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from the book Seminar 15 O Ato Psicanalitico

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Seminario 15 - O Ato Psicanalítico

Há também um ato que pode qualificar-se, o ato pelo qual o psicanalista se instala enquanto tal, eis algo que merece o nome de ato, até o ponto, inclusive, em que este ato possa inscrever-se em algum lugar: Sr. Fulano de tal, psicanalista.

Nos explicam o pensamento como representando algo que se anula, que se justifica por sua relação com a ação; por exemplo, na forma de uma ação reduzida, uma ação inibida, uma ação esboçada, um pequeno modelo de ação. Ou seja, há no pensamento algo como um tipo de gustação daquilo que a ação que ele supõe, ou que ele tornaria imanente, poderia ser.

Arco reflexo.

Para nos dar o modelo do que podemos chamar ação, uma vez que o que é motor, a partir do momento que vocês o insiram no arco reflexo, aparece tanto como um efeito passivo, quanto como uma pura e simples resposta aos estímulos, resposta que não comporta nada mais que um efeito de passividade.

Estimulação intermitente.

Limitarmo-nos então seguramente em uma postura de não poder avaliar o ato nesta referência, nem à motricidade nem à descarga. Pelo contrário, é preciso perguntar-se a partir de agora, por que a teoria manifestou e ainda manifesta uma inclinação tão grande em tomá-las como apoio, para nelas encontrar a ordem original onde se instauraria, donde partiria, onde se instalaria como uma suplência, a do pensamento.

O saber-viver ou saber-fazer pode nascer a um momento dado e depois, se é que a ênfase que ponho desde sempre sobre a linguagem terminou por ganhar para alguns de vocês todo o seu alcance, é claro que aqui assume toda a sua importância, a questão de saber precisamente o que era de algo que podemos chamar manipulação da letra, segundo uma formalização dita lógica, por exemplo, antes que o fizéssemos.

Ideologia pavloviana.

Toda a experimentação pavloviana não teria verdadeiramente nenhum interesse, se não se tratasse de edificar a possibilidade essencial da tomada de algo que é exatamente, e que não se pode definir de outro modo senão como efeito de significante sobre um campo que é o campo vivo.

Neurose no nível dos animais.

Ecumenismo.

O que talvez não suspeitemos, é que isto talvez tivesse consequências imediatas, diretas, sobre o mercado, na porta da escola ou na necessidade na vida do casal, nas relações sexuais.

Essas consequências, deixa-se que se desenvolvam sozinhas.

Há um certo Sr. Gauss, por exemplo, bastante conhecido, que, acerca disso, tinha visões bastante antecipatórias. Ele deixou outros matemáticos colocá-las em circulação uns trinta anos depois, embora já estivessem em seus papeizinhos. Talvez achasse que as consequências ao nível da verdade merecessem ser tomadas em consideração.

Alguém possa fundar uma experiência.

Posso fundar uma experiência sobre pressupostos que ele mesmo ignora profundamente. E o que quer dizer, que ele ignora? Esta não é a única dimensão a colocar em jogo, a da ignorância, que é entendida relativa aos próprios pressupostos estruturais da instauração da experiência; há uma outra dimensão muito mais original.

É evidente que se é assim, essa afluência é justificada, já que o princípio do ensinamento que nós qualificaremos, para situar grosseiramente as coisas, de ensinamento de Faculdade, é precisamente que o que quer que seja de tudo o que diz respeito aos temas mais ardentes, até mesmo da atualidade, política por exemplo, tudo isto seja apresentado, posto em circulação, precisamente de forma tal que não leve a consequências. Pelo menos é a função à qual satisfaz há muito tempo, nos países desenvolvidos, o ensino universitário. É exatamente por isso, aliás, que neles a universidade está em casa, pois lá onde ela não satisfaz, nos países subdesenvolvidos, existe tensão. Logo, ela cumpre bem sua função nos países desenvolvidos. É que ela tem isso de tolerável: o que quer que nela se profira, não ocasionará desordem.

O analista comanda por sua ação na operância psicanalítica.

Qual é a essência disto que, do psicanalista enquanto operando, é ato? Qual é sua parte no jogo? É sobre isso que os psicanalistas, entre eles, não deixam de se interrogar.

Antes de Deus que eu jamais fui tão longe, e com razão, no questionamento da análise, e é com efeito notável, assim como estranho, que nos círculos onde há mais dedicação em manter consequentemente seu estatuto, as questões possam, no interior do dito círculo, ser levadas tão longe a ponto de que se trate de nada menos que de saber se a análise é, em si mesma, fundada ou ilusória.

Está em meu propósito, vocês verão; devo dizer que não sei em qual de meus escritos eu falo do doente; não é, com efeito, de maneira alguma meu estilo. Em todo o caso, eu não faria objeção a isso, mas a ideia de refolhear as novecentas e cinquenta páginas dos meus “Escritos” para saber onde eu falo do doente, seguramente não teria me ocorrido.

O psicanalista em seus atos de afirmação e o ato sintomático.

O fato de que seja precisamente após ter feito esta referência à bela açougueira que era bem dificilmente evitável, dado que segue um pequeno trecho que está assim redigido: “Desejo de ter o que a outra tem para ser o que não se é; desejo de ser o que o outro é para ter o que não se tem, até desejo de não ter o que se tem, etc…” quer dizer, um extrato bem direto - e, devo dizê-lo, um pouquinho ampliado de uma forma que não o aprimora - daquilo que escrevi justamente acerca desta direção da cura, quanto ao que diz respeito à função fálica.

O “Elogio da Babaquice”. Há muito que concebi seu projeto. Uma obra eventual, digamos que afinal de contas, em nossa época, seria coisa a merecer o sucesso verdadeiramente prodigioso, do qual não podemos nos surpreender, que faz com que perdure ainda, na biblioteca de todos, médicos, farmacêuticos, dentistas, “O Elogio da Loucura” de Erasmo que, sabe Deus, não nos atinge mais.

O Elogio da Babaquice seria seguramente uma operação mais sutil de realizar pois, na verdade, o que é a babaquice? Se a introduzo no momento de dar o verdadeiro passo essencial com relação ao que é o ato psicanalítico, é para deixar claro que não é uma noção. Dizer o que é, é difícil. É algo como um nó, um nó em torno do qual edifica-se muitas coisas e delega-se toda sorte de poderes, que é seguramente algo de estratificado e que não pode ser considerado simples.

Ausência de babaquice, a saber os Evangelhos, disse: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Observem que, naturalmente, ninguém jamais percebeu que é absolutamente impressionante dizer “Dai a Deus”, o que ele colocou em jogo. Que importa… Para o psicanalista, a lei é diferente. Ela é: “Dai à verdade o que é da verdade, e à babaquice o que é da babaquice”.

Bem, isso não é tão simples. Porque elas se recobrem e se há aqui uma dimensão própria à psicanálise, não é tanto a verdade da babaquice quanto a babaquice da verdade.

Não é diretamente dirigido a vocês. É dirigido a quem?

Meu Deus, eu repito a cada vez: aos psicanalistas, e em condições tais que é preciso dizer que ele lhes é dirigido a partir de uma certa atopia. Atopia que seria a minha própria e da qual, portanto, é preciso dizer as razões.

Por pouco que vocês estejam iniciados ao que é o método psicanalítico, devem saber em linhas gerais do que se trata: de falar durante semanas e meses, à razão de várias sessões por semana, e de falar de um certo modo particularmente desprendido, em condições que, precisamente, abstraem-se de toda a perspectiva relativa a essa referência à norma, ao útil; talvez precisamente para voltar a ela, mas a princípio para liberar-se, de forma tal que o circuito, antes de retornar a isso, seja o mais amplo possível.

Também me entreguei, em um texto meu que evocava outro dia, o da “Direção da cura”, a algumas zombarias, é claro.

Que você pode encontrar de proveitoso em vir a minhas conferências?

Chamando a atenção para estas duas fórmulas: que não há em minha linguagem o Outro do Outro, o Outro, neste caso, escrito com O maiúsculo. Que não há, para responder a um velho murmúrio de meu seminário de Sainte-Anne, lastimo muito dizê-lo, a verdade sobre a verdade. Do mesmo modo, não se deve considerar, de forma alguma, a dimensão da transferência da transferência. Isso quer dizer, nenhuma redução transferencial possível, nenhuma retomada analítica do estatuto da própria transferência.

Fora do que chamei manejo da transferência, não há ato analítico.

Por que, então, não sucederia o mesmo no que concerne ao ato analítico? Seguramente o que poderá nos esclarecer, será se nós pudermos dizer dele qualquer coisa que tenha maior alcance. Em todo o caso, é bem possível que ele não possa ser senão evitado, se, por exemplo, o que acontece quando se trata do ato, é que ele seja, em particular, inteiramente insuportável, insuportável quanto a? Não se trata de qualquer coisa de insuportável subjetivamente, pelo menos eu não o sugiro. Porque não insuportável como convém aos atos em geral, insuportável em alguma de suas consequências? Eu me aproximo, vocês notam, por pequenos blocos, não posso falar sobre isso em termos imediatamente alargados, por assim dizer; não absolutamente que eu não o faça ocasionalmente, mas porque aqui, nesta matéria que é delicada, trata-se de evitar, antes de tudo, o mal-entendido.

Um primeiro modelo dado daquilo que significa esta palavra no texto socrático sobre a boa administração política, quer dizer, a cidade, quanto ao que se refere ao homem. E curioso que, desde os primeiros tempos, apareça a referência à mulher, dizendo que, meu Deus, a virtude da mulher é a boa organização da casa. Mediante o que, ei-los, todos os dois, no mesmo passo sobre o mesmo plano, não há diferença essencial e com efeito, tomando-o assim, por que não?

A teoria da reminiscência.

Pela interrogação, encontraremos rapidamente a boa forma de operar, que é operar pela diagonal.

Longe de que Sócrates possa usar como argumento o fato de que o escravo nunca fez geometria e de que não lhe foram dadas aulas, a própria maneira de organizar o desenho, por parte de Sócrates, já é dar ao escravo, como é bem evidente, uma aula de geometria.

O sujeito é determinado, nesta referência, de uma forma que o toma inapto - o que demonstra nossa experiência - para restaurar o que se inscreveu, pelo efeito significante, de sua relação ao mundo, tornando-o, em certos pontos, inadequado a fechar-se, a completar-se de uma forma que seja, quanto ao seu estatuto de sujeito, satisfatória para ele. E estes são os pontos que o concernem, na medida em que ele tem de se colocar como sujeito sexuado.

Ora, o que quer dizer a análise da transferência? Se ela quer dizer alguma coisa, não pode ser senão isto: a eliminação deste sujeito suposto saber. Não existe para a análise, e bem menos ainda para o analista, não existe em lugar algum - e aí está a novidade do sujeito suposto saber. Há apenas o que resiste à operação do saber fazendo o sujeito, a saber, este resíduo que se pode chamar “a verdade”.

O que constitui o ato psicanalítico como tal é muito singularmente esta simulação pela qual o analista esquece o que, na sua experiência de psicanalisando, ele pôde ver reduzir-se ao que é: apenas função do sujeito suposto saber. Donde, a cada instante, todas as ambigüidades que transferem para outro lugar, por exemplo, para a função da adaptação à realidade. A questão do que é a verdade, é também simular que a posição do sujeito suposto saber seja sustentável, porque está nela o único acesso a uma verdade da qual o sujeito vai ser rejeitado, para ser reduzido à sua função de causa de um processo em impasse.

O ato psicanalítico essencial do psicanalista comporta esse algo que eu não nomeio, que esbocei sob o título de simulação, e que seria grave se isto vier a ser esquecido, o simular esquecer que seu ser, é causa deste processo. Que se trate de um ato, isso se acentua numa distinção que é essencial fazer aqui.

O analista, claro, não deixa de ter necessidade, diria mesmo, de se justificar para si mesmo, quanto ao que se faz na análise. Faz-se qualquer coisa, e é bem desta diferença entre o fazer e um ato que se trata. O banco no qual se atrela, se coloca o psicanalisando, é o de um fazer. Ele faz qualquer coisa. Chamem-no como quiserem, poesia ou manejo, ele faz, e é bem claro que justamente uma parte da indicação da técnica psicanalítica consiste em um certo “deixar rolar”. Mas será isso suficiente para caracterizar a posição do analista, quando esse deixar rolar comporta, até certo ponto, a manutenção intacta, nele, deste sujeito suposto saber, embora ele conheça, por experiência, a queda e a exclusão desse sujeito, e o que resulta do lado do psicanalista?

A passagem ao ato é aquilo além do que o sujeito reencontrará sua presença como renovada, mas nada mais.

Quais seriam os meios para que possa ser recolhido aquilo que, pelo processo desencadeado do ato analítico, é registrável de saber, aí está o que levanta a questão do que é o ensinamento psicanalítico. Na medida em que o ato psicanalítico é desconhecido, nessa mesma medida se registram os efeitos negativos quanto ao progresso do que a análise pode totalizar de saber - que constatamos, que podemos apontar, o que se manifesta e se exprime em um grande número de outros trechos e em toda a extensão da produção da literatura analítica - déficit com relação ao que pode ser totalizado, ao que ela poderá armazenar de saber.

A teoria da reminiscência que foi reapresentada, na última vez, pela evocação do Mênon, fornece o exemplo. Eu me centrarei sobre um “eu leio”, a uma prova reveladora. A segunda, diferente, presentificada no tom (é a palavra apropriada) do progresso de nossa ciência, é um “eu escrevo”.

Eu me coloquei, sob uma forma que aponta hoje à problemática de meu ensino. O que quer dizer o que eu aqui produzo, há agora mais de quatro anos? Levantar a questão vale bem a pena: isso é ato psicanalítico? Esse ensinamento se produz diante de vocês, é público. Como tal, ele não poderia ser ato psicanalítico.

Que basta delinear a via de sua saída para que se entre aí, mesmo sem pensar nisso, e que afinal a melhor maneira de voltar a entrar, de certa maneira, é sair de vez.

É evidente que nem todos os tropeços são tropeços interpretáveis. O que se impõe no início de uma simples observação que, além disso, também é a única objeção jamais produzida no uso. Basta começar a introduzir ante alguém, como se diz, de bom senso - se ele é novo, se não foi ainda imunizado, se guardou algum frescor - a dimensão das cogitações analíticas, para que as pessoas respondam: “Mas a troco de que você vem contar tanta coisa sobre essas besteiras que nós conhecemos bem e que são simplesmente vazias de todo suporte apreensível, que são apenas o negativo.”

A função da psicanálise se caracteriza claramente pelo seguinte: institui um fazer pelo qual o psicanalisando obtém um certo fim. Fim este que ninguém pôde ainda fixar claramente, como demonstra a oscilação verdadeiramente desordenada da agulha que se produz desde que interroguemos acerca disso os autores.

Não há nada de abusivo em falar desse ponto de virada, em falar da passagem do psicanalisando a psicanalista já que, entre os próprios psicanalistas, a referência ao que acabo de evocar é constante e dada como condição de toda a competência analítica.

Perseguindo imperturbavelmente seu caminho, ele chegará a notar que não apenas não há dois modos e dois registros de pensamento, mas que há uma infinidade deles a serem quase escalonados, no sentido em que outrora os psicólogos marcaram como níveis da consciência, em consequência de reduzir completamente a relevância da contribuição de Freud, pelo que se chama a redução à psicologia geral, quer dizer, sua abolição.

Quanto ao Saber, é uma função imaginária, uma idealização incontestavelmente.

Àqueles que vêm consultar o analista para encontrar mais segurança, bem, meu Deus, ocorre que se faça uma teoria das condições de segurança que deve atingir alguém que se desenvolve normalmente. É um mito belíssimo.

Há um artigo de Erik Erikson sobre o sonho da injeção de Irma, que não é feito de outra forma. Ele enumera, em etapas, como deve edificar-se a segurança do pequeno homem, que teve inicialmente uma mamãe adequada, aquela que aprendeu direito sua lição nos livro dos psicanalistas.

Tomemos um excelente autor, o Sr. Winnicott. É notável que esse autor, ao qual devemos uma descoberta das mais finas, eu me recordo e jamais deixarei de voltar a isso, em homenagem, à minha lembrança do quanto o objeto transicional, como ele apresentou, pôde me trazer de socorro no momento em que me interrogava sobre a maneira de desmistificar essa função do objeto dito parcial, tal como vemos sustentada para suportar a teoria a mais abstrusa, a mais mistificadora, a menos clínica, sobre as pretensas relações desenvolvimentistas entre pré-genital e o genital. Apenas a introdução deste pequeno objeto que se chama, em Winnicott, objeto transicional, essa pequenís-sima ponta de pano que o bebê, desde antes desse drama em torno do qual se acumularam tantas névoas confusas, desde antes do drama do desmame que, quando o observamos não é, de forma alguma, forçosamente um drama … Como me fazia notar alguém, se o bebê é pouco penetrante, pode ser que, no desmame, quem mais se ressinta dele seja a mãe. A presença, a única presença, nesse caso, que, de alguma forma, parece ser o apoio, o arco fundamental, graças ao qual nada mais será jamais, a seguir, desenvolvido senão em termos de relação dual, a relação do infante e da mãe, ela surge, de imediato, interferência por estas funções deste miúdo objeto, do qual Winnicott vai nos formular o estatuto.

Humano.

Nada de mais fatigante que uma leitura, e pouco propício a prender a atenção.

Quando o meio ambiente não é apropriado nos primeiros dias, nos primeiros meses do bebê, algo pode operar, ocasionando este “freezing”, este congelamento; seguramente, está aí alguma coisa que só a experiência pode elucidar. Existe ainda, com relação a essas consequências psíquicas, algo que Winnicott foi capaz de ver muito bem. Mais atrás desse “freezing” há esse “self” que espera, diz Winnicott. Esse “self” que, por estar congelado, constitui o “falso-self” ao qual é necessário que o Sr. Winnicott reconduza, por um processo de regressão.

Mas, que haja um ato, que seja criador e que esteja lá o começo.

Uma operação dita psicanálise que, em princípio, comanda a suspensão de todo o ato.

“Eu penso”, com todas as suas características: o que sonhei esta noite, o que perdi esta manhã, ou até o que, ontem, por um tropeço incerto, acertei sem querer, fazendo o que se chama “um chiste” sem fazê-lo de propósito.

“Lá onde isso estava…” vamos traduzir “eu devo tornar-me”, continuem, “psicanalista”, só que, pelo fato da questão que coloquei - deste ich traduzido pelo sujeito - como vai poder o psicanalista encontrar seu lugar nesta conjuntura? Esta conjuntura é aquela que, no ano passado, eu articulei expressamente, ao título de “lógica da fantasia”, pela conjunção disjuntiva, por uma disjunção muito especial que é a que eu introduzi faz mais de três anos, fazendo uma inovação, com o termo “alienação”. É, a saber, a que propõe essa escolha singular, cujas consequências articulei, por ser uma escolha forçada e forçosamente perdedora: “A bolsa ou a vida”, “a liberdade ou a morte”. A última, que introduzimos aqui, e que eu apresento para mostrar sua relação com o ato psicanalítico é: “ou eu não penso ou eu não sou”. Se vocês acrescentam aí, como acabo de fazer com o ”soll ich werden”, o termo que é precisamente o que está em questão no ato psicanalítico, o termo “o psicanalista”, basta fazer funcionar essa maquininha, evidentemente não há porque hesitar: se de um lado eu não sou psicanalista, resulta disso que eu não penso.

Mas se é tão sólido em seu ser como quando não se pensa. Todos sabem disso. Só que, apesar disso, eu queria marcar bem a distinção.

Notamos, inclusive, que só o fato de que seja preciso interrogar esse ponto de apoio, saber se ele é o zero, indica que, em todo o caso, ele já está marcado e afinal estamos indo bastante bem, pois é o efeito da marca que com satisfação deduzimos o “ou eu não penso ou eu não sou”, “ou eu não sou esta marca” ou “eu não sou toda senão esta marca”, quer dizer, “eu não penso”. Para o psicanalista, por exemplo, isso se aplica muito bem. Ele tem o label, ou então ele não é.

Os termos de operação alienação, operação verdade, operação transferência, para fazer deles três termos do que se pode chamar um grupo de Klein.

O ofício do psicanalisando.

Então, partamos das coisas tais como se apresentam. Chegou-se ao fim uma vez, é aí que é preciso deduzir a relação que isso tem com o começo de todas as vezes. Chegou-se ao fim de sua psicanálise uma vez, e é este ato, tão difícil de apreender no começo de cada uma das psicanálises, que nós garantimos. Isso deve ter uma relação com esse fim, uma vez. Ora, é necessário, afinal, que sirva para algo o que avancei no ano passado, a saber, a forma pela qual se formula, nessa lógica, o fim da psicanálise.

Como vocês sabem, a pressa é justamente o que deixa escapar a verdade; isso nos permite viver, de outro lugar. A verdade é que a falta (do alto à esquerda) é a perda (de baixo à direita). Mas esta perda é causa de outra coisa. Nós a chamaremos de “causa de si”, com a condição, claro, de que vocês não se enganem. Deus é a causa de si, nos diz Spinoza.

O final da análise consiste na queda do sujeito suposto saber, sua redução ao advento desse objeto “a”, como causa da divisão do sujeito, que vem ao seu lugar. Aquele que, fantasmaticamente, joga a partida com o psicanalisando como sujeito suposto saber, a saber, o analista, é aquele (o analista) que vem, ao termo da análise, a suportar não ser nada mais que este resto. Esse resto da coisa sabida que se chama o objeto “a”. É ao redor disso que deve incidir nossa questão.

O analisando vindo ao fim da análise no ato (se há um) que o leva a tornar-se o psicanalista, não precisamos ver que ele só opera essa passagem no ato que remete ao seu lugar o sujeito suposto saber? Vemos agora onde está este lugar, porque ele pode ser ocupado, mas só será ocupado na medida em que este sujeito suposto saber se reduza a este termo (em que aquele que até ali o garantiu por seu ato, a saber, o psicanalista, tornou-se este resíduo), o objeto “a”.

Aquele que no fim de uma análise didática aceita, se posso dizer, o desafio desse ato, não podemos omitir que é sabendo o que seu analista se tornou na efetuação desse ato, a saber, este resíduo, este dejeto, esta coisa rejeitada. Ao restaurar o sujeito suposto saber, ao retomar, ele mesmo, a tocha do analista, é impossível que ele não instale, ainda que sem perceber, que ele não instale o “a” no nível do sujeito suposto saber. Esse sujeito suposto saber, que ele tem que retomar como condição de todo o ato analítico, ele sabe, neste momento que chamei de passe, ele sabe que lá está o de-ser que por ele, o psicanalisando, feriu o ser do analista. Digo “sem perceber”, pois é assim que ele se engaja. Pois desse de-ser instituído no ponto do sujeito suposto saber, ele, o sujeito no passe, no momento do ato analítico, nada sabe a seu respeito. Isso, justamente, porque ele tomou-se a verdade desse saber e, se posso dizer assim, uma verdade que é atingida “não sem o saber” (pas sans le savoir), como dizia há pouco … , bem, é incurável: somos esta verdade.

O ato analítico no início funciona, por assim dizer, com o sujeito suposto saber falseado, pois o sujeito suposto saber se revela agora o que era bem simples ver de imediato: que é ele que está no apoio da lógica analítica. Se aquele que se torna analista pudesse ser curado da verdade que ele se tornou, ele saberia marcar o que ocorreu de mudança no nível do sujeito suposto saber: é o que em nosso gráfico marcamos com o significante S(�).

Seria necessário perceber que o sujeito suposto saber é reduzido, ao fim da análise, ao mesmo “não estar aí” que é o que é característico do próprio inconsciente, e que esta descoberta faz parte da mesma operação verdade.

Repito, a colocação em questão do sujeito suposto saber, sublinho que implica, eu diria, todo o funcionamento de saber e que muitas vezes já interroguei ante vocês desta forma: então, este saber, seja o do número transfinito de Cantor ou o do desejo do analista, onde estava antes que soubéssemos?

Somente daí, talvez se possa proceder a uma ressurgência do sujeito, cuja condição é perceber que sua origem e sua reinterpelação é o que se poderia fazer do significante do Outro enfim desvanecido para o que o substitui, já que também é de seu campo, do campo do Outro, que este significante foi arrancado, a saber, o objeto “a”, e perceber também que o ser tal como ele pode surgir de qualquer ato que seja, é ser sem essência como são sem essência todos os objetos “a”. É o que os caracteriza.

Objetos sem essência que são, ou não, reevocados no ato, a partir dessa espécie de sujeito que, como veremos, é o sujeito do ato, de todo o ato; diria, uma vez que, como sujeito suposto saber, é um sujeito que não está no ato, ao final da experiência analítica.

Pas sans le savoir: Lacan joga com a homofonia entre ”passant” (passando o saber) e ”pas sans” (não sem sabê-lo). Como le pas, além da negação pode significar “passo”, poderíamos também ler “passo sem saber”.

O ato psicanalítico, se é um ato, e foi precisamente daí que partimos desde o ano passado, é algo que nos levanta a questão de situá-lo, de dizê-lo, o que é legítimo e, mais ainda, o que implica a sequência de ato, na medida em que o ato é, por sua própria dimensão, um dizer. O ato diz algo. Foi daí que partimos.

Bate-se numa criança.

Senão, percorrido em um certo sentido, somos (para nos reencontrarmos, para apoiar o que eles podem representar para nós) forçados a lhe dar um outro nome, e claro, com a condição de percebermos que se trata do mesmo trajeto.

É necessário que seja agora, ou um pouquinho mais tarde…

Sim, mas por que não agora, por que não de imediato? - mesmo que se volte a isso que espero tornar familiar a vocês, lembrando suas coordenadas em outros registros, em outros enunciados. Preciso ainda lembrar-lhes que a tarefa analítica, na medida em que ela se delineia a partir desse ponto do sujeito já alienado, em um certo sentido ingênuo em sua alienação, aquele que o psicanalista tem que ser definido pelo “eu não penso”, que a tarefa em que ele o engaja é em um “eu penso” que toma justamente todo o seu peso por que ele saiba o “eu não penso” inerente ao estatuto do sujeito?

A tarefa à qual o ato psicanalítico dá seu estatuto é uma tarefa que já implica essa destituição do sujeito.

É preciso lembrar-se (não se deve constantemente esquecer).

Essa falta estava lá desde o início, e sempre soubemos que essa falta é a essência mesma desse sujeito que se chama às vezes de homem. É já o desejo, já o dissemos, é a essência do homem.

Observem, examinando cuidadosamente o Cogito, que o sujeito que nele é suposto como sendo o ser pensante pode ser aquele do pensamento. Mas de qual pensamento, em suma? Deste pensamento que acaba de rejeitar todo o saber.

Não se trata do que fazem, após Descartes, os que meditam sobre a passagem imediata do “eu penso” ao “eu sou”: uma evidência que, a seu gosto, eles fazem consistente, fugidia … Trata-se do próprio ato cartesiano, enquanto é um ato. O que nos é relatado e dito é precisamente por ser dito que ele é ato) sobre esse ponto em que se realiza uma suspensão de todo o saber possível, é que nele está o que assegura o “eu sou”. Será por ser pensamento do Cogito? Ou será pela rejeição do saber?

A questão vale a pena ser levantada, se lembramos do que se chama nos manuais de filosofia de “sucessores”, a posteridade de um pensamento filosófico, como se se tratasse simplesmente de uma continuação, de uma porção de melaço para fazer outra mistura, quando se trata a cada vez de uma renovação, de um ato que não é forçosamente o mesmo, e que se apreendemos Hegel claro que nele, como em toda a parte, ainda encontramos a colocação em suspenso do sujeito suposto saber, com a ressalva de que não é à-toa que esse sujeito é destinado a nos dar, ao final da aventura, o saber absoluto.

O que poderia representar, mesmo por um só instante, o sujeito, já que este saber inicial, que nos é apresentado como tal, é o saber da MORTE, quer dizer, uma outra forma extrema, radical, de suspensão, como fundamento mesmo, desse sujeito do saber.

Essa rejeição do saber e, em Hegel, esse saber como saber da morte, saber da morte articulado precisamente na luta até a morte por puro prestígio, da qual sabemos que, seguramente, enquanto funda o estatuto do mestre (esta é sua função), é dela que procede essa ”Aufhebung” do gozo. Fato reconhecido. É renunciando, em um ato decisivo, ao gozo para se fazer sujeito da morte, que o mestre se institui. Para nós, é também neste ponto, já ressaltei a seu tempo, que se promove, por um singular paradoxo, a objeção que podemos fazer a isso. Paradoxo inexplicado em Hegel: é ao mestre que o gozo retornaria desta ”Aufhebung”. Muitas vezes nos perguntamos: e por que? Por que, se é para não renunciar ao gozo que o escravo se torna escravo? Por que não o guardaria? Por que ele retornaria ao mestre, cujo estatuto é precisamente o de ter renunciado a ele, senão de uma forma da qual talvez pudéssemos exigir um pouco mais do que um passe de mágica, a mestria hegeliana, para dela nos darmos conta? Não será um teste insignificante, se pudermos apreender na dialética freudiana, um manejo mais rigoroso, mais exato e mais conforme à experiência do que é o devir do gozo depois da primeira alienação.

O que se diz? Já evoquei na última vez que é ao final de uma psicanálise que se supõe acabada, que o psicanalisado pode tornar-se psicanalista. Não se trata, absolutamente, de justificar aqui a possibilidade desta junção. Trata-se de tomá-la como articulada e testá-la com nosso esquema tetraédrico.

O sujeito que cumpriu a tarefa, ao término da qual ele se realizou como sujeito na castração, enquanto faltante ao gozo da união sexual, é ele que nós devemos ver, por uma rotação ou uma bascula a um certo número de graus.

É precisamente por isto que surge a questão do que é para ele este ato, que definimos há pouco como ato em falso. Qual é a medida do esclarecimento de seu ato? Já que, enquanto ele percorreu o caminho que permite este ato, ele é, desde já, ele próprio, a verdade deste ato.

Quando ele se põe lá, depois de ter percorrido o caminho psicanalítico ele mesmo, agora como psicanalista, ele já sabe aonde vai conduzi-lo o caminho a percorrer novamente: ao de-ser do sujeito suposto-saber, a ser apenas o suporte deste objeto que se chama o pequeno a.

É recomendado ao que chamamos o paciente, o psicanalisado, para nomeá-lo, lhe é recomendado que espere tanto quanto possível para agir.

Eu que ajo, eu que lanço no mundo esta coisa à qual é possível dirigir-se como a uma razão, muss ich (a) werden - eu, daquilo que introduzo como nova ordem no mundo, devo tomar-me o dejeto.

Um motivo estranho aos ordinários faz com que eu não possa comparecer no dia 31.

Defini e articulei dois pólos da posição do psicanalista, já que, absolutamente, não recuso a esse psicanalista o direito à resistência (não vejo porque o psicanalista seria destituído dela), enquanto ele instaura o ato psicanalítico, ou seja, dá sua garantia à transferência, quer dizer, ao sujeito suposto saber; ainda que toda a sua vantagem, a única que ele tem sobre o sujeito psicanalisando, seja a de saber por experiência o que ocorre com o sujeito suposto saber. Quer dizer, quanto a ele, na medida em que se supõe que tenha atravessado a experiência psicanalítica de uma maneira da qual o mínimo que se pode dizer, sem maiores aprofundamentos nos debates doutrinários, é que deve ser uma maneira, digamos, um pouco mais avançada que a das curas, ele deve saber em que consiste o sujeito suposto saber. A saber (e eu expliquei na última vez, ver o esquema, porque é aqui que vem o sujeito suposto saber), que é ele que sabe o que resulta do ato psicanalítico, o traçado, o vazio, a operação do ato psicanalítico deve reduzir esse sujeito à função do objeto pequeno “a”. É isto o que, em uma análise, tornou-se aquele que fundou essa análise em um ato, a saber, seu próprio psicanalista. Tornou-se precisamente porque ele se uniu, no final, com o que não era de início (digo, na subjetividade do psicanalisando). Em primeiro lugar, de início, ele não era o sujeito suposto saber. Ele se torna, ao término da análise, eu diria por hipótese. Estamos em análise para saber de algo. É no momento em que ele o devém que igualmente ele se reveste para o psicanalisando da função que ocupa na dinâmica, para o psicanalisando como sujeito, o objeto pequeno “a”. Esse objeto particular que é o objeto pequeno “a”, quero dizer, nesse sentido de que ele oferece uma certa diversidade que, por outro lado, não é muito ampla, já que podemos fazê-la quádrupla com qualquer coisa de vázio no centro, enquanto esse objeto pequeno “a” é absolutamente decisivo para tudo o que diz respeito à estrutura do inconsciente.

A análise, sim ou não, (parece-me difícil, dada a forma como vou dizê-lo, que não se perceba do que é que se trata), a análise quer ou não quer dizer que, no que vocês queiram, um ser (como eles dizem), um devir, ou não importa o que, qualquer coisa da ordem do vivo, há acontecimentos, quaisquer que sejam, que trazem consequências? É aqui que o termo “consequência” toma todo seu peso.

Há consequência concebível fora de uma sequência significante? Pelo simples fato de que algo tenha ocorrido, subsiste no inconsciente de tal de forma que se possa reencontrá-lo, com a condição de agarrar uma ponta sua que permita reconstituir uma sequência? Existirá uma só coisa que possa ocorrer a um animal, que possamos imaginar que se inscreva nesta ordem? Acaso tudo o que se articulou na análise, desde o início, não é da ordem desta articulação biográfica, enquanto ela se refere a algo de articulável em termos significantes? É impossível extrair, expulsar dela essa dimensão, a partir do momento em que, como vimos, não podemos mais reduzi-la a nenhuma noção de plasticidade ou de reatividade, ou de estímulo-resposta biológicos que, de toda a forma, não serão da ordem do que se conserva em uma sequência. Nada do que se pode operar de fixação, transfixação, de interrupção, até mesmo de aparelhagem, em torno de um aparelho, do que é apenas um aparelho, e especificamente nervoso, por si só é capaz de responder a esta função de consequência. A estrutura, sua estabilidade, a manutenção da linha sobre a qual ela se inscreve, implicam uma outra dimensão que é propriamente a da estrutura. Isso é um lembrete e que não atinge o ponto em que estava, quando me interrompi para fazer esse lembrete.

O analista é aquele que rodeia toda uma zona em que frequentemente é chamado pelo paciente à intervenção enquanto ato, e não apenas na medida em que possa ser chamado, ocasionalmente, a tomar partido, a estar do lado de seu paciente com relação a um próximo (ou qualquer outro), ou até, simplesmente, a fazer essa espécie de ato (com efeito, bem que é um) que consiste em intervir por uma aprovação ou, pelo contrário, em aconselhar; e isso, muito precisamente, o que a estrutura da psicanálise deixa em branco.

Ora, não sei o que devo fazer nesse ponto. Aconselhar uma leitura é sempre tão perigoso, porque tudo depende do quanto se foi, anteriormente, mais ou menos instruído.

“O Discurso da Guerra”, de André Glucksmann.

É um ato deixar seus afazeres, é sobretudo um ato não deixá-los.

Vocês não imaginam o quanto estão implicados em coisas que apenas os manuais de história fazem acreditar que são do passado …

Aristóteles.

História dos Animais.

Há na posição do psicanalista, e por função, se este esquema o torna suficientemente claro para que não se veja nisso nenhuma ofensa, algo de enrustido. Tentaremos decifrar em algum lugar uma “imagem no tapete”, ou nos … , como queiram.

Há uma certa posição enrustida que eles chamam como podem, chamam de “escuta”, chamam “a clínica”, vocês nem imaginam todas as palavras opacas que podemos encontrar nesse caso. Pois eu me pergunto de que maneira, como permitir-se dar ênfase ao que é inteiramente específico deste sabor de uma experiência. Isso não é, certamente, acessível a nenhuma manipulação lógica. Em nome desta (não ouso dizer gozo solitário) deleitação morosa, em nome disto, permitir-se dizer que todas as teorias se equivalem, e sobretudo que não é preciso estar ligado à nenhuma, quer se traduza as coisas em termos de instinto, de comportamento, de gênese ou de topologia lacaniana… Tudo isso devemos encontrar em uma posição equidistante nesse tipo de discussão. Tudo isso, no fundo, é gozo hipocondríaco. Esse lado centrado, peristáltico e anti-peristáltico ao mesmo tempo, é algo de visceral à experiência psicanalítica.

Ele é aquele que fala e em quem se experimentam os efeitos da palavra. O que quer dizer “em quem se experimentam”? A fórmula é propositalmente ambígua. Quero dizer que seu discurso, tal como regrado, instituído pela regra analítica, é feito para ser a prova de que, como sujeito, ele já está constituído como efeito da palavra. E entretanto, também é certo dizer que este discurso, ele próprio, tal como vai se desenvolver, sustentar-se como tarefa, encontra sua sanção, seu saldo, seu resultado, como efeito de discurso, antes de mais nada a partir desse discurso próprio em si mesmo, qualquer que seja a inserção que o analista consiga por sua interpretação.

Na fórmula que precisei formular, dizendo que o sujeito é, muito precisamente, o que um significante representa para um outro significante.

Peirce Charles Sanders.

Não há traços senão verticais quer dizer: lá onde não há verticais, não há traços.

Quem sabe, falando nisso aqui eu talvez provocasse uma vocação, que nos mostraria o que significam verdadeiramente tantos desvios. E tantos embaraços, as vezes tão singulares, tão paradoxais, que se manifestaram no curso da história e marcaram os debates lógicos através das eras, e que numa certa perspectiva, pelo menos a nossa, parece tão incompreensível o tempo que as vezes levaram e que parece ter constituído longas estagnações, até paixões em torno dessas estagnações, das quais avaliamos mal o alcance por não percebermos o que estava verdadeiramente em jogo, por trás. A saber, nada menos que o estatuto de desejo do qual o liame, por ser secreto, com a política, por exemplo, é inteiramente perceptível na virada que constituiu a instauração na filosofia, especificamente a filosofia inglesa, de um certo nominalismo. É impossível compreender a coerência desta lógica com uma política, sem se dar conta do que a lógica, ela própria, implica de estatuto do sujeito e de referência à efetividade do desejo na relação política.

Paixões em torno dessas estagnações.

A um tal sujeito, um sujeito definido como efeito de discurso, neste ponto em que faz a experiência de perder-se para se reencontrar, a um tal sujeito cujo exercício é, de certa forma, colocar-se à prova de sua própria demissão, quando poderíamos dizer que se aplica um predicado? Dito de outra forma, poderíamos enunciar algo que fosse da rubrica do universal? Se o universal não nos mostrasse já em sua estrutura que ele encontra sua alçada, seu fundamento no sujeito, enquanto ele só pode ser representado por sua ausência, quer dizer, enquanto ele não é jamais representado, estaríamos seguramente no direito de questionar se é possível enunciar qualquer coisa, como, por exemplo, “todo psicanalisando resiste”.

Não vou, entretanto, resolver se algo de universal pode ser enunciado do psicanalisando. Apesar das aparências, não o descartamos senão ao colocar o psicanalisando como esse sujeito que escolhe, se podemos dizer, fazer-se alienar mais que qualquer outro, votar-se só aos desvios de um discurso não escolhido, a saber, esse algo que é o que mais se opõe ao que está, aqui no esquema, no ponto de partida, a saber, que é certamente sobre uma escolha, mas uma escolha mascarada, eludida, porque anterior; escolhemos representar o sujeito pelo traço, por esse traço que uma vez qualificado, não mais o apreendemos. Nada aparentemente mais oposto ao que constitui o psicanalisando, que é, apesar de tudo, uma certa escolha, essa escolha que chamei há pouco de abdicação. A escolha de se pôr à prova com os efeitos de linguagem, é exatamente aí que nos reencontraremos.

O fim da análise é, a saber, a inigualdade do sujeito a toda a subjetivação possível de sua realidade sexual e a exigência de que, para que esta verdade apareça, o psicanalista já seja a representação do que mascara, obtura, tampona essa verdade, e que se chama o objeto “a”.

Notem bem, com efeito, que o essencial do que desenvolvo aqui (voltarei a isso muitas vezes) não é que no final da psicanálise, como alguns imaginam (vi pelas questões apresentadas), o psicanalista se torne para o outro o objeto “a”. Esse “para o outro” aqui toma singularmente o valor de um “para si”, enquanto como sujeito não há outro senão esse Outro ao qual é deixado todo o discurso. Não é nem para o outro, nem em um “para si”, que não existe ao nível do psicanalista, que reside esse “a”, é num “em si”; um “em si” do psicanalista. É enquanto (como aliás os próprios psicanalistas clamam, basta abrir a literatura para ver a todo o instante o testemunho disso) eles são realmente esse seio de “oh minha mãe inteligência” de nosso Mallarmé, que eles próprios são esse dejeto presidindo à operação da tarefa, que eles são o olhar, são a voz. E enquanto são, em si, o suporte desse objeto “a” que toda a operação é possível. Só que escapa a eles uma coisa, é a que ponto isso não é metafórico.

O que é que essa tarefa psicanalisante produz?

Já temos para nos guiar o objeto “a”. Pois se esse objeto “a” sem dúvida esteve lá desde sempre, ao nível de nossa questão, a saber, o ato psicanalítico, será apenas no final da psicanálise terminada, somente no final da operação que ele vai reaparecer no real a partir de uma outra fonte, a saber, como rejeitado pelo psicanalisando. Mas é aí que funciona nosso termo médio, que nós o encontramos carregado de um acento inteiramente diverso. Esse “a” em questão, já dissemos, é o psicanalista, e não é porque ele estava lá desde o início que, no final, do ponto de vista da tarefa, essa vez psicanalisante, não será ele que será produzido. Quero dizer que podemos nos perguntar qual é a qualificação do psicanalista. Em todo o caso, uma coisa é certa, é que não há psicanalista sem psicanalisando; e diria mais, a respeito de algo tão singular que tenha entrado no campo de nosso mundo, a saber, que haja um certo número de pessoas de que não estamos certos que isso tenha o poder de instaurar seu estatuto como sujeito, e que, apesar disso, são pessoas que trabalham nesta psicanálise. O termo “trabalho” não foi excluído por um só instante desde a origem da psicanálise, o durcharbeiten, o working through… Esta é precisamente a característica a que temos que nos referir para admitir a aridez, a secura, as vezes até a incerteza de suas margens.

O psicanalista se define nesse nível da produção. Ele se define por ser esse tipo de sujeito que pode abordar as consequências do discurso de um modo tão puro que consegue isolar o plano das suas relações com aquele cuja tarefa e o programa desta tarefa ele instaura por seu ato, e durante toda a sustentação desta tarefa ver aí apenas essas relações que são propriamente as que designo quando manejo essa álgebra: o $, o “a”, até o A e o i (a); aquele que é capaz de se manter nesse nível, quer dizer, ver apenas o ponto em que está o sujeito nesta tarefa cujo fim é quando tomba, quando cai ao último termo o que é o objeto “a”, aquele que é desta espécie, quer dizer, que é capaz, na relação com alguém que está em posição de cura, de não se deixar afetar por tudo através de que se comunica todo ser humano, em toda função com seu semelhante.

E isto tem um nome, que não é simplesmente, como sempre denuncio, o narcisismo até seu termo extremo que se chama o amor. Não há apenas narcisismo e, felizmente, apenas amor entre os seres humanos, para chamá-lo como é costume. Há esse algo que alguém que sabia falar de amor já distinguiu com felicidade: há o gosto, há a estima; o gosto é de uma vertente, a estima talvez não seja da mesma, mas se conjugam admiravelmente. Há fundamentalmente esse algo que se chama “gosto de você”, e que é feito essencialmente de uma dosagem que faz com que, em uma proporção exata e insubstituível, que vocês podem colocar na casa da esquerda e de baixo, a relação, o apoio que toma o sujeito no “a” e neste i (a) que funda a relação narcísica ressoe, e é exatamente o que é preciso para que isso agrade a vocês. É o que faz que, nas relações entre os seres humanos, haja encontro. E muito precisamente disto, que é o osso e a carne de tudo o que jamais se articulou da ordem do que, em nossos dias, se tenta matematizar de forma burlesca sob o nome de relações humanas, é disto que se distingue precisamente o analista, não recorrendo jamais na relação no interior da análise, a este inexprimível, a este termo que é o único suporte da realidade do outro que é o “gosto de você” ou “não gosto de você”.

É o psicanalista quem comete o ato psicanalítico? Isso seguramente quer dizer que o psicanalista não é todo o objeto “a”, ele opera como objeto “a”.

O ato consiste em autorizar a tarefa psicanalisante, com o que isso comporta de profissão de fé no sujeito suposto saber. A coisa era bem simples quando eu ainda não tinha denunciado que esta fé é insustentável, e que o psicanalista é o primeiro e, até aqui, o único a poder medi-lo (ainda não foi feito). Graças ao que ensino, é preciso que ele saiba que:

1 - Era justamente sobre o sujeito suposto saber que se apoiava a transferência considerada como um dom do céu… 2 - Mas a partir do momento em que se revela que a transferência é o sujeito suposto saber, o psicanalista é também o único a poder colocar isso em questão. É que se esta suposição é com efeito bastante útil para se engajar na tarefa psicanalítica, a saber, que há um (chamem-no como quiserem, o onisciente, o Outro), há um que já sabe tudo isso, tudo o que vai se passar. Claro, não o analista, mas há um. O analista não sabe que há um sujeito suposto saber, e sabe mesmo que tudo de que se trata na psicanálise a partir da existência do inconsciente, consiste justamente em riscar do mapa essa função do sujeito suposto saber.

Não há pior surdez do que quando, de saída, não se quer ouvir.

O efeito de linguagem em questão se dá em dois estágios. Ele supõe a própria psicanálise, precisamente ela, como efeito de linguagem. Em outros termos, ele só é definível ao mínimo, se incluir o ato psicanalítico como sendo definido pela realização da própria psicanálise. Mostramos que é necessário aqui redobrar a divisão, ou seja, que a psicanálise não poderia se instaurar sem um ato, sem o ato daquele que autoriza sua possibilidade, sem o ato do psicanalista, e que no interior desse ato da psicanálise inscreve-se a tarefa psicanalisante.

Mas o que está em questão, e além do mais, não é a primeira vez que insisto sobre essa distinção no seio mesmo do ato, é o ato pelo qual um sujeito dá a este ato singular sua consequência a mais estranha, a saber, que seja ele mesmo que o institua; dito de outra forma, que ele se coloque como psicanalista. Ora, isso que se passa deve prender nossa atenção, já que ele toma esta posição, em suma, ele repete esse ato, sabendo muito bem qual a sequência desse ato. Que ele se faça o representante disso de que conhece a finalização, a saber, que, ao se colocar no lugar que é o do analista, ele virá enfim a estar sob a forma do “a”, esse objeto rejeitado, esse objeto no qual se especifica todo o movimento da psicanálise, ou seja, aquele que chega, no final, ao lugar do psicanalista, na medida em que aqui o sujeito decididamente se separa, se reconhece como causado pelo objeto em questão. Causado em que? Causado em sua divisão de sujeito, a saber: enquanto ele fica marcado, ao final da psicanálise, por essa hiância que é a sua e que se define, na psicanálise, pela forma da castração.

Por outro lado, quanto ao analista, nós também não diremos que ele é todo objeto, que no término, ele é apenas esse objeto rejeitado, e é precisamente aí que jaz não sei que mistério que, em suma, contem (o que conhecem bem todos os que praticam a psicanálise) o que se estabelece no nível da relação humana, como se costuma dizer, no final, a partir do final, entre aquele que seguiu o caminho da psicanálise e aquele que nela se fez “seu guia”.

Fora da situação analítica não há transferência. Enfim, vocês conhecem toda a variedade, a gama, a ronda que se faz, onde cada um rivaliza para mostrar um pouco mais de liberdade de espírito que os outros. Há coisas muito estranhas, também. Há uma pessoa que, assim, por ocasião de um último congresso, onde se tratava de questões levantadas durante a reunião de um seminário fechado aqui, perguntava a que momento do ato psicanalítico, eu iria ligar tudo isso à passagem ao ato, ao acting out.

Todos sabem, não é porque a histérica se lembra que tudo se resolve. Aliás, depende do caso, mas que importa…

É preciso saber para o que serve saber se o que se diz é ou não a verdade; e que as vezes mentir é, para falar propriamente, a maneira pela qual o sujeito anuncia a verdade de seu desejo. Porque, justamente, não há outro viés para anunciá-lo, senão a mentira.

A questão não está aí. Colocar o amor em suspenso permitiu-lhe instaurar, por esse curto circuito original que ele soube estender até lhe dar esse lugar desmesurado da operação analítica, na qual se descobre todo o drama humano do desejo. E no final, o que? Não é pouca coisa, toda essa imensa aquisição, o novo campo aberto sobre o que é a subjetivação. No final o que? Mas o mesmo resultado que era alcançado neste curto instante. A saber, de um lado o $, simbolizado por este momento de emergência, esse momento fulminante entre dois mundos, por um despertar do sono hipnótico, e o “a” subitamente estreitado nos braços da histérica. Se o “a” lhe convém tão bem, é porque ele é isso que está no coração das vestimentas do amor, o que aí se toma. Já o articulei e ilustrei suficientemente: é em torno desse objeto “a” que se instalam, que se instauram, todos os revestimentos narcísicos nos quais se apóia o amor.

O que esse psicanalista se torna, no final da análise, se é verdade que ele se reduz a esse objeto “a”, é o que quer a histérica. Compreende-se porque a histérica se cura de tudo na psicanálise, menos de sua histeria.

É assim que é estranho que, na Igreja, onde afinal não são tão babacas, eles devem se dar conta de que Freud diz aí a mesma coisa que o que se presume que eles saibam ser a verdade, o que deveria forçá-los, justamente, a ensiná-la.

Não levei a questão até o ponto de lhes dizer: “Será que é porque é a verdade, que isso não agrada a vocês? A verdade, que vocês sabem ser a verdade?” Dei tempo para eles se acostumarem…

Por que os psicanalistas jamais formularam expressamente que o Édipo é apenas um mito, graças ao qual eles localizam os limites de sua operação? É tão importante dizê-lo.

É como salta aos olhos de qualquer um que não esteja absolutamente enrabichado por coisas às quais é bem preciso que cheguemos, pelas mulheres, que são seguramente o que há de mais eficaz e, em certos casos, de menos besta, na psicanálise: Pelas mulheres, por Melanie Klein. O que fazemos? Damo-nos conta de que é precisamente nos níveis pré-genitais que temos que reconhecer a função do Édipo. É nisto que consiste essencialmente a psicanálise.

Jacques Nassif.

O resumo de meu seminário do ano passado sobre a lógica da fantasia.

Afirmei outro dia que talvez houvesse uma definição que ninguém jamais havia imaginado até o presente, e que tentaremos formular de um modo inteiramente preciso, que pode articular-se em torno disto: que o que, pela lógica, se experimenta (precisamente este “se” também merece ser guardado e assinalado aqui com um parêntese, como ponto a elucidar a seguir) é algo - de que ordem? - da ordem da mestria ou da liberação (algumas vezes é a mesma coisa) precisamente do que aqui, como analistas, apontamos em nossa prática como sujeito suposto saber. Um campo da ciência que teria precisamente por fim - e mesmo não seria demais dizer “por objeto” já que a palavra “objeto” assume aqui toda a sua ambiguidade - como interno à própria operação, digamos logo, excluir algo que entretanto é não apenas articulável mas articulado, excluir o sujeito suposto saber como tal.

É justamente algo que jamais foi, falando propriamente, criticado, enfrentado como tal, a saber, que aquilo que o saber constrói, isso não se dá assim por si só, alguém já o sabia.

Mas não sou um professor justamente porque coloco em questão o sujeito suposto saber. É justamente o que o professor jamais questiona porque, enquanto professor, ele é essencialmente seu representante. Não estou falando dos cientistas, estou falando do cientista a partir do momento em que ele começa a ser professor.

Meu discurso analítico, além do mais, jamais cessou de estar nessa posição que constitui justamente sua precariedade, seu perigo, e também toda a sequência de suas consequências. Lembro do verdadeiro horror que produzi em meu caro amigo Maurice Merleau Ponty, quando lhe expliquei que eu estava na posição de dizer certas coisas- que agora se tornaram música, claro, mas que na época eu já as dizia, de alguma forma, sempre nessa vertente; não era porque ainda não tinha colocado a questão como coloco agora, que elas não estavam já instituídas realmente desta forma- e o que eu dizia sobre a matéria analítica era que justamente por passar por esta clivagem, essa fenda, ela sempre foi de natureza a dar a esse discurso esse caráter tão insatisfatório, já que nele as coisas não estão bem arrumadas como na construção positivista, com seus estágios, e sua escalada em ponta, o que evidentemente é bem repousante e responde a uma certa classificação das ciências que é a que continua dominante nos espíritos dos que entram no que for, na medicina, na psicologia e outros empregos, mas que evidentemente não é sustentável a partir do momento em que estamos na prática psicanalítica.

São pessoas que frequentam meu divã.

À colocação em questão do sujeito suposto saber.

Tomando um distanciamento com relação à realidade que tem o ar de ser algo de inteiramente subversivo, em suma, mesmo se vocês dão o passo existencialista, há uma coisa que nunca colocam em questão, a saber, se o que vocês dizem era verdadeiro antes.

Se crê obrigado a se colocar em oposição ao que digo, o que é verdadeiramente cômico pois não poderia nem mesmo começar a dizê-lo se não tivesse tido, anteriormente, acesso a meu discurso.

Lógica matemática ou logística.

“O inconsciente não conhece a contradição”.

O tema da negação.

A fantasia como estofo do desejo.

O desconhecimento do desconhecimento.

A lógica e a escrita.

Lógica e Verdade: o “não sem”.

No nível da lógica clássica, que não é outra coisa senão a gramática de um universo do discurso, a solução inventada pelos estóicos continua paradoxal. Ela consiste em perguntar como devem encadear-se as proposições em relação ao verdadeiro e ao falso, e em estabelecer uma relação de implicação que faz intervir dois tempos proposicionais, a prótase e a apódose, e que permite estabelecer que o verdadeiro não poderia implicar o falso, sem impedir, entretanto, que do falso se possa deduzir tanto o falso quanto o verdadeiro. É o adágio ”ex falso sequitur quod libet“.

O essencial, portanto, não é tanto saber se um acontecimento teve lugar realmente ou não, mas descobrir como o sujeito pode articulá-lo em significante, quer dizer, verificando a cena por um sintoma, onde isto não iria sem (pas sans) aquilo, e onde a verdade faz parceria com a lógica.

Modelo vazio da alienação: S(�).

Diátese média.

O Outro é então um campo marcado pela mesma finitude que o próprio sujeito.

Se, com efeito.

A fantasia não é outra coisa senão uma montagem gramatical onde se ordena, seguindo diversas inversões, o destino da pulsão, de forma que não há outra maneira de fazer funcionar o eu (je) na sua relação ao mundo senão fazendo-o passar por esta estrutura gramatical, mas também o sujeito, enquanto eu (je), está excluído da fantasia.

No próprio Freud a repetição de fato não tem nada a ver com a memória. Nesta o traço tem justamente como efeito a não repetição. Um micro-organismo dotado de memória, não reagirá da segunda vez a um excitante da mesma forma como o da primeira. É o átomo de memória. Ao contrário, em uma situação de fracasso que se repete, por exemplo, o traço tem uma função totalmente diversa: a primeira situação não estando marcada com o signo da repetição, deve-se dizer que se ela se torna uma situação repetida, é porque o traço se refere a algo de perdido pelo fato da repetição, e aqui reencontramos o objeto pequeno “a”.

A passagem ao ato é, portanto, com relação à repetição, apenas uma espécie de Verleugnung confessada, e o acting out, uma espécie de Verleugnung denegada.

Fato de que na gramática, o lugar em que o sujeito da enunciação estava mais visível era no uso deste “não”; o que os gramáticos não sabem, naturalmente, porque os gramáticos são lógicos, é o que os põe a perder.

Portanto, não é porque o inconsciente não conhece a contradição que o psicanalista está autorizado a lavar suas mãos quanto à contradição, que, aliás, só o concerne de forma muito remota. Para ele, isso parece ser o selo, a assinatura em branco, a autorização dada para cobrir com sua autoridade, de qualquer forma que lhe convenha, a confusão pura e simples.

Aí está o domínio em torno do qual gira esse tipo de efeito de linguagem que implica meu discurso. Eu ilustro. Não é porque o inconsciente não conhece a contradição; podemos identificar como isso se dá, não é espantoso, e não é de qualquer forma que seja; posso tocá-lo de imediato na medida em que pertence ao próprio princípio do que está inscrito nas primeiras formulações relativas ao ato sexual; é que o inconsciente, dizem, é o Édipo, ele metaforiza a relação entre o homem e a mulher. É isto que encontramos nas relações entre a criança e a mãe, ao nível do inconsciente. O complexo de Édipo é primeiramente isso, essa metáfora. Mesmo assim, não é uma razão suficiente para que o psicanalista não distinga esses dois modos de apresentação. É, expressamente, para isso mesmo que ele está lá. Está lá para fazer com que o analisando apreenda os efeitos metonímicos desta apresentação metafórica.

Nós podemos muito bem, desde o princípio e não nos debater em vão, ouso dizer, como nosso amigo Michel Foucault, dando a absolvição a um humanismo já há tanto tempo esgotado, que ele se vai com a correnteza sem que ninguém saiba onde chegou, como se isso ainda fosse um problema e como se estivesse aí o essencial da questão relativa ao estruturalismo;

Vocês sabem que a pátria é, ao mesmo tempo, a realidade mais bela, e que é óbvio que todo francês deve morrer por ela, claro. Mas, a partir do momento em que vocês subalternam para saber se algum francês deve morrer por ela, me parece que devem perceber que a operação de subalternação apresenta algumas dificuldades, já que “todo francês deve morrer por ela” e “se algum francês deve morrer por ela”, não são absolutamente a mesma coisa. São coisas de que nos damos conta todos os dias…

Habitualmente, ele me aperta a mão e me diz que está totalmente de acordo, o que sempre me faz um grande bem. Não absolutamente que eu tenha necessidade de que ele me diga para saber naturalmente para onde vou, mas todos sabem que quando nos aventuramos em terrenos que não são propriamente os nossos, estamos sempre sujeitos a - panpam. Quanto a mim, claro que não é invadir terrenos que não são os meus o que me importa, mas sim encontrar, ao nível da lógica, algo que seja para vocês um exemplo, um fio, um guia exemplificador das dificuldades com as quais temos que lidar, nós, aqueles em nome de quem lhes falo, aqueles também a quem eu falo (e essa ambiguidade é aí essencial), ou seja, os psicanalistas, com relação a uma ação que diz respeito a nada menos e nada além do que ao que tentei definir para vocês como o sujeito. O sujeito não é o homem. Se há alguém que não sabe o que é o homem, são exatamente os psicanalistas. É inclusive todo o seu mérito colocá-lo radicalmente em questão, digo enquanto homem, enquanto essa palavra ainda tenha mesmo uma aparência de sentido, para quem quer que seja.

Um certo uso da dupla negação não é absolutamente feito para se resolver em uma afirmação, mas justamente para permitir, segundo o sentido no qual essa dupla negação seja empregada, seja que a acrescentemos, seja que a retiremos, para assegurar a passagem do universal ao particular.

O uso da palavra contradição nos interessa, a nós, os analistas, tanto mais que, como no último seminário fechado o Sr. Nassif lembrou, é um ponto inteiramente essencial para os psicanalistas que Freud lhes tenha produzido uma vez essa verdade, seguramente primeira, de que o inconsciente não conhece a contradição. O único inconveniente (nunca se sabe que frutos dará o que vocês enunciam como verdade, sobretudo primeira) é que isso teve como consequência que os psicanalistas, a partir desse momento, se acreditaram de férias, por assim dizer, com relação à contradição, e ao mesmo tempo acreditaram que isso lhes permitiria, a eles mesmos, nada conhecerem disso, quer dizer, não se interessarem em nenhum grau. É uma consequência manifestamente abusiva.

Não é porque o inconsciente (mesmo se fosse verdade) não conhece a contradição, que os psicanalistas não terão que conhecê-la, mesmo que seja apenas para saber porque ele não a conhece, por exemplo.

Aristóteles, claro, não diremos que ele estava na aurora do pensamento, porque o próprio do pensamento é precisamente jamais ter tido aurora. O pensamento já era muito velho, e ele já possuía algum saber. Em particular, ele sabia que, claro, nem se tratava de saber se havia linguagem - não basta, claro, que o saber só dependa da linguagem. Mas quanto a ele, o que importava, justamente porque o pensamento não datava de ontem, era saber o que podia fazer de uma enunciação algo de necessário, sem possibilidade de ceder neste ponto.

Não é portanto que eu o saiba, se o enuncio é porque o meu discurso ordena, com efeito, o inconsciente. Digo que o único discurso que temos sobre o inconsciente, o de Freud, certamente faz sentido, mas não é isso que é importante, porque ele faz sentido como se faz água: por todos os lados.

Observem entretanto que é o que, de fato, ocorre quando querem verificar se alguém, com justa razão, pretende ter atravessado uma psicanálise. A quem ele se dirigiu? Esse alguém é ou não um psicanalista? Eis o que não é elucidado, na questão. Se, por alguma razão, - e as razões são justamente o que se deve interrogar aqui, com um grande ponto de interrogação - o personagem não está qualificado para se dizer psicanalista, engendra-se pelo menos um ceticismo quanto ao fato de saber se a experiência pela qual o sujeito se autoriza, é ou não uma psicanálise. Com efeito, não há outro critério. Mas é justamente esse critério que temos que definir, em particular quando se trata de distinguir uma psicanálise desse algo de mais vasto e cujos limites permanecem incertos, que se chama uma psicoterapia.

Quebremos essa palavra “psicoterapia”. Nós a veremos definir-se por algo que é “psico”, psicologia, quer dizer, uma matéria da qual o mínimo que se pode dizer, é que sua definição está sempre sujeita a alguma contestação. Quero dizer que nada é menos evidente que o que se quis chamar de unidade da psicologia, já que, além do mais, ela só encontra seu estatuto em uma série de referências, das quais algumas crêem assegurar-se por lhe ser as mais estrangeiras, por exemplo, o que se opõe a ela como sendo orgânico; ou, ao contrário, pela instituição de uma série de limitações severas que são também as que produzirão na prática o que será obtido, por exemplo, em tais condições experimentais, em tal enquadre de laboratório, como mais ou menos insuficiente, até inaplicável, quando se trata desse algo de ainda mais confuso que se chama uma “terapia”. Terapia… Todos sabem a diversidade dos modos e das ressonâncias que isso evoca. Seu centro é dado pelo termo “sugestão”, pelo menos de todos que se referem à ação, ação de um ser em relação a outro, exercendo-se por vias que certamente não podem pretender ter recebido sua plena definição. No horizonte, no limite de tais práticas, teremos a noção geral do que se chama, no conjunto, e que situamos bastante bem como “técnicas do corpo”. Entendo por isso o que em inúmeras civilizações se manifesta como o que aqui se propaga sob a forma errática do que, em nossa época, destacamos de bom grado como “técnicas indianas”, ou ainda as diversas formas da chamada “ioga”. No outro extremo, a assistência samaritana, a que, confusa, se perde nos campos, nos abismos da elevação da alma. É estranho vê-la retomada para anunciar o que se produziria no final da psicanálise, essa efusão singular que se chamaria o exercício de alguma bondade.

A psicanálise, partamos então do que é, até agora, nosso único ponto sólido, ela se pratica com um psicanalista.

É com um psicanalista que a psicanálise tem acesso ao que está em questão. Se o inconsciente existe e se nós o definimos, como pelo menos parece, após a longa marcha que fazemos há anos nesse campo, ir ao campo do inconsciente é estar propriamente no nível do que se pode melhor definir como efeito de linguagem, nesse sentido em que, pela primeira vez, se articula que esse efeito pode se isolar de alguma forma de sujeito; que há saber, saber enquanto é isso o que constitui o efeito tipo de linguagem; que há saber encarnado, sem que o sujeito que mantém o discurso esteja consciente disso, no sentido em que aqui, estar consciente de seu saber é ser codimensional ao que o saber comporta, é ser cúmplice desse saber.

A neurose é essencialmente feita da referência do desejo à demanda.

Não há inconsciente sem mãe.

Nada de economia, nada de dinâmica afetiva, sem o que, de alguma forma, estaria na origem: que o homem conhece o todo, porque esteve em uma fusão original com a mãe.

Eis, muito simplesmente, onde está a mola, a partir do momento em que tornamos as coisas ao nível da função da linguagem, não há demanda que não se dirija à mãe. Vemos, de fato, a manifestação disso no desenvolvimento da criança, quando, de início, ele é infans e tem que articular sua demanda no campo da mãe.

O que vemos aparecer, no nível desta demanda? Trata-se unicamente do que a análise nos designa da função do seio. Tudo o que a análise produz como se se tratasse lá de um processo de conhecimento é, a saber, o fato de que a realidade da mãe só nos seja a princípio relatada, designada pela função do que se chama o objeto parcial (aceito que seja chamado de objeto parcial, desde que reconheçamos que é ele que está no princípio da imaginação do todo), mas se algo é concebido como totalidade da criança à mãe, é na medida em que, no seio da demanda, quer dizer, nesta hiância entre o que não se articula e o que enfim se articula como demanda, o objeto em torno do qual surge a primeira demanda é o único objeto que traz ao pequeno ser recém-nascido esse complemento, essa perda irredutível que é seu único suporte. A saber, esse seio, tão singularmente colocado aqui para esta utilização que é lógica por natureza; o objeto “a”, e do que Frege chamaria a variável, a variável na instauração de uma função qualquer Fx.

Para a criança que começa a articular com sua demanda o que fará o estatuto de seu desejo, se algum objeto possui este privilégio de poder, por um instante, preencher essa função constante, é o seio.

Quais são as relações de um inseto com sua mãe?

Falemos também do sexual dito relação. O sexual dito relação fica completamente mascarado pelo fato de que podemos dizer, em relação aos seres humanos, que, se não tivessem a linguagem, como poderiam saber até mesmo que são mortais? Diremos também que, se eles não fossem mamíferos, nem poderiam imaginar que nasceram. Pois o surgimento do ser, enquanto operamos nesse saber construído, e que também perverte toda a dialética operatória da análise que fazemos girar em torno do nascimento, será algo diverso do que, em Platão, se apresentava com um perfil que, quanto a mim, acho mais sensato?

O que é esta errância das almas, uma vez que partiam dos corpos, que estão lá em um hiperespaço antes de entrarem para se reabrigar em algum lugar, segundo seu gosto ou o acaso, pouco importa, o que é isso senão algo que faz muito mais sentido para nós, os analistas? O que é esta alma errante senão precisamente isso de que falo, o resíduo da divisão do sujeito? Essa metempsicose me parece logicamente menos falha do que a que produz como conjetura de tudo o que se passa na dinâmica psicanalisante, a morada no ventre da mãe.

Todo homem é um animal salvo que ele se nomeia.

Não compreenderão nada, o que, mesmo assim, não os impedirá de sonhar com outra coisa.

É com isso que se parece o emprego de um certo número de atividades universitárias em torno desses restos de pensamento: os esquadrões da morte. Já há alguns que se dedicam, por exemplo - sem esperar nem que eu esteja morto, nem que tenha aparecido o resultado das coisas que eu enunciei no curso desses anos - a avaliar, no que constitui o que recolhi como pude com uma vassoura, sob o título de “Escritos”, em que momento começo a falar verdadeiramente de lingüística; em que momento e até onde o que eu digo coincide com o que disse Jacobson. Vocês verão, isso vai se desenvolver. Além do mais, não acredito que semelhante operação decorra dos meus méritos. Acredito que é uma operação bastante dirigida por parte daqueles a quem o que digo interessa diretamente, e que gostariam que as pessoas que têm esse ofício, prontamente se ponham a proliferar sobre o que pode ser mantido, a título de pensamento, de meus enunciados. Isso lhes dará uma pequena antecipação do que eles esperam, a saber, que o que enuncio, e que não é forçosamente pensamento, seja sem consequência, para eles, claro. Eis a alimentação.

Quer dizer, na medida em que o sujeito psicanalisando tenha chegado a esta realização (para ele) que é a da castração, é uma realização que retorna para o ponto inaugural, aquele do qual, na verdade, ele nunca saiu, aquele que é estatuário, aquele da escolha forçada, da escolha alienante entre o “ou eu não sou” e “ou eu não penso”, ele deveria, por seu ato, consumar este algo que foi por ele enfim realizado, a saber, o que o faz dividido como sujeito. Dito de outra forma, que ele execute um ato sabendo, com conhecimento de causa, porque esse ato jamais o realizará, a ele mesmo, plenamente como sujeito.

Exemplo: a observação fundamental de uma doutrina que acho que é fácil vocês reconhecerem, é que o sujeito não se reconheça, quer dizer, esteja alienado na ordem da produção que condiciona seu trabalho, em razão do efeito de sujeito que se chama “exploração” - não é preciso acrescentar “do homem pelo homem”, porque vimos que é preciso desconfiar um pouco do homem, no caso, e além disso todos sabem que esse uso pôde ser transformado em alguns chistes divertidos; isso por causa do efeito de sujeito, portanto, que está no fundamento de toda a exploração, eis aí o que tem consequências de ato. Chama-se isso de revolução, e nessas consequências de ato, o pensamento tem a maior dificuldade em se reconhecer, como o demonstram (desde que vocês existem, pois, para alguns de vocês, começou antes mesmo que nascessem) as dificuldades que teve e que continua a ter o que se chama a intelligentzia com a ordem comunista.

O ato psicanalítico consiste essencialmente neste tipo de efeito de sujeito que opera distribuindo, por assim dizer, o que constituirá o suporte, a saber, o sujeito dividido, o $, enquanto esta é a aquisição do efeito de sujeito ao final da tarefa psicanalisante: é a verdade que, qualquer que seja e sob qualquer pretexto com o qual ele se tenha engajado, é conquistada pelo sujeito. É, por exemplo, para o sujeito o mais banal, aquele que chega com a finalidade de conseguir alívio: “eis meu sintoma, agora tenho sua verdade”.

Quero dizer que é na medida em que eu não sabia tudo de mim, é na medida em que há algo de irredutível nesta posição do sujeito que se chama, em suma, e é muito nomeável, a “impotência de saber tudo”, que estou aí e que, graças a Deus, do sintoma que revelava o que fica mascarado no efeito de sujeito ressoa um saber; do que há de mascarado, eu tive o levantamento, mas seguramente não completo. Algo perdura de irredutivelmente limitado neste saber. É ao preço -já que falei de distribuição - de que toda a experiência girou em torno deste objeto pequeno “a”, enquanto é, foi e permanece sendo estruturalmente a causa desta divisão do sujeito.

O sujeito atuou como efeito de sujeito, que, preso na demanda instauradora do desejo, ele se encontrou determinado por essas funções que a análise rotulou como sendo aquelas do objeto nutridor, do seio, do objeto excremental, do cíbalo, da função do olhar e da voz. Foi em torno destas funções, na medida em que na relação analítica elas foram distribuídas àquele que é o parceiro, o pivô, em suma, o suporte e, como disse na última vez, o instrumento, que pôde realizar-se a essência do que é a função do $, a saber, a impotência do saber.

O herói (não é preciso que haja trinta e seis, não há nunca mais que um só), o herói é aquele que, na cena, não é nada mais do que a figura do dejeto onde se fecha toda a tragédia digna desse nome.

Claro, há todo o interesse de que o maior número possível de vocês - e digo tanto para cada um quanto para todos - tenha uma certa cultura lógica; quero dizer que ninguém aqui tem nada a perder indo formar-se nos lugares onde o que se ensina é em torno desses campos já constituídos do progresso da lógica atual, que não têm nada a perder indo formar-se precisamente lá, para entender o que aqui ensaio para delinear uma lógica funcionando em uma zona intermediária, enquanto não foi ainda manejada de uma maneira conveniente. Não perderão nada em apreender a que me refiro quando digo que, ainda que a lógica dos quantificadores tenha chegado a obter seu estatuto próprio e verdadeiramente rigoroso, quero dizer, tendo toda a aparência de excluir o sujeito, ou seja, de ser manejável por meio de puras e simples regras que dependem de um manejo de letras, não é menos verdade que se vocês compararem o uso desta lógica dos quantificadores com tal ou tal outro setor, segmento da lógica tal como se define em diversos termos, vocês notarão que é singular que enquanto que, para todos os outros aparelhos lógicos, vocês sempre podem dar um número bastante grande de interpretações geométricas, por exemplo, econômicas, conceituais (quero dizer que cada um desses manejos dos aparelhos lógicos é inteiramente plurivalente quanto à interpretação), é totalmente impressionante, pelo contrário, ver que por maior que seja o rigor a que tenha conseguido, afinal, chegar a lógica dos quantificadores, vocês jamais conseguirão subtrair esse algo que se inscreve na estrutura gramatical.

Ora, se há algo que mais (desculpem-me, vou dizer.) instintivamente repele o psicanalista, é que todo saber de psicanalista qualifique o psicanalista; e não é à-toa, muito precisamente pelo seguinte: não é que com isto, claro, saibamos mais sobre o que é o psicanalista, mas sim que todo saber de psicanalista é de tal forma colocado na suspensão do que é a referência da experiência ao objeto pequeno “a”, enquanto ele é, ao término, radicalmente excluído de toda subsistência de sujeito, que o psicanalista não tem qualquer direito de se colocar como fazendo o balanço da experiência da qual ele é, propriamente dizendo, apenas o pivô e o instrumento. Todo saber que depende desta função do objeto pequeno “a” seguramente não assegura nada, e justamente por não poder responder por sua totalidade senão em referência a esta instrumentação, certamente impõe que não haja nada que possa se apresentar como todo desse saber; mas, justamente, essa ausência, essa falta, não impõe de forma alguma que se possa dela deduzir, nem que há nem que não há psicanálise. A reflexão, a repercussão da negação ao nível do todo não implica qualquer consequência ao nível do particular, já que o estatuto do psicanalista, enquanto tal, não repousa em nada mais do que nisto: em que ele se oferece para suportar, em um certo processo de saber, esse papel de objeto de demanda, de causa de desejo, que faz com que o saber obtido não possa ser tomado senão pelo que é, ou seja, realização significante conjugada a uma revelação da fantasia.

É então na ordem do “para si” que se conclui o trajeto do psicanalisando? Isso não é menos contradito pelo próprio princípio do inconsciente, pelo qual o sujeito é condenado não apenas a ficar dividido por um pensamento que não pode arrogar-se nenhum “sou quem pensa”, que postula um “em si” do “eu penso”, irredutível a nada que o pense por si, mas cujo destino é justamente que, ao fim da psicanálise, ele se realize como constituído por esta divisão; divisão onde todo significante, enquanto representa um sujeito para um outro significante, comporta a possibilidade de sua ineficiência precisamente para operar essa representação, por sua colocação em falso a título de representante. Não há psicanalisado, há um tendo sido psicanalisando, donde só resulta um sujeito prevenido de que não poderia se pensar como constituinte de toda ação sua.

Mas todas as pessoas que são confrontadas com os problemas analíticos, são confrontadas com o problema de saber o que se passa, o que o doente sabe, o que o doente e nós mesmos aprendemos sobre esse X que é o inconsciente. Afinal, por que dizer esse X? Por que eu estruturo aqui o inconsciente através de X? Quer dizer, a linguagem matemática ou através de uma figuração matemática…

Poderíamos dizer “o inconsciente é estruturado como os sintomas”; porque nós procuramos a significação psicanalítica do sintoma; que o inconsciente é estruturado como o sonho (certamente se pode dizer que o sonho é estruturado como uma linguagem), que o inconsciente é estruturado como um desenho de criança…

Em todo o caso, o que você disse é ousado. É mais que ousado, é criticável.

É absolutamente certo que ele não pode torná-lo como verdadeiro, pois o que a psicanálise sabe é que todos os homens amam, não a mulher, mas a mãe.

Isso, certamente, tem todo o tipo de consequências, inclusive, no extremo, pode ocorrer que os homens não possam fazer amor com a mulher que amam, porque é sua mãe, enquanto, por outro lado, podem fazer amor com uma mulher com a condição de que ela seja uma mãe depreciada, quer dizer, uma prostituta.

Nós, nós sabemos que, quanto ao parceiro, ela acredita amá-lo, é até o que domina. Trata-se de saber porque isso domina no que se chama “sua natureza”. Sabemos também muito bem que o que domina realmente é que ela o deseja. É por isso mesmo que ela acredita amá-lo.

Poderiam gritar, dizer: “Que história é essa? Jamais o fim da análise nos foi explicado assim. Que analista é esse, que é rejeitado como merda?.” A merda perturba muitas pessoas … Não há apenas merda no objeto “a”, mas é frequentemente a título de merda que o analista é rejeitado. Isso depende unicamente do psicanalisando; é preciso saber se, para ele, é verdadeiramente de merda que se trata. Mas é surpreendente que todas essas coisas que digo, posso desenvolver esse discurso, articulá-lo, começar a fazer girar uma pá de coisas em torno, antes que qualquer um pense em levantar o menor protesto e dar uma outra indicação, uma outra teoria sobre o tema do fim da análise.

Não é de que todas as crianças, macho ou fêmea, tenham sensações às quais não deixam de ter acesso e que podem canalizar mais ou menos bem. É ao saber de um sexo, que se trata de chegar. Trata-se precisamente disso, é que não se tem jamais o saber do outro sexo.

Quanto ao que é do saber de um sexo, do lado macho a coisa vai muito pior que do lado fêmea.

Em relação ao psicanalista, o que quero salientar é que é preciso perceber que ele não tem direito algum de articular, em qualquer nível, essa dialética entre saber e verdade, para fazer dela uma soma, um balanço, uma totalização pelo registro de um fracasso qualquer, pois não é disso que se trata. Ninguém está em posição de dominar o que está em questão, que não é nada mais que a interferência da função de sujeito com relação ao que é deste ato, do qual nem mesmo podemos dizer onde é tangível, em nossa experiência (quero dizer analítica), sua referência -não digamos “natural”, já que é aqui que ela se desvanece - mas sua referência biológica.

Fala-se de vida privada. Sempre me surpreendo que essa expressão “vida privada” não tenha jamais interessado a ninguém, especialmente aos psicanalistas, que deveriam estar particularmente interessados nisso. Vida privada … de que? Poderíamos fazer floreios retóricos. O que é a vida privada? Por que ela é tão privada, esta vida privada? Isso devia interessar a vocês. A partir do momento em que se faz uma análise, não há mais vida privada. É preciso dizer que quando as mulheres ficam furiosas porque o marido se analisa, elas têm razão. Não adianta nós, analistas, nos incomodarmos com isso, é preciso reconhecer que elas têm razão, porque não há mais vida privada.

Isso não quer dizer que ela se torne pública. Há uma comporta intermediária: é uma vida psicanalisada ou psicanalisanda. Não é uma vida privada.

Isso nos leva a pensar. Afinal, por que será tão respeitável, essa vida privada? Vou dizer. Porque a vida privada é o que permite manter intactas essas famosas normas que, a propósito do chalé na montanha, eu estava em vias de jogar pelos ares. “Privada”, isso quer dizer tudo o que preserva esse ponto delicado do que é o ato sexual e de tudo o que decorre dele no acasalamento dos seres, no “você é minha mulher e eu sou teu homem” e outras coisas essenciais, em um outro registro que conhecemos bem, o da ficção. É o que permite manter em um campo no qual nós, os analistas, nos introduzimos, uma ordem de relatividade que, como vocês notam, não é absolutamente fácil de dominar, e que só poderia ser dominada com uma única condição, se pudéssemos reconhecer o lugar que temos nela, nós enquanto analistas, não enquanto analistas sujeitos do conhecimento, mas enquanto analistas instrumentos de revelação.

Para a qualificação, a caracterização do que deve ser o bom analista, o mínimo que se pode exigir é que ele tenha uma vida feliz. É adorável.