Translate
Seminar 16 De um Other ao outro

Seminar 16 De um Other ao outro

Analyzing content...
Published:

Seminário 16 - De um Outro ao outro (1968-69)

Acabo de falar de um publicista. Todos conhecem os trocadilhos que me permiti fazer em torno da publixação. Eis, portanto, alguns de nós, reunidos na mesma lata de lixo, graças ao que é esse ofício. Poderíamos estar em companhia mais desagradável. Na verdade, como aqueles com quem me encontro reunido são apenas pessoas por cujo trabalho tenho o máximo apreço, eu não poderia estar mal.


não há união do homem e da mulher sem que a castração a) determine, a título de fantasia, a realidade do parceiro em quem ela é impossível, b) e sem que ela, a castração, entre em jogo nessa espécie de receptação que a instaura como verdade no parceiro a quem ela é realmente poupada, salvo por um excesso acidental. Numa impossibilidade da efetuação da castração vem colocar-se como determinante de sua realidade, enquanto, no outro, o pior com que a castração o ameaça como possível não precisa acontecer para ser verdadeiro, no sentido em que esse termo não comporta apelação.


Nesse processo de conciliação do pensamento consigo mesmo, somos levados a uma prudência maior, nem que seja, primeiro, pelo desafio que acabo de desenhar como sendo o formulado pela verdade ao real. Uma regra de pensamento que tem que se assegurar do não-pensamento como aquilo que pode ser sua causa: é com isso que nos confrontamos ao usar a idéia de inconsciente.


É somente na medida do fora-de-sentido dos ditos - e não do sentido, como se costuma imaginar e como supõe toda a fenomenologia - que existo como pensamento. Meu pensamento não é regulável a meu bel-prazer, acrescentemos ou não o infelizmente. Ele é regulado.
Em meu ato, não almejo exprimi-lo, mas causá-lo. Porém não se trata do ato, e sim do discurso. No discurso, não tenho que seguir sua regra, e sim que encontrar sua causa. No entre-senso - entendam isso, por mais obsceno que possam imaginá-lo - está o ser do pensamento.


Ora, a prática dessa estrutura rechaça qualquer promoção de uma infalibilidade. Ela só se serve, precisamente, da falha, ou melhor, de seu próprio processo. Com efeito, há um processo da falha, e é desse processo que a prática da estrutura se serve, mas só pode servir-se dele ao segui-la, o que não é, de modo algum, ultrapassá-la, a não ser para permitir sua captura na conseqüência que se cristaliza no ponto exato em que se detém a reprodução do processo. Ou seja, é seu tempo de suspensão que marca seu resultado.


É disso que o estruturalismo é a consideração a sério. Ele é a consideração a sério do saber como causa, causa no pensamento e, na maioria das vezes, convém dizer, de uma visada delirante.



Ocorre que esse procedimento sugere o ato revolucionário que conhecemos. Ou melhor, que conhecemos muito mal, porque não é certo que a tomada do poder tenha resolvido a subversão do sujeito - capitalista - esperada desse ato, e que tenha de fato tido consequên­cias muito propícias, ao gosto dos próprios marxistas que tiveram de colhê-las. Por enquanto, porém, isso não nos importa. O importante é o que Marx designa e o que quer dizer seu procedimento.

Aqui

A essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fo l a


Assim como o trabalho não era novo na produção da mercadoria, a renúncia ao gozo, cuja relação com o trabalho já não tenho que definir aqui, também não é nova. Desde o começo, com efeito, e ao contrário do que diz ou parece dizer Hegel, é ela que constitui o senhor, o qual pretende f azer dela o princípio de seu poder. O que há de novo é exis­ tir um discurso que articula essa renúncia, e que faz evidenciar-se nela o que chamarei de fu nção do mais-d e -goz a r. É essa a essência do dis­ curso analítico.


Enunciei: o sig n i f i cante é aquilo que re presenta um su jeito para out r o sig n i f i cante. Isso é uma def i nição. Exige-se que uma def i nição seja cor­ reta e que um ensino seja rigoroso. No momento em que a psicanálise é chamada a responder a alguma coisa da qual não pensem que tenho a intenção de esquivá-la, e que é a crise atravessada pela relação do es­ tudante com a Universidade, é intolerável, impensável, que nos con­ tentemos em dizer que existem coisas que não podem de modo algum


ser definidas num saber. Se a psicanálise não pode enunciar-se como um saber e ser ensinada como tal, ela não tem rigorosamente nada a fazer no lugar onde só se trata disso.


Que fazemos na análise senão instaurar, através da regra, um discurso?
Esse discurso é tal que o sujeito suspende o quê nele? Exatamente sua fu nção de sujeito. O sujeito fica dispensado de sustentar seu discurso com um eu digo. Falar é diferente de af i rmar eu digo o que acabei de enunciar. O sujeito do enunciado declara eu digo, declara eu a f i rmo, tal como faço aqui em meu ensino. Eu articulo esta fala. Ela não é poesia.
Digo o que está escrito aqui, e posso até repeti-lo, o que é essencial, sob uma f orma em que, ao repeti-lo, acrescento, para variar, que o es­ crevi.


ouropéis


arautos


Por um processo artif i cial, é-lhe solicitado, na análise, que ele não seja aquele que sustenta o que é formulado. Mas não se deve acreditar que ele se dissipe, porque ali está o psicanalista para representá-lo, quero dizer, para lhe sustentar o tempo todo que ele não pode se reen­ contrar no tocante à causa de seu discurso. E assim, trata-se agora de fazer ref erência às f ormulações fu ndamentais, em particular à que de­ f i ne o signif i cante como aquilo que representa um sujeito para outro signif i cante.


Observem bem que, quando falo do significante, falo de algo opa­ co. Quando digo que é preciso definir o significante como aquilo que representa um sujeito para outro signif i cante, isso signif i ca que nin­ guém saberá nada dele, exceto o outro signif i cante. E o outro signif i ­ cante não tem cabeça, é um significante. O sujeito, aí, é sufocado, apagado, no instante mesmo em que aparece.


Na def i nição do sujeito como causado pela relação en­ tre signif i cantes, postulamos teoricamente, a priori e sem ter precisado de uma longa recursividade para constituir suas premissas, alguma coisa que nos impede para sempre de apreendê-lo.


Esse Pascal não sabe o que diz quando f ala de uma vida feliz, mas temos aí a encarnação dela


Aliás, não precisamos apostar no além para saber o que ele vale, ali onde o mais-de-gozar se desvela nuamente. Isso tem nome - cha­ ma-se perversão. E é por isso mesmo que para toda mulher santa há um fi lho perverso. Não há nenhuma necessidade do além para que, de um ao outro, consume-se a transmissão de um jogo essencial do discurso.


Que é o Outro? É o campo da verdade que defini como sendo o lu­ gar em que o discurso do sujeito ganharia consistência, e onde ele se coloca para se of erecer a ser ou não ref u tado. Surgiu para Descartes o problema de saber se existia ou não um Deus que garantisse esse cam­ po. Ora, esse problema está hoje totalmente deslocado por não haver no campo do Outro a possibilidade de uma consistência completa do discurso.


T udo é vaidade, sem dúvida, diz-lhes ele, desfruta da mulher a quem amas. Ou seja, faz uma aliança desse oco, desse vazio que está no centro de teu ser. Não existe próximo, a não ser esse mesmo vazio que há em ti, teu próprio vazio


A estrutura, portanto, é real. Em geral, isso se determina pela con­ vergência para uma impossibilidade. É por isso que é real.


O que eu digo postula a estrutura, porque visa, como af i rmei da última vez, a causa do próprio discurso


o que o discurso visa é a causa do próprio discurso.


Se alguém quiser explicar o discurso de outra maneira, como ex­ pressão ou como relação com um conteúdo para o qual se inventa a f orma, fi que à vontade. Mas observo então que é impensável, nessa si­ tuação, que vocês inscrevam nele, seja a que título f or, a prática da psi­ canálise, até mesmo como charlatanismo. Entendam que, quanto à psicanálise, a questão é saber se ela existe. É isso que está em jogo


Mas, por outro lado, há uma coisa pela qual ela se afirma indiscuti­ velmente. É que ela é sintoma do momento temporal a que chegamos no que chamarei, com uma palavra provisória, de civilização.


Essa condição é particularmente exigível numa técnica- a da psi­ canálise - cuja pretensão é que o discurso tenha conseqüências nela, uma vez que o paciente só se submete, de maneira artif i cialmente def i ­ nida, a um certo discurso pautado por regras para que ele tenha conse­ qüências.


a energética nem sequer é concebível senão como conseqüência do discurso. Não é por se tratar de fí sica que não fi ca claro que, sem uma demarcação signif i cativa dos índices e níveis em relação aos quais é possível avaliar a fu nção inicial do trabalho, entendido no sentido da fí sica, não há nem mesmo a probabilidade de se começar a f ormular o princípio de toda a energética, no sentido literal desse termo, ou seja, a ref erência a uma constante, que é justamente o que se chama ener­ gia, em relação a um sistema f echado, outra hipótese essencial. O fato de com isso se poder criar uma fí sica, e de ela fu ncionar, é justamente a prova do que acontece com um discurso como algo que tem conse­ qüências.


Ao reduzir o material, portanto, efetua-se uma clivagem discursi­ va. É isso que confere todo o valor ao que afirmo de saída, ou seja, que não existe metalinguagem, o que é verdadeiro no campo da linguagem natural.


Eu gostaria de ter uma pitadinha para lhes dar antes de deixá-los, mas não há certeza, pois o que lhes costumo trazer nunca tem horários muito exatos.


Já o assinalei, mas agora o repito, porque nunca é demais repetir.
Será que a lógica matemática existia, na compreensão divina, antes de vocês serem af etados por ela em sua existência de sujeito? Uma exis­ tência que já seria desde sempre condicionada por ela.


É mais do que provável que o aparecimento da mais-valia no dis­ curso tenha tido como condição a absolutização do mercado. É dif ícil conseguir separar esta última do desenvolvimento de alguns ef eitos de linguagem, e f oi por isso que introduzimos o mais-de-gozar. Foi ne­ cessária a absolutização do mercado, chegando a ponto de englobar o próprio trabalho, para que a mais-valia se definisse como se segue.


Remuneramos o trabalho com dinheiro, uma vez que estamos no mercado. Pagamos seu preço verdadeiro, tal como a função do valor de troca o def i ne no mercado. No entanto, existe um valor não remu­ nerado naquilo que aparece como fruto do trabalho, porque o preço verdadeiro desse fruto está em seu valor de uso. Esse trabalho não re­ munerado, embora pago de maneira justa em relação à consistência do mercado no fu ncionamento do sujeito capitalista, é a mais-valia.


A mais-valia, portanto, é fruto dos meios de articulação que cons­ tituem o discurso capitalista. É o que resulta da lógica capitalista.


O saber, embora há pouco eu tenha parecido começar meu discur­ so por ele, não é o trabalho. Às vezes equivale ao trabalho, mas tam­ bém pode nos ser dado sem ele. O saber, em última instância, é o que chamamos de valor. O valor às vezes se encarna no dinheiro, mas o sa­ ber também vale dinheiro, e cada vez mais. É isso que deve nos esclare­ cer. Esse valor é o valor de quê? Está claro: é o valor da renúncia ao gozo.


O saber não tem nada a ver com o trabalho. Mas, para que se escla­ reça alguma coisa nessa história, é preciso que haja um mercado, um mercado do saber. É preciso que o saber se torne uma mercadoria.
Ora, é isso que se precipita e do qual não se tinha idéia. Deveríamos ter ao menos uma pequena sugestão disso, ao ver a f orma que as coisas assumem e o jeito de feira que isso vinha assumindo há algum tempo na Universidade.


Prêmio Náusea


Não falha nunca: eles estão sempre do lado certo, isto é, do errado.


O próprio processo pelo qual a ciência se unif i ca, no que ela extrai seu nó de um discurso conseqüente, reduz todos os saberes a um único mercado. É essa a ref erência nodal quanto ao que estamos interrogan­ do. É a partir dela que podemos conceber que também existe alguma coisa que, embora remunerada por seu verdadeiro va l or de saber, se­ gundo as normas que se constituem do mercado da ciência, é obtida de graça. Foi a isso que chamei o mais-de-gozar.


A partir do saber, percebe-se, enfim, que o gozo se ordena e pode se estabelecer como rebuscado e perverso. Isso não é novo, mas só se re­ vela a partir da homogeneização dos saberes no mercado.


Nessa situação, portanto, o que representa o mal-estar da civiliza­ ção, como se costuma dizer? É um mais-de-gozar obtido através da re­ núncia ao gozo, respeitado o princípio do valor do saber.


A maneira como cada um sofre em sua relação com o gozo, por­ quanto só se insere nela pela fu nção do mais-de-gozar, eis o sintoma ­ na medida em que ele aparece provindo disto: de que já não há senão uma verdade social média, abstrata.


Como lhes recordei da última vez, fui muito gentil com a verdade num texto, fiz com que ela enunciasse os ditos mais inteligentes que me f oi possível atribuir-lhe, tomei-os de empréstimo daquilo que digo quando não digo a verdade. Em outras palavras, nenhum discurso pode dizer a verdade. O discurso que se sustenta é aquele que pode manter-se por muito tempo sem que vocês tenham razão para lhe pe­ dir que explique sua verdade.


Encostem na parede aqueles que se apresentarem diante de vocês dizendo: A psicandlise, sabe como é, de nossa parte, nad a podemos dizer de l a . Esse não é o tom do que vocês devem exigir se quiserem dominar esse mundo com um valor chamado saber. Quando um discurso se es­ quiva, vocês só têm uma coisa a fazer: é lhe perguntar por quê. Um discurso que não se articula por dizer alguma coisa é um discurso de vaidade.


Não pensem que o f ato de dizer que tudo é vaidade, que f oi a af i r­ mação com que os deixei da última vez, seja outra coisa aqui senão um engodo, com o qual, como eu lhes disse, quis deixar que vocês se f os­ sem, com a alma sossegada, até eu retomar este discurso.
Quanto aos que af i rmam por princípio uma vaidade essencial de todo discurso, é por aí que o que sustento perante vocês terá, na próxi­ ma vez, que nos retomar em conjunto.


Esse objeto a, em certo sentido, eu o inventei, tal como se pode di­ zer que o discurso de Marx inventou. Que significa isso? O achado de Marx foi a mais-valia. Quanto ao objeto a, não é que ele não tenha sido abordado antes de meu próprio discurso, mas só o foi de maneira francamente insuficiente, tão insuficiente quanto era a definição da mais-valia antes que o discurso de Marx a fi zesse aparecer em seu rigor.


Encontramos numa posição homóloga a interrogação sobre o de­ sejo do Outro, d(A), que é aqui, aparentemente, o motor de identif i ­ cações imaginárias, e f oi por isso que o assinalei, mas veremos que ele também se articula num modo simbólico. Aqui, à esquerda, aparece pela primeira vez, como vocês sabem, a f órmula da f antasia, sob a f or­ ma ($ 0a).
Se, a partir desse momento, fi ca bem indicado que a cadeia que faz a retroversão é a cadeia do signif i cante, é porque aqui, em A, já está contida a primeira articulação do que acontece com a função do signi­ f i cante na medida em que ela determina o sujeito, ou seja, a relação do signif i cante 1, S,, com a f orma mínima que chamei de par ordenado (S, � Sz), à qual se limita o enunciado do signif i cante como sen­ do o que representa um sujeito para outro signif i cante.
Esse outro signif i cante, 52, representa exatamente, nessa conexão radical, o saber, como o termo opaco em que, se assim posso dizer, vem perder-se o próprio sujeito, ou ainda, no qual ele vem se extin­ guir, o que apontei desde sempre com o emprego do termo fo ding.
Nessa gênese subjetiva, o saber se apresenta, no início, como o termo em que o sujeito vem se extinguir.


esse grande Outro em sua fu nção, tal como já a abordei, não encerra nenhum sa­ ber que se possa presumir, digamos, que um dia seja absoluto.


O enunciado de que o Outro não encerra saber algum, nem já pre­ sente, nem a surgir num estatuto de absoluto, não encerra nada de subversivo.


Ref i ro-me à conjunção do riso com a fu nção radicalmente eludida da mais-valia


Portanto, é aí que convém fazê-los apreender que, desse dizer, o su­ jeito é o efeito, a dependência. Só existe sujeito de um dizer. É isso que temos de demarcar corretamente, para não deixar que o sujeito se des­ garre. Por outro lado, dizer que o real é o impossível equivale também a enunciar que ele é apenas a apreensão mais extrema do dizer, na me­ dida em que o dizer introduz o impossível, e não simplesmente o enuncia.


O que não se pode dizer do fato é designado, porém no dizer, por sua falta, e é isso que constitui a verdade. É por isso que a verdade sem­ pre se insinua, mas também pode inscrever-se de maneira perf eita­ mente calculada ali onde só ela tem lugar, nas entrelinhas. A substância da verdade é justamente aquilo que padece por causa do signif i can­ te - isso vai longe -, aquilo que padece pela natureza dele, digamos.
Quando digo que isso vai longe, é porque justamente vai longe na na­ tureza.


a verdade não é dita por um sujeito, mas suportada.


se há algo que nos é dado como certeza, é que o sofrimen­ to não é nada senão o sofrimento. Isso sempre provoca alguma coisa quando nos é dito; basta ter sentido uma dor de dente e nunca ter lido Freud para achar que é muito convincente.


Ora, questionar o Deus dos fi lósofos não é nada, porque, de qual­ quer modo, até hoje ele leva uma vida dura, e sob a forma a que aludi há pouco. Ele continua muito presente, assim mesmo, numa porção de modalidades de transmissão do saber que eu lhes disse não ser sub­ vertido em absoluto - mesmo, e mais ainda, ao questionarmos o Ou­ tro tido como capaz de totalizá-lo. Foi esse o sentido do que expus da última vez.


Já que a verdade diz Eu e que a resposta lhe vem em nossa interpreta­ ção, esta é uma oportunidade para nós, psicanalistas, notarmos uma coisa de que já falei, em seu tempo, sob o título de O de se j o e sua inter­ pretação. Assinalei que, ao f azer a pergunta em torno do Eu, devemos,


nem que seja por precaução, ou até por inquietação, aperceber-nos de que, em função disso, a interpretação deve ser mais bem delimitada, visto que o prof etismo não é outra coisa. Dizer Eu numa certa trilha que não é a de nosso sofrimento, isso também é interpretação.


O drama é que, seja qual f or o destino reservado ao Outro por esse questionamento, a mesma experiência demonstra que é do desejo dele que eu sou - nos dois sentidos maravilhosamente homonímicos des­ sas duas palavras em francês - que eu sou o vestígio.
Aliás, é precisamente por isso que estou interessado no destino do Outro.


O Outro maiúsculo, se o def i nimos como possivelmente se incluin­ do, isto é, como transformado em saber absoluto, tem a conseqüência singular de que o que representa o sujeito só se manif esta sob a forma de uma repetição inf i nita, aquela que vocês viram inscrever-se sob a forma desses S maiúsculos que se inscrevem indefinidamente na série de paredes do círculo


Será que posso definir o sujeito de uma forma ultra-simples, dizen­ do que ele é precisamente constituído, o que parece ser exaustivo, por todo significante que não seja um elemento dele mesmo? Com efeito, nem 51 nem 52 nem 53 são signif i cantes semelhantes ao A maiúsculo, porém este é o Outro de todos eles.


Isso demonstra, igualmente, não que o sujeito não está incluído no campo do Outro, mas que o ponto em que ele se expressa como sujei­ to é externo, entre aspas, ao Outro, ou seja, ao universo do discurso.


Eu lhes disse ter sido meio ultrapassado, eu mesmo, pelo avanço dessa enunciação.


a que ponto é prefe­ rível, como lembram as leis da própria fala, nunca dizer eu juro.


Ve tor i z a çáo conver gente e diver gente


Em ($ O O), ao con­ trário, o Eu digo que, por não ser subtraído, deixa intacto que, pelo simples fato da estrutura do Outro, toda enunciação, seja ela qual for, se transf orme em demanda.


Nesse nível, a questão é dupla. É a pergunta ao Outro sobre o que lhe falta, Eu me per g unto o que de se ja s , que é precisamente a pergunta que apontamos hoje, ou seja, Eu te per gunto não quem eu sou, porém, mais longe ainda, o que é Eu.


Em d(A), desejo do Outro, instala-se o próprio nó que formulei ao prof erir que o desejo do homem é o desejo do Outro. Se vocês toma­ rem os vetores do modo como são definidos nesse graf o, ou seja, aque­ le que parte do Outro e aquele da cadeia signif i cante pura, que faz a volta no cruzamento designado por ($0 D), para completar a retroa­ ção, verão que eles de fato convergem no ponto d( A ), como nele con­ vergem os dois elementos que articulei, Eu me per gunto o que de se j as, isto é, o que te f alta, ligado a eu estar assujeitado a ti, pergunta que se ramifica no próprio nível da instituição do A, e Eu te per g u nto o que é Eu, indagação sobre o estatuto do Eu como tal, que se instala aqui, onde o assinalei em vermelho.


A divisão do sujeito fica sensível ali como essencial, e é isso que se coloca como Eu.
À pergunta Quem é Eu?, a própria estrutura responde com a recu­ sa, S(. A ), significante do Outro barrado, tal como o inscrevi no fu n­ cionamento desse grafo.


Do mesmo modo, o T u institui-se por uma convergência entre uma demanda e uma promessa. Demanda a mais radical, aquela que nos é f eita, a nós, analistas, a única que sustenta, em última instância, o discurso do sujeito, a saber, no primeiro momento, eu venho aqui te perguntar quem sou, ao que se responde no nível do Quem é Eu?, recuo proporcionado aqui pela necessidade lógica. Promessa, esperança de


reunião desse Eu no 52 que designei, na transferência, pela expressão su jeito suposto saber. É o nó, a conjunção primordial, 51 ligado a Sz. que fu ndamenta o que é saber no par ordenado.


A signif i cação como produzida, eis o que serve, como engodo, para nos encobrir o que acontece com a essência da linguagem, na me­ dida em que, por sua essência, propriamente, ela não signif i ca nada. O que prova isso é que o dito, em sua fu nção essencial, não é uma opera­ ção de significação.
É assim mesmo que nós, analistas, o entendemos. O que procura­ mos é aquilo que suspende o que se articula a partir do Outro, e que está fora do Outro como tal - o S2 como fora do campo. Qual é seu


Dictionnaire ét y mologique de la la ngue fr ançai­ se


sujeito? Eis a questão. E, se esse sujeito não pode, de f orma alguma, ser captado pelo discurso, qual é a articulação correta do que pode lhe ser­ vir de substituto?


Em outras palavras, como enuncia um texto que já citei aqui, um cachorro vivo vale mais que o discurso de um morto, sobretudo quando este chegou ao grau que atingiu de podridão internacional.


Já se disse que o discurso matemático não tem sentido, e que nun­ ca se sabe se o que é dito nele é verdade. Formulação extrema, parado­ xal, que Kojeve repetia, mas que ele só fez retomar da boca de Bertrand Russell, que, vale a pena lembrar, f oi um dos iniciadores da f ormalização lógica desse discurso, o que quer dizer que ela não vem de f ora.


Esse D maiúsculo quer dizer aqui, como em todos os lugares em qu7 o escrevo, demand a , mas não se trata de uma demanda qualquer.
Eu me pergunto … , escrevemos aqui, o que queres. A demanda refere-se ao desejo do Outro, nessa ambigüidade completa que ainda permite escrever Eu te pergunto … o que eu quero, já que meu desejo é o desejo do Outro. Aqui não há nenhuma distinção, a não ser induzida pela própria fu nção da enunciação, na medida em que ela traz em si o seu sentido como inicialmente obscuro.


O fiador do desejo do Outro, como seu suporte imaginário, é isto que tenho escrito desde sempre sob a forma de ($ O a), isto é, a fa nta­ sia, onde reside, embora encoberta, a fu nção do Eu. Ao contrário do ponto de convergência chamado de desejo do Outro, é de maneira di­ vergente que o Eu oculto no ($ O a) se dirige, sob a f orma que chamei no começo de forma do verdadeiro questionamento, do questiona­ mento radical, para os dois pontos em que se situam os elementos da resposta.


”A aposta de Pas­ cal”


Falo muito de morte, o que é provavelmente para nos livrar de mui­ tas outras relações com outros, que evoquei há pouco. Minhas rela­ ções com Freud morto, isso tem um sentido totalmente dif erente.


Aposta de Pa s cal de Georges Brunet


É com razão que podemos dizer que essa visão acarreta um ascetis­ mo. Podemos dar-lhe sua tabuleta, que é esta: sem ex cesso de tr abalho.


Pois bem, até certo momento, esse sem excesso de trabalho não pare­ ceu criar problema. Em contrapartida, creio que todos vocês que estão aqui se dão conta, afinal, de que já não estamos nessa situação. Nós, para obter esse sem excesso de tr abalho, precisamos dar um duro dana­ do. A greve, por exemplo, não consiste apenas em cruzar os braços, mas também em morrer de fome durante esse período. Até um certo momento, nunca houvera necessidade de recorrer a meios como esse.
O f ato de serem necessários tantos esforços para termos o sem excesso de trabalho mostra bem que há alguma coisa mudada.


Otium é a vida de ócio -naturalmente, não os nossos lazeres, que são lazeres forçados. Vocês ganham férias para comprar um bilhete na es­ tação de Lyon, e primeiro é preciso pagar por ele, depois transpor­ tar-se correndo para os esportes de inverno, onde, durante quinze dias, vocês se empenharão numa trabalheira danada, que consiste em fazer fila ao pé dos teleesquis. Ninguém está ali para brincar. O cama­ rada que não faz isso, que não vai trabalhar nas férias, é indigno. O o ti­ um, por ora, é cum indignitate. E, quanto mais prosseguir, mais será assim, salvo um acidente. Em outras palavras, a recusa do trabalho, em nossos dias, depende de um desafio, coloca-se e só se pode colocar como um desafio.


Quando Freud tenta elaborar o que a princípio só é articulado metaf oricamente, ele nos diz que o gozo conduz a uma diminuição do limiar necessário à manutenção da vida, limiar este que o próprio princípio do prazer define como um in f i mum, isto é, a mais baixa das elevações, a mais baixa tensão necessária a essa manutenção. Mas tam­ bém é possível cair abaixo dele, e é aí que a dor começa e só pode disse­ minar-se. Por fi m, diz-nos Freud, esse movimento tende para a morte.
Em outras palavras, por trás da constatação de um f enômeno que po­ demos considerar ligado a um certo contexto de prática, isto é, ligado ao inconsciente, Freud abre com esse além um filo de natureza total­ mente diversa.


Quando estou sozinho, eu me divirto muito.


Hegel não escrevia o por si (p our-sot. como eu, e isso não deixa de ter conseqüências. A maneira como ele construiu a aventura do gozo é decerto inteiramente dominada, como convém, pela f enomenologia do espírito, isto é, do sujeito, mas seu erro, se assim posso dizer, é ini­ cial e, nessas condições, não pode senão trazer conseqüências até o fi m de sua enunciação. De fato, ele faz a dialética partir, como se costuma dizer, das relações entre o senhor e o escravo e da luta de morte, de puro prestígio, insiste. Que quer dizer isso senão que o senhor renun­ ciou ao gozo? Como não é por outro motivo senão a salvação de seu corpo que o escravo aceita ser dominado, não vemos por que, nessa perspectiva explicativa, o gozo não ficaria em suas mãos. Afinal, não se pode ao mesmo tempo comer o doce e guardá-lo. Se, logo de saída, o senhor envereda para o risco, é porque deixou o gozo para o outro. É muito singular que isso não seja manif estado de maneira absoluta­ mente clara.


Tudo f alta, na aposta, das condições aceitáveis num jogo. Os esf or­ ços dos autores para como que racionalizar isso, no tocante ao que era de fato a ref erência para Pascal, só levaram a demonstrar que a coisa não colava, e ele devia mesmo ser o primeiro a saber. É exatamente isso que dá valor ao modo como a aposta f oi manejada por ele.


Por um lado, há uma vida a cujo gozo se renuncia para fazer dela a aposta, exatamente da mesma forma que Pascal assinala, no estudo da regra da partição, que, quando o cacife entra em jogo, está perdido.
É esse o princípio da aposta. Do outro lado, o do parceiro, a aposta é o que Pascal articula como uma in f i nid a de de vid a s in f i nitamente fe lizes.


A verdadeira dicotomia não é entre Deus existe ou Deus não existe.
Queira Pascal ou não, o problema passa a ser de natureza totalmente diferente a partir do momento em que ele afirma que não é que não saibamos se Deus existe, mas nem sabemos se Deus é nem o que ele é.


só existe fato quando enunciado


mas, de fato, que necessidade havia de lê-lo?
Tinham-se lido muitas outras coisas, as quais, por sua vez, eram fu n­ damentais.


o desejo, no que diz respeito a vocês, opera no campo do Outro, tal como este se articula como o lugar da fala.


O fato é que vocês encontram no grafo do desejo uma relação orientada cujo vetor parte de ($ O D) para ir em direção a d(A), o desejo do Outro, e para interrogar este último num Eu me pergunto o que queres, que tam­ bém se equilibra com um Eu te pergunto o que eu quero


toda mani­ f estação do desejo se inclina para um Se ja fe ita a Tua V ontad e ?


Nossa experiência, como dizem, na análise confronta-nos a todo instante com um ef eito de perda. Ela atesta que esse ef eito é encontra­ do a cada passo. Atesta-o inocentemente, isto é, da maneira mais noci­ va, atribuindo-o a um prejuízo imaginário, ref erindo-o ao esquema de uma f erida nardsica, ou seja, imputando-o à relação com o semelhan­ te. Ora, essa relação não tem absolutamente nada a ver com isso. Não é porque uma parcela qualquer que fizesse parte do corpo foi separada dele que a ferida em questão funciona, e toda tentativa de reparação, seja qual for, está condenada a prolongar a aberração disso. A ferida de que se trata prende-se a um efeito que, para distingui-lo do imaginá­ rio, qualif i quei inicialmente de simbólico.
Esse efeito simbólico inscreve-se no vazio que se produz entre o corpo e seu gozo, na medida em que é a incidência do signif i cante, ou da marca, isto é, do que chamei há pouco de traço unário, que o deter­ mina ou que o agrava. Como não podemos sondar o que já havia desse vazio no organismo, e já que só nos importa o agravamento, dizemos que a incidência do traço unário lhe dá consistência.


O gozo masoquista é um gozo analógico. Nele, o sujeito assume analogicamente a posição de perda, de resto, representada pelo a no nível do mais-de-gozar. Em seu esf orço para constituir o Outro como um campo articulado apenas à maneira do contrato, no qual com tan­ ta felicidade nosso amigo Deleuze depositou ênfase, para substituir a vibrante imbecilidade que impera na psicanálise, o sujeito joga com a proporção que se fu rta, aproximando-se do gozo pelo caminho do mais-de-gozar.


A aposta é fei­ ta sobre quê? Sobre um discurso que está ligado a Deus, ou seja, uma promessa que lhe é imputada, a de uma in f i nid a de de vid a s in f i nita­ mente fe lizes


pululação


Vo cês estão comprometidos: que signif i ca isso senão que, fazendo um trocadilho, o que é comprometido .engagej é o Eu Ue.?. Esse é o mo­ mento da entrada do Eu na questão.


Se vocês consultarem o livro que relem­ brei há pouco, verão Freud fazer uma observação tranqüila o tempo todo: a de que, no fi nal das contas, a f é dos cristãos não os leva a modi­ ficarem tanto a sua conduta em relação àqueles que não o são.


atestar que a misericórdia de Deus é maior do que Sua justiça, uma vez que Ele extrai alguns eleitos, quando deveriam estar todos no inferno.
Espantou-me que essa proposição tenha parecido escandalosa, já que está perfeitamente claro e manifesto que esse inferno nunca foi algo que pudéssemos imaginar fora do que nos acontece todos os dias.
Quero dizer que no inferno nós já estamos. Essa necessidade que nos abarca, de só podermos realizar a solidez do a num horizonte cujo limite seria preciso interrogar, e por uma medição infinitamente repe­ tida do corte do a, será que isso não basta, por si só, para desanimar os mais corajosos?
Mas, vejam, não temos escolha. Nosso desejo é o desejo do Outro e, conforme a Graça nos tenha faltado ou não - o que se decide no nível do Outro, isto é, de tudo o que nos precedeu nesse discurso e de­ terminou nossa própria concepção -, somos ou não determinados na corrida de obstáculos do objeto a.


A essência e a função do pai como Nome, como eixo do discurso, decorrem precisamente de que, afinal, nunca se pode saber quem é o pai. Continuem tentando descobrir, é uma questão de fé.


eu gostaria que as pessoas se dessem conta de que já não é possível desempenhar o papel que convém à transmissão do sa­ ber sem ser psicanalista.


O supereu subestimado” na f a­ mosa Neurose de ba s e, de Bergler


V ocês não hão de me dizer que também explico tudo. Eu não ex­ plico nada, justamente. Aliás, é isso que lhes interessa. Tento em di­ versos níveis, e não apenas aqui, f azer com que haja psicanalistas que


não sejam imbecis. Minha operação aqui é uma operação de direcio­ namento, não a fim de atrair para um vazio escolar, mas para tentar dar o equivalente ao que os psicanalistas deveriam possuir a pessoas que não têm nenhum meio de possuí-lo. É uma iniciativa desespera­ da. Mas a experiência prova que a outra, a de ensinar aos próprios psi­ canalistas, também parece condenada ao fracasso, como já escrevi.


Bergler evoca o caso de uma moça em quem se viu clara­ mente que foi o sentimento de culpa que a f ez entrar em psicanálise.
Esperamos que o mesmo a faça sair dela


Caro sr. Lacan, somos estud a ntes e lemos seus Escritos, quase na ínte­ gra. Encontramos neles um bocad o de coisa s . Evid e ntemente, o livro nem sempre é de abord a gem fd cil , mas, de qual q uer modo, merece nossos para­ béns. Não é todo dia que me mandam coisas assim.
Gostaríamos muito de saber como fa zer para escrever coisas tão di f t ­ ceis … Não estou gozando com a cara de ninguém, e tampouco com a desses garotos, que acho realmente … Enf i m, vou dizer-lhes o que pen­ so a esse respeito. Eles se juntaram em dupla para escrever isso … isso serviria para nossos exames. Somos licenciados em fi l o so f i a, ma s estd fi ­ cand o cad a vez mais complicad o vencer a seleção. Achamos que mais val e ta pear e chocar os pro f e ssores do que persistir numa fo rma de discurso tri­ vialmente terra-a-terra.
E eles exageram, cabe dizer: O senhor pod e ria nos indicar uns mace­ tes nesse sentido? Isso me impressiona, porque digo a mim mesmo que, no fundo, é isso que estou fazendo. Por outro la do, gostaríamos de lhe pedir mais uma coisa, se não fo r abuso: serd que o senhor pod e ria nos mand a r de lembrança uma de sua s bonitas gravata s -borbol e ta? I sso nos da ria muito prazer . Agradecend o de antemão, subscrevemo-nos, senhor Lacan, com nossa s res peitosas homenagens.
Eles não estão muito atualizados. Não sabem que faz algum tempo que uso gola rulê.


margem a mal-enten­ didos


Que fique bem claro que me desfiz do que não servia, que não estou estudando história.


Newton, embora tivesse coisas mais importante para fazer, tam­ bém cometeu um calhamaço - como minha distração é a bibliof i lia, acontece que o li, e é esplêndido


calhamaço


Então, dirão vocês, evidentemente, a verd a de fa l a , certo. Isso é o que vocês diriam, se não tivessem entendido nada do que eu disse, o que não é inteiramente impossível. Eu nunca disse isso. Eu fiz dizer à verdade: Eu, a verd a d e , fa lo. Mas não a fiz dizer, por exemplo: Eu, a verd a de, fa lo para me dizer como verd a d e , nem para lhes dizer a verd a de.
O fato de ela falar não significa que ela diga a verdade. É a verdade, e ela fala. Quanto ao que ela diz, vocês é que têm de se haver com isso.


Já que estamos evocando Lênin, não é mau lembrar que a teoria marxista, na medida em que concerne a uma verdade, ef etivamente enuncia que a verdade do capitalismo é o proletariado. Isso é verdade, é uma verdade. Só que - e é justamente aí que se evidencia o alcance de nossos comentários sobre a fu nção da verdade - é da conseqüên­ cia revolucionária dessa verdade que parte a teoria marxista. Ela vai um pouquinho mais longe, é claro, já que cria, precisamente, a teoria do capitalismo.


Proletariado, que quer dizer isso? Quer dizer que o trabalho é radi­ calizado no nível da mercadoria pura e simples, o que significa que isso reduz ao mesmo nível o próprio trabalhador. Só que, a partir do momento em que o trabalhador, em virtude da teoria, aprende a se sa­ ber como tal, podemos dizer que, com esse passo, ele encontra os ca-


minhos de um estatuto - chamem isso como quiserem - de cientista. Ele já não é proletário an sich .em si., por assim dizer, já não é pura e simples verdade, mas é fo r sich .para si., é aquilo a que se cha­ ma consciência de cl a s se. E, ao mesmo tempo, pode até se tornar a cons­ ciência de classe do partido em que nunca se diz a verdade.


Já que eu disse que o serviço do campo da verdade, o serviço como tal - serviço que não é pedido a ninguém, é preciso ter vocação para ele -, leva necessaria­ mente à mentira, quero também assinalar, porque é preciso ser justo, que isso dá um trabalho gigantesco. De minha parte, eu o adoro ­ quando são os outros que trabalham, é claro. Regalo-me com a leitura de um bom número de autores eclesiásticos, nos quais admiro o que foi preciso de paciência e erudição para eles carregarem tantas cita­ ções, que me ocorrem na hora certa em que isso me serve para alguma coisa. O mesmo acontece com os autores da Igreja comunista. Esses também são excelentes trabalhadores. Por mais que, no caso de al­ guns, eu tenha tão pouca possibilidade de suportá-los na vida corrente quanto os padres nos contatos pessoais, isso não impede que eles se­ jam capazes de fazer trabalhos belíssimos, e gosto de ler um certo nú­ mero deles, por exemplo, um certo livro sobre O Deus oc u lto.. O que não me torna o autor mais freqüentável.


quando nos ocupamos um pouquinho demais com a verdade, fi camos tão atrapalhados que acabamos mentindo


Quanto a mim, devo dizer que me habituei bastante a isso nos pri­ mórdios de minha experiência. Fiquei admirado ao ver o que recebi de braçadas de flores, de flores da verdade, quando, por inadvertência, aceitei em psicanálise o que Freud- como ele se enganou. - parecia ter tido que af astar dela, ou seja, um débil mental. Não há psicanálise, devo dizer, que fu ncione melhor, se com isso nos referirmos à alegria do psicanalista. Talvez isso não seja absolutamente tudo que se pode esperar de uma psicanálise, mas, enfim, como ele encerra verdades que faz saírem em estado de pérolas, de pérolas singulares- termo que até aqui só evoquei a propósito da mentira -, é forçoso, af i nal, que nem tudo seja tão débil assim no débil mental. E se ele fosse um bocadinho ardiloso, o débil mental?


Alphonse Aliais (1854-1905), célebre escritor satírico, autor de cerca de mil e qui­ nhentos contos burlescos e de volumes inteiros de máximas humorísticas em que ata­ cava as personalidades eclesiásticas, políticas e militares.


Michel Foucault no sábado passado, numa es­ pécie de lugar precário, chamado Sociedade de Filosof i a, onde enun­ ciou a pergunta Que é um autor?


a ética do psicanalista, tal como consti­ tuída por uma deontologia, não fornecia sequer o esboço, o rudimento, o mais ínf i mo traço de começo da ética da psicanálise.


É na medida em que o real não é de acesso fácil, digamos, que ele é para nós a ref erência em torno da qual deve girar a revisão do problema da ética.


Jeremy Bentham chamado Theor y o f Fictions.


o chamado problema da partilha dos bens. Theor y o f Fictions, nesse ní­ vel, e com uma lucidez excepcional, é o questionamento do que se passa com todas as instituições humanas.


Basta entendermos o termo “f i ctions” como não representando nada de ilusório ou enga­ noso, como não afetando o que fi ca sob sua dominação, sob o que esta considera, por nenhuma característica desse gênero, mas abarcando precisamente o que promovi de maneira aforística, ao sublinhar que a verdade, na medida em que seu lugar só pode ser aquele em que se produz a fala, que a verdade, em essência - perdoem-me esse “em es­ sêncià’, ele serve para eu me f azer entender, não depositem nele toda a ênfase filosóf i ca que o termo comporta -, a verdade, digamos, por si só, tem uma estrutura de ficção.


O princípio do prazer caracteriza-se, primeiro, pelo f ato paradoxal de que seu resultado mais certeiro não é a alucinação, embora isso es­ teja escrito assim no texto de Freud, e sim a possibilidade da alucina­ ção. Digamos que a alucinação, no texto de Freud, é a possibilidade específ i ca do princípio do prazer.


inscreve-se uma palavra, a palavra que designa uma dada lembrança, uma dada palavra articulada em resposta, uma dada pala­ vra que fixa as relações, uma dada palavra que cunha, que marca, que torna engramático, se assim posso dizer, o sintoma.


Comprem N aissance de la psychanal y se, título dado em francês à coletânea de cartas a Fliess às quais foi anexado esse Pro jeto


Tudo em nossa maneira de abordar o sonho indica que aquilo de que se trata são frases. Deixemos de lado, por ora, a natureza de sua


sintaxe; elas têm pelo menos uma sintaxe elementat no nível dos dois mecanismos que acabo de lembrar. O importante é que o sonho nos aparece como alucinatório, com a ênfase que Freud dá nesse nível a esse termo. Que signif i ca isso senão que o sonho já é, em si mesmo, uma interpretação, selvagem, é claro, mas interpretação?


quando interpretamos um sonho, o que nos orienta cer­ tamente não é o que quer dizer isso?, nem tampouco o que el e quer, para dizer isso?, e sim o que é que, ao dizer , isso quer? Isso não sabe o que isso quer, aparentemente.


o saber sobre o inconsciente. Em outras palavras, existe um saber que diz: Há em al gum lugar uma verd a d e que não se sabe, e é ela que se articula no nível do inconsciente. É aí que devemos encontrar a verdade sobre o saber.


É um erro nos perguntarmos, a propósito do sonho, o que quer dizer isso?, pois não é isso que importa. O que nos importa é onde está a fo lha do que é dito?, e isso num nível em que o que se diz é distinto do que se apresenta como querendo dizer alguma coisa. No entanto, isso diz alguma coisa, sem saber o que diz, já que somos f orçados a ajudá-lo por meio de nos­ sa interpretação ponderada.


Isso é uma invenção dos pedagogos, o saber. Adquire-se com o suor do rosto, logo nos hão de dizer, como se o suor fosse forçosamen­ te correlato do óleo das candeias de nossas vigílias. Com uma boa ilu­ minação elétrica, podemos prescindir dele. Mas eu lhes faço uma pergunta. Não digo Al g u m dia vocês aprend e ram al g u ma coisa?, porque aprender é uma coisa terrível, é preciso passar por toda a burrice da­ queles que nos explicam as coisas, e isso é penoso de destacar, mas sim Saber al go não é sempre al go que se produz como um cl a rão?


Ter alguma coisa a fazer com as mãos, saber montar a cavalo ou es­ quiar, tudo o que se diz da suposta aprendizagem não tem nada a ver com o que é um saber. O saber é isto: alguém lhes apresenta coisas que são signif i cantes e, da maneira como estas lhes são apresentadas, isso não quer dizer nada, e então vem um momento em que vocês se liber­ tam, e de repente aquilo quer dizer alguma coisa, e é assim desde a ori­ gem. Isso se percebe pela maneira como a criança maneja seu primeiro alfabeto, que não é aprendizagem nenhuma, porém um colapso que une uma grande letra maiúscula com a forma do animal cuja inicial supostamente corresponde à letra em questão. A criança faz ou não faz essa conjunção. Na maioria dos casos, ou seja, naqueles em que ela não é cercada por uma atenção pedagógica demasiadamente grande, ela a faz.


sabemos que, em algum lugar, nesse lugar que chamamos de inconsciente, enuncia-se uma verdade que tem a propriedade de nada podermos saber dela.


a fu nção da psicanálise não como ciência, a qualquer preço, mas como indicação epistemológica, uma vez que a pesquisa sobre a fu n­ ção da ciência está na ordem do dia. A fórmula é esta: a psicanálise se­ ria algo como uma ci ênc i a sem saber.


Não é nada disso. A psicanálise não é um saber do sexual.
Quem foi que aprendeu, na psicanálise, a saber tratar bem sua mu­ lher? Porque, af i nal, isso é importante, uma mulher. Há uma certa maneira de pegá-la pelo lado certo, isso se segura na mão de uma cer­ ta maneira, com a qual ela não se engana. Ela é capaz de lhes dizer:
Você não me segura como se segura uma mulher.


Que se possam esclarecer numa análise os caminhos que o impe­ dem, ao homem a quem essa mulher se dirige, de fazê-lo direito, gos­ tamos de acreditar que isto se produz no final de uma análise.


O saber sexual, não direi que entramos na questão por aí, mas que nos confrontamos com ele. Abordamos o saber sexual pelo ponto em que essa proibição pesa, e é por isso que os primeiros enunciados de Freud a respeito do inconsciente enfatizam a função da censura como tal.
Essa proibição se exerce como afetando um certo aí, o lugar em que isso fala, em que isso confessa, em que isso confessa que se preocu­ pa com a questão desse saber.


Afinal, existe um saber da psicanálise. Ela realmente descobriu algo, por mais mítica que seja a sua fórmula. Descobriu o que é cha­ mado, em outros registros, de meios de produção - de quê? De uma satisfação. Ela descobriu que havia alguma coisa de articulável e arti­ culada, alguma coisa que apreendi, que denunciei como sendo mon­ tagens, e que literalmente não podem ser concebidas de outra maneira, algo que ela chama de pulsões.


Quando, na vertente de uma articulação teórica, a psicanálise denuncia num comportamento o funcionamento da pulsão oral, da pulsão anal, da pulsão escopofílica ou da pulsão sadomasoquista, é para dizer que alguma coisa se satisfaz com isso, donde é evidente que não podemos designá-lo de outra maneira que não como aquilo que está por baixo, um sujeito, um hy pokeimenon, seja qual for a di­ visão que deva necessariamente resultar disso para ele, em nome de ele ser apenas o sujeito de um instrumento em fu ncionamento, de um organon.


Trata-se mais de um saber haver-se


Com efeito, o que a descoberta fr eudiana enuncia é que podemos estar nisso sem saber que estamos, e também que, ao nos julgarmos mais certos de nos proteger desse estar aí, ao nos julgarmos noutro lugar, num outro sa­ ber, estamos nisso em cheio. É o que diz a psicanálise: estamos aí sem saber. Estamos nisso em todos os campos do saber. E é por essa verten­ te que a psicanálise se descobre concernir ao questionamento do saber.
Não é a vertente de nenhuma verdade e, nominalmente, de nenhuma ontologia. Onde quer que estejamos, onde quer que fu ncionemos, pela fu nção do saber estamos no horizonte do sexual.


Estamos nisso sem saber. Será que saímos perdendo? Quanto a isso, não parece haver dúvida, já que é daí que partimos. Somos tapea­ dos até o gorgomilo. A tapeação da consciência prende-se a que ela serve àquilo que não pensa servir. Eu disse tapeação, não engano.


Eu pref i ro, como lhes disse, um discurso sem f ala, mas, quando me encontro com as pessoas, é para conversarmos, e então elas falam, falam mais do que eu, e dizem coisas assim: Af i nal, a psicanálise bem poderia ser mais um avalista da teoria da exploração social. Elas não estão erradas. Só que o explora­ dor, nesse caso, é menos fácil de apreender, tal como o modo da revo­ lução. Trata-se de uma tapeação que não benef i cia ninguém, pelo menos na aparência.


A despeito de mim mesmo, talvez haja um dia na ma­ temática uma coisa que será chamada de teorema de Lacan. Alguém à minha volta sugeriu isso, dias atrás. Certamente não é o que eu procu­ raria, porque tenho mais o que fazer, porém é justamente assim que as coisas acontecem. De tanto querer considerar f echado um discurso inacabado -e essa é efetivamente uma característica de algo que nor­ malmente deve desembocar em outros lugares -, produzem-se ef ei­ tos de resto. Esse teorema, ainda podemos deixar seu enunciado numa obscuridade do fu turo.


O gozo, aqui, é um abso­ luto, é o real, e tal como o defini, como aquilo que sempre volta ao mesmo lugar.


O fato de toda a teoria da análise desenvolver-se numa fi eira an­ drocêntrica, como dizem às vezes, não é, com certeza, culpa dos ho­ mens, como se costuma acreditar. Em particular, não é por eles dominarem. É que eles perderam o fi o da meada. A partir desse mo­ mento, não há senão as mulheres, e especialmente as histéricas, que, nisto, compreendem alguma coisa.


em todos os lugares em que, em torno da função sexual, or-


ganiza-se não o instinto, que teríamos bastante dif i culdade de situar em algum lugar a partir de hoje, mas uma estrutura social.


É de admirar que aqueles que se dedicaram a nos mostrar as socie­ dades das abelhas ou das formigas só se tenham ocupado dos grupos delas, de suas comunicações, seus embates, sua maravilhosa inteligen­ ciazinha, e que ninguém tenha enfatizado que o f ormigueiro, assim como a colmeia, são inteiramente centrados na realização da relação sexual. É precisamente na medida em que essas sociedades assumem a forma de uma fi xidez em que se revela a não presença do significante que elas diferem das nossas.


Na verdade, não seria mau me substituírem, como aliás f oi f eito em alguns anos anteriores, e que houvesse alguém disposto a se dedi­ car a levar adiante um certo número de objetos subsistentes, de coisas já impressas, cuja organização não seria inútil após um certo lapso de tempo.


Uma pessoa amistosa me disse, recentemente, que a leitura de Freud, pensando bem, é muito f ácil, podemos lê-lo e não entender nada. Por que não, já que, no cômputo geral, isso foi comprovado pe­ los fatos? A primeira coisa maciça de que era importante nos livrar­ mos, logo de saída, nem sequer fora percebida, graças a uma seqüência de conf i gurações que podemos chamar de operação de vulgarização do freudismo. O que não impede que tenha sido preciso tempo para que eu transmitisse o inconsciente estruturado como uma linguagem, e ainda por cima no círculo que, nesse aspecto, era o mais instruído para percebê-lo.


Dif o rença e re petição


Lógica do sentido


Não seria vão alguém, um de vocês, por exemplo, se apossar de uma parte desse livro. Não digo do livro inteiro, porque ele é muito grande, mas, afinal, foi f eito como se deve f azer um livro, ou seja, cada um de seus capítulos implica o conjunto, de modo que se tem o todo ao pegar uma parte bem escolhida.


Se alguém quisesse propor-se a esclarecer essa questão, publicamente, no caso, eu veria nisso um grande benefício para os que se referem a meu ensino e que, é claro, o alimentam, acompanham e complementam, às vezes de maneira elucidativa. De fato, é sempre necessário esclarecer aquilo que, nesse ou naquele trabalho desses alunos, não convinha traduzir inteira­ mente, não o que era no momento presente o eixo do que eu enunciava, mas o que a continuação demonstrou ser seu eixo verdadeiro.


Então, antes de enunciar alguma coisa sobre a relação sexual, me­ lhor seria atentarmos para o f ato de que isso não tem nada a ver com o que vem substituí-la por completo, especialmente na psicanálise, ou seja, os fenômenos de identif i cação com um tipo que, segundo o caso, é dito masculino ou feminino.
Dito isto, apesar das aparências, o que a psicanálise demonsta é, justamente, que nem mesmo essa identif i cação com um tipo é tão fá­ cil assim. De modo geral, é com enorme inabilidade que chegamos a enunciar alguma coisa a esse respeito. Dizemos posição ma s culina ou posição fe minina. E rapidamente resvalamos para falar em posiçã o ho­ mossexual. No mínimo, é de espantar um pouquinho que, toda vez


que Freud quer dar um enunciado preciso, ele mesmo conf esse que é completamente impossível fazer ref erência à oposição masculino ou feminino, e a substitua por ativo ou passivo.


Em contrapartida, o que articulei é que na pulsão intervém o que é cha­ mado, em topologia, de estrutura de borda.
Essa é a única maneira de explicar alguns traços da pulsão. Pode­ mos dizer, grosso modo, que o que funciona como pulsão sempre se ca­ racteriza por orif í cios nos quais se encontra a estrutura de borda.


Com certeza porque deve haver alguma coisa não muito esti­ mulante neste estado que ainda perdura, pois levei dois dias para construir uma hipótese de trabalho, convém dizer. Eu disse a mim mesmo que o que eu fazia aqui, saibam vocês ou não, tem realmente toda a natureza de um trabalho


A maneira como habitualmente f alo com vocês, quando tenho meus papeizinhos, talvez os surpreenda. Eu os consulto, mais ou me­ nos. Há muitos deles, com certeza há um excesso, mas enf i m, é algo que tem mesmo todas as características do que acontece numa banca­ da de trabalho, ou até numa linha de montagem. Os papéis vêm de al­ gum lugar e também acabam por se transmitir a outros. E com isso, de fato, acontece alguma coisa sobre a qual, ao sair, fi co sempre perplexo o bastante para interrogar, às vezes com certa angústia, aqueles que sei que podem me dizer alguma coisa que me interesse. É certo que, nesse aspecto, faço algo que tem realmente o caráter de um trabalho, realiza­ do com um certo material, algo construído, uma produção.


Evidentemente, isso é interessante de se ver fazer. Não é muito co­ mum ter-se a oportunidade de ver alguém executar seu trabalho. Para a maioria de vocês, enf i m, tenho a sensação de que o que é visado por este trabalho, a coisa a que ele se destina, não pode escapar completa­ mente. Isso é ainda mais interessante.
Só que o fato de ver alguém trabalhar, sem saber para onde isso vai, para que serve, dá à coisa uma dimensão meio obscena. Naturalmen­ te, isso não é verdade para todo mundo. Há quem saiba muito bem para que serve isto - enfim, para que serve num prazo limitado. Já que estou desenvolvendo esta metáfora operária, direi que meus pa­ trões sabem para que serve isto.


Por causa desta temperatura e da pausa que ela me proporcionou, tive uns momentos de descanso. Ninguém imagina como pode ser bom tirar proveito de 39 graus, quer dizer, a pessoa pode habitual­ mente colocar-se na posição horizontal. O que é muito agradável.


O pa­ trão sabe o que o operário faz, no sentido de que este lhe trará lucros, mas não tem certeza de ter uma idéia mais clara que o operário do sen­ tido do que ele f az.


O poder capitalista, esse po­ der singular cuja novidade eu lhes peço que avaliem, precisa de uma guerra a cada vinte anos. Não fu i eu que inventei isso, outros o disse­ ram antes de mim. Desta vez, ele não pode travá-la, mas enfim, acaba­ rá conseguindo, de qualquer modo. Não pode travá-la e, nesse meio tempo, permanece bastante incomodado.


Começa-se dizendo, por exemplo, que as fi losofias, no correr dos séculos, não passaram de ideologias, isto é, o reflexo da superestrutura, das classes dominantes. Então, a questão é acertada assim, elas não têm nenhum interesse, é preciso voltar os olhos para outro lugar. Nada disso. Conti­ nua-se a lutar contra as ideologias como ideologias. Elas estão aí para isso. É a absoluta verdade que sempre houve, naturalmente, classes dominantes ou gozadoras, ou as duas coisas, e que elas tiveram seus fi­ lósofos. Estes existiam para ser insultados no lugar delas. E isso era f ei­ to, ou seja, seguiam-se as instruções. Na verdade, porém, isso não tem nada de exato, não é?
Kant não era representante da classe dominante em sua época.
Kant não só ainda é perfeitamente aceitável, como vocês fariam bem


em seguir o exemplo dele, nem que seja para tentar compreender um pouquinho o que lhes tenho contado a respeito do objeto pequeno a, ou, mais exatamente, o que virá a respeito dele.


Não me incitem demais ao desânimo. Porque, afinal, também eu poderia sentir-me tentado pela demissão.


Ele voltou a segunda vez porque é preciso ver alguém pelo me­ nos duas vezes.


circare, girar em torno de um ponto central enquanto uma coisa não é resolvida.


Se o objeto a pode fu ncionar como equivalente do gozo, é em razão de uma estrutura topológica.
Para percebê-lo, basta examinar a fu nção pela qual o sujeito já não é fu ndamentado, já não é introduzido senão como efeito de signif i ­ cante, e f azer referência ao esquema que repeti cem vezes diante de vo­ cês desde o começo do ano, do significante como representante do sujeito para um significante que, por sua natureza, é outro. Por isso, aquele que o representa só pode colocar-se como anterior a esse outro, donde é necessária a repetição da relação do S com esse A, como lugar dos outros signif i cantes.


o objeto a é êxtimo, e puramente na relação instau­ rada pela instituição do sujeito como efeito de signif i cante, e como determinando por si só, no campo do Outro, uma estrutura de borda.


Nos enunciados teóricos de Freud, a relação entre a neurose e a perver­ são viu-se produzir muito depressa. Como terá ela, digamos, f orçado a atenção de Freud?
Freud introduziu-se nesse campo no nível de pacientes neuróticos, sujeitos a toda sorte de distúrbios, e cujos relatos mais tendiam a con­ duzi-lo ao campo de uma experiência traumática, como lhe pareceu a princípio. No entanto, aquilo que como que acolhia essa experiência no sujeito aparentemente traumatizado constituía um problema, e f oi introduzida a questão da f antasia, que é, com efeito, o nó de tudo de que se trata quanto à economia para a qual Freud produziu a palavra libid o .


Kraff t -Ebing e Havelock Ellis


S(A). É o significante pelo qual aparece a incom­ pletude intrínseca do que se produz como lugar do Outro, ou, mais exatamente, do que, nesse lugar, traça o caminho de um certo tipo de engodo absolutamente fu ndamental. O lugar do Outro como esva­ ziado do gozo é não apenas um lugar desobstruído, um círculo calcina­ do, um espaço acessível ao jogo dos papéis, como é também algo que, por si só, estrutura-se pela incidência signif i cante. É exatamente isso que introduz nele essa falta, essa barra, essa hiância, esse furo que pode distinguir-se do título do objeto a.


direi que o perverso é aquele que se consagra a tapar o buraco no Outro. Para introduzir aqui as cores que dão relevo às coi­ sas, direi que, até certo ponto, ele está do lado do fato de que o Outro existe. É um defensor da f é.


a função isolável do olhar em tudo o que concerne ao campo da visão, a partir do momento em que esses problemas se colocam no nível da obra de arte.


Não é fácil def i nir o que é um olhar. Esta chega a ser uma questão que pode muito bem sustentar e devastar uma existência. Em certa época, pude examinar uma moça para quem essa questão, juntamente com uma estrutura da qual não tenho mais nada a indicar aqui, che­ gou propriamente a ponto de acarretar uma hemorragia retiniana, cujas seqüelas f oram duradouras.
Indaga-se sobre os ef eitos da exibição, isto é, se ela causa medo ou não na testemunha que parece provocá-la. Pergunta-se se é realmente intenção do exibicionista provocar esse pudor, esse susto, esse eco, esse algo de arisco ou de aquiescente. Mas não é esse o essencial da pulsão escopof í lica, cuja face vocês qualificarão como quiserem, ativa ou pas­ siva, deixo a escolha a seu critério - na aparência, ela é passiva, já que


dá a ver. O essencial, propriamente e antes de mais nada, é f azer apare­ cer o olhar no campo do Outro.
E por quê, senão para evocar o caráter fugidio e inapreensível do olhar, em sua relação topológica com o limite imposto ao gozo pela fu nção do princípio do prazer?
É pelo gozo do Outro que o exibicionista zela.


É no nível desse campo, campo do Outro como desertado pelo gozo, que o ato exibicionista se coloca, para ali fazer surgir o olhar. É nisso que vemos que ele não é simétrico ao que acontece com o voyeur.


É também isso que demonstra, para começar, que nenhuma pul­ são é simplesmente o retorno de outra, que elas são dissimétricas, e ainda que o essencial aqui é a função de um suplemento, de algo que, no nível do Outro, interroga o que falta no Outro como tal e se previ­ ne contra isso.


Há quem acredite encontrar a chave do sadomasoquismo no jogo com a dor, para se retratar prontamente e dizer que, af i nal, a coisa só é divertida quando a dor não vai longe demais. Esse tipo de cegueira, de engodo, de falso pavor, de cócegas da questão, reflete, de certo modo, o nível em que permanece tudo o que se pode praticar nesse gênero.
Não é essa a máscara, de fato, graças à qual escapa o que diz respeito à perversão sadomasoquista? Não lhes parece que destacar a proibição própria do gozo, também nesse caso, deve permitir-nos repor no devi­ do lugar aquilo de que se trata?
Talvez isto lhes pareça ousado demais, ou até uma especulação mui­ to pouco propícia a uma Ein f o hlung .compreensão., e por boas ra­ zões, porque, em sua matona, por mais numerosos que vocês sejam e acreditem no que acreditarem, o que concerne à perversão, à verdadei­ ra perversão, isso lhes escapa. Não é por sonharem com a perversão que vocês são perversos. Sonhar com a perversão pode servir para algo totalmente diferente, e, em especial, quando se é neurótico, para sus­ tentar o desejo, o que, quando se é neurótico, é muito necessário. Mas isso não autoriza ninguém a crer que compreende os perversos.


Basta haver freqüentado um exibicionista para perceber que não compreendemos nada do que, na aparência, eu não diria que o faz go­ zar, já que ele não goza - mas ele goza, ainda assim, sob a simples condição de que se dê o passo que acabei de mencionar, isto é, de que o gozo de que se trata seja o do Outro.


São-nos contados os mais extraordinários excessos praticados com as vítimas, com cuja incrível sobrevivência podemos surpreender-nos.
Mas não há um só desses excessos que não seja não apenas comentado, porém f omentado por uma ordem. O mais espantoso é que não pro­ voca nenhuma revolta. Mas, afinal, também nós pudemos constatar, através de exemplos históricos, que isso pode ocorrer dessa maneira.
Nos bandos de pessoas que f oram empurradas para os f ornos cremató­ rios, parece nunca ter-se visto uma que, de repente, simplesmente mordesse o punho de um guarda.


Se o neurótico se vê confrontado com os problemas narcísicos, é apenas na medida em que quer ser o Um no campo do Outro.


do f ato de que o sujeito, como neu­ rótico, está fadado, precisamente, ao fracasso da sublimação.


Introduzi o esclarecimento de que, na perversão, o próprio sujeito toma o cuidado de suprir a f alha do Outro.


Liberd a d e de pensamento: o que se deve entender por isso? Em que dia­ bo se pode sequer considerar que exista um valor inscrito nessas três palavras?
Numa primeira abordagem, soletremos a questão. Será que o pen­ samento, considerado em sua relação, apressemo-nos a dizê-lo, objeti­ va, contém alguma ref erência à liberdade? Naturalmente, não há nisso a menor liberdade.


No fu ndo, o conjunto é despojado inclusive do recurso à própria espacialidade. É aí que se deve encontrar o sentido da teoria dos con­ juntos.


No eixo que nos interessa, Hegel prolonga o cogito inaugural. O pensamento se revela quando interrogamos o centro de gravidade do que nele se qualif i ca como Selbstbewu ftsein, que não é outra coisa se­ não Eu sei o que penso. Mas o que Hegel acrescenta a Descartes é que alguma coisa varia nesse Eu sei o que penso. O que varia é o ponto em que estou. Isso, eu diria por def i nição, eu não o sei. A ilusão é que Eu estou ond e penso. Ora, a liberdade de pensamento não é nada além dis­ so. Assim, proibindo-me de pensar que Estou ond e quero, Hegel revela que liberdade de pensamento não existe nenhuma. Será preciso o tempo da história para que, no fi nal, eu pense no lugar certo, no lugar em que me terei tornado saber. Nesse momento, entretanto, já não haverá absolutamente nenhuma necessidade de pensar.


A idéia de que a verdade do pen­ samento está noutro lugar que não nele mesmo, de que é exigida a cada instante pela relação do sujeito com o saber, e de que esse próprio


saber é condicionado por um certo número de tempos necessários, constitui uma grade cuja aplicabilidade certamente só podemos sen­ tir, em todos os circuitos de nossa experiência. Ela é de um valor de exercício, de um valor f ormador exemplar. Na verdade, é preciso f azer um esf orço de desordenação, de verdadeiro despertar, para perguntar como, por pouco que eu saiba, há um atraso que faz com que seja pre­ ciso eu pensar para saber.


Essa verdade é a que interrogamos no inconsciente como f alha cria­ dora do saber e ponto-origem do desejo de saber. Esse saber está como que condenado a nunca ser senão o correlato dessa falha


O que constitui um nó para o neurótico, não o direi hoje aqui, pois seria f orçado a andar muito depressa. Mas direi que, em razão da natureza do neurótico - que é, no fu ndo, que lhe perguntem o que há com seu desejo -, pode-se indagar se o psicanalista, nesse ponto, não é cúmplice, ao sustentar sem saber aquilo que é a base da estrutura do neurótico, isto é, que seu desejo só consegue sustentar-se pela demanda.


Se podemos dizer que a análise consistiu no rompimento com a hipnose, talvez seja por uma razão bastante surpreendente, pensando bem: é que, na análise, pelo menos sob a f orma na qual ela estagna, é o analista que fi ca hipnotizado. No fi m, o analista acaba se transf or­ mando no olhar e na voz de seu paciente. Isso é muito dif erente do que se apresenta, ilusão do pensamento, como recurso à clínica. Tal­ vez não seja nos distanciarmos da clínica, senão tomarmos cuidado para que não se produza essa mutação.


Se em minha vida limitei-me a comentar minha experiência e a interro­ gá-la em suas relações com a doutrina de Freud, f oi precisamente no in­ tuito de não ser um pensador, mas de interrogar um pensamento já constituído, o de Freud, levando em conta aquilo que o determina, ou seja, aquilo que, hegelianamente f alando, constitui ou não sua verdade.


O sujeito suposto saber é Deus, ponto, só isso. É possível ser um cientista genial, e nem por isso obscurantista, ao que eu saiba; é possí­ vel ser Einstein e recorrer, da maneira mais articulada, a esse Deus.


Não é à toa que os termos se manif estam aqui por letras minúscu­ las, por uma álgebra. É próprio da álgebra poder ter diversas interpre­ tações. S(. A ) pode querer dizer toda sorte de coisas, inclusive a fu nção da morte do pai. Mas, num nível radical, o da logicização de nossa ex­ periência, S(A) é, exatamente, se ela está em algum lugar e é plena­ mente articulável, o que se chama estrutura.


A perversão é a estrutura do sujeito para quem a ref erência da cas­ tração, isto é, o fato de a mulher se distinguir por não ter o f alo, é tam­ ponada, mascarada, preenchida pela operação misteriosa do objeto a.
T rata-se de uma maneira de evitar a hiância radical, na ordem do sig­ nificante, representada pela castração. A base e o princípio da estrutu­ ra perversa estão em evitar isso, provendo esse Outro, como assexuado, de alguma coisa que substitua a falta fálica.


O S(A) fornece a chave da perversão. I


é o fi m do organismo como soma -não sente f alta de nada. Tem recur­ sos suf i cientes em seu perímetro de organismo para avaliar sua chama­ da redução mortal. O cadáver também é um real.


O que nos f orça a conceber o imaginário são os ef eitos pelos quais o organismo subsiste, já que é preciso que alguma coisa lhe indique que um dado elemento do exterior, do meio, do Umwelt, como se diz, é absorvível por ele, ou, em termos mais gerais, é propício à sua preser­ vação. Isso signif i ca que o Umwelt é uma espécie de halo, de duplo do organismo, e pronto. É a isso que se chama imaginário.


Para que a existência da falta apareça, é preciso que se diga, em al­ gum lugar, que a conta não estd certa. Para que falte alguma coisa, é preciso que haja uma contagem. A partir do momento em que há con­ tagem, há também ef eitos da contagem na ordem da imagem. Esses são os primeiros passos da episteme, da ciência. Os primeiros acopla­ mentos do ato de contar com a imagem são o reconhecimento de um certo número de harmonias - de harmonias musicais, por exemplo, que f ornecem o modelo da harmonia.


conjunção entre saber e poder. O próprio Freud, nesse ponto, é muito mais o paciente. Por sua fala, uma fala de paciente, ele atesta o que inscrevo sob o título de disjunção entre o saber e o poder.
Ele não é o único a dar testemunho dela, outros também o f azem, cada qual em sua particularidade, mas ele, por sua vez, a lê, lê seus ef ei­ tos nos sintomas que se produzem num certo nível do subjetivo, e ten­ ta fazer f rente a eles. É precisamente aí que se lê que ele mesmo é o paciente de seu esf orço, quer de seu trabalho, quer de seu discurso.


” A relação de objeto e as estrutu­ ras freudianas”


Devolver o a àquele de quem ele provém, o Grande Outro, é a es­ sência da perversão.


É impressionante, af i nal, que quando digo coisas assim, isso passe, entre sem a menor dificuldade, o que prova, eviden­ temente, que os analistas não têm uma idéia muito segura daquilo a que podem se ater num campo desses.


pensar é dizer não


A fobia não deve ser vista, de modo algum, como uma entidade clínica, mas sim como uma placa giratória. É esse o ponto que eu que­ ria encaminhar hoje. Ela gira mais do que comumente para as duas grandes ordens da neurose, a histeria e a neurose obsessiva, e também realiza a junção com a estrutura da perversão; ela nos esclarece, em suma, sobre toda sorte de conseqüências que tem, e as quais não preci­ sam se limitar a um sujeito particular para ser perf eitamente perceptí­ veis. Ela é muito menos uma entidade clínica isolável do que uma fi gura clinicamente ilustrada, de maneira espetacular, sem dúvida, mas em contextos inf i nitamente diversos.


Mas deixe­ mos isso de lado, porque o importante está al hures.


Hd quatro coisas, esqueci a quarta, ou não procuro me lembrar dela imediatamente, que não de i x am vestí gio: o pé da gazel a no roched o , o pei­ xe na dgua e, o que nos interessa mais, o homem na mulher. O que se pode objetar, conforme o caso, vem a ser dito sob a seguinte f orma, cuja importância conhecemos nas fantasias dos neuróticos: Sim, uma doencinha de vez em quando.


O falo é o signif i cante f ora do sistema e, em síntese, o signif i cante convencional para designar o que é radicalmente f oracluído do gozo sexual. Se falei em foraclusão, justif i cadamente, para designar alguns ef eitos da relação simbólica, é aqui que convém designar o ponto em que ela não é passível de revisão. Acrescentei que tudo que é recalcado no simbólico reaparece no real, e é por isso mesmo que o gozo é abso­ lutamente real, porque, no sistema do sujeito, ele não é simbolizado nem simbolizável em parte alguma.


todo o mundo continua a acreditar que o complexo de Édipo é um mito aceitável.


Uma é Eu não tenho o pênis, que é o que queremos dizer ao afirmar que o tér­ mino da análise é a realização do complexo de castração, com isso rejei­ tando, por outro lado, a fu nção pura e simples do pênis tal como ele funciona, ou seja, f ora do registro simbolizado. Mas ela também pode ser cortada de outra maneira, ou seja, Não tenho a título de símbolo o pênis, não é o pênis que me qualifica como significante de minha viri­ lidade.


Em ou­ tras palavras, por mais heterossexual que ele pudesse vir a se manif estar, ele ficou exatamente no mesmo ponto em que ficam os homossexuais - ref i ro-me àqueles que se reconhecem como tais, porque, quando se trata das relações do sexo, é impossível ampliar em demasia, no campo das relações aparentemente normais, aquele que corresponde estrutu­ ralmente à homossexualidade.


Es colher entre impossibilid a d e e impotência


É nessa condição que propomos como suportes as três expressões seguintes: o gozo como excluído, o Outro como lugar em que isso se sabe, e o objeto a, que é o pivô da história.
O a é o ef eito de resíduo que resulta de que, no jogo do significan­ te, é o gozo que é visado, no entanto. O sujeito, surgido da relação in­ dizível com o gozo, por ter recebido - de onde? - esse meio, o significante, é af etado por uma relação com o que, desenvolvendo-se a partir daí, ganha forma como Outro, Outro a que advêm transf orma­ ções, que não disse sua última palavra, e é isso que nos interessa.


Com efeito, ao cabo de um certo tempo de habituação do analista, ele considera aceitas as relações infantis de tensão que f oram estabele­ cidas pelo sujeito com respeito a um certo número de termos, o pai, a mãe, o nascimento de um irmão ou irmã caçulas, e considera esses ter­ mos como primitivos, embora eles só adquiram sentido e peso em ra­ zão do lugar que ocupam na articulação do saber, do gozo e de um certo objeto. Pelo menos, esta é a articulação que lhes trago hoje; tal­ vez haja outras mais elaboradas, é o que espero.


ao passo que nós, pela entrada em vigor do que chamamos capitalismo, eis que somos todos incluídos na relação com o gozo de um modo que se caracteriza pela aresta de sua pureza, por assim dizer.
A chamada ex ploração do trabalhad o r consiste, muito precisamen­ te, em que o gozo, por ser excluído do trabalho, ao mesmo tempo lhe confere, da mesma f orma que há pouco evocamos o ef eito do ponto no inf i nito, todo o seu real, e é isso que suscita a espécie de aporia sugerida pelo novo sentido, ausente do contexto antigo e sem prece­ dentes, assumido em relação à dominação da sociedade pela palavra revolução.


o neurótico questiona o que se passa com a verdade do sa­ ber. E o faz, precisamente, na medida em que o saber está apenso ao gozo.


aporia


Pois bem, direi que o obsessivo é aquele que recusa justamente to­ mar-se por mestre/senhor, porque, frente àquilo de que se trata, a ver­ dade do saber, o que lhe importa é a relação desse saber com o goro.
Desse saber, o que ele sabe é que ele não tem nada além do que resta da incidência primária de sua proibição, ou seja, o objeto a. Qualquer goro só é pensável para ele como um tratado com o Outro, sempre imaginado por ele como um inteiro fu ndamental. Ele negocia com o Outro. O gozo só se autoriza, para ele, por um pagamento sempre re­ novado, num tonel das Danaides, nesse algo que nunca é igualado. É isso que faz das modalidades da dívida a única cerimônia em que ele encontra seu gozo.


A histérica, e é por isso que essa modalidade se encontra mais espe­ cialmente nas mulheres, caracteriza-se por não se tomar pela mulher, ao passo que, nessa aporia, as coisas simplesmente se of erecem a ela, de maneira tão natural quanto para o homem, por ser a mulher, por de­ sempenhar seu papel na conjunção sexual, na qual, naturalmente, ela tem uma boa participação.
O que a histérica recalca, dizem, é o gozo sexual. Na realidade, ela promove o ponto no inf i nito do gozo como absoluto. Promove a cas­ tração no nível desse Nome-do-Pai simbólico, no lugar a partir do qual se coloca como querendo ser, no último instante, seu gozo. E é por isso que esse gozo só pode ser atingido quando ela recusa qualquer outro, o qual, diante dessa relação absoluta que para ela se trata de ins­ taurar, teria um caráter de diminuição, o que é verdade, além disso, por não ter nada a fazer que não seja externo, por ser apenas do nível da suf i ciência ou da insuf i ciência.


O ato psicanalítico apresenta-se como uma incitação ao saber. A regra dada ao psicanalisando implica que ele pode dizer tudo o que quiser. Deus sabe o quanto, à primeira vista, isso pode representar de absurdo. Se nos tomassem ao pé da letra, se aqueles que apresentamos a essa prática se pusessem realmente a dizer tudo o que lhes passa pela cabeça, o que significa, na verdade, qualquer coisa, e se isso tivesse sentido para eles, onde iríamos parar? Se podemos confiar neles nessa empreitada, é, muito exatamente, por causa de algo que está aí, implí­ cito, mesmo que eles não sejam capazes de dizê-lo: é que, digam vocês o que disserem, existe o Outro, o Outro que sabe o que isso quer dizer.


mesmo que não haja razão suficiente no que quer que vocês digam, ao não enxergarem mais longe do que dizer o que lhes vier à cabeça, sempre haverá nisso uma razão suficiente. É o quanto basta para colocar no horizonte o grande Outro, aquele que sabe.


a Coisa freudiana, isto é, essa verda­ de - a Coisa freudiana, essa verdade, é a mesma coisa - tem como propriedade ser assexuada, ao contrário do que se diz, ou seja, que o freudismo é o pansexualismo. Só que, como o ser vivo, que é o ser pelo qual se veicula uma verdade, tem uma fu nção e uma posição sexuais, resulta daí que não há relação sexual, no sentido preciso da palavra, em que uma relação seja uma relação logicamente def i nível.


A psicanálise nos revela que a dimensão própria do ato - do ato sexual, pelo menos, porém, ao mesmo tempo, de todos os atos, o que já se evidenciara fazia muito tempo - é o fracasso. É por essa razão que, no cerne da relação sexual, há na psicanálise o que se chama de castração.


Para que isso tenha sentido, é preciso voltar ao assunto mais de perto e denotar o destaque da dimensão que se articula


Para interrogar dessa maneira o fu ncionamento de quem procura saber, é necessário que tudo o que se articula seja articulado em termos de repetição.
A quem devemos essa experiência? É claro que ela nunca seria nem mesmo instaurada se não existisse o neurótico. Quem precisa saber a verdade? Unicamente aqueles a quem o saber incomoda. Essa é a def i ­ nição do neurótico.


somente a repetição é interpre­ tável na análise, e é isso que tomamos por transferência.


Por outro lado, o fi m que aponto como a captação do próprio analista na explo­ ração do a, é exatamente isso que constitui o ininterpretável. Em suma, o ininterpretável na análise é a presença do analista. É por isso que interpretá-la, como já se viu, como foi até impresso, é, propria­ mente, abrir a porta, convidar para esse lugar do acting out.


O erro, ou melhor, a inépcia do que é f or­ mulado a propósito do tratamento psicanalítico da psicose, e o fracasso radical que se marca aí, justamente ao situar a psicose numa psicopa­ tologia que seja de ordem analítica, têm as mesmas origens.


a questão que se levanta a propósito do ato psicanalítico é a do ato decisivo que, a partir do psicanalisando, faz surgir, inaugurar-se, instaurar-se o psicanalista. Se o psicanalista se conf u nde com a produção do fazer, do trabalho do psicanalisando, podemos efetivamente dizer que o psicanalisando banca o psicanalis­ ta, no sentido forte do termo. Mas também podemos dizer que, no exato momento em que surge o citado psicanalista, se é tão difícil apreender o que pode impeli-lo a isso, é que o ato se reduz a bancar o psicanalista, no sentido da afetação, a bancar aquele que garante o su­ jeito suposto saber. No início da carreira, quem não conf i denciou, a quem teve a bondade de ajudá-lo em seus primeiros passos, que tinha a sensação de bancar o psicanalista? Por que retirar o valor desse teste­ munho? Enf i m, e desta vez retomando as duas fu nções da palavra, será


que conduzir alguém ao término de sua psicanálise, ao extremo de sua verdade incurável, ao ponto em que ele sabe que, embora exista ato, não existe relação sexual, não equivale, mesmo que não seja freqüente isso acontecer, a bancar em algum lugar uma verdadeira mestria?


No entanto, se também se pode dizer que o psicanalista tem algu­ ma relação com o jogo, certamente ele não é o senhor deste, ao contrá­ rio do masoquista. Só que, ainda assim, ele lhe serve de suporte, encarna o trunfo-mestre, na medida em que é ele que vem desempe­ nhar o papel do que é o objeto a, com todo o peso que isso comporta.


Para o neurótico, o saber é o gozo do sujeito suposto saber. É por isso mesmo que o neurótico é incapaz de sublimação. A sublimação, por sua vez, é própria daquele que sabe contornar aquilo a que se re­ duz o sujeito suposto saber. Toda criação artística situa-se nessa de­ marcação do que resta de irredutível no saber como distinto do gozo.
Mas alguma coisa vem marcar sua empreitada, na medida em que ela nunca designa no sujeito sua inaptidão para sua plena realização.


Eu disse que o Outro sabe, o que é evidente, já que ele é o lugar do inconsciente. Só que ele não é um sujeito. A negação na formulação não existe su jeito suposto saber, se é que algum dia eu a prof eri dessa f orma negativa, ref ere-se ao sujeito, não ao saber. Isso é f ácil de apreender, aliás, desde que se tenha um mínimo de experiên­ cia do inconsciente, porque esta se distingue justamente pelo f ato de que, nela, não sabemos quem é que sabe.


Nesta perspectiva, portanto, é preciso partir não do Outro, mas desse um Out r o, o um do signif i cante inscrito no Outro, condição ne­ cessária para que o sujeito se agarre a ele, e também uma boa oportu­ nidade de ele não se lembrar do que é a condição desse um, isto é, o Outro.


O que ocorre é que é preciso que alguma coisa anuncie o sujeito antes de ele se agarrar ao um Out r o. Essa alguma coisa está aí na condi­ ção mais simples, a do mesmo um unário a que, na hipótese estrita, re­ duzimos aquilo a que ele pode se agarrar no campo do Outro.
Há disso um modo, o mais simples, que escrevi ali hoje: o de esse sujeito contar a si mesmo como um. É preciso admitir que isso é tenta­ dor. Aliás, é tão tentador que não há um só entre vocês que não o faça.
Por mais psicanálise que tenham enf i ado na sua cabeça, não há nada que se possa fazer. Vocês se acreditam um há muito tempo. E cabe di­ zer que têm f ortes razões para isso.


O Outro sabe coisas, mas, como não é um sujeito, não pode jogar.


Pascal nos articula bem do que se trata nesse pagar ou dobrar. Diz até que seria apenas uma questão de ter uma segunda vida depois da primeira, o que já valeria tudo. Isso causa uma certa impressão e, como somos justamente uma civilização cujo eixo é constituído pelos neuróticos, nós aquiescemos, acreditamos nisso, fi amo-nos nisso de todo o coração. Eu acredito, assim como vocês acreditam. Valeria a pena nos livrarmos dessa impressão para ter outra. Por quê? Porque isso permitiria fazer a soma, somar dois. Isso é ainda mais verossímil na medida em que temos certeza de ganhar, já que não existe outra al­ ternativa.


Então, o senhor e o escravo, a luta de puro prestígio até a morte, como isso lhes enche os olhos.
Luta de morte não existe nenhuma, já que o escravo não está mor­ to - sem isso, não seria escravo. Não há a menor necessidade de luta, de morte ou não. Há simplesmente necessidade de pensar nisso e, no caso dessa luta, pensar signif i ca que, sim, de fato, se for preciso chegar a ela, a gente chega, e fi zemos um traço unário com o que é, afinal, se ref l etirmos bem, a única coisa com a qual um ser vivo pode fazê-lo:
com uma vida. Com isso fi camos tranqüilos, porque, em todo caso, só teremos uma. No fu ndo, todo mundo sabe que é assim, o que não im­ pede que só haja uma única coisa interessante: acreditar que temos uma inf i nidade delas e, ainda por cima, que é prometido a essas vidas serem inf i nitamente felizes - prometido Deus sabe por que e em nome de quê. Procuraremos elucidar isso.


A luta é tão pouco mortal no animal quanto no homem; basta ver o que se produz no nível da luta dos machos, que nos foi tão bem des­ crita pelo querido Lorenz.


eles não necessariamente matam uns aos outros, eles se intimidam


Basta olhar para qualquer um para saber que, no mínimo, ele se toma por dois, porque o primeiro troço que ele sempre lhes conta é que, se não tivesse sido assim, teria sido assado, e teria sido muito me­ lhor, porque isso corresponderia à sua verdadeira natureza, a seu ideal.
A exploração do homem pelo homem começa no nível da ética, exce­ to que, no nível da ética, vemos melhor do que se trata, ou seja, que é o escravo que é o ideal do senhor. É o escravo que dá ao senhor o que lhe f alta, seu um-a-mais. O ideal está aí, é o serviço do serviço.


O ideal, o Ideal do eu, é isso - um corpo que obedece. Assim, o senhor vai procurá-lo no escravo. Mas, natural­ mente, ele não sabe qual é a posição do escravo. Porque nisso tudo, afinal, não há absolutamente nada que demonstre que o escravo não sabe muito bem o que quer desde o começo. Como assinalei muitas vezes, a questão das relações do escravo com o gozo não está nada elu­ cidada. Seja como f or, isso basta para deixar totalmente obscura a es­ colha dele nesse negócio.


Esse pequeno a, eu o chamei de mais-de-goz a r, por ser isso que é procurado na escravização do outro como tal, sem que nada senão a obscuridade seja assinalada quanto ao gozo próprio desse escravo. É nessa relação de risco e de jogo, é no fato de o senhor dispor do corpo do outro sem ter nenhum poder sobre o que acontece com seu gozo, que reside a fu nção do pequeno a como mais-de-gozar.


O obsessivo, portanto, não quer tomar-se pelo senhor. Só o toma como exemplo por sua maneira de fu gir- de quê? Será que é da mor­ te? Certamente. Num dado nível superficial, foi assim que o articulei.
O obsessivo é esperto o bastante para tomar o lugar do próprio peque­ no a, que, de qualquer modo, sempre subsiste no benefício da luta.
Haja o que houver, o mais-de-gozar está sempre presente. Mas é preci­ so saber para quem. O mais-de-gozar é o verdadeiro montante da aposta, e não é necessário eu relembrar o que articulei dela para que isso tenha pleno sentido. É aí que o obsessivo procura seu lugar no Outro. E o encontra, pois é no nível do Outro que, nessa gênese ética, o a se situa. É assim que isso se f orja.
Mas, que acontece com a finalidade do obsessivo, qual é ela? Não se trata tanto de escapar da morte, que decerto está presente em tudo isso, mas nunca é apreensível como tal numa articulação lógica. A luta de morte, tal como a apresentei a vocês há pouco, é fu nção do ideal, e não da morte, a qual nunca é percebida senão escrita com um limite que está bem além do jogo do campo lógico. Aquilo de que se trata, e que é igualmente inacessível nessa dialética, é de gozo. E dele que o obsessivo tenciona escapar, e espero poder articulá-lo bastante em ter­ mos clínicos, para lhes mostrar que esse é o centro de sua posição.


Eu estaria mais bem-humorado, se não estivesse com vontade de bo­ cejar, como vocês me viram f azer, por ter tido, não sei por quê, por puro acaso, uma noite curta.
Meu bom humor baseia-se numa dessas coisas que a gente tem num momento fu gaz, e que se chama uma esperança: no caso, a de que f osse possível, se as coisas corressem de certa maneira, eu ser libe­ rado desta sublimação semanal que consiste em minhas relações com vocês.


Não me vês de ond e te olho


Não me deves nad a no lugar de ond e te devoro


ato de eu ter lido Saussure na diagonal, de viés


Nada senão uma unidade signif i cante é capaz de explicá-la. O an­ tianatomismo do sintoma histérico f oi suf i cientemente posto em rele­ vo pelo próprio Freud. Trata-se de que, quando um braço histérico fi ca paralisado, é por se chamar braço, e nada mais, porque nada em nenhuma distribuição real dos inf l uxos explica o limite que designa seu campo. É o próprio corpo, nesse caso, que vem servir de suporte num sintoma original, o mais típico a ser interrogado por nós quanto ao que está na origem da própria experiência analítica.


um tr apaceador da vid a


O risco de vida, é aí que está o essencial do que podemos chamar de ato de dominação, e seu garante não é outro senão aquele que, no Outro, é o escravo, como o único significante perante o qual o senhor se sustenta como sujeito. O apoio que nele encontra o senhor não é outra coisa senão o corpo do escravo, no que ele é perinde ac cad a ver,. digamos, para empregar uma f ormulação que não chegou à toa ao pri­ meiro plano da vida espiritual. Mas o escravo, assim, está apenas no campo em que sustenta o senhor como sujeito.


Se o escravo morre, não há mais nada. Se o senhor morre, to­ dos sabem que o escravo continua a ser escravo. Desde que se tem lembrança do escravo, nunca f oi a morte do senhor que libertou quem quer que f osse da escravatura.


Mas o que salta aos olhos é que o próprio senhor não sabe nada.
Todos sabem que o senhor é um babaca. Nunca teria entrado em toda essa aventura, com o que o fu turo lhe aponta como resolução de sua fu nção, se por um instante tivesse sido por si mesmo o sujeito que, por uma espécie de facilidade de enunciação, Hegel lhe imputa ser. A fu n­ ção da chamada luta de morte, da luta de puro prestígio, que o faz de­ pender tão substancialmente de seu parceiro, poderia ela instaurar-se se o senhor não f osse, propriamente, nada além do que chamamos de inconsciente, isto é, o não sabido pelo sujeito como tal, ou seja, aquele não sabido de que o sujeito está ausente e que só é representado nou­ tro lugar?


O obsessivo se refere ao modelo do senhor. Podemos dizer que não se toma pelo senhor, mas su­ põe que o senhor sabe o que ele quer.


A histérica já é psicanalisanda, por assim dizer, isto é, já está a ca­ minho de uma solução. Ela a procura a partir de que, naquilo a que se ref ere, ela implica o sujeito suposto saber, e é por isso que depara com a contradição, enquanto o analista não pratica o corte entre, por um lado, isto aqui no quadro, que é a estrutura inconsciente, ou seja, os modelos que articulei propriamente, tanto no nível do senhor quanto


no da mulher, com meus três elementos, um, um e conjunto vazio, e, por outro, a suposição do sujeito suposto saber, que torna o neurótico naturalmente psicanalisando, porque essa suposição constitui desde logo, por si só, antes de qualquer análise, a transferência.


O fu ncionamento do tratamento analítico gira em torno desse corte. Ele é um corte subjetivo, uma vez que, certamente, tudo o que dizemos de um desejo inconsciente equivale sempre a supor que um sujeito acaba sabendo o que quer. Que signif i ca isso? Será que, mais uma vez, ao enunciar estas formulações, não continuamos a conservar esse algo que signif i caria que existe o saber e existe o que queremos, e que os dois se distinguem? Certamente, há um lugar em que isso acontece. É quando se trata de dizer sim ou de dizer não ao que cha­ mei de o que queremos. É a isso que se chama vontade. Mas, quanto a saber o que ele quer, tanto para o senhor quanto para a mulher, isso é o próprio desejo. As sim como há pouco uni as três palavras do um-a­ mais, ref i ro-me aqui ao saber-o-que-el e -quer, e esse é o próprio desejo.


A posição servil do estud a nte


Dist r ibuição de um diploma


O saber serve ao senhor. V olto a isso hoje para des­ tacar que o saber nasce do escravo.


a histérica é minha alegria. Melhor do que a Freud, que não soube entendê-la, ela me assegura que o gozo da mulher se basta perf ei­ tamente em si. Mas, se ela erige essa mulher mítica que é a esfinge, é porque precisa de uma outra coisa, qual seja, gozar com o homem, que para ela não passa do pênis ereto, mediante o qual ela se sabe Ou­ tra, isto é, sabe-se como o falo de que é privada, ou, em outras pala­ vras, como castrada. É esse o jogo originário que ela articula.


E o sujeito-senhor é o inconsciente.


Ao escravo restou a consciência de classe. Isso quer dizer que ele só tem que fechá-la. Todos sabem que estou dizendo a verdade, e que o problema das relações da consciência de classe com o partido são as re­ lações entre educando e educador


que a psicanálise é um discurso sem fala


Os três termos já colocados no quadro- Si, S2 e a-já f oram suficien­ temente comentados, creio.


Enfim, como ele fi nalmente o sabe, sempre f oi castrado. Agora pode ensiná-lo, o que é uma modificação introduzida pelo saber.


Se quiserem ter uma imagem dela, vão ver um treco, mas entrem na hora certa, como eu fi z. É um fi lme detestável, que se chama .f .Se. -palavra de honra, Deus sabe por quê. Trata-se da Universidade inglesa, exposta sob suas mais sedutoras f ormas, aquelas que realmen­ te convêm a tudo o que a psicanálise efetivamente soube articular, nada mais, sobre o que acontece com a sociedade dos homens, uma sociedade no sentido de agora há pouco, sociedade de homossexuais


sociedade de homossexuais


São os pupilos, os queridos pequerruchos custea­ dos, eles próprios uma criação dos desejos dos pais. Enfim, é isso que lhes é pedido que ponham em prática, a maneira como saíram dos de­ sejos dos pais.


Se vo­ cês não entrarem no jogo, não terão diploma este ano.


Quais são os efeitos de sujeito ou de sujeição do saber? O estudante não tem nenhuma vocação para a revolta. Vocês podem confiar em al­ guém que entrou no campo da Universidade por razões históricas, precisamente porque, com os psicanalistas, ele não tinha nada a f azer para fazê-los saberem o que quer que fosse. Portanto, era uma peque­ na esperança de que, por ef eito de reflexão, o campo da Universidade pudesse fazê-los raciocinar de outra maneira. Em suma, uma caixa de ressonância para o tambor, quando ele mesmo não raciocina, convém dizer.


Estudante é uma posição totalmente servil, normalmente. Além disso, não imaginem que, por vocês terem tomado a palavra nuns lu­ garezinhos, o assunto esteja resolvido. Os estudantes, em suma, conti-


nuam a acreditar nos professores. Quanto ao que convém pensar sobre o que estes dizem, não há nenhuma dúvida no nível do estudan­ te. Neste ou naquele caso, aceita-se a opinião de que eles não valem grande coisa, mas trata-se do professor, ou seja, espera-se dele, de qualquer modo, aquilo que está no nível de S1, aquilo que fará de vo­ cês um mestre/senhor no papel, um tigre de papel. Já vi estudantes que vieram me dizer: Sabe, o fu l a no, é uma vergonha, o livro del e fo i co­ piad o do seu semindrio. Os estudantes são assim. De minha parte, pos­ so lhes dizer que nem sequer abri o tal livro, porque sabia de antemão que dentro dele só havia isso. Pois eles vieram dizê-lo a mim. Agora, escrevê-lo é uma outra história. Isso é porque eles eram estudantes.


O mesmo se dá com o perverso. Ele é justamente o signif i cante do A intacto, S(A), como eu lhes disse. As pessoas se esforçam por redu­ zi-lo ao s minúsculo do mesmo A maiúsculo, é sempre a mesma histó­ ria, para que isso queira dizer alguma coisa.


é que meu ensino lhe parece ser exatamente o que é, ou seja, antiuniversitário, no sentido como acabo de defini-lo.


e uma informação do departamento de fi losof i a do Centro Experimental de Vincennes, que divulgou em novembro o convite que fi zera a Lacan para que ele fosse lecionar lá.


Reading books with ReadEra
https://play.google.com/store/apps/details?id=org.readera.hl=en