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Seminar 17 O reverse da psicanalise

Seminar 17 O reverse da psicanalise

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Seminário 17 - O avesso da psicanálise (1969-70)

Caracterizo o que constitui meu discurso como uma re tomada - disse eu - do projeto freudiano pelo avesso. Escrito portanto bem antes dos acontecimentos - uma retomada pelo avesso.


O que prefiro, disse, e até proclamei um dia, é um discurso sem palavras .
É que sem palavras, na verdade, ele pode muito bem subsistir.
Subsiste em certas relações fundamentais. Estas, literalmente, não poderiam se manter sem a linguagem. Mediante o instrumento da linguagem instaura-se um certo número de relações estáveis, no interior das quais certamente pode inscrever-se algo bem mais amplo, que vai bem mais longe do que as enunciações efetivas. Não há necessidade destas para que nossa conduta, nossos atos, eventualmente, se inscrevam no âmbito de certos enunciados primordiais. Se não fosse assim, o que seria do que encontramos na experiência, especialmente a analítica - sendo esta evocada nessa articulação apenas por havê-la precisamente designado -, o que seria do que se encontra para nós sob o aspecto do supereu?


Ocorreu-me no ano passado chamar de saber o gozo do Outro.
Negócio engraçado. É uma formulação que, para dizer a verdade, nunca fora proferida antes. Já não é nova, posto que no ano passado pude dar a ela, diante de vocês, verossimilhança suficiente, sustentá-la sem provocar especiais protestos. Aí está um dos pontos de encontro que anunciava para este ano.


Enfim, nós sempre acentuamos que desse trajeto surge alguma coisa definida como uma perda. É isto o que designa a letra que se lê como sendo o objeto a.
Não deixamos de designar o ponto de onde extraímos essa função do objeto perdido. É do discurso de Freud sobre o sentido específico da repetição no ser falante. De fato, não se trata, na repetição, de qualquer efeito de memória no sentido biológico. A repetição tem uma certa relação com aquilo que, desse saber, é o limite - e que se chama gozo.


De tudo o que ela articula, o que resulta? Não o saber, mas a confusão. Pois bem, da própria confusão temos que extrair uma reflexão, pois trata-se dos limites e de sa ir do sistema. Sair dele em virtude de quê?
De uma sede de sentido, como se o sistema o necessitasse. O sistema não tem nenhuma necessidade. Mas nós, seres de fragilidade, que como tais voltaremos a nos encontrar em cada curva no decorrer deste ano, nós temos necessidade de sentido. Pois bem, eis aqui um sentido.
Talvez não seja o verdadeiro. Mas também iremos certamente ver que há muitos desses talvez não seja o verdadeiro, cuja insistência nos sugere propriamente a dimensão da verdade.


Se tivesse que interpretar o que dizia em Sainte-Anne entre 1953 e 1963, quero dizer, anexar-lhe uma interpretação - interpretação num sentido contrário à interpretação analítica, que faz perceber bem o quanto a interpretação analítica está, ela própria, na contramão do sentido comum do termo -, diria que o mais sensível, o tom que verdadeiramente predominava, era a gozação.


Se o Direito não é isso, se não é aí que percebemos como o discurso estrutura o mundo real, onde então será? É por isto que não estamos aqui pior em noss o lugar do que em outra parte.


A vida , disse ele - e é a definição mais profunda, de modo algum acaciana se vocês a olham de perto -, é o conjunto de forças que resiste à morte.


Essa trilha, esse caminho, já o conhecemos, é o saber ancestral. E o que é esse saber, se não esquecemos que Freud introduz o que ele mesmo chama de além do princípio do prazer, o qual nem por isso é derrubado?
O saber, isto é o que faz com que a vida se detenha em um certo limite em direção ao gozo. Pois o caminho para a morte - é disso que se trata, é um discurso sobre o masoquismo -, o caminho para a morte nada mais é do que aquilo que se chama gozo.
Há uma relação primitiva entre o saber e o gozo, e é ali que vem se inserir o que surge no momento em que aparece o aparato do que concerne ao significante. É desde então concebível que, desse surgimento do significante, releiamos sua função.

---- Aqui

é a pe rda do gozo sexual, é a castração


Não foi à toa que esse mesmo objeto - que eu, por outro lado, designara como aquele em tomo do qual se organiza to d a a dialética da frustração-, eu o tenha chamado, no ano passado, de mais-d e -gozar. Isto quer dizer que a perda do objeto é também a hiância, o buraco aberto em alguma coisa, que não se sabe se é a representação da falta em gozar, que se situa a partir do pro c esso do sab e r na medida em que ganha ali um acento totalmente diver s o, po r ser desde então sab e r escandido pe lo significante.


Não foi Marx, obviamente, quem inventou a mais-valia. Só que antes dele ninguém sa bia o seu lugar. Era o mesmo lugar ambíguo que o que acab o de dizer, do trabalho a mais, do mais-de-trabalho. O que é que isso paga, pergunta ele - senão justamente o gozo, o qual é preciso que vá para algum lugar.
O que há de pe rturbador é que, se o pagamo s , o temos, e depois, a partir do momento em que o temos, é urgente gastá-lo. Se não se o gasta, isso traz to d o tip o de conseqüências.


S 1 é, para andar rápido, o signif i cante, a função de signif i cante sobre a qual se ap ó ia a essência do senhor. Por um outro lado, vo c ês talvez se lembrem do que enfatizei muitas vezes no ano pass a do- o camp o próprio do escravo é o sab e r, S2


a Polí tica de Aristóteles


O que designa a fi losof i a em to d a a sua evolução? Isto- o roubo, o rapto, a subtração de seu sab e r à escravaria, pe la op e ração do senhor.


Foi só no dia em que, num movimento de renúncia a esse saber, po r assim dizer, mal adquirido, alguém pe la primeira vez extr.tiu da relação estrita entre St e S2 a função do sujeito como tal, eu nomeei Descartes -Descartes tal como creio po der articulá-lo, não sem a anuência de pe lo menos uma parte imp o rtante dos que se oc uparam dele-, foi nesse dia que a ciência nasceu.


Distinção radical, que tem suas conseqüências últimas do ponto de vista da pe dagogia - o que conduz ao sab e r não é o desejo de saber. O que conduz ao saber é- se me pe rmitirem justif i car em um prazo mais ou menos longo - o discur s o da histérica.


Há de fato uma pergunta a ser feita. O sen h or que opera essa op e ração de deslo c amento, de transferência bancária, do saber do escravo, será que ele tem vontade de saber? Um verdadeiro senhor, vimos isto em ,geral até uma épo c a recente, e se vê cada vez menos, um verdadeiro senhor não deseja sa b e r abs o lutamente nada - ele deseja que as coisas andem.
E por que haveria ele de querer saber? Há coisas mais divertidas. Como terá chegado o fi ló s ofo a inspirar o des e jo de sab e r ao senhor? É aí que eu os deixo. Trata-se de uma pequena pr o vocação. Se houver quem descubra algo daqui até a pr ó xima vez, eles me dirão.


O que estou falando assinala, de fato, a entrada em ação desse discurso que não é o meu, mas sim aquele de que sou, para me ater a este ter m o provisório, o efeito.


Foi então que fi zeram chegar a mim, por pess o as das quais era infelizmente mais do que cer t o que o recado forçosamente me chegaria, já que estavam em análise comigo, o que pe nsavam de meu público.


Um bom número de vocês já estava naquele meu antiqüíssimo auditório antes de me se guir para o lugar de onde tive que emigrar, e posso dizer que meu auditório de Sainte-Anne era então verdadeiramente cons­ tituído po r aqueles que atualmente são os pilares da Escola Freudiana, não quero dizer com isto que não sejam pe s s oas de to d a confiança. Bom, parece que se sentia, meu Deus - era só ver as silhuetas deles dando voltinhas antes de entrarem para me escutar ao meio-dia e meia, como sempre -,que havia ali não sei que sinal de toxicomania e de homosse­ xualidade. Isto se sentia. Era, bem evidentemente, o que refletia o estilo, a forma geral, o jeito des s es passeadores.


Nada indica, com efeito, de que mo d o o senhor imporia sua vontade.
Não há dúvida de que aí é preciso um consentimento, e o fato de que Hegel não possa refer i r-se nessa oc asião, como significante do senhor ab s oluto, senão à morte, é, por ora, um sinal - um sinal de que nada é resolvido por essa pseudo-origem. Com efeito, para que isto continue, não fi caria demonstrado que o senhor é o senhor a menos que ele res s us c itasse, isto é, que tivess e passado efetivamente pe la prova. Quanto ao escravo, é a mesma coisa - ele renunciou precisamente a se confront a r com ela.


O que descobrimos na experiência de qualquer ps icanálise é justa­ mente da ordem do sab e r, e não do conhecimento ou da representação.
Trata-se precisamente de algo que liga, em uma relação de razão, um signif i cante s. a um outro signif i cante S2.


Nó s no s pe rmitimos ler uma biograf i a quando temos meios para is so , quando temos do c umentos suficientes para que se ateste o que uma vid a acredit a , o que acredit o u haver sido como dest i no, pass o a pas so, e mesmo, eventualment e , como acreditou ter encerr a do es se destino.


Contudo, à luz da no ç ão de que não é certo que um sab e r se saiba, não pa r e ce imp o ssível que pos samo s ler no nível de que sa b e r incon s cien­ te foi feito o tr abalho que decant a o que efetivamente é a verd a de de tudo o que se acredit o u se r.


É singular ver que uma dout r ina tal como a de Ma r x , que instaur o u sua ar t iculação sobr e a fu nção da luta, da lut a de clas s es, não impediu que dela nas c ess e aquilo que agor a é justamente o problema que se apresenta a to d o s , a saber, a manutenção de um discurso do senhor.
Es te, é claro, não tem a estr u tura do antigo, no sentido de que este último se instala no lugar indicado sob es se M. Ele se in s t a la no da esquerda, encabeçado pe loU. Eu lhes direi po rquê. O que oc upa ali o lugar que pr o vis o riament e chamaremos de dominante é isto, s2, que se especi­ f i ca por ser, não sa b e r- d e-t u do, nó s não chegamos aí, mas tudo-s a b e r.6 Entendam o que se af i rma po r não ser nada mais do que sab e r, e que se chama, na lingu a gem cor r ente, buro c racia. Não se pod e diz e r que não haja ali alguma cois a problemática.


De maneira que é po r ter sido desp o ssuído de algo - antes, obvia­ mente, da propr i edade comunal -, que o pr o letário po de ser qualif i cado com ess e ter m o despo s suído, que justif i ca tanto o empreendimento quanto o sucesso da revolução. · Não se pe rcebe que o que lhe é restituído não é, forço s amente, a sua par t e? Seu sa b e r, a exploração capitalista efetivamente o fr u st r a, toman­ do-o inútil. Mas o que lhe é devolvido, em uma espécie de subver s ão, é outra coisa - um sab e r de senhor. E é po r isto que ele não f ez mais do que tr o car de senhor.
O que sobra é exatamente, com efeito, a essência do senhor - a saber, o fato de que ele não sabe o que quer.
Eis o que constitui a verdadeira estr u tura do discur s o do senhor. O escravo sabe muitas cois a s, mas o que sabe muito mais ainda é o que o senhor quer, mesmo que este não o saiba, o que é o caso mais comum, pois sem isto ele não seria um senhor. O escravo o sab e , e é isto sua fu nção de escravo. É também por isto que a coisa fu nciona, po r q ue, de qualquer maneira, funcionou durante muito temp o .
O fato de que o tudo-sab e r tenha pass a do para o lugar do senhor, eis o que, longe de esclarecer, tor n a um pouco mais opaco o que está em questão - isto é, a verdade. De onde sai isso, o fato de que haja nesse lugar um signif i cante de senhor? Pois este é pr e cisamente o � do senhor, mostr a ndo o cer n e do que está em jogo na nova tirania do sa b e r. Isto é o que tor n a imp o s sível que nesse lugar apar e ça, no curs o do movimento hist ó rico - como tínhamo s , talvez, esj , eranças -, o que cab e à verdade.
O sinal da ver d ade está agor a em outro lugar. Ele deve ser pr o duzido pelos que sub s t i t u em o antigo escravo, isto é, pe los que sã o eles pr ó prio s produto s , como se diz, consumíveis tanto quanto os out r os. Socied a d e de con s umo, dizem po r aí. Material humano, como se enunciou um tempo - sob os aplau s o s de alguns que ali viram ter n ura.
Isto merecia se r apont a do, po is o que agora ta mb é m nos conceme é inter r o gar do que se tr a ta no ato ps icanalít i c o .


o que o analista institui como experiên­ cia analítica po de-se dizer simplesme n te - é a histeriz a ção do discurso.
Em out r as palavras, é a intro d ução estrutural, mediant e condições artif i ­ ciais, do discur s o da histérica, aquele que está indicado aqui com um H maiúsculo.


Como temos o signif i cante, é preciso que a gente se entenda - e é just a mente por isto que não nos entendemo s . O signif i cante não é feito par a as re lações se xuais. Desde que o ser humano é falante, est á fer r ado, acab o u-se essa coisa pe rfeita, har m onio s a, da copulação, aliás imp o s sível de situar em qualquer lugar da natur e za. A naturez a apresenta. esp é cies inf i nitas, que em sua maior i a, aliás, não comp o r t am nenhuma copulação, o que mo s tra a que po nto pe s a pouco nas intençõ e s da natur e z a que isso constitua um todo, uma es fera.


O que a histérica quer que se saiba é, indo a um extremo, que a linguagem derrapa na amplidão daquilo que ela, como mulher, po d e abrir para o gozo. Mas não é isto que importa à histérica. O que lhe imp o rta é que o out r o chamado homem saiba que objeto pr e cios o ela se tor n a nesse contexto de dis c urs o .
Não estará aí, af mal, o próprio fundamento da experiência analítica?
Pois digo que ela dá ao outr o , como sujeito, o lugar dominante no discurso da histérica, histeriz a se u discur s o, faz dele um sujeito a quem se solicita que abandone qualquer referência que não seja a das quatro paredes que o envolvem, e que pro d uza signif i cantes que const i tuam a asso c iação livre so b e rana, em su m a, do camp o .


Vejamos o que aqui está em jogo no discur s o do analista. Ele, o analista, é que é o mestre. Sob que forma? Isto é o que terei que reser v ar para os nossos próximos encontros. Por que sob a forma de a?
É do seu lado que há S2, que há saber - quer adquira esse sab e r escutando seu analisante, quer seja um sab e r já adquirido, lo c alizável, isto po d e, em um certo nível, ser limitado ao savoirj aire analítico.


Hegel, o mais sublime dos histéricos


É wn enigma. Esta é a resposta - é wn enigma -, entre outros exemplos. E vou dar-lhes um segundo.
Os dois têm a mesma característica, que é o próprio da verdade -a verdade, nunca se pod e dizê-la a não ser pela metade.


Creio que vo c ês vêem o que aqui quer dizer a fu nção do enigma -é wn semi-dizer, como a Quimera faz aparecer um meio-corp o , pronto a desaparecer completamente quando se deu a solução.


Um sa b e r como verdade - isto def me o que deve ser a est r utura do que se chama wn a inter p retação.
Se insisti longamente na difer e nça de nível entre a enunciação e o enunciado, foi justamente para que a fu nção do enigma ganhe sentido. O enigma é pr o vavelmente isso, uma enunciação. Encarrego vocês de con­ vertê-lo em enunciado. Virem-se como puderem - como fez Édipo -, vo c ês sof r er ã o suas conseqüências. Eis do que se tr ata no enigma.


Mas há outr a cois a , na qual não se pensa, em que toquei, de raspão, uma vez ou outra, mas que, para dizer a verdade, me concer n i a o bastante para que não me fo s se fácil falar dela tranqüilamente. Chama-se a citação.
Em que consiste a cit a ção? No decorrer de um texto em que você avança mais ou menos be m, se você está, digamos, nos pontos certos da lut a so c ial, de repente cita Marx, e acrescenta -dis s e Mar x . Se você é analista, cita Freud e mete: -dis s e Freud. Isto é capital.
O enigma é a enunciação - e virem-s e com o enunciado. A citação é - eu exp o nho o enunciado e, quanto ao restante, trata-se do sólido apoio que encont r a m no nome do autor, que deixo ao encargo de vo c ês. Assim está muito bem, e isto nada tem a ver com o statu s mais ou meno s vacilante da fu nção do autor.


Quando se cita Marx ou Freud - não foi po r acaso que escolhi estes dois nomes -, isto se dá em função da participação em um discurso pelo leitor suposto. À sua maneira, a citação é também um semi-dizer. É um enunciado sobre o qual se lhes indica que só é válido na medida em que vo c ês já participam de certo discurso, estruturado, no nível das estruturas fundamentais que estão lá no quadro. Eis o único po nto que faz com que a citação - p o dia eu explicá-lo até agora? -, o fato de que se cite ou não um autor, possa ter em segundo grau uma importância. Vou explicar-lhes isto, e espero que não levem a mal, porque é um exemplo familiar.
Suponham que num segundo temp o alguém cite uma frase indican­ do onde ela está, o nome do autor, po r exemplo o sr. Ricoeur. Sup o nham que se cite a mesma frase, colocando-a sob o meu nome. Isto não pode absolutamente ter o mesmo sentido nos dois casos. Espero que entendam com isto o que está em questão no que chamo de citação.
Pois be m, esses dois registros, na medida em que participam do semi-dizer, eis o que dá o meio - e, por assim dizer, o título - sob o qual a interpretação inter v ém.


O que impres s iona, com efeito, nessa instituição do discurso analí­ tico que é a mola-mestra da transferência, não é, como alguns pensaram ter escutado de mim , que o analista, seja ele colocado na função do sujeito suposto saber. Se a palavra é tão livremente dada ao psicanalisante - é justamente assim que recebe essa lib e rdade -, é porque se reconhece que ele po de falar como um mestre, isto é, como um estouvado, mas isto não dará resultados tão bo ns quanto no cas o de um verdadeiro mest r e, de quem se supõ e que conduz a um sa b e r - um saber do qual se toma penhor, refém, aquele que aceitar de antemão ser produto das cogitações do psicanalisante, ou seja, o psicanalista - posto que, como tal pro d uto, está ao fi nal destinado à pe rda, à eliminação do pro c es s o.


Empêdocles


Como sou trad u zido.


A verd a de é a impotência


quar t a-feira ao meio-dia há dezessete anos.


proibido para menores de 50 anos


fazer a distinção entr e o que é eventualmente tr adução do que enuncio e o que eu, propriamente falando, disse.


A linguagem é a condição do inconsciente, é isto o que eu digo.


Seguramente, a dif i culdade própr i a em me traduzir para a linguagem universitária é tamb é m a que atingirá to d os aqueles que, pela raz ã o que for, se arris c ar e m a fazê-lo


Claro, eu de mo d o algum me identif i co com uma cer t a po s ição.
Po s so garant i r que par a mim certamente não se tr ata, cada vez que vep h o aqui tomar a palavra, de dizer seja lá o que for, e nem se trata de um o que


é qu e vou dizer-lhes esta vez? Quanto a isto, não tenho qualquer papel a desemp e nhar, no sentido de que a fu nção de quem ensina é da ordem do pap e l, do lugar a sustentar, que é, incontestavelmente, um cer t o lugar de pr e stígio. Não é is s o o que lhes peço, mas antes algo de uma ordenação que me imp õ e o dever de pôr à pr o va ess e tr ilhamento. Es s a ordenação, sem dúvida, eu escaparia dela, como todo mundo, se não tivesse, diante dess e mar de or e lhas - ent r e as quais talvez haja um par de or e lhas críticas - se não tives s e o dever, com essa temível po s sibilidade, de prestar contas do encaminhamento de minhas ações em relação a isto -há ps icanalista.


rechaço


Por que estamos pelejando com ess a manipulação do signif i cante e sua eventual articulação? Porque ela está nos dados da ps icanálise.
Quer o dizer, está no que surgiu a um espírito tão pouco afeito a essa espécie de elaboração como po d eria ser um Freud, dada a formação que lhe conhecemos, do tip o ciências parafísicas, fi siologia montada a partir dos primeir o s passo s na fí sica e, especialmente, ter m odinâmica.


Hipér b ole, extrap o lação fabulo s a e, na verdade, escandalos a , para quem quer que tome ao pé da letra a ídentif i cação entr e inconsciente e inst i nto. É, a sa b e r, o seguinte - a rep e t i ção não é ap e nas função de ciclo s que a vida comp o r t a , ciclo s da neces s idade e da sat i sfação, mas de algo dü er e nte, de um ciclo que acar ret a a des a pa r i ção de s s a vid a como tal, que é o re t o mo ao inan i m ado.


limite em relação ao gozo


na própria rep e tição há desperdício de gozo.


A função, dizem, cria o órgão. Pelo contrár i o, é justamente do órgão que a gente se ser v e como po de


Não é para no s espantar m os. Vo c ês não sabem que a energética não é out r a coisa - s e ja lá o que creiam os ingênuos coraçõ e s dos engenheiro s - senão a sobr e posição da rede de signif i cantes ao mundo?


Desaf i o vo c ês a pr o varem de algum mo d o que des c er 50 0 met r os com um pe s o de 80 quilo s às co s tas e, uma vez que o tenham descido, reerguê-lo 500 metros é igual a zero, a nenhum tr abalho. Façam a tenta­ t i va, po nham mão s à obra, vocês verão que vão ter a prova do cont r ár i o.
Ma s se em cima dis s o so brep õ e m os sig n if i cante s , quer dizer, se ent r a m na via da energética, é ab s olutamente cer t o que não houve nenhum tr abalho.


Quando colo c amos es s es ismos, estamos no plano da zoologia. Mas, mesmo assim, há algo de completamente radical - é a as s ociação, no que está na base, na própria raiz da fantasia, dessa glória, se é que posso me exprimir assim, da marca


Só a dimensão da entropia dá corp o ao seguinte - há um mais-de-gozar a recup e rar.


mas o a, como tal, é propriamente o que decorre do fato de que o saber, em sua origem, se reduz à articulação significante.
Tal saber é meio de gozo. E quando ele trabalha, repito, o que produz é entropia. Essa entropia, esse ponto de perda, é o único po nto, o único ponto regular po r onde temos acesso ao que está em jogo no gozo. Nisto se traduz, se ar r emata e se motiva o que pertence à incidência do signif i ­ cante no destino do se r falante.


O que é o amor à verdade? É uma coisa que zomba da falta a ser da verdade. Essa falta a ser, po d eríamos chamá-la de outra maneir a - uma falta de esquecimento, que se nos recorda nas formaçõ e s do inconsciente.
Não é nada da ordem do ser, de um ser de algum modo pleno. O que é esse desejo indestrutível de que fala Freud ao concluir as últimas linhas de sua Traumd e utung? O que é esse des e jo que nada po d e mudar, nem abrandar, quando tudo muda? A falta de esquecimento é a mesma coisa que a falta a ser, pois ser nada mais é do que esquecer. O amor à verdade é o amor a es s a fragilidade cujo véu nó s levantamo s , é o amor ao que a verdade esconde, e que se chama cast r ação.


o que é a verdade - é, a saber, a imp o tência


Que haja amor à fraqueza, está aí sem dúvida a es s ência do amor. Como já dis s e, o amor é dar o que não se tem, ou seja, aquilo que po deria reparar essa fr a quez a original.


O analista diz àquele que es� para começar -Vamos lá, diga qualquer coisa, vai ser maravilhoso. E ele que o analista institui como sujeito sup o sto saber.


Af i nal, is s o não se dá com tanta má fé, po is, no caso presente, o analista não po de se fi ar em qualquer outro. E a transferência se fu nda nisto - há um cara que me diz, a mim, grande babaca, que me comporte como se soubesse de que se tr a ta. Posso dizer seja lá o que for, e isso sempre vai dar em alguma coisa. Isto não lhes acontece to d os os dias. Há bons motivos para causar a transferência.
O que def i ne o analista? Já o disse. Sempre disse, desde sempre ­ simplesmente, ninguém jamais compreendeu nada, e além diss o , natural­ mente, a culpa não é minha -, análise, eis o que se esp e ra de um psicanalista. Mas o que se es pera de um psicanalista, evidentemente seria preciso tratar de compreender o que isso quer dizer.


O que se esp e r a de um psicanalista é, como diss e da última vez, que faça fu ncionar seu sab e r em ter m os de verdade.
É por isto mesmo que ele se conf ma em um semi- d izer.


É lá onde est a va o mais-de-goz a r, o goz a r do out r o , que eu, na medida em que pr o f i ro o ato analít i co, devo ad v ir.


A psicose de Wittgenstein.


O humor de Sade.


O cur i oso é que ele complet a ess a indicação com o se guinte - um sonho desp e r t a justamente no momento em que po d eria deixar escapar a verdade, de so r t e que só acor d amos par a continuar sonhando - sonhando no real, ou, para ser mais exato, na realidade.
Tudo isto impressiona. Imp r essiona po r uma certa falta de sentido em que a verdade, como o natural, volta a galope.17 E em tal galop e , aliás, que é só atr a vessar o no s so camp o - e eis que ela já partiu de novo pe lo out r o lado.


ablativo


A angústia não é sem ob jeto. Nós nã o somos sem uma re lação com a verdade.


A verdade, com efeit o , parece mesmo ser-nos est r anha - ref i ro-me à no s sa pr ó pria verdade. Ela está conos c o, sem dúvida, mas se m que no s conci r na a um po nto ta l que admit a mo s dizê-lo.


s tular que não há ver d ade que nã o es t e ja in s c rita em alguma prop o s ição e de ar t icular o que, do sab e r co mo tal -s e ndo o sab e r con s tituído por um fu n d a m ento da pr o p o sição -, pod e funcion a r rigoro s a m ent e como ver d a de. Is to é -articular o que, se ja o que for que pr o p o nha, pod e se r ch a mado de ver d adeiro e sustent a d o co mo tal.
Trat a -se de um ta l Wittgenstein, que é -pos so diz e r - fácil de ler.
Cer t a m ente. Tentem só .


A estrutura gramatical constitui, para esse autor, o que ele identif i ca com o mundo. A estrutura gramatical, eis o que o mundo é. Em suma, não há verdadeiro que não seja uma proposição compost a que compreenda a totalidade de fatos que constituem o mundo


o Tractatus logi­ co-philosophicus de Wittgenstein


Além disso, Wittgenstein sustenta o mundo ap e nas com fato s . Coisa alguma existe se não for sustentada por uma trama de fatos. Coisa alguma existe, aliás, que não se ja inaces s ível. Só o fato é articulável. Este fato, que faça bo m tempo, é feito apenas disso - que se ja dito.


Não há sentido que não seja do desejo. É o que se po d e dizer apó s ter lido Wittgenstein. Não há verdade senão daquilo que es c onde esse desejo de sua falta, f mgindo que não quer nada diante do que encont r a.


Nenhuma verdade pp d e se r lo c alizada a não ser no camp o onde ela se enuncia - onde se enuncia como po de. Portanto, é verdade que não há verdadeiro sem falso, pelo meno s em seu princípio. Isto é verdadeiro.


De todo enunciado universitário de uma fi lo s of i a qualquer, mesmo aquela que se po deria etiquetar como se ndo-lhe a mais op o sta, a saber, em se tr atando de fi lo s of i a, o discur s o de La c a n -, surge irreduti­ velmente a Eu-cracia.


A coisa é tão patética para o univer s itário que po demo s dizer que o discurso de Politzer intitulado Fund a mentos da ps icologia concreta, incitado po r sua aproximação à análise, é um exemplo fascinante diss o .
Tudo deriva desse esforço para sair do discur s o univer s itário que o for m ou dos pé s à cab e ça. Ele sente claramente que ali há alguma ra mpa por onde po d eria emergir.


e.
O Você me espanca é aquela metade do sujeito cuja fórmula tem sua ligação com o gozo. Ele receb e , claro, sua própria mensagem de uma forma invertida - aqui, isto quer dizer seu próprio gozo sob a for m a do gozo do Outro. É mesmo disso que se trata quando oc orre de a fantasia juntar a imagem do pai com o que de início é uma outra criança. Que o pai goze espancando-o, eis o que põ e aqui o acento do sentido, como ta mb é m o dessa verdade que está pela metade - pois, além dis s o, aquele que se identif i ca com a outra metade, com o su jeito da criança, não era essa criança, salvo, como diz Freud, que se reconstitua o estádio interme­ diário - jamais, de nenhum mo d o, substancializ a do pe la lembrança -onde, com ef eito, é ele. É ele que, po r essa frase, constitui o sup o rte de sua fantasia, que é a criança espancada.


O que é que tem um corp o e não existe? Resposta - o gr a nde Out r o.
Se acreditamos nele, nes s e grande Outro, ele tem um corp o , ineliminável da substância daquele que dis s e Eu sou o que (Eu) sou,24 o que é uma for m a de tautologia completamente diversa.


os materialistas são os únicos cr e ntes autênticos.


Quando digo emprego da linguagem, não quero dizer que a empr e ­ guemos. Nó s é que somos seus empr e gado s . A linguagem nos empr e ga, e é po r aí que aquilo goz a . Por is s o, a úni c a chance da existência de Deus é que Ele - com E maiúsculo - goze, que Ele seja o gozo.


Leiam as palavras de Saint-Fond, mais ou menos na metade de Juliet t e, e ver ã o do que se trata. Se diz que a morte não constitui outra coisa senão a invisível colaboração com a op e ração natural, é porque para ele, obviamente, tudo ap ó s a morte pe rmanece animado - animado pe lo desejo de gozo. Esse gozo, ele ta mbém po d e chamá-lo de natureza, mas é evidente em todo o contexto que se trata do gozo. Gozo de quê? De um ser único que só tem a dizer -Eu sou o que (Eu) sou.


Faz ver sua imp o tência em ser outra coisa que não instr u mento do gozo divino.


Isto é o Sade teórico. Por que ele é teórico? Talvez tenha temp o de dizê-lo no último minuto, como costumo fazer.
O pr a ticante, é outra coisa. Como sab e m por um certo número de histórias cu jo testemunho, aliás, obtemos de su a pe na, o praticante é simplesmente mi . Soquista.
Es ta é a única po sição astucio s a e prática quando se trata do gozo, porque esfalfar-se sendo o instrumento de Deus é extenuante. O maso­ quista é um delicado humorista. Ele não precis a de Deus, seu lacaio lhe basta. Ele curte ao goz a r dent r o de limites aliás be m comp o rtados, natu­ ralmente, e como todo bo m masoquista - é visível, basta lê-lo -, ele se escangalha de rir. É um mestre humorista. Então, po r que diabos Sade é teórico? Por que essa aspiração extenuante, po sto que está completamente fora do alcance de suas mãos es s a as pir a ção escrita, designada como tal?
Aspiração.que essas partículas - de onde vêm os fragmentos de vidas dilaceradas, recortadas, desmembradas apó s os mais ext r aordinários atos imaginados -, s e ria verdadeiramente preciso, par a dar cab o delas, atin­ gi-las com uma segunda mor t e. Ela está ao alcance de quem?


Sade era teórico. Por quê? Porque ama a verdade.
Não que a queira salvar - ele a ama. A pr o va de que a ama é que a re chaça, não parece pe rceb e r que; ao decretar a mor t e de Deus, O exalta, e testemunha para Ele que ele, Sade, só chega ao gozo mediante os pe queno s re cur s o s de que falei há pouco.


a ref erência de um discur s o é aquilo que ele confessa querer dominar, querer amest r ar. Is t o ba sta para catalogá-lo em parentesco com o discurso do mest r e.


quando se ouve milhares de vezes no decorrer dos dias essa cadeia espúria de de stino e de inércia, de lances de acaso e de es t upor, de sucessos f al s os e de encontros desconhecidos que cons t ituem o tex t o corrente de uma vida humana?


Não esper e m po rtanto de meu discur s o nada � mais subversivo do que não pretender a solução.


Freud, é preciso dizer, sustenta um dis c urs o estranho, o mais con­ trário à coerência, à consistência de um discur s o. O su jeito do discurso não se sabe como sujeito que sustenta o discur s o. Que ele não saiba o que diz, ainda pas s a, sempre se o supriu. Mas o que diz Freud é que ele não sabe quem o diz.
O saber - penso já ter insistido o suf i ciente par a que isto lhes ent r e na cabeça -, o saber é coisa que se diz, que é dita. Pois be m, o saber fala por conta pr ó pria - eis o inconsciente.


não há felicidade a não se r do falo.


No entanto, o que a teoria freudiana mais acentua é que só o falo po d e ser feliz - não o po rtador do dito cu jo


Eis o que nos ensina po sitivamente a exp e riência psicanalítica. O portador do dito cujo, como me exprimo, se emp e nha em fazer sua parceira aceitar es s a privação, em nome do que to d os os seus esforços de amor, de pe quenos cuidados e de temos favores serão vãos, posto que ele reaviva a mencionada ferida da privação. Tal ferida, então, não po de se r comp e nsada pe la satisfação que o portador teria ao apaziguá-la. Muito pelo contrário, ela é re avivada po r sua própria presença, pe la presença daquilo cuja no s talgia ca u s a ess a ferida.


Recordem, é o da be la açougueira e seu marido fodedor, que é uma ver d adeira besta quadrada, pe lo que é precis o que ela lhe mostre que não liga para aquilo com que ele quer, além do mais, preenchê-la, o que quer dizer que isso não resolverá nada quanto ao essencial, emb o ra esse essencial ela o tenha. É isso. O que ela não vê, po rque tem também limites em seu pe queno horizonte, é que deixando esse ess e ncial de seu marido para uma out r a é que ela encontraria o mais-de-gozar, pois no sonho se tr ata precisamente disso. Ela não vê isso no sonho, é tudo o que se po d e dizer.


Com efeito, não há um número muito grande de animais em que o órgão decisivo da copulação se ja algo tão be m isolável, em suas fu nçõ e s de tumescência e detumescência, que determina uma cu r v a, dita orgásmi­ ca, pe rfeitamente def i nível - uma vez acabado, se acab o u. Pos t coitum animal triste, já se disse. O que, aliás, não é forçado. Mas indica be m que ele se sente frustrado, poxa. Há alguma coisa ali dent r o que não lhe conceme. Ele po de considerar as coisas de outr a maneir a , po d e achar isso alegre, mas enf i m, Hor á cio julgava que era antes de mais nada tr iste - e isso prova que ele ainda conser v ava algumas ilusõ e s quanto às relaçõ e s com a ph y sis gr e ga, com o br o to que constituiria o des e jo sexual.


de que um não tem e o outro não sabe o que fazer


É verdade que, os lírios do campo, bem po d emos imaginá-los como um corpo inteiramente entregue ao gozo. Cada etapa de seu crescimento, idêntica a uma sensação sem for m a. Gozo da planta. Nada, em todo caso, per m ite escapar a isso. É, quem sab e , uma dor infini ta, ser planta. Ení tm, ninguém se diverte sonhando com estas coisas, exceto eu.


Sua descoberta foi ter soletrado, escandido o inconsciente, e desaf i o a dizerem que isto po s s a ser outra coisa que não a obser v ação de que há um saber perfeitamente articulado, pe lo qual, falando propriamente, ne­ nhum su jeito é resp o nsável. Quando de rep e nte um su jeito chega a encont r ar, a to c ar esse sa b e r que não esp e rava, ele fi ca, pois be m, ele que fala, fi ca bastante desconcertado.


Era o primeiro achado. Freud disse aos su jeitos - Falem, falem, façam como a histérica, vamos ver qual é o saber que encontram e a maneira pela qual são aspirados po r ele, ou então, pelo contrário, a maneira pela qual o repelem, vamo s ver o que acontece. E isto o conduziu necessariamente a essa descob e rta, que chama de além do princípio do prazer. Eis o es s encial do que determina aquilo com que lidamos na exploração do inconsciente - é a rep e tição.


A int r u são na política só po d e ser feita reconhecendo-s e que não há discurso - e não apenas o analítico - que não se ja do gozo, pe lo menos quando dele se espera o trabalho da verdade.


O que Marx denuncia na mais-valia é a esp o liação do gozo. No entanto, es s a mais-valia é o memorial do mais-de-goz a r, é o seu equiva­ lente do mais-de-goz a r. A so c iedade de consmnidores adquire seu sentido quando ao elemento,’ entre aspas, que se qualif i ca de humano se dá o equivalente homogêneo de um mais-de-goz a r qualquer, que é o pro d uto de nossa ind ú st r ia, um mais-de-goz a r - para dizer de uma vez - for jado.


a riqueza é a propriedade do ri co. Igualzinho à psicanálise - como eu disse um dia -, que é feita pelo psicanalista, esta é a sua principal característica, é preciso partir do psicanalista.


O rico tem uma propriedade. Ele compra, compra tudo, em suma -enf i m, ele compra muito. Mas queria que vocês meditassem sobre o seguinte - ele não paga.
Imagina-se que ele paga, por razõ e s contábeis que têm a ver com a tr ansformação do mais-de-goz a r em mais-valia. Mas, primeiro, to d os sabem que ele acrescenta regular m ente sua mais-valia. Não há circulação de mais-de-goz a r. E, muito especif i camente, há uma coisa que ele nunca paga - é o sa b e r.


E po r que é que as pessoas se deixam comprar pe lo rico? Porque o que ele lhes dá faz parte de sua ess ê ncia de rico. Ao comprar de um rico, de uma nação desenvolvida, vocês acreditam - este é o sentido da riquez a das naçõ e s - que simplesmente vão participar do nível de uma nação rica. Só que, ness e negó c io, o que perdem é o saber de vo c ês - que lhes dava, a vocês, se u status. Es se saber, o rico o adquire de quebra, abaixo do mercado. Simplesmente, justamente, ele não o paga.


aforismo


o discurso do mestre tem ap e nas um contraponto, o discurso analítico, embora tão inapropriado.


No discurso psicanalítico, encontramos às vezes certo s ter m os que ser v em de fi /um na explicação -, o termo pai, por exemplo. E encontramo s às vezes alguém tentando reagr u par seus dados principais. Exercício penoso, quando feito no interior do que se esp e ra, no po nto em que estamos, de um enunciado e de uma enunciação psicanalíticas - ou seja, no interior de uma referência genética.
A prop ó sito do pai, as pe ssoas se julgam obrigadas a começar pe la infância, pelas identif i cações, e isso é então algo que verdadeiramente pode chegar a uma extraordinária farfalhada, a uma estranha contradição.


aquilo que não teve que ser recalcado porque já o está desde a origem


Desaf i o qualquer analista, mesmo que tenhamos que ir ao campo, a que me contradiga


É preciso ler Dora e, através das interpretaçõ e s rebu s cadas -emprego expressamente o termo dado po r Freud à economia de suas manobras -, não perder de vista uma coisa, que, me atreveria dizer, Freud encobre com seus preconceitos.
Faço um pequeno parêntese. Tenham ou não o texto em suas cab e ças, rep o rtem-se a ele e verão es s as frases que a Freud par e cem evidentes - por exemplo, que uma moça se vira sozinha com tais empecilhos, ou então, que quando um cavalheiro lhe pula em cima, ela não deve criar caso, se for uma mo ç a direita, é claro. E por quê? Porque Freud pe nsa assim. E mesmo, indo ainda mais longe, que uma moça normal não deve fi car enojada quando lhe fazem um galanteio. Isto par e ce evidente. É preciso reconhecer o funcionamento do que chamo precon­ ceito, numa certa ab o rdagem do que é ali re velado po r no s sa Dora.


E es s a verdade, par a dizê-la de uma vez, é que o mest r e é cast r ado.
De fato, se o único goz o que re presenta a f elicidade, aquele que da últ i ma vez def i ni como pe rf eit a mente f echado, o gozo do falo, dominas se esse mest r e - r e parem no te r m o que uso , o mest r e não pod e domina r a não ser excluindo-o -, com o é que o mest r e e se nhor est a b e leceria ta l relação com o sab e r - aquele que é su s tentado pe lo es c r a vo - cujo be nef í cio é o acoss o do mais- d e-goz a r ? O mest r e só pod e dominá-lo excluindo es se goz o .


Pois bem, na caixa vazia desse apartamento abandonado por aqueles que, depois de tê-la convidado, par t iram por se u lado para o cemitério, Dora encontra facilmente um sub s tituto para ess e pai num grande livro, o dicionário, aquele onde se ensina o que diz resp e ito ao sexo. Assim, marca com nitidez que o que lhe importa, para além mesmo da morte de seu pai, é o que ele pro d uz de saber. Não qualquer saber - um sab e r sobre a verdade.


para que um sonho se sustente, não basta que re presente uma decisão, um vivo desejo do sujeito em relação ao presente, é preciso algo que lhe dê seu alicerce num desejo da infância.


digamos entretanto que sua inabilidade em reter sua paciente não deixa de apar e cer.


Freud ter constatado - e ele entrega os po ntos, desanima - que tudo o que pô d e fazer pe las histéricas desembo c ou apenas no que ele rotula com o Penisneid ? O que quer dizer esp e cif i camente, quando é enunciado, que isso desemb o ca na censura que a fi lha faz à mãe po r não tê-la criado menino, quer dizer, reportando à mãe, na for m a de frust r ação, aquilo que, em sua es s ência signif i cativa - e tal que esta dá seu lugar e sua função viva ao discur s o da histérica em relação ao discur s o do mestr e -, se desdobra em cast r ação do pai idealizado, que entrega o se gredo do mestre por um lado e, pe lo outro, privação, as s unção pelo sujeito, feminino ou não, do gozo de ser privado.


De fato, quem utiliza, que lugar tem numa análise a referência a esse famoso complexo de Édip o ? Peço que respondam aqui to d os os que são analistas. Os que são do Instituto, é claro, jamais se servem dele. Os que são da minha escola fazem um pe queno esforço. Obviamente, isso não dá em nada, e acaba resultando no mesmo que para os outros. É estritamente inutilizável, sa lvo po r esse grosseiro lembrete do valor de obstáculo que a mãe tem para todo investimento de um objeto como causa do desejo


Pois é, recorrer assim ao mito de Édipo é verdadeiramente uma coisa sensacional. Vale a pena que nos estendamos sobre isso. E hoje pensava fazer vo c ês se ntirem o que há de disparate no fato de que Freud - p o r exemplo, na última das Nova s conf erências sobre a psicanálise - possa julgar resolvido o que cab e à questão do rechaço da religião de to d o horizonte válido, possa pensar que a psicanális e tem ali um pap e l decisivo, e acreditar que acab o u nos dizendo que o sustentáculo da religião não é outra coisa senão aquele pai a quem a criança recor r e em sua infância, do qual sabe que é todo amor, que vai na frente, previne o que nela po d e se manifestar de mal-estar.
Não é uma coisa estranha, quando se sab e o que de fato vem a ser a função do pai? Claro, não é ap e nas por es s e asp e cto que Freud nos apr e senta um paradoxo, ou seja, a idéia de referi-la a não sei que gozo original de to d a s as mulheres, quando é bem sabido que um pai basta


apenas para uma, e nem sempre - ele não deve contar vantagens. Um pai só tem com o mestre - falo do mestre tal como o conhecemos, tal como funciona - a mais longínqua das relações porque, em suma, ao menos na so c iedade com que Freud lida, é ele quem trabalha para to d o mundo. Tem a seu cargo a J amil de que eu falava há po uco. Não há nisso bastante est r anheza, a ponto de nos sugerir que, af i nal, o que Freud preser v a, de fato se não em intenção, é precisamente o que ele designa como o mais substancial na .religião? A saber, a idéia de um pai to d o-amor. E é justamente isto que designa a primeira forma da identif i cação das tr ê s que ele isola no artigo que eu evocava agora mesmo - o pai é amor, o primeiro a se amar neste mundo é o pai. Es tranha sobrevivência. Freud acredita que isso irá evap o rar a religião, ao pas s o que na verdade é a própria substância desta que ele conserva com es s e mito, biz a r r amente comp o sto, do pai.
Voltaremo s ao as s unto, mas já po dem ver sua ner v ura - tudo isto culmina na idéia do as s assinat o , ou seja, o pai original é aquele que os fi lhos mataram, e dep o is disso é do amor por es s e pai morto que procede uma certa or d em. Ness a s enormes contradiçõ e s, em seu barroquismo e superf l uidez, não parece isso se r ap e nas uma defesa contra essas verdades que a pr o liferação de todos os mitos articula claramente, bem antes de que Fr e ud, ao fazer a es c olha do mito de Édip o , re stringisse essas verdades?
O que se tr ata de dissimular? É que, des d e que ele entra no campo do discurso do mest r e em que estamo s tentando nos orientar, o pai, desde a origem, é castrado.


ou nã o penso, ou não sou


Ali onde penso não me reconheço, não sou - é o inconsciente.
Ali onde sou, é mais el o que evidente que me pe rco.


Quem pode, em nossa época, sonhar sequer por um instante em deter o movimento de articulação do discurso da ciência em nome do que quer que possa acontecer? As coisas, meu Deus, já estão aí.


É impossível deixar de obedecer ao mandamento que está aí, no lugar do que é a ver d ade da ciência -Vai, continua. Não pára. Continua a sab e r sempre mais.


Não pensem que o mestre está sempre aí. O que pe rmanece é o mandamento, o imperativo categórico Continua a sab e r. Não há mais necessidade de que ali haja alguém. Estamos todos embarcados, como diz Pascal, no discur s o da ciência. Acontece que mesmo assim o semi-dizer chega a se justif i car porque evidencia que, quanto ao tema, ou melhor, ao su jeito das ciências humanas, nada se mantém de pé.


Seria preciso discer n i r , entretanto, que no que quer que eu articule com uma certa visada êe clarif i cação não existe a menor idéia de pr o gresso, no sentido de que este termo implicar i a uma solução feliz.


esse desejo de sab e r - pu/são epistemo­ lógica, como inventaram de denominá-lo


dixit


Mar x dixit, ele terá se oc upado todo ess e tempo em fomentar seu mais-de-gozar.
Por que deve ele esse mais-de-goz a r ao senhor? Is s o é o que está velado. O que está velado no nível de Mar x é que o senhor a quem se deve esse mais-de-goz a r renunciou a tudo, ao gozo em primeiro lugar, porque se expôs à morte e continua extremamente fi xado a es s a po sição, cuja art i culação hegeliana é clara. Ele sem dúvid a privou o escr a vo da dispo­ sição de seu corp o , mas iss o não é nada - deixou-lhe o gozo.
Como é que o gozo volta a fi car ao alcance do senhor para man i f est a r sua exigência? Cr e io tê-lo explicado bem, a seu tempo, mas retomo isto porque nunca é demais rep e tir as coisas import a ntes. O senhor faz, em tudo isso, um pequeno esforço para que a coisa funcione - quer dizer, dá a ordem. Simplesmente cumprindo sua fu nção de se n h or, ele pe rde algu­ ma coisa. Es sa coisa pe r d ida, é por aí que pe lo meno s algo do gozo deve ser-lhe restituído - precisamente o mais-de-goz a r.
Se po r este se u emp e nho em se ca s t r ar não houves s e contabiliz a do es se mais-de-goz a r, se não houvesse constr u ído a mais-valia - em out r o s te r m os, se nã o houves s e fu ndado o capitalismo, Mar x teria se da do cont a de que a mais-valia é o mais-de-goz a r


Não, não direi o que é o nome do pai justamente porque não particip o do discur s o univer s itário.


Sou um pe queno analista,31 uma pedra rejeitada, lançada de ante­ mão, mesmo se me tor n o, em minhas análises, a pe dra angular. Desde que me levanto da minha poltrona, tenho o direito de ir passear. A coisa se inverte, a pe dra rejeitada passa a ser pedra angular. Pode ser tamb é m ao inver s o - a pe dra angular vai dar um passeio. Talvez seja assim que venha a ter uma chance de que as coisas mudem. Se a pedra angular fosse embora, todo o edifício cairia po r terra. Há quem se sinta tentado.


tudo o que se pod e dizer do mito é que a ver d ade se mo s t r a em uma alter n ância de co isas est r it a mente op o st a s, que é precis o fazer gir a r uma em tomo da out r a. Is to vale para o que quer que se ten h a co n s t r uído desde que o mundo é mundo, até e inclusive os mitos superio­ re s , muito elab o r a dos, como o Yi n e o Y ang.


mal-a jambr a do


um tal Kroeb e r -, ap ó s haver escrito um livro incendiário sobre T otem e tabu, tenha escrito algo, vinte anos dep o is, para f azer reparar que isso devia ter sua razão de ser, existia ali alguma coisa, que aliás não po d ia dizer o quê, e que nesse mito de Édipo havia um empecilho. Não dis s e mais. Porém, dada a crítica que fi zera a T otem e tabu, isso é absolutamente notável. Isso bolia com ele, fi cava azucr i nado por ter dito cobras e lagartos sobre isso, sobretudo quando viu que a coisa se expandia, quer dizer, que qualquer estudante achava que po dia fazer coro - iss o ele não pô de sup o rtar.


O que é um mito? Não resp o ndam todos ao mesmo tempo. É um conteúdo manifesto.


As energias que empregamos em ser m os to d os irmãos provam bem evidentemente que não o somos. Mesmo com nosso irmão consangüíneo, nada nos prova que somos seu irmão - p o demos ter uma po rção de cromossomas completamente opostos. Essa obstinação com a frater n i da­ de, sem contar o resto, a liberdade e a igualdade, é coisa ridícula, que seria conveniente captar o que recobre.


Só conheço uma única origem da frater n idade - falo da humana, sempre o húmus -, é a segregação. Estamos evidentemente numa ép o ca em que a segregação, erght. Não há mais segregação em lugar nenhum, é inaudito quando se lê os jor n ais. Simplesmente, na so c iedade - não quero chamá-la de humana porque reser v o meus termos, presto atenção ao que digo, constato que não sou um homem de esquerda - na so c iedade, tudo o que existe se baseia na segregação, e a frater n i dade em pr i mei r o lugar.


É semi-dizer o que estou lhes dizendo. Não lhes digo po r que é assim porque, primeiro, se digo que é as s im, não posso dizer por que é assim.
Eis um exemplo.


A observação feita po r um imb e cil como Jones, de que Freud parece não ter lido Darwin, é justa. No entanto ele o leu, pois é em Darwin que se baseia para o lance de T otem e tabu.


Devo dizer-lhes que não esp e rei até ter lido Sellin para ler Osiia s , mas nunca pude, em tod a a minha vida, conseguir ess e livro, e estou começando a fi car furioso. Não está na Biblioteca Nacional, nl i o está na Aliança Isr a elita Univer s al, e removi a Europa inteirinha para obtê-lo.
Mesmo assim, acho que vou chegar a pô r as mão s nele. Se algum de vo c ês o tiver em se u bo lso, po deria trazê-lo a mim no f mal da se s s ão, eu o devolveria.


Como sabem, po r mais longe que esteja dos outros deuses, o Deus de Moisés diz simplesmente que não se deve ter relaçõ e s com eles, mas não diz que não existam. Diz que não se deve correr para os ídolos mas, afinal, trata-se também de ídolos que o representam, a Ele, como era certamente o caso do Bezerro de Ouro. Esperavam um Deus, fi zeram um Bezerro de Ouro - é muito natural.


O pai morto é o gozo.


Se Deus está morto, então tudo é permitid o , a conclusão que se impõe no texto da nossa experiência é que Deus está morto tem como resp o sta nada mais é permitid o .


Se - como sua fantasia está sempre curiosamente indicada, mas jamais propriamente ligada ao mito fundamental do assassinato do pai -se a castração é o que atinge o fi lho, não será também o que o faz aceder pela via justa ao que cor r esp o nde à fu nção do pai? Isto se mostra em to d a nossa experiência. E não é isto mostrar que é de pai para fi lho que a castração se transmite?


No dizer mesmo de Freud, A interpretação dos sonhos surgiu da morte de seu pai. Assim, Freud se quer culpado da morte de seu pai.


nas duas linhas da enunciação e do enunciado


que alguma coisa não saiba que Eu estou morto. Estou morto, bem exatamente, na medida em que Eu estou prometido à morte - mas em nome dessa alguma coisa que não sab e dis s o, eu também não, nem quero sabê-lo.


que o pai morto é aquele que tem o gozo sob sua guarda, é de onde partiu a interdição do gozo, de onde ela pro c edeu.


O discurs o do mestre nos mostra o gozo como vindo ao Outro - é ele quem tem os meios. O que é linguagem não o obtém a não ser insistindo até pro d uzir a pe rda de onde o mais-de-gozar toma corp o .


Primeiro, a linguagem, mesmo a do mestre, não po d e ser outra coisa senão demanda, demanda que fracass a . Não é de seu êxito, é de sua rep e tição que se engendra algo que é uma outr a dimens ã o, que chamei de perda - a pe rda de onde o mais-de-gozar toma corp o .


Se pudemos perceber que a psicanálise nos demonstra que a criança é o pai do homem, certa­ mente deve haver, de algum modo, alguma coisa que faz a mediação, que é pr ecisamente a instância do mestre na medida em que esta chega a produzir, de qualquer signif i cante, afinal, o signif i cante-mestre.


A castração é função essencialmente simbó­ lica, ou se ja, co n cebida exclusivamente na articulação signif i cante - a frustração é do imaginário, e a privação, como é óbvio, do real.


O que po demos def i nir do fruto dessas op e raçõ e s? O enigma que nos prop õ e o falo, como manifestamente imaginário, é o que devemos tomar como ob jeto da primeira dessas operações, a castração. Na frustra­ ção, trat a -se sempre de alguma coisa be m real - por que não? -, mesmo se a reivindicação que a funda não tem outro recur s o senão imaginar que esse real lhes é devido, o que não é óbvio. A privação, está claro que ela só se situa a partir do simbólico, po is em se tratando de algo real, nada po d er i a faltar - o que é real é real, e é preciso que provenha de outro lugar es s a intr o dução no entanto essencial, se m a qual não estaríamos nós mesmos no real, ou se ja, ali alguma coisa falta - e é justamente isto que de saída caracteriza o sujeito.


O verb o agir tem, na língua, mais de uma ressonância, começando pela do ator. Do acionista também - por que não, a palavra foi feita com a palavra ação, e isto lhes mostra que uma ação talvez não se ja em absoluto o que se presume. Do ativista tamb é m - será que o ativista não se def me, falando propriament e , por consider a r-se antes de mais nada instr u mento de alguma coisa? De Acteão, já que estamos nisso - seria um bom exemplo para quem soub e s s e o que isso aí quer dizer no s ter m os da coisa fr e udiana. E, af i nal de contas, do que se chama simplesmente meu agente.
Ve jam o que isto em ger a l quer dizer -eu lhe pago por is t o. Nem mesmo is so, eu o ind e nizo po r nã o ter outra coisa a f a z er, ou honro meu compromi s s o com ele, como se diz, simulando partir disto - de que ele é capaz de out r a cois a .
Eis o nível do ter m o em que convém considerar o que cabe ao pai real como agente da castração. O pai real faz o trabalho da agência­ mestra.


Isto foi tanto mais preciosamente recolhido por ter sido rep e tido po r uma burra, que nada sa bia do que isso queria dizer. É a pergunta -O que quer uma mulher?


mesmo para a cr i ança, ap e s a r do que se pens a , o pai é aquele que não sab e nada da ver d ade.


As condiçõ e s são diferentes quando se trata de falar para algumas dezenas, ou mesmo centenas de milhares de ouvintes, ante os quais o teste abrupto de se apresentar sem a sustentação da pe ssoa po de causar outros efeitos.


Eu me recusarei totalmente a passar outra coisa que não seja esses textos já escritos. É, então, ter uma grande conf i ança nessa condição pois, como verão, as pe rguntas que me f oram feitas pertencem forçosamente ao inter v alo do que se produz entre uma articulação construída e o que dela esp e ra o que eu chamaria de uma consciência comum. Uma cons­ ciência comum, isto signif i ca tamb é m uma série de fórmulas comuns.
Essa linguagem, já os antigos, os gregos, tinham-na chamado, na sua língua, koiné. Po d e-se imediatamente traduzir isto em francês - é coui­ née, o guincho. Isso guincha.


É o que faço então, não de improviso, como já lhes preveni, mas resp o ndendo o seguinte.


Eu me apresento como aquele que esteve, por sua bo a vontade e gentilez a , completamente dependente dele durante o tempo que trans c orreu des d e dois dias antes do noss o último encontro, quer dizer, a par t ir do momento em que comecei a querer saber um po uco sobre o livro de Sellin.


exegese


Isto nos obrigou a entrar nes s e campo em que sou de uma prof u nda ignorância. Vocês não po d em saber tudo o que ignoro - felizmente, porque se soubess e m tudo o que ignoro, saberiam tudo


invectiva


Já lhes disse, o complexo de Édip o é o so nho de Freud. Como to d o sonho, pr e cisa ser interpret a do. Temos que ver onde se pro d uz esse efeito de deslo c amento, a ser concebido como aquele que pod e se pro d uzir pe la defasagem numa escrit a .


Só transmito as coisas que me vêm de antemão, e portanto já est ã o supostas po r mim. Mas não é a mesma coisa que ir verif i car de novo no texto de meu seminário, que é sempre estenografado, como vo c ês sabem.


É um er r o acreditar que negligencio o afeto - como se o comp o rtamento de todos não fosse já suf i ciente para me afetar


Não po dem imaginar a que ponto me são atribuído s pe nsamentos.
Basta que eu fale de alguém par a ser considerado condescendente


tudo o que escrevo e lhes conto é anotado em geral entre cinco e onze da manhã


O senhor pen s a que justamente as id é ia s que receb e da prática da psicanálise lhe f ornecem alguma coisa que não pode ser encontrad a f ora ?
É precisamente porque pe nso assim que me dou a to d o este trabalho há uns dezoito ou dezenove anos. De outro mo d o, não vejo po rque haveria de fazê-lo. E não vejo o que me destinaria a ver meu nome expressamente incluído na lista dos fi lósofos, o que não me parece inteiramente judicioso.


Acabam de me pe rguntar se eu achava que as coisas que conto não po d em ser pr o blemáticas. Resp o ndi que sim. Só tenho motivo s para exp ô -las em raz ã o de uma exp e riência precis a , que é a experiência analítica. Se não houvesse iss o , não consideraria que tivesse o direito, nem a vont a de, sobretudo, de prolongar o discur s o fi losóf i co par a além do momento em que ele foi, be m propr i amente, eclipsado.


O que o senhor diz está sempre descentrado em relação ao sentid o , o senhor escapa do sentido.
Vai ver que é nisso just a mente que meu discurso é um discurso analítico. A estrutura do discurso analítico é ser assim. Digamos que dou minha adesão a isso tanto quanto po sso, para não ousar dizer que me identif i co estritamente - s e o conseguisse.


Naquele temp o , não designei esse objeto com o termo mais-de-go­ zar, o que prova que havia algo a constr u ir antes de po d er nomeá-lo assim.


Na articulação do discur s o universitário que esb o ço, o a está no lugar de quê? No lugar, digamo s , do explorado pelo discurso universitá­ rio, que é facilmente reconhecível - trata-se do estudante. Centrando sua ref l exão neste lugar da notação, muitas coisas po dem ser explicadas sobre fenômenos singulares que atualmente acontecem pelo mundo. Evidente­ mente, temos que distinguir a emergência de sua radicalidade - é o que se produz - e a maneira em que foi pr e enchida, tamponada, mantida -isto po de dur a r muitíssimo temp o - a fu nção da Univer s idade. Esta, de fato, tem uma função extremamente precisa, que a cada instante se relaciona com o estágio em que se está do discurs o do mestre - a sab e r, sua elucidação. Ess e discur s o, com efeito, foi um discurso mascarado durante muito tempo. Ficará, por sua necessidade inter n a, cada vez menos mascarado.
Para que ser v iu a Universidade? Isto po de ser lido de acordo com cada ép o ca. É justamente em raz ã o do desnudamento cada vez mais extremo do discurso do mestre que o discur s o da Univer s idade acaba manifestando - não o creiam po r isso quebr a do, nem terminado - que no momento encontra estranhas dif i culdades. Tais dif i culdades são aces­ síveis no plano da estreita relação que há na posição do estudante po r estar, no discur s o da Universidade, de maneira mais ou menos mascarada, sempre identif i cado a ess e objeto a, encarregado de pro d uzir o quê? O S bar r ado que vem a seguir, à direita e abaixo.


A filosof i a teve o papel de constituir um saber de mestre e senhor, subtraído ao saber do escravo. A ciência, tal como atualmente se apresenta, consiste justamente nessa transmutação da função, digamos assim - somos sempre mais ou menos levados, em algum momento, a mergulhar num tema de arcaísmo e, vo c ês sab e m, eu incito à prudência.


Então, ond e é que o senhor situa o proletário ?
Ele só po de estar no lugar onde deve estar, em cima e à direita. No lugar do grande Outr o , não é? Precisamente, ali o sab e r não conta mais.
O proletário não é simplesmente explorado, ele é aquele que foi desp o jado de sua função de sab e r. A pretens a lib e rtação do escravo teve, como sempre, outros cor r elatos. Ela não é ap e nas progressiva. Ela é progres s iva à cust a de um despo jamento.


A questão é saber se isso não é algo totalment e sonhado


nas palavras da pessoa que evocava es s e pe rsonagem


ss e senhor seria apenas aquele que é o mais forte? Com cer t ez a não é isto que Hegel ins c r e ve. A luta de pur o prestígio com o ris c o da morte pertence ainda ao reino do imaginário. O que faz o se nhor? Isto é o que indica a articulação de discur s o que lhes dou. Ele brinca com o que chamei, em out r o s ter m os, de cristal da lí n gua.


De algum mo d o se isola es s e algo que o cogito ap e nas marca, com o tr aço unário ele ta mb é m, que se po d e supor o Pen s o para diz er-L o go, sou. Aqui já está marcado o efeito de divisão, de um Sou que elide Es tou


marcad o pelo um - pois Descartes se inscreve, é claro, numa tradição escolástica, da qual se desprende com um salto acrobático, que de mo d o algum deve ser desprezado como procedimento de emergência.


Aliás, só em função dessa primeira posição do Sou é que se po d e escrever o Pen s o. Vocês lembram como eu o escrevo há temp o s -Penso:
“Logo sou. ” Esse Logo sou é um pensamento.
Ele se sustenta inf initamente melhor por po rtar sua característica de saber, que não vai além do .t ou marcad o pelo um, pelo singular, pe lo único, pelo quê? Por esse efeito que é Pen s o.
Mas também aqui há um erro de po ntuação, que há muito exprimi assim - o ergo, que nada mais é do que o ego na jogada, tem que ser posto do lado do cogito. O Pen s o logo: “Sou ”, eis o que dá seu verdadeiro alcance à fórmula. A causa, o ergo, é pensamento. Aí está o po nto de partida a ser empreendido do efeito daquilo que está em questão na ordem mais simples, cujo efeito de linguagem se exerce no nível do surgimento do traço unário.
Claro, o traço unário nunca está só. Portanto, o fato de que se repita - repete-se não sendo nunca o mesmo -é precisamente a própria ordem, aquela onde toda a questão é que a linguagem esteja presente e já ali, já eficaz.


Euclides


nihil fu erit in intellectu quod non prius fu it in sensu


Eis o que é importante captar, se quisermos compreender algo do que resulta de quê? Do esquecimento desse mesmo efeito. Todos quantos somos nós, à medida em que o camp o se estende pelo fato de a ciência desemp e nhar, talvez, a função do discurso do mestre, não sabemos em que grau - pela razão de que nunca soubemos em qualquer grau -, cada um de nós é deter m inado primeiro como ob jeto a.


não há raz ã o para que uma psicanális e cause angústia. A angústia - p o sto que é com is s o que temos que nos haver


A questão é colocar-se em uma posição tal que haja alguém, de quem vocês se ocuparam a propósito de sua angústia, que queira chegar a ocupar es s a mesma posição que vo c ês ocupam, ou que não oc upam, ou que oc upam ligeiramente - chegar a saber como vocês a têm, ou como não a têm, e porque a têm ou não a têm.


Sei que aqui há algumas pessoas que às vezes se incomo d am de me ver, como se diz - como é que se diz? -, invectivar, interp e lar, vociferar contra os analistas. São pe ssoas jovens que não são analistas. Elas não se dão conta de que é uma coisa amável que estou fazendo, são pequenos sinais de reconhecimento que lhes faço.
Não quer o fazê-los passar po r uma prova muito dura. E, quando faço alusõ e s à impotência deles, que é po r t anto a minha, isto quer dizer” que, nesse nível, somo s todos ir m ãos, e temos que nos safar como puder m os.


No momento mesmo em que digo que poderia dar os motivos disso, fazer com que seja compreendido, gostaria que vocês escutassem o seguinte - é que, na medida em que logre, em que consiga fazê-los entender alguma coisa, podem estar certos de que os terei sacaneado. Pois, em suma, é a isso que isso se limita.


Vo c ês contudo já devem sab e r dis s o, já tiveram um bo m cão, de guarda ou um outr o , algum com quem tiveram familiaridade. Isso é irresistível - a car n i ça, eles a adoram. Vejam a Bathory, uma mulher encantadora, que, na Hungria, go s tava de quando em quando de esquar­ tejar suas empregadas, o que é, natur a lmente, o mínimo que a gente po d e se oferecer quando se tem certa posição. Bastava que colocasse os tais pedaços um po uquinho mais pe rto da ter r a, e os seus cachorros logo os levavam de volta para ela.


mantido sua denominação? Isto é provado pe lo fato de que, explor a do s ou não, os trabalhadores trabalhem.
Jamais se honrou tanto o tr abalho, desde que a humanidade existe.
E mesmo, está fora de cogit a ção que não se trabalhe.
Isto é um s�ces s o, então, do que chamo de dis c urs o do mest r e.
Para iss o , foi preciso que ele ultrapass�se certo s limites. Em poucas palavras, iss o acontece àquilo cuja mutação tentei ap o ntar-lhes. Es pero que se recor d em dis s o, e se não recor d am - é be m po s sível -, vou lembrar-lhes já-já. Falo dessa mutação capital, tamb é m ela, que confere ao discur s o do mest r e seu estilo capitalista.
Por que, meu Deus, acontece iss o , que não acontece po r acaso?
Seria um erro acreditar que em algum lugar há político s sábios que calculam exatamente tudo o que se deve fazer. Seria igualmente um er r o acreditar que não os há - eles existem. Não é se gur o que estejam sempre no lugar de onde se po d e agir congruentemente. Mas, no fu ndo, talvez não seja isso o que tem tanta importância. É suf i ciente que eles existam, mesmo em outro lugar, para que aquilo que é da ordem do deslo c amento do discurso apesar de tudo se transmita.
Indaguemos agor a como po de esta so c iedade, dita capitalista, pro­ porcionar-se o luxo de se pe r m itir um enfr a quecimento do discurso universitário.


O inaudito é que po r mais que eu tenha me mat a do, em um temp o , a fazer not a r que a Cri tica da ra z ã o pr á tica é man i f est a m ente um li vro de erotismo ext r aordina r iamente ma i s engraçado do que o que se publ i ca nas ediç õ e s Éri c Los feld, is so não teve nenhum tip o de re s ultado


a Fenomenologia do espfrito é engraçadíssima


Evidentemente não há melhor maneira de caracteriz a r o signif i can­ te- mest r e St, que está ali, no quadro, do que identif i cá-lo com a morte.


Hegel encont r a o meio de most r ar que o que acontece, af mal de contas, é que o escravo, po r seu tr abalho, é quem dá a verdade do senhor, empur r ando-o para o fu ndo. Em virtude dess e tr a balho forçado, como po dem notar desde o começo, o escravo chega, no fi nal da histór i a, a esse termo chamado sa b e r abs o luto.


o es cr a vo. Ess e es c r a vo, eu o chamo de S2, mas aqui tamb é m po d em ident i f i cá-lo com o ter m o gozo, ao qual de início ele não quis renunciar, e dep o is concor d ou, porque o substitui pe lo tr abalho - que apesar de tudo não é se u eq u i valente.


a expr e s s ão de Hegel -restituir o trabalho ao mundo.


É na etapa em que oc or r eu de se def i nir que é impossível demons­ t r ar-se como verdadeiro o regist r o de uma articulação simb ó lica que o real se situa, se o real se def me como o impossível. Eis o que po de servir-nos par a medir nos s o amor pela verdade - e também o que po de nos fazer tocar de pe rto por que gover n ar, educar, analisar tamb é m, e - por que


não? - fazer dese jar, para completar com uma def i nição o que caberia ao discur s o da histérica, são operaçõ e s que, falando propriamente, são impossíveis.


Fazer com que as pess o as trabalhem é ainda mais cansativo do que a gente mesmo trabalhar, se tivess e mesmo que fazê-lo.
O mest r e nunca faz isso. Ele dá um sinal, o signif i cante-mestre, e to d o mundo cor r e. Daí é que se deve partir - de que, com efeito, é totalmente impossível. Isto é palpável todos os dias.


Quaisquer que sejam os sinais, os signif i cantes-mestres que vêm se inscrever no lugar do agente, a pro d ução não tem, em qualquer caso, relação alguma com a verdade. Po d e-se fazer tudo o que se quiser, po de-se dizer tu do o que se quiser, po d e-s e tentar conjugar es s a pro d ução com as necessidades, que são necessidades que se for j am, mas não adianta. Ent r e a existência de um mest r e e a relação de uma pro d ução com a verdade, não há como sair diss o .


Tamb é m não é possível que, pe la pro d u­ ção de sab e r, se motive a divisão, o dilacer a mento sintomát i co da histér i ­ ca. Sua verdade é que precisa ser o ob jeto a para ser des e jada. O ob jeto a é af mal de cont a s um pouco magr e lo, embora, é clar o , os homens adorem isso e não pos sam sequer vislumbrar se f azer passar por out r a coisa -out r o sinal da impotência cobrindo a mais sutil das imp o ssibilidades.


A chave está na indagação sobre o que cabe ao gozo.


Nunca se ter m inou completamente com a segregação. Pos s o dizer a vo c ês que ela vai sempre reaparecer co m mais força. Nada po de funcionar sem isto - que acontece aqui, na medida em que o a, o a sob uma forma viva, por mais aborto que ela seja, manifesta que ela é efeito da linguagem.
Seja como for, há em to d o s os casos um nível em que iss o não se ajeita, o nível daqueles que pro d uziram os efeitos da linguagem, porque nenhuma criança nasceu sem ter tido que se haver com esse tráf i co por intermédio de seus amáveis progenitores, que estavam presos em todo o problema do discurso, tendo atrás de si, também eles, a geração precedente. E é nesse nível que na verdade teríamos que haver inter­ rogado.
Se quiser m os que algo gire - é claro que em última instância jamais se po de girar, já sublinhei bastante iss o -, não é certamente po r progres­ sismo, mas simplesmente porque isso não po de parar de girar. Se não gira, range, bem onde as cois a s colo c am problemas, quer dizer, no nível do po s icionamento de algo que se escreve a.


Não é de modo algum o que eu esp e r a va, sobretudo dep o is de terem, ao que parece, propagado meu ensino. Há momentos em que posso ser sensível a um certo vazio.


Esse ar avoado que vocês têm, vão vê-lo tropeçar a cada pass o numa fenomenal vergonha de viver.


Isto é o que a psicanális e descobre. Com um po uco de se riedade, vão se dar cont a de que essa vergonha se justif i ca po r não mor r erem de vergonh a , quer dizer, por sustent a rem com to d as as suas forças um discurso do mest r e pe r v ert i do - é o discur s o un i versitário. Rhegelem-se, di r i a eu.
Voltei no domingo a esse sagrado lib e lo da Fenomenologia do espírito, perguntando-me se não os tap e ei da última vez arr a stando-os nas minhas re minis c ência s , com que eu mesmo me regalava. De jeito nenhum.
É atordoante.


É aí que têm que fazer pé fi rme, pois as palavras de vo c ês, se as querem subver s ivas, tomem cuidado para que elas não se grudem demais no caminho da verdade.


Eis então a sexta, de uma ingenuidade encantadora -Em quê sab e r e verdade -to d os sab e m que pro c urei most r ar como se costuram juntas, essas duas virtudes -são incompatí veis?
Digo-lhe -Para me ex primir como vai me ocorrend o , nad a é incompatí vel com a verd a d e : a gentef a z xixi, cospe lá de ntro. É um lugar de pa s sagem, ou, para melhor dizer, de evacuação do sab e r como do resto. Pode-se permaT J ,ecer nele para sempre, e até ficar maluco por ele.
É notável que acautelei o psu : : analista para que nã o dê a conotação de amor a es s e lugar do qual, por seu saber, ele está noivo. Digo logo a ele: agente nã o se ca s a com a verdade; com ela, nad a de contrato e menos ainda de união livre. Ela nã o supor t a nad a dis s o. A verd a d e é primeiro sedução, e para e” ngrupi-los. Para não se deixar pegar, é preciso ser f orte.
Não é o caso de vocês.
As s im f alava eu aos psicanalista s , es s e f anta s ma que convoco .héle., e até reb o co .hale., em tr o ca da di versão de pres s ioná-los na hora e no dia invariáveis du rante tod o o tempo em que sus t ento para vocês o desa f i o de que ele, o ps icanalis t a, me escute. Então não é a vocês qpe aviso; vocês não correm o ri s co de serem mordid o s pela verd a de; ma s , quem sab e , que minha invençã o se anime, que o ps icanalista me tome o posto, nos limites da esperança de que is s o não se encontre, é a ele que advir t o; que da verd a d e se tenha tudo a apreend e r, es s e lugar comum


condena qualquer pessoa a perd e r-se ali. Qu e cad a um saiba um pouco, será su f i ciente, e ele f ará be m em ater-se a isso. Embora o melhor seria que não fi zesse nad a . Nã o há nad a de mais traiçoeiro como instr u mento.
Sabe-se como um psicanalista - não o -em geral se sai disso; ele entrega o fi o dessa verd a d e àquele que dela já tinha as chateações e que, nessa condição, torna-se verdadeiramente seu paciente, mediante o que não liga mais a mínima para ela.
De tod o mod o , é um f ato a que alguns, há certo tempo, f azem questão de se sentir mais concernid o s. Talvez se ja a minha in f l uência.
Talvez eu tenha tid o algo a ver com essa correção. E é justamente isso que me impõe o dever de advertir-lhes para não irem longe demais, porque se eu obtive isso f oi por não parecer que ia mexer lá. Ma s é justamente o que há de grave, e aliás é óbvio que se fi nge sentir cer t o terror. É uma recu s a. Ma s da recusa não está excluíd a a colaboração. A própria recusa pod e ser uma colab o ração.


Quando se é tomado por acas o no nível de um público amplo, de uma dessas massas que um tipo de medium lhes dá, po r que justamente não elevar o nível, proporcionalmente à presumida inaptidão - que é de pura presunção - dess e campo? Por que diminuir o tom? A quem vocês têm que conglomerar? O jogo da cultura é precisamente incorp o rá-los a esse sistema, a sab e r, se o ob jetivo for atingido, fi ca-se desnorteado como cachor r o em dia de mudança.
·


O saber suposto do qual, em meu dizer, o psicanalisante f az trans­ f erência , nã o dis s e que o psicanalis t a seja mais suposto sab e r a sua verdad e . Que se pen s e nis s o para compreend e r que acrescentar-lhe es s e complemento seria mor t al para a t1 ’ ans f erência. Ma s também, que nã o se pen s e ni s so, se compreend ê -lo iria justamente imped i r que seu e f eito permaneces s e verdadeiro.
Saboreio a ind i gnação de que uma pes s oa se vis t a com o que eu de nuncio do pouco de sab e r cuja obra é f eita pela trans f erência. Cab e só


a ela mobiliar isto com outra coisa que não a poltrona que diz estar pres t es a vender ca s o eu tives s e razão. Ela só de ixa sem saíd a essa história se não se ativer a seus meios. O psicanalista só se sus t enta se não tiver contas a ajustar com seu ser. O f amoso não-saber com que caçoam de nós só lhe toca o coraçã o porque, quanto a ele, ele nã o sabe nada. T em repugnância à moda de de senterrar uma sombra para fi ngir que é carni­ ça, a se f azer cotar como cão de caça. Sua disciplina o penetra porque o real não é, antes de mais nad a , para ser sabid o - é o único dique para conter o id e alismo.
O saber se acrescenta ao real; é precisamente por isso que pode levar o f al s o a ser, e inclusive a ser um pouco real. Eu Daseino com toda a f orça nes s a oca s ião, precisa-se de a jud a para isso.
Para dizer a verd a d e , é só de ond e é f also que o saber se preocupa com verdade. T od o sab e r que nã o é f al s o não se importa com ela. Ao ser averiguad o , só tem sua f orma como surpresa, sur presa de um gos t o aliá s duvid o so, quand o , pela graça de Freud, é de linguagem que nos f ala, posto que não é senão seu produto.
É aqui que tem lugar a incidência política. Trata-se em ato de sta pergunta - de que saber se f az a lei ? Quando se de scobre isso, pode ser que mude. O sab e r cai na categoria de sintoma, visto com outro olhar. E ali, vem a verdade.
Lu ta-se pela verd a d e , o que, de tod o mod o , só se prod u z por sua relação com o real. Ma s que isso se produza impor t a muito menos do que aquilo que prod u z. O e f eito de verdade é apena s uma queda de saber. É essa qued a que f az produção, a ser retomad a em breve.
O real não é a f etad o por is s o, de mod o algum. Em geral, ele se agita até a próxima crise. Seu be ne f í cio do momento é que recuperou seu verniz.
.te seria aliá s o be ne fício que se pod e ria esperar de qualquer revolução, esse ver n iz que brilharia muito tempo no lugar, sempre turvo, da verdade.
Só que, desse verniz, nunca se vê mais do que o f ogo.


Trouxe-lhes hoje a dimensão da vergonha. Não é cômo d o falar diss o . Não é desta coisa que se fala com mais facilidade. Talvez seja justamente isso o buraco de onde brota o signif i cante-mestre. Se fosse isso, provavelmente não seria inútil para avaliar até que ponto é preciso nos aproximar m os daí, se quis e r m os ter algo a ver com a subversão, e mesmo simplesmente com o des e nrolar do discurso do mestre.


que é que sempre nos per m ite, lendo qualquer texto, perguntar-nos o que o distingue como legível? Devemo s pro c urar a articulação pe lo lado do que constitui o signif i cante-mestre.
Farei vocês notar e m que, como obras literárias, só lemos histórias par a bo i dor m ir. Por que será que isso se mantém?


O aves s o da vid a contemporânea, de Balzac


É verdadeiramente para bo i dormir. Se não tiverem lido isso, po d em ter lido se mpre tudo o que quiseram sobre a história do fim do século XVl l l e do começo do XIX, a Revolução Francesa, para chamá-la pe lo seu nome. Podem inclusive ter lido Marx, vocês não compreenderão nada e sempre lhes escapará algo que só está ali, nes s a história para ab o rrecer vocês, O avesso da vid a contemporânea.


Af i r m o sempre que não há metalinguagem. Tudo o que se po d e pensar como sendo da ordem de uma busca do meta na linguagem é sempre, simplesmente, uma pergunta sobre a leitura.


A questão é saber por que os estudantes se sentem como os out r o s restantes. Não parecem mesmo ver claramente como se sair des s a.
Gostaria de indicar a eles que um po nto ess e ncial do sistema é a produção - a pr o dução da vergonha. Isto se tr aduz - é a desvergonha.
É po r esta raz ã o que talvez es s e não fosse um meio tão mau de não ir nes s e sentido.


Alguns fi caram choca­ do s , de todo mo d o, po r eu ter dito que se r i a um lugar onde deveriam se escrever coisas não as s inadas.
Não se deve acreditar que as minhas o sejam mais. Vejam o que escrevi lá - iss o é que fala po r si só de uma exp e riência pe no s a, a que tive com o que se chama um a escola, aonde tinha levado propo s içõ e s para que algo se inscr e vesse, algo que aliás não deixou de se inscrever - cer t o efeito de catalepsia.


O fato de que esteja as s inado po r mim só teria inter e s s e se eu fo s se um autor. De modo algum sou um aut o r.


que produz o saber analít i co como desast r e? Eis o que estava em questão, o que esteve em questão por tanto temp o que não lhes deu a to d os comichão de se tomarem autores. É muito curioso que o não assinado pareça paradoxal, ao pas s o que tudo o que hou v e de gente honesta, durante séculos, sempre fez pe lo meno s como se lhes houvessem arrebatado se u manuscrito, como se lhes houves s em feito uma piada de mau gosto. Não esperavam que à saída lhes enviassem bilhetes de felicitações.


Para dizer-lhes tudo, para livrar a minha cara, o que salva os Es critos do acidente que tiveram, ou seja, terem sido lidos imediatamente, é que apesar de tudo são um worst-seller.


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