
Seminar 09 A identificacao
Seminário 09 - A identificação
subsumido
Esse sujeito suposto saber, temos que aprender a prescindir dele em todos os momentos. Não podemos recorrer a ele em nenhum momento,
Ele não sabia que estava morto
“Eu não sabia que vivia por ser mortal”. Está bem claro que é na medida em que podemos dizer tê-lo esquecido quase a todo instante, que seremos postos nesta incerteza para a qual não há nenhum nome, nem trágico, nem cômico, que possa nos dizer, no momento de abandonar nossa vida, que fomos sempre, à nossa própria vida, de alguma maneira, estranhos.
É aí que está o fundo da interrogação filosófica mais moderna, aquilo pelo que, mesmo para aqueles que, se posso dizer, só o compreendem muito pouco, inclusive aqueles que dão testemunho de seus sentimentos de obscuridade, mesmo assim algo se passa, diga-se o que quiser, alguma coisa passa diferente da onda de uma moda, na fórmula que nos lembra o fundamento existencial do ser para a morte.
a profanação dos grandes fantasmas
da função do Deus enganador; vocês sabem que ele vai mais além, o Deus enganador é ainda um bom Deus;
por estar ali, por alimentar ilusões, chega até ao gênio maligno, ao mentiroso radical, àquilo que me extravia por extraviar-me, é o que chamamos a dúvida hiperbólica. Não se vê de nenhuma maneira como essa dúvida pode poupar esse eu .je. e deixá-lo, entretanto, falando propriamente, em uma vacilação fundamental.
é por cessar de pensar que posso entrever que eu simplesmente seja.
psicastenia
no limite da experiência cartesiana
e penso encontrar, por isso mesmo, em vocês uma espécie de aprovação, de encorajamento, de ânimo
Milsein .sercom|
Dasein .serpresente.,
Minha cadela, no meu entender e sem ambigüidade, fala. Minha cadela tem a palavra, sem nenhuma dúvida. Isso é importante, porque não quer dizer que ela tenha totalmente a linguagem. A medida na qual ela tem a palavra sem ter a relação humana com a linguagem, é uma questão de onde vale a pena investigar o problema do pré-verbal.
O que faz minha cadela quando fala, no meu entender? Digo que ela fala, por que? Ela não fala o tempo todo; ela fala, contrariamente a muitos humanos, unicamente nos momentos nos quais ela tem necessidade de falar. Ela tem necessidade de falar nos momentos de intensidade emocional e de relações com o outro, comigo mesmo, e com algumas outras pessoas. A coisa se manifesta por espécies de pequenos gemidos guturais. Mas não se limita a isso.
é uma cadela boxer, e vocês vêem que nessa face quase humana, bem neandertaliana afinal de contas, aparece um certo tremor no lábio, especialmente no superior, sob o focinho, para um humano, um pouco generoso, mas enfim, há tipos como esse, tive uma empregada que se parecia muito com ela e esse tremor labial, quando acontecia, à empregada de se comunicar comigo em tais auges intencionais, não era muito diferente.
O que distingue este animal falante do que se passa pelo fato de que o homem fala é que é inteiramente notável, no que concerne à minha cadela, uma cadela que poderia ser a sua, uma cadela que não tem nada de extraordinário, é que, contrariamente ao que acontece com o homem enquanto falante, ela não me toma jamais por um outro.
Isto é muito claro. Esta cadela boxer de belo porte e que, faz crer aos que a observam, que tem por mim sentimentos de amor, deixa-se levar a excessos de paixão por mim, nos quais ela toma um aspecto completamente temível para as almas mais tímidas, tais como as que existem, por exemplo, no nível de minha descendência;
parece que se teme que, nos momentos em que ela começa a saltar sobre mim, baixando as orelhas, e latindo de uma certa forma, o fato de ela tomar meus punhos entre seus dentes, pode passar por uma ameaça. Mas não é nada. Rapidamente, e é por isso que dizem que ela me ama, algumas palavras minhas fazem tudo reencontrar ordem, constatada no final de algumas reiterações, pela parada da brincadeira.
É porque ela sabe muito bem que sou eu que estou ali, que ela não me toma jamais por um outro, contrariamente ao que toda a experiência de vocês pode testemunhar do que acontece na medida em que, na experiência analítica, vocês se colocam em condições de ter um sujeito puro falante, se posso dizer assim, como se diz, um “patê puro porco” .patê pur porc..
Se acontece tão freqüentemente que vocês não entendam o que tagarela a cantora, é justamente porque não se pode cantar as oclusivas, e espero também que estejam contentes de cair em si e de pensar que tudo se arranja, uma vez que, em suma, minha cadela canta, o que a faz entrar para o concerto dos animais. Há muitos outros que cantam e a questão não é sempre demonstrada no sentido de saber se têm, portanto, uma linguagem.
Podemos perguntar, a esse propósito, que língua lhes falava. Isto tem sempre um sentido no nível da lingüística moderna e no nível da experiência psicanalítica.
Aprendemos a definir perfeitamente a função de certos acontecimentos da língua, do que chamamos o falar babyish, esta coisa que para alguns, para mim, por exemplo, dá nos nervos, esta coisa do “bilú-bilú, que lindinha esta criancinha”
o suporte do significante, a letra
Porque, se faço uma linha de bastões, é perfeitamente claro que, qualquer que seja meu empenho, não haverá um só semelhante, e eu diria mais, eles são muito mais convincentes como linha de bastões, pois justamente não me terei esforçado por fazê-los rigorosamente semelhantes.
O Marquês de Sade, na Rua Paradis, em Marseille, fechado com seu rapazinho, procedia igualmente com os orgasmos .coups., ainda que diversamente variados, que ele tinha na companhia do parceiro, ou mesmo com alguns companheiros diversamente variados. Esse homem notável, cujas relações com o desejo deviam, seguramente, ser marcadas por um ardor pouco comum, não importa o que se pense, marcava na cabeceira de seu leito, dizem, com pequenos traços, cada um de seus orgasmos .coups. - para chamá-los por seu nome - que foi levado a cometer até sua consumação nessa espécie de retiro probatório singular.
Com certeza, é preciso estar-se bem engajado na aventura do desejo, pelo menos de acordo com tudo o que o comum das coisas nos ensina acerca da experiência mais ordinária dos mortais, para sentir uma tal necessidade de se demarcar na sucessão de suas realizações sexuais;
todavia, não é impensável que, em algumas épocas favorecidas da vida, algo possa tornar-se vago, no ponto exato em que se está no campo da numeração decimal.
O que é importante no entalhe, no traço entalhado, é algo que não podemos ignorar que aqui surge alguma coisa nova em relação ao que se pode chamar de imanência de alguma ação essencial, qualquer que seja. Este ser, que podemos imaginar ainda desprovido desse modo de orientação, o que ele fará no fim de um tempo bastante curto e limitado pela intuição, para não se sentir simplesmente solidário de um presente sempre facilmente renovado, no qual nada lhe permite discernir mais o que existe como diferença no real? Não basta dizer, já está bem evidente que essa diferença está na vivência do sujeito, do mesmo modo que não basta dizer, “mas de todo jeito, esse fulano não sou eu.”. Não é simplesmente porque Laplanche tem os cabelos assim, e que eu os tenha assado, e que ele tenha os olhos de certa maneira, e que ele não tenha exatamente o mesmo sorriso que eu, que ele é diferente. Vocês dirão: “Laplanche é Laplanche, e Lacan é Lacan”. Mas é justamente aí que está toda a questão, já que justamente, na análise coloca-se a questão de se Laplanche não é o pensamento de Lacan, e se Lacan não é o ser de Laplanche, ou inversamente. A questão não está suficientemente resolvida no real. É o significante que decide, é ele que introduz a diferença como tal no real, e justamente na medida em que o que importa não são diferenças qualitativas.
É que o significante não é um signo. Um signo - dizem-nos - é representar alguma coisa para alguém, o alguém está lá como suporte do signo. A primeira definição que podemos dar de um alguém, é alguém que está acessível a um signo. É a forma, a mais elementar, se podemos nos exprimir assim, da subjetividade. Não há objeto algum aqui ainda, há outra coisa, o signo, que representa esta alguma coisa para alguém. Um significante se distingue de um signo, primeiramente por aquilo que tentei fazer vocês sentirem, é que os significantes não manifestam senão a presença, em primeiro lugar, da diferença como tal e nada mais. A primeira coisa, portanto, que ele implica, é que a relação do signo com a coisa está apagada
De fato, sabemos desde já que é no nível do particular que sempre surge o que para nós é função universal
Mark
percuciente
irrisão
É justamente para designar que o que está em questão, onde está o problema do inconsciente, para nós, é a autonomia do sujeito, tanto quanto ela 6 não apenas preservada, que ela é sublinhada como nunca foi em nosso campo; e precisamente por esse paradoxo, pois esses caminhos que aí descobrimos não são absolutamente concebíveis se, falando propriamente, não fosse o sujeito que é o guia, e de maneira tanto mais segura quanto o é sem saber, sem ser cúmplice disso, se posso dizer, conscius, porque ele não pode progredir em direção a nada, se não for se localizando nisso só depois, pois nada é por ele engendrado, senão, justamente, à medida de um desconhecimento inicial. É isso que distingue o campo do inconsciente, tal como é revelado por Freud. É impossível formalizá- lo, formulá-lo, se não vemos a todo instante que ele só é concebível ao ver preservada, e da maneira mais evidente e sensível, essa autonomia do sujeito, quero dizer, isso pelo que o sujeito em nenhum caso poderia ser reduzido a um sonho do mundo.
Sir Allan H. Gardiner.
A teoria dos nomes próprios.
Eu nunca tive tão pouca vontade de fazer meu seminário. Não tive tempo de aprofundar por qual causa, contudo… muitas coisas a dizer.
Há momentos de abatimento, de lassidão.
O que é o nome próprio?
alfabeto fenício
alfabeto proto-semítico
fenícia textual
nome árabe
pré-transição do paleolítico ao neolítico
Nesses seixos do Mas d’Azil encontramos sinais análogos, cuja estranheza espantosa, por se assemelhar tão de perto aos sinais do nosso alfabeto, pôde desviar, vocês sabem, espíritos que não eram especialmente medíocres a toda sorte de especulações que só podiam levar à confusão, até ao ridículo.
Será que a negação é simplesmente uma conotação que, todavia, se propõe como da questão do momento em que, em relação à existência, ao exercício, à constituição de uma cadeia significante, introduz-se ali uma espécie de índice, de sigla suplementar, de palavra virtual como nos exprimimos, que deveria, portanto, ser sempre concebida como uma espécie de invenção segunda, mantida pelas necessidades da utilização de algo que se situa em diversos níveis? No nível da resposta, o que é posto em questão pela interrogação significante, isso não está lá, será que é no nível da resposta que este não é? parece bem manifestar-se na língua como a possibilidade da emissão pura da negação não? Será que, por outro lado, é na marca das relações que a negação se impõe, é sugerida pela necessidade da disjunção, tal coisa não é se tal outra é, ou não ■poderia ser com tal outra, em suma, o instrumento da negação?
Nós o sabemos, claro, não menos que outros. Mas se, no que diz respeito à gênese da linguagem, estamos reduzidos a fazer do significante algo que deve pouco a pouco se elaborar a partir do signo emocional, o problema da negação é algo que se coloca como, propriamente falando, de um salto, até mesmo de um impasse.
o inconsciente é esse lugar do sujeito onde ifiso laia
O que importa é ver que a linguagem articulada do discurso comum, em relação ao sujeito do inconsciente, enquanto ele nos interessa, está do lado de fora. Um lado de fora que reúne em si o que chamamos de nossos pensamentos íntimos, e essa linguagem que escoa do lado de fora, não de uma maneira imaterial, porque sabemos bem, pois toda sorte de coisas ali está para no-lo representar, nós sabemos o que não sabiam talvez as culturas em que tudo se passa no sopro da palavra, nós que temos diante de nós quilos de linguagem, e que sabemos, além do mais, inscrever a fala mais fugidia em discos, sabemos bem que o que é falado, o discurso efetivo, o discurso pré- consciente, é inteiramente homogeneizável como algo que se mantém do lado de fora. A linguagem, em substância, corre as ruas e, ali, há efetivamente uma inscrição sobre uma fita magnética da necessidade.
O problema do que se passa quando o inconsciente chega a se fazer ouvir ali é o problema do limite entre esse inconsciente e esse pré- consciente.
o Inconsciente é representado por ele como um fluxo, como um mundo, como uma cadeia de pensamentos. Sem dúvida a consciência também ó Ibita da coerência das percepções. O teste de realidade é a articulação das percepções entre si num mundo… Inversamente, o que encontramos no inconsciente é essa repetição significativa que nos leva de algo que se chama pensamentos, Gedanken, muito bem formados, diz Freud, a urna concatenação de pensamentos que nos escapa a nós mesmos.
os grandes matemáticos, que abriam esse além da lógica divina, Euler em primeiro lugar, tiveram muito medo. Eles sabiam o que faziam; eles encontravam, não o vazio da extensão do passo cartesiano, que finalmente, apesar de Pascal, não produz mais medo em ninguém, porque já se tem coragem de ir habitá- lo cada vez mais longe, mas o vazio do Outro, lugar infinitamente mais temível, já que é preciso alguém nele
Não é sem surpresa, não é sem malícia que podemos encontrar, sob a pena de Bergson, algumas linhas pelas quais ele se levanta contra toda idéia do nada, posição bem conforme a um pensamento em seu fundo atado a uma espécie de realismo ingênuo:.“Existe mais, e não menos, na idéia de um objeto concebido como não existente do que na idéia desse mesmo objeto concebido como existente, pois a idéia do objeto não existente é necessariamente a idéia do objeto existindo com, a mais, a representação de uma exclusão desse objeto pela realidade atual tomada em bloco”
Eduard Pichon ou Damourette,
gramática especialmente da língua francesa na qual suas observações vêm apontar que não existe, dizem eles, propriamente falando, negação em francês
caráter de sugestão disposicional,
Originalmente, je n ‘y vais pás pode se acentuar por uma virgula: je n ‘y vais, pas un seul pas não vou lá, nem um só passo., se posso dizer. Je n ‘y vois point, même pas d’un point, je n ‘y trouve goutte, il n ‘en reste mie .não vejo absolutamente nada;
não encontrei nada lá, nem uma gota; não resta nada, nem uma migalha.
Il n’y a ici pas un chat” .Aqui não há um só gato..
proposições universais A e E se opõem em seu próprio nível como não sabendo e não podendo ser verdadeiras ao mesmo tempo.
Se digo todo traço é vertical isso quer dizer que, quando não há verticais, não há traço. Em todo caso, isso é ilustrado pelo setor vazio do quadrante. Não somente o setor vazio não contradiz, não é contrário à afirmação todo traço é vertical, mas a ilustra. Não há nenhum traço que não seja vertical, nesse setor do quadrante. Eis, portanto, ilustrada pelos dois primeiros setores a afirmativa universal.
O que nós trazemos e que renova a questão é isto; digo que Freud promulga, avança a fórmula que é a seguinte: o pai é Deus ou todo pai é Deus. Daí resulta, se mantivermos essa proposição no nível universal, a de que não há outro pai senão Deus, o qual, por outro lado, quando à existência, é antes na reflexão freudiana aufgehoben, antes posto em suspensão, até mesmo ein dúvida radical. O que está em questão é que a ordem de função que introduzimos com o Nome do pai é essa alguma coisa que, ao mesmo tempo, tem seu valor universal, mas que remete a você, ao outro, o encargo de controlar se há um pai ou não dessa natureza.
Ensaios de Psicanálise Aplicada
nosso pai Freud
obra de Karlgren que se chama Grammata serica, o que quer dizer exatamente os significantes chineses
prática da literatura chinesa
Mareei Granet,
Chou-King
O paradoxo de Russel é o seguinte: fala-se do conjunto de todos os conjuntos que não se compreendem a eles mesmos
se digo de não compreender é para que possam compreender de todas as maneiras que ele também não se compreende a ele mesmo.
Passar por aí não é inútil, vão ver, pois vamos por essa estrada poder criticar a função de nosso objeto.
uma vez que somos teóricos dos conjuntos e que já há uma classe do conjunto dos conjuntos que se compreendem a eles mesmos, não há verdadeiramente nenhuma objeção a que façamos a classe oposta - emprego classe, aqui, porque é bem aí que a ambigüidade vai residir - a classe dos conjuntos que não se compreendem a eles mesmos, o conjunto de todos os conjuntos que não se compreendem a eles mesmos.
Aristóteles, excelente, a obra A História dos Animais
os seus orais que adoram os seios, adoram os seios porque esses seios são um falo. E é mesmo por isso, porque é possível que o seio seja também falo que Melanie Klein o faz aparecer imediatamente tão rápido como o seio, desde o início, dizendo-nos que, afinal, é um pequeno seio mais cômodo, mais portátil, mais delicado.
O que é preciso dizer é que, enquanto é o significante falo que vem como fator revelador do sentido da função significante num certo estado, é na medida em que o falo vem no mesmo lugar, sobre a função simbólica onde estava o seio, é na medida em que o sujeito se constitui como fálico, que o pênis, que está no interior do parêntese do conjunto dos objetos que chegaram para o sujeito no estado fálico, que tanto o pênis, podemos dizer, não é mais fálico quanto o seio não é mamário, mas que as coisas se colocam muito mais gravemente nesse nível, a saber, que o pênis, parte do corpo real, cai sob o corte dessa ameaça que se chama de castração. É em razão da função significante do falo, como tal, que o pênis real cai sob o golpe do que foi de início apreendido na experiência analítica como ameaça, a saber, a ameaça da castração. Eis, então, o caminho pelo qual os conduzo. Eu lhes mostro aqui o objetivo e o que visamos. Trata-se agora de percorrê-la, passo a passo, dito de outra maneira, de chegar ao que, desde o início deste ano, eu preparo e abordo pouco a pouco, a saber, a função privilegiada do falo na identificação do sujeito.
que haveria algum paradoxo àquilo que Kant coloca, a negação na rubrica das categorias designando as qualidades, a saber, como segundo tempo, pode-se dizer, das categorias da qualidade, a primeira sendo a realidade, a segunda sendo a negação e a terceira sendo a limitação
Dicionário de etimologia latina de Ernout e Meillet
naught
claque
A Crítica da Razão Pura é tão bem escrita quanto os livros de Freud e isso não é dizer pouco.
A referência do amor ao úmido não é minha, ela está no Banquete
é justamente isso que é interessante, a saber, que não é porque o pênis não está ali que o falo não está. Eu direi mesmo, ao contrário.
que o que o desejo procura é menos, no outro, o desejável que o desejante, isto é, o que lhe falta.
Eu desejo o outro como desejante.
O que estou acentuando é esse limite, essa fronteira que separa o desejo do amor. O que não quer dizer que eles não se condicionem por todos os tipos de pontas. E exatamente aí que está todo o drama, como penso que isso deve ser a primeira observação que vocês devem fazer sobre sua experiência de analista, estando bem entendido que acontece, como para muitos outros sujeitos nesse nível da realidade humana, e que seja frequentemente o homem comum que esteja mais perto do que chamarei, nessa ocasião, de osso. O que se deseja é evidentemente sempre o que falta, e é bem por isso que, em francês, o desejo se chama desiderium’12, o que quer dizer lamento43.
aquele que fala do amor de uma maneira tal, como se deve sem dúvida falar, comparando- o à paz das ondas, com o tom francamente cômico, mas sem fazer de propósito, ou mesmo sem se aperceber disso
Pode-se achar que me ocupo aqui um pouco demasiadamente disso que se chama de - Deus condene tal denominação. - grandes filósofos.
É que talvez não apenas eles, mas eles, eminentemente, articulam o que se pode bem chamar de uma busca, patética pelo fato dela sempre retornar, se soubermos considerá-la através de todos os seus desvios, seus objetos mais ou menos sublimes, nesse nó radical que tento desatar para vocês, a saber: o desejo. É o que espero nessa busca, se vocês me quiserem seguir, restituir decisivamente a sua propriedade de ponto inultrapassável, inultrapassável no sentido mesmo que compreendo quando digo-lhes que cada um daqueles a quem se pode chamar pelo nome de grande filósofo não poderia estar, num certo ponto, ultrapassado. Creio ter o direito de lançar-me, com a assistência de vocês, numa tal tarefa porque, enquanto psicanalistas, o desejo é nosso negócio. Sinto-me igualmente convocado a dedicar-me a esse assunto e a convocá-los a fazê-lo comigo, porque é somente retificando nossa visão sobre o desejo que podemos manter a técnica analítica em sua função primeira - a palavra “primeira” devendo ser entendida no sentido de primeiramente surgida na história, não havia dúvida no início - uma função de verdade.
É isso, sem dúvida, que nos leva a interrogar essa função num nível mais radical. É esse que tento mostrar-lhes, ao articular para vocês o seguinte, que está no fundo da experiência analítica: que estamos escravizados, como homens, quero dizer, como seres desejantes, quer o saibamos ou não, acreditando ou não que queiramos isto - a essa
função de verdade. Porque, será preciso lembrá-lo, os conflitos, os impasses, que são a matéria de nossa práxis, só podem ser objetivados ao fazerem intervir no seu jogo o lugar do sujeito como tal, enquanto ligado como sujeito na estrutura da experiência. Está aqui o sentido da identificação enquanto tal, na definição de Freud.
Para recomeçar, como faço sempre, em algum ponto de cada discurso que lhes dirijo semanalmente, lembro-lhes que esse instinto de morte não é um verme roedor, um parasita, uma ferida, nem mesmo um principio de contrariedade, algo como um tipo de Yin oposto ao Yang, de elemento de alternância. É, para Freud, algo nitidamente articulado: um princípio que envolve todo o desvio da vida, cuja vida, cujo desvio só encontram seu sentido ao se juntarem a ele. Para dizer a palavra, não é sem motivo de escândalo que alguns se afastam disso, pois vemo-nos sem dúvida de volta, de retorno, apesar de todos os princípios positivistas, é verdade, na mais absurda extrapolação, propriamente falando, metafísica e em detrimento de todas as regras pré-concebidas da prudência. O instinto de morte, em Freud, é-nos apresentado como o que, penso, em seu lugar, se situa para nós se igualando ao que chamamos aqui de significante da vida, já que o que Freud nos diz disso é que o essencial da vida, reinscrita nesse quadro do instinto de morte, nada mais é senão o desígnio, necessitado pela lei do prazer, de realizar, de repetir o mesmo desvio sempre para retornar ao inanimado. A definição do instinto de vida em Freud - não é inútil voltar a isso, acentuá-lo novamente - não é menos atópica, não é menos estranha pelo fato de que é sempre conveniente ressaltá-lo: que ele é reduzido a Eros, à libido
enquanto a dor não é sinal de dano, mas fenômeno de auto-erotismo, como há pouco tempo eu lembrava, numa conversa familiar e a propósito de uma experiência pessoal, a alguém que me escuta, a experiência de que uma dor apaga uma outra. Quero dizer que, no presente, é difícil sofrer de duas dores ao mesmo tempo; uma toma a dianteira, faz esquecer a outra; como se o investimento libidinal, mesmo sobre o próprio corpo, se mostrasse ali submetido à mesma lei, que chamarei de parcialidade, que motiva a relação com o mundo dos objetos do desejo. A dor não é simplesmente, como dizem os técnicos, em sua natureza aprazível. Ela é privilegiada, ela pode ser fetiche.
todo esforço da filosofia consiste em ir contra toda uma série de ilusões
O sono da razão engendra os monstros
objeto vazio sem conceito
após todo o esforço de logicização da matemática, ser considerado como sujeito à revisão
Foundations of arithmetic, título inglês de Frege,
tratar-se-á, da parte de vocês, se vocês verdadeiramente se interessarem por isso, de uma obra de misericórdia, visitar os doentes, interessar-se por questões pouco interessantes, será que não é também, de alguma forma, a nossa função?
os melhores analistas matemáticos da função da unidade, sobretudo Jevons e Schröder, puseram exatamente o acento, do mesmo modo como eu fiz, na função do traço unário
Da mesma forma, é em razão da dificuldade dessa questão que vocês vêem ainda, em Kant, arrastarem-se, se posso dizer assim, bem para lá da intuição pura, todos aqueles velhos restos de teologia que o entravam, e sob o nome de concepção cosmológica. “In mundo non est casus”, lembra-nos ele, nada de casual, de ocasional. “In mundo non estfatum”, nada é de uma fatalidade que estaria além de uma necessidade racional.
“In mundo non est saltus”, não há nada de salto. “In mundo non est hiatus”, e o grande refutador das imprudências metafísicas encarrega- se dessas quatro denegações, em relação às quais lhes pergunto se na nossa perspectiva elas podem aparecer como outra coisa senão o próprio estatuto, invertido, daquilo de que nos ocupamos sempre: casos, no sentido próprio do termo; fatum, falando propriamente, já que nosso
inconsciente é oráculo, tantos hiatus quanto há de significantes distintos, tantos saltos quanto se produz de metonímias. É porque há um sujeito que se marca a si mesmo ou não com o traço unário, que é 1 ou -1, que pode haver um -a, que o sujeito pode identificar-se com a bolinha do neto de Freud e especialmente na conotação de sua falta, não há, ens privativum. Obviamente, há um vazio e é daí que vai partir o sujeito:
leerer Gegenstand ohne Begriff.
qual outra forma de intuição pura e mesmo espacial está especialmente implicada na função da superfície, enquanto a creio capital, primordial, essencial a toda articulação do sujeito que poderemos formular.
vertigem do objeto no desejo
Se o sujeito se engana, pois, ele pode ter razão do ponto de vista do absoluto. Acontece, todavia, que mesmo para nós, que nos ocupamos do desejo, a palavra erro mantém seu sentido.
é que não é possível dar um sentido a esse termo erro, em qualquer domínio e não apenas no nosso
se trata apenas, se a palavra “erro” tem um sentido para o sujeito, de um erro em sua conta. Dito de outro modo, para todo sujeito que não conta, aí não poderia haver erro. Não é uma evidência.
E preciso ter tateado num certo número de direções para se aperceber que se crê - é aqui que estou e peço-lhes que me sigam - que só há isso que abre os impasses, os divertículos nos quais nos engajamos em torno dessa questão. Isso, evidentemente, quer dizer que a atividade de contar, para o sujeito, começa cedo.
Sr. Piaget;
La genèse du nombre chez V enfant
Uma vez mais aqui, o gênio de Freud ultrapassa a surdez, se posso dizer, daqueles a quem ele se dirige com toda a amplidão das advertências que ele lhes dá e que entram por um ouvido e saem pelo outro. O que provavelmente justifica o apelo ao terceiro ouvido místico do Sr. Thedor Reik, que não estava naquele dia muito inspirado, pois para quê um terceiro ouvido se já não se ouve nada com os dois que se tem.
que não há nenhuma
necessidade de que ele saiba contar para que se possa dizer e demonstrar ( com que necessidade constituinte de sua função de sujeito ele vai fazer um erro de conta. Nenhuma necessidade de que ele saiba, sequer que procure contar, para que esse erro de conta seja constituinte dele, sujeito, enquanto tal, ele é o erro. Se as coisas são como lhes digo, vocês devem ( estar dizendo a si mesmos que esse erro pode durar muito tempo sobre tais bases, e isso é uma verdade
a função da classe e sua relação com o universal
Unidade e totalidade aparecem aqui na tradição como solidárias, e não é por acaso que volto a elas sempre para delas fazer surgir a categoria fundamental. Unidade e totalidade, ao mesmo tempo solidárias, ligadas uma a outra nessa relação que se pode chamar de relação de inclusão, a totalidade sendo totalidade em relação às unidades, mas a unidade sendo C o que funda a totalidade como tal, ao lançar a unidade em direção a esse ( outro sentido, oposto àquele que distingo como sendo a unidade de uin todo. E em torno disso que prossegue esse mal-entendido dentro da lógica dita das classes, o mal-entendido secular da extensão e da compreensão
que há uma estrutura topológica da qual se tratará de demonstrar em que ela é necessariamente a do sujeito, estrutura que comporta que haja alguns de seus laços que não possam ser reduzidos.
É todo o interesse do modelo do meu toro. É que, como vocês vêem, basta olhar para ele, há sobre esse toro um certo número de círculos traçáveis; aquele, já que se fecharia em si mesmo, eu o chamarei, simples questão de denominação, círculo pleno. Nenhuma hipótese sobre o que está em seu interior, é uma simples etiqueta que acredito, Deus meu, não ser pior que nenhuma outra, considerando-se tudo.
Felizmente, o Sr. Poincaré percebe muito bem que é na topologia que se encontra o suco do elemento intuitivo, e que não se pode resolvê-lo. E que, eu diria mais, fora da intuição não se pode ( fazer essa ciência que se chama de topologia, não se pode começar a articulá-la, porque é uma grande ciência.
“Será que ao articular a coisa assim”, perguntaram-me, “você entende manifestar outra coisa além de uma pura e simples simbolização, substituível por qualquer outra, ou alguma coisa que se prenda mais radicalmente à própria essência do sujeito?” “Sim”, respondi, “é nesse sentido que é necessário entender o que desenvolvi diante de vocês” e é o que me proponho continuar a desenvolver, com a forma do toro.
No diálogo que empreendo com vocês, há forçosamente hiatus, saltus, casus, ocasiões, para não falar do fatuvi. Dito de outro modo, ele é cortado por diversas coisas,
O inventor da psicanálise não é Fireud, mas Anna O, como todos sabem, e, bem entendido, por trás dela muitos outros, nós todos.
O neurótico quer saber o quê? Aqui, vou diminuir o ritmo do meu discurso, para que vocês compreendem bem, pois cada palavra tem importância. Ele quer saber o que há de real naquilo de que ele é a paixão, ou seja, o que há de real no efeito do significante, o que supõe, é claro, que já avançamos suficientemente longe para sabermos que o que se chama de desejo, no ser humano, é impensável a não ser dentro dessa relação com o significante e os efeitos que ali se inscrevem. Esse significante que ele mesmo é por sua posição, ou seja, enquanto neurose viva, é - se vocês se reportarem a minha definição do significante - é, aliás, inversamente o que a justifica, é que ela é aplicável, aquilo por que esse criptograma que é uma neurose, o que o faz assim, o neurótico, como tal um significante e nada mais, pois o sujeito a que ele serve justamente está em outra parte: é o que chamamos de seu inconsciente.
E é por isso que ele é, segundo a definição que lhes dou, enquanto neurose, um significante: é que ele representa um sujeito oculto. Mas para quê? Para nada mais que um outro significante.
O neurótico quer retransformar o significante naquilo de que ele é o signo. O neurótico não sabe, e não sem razão, que é enquanto sujeito que ele fomentou isso: o advento do significante enquanto o significante é o apagador50 principal da coisa; que é ele, o sujeito que, ao apagar todos os traços da coisa, faz o significante. O neurótico quer apagar esse apagamento, quer fazer com que isso não tenha acontecido.
Esse é o sentido mais profundo do comportamento sumário, exemplar, do obsessivo. Aquilo sobre o qual ele volta sempre, sem jamais poder, obviamente, abolir seu efeito - pois cada um de seus esforços para aboli- lo só faz reforçá-lo - é fazer com que esse advento da função de significante não se tenha produzido, que se encontre o que há de real na origem, a saber, aquilo de quê tudo isso é signo.
Por mais extremamente metapsicológica que nossa investigação possa parecer, a alguns, para não prossegui-la exatamente sobre a mesma aresta onde a prosseguimos, porquanto a análise só se concebe nessa perspectiva das mais escatológicas, se assim posso exprimir-me, de uma erótica, mas impossível também sem manter, ao menos num certo nível, a consciência do sentido dessa perspectiva de fazer com conveniência na prática, o que vocês têm a fazer, isto é, obviamente, não pregar uma erótica, mas se virar com o fato de que, mesmo entre as pessoas mais normais e no interior da aplicação plena e inteira, e de boa vontade, das normas, bem. Isso não funciona. Que não apenas como La Rochfoucauld disse, “há bons casamentos, mas não os há deliciosos”, podemos acrescentar que, desde então, tudo se deteriorou um pouco maíg, já que não os há tampouco bons, digo, dentro
. -f f . f . da perspectiva do desejo. Seria, todavia, um pouco inverossímil que tais propósitos não possam ser postos no primeiro plano, numa assembléia de analistas. Isso não faz de vocês os propagandistas de uma erótica nova, isso lhes situa o que vocês têm a fazer em cada caso particular:
têm a fazer exatamente o que cada um tem a fazer para si e pelo motivo que o leva a maior ou menor necessidade de sua ajuda, ou seja, aguardando o astronauta da erótica futura, soluções artesanai
muitas coisas se passarão para que, quando vier à luz, o sujeito saiba não apenas que esse saber o rejeita, mas que esse saber, ele próprio, deve ser rejeitado, uma vez que ele se mostrará estar sempre ou além ou aquém do que é necessário atingir, para a realização do desejo. Dito de outro modo, se jamais o sujeito - o que é seu objetivo desde o tempo de Parmênides - chega à identificação, à afirmação de que é to auxo, o mesmo, que pensar e ser, uoevo xai evuou, nesse momento aí ele próprio se encontrará irremediavelmente dividido entre seu desejo e seu ideal. Isso, se posso dizer, está destinado a demonstrar o que eu poderia chamar de estrutura objetiva do toro em questão.
Mas, por que me recusariam esse uso da palavra objetivo, já que é clássico, no que concerne ao domínio das idéias, e ainda empregado até Descartes?
o 1 era o bem, o belo, o verdadeiro, o ser supremo. Aquilo em que consiste a inversão à qual somos solicitados a fazer frente, nessa ocasião, é apercebermo-nos que,. por mais legitima que possa ser essa adoração, do ponto de vista de uma elação afetiva, não é menos verdadeiro que o 1 nada mais é senão a realidade de um muito estúpido bastão. Só isso.
o sujeito só é sujeito porque fala
O sujeito pode empreender dizer o objeto de seu desejo. Ele só faz A Identificação isso mesmo. E mais que um ato de enunciação; é um ato de imaginação.
Isso suscita nele uma manobra da função imaginária, e, de um modo necessário, essa função se revela presente, tão logo aparece a frustração.
Vocês sabem a importância, o acento que tenho posto, depois de outros, depois sobretudo de Santo Agostinho, sobre o momento do despertar da paixão ciumenta na constituição desse tipo de objeto que é o mesmo que construímos como subjacente a cada uma de nossas satisfações: a criancinha, presa da paixão ciumenta, diante de seu irmão que, para ela, em imagem, faz surgir a posse desse objeto, o seio principalmente, que até então foi apenas o objeto subjacente, elidido, mascarado para ele por trás desse retorno de uma presença ligada a cada uma de suas satisfações; que não foi - nesse ritmo em que se inscreveu, em que se sente a necessidade de sua primeira dependência - senão o objeto metonímico de cada um de seus retornos; ei-lo repentinamente produzido para ele na claridade, nos efeitos para nós assinalados por sua palidez mortal, a claridade dessa alguma coisa de nova que é o desejo.
O desejo do objeto como tal, uma vez que ele repercute até no próprio fundamento do sujeito, que ele o abala bem além de sua constituição, como satisfeito ou não, como repentinamente ameaçado no mais íntimo de seu ser, como revelando sua falta fundamental, e isso na forma do Outro, como trazendo à luz ao mesmo tempo a metonímia e a perda que ela condiciona.
Essa dimensão de perda, essencial à metonímia, perda da coisa no objeto, está aí o verdadeiro sentido dessa temática do objeto enquanto perdido e jamais reencontrado, o mesmo que está no fundo do discurso freudiano, e incessantemente repetido.
Um passo a mais: se levamos a metonímia mais longe, vocês sabem, é a perda de alguma coisa de essencial na imagem, nessa metonímia que se chama de Eu, nesse ponto de nascimento do desejo, nesse ponto de palidez onde Santo Agostinho pára, diante do lactante, como faz Freud, diante de seu neto, dezoito séculos mais tarde. E falsa a idéia de que se pode dizer que o ser de quem tenho ciúmes, o irmão, é meu semelhante. Ele é minha imagem, no sentido em que a imagem em questão é imagem fundadora de meu desejo. Essa é a revelação imaginária, e é o sentido e a função da frustração. Tudo isso já é conhecido. Tudo o que faço é relembrá-lo, como segunda fonte da experiência, depois da privação real, a frustração imaginária. Mas, como para a privação real, tenho tentado, hoje, situar a vocês para que ela serve no termo que nos interessa, ou seja, na fundação do simbólico, assim como estamos aqui para ver como esta imagem fundadora, reveladora do desejo, vai situar-se no simbólico.
o impasse do neurótico, são em primeiro lugar e antes de tudo o problema dos impasses de seu desejo, esse impasse sensível a cada instante, grosseiramente sensível, e contra o qual a gente o vê sempre chocar-se. É o que exprimirei sumariamente, dizendo que, para seu desejo, é-lhe necessária a sanção de uma demanda. O que vocês lhe negam, senão isto que ele espera de vocês, que lhe peçam que deseje congruentemente? Sem falar do que ele espera de sua cônjuge, de seus pais, de sua linhagem e de todos os conformismos que o rodeiam.
O que é que isso nos permite construir e perceber? Na medida em que a demanda se renova, segundo as voltas percorridas, segundo os círculos plenos, bem em torno e os sucessivos retornos de que necessita a revinda mais inserida pelo laço da demanda, da necessidade, suposto que, como lhes deixei entender através de cada um de tais , retornos, o que nos permite dizer que o círculo elidido, o círculo que chamei simplesmente - para que vocês vejam o que quero dizer, em relação ao toro - de círculo vazio, vem aqui materializar o objeto metonímico sob todas as demandas.
desejo num, demanda no outro; demanda de um, desejo do outro, que é o nó onde se atravanca toda a dialética da frustração.
O que é importante captar aqui é que, para esse recobrimento do objeto à demanda, se o outro imaginário .é. assim constituído, na inversão das funções do círculo do desejo com o da demanda, o Outro, para a satisfação do desejo do sujeito, deve ser definido como sem poder. Insisto sobre esse sem, pois, com ele, emerge uma nova forma de negação, na qual se indicam, propriamente falando, os efeitos da frustração. Sem é uma negação, mas não uma qualquer: é uma negação-ligação, que materializa bem, na língua inglesa, a homologia conformista das duas relações dos dois significantes: within e without. E uma exclusão ligada que, já em si só, indica sua inversão. Um passo a mais, vamos dá-lo, é o do não-sem. O Outro sem dúvida se introduz, na perspectiva ingênua do desejo como sem poder, mas essencialmente o que o liga à estrutura do desejo é o não-sem: ele também não é sem poder. E por isso que esse Outro, que introduzimos enquanto metáfora do traço unário, isto é, do que encontramos em seu nível e que ele substitui numa regressão infinita, já que ele é o lugar em que se sucedem esses um diferentes uns dos outros, dos quais o sujeito é apenas a metonímia, esse Outro como um - e o jogo de palavras faz parte da fórmula que emprego aqui para definir o modo sob o qual o introduzi - acha-se, uma vez fechada a necessidade dos efeitos da frustração imaginária, como tendo esse valor único, pois ele só não é sem, não-sem poder, ele está na origem possível do desejo posto como condição, mesmo se tal condição fica em suspenso. Por isso, ele é como não-um ele dá ao -1 do sujeito uma outra função, que se encarna, antes de tudo, nessa dimensão que esse como situa para vocês, como sendo o da metáfora. É nesse nível, no nível do como não-um e de tudo o que vai ficar em seguida suspenso,
como o que chamei de condicionalidade absoluta do desejo,
somos cada dia o próprio suporte de sua pressão, na análise, e quando o sujeito neurótico, com quem trabalhamos fundamentalmente, se apresenta diante de nós exigindo de nós a resposta, isso mesmo se nós lhe ensinamos o preço que há em suspender essa resposta? A resposta sobre o quê? E justamente aí que se justifica o nosso esquema, uma vez que ele nos mostra, um substituindo ao outro, desejo e demanda é que, justamente, a resposta é sobre seu desejo e sobre sua satisfação.
não nos esqueçamos de que Totem e tabu era seu livro preferido
o que o gênio de Fireud nos assegura é o seguinte: que o desejo é fundamentalmente, radicalmente estruturado por esse nó que se chama de Édipo, e de onde é impossível eliminar esse nó interno que é o que tento sustentar diante de vocês por estas figuras, esse nó interno que se chama de Édipo, uma vez que ele é essencialmente o quê? Ele é essencialmente o seguinte: uma relação entre uma demanda que toma um valor tão privilegiado que se torna o comando absoluto, a lei, e um desejo que é o desejo do Outro, do Outro de que se trata, no Édipo. Essa demanda articula-se assim: tu não desejarás aquela que foi meu desejo. Ora, é isso que funda em sua estrutura o essencial, o ponto de partida da verdade freudiana
está, de alguma maneira, obrigado a esse tipo de desvio irredutível, esse algo semelhante à impossibilidade no toro da redução do laço sobre certos círculos, que faz com que o desejo deva incluir em si o vazio, esse buraco interno especificado na relação com a Lei original.
relação com o Outro não é de forma alguma essa relação imaginária, fundada sobre a especificidade da forma genérica, posto que essa relação com o Outro ali está especificada pela demanda, uma vez que ela faz surgir dessé Outro, que é o Outro com O maiúsculo, sua essencialidade, se posso dizer, na constituição do sujeito, ou - para retomar a forma que se dá sempre ao verbo inter essar - sua inter-essencialidade com o sujeito. O campo do qual se trata não poderia, pois, de modo algum ser reduzido ao campo da necessidade e do objeto que, pela rivalidade de seus semelhantes, pode, em última análise, impor-se, pois esta será aí a inclinação onde nós iremos encontrar nosso recurso para a rivalidade derradeira: impor-se como objeto de subsistência para o organismo. Esse outro campo, que nós definimos e para o qual é feita nossa imagem do toro, é um outro campo, um campo de significante, campo de conotação da presença e da ausência e onde o objeto não é mais objeto de subsistência, mas de ex-sistência do sujeito.
incidentemente trago as armadilhas da dupla negação e que o eu não saiba que eu queira não é entendido da mesma maneira, penso, que eu sei que eu não quero.
anastomose
Na própria hiância por onde o sujeito se liga duplamente ao plano do discurso universal vou inscrever hoje os quatro pontos de confluência que são aqueles que vocês conhecem: A; s(A), a significação da mensagem enquanto é do retorno vindo do Outro, do significante que ali reside;
aqui $ .. D, a relação do sujeito com a demanda, enquanto aí se especifica a pulsão, aqui o S(A), o significante do Outro, uma vez que o Outro, em último termo, só se pode formalizar, se significantizar enquanto marcado ele próprio pelo significante, dito de outro modo, enquanto ele nos impõe a renúncia a toda metalinguagem. A hiância que se trata aqui de articular se suspende inteiramente na forma em que, no último termo, esse pedido ao Outro que responda alterna, oscila numa seqüência de retornos entre o nada pode ser e o pode ser nada. É aqui uma mensagem.
Ela se abre sobre o que nos apareceu como a abertura constituída pela entrada de um sujeito no Real. Estamos, aqui, em relação com a elaboração a mais certa do termo possibilidade: Möglichkeit. Não é do lado da coisa que está o possível, mas do lado do sujeito. A mensagem se abre sobre o termo da eventualidade constituída por uma espera na situação constituinte
desejo, tal como nós tentamos aqui cingi-la. Pode ser, a possibilidade é anterior a esse nominativo nada que, no extremo, toma valor de substituto da positividade. É um ponto, e só isso, ponto final. O lugar do traço unário está ali reservado no vazio que pode responder à espera do desejo.
É uma outra coisa diferente da questão, enquanto ela se articula nada pode ser? Que o pode ser, no nível da demanda “o que é que eu quero?”, falando ao Outro, que o pode ser que vem aqui em posição homóloga àquilo que no nível da mensagem constituía a resposta eventual.
Pode ser nada, é a primeira formulação da mensagem. Pode ser nada, isso pode ser uma resposta, mas será a resposta à pergunta nada pode ser? Justamente não. Aqui, o enunciativo nada, como colocando a possibilidade do não-lugar53 de concluir, inicialmente, como anterior à quota de existência, à potência de ser, esse enunciativo no nível da questão toma todo seu valor de uma substantivação do nada da própria questão. A frase nada pode ser se abre, por sua vez, sobre a probabilidade de que nada a determina como questão, de que nada seja determinado, de que continua possível que nada seja seguro, de que é possível que não se possa concluir, a não ser pelo recurso à anterioridade infinita do processo kafkiano, que haja pura subsistência da questão com a impossibilidade de concluir. Só a eventualidade do Real permite determinar alguma coisa, e a nominação do nada da pura subsistência da questão, eis aquilo a que, no nível da própria questão, nos dedicamos. Pode ser nada podia ser no nível da mensagem uma resposta, mas a mensagem não era justamente uma questão. Nada pode ser, no nível da questão, ( não dá senão uma metáfora, a saber, a potência de ser é do além. Toda eventualidade já desapareceu ali, e toda subjetividade também.
-213-l do desejo, tal como nós tentamos aqui cingi-la. Pode ser, a possibilidade é anterior a esse nominativo nada que, no extremo, toma valor de substituto da positividade. É um ponto, e só isso, ponto final. O lugar do traço unário está ali reservado no vazio que pode responder à espera do desejo.
A impotência do Outro em responder se deve a um impasse, e esse impasse nós o conhecemos: chama-se de limitação de seu saber.
Ele não sabia que estava morto, que ele só chegou a essa absolutidade do Outro pela morte não aceita, mas sofrida, e sofrida pelo desejo do sujeito. Disso o sujeito sabe, se posso dizer; que o Outro não deva sabê- lo, que o Outro demanda não saber. Está aí a parte privilegiada nessas duas demandas não confundidas, a do sujeito e a do Outro, é que justamente o desejo se define como a intersecção daquilo que, nas duas demandas, não é para ser dito. É somente a partir daí que se liberam as demandas formuláveis por toda parte, menos no campo do desejo.
A maneira certa para o neurótico resolver o problema desse campo do desejo, enquanto constituído por esse campo central das demandas, que justamente se recortam e por isso devem ser excluídas, é que ele acha que a maneira correta é que você saiba. Se não fosse assim, ele não faria psicanálise.
Falei-lhes há pouco de engajamento; o neurótico, contrariamente ao que se crê, é alguém que se engaja como sujeito. Ele se fecha após a saída dupla da mensagem e da questão; ele próprio se põe em balanço para decidir entre o nada pode ser e o pode ser nada, ele se põe como real face ao Outro, isto é, como impossível
. E, no entanto, nada da realidade do homem, nada do que ele busca e do que ele segue se sustenta senão dessa dimensão do oculto, uma vez que é ela que infere a garantia de que há um objeto existente, sim, e que ela dá por reflexão essa dimensão do oculto. Afinal, é ela que dá sua única consistência a essa outra problemática, a fonte de toda fé, e da fé em Deus eminentemente, é bem o fato de nós nos deslocarmos dentro da própria dimensão daquilo que, embora o milagre do fato de que ele deva saber tudo lhe dê, em suma, toda sua subsistência, nós agimos como se sempre os nove décimos de nossas intenções fossem por ele ignorados, ele não sabia nada disso. Nem uma palavra à Rainha- mãe, tal é o principio sobre o qual toda constituição subjetiva se desdobra e se desloca.
Pois o justo vai hesitar, sim, para saber se, para preservar sua família, ele deve ou não lançar um falso testemunho. Mas o que quer isso dizer? Será que quer dizer que, se ele dá chance através disso ao ódio do tirano contra o inocente, ele poderia lançar um testemunho verdadeiro, denunciar seu companheiro como judeu, quando ele o é de fato? Não será aí que começa a dimensão moral, que não é saber qual o dever que temos de preencher ou não face à verdade, nem se nossa conduta cai ou não sob o golpe da regra universal, mas se nós devemos ou não satisfazer ao desejo do tirano?
Aí está a balança ética propriamente falando; e é nesse nível que, sem fazer intervir nenhum dramatismo externo - não precisamos disso - temos também de nos ocupar com aquilo que, no término da análise,
fica suspenso ao Outro. É enquanto a medida do desejo inconsciente, no término da análise, permanece ainda implicada no lugar do Outro que encarnamos, como analistas, que Freud, no término de sua obra, pode marcar como irredutível o complexo de castração, como inassumível pelo sujeito
topologia algébrica
Qual é o interesse disso? O interesse é que, se chegamos a uma dialética elementar, como a da oposição de duas demandas, se é no interior desse mesmo toro que eu simbolizo por um outro círculo análogo a demanda do outro, com o que ele vai comportar para nós de “ou…ou …”, “ou o que eu demando”, ou o que tu demandas”. Nós vemos isso todos os dias, na vida cotidiana. Isso para lembrar que, nas condições privilegiadas, no nível onde vamos procurá-la, interrogá-la na analise, é preciso que nos lembremos disto, a saber, da ambigüidade que existe sempre no próprio uso do termo ou, ou então, esse termo da disjunção, simbolizado em lógica assim: A v B.
psitacismo de papagaio
onde estava a Coisa, eu .Je. devo advir.
nada pode ser e do pode ser nada.
Talvez, meu texto justamente nesse ponto e a especificação de sua distinção como mensagem e questão, depois, como resposta, porém não no nível da questão, como suspensão da questão no nível da questão, foi complexo demais para ser entendido facilmente por aqueles que não anotaram os seus diversos contornos, a fim de voltar a eles posteriormente. Por mais decepcionado que eu possa estar, sou eu, inevitavelmente que estou errado. É por isso que volto a isso, e para me fazer entender. Será que hoje, por exemplo, eu não lhes sugeriria ao menos a necessidade de voltar novamente a isso? E, afinal de contas, é simplesmente lhes perguntando: Vocês pensam que “nada de seguro”, como enunciação, pode lhes parecer prestar-se ao mínimo deslize, à mínima ambigüidade com “certamente nada”? Contudo, não é parecido.
Existe a mesma diferença entre o nada pode ser e o pode ser nada.
uma nadificação que se assimilaria à negatividade hegeliana. O nada que tento, para vocês, fazer proceder desse momento inicial na instituição do sujeito, é outra coisa. O sujeito introduz o nada como tal e esse nada é distinto de qualquer ser de razão, que é aquele da negatividade clássica, de qualquer ser imaginário, que é aquele do ser impossível quanto à sua existência, o famoso Centauro que detém os lógicos, todos os lógicos, e mesmo os metafísicos, na entrada de seus caminhos em direção à ciência, que também não é o ens privativum que é, propriamente falando, o que Kant, admiravelmente, na definição dos seus quatro nadas, da qual ele tira tão pouco partido, chama de nihil negativum, a saber, para empregar seus próprios termos: leerer Gegenstand ohne Begriff, um objeto vazio, porém acrescentemos, sem conceito, sem ser possível agarrá-lo com a mão. E por isso, para introduzi-lo, que tive de recolocar, diante de vocês, a rede de todo o grafo, a saber, a rede constitutiva da relação com o Outro e todas as suas conexões.
Isso não é nada mais do que o signo impossível de se apagar, pelo fato de que o objeto do desejo constitui-se apenas na relação com o Outro, enquanto ele próprio se origina do valor do traço unário. Nenhum privilégio no objeto, senão nesse valor absurdo dado a cada traço por ser um privilégio.
eu te dou tua realidade abominável, a ti, o Pai, substituindo-me a ti nessa ação violenta contra a mãe.
Sade, no seu testamento, especifica, que do seu túmulo e intencionalmente de sua memória, apesar de ser escritor, não deve literalmente permanecer nenhum traço .pas de trace.,
A saber, que o fim, que o cúmulo do gozo masoquista não reside tanto no fato que ele se oferece a suportar ou não tal ou qual sofrimento corporal, porém nesse extremo singular que, nos livros, vocês encontrarão sempre nos textos pequenos ou grandes da fantasmagoria masoquista, essa anulação propriamente dita do sujeito, na medida em que ele se torna puro objeto. Há apenas como fim o momento onde o romance masoquista, qualquer que seja, chega a esse ponto que, de fora, pode parecer tão supérfluo, e mesmo de floreios, de luxo, que é, propriamente falando, que ele se forja a si próprio, esse sujeito masoquista, como o objeto de uma transação comercial ou, mais exatamente, de uma venda entre os dois outros que o transferem como um bem. Bem venal e, observem, nem mesmo fetiche, porque o fim último se indica pelo fato de que se trata de um bem vil, vendido por pouco dinheiro, que não precisará nem mesmo ser preservado como o escravo antigo que ao menos se constituía, se impunha ao respeito pelo seu valor comercial.
a saber, a perturbação profunda do gozo, na medida em que o gozo se define em relação à Coisa, pela dimensão do Outro como tal, enquanto que essa dimensão do Outro se define pela introdução do significante.
Jones, então, no curso de uma obra da qual o encaminhamento é apaixonante em razão de seus próprios desconhecimentos, a propósito especialmente do estado fálico e de sua experiência excepcionalmente abundante das homossexuais femininas, Jones encontra o paradoxo do complexo de castração, que constitui certamente o melhor de tudo a que ele aderiu - e bem fez em aderir - para articular sua experiência, e onde literalmente ele nunca penetrou um tanto assim. .gesto com a mão). A prova é a introdução desse termo, certamente flexível, com a condição de que se saiba o que fazer dele, por exemplo, que se saiba localizar aí o que não pode ser para compreender a castração
Dizer que o Outro é a lei ou que é o gozo enquanto proibido, é a mesma coisa. Então, alerta àquele - que, aliás, não está aqui hoje - que da angústia fez o suporte e o signo e o espasmo do gozo de um si identificado, identificado exatamente como se ele não fosse meu aluno, com esse fundo inefável da pulsão como do coração, do centro, do ser justamente onde não há nada. Ora, tudo o que lhes ensino sobre a pulsão é justamente que ela não se confunde com este si mítico, que ela nada tem a ver com o que dela se faz dentro de uma perspectiva junguiana. Evidentemente, não é comum se dizer que a angústia é o gozo daquilo que se poderia chamar de último fundo de seu próprio inconsciente. E a isso que se referia esse discurso.
a angústia é a sensação do desejo do Outro.
Normalmente, faço-me compreender de uma maneira enviesada, o que não é tão ruim;
isso evita que vocês se enganem da maneira certa
Essa preservação necessária do campo da demanda, que humaniza pela lei o modo de relação do desejo com seu objeto, eis do que se trata, nesse ponto, e o que faz com que o perigo para o sujeito seja, não como se diz em todos aqueles desvios que fazemos, há anos, ao tentar contrariar a análise, que o perigo para o sujeito não seja de abandono algum da parte do Outro, mas de seu abandono de sujeito à demanda. Pois, na medida em que ele vive, que desenvolve a constituição de sua relação com o falo estritamente sobre o campo da demanda, é aí que essa demanda não tem, propriamente falando, fim;
pois esse falo - ainda que seja necessário para introduzir, para instaurar esse campo do desejo, que ele seja demandado - como vocês sabem, não está no poder do Outro, propriamente falando, fazer dele o dom, no plano da demanda.
E na medida em que a terapêutica não consegue absolutamente resolver, melhor do que tem feito, o término da análise, não consegue fazê-la sair do círculo próprio à demanda, que ela esbarra, que ela termina no fim nessa forma reivindicatória
Não há temor da afânise, há o temor de perder o falo, porque só o falo pode dar seu campo próprio ao desejo.
Mas agora, que não nos falem tampouco de defesa contra a angústia.
Ninguém se defende contra a angústia, assim como não há temor da afânise. A angústia está nos princípios das defesas, mas ninguém se defende contra a angústia.
a angústia é o desejo do Outro
quer se trate ’ obsessivo, do histérico, do perverso, até mesmo do esquizofrênico, de articular a relação entre o desejo e a demanda.
o estatuto topológico que buscamos como utilizável em nosso modelo
É justamente porque nos foge e nos escapa que se revelará fecundo para nós. Experimentemos um outro método para marcar aquilo de que os matemáticos, os topólogos, dispensam perfeitamente na definição, no uso que fazem dessa estrutura do toro em topologia; eles mesmos, na teoria geral das superfícies, valorizaram a função do toro como elemento irredutível de toda redução das superfícies àquilo que se chama de uma forma normal. Quando digo que é um elemento irredutível, quero dizer que não se pode reduzir o toro a outra coisa
Quando vocês têm a esfera, o toro, o cross-cap e o buraco, vocês podem representar qualquer superfície que se chama de compacta, isto é, uma superfície que seja decomponível em fragmentos.
Há outras superfícies que não são decomponíveis em fragmentos, mais nós as deixamos de lado.
mandarinais
Sra. Aulagnier
Angústia e identificação
De fato, o que significaria exatamente reconhecer a angústia? Ela não espera e não tem necessidade de ser nomeada para submergir o eu, e não compreendo o que se poderia querer dizer, ao dizer que o sujeito é angustiado sem o saber. Podemos nos perguntar se o próprio da angústia não é justamente o não se nomear;
o diagnóstico, a denominação, só pode vir do lado do Outro, daquele diante de quem ela aparece. Ele, o sujeito, é o afeto da angústia, ele a vive totalmente e é exatamente essa impregnação, essa captura de seu eu que se dissolve, que lhe impede a mediação da palavra.
orgasmo
Não preciso lembrar, aqui, o papel metafórico, mediador da palavra, nem a distância existente entre uma vivência afetiva e sua tradução verbal. A partir do momento em que o homem põe em palavras seus afetos, ele faz deles justamente outra coisa, faz deles pela palavra um meio de comunicação, ele os faz entrar no domínio da relação e da intencionalidade; transforma em comunicável o que foi vivido no nível do corpo e que, como tal, em última análise, permanece como algo da ordem do não-verbal. Todos sabemos que dizer que se ama alguém só tem longínquas relações com o que é, em função desse mesmo amor, sentido no nível corporal. Dizer a alguém que o desejamos - lembra- nos o Sr. Lacan -é incluí-lo em nosso fantasma fundamental. E também, provavelmente, fazer disso o testemunho, a testemunha de nosso próprio significante. Seja o que for que possamos dizer a esse respeito, tudo é feito para nos mostrar a distância existente entre o afeto enquanto emoção corporal, interiorizada, enquanto algo que adquire a sua fonte mais profunda naquilo que, por definição, não pode se exprimir em
palavras, eu quero falar do fantasma, e a palavra que nos aparece, assim, em toda a sua função de metáfora. Se a palavra é a chave mágica e indispensável que pode apenas nos permitir entrar no mundo da simbolização, ora, penso que justamente a angústia responde a esse momento em que essa chave não abre mais nenhuma porta, em que o eu tem de enfrentar o que está por trás ou adiante de toda simbolização, em que o que aparece é o que não tem nome, essa “figura misteriosa”, esse “lugar de onde surge um desejo que não se pode mais apreender”, em que se produz, para o sujeito, uma telescopagem entre fantasma e realidade; o simbólico se esvai para dar lugar ao fantasma enquanto tal, o eu aí se dissolve e é essa dissolução que chajnamos de angústia.
Ora, se na identificação trata-se de algo que se passa no nível do desejo, desejo do sujeito em relação ao desejo do Outro, torna-se evidente que a fonte maior da angústia, em análise, vai-se encontrar naquilo que é sua própria essência: o fato de que o Outro é, nesse caso, alguém cujo desejo mais fundamental é não desejar, alguém que, por isso mesmo, se permite todas as projeções possíveis, desvela-as também em sua subjetividade fantasmática e obriga o sujeito a se colocar periodicamente a pergunta de o que é o desejo do analista, desejo sempre presumido, jamais definido, e por isso mesmo podendo, a todo momento, tornar-se esse lugar do Outro, de onde surge, para o analisado61 a angústia.
não existe angustiômetro. Não se é pouco ou muito angustiado: ou se é, ou não se é.
é muito difícil falar da angústia enquanto sinal, no nível do sujeito
O sadismo, a agressividade podem, por exemplo, suscitar no parceiro uma reação inversa: masoquista ou passiva; a angústia só pode provocar a fuga ou a angústia. Há, aqui, uma reciprocidade de resposta que não ( deixa de levantar um problema.
se pode dizer da angústia é que sua aparição é sinal do desaparecimento momentâneo de toda referência identificatória possível.
a castração podia ser concebida como uma passagem transicional entre o que está no sujeito, como suporte natural do desejo, e essa habilitação pela lei graças à qual ele
vai se tornar o penhor por onde ele vai se designar no lugar onde ele tem que se manifestar como desejo. Essa passagem transicional é o que deve permitir atingir a equivalência pênis-falo, isto é, que o que era, enquanto emoção corporal, deve tornar-se, ceder lugar a um significante, pois é somente a partir do sujeito e jamais a partir de um objeto parcial, pênis ou outro, que pode tomar um sentido qualquer a palavra desejo.
“O sujeito demanda e o falo deseja”
no momento do orgasino, o sujeito vá encontrar, não como alguns disseram uma espécie de fusão primitiva - pois, afinal, não vemos por que o gozo mais profundo que o homem possa experimentar deveria forçosamente ser ligado a uma regressão também total - mas, ao contrário, o momento privilegiado em que, por um instante, ele atinge essa identificação sempre buscada e sempre fugidia em que ele, sujeito, é reconhecido pelo outro como o objeto de seu desejo mais profundo, mas em que, ao mesmo tempo, graças ao gozo do outro, pode reconhecê-lo como aquele que o constitui enquanto significante fálico. Nesse instante único, demanda e desejo podem, por um instante fugaz, coincidir, e é isso que dá ao eu esse desabrochamento identificatório do qual o gozo tira sua fonte. O que não se deve esquecer é que, se nesse instante demanda e desejo coincidem, o gozo traz, todavia, em si a fonte da insatisfação mais profunda, pois, se o desejo é, antes de mais nada, desejo de continuidade, o gozo é, por definição, algo de instantâneo. É isso que faz com que, imediatamente depois, se restabeleça a distância entre desejo e demanda, e a insatisfação, que é também garantia da perenidade da demanda.
Pois, o que nos mostra tudo o que está ligado à castração é que, longe de exprimir o temor de que lhe corte o pênis, mesmo se é assim que o sujeito pode verbalizá-lo, trata-se do temor de que lhe seja deixado e que se lhe corte todo o resto, isto é, que se tenha interesse por seu pênis ou por seu objeto parcial, suporte e fonte do prazer, e que se o negue, que se o desconheça enquanto sujeito. E por isso que a angústia tem, não apenas relações estreitas com o gozo, mas que uma das situações mais facilmente ansiogênicas é bem aquela onde o sujeito e o Outro têm de se enfrentar nesse nível.
A relação entre o sujeito e esse objeto parcial outra coisa mais não é senão a relação do sujeito com seu próprio corpo, e é a partir dessa relação, que permanece fundamental para todo humano, que toma seu ponto de partida e se molda toda a gama daquilo que está incluído no termo relação de objeto.
E pela via do inconsciente do Outro que o sujeito faz sua entrada no mundo do desejo. Seu próprio desejo, ele terá, antes de mais nada, de constituí-lo como resposta, como aceitação ou recusa de tomar o lugar que o inconsciente do Outro lhe designa
Ora, que vemos, nisso que é a relação oral? Antes de tudo, que demanda e resposta se significam para os dois parceiros em torno da relação parcial boca-seio. Poderemos chamar esse nível de nível do significado;
a resposta vai provocar, no nível da cavidade oral, uma atividade de absorção, fonte de prazer; um objeto externo, o leite, vai se tornar substância própria, corporal. A absorção - é daí que ela tira sua importância e sua significação. A partir dessa primeira resposta, é a procura dessa atividade de absorção, fonte de prazer, que vai se tornar a meta da demanda. Quanto ao desejo, é em outro lugar que teremos de buscá-lo, embora seja a partir dessa mesma resposta, dessa mesma experiência de satisfação da necessidade, que ele vai-se constituir. De fato, se a relação boca-seio e a atividade absorção-alimentação são o numerador da equação representando a relação oral, há também um denominador, o que põe em causa a relação criança-mãe, e é aí que pode se situar o desejo. Se. como penso, a atividade de amamentação, em função do investimento de que ela é o objeto de uma e outra parte, por causa do contato e das experiências corporais no nível do corpo tomado em sentido
amplo, que elá permite à criança, representa por sua própria escansão repetitiva a fase fundamental, essencial, da fase oral, é preciso lembrar que nunca tanto quanto aqui parece óbvia a verdade do provérbio que diz “o modo de dar vale mais do que o que se dá”. Graças, ou por causa desse modo de dar, em função daquilo que isso revelará do desejo materno, a criança vai apreender a diferença entre dom de alimentação e dom de amor.
O sujeito, então, no curso de sua evolução, terá sempre de enfrentar o dilema do ser e do ter, qualquer que seja o objeto corporal, seio, pênis, falo, que se torna o suporte fálico. Ou então, terá de se identificar àquele que o tem, mas, por não ter podido ultrapassar o estádio do suporte natural, por não ter tido acesso ao simbólico, o ter significará sempre, para ele, um “ter castrado o Outro”, ou então ele renunciará ao ter, ele se identificará então com o falo, enquanto objeto do desejo do outro, mas deverá, então, renunciar a ser, ele, o sujeito do desejo.
na perversão. Se esta última foi definida como o negativo da neurose, essa oposição estrutural é encontrada por nós no nível da identificação. O perverso é aquele que eliminou o conflito identificatório. No plano que escolhemos, o oral, diremos que, na perversão, o sujeito se constitui como se a atividade de absorção não tivesse outro objetivo senão fazer dele o objeto, permitindo ao Outro um gozo fálico. O perverso não tem e não é o falo: ele é esse objeto ambíguo, que serve a um desejo que não 6 o seu; ele só pode tirar seu gozo dessa situação estranha, em que a única identificação que lhe é possível é a que o faz identificar-se não com o Outro, nem C
com o falo, mas com esse objeto cuja atividade propicia o gozo a um falo cuja pertença ele ignora, em absoluto.
Poder-se-ia dizer que o desejo do perverso é responder à demanda fálica. Para tomar um exemplo banal, direi que o gozo do sádico precisa, para aparecer, de um Outro para quem, fazendo-se chicote, surja o prazer. Se falei de demanda fálica, o que é um trocadilho, é que, para o perverso, o outro só tem existência enquanto suporte quase anônimo de um falo para o qual o perverso cumpre seus ritos sacrificiais. A resposta perversa traz sempre em si uma negação do outro enquanto sujeito; a identificação perversa se faz sempre em função do objeto fonte de gozo, para um falo tão poderoso quanto fantasmático.
Há ainda uma palavra que gostaria de dizer, sobre a perversão em geral. Não creio que seja possível defini-la, se ficarmos no plano que poderíamos chamar de “sexual”, ainda que seja a isso que pareçam nos levar as visões clássicas, nessa matéria. A perversão é - e nisso parece- me ficar muito perto da visão freudiana - uma perversão no nível do gozo, pouco importa a parte corporal posta em jogo para obtê-lo. Se partilho da desconfiança do Sr. Lacan sobre o que se chama de genitalidade, é porque é muito perigoso fazer análise anatômica. O coito mais anatomicamente normal pode bem ser tão neurótico, ou tão perverso quanto o que se chama de uma pulsão pré-genital. Aquilo que assinala a normalidade, a neurose ou a perversão, está somente no nível da relação entre o eu e sua identificação, que permite ou não o gozo que vocês podem constatar. Se se quisesse reservar o diagnóstico de perversão só às perversões sexuais, não apenas não se chegaria a nada, pois um diagnóstico puramente sintomático nunca quis dizer nada, mas ainda seríamos obrigados a reconhecer que há muito poucos neuróticos, então, que escapariam a isso. E também não é no nível de uma culpa, da qual o perverso estaria isento, que vocês encontrarão a solução: não existe, pelo menos que eu saiba, um ser humano tão suficientemente feliz para ignorar o que é a culpa. A única maneira de abordar a perversão é tentar defini-la ali onde ela está, ou seja, no nível de um comportamento relacional. O sadismo está longe de ser sempre desconhecido, ou sempre controlado, no obsessivo. O que ele significa no obsessivo é, sim, a persistência daquilo que se chama de relação anal, ou seja, uma relação onde se trata de possuir ou de ser possuído, uma relação onde o amor que se experimenta, ou do qual se é o objeto, só pode ser significado,
para o sujeito, em função dessa possessão que pode, justamente, ir até à destruição do objeto. O obsessivo, poderíamos dizer, é, de fato, aquele que castiga bem porque ama bem; é aquele para quem a surra do pai permaneceu como a marca privilegiada de seu amor, e que busca sempre alguém a quem dá-la ou de quem recebê-la. Mas, tendo-a recebido ou dado, tendo-se assegurado de que o amam, é num outro tipo de relação com o mesmo objeto que ele buscará o gozo, e que essa relação se faça oralmente, analmente ou vaginalmente, ela só será pervertida no sentido como a entendo, e que me parece o único que possa evitar pôr a etiqueta pervertida sobre um grande número de neuróticos ou sobre um grande número de nossos semelhantes.
O sadismo torna-se uma perversão, quando a surra não é mais buscada ou dada como sinal de amor, mas quando é, enquanto tal, assimilada pelo sujeito à única possibilidade existente de fazer gozar um falo; e a visão desse gozo torna-se o único caminho oferecido ao perverso para seu próprio gozo. Tem-se falado muito da agressividade, da qual o exibicionismo tiraria sua fonte. Mostra-se para agredir o outro, sem dúvida, mas o que não se deve esquecer é que o exibicionista está convencido de que essa agressão é uma fonte de gozo, para o Outro
O pervertido, é apenas através de um gozo estrangeiro que ele busca o seu. A perversão é justamente isso: esse caminhar em ziguezague, esse desvio que faz com que seu eu esteja sempre, por mais que ele faça, a serviço de uma potência fálica anônima. Pouco lhe importa quem é o objeto, bastar-lhe- á que ele seja capaz de gozar, que ele possa fazer disso o suporte desse falo diante do qual ele se identificará, e somente com o objeto presumido capaz de lhe propiciar o gozo. E por isso que, contrariamente ao que se vê na neurose, a identificação perversa, com o seu tipo de relação de objeto, é alço cuja unidade, cuja estabilidade é o que mais surpreende.
O psicótico é um sujeito cuja demanda nunca foi simbolizada pelo Outro, para quem o real e o simbólico, fantasma e realidade, jamais puderam ser delimitados, por falta de ter podido ter acesso a essa terceira dimensão, única a permitir essa diferenciação indispensável entre esses dois níveis, isto é, o imaginário
A primeira amputação que sofre o psicótico se passa antes de seu nascimento: ele é, para sua mãe, o objeto de seu próprio metabolismo;
a participação paterna é por ela negada, inaceitável. Ele é, desde esse momento e durante toda a gravidez, o objeto parcial que vem preencher uma ausência fantasmática no nível de seu corpo. E, desde seu nascimento, o papel que lhe será designado, por ela, será o de ser o testemunho da negação de sua castração. A criança, contrariamente ao que se tem dito amiúde, não é o falo da mãe, é o testemunho de que o seio é o falo, o que não é a mesma coisa. E, para que o seio seja o falo, e um falo muito potente, é necessário que a resposta que ele traga seja perfeita e total. A demanda da criança não poderá ser reconhecida por nada que não seja demanda de alimento; a dimensão desejo, no nível do sujeito, deve ser negada; e o que caracteriza a mãe do psicótico é a proibição total, feita à criança, de ser o sujeito de algum desejo. Vê-se, então, a partir desse momento, como vai se constituir, para o psicótico, sua relação particular com a palavra; como, desde o principio, lhe será impossível manter sua relação com a demanda.
De fato, se a resposta só se dirige a ele sempre como boca a alimentar, como objeto parcial, compreende-se que, para ele, toda demanda no próprio momento de sua formulação, traz consigo a morte do desejo. Por não ter sido simbolizado pelo Outro, ele será levado a fazer coincidir, na resposta, o simbólico e o real. Já que, peça ele o que pedir, é alimento o que lhe dão, será o alimento enquanto tal que se tornará, para ele, o significante-chave. O simbólico, a partir desse momento, fará irrupção no real. No lugar que o dom de alimento encontra seu equivalente simbólico no dom de amor, para ele todo dom de amor só poderá se significar por uma absorção oral. Amar o outro, ou ser por ele amado, se traduzirá, para ele, em termos de oralidade: absorver o outro ou ser por ele absorvido. Haverá sempre, para ele, uma contradição fundamental entre demanda e desejo,
pois, ou bem ele mantém sua demanda e sua demanda o destrói enquanto sujeito de um desejo, ele tem de alienar-se enquanto sujeito para se fazer boca, objeto a alimentar, ou então buscará constituir-se enquanto sujeito bem ou mal, e será, então, obrigado a alienar a parte corporal dele mesmo, fonte de prazer e lugar de uma resposta incompatível, para ele, com toda tentação de autonomia. O psicótico é sempre obrigado a alienar seu corpo enquanto suporte de seu eu, ou a alienar uma parte corporal enquanto suporte de uma possibilidade de gozo. Se não emprego aqui o termo identificação, é porque justamente creio que, na psicose, ele não é aplicável. A identificação, na minha óptica, implica a possibilidade de uma relação de objeto em que o desejo do sujeito e o desejo do Outro estão em situação de conflito, mas existem enquanto dois pólos constitutivos da relação. Na psicose, é no nível da relação fantasmática do sujeito com seu próprio corpo que seria necessário definir o Outro e seu desejo
Quer seja no sujeito dito normal, quer seja no neurótico ou no perverso, toda tentativa de identificação só se pode fazer a partir do que ele imagina, verdadeiro ou falso, pouco importa, do desejo do Outro. Quer vocês tomem o sujeito dito normal, o neurótico ou o pervertido, vocês viram que se trata sempre de se identificar, em função ou contra aquilo que ele pensa ser o desejo do Outro. Enquanto esse desejo puder ser imaginado, fantasiado, o sujeito vai encontrar nele as referências necessárias para o definir como objeto do desejo do Outro, ou como objeto que se recusa a sê-lo. Em ambos os casos, ele é alguém que pode se definir, se encontrar. Mas a partir do momento em que o desejo do Outro se torna algo de misterioso, de indefinível, o que se revela, então, ao sujeito, é que era justamente esse desejo do Outro que o constituiria como sujeito. O que ele encontrará, o que se desmascarará, nesse momento, face a esse nada, é seu fantasma fundamental: é que ser o objeto do desejo do Outro só é uma situação suportável quando podemos nomear esse desejo, dar-lhe feições em função de nosso próprio desejo. Mas, tornar-se o objeto de um desejo ao qual não podemos mais dar nome é tornarmo-nos nós mesmos um objeto cujas insígnias não
têm mais sentido, já que elas são, para o Outro, indecifráveis
Esse momento preciso, em que o eu se referencia num espelho que lhe devolve uma imagem que não tem mais significação identificável, isso é a angústia.
Chamando-a oral, anal ou fálica, tudo o que fazemos é tentar definir quais eram as insígnias de que o eu se revestia para se fazer reconhecer.
Se, quanto ao que aparece no espelho, somente nós podemos fazê-lo, é que somos os únicos a poder ver de que tipo são essas insígnias que nos acusam de não mais reconhecer. Pois se, como eu dizia no princípio, a angústia é o afeto que mais facilmente corre o risco de provocar uma resposta recíproca, é justamente que, a partir desse momento, nos tornamos para o Outro aquele cujas insígnias são absolutamente misteriosas, absolutamente inumanas. Na angústia, não é apenas o eu que está dissolvido, é também o Outro, enquanto suporte identificatório. Nesse mesmo sentido, vou-me situar dizendo que o gozo e a angústia são as duas posições extremas em que se pode situar o eu. Na primeira, o eu e o Outro, por um instante, trocam suas insígnias, reconhecem-se como dois significantes cujo gozo compartilhado garante, durante um instante, a identidade dos desejos. Na angústia, o eu e o Outro se dissolvem, são anulados numa situação em que o desejo se perde, por falta de poder ser nomeado.
a angústia nada mais é que o sinal da perda, para o eu, de toda referência possível.
Se é verdade que é o Outro que nos constitui, ao nos reconhecer como objeto de desejo, que sua resposta é aquilo que nos faz tomar consciência da distância que existe entre demanda e desejo, e que é por essa brecha que entramos no mundo dos significantes, ora bem, para o psicótico esse Outro é aquele que nunca lhe significou outra coisa senão um buraco, um vazio no centro de seu ser. A interdição que lhe foi feita, quanto ao desejo, faz com que a resposta lhe tenha feito apreender não uma distância, mas uma antinomia fundamental entre demanda e desejo, e dessa distância, que não é uma brecha, mas um abismo, o que veio à luz não é o significante, mas o fantasma, ou seja, aquilo que provoca a telescopagem do simbólico e real que chamamos de psicose.
Se, no neurótico, é a partir de nosso silêncio que podemos encontrar as fontes que disparam sua angústia, no psicótico é a partir de nossa fala, de nossa presença. Tudo o que pode fazê-lo tomar consciência de que existimos como diferentes deles, como sujeitos autônomos e que, por isso mesmo, podemos reconhecê-lo, a ele, como sujeito, torna-se aquilo que pode disparar sua angústia. Enquanto ele fala, só faz repetir um monólogo que nos situa no nível desse Outro introjetado que o constitui.
Mas, quando cabe a nós a palavra, e porque podemos, enquanto objeto, tornar-nos o lugar em que ele tem de reconhecer seu desejo, veremos sua angústia disparar; pois desejar é ter de se constituir como sujeito, e, para ele, o único lugar de onde ele pode fazê-lo é aquele que o devolve a seu abismo. Mas, aqui ainda, em conclusão, vocês o vêem, pode-se dizer que a angústia aparece no momento em que o desejo faz do sujeito algo que é uma falta de ser, uma falta de se nomear.
Perceberia sensações falsas de um corpo que ele não tem
malsão
A gente tem medo de se olhar num espelho, porque o espelho muda, segundo os olhos que o olham, não se sabe exatamente o que se vai ver ali. Se a gente compra um espelho dourado é melhor…
palavra, que ele compara a uma roda da qual diversas pessoas não vêem nunca a mesma parte
tanto sua quanto daqueles a quem ela se dirige, a quem ela crê se dirigir,
o sujeito nada mais é que a conseqüência de que há significante e que o nascimento do sujeito prende-se a isso: que ele só pode se pensar como excluído do significante que o determina
como nosso trabalho nãoié um trabalho que deva muito se interessar pelo se passa na praça pública, temos de nos interessar, então, pelo sujeito.
personologia
E vocês devem aqui entrever, suportar, resignar-se a isso, que exige de nós alguma coisa que parece tão longe de suas preocupações triviais, enfim, de uma coisa que podemos decentemente pedir a honoráveis especialistas como vocês, que não vêm, afinal, aqui para estudar geometria elementar. Estejam seguros, não se trata de geometria, já que não é de métrica, é alguma coisa da qual os geômetras não tiveram até agora nenhuma espécie de idéia: as dimensões do espaço. Chegarei mesmo a dizer que, o Sr. Descartes não tinha nenhuma espécie de idéia das dimensões do espaço
angústia, é justamente para se apreender na sua ligação com o fato de que há o “dizer” e o “não podendo ser dito”
Se o tornei tão longo é porque era preciso que fosse assim para que a dimensão que isso supõe lhes faça fazer, de alguma maneira, a experiência mental de apreendê-lo
Será que você não poderia dizer-nos realmente as coisas, fazer-nos compreender o que se passa com um neurótico e com um perverso, e em que é diferente, sem passar pelos seus pequenos toros e outros desvios?”, eu responderei que é, todavia, indispensável,
absolutamente indispensável, e pela mesma razão, porque é a mesma coisa que fazer lógica, pois a lógica em questão não é coisa vazia. Os lógicos, assim como os gramáticos, disputam entre si, e essas disputas, por mais que, evidentemente, só possamos penetrar em seu campo ao evocá-las com discrição, sob o risco de nos perdermos ali, mas toda a confiança que vocês têm por mim repousa nisso: é que vocês me dão o crédito por ter feito algum esforço para não tomar o primeiro caminho que apareceu e por ter eliminado um certo número de caminhos.
Nós retomamos o mesmo caminho e não esqueçamos que o que está menos situado, para nós, em termos de referências, que seriam quer legalistas, quer formalistas, quer naturalistas, é a noção do pequeno a enquanto não é o outro imaginário que ele designa
Por enquanto, o que se propõe a nós é encontrar um modelo topológico, um modelo de estética transcendental que nos permita dar conta ao mesmo tempo de todas as funções do falo. Será que há algo que se pareça com isso?
Mas há superfícies sem borda: o plano ao infinito, a esfera, o toro e várias outras que, como superfícies sem borda, se reduzem praticamente a uma só: o cross-cap ou mitra ou boné cruzado, representado aqui embaixo
Seu verdadeiro nome é o plano projetivo da teoria das superfícies de Riemann, cuja plano é a base
para nós, psicólogos das profundezas,
distinção entre superfície sem e superfície com: ela tem a relação mais estreita com o que nos interessa, a saber, o buraco que está para ser introduzido como tal, positivamente, na teoria das superfícies.
que, mesmo a repetir o mesmo, o mesmo, ao ser repetido, se inscreve como distinto. Onde está a interpolação de uma diferença? Residirá ela somente no corte - é aqui que a introdução da dimensão topológica, para além da escansão temporal, nos interessa - ou nesse algo de outro que chamaremos de simples possibilidade de ser diferente, a existência da bateria diferencial que constitui o significante e pela qual não podemos confundir sincronia com simultaneidade na raiz do fenômeno, sincronia que faz com que, reaparecendo o mesmo, é como distinto do que ele repete que o significante reaparece, e o que pode ser considerado como distinguível é a interpolação da diferença, na medida em que não podemos colocar como fundamento da função significante a identidade do A é A, ou seja, que a diferença está no corte, ou na possibilidade sincrônica que constitui a diferença significante. Em todo caso, o que nós repetimos só é diferente por poder ser inscrito.
psicofisica
Uma superfície de Moebius é a ilustração mais simples do cross-cap: ela se faz com uma faixa de papel da qual se colam as duas extremidades após tê-la torcido, de maneira que o ser infinitamente chato que passeia por ela pode prosseguir sem nunca ultrapassar nenhuma borda. Isso mostra a ambigüidade da noção de face. Pois não basta dizer que é uma superfície unilateral, de uma só face, como certos matemáticos formulam
Mas a faixa de Moebius, dobrem-na: terá sempre a mesma forma. Mesmo quando vocês retornam o objeto, ele terá sempre a bossa côncava à esquerda, a bossa inflada à direita. Uma superfície não-orientável é, pois, muito mais orientada que uma superfície orientável.
Alguma coisa vai ainda mais longe e surpreende os matemáticos, que remetem com um sorriso o leitor à experiência: é que, se nessa superfície de Moebius, com a ajuda de uma tesoura, vocês traçam um corte a igual distância dos pontos mais acessíveis das bordas - ela só tem uma borda - se vocês fazem um círculo, o corte se fecha, vocês realizam um círculo, um laço, uma curva fechada de Jordan. Ora, esse corte não Fig. 11
apenas deixa a superfície inteira, mas transforma a superfície não-orientável em superfície orientável, isto é, em uma faixa da qual, se vocês pintarem um dos lados, todo um lado permanecerá branco, contrariamente ao que se passaria a pouco na superfície de Moebius inteira: tudo teria sido pintado sem que o pincel mudasse de face. A simples intervenção do corte mudou a estrutura onipresente de todos os pontos da superfície, eu dizia. E, se lhes peço que me digam a diferença entre o objeto de antes do corte e este aqui, não há meio de fazê-lo. Isso para introduzir o interesse da função de corte.
Se jamais introduzi a verdadeira verbalização dessa forma, o, punção, desejo que une o $ ao a no $..a, esse pequeno quadrilátero deve ser lido: o sujeito, enquanto marcado pelo significante é, propriamente, no fantasma, corte de a
se nossa experiência com os psicanalistas nos traz tantas dificuldades, é que, provavelmente, as coisas não são assim tão simples, tendo em vista que afinal, se isso não está evidente no nível do professor, que o próprio fato de funcionar como professor possa aspirar ao seio do professor, à maneira de um sifão, alguma coisa que o esvazie de todo contato com os efeitos da letra, é, ao contrário, realmente evidente para o psicanalista que tudo está aí.
não possuímos nada, diz o sermão moralista, porque existe a morte”
Bichat, diz: “A vida é o conjunto das forças que resistem à morte”.
obnubilados
Essa superfície, assim estruturada, é particularmente propícia a fazer funcionar, diante de nós, esse elemento, o mais inapreensível, que se chama de desejo enquanto tal, em outras palavras, a falta. Acontece, todavia, que para essa superfície que preenche a hiância71, apesar da aparência que torna todos esses pontos que chamaremos, se quiserem, de antipódicos, pontos equivalentes, eles não podem, contudo, funcionar nessa equivalência antipódica, a menos que existam dois pontos privilegiados
o lugar do buraco
o fragmento de superfície sobre o qual permanece irredutivelmente, dando-lhe o acento particular que lhe permite, para nós, ao mesmo tempo designar a função segundo a qual um objeto está ali desde sempre, antes mesmo da introdução dos reflexos, das aparências que dele temos sob a forma de imagens, o objeto do desejo. Esse objeto, ele não é para ser tomado senão nos efeitos, para nós, da função do significante, e, no entanto, não se reencontra nele a não ser seu destino de sempre. Como objeto, é o único objeto absolutamente autônomo, primordial em relação ao sujeito, decisivo em relação a ele, a ponto de que minha relação com esse objeto seja, de certo modo, para inverter, a ponto de, se, no fantasma, o sujeito, por uma miragem em todos os pontos paralela àquela da imaginação do estádio do espelho, ainda que de uma outra ordem, se imagina, pelo efeito daquilo que o constitui como sujeito, isto é, o efeito do significante, suportar o objeto que vem por ele cobrir a falta, o buraco do Outro, e é isto o fantasma.
O ensino ao qual lhes conduzo é comandado pelos caminhos de nossa experiência. Pode parecer excessivo, senão enfadonho, que esses caminhos suscitem em meu ensino uma forma de desvios, digamos, inusitados que, por isso, podem parecer, falando propriamente, exorbitantes. Eu os poupo deles o quanto posso. Posso dizer que, por exemplos enlaçados o mais próximo possível em nossa experiência, desenho uma espécie de redução, se se pode dizer, desses caminhos necessários. Vocês não devem, no entanto, se espantar de que estejam implicados em nossa explicação campos, domínios tais como aquele, por exemplo, este ano, ( da topologia se, de fato, os caminhos que temos a percorrer são aqueles que colocam em causa uma ordem tão fundamental quanto a constituição mais radical do sujeito como tal, dizendo respeito, por isso, a tudo o que se poderia chamar de uma espécie de revisão da ciência.
que o real é o que retorna sempre ao mesmo lugar.
O que é, encarnado, o significante, são todas as vezes que a demanda se repete. Se justamente não fosse em vão que a demanda se repete, não haveria significante, porque .não haveria. nenhuma demanda. Se, o que a demanda encerra em seu laço vocês o tivessem, nenhuma necessidade de demanda.
Nenhuma necessidade de demanda, se a necessidade está satisfeita.
É bem assim que podemos apreender, homologar essa primeira relação da demanda com a constituição do sujeito, na medida em que essas repetições, esses retornos na forma do toro, esses laços que se renovam fazendo o que, para nós, no espaço imaginado do toro, apresenta-se como seu contorno.
Esse retorno à sua origem nos permite estruturar, exemplificar de forma maior um certo tipo de relações do significante com o sujeito que nos permite situar em sua oposição a função D da demanda e aquela de a, do objeto a, o objeto do desejo, D, a escansão da demanda.
modificação do real em sujeito sob o efeito da demanda, é a pulsão. E se, na pulsão, não houvesse já esse efeito da demanda, esse efeito de significante, esta não poderia articular-se em um esquema tão manifestamente gramatical.
Simplesmente, para que a demanda seja demanda, a saber, que ela se repita como significante, é preciso que ela seja decepcionada. Se não o fosse, não existiria suporte para a demanda.
nada fundamental,
Eis aqui duas curvas, elas parecem ser feitas da mesma maneira, elas são, no entanto, irredutivelmente não-sobreponíveis. Isso implica que o toro, apesar de sua aparência simétrica, comporta possibilidades de evidenciar, pelo corte, um desses efeitos de torção que permitem o que chamarei de dissimetria radical, aquela cuja presença na natureza - vocês sabem, que é um problema para toda formalização - aquela que faz com que os caracóis tenham, em princípio, um sentido de rotação, que faz daqueles que têm o sentido contrário uma enorme exceção. Muitos fenômenos são dessa ordem, até e inclusive os fenômenos químicos, que se traduzem nos ditos efeitos de polarização. Existem, pois, estruturalmente, superfícies cuja dissimetria é eletiva e que comportam a importância do sentido de
rotação dextrógiro ou levógiro
O acento é colocado diferentemente, conforme as duas vertentes da neurose. Para o obsessivo, o acento é posto sobre a demanda do Outro, tomado como objeto de seu desejo. Para a histérica, o acento é posto sobre o objeto do Outro, tomado como suporte de sua demanda. O que isso implica, teremos que entrar aí no detalhe, na medida em que o que está em causa, para nós, não é outra coisa, aqui, senão o acesso à natureza desse a. A natureza de a, nós só a apreenderemos quando tivermos elucidado estruturalmente, pela mesma via, a relação de $ com a, ou seja, o suporte topológico que podemos dar ao fantasma.
Digamos, para começar a clarear o caminho, que a, o objeto do fantasma, a, o objeto do desejo, não tem imagem e que o impasse do fantasma do neurótico é que, em sua busca de a, o objeto do desejo, ele encontra i de a, de tal maneira que ela é a origem de onde parte toda a dialética à qual, desde o início de meu ensino, os introduzo, a saber, que a imagem especular, a compreensão da imagem especular consiste nisto, do que estou espantado que ninguém tenha sonhado em glosar a função que lhe dou, a imagem especular é um erro. Ela não é simplesmente uma ilusão, um logro da Gestalt cativante cujo acento a agressividade tem marcado, ela é basicamente um erro, na medida em que o sujeito nela se des-conhece75, se permitem a expressão, na medida em que a origem do Eu .moi. e seu desconhecimento fundamental acham-se aqui reunidos na ortografia. E, na medida em que o sujeito se engana, ele acredita ter diante dele sua imagem. Se ele soubesse se ver, se ele soubesse, o que é a simples verdade, que só existem as relações mais deformadas,
de alguma maneira identificáveis, entre seu lado direito e seu lado esquerdo, ele nem sonharia em identificar-se com a imagem do espelho.
Quando, graças aos efeitos da bomba atômica, tivermos sujeitos com uma orelha direita grande como a de um elefante e, no lugar da orelha esquerda, uma orelha de asno, talvez as relações com a imagem especular venham a ser melhor autenticadas.
grou
Não é que o neurótico não saiba muito bem distinguir, como todo sujeito digno desse nome, i (a) de a, porque eles não têm absolutamente o mesmo valor, mas o que o neurótico procura, e não sem fundamento, é chegar a a por i (a). A via na qual o neurótico se obstina, e isso é sensível na análise de seu fantasma, é chegar a a destruindo i (a), ou fixando-o. Eu disse primeiro destruindo, por que é o mais exemplar. E o mais exemplar, é o fantasma do obsessivo, na medida em que ele toma a forma do fantasma sádico e que ele não o é.
o fantasma sádico, é supostamente a destruição do Outro
elaborar a função do que se pode chamar de significante do corte, ou ainda de oito interior, ou ainda de laço, ou ainda o que eu chamei, na última vez, o significante polonês
Temos avançado nesse terreno tal como ele se apresenta, isto é, dentro de uma notável ambigüidade, pois que, pura linha, nada indica que ele se recorte, como a forma em que o desenhei ali, vocês se lembram, mas ao mesmo tempo deixa aberta a possibilidade desse recorte. Resumindo, esse significante não prejulga em nada a respeito do espaço onde ele se situa
O valor expressivo, simbólico, do toro, no momento, é precisamente nos fazer ver a dificuldade, na medida em que se trata da superfície do toro e não de outra, para ordenar esse círculo aqui, amarelo, do desejo, com o círculo, azul, do objeto do desejo. A relação deles é tanto menos unívoca quanto o objeto não está aqui fixado, determinado por nada além do lugar de um nada que, por assim dizer, prefigura seu lugar eventual, mas de forma alguma permite situá-lo.
Tal é o valor exemplar do toro.
foram veiculadas asserções, em folhetins bizarros, por parte de uma faladeira de profissão, que meu ensino é neo-heideggeriano.
Isso foi dito com más intenções. A pessoa provavelmente colocou “neo” por uma certa prudência, como ela não sabia nem o que queria dizer heideggeriano, nem tampouco o que queria dizer meu ensino, aquilo a protegia de certo número de refutações, que esse ensino meu nada tem, na verdade, de neo, nem de heideggeriano, apesar da excessiva reverência que tenho pelo ensino de Heidegger.
a função do ser em sua relação com o tempo
fantasma fundamental.
prestidigitação
Pois, justamente, temos o controle nisso, que por essas vias que são as de nossa experiência, vias que percorremos, mais habitualmente as do neurótico, temos uma estrutura que não se trata absolutamente de colocar assim nas costas de bodes expiatórios. Nesse nível, o neurótico, assim como o perverso, e como o próprio psicótico, são apenas faces da estrutura normal. Freqüentemente me dizem, após essas conferências:
quando você fala do neurótico e de seu objeto, que é a demanda do Outro, a menos que sua demanda não seja o objeto do Outro, por que você não nos fala do desejo normall Mas, justamente, falo disso o tempo todo. O neurótico é o normal, na medida em que, para ele, o Outro, com O maiúsculo, tem toda a importância. O perverso é o normal, na medida em que para ele o falo, o grande .3., que vamos identificar com esse ponto que dá à peça central do plano projetivo toda sua consistência, o falo tem toda a importância. Para o psicótico, o corpo próprio, que se deve distinguir em seu lugar, nessa estruturação do desejo, o corpo próprio tem toda a importância. E estão aqui apenas faces onde algo se manifesta, por esse elemento de paradoxo que é aquele que vou tentar articular diante de vocês, no nível do desejo.
Já lhes indiquei, a propósito do neurótico, e precisamente do obsessivo, como pode se conceber que a busca do objeto seja o verdadeiro alvo, no fantasma obsessivo, dessa tentativa sempre renovada e sempre impotente dessa destruição da imagem especular, na medida em que é ela que o obsessivo visa, que ele sente como obstáculo à realização do fantasma A Identificação
Se, em algum lugar, podemos ainda conservar a noção de conhecimento, é certamente fora do campo humano. Nada nos impede de pensar, nós, positivistas, marxistas, todos que quiserem, que a natureza se conhece. Ela tem seguramente suas preferências, ela não pega qualquer material. É exatamente isso que nos deixa, há algum tempo, 0 campo, para encontrar montes de outros, e de admiráveis esquisitos que ela havia admiravelmente deixado de lado
fazendo verdadeiramente de $ corte de a - mas não andemos rápido demais, a, ele certamente é o corte de S. A espécie de realidade a.que visamos, nessa objetalidade, ou nesta objetividade, que somos os únicos a definir, é verdadeiramente, para nós, o que unifica o sujeito.
E porque? O que significa essa devolução de Sócrates, para um ser tão admirável como Alcebíades? No que concerne ao aYOtÀjia, é manifestamente ele quem o é, como acredito ter manifestado diante de vocês, é pura e manifestamente que, o falo, Alcebíades o é. Simplesmente, ninguém pode saber de quem ele é o falo. Para ser o falo, naquela situação, é preciso ter um certo estofo. Isso não lhe faltava, certamente, e os encantos de Sócrates ficam sem influência sobre Alcebíades, sem dúvida alguma. Ele passa, nos séculos que seguiram da ética teológica, para essa forma enigmática e fechada, mas que O Banquete, no entanto, nos indica no ponto de partida, e com todos os complementos necessários, a saber, que Alcebíades, manifestando seu apelo de desejante no coração do objeto privilegiado, não faz ali outra coisa senão aparecer numa posição de sedução desenfreada em relação àquele que chamei de babaca fundamental, que, para cúmulo da ironia, Platão conotou pelo nome próprio do próprio Bem, Agatão. O Bem Supremo não tem outro nome, em sua dialética. Não há, aí, alguma coisa que mostra suficientemente que não há nada de novo em nossa busca? Ele retorna ao início para, dessa vez, compreender tudo o que se passou desde então.
o que é o objeto do desejo para o neurótico, ou ainda para o perverso, ou ainda para o psicótico? Não é isso, essa coleção de amostras, essa diversidade das cores que jamais servirá senão para nos fazer perder cartas que são interessantes…“Torna-te o que tu és”, diz a fórmula da tradição clássica. É possível…voto piedoso. O que é assegurado é que tu te tornas o que tu desconheces. A maneira como o sujeito desconhece os termos, os elementos e as funções entre as quais se joga a sorte do desejo, exatamentf ra medida em que, em algum lugar, lhe aparece, sob uma forma desvelada, um de seus termos, é aquilo pelo que cada um daqueles que temos nomeado neurótico, perverso e psicótico, é normal. O psicótico é normal em sua psicose, e além do mais, porque o psicótico, em seu desejo, se depara com o corpo.
perverso é normal em sua perversão, porque ele se depara em sua variedade com o falo, e o neurótico, porque se depara com o Outro, o grande Outro como tal. E nisso que eles são normais, porque são os três termos normais da constituição do desejo. Esses três termos, é claro, estão sempre presentes. No momento, não se trata de que eles estejam em qualquer um desses sujeitos, mas aqui, na teoria. É por isso que não posso avançar em linha reta; é que, a cada passo, me vem a necessidade de refazer com vocês um balanço, não tanto numa tal preocupação de que vocês me compreendessem…
todo sucesso terapêutico, isto é reconduzir as pessoas ao bem- estar da sua Sorge, de suas pequenas ocupações, é sempre, para nós, mais ou menos - no fundo o sabemos, é por isso que não temos que nos gabar disso - um quebra galho, um álibi, um desvio de fundos, se posso me exprimir assim. De fato, o que é ainda bem mais grave, é que nós nos interditamos de fazer melhor, sabendo que essa ação, que é a nossa, da qual vez por outra podemos nos gabar como de um êxito, é feita por vias que não concernem o resultado. Graças a essas vias trazemos - num lugar complementar que elas não concernem, senão por ressonância - retoques, é o máximo do que se pode dizer.
tão melhor compreendida quanto mais burro for o transcritor. E por isso que são os trabalhos ingleses que são os melhores. Sobretudo não leiam os trabalhos alemães, por favor, eles são tão inteligentes, que aquilo se transforma imediatamente em Schopenhauer.
O significante, por essência, é diferente dele mesmo, quer dizer que nada do sujeito poderia aí se identificar, sem se excluir dele.
Verdade muito simples, quase evidente, que basta por si só para abrir a possibilidade lógica da constituição do objeto no lugar desse splitting, no próprio dessa diferença do significante com ele mesmo, em seu efeito subjetivo. Como esse objeto constituinte do mundo humano…
pois trata-se de mostrar-lhes que, longe de ter a menor aversão por esse fato de evidência psicológica, o ser humano é suscetível de tomar, como se diz, seus desejos por realidades, é aí que devemos segui-lo, pois, como ele tem razão, de saída, não é em nenhum outro lugar senão no sulco aberto por seu desejo que ele pode constituir uma realidade qualquer, que cai ou não no campo da lógica
O ouro é aqui simbólico do que faz brilhar e, se posso dizer para me fazer entender, eu acentuo, o que dá ao objeto a cor fascinatória do desejo. O que é importante numa tal fórmula, se posso dizer assim, perdoem- me o jogo de palavras, é o ponto d’ouragem79 .d’orage. em torno de que gira a questão de saber o que faz brilhar, e para dizer a palavra, a questão do que há de verdade nesse brilho. E, a partir daí, certamente, nenhum ouro será bastante verdadeiro para assegurar esse ponto em torno do qual subsiste a função do desejo.
Porque ele não diz”, como se exprimiu alguém, “a verdade sobre a verdade?
Se não se tratasse do objeto analítico, a saber, do objeto do desejo, jamais uma tal questão teria podido nem sonhar em surgir, salvo da boca de um bronco que imaginasse que, uma vez que se vem para a Universidade, é para saber a verdade sobre a verdade. Ora, é disso que se trata, na análise. Poder-se-ia dizer que é o que estamos embaraçados em fazer, freqüentemente contra nossa vontade, brilhar a miragem no espírito daqueles aos quais nos dirigimos. Encontramo- nos, eu o disse bem, embaraçados como o peixe e a maçã do provérbio, e, no entanto, é bem ela que está ali, é com ela que temos a ver, é sobre
ela, na medida em que ela está no coração da estrutura, é sobre ela que porta o que nós chamamos de castração. É justamente na medida em que há uma estrutura subjetiva que gira em torno de um tipo de corte, aquele que representei assim, que há no coração da identificação fantasmática esse objeto organizador, esse objeto indutor. E não poderia ser de outro modo, de todo o mundo da angústia com o qual temos que nos haver, que é o objeto como definido objeto da castração.
Se vocês extraírem o rastro, depois, isso pode tornar-se um selo. Penso que o exemplo já esclarece suficientemente, um selo representa o sujeito, o remetente, não forçosamente para o destinatário. Uma carta pode sempre permanecer selada, mas o selo está ali para a carta, ele é um significante.
em O Mito Individual do Neurótico, ou melhor, fizeram publicar sem qualquer consentimento meu, já que esse texto, eu não o revisei nem corrigi, o que o torna quase ilegível. Entretanto, ele está rolando por aí, e pode-se encontrar nele suas linhas principais.
Em relação ao correlato de pequeno a, ao que resta quando o objeto constitutivo do fantasma se separou, ser e pensamento estão do mesmo lado, ao lado desse pequeno a. Pequeno a é o ser, na medida em que ele é essencialmente faltante no texto do mundo, e é por isso que, em torno do pequeno a pode se deslizar tudo o que se chama de retorno do recalcado, isto é, que aí deixa transparecer e se trai a verdadeira verdade que nos interessa, e que é sempre o objeto do desejo, enquanto que toda humanidade, todo humanismo é construído para nos fazê-la faltar. Sabemos, por nossa experiência, que não há nada que pese no mundo verdadeiramente, senão o que faz alusão a esse objeto do qual o Outro, A maiúsculo, toma o lugar para dar-lhe um sentido. Toda metáfora, inclusive a do sintoma, procura fazer sair esse objeto na significação, mas toda pululação dos sentidos que ela pode engendrar, não chega a saciar o que está em questão, nesse buraco de uma perda central.
Eis o que regula as relações do sujeito com o Outro, A maiúsculo, o que regula secretamente, mas de uma maneira que é certo que ela não é menos eficaz do que essa relação do pequeno a na reflexão imaginária, que a cobre e a ultrapassa. Em outros termos, que, no caminho, o único que nos seja oferecido para encontrar a incidência desse pequeno a, encontramos primeiro a marca da ocultação do Outro, sob o mesmo desejo. Tal é, com efeito, a via; a pode ser abordado por essa via que é a do Outro, com A maiúsculo, desejo no sujeito desfalecente, no fantasma, o S barrado. E por isso que lhes ensinei que o temor do desejo é vivido como equivalente à angústia, que a angústia é o temor do que o Outro deseja em si do sujeito, esse em si fundado justamente sobre a ignorância do que 6 desejado, no nível do Outro. É do lado do Outro que o pequeno a aparece, não tanto como falta, mas como a ser.
É aqui que eu gostaria de participar-lhes a minha felicidade, ao encontrar esses pensamentos na pena de alguém que considero simplesmente como o poeta de nossas Letras, que foi incontestavelmente mais longe que qualquer um, presente ou passado, na via da realização do fantasma, eu nomeei Maurice Blanchot, cujo LArrêt de Mort .A Sentença de Morte. há muito tempo foi, para mim, a confirmação segura do que eu disse o ano todo, no seminário sobre A Ética, a respeito da segunda morte. Eu não havia lido a segunda versão de sua primeira obra, Thomas VObscur.
Eu acho que, um volume tão pequeno, nenhum de vocês deixará de prová-lo, depois do que vou ler dele para vocês
E em seu quarto …, aqueles que entravam viam seu livro sempre aberto nas mesmas páginas, pensavam que ele fingia ler. Ele lia. Ele lia, com uma minúcia e uma atenção insuperáveis. Ele estava próximo de cada signo, na situação onde se encontra o macho, quando o louva-a-deus vai devorá- lo. Um e outro se olhavam. As palavras, saídas de um livro, ganhavam aí uma potência mortal, exerciam sobre o olhar que as tocava uma atração doce e plácida. Cada uma delas, como um olho semi-fechado, deixava entrar o olhar muito vivo que, em outras circunstâncias, ele não teria sofrido. Thomas penetrava por esses corredores dos quais se
aproximava sem defesa, até o instante em que foi descoberto pelo íntimo da palavra. Não era ainda assustador, era, ao contrário, um momento quase agradável, que ele teria querido prolongar. O leitor considerava alegremente essa pequena centelha de vida que ele não duvidava ter despertado. Ele se via com prazer, nesse olho que o via. Seu próprio prazer torna-se grande. Ele torna-se tão grande, tão implacável, que ele o experimenta com uma espécie de pavor e que, tendo-se erguido, momento insuportável, sem receber de seu interlocutor um sinal cúmplice, ele percebe toda a estranheza que havia em ser observado por uma palavra, como por um ser vivo, e não apenas por uma palavra, mas por todas a palavras que se encontravam nessa palavra, por todas aquelas que o acompanhavam e que, por sua vez, continham nelas mesmas outras palavras, como um séquito de anjos abrindo-se ao infinito até o olho do absoluto.”
Senão que existe uma relação desse fantasma com o próprio desejante. Mas podemos fazer desse desejante pura e simplesmente o agente do desejo? Não esqueçamos que, no segundo estágio do grafo, d minúsculo, o desejo, é um quem que responde a uma questão, que não visa a um quem, mas a um che vuoi? Para a questão che vuoil, o desejante é a resposta, a resposta que não designa o quem de quem querl, mas a resposta do objeto. O que eu quero, no fantasma, determina o objeto de onde o desejante que ele contém deve confessar-se como desejante. Procurem- no sempre, esse desejante, no seio de qualquer que seja o desejo, e não vou objetar a perversão necrófila, pois justamente está ali o exemplo onde se prova que, desse lado da segunda morte, a morte física deixa ainda a desejar, e que o corpo deixa-se ali perceber como inteiramente tomado numa função de significante, separado dele mesmo e testemunho do que oprime o necrófilo, uma inapreensível verdade.
A histérica nos mostra, de fato, qual é a distância desse objeto ao significante, essa distância que defini pela carência do significante, mas implicando sua relação com o significante, com efeito, a quê se identifica a histérica quando, nos diz Freud, é no desejo do Outro que ela se orienta, e que a colocou como caçadora. E é sobre o qual os afetos - nos diz ele - as emoções, consideradas aqui sob sua pena como embrulhadas, se posso dizer assim, no significante e retomadas como tais, é a esse propósito que ele nos diz que todas as emoções ratificadas, as formas, por assim dizer, convencionais da emoção, não são outra coisa senão inscrições ontogênicas do que ele compara, do que ele revela como expressamente equivalente a acessos histéricos, o que é recair na relação com o significante. As emoções são, de algum modo, caducas do comportamento, partes caídas retomadas como significante.
E o que é o mais sensível, tudo o que podemos ver delas, encontra-se nas formas antigas da luta.
As emoções, se alguma coisa disso nos é mostrado na histérica, é justamente quando ela está ao encalço do desejo, é esse caráter claramente arremedado, como se diz, fora de hora, pelo qual se enganam e de onde se tira a impressão de falsidade. O que isso quer dizer, senão que a histérica certamente não pode fazer outra coisa, senão buscar o desejo do Outro ali onde ele está, onde ele deixa seu rastro no Outro, na utopia, para não dizer na atopia, no desamparo até mesmo na ficção, resumindo, que é pela via da manifestação, como se pode aí esperar, que se mostram todos os aspectos sintomáticos. E, se esses sintomas encontram essa via sulcada, é em ligação com essa relação, que Freud designa, com o desejo do Outro
E também porque é impossível corrigi-la, impossível também nada compreender do que constitui o impasse da relação analítica, e especialmente na transmissão da verdade analítica tal como ela se faz, a análise didática, é que é impossível introduzir aí a relação com o pai, que não se é o pai de seu analisado. Já falei disso o bastante, e fiz bastante para que ninguém ouse mais, ao menos na minha vizinhança, se arriscar a dizer que se pode ser aí a mãe. No entanto, é disso que se trata. A função da análise, tal como se insere ali onde Freud deixou aberta sua seqüência, o rastro hiante, situa-se ali onde sua pena caiu, a propósito do artigo sobre 0 splitting do Eu, no ponto de ambigüidade a que isso leva, o objeto da castração é esse termo bastante ambíguo para que, no próprio momento em que o sujeito dedicou-se a recalcá- lo, ele o instaure mais firme que nunca, num Outro.
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