a um velamento do gozo que se realiza nele, e levanta a questão do que transparece aí dos limites da potência, ou seja, de quê? Do traçado imposto ao gozo.
A psicanálise é o quê? É a demarcação do que se compreende de obscurecido, do que se obscurece como compreensão, em virtude de um significante que marcou um ponto do corpo.
Uma psicanálise reproduz - aqui vocês reencontram os trilhos comuns - uma produção da neurose. Quanto a isso, todos estão de acordo. Não há um só psicanalista que não o tenha percebido. Essa neurose, que não sem razão é atribuída à ação dos pais, só é atingível na plena medida em que a ação dos pais se articula, justamente, a partir da posição do psicanalista. É na medida em que converge para um significante que emerge dela que a neurose vem a se ordenar segundo o discurso cujos ef eitos produziram o sujeito. Todo pai ou mãe traumá-
tico está, em suma, na mesma posição que o psicanalista. A diferença é que o psicanalista, da sua posição, reproduz a neurose, enquanto o pai ou mãe traumáticos a produzem inocentemente.
Esse significante, trata-se de reproduzi-lo a partir do que foi sua eflorescência. Fazer um modelo da neurose é, em suma, a operação do discurso analítico. Por quê? Pela medida em que ele lhe subtrai a dose de gozo. O gozo, com efeito, não exige o privilégio, não há, para cada um, duas maneiras de se haver com ele. Toda reduplicação o mata. Ele só sobrevive desde que a repetição seja vá, isto é, sempre a mesma. É a introdução do modelo que consuma essa repetição vã. Uma repetição consumada o dissolve, por ser uma repetição simplificada.
está claro que é falando que f azemos amor. O analista, qual é seu papel nisso? Pode realmente um analista f azer um amor dar certo? Pois de minha parte, que estou longe de ter nascido ontem, devo dizer-lhes que isso é um desafio.
Esse gozo exerce a fu nção de real, quando concerne a quem não está em análise, isto é, ao analista. Aquele que o analista tem em análise, ou seja, o sujeito, ele o toma pelo que ele é, ef eito de discurso. Peço-lhes observarem, de passagem, que ele não o subjetiva. Isto não quer dizer que tudo isso sejam suas ideiazinhas, mas sim que, como sujeito, ele é determinado por um discurso do qual provém desde longa data, e é isso que é analisável.
O analista, esclareço, de modo algum é nominalista. Não pensa nas representações de seu sujeito, mas tem de intervir no discurso dele, proporcionando-lhe um suplemento de signif i cante. É o que chamamos de interpretação. Quanto ao que não está a seu alcance, ou seja, àquilo que está em questão, isto é, o gozo daquele que não está presente na análise, o analista toma esse gozo pelo que ele é, a saber, certamente algo da ordem do real, já que não há nada que possa fazer a seu respeito.
Não posso desenvolver essa questão aqui, em função da hora, além do fato de que isso absolutamente não interessa a todos os presentes.
Mas solicito contribuições a esse respeito, como habitualmente o faço, de maneira desesperada. De vez em quando, solicito a gramáticos que me deem uma pequena dica e eles me enviam, são sempre os ruins.
Solicitei a matemáticos, já muito numerosos, que me respondessem a esse respeito, e na verdade eles se fazem de surdos, porque se agarram a essa não enumerabilidade das partes do conjunto como carrapatos à pele do cachorro.
teoria dos conjuntos
A sabedoria é o saber do gozo Errância dos desgarrados O analista não fi nge Indigência da fe nomenologia amorosa Os números cardinais inacessíveis
Qualquer coisa pode servir para escrever o Um da repetição. Não é que ele não seja nada, é que se escreve com qualquer coisa, desde que seja fácil repeti-la como imagem. Para o ser encarregado de fazer com que, na linguagem, isso fale, nada é mais f ácil de representar do que aquilo que ele é feito para reproduzir naturalmente, ou seja, como dizem, seu semelhante, ou seu tipo. Não que originalmente ele saiba f azer sua imagem, mas ela o marca, e ele pode devolvê-la, conferir-lhe a marca que é justamente o traço unário, ou seja, o suporte daquilo de que parti sob o nome de estádio do es pelho, isto é, de id e nti f i cação imaginária.
Todo o meu blá-blá blá, eu só o produzo - hoje que podemos apontar algum movimento na emergência desse discurso - para assinalar que seu sentido continua problemático.
É por isso, como disse a partir de alguém que está na minha situa ção, que eu não busco, eu acho. A maneira, a única maneira de não nos enganarmos, é, a partir do achado, nos perguntarmos o que havia para procurar, se o tivéssemos desejado.
Uso a redundância apenas a partir da surdez do Outro. É claro que é o saber que é suposto, e ninguém jamais se enganou com isso.
Suposto em quem? Certamente, não no analista, mas em sua posição.
Quanto a isso, é possível consultar meus Seminários, porque é justa mente isso que impressiona ao relê-los - nada de erros, diferentemente dos· meus Escritos.
Contento-me em observar que a pessoa que me confirmou dessa maneira f oi aquela que, numa dedicatória que me deu a honra de me f azer, a propósito de um pequeno artigo em que ela própria se havia enunciado, destacou que eu escrevia depressa. Isso não me havia ocorrido, porque o que escrevo, refaço dez vezes. Mas é verdade que, na décima vez, escrevo muito depressa. É por essa razão que persistem erros, porque é um texto. Um texto, como indica o nome, só pode ser tecido em se dando nós. Quando damos nós, há alguma coisa que sobra e fica pendurada.
Peço desculpas por isso; nunca escrevi a não ser para pessoas que supostamente me ouviram, e quando, em casos excepcionais,
primeiro eu escrevo, como o relatório de um congresso, por exem plo, nunca dou senão um discurso sobre o meu relatório. Basta consultarem o que disse em Roma para o congresso assim deno minado. Fiz o relatório escrito que se sabe - ele f oi publicado, no devido tempo -, e o que disse, não retomei em meu escrito, mas com certeza as pessoas ficarão mais à vontade com este do que com o relatório em si
O analista ocupa legitimamente a posição do semblante porque não há outra situação sustentável em relação ao gozo, tal como ele tem de apreendê-lo nos ditos daquele que, na condição de analisando, ele avaliza em sua enunciação de sujeito. É só por aí que se percebe até onde o gozo dessa enunciação autorizada pode ser levado, sem estragos muito notórios. Mas o semblante não se alimenta do gozo, que, no dizer dos que retornam ao discurso do ramerrão, ele ridicularizaria.
Esse semblante dá noutra coisa que não ele mesmo, seu porta-voz, e justamente por se mostrar como máscara, abertamente usada, eu diria, como no teatro grego.
O semblante surte efeito por ser manifesto. Quando o ator usa a máscara, seu rosto não varia de expressões, não é realista. O pdthos fica·reservado ao coro, que se entrega a ele, caberia dizer, com grande satisfação. E por quê? Para que o espectador, refiro-me ao da cena anti ga, encontre ali seu próprio mais-de-gozar comunitário. É justamente isso que dá ao cinema o valor que ele tem para nós. Nele, a máscara é outra coisa, é o irreal da projeção. Mas voltemos a nós.
É por dar voz a algo que o analista pode demonstrar que essa refe rência ao teatro grego é oportuna. Pois o que faz ele, ao ocupar como tal a posição do semblante? Nada senão demonstrar que o pavor sentido do desejo, pelo qual se organiza a neurose, isso a que chamamos de f e sa, não passa, em relação ao que se produz nela de trabalho como pura perda, de uma conjuração digna de pena. Nos dois extremos dessa frase vocês encontram o que Aristóteles aponta do efeito da tragédia sobre o espectador.
oda realidade é suspeita, mas não por ser imaginária, como me imputam dizer, pois é bastante patente que o imaginário, tal como surge da etologia animal, é uma articulação do real. O que temos de suspeitar em toda realidade é que ela seja fantasística. E o que permite escapar disso é, na f órmula simbólica que nos é permitido extrair daí, uma impossibilidade que demonstra seu real. Não é à toa que aqui nos serviremos da palavra termo para designar o simbólico em questão.
O saber sobre a verdade é útil para o analista na medida em que lhe permite ampliar um pouco sua relação com esses efeitos do sujeito que eu disse que ele avaliza, ao deixar o campo livre para o discurso do analisando. Que o analista deva compreender esse discurso parece preferível, de fato. E de onde deve compreendê-lo? A resposta encontra se na notação indicativa de que ele deve estar no discurso ocupando a posição do semblante.
Convém acentuar, é claro, que é como a que ele ocupa essa posição do semblante. O analista nada pode compreender senão em nome do que diz o analisando, ou seja, por se ver não como causa, mas como efeito desse discurso, o que não o impede por direito de se reconhecer nele.
É por essa razão que é melhor ele ter passado por isso na análise didática, que só pode ser segura não tendo sido iniciada em nome disso.
Uma observação de Gõdel é esclarecedora neste ponto: é que o X 0, ou seja, o inf i nito atual, mostra realizar a mesma situação do 1 .
É o mito que projetei inicialmente sob uma forma mais moderna, a de .l. x. A fu nção matemática apresenta-se a nós, em suma, como a espécie de discurso que lhes proponho como o modelo que nos per mitiria, no tocante às relações sexuais, fu ndamentar algo diferente do semblante, … ou pior.
Trata-se dessa pequena queda de energia que não sei se vocês tiveram, mas que eu tive até as dez horas. Ela me irritou enormemente, porque esse é o horário em que costumo reunir estas notinhas e repensar nelas, e isso não me facilitou a coisa. Al ém disso, em razão do mesmo corte de energia, quebraram-me um copo para escova de dentes a que eu era muito apegado. Se houver aqui gente que goste de mim, pode me mandar outro. T alvez assim eu passe a ter vários, o que me permitirá quebrar todos, menos aquele que eu preferir. Tenho um patiozinho que é perfeito para isso.
Há uns psicanalistas que têm algo que os atormenta, que os angustia de vez em quando.
Esse real, não é à toa que digo que ele é matemático, porque, acima de tudo, na experiência daquilo de que se trata, daquilo que se f ormula, daquilo que às vezes se escreve, podemos pôr o dedo em que há aí algo que resiste, ou seja, do qual não se pode dizer qualquer coisa. Não se pode dar um sentido qualquer ao real matemático.
Bertrand Russell. Ele f ormulou algo assim: que a matemática se articula de tal maneira que, no fi m das contas, não se sabe nem mesmo se aquilo é verdade ou se faz sentido.
O que prova o seguinte: que não se pode dar-lhe um sentido qual quer, nem na ordem da verdade, nem na ordem do sentido. Isso resiste, a ponto de levar ao seguinte resultado, que considero um sucesso, o próprio sucesso: a f orma pela qual isso se impõe é a do real, justamente porque nele nem a verdade nem o sentido predominam; são secundários
Ainda vou-me estender nisso, para permanecer no pior. Eviden temente, isso é tentador, mesmo para mim. Da minha parte, eu me divirto. E tenho certeza de divertir vocês, ao lhes mostrar a inépcia do que é chamado de ativo, se é nisso que vocês se baseiam para distinguir o homem da mulher.
Essa é a moeda corrente: o homem é ativo, o queridinho. Mas, na relação sexual, parece-me que é a mulher que entra com mais vigor.
Basta ver isso em situações que de modo algum chamaremos de pri mitivas, mas não é por elas serem encontradas no T erceiro Mundo .tíers monde., que é o mundo do sr. Thiers, não é?
Não é tão evidente que, na vida normal, o ativo e o passivo se distribuam como nos dizem. Não estou f alando, é claro, dos caras da empresa de gás e eletricidade da França, que tomaram distância disso e se atiraram ao trabalho. Mas, numa vida como a que se vê por toda parte, exceto onde houve a nossa grande subversão cristã, o homem leva a vida na flauta, enquanto a mulher mói, tritura, costura, faz compras e, ainda por cima, nessas sólidas civilizações que não se perderam, ainda encontra disposição para rebolar o traseiro - estou falando de uma dança, é claro -, para radiante satisfação do cara que está lá. Então, em matéria de ativo e passivo, se vocês me dão licença …
Já que vocês estão me provocando, vou continuar a me divertir. É uma pena, porque, desse jeito, não chegarei ao fim do que tinha para lhes dizer hoje a respeito do Um. Mas, como isso faz rir, a caça, não sei se não será absolutamente inútil ver nela justamente a virtude do homem. Na caça, com efeito, o homem mostra o que tem de melhor, ou seja, ser passivo.
Não sei se vocês percebem bem isso, porque aqui, é claro, vocês são todos uns inúteis. Aqui não há camponeses, ninguém caça. E, se houvesse camponeses, não adiantaria nada, porque eles caçam mal.
Para o camponês - que não é f orçosamente um homem, digam o que disserem -, a caça está lá para ser abatida, pou. pou. E leva-se tudo. A caça não é nada disso.
Há-um
A rel a ção do analista com o saber
Vocês sabem, aqui eu digo o que penso. É uma posição f eminina, porque, af i nal de contas, pensar é muito particular. Então, como de vez em quando eu lhes escrevo, anotei, durante uma viagenzinha que acabo de fazer, um certo número de proposições, das quais a primeira é que o psicanalista é colocado pelo discurso que o condiciona numa posição, digamos, difícil. Freud dizia impossível, unmoglich, o que talvez seja meio f orçado - ele falava por si.
Eu os compreendo, coloco-me em seu lugar, de maneira ainda mais fácil por estar nele. Compreendo-os com mais facilidade ainda na medida em que, como todo o mundo, escuto o que digo. Isto não me acontece todo dia, porque não é todo dia que falo. Na realidade, escuto o que digo nos poucos dias, digamos um ou dois, que antecedem imediatamente meu Seminário, porque é nesse momento que começo a escrever para vocês. Nos outros dias, pensar naqueles com quem lidei me assoberba. É raro eu voltar ao passado, mas preciso confessar-lhes isto: o que chamei na Scilicet de meu f racasso me domina. Aí está.
Os psicanalistas, portanto, sabem o que eu digo. Sabem por expe riência própria, por pouco que a tenham, mesmo que ela se reduza à psicanálise didática, o que é a exigência mínima para que os psicana listas se digam tais. Ainda que o que chamei de passe não tenha dado certo para eles, ora, assim mesmo eles terão tido uma análise didática, o que basta, afinal de contas, para que saibam o que digo. Quando digo que o passe não deu certo -é sempre na Scilicet que isso tudo se encontra, esse é o lugar indicado -, isso não significa que eles não se tenham oferecido à experiência do passe. Este é, simplesmente, aquilo que proponho aos que são suf i cientemente dedicados para se exporem a ele, unicamente para efeito de informação sobre um ponto que é muito delicado, porque é completamente a-normal - objeto
a-normal-que alguém que fez uma psicanálise queira ser psicanalista.
É realmente preciso uma espécie de aberração, que valeria a pena ofe recer a tudo o que pudéssemos acolher como testemunhos. Se instituí provisoriamente essa tentativa de coleta, f oi para saber por que alguém que sabe o que é a psicanálise, por sua análise didática, ainda pode querer ser analista.
Sainte-Anne
tentação
Poucas coisas são tão abjetas de f olhear quanto a história da medicina.
Pode-se aconselhá-la como vomitório ou purgativo, serve para os dois.
Para saber que o saber nada tem a ver com a verdade, não há nada mais convincente. Nem sequer podemos dizer que isso chegue a fazer do médico uma espécie de provocador. Como a plataf orma deles, com o discurso da ciência, vinha se tor n ando mais exígua, os médicos deram um jeito de alinhar a psicanálise com seu passo. E disso eles entendem, ainda mais que o psicanalista, muito embaraçado com sua posição, ficava ainda mais disposto a receber os conselhos da experiência. Um artigo expresso de Freud, sobre a Laienanal y se, f oi dirigido contra essa conspiração.
nunca abandonei nenhuma das pessoas que eu sabia que deveriam me deixar antes que elas mesmas se f ossem. E isto também é verdade sobre o momento em que a partida f oi perdida para a França, por ocasião daquele pequeno zum-zum-zum de uma conjuração de médicos/psicanalistas da qual saiu, em 1953, o começo do meu ensino.
Nos dias em que a ideia de dever continuar no referido ensino não me habita, ou seja, num bom número deles, é evidente que, como todos os imbecis, tenho a ideia do que poderia ter sido, para a psicanálise francesa, se eu tivesse podido ensinar lá onde, pela razão que acabo de dizer, eu não tinha a menor disposição de abandonar ninguém. Por mais escandalosas que f ossem as minhas proposições sobre a Função e campo, patati, patatá, da fa l a e da linguagem, eu estava disposto a perseverar nesse trabalho durante anos, mesmo para as pessoas mais surdas. No ponto em que estamos, ninguém teria saído perdendo entre os psicanalistas.
Há muita gente que gosta de mim. A propósito, houve uma pessoa que me mandou um copo para escova de dentes.
Diga se, a bem da pessoa que me interrogou sobre a liberdade, que só no V aticano posso conhecer livres-pensadores. Da minha parte, não sou um livre-pensador, sou f orçado a me ater ao que digo, mas lá, que descontra ção. Ah , é compreensível que a Revolução Francesa tenha sido veiculada pelos abades. Se vocês soubessem o que é a liberdade deles, meus bons amigos, sentiriam f rio na espinha. Tento repô-los nos trilhos, mas não há o que f azer, eles escapam. Para eles, a psicanálise está ultrapassada.
Vejam só para que serve o livre-pensamento: eles enxergam com clareza.
Se soubéssemos de imediato que alguém que vem pedir uma psicanálise didática é um canalha, nós lhe diríamos: Nad a de psicanálise para você, meu caro, você vai fi car burro Je ito uma porta. Mas não sabemos disso, posto que a canalhice não é hereditária segundo a psicanálise, mas se prende sem pre ao desejo do Outro de que surgiu o interessado. Nem sempre é o desejo de seus pais, pode ser o dos avós, mas, quando o desejo de que ele nasceu é um desejo de gentalha, é uma gentalha, infalivelmente.
Nunca vi exceção, e é por essa razão, aliás, que sempre fu i muito meigo com as pessoas que eu sabia que teriam de me largar, pelo menos nos casos em que tinha sido eu a psicanalisá-las, porque eu sabia muito bem que elas se haviam tornado completamente burras.
Não posso dizer que eu tivesse f eito de propósito, porque, como lhes disse, essa é uma transformação necessária quando se leva uma psicanálise até o fim, o que é o mínimo, na psicanálise didática. Se a psicanálise não é didática, então, é uma questão de tato, vocês devem deixar canalhice suficiente com o indivíduo para que, daí em diante, ele se safe de forma conveniente. Isso é propriamente terapêutico, vocês devem fazê-lo subsistir. Mas, quanto à psicanálise didática, não podem fazer isso, porque Deus sabe no que resultaria.
Imaginem um psicanalista que continuasse a ser canalha; isso as sombra o pensamento de todo o mundo. Mas fiquem tranquilos: ao contrário do que se supõe, a psicanálise é sempre realmente didática, mesmo quando quem a pratica é uma besta, e eu diria mesmo mais até. Enfim, tudo que se arrisca é ter psicanalistas burros. Mas, como acabo de lhes dizer, isso acaba não tendo inconvenientes, porque o objeto a no lugar do semblante é, de qualquer modo, uma posição sustentável. Também se pode ser burro de origem. É muito impor tante fazer essa distinção.
Cantor estd errado .Cantor a tort., e é um ótimo livro. É evidente que Cantor está errado, de um certo ponto de vista, mas é incontestável que ele tem razão, pelo simples fato de que aquilo que f ormulou teve uma descendência incontável na matemática. É o quanto basta para que a coisa seja defensável.
Ainda que Cantor esteja errado, do ponto de vista daqueles que decretam, não se sabe por que, que em matéria de número, eles sabem o que ele é, toda a história da matemática, muito antes de Cantor, demonstrou que não há lugar em que seja mais verdadeiro que o impossível é o real. Isso começou com os pitagóricos, a quem um dia veio à cabeça o que eles deviam saber muito bem, já que também não se deve tomá-los por bebês: que .. .f2 não era comensurável.
Creiam vocês em Deus ou não - por mim, não acredito, mas não vem ao caso, pois para aqueles que acreditam, dá na mesma -, guardem bem no ouvidinho o que digo, com Deus, em todos os casos, é preciso contar. Isso é inevitável.
Não se trata de acontecimento, mas de estrutura. O mito de Totem e tabu f oi f eito, da maneira mais patente, para podermos falar de todo homem como estando sujeito à castração.
Vocês sabem que Freud destacou o tabu da virgindade, bem como outras histórias loucamente f olclóricas em torno desse assumo, do fato de que, antigamente, as virgens não eram possuídas por qualquer um, era preciso pelo menos um grande sacerdote ou um pequeno senhor.
A mulher é um centro goz o so .j ouis centre. conjugado com o que não cha m arei de uma ausência, mas de uma de ssênc i a .d é -sence.
dé -sence, o prefixo dé indica privação, f alta (de sentido, sens, homóf ono de sence), e também se sugere uma homof onia com décence (decência, pudor, decoro)
a hiância é a existência
Muitas interrogações se fi zeram sobre a função do pater fa mília s .
Conviria centrar melhor o que podemos exigir da função do pai. Essa história de carência paterna, como a turma se compraz com isso. Há uma crise, isso é f ato, não é inteiramente falso. Em suma, o é-pater não nos assombra mais. Essa é a única função verdadeiramente decisiva do pai. Já assinalei que não era o Édipo, que isso já era, que, se o pai f osse legislador, daria como filho o presidente Schreber, nada mais.
Em qualquer plano, o pai é aquele que deve assombrar a f amília. Se o pai não assombra mais a família, naturalmente, vai-se encontrar coisa melhor. Não é obrigatório que seja o pai carnal, sempre haverá quem assombre a f amília, a qual todos sabem ser um rebanho de escravos.
Haverá outros que a assombrem.
Com esse neologismo, calcado no verbo é pater (assombrar, surpreender, espantar, deixar pasmo, escandalizar etc.), Lacan cria um trocadilho com um pai assombroso, impactante
Quanto àquilo que necessita da existência, partimos da hiância do indecidível, entre o não-todo e o não uma. Depois, isso chega à existên cia. E então, depois disso, chega ao f ato de que todos os homens estão em poder da castração
Como já assinalei em tempo hábil, a alternância entre a necessidade, o contingente, o possível e o impossível não está na ordem f ornecida por Aristóteles, porque aqui é do impossível que se trata, ou seja, no final das contas, do real.
necessário, impossível, possível e contingente.
Panthéon
Não o tenho aqui, esqueci-o em casa, e isto é uma sorte, porque ele me levaria a ler trechos para vocês, e não há nada mais chato do que ouvir alguém ler.
Investiga-se e se constata que são muito raros os sonhos sexuais.
Essa gente sonha com tudo, sonha com esporte, sonha com um monte
de balelas, sonha com quedas, enfim, não há uma esmagadora maioria de sonhos sexuais. Como a concepção geral da psicanálise, dizem-nos nesse texto, é crer que os sonhos são sexuais, pois bem, o grande pú blico da difusão psicanalítica - vocês também, vocês são um grande público - vai ficar aborrecido, naturalmente, e todo o suf l ê vai arriar, achatar-se no fundo da f orma.
O que faz um sonho? Não satisf az o desejo, por razões fu ndamentais que não vou tratar de desenvolver hoje, porque isso equivale a quatro ou cinco seminários. A razão é simplesmente esta, e é tangível: o que Freud diz é que o único desejo fu ndamental no sono é o desejo de dormir.
Isto os faz rir, porque vocês nunca o ouviram. Muito bem. Mas está em Freud.
Como é que não lhes vem prontamente à cabeça em que consiste isto: dormir? Consiste em que se trata de suspender o que está al i na minha tétrade, o semblante, a verdade, o gozo e o mais-de-gozar. É para isso que serve o sono, basta qualquer um observar um animal dormindo para se dar conta disso - o que se trata de suspender é a ambiguidade que há na relação do corpo com ele mesmo, é o gozar.
Se há uma possibilidade de o corpo ter acesso ao gozar de si mes mo - isso está em toda parte, evidentemente -, é quando ele bate em alguma coisa, quando se machuca. É isso o gozo. O homem tem aí umas portinhas de entrada que os outros não têm, pode fazer delas uma meta. Em todo caso, quando ele dorme, isso acaba.
Quando dormimos, a questão é justamente f azer com que esse corpo se enrole, f orme uma bola. Dormir é não ser perturbado. O gozo, no entanto, é perturbador. Naturalmente, o homem é pertur bado, mas, enfim, enquanto dorme, pode esperar não ser perturbado.
É por isso que, a partir daí, todo o resto se esvai. Já não se trata de semblante nem de verdade - já que tudo isso se conserva, é a mesma coisa - nem de mais-de-gozar.
Só que, vejam, o que Freud diz é que o signif i cante, por sua vez, continua a saltitar durante esse tempo. É por isso que, mesmo quando estou dormindo, preparo meus seminários. Já o sr. Poincaré descobria as f unções fuchsianas.
No caso do discurso universitário, é o saber. Al i, a dificuldade é ainda maior, por causa de uma espécie de curto-circuito, porque, para fi ngir saber, é preciso saber fingir. E isso se desgasta depressa.
Em Milão, de onde estou voltando, como lhes disse há pouco, tive, evidentemente, uma plateia muito menos numerosa que a de vocês, digamos, um quarto dela, porém lá havia muitos desses jovens que estão no chamado movimento. Havia até um personagem absolutamente respeitável e de status bem alto, que vem a ser o representante disso por lá. Só depois me disseram que ele estava presente. Eu não quis interrogá-lo, mas, será que ele sabe ou não que, estando nesse ponto elevado, o que ele quer, como todos os que aqui se interessam um pouco pelo movimento, é restituir ao discurso universitário o seu valor?
Como o nome indica, isso desemboca nos créditos.. Eles gostariam que se soubesse um pouco melhor como fingir saber. É isso que os guia.
De fato, isso é respeitável. E por que não? O discurso universitário tem um status tão fu ndamental quanto qualquer outro. O que assinalo é, simplesmente, que ele não é o mesmo discurso que o psicanalítico.
Comecei por dizer que os meus Escritos eram uma publixação, que não lhes convinha acreditar que eles poderiam situar-se a partir deles. Havia, porém, a palavra Seminário, e é claro que fui f orçado a conf essar que o Seminário não é um seminário, é uma coisa que eu matraqueio sozinho há anos, meus bons amigos, mas que houve época, antigamente, em que isso merecia seu nome, em que havia pessoas que intervinham.
O autoconhecimento é a hi giene O su porte cor p oral na análise jur i s prud ê ncia e bom sentiment o s Ra cismo e fr aternid a de
O que posso f azer? Resumir-me, como dizem, está f ora de cogitação.
Então, marcar alguma coisa, um ponto, um ponto de suspensão. Eu poderia dizer que continuei a abraçar esse impossível no qual se reúne o que é para nós, no discurso analítico, fu ndamentável como real.
veio
pantomima
Sobre o discurso analítico, achei que não seria mau, de qualquer modo, antes de deixá-los, apontar algo que lhes dê a ideia de que ele não ape nas não é ontológico, mas também não é fi losófico, é apenas exigido por uma certa posição, aquela em que acreditei poder condensar a articulação de um discurso.
A questão seria mostrar-lhes o que isso tem a ver com o fato de os analistas se relacionarem, afinal - e vocês estariam errados em crer que eu o desconheço -, com uma coisa chamada ser humano. Sim.
Com certeza. Mas eu, por mim, não o chamo desse modo, para que vocês não imaginem coisas, para que permaneçam exatamente onde é preciso, na medida em que f orem capazes de perceber quais são as dif i culdades que se of erecem ao analista.
Não falemos mais de conhecimento. A relação do homem com um mundo seu- é evidente que partimos disso há muito tempo, como que desde sempre, aliás - nunca f oi mais que uma presunção a serviço do discurso do mestre/senhor. Não há mundo seu além do mundo que o mestre faz fu ncionar, em estrita obediência a suas ordens.
Quanto ao f amoso autoconhecimento que supostamente f aria o homem gn othi seauton, partamos disto, que afinal é simples e palpável:
que sim. Bom. Se quisermos. Se quisermos, ele se dá. Ele se dá no corpo. O conhecimento de si mesmo, não é?, é a higiene. Partamos daí.
Portanto, durante séculos, restou a doença. Todos sabem que ela não é regida pela higiene, a doença, e que é realmente uma coisa agar-
rada ao corpo. A doença durou séculos, o médico é que supostamente deveria conhecê-la, digo, no sentido do conhecimento. Durante uma de nossas últimas conversas, já nem sei onde, penso ter suficientemen te assinalado, às pressas, o f racasso dessas duas vertentes. Tudo isso é patente na história. Estampa-se nela em toda sorte de aberrações.
E lá está o analista, com ar de dar continuidade a esse processo.
Fala-se de doença, e ao mesmo tempo se diz que ela não existe, que não há doença mental, por exemplo. Isso é dito com razão, no sentido de ela ser uma entidade nosológica, como se falava antigamente. Ela não tem nada de entitária, a doença mental. Antes, é a mentalidade que tem falhas, expressemo-nos assim, sucintamente.
O suporte é o corpo.
Mas é preciso prestar atenção quando se diz que é o corpo. Não é f orçosamente um corpo. A partir do momento em que partimos do gozo, isso quer dizer que o corpo não é inteiramente só, que há um outro. Não é por isso que o gozo é sexual, pois acabo de lhes explicar, este ano, que o mínimo que se pode dizer é que ele não é indireto, esse gozo. É o gozo corpo a corpo. É próprio do gozo que, quando há dois corpos, e muito mais quando há mais, não se sabe, não se pode dizer qual deles goza. É isso que faz com que possa haver nessa história vários corpos aprisionados, e até séries de corpos.
Comecei meio que a me reler, Deus sabe por quê, não importa, e aos poucos achei um seminário que eu tinha f eito
Publicar esse seminário me divertiria, se a datilógrafa não tivesse deixado um grande número de pequenos furos, por não ter ouvido direito. Que bom se ela houvesse ao menos reproduzido corretamente a frase em latim que eu tinha escrito no quadro … Agora não sei mais a que autor ela pertence, e redescobri-lo certamente me fará perder tempo, mas não tem importância, vou fazê-lo para o próximo número da Scilicet. T udo que eu disse do signif i cante naquele momento, no qual não se pode realmente dizer que ele estivesse na moda, ficou cunhado num metal em que nada tenho a retocar.
Lacan … essa espécie de clown, não é?
A verdade já implica o discurso. O que não quer dizer que ela possa ser dita. Eu me mato dizendo que ela não pode se dizer, ou só pode ser meio-dita. O gozo, este sim, existe. É preciso que possamos f alar dele.
Com o quê, existe uma coisa que é diferente, e que se chama o dito.
Seja como for, se emiti - o que, aliás, é meio raçudo - o título De um discurso que não fo sse semblante, foi para fazê-los sentirem, e vocês o sentiram, que o discurso como tal é sempre discurso do semblante. Se há em algum lugar alguma coisa que se autorize pelo gozo, é justamente o simular rJà ire semblant.. É por esse ponto de partida que é possível vir a conceber essa coisa que só podemos captar aí, o mais-de-gozar.
Sejamos claros. Quando, de repente, uma coisa lhes comove o co ração, por vocês não saberem muito bem se não são meio responsivos na maneira como uma análise correu mal, se não houvesse deontolo gia, se não houvesse jurisprudência, onde fi caria essa dor no coração, esse afeto, como se diz? De vez em quando, conviria tentar dizer um pouco a verdade.
Tudo que é dito é semblante. Tudo que é dito é verdade. Ainda por cima, tudo que se diz faz gozar. E, como reescrevi hoje no quadro, que se diga, como ja to, fi ca esquecido por trá s do que é dito.
O interpretador é o analisando.
O triângulo semiótico
Isto não quer dizer que o analista não esteja ali para ajudá-lo, para empurrá-lo um pouco no sentido de se interpretar, o que não se pode f azer no nível de um único analista. A razão é simples. Se o que digo é verdade, ou seja, que a análise só progride pelo veio da lógica, da extração das articulações daquilo que é dito, e não do dizer, pois bem, basta que o analista em sua função não saiba - quero dizer, como cor po - colher o suficiente do que ouve do interpretador, que é aquele a quem ele dá a palavra sob o nome de analisando, para que o discurso analítico permaneça, sem mover uma linha, no que f oi dito por Freud.
A partir do momento em que isso faz parte do discurso comum, como é o caso agora, entra na armadura dos bons sentimentos.
Então, que é que nos liga àquele com quem embarcamos, ultra passada a primeira apreensão do corpo? Será que o analista está ali para censurá-lo por não ser suficientemente sexuado, por não gozar suficientemente bem? E o que mais? O que nos liga àquele que embarca conosco na chamada posição do paciente?
Somos irmãos de nosso paciente na medida em que, como ele, somos fi lhos do discurso.
Já que é preciso, de qualquer modo, não lhes pintar unicamente um futuro cor-de-rosa, saibam que o que vem aumentando, o que ainda não viu suas últimas consequências, e que, por sua vez, se enraíza no corpo, na fraternidade do corpo, é o racismo.
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