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Seminar 10 A angustia

Seminar 10 A angustia

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Seminário 10 - A angústia

Mas, quando o analis­ ta inicia sua prática, não é impossível, graças a Deus, que, por mais que apresente uma ótima disposição para ser analista, ele sinta, desde suas primeiras relações com o doente no divã, uma certa angústia.


Como eu não sabia qual era a máscara que estava usando, é fácil vocês imagina­ rem que tinha certa razão para não estar tranqüilo, dada a possibilidade de que essa máscara porventura não fosse imprópria para induzir minha parceira a algum erro sobre minha identidade


Que quer ele a respeito deste lugar do eu?


a que distância colocar a angústia para lhes falar dela, sem pô-la imediatamente no armário e sem tampouco deixá-la na imprecisão? Ora, meu Deus, à distância certa, ou seja, àquela que não nos coloca perto demais de ninguém, à distância familiar que lhes evoquei, justamente, ao tomar estas últimas referências, à distância de meu interlocutor que me traz seu papel in extremis, e à distância de mim mesmo a que devo arriscar-me aqui, em meu discurso sobre a angústia.


se vocês forem procurá-la nesse ponto, logo verão que, se em algum momento ela esteve aí, bateu asas e voou.


Não entrarei nesse texto, em razão de ter decidido hoje, como vocês estão vendo desde o começo, trabalhar sem rede de proteção


Assim é que a inibição está na dimensão do movimento, no sentido mais amplo desse termo. Não entrarei no texto, mas, mesmo assim, vocês estão suficientemente lembrados dele para ver que Freud, a propósito da inibição, não pôde fazer outra coisa senão falar apenas da locomoção. Existe movimento, pelo menos metaforicamente, em toda função, mesmo que não seja locomotora.
Na inibição, é da paralisação do movimento que se trata. Porventura isso significa que é apenas a paralisação que a palavra “inibição” serve para nos sugerir? Facilmente, vocês objetariam com a freada. Por que não? Admito que estão certos.


Estar impedido é um sintoma. Ser inibido é um sintoma posto no museu.


acepipe


Tiro proveito daquilo que encontro, doa a quem doer.


Como aqui não há ninguém de língua portuguesa, não farei objeção a acolher o que não sou eu que proponho, mas sim Bloch e von Wartburg, ao introduzirem esmagar , que significaria écra s er , o que, até nova ordem, guardarei como tendo grande interesse para depois. Dispenso-os do provençal.


indelével


Ao contrário, o que eu disse sobre o afeto foi que ele não é recalcado. Isso, Freud o diz como eu. Ele se desprende, fica à deriva. Podemos encontrá-lo deslocado, enlouquecido, invertido, metabolizado, mas ele não é recalcado. O que é recalcado são os significantes que o amarram.


A cólera, eu lhes disse, é o que acontece nos sujeitos quando os pi­ninhos não entram nos buraquinhos. Que quer dizer isso? É quando, no nível do Outro, do significante - ou seja, sempre, mais ou menos, no nível da fé, da boa fé -, não se joga o jogo. Pois bem, é isso que provoca a cólera.


Não lhes desenvolvo uma psicologia, um discurso sobre a realidade irreal a que chamamos psique, mas sobre uma práxis que merece um nome: erotologia. Trata-se do desejo. E o afeto através do qual somos solicitados, talvez, a fazer surgir tudo o que esse discurso comporta como consequência para a teoria dos afetos, consequência não geral, mas universal, é a angústia.


Em relação a esse não se sabia, presume-se que o analista saiba alguma coisa. Por que não admitir até que ele sabe um bocado? Mas será que pode ensinar o que sabe?


a pergunta é: isso que ele sabe, o que é ensiná-lo?


O que é ensinar, quando se trata justamente de ensinar o que há por ensinar não apenas a quem não sabe, mas a quem não pode saber?


Se não houvesse essa instabilidade, um ensino analítico, este pró­prio Seminário, poderia ser concebido no prolongamento do que acontece, por exemplo, numa supervisão na qual o que vocês soubessem é que seria trazido, e eu interviria apenas para oferecer o análogo da interpretação, ou seja, o acréscimo mediante o qual surge algo que dê sentido ao que vocês acreditam saber, e revela num lampejo o que é possível apreender além dos limites do saber.


fazer compreender é realmen­te, desde sempre, o obstáculo da psicologia


não imaginemos que compreendemos a vivência autêntica ou real dos doentes


Com efeito, a questão é, antes, explicar a que título podemos falar da angústia quando reunimos nessa mesma rubrica experiências tão diversificadas quanto: a angústia em que podemos introduzir-nos, em seguida a uma dada meditação guiada por Kierkegaard; a angústia paranormal, ou até francamente patológica, que pode apossar-se de nós num dado momento, sendo nós mesmos os sujeitos de uma experiência mais ou menos situável em termos psicopatológicos; a angústia que é aquela com que lidamos em nossos neuróticos, material comum de nossa experiência; e também a angústia que podemos descrever e localizar no princípio de uma experiência mais periférica para nós, como a do perverso, por exemplo, ou até a do psicótico.


A angústia é um afeto.


concupiscível


irascível


A primeira é a do afeto concebido como constituindo, substancialmente, a descarga da pulsão. A segunda, supostamente, iria mais longe que o texto freudiano, fazendo do afeto a conotação de uma tensão em suas diferentes fases, em geral conflituosas - a conotação da variação de tensão. No terceiro tempo, o afeto é definido, na referência propriamente tópica da teoria freudiana, como sinal, no nível do ego, de um perigo vindo de outro lugar.


não existe ensino que não se refira ao que chamarei de ideal de simplicidade.


Na análise, às vezes existe o que é anterior a tudo o que podemos elaborar ou compreender. Chamarei a isso presença do Outro (A), com A maiúsculo. Não existe auto-análise, nem mesmo quando a imaginamos. O Outro (A) está ali. É nesse caminho e com o mesmo intuito que se situa a indicação que já lhes dei acerca de algo que vai muito mais longe, ou seja, a angústia.


Em Hegel, o Outro é aquele que me vê, e é isso que, por si só, faz travar-se a luta, segundo as bases com que Hegel inaugura a Fenomenologia do espírito, no plano do que ele denomina de puro prestígio, e é nesse plano que meu desejo está implicado. Para Lacan, porque Lacan é analista, o Outro existe como inconsciência constituída como tal. O Outro concerne a meu desejo na medida do que lhe falta e de que ele não sabe. É no nível do que lhe falta e do qual ele não sabe que sou implicado da maneira mais pregnante, porque, para mim, não há outro desvio para descobrir o que me falta como objeto de meu desejo. É por isso que, para mim, não só não há acesso a meu desejo, como sequer há uma sustentação possível de meu desejo que tenha referência a um objeto qualquer, a não ser acoplando-o, atando-o a isto, o $, que expressa a dependência necessária do sujeito em relação ao Outro como tal.

---- aqui

No sentido hegeliano, o desejo de desejo é o desejo de que um de­ sejo responda ao apelo do sujeito. É o desejo de um desejante. Esse de­ se jante, que é o Outro, por que o sujeito precisa dele� Está indicado em Hegel, da maneira mais articulada, que o sujeito dele necessita para que o Outro o reconheça, para receber dele o reconhecimento.
Isso quer dizer o quê? Que o Outro instituirá alguma coisa, designada por a, que é aquilo de que se trata no nível daquele que deseja


No sentido lacaniano, ou analítico, o desejo de desejo é desejo do Outro de maneira muito mais aberta, por princípio, a uma mediação.


Ainda não sabemos quando, como e por que esse i( a) pode ser a imagem especular, mas certamente é uma imagem. Não é a imagem especular, é da ordem da imagem - aqui, é a fantasia.


No co­ meço vocês encontram A, o Outro originário como lugar do signif i ­ cante, e S, o sujeito ainda inexistente, que tem que se situar como determinado pelo signif i cante.


Em relação ao Outro, o sujeito dependente desse Outro inscre­ ve-se como um cociente. É marcado pelo traço unário do significante no campo do Outro. Não é por isso, se assim posso dizer, que ele corta o Outro em rodelas. Há, no sentido da divisão, um resto, um resíduo.
Esse resto, esse Outro derradeiro, esse irracional, essa prova e garantia única, afinal, da alteridade do Outro, é o a.
É por isso que os dois termos, S e a, o sujeito marcado pela barra do significante e o objeto pequeno a, resíduo do condicionamento, se as­ sim posso me exprimir, pelo Outro, encontram-se do mesmo lado, do lado objetivo da barra. Todos dois estão do lado do Outro, porque a fantasia, esteio do meu desejo, está inteiramente do lado do Outro. O que está agora do meu lado é aquilo que me constitui como inconsci­ ente, ou seja, A, o Outro como aquele que não atinjo


Eu te dese jo, mesmo sem saber .


Digo ao outro que, desejando-o, sem dúvida sem saber disso, sempre sem saber, eu o tomo pelo objeto, por mim mesmo desconhecido, de meu desejo. Ou seja, em nossa própria concepção do desejo, eu te identif i ­ co, a ti com quem falo, com o objeto que falta a ti mesmo. Ao rumar por esse circuito obrigatório para atingir o objeto de meu desejo, reali­ zo para o outro justamente o que ele procura. Quando, inocentemen­ te ou não, tomo esse desvio, o outro como tal, que aqui é objeto -observem bem - de meu amor, cairá forçosamente em minha rede.


Em resumo, não há nada senão o que é atual. Daí ser tão difícil vi­ ver no mundo, digamos, da reflexão. É que, na verdade, nele não acontece grande coisa.


Não creio que haja dois tempos no que ensinei algum dia, um tem­ po que estaria centrado no estádio do espelho e no imaginário e, depois disso, no momento de nossa hist6ria que é demarcado pelo “Relat6rio de Romà’, na descoberta que eu teria feito, subitamente, do significan­ te.


farisaísmo


estádio do espelho - o chamado momento jubilatório em que a criança, vindo captar-se na experiência inaugural do reconhecimento no espelho, assume-se como totalidade que fu nciona como tal em sua imagem especular


Freud introduz o inconsciente como um lu­ g a r que ele denomina eine and e r er Schaupl a t z , uma outra cena


Portanto, primeiro tempo, o mundo. Segundo tempo, o palco ei , I l que fazemos a montagem desse mundo. O palco é a dimensão da história.
A história tem sempre um caráter de encenação


Tudo o que temos chamado de mundo ao longo da história deixa resíduos superpostos, que se acu­ mulam sem se preocupar minimamente com as contradições. O que a cultura nos veicula como sendo o mundo é um empilhamento, um depósito de destroços de mundos que se sucederam e que, apesar de serem incompatíveis, não deixam de se entender muito bem no in­ terior de todos nós.


Isso com que acreditamos lidar como mundo, será que não são sim­ plesmente os restos acumulados do que provinha do palco, quando ele estava, se assim posso me expressar, em turnê?


A partir daí, as coisas se ajeitam sozinhas e sem que ele faça, em síntese, outra coisa senão exatamente o que não deve fazer, até que faça o que tem de fazer. Ou seja, ele mesmo será mortalmente ferido antes de matar o rei.


No úl t imo momento, el e não soube e Mais um pouco, el e saberia.
Não é à toa que desejo .d é sir., em francês, vem de de siderium. Há um reconhecimento retroativo do objeto que esteve ali


Por que não fi camos contentes com o fato de que, desde a era neolítica, uma vez que não podemos recuar a tempos mais remo­ tos, o mundo é tão ordeiro que tudo não passa de ondinhas insignif i ­ cantes na superfície dessa ordem? Em outras palavras, por que queremos tanto preservar a dimensão da angústia? Deve haver uma razão para isso.


Tudo que ele faz nesse caminho para se aproximar disso dá sem­ pre mais corpo ao que, no objeto desse desejo, representa a imagem es­ pecular. Quanto mais ele segue, mais quer, no objeto de seu desejo, preservar, manter e proteger o lado intacto do vaso primordial que é a imagem especular. Quanto mais envereda por esse caminho, que mui­ tas vezes é impropriamente chamado de via da perfeição da relação de objeto, mais ele é enganado.


Quando aparece algo ali, portanto, é porque, se assim posso me ex­ pressar, a falta vem a faltar.


Essa ausência é também a possibilidade de uma aparição, ordenada por uma presença que está em outro lugar. Tal presença comanda isso muito de perto, mas o f az de onde é inapreensível para o sujeito.


T udo o que sabemos de absolutamente novo e original sobre a es­ trutura do sujeito e a dialética do desejo que temos de articular, nós, analistas, por que via o aprendemos? Pela via da experiência do neuró­ tico. Ora, o que nos diz Freud a esse respeito? Que o último termo a que chegou ao elaborar essa experiência, seu ponto de chegada, seu obstáculo, o termo intransponível para ele, f oi a angústia de castração.


Aquilo diante de que o neurótico recua não é a castração, é f azer de sua castração o que f alta ao Outro. É fazer de sua castração algo positi­ vo, ou seja, a garantia da fu nção do Outro, desse Outro que se fu rta na remissão inf i nita das signif i cações, desse Outro em que o sujeito não se vê mais do que como um destino, porém um destino que não tem fi m, um destino que se perde no oceano das histórias. Ora, o que são as histórias senão uma imensa fi cção? O que pode assegurar uma rela­ ção do sujeito com esse universo de significações senão que, em algum lugar, existe gozo? Isso ele só pode assegurar por meio de um signifi­ cante, e esse signif i cante f alta, f orçosamente. Nesse lugar de f alta, o sujeito é chamado a dar o troco através de um signo, o de sua própria castração.


decorre de que é a análise que o leva a esse encontro


O homem encontra sua casa num ponto situado no Outro para além da imagem de que somos feitos.


que meu desejo, diria eu, entra na toca em que é esperado desde a eternidade, sob a f orma do objeto que sou, na medida em que ele me exila de minha subjetividade, resol­ vendo por si todos os signif i cantes a que ela está ligada.


No perverso, as coisas estão no lugar, se assim posso dizer. O a está onde o sujeito não pode vê-lo, e o S barrado está em seu lugar. Daí po-


dermos dizer que o sujeito perverso, ao mesmo tempo em que perma­ nece inconsciente da maneira como isso fu nciona, of erece-se lealmente, ele sim, ao gozo do Outro.


É o neurótico que, ao mesmo tempo, lhes revela a f antasia em sua estrutura, por causa do que f az com ela, mas que também, pelo que faz com ela, tapeia vocês, como tapeia todo o mundo.


De f ato, como lhes explicarei, o neurótico se serve de sua f antasia para fins particulares.


e nós nos perguntamos, por exem­ plo, se uma perversão é realmente uma perversão.


A Bela Açougueira gostava de caviar, é claro, só que não o queria, pois isso poderia dar demasiado prazer ao brutamontes de seu marido, que seria capaz de engoli-lo junto com todo o resto, e não era o fato de se tratar de caviar que o impediria. Ora, o que interessa à Bela Açou­ gueira, obviamente, não é, em absoluto, alimentar o marido com cavi­ ar, porque, como eu lhes disse, ele o acrescentaria a um cardápio inteiro. O açougueiro tem grande apetite. A única coisa que interessa à Bela Açougueira é que o marido tenha vontade do nadinha que ela guarda de reserva.
Essa fórmula perfeitamente clara, quando se trata de histéricas, confiem em mim hoje, aplica-se a todos os neuróticos. O objeto a que fu nciona em sua fantasia e que lhes serve de defesa contra a angústia é também, contrariando todas as aparências, a isca com que eles fisgam o Outro. E, graças a Deus, é a isso que devemos a psicanálise.


O verdadeiro objeto buscado pelo neurótico é uma demanda que ele quer que lhe seja feita. Ele quer que lhe façam súplicas. A única coi­ sa que não quer é pagar o preço.


O neurótico não quer dar coisa alguma, o que obviamente tem certa relação com o fato de que sua dif i culdade é da ordem do receber; se ele realmente quisesse dar alguma coisa, isso fu ncionaria.
Mas aquilo de que não se apercebem os bem-falantes, esses que nos dizem que a maturidade genital é o lugar do dom, é que o que seria preciso ensinar o neurótico a dar, essa coisa que ele não imagina, é nada - é justamente sua angústia.


O neurótico se recusa a dar sua angústia


Isso é tão verdadeiro, tanto é disso que se trata, que todo o processo, toda a cadeia da análise consiste em que, pelo menos, ele dê o equivalente, pois começa por dar um pouco o seu sintoma. É por essa razão que uma análise, como dizia Freud, começa por uma conf i guração dos sintomas. Esf orça­ mo-nos por apanhá-lo, Deus meu, em sua própria armadilha. Nunca se pode agir de outro modo com ninguém. O neurótico nos f az uma oferta, em síntese, falaciosa; pois bem, nós a aceitamos. Em vista dis­ so, entramos no jogo por onde ele recorre à demanda. Ele quer que


vocês lhe peçam alguma coisa. Como vocês não lhe pedem nada, co­ meça a modular as demandas dele, que vêm no lugar Heim. É essa a primeira entrada na análise.


Ao contrário, é na medida em que se esgotam até o fi m, até o fu ndo da tigela, todas as f ormas de demanda, até a demanda de zero, que vemos aparecer no fu ndo a relação de castração.


Em Inibição, sintoma e angústia, Freud nos diz, ou parece dizer, que a angústia é a reação-sinal ante a perda de um objeto. E ele enu­ mera: perda sofrida em bloco, quando do nascimento saído do meio uterino; perda eventual da mãe, considerada como objeto; perda do pênis; perda do amor do objeto; perda do amor do supereu. Ora, que lhes disse eu, da última vez, para colocá-los num certo caminho que é essencial apreender? Que a angústia não é sinal de uma falta, mas de algo que devemos conceber num nível duplicado, por ser a falta de apoio dada pela falta. Pois bem, retomem com esta indicação a lista de Freud, que peguei em pleno vôo, por assim dizer.
V ocês não sabem que não é a nostalgia do seio materno que gera a angústia, mas a iminência dele? O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que voltaremos ao colo. Não é, ao contrário do que se diz, o ritmo nem a alternância da presen­ ça-ausência da mãe. A prova disso é que a criança se compraz em reno­ var esse jogo de presença-ausência. A possibilidade da ausência, eis a segurança da presença. O que há de mais angustiante para a criança é, justamente, quando a relação com base na qual essa possibilidade se ins­ titui, pela f alta que a transf orma em desejo, é perturbada, e ela fica per­ turbada ao máximo quando não há possibilidade de f alta, quando a mãe está o tempo todo nas costas dela, especialmente a lhe limpar a bunda, modelo da demanda, da demanda que não pode f alhar.


à do amor do supereu, com tudo o que este supostamente comporta no chamado caminho do f racasso. O que quer dizer isso senão que o que se teme é o sucesso? Trata-se sem­ pre do isso não fa lta.


Mas afirmo que nada é mais instável, no campo em que esta­ mos, do que o conceito de cura.
Uma análise que termina com a entrada do paciente ou da pacien­ te na Ordem T erceira, será que ela é uma cura, mesmo que o paciente esteja melhor quanto a seus sintomas, a partir do momento em que, confiante numa certa escolha, numa certa ordem que tenha recon­ quistado, ele enuncia as mais expressas reservas sobre os caminhos ­ perversos, portanto, a seu ver - pelos quais o teríamos feito passar para fazê-lo entrar no reino dos céus? Isso acontece.
Eis por que nem por um instante penso em me afastar de nossa ex­ periência, já que meu discurso lembra que, no seio desta, todas as per­ guntas podem ser f ormuladas, e que é preciso que conservemos a possibilidade de um certo fio que nos garanta, pelo menos, que não trapaceemos com o que é nosso próprio instrumento, isto é, o plano da verdade.


Tudo o que pode manifes­ tar-se nesse lugar nos desorienta, se assim posso dizer, quanto à função estruturante desse vazio.


A angústia da qual temos que fornecer uma formulação aqui é uma angústia que respon­ de a nós, uma angústia que provocamos, uma angústia com a qual, de vez em quando, temos uma relação determinante.


Mais recentemente, em outras áreas culturais, teo­ rizou-se o que é qualif i cado pelo termo est r esse. Chega-se a um ponto em que a demanda feita à função desemboca num déf i cit que ultra­ passa a própria função, até implicar o aparelho de um modo que o modif i ca além do registro da resposta funcional, até fi nalmente beirar, nos vestígios duradouros que ele gera, o déficit característico da lesão.


Se não houvesse a psicanálise, saberíamos disso pelo fato de existi­ rem momentos de aparecimento do objeto que nos jogam numa di­ mensão totalmente diversa, que se dá na experiência e merece ser destacada como primitiva na experiência. Trata-se da dimensão do es­ tranho.


Com efeito, uma das dimensões da angústia é a f alta de certos ref erenciais.


Não há um só de nossos músculos que não esteja implicado numa inclinação de nossa cabeça. Toda reação a uma situa­ ção implica a totalidade da resposta do organismo


a angústia do pesadelo é experimentada, propriamente falando, como a do gozo do Outro.


íncubo


súcubo


não nos esqueçamos de que não existem apenas pequenas histerias; há também as grandes, há anestesias, paralisias, escotomas, estreitamen­ tos do campo visual.


Todas as armadilhas em que caiu a dialética analítica decorrem de se haver desconhecido a parcela in­ trínseca de f alsidade que existe na demanda do neurótico.


Eu pensava ter-lhes trazido, mas não encontrei em meus papéis, a frase de Hegel na Fenomenologia do es p írito que lhes f ornecerei da pró­ xima vez, na qual se diz formalmente que a linguagem é trabalho e que é por ela que o sujeito f az seu interior passar para o exterior. A f rase é tal que fi ca bem claro que se trata de um inside-out, como se diz em in­ glês. T rata-se realmente da metáf ora da luva virada pelo avesso. Mas, se acrescentei a essa ref erência a idéia de uma perda, f oi na medida em que alguma coisa aí não sofre essa inversão, na medida em que em cada etapa sobra um resíduo, que não é passível de inversão nem tampouco de significação no registro articulado.


cíbalo


Ref i ro-me a esse Pascal que não sabemos muito bem por que nos fascina, pois que, a acreditarmos nos teóricos das ciências, ele f ez fias­ co em tudo. Pelo menos, f ez fi asco no cálculo inf i nitesimal, o qual, ao que parece, esteve a dois passos de descobrir. Pref i ro acreditar que ele pouco se importava, pois havia algo que lhe interessava mais, e é por essa razão que ele ainda nos toca, mesmo aqueles dentre nós que são absolutamente descrentes. Como bom jansenista que era, Pascal se in­ teressava pelo desejo, e f oi por isso, digo-lhes em conf i ança, que f ez as experiências de Puy de Dôme sobre o vácuo.


O que evoco aqui para vocês, portanto, não é metafísica. É, antes, uma lavagem cerebral.


V ez por outra, houve quem objetasse à presença, em meu ensino, de algumas pessoas que tenho em análise. Af inal, a legitimidade da co­ existência dessas duas relações comigo - aquela em que me escutam e aquela em que por mim se fazem escutar - só pode ser julgada a par­ tir de dentro. Será que o que lhes ensino aqui pode efetivamente facili­ tar a todos, e, portanto, também àquele que trabalha comigo, o acesso ao reconhecimento de seu próprio caminho? Neste lugar, certamente existe um limite em que o controle externo se detém, mas não é mau sinal ver que aqueles que participam dessas duas posições pelo menos aprendem a ler melhor.


er o genid a d e


A fantasia é vista além de um vidro, e por uma janela que se abre. A fantasia é enquadrada.


coletânea de desenhos de esquizo­ frênicos


o significante gera um mundo, o mundo do sujeito falante, cuja característica essencial é que nele é possível enganar.


A angústia é esse corte - esse corte nítido sem o qual a presença do significante, seu funcionamento, seu sulco no real, é impensável; é esse corte a se abrir, e deixando aparecer o que vocês entenderão me­ lhor agora: o inesperado, a visita, a notícia, aquilo que é tão bem ex­ primido pelo termo “pressentimento”, que não deve ser simplesmente entendido como o pressentimento de algo, mas também como o pré-sentimento, o que existe antes do nascimento de um sentimento


que é a verdadeira substância da angústia, é o aquilo que não engana, o que está fora de dúvida


A dúvida, o que ela despende de esforços, serve apenas para com­ bater a angústia, e justamente através de engodos. Porque o que se trata de evitar é aquilo que, na angústia, assemelha-se à certeza assus­ tadora.


Dominar o fenômeno através do pensamento é sempre mostrar como se pode f azê-lo de maneira enganosa, é poder reproduzi-lo, ou seja, fazer dele um signif i cante. Um signif i cante de quê? O sujeito, ao reproduzi-lo, falsif i ca o livro contábil. Isso não é de nos surpreender, se é verdade que o significante é o vestígio do suje­ ito no curso do mundo. Só que, se acreditarmos que podemos conti­ nuar neste jogo com a angústia, pois bem, é certo que fracassaremos, porque a angústia escapa precisamente a esse jogo.


I und e rstumbl e you per f e ctl y ?


Compreender é sempre avançar capengando para o mal-entendido


epicurista


Deus me pede para goz a r-isso é textual.


Gozar sob ordens, afinal, é algo sobre o qual todo o mundo sente que, se existe uma fonte, uma origem da angústia, ela deve estar mes­ mo em algum lugar por aí.


as demandas de Deus a seu povo eleito, privilegiado, há algumas absolutamente precisas, e so­ bre as quais parece que, para deixar bem claros os seus termos, esse Deus não teve necessidade de possuir a presciência de meu Seminário;
e há uma, nominalmente, que se chama circuncisão. Ele nos manda gozar e, ainda por cima, entra no modo de utilizar. Esclarece a deman­ da e destaca o objeto.


Nada é menos castrador do que a circuncisão. Quando ela é bem feita, não se pode negar que o resultado é bem elegante, sobretudo ao lado de todos os sexos masculinos da Grande Grécia que os antiquári­ os, a pretexto de eu ser analista, me trazem aos montes e me entregam a domicílio, recebem de volta de minha secretária, e que então vejo saírem porta afora, carregados com uma mala desses sexos, dos quais devo dizer que a fimose é sempre acentuada de maneira particular­ mente repugnante. Enf i m, existe na prática da circuncisão algo de sa­ lutar, do ponto de vista estético.


Sou a fe rid a e a fo ca, diz Baudelaire em algum lugar.


gematria


desejo e a lei, que parecem colocar-se numa relação de antítese, são apenas uma e a mesma barreira, para nos barrar o acesso à Coisa


ao desejar, enveredo pelo caminho da lei


É por isso que Freud relaciona o inapreensível desejo do pai com a origem da lei


Quer normatizem meus objetos, quer não, enquanto eu desejo, nada sei sobre aquilo que desejo.


Física Ling ü ística Sociologia Fisiologia Topol o g i a


A manifestação mais flagrante desse objeto a, o si­ nal de sua intervenção, é a angústia.


A angústia, ensinou-nos Freud, desempenha em relação a algo a fu nção de sinal. Digo que é um sinal relacionado com o que se passa em termos da relação do sujeito com o objeto a, em toda a sua genera­ lidade. O sujeito só pode entrar nessa relação na vacilação de um certo f a d ing , vacilação que tem sua notação designada por um S barrado. A angústia é o sinal de certos momentos dessa relação.


o sujeito não pode, de maneira alguma, estar exaustivamente na consciência,


el a não é sem ob jeto.


ele não é sem tê-l o


Essa relação do não ser sem ter não signif i ca que saibamos de que objeto se trata. Quando digo Ele não é sem recursos, Ele não é sem astú­ cia, isso quer dizer que, pelo menos para mim, seus recursos são obs­ curos, sua astúcia não é comum.


oblatividade


noese


intencionalidade do desejo, que deve ser distinguida dele, esse objeto deve ser concebido como a causa do desejo. Para retomar minha me­ táf ora da há pouco, o objeto está atrd s do desejo.


gnoseologia


me absterei de fazer metaf í sica


O que se deseja? Não é o sapatinho, nem o seio, nem seja o que for em que vocês encarnem o fetiche. O fetiche causa o desejo. O desejo, por sua vez, agarra-se onde puder. Não é absolutamente necessário que seja naquela que calça o sapatinho; este pode estar em suas imedi­ ações. Sequer é necessário que seja ela a portadora do seio; o seio pode estar na cabeça. Mas todo o mundo sabe que, para o f etichista, é preci­ so que o fetiche esteja presente. O fetiche é a condição mediante a qual se sustenta seu desejo.


O desejo sádico, com tudo o que comporta de enigmático, só é ar­ ticulável a partir da esquize, da dissociação que ele almeja introduzir no sujeito, no outro, impondo-lhe, até certo limite, o que não poderia ser tolerado - até o limite exato em que aparece no sujeito uma divi­ são, uma hiância entre sua existência de sujeito e o que ele sofre, aqui­ lo de que pode padecer em seu corpo.
Não é tanto o sofrimento do outro que é buscado na intenção sádi­ ca, mas sua angústia.


A angústia do outro, sua existência essencial como sujeito em rela­ ção a essa angústia, eis o que o desejo sádico tenciona fazer vibrar, e foi por isso que não hesitei, num de meus Seminários passados, em expor sua estrutura como propriamente homóloga ao que Kant articulou como a condição de exercício de uma razão pura prática, de uma von­ tade moral propriamente dita, na qual ele situa o único ponto em que pode manifestar-se uma relação com um puro bem moral


O traço novo que pretendo introduzir é este, que caracteriza o de­ sejo sádico. Na realização de seu ato, de seu rito - pois trata-se pro­ priamente do tipo de ação humana em que encontramos todas as estruturas do rito -, o que o agente do desejo sádico não sabe é o que procura, e o que ele procura é fazer-se aparecer, ele mesmo, como puro objeto, f etiche macabro - diante de quem, se, na totalidade dos ca­ sos, essa revelação só pode permanecer obtusa para ele próprio? É nis­ so que se resume, em última instância, a manif estação do desejo sádico, na medida em que aquele que é seu agente caminha para uma realização.


reconhecer-se como objeto de desejo, no sentido como o articulo, é sempre masoquista.


é com essa f alta que ele ama.


Para poder ter o f alo, para poder f azer uso dele, é preciso, justamente, não o ser.


moça abandonara o cultivo de seu narcisismo, seus cuidados, sua co­ quereria e sua beleza, para se transformar no cavalheiro servidor da Dama.


A outra ref erência é a dúvida do obsessivo. E a que se refere essa dúvida radical, que também faz com que as análises de obsessivos prossigam durante tanto tempo, e tão lindamente? O tratamento de um obsessivo é sempre uma verdadeira lua-de-mel entre o analista e o analisado, na medida em que se centra ali onde Freud nos aponta mui­ to bem o tipo de discurso sustentado pelo obsessivo, qual seja: esse ho­ mem é mesmo muito bom, conta-me as coisas mais bonitas do mundo; o chato é que não acredito em nada disso. Quando isso é cen­ tral, é porque está ali, no x.


distinção essencial entre dois registros: de um lado, o mundo, o lugar onde o real se comprime, e, do outro lado, a cena do Outro, onde o homem como sujeito tem de se constituir, tem de assumir um lugar como portador da f ala, mas só pode portá-la numa estrutura que, por mais verídica que se afirme, é uma estrutura de fi cção.


“auto-erotismo” - ou sentir f alta de si


Não é do mundo externo que sentimos f alta, como há quem o expresse impropriamente, mas de nós mesmos


Em outras palavras, o que se de v e dizer não é que os objetos são in­ vasivos na psicose. O que constitui seu perigo para o eu? É a própria estrutura desses objetos, que os torna impróprios para a “egoização”.


Na tragédia grega, e isso não escapou à perspicácia de Giraudoux, a mais prof u nda queixa de Electra em relação a Clitemnestra é que, um dia, ela a dei­ xou escorregar de seus braços.


No caso de homossexualidade f eminina, se a tentativa de suicídio é uma passagem ao ato, toda a aventura com a dama de reputação duvi­ dosa, que é elevada à função de objeto supremo, é um acting out. Se a bof etada de Dora é uma passagem ao ato, todo o seu comportamento paradoxal na casa dos K., que Freud prontamente descobre com tanta perspicácia, é um acting out.
O acting outé, essencialmente, alguma coisa que se mostra na con­ duta do sujeito. A ênfase demonstrativa de todo acting out, sua orien­ tação para o Outro, deve ser destacada.


É isso que permite à jovem, havendo fracassado na realização de seu desejo, realizá-lo simultaneamente de outro modo e da mesma maneira, como era s tes. Ela se torna amante. Em outras palavras, colo­ ca-se naquilo que ela não tem, o f alo, e, para mostrar que o tem, ela o dá. De f ato, é uma forma absolutamente demonstrativa. Ela se com­ porta em relação à Dama, diz-nos Freud, como um cavalheiro obse­ quioso, como um homem, como aquele que pode sacrif i car-lhe o que tem, seu f alo.


O acting out é, em essência, a mostração, a mostragem, velada, sem dúvida, mas não velada em si. Ela só é velada para nós, como su-


jeito do acting out, na medida em que isso fala, na medida em que po­ deria ser verdade. Ao contrário, ela é, antes, visível ao máximo, e é justamente por isso que, num certo registro, é invisível, mostrando sua causa. O essencial do que é mostrado é esse resto, é sua queda, é o que sobra nessa história.


Em se tratando do sintoma, é claro que a interpretação é possível, mas com uma certa condição que vem somar-se a ela, isto é, que a transf erência se estabeleça. Por natureza, o sintoma não é como o ac­ ting out, que pede a interpretação, pois - esquecemos disso em de­ masia -o que a análise descobre no sintoma é que ele não é um apelo ao Outro, não é aquilo que mostra ao Outro. O sintoma, por nature­ za, é gozo, não se esqueçam disso, gozo encoberto, sem dúvida, unter­ gebliebene Be f r iedig u ng , não precisa de vocês como o acting out, ele se basta. É da ordem daquilo que lhes ensinei a distinguir do desejo como sendo o gozo, isto é, aquilo que vai em direção à Coisa, depois de ultrapassar a barreira do bem - ref erência a meu Seminário sobre a ética -, ou seja, do princípio do prazer, e é por isso que tal gozo pode traduzir-se num Unlust-para os que ainda não entenderam, esse termo alemão signif i ca desprazer .


General Problems of Acting Out”


A questão é saber como agir com o acting out. Há três maneiras, diz ela. Há o interpretá-lo, há o proi­ bi-lo e há o reforço do eu.
Quanto a interpretá-lo, ela não tem grandes ilusões. Phyllis Green­ acre é uma mulher muito, muito competente. Interpretá-lo, com o que acabo de lhes dizer, está f adado a surtir poucos efeitos, até porque é para isso que ele serve, o acting out. Quando vocês olham as coisas de perto, percebem, na maioria das vezes, que o sujeito sabe muito bem o que faz no acting out. este é para se oferecer à interpretação de vocês.
Mas aí é que está: não é o sentido do que vocês interpretam, seja ele qual f or, que importa, e sim o resto. Então, pelo menos por essa vez, sem outros acréscimos, há um impasse.
É muito interessante nos determos em escandir as hipóteses.
Quanto a proibi-lo, naturalmente, isso provoca um sorriso, inclu­ sive na própria autora, que diz: af i nal, podemos f azer muitas coisas, mas dizer ao sujeito “nada de acting oui’, isso é algo bem difícil. Nin­ guém pensa em fazê-lo, aliás. Mesmo assim, observa-se a esse respeito que sempre houve proibições prejudiciais na análise. De f ato, proí­ be-se muito mais do que se supõe. Muitas coisas são f eitas, evidente­ mente, para evitar o acting out nas sessões. Além disso, também se diz aos pacientes que não tomem decisões essenciais para sua vida durante a análise. É fato que, quando se tem influência, há nisso uma certa re-


lação com o que podemos chamar de perigo, seja para o sujeito, seja para o analista.


Essencialmente, diria eu, ilustrando minha colocação, ou por ser­ mos médicos, ou por sermos bondosos. Como diz já não sei quem, não queremos que ele fique dodói, esse paciente que vem confiar-se a nós. E o mais incrível é que conseguimos. Mesmo que falemos de ac­ t i ng out, ele é o sinal de que se impede muita coisa. Será que é disso que fala a sra. Greenacre, quando diz que é preciso deixar que se esta­ beleça mais solidamente uma transferência verdadeira?
Eu gostaria de assinalar aqui um certo aspecto da análise que não é visto: seu aspecto de seguro contra acidentes, de seguro contra doen­ ças. Afi nal, é muito engraçado observar-pelo menos a partir do mo­ mento em que um analista ganhou o que se chama experiência, ou seja, tudo aquilo que, em sua própria atitude, muitas vezes ele ignora - como são raras as doenças de curta duração no transcurso das aná­ lises, como, numa análise que se prolongue um pouco, os resfriados, as gripes, tudo isso se apaga, e, mesmo com respeito às doenças de lon­ ga duração, se houvesse mais análises na sociedade, passaríamos me­ lhor. Acho que os seguros sociais e os seguros de vida deveriam levar em conta a proporção de análises na população para modif i car seus prêmios.
Inversamente, quando ocorre um acidente - não me refiro ape­ nas ao act i ng out-, isso é imputado com muita regularidade à análi­ se, tanto pelo paciente quanto pelo meio. É imputado à análise como que por natureza. Eles têm razão; trata-se de um acting out, logo, diri­ ge-se ao Outro, e, quando se está em análise, dirige-se ao analista. Se ele ocupou esse lugar, pior para ele. Afinal, ele tem a responsabilidade que cabe ao lugar que concordou em ocupar.


é um outro qualquer, um des­ ses janotas com o futuro garantido, como se costuma dizer, o que sig­ nif i ca que não têm fu turo nenhum.


A angústia, como nos ensinam desde sempre, é um medo sem objeto.


Eu lhes disse, em síntese, que não existe falta no real, que a f alta só é apreensível por intermédio do simbólico. É no nível da biblioteca que se pode dizer: Aqui estd fa ltand o o volume tal em seu lugar . Esse lu­ gar é um lugar apontado pela introdução prévia do simbólico no real.
Por isso, a f alta de que falo aqui pode ser facilmente preenchida pelo símbolo; ela designa o lugar, designa a ausência, presentif i ca o que não está presente.


A privação é algo real, enquanto a falta, por sua vez, é sim­ bólica. É claro que uma mulher não tem pênis, mas, se vocês não sim­ bolizarem o pênis como o elemento essencial para se ter ou não ter, ela nada saberá dessa privação.


Margaret Little, em seu artigo sobre ” A resposta total do analista às ne­ cessidades de seu paciente”, de maio-agosto de 1957


Margaret Litde, que retomou esse paciente do analista anterior, impressionou-se com o fato de, em sua interpretação, o analista só ter feito interpretar o que se passava em seu próprio inconsciente, o dele, analista - ou seja, ele estava muito contrariado, de fato, com o suces­ so de seu paciente.


Só nos enlutamos por alguém de quem possamos dizer a nós mes­ mos: Eu era sua fa lta. Ficamos de luto por pessoas a quem tratamos bem ou mal, e diante das quais não sabíamos que exercíamos a fu nção de estar no lugar de sua falta. O que damos no amor é, essencialmente, aquilo que não temos, e quando isso que não temos volta para nós, com certeza há uma regressão e, ao mesmo tempo, uma revelação da­ quilo em que faltamos para com essa pessoa, para representar essa f al­ ta. Mas aqui, em razão do caráter irredutível do desconhecimento


concernente à falta, esse desconhecimento simplesmente se inverte, ou seja, a fu nção que tínhamos de ser sua falta, cremos agora poder traduzi-la em havermos faltado para com ela-quando era justamen­ te nisso que lhe éramos preciosos e indispensáveis.


as psicoses. Quanto a estas, ela precisa admitir que descarrega parte de suas responsabilidades em outros su­ portes, nem que seja, vez por outra, em prol da hospitalização necessá­ ria. Nas neuroses, ela nos diz que a maior parte das responsabilidades de que também nos livramos serve para depositá-las nos ombros do sujeito, o que é prova de notável lucidez.


os objetivos do tratamento analítico, On the Theor y o f P s ychoanal y ­ tic Treatment


A maior parte de minhas reflexões nesse período, como de hábito, girou a serviço de vocês, embora não exclusivamente.


conf i ssão que ela faz de sua experiência


Se a questão desse desejo não só não está resolvida, como nem se­ quer começa a ser resolvida, é simplesmente porque até hoje não hou-


ve na teoria analítica, exceto precisamente neste Seminário, nenhum posicionamento exato sobre o que é o desejo


O desejo, portanto, é a lei.


Mesmo na perversão, na qual o desejo se dá como aquilo que serve de lei, ou seja, como uma subversão da lei, ele é, ef etivamente, suporte de uma lei. Se há uma coisa que hoje sabemos do perverso, é que aqui­ lo que aparece externamente como uma satisfação irrefreada é uma def esa, bem como o exercício de uma lei, na medida em que esta refreia, suspende, detém o sujeito no caminho do gozo. A vontade de gozo no perverso, como em qualquer outro, é uma vontade que fra­ cassa, que depara com seu próprio limite, seu próprio f reio, no exercí­ cio mesmo do desejo


o perverso não sabe a serviço de que gozo exerce sua atividade. Não é, em todo caso, a serviço do seu.


Um signif i cante é aquilo que representa o sujeito para outro significante.


Tomemos o masoquista, o “masô”, como se costuma dizer, ao que parece.
Ele é o mais enigmático da perversão para se colocar em suspenso.
Este, dirão vocês, este sabe muito bem que é o Outro que goza. Logo, seria o perverso nascido de sua verdade. Seria uma exceção a tudo que eu disse há pouco - que o perverso não sabe quem goza. É claro, é sempre o Outro, e o masô saberia disso. Pois bem, o que escapa ao ma­ soquista, e que o coloca na mesma situação de todos os perversos, é que ele acredita, com certeza, que o que procura é o gozo do Outro, e, justamente por acreditar nisso, não é isso que ele busca. O que lhe es­ capa, embora seja uma verdade sensível, jogada por aí em toda parte, ao alcance de todos, porém nunca vista em seu verdadeiro nível de fu nção, o que ele busca é a angústia do Outro.


a angústia como a manifestação específ i ca do desejo do Outro.


O desejo do Outro não me reconhece. Hegel acredita que sim, o que torna a questão muito fácil, porque, se ele me reconhece, uma vez que nunca me reconhecerá o bastante, só tenho que usar de vio­ lência. Na verdade, ele não me reconhece nem me desconhece. Isso se­ ria fácil demais, eu sempre poderia sair daí pela luta e pela violência.
Ele me questiona, interroga-me na raiz mesma de meu próprio desejo como a, como causa desse desejo, e não como objeto. E, por ser isso


que ele visa, numa relação temporal de antecedência, não posso f azer nada para romper esse aprisionamento, exceto nele me engajar.
Essa dimensão temporal é a angústia, essa dimensão temporal é a da análise. É pelo fa to de o desejo do analista suscitar em mim a di­ mensão da expectativa que sou apanhado na ef i cácia da análise. Eu gostaria muito que ele me visse como isto ou aquilo, que fi zesse de mim um objeto. A relação hegeliana com o outro é muito cômoda aqui, porque, nesse caso, de f ato, tenho contra isso todas as resis­ tências, ao passo que, contra a outra dimensão, boa parte da resistên­ cia escapa. Só que convém saber o que é o desejo. Sua fu nção não está apenas no plano da luta, mas ali onde Hegel, por boas razões, não quis ir procurá-la - no plano do amor.


se há pes­ soas que disseram alguma coisa sensata sobre a chamada contratrans­ ferência, elas f oram unicamente mulheres.
V ocês me dirão: e Michael Balint? Só que ele escreveu seu artigo com Alice. Ella Sharp, Margaret Little, Barbara Low, Lucia Tower. Fo­ ram as mulheres, em maioria esmagadora, que ousaram f alar da coisa e disseram coisas interessantes.


falta a característica da angústia, no sentido de que o sujeito não está pressionado, implicado nem interessado no mais íntimo de si mesmo.


a angústia, dentre todos os sinais, é aquele que não engana.


essa angústia, que é a ambição cega do masoquista, pois sua f anta­ sia a mascara dele, não é nada menos, realmente, do que o que pode­ ríamos chamar de angústia de Deus.


Será que preciso apelar para o mais fu ndamental mito cristão a fi m de dar corpo ao que proponho aqui? T oda a aventura cristã está com­ prometida com uma tentativa central, encarnada por um homem cujas palavras ainda estão todas por ser novamente escutadas, por ter sido aquele que levou ao extremo uma angústia que só encontra seu ciclo verdadeiro no nível daquele para quem se instaurou o sacrif ício, ou seja, o Pai.


O sádico tem uma trabalheira lou­ ca, considerável, desgastante, a ponto de f racassar em sua meta, para realizar o que - graças a Deus, convém dizer - Sade nos poupa de termos que reconstituir, uma vez que ele mesmo o articula como tal, ou seja, para realizar o gozo de Deus.


Ejacula no auge da angústia.


distinção entre a angústia e o medo


Na angústia, inversamente, o sujeito é premido, af etado, implicado no mais íntimo de si mesmo.


A ang ú st i a ent r e o gozo e o de se j o


Mas o f ato é que esse artigo, cujo título lhes direi, continua, como todos os outros, rigoro­ samente incompreensível, em razão de que a evidência do que enunci­ arei dentro em pouco é como que elidida nele.


Dizem que o masoquista visa o gozo do Outro. Mostrei-lhes que o que essa idéia esconde é que, em última instância, ele visa realmente a angústia do Outro. É isso que permite desarticular a manobra. Do lado do sadismo, o comentá­ rio é análogo. O que fi ca patente é que o sádico busca a angústia do Outro. O que isso mascara é que se trata do gozo do Outro.


o amor é a sublimação do desejo


O amor é um f ato cultural.


Seja como f or, é na medida em que ela quer meu gozo, isto é, quer usufruir de mim, que a mulher suscita minha angústia. E isso pela simplíssima razão, inscrita há muito tempo em nossa teoria, de que só há desejo realizável implicando a castração. Na medida em que se trata de gozo, ou seja, em que é o meu ser que ela quer, a mulher só pode atingi-lo ao me castrar.


Não é pelo fato de eu o dizer que se deve pen­ sar que isso esteja escrito. Aliás, se eu o escrevesse, dar-lhe-ia mais for­ mas. Essas formas consistem justamente em entrar nos detalhes, ou seja, em dizer o porquê.


A cad a sete anos, a padeira mud a va de pele, cantou Guillaume Apo­ linaire, e Tirésias mudava de sexo não por simples periodicidade, mas em razão de um acidente. Tendo tido a imprudência de perturbar duas serpentes acopladas, as de nosso caduceu, ele se descobrira mu­ lher. Depois, renovando o atentado, recuperara sua posição inicial.
Seja qual f or o sentido dessas serpentes que não podem ser desatadas sem que se corra grande perigo, é na condição de quem f oi mulher du­ rante o intervalo de sete anos que Tirésias é chamado a dar seu teste­ munho, diante de Júpiter e Juno, sobre a questão do gozo. E então, que diz ele? Que dirá a verdade, sejam quais forem as conseqüências.
Corroboro o que diz Júpiter, afirma Tirésias. O gozo das mulheres é maior que o do homem


opistótono


a fantasia em que Sartre insiste em A ndusea-a de ver essas línguas dardejarem bruscamente de uma muralha ou de outra superfície, o que se inscreve na temática do rechaço da imagem do mundo para uma facticidade insondável.


Assim, há quem nos diga, por exemplo, que o real é sempre pleno.
Isso faz ef eito, soa com um arzinho que dá crédito à coisa, um arzinho


daqui, de um lacanismo de boa cepa. Quem pode falar do real desse jeito senão eu? O chato é que eu nunca disse isso. O real f ervilha de ocos, pode-se até fazer dele o vazio. O que digo é totalmente diferente.
É que ao real não falta nada.


N ão impor t a que el e me de se j e, de sd e que não de se j e out r as.


Ela voltou então ao que fazia especialmente para mim: É ex atamente o inverso do que me es f o rço por ser aqui. Es f o rço-me por ser sempre verd a dei­ ra com o senhor. N ão escrevo um romance quando estou com o senhor; escre­ vo-o quando não estou. E recomeçou a tecelagem, sempre fio a fi o, da dedicatória de cada gesto, que não era f orçosamente um gesto tido como agradável para mim, nem com o qual eu f orçosamente concor­ dasse. Não me digam que ela estava f orçando seu talento. Af inal, o que ela queria não era tanto que eu a olhasse, mas que meu olhar substituís­ se o seu. É pel a sua a jud a que eu cl a mo. O olhar , o meu, não é su f i ciente para ca ptar tud o o que tem que ser absorvid o de fo ra. N ão se tr ata de o se­ nhor me olhar enquanto eu fa ço al g uma coisa, trata-se de fa zer por mim.


Deixar que se veja seu desejo pela mulher, evidentemente, às vezes é angustiante. Por quê? Peço-lhes de passagem que observem a distin­ ção da dimensão do deixar ver em relação ao par voyeurismo/ exibicio­ nismo. Não há apenas o mostrar e o ver; há o deixar ver para a mulher, cujo perigo provém, quando muito, da f arsa. O que há para deixar ver, na mulher, é o que existe, é claro. Se não existe muita coisa, isso é an­ gustiante, mas continua a ser algo que existe, ao passo que, para o ho­ mem, deixar que se veja seu desejo é, essencialmente, deixar ver o que não existe.


odore di Je mmina


Ela tem dois homens - em análise, quero dizer. Como af i rma, sempre terá com eles relações muito satisfatórias em termos humanos.
Não me façam dizer que a história é simples, nem que eles não se agüentam por um bom tempo. Ambos são casos de neurose de angús­ tia. Pelo menos, tudo bem examinado, é nesse diagnóstico que ela se detém. Esses dois homens tiveram, como convém, algumas dif i culda­ des com a mãe e com fe male siblings, o que quer dizer “irmãs”, porém situadas numa equivalência com os irmãos. Agora, os dois acham-se intimamente ligados a mulheres que escolheram, a rigor, segundo nos é dito, para poder exercer nelas um certo número de tendências agres­ sivas e outras, e para com isso se protegerem de um pendor - Deus meu, analiticamente incontestável - para o sexo oposto. Com esses dois homens, diz-nos Lucia T ower, eu estava per f e itamente a par do que acontecia com sua s mulheres e, es peci f i camente, diz ela, de que eles eram submissos demais, pouco hostis demais e, em certo sentido, devotious .de­ dicados. demais, e de que as dua s mulheres-assim nos diz Tower, que entra em cheio na apreciação desse ponto de vista, com grande minúcia -sentiam-se fr ustrad a s com essa fa l t a de uma suff i ciently un­ inhibited masculine assertiveness, de uma assertivid a de masculina su f i ­ cientemente desinibid a . Em outras palavras, os homens não f azem de conta o bastante. Com isso entramos no cerne da questão: ela tem uma idéia sobre o assunto.


ela suporta as con­ seqüências desse desejo a ponto de experimentar o que os analistas englobam sob o nome de carr y-over, que signif i ca tr ans porte, e que de­ signa o fenômeno em que os efeitos da contratransferência são mais manifestos. É quando se continua a pensar num paciente quando se está com outro.


ware it o f f ,


É que ela sabe muito bem que, por mais que o paciente procure, nunca se cogitou de que encontrasse. É justamente disso que se trata: de que ele perceba que não há nada a encontrar, porque aqui­ lo que, para o homem, para o desejo masculino, é o objeto da busca, só diz respeito, se posso expressar-me dessa maneira, a ele.


É claro que, também para ela, existe a constituição do objeto a do desejo. Ocorre que as mulheres f alam. Podemos lamentá-lo, mas é um fato. Portanto, ela também quer o objeto, e até um objeto na medida em que ela não o tem. É justamente isso que Freud nos explica: sua reivindicação do pênis permanece essencialmente ligada, até o fi m, à relação com a mãe, isto é, com a demanda.


Quanto à mulher, é inicialmente o que ela não tem que constitui, a princípio, o objeto de seu desejo, ao passo que, no homem, trata-se daquilo que ele não é e no qual falha.


Aliás, a experiência psicológica da mulher, no sentido dessa expressão nos textos de Paul Bourget, diz-nos que a mulher nem sempre acha que um homem se perde com outra mulher. Don Juan lhe as se g u r a que há u m homem que não se perde em nenhuma situação.


Com isso, dou-lhes apenas uma indicação� mas que se ligará ao que f oi possível apontar-lhes da estrutura fu ndamental do que é ridi­ culamente chamado de perversão. A todo instante, no apego homos­ sexual, o que está em jogo é a castração. Essa castração, o homossexual


a assume. É o (- . p ) que é o objeto da brincadeira, e é na medida em que perde que ele sai ganhando.


Esboço de uma teoria psicodinâmica do masoquismo


eu gostar i a que me cortassem isso, pode surgir como uma saída tranqüilizadora, salutar, para a angústia do masoquista.


No entanto, temos no capítulo XX XI V o famoso episódio, que não deixa de ter humor, ref erente ao rapto de Dina, irmã de Simeão e Levi, fi lha de Jacó. Para o homem de Siquém que a raptou, trata-se de ob­ tê-la de seus irmãos varões. Simeão e Levi exigem que ele se circuncide - “Não podemos entregar nossa irmã a um incircuncidado, ficaría­ mos desonrados”. Evidentemente, há aí uma superposição de dois tex­ tos. De f ato, não sabemos se é apenas um que se faz circuncidar, ou se são todos os siquemitas ao mesmo tempo. Essa proposta de aliança, é claro, não poderia ser feita unicamente em termos de duas famílias, mas de duas raças. Todos os siquemitas se fazem circuncidar. Resulta­ do: fi cam debilitados por três dias, coisa de que os outros se aprovei­ tam para degolá-los.


O desejo, com efeito, é o fu ndo essencial, o objetivo, a meta e também a prática de tudo que se anuncia aqui, neste ensino, acerca da mensa­ gem f reudiana.


O desejo sempre continua, em última instância, a ser desejo do corpo, desejo do corpo do Outro, e nada além de desejo de seu corpo.


libra de carne


é sempre com nossa carne que te­ mos de saldar a dívida.


A distância, a não-coincidência dessa falta com a f unção do desejo em ato, estruturado pela fantasia e pela vacilação do sujeito em sua re­ lação com o objeto parcial, é isso que cria a angústia, e a angústia é a única a almejar a verdade dessa falta. É por isso que, em cada etapa da estruturação do desejo, devemos situar o que chamarei de ponto de angústia.


O que fu nciona na sucção? Aparentemente, os lábios.
Aí reencontramos o fu ncionamento do que nos pareceu essencial na estrutura da erogenidade - a fu nção de uma borda. O fato de o lá­ bio nos apresentar a própria imagem da borda, de ser ele mesmo a en­ carnação, digamos, de um corte, é perfeito para nos fazer intuir que estamos em terreno seguro.


toda a cha­ mada dialética do desmame, da separação do seio, deveria ser reto­ mada em função de suas ressonâncias, de suas repercussões naturais, de tudo aquilo que, em nossa experiência, permitiu-nos ampliá-la até a separação primordial, ou seja, a do nascimento.


Na criança, a angústia da f a l ta da mãe é a angústia do ressecamento do seio. O lu­ gar do ponto de angústia não se conf u nde com o lugar em que se esta­ belece a relação com o objeto do desejo.


Obviamente, a relação é ainda mais complexa, e é preciso levar em conta a existência, na fu nção da sucção, ao lado dos lábios, desse órgão enigmático que é a língua. Ele é identif i cado como tal há muito tem­ po - lembrem-se da fábula de Esopo.


o ponto de angústia encontra-se no nível do Outro


ana-tomia, a fu nção de corte. Tudo o que sabemos de anatomia está li­ gado, de fato, à dissecação


O desejo fu nciona no interior de um mundo que, apesar de rompido, traz a marca de seu primeiro fechamento no inte­ rior daquilo que resta, imaginário ou virtual, do envoltório do ovo. Aí reencontramos a idéia f reudiana de auto-erotismo.


Se não houvesse Outro - e pouco importa que aqui o chamemos de mãe castradora ou de pai da interdição original -, não haveria castração.


a existência mesma do mecanismo de detumescência, na copulação dos organismos mais análogos ao organismo humano, já basta, por si só, para marcar a ligação do orgasmo com o que realmente se apresenta como a imagem primeira, o esboço do corte - separação, amoleci­ mento, afânise, desaparecimento da função do órgão.


a equivalência fundamental entre o orgasmo e pelo menos certas formas da angústia, a possibilidade da produção de um orgasmo no auge de uma situação angustiante, a eventual erotiza­ ção, dizem-nos em toda parte, de uma situação angustiante, buscada como tal.


O orgasmo, dentre todas as angústias, é a única que realmente acaba.


O desejo é ilusório, por quê? Porque sempre se dirige a um outro lugar, a um resto, um resto constituído pela relação do sujeito com o Outro que vem substituí-lo. Mas isso deixa em aberto a questão de sa­ ber onde pode encontrar-se a certeza. Nenhum falo permanente, ne­ nhum f alo onipotente é próprio por natureza para fechar, seja pelo que for de apaziguador, a dialética da relação do sujeito com o Outro e com o real. Se com isso tocamos na fu nção estruturante do engodo, será que isso quer dizer que devemos ficar por aí, conf essar nossa im­ potência, nosso limite e o ponto em que se rompe a distinção entre a análise finita e a análise indefinida? Creio que não.


No entanto, tudo o que se disse sobre esse assunto pode, com justiça, parecer insuficiente.


O olho apresenta-se com uma particularidade que devemos salien­ tar de imediato, a saber, ele é sempre um órgão duplo. Funciona, em geral, na dependência de um quiasma, ou seja, está ligado ao nó entre­ cruzado que liga duas partes simétricas do corpo. A relação do olho com uma simetria ao menos aparente, pois que nenhum organismo é inteiramente simétrico, deve ser eminentemente considerada por nós.


Aqui, o ponto de desejo e o ponto de angústia coincidem, mas não se confundem, e até deixam em aberto o mas em que é eternamente retomada a dialética de nossa apreensão do mundo, esse masque sem­ pre vemos ressurgir em nossos pacientes, esse mas que investiguei um pouco como se diz em hebraico, o que os divertirá.


Este método decorre de uma necessidade. A verdade da psicanáli­ se, pelo menos em parte, só é acessível à experiência do psicanalista. O próprio princípio de um ensino público parte da idéia de que, não obstante, ela é comunicável em outros lugares. Dito isto, não há nada resolvido, já que a própria experiência psicanalítica deve ser orientada, sem o que se extravia. Ela se perde quando se parcializa, e, como não paramos de assinalar desde o início deste ensino, ela se parcializa em diversos pontos do movimento analítico, especif i camente naquilo que, longe de ser um aprof u ndamento ou um complemento dado às indicações da última doutrina de Freud na exploração dos móbeis e do status do eu, longe de ser uma continuação de seu trabalho, é propria­ mente um desvio, uma redução, uma verdadeira aberração do campo da experiência, sem dúvida comandada por uma espécie de adensa­ mento que se produziu no campo da primeira exploração analítica, aquela que se caracterizou pelo estilo da iluminação, da espécie de bri­ lho que continua ligado às primeiras décadas da dif u são do ensino freudiano e à f orma das investigações da primeira geração.


Esse chof ar é o quê? Um chifre. É um chifre em que se sopra e que faz ouvir um som.


posso atestar-lhes isso, confiem em mim, pois vocês sabem que tudo que lhes trago aqui é muitas vezes alimentado, de minha parte, por pesquisas aparentemente levadas aos limites do supérf l uo


oposição in­ terior-exterior, da qual vocês percebem aqui toda a insuficiência, mas na referência ao Outro e às etapas da emergência e da instauração pro­ gressiva, para o sujeito, do campo de enigmas que é o Outro do sujei­ to


De que objeto se trata? Daquilo a que chamamos voz.
Nós o conhecemos bem, acreditamos conhecê-lo bem, a pretexto de conhecermos seus dejetos, as f olhas mortas, sob a f orma das vozes perdidas da psicose, e seu caráter parasitário, sob a f orma dos impera­ tivos interrompidos do supereu.


O que nos olha? O branco do olho do cego, por exemplo.


O objeto a é aquilo que f alta, é não especular, não é apreensível na imagem. Apontei-lhes o olho branco do cego como a imagem revela­ da e irremediavelmente oculta, ao mesmo tempo, do desejo escopof í ­ lico. O olho do próprio vo yeur aparece para o Outro pelo que é -impotente. É justamente isso que permite a nossa civilização fazer tro­ ça daquilo que sustenta o desejo, sob formas diversas, perfeitamente homogêneas aos dividendos e às reservas bancárias que ele ordena.


as relações entre a linguagem e o pensamento


todo progresso de uma ciência concerne mais à reformulação periódica de seus conceitos que à exten­ são de sua inf l uência


Examinando de perto o debate pedagógico, as escolas estão longe de se coadunar com o que dizem, como poderão constatar aqueles de vocês que estiverem mais necessitados que os ou­ tros de se interessar pelos procedimentos pedagógicos.


teo­ rias de Steiner


  • os que entendem um pouco desse assunto podem perfeitamente acompanhar-me no caminho por onde sigo, pois o importante é meu discurso, e não mi­ nhas ref erências, que eles podem não conhecer

a fu nção da fan­ tasia em sua modalidade mais angustiante


reação do sujeito à cena traumática por meio de uma defecação.


Não basta dizer vagamente que a satisfação do orgasmo é compa­ rável ao que chamei, no plano oral, de esmagamento da demanda sob a satisfação da necessidade. No nível oral, a distinção entre a necessi­ dade e a demanda é fácil de sustentar, ao passo que, em outros lugares, não deixa de nos levantar o problema de saber onde se situa a pulsão.
Se, por algum artif ício, podemos ser ambíguos, no nível oral, sobre o que a fundamentação da demanda na pulsão tem de original, não te­ mos nenhum direito de fazê-lo no nível do genital. Justamente aí, onde pareceríamos lidar com o instinto mais primitivo, o instinto se­ xual, não podemos deixar de ref erir-nos, mais ainda que em outros lu­ gares, à estrutura da pulsão como sustentada pela fórmula (S O D), ou seja, pela relação entre o desejo e a demanda.


o que pedimos é o quê? É para satisfazer uma demanda que tem uma certa relação com a morte. Não vai muito longe isso que pedimos - é a pequena morte -, mas, enf i m, fi ca claro que a demandamos e que a pulsão está inti­ mamente mesclada à demanda de fazer amor. O que pedimos é para morrer, e até para morrer de rir - não é à toa que sempre destaco o que, do amor, faz parte do que chamo de sentimento cômico. Em todo caso, é justamente nisso que deve residir o que há de repousante no pós-orgasmo. Se o que é satisfeito é essa demanda de morte, ora, meu Deus, ela se satisfaz por um custo baixo, já que nós nos saf a mos.


Não estou dizendo, justamente, que a angústia de castração seja uma angústia de morte. É uma angústia que se relaciona com o campo em que a morte se ata estreitamente à renovação da vida.


É essa face que nos permite desvendar a ilusão da reivindicação ge­ rada pela castração, na medida em que ela encobre a angústia presenti­ ficada por qualquer atualização do gozo. Essa ilusão decorre da conf u são do gozo com os instrumentos do poder. Com o progresso das instituições, a impotência humana torna-se melhor do que seu es­ tado de miséria fu ndamental, constitui-se como prof i ssão. Quero di­ zer “profissão” em todos os sentidos da palavra, desde a prof i ssão de fé até o ideal prof i ssional. Tudo que se abriga por trás da dignidade de qualquer prof i ssão é sempre essa falta central que é a impotência. A impotência, em sua f ormulação mais geral, destina o homem a só po­ der gozar com sua relação com o esteio de (+ q. ), isto é, com uma po­ tência enganosa.


Faço-os observar, de passagem, que a alternativa ou nossa prd x is é fa lha, ou supõe isso não é excludente. Nossa prática pode permitir-se, em parte, ser falha em relação a si mesma, e permitir que haja um res­ to, já que é justamente esse o previsto. Assim, podemos presumir ­ grande presunção. - que arriscamos pouquíssimo quando nos empe­ nhamos numa formalização que se impõe como necessária. Mas con­ vém realmente dizer que a relação de S com A ultrapassa em muito, em sua complexidade - apesar de muito simples, inaugural -, o que aqueles que nos legaram a def i nição do signif i cante consideram ter o dever de formular no início do jogo que organizam, ou seja, a idéia de comunicação.


A comunicação como tal não é o que é primitivo, já que, na ori­ gem, o S não tem nada a comunicar, em razão de todos os instrumen­ tos da comunicação estarem do outro lado, no campo do Outro, e de ele ter que recebê-los deste. Como tenho dito desde sempre, daí resul­ ta, por princípio, que é do Outro que o sujeito recebe sua própria mensagem.


Em outras palavras, para que ela responda, devemos incorporar a voz como a alteridade do que é dito.
É por isso mesmo, e não por outra coisa, que, separada de nós, nos­ sa voz nos soa com um som estranho. É próprio da estrutura do Outro constituir um certo vazio, o vazio de sua f alta de garantia. A verdade entra no mundo com o significante antes de qualquer controle. Ela se experimenta, reflete-se unicamente por seus ecos no real. Ora, é nesse vazio que a voz ressoa como distinta das sonoridades, não modulada, mas articulada. A voz de que se trata é a voz como imperativo, como aquela que reclama obediência ou convicção. Ela não se situa em rela­ ção à música, mas em relação à f ala.


A angústia jaz na relação fundamental do sujeito com o que tenho chamado, até aqui, de desejo do Outro.


O sujeito tem que se dar conta de que isso fu nciona assim. Esse re­ conhecimento não é um ef eito desligado do fu ncionamento desse sin­ toma, não é epifenomênico. O sintoma só se constitui quando o sujeito se apercebe dele, pois sabemos por experiência que existem f or­ mas de comportamento obsessivo em que não é apenas que o sujeito não tenha identif i cado suas obsessões, mas é que não as constituiu como tais. Nesse caso, o primeiro passo da análise - são célebres as passagens de Freud a esse respeito - é que o sintoma se constitua em sua f orma clássica, sem o que não haverá meio de sair dele, porque não haverá meio de falar dele, porque não há como agarrar o sintoma pelas orelhas. O que é a orelha em questão? É o que podemos chamar de o não-assimilado do sintoma, não assimilado pelo sujeito.


Para que o sintoma saia do estado de enigma ainda não f ormulado, o passo a ser dado não é que ele se f ormule, mas que se desenhe no su­ jeito uma coisa tal que lhe seja sugerido que hd uma cau s a di s so.


Entra-se na análise por uma porta enigmática, porque a neurose de transf erência está aí em todo o mundo, mesmo num ser tão livre quanto Alcibíades. É Agatão que ele ama. É ali que está a transf erên­ cia, transferência evidente, aquela que com muita freqüência chama­ mos de transferência lateral - embora esse amor seja um amor real. O espantoso é que entramos na análise apesar de tudo o que nos retém na transferência fu ncionando como real.


Tudo isto pode parecer-lhes inteiramente supérfluo. No entanto, é o que permite apreender o que chamarei de ingenuidade de algumas pesquisas de psicólogos, especificamente as de Piaget.


Numa pa l avra, as histórias inventadas por Piaget têm em comum com as de Binet o fato de refletir a prof u nda maldade de toda postura pedagógica.


Evidencia-se, enf i m, pela observação que lhes fa ço de que eu mesmo não tenho a pretensão de ter compreendido exaustivamente.


De fato, linguagem se aprende. Mas o que a linguagem faz f ora do campo da aprendizagem, foi preciso a sugestão de um lingüista -Jakobson, para citá-lo nominalmente - para que se começasse a ter interesse nisso.


T oda essa temática é muito divertida de apreender nas co­ locações introdutórias de Jones, num artigo da coletânea de seus Selec­ ted P apers cuja leitura é impossível recomendar-lhes em demasia, porque ela vale milhões.


não se pôde deixar de destacar, em seguida, a importância da suf ocação, da dif i culdade respiratória, no estabelecimento original da f unção da angústia. Dizer que o sujeito vivo, mesmo humano, não está ciente da importância dessa fu nção é um argumento inicial que surpreende, ainda mais que já se havia descoberto, na época, uma coi­ sa que era a conta certa para valorizar a eventual relação da fu nção res­ piratória com o momento f ecundo da relação sexual. A respiração, sob a f orma do arquejo paterno ou materno, certamente f azia parte da f e­ nomenologia básica da cena traumática, a ponto de entrar na esf era do que dela podia surgir de teoria sexual inf antil.


no circuito econômico, a vida do homem como redutível ao excremento não está ausente.


psychoanal y tical dunghill , ou seja, a literatura analítica. Dunghill quer dizer montinho de merd a ..


Justamente pelo f ato de, até esse nível, tudo ser simbolizado, tanto o sujeito dividido quanto a união impossível, parece ainda mais im­ pressionante que uma coisa não o seja: o próprio desejo.


Falei de Apolo. Apolo não é castrado, nem antes nem depois. De­ pois, acontece-lhe uma outra coisa. Dizem-nos que é Dafne que se transf orma em árvore. É aí que escondem uma coisa de vocês. E a es­ condem - é realmente espantoso - porque não a escondem. O lou­ reiro, depois da transf ormação, não é Daf ne, é Apolo. É próprio do deus que, uma vez satisf eito, ele se transf orme no objeto de seu desejo, mesmo que para isso tenha que se petrificar. Em outras palavras, um deus, se f or real, f ornece aí , em sua relação com o objeto de seu desejo, a imagem de sua potência. Sua potência está onde ele está.


onividência


No que eu poderia chamar de círculos quentes da análise, aqueles em que ainda está vivo o movimento de uma inspiração primeira, le­ vantou-se uma questão: a de saber se o analista de v e ou não ser ateu, e se o sujeito, no fi m da análise, pode considerar sua análise terminada se ainda acreditar em Deus. Essa é uma questão que não decidirei hoje. Mas, no caminho dessa questão, eu lhes assinalo que, não im­ porta o que lhes testemunhe um obsessivo em seus ditos, se ele não f or extirpado de sua estrutura obsessiva, estejam convencidos de que, como obsessivo, continuará a acreditar em Deus. Quero dizer que ele acredita no Deus de que todo o mundo, ou quase todo o mundo entre nós, em nossa área, é adepto, ou seja, o Deus em que todo o mundo acredita sem conf i ar, isto é, esse olho universal voltado para todos os nossos atos.


Pois bem, um senhor que se chamava V oltaire, e que af i nal era ver­ sado em matéria de revolta anti-religiosa, agarrava-se com muita f orça a seu deísmo, ou seja, à existência do Todo-Poderoso. Diderot o acha­ va incoerente, e Voltaire, por sua vez, em vista disso achava que Dide­ rot era louco. Não é muito certo que Diderot não tenha sido realmente ateu, e sua obra me parece, quanto a mim, dar um bom tes-


temunho disso, dada a maneira como ele f az o intersujeito funcionar no nível do Outro em seus grandes diálogos, O sobrinho de Ra meau e .acques, o fa talista. Mas só consegue fazê-lo no estilo da derrisão.


A existência do ateu, no sentido verdadeiro, só pode ser concebida, de fato, ao término de uma ascese, que realmente nos parece que só pode ser uma ascese psicanalítica. Ref i ro-me ao ateísmo concebido como negação da dimensão de uma presença da onipotência na base do mundo.
Isso não quer dizer que a existência do ateu não tenha seu corres­ pondente histórico, mas este é de natureza totalmente diversa. Sua af i rmação é norteada justamente pelo lado da existência dos deuses como reais. Ele não a nega nem a af i rma, orienta-se para ela. O ateu da tragédia O ateu-aludo à tragédia elisabetana desse título -, o ateu como combatente e como revolucionário, não é aquele que nega Deus em sua f unção de onipotência, mas aquele que se af i rma como não servindo a deus algum. E nisso está o valor dramático essencial que desde sempre conf ere paixão à questão do ateísmo.


a base impossível que o obsessivo dá a seu desejo


a re­ lação da f antasia do obsessivo, colocada como estrutura de seu desejo, com a angústia que a determina.


destrinçar


O momento mais decisivo na angústia de que se trata, a angústia do desmame, não é propriamente que, nesse momento, o seio f aça f al­ ta à necessidade do sujeito, mas, antes, que a criança pequena cede o seio a que está apensa como se fosse uma parte dela mesma.


Neste ponto, não nos esqueçamos de pôr à prova a orientação que nos é dada por nossa f ormulação de que o objeto a não é a fi nalidade, a meta do desejo, mas sim sua causa. Ele é causa do desejo na medida em que o próprio desejo é algo não ef etivo, uma espécie de ef eito base­ ado e constituído na fu nção da f alta, que só aparece como ef eito ali onde se situa a idéia de causa, isto é, apenas no nível da cadeia signif i ­ cante, à qual o desejo conf ere a coerência pela qual o sujeito se consti­ tui essencialmente como metonímia.


inibição senão a introdução numa fu nção - em seu artigo, Freud toma como exemplo a fu nção motora, mas pode ser qualquer uma-, a introdução de quê? De um desejo diferente daquele que a fu nção sa­ tisf az naturalmente.


A ocultação estrutural do desejo por trás da inibição é o que comumente nos faz dizer que, se o sr. Fulano está com cãibra de escrivão, é por erotizar a fu nção de sua mão. Creio que aqui todo o mundo se achou. É isso que nos instiga a pôr em jogo no mesmo lugar estes três termos, dos quais já lhes nomeei os dois pri­ meiros, inibição e dese j o, enquanto o terceiro é ato.


Mas, sem f alar no fato de que lidamos o tempo todo com alguma coisa des­ sa ordem, observemos, para não deixar nosso obsessivo, que essa já é a posição do desejo anal, definida pelo desejo de reter que é centrado num objeto primordial a que ele conf ere valor. O desejo de reter só tem sentido para nós na economia da libido, isto é, em suas ligações com o desejo sexual.


É aí que convém lembrar o inter urinas et fo eces na s cimur de santo Agostinho. O importante não é tanto nascermos entre a urina e as f e­ zes, pelo menos para nós, analistas, mas sim que é entre a urina e as fezes que f azemos amor. Fazemos xixi antes e cocô depois, ou vi­ ce-versa.


Interpretamos o desejo como def esa e dissemos que aquilo de que ele se def ende é outro desejo. Agora poderemos conceber que a isso so­ mos levados, digamos, de maneira muito natural, pelo que leva o ob­ sessivo a enveredar por um movimento de recorrência do processo do desejo, um movimento pelo qual ele tende a recapturar as etapas desse processo. Esse movimento é gerado pelo esf orço implícito de subjeti­ vação que já está em seus sintomas, desde que ele tenha sintomas.


No lugar do impedimento encontra-se não poder . Com ef eito, o impedimento - era preciso escolher um termo, af i nal -, que vem de impedicare, a panhar na armadilha, não passa, aqui, de uma duplicação da inibição. De que se trata? Trata-se de que o sujeito fi ca realmente impedido de se ater a seu desejo de reter, e é isso que se manif esta no obsessivo como compulsão. Ele não pode conter-se.
No lugar da emoção está o não saber . A palavra emoção é tomada por empréstimo de uma psicologia adaptativa da reação catastróf i ca, que não é a nossa. Também ela intervém aqui num sentido totalmente diverso do que tem na def i nição clássica e habitual. A emoção em pau­ ta é a valorizada pelas experiências calcadas no conf ronto com a taref a, quando o sujeito não sabe onde responder. É a isso que se liga o nosso não saber . Ele não sabia que era isso, e é por essa razão que, no nível do ponto em que não pode se impedir , deixa acontecerem coisas, quais sejam, os vaivéns do significante que postulam e apagam, alternadamente. Mas todos esses movimentos seguem o mesmo caminho, igualmente não sabido, de reencontrar a marca primitiva. O que o sujeito obsessivo procura no que chamei de sua recorrência - e vocês verão o porquê de eu haver escolhido essa palavra -, no processo do desejo, é exata­ mente reencontrar a causa autêntica de todo o processo. E é pelo fato de essa causa não ser outra coisa senão o objeto derradeiro, abjeto e derrisório, que ele continua na busca do objeto, com seus tempos de suspensão, seus caminhos errados, suas pistas f alsas e suas derivações laterais, que fazem com que essa busca gire indef i nidamente. Tudo isso, que se manif esta no nível do act i ng out , manif esta-se também no sintoma fu ndamental da dúvida, que marca, para o sujeito, o valor de todos os objetos substitutos.


Aqui, não poder é não poder o quê? Impedir-se. A compulsão, nes­ se caso, é a da dúvida. Ela concerne aos objetos duvidosos graças aos quais é afastado o momento de acesso ao objeto derradeiro, que seria o fi m no sentido pleno da palavra, isto é, a perda do sujeito no caminho em que ele é sempre passível de entrar por meio do embaraço - o em­ baraço em que é introduzido, como tal, pela questão da causa, que é por onde ele entra na transf erência.


O desejo do obsessivo, na verdade, não é concebível em sua instân­ cia nem em seu mecanismo a não ser pelo f ato de se situar como su­ plência do que é impossível suprir em outro lugar, isto é, no lugar dele.
Em resumo, como todo neurótico, o obsessivo já alcançou o estágio fálico, mas, dada sua impossibilidade de satisf azer o nível desse está­ gio, sobrevém seu próprio objeto, o a excrementício, o a como causa do desejo de reter. Se eu quisesse realmente ligar sua fu nção a tudo o que disse sobre as relações do desejo com a inibição, eu pref eriria cha­ mar esse a de rolha.


Quanto ao acting out, se quisermos situá-lo em relação à metáfora da torneira, diremos que ele não é o f ato de abrir a torneira, mas sim­ plesmente a presença ou não do jato. O acting out é o jato, ou seja, é aquilo que sempre se produz a partir de um f ato que vem de outro lu­ gar que não a causa com base na qual se age. Nossa experiência nos in­ dica isso. Não é o f ato de nossa interpretação ser errada, por exemplo, no plano anal, que provoca o acting out, mas sim que, ali onde é sus­ tentada, ela dá margem a alguma coisa que vem de outro lugar. Em outras palavras, não se deve apoquentar irrefletidamente a causa do desejo.


Não é a dúvida que prevalece nela; é que o sujeito pref ere nem se­ quer olhar. Essa prudência, vocês sempre a encontrarão no obsessivo.
No entanto, o amor assume para ele as f ormas de uma ligação exalta­ da. É que o que ele pretende que se ame é uma certa imagem sua. Essa imagem, ele a oferece ao outro. Oferece-a ao outro a tal ponto que imagina que este já não teria a que se agarrar se essa imagem viesse a faltar-lhe. Essa é a base do que chamei, em outro lugar, de dimensão altruísta desse amor mítico, que se fu ndamenta numa oblatividade mítica.
A manutenção dessa imagem é o que f az o obsessivo apegar-se a manter toda uma distância de si mesmo, distância que é justamente o mais difícil de reduzir na análise


o trauma do nascimento, que não é a separação da mãe, mas a própria aspiração de um meio intrinsecamente Outro.


Há muito tempo a sabemos afastada, dissimulada no que chama­ mos de relação ambivalente do obsessivo, essa relação que simpli­ f i camos, abreviamos, chegamos até a evitar, ao limitá-la a ser apenas de agressividade, embora se trate de outra coisa. O objeto que o sujei­ to não consegue impedir-se de reter como o bem que o valoriza não é senão seu resto, seu dejeto. São essas as duas f aces pelas quais o objeto determina o próprio sujeito como compulsão e como dúvida.


No plano da passagem ao ato, a f antasia de suicídio, cujo caráter e autenticidade devem ser questionados de maneira essencial no inte­ rior da casuística.


O problema do luto é o da manutenção, no nível escópico, das li­ gações pelas quais o desejo se prende não ao objeto a, mas à i( a), pela qual todo amor é narcisicamente estruturado, na medida em que esse termo implica a dimensão idealizada a que me ref eri. É isso que f az a diferença entre o que acontece no luto e o que acontece na mania e na melancolia.
A menos que distingamos o objeto a de i( a), não poderemos con­ ceber a dif erença radical existente entre a melancolia e o luto, que Freud relembra e articula poderosamente na nota que citei, bem como no famoso artigo “Luto e melancolià’. Será que preciso ler a passagem para trazê-la de volta à memória de vocês? Depois de enveredar pela idéia de reversão da libido pretensamente objetai para o próprio eu do sujeito, Freud admite em termos apropriados que, na melancolia, esse processo obviamente não dá bom resultado, porque o objeto supera sua direção. É o objeto que triunf a.
Na melancolia, trata-se de algo dif erente do mecanismo de retorno da libido no luto e, por essa razão, todo o processo, toda a dialética se constrói de outra maneira. O objeto, Freud nos diz que é preciso -por que nesse caso? deixo de lado a questão - que o sujeito se entenda com ele. Mas o fato de se tratar de um objeto a e de, no quarto nível, este se encontrar habitualmente mascarado por trás da i(a) do narci­ sismo, e desconhecido em sua essência, exige que o melancólico, diga­ mos, atravesse sua própria imagem e primeiro a ataque, para poder atingir, lá dentro, o objeto a que o transcende, cujo mandamento lhe escapa- e cuja queda o arrasta para a precipitação suicida, com o au­ tomatismo, o mecanicismo, o caráter imperativo e intrinsecamente alienado com que vocês sabem que se cometem os suicídios de melan­ cólicos. E eles não são cometidos num quadro qualquer. Se tantas ve­ zes isso acontece na janela, se não através da janela, não é por acaso. É o recurso a uma estrutura que não é outra senão a da f antasia.


Certamente convém que o analista seja aquele que, minimamente, não importa por qual vertente, por qual borda, tenha feito seu desejo entrar suficientemente nesse a irredutível para of erecer à questão do conceito da angústia uma garantia real.


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