
Seminar 18 De um discourse que nao fosse semblance
Seminário 18. De um discurso que não fosse semblante (1971)
Daí meu enunciado introdutório. De um discurso - detenho-me aí que não é o meu. É desse enunciado do discurso como não podendo ser o discurso de um particular, mas se fundando numa estrutura, e da ênfase que lhe é dada pela distribuição, pelo deslizamento de alguns de seus termos, é daí que parto, este ano, para o que se intitula De um discurso que não fosse semblante.
Isso não é novo, já falei sobre isso, mas ninguém prestou atenção:
o que constitui a originalidade deste ensino, e que os motiva a lhe trazerem sua presença em massa, é exatamente o fato de alguém, a partir do discurso analítico, colocar-se em relação a vocês na posição de analisando.
exceto que lhes falta o saber
Dito isto, qual pode ser o alcance do que enuncio nessa referência, De um discurso que não fosse semblante?
Isso pode ser enunciado do meu lugar, e em função do que enunciei antes. Em todo caso, é fato que eu o enuncio. Observem que também é um fato uma vez que eu o enuncio. Vocês podem não entender nada, isto é, achar que não há nisso nada além do fato de eu o enunciar. Entretanto, se falei de artefato a propósito do discurso, foi porque, para o discurso, não existe nada de fato, se assim posso me expressar, só existe fato pelo fato de dizê-lo. O fato enunciado é, ao mesmo tempo, fato de discurso. É isso que designo com o termo artefato e, é claro, é isso que se trata de reduzir.
A interpretação não é submetida à prova de uma verdade que se decida por sim ou não, mas desencadeia a verdade como tal. Só é verdadeira na medida em que é verdadeiramente seguida.
Entrementes, não existe semblante de discurso, não existe metalinguagem para julgá-lo, não existe Outro do Outro, não existe verdade sobre a verdade.
Quem não sabe que, ao dizer eu não minto, de modo algum nos resguardamos de dizer uma coisa mentirosa? Que significa isso? A verdade de que se trata, aquela que afirmei que diz Eu, aquela que se enuncia como oráculo, quando ela fala, quem é que fala? Esse semblante é o significante em si.
Faço desse significante um uso que incomoda os linguistas. Já houve quem escrevesse linhas destinadas a deixar bem claro que Ferdinand de Saussure sem dúvida não fazia a mínima ideia dele. Como é que vamos saber? Ferdinand de Saussure fazia como eu, não dizia tudo.
Prova disso é que se encontraram em seus papéis coisas que nunca foram ditas em seus cursos.
à função do acaso e à dos mitos.
Como vocês sabem, quebrou-se muito a cabeça com Hegel, e se comentou que Hegel é muito bonito, mas, apesar disso, há alguma coisa que ele não explica. Ele explica a dialética do senhor e do escravo, mas não explica que haja uma sociedade de senhores.
Um discurso, por natureza, faz semblante, assim como podemos dizer que ele brilha, ou que é desenvolto, ou que é chique. Se o que se enuncia de fala é verdadeiro justamente por ela ser sempre, muito autenticamente, aquilo que é, no nível em que estamos, do objetivo e da articulação, é exatamente como objeto daquilo que só se produz no referido discurso que o semblante se coloca. Daí o caráter propriamente insensato do que se articula. É justamente aí que se revela o que acontece com a riqueza da linguagem. Ela detém uma lógica que ultrapassa em muito tudo o que conseguimos cristalizar ou desvincular dela.
Freud deu mostras de uma finura e uma competência absolutamente excepcionais na época em que escreveu, porque somente alguns lógicos de divulgação modesta poderiam ter apontado isso na ocasião
De um discurso que não fosse semblante afirma que o discurso, tal como acabo de enunciá-lo, é semblante.
Graças a Deus, o discurso filosófico não desapareceu sem antes destacar que devia haver, na origem, uma relação entre esse saber e o gozo. Aquele que assim encerrou o discurso filosófico - Hegel, para dizer seu nome - vê apenas a maneira pela qual, mediante o trabalho, a escravidão viria a conseguir … o quê? Nada senão o saber do mestre/senhor.
O chamado mundo inanimado não é a morte. A morte é um ponto, um ponto terminal, de quê? Do gozo da vida.
Quem não vê que a economia, inclusive a chamada economia da natureza, é sempre um fato de discurso, este não pode apreender que isso indica que, aqui, só pode tratar-se de gozo na medida em que ele próprio é não apenas fato, mas efeito de discurso.
é por um discurso centrar-se como impossível, por seu efeito, que ele teria alguma chance de ser um discurso que não fosse semblante.
talvez seja mais pertinente indagar de onde eu parto, ou até de onde quero fazer vocês partirem
Um discurso se sustenta a partir de quatro lugares privilegiados, dentre os quais um, precisamente, ficou sem ser nomeado - justamente aquele que, pela função de seu ocupante, fornece o título de cada um desses discursos. É quando o significante-mestre encontra-se num certo lugar que falo do discurso do mestre. Quando um certo saber o ocupa, falo do discurso da Universidade. Quando o sujeito, em sua divisão, fundadora do inconsciente, encontra-se instalado ali, falo do discurso da histérica. Por fim, quando o mais-de-gozar ocupa esse lugar, falo do discurso do analista.
Esse lugar que é como que sensível, o do alto, à esquerda, para os que estiveram lá e ainda se lembram dele, esse lugar que é aqui ocupado, no discurso do mestre, pelo significante como mestre, S1, esse lugar ainda não designado, eu o designo por seu nome, pelo nome que ele merece. É, muito precisamente, o lugar do semblante.
quem pode acreditar que algum dia um mestre tenha reinado pela força? Sobretudo no começo, porque, enfim, como nos lembra Hegel em sua admirável escamoteação, um homem tem tanto valor quanto outro. Se o discurso do mestre constitui o lastro, a estrutura, o ponto forte em torno do qual se ordenam diversas civilizações, é porque seu motor, afinal, é de uma ordem muito diferente da violência.
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é um modo de tapeação - enquanto nos ocupamos disso, não nos ocupamos de outra coisa
tudo o que pode suceder de novo e que chamamos de revolucionário - insisto desde sempre no tem peramento que convém introduzir nisso - só pode consistir num deslocamento do discurso.
um certo número de termos, nominalmente aqueles que distingui como S1, o significante-mestre; S2, que, no ponto em que estamos, constitui um certo corpo de saber; o pequeno a, na medida em que ele é consequência direta do discurso do mestre; e o$, que ocupa no discurso do mestre o lugar de que falaremos hoje, e que já denominei, por sua vez, de lugar da verdade.
A articulação, digo a articulação algébrica do semblante- e, como tal, trata-se apenas de letras - e seus efeitos, esse é o único aparelho por meio do qual designamos o que é real. O que é real é aquilo que faz fu ro nesse semblante, nesse semblante articulado que é o discurso científ i co. O discurso científ i co progride sem sequer preocupar-se mais em saber se é ou não semblante. Trata-se apenas de que sua rede, sua malha, sua la t t i ce .trama., como se costuma dizer, faça surgirem os fu ros certos no lugar certo. Ele só tem como referência a impossibi lidade a que conduzem suas deduções. Essa impossibilidade é o real.
O aparelho do discurso, na medida em que é ele, em seu rigor, que depara com os limites de sua consistência, é com isso que, na fí sica, visamos alguma coisa que é o real.
é impossível avançar para derrubar o ídolo sem assumir seu lugar logo depois, como aconteceu, como sabemos, com um certo tipo de mártires
Certamente, é estranho - só não é estranho de um único ponto de vista, o da charlatanice que rege toda ação terapêutica em nossa socie dade -, é estranho que não se tenha percebido o mundo que existe entre esse termo, “sexualidade”, em todo lugar em que ele começa, em que simplesmente começa a adquirir uma substância biológica - e eu os fa rei observar que, se há um lugar em que podemos começar a perceber o sentido que isso tem, é sobretudo do lado das bactérias-, o mundo que existe entre isso e o que Freud enuncia sobre as relações reveladas pelo inconsciente.
Sex and Gender .Sexo e gênero., de um certo Stoller
Uma das coisas mais surpreendentes é que a face psicótica desses casos é completamente eludida pelo autor, na falta de qualquer referencial, já que nunca lhe chegou aos ouvidos a foraclusão lacaniana, que explica prontamente e com muita facilidade a forma desses casos.
Para o menino, na idade adulta, trata-se de parecer-homem.
Esse nível, por sua vez, é propriamente o de um semblante. Na maioria das vezes, o macho é o agente da exibição, mas a fêmea não está ausente dela, já que é precisamente o sujeito atingido por essa exibição. É por haver exibição que se dá uma coisa chamada copulação, copulação esta que decerto é sexual em sua fu nção, mas que encontra seu status de elemento particular de identidade.
É certo que o comportamento sexual humano encontra facilmente uma referência na exibição, tal como definida no nível animal. É certo que o comportamento sexual humano consiste numa certa manutenção desse semblante animal. A única coisa que o diferencia dela é que esse semblante seja veiculado num discurso, e que é nesse nível de discurso, somente nesse nível de discurso, que ele é levado, permitam-me dizer, para algum efeito que não fosse semblante. Isso significa que, em vez de ter a refinada cortesia animal, sucede aos homens violar uma mulher, ou vice-versa.
Isso também dá ensejo a esclarecer o que acontece com o que há muito tempo diferencio da passagem ao ato, isto é, o acting out. Este consiste em fazer o semblante passar para a cena, em mostrá-lo à altura da cena, em fazer dele um exemplo. É a isso que, nessa ordem, chama se acting out. Também chamamos isso de paixão.
o gozo sexual como coordenado com um semblante, como solidário a um semblante.
É ex atamente isso que se passa, e é muito estranho ver todos os analistas se esforçarem por desviar os olhos disso. Lo nge de haverem insistido cada vez mais na guinada, na crise da fase fá lica, tudo lhes serve para evitá-la. A verdade com a qual não há um desses jovens seres falantes que não tenha de se confrontar é que ex iste quem não tenha falo. É uma dupla intrusão na falta, porque existe quem não o tenha e, ainda por cima, essa verdade faltava até então. A identificação sexual não consiste em alguém se acre ditar homem ou mulher, mas em levar em conta que existem mulheres, para o menino, e existem homens, para a menina. E o importante nem é tanto o que eles experimentam, o que é uma situação real, permitam-me dizer. É que, para os homens, a menina é o falo, e é isso que os castra.
Para as mulheres, o menino é a mesma coisa, o falo, e ele é também o que as castra, porque elas só adquirem um pênis, e isso é falho. No começo, nem o menino nem a menina correm riscos, a não ser pelos dramas que desencadeiam; por um momento, eles são o fa lo.
Para o homem, nessa relação, a mulher é precisamente a hora da verdade. No tocante ao gozo sexual, a mulher está em condição de pontuar a equivalência entre o gozo e o semblante. É justamente nisso que jaz a distância a que o homem se encontra dela. Se falei em hora da verdade, é por ser a ela que toda a formação do homem é feita para responder, mantendo, contra tudo e contra todos, o status de seu semblante. É certamente mais fácil para o homem enfrentar qualquer inimigo no plano da rivalidade do que enfrentar a mulher como suporte dessa verdade, suporte do que existe de semblante na relação do homem com a mulher.
ninguém senão a mulher - porque é nisso que ela é o Outro - sabe melhor o que é disjuntivo no gozo e no semblante, porque ela é a presença desse algo que ela sabe, ou seja, que, se gozo e semblante se equivalem numa dimensão do discurso, nem por isso deixam de ser distintos no teste que a mulher representa para o homem, teste da verdade, pura e simplesmente, a única que pode dar lugar ao semblante como tal.
Cabe dizer que tudo o que nos foi enunciado como sendo a instân cia do inconsciente não representa nada senão o horror dessa verdade.
Este ano farei algumas pequenas referências às origens do pensamento chinês.
Percebi uma coisa: é que talvez eu só seja lacaniano por ter estudado chinês no passado. Com isso quero dizer que, ao reler coisas que eu havia percorrido, balbuciadas como por um pateta, com orelhas de burro, agora me dei conta de que isso está em pé de igualdade com o que conto.
O que não encontrardes do la do yen -esse é o discurso -, não o procureis do la do de vosso es pírito.
E, se não o encontrardes do la do de vosso es pírito, não o procureis do la do de vosso tchi, isto é, de vossa sensibilidade
embora, em muitos casos, eu não me digne mencionar os movimentos que chegam até mim.
Constatou-se, como vocês viram depois, que talvez fosse um pouco menos engraçado do que levava jeito, visto ter sido, de certo modo, a sineta em que tive de ouvir, embora seja surdo, a conf i rmação do que já me fora anunciado: que meu lugar não era mais sob essa marquise.
Era uma confirmação que eu poderia ter ouvido, porque estava escrita no artigo.
discurso, tal como eu o sustento. Diga mos que eu sei, mas o quê? Procuremos ser exatos-parece provado que Eu sei a que me ater. A ocupação de um certo lugar, isto eu sublinho sublinho porque não tenho que enunciá-lo pela primeira vez, passo o tempo todo repetindo que é nele que me sustento-, esse lugar não é outro senão o que identif i co com o de um psicanalista. A questão pode ser discutida, af i nal, já que muitos psicanalistas a discutiriam, mas, enf i m, é a isso que me atenho.
em nenhum campo da ciência temos esse ma pping, esse mapa para nos dizer onde estamos. E, ainda por cima todos concordam quanto a isso -, a partir do momento em que começamos a falar do mapa, de seu acaso e sua necessidade, qualquer um fica em condição de lhes objetar, seja qual for o valor de seu padrão de medida, que vocês já não estão fazendo ciência, mas fi losofia. Isso não signif i ca que qualquer um saiba o que diz ao dizê-lo. Mas, enf i m, encontra-se numa posição muito forte.
apódose
Se eu sei a que me ater, convém eu dizer, ao mesmo tempo, que Mêncio me protege, que eu não sei o que digo. Em outras palavras, sei o que eu digo é o que não posso dizer. E essa a data marcada pelo fato de Freud haver existido, e de haver introduzido o inconsciente.
O inconsciente não quer dizer nada, se não quiser dizer que, diga eu o que disser e onde quer que me posicione, mesmo que me posi cione bem, eu não sei o que digo; e nenhum dos discursos, tais como os defini no ano passado, dá esperança, permite a alguém pretender, até esperar, de algum modo, saber o que diz.
que o inconsciente se estrutura como uma linguagem. Qua l ? Pois bem, justamente, procurem-na.
Está claríssimo que, num certo nível, o que eu causo é amargura, muito especialmente do lado dos linguistas. Isso mais serve para levar a crer que o status universitário é por demais evidente nos desdobramentos impostos à linguística, por ela se tornar um acessório engraçado. Pelo que vemos dela, não há dúvida quanto a isso. O fato de me denunciarem nesse contexto, meu Deus, não é algo que tenha tanta importância. Que não me discutam também não é muito surpreen dente, visto que não é a partir de uma certa def i nição do domínio universitário que eu me posiciono, que posso me posicionar.
Toda designação é metafórica, não pode fazer-se senão por intermé dio de outra coisa. Mesmo que eu diga Isso, apontando-o, já implico, por tê-lo chamado de I sso, que escolhi fazer apenas Isso, embora isso não seja I sso. A prova é que, quando o acendo, ele é outra coisa, mesmo no nível do Isso, do famoso I sso que seria o reduto do particular, do individual. Não podemos omitir que é um fato de linguagem dizer Isso. O que acabo de designar como I sso não é meu charuto. Ele é isso quando o fu mo, mas, quando o fu mo, não falo dele.
e, naturalmente, eu os tapeio, porque a única coisa interessante é o que acontece na performance, a saber, a produção do mais-de-gozar, do de vocês e daquele que vocês me imputam quando ref l etem.
Todos sabem que sempre acabo o que tenho para lhes dizer num galope, talvez por ter-me arrastado demais, por ter fl anado demais anteriormente. É o que me dizem alguns. Que é que eu vou fazer?
Cada qual tem o seu ritmo. É assim que eu faço amor.
Falei-lhes de uma lógica subdesenvolvida. Isso deixou umas pessoas coçando a cabeça. O que será isso, essa lógica subdesenvolvida?
É só isso que há de seguro:
há coisas que nos dão sinal e das quais não compreendemos nada.
Mas não convém conf u ndir o subdesenvolvimento com o retor n o a um estado arcaico. Não é por Mêncio ter vivido no século III antes de Jesus Cristo que eu o apresento a vocês como uma mentalidade primitiva.
Eu o apresento a vocês como alguém que, no que dizia, provavelmente sabia uma parte das coisas que não sabemos quando dizemos a mesma coisa. É isso que pode nos servir para aprender com ele a sustentar uma metáfora, não fabricada para não fu ncionar, mas cuja ação suspendamos.
Talvez seja nesse ponto que tentaremos mostrar o caminho necessário.
O positivismo lógico
Wieger, nos Quatro livros fu nd a men tais do conf u cionismo, ou podem apoderar-se desse Mencius on the Mind, de Richards, que saiu pela editora Kegan Paul, em Londres.
É nisso que o escrito se dif erencia da fala, e é preciso reinserir nele a f ala, enriquecê-lo seriamente com ela, mas não, naturalmente, sem inconvenientes de princípio, para que ele seja entendido. Podemos escrever uma porção de coisas, portanto, sem que isso chegue a ne nhum ouvido. Mas está escrito. Foi por isso mesmo, aliás, que dei a meus Es critos esse nome. Isso escandalizou muita gente sensível, e não qualquer um
É a partir da fala, é claro, que se abre caminho para o escrito. Meus Escr i tos, se os intitulei assim, f oi por eles representarem uma tentativa, uma tentativa de escrito, como fica suf i cientemente destacado pelo f ato de isso ter levado a graf os. O chato é que as pessoas que pretendem me comentar partem imediatamente dos graf os. Estão erradas; os grafos só são compreensíveis em f unção, eu diria, do mínimo ef eito de estilo dos citados Escritos, que são, de certo modo, os degraus de acesso a eles. É por isso que o escrito, o escrito retomado por si só, quer se trate deste ou daquele esquema, do que chamamos de L ou de qualquer outra coisa, ou do próprio grande graf o, apresenta, ocasionalmente, toda sorte de mal-entendidos.
sempre realizo numerosas entrevistas preliminares.
Pude constatar, não sem prazer, que as pessoas perceberam que, nesse texto, não decido de modo algum o que é a transferência. Muito precisamente, é ao dizer “sujeito suposto saber”, tal como eu o de f i no, que permanece intacta a questão de saber se o analista pode ser suposto saber o que f az.
Pois bem, se de f ato diz-mansão é um novo termo que f abriquei, e se ele ainda não tem sentido, isso quer dizer que é a vocês que compete dar-lhe um sentido. Interrogar a diz-mansão da verdade em sua morada é algo - aí está a novidade do que introduzo hoje - que só se faz pelo escrito, e pelo escrito na medida em que é somente a partir do escrito que se constitui a lógica.
é a substituição da relação sexual pela chamada lei sexual. É aí que está a distância em que se inscreve que não há nada em comum entre, por um lado, o que se pode enunciar de uma relação que constitua lei, por decorrer, de uma forma qualquer, da aplicação, tal como estreitamente apreendida pela fu nção matemática, e, por outro, uma lei que é coerente em todo o registro do que se chama desejo e do que se chama proibição. É da própria hiância da proibição inscrita que decorre a conjunção - ou até a identidade, como ousei enunciar-desse desejo com essa lei. Em termos correlatos, tudo que é da alçada do efeito de linguagem, tudo que instaura a diz-mansão da verdade, coloca-se a partir de uma estrutura de fi cção.
o rito e o mito são como o direito e o avesso, sob a condição de que esse direito e esse avesso estejam em continuidade.
O esquema de Peirce
Só que o instrumento falo não é um instrumento como os outros.
É como no canto: o instrumento f alo, eu já lhes disse que não deve ser conf u ndido de modo algum com o pênis. O pênis, ele sim, pauta-se pela lei, isto é, pelo desejo, isto é, pelo mais-de-gozar, isto é, pela causa do desejo, isto é, pela fantasia. E aí , o suposto saber da mulher que saberia esbarra num obstáculo, num osso, justamente aquele que falta ao órgão, se vocês me permitem continuar na mesma veia, porque, em certos animais, existe um, um osso. Isso mesmo. Há aí uma f alta, é um osso f altante. Que não é o f alo, é o desejo e seu fu ncionamento.
Daí resulta que uma mulher só tem um testemunho de sua inserção na lei, daquilo que supre a relação, através do desejo do homem.
O ponto a que eu queria chegar é este: de onde se interr o ga a verdade?
É que a verdade pode dizer tudo o que quiser. É o oráculo. Isso existe desde sempre e, depois dele, só resta nos arranjarmos.
ocês acreditarão, é claro, que vou lhes dizer que isso serve para o diálogo. Fa z muito tempo que afirmei que isso não existia, diálogo. E com a verdade, é claro, menos aind
Metamatemdtica, de Lorenzen
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Está absolutamente claro que dizer eu minto é algo que não cria nenhum obstáculo, dado que é só isso que f azemos, logo, por que não o diríamos? O que signif i ca isso? Que é somente ao ser escrito que, aí sim, passa a haver um paradoxo, porque dizemos muito bem: Vo cê estd mentindo nisso, ou estd dizendo a verd a de?
Suponhamos que eu diga à verdade: N ão é verd d d e que você diga a verd d d e e minta ao mesmo tempo. A verdade pode responder muitas coisas, já que vocês é que a estão f azendo responder, isso não lhes custa nada. De todo modo, levará ao mesmo resultado, mas vou detalhá-lo para vocês, para ficar colado a Lorenzen. Ela diz Eu digo a verd d d e , e vocês lhe respondem: Não te fa ço dizê-lo. Então, para chateá-los, ela diz: Eu minto. Ao que vocês respondem: Agora eu ganhei, sei que você se contradiz.
É exatamente isso que vocês descobrem com o inconsciente, não tem maior alcance. Que o inconsciente sempre diga a verdade e minta é, partindo dele, perf eitamente sustentável. Simplesmente cabe a vocês sabê-lo. Que é que isso lhes ensina? Que da verdade, vocês só sabem alguma coisa quando ela se desencadeia. Nesse ponto, ela se desenca deou, rompeu sua cadeia, disse-lhes igualmente as duas coisas, quando vocês diziam que a conjunção não era sustentável.
acoisa
o que signif i ca que ela está ausente ali onde ocupa seu luga
O lero-lero fi losóf i co que não é nada - o lero-lero agita, não há mal nisso
Come teu Dasein
garraf as de Klein
ala plena f oi que ela exerce - esses são os achados da linguagem, que são sempre muito bonitos -, que ela exerce a fu nção da acoisa que está no quadro
Em outras palavras, a fala sempre ultrapassa o falante, o falante é um falado: eis aí o que enuncio há algum tempo, af i nal.
É patente, primeiro, por vocês estarem aí para eu mostrá-lo a vocês. Só que, vejam, se o que eu digo é verdade, o seu ser-aí não é mais comprobatório do que o meu. O que eu lhes mostro há um bocado de tempo não basta para que vocês o vejam, é preciso que eu o demonstre.
Demonstrar, no caso, é dizer o que mostrei.
Ora, de interpretação, é claro. Saibam que isso não podia nem mesmo criar uma dificuldade para aqueles para quem eu os construí.
Antes de expor a direção de uma linha, seu cruzamento com esta ou aquela outra, a indicação da pequena letra que pus nesses cruzamentos
entramos no cerne do que podemos dizer sobre o escrito ou sobre a escrita.
V ocês talvez imaginem que é a mesma coisa. Fala-se da escrita .écriture. como se ela f osse independente do escrito .écrit.. É isso que às vezes deixa o discurso muito atrapalhado. Aliás, esse termo ure, . que se acrescenta assim, dá bem a perceber de que pileque .biture. engraçado se trata, no caso. O certo é que f alar da acoisa, tal como está aí, pois bem, isso, por si só, já deveria esclarecê-los sobre o que
tive de tomar como aparelho, não digamos mais nada: o suporte do escrito, sob a f orma do grafo.
Vocês decerto compreendem que, se a escrita pode servir para alguma coisa, é justamente na medida em que é dif erente da fala - da fala que pode se apoiar nela. A fala não se traduz como S(J A ), por exemplo.
Só que, se ela se apoia nisso, ainda que seja dessa f orma, ela deve se lembrar de que essa forma não funciona sem que aqui, na outra linha que corta a primeira, marquem-se, nesses pontos de intersecção, s(A) e o próprio A.
Tudo depende do sentido que vocês derem ao A maiúsculo. Há um sentido proposto no escrito em que o inseri. E assim, os sentidos que se impõem para todos os outros não ficam livres de um grande desvio.
Analíticas do Sr. Aristóteles
um triângulo-já que esse é o ponto de partida, um triângulo - não é outra coisa senão uma escrita, ou um escrito, exatamente.
Havia pessoas que tinham dons para o escrito, dizem.
Que quer dizer isso, a escrita? Afi nal, é preciso circunscrever um pouco. Quando vemos o que é corrente chamar de escrita, fi ca per feitamente claro e certo que ela é alguma coisa que, de certo modo, repercute na f ala.
Sobre o habitat da fala, creio que já dissemos coisas suficientes, das últimas vezes, para ver que nossa descoberta, no mínimo, articula-se estreitamente com o fato de que não há relação sexual, tal como a de f i ni. Ou, se quiserem, que a relação sexual é a própria fala. Confessem que, no entanto, isso deixa um pouco a desejar. Além disso, penso que vocês já sabem um bocado desse assunto.
a relação sexual é a própria fala.
o que se passa com o desejo do homem, escrito .I. (a). .I. é o signif i cante falo. Isso é dito para as pessoas que creem que o f alo é a falta de signif i cante. Sei que isso é discutido nos bares, porque, por mim, estou me lixando para os Escritos, não é? E o desejo da mulher se escreve- K (. p ). (. p ) é o f alo ali onde se imagina que ele está, o pequeno pipi. Eis aí o que chegamos a escrever de melhor, depois, meu Deus, de algo que chamaremos simplesmente o fato de havermos chegado a um certo momento científico.
A gente respira. Não é uma besteirada absoluta. É até muito salutar. Nem sequer se trata, ao sair dela, de nos ocorrer a ideia de que a história da escrita não consiste nisto-que não parece nada, mas, como está escrito em toda parte e ninguém o lê, vale a pena ser dito, de todo modo: que a escrita é representação de palavras.
há pessoas que imaginaram que, com a lógica, isto é, com a manipulação da escrita, se encontraria um meio de ter … o quê? New ide as , novas ideias, como se elas já não existissem em quantidade suficiente.
Sim. O fato de o sonho ser um rébus, diz Freud, não é o que me fará abandonar nem por um instante a af i rmação de que o incons ciente é estruturado como uma linguagem. Só que é uma linguagem em meio à qual apareceu sua escrita. Isso não significa, é claro, que se deva dar o menor crédito - e quando o daríamos, não é? - a essas imagens que passeiam pelos sonhos. Uma vez que sabemos que elas são representações de palavras, já que se trata de um rébus, isso se traduz, ubertrag t , no que Freud chama de pensamentos, die Ged a nken, do inconsciente.
E o que pode querer dizer o fato de um lapso, um ato f alho, uma mancada da psicopatologia da vida cotidiana serem repetidos por vocês pelo menos três vezes, nos mesmos cinco minutos? Não sei por que estou lhes dizendo isso, porque esse é um exemplo em que se revela um de meus pacientes. De fato, não faz muito tempo, um de meus pacientes, em cinco minutos - e se corrigindo e rindo todas as vezes, mas sem que isso fi zesse a menor diferença -, chamou sua mãe de minha mulher. Não é minha mulher , porque a minha mulher etc., e continuou assim por cinco minutos, repetiu isso umas boas vinte vezes.
O que tem de f alha, essa f ala, quando eu me mato para lhes dizer que ela é realmente a fala bem-sucedida? E é bem-sucedida porque a mãe dele era realmente sua mulher. Ele a chamou como convinha.
É claro que, se ele escrevesse minha mulher em vez de minha mãe, não haveria nenhuma dúvida de haver um lapso, ma s só existe la psus cal a mi, mesmo quando se trata de um lapsus ling u ae, porque a língua, por sua vez, sabe muito bem o que tem de fazer. É um falozinho muito gentilmente instigante. Quando ela tem alguma coisa a dizer, pois bem, ela o diz. Já está aí um certo Esopo que disse que a língua era, ao mesmo tempo, o que havia de melhor e de pior.
E isso significa muitas coisas.
A única coisa de que nunca tratei é do supereu. Julgo-me obrigado a ler isso de ponta a ponta. É assim. Eu o faço para ter certeza, certeza de coisas que me são af i rmadas, que me são demonstradas por minha experiência da vida cotidiana
Se f alo dela, não se trata em absoluto de metalinguagem, mas do que chamamos, do que os próprios matemáticos chamam, quando expõem uma teoria lógica, de discurso, o discurso comum, o discurso ordinário.
Essa é a fu nção da fala, tal como aplicada, não de maneira total mente ilimitada, indisciplinada - foi isso que chamei há pouco de demonstrar-, é claro, mas à linguagem. A escrita é aquilo de que se trata, aquilo de que f alamos.
Não há metalinguagem alguma, no sentido de que nunca f alamos senão a partir da escrita.
Nunca me releio, mas, quando me releio, vocês não podem saber como me admiro. Evi dentemente, eu me esforcei, fi z um negócio bem aprofundado, que foi bastante bom. Quando o fi z já não sei, faz tempo, mas ainda foi diante da corja do Sainte-Anne
Enf i m, preparei aquilo num lugar que ponho no fi m - sou consciencioso -, em San Casciano, nas imediações de Florença, e isso estragou um bocado as minhas f érias.
Mas enf i m, como vocês sabem, tenho uma queda por isso, por es tragar minhas f érias.
Essa carta de que falo, a carta recebida pela Rainha -vocês talvez tenham lido o conto de Poe em questão -, é uma carta meio esquisita, af i nal. Nunca saberemos o que há dentro dela. É justamente isso o essencial, nunca saberemos o que há dentro dela. E nada contradiz, inclusive, que somente a Rainha o saiba, no fi m das contas. De resto, para meter a policia nisso, vocês entendem, é preciso, de qualquer modo, que ela tenha uma ideia clara de que a carta não possa, de modo algum, dar informações a ninguém. Há só uma coisa: é que é certo que a carta tem um sentido. E, como vem de um certo duque de não-sei-quê que se dirigiu a ela, se o Rei, seu bom amo e senhor, puser a mão na carta, mesmo que também não compreenda nada, ele dirá a si mesmo: Ora, há al g o de sus peito aí. E Deus sabe aonde isso pode levar. Eu deploro os velhos problemas que isso criava antigamente: levava uma Rainha ao cadafalso, coisas assim.
Bem, não vou lhes dizer. O que estou falando é do f alo. E até diria mais: ninguém nunca falou melhor dele. É por essa razão que lhes peço que se reportem a isso, que lhes ensinará alguma coisa.
DE UM A FUNÇÃO PARA NÃO ESCREVER
Obviamente, quando eu disse da última vez - eu me solto desse jeito, sobretudo quando é preciso fazer semblante de respirar um pouco - que admirava a mim mesmo, espero que vocês não tenham levado isso ao pé da letra. O que admirei, sobretudo, f oi que o traçado que fiz, na época em que mal começava a escavar uma certa trilha em fu nção dos referenciais, não precise hoje ser claramente rejeitado, não me cause vergonha. Foi nesse tema, na vergonha, que encerrei o ano passado, e isso é realmente notável. Talvezseja até possível tirar uma coisinha daí, um esboço, digamos, de incentivo para continuar
Por exemplo, será que podemos dizer que Freud formula propria mente a impossibilidade da relação sexual? Ele não a formula como tal. Se eu o faço, é simplesmente porque isso é muito simples de dizer.
Está escrito de todas as maneiras. Está escrito no que Freud escreve.
Basta lê-lo. Só que, dentro em pouco, vocês verão por que não o leem.
Eu tento dizê-lo, e dizer por que, quanto a mim, eu o leio.
a tradução A carta roubad a não é a correta. T he Purloined Letter quer dizer que, de toda f orma, ela chega a seu destino. E o destino, eu o forneço. Forneço-o como o destino fu ndamental de toda carta, no sentido de e pístol a . Ela chega, digamos, não só a este ou àquela, mas aos que nada podem compreender dela, dentre eles a polícia, no caso.
Esta, é claro, é totalmente incapaz de compreender seja o que for desse substrato, desse material da carta. Aponto e explico isso em numerosas páginas, e é justamente por isso que a polícia não é nem mesmo capaz de encontrá-la. Essa invenção, essa maquinação de Poe, tudo isso é dito de maneira muito bonita, magníf i ca. A carta, evidentemente, está fora do alcance da explicação do espaço, já que é disso que se trata. É isso que a polícia vem dizer, inicialmente, e depois, o chefe de polícia. Na casa do ministro - e temos certeza de que a carta está lá, está lá para que ele a tenha sempre ao alcance da mão -, o espaço é literalmente esquadrinhado, sem que ela seja encontrada.
desde Descartes, Leibniz ou outros e chegou até Husserl
Mas o sujeito se distingue por sua imbecilidade especialíssima. É isso que importa no texto de Poe, pelo fato de que aquele com quem ele se diverte nessa ocasião é, não por acaso, o Rei, que se manif esta aqui na fu nção de sujeito.
Ele não compreende absolutamente nada, e nem toda a sua estru tura policial f ará a carta chegar a seu alcance, dado que é a polícia que a guarda, e que esta não pode fazer nada com ela. Sublinho inclusive que, ainda que a encontrássemos em seus dossiês, isso não poderia servir ao historiador. Em uma das páginas do que escrevi a propósito dessa carta, podemos dizer que, muito provavelmente, só a Rainha sabe o que a carta quer dizer. O que tem seu peso é que, se a única pessoa a quem isso interessa, a saber, o sujeito, o Rei, a tivesse nas mãos, ele só compreenderia isto: que ela certamente tem um sentido, e que - aí é que está o escândalo - se trata de um sentido que a ele, o sujeito, escapa. O termo escând a l o , ou ainda contradição, fi c a bem colocado nessas quatro últimas pagininhas que lhes dei para ler, sublinho.
É certo que o Rei, é claro, dorme desde o começo, e dormirá até o fim de seus dias, completamente sossegado.
A Rain h a não se dá conta de que é quase f atal que fi que louca por esse ministro, agora que ela o detém, que o castrou, não é? Isso é amor.
O ministro, por ter sido apanhado, foi apanhado, mas isso lhe é indiferente, porque, como expliquei muito bem em algum lugar, das duas, uma: ou ele gostará de se tornar amante da Rainha, o que seria agradável - em princípio, é o que se diz, embora isso não agrade a todo o mundo -, ou então, se realmente nutrir por ela um desses sentimentos que são da ordem do que chamo, por minha vez, de o único sentimento lúcido, a saber, o ódio, como lhes expliquei muito bem, se ele a odiar, ela só fará amá-lo ainda mais, e isso lhe permitirá ir tão longe que, de todo modo, ele acabará desconf i ando que a carta já não existe há muito tempo. Porque ele se enganará, naturalmente.
Dirá a si mesmo que, se estão indo tão longe com ele, é porque têm certeza das coisas, e então abrirá seu papelzinho, no devido tempo, mas de modo algum chegará ao que é a coisa desejada: acabar por se ridicularizar. Ridículo ele não será.
Foi na época em que meus Escritos ainda não tinham sido lançados que elas me deram seu ponto de vista de técnicos: Não entendemos nad a , foi o que me disseram.
Observem que isso é muita coisa. Algo de que não se compreende nada é a esperança absoluta, é o sinal de que se foi afetado por aquilo.
Felizmente não se compreendeu nada porque só se pode compreender o que já se tem na cabeça. Mas, enfim, eu gostaria de tentar articular essa ideia um pouco melhor.
Não basta escrever algo que seja incompreensível de propósito, mas ver por que o ilegível tem sentido. Assinalo desde logo que toda a nossa história, que é a história da relação sexual, gira em torno daquilo que vocês poderiam acreditar que está escrito.
imiscui
Se a planta não sof resse manif estamente, não saberíamos que ela está viva.
Como autor, estou menos implicado do que se imagina, e os meus Escritos são um título mais irônico do que se supõe, uma vez que se trata, em suma, quer de relatórios, que existem em função de congres sos, quer - digamos, eu gostaria muito que fossem entendidos dessa maneira- de cartas abertas, nas quais certamente problematiw, a cada momento, uma parte de meu ensino. Mas, enfim, isso dá o tom.
uma carta sempre chega a seu destino, mesmo depois dos desvios que ela sofre no conto. O relato, se assim posso dizer, é f eito sem nenhum recurso ao conteúdo da carta. É isso que torna notável o ef eito que ela exerce sobre os que se tornam alternadamente seus detentores, por mais que eles possam def ender o poder que ela conf ere para aspirar a possuí-la. Esse ef eito de ilusão só pode articular-se, e é assim que eu o articulo, como um ef eito de f eminização.
pistola
Saber em xeque, tal como se diz fi g u ra en ab yme, não signif i ca fracasso do saber.
No mesmo instante, descubro que as pessoas se julgam dispensadas de dar mostras de qualquer saber.
Quanto a mim, eu lhes digo, será que a letra não é o literal a ser fu ndado no litoral? Porque este é dif erente de uma f ronteira. Aliás, vocês devem ter observado que essas duas coisas nunca se conf u ndem.
O litoral é aquilo que instaura um domínio inteiro como f ormando uma outra f ronteira, se vocês quiserem, mas justamente por eles não terem absolutamente nada em comum, nem mesmo uma relação recíproca.
Não é a letra propriamente o litoral? A borda do fu ro no saber que a psicanálise designa, justamente ao abordá-lo, não é isso que a letra desenha?
Entre o gozo e o saber, a letra constituiria o litoral.
o inconsciente - que digo ser efeito de linguagem
palavra tomada como outra, ou de palavra tomada por outra, ou seja, a metáf ora e a metonímia, como ef eitos da f rase
Wa hrnehmungs zeichen,
Estou sempre meio na borda. Por que não, desta vez, me lançar?
Isto é para lhes def i nir por que se pode dizer que a escrita é, no real, o ravinamento do signif i cado, ou seja, o que choveu do semblante como aquilo que constitui o signif i cante. A escrita não decalca o significante.
Só remonta a ele ao receber um nome, mas exatamente do mesmo modo que isso acontece com todas as coisas que a bateria significante vem a denominar, depois de as haver enumerado.
A escrita, a letra, está no real, e o signi ficante, no simbólico. Desse jeito, isso lhes poderá servir de estribilho.
Ninguém no mundo jamais segue a linha reta, nem o homem, nem a ameba, nem a mosca, nem o ramo, nada. Segundo as últimas notícias, sabemos que o facho de luz também não a segue, totalmente solidário com a curva universal.
O f ato de o sintoma instituir a ordem pela qual se confirma nossa política - foi esse o passo que ela deu - implica, por outro lado, que tudo o que se articula dessa ordem é passível de interpretação. Por isso é que tem toda razão quem põe a psicanálise à f rente da política.
E poderia não ser nada f ácil, para o que da política f ez boa figura até aqui, se a psicanálise se revelasse mais esperta.
Bastaria, talvez, para pôr nossa esperança em outro lugar - o que f azem meus literatos, se posso f azê-los meus companheiros -,
bastaria que tirássemos da escrita outro partido que não o de tribuna ou tribunal, para que nela se articulassem outras palavras a nos prestar tributo.
mostrar a quebra que somente um discurso pode produzir. Digo produzir, expor como ef eito de produção; é esse o esquema de meus quadrípodos do ano passado.
Quando vocês tiverem visto - realmente está ao alcance de todo o mundo aprender japonês - que a menor coisa nessa língua está sujeita às variações do enunciado, que são variações de polidez, terão aprendido alguma coisa. T erão aprendido que, em japonês, a verdade ref orça a estrutura de ficção que denoto aí, justamente, por lhe acres centar as leis da polidez.
Singularmente, isso parece trazer como resultado que não há nada de recalcado a def ender, já que o próprio recalcado consegue se alojar pela ref erência à letra. Em outras palavras, o sujeito é dividido pela linguagem, mas um de seus registros pode satisf azer-se com a ref erência à escrita, e o outro, com o exercício da fala.
sei me entender segundo nosso mal-entendido habitual
o escrito é o gozo
Suponho - não suponho forçosamente - que continue a me dirigir a analistas, aqui, e de resto, é justamente isso que f az com que meu discurso não seja acompanhado com f acilidade. Precisamente na medida em que, no nível do discurso do analista, há alguma coisa que cria obstáculo a um certo tipo de inscrição.
Com a Rainha, é claro, e justamente por se tratar da Ra inha, as coisas têm que adquirir uma outra ênfase. Mas primeiro é dito, como faz parte da experiência, que um homem nato é aquele que, digamos, por sua estirpe, só pode inquietar-se com uma aventura de sua esposa na medida de sua decência, isto é, das f ormas respeitadas.
Aqui se vê bem que não há nada como uma ordem fu ndamentada no artif í cio para evidenciar o elemento que, na aparência, é justamente aquele que deve parecer irredutível no real, ou seja, a fu nção da necessida de. Se eu lhes disse que há uma ordem na qual é perf eitamente adequado que um sujeito, por mais elevada que seja a sua posição, se reserve uma parcela de gozo irredutível, a parcela mínima que não pode ser subli mada, como se exprime Freud expressamente, só uma ordem baseada no artef ato - e eu especifiquei a corte, na medida em que ela superpõe ao artefato da nobreza o segundo artefato de uma distribuição ordenada do gozo - pode, decentemente, dar lugar à necessidade. A necessidade expressamente especificada como tal é a necessidade sexual.
O que Freud demonstra, o que ele trouxe de decisivo, é que, por intermédio do inconsciente, vislumbramos que tudo o que é da lin guagem tem a ver com o sexo, mantém uma certa relação com o sexo, porém precisamente pelo f ato de a relação sexual, pelo menos até o presente, não poder de modo algum inscrever-se nela.
a verdade só progride por uma estrutura de fi cção. É por se promover em algum lugar uma estrutura de fi cção, que é propriamente a essência mesma da linguagem, que pode produzir-se uma coisa que é essa espécie de interrogação, de pressão, de constrição, que imprensa a verdade, se assim posso dizer, no muro da verif i cação. Não se trata de outra coisa senão da dimensão da ciência.
A impossibilidade de a lógica se enunciar de maneira justificável é algo absolutamente impressionante. É por isso que se recomenda a experiência da leitura desses tratados, que são ainda mais cativantes à medida que são mais modernos, que estão mais na vanguarda do que ef etivamente constitui um progresso da lógica, do projeto de inscrição da chamada articulação lógica. A articulação da lógica é incapaz de definir a si própria, ou a seus objetivos, seu princípio ou seja o que f or que sequer se assemelhe a uma matéria. Isso é muito estranho, e é precisamente nisso que é muito sugestivo.
A função não será escrita. Não quero saber nada dela.
Se um dia se chegou a inventar a fu nção do atributo, por que ela não se relacionaria, nos primeiros passos ridículos da estrutura do semblante, com a ideia de que todo homem é fá lico e toda mulher não o é? Ora, o que cabe estabelecer é algo bem dif erente. É que al gum homem o é, partindo de que, como é aqui expresso pela segunda f órmula, não é como particular que ele o é.
o homem e a mulher não têm nenhuma necessidade de f alar para ficar presos num discurso. Como tais, com o mesmo termo que usei há pouco, eles são f atos de discurso
Fórmul a s da mulher e do homem
De f ato, vocês f azem bem em tomar notas, vejo que isso está bas tante difundido. O único interesse do escrito é, posteriormente, vocês terem que se situar em relação a ele.
Como Lacan esclarece logo adiante, phal l e era o nome antigo para “f alo”. Ademais, assez phal l e, literalmente “bastante f alo”, é homófono de acé phal e , acéfalo
Minha prosopopeia esbaldante do Eu fa lo, no escrito citado há pouco, ” A coisa f reudianà’, apesar de ser uma imputação retórica de uma verdade em pessoa, não me f az cair ali de onde a extraio.
Nada é dito ali senão que f alar signif i ca a divisão irremediável entre o gozo e o semblante. A verdade é gozar de f azer semblante, e não conf essar de modo algum que a realidade de cada uma dessas duas metades só predomina ao se afirmar como sendo da outra, ou seja, ao mentir em jatos alternados. Assim é o semidito da verdade.
A gar r a f o de Klein
Assim, não é onde se supõe, mas em sua estrutura de sujeito, que a histérica - volto a uma parte das pessoas que designei há pouco conjuga a verdade de seu gozo com seu saber implacável de que o Outro apropriado para causá-lo é o f alo, ou seja, um semblante.
ahomenozum
Esse ahomenozum, há três maneiras de escrevê-lo. Primeiro, existe a maneira ortográf i ca comum, já que, af i nal, convém que eu o explique a vocês. Depois, há esse valor expressivo que sempre sei dar ao jogo escriturário. E por último , vocês ainda podem escrevê-lo assim, a(o menos um), para não esquecer que, no caso, ele pode f uncionar como objeto a.
Como as abordagens do ahomenozum pela histérica só podem ser f eitas conf essando ao dito ponto de mira, tomado ao sabor de suas inclinações, a castração deliberada que ela lhe reserva, suas chances são limitadas. Não convém acreditar que seu sucesso passe por algum desses homens, homem masculino, que mais são embaraçados pelo semblante ou que o pref erem mais f ranco. Os que assim designo são os sábios, os masoquistas. Isso situa os sábios. É preciso repô-los no lugar certo.
Alguma coisa se inscreveria, se me f aço entender, por um A invertido de x, V x, sempre apto, em sua incógnita, a fu ncionar como variável em Fi de x, .I. x.
o dos os homens são mortais significa que todos os homens, já que se trata de algo que é enunciado em extensão, todos os homens, na totalidade, estão f adados à morte, ou seja, o gênero humano está fà dado a se extinguir, o que é no mínimo ousado.
O f ato de V x impor a passagem para um ser, para um tod a mulher que um ser sensível como Aristóteles nunca cometeu de fato, é jus tamente o que permite af i rmar que tod a mulher é a enunciação com que a histérica se decide como sujeito, e é por isso que uma mulher é solidária de um nãomai s kium que propriamente a aloja na lógica do sucessor que Peano nos deu como modelo.
Nele, Totem e tabu, o pai goza - termo que é velado pelo poder no primeiro mito. O pai goza de todas as mulheres, até ser abatido pelos fi lhos, sem que estes tenham chegado a nenhum entendimento prévio, de modo que nenhum deles sucede ao pai em sua glutonaria de gozo. O termo se impõe pelo que acontece em vez disso - os filhos o devoram, ficando cada um apenas com uma parte, necessariamente, e, por isso mesmo, o todo constitui uma comunhão.
É a partir daí que se produz o contrato social: ninguém tocará na mãe - fica bem esclarecido em Moisés e o monoteismo, na pena do próprio Freud, que, dentre os fi lhos, somente os mais jovens ainda
compõem uma lista no harém -, não mais nas mães, portanto, mas nas mulheres do pai como tais, que são as af etadas pelo interdito. A mãe só entra em jogo quanto a seus bebês, que são sementes de heróis.
É curioso que tenha sido preciso eu esperar este momento para poder f ormular uma assertiva assim, qual seja, que Totem e tabu é um produto neurótico, o que é absolutamente incontestável, sem que por isso eu questione, em absoluto, a verdade da construção. É nisso, aliás, que ela é testemunha da verdade
A singularidade desta observação é a conta certa para nos f azer perceber isto. Nessa denúncia se enuncia algo que se coloca como verdade. Em nome dessa verdade, emerge, promove-se a mais-valia, como sendo a mola do que era sustentado até então por um certo número de desconhecimentos deliberados e que tem que ser reduzido a seu semblante. Mas não basta - assinalei eu e a história o de monstra - que se produza essa irrupção da verdade para que o que se sustenta nesse discurso denunciado seja derrubado.
Com efeito, esse discurso, que no caso poderíamos chamar de discurso do capitalista, na medida em que ele é uma determinação do discurso do mestre, encontra aí, antes, seu complemento. Longe de o discurso capitalista se sair pior por esse reconhecimento como tal da fu nção da mais-valia, parece que nem por isso ele deixa de subsis tir, já que, aliás, um capitalismo retomado num discurso do mestre é justamente o que parece distinguir as consequências que resultaram, sob a f orma de uma revolução política, da denúncia marxista do que se passa com um certo discurso do semblante
É por isso mesmo que não insistirei aqui no que acontece com a missão histórica assim atribuída, no marxismo, ou pelo menos em seus manif estos, ao proletário. Há nela, diria eu, um resto de entif i cação humanista que prolif era de alguma f orma sobre aquele que assegura a fu nção do que é mais despojado no capitalismo, mas que não deixa de mostrar que se mantém alguma coisa que o f ez subsistir ef etivamente nesse estado de despojamento. O f ato de esse discurso ser o suporte do que se produz sob a f orma da mais-valia não nos libera, de maneira alguma, de sua articulação.
todo discurso como discurso do semblante
do discurso psicanalí tico, na medida em que, aqui, ele fica apenas à escuta desse discurso derradeiro, aquele que não seria o discurso do semblante. Ele fica à escuta de um discurso que não existiria e que, aliás, não existe.
persiste o f ato de que aquilo de que se distingue tudo o que é evocado como castração, nós o vemos sob qual f orma? Sempre sob a f orma de uma evitação.
Probl e ms o fBisexualit y as Re f l ected in Circuncision, ou seja, Probl e ma s da bissexualid a d e tal como re f l e tidos na circuncisão, de Hermann Nunberg, publicado pela Englewoods, quer dizer, no final das contas, pela lmago Publishing de Londres, e, por outro lado, o livro intitulado S ymbolic Wo und s , Feridas simbólicas, de Bruno Bette lheim
Neles vocês verão, exibida em toda a sua ambiguidade, em sua oscilação fundamental, a hesitação do pensamento analítico entre, por um lado, uma ordenação explicativa que extrai seu princípio de um medo da castração deixado opaco, e, por outro, o resumo dos acidentes pelos quais, ao acaso da sorte ou do azar, apresenta-se a castração, que, nesse registro, seria apenas o ef eito de sabe-se lá que mal-entendido.
Nesse matagal de preconceitos e imperícias, de um lado a castração é algo retificável, de outro, ao contrário, um pensamento percebe que realmente há constância nela.
Freud indica, como fi z eu, em termos perf eitamente claros, que, sem dúvida, no que concerne às relações sexuais, inscreve se alguma fatalidade que torna necessário o que então aparece como sendo os meios, as pontes, as passarelas, os edif í cios, as construções, em suma, que correspondem à carência da relação sexual. Decorre daí que, numa espécie de inversão respectiva, todo discurso possível só apareceria como o sintoma que, no interior da relação sexual e em condições que, como de hábito, reportamos à pré-história, aos domínios extra-históricos, facilita, dá uma espécie de sucesso ao que poderia se estabelecer de artificial, de suplência ao que f alta, e que está inscrito no ser falante. Mas isso se dá sem que possamos saber se é por ele ser falante que as coisas são assim, ou se, ao contrário, é pelo f ato de a origem estar em que a relação não é falável que é preciso, para
todos os que habitam a linguagem, que se elabore aquilo que possibi lita, sob a f orma da castração, a hiância deixada no que, no entanto, é biologicamente essencial à reprodução desses seres como viventes, para que sua raça continue fecunda.
seres que têm dif i culdade com o gozo sexual, de maneira eletiva, entre todos os outros gozos
T ambém seria preciso saber o que signif i ca coerção. Uma coerção, a pretensa prevalência de uma pretensa superioridade fí sica ou de outra natureza, sustenta-se em signif i cantes. Se a coerção aqui é a lei, a regra, o fato de um dado sujeito querer submeter-se a ela se deve a razões, e são essas razões que nos importam.
O que nos importa é a complacência - para empregar um termo que, apesar de nos levar diretamente à histérica, nem por isso deixa de ser de alcance extremamente geral - que faz com que de fato subsista, em tempos absolutamente históricos, aquilo que se apresenta como algo cuja imagem, por si só, seria insuportável.
o semblante do f alo
Se há uma coisa que caracteriza o f alo, não é ele ser o significante da f alta, como houve quem julgasse poder compreender algumas de minhas palavras, mas ser, seguramente, aquilo de que não sai nenhuma palavra.
Leibniz
discurso oblíquo e discurso direto.
De qualquer modo, eu gostaria de lhes assinalar que, na experiência analítica, o pai nunca é senão um ref erencial.
Será que em algum momento analisamos alguém na condição de pai?
Se definimos o neurótico pela evitação da castração, há diversas maneiras de evitá-la. A histérica tem um procedimento simples, é que ela o unilateraliza do outro lado, do lado do parceiro. Digamos que, para a histérica, é preciso o parceiro castrado.
O que o supereu diz é: Goz a .
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