
Seminar 07 The Ethics of Psychoanalysis
Seminário 07 - A ética da psicanálise
Sobre alguma coisa que é, ao mesmo tempo, muito geral e muito particular, muito particular, como é nosso trabalho de todos os dias, ou seja, a maneira pela qual temos de responder na experiência ao que lhes ensinei a articular como uma demanda, demanda do doente à qual nossa resposta confere uma significação exata - uma resposta da qual devemos conservar a mais severa disciplina para não deixar adulterar o sentido, em suma profundamente inconsciente, dessa demanda.
Essa falta, o que é? Seguramente, não é a mesma que aquela que o doente comete com o fim de ser punido ou de se punir. Será a falta mais obscura e ainda mais original, cujo termo ele chega a colocar no final de sua obra, o instinto de morte, dado que o homem está ancorado, no que tem de mais profundo em si mesmo, em sua temível dialética?
A experiência moral como tal, ou seja, a referência à sanção, coloca o homem numa certa relação com sua própria ação que não é simplesmente a de uma lei articulada, mas sim de uma direção, de uma tendência e, em suma, de um bem que ele clama, engendrando um ideal da conduta. Tudo isso constitui, propriamente falando, a dimensão ética e situa-se para além do mandamento, isto é, para além do que pode apresentar-se com um sentimento de obrigação.
O fato é que a análise é a experiência que voltou a favorecer, no mais alto grau, a função fecunda do desejo como tal.
Se somos levados a abordar, nem que seja por retrospecção, a experiência desse homem do prazer, veremos logo - e por meio de um exame do que a análise forneceu ao conhecimento e à situação da experiência perversa - que, na verdade, tudo nessa teoria moral devia destiná-la a esse fracasso.
Com efeito, se bem que a experiência do homem do prazer apresente-se com um ideal de ultrapassamento naturalista, basta ler os autores mais importantes - quero dizer aqueles que, para se expressarem sobre isso, tomaram os caminhos mais acentuados no sentido da libertinagem, e até mesmo do erotismo - para se perceber que ela comporta uma denotação de desafio, uma espécie de ordália proposta ao termo que permanece certamente reduzido, mas sem dúvida fixo, dessa articulação - e que não é outro senão o termo de divino.
Marquês de Sade, Mirabeau, Diderot.
Apaziguar a culpa - apesar de conhecermos, por nossa experiência prática, as dificuldades e os obstáculos e até mesmo as reações que uma tal empresa acarreta. Tratar-se-ia de uma domação do gozo perverso que proviria de uma demonstração de sua universalidade por um lado, e, por outro lado, de sua função.
Wo Es war, soll Ich werden.
Como a experiência do obsessivo estrutura-se no início para saber que o enigma em torno do termo do dever como tal já está sempre formulado, antes mesmo de ele chegar ao pedido de socorro, que é o que ele vai buscar na análise.
Somos simplesmente, nós analistas, nessa circunstância, esse algo que acolhe aqui o suplicante, que lhe dá um lugar de asilo?
Somos nós simplesmente, e já é muito, esse algo que deve responder a uma demanda, à demanda de não sofrer, pelo menos sem compreender? - na esperança de que, compreendendo, liberará o sujeito não apenas de sua ignorância, mas o próprio sofrimento.
O primeiro é o ideal do amor humano.
Por que a análise, que forneceu uma mudança de perspectiva tão importante sobre o amor, colocando-o no centro da experiência ética, que forneceu uma denotação original, certamente distinta do modo pelo qual o amor até então fora situado pelos moralistas e pelos filósofos na economia da relação inter-humana, por que a análise não foi mais longe no sentido da investigação daquilo que deveremos chamar, propriamente falando, de uma erótica? Isto é coisa que merece reflexão.
Segundo ideal, que também é totalmente espantoso na experiência analítica - vou chamá-lo de ideal da autenticidade.
Técnica de desmascaramento.
Hélène Deutsch.
O ideal de não-dependência, ou, mais exatamente, de uma espécie de profilaxia da dependência.
É em Hegel que encontramos expressada a extrema desvalorização da posição do mestre, senhor, pois ele faz deste o maior ludibriado, o corno magnífico da evolução histórica, a virtude do progresso passando pelas vias do vencido, ou seja, do escravo e de seu trabalho.
Toda verdade tem uma estrutura de ficção.
Na dialética da relação da linguagem com o real.
É no interior dessa oposição entre a ficção e a realidade que o movimento de bascula da experiência freudiana vem situar-se.
Uma vez operada a separação do fictício e do real, as coisas não se situam absolutamente lá onde poderíamos esperá-las.
Que o inconsciente seja estruturado em função do simbólico.
Que aquilo que o princípio do prazer faz o homem buscar seja o retorno de um signo, que o que há de distração naquilo que conduz o homem, sem que ele saiba, em seu comportamento seja aquilo que lhe dá prazer por ser de alguma forma uma eufonia, que aquilo que o homem busca e reencontra seja seu rastro em detrimento da pista - é a importância disso que é preciso medir no pensamento freudiano, para também poder conceber qual é, então, a função da realidade.
Certamente, Freud não duvida, não mais do que Aristóteles, de que o que o homem busca, seu fim, seja a felicidade. Coisa curiosa, o termo de felicidade, em quase todas as línguas, apresenta-se em termos de encontro - tykhe. Menos em inglês - e mesmo assim é muito próximo. Existe aí alguma divindade favorável. Felicidade é também, para nós, augurium, um bom presságio e um bom encontro - Glück é gelück. Happiness é, no entanto, happen, é também um encontro, embora não se sinta aqui a necessidade de se acrescentar a partícula precedente marcando o caráter, propriamente falando, feliz da coisa.
Para Freud, tudo o que vai em direção à realidade exige não sei que temperança, baixa de tom do que é, propriamente falando, a energia do prazer.
O sonhador, isso é bem conhecido, não tem uma relação simples e unívoca com seu voto. Ele o rejeita, o censura, não o quer. Encontramos aqui a dimensão essencial do desejo, sempre desejo ao segundo grau, desejo de desejo.
Teoria dos valores - aquela que permitiu a um de seus defensores dizer que o valor de uma coisa é a sua desejabilidade.
Prestem bem atenção - trata-se de saber se ela é digna de ser desejada, se é desejável que a desejemos.
Deveremos talvez fazer o luto de toda e qualquer inovação efetiva no âmbito da ética - e até um certo ponto poder-se-ia dizer que algum sinal disso se encontra no fato de que não fomos nem mesmo capazes, após todo o nosso progresso teórico, de originar uma nova perversão.
Ao tempo que vocês mesmos passam nisso.
O problema colocado é justamente aquele que permanece sem resolução na perspectiva hegeliana, o de uma sociedade de mestres.
Reparem, por exemplo, que o ideal desse mestre, tal como deus no centro do mundo aristotélico governado pelo nous, parece ser justamente o de tirar seu corpo fora da jogada do trabalho - quero dizer, o de deixar para o intendente o governo dos escravos, para dirigir-se a um ideal de contemplação, sem o qual a ética não encontra sua justa perspectiva. Isto é para dizer-lhes o que a ética aristotélica comporta de idealização.
À primeira vista, pode-se dizer que a busca de uma via, de uma verdade não está ausente de nossa experiência. Pois, que outra coisa procuramos na análise senão uma verdade libertadora?
Mas cuidado, há motivos para não se confiar nas palavras e nas etiquetas. Essa verdade que procuramos numa experiência concreta não é a de uma lei superior. Se a verdade que procuramos é uma verdade libertadora, trata-se de uma verdade que vamos procurar num ponto de sonegação de nosso sujeito. É uma verdade particular.
Atenuação, o esclarecimento, a descoberta desse pensamento de desejo, da verdade desse pensamento.
Mas também, formulando as coisas dessa forma, tudo nos é verdadeiramente velado.
A referência à infância, a ideia da criança que há no homem, a ideia de que algo exige do homem ser outra coisa além de uma criança, e que, no entanto, as exigências da criança fazem-se sempre sentir dentro dele, tudo isso é, na ordem da psicologia, perfeitamente situável historicamente.
E quando falamos do ser adulto a que referência estamos nos referindo? Onde está o modelo do ser adulto?
A análise, certamente, chega a ordenar todo o material de sua experiência em termos de desenvolvimento ideal. Mas em sua origem ela encontra seus termos num sistema de referência totalmente diferente, ao qual o desenvolvimento, a gênese - acho que os fiz pressentirem-no suficientemente, embora seja forçado aqui a fazê-lo de uma forma cursiva - não dá senão um suporte inconstante. Essa referência fundamental é a tensão, a oposição, para colocá-la aí designada enfim por seu nome, entre processo primário e processo secundário, entre princípio do prazer e princípio de realidade.
Ele a colocou preto no branco para responder às exigências de uma coerência dele com ele mesmo, diante dele mesmo.
Esse organismo por inteiro parece feito não para satisfazer a necessidade, mas para aluciná-la.
Do desejo de Freud de estar em conformidade com os ideais mecanistas de Helmholtz e de Brücke.
Silogismo.
No final das contas, não apreendemos o inconsciente senão em sua explicação, no que dele é articulado que passa em palavras. É daí que temos o direito - e isso, ainda mais porque a continuação da descoberta freudiana no-lo mostra - de nos darmos conta de que esse inconsciente não tem, ele mesmo, afinal, outra estrutura senão uma estrutura de linguagem.
Enfim, no nível da objetivação, ou do objeto, o conhecido e o desconhecido opõem-se. É porque o que é conhecido não pode ser conhecido senão em palavras, que o que é desconhecido apresenta-se como tendo uma estrutura de linguagem. Isso nos permite recolocar a questão do que ocorre no nível do sujeito.
Houve em Freud a percepção da dimensão própria em que a ação humana se desenrola.
É claro que o que constitui o interesse ardente que podemos ter lendo o Entwurf não é a pobre contribuiçãozinha a uma fisiologia fantasista que ele comporta.
Perto dos quarenta anos ele descobre a dimensão própria, a vida significativa, dessa realidade.
A noção de uma profunda subjetivação do mundo exterior - alguma coisa tria, criva de tal maneira que a realidade só é entrevista pelo homem, pelo menos no estado natural, espontâneo, de uma forma profundamente escolhida. O homem lida com peças escolhidas da realidade.
Há sempre superabundância de razões para nos fazer acreditar em não sei qual racionalidade da sucessão de nossas formas endopsíquicas. No entanto, na maioria dos casos, é justamente em outro lugar, como sabemos, que sua verdadeira ligação pode ser apreendida.
Pouco importa se Freud se engana ou não - desde então vimos que podemos fazer o inconsciente e sua organização de pensamento remontarem a muito mais cedo.
O mundo freudiano, ou seja, o da nossa experiência comporta que é esse objeto, das Ding, enquanto o Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar. Reencontramo-lo no máximo como saudade. Não é ele que reencontramos, mas suas coordenadas de prazer, é nesse estado de ansiar por ele e de esperá-lo que será buscada, em nome do princípio do prazer, a tensão ótima abaixo da qual não há mais nem percepção nem esforço.
No final das contas, sem algo que o alucine enquanto sistema de referência, nenhum mundo da percepção chega a ordenar-se de maneira válida, a constituir-se de maneira humana. O mundo da percepção nos é dado por Freud como que dependendo dessa alucinação fundamental sem a qual não haveria nenhuma atenção disponível.
O que encontramos aqui permite-nos uma primeira aproximação daquilo que está em questão na neurose e de compreender o seu correlativo, o seu termo regulador. Se o fim da ação específica que visa à experiência de satisfação é o de reproduzir o estado inicial, de reencontrar das Ding, o objeto, compreendemos vários modos do comportamento neurótico.
Na neurose obsessiva o objeto em relação a que a experiência de fundo se organiza, a experiência de prazer, é um objeto que, literalmente, traz prazer demais.
O comportamento do obsessivo é que ele sempre se regula para evitar aquilo que o sujeito vê, frequentemente de modo bastante claro, como sendo a meta e o fim de seu desejo.
As coisas enquanto mudas. E as coisas mudas não são exatamente a mesma coisa que as coisas que não têm relação alguma com as palavras.
Das Ding é o que - no ponto inicial, logicamente e, da mesma feita, cronologicamente, da organização do mundo no psiquismo - se apresenta, e se isola, como o termo de estranho.
Não conhecemos nada dos processos do pensamento - deixem-me dizê-lo para frisar meu pensamento - se não praticarmos psicologia. Só os conhecemos porque falamos do que nos ocorre, porque falamos disso em termos inevitáveis, dos quais estamos cientes, por outro lado, de sua indignidade, de seu vazio, de sua futilidade. É a partir do momento em que falamos de nossa vontade, ou de nosso entendimento, como de faculdades distintas que temos uma pré-consciência, e que somos capazes, com efeito, de articular num discurso algo desse palavrório pelo qual nos articulamos em nós mesmos, justificamo-nos, racionalizamos para nós mesmos, em tal ou tal circunstância, o encaminhamento do nosso desejo.
Trata-se, com efeito, justamente de um discurso.
Não há negação no nível do inconsciente.
No inconsciente há todo tipo de maneiras de representá-la metaforicamente. Há todo tipo de maneiras de representá-la no sonho.
Freud fornece-nos uma articulação verdadeiramente nova mostrando-nos a raiz, o funcionamento psíquico do que, na constituição humana, pesa, e meu Deus como pesa, sobre todas essas formas das quais não se convém desconhecer nenhuma, até aquela, a mais simples, a dos mandamentos, e mesmo, diria, os dez mandamentos.
A lei fundamental é a lei da interdição do incesto.
Tudo o que se desenvolve no nível da interpsicologia criança-mãe e que expressamos mal nas categorias ditas de frustração, da gratificação e da dependência não é senão um imenso desenvolvimento da coisa materna, da mãe na medida em que ela ocupa o lugar dessa coisa, de das Ding.
O que encontramos na lei do incesto situa-se como tal no nível da relação inconsciente com das Ding, a Coisa. O desejo pela mãe não poderia ser satisfeito pois ele é o fim, o término, a abolição do mundo inteiro da demanda, que é o que estrutura mais profundamente o inconsciente do homem.
É na própria medida em que a função do princípio do prazer é fazer com que o homem busque sempre aquilo que ele deve reencontrar, mas que não poderá atingir, que nesse ponto reside o essencial, esse móvel, essa relação que se chama a lei da interdição do incesto.
Que a interdição do incesto não é outra coisa senão a condição para que subsista a fala.
O real, disse-lhes eu, é o que se reencontra sempre no mesmo lugar.
Pois bem, o passo dado por Freud, no nível do princípio do prazer, é o de mostrar-nos que não há Bem Supremo - que o Bem Supremo, que é das Ding, que é a mãe, o objeto do incesto, é um bem proibido e que não há outro bem. Tal é o fundamento, derrubado, invertido, em Freud, da lei moral.
Mais inacessíveis a nossos olhos feitos para os sinais do cambista.
No nível do inconsciente o sujeito mente. E essa mentira é sua maneira de dizer a verdade acerca disso.
Se algo, no ápice do mandamento ético, termina de uma maneira tão estranha, tão escandalosa para o sentimento de alguns, articulando-se sob a forma do Amarás teu próximo como a ti mesmo, é por ser próprio à lei da relação do sujeito humano consigo mesmo que ele se constitua, ele mesmo, como seu próprio próximo em sua relação ao seu desejo.
É a física newtoniana que força Kant a uma revisão radical da função da razão enquanto pura.
A única definição da ação moral possível é aquela cuja fórmula bem conhecida é dada por Kant - Faz de tal modo que a máxima de tua ação possa ser tomada como uma máxima universal.
É mais do que evidente que não apenas as sociedades vivem muito bem com referências a leis que estão longe de suportar o estabelecimento de uma aplicação universal, mas bem mais, como já lhes indiquei da última vez, é pela transgressão dessas máximas que as sociedades prosperam.
As fantasias, com efeito, num certo grau, num certo limite, não suportam a revelação da fala.
O Não mentirás, preceito negativo, tem por função retirar do enunciado o sujeito da enunciação. Lembrem-se do grafo. É justamente aí - na medida em que minto, que recalco, que sou eu, mentiroso, quem fala - que posso dizer Não mentirás. Nesse Não mentirás, como lei, está incluída a possibilidade da mentira como o desejo mais fundamental.
É que essa fala, ela própria, não sabe o que diz quando mente, e que, por outro lado, mentindo há alguma verdade que ela promove. E é nessa função antinômica, que a fala condiciona, entre o desejo e a lei, que reside o móvel primordial que faz desse mandamento, entre os outros dez, uma das pedras angulares do que podemos chamar de a condição humana, na medida em que ela merece ser respeitada.
Não cobiçarás a mulher do próximo. Não cobiçarás sua casa, nem seu campo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence.
Não a uma coisa qualquer que eu deseje, mas a uma coisa na medida em que é a Coisa de meu próximo.
É claro que a libido, com seus aspectos paradoxais, arcaicos, ditos pré-genitais, com seu polimorfismo eterno, com esse mundo de imagens ligados aos modos pulsionais dos diferentes estados, orais, anais e genitais - e que é, sem dúvida alguma, a originalidade da dimensão freudiana -, em suma, que todo o microcosmo não tem absolutamente nada a ver com o macrocosmo e não engendra um mundo senão na imaginação. Essa é a doutrina freudiana, contrariamente ao rumo em que um tal de seus discípulos, Jung para citá-lo, tenta arrastá-la - esse ponto de bifurcação do grupo freudiano que se situa em torno de 1910.
A sublimação caracteriza-se por uma mudança nos objetos, ou na libido, que não se faz por intermédio de um retorno do recalcado, que não se faz sintomaticamente, indiretamente, mas diretamente, de uma maneira que se satisfaz diretamente. A libido vem encontrar sua satisfação nos objetos - como distingui-los inicialmente? Muito simplesmente, muito massivamente, e, para dizer a verdade, não sem abrir um campo de perplexidade infinita, como objetos socialmente valorizados, objetos aos quais o grupo pode dar sua aprovação, uma vez que são objetos de utilidade pública. É desse modo que a possibilidade de sublimação é definida.
Lutero escreve isto - o ódio eterno de Deus contra os homens, não apenas contra as fraquezas e contra as obras de uma livre vontade, mas um ódio que existia antes mesmo que o mundo fosse criado. Vocês estão vendo que tenho algumas razões para lhes aconselhar a ler, de vez em quando, os autores religiosos - quero dizer os bons e não aqueles que são água com açúcar -, mas mesmo estes são por vezes frutuosos. São Francisco de Sales sobre o casamento, asseguro-lhes que bem se equivale ao livro de Van de Velde sobre o casamento perfeito. Mas Lutero, na minha opinião, representa muito mais. Esse ódio que existia antes mesmo que o mundo fosse criado, que é correlativo da relação que há entre uma certa incidência da lei como tal e uma certa concepção de das Ding como sendo o problema radical e, em suma, do mal - penso que a vocês não escapa que é exatamente aquilo com que Freud lidava quando a questão que ele coloca sobre o Pai o conduz a nos mostrar nele o tirano da horda, aquele contra o qual o crime primitivo foi destinado, e introduziu, por isso mesmo, a ordem, a essência e o fundamento do âmbito da lei.
No nível da sublimação o objeto é inseparável de elaborações imaginárias e, muito especialmente, culturais. Não é que a coletividade as reconheça simplesmente como objetos úteis - ela encontra aí o campo de descanso pelo qual ela pode, de algum modo, engodar-se a respeito de das Ding, colonizar com suas formações imaginárias o campo de das Ding. É nesse sentido que as sublimações coletivas, socialmente recebidas, se exercem.
A psicologia dos afetos, teremos, talvez um dia, de estudá-la juntos.
Podemos tentar definir o campo do sujeito na medida em que ele não é apenas o sujeito intersubjetivo, o sujeito submetido à mediação significante, mas o que está por trás desse sujeito.
Com esse campo que chamo de campo do das Ding.
Nem o prazer, nem as tendências organizadoras, unificadoras, eróticas da vida de modo algum bastam para fazer do organismo vivo, das necessidades e precisões da vida, o centro do desenvolvimento psíquico.
Estou apresentando aqui a ética da psicanálise e não lhes posso apresentar, ao mesmo tempo, a ética hegeliana. O que quero assinalar é que elas não se confundem. No ponto de chegada de uma certa fenomenologia, a divergência entre o indivíduo e a cidade, entre o indivíduo e o Estado se rompe. Em Platão, igualmente, as desordens da alma encontram-se referidas à mesma dimensão - trata-se da reprodução na escala psíquica das desordens da cidade. Tudo isso depende de uma problemática que não é freudiana. O indivíduo doente, tal como Freud o aborda, depende de uma outra dimensão que não aquela das desordens do Estado e dos distúrbios da hierarquia. Freud lida com o indivíduo doente como tal, com o neurótico, com o psicótico, ele lida diretamente com as potências da vida na medida em que desembocam nas da morte, ele lida diretamente com as potências que emanam do conhecimento do bem e do mal.
A articulação kleiniana consiste nisto - ter colocado no lugar central de das Ding o corpo mítico da mãe.
Trata-se na sublimação de uma certa forma, diz-nos Freud, de satisfação dos Triebe, que só traduz impropriamente por instintos, e que é preciso traduzir severamente por pulsões - ou por derivas, para marcar que o Trieb é desviado do que ele chama de Ziel, seu alvo.
A sublimação nos é representada como distinta dessa economia de substituição onde se satisfaz habitualmente a pulsão na medida em que é recalcada. O sintoma é o retorno, por via de substituição significante, do que se encontra na ponta da pulsão como seu alvo. É aqui que a função do significante adquire toda a sua importância, pois é impossível, sem colocá-la em jogo, distinguir o retorno do recalcado da sublimação como modo de satisfação possível da pulsão. É um paradoxo - a pulsão pode encontrar seu alvo em outro lugar que não seja naquilo que é seu alvo, sem que se trate aí da substituição significante que constitui a estrutura sobredeterminada, a ambiguidade, a dupla causalidade, do que se chama de compromisso sintomático.
É melhor apreender, graças a uma situação distante, o que advém para nós de uma formação coletiva a ser precisada, que se chama arte, em relação à Coisa, e como nos comportamos no plano da sublimação.
Na análise o objeto é um ponto de fixação imaginário dando, em qualquer registro que seja, satisfação a uma pulsão.
O caráter completamente gratuito, proliferante e supérfluo, quase absurdo, dessa coleção visava, com efeito, sua coisidade de caixa de fósforos. O colecionador encontrava assim sua razão nesse modo de apreensão que incidia menos na caixa de fósforos do que nessa Coisa que subsiste na caixa de fósforos.
A Outra coisa é, essencialmente, a Coisa.
O exemplo do pote de mostarda e do vaso permite-nos introduzir aquilo em torno de que girou o problema central da Coisa na medida em que ele é o problema central da ética, ou seja, - se for uma potência razoável, se foi Deus quem criou o mundo, como é possível que, primeiro, façamos o que for, segundo, deixemos de fazê-lo, o mundo vá tão mal?
Trata-se, com efeito, da Coisa, ela dado ser definida por isto - ela define o humano, embora, justamente, o humano nos escape.
O que do real padece do significante.
A ideia de criação é consubstancial ao pensamento de vocês.
Vocês não podem pensar, e ninguém, em outros termos senão em termos criacionistas. O que acreditam ser o modelo mais familiar do pensamento de vocês, ou seja, o evolucionismo, é, em vocês como em todos os seus contemporâneos, uma forma de defesa, de aferro aos ideais religiosos, que lhes impede de ver o que ocorre no mundo em torno de vocês. Mas não é por vocês estarem, como todo o mundo, saibam vocês ou não, presos na noção de criação, que o Criador está, para vocês, numa posição bem clara.
É claro que Deus está morto. É o que Freud expressa de ponta a ponta em seu mito - já que Deus sai do fato de que o Pai está morto, isso certamente quer dizer que nos demos conta de que Deus está morto, e é por isso que Freud cogita tão firmemente sobre isso. Porém, igualmente, já que é o Pai morto a quem Deus originalmente serve, ele também estava morto desde sempre. A questão do Criador em Freud é, portanto, saber a que deve ser apenso, em nossos dias, aquilo que dessa ordem continua se exercendo.
Em outro lugar ele aproxima a paranóia do discurso científico.
Toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno desse vazio.
O fenômeno da descrença, que não é a supressão da crença - é um modo próprio da relação do homem com seu mundo e, na verdade, aquele no qual ele subsiste.
O discurso da ciência é determinado por essa Verwerfung, e é provavelmente por isso - o que é rejeitado do simbólico reaparecendo, segundo minha fórmula, no real - que aconteça de ele desembocar numa perspectiva em que é justamente algo de tão enigmático como a Coisa que se delineia ao termo da física.
É um objeto dito de anamorfose.
Penso que muitos sabem o que é - é toda espécie de construção feita de tal maneira que, por transposição ótica, uma certa forma, que não é perceptível à primeira vista, se reúne em uma imagem legível. O prazer consiste em vê-la surgir de uma forma indecifrável.
Quando falo da Coisa, é certo que estou falando de alguma coisa. Mas, é claro, no entanto, que dela falo de maneira operacional, pelo lugar que ela ocupa numa certa época lógica de nosso pensamento e de nossa conceitualização, por sua função naquilo com que lidamos.
Evidentemente, nenhuma adaptação à realidade se faz a não ser por um fenômeno de gustação, de amostragem, pelo qual o sujeito chega a controlar, dir-se-ia quase com a língua, o que faz com que ele esteja bem seguro de não estar sonhando.
A primeira coisa que o homem desarmado pode fazer quando é atormentado pela precisão é começar alucinando sua satisfação, e em seguida ele nada pode fazer senão controlar. Felizmente, ele faz, ao mesmo tempo, mais ou menos os gestos necessários para aferrar-se à zona onde essa alucinação coincide com um real aproximativo.
Ele mesmo ressalta o impasse que constitui o fato de haver a sublimação, mas que, essa sublimação, não podemos motivá-la historicamente senão pelo mito ao qual ele torna a voltar. Nesse exato momento a função do mito torna-se totalmente patente. Para dizer a verdade, esse mito nada mais é do que aquilo que se inscreve na realidade espiritual mais sensível de nosso tempo, ou seja, a morte de Deus. É em função da morte de Deus que o assassinato do pai, que a representa da maneira mais direta, é introduzido por Freud como um mito moderno.
Supomos aí tratar-se do indivíduo e igualmente da coletividade, porém não há uma tal oposição entre eles no nível em questão. Pois, trata-se do sujeito como devendo padecer do significante. Nessa paixão do significante surge o ponto crítico, do qual a angústia é, no caso, apenas um afeto desempenhando o papel de sinal ocasional.
Exteriormente as rechonchudas faziam parte do sex-appeal da época.
Aí se lê igualmente Militae species amor est, o amor é uma espécie de serviço militar.
Entre estética e ética freudianas.
Sobretudo se acrescentarmos que essa exibição se acompanha, naqueles que se consideram como os mais fortes, os mais audaciosos, de uma masturbação coletiva.
A teoria propriamente bernfeldiana se expressa - Esses componentes de um total de comoção pulsional que se mantêm sob a ação, sob a pressão de um recalque, podem ser sublimados. As particularidades desses componentes permitem, portanto, a sustentação de uma função do eu por meio do reforço de tendências do eu que estão atualmente colocadas em perigo.
A sublimação não é, com efeito, o que um zé-povinho acha e nem sempre se exerce obrigatoriamente no sentido do sublime.
A mudança de objeto não faz desaparecer forçosamente, bem longe disso, o objeto sexual - o objeto sexual, ressaltado como tal, pode vir à luz na sublimação. O jogo sexual mais cru pode ser objeto de uma poesia sem que esta perca, no entanto, uma visada sublimadora.
O artigo de Sperber que se intitula Da influência dos fatores sexuais sobre a origem e o desenvolvimento da linguagem, mas que tange, com efeito, a todos os problemas próximos do que temos de articular aqui no que se refere à sublimação.
Jones, em seu artigo sobre a teoria do simbolismo, sobre o qual eu mesmo fiz em nossa revista um comentário cujos ecos fizeram-me saber que ele não é facilmente acessível ao leitor, fala expressamente dele. Se a teoria de Sperber é verdadeira, diz ele, se devemos considerar certos trabalhos primordiais, sobretudo, os trabalhos agrícolas, as relações do homem com a terra como equivalentes do ato sexual, como certos traços engendrados cujo rastro conservamos na significação dessa relação primitiva, pode ser ele referido ao processo de simbolização? Jones diz que não. Em outros termos, dada a concepção que ele tem da função do símbolo, ele considera que não se trata de uma transposição simbólica para o que quer que seja, nem que possa ser posto no registro de um efeito de sublimação. O efeito de sublimação deve ser aqui tomado em sua liberalidade, em sua autenticidade. A copulação do lavrador com a terra não é uma simbolização, mas o equivalente de uma copulação simbólica.
Que as palavras cuja significação era primitivamente sexual tenham progredido como bola de neve até recobrirem significações muito afastadas não quer dizer, no entanto, que todo o campo da significação esteja recoberto. Isso não quer dizer que toda a linguagem que usamos seja, no fim das contas, redutível às palavras-chaves que ela fornece, e cuja valorização é consideravelmente facilitada pelo fato de que se admite como demonstrado o que há de mais contestável, a noção de raiz ou de radical, e o que seria sua vinculação constitutiva, na linguagem humana, a um sentido.
Por que essas zonas nas quais a significação sexual progride feito bola de neve, por que esses rios nos quais, habitualmente, ela se espalha, e um sentido que, como vocês viram, não é indiferente, são especialmente escolhidos para que se ponha em uso, a fim de atingi-los, palavras que já foram empregadas na ordem sexual? Por que é justamente a respeito de um ato semifalho de secção, de um ato de cortar mais ou menos amortecido, sufocado, malfeito que se vai fazer ressurgir a origem presumida da palavra, buscada na perfuração dos mais primitivos trabalhos, com uma significação de operação sexual, de penetração fálica? Por que se vai fazer ressurgir a metáfora foder a respeito de algo fedido? Por que é a imagem da vulva que surgirá para expressar atos diversos, entre os quais o de se furtar, de escapar, de se mandar, como diversas vezes foi traduzido o termo do texto alemão?
Pode parecer-lhes muito sem-cerimônia essa maneira de proceder, mas não tenho muito tempo, com o caminho que nos resta a percorrer, para deter-me em preocupações de professor. Não é a minha função.
Um psicanalista que fala diante de um público não iniciado adquire sempre um sentido de propagandista.
Enquanto analistas, pensamos que não há saber algum que não se erga sobre um fundo de ignorância.
Basta abrir esse pequeno livro que se chama Moisés e o monoteísmo que Freud preparou durante uns dez anos, pois desde Totem e tabu ele só pensava nisso, na história de Moisés e na religião de seus pais. E se não houve o artigo sobre a Spaltung do ego, poder-se-ia dizer que a pena cai-lhe da mão no final de Moisés e o monoteísmo. Contrariamente ao que me parece estar insinuado no que me contaram há algumas semanas sobre a produção intelectual de Freud no fim de sua vida, não acredito absolutamente que ela estivesse em declínio. Em todo caso, nada me parece mais firmemente articulado, e mais conforme a todo o pensamento anterior de Freud, do que essa obra.
Nessa atmosfera pagã, no tempo em que estava em plena florescência, o numen surge a cada passo, em todos os cantos das estradas, nas grutas, no cruzamento dos caminhos, tece a experiência humana, e podemos ainda nos dar conta de seus vestígios em muitos campos.
A história das religiões consiste essencialmente em destacar o denominador comum da religiosidade. Fabricamos uma dimensão do lado religioso do homem, no qual somos obrigados a fazer entrar religiões tão diferentes quanto uma religião de Bornéu, a religião confuciana, taoísta, a religião cristã. Isso não é feito sem dificuldades, se bem que quando se se dedica a tipificações, não há razão alguma para não se chegar a alguma coisa. E aí chega-se a uma tipificação do imaginário, que se opõe ao que distingue a origem da tradição monoteísta, e que é integrado aos mandamentos primordiais na medida em que são as leis da fala - não farás imagem talhada de mim, mas para não correr o risco de fazer, não farás imagem alguma.
Não apenas o assassinato do pai não abre a via para o gozo que sua presença era suposta interditar, mas ele reforça sua interdição.
Todo exercício de gozo comporta algo que se inscreve no livro da dívida na Lei. E muito mais ainda, é preciso que algo nessa regulação seja, ou bem paradoxo, ou bem lugar de algum desregramento, pois, ultrapassamento da falha no outro sentido não é equivalente.
Freud escreve o Mal-estar na civilização para dizer-nos que tudo o que passa do gozo à interdição vai no sentido de um reforço sempre crescente de interdição. Todo aquele que se aplica em submeter-se à lei moral sempre vê reforçarem-se as exigências, sempre mais minuciosas, mais cruéis de seu supereu.
Por que será que não ocorre o mesmo no sentido contrário?
Não é absolutamente o caso, é um fato, e todo aquele que avança na via do gozo sem freios, em nome de qualquer forma que seja de rejeição da moral, encontra obstáculos cuja vivacidade sob inúmeras formas nossa experiência nos mostra todos os dias, e que, talvez, não deixam de supor algo único na raiz.
A transgressão no sentido do gozo só se efetiva apoiando-se no princípio contrário, sob as formas da Lei. Se as vias para o gozo têm, nelas mesmas, algo que se amortece, que tende a ser impraticável, é a interdição que lhe serve, por assim dizer, de veículo utilitário, de tanque para sair desses círculos que trazem sempre o homem, sem saber, o que fazer, para a rotina de uma satisfação curta e tripudiada.
Mas se Deus está morto para nós, é porque o está desde sempre, e é justamente isso que nos diz Freud. Ele nunca foi o pai a não ser na mitologia do filho, isto é, na do mandamento que ordena amá-lo, ele o pai, e no drama da paixão que nos mostra que há uma ressurreição para além da morte. Quer dizer que o homem que encarnou a morte de Deus continua existindo. Continua existindo com esse mandamento que ordena amar a Deus. É perante isso que Freud se detém, e se detém da mesma feita - a coisa é articulada no Mal-estar na civilização - perante o amor do próximo, que nos parece algo de insuperável, e até mesmo de incompreensível.
- o que disse para vocês, eu não dissera nem a metade para eles.
Deus, portanto, está morto. Visto que está morto, o estava desde sempre. Expliquei-lhes a substância da doutrina de Freud no assunto, ou seja, o mito expresso em Totem e tabu. É justamente por Deus estar morto, e morto desde sempre, que uma mensagem pôde ser veiculada através de todas as crenças que o faziam aparecer sempre vivo, ressuscitado do vazio deixado por sua morte nos deuses não contraditórios, cujo lugar eleito da pululação nos é designado por Freud como sendo a terra do Egito.
- Mas por que ele não diz o verdadeiro a respeito do verdadeiro?
Cito - o porque é uma impaciência que senti expressar-se em muitas pessoas por outras vias diferentes dos sonhos.
Talvez eu não diga o verdadeiro a respeito do verdadeiro. Mas, vocês não notaram que ao querer dizê-lo, o que é a ocupação principal daqueles que chamam de metafísicos, o que ocorre é que não sobra muita coisa do verdadeiro?
É justamente o que há de escabroso numa tal pretensão. É ela que nos faz cair habitualmente no registro de uma certa canalhada. E não há também uma certa knavery, metafísica, quando um certo tratado dentre nossos modernos tratados de metafísica faz passar, ao abrigo desse estilo do verdadeiro sobre o verdadeiro, muitas coisas que, verdadeiramente, não deveriam passar?
- O homem, com efeito, é tentado a satisfazer no próximo sua agressividade, a explorar seu trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo.
Quem é que, em nome do prazer, não afrouxa desde o primeiro passo um pouco sério em direção a seu gozo? Não é o que todos os dias sentimos de perto?
Em primeiro lugar o próximo é um ser malvado, cuja natureza profunda vocês viram ser desvelada em sua escrita. Mas não é só isso. Freud diz mais - e não há por que se sorrir sob o pretexto de que isso se expressa sob a forma de uma certa parcimônia - meu amor é algo precioso, não vou dá-lo inteiramente a cada um que se apresente como sendo o que é, só porque ele se aproximou.
Certamente tocamos aí num termo primitivo, a necessidade que deve ser satisfeita, pois o mendigo está nu. Mas talvez, para além de precisar vestir-se, mendigava ele outra coisa, que são Martinho o matasse, ou que trepasse com ele. É uma questão muito diferente a de saber o que significa num encontro a resposta, não da beneficência, mas do amor.
Seu exemplo, repito-o, é constituído por duas historietas. A primeira se refere ao personagem que está colocado na posição de ser executado no final caso queira encontrar a dama que ele deseja - não é inútil ressaltar isso, pois todos os detalhes aparentemente mais simples desempenham aqui o papel de armadilha. O outro caso é o de alguém que, vivendo na corte de um déspota, é colocado na posição de ou bem prestar falso testemunho contra alguém que por isso perderá a vida, ou bem, se não o fizer, ser ele mesmo executado.
Esse jovem que se instala em sua função de analista - é o que eu poderia chamar de seu esqueleto -, que fará de sua ação algo de vertebrado, de modo algum esse movimento em direção a mil formas, sempre prestes a voltar atrás e a se atrapalhar num círculo, cuja imagem é fornecida há algum tempo por certas explorações.
Portanto não é de modo mau que aqui seja denunciado o que de uma esperança de segurança, certamente útil no exercício profissional, pode impregnar não sei que segurança sentimental por meio da qual esses sujeitos que suponho na bifurcação de sua existência se encontram aprisionados por uma enfatuação que é a fonte de uma decepção íntima como também de uma reivindicação secreta.
Quanto a isso é-nos preciso seguir Freud, não enquanto indivíduo, em sua profissão de fé atéia, mas como o primeiro que deu valor e direito de cidadania a um mito que fornece, em nosso pensamento, uma resposta ao que se formulara sem razão mas da maneira mais extensa e articulada à consciência de nossa época, a esse fato entrevisto pelos espíritos mais lúcidos, e bem mais ainda pela massa, que se chama a morte de Deus.
Eis, portanto, a problemática da qual partimos. Nela desenvolve-se o signo que eu lhes propunha no grafo sob a forma S(Ø). Situando-se, vocês sabem onde, na parte superior à esquerda ele se indica como a resposta derradeira à garantia pedida ao Outro do sentido dessa lei articulada o mais profundamente no inconsciente. Se nada mais há senão a falta (manque), o Outro se esvai, e o significante é o significante da morte.
Conservação do que é destruído.
Trata-se da rebelião do homem, isto é, de Jedermann, de todo homem, na medida em que aspira à felicidade. A verdade que o man busca a felicidade permanece verdadeira. A resistência ao mandamento Amarás teu próximo como a ti mesmo e a resistência que se exerce para entravar seu acesso ao gozo são uma única e mesma coisa.
Cada vez que, com efeito, vemos o sujeito recuar diante de seu gozo? De que estamos falando? A agressividade que ele contém, o núcleo temível desse destrudo que, quaisquer que sejam as pequenas afetações, os regateios analíticos de frescura, não deixa de ser com isso que nos encontramos constantemente confrontados em nossa experiência.
Desse alhures onde aquele que deve responder está faltando, aquele que a garante, ou seja, o próprio Deus.
Recuo de amar meu próximo como a mim mesmo na medida em que nesse horizonte há algo que participa de não sei qual crueldade intolerável. Nessa direção, amar meu próximo pode ser a via mais cruel.
Esse interior, esse vazio, sobre o qual não sei mais se pertence a mim ou a alguém, é o que serve, pelo menos em francês, para designar a noção do même.
O próximo tem certamente toda essa maldade da qual fala Freud, mas que ela não é outra senão aquela diante da qual eu mesmo recuo. Amá-lo, amá-lo como um eu mesmo, é, da mesma feita, ir adiante em alguma maldade. A sua ou a minha? objetar-me-ão vocês - mas acabo de explicar-lhes justamente que nada diz que elas sejam distintas. Parece muito mais que seja a mesma, com a condição de que os limites, que me fazem colocar-me diante do outro como meu semelhante, sejam transpostos.
Um ponto agora sobre o valor de testemunho de realidade da obra de Sade. Interrogaremos seu valor de sublimação? Ao considerar a sublimação na forma mais desenvolvida, diria mesmo mais truculenta e mais cínica, com a qual Freud se divertiu propondo-a para nós, ou seja, a transformação da tendência sexual numa obra onde cada um, reconhecendo seus próprios sonhos e suas próprias impulsões, recompensará o artista por dar-lhe essa satisfação proporcionando-lhe uma vida abastada e feliz, e por conseguinte dando-lhe, efetivamente, o acesso à satisfação da tendência interessada no início, se tomarmos a obra de Sade sob esse ângulo, pois bem, é sobretudo um fracasso.
- Emprestai-me a parte de vosso corpo que possa satisfazer-me um instante, e gozai, se isto vos agrada, da parte do meu que pode ser-vos agradável.
Não se supera Descartes, Kant, Marx, Hegel e alguns outros, uma vez que eles marcaram a direção de uma pesquisa, uma verdadeira orientação. Não se supera Freud tampouco.
Marx aspira a um Estado onde não será apenas politicamente, como ele se expressa, mas realmente, que a emancipação humana se produzirá, e onde o homem se encontrará, com respeito à sua própria organização, numa relação não alienada.
Vontade de destruição. Vontade de recomeçar com novos custos. Vontade de Outra-coisa, na medida em que tudo pode ser posto em causa a partir da função do significante.
Já havia, no tempo do amor cortês, pessoas às quais aludi fugitivamente, que se chamavam os cátaros, e para quem não havia dúvida de que o Príncipe desse mundo fosse algo bastante comparável com esse Ser-supremo-em-maldade. A Grimmigkeit do Deus boêmio, a maldade fundamental como uma das dimensões da vida suprema, prova-lhes que não é apenas por um pensamento libertino e anti-religioso que essa dimensão pode ser evocada.
A verdadeira barreira que detém o sujeito diante do campo inominável do desejo radical uma vez que é o campo da destruição absoluta, da destruição para além da putrefação, é o fenômeno estético propriamente dito uma vez que é identificável com a experiência do belo e o belo em seu brilho resplandecente, esse belo do qual disseram que é o esplendor da verdade. É evidentemente por o verdadeiro não ser muito bonito de se ver, que o belo é, senão seu esplendor, pelo menos sua cobertura.
Na experiência de vocês tudo lhes sugere que a noção e a finalidade do bem lhes sejam problemáticas. Que bem exatamente perseguem vocês no que se refere à paixão? Essa pergunta está sempre na ordem do dia de nosso comportamento. A cada instante temos de saber qual deve ser nossa relação efetiva com o desejo de fazer bem, o desejo de curar. Temos de contar com ele como algo suscetível de desencaminhar-nos, e, em muitos casos, instantaneamente. Diria mais - poder-se-ia de maneira paradoxal, ou até mesmo decisiva, designar nosso desejo como um não-desejo de curar.
Essa expressão não tem outro sentido senão o de nos alertar contra as vias vulgares do bem, tal como elas se oferecem a nós tão facilmente em seu pendor, contra a falcatrua benéfica do querer-o-bem-do-sujeito.
Toda a experiência analítica não é senão o convite para a revelação de seu desejo, e ela muda a primitividade da relação do sujeito com o bem, em relação a tudo o que até então foi articulado sobre isso pelos filósofos. Certamente, é preciso ir ver de perto, pois, parece, inicialmente, nada ter mudado, e que a ponta, em Freud, está sempre dirigida para o registro do prazer.
Opondo a privação à frustração e à castração, disse-lhes que era uma função instituída como tal no simbólico, no sentido em que nada é privado de nada, o que não impede que o bem do qual se é privado seja totalmente real. Mas o importante é saber que o privador é uma função imaginária. É o pequeno outro, o semelhante, aquele que é dado nessa relação semi-enraizada no natural que é o estádio do espelho, mas tal como se apresenta para nós lá onde as coisas se articulam no nível do simbólico. É um fato de experiência do qual é preciso que vocês se lembrem constantemente na análise - o que se chama defender seus bens é apenas uma única e mesma coisa que proibir a si mesmo de gozar deles.
O homem não sabe o que ele põe em movimento com sua demanda.
Penso que todos vocês são suficientemente informados para que eu não tenha de lhes recordar o que é o potlatch. Indico brevemente que se trata de cerimônias rituais que comportam a destruição externa de bens diversos, bens de consumo ou bens de representação e de luxo, prática de sociedades que não são mais do que restos, vestígios da existência social de um modo humano que nossa expansão tende a abolir. O potlatch testemunha do recuo do homem com respeito aos bens que pôde tê-lo feito vincular a manutenção e a disciplina, digamos, de seu desejo, dado que é aquilo com o qual ele lida em seu destino, com a destruição reconhecida dos bens, tratando-se de propriedade coletiva ou individual. É em torno desse ponto que giram o problema e o drama da economia do bem, seus ricochetes e retornos.
Hegel tentou amplamente na Fenomenologia do espírito articular a tragédia humana em termos de conflitos de discursos. Ele se compraz, entre outras coisas, com a tragédia de Antígona, uma vez que via opor-se aí da maneira mais clara o discurso da família ao do Estado. Mas as coisas são menos claras para nós.
O desenvolvimento repentino, prodigioso da potência do significante, do discurso que surge das pequenas letras das matemáticas, e que se diferencia de todos os discursos até então sustentados, torna-se uma alienação suplementar. Em quê? No fato de tratar-se de um discurso que, por estrutura, nada esquece. É por isso que ele se diferencia do discurso da memorização primeira que prossegue em nós sem que saibamos, do discurso memorial do inconsciente cujo centro está ausente, cujo lugar é situado pelo ele não sabia que é propriamente o sinal dessa omissão fundamental onde o sujeito vem situar-se. O homem aprendeu, num dado momento, a lançar e a fazer circular, no real e no mundo, o discurso das matemáticas que, este, não teria procedimento a menos que nada fosse esquecido.
Basta que uma pequena cadeia significante comece a funcionar baseada nesse princípio para que as coisas continuem exatamente como se funcionassem sozinhas, a tal ponto que ficamo-nos perguntando se o discurso da física, engendrado pela onipotência do significante, vai confinar com a integração da Natureza ou com sua desintegração.
A referência do sujeito a qualquer outro, qualquer que seja ele, tem algo de derrisório, quando o vemos - nós que vemos afinal das contas alguns, e até mesmo muitos - referir-se sempre ao outro como a alguém que, este sim, vive no equilíbrio, que é em todo caso mais feliz do que ele próprio, que não se coloca questões e dorme um sono descansado. Não precisamos ter visto o outro, tão sólido, por melhor assentado que esteja, vir estender-se em nosso divã, para saber que essa miragem - essa referência da dialética do bem a um para-além, que para ilustrar o que lhes quero dizer, eu chamaria de o bem, não toque nisso - é o próprio texto de nossa experiência.
O artista, diz ele, dá forma bela ao desejo proibido, para que cada um, comprando dele seu pequeno produto de arte, recompense e sancione sua audácia. Isso é justamente uma maneira de abordar o problema por um atalho. E Freud, aliás, tem perfeitamente consciência dos limites nos quais ele se confina, de uma maneira manifestamente visível quando se acrescenta a isso o problema da criação, já que ele o afasta como sendo fora do alcance de nossa experiência.
Há uma certa relação do belo com o desejo.
Essa relação singular é ambígua. Por um lado, parece ser possível que o horizonte do desejo seja eliminado do registro do belo.
E, no entanto, por um outro lado, ele não deixa de ser manifesto.
E como foi dito desde o pensamento da Antiguidade até São Tomás, que sobre isso fornece fórmulas muito preciosas, que o belo tem por efeito suspender, rebaixar, desarmar, diria eu, o desejo. A manifestação do belo intimida, proíbe o desejo.
Se ela é um bem-não-toque-nisso, como lhes dizia há pouco, a fantasia é, na estrutura desse campo enigmático, um belo - não - toque - nisso.
Leiam Sacher-Masoch, autor extremamente instrutivo, embora de menor envergadura que Sade, e verão que no final, a verdadeira ponta onde se projeta a posição do masoquista perverso é o desejo de se reduzir a si mesmo a esse nada que é o bem, a essa coisa que se trata como um objeto, a esse escravo que se transmite e que se partilha.
Em seguida, na tragédia, há o Coro. O Coro, o que é? Dir-lhes-ão - São vocês. Ou então - Não são vocês. A questão não é essa. Trata-se de meios, meios emocionais. Eu diria - O Coro são pessoas que se emocionam.
O bem não poderá reinar sobre tudo sem que apareça um excesso, de cujas consequências fatais nos adverte a tragédia.
Platão nos diz assim que aqueles que tiveram a iniciação de Zeus não reagem no amor como aqueles que tiveram a iniciação de Ares. Substituam esses nomes por aqueles que, em tal estado do Brasil, podem servir para designar tal espírito da terra, da guerra, tal divindade soberana - não estamos aqui para fazer exotismo, mas é justamente disso que se trata.
Para nós cristãos, formados pelo cristianismo.
O sentido do crime, como lhes mostrei, só pode ser uma fantasia derrisória, mas o que está em questão é o que o pensamento designa. O crime seria o que não respeita a ordem natural. E o pensamento de Sade chega até a forjar esse excesso verdadeiramente singular - inédito, certamente, na medida em que antes dele isso não tinha sido muito articulado, pelo menos aparentemente, embora não saibamos o que as seitas místicas há muito tempo puderam formular - que, por meio do crime, está no poder do homem liberar a natureza das correntes de suas próprias leis. Pois suas próprias leis são correntes. A reprodução das formas em torno das quais suas possibilidades, ao mesmo tempo, harmônicas e inconciliáveis vêm-se ocultar num impasse de conflitos, é tudo isso que é preciso afastar para forçá-la, digamos assim, a recomeçar a partir do nada. Tal é a visada do crime. Não é por nada que o crime é, para nós, um horizonte de nossa exploração do desejo, e que foi a partir de um crime original que Freud teve de tentar reconstruir a genealogia da lei. As fronteiras do a partir de nada, do ex nihilo, é nesse ponto, disse-lhes nos primeiros passos de nossas conversas deste ano, que um pensamento que se quer rigorosamente ateu se sustenta. Um pensamento rigorosamente ateu se situa na perspectiva do criacionismo, e em nenhuma outra.
Para ilustrar que o pensamento sádico se sustenta justamente nesse limite, nada é mais exemplar do que a fantasia fundamental em Sade, aquela que as mil imagens extenuantes que ele nos dá da manifestação do desejo nada mais fazem do que ilustrar. Essa fantasia é a de um sofrimento eterno.
No enredo sádico típico o sofrimento não leva a vítima a esse ponto que a dispersa e que a aniquila. Pelo contrário, parece que o objeto dos tormentos deve conservar a possibilidade de ser um suporte indestrutível. A análise mostra claramente que o sujeito destaca um duplo de si mesmo, que ele torna inacessível ao aniquilamento, para fazê-lo suportar o que se deve chamar, no caso, por um termo extraído do âmbito da estética, dos jogos da dor. Pois trata-se justamente aí da mesma região que aquela em que os fenômenos da estética se deleitam, um certo espaço livre. E é nisso que reside a conjunção entre os jogos da dor e os fenômenos da beleza.
Jamais ressaltada, como se pesasse sobre ela não sei que tabu, não sei que interdição parente dessa dificuldade que conhecemos bem em nossos pacientes confessando o que é, propriamente falando, da ordem da fantasia.
Talvez estejamos na história à beira disto - é o que na linguagem do administrador lhes é designado em nossa época pela expressão de problemas culturais dos países subdesenvolvidos.
Vocês têm da própria boca de Antígona o testemunho do ponto em que ela está - literalmente, ela não aguenta mais. Sua vida não vale a pena ser vivida. Ela vive na memória do drama intolerável daquele a partir do qual surgiu essa linhagem que acaba de se aniquilar sob a figura de seus dois irmãos. Ela vive no lar de Creonte, submetida à sua lei, e é isso que ela não pode suportar.
O que está para além de um certo limite não deve ser visto.
- Se é teu coração, quem o ofende é quem o fez - eu, só ofendo teus ouvidos.
Sófocles não é um pedante de colégio, mas infelizmente são os pedantes que o traduzem. Seja como for, trata-se do final da tourada. Raspem a pista, levem o boi e cortem dele o que quiserem, se algo restar. O estilo - e que ele vá embora dobrando um alegre badalo das sinetas.
Final das contas, o herói da tragédia participa sempre do isolamento, e está sempre fora dos limites, sempre num vôo, e por conseguinte, arrancado por algum lado da estrutura.
São Ajax, Antígona, Electra, Édipo Rei, As traquínias, Filoctetes e Édipo em Colona.
Um Claude Lévi-Strauss busca a mesma coisa quando tenta formalizar a passagem da natureza à cultura, e, mais exatamente, a falha entre a natureza e a cultura.
Trata-se de uma doença, mekhanoen - isso que ele inventou é um truque danado, virem-se com isso.
Pois, parêiron quer incontestavelmente dizer combinando às avessas, trançando às avessas, misturando a torto e a direito as leis. Khthonos, é a terra, theon t’ênorkon dikan, o que é formulado, dito, na lei. É isso a que recorremos no silêncio do analisando - não lhe dizemos Fale, não lhe dizemos Enuncie, Conte, dizemos Diga. É justamente o que não se deve fazer. Essa Dike é essencial, e a dimensão propriamente enunciadora.
Ênorkon, confirmada por juramento dos deuses.
Esse é o paradoxo no qual tropeça e vacila o pensamento de Goethe. Meu irmão é o que é, e é por ser o que é, e por só haver ele quem possa sê-lo, que vou adiante em direção a esse limite fatal. Se fosse qualquer outro com quem eu pudesse ter uma relação humana, meu marido, meus filhos, eles são substituíveis, são relações, mas esse irmão que é áthaptos, que tem comigo essa coisa de ter nascido da mesma matriz - a etimologia de adelphos faz alusão à matriz - e de estar ligado ao mesmo pai, o pai criminoso, do crime do qual Antígona está sofrendo as consequências - esse irmão é esse algo único, e é unicamente isso que motiva minha oposição a vossos editos.
Esse valor é essencialmente de linguagem. Fora da linguagem, ela nem mesmo poderia ser concebida, e o ser daquele que viveu não poderia ser assim destacado de tudo o que ele veiculou como bem e como mal, como destino, como consequência para os outros, e como sentimentos para si mesmo. Essa pureza, essa separação do ser de todas as características do drama histórico que ele atravessou, é justamente esse o limite, o ex nihilo em torno do qual Antígona se mantém. Nada mais é do que o corte que a própria presença da linguagem instaura na vida do homem.
Contra-senso insensato, pois, para Antígona a vida só é abordável, só pode ser vivida e refletida a partir desse limite em que ela já perdeu a vida, em que ela está para além dela - mas de lá ela pode vê-la, vivê-la sob a forma do que está perdido.
Mas Antígona leva até o limite a efetivação do que se pode chamar de desejo puro, o puro e simples desejo de morte como tal. Esse desejo, ela o encarna.
Reflitam bem nisto - o que é de seu desejo? Não deve ser ele o desejo do Outro e ligar-se ao desejo da mãe? O desejo da mãe, o texto faz a ele alusão, é a origem de tudo. O desejo da mãe é, ao mesmo tempo, o desejo fundador de toda a estrutura, aquele que fez vir à luz seus rebentos únicos, Eteoclés, Polinices, Antígona, Ismene, mas, ao mesmo tempo, é um desejo criminoso.
Poderia dizer agora que os exponho à prova de dar-lhes coelhos crus para comer. Restabeleçam-se. Aprendam com a jibóia - durmam um pouco que isso vai passar. Dar-se-ão conta ao despertar de que digeriram, contudo, alguma coisa.
Essa relação com o ser suspende tudo o que tem relação com a transformação, com o ciclo das gerações e das corrupções; com a própria história, e nos leva a um nível mais radical do que tudo, dado que, como tal, ele está suspenso à linguagem.
Perguntam-se onde arrumo tempo para reunir tudo isso. Vocês omitem que tenho alguns anos a mais do que vocês na existência. Sem ter duzentos anos de corte como um gramado inglês, já começa a se aproximar disso - enfim, estou mais perto disso do que vocês, e tive tempo de esquecer várias vezes as coisas das quais lhes falo.
Digo num dado momento, que o analista deve pagar algo para ocupar sua função.
Ele paga com palavras - suas interpretações. Ele paga com sua pessoa, pelo seguinte - pela transferência ele é literalmente despossuído dela. Toda a evolução presente da análise é o desconhecimento disso, mas o que quer que seja que ele ache e qualquer que seja o recurso-pânico a the Counter-Transference, é bem preciso que ele passe por isso. Não é apenas ele que ali está com aquele com quem estabeleceu um certo compromisso.
Enfim, é preciso que ele pague com um certo julgamento no que diz respeito à sua ação. A análise é um juízo. Alhures isso é exigível em toda parte, mas se pode parecer escandaloso enunciá-lo aqui, é provavelmente por alguma razão. E a razão é que, por um certo aspecto, o analista tem muita consciência de que não pode saber o que faz em psicanálise. Há uma parte dessa ação que lhe resta, a si mesmo, velada.
Aceito que o aspecto de rodeio, de nosso caminho, foi feito para aproximá-los de nossa ética, de nós analistas. Alguns lembretes eram necessários antes de trazê-los, de maneira mais próxima, para a prática da análise e para seus problemas técnicos. No estado atual das coisas eles não poderiam ser resolvidos nesses lembretes.
Faço alusão ao fato sem me explicar sobremaneira. O assunto tampouco é explicado em razão de a felicidade ter-se tornado um fator da política. Se digo isso, mas é justamente o que me fizera terminar a conferência intitulada A psicanálise, dialética, pela qual encerrara uma certa era de minha atividade num grupo do qual nos separamos desde então, pela afirmação seguinte - Não poderia haver satisfação de ninguém fora da satisfação de todos.
Recentrar a análise na dialética.
Pretendemos, por vias que para alguém saindo do colégio pareceriam surpreendentes, permitir ao sujeito situar-se numa posição tal que as coisas, misteriosa e quase miraculosamente, aconteçam para ele de uma boa maneira, que ele as aborde pelo lado certo. Sabe Deus que obscuridades permanecem numa pretensão como o advento da objetalidade genital e, diga-se também, com sabe Deus que imprudência, a concordância com a realidade.
Uma única coisa faz alusão a uma possibilidade feliz de satisfação da tendência, e é a noção de sublimação. Mas é claro que tomando a formulação mais exotérica em Freud, quando ele a representa para nós como eminentemente realizada pela atividade do artista, isso quer dizer literalmente a possibilidade para o homem de tornar comerciais seus desejos, vendáveis sob a forma de produtos.
A fraqueza e até mesmo o cinismo de uma tal formulação têm, a meu ver, um mérito imenso, ainda que não esgote o fundo da questão que é - como, portanto, isso é possível?
A outra formulação consiste em dizer-nos que a sublimação é a satisfação da tendência na mudança de seu objeto, isto sem recalque.
Uma gramática mais filosófica.
Quando lemos no Apocalipse essa imagem poderosa, comer o livro, o que significa isso? - senão que o livro adquire ele mesmo o valor de uma incorporação, e a incorporação do próprio significante, o suporte da criação propriamente apocalíptica. O significante, nessa ocasião, torna-se Deus, o objeto da própria incorporação.
Ousando formular uma satisfação que não é paga com um recalque, o tema colocado no centro, promovido em sua primazia, é - o que é o desejo? A propósito disto posso apenas lembrar-lhes o que nessa época articulei - realizar seu desejo coloca-se sempre numa perspectiva de conciliação absoluta. É na medida em que a demanda está para além e para aquém de si mesma, que, ao se articular com o significante, ela demanda sempre outra coisa, que, em toda satisfação da necessidade, ela exige outra coisa, que a satisfação formulada se estende e se enquadra nessa hiância, que o desejo se forma como o que suporta essa metonímia, ou seja, o que quer dizer a demanda para além do que ela formula. E é por isso que a questão da realização do desejo se formula necessariamente numa perspectiva de Juízo final.
Tentem, perguntar-se o que pode querer dizer ter realizado seu desejo - se não é de tê-lo realizado, se podemos assim dizer, no final. É essa invasão da morte na vida que confere seu dinamismo a toda questão, quando ela tenta formular-se, sobre o tema da realização do desejo. Para ilustrar o que dizemos, se colocarmos a questão do desejo a partir do absolutismo parmenídico, na medida em que ele anula tudo o que não é o ser, diremos - nada é do que não nasceu, e tudo o que existe não vive senão na falta a ser.
A ideia de fazer perpetuar os sofrimentos infligidos à vítima.
Digamos que, diferentemente do sr. Teste, se a besteira não é o meu forte, nem por isso sinto-me mais orgulhoso.
Concepção da dignidade do objeto.
Eis o que convém relembrar no momento em que o analista se encontra em posição de responder a quem lhe demanda a felicidade.
A questão do Bem Supremo se coloca ancestralmente para o homem, mas ele, o analista, sabe que essa questão é uma questão fechada.
Não somente o que se lhe demanda, o Bem Supremo, é claro que ele não o tem, como sabe que não existe. Ter levado uma análise a seu termo nada mais é do que ter encontrado esse limite onde toda a problemática do desejo se coloca.
A psicanálise faz toda a efetivação da felicidade girar em torno do ato genital. Convém, contudo, tirar disso as consequências. Certamente nesse ato, num único momento, alguma coisa pode ser atingida pela qual um ser para um outro está no lugar, ao mesmo tempo, vivo e morto da Coisa. Nesse ato, e nesse único momento, ele pode simular com sua carne a efetivação do que ele não é em lugar nenhum. Mas a possibilidade dessa efetivação, se é polarizante, se é central, não poderia ser considerada como circunstancial.
O que o sujeito conquista na análise não é apenas esse acesso, uma vez mesmo repetido sempre aberto, é na transferência alguma outra coisa que confere sua forma a tudo o que vive - é sua própria lei, da qual, se posso assim dizer, o sujeito apura o escrutínio.
Essa lei é, primeiramente, sempre aceitação de algo que começou a se articular antes dele nas gerações precedentes.
O que o analista tem a dar, contrariamente ao parceiro do amor, é o que a mais linda noiva do mundo não pode ultrapassar, ou seja, o que ele tem. E o que ele tem nada mais é do que seu desejo, como o analisado, com a diferença de que é um desejo prevenido.
Essa função, que é aquela dita da distância, é definida nestes termos - a hiância que separa a maneira pela qual um sujeito expressa seus drives instintuais da maneira pela qual poderia expressá-los se o processo de arrumar e de ajeitar suas expressões não interviesse.
A forma sob a qual a instância moral se inscreve concretamente no homem, e que absolutamente não deixa de ser racional em seu dizer, essa forma que ele chamou de supereu, é de uma economia tal que se torna tanto mais exigente quanto mais sacrifícios se lhe prestam.
Quando se articulou na linha direta da experiência freudiana, a dialética da demanda, da necessidade e do desejo, será sustentável reduzir o sucesso da análise a uma posição de conforto individual vinculada a essa função, certamente fundada e legítima, que podemos chamar de serviço dos bens? - bens privados, bens de família, bens da casa, outros bens que igualmente nos solicitam, bens do ofício, da profissão, da Cidade.
Não há razão alguma para que nos constituamos como garante do devaneio burguês. Um pouco mais de rigor e de firmeza é exigível em nossa confrontação com a condição humana, e é por isso que relembrei, da última vez, que o serviço dos bens tem exigências, que a passagem da exigência de felicidade para o plano político tem consequências. O movimento no qual o mundo em que vivemos é arrastado promovendo até suas últimas consequências o ordenamento universal do serviço dos bens implica uma amputação, sacrifícios, ou seja, esse estilo de puritanismo na relação com o desejo que se instaurou historicamente. O ordenamento do serviço dos bens no plano universal não resolve, no entanto, o problema da relação atual de cada homem, nesse curto espaço de tempo entre seu nascimento e sua morte, com seu próprio desejo - não se trata da felicidade das futuras gerações.
A função do desejo deve permanecer numa relação fundamental com a morte. Coloco a questão - o término da análise, o verdadeiro, quero dizer aquele que prepara a tornar analista, não deve ela em seu termo confrontar aquele que a ela se submeteu à realidade da condição humana? É propriamente isso o que Freud, falando de angústia, designou como o fundo onde se produz seu sinal, ou seja, o Hilflosigkeit, a desolação, onde o homem, nessa relação consigo mesmo que é sua própria morte - mas no sentido que lhes ensinei a desdobrar esse ano - não deve esperar a ajuda de ninguém.
Édipo, num certo sentido, não fez complexo de Édipo, é preciso recordar isso, e ele se pune por uma falta que não cometeu. Ele apenas matou um homem que ignorava ser seu pai, e que ele encontrou na estrada - para utilizar um modo verossímil segundo o qual o mito nos é apresentado - onde ele fugia por ter ouvido falar de algo nada bom que lhe era prometido em relação ao pai. Foge daqueles que acredita serem seus pais, e querendo evitar o crime, ele o encontra.
Tampouco sabe que atingindo a felicidade, a felicidade conjugal, e a de seu ofício de rei, de ser o guia de uma comunidade feliz, é com sua mãe que ele dorme. Pode-se portanto colocar a questão do que significa o tratamento que ele se inflige. Que tratamento? Ele renuncia àquilo mesmo que o cativou. Ele foi, propriamente, ludibriado, tapeado, por seu próprio acesso à felicidade. Para além do serviço dos bens, e até mesmo do pleno êxito de seus serviços, ele entra na zona onde procura seu desejo.
Morte verdadeira, em que de mesmo risca seu ser.
As questões de ser são sempre rejeitadas para mais tarde, o que não quer dizer que não estejam sempre no horizonte.
Então, se incorporamos o pai por sermos tão malvados conosco mesmos, é talvez por termos, contra esse pai, muitas recriminações a fazer.
Se a frustração é o encargo próprio da mãe simbólica, o responsável pela castração, ao se ler Freud, é o pai real, e no nível da privação é o pai imaginário.
Esse pai imaginário, é ele, e não o pai real, que é o fundamento da imagem providencial de Deus. E a função do supereu, em sua última instância, em sua perspectiva última é o ódio de Deus, recriminação a Deus por ter feito tão mal as coisas.
Todos sabem que a castração está aí no horizonte e, evidentemente, jamais se produz em lugar algum. O que se efetua está em relação com o fato de que desse órgão, desse significante, o homenzinho é um suporte sobretudo lastimável, e que ele aparece, antes de mais nada, sobretudo privado dele. É aqui que podemos entrever a comunidade de sua sorte com o que a menininha experimenta, a qual se inscreve de maneira muito mais clara nessa perspectiva.
O que está em questão é essa virada em que o sujeito se dá conta, muito simplesmente, todos o sabem, de que seu pai é um idiota, ou um ladrão segundo o caso, ou simplesmente um pobre diabo, ou, como de hábito um velho caquético, como no caso de Freud. Velho caquético certamente bem simpático e muito bom, mas que bem deve ter comunicado à sua revelia, ele, como todos os pais, os movimentos em atropelo daquilo que se chama de antinomias do capitalismo - ele deixou Freiberg, onde não tinha mais nada a fazer, para instalar-se em Viena, e isto é uma coisa que não passa despercebida para a mente de uma criança, nem mesmo quando ela tem três anos. E é justamente porque Freud amava seu pai que foi preciso que ele tomasse a lhe dar uma estatura, até chegar a lhe dar esse tamanho do gigante da horda primeva.
Pai é aquele que nos reconheceu.
A hipótese freudiana do inconsciente supõe que a ação do homem, seja ele são ou doente, seja ela normal ou mórbida, tem um sentido escondido para o qual se pode dirigir. Nessa dimensão, a noção é concebida, de início, a partir de uma catarse que é purificação, decantação, isolamento de planos.
Agiste conforme o desejo que te habita?
Isto não é uma questão fácil de sustentar. Pretendo que ela jamais foi colocada de maneira mais pura em outro lugar, e que não pode ser colocada senão no contexto analítico.
Depreciação de desejo, modéstia, temperança - essa via mediana que vemos tão notável em Aristóteles, trata-se de saber do que ela toma a medida, e se a medida pode ser fundamentada.
Um exame atento mostra que sua medida é sempre profundamente marcada de ambigüidade. No fim das contas, a ordem das coisas sobre a qual ela pretende fundar-se é a ordem do poder, de um poder humano, por demais humano. Não somos nós que dizemos isso, mas é claro que ele não pode nem mesmo dar três passos para articular-se sem delinear a circunvalação do lugar onde, para nós, os significantes se desencadeiam e onde, para Aristóteles, reina o capricho dos deuses, na medida em que nesse nível deuses e animais se reúnem para significar o mundo do impensável.
- Vim liberá-los disto ou daquilo. O essencial é isto - Continuem trabalhando. Que o trabalho não pare. O que quer dizer - Que esteja claro que não é absolutamente uma ocasião para manifestar o mínimo desejo.
A moral do poder, do serviço dos bens é - Quanto aos desejos, vocês podem ficar esperando sentados.
Uma parte do mundo orientou-se resolutamente no serviço dos bens, rejeitando tudo o que concerne à relação do homem com o desejo - é o que se chama de perspectiva pós-revolucionária. A única coisa que se pode dizer é que não parecem se dar conta de que, ao formular as coisas desse modo, só fazem perpetuar a tradição eterna do poder, ou seja - Continuemos trabalhando, e quanto ao desejo, vocês podem ficar esperando sentados. - Mas pouco importa. Nessa tradição o horizonte comunista não se distingue do de Creonte, do da Cidade, do que reparte amigos e inimigos em função do bem da Cidade, senão supondo, o que efetivamente já é alguma coisa, que o campo dos bens, no serviço dos quais temos de nos colocar, possa num certo momento englobar todo o universo.
Em outros termos, essa operação só se justifica na medida em que temos no horizonte o Estado universal. Nada no entanto nos diz que nesse limite o problema se esvaneça, já que ele subsiste na consciência daqueles que vivem nessa perspectiva. Ou bem eles deixam a entender que os valores propriamente estatais do Estado desaparecerão, ou seja, a organização e a polícia, ou bem eles introduzem um termo como o de Estado universal concreto, o que não quer dizer nada além de supor que as coisas mudarão no nível molecular, no nível da relação que constitui a posição do homem diante dos bens, uma vez que até agora, seu desejo aí não se encontra.
Qualquer que seja essa perspectiva, nada mudou estruturalmente. O sinal disso é que, se bem que de maneira ortodoxa a presença divina esteja ausente, a contabilidade certamente não o está, e que esse inexaurível, que para Kant necessita da imortalidade da alma, é substituído pela noção, deveras articulada como tal, da culpa objetiva. Do ponto de vista estrutural em todo caso, nada está resolvido.
Proponho que a única coisa da qual se possa ser culpado, pelo menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo.
Vamos mais além. Ele frequentemente cedeu de seu desejo por um bom motivo, e frequentemente o melhor. Isso também não nos deve espantar. Desde que a culpa existe, foi possível se dar conta, há muito tempo, de que a questão do bom motivo, da boa intenção, a fim de constituir certas zonas da experiência histórica, a fim de ser promovida no primeiro plano das discussões de teologia moral, digamos, no tempo de Abelardo, não fez as pessoas avançar mais. A questão, que se reproduz no horizonte, é sempre a mesma.
E é justamente por isso que os cristãos da observância mais comum nunca estão bem tranquilos. Pois, se é preciso fazer as coisas pelo bem, na prática deve-se deveras sempre se perguntar pelo bem de quem. A partir de lá, as coisas não caminham sozinhas.
Fazer as coisas em nome do bem, e mais ainda em nome do bem do outro, eis o que está bem longe de nos abrigar não apenas da culpa, mas de todo tipo de catástrofes interiores. Em particular, isso não nos abriga certamente da neurose e de suas consequências.
Se a análise tem um sentido, o desejo nada mais é do que aquilo que suporta o tema inconsciente, a articulação própria do que faz com que nos enraizemos num destino particular, o qual exige com insistência que a dívida seja paga, e ele torna a voltar, retoma e nos traz sempre de volta para uma certa trilha, para a trilha do que é propriamente nosso afazer.
O que chamo ceder de seu desejo acompanha-se sempre no destino do sujeito - observarão isso em cada caso, reparem em sua dimensão - de alguma traição. Ou o sujeito trai sua via, se trai a si mesmo, e é sensível para si mesmo. Ou, mais simplesmente, tolera que alguém com quem ele se dedicou mais ou menos a alguma coisa tenha traído sua expectativa, não tenha feito com respeito a ele o que o pacto comportava, qualquer que seja o pacto, fausto ou nefasto, precário, de pouco alcance, ou até mesmo de revolta, ou mesmo de fuga, pouco importa.
Algo se desenrola em torno da traição, quando se a tolera, quando, impelido pela ideia do bem - quero dizer, do bem daquele que traiu nesse momento - se cede a ponto de diminuir suas próprias pretensões, e dizer-se - Pois bem, já que é assim, renunciemos à nossa perspectiva, nem um nem outro, mas certamente não eu, não somos melhores, entremos na via costumeira. Aqui, vocês podem estar certos de que se reencontra a estrutura que se chama ceder de seu desejo.
O herói - é aquele que pode impunemente ser traído.
O arroio onde se situa o desejo não é apenas a modulação da cadeia significante, mas o que corre por baixo, que é, propriamente falando, o que somos, e também o que não somos, nosso ser e nosso não-ser - o que no ato é significado, passa de um significante ao outro da cadeia, sob todas as significações.
A fome em questão, a fome sublimada, cai no intervalo entre os dois, pois não é o livro que nos preenche o estômago. Quando comi o livro, nem por isso tornei-me livro, não mais do que o livro não se tornou carne. O livro se torna-me, se assim posso dizer. Mas para que essa operação possa produzir-se - e ela se produz todos os dias -, é bem preciso que eu pague alguma coisa. A diferença, Freud a pesa num canto do Mal-estar na civilização. Sublimem tudo o que quiserem, é preciso pagar com alguma coisa. Essa alguma coisa se chama gozo. Essa operação mística, pago-a com uma libra de carne.
Catarse tem o sentido de purificação do desejo.
Sabe-se o que custa avançar numa certa direção, e meu Deus, se não se vai, sabe-se por quê.
Pode-se até mesmo pressentir que se não se está totalmente esclarecido sobre suas contas com o desejo, é porque não se pôde fazer melhor, pois, não é uma via em que se possa avançar sem nada pagar.
Creio que ao longo desse período histórico, o desejo do homem, longamente apalpado, anestesiado, adormecido pelos moralistas, domesticado por educadores, traído pelas academias, muito simplesmente refugiou-se, recalcou-se na paixão mais sutil, e também a mais cega, como nos mostra a história de Édipo, a paixão do saber.
É essa que está tendo um andamento que ainda não deu sua última palavra.