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Seminar 06 O desire e sua interpretacao

Seminar 06 O desire e sua interpretacao

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Seminário 06 - O desejo e sua interpretação

Tudo tem sempre este caráter, de qualquer elemento que se trate, que não é jamais completamente o que se apresenta de que se trata. Não é jamais da coisa verdadeira que se trata, é sempre sob uma forma problemática que as coisas se apresentam.


Diria que este bom objeto que não está aí, é precisamente o que está em questão, e ele nos confirma uma vez mais que se trata do falo.
É muito importante para o sujeito dizer que este bom objeto não está aí, nós encontramos ainda o termo: não está aí, não está jamais aí oride se o espera.


quero dizer que tinha lido quase distraidamente as primeiras páginas deste livro, quero dizer que como sempre não se lê jamais bem, e havia contudo alguma coisa de extremamente bonita.


descrever uma análise assim: que se trata de eliminar um número suficiente de significantes para que reste somente em jogo um número tão pequeno de signifícantes para que se sinta bem onde está a posição do sujeito no seu interior.


Ella Sharpe -efetiva­ mente tudo o que eu conheço ou podia conhecer aliás de sua obra o indica- tem efetivamente esta concepção da análise, que há na sua interpretação da teoria analítica esta espécie de profunda valorização do caráter significante das coi­ sas


É porque sua mulher é seu falo que eu direi que ele fez esta espécie de lapso ínfimo que notei para vocês de passagem, isto é fazer «uma viagem com minha mulher ao redor do mundo» -«a journey with my wife round the world»— e não round the world with my wife. O acento de onipotência é colocado sobre «round the world» pela nossa analista. Eu creio que o segredo da onipotência no sujeito está no «with my wife», e que o do que se trata é que ele não perde isto, isto é, que ele não se apercebe justamente que está aí o que é de colocar em causa, isto é, de se aperceber que sua mulher é, na ocasião, a analista.


o sujeito numa relação com seu desejo que apenas pode ser fantasmática,


enquanto que aí onde se passam as reações com o Outro, o Outro como lugar da fala, como lugar da lei, como lugar das convenções do jogo


teoria da Sra. Melanie Klein, pois sabe-se que ela faz do objeto falo o mais importante dos objetos.
O objeto falo se introduz na teoria kleiniana, e na sua interpretação da experiência, como algo, diz ela, que é o substituto, o primeiro substituto que vem à experiência da criança, quer se trate da menina ou do menino, como sendo um signo mais cômodo, mais manejâvel, mais satisfatório. E algo a pro­vocar questões sobre o papel, o mecanismo… Como é preciso que concebamos esta saída de um fantasma completamente primordial, como sendo em torno do qual já vai se ordenar este conflito tão profundamente agressivo que põe o sujeito em uma certa relação com o continente do corpo da mãe? Na medida em que do continente ele cobiça, deseja (todos os termos são empregados, infelizmente sempre com dificuldade: isto é, justapostos), ele quer arrancar es­tes bons e estes maus objetos que estão aí numa espécie de mistura primitiva no interior do corpo da mãe.


Desculpo-me do caráter algébrico que as coisas tomam, mas é preciso que aprendamos a fixar as idéias já que, com certeza, questões se colocam.


É nesta inflexão de “não ser sem”, é em torno desta assunção subjetiva que se flexiona entre o ser e o ter, que joga a realidade da castração. Quer dizer que é na medida em que o falo, que o pênis do sujeito em uma certa experiên­cia, é algo que foi colocado em balanço, que tomou uma certa função de equi­valente ou de padrão na relação ao objeto, que toma seu valor central e que, até um certo ponto, se pode dizer que é em proporção a uma certa renúncia à sua relação ao falo que o sujeito entra em possessão desta espécie de infinidade, de pluralidade, de ominitude do mundo de objetos que caracteriza o mundo do homem.


A única fórmula exata, aquela que permite sair dos impasses, das contra­dições, das ambiguidades em torno das quais nós giramos no que concerne à sexualidade feminina, é que “ela é sem tê-lo”. A relação do sujeito feminino ao falo, é de “ser sem tê-lo”. E é isto que lhe dá a transcendência de sua posição - pois é a isto que chegaremos. Chegaremos a articular, concernente à sexualidade feminina, esta relação tão particular, tão permanente, da qual Freud insistiu sobre seu caráter irredutível e que se traduz psicologicamente sob a forma do Penisneid.


É na medida em que o significante falo, o sujeito não pode colocá-lo em jogo, em que o significante falo permanece inerente ao Outro como tal, que o sujeito se encontra a si mesmo numa postura que é a postura em pane que vemos. Mas o que há de completamente surpreendente, é que, aí como em todos os casos em que nos encontramos em presença de uma resistência do sujeito, esta resistência é aquela do analista. Pois efetivamente, se há algo do qual Ella Sharpe se interdita severamente na ocasião -ela não se dá conta porque, mas é certo que ela o confessa como tal, que ela se interdita- é de contestar. Nesta ocasião em que justamente uma barreira é oferecida a fran­ quear, que ela poderia franquear, ela se interdita a franqueá-la. Ela se recusa a isto pois ela não se dá conta que isto contra o qual o sujeito se precavê, não é como ela o pensa, algo que diria respeito a uma pretendida agressão paterna - o pai, ele, está morto há muito tempo, e bem morto, e houve todos os esforços do mundo para lhe dar uma pequena reanimação no interior da análise, não se trata de incitar o sujeito a se servir do falo como de uma arma, do que se trata não é de seu conflito homossexual, não é que ele se considere mais ou menos corajoso, agressivo em presença das pessoas que zombam dele no tênis porque ele não sabe dar o último shot.


La Psychanalyse des enfants, Paris, 1959


Justamente essa inconsciência, que é a do sujeito concernente a seu voto edipiano, está de certo modo encarnado, na imagem do sonho, sob esta forma de que o pai não deve saber que o filho fez contra ele esse voto benevolente de morte. «Ele não sabe», diz o sonho absur­damente, «que estava morto». E aí que se interrompe o texto do sonho. E o que é recalcado pelo sujeito, que não é ignorado pelo pai fantasmático, é o «segun­do seu voto» do qual Freud nos diz que é o significante que devemos considerar como recalcado.


Seguramente, em Hamlet tudo está de acordo para que aja, e cie não age.


Hamlet é em suma o homem que vê todos os elementos, todas as complexidades, os motivos do jogo da vida, e que é em suma suspendido, para­lisado na sua ação por esse conhecimento.


com o espectro de seu pai. Nesse encontro ele se mostra apaixonado, corajoso, visto que não hesita em seguir o espectro até o canto para onde o espectro o arrasta, para ter com ele um diálogo muito horripilante


Hamlet tenta ordenar, dar uma estrutura, dar justamente essa dimensão que chamei em alguma parte da verdade dissimula­da, sua estrutura de ficção em relação ao que somente ele encontra para se reorientar, além do caráter mais ou menos eficaz da ação, para fazer se desve­lar


Que o modo com o qual uma obra nos toca, nos toca precisamente da maneira a mais profunda, isto é sobre o plano do inconsciente, é alguma coisa que há neste arranjo, na composição da obra, que sem nenhuma dúvida, faz com que estejamos interessados muito precisamente no nível do inconsciente, mas que isto não é em razão da presença de alguma coisa que realmente supor­ta em face de nós um inconsciente.


Penso ter conseguido comunicar-lhes com mais nuanças, sem nada afas­tar, sem negar a dimensão propriamente psicológica que está interessada numa peça como esta, que é uma questão disso que se chama a psicanálise aplicada.
É bem ao contrário, no nivel em que estamos, é da psicanálise teórica que se trata, e sobre a questão teórica que coloca a adequação de nossa análise a uma obra de arte, toda espécie de questão clínica é uma questão de psicanálise apli­cada.


E é análogo, o ator empresta seus membros, sua presença, não simples­mente como uma marionete, mas com seu inconsciente real, ou seja a relação de seus membros com uma determinada história que é a sua. Cada um sabe que, se há bons e maus atores, é na medida, eu creio, em que o inconsciente de um ator é mais ou menos compatível com este empréstimo de sua marionete.
Ou ele se presta ou não se presta, é o que faz com que um ator tenha mais ou menos talento, de gênio, até mesmo que ele é mais ou menos compatível com determinados papéis, por que não. Mesmo aqueles que têm a gama mais ex­tensa podem representar determinados papéis melhor que outros. Em outros termos, certamente, o ator está ai. É na medida da conveniência de alguma coisa que com efeito pode ter a relação a mais estreita com seu inconsciente, com o que ele tem a nos representar, que ele dá a isto uma ponta que acrescen­ta incontestavelmente alguma coisa, mas que está longe de constituir o essen­cial daquilo que é comunicado, a representação do drama.


Por alguma coisa que se desenha assim, isto é, de uma via de retorno do código do inconsciente em direção à mensagem do inconsciente no plano imaginário. Que o circuito pontilhado, dito de outra for­ma o inconsciente, que começa aqui (1) e que passando, ao nível da mensagem S(^í) (2), vai ao nível do código inconsciente S y D (3), diante da demanda, retoma em direção ao desejo, d (4), daí em direção ao fantasma, S y a (5); que é, em outros termos, essencialmente com relação aquilo que regula sobre esta linha, a altura, a situação do desejo, e numa via que é a via de retomo em relação ao inconsciente (pois se vocês observarem como é feito o grafo, verão que o traço não tem retomo) é neste sentido que se produz o circuito da forma­ ção do desejo ao nível do inconsciente.


o desejo do neurótico a cada instante de sua incidência. Sobre o desejo de Hamlet. Foi dito, é o desejo de um histérico. É talvez verdade. É o desejo de um obsessivo, pode-se dizer, é um fato que ele está repleto de sintomas psicastênicos, severos até, mas a questão não está aí.
Na verdade ele é os dois. Ele é pura e simplesmente o lugar deste desejo.


onde nós poderemos reencontrar todos os traços do desejo, isto é, oriéntá-lo, interpretá-lo no sentido do que se passa sem o conhecimento de um sonho para o desejo do histérico, ou seja, este desejo que o histérico é forçado a se construir. É por isso que eu direi que o problema de Hamlet está mais perto do desejo do histérico, porque de alguma forma o problema de Hamlet é reencontrar o lugar de seu desejo. Isto asseme­lha-se muito ao que um histérico é capaz de fazer, quer dizer, de criar-se um desejo insatisfeito.
Mas é também verdade que é o desejo do obsessivo, na medida que o problema do obsessivo é suportar-se sobre um desejo impossível. Não é abso­lutamente igual. Os dois são verdadeiros. Verão que faremos virar tanto de um lado quanto de outro a interpretação dos propósitos e dos atos de Hamlet. O que é preciso que vocês cheguem a captar, é alguma coisa mais radical do que desejo de tal ou tal, que o desejo com o qual vocês aprisionam um histérico, ou um obsessivo.
… quando ele se dirige ao personagem do histérico, ele diz que cada um sabe que um histérico é incapaz de amar. Quando leio coisas assim, tenho sempre vontade de dizer ao autor, e você, é capaz de amar? Ele diz que um histérico vive no irreal, e ele? O médico fala sempre como se estivesse, ele, bem mergulhado em suas botas, as botas do amor, do desejo, da vontade e de tudo isso que se segue. É mesmo assim uma posição muito curiosa, e devemos saber desde há um certo tempo que é uma posição perigosa. É graças a ela que se toma posições de contratransferência, graça às quais não se compreende nada do doente que tratamos. E exatamente desta ordem que são as coisas, e é por isso que é essencial articular, situar onde se coloca o desejo.


Este jogo com a hora do encontro domina essencialmente a relação do obsessivo. Sem dúvida, Hamlet nos de­monstra toda esta dialética, todo este desdobramento que joga com o objeto sob muitas outras faces ainda, mas esta é a mais evidente, a que aparece na super­fície e que surpreende, que dá o estilo desta peça, e que dela faz sempre o enigma.


S(X) quer dizer isto: é que se A, o grande Outro, não é um ser mas o lugar da palavra, S(^) quer dizer que neste lugar da palavra, em que repousa sob uma forma desenvolvida, ou sob uma forma .disfarçada., o conjunto do sistema dos significantes, isto é de uma linguagem, falta alguma coisa. Alguma coisa que pode não ser senão que um significante faz falta aí. O significante que faz falta ao nível do Outro, e que dá seu valor o mais radical a este S(X), é


isto que é, se posso dizer, o grande segredo da psicanálise, isto pelo que a psicanálise traz alguma coisa, por onde o sujeito que fala, enquanto que a expe­riência da análise nos revela como estruturado necessariamente de uma deter­minada maneira, se distingue do sujeito de sempre, do sujeito ao qual uma evo­lução filosófica que, afinal de contas, pode bem nos aparecer numa certa pers­pectiva de delírio, fecundo, mas de delírio na retrospecção, é este o grande segredo: não há Outro do Outro.


Em outros termos, para o sujeito da filosofia tradicional, este sujeito se subjetiva ele próprio indefinidamente. Se eu sou enquanto penso, sou enquanto penso que sou, e assim por diante, isto não tem nenhuma razão de se deter. A verdade é que análise nos ensina alguma coisa inteiramente diferente. E que já percebemos que não é tão certo que eu sou enquanto eu penso, e que só podí­amos estar certos de uma coisa, é que eu sou enquanto eu penso que sou. Isto certamente. Somente o que a análise nos ensina, é que eu não sou aquele que justamente está prestes a pensar que eu sou, pela simples razão que, pelo fato que eu penso que eu sou, eu penso no lugar do Outro; sou um outro que não aquele que penso que eu sou.


Não há no Outro nenhum significante que possa na ocasião responder por aquilo que sou.


mos­trar em Hamlet, a tragédia do desejo.


O mistério do fantasma, enquanto ele é de alguma forma o último termo de um desejo, é que sempre, mais ou menos, ele se apresenta sob uma forma bastante paradoxal para ter, propriamente falando, motivado a rejeição antiga de sua dimensão como sendo da ordem do absurdo. E este passo essencial - que foi feito na época moderna em que a psicanálise constitui a guinada primei­ra que subtende este fantasma enquanto perverso- de interpretá-lo, de concebê- lo, é que ele só pôde ser concebido enquanto ordenado para uma economia inconsciente: que se ele aparece a escora em seu último termo, em seu enigma, se ele pode ser compreendido em função de um circuito inconsciente, ou que, ele, se articula através de outra cadeia significante profundamente diferente da cadeia que o sujeito comanda, porquanto é esta, esta que está abaixo da primei­ra, e no nível, primeiramente, da demanda.E este fantasma intervém, e tam­bém não intervém. É na medida em que algo que normalmente não chega por esta via, não volta ao nível da mensagem, do significado do Outro que é o módulo, a soma de todas as significações tais como elas são adquiridas pelo sujeito no intercâmbio inter-humano e o discurso completo


fading é exatamente o que se produz em um aparelho de comunicação, de reprodução da voz, quando a voz desaparece, cai, se esvai, para reaparecer ao grado de alguma variação no próprio suporte, na transmissão.


Mas existe um grande inconveniente em confundir o que é relação com o significante, com o que é relação com o objeto, pois este objeto é outro, pois este objeto, enquanto objeto do desejo tem um outro sentido, porque todas as espécies de coisas tornam necessário que nós não desconheçamos - até mes­mo daríamos todo seu valor primitivo determinante, como se faz, aos significantes da demanda na medida em que são significantes orais, anais, com todas as subdivisões, todas as diferenças de orientação ou de polarização que pode to­mar este objeto enquanto tal com relação ao sujeito (o que a relação de objeto, tal qual ela é no momento articulada, desconhecia) - justamente esta correla­ção com o sujeito que é expressa também, porquanto o sujeito é marcado pela barra.


Aqui

o a, objeto essencial, objeto em torno do qual gira como tal, a dialética do desejo, objeto em torno do qual o sujeito se experimenta numa alteridade imaginária, diante de um elemento que é alteridade no nível imaginário. Ele é imagem, e ele é pathos.


Seguramente quero que, com efeito, devíamos reencontrar


Em resumo, é bastante surpreendente que esta relação, não à praxis humana, mas a uma subjetividade humana dada como essencialmente primiti­va, seja sustentada numa doutrina que se qualifica marxista, pois me parece que basta abrir o primeiro tomo do Capital para perceber que o primeiro passo da análise de Marx é bem propriamente falando, a propósito do caráter fetiche da mercadoria, abordar o problema exatamente no nível próprio e, como tal, ainda que o termo não seja dito, como tal ao nível do significante


O que é importante neste elemento propriamente falando estrutural do fantasma imaginário porquanto ele se situa ao nível de a, é de um lado este caráter opaco, aquele que o especifica sob suas formas as mais acentuadas, como o pólo do desejo perverso; em outros termos, que faz o elemento estrutu­ral das perversões e nos mostra então que a perversão se caracteriza nisso, que todo o acento do fantasma é posto do lado do correlativo propriamente imaginário do outro, a, ou do parêntesis no qual alguma coisa que é (a + b + c…, etc.) - é toda a combinação dos .objetos.: os mais elaborados podem se encon­trar aí reunidos segundo a aventura, as seqüelas, os resíduos nos quais veio cristalizar-se a função de um fantasma num desejo perverso.


por bizarro que possa ser em seu aspecto o fantasma do desejo perverso, o desejo aí está sempre de algum modo interessado. Interessado numa relação que é sempre ligada ao patético, à dor de existir como tal, de existir simplesmente, ou de existir como termo sexual. É evidentemente na medida em que aquele que sofre a injúria no fantasma sádico é alguma coisa que interessa ao sujeito en­quanto ele próprio pode ser oferecido a esta injúria, que o fantasma sádico subsiste. E desta dimensão só se pode dizer uma coisa, é que só se pode estar surpresos que, mesmo um único instante, pôde-se pensarem evitá-lo, fazendo da tendência sádica alguma coisa que de alguma maneira possa se relacionar a uma pura e simples agressão primitiva


O fantasma da perversão eu lhes disse, é apelável, ele está no espa­ço, ele suspende não sei qual relação essencial; ele não é propriamente falando atemporal, ele está fora do tempo. A relação do sujeito ao tempo, na neurose, é justamente este algo do qual se fala muito pouco e que é, entretanto, a própria base das relações do sujeito com seu objeto ao nível do fantasma.


Na neurose, o objeto se carrega desta significação, que está para ser buscada no que chamo a hora da verdade. O objeto aí está sempre na hora do antes, ou na hora do após. Se a histeria se caracteriza pela fundação de um desejo enquanto insatisfeito, a obsessão se caracteriza pela função de um de­ sejo impossível. Mas o que há além desses dois termos é algo que tem uma relação dupla e inversa num caso e no outro com este fenômeno que aflora, que aponta, que se manifesta de uma maneira permanente nesta procrastinação do obsessivo por exemplo, fundada sobre o fato, aliás, de que ele antecipa sempre tarde demais. Da mesma forma que para o histérico, há que ele repete sempre o que existe de inicial em seu trauma, a saber um certo cedo demais, uma imaturação fundamental.


Será que se pode dizer que tudo na loucura de Hamlet se resume a fazer o louco? É uma pergunta que iremos agora nos fazer. Mas ele faz o louco porque ele sabe que ele é o mais fraco


Aquele que sabe está numa posição tão perigosa, como tal, tão desig­nado para o fracasso e o sacrifício, que seu caminho deve ser - como diz em algum lugar Pascal «ser louco com os outros».


E se trata apenas disso, de saber o que este louco tem dentro da cabeça.


Unfinished papers on Hamlet que Ella Sharpe talvez deixou lamentavelmente inacabados antes de sua morte, e que talvez se tenha errado em publicá-los


Hamlet, nós o dissemos, não pode suportar o encontro. O encontro é sempre demasiadamente cedo para ele, e ele o retarda.


Quando ele age, em contraposição, é sempre com precipitação. Ele age quando repentinamente, parece que uma ocasião se oferece, quando não sei qual apelo do acontecimento além dele mesmo, de sua resolução, de sua deci­são, parece oferecer-lhe não sei qual abertura ambígua que é propriamente para nós, analistas, aquilo que introduziu na dimensão da realização esta pers­pectiva que chamamos a fuga.


Vocês vêem como aí, representando um papel essencial, estes persona­gens diversos que se chama os palhaços, que se chama os loucos da Corte, que são, falando propriamente aqueles que, tendo sua fala franca, podem permitir-se desvendar os motivos os mais ocultos, os traços de caráter das pessoas que a polidez proíbe abordar francamente. É algo que não é simplesmente cinismo e jogo mais ou menos injurioso do discurso, é essencialmente pela via do equí­voco, da metáfora, do jogo de palavras, de um certo uso do concetti, de um falar precioso, destas substituições de significantes sobre os quais aqui insisto quanto à sua função essencial; eles dão a todo o teatro de Shakespeare um estilo, uma cor, que é absolutamente característica de seu estilo e que cria essencialmente a dimensão psicológica nele.


ter tratado eminentemente ao mes­mo tempo do ciúme e do luto. E alguma coisa que é um dos pontos mais salientes desta tragédia: o ciúme do luto.


E de alguma maneira na medida em que o objeto de seu desejo tornou-se um objeto impos­sível que ele retorna para ele o objeto de seu desejo. Uma vez mais acredita­mos encontrarmo-nos aí num desvio familiar, ou seja uma das características do desejo do obsessivo. Não vamos deter-nos demasiadamente rápido nessas aparências muito evidentes. O obsessivo, não é tanto que o objeto de seu dese­jo seja impossível o que o caracteriza, se tanto é que pela própria estrutura dos fundamentos do desejo, há sempre esta nota de impossibilidade no objeto do desejo. Aquilo que o caracteriza, não é então que o objeto de seu desejo seja impossível, pois ele não estaria aí, e por este traço ele não é senão uma das formas especialmente manifestas de um aspecto do desejo humano, é que o obsessivo põe o acento no encontro com esta impossibilidade.
Dito de outra forma, ele se arranja para que o objeto de seu desejo tome valor essencial de significante desta impossibilidade. Aí está uma das notas pela qual nós podemos abordar já esta forma. Mas há algo de mais profundo que nos solicita.


Este rombo no real, e por este fato, encontra-se, e em razão da mesma correspondência que é aquela que eu articulo na ’Verwerfung, oferecer o lugar em que se projeta precisamente este significante faltante, este significante essencial como tal, à estrutura do Outro, este significante cuja ausência torna o Outro impotente para lhes dar a sua resposta - este significante que você não pode pagar a não ser com sua carne e com seu sangue, este significante que é essencialmente o falo sob o véu.


E porque este significante encontra aí seu lugar e ao mesmo tempo não pode encontrá-lo, porque este significante não pode articular-se ao nível do Outro, que vêm, como na psicose - e é nisso que o luto se aparenta à psicose - pulular em seu lugar todas as imagens de onde surgem os fenômenos do luto e os fenômenos de primeiro plano, aqueles pelo que se manifesta não tal ou tal loucura particular, mas uma das loucuras coletivas as mais essenciais da comu­nidade humana como tal, ou seja é aquilo que aí está no primeiro plano, no primeiro guia da tragédia de Hamlet, ou seja o ghost, o fantasma, esta imagem que pode surpreender a alma de todos e de cada um.


É o Liji, um dos livros chineses consagrados.


à entrada em jogo, à colocação em marcha dos fantasmas e das larvas, no lugar deixado livre pelo rito significante


há talvez alguma coisa que a análise desconhece - eu quero dizer a análise marxista, econômica, na medida em que ela domina o pensamento de nossa época - e da qual tocamos a todo instante a força e a amplitude, são os valores rituais.


E enquanto esta “coisa” - eu não disse “objeto”. Dizendo “coisa”, digo real, não ainda simbolizado mas de alguma forma em potência de sê-lo: isso para dizer tudo que nós podemos chamar um significante, com um .sentido. difuso.


deve deixar de lado porque lhe é necessário ir ao vivo, ao decisivo do sujeito e porque ele não tem muito tempo para se deter sobre as premissas. Aliás, é em geral dessa forma que se funda toda ação, e mais ainda toda ação verdadeira, quer dizer, a ação que é aí nosso propósito ou, pelo menos, que deveria sê-lo.


Isso de que se trata de fato é alguma coisa que, para nós, deve conotar-se sob a forma seguinte, na medida em que ela nos fez abordar esse algo do qual já nos aproximamos quando distinguimos as funções da castração, da frus­tração e da privação. Se vocês se recordam, eu, então, lhes escreví: castração, ação simbólica; frustração, termo imaginário; e privação, termo real. Eu lhes dei as conotações de suas relações aos objetos. Eu lhes disse que a castração se relacionava ao objeto fálico imaginário, e lhes escrevi que a frustração, ima­ginária na sua natureza, relacionava-se sempre a um bem e a um termo real, e que a privação, real, relacionava-se a um termo simbólico. Não há, acrescenta­va eu naquele momento, no real, nenhuma espécie de fase ou de fissura. Toda falta é falta a seu lugar, mas falta a seu lugar e falta simbólica.


Não se pode atingir o falo, porque o falo, mesmo se ele está aí belo e bem .bel et bien. real, é uma sombra.


Eu lhes peço para refletir sobre isso, a propósito de toda sorte de coisas bem estranhas, paradoxais, nomeadamente: a que ponto essa coisa da qual nós nos pertubávamos à época, a saber, por que, após tudo, era perfeitamente claro que não se assassinava Hitler. Hitler que representa tão bem o objeto do qual Freud nos mostra a função nessa espécie de homogeneização das massas pela identificação a um objeto no horizonte, a um objeto x, a um objeto que não é como os outros.


ele larga um desses pequenos gracejos que são nele sempre tão desconcertantes para seus adversários. Todo mundo pergunta-se, é bem aí o âmago do negócio, se isso que ele diz é bem o que ele quer dizer, pois o que ele diz faz cócegas em todo mundo no lugar certo. Mas, para que ele o diga é preciso que ele saiba tanto, que não se pode crê-lo, e assim por diante…


Shakespeare me parece, após leitura atenta dos Sonnets, ser alguém que ilustrou singularmente, em sua pessoa, um ponto absolutamente extremo e singular do desejo. Em alguma parte em um de seus sonetos 192 , do qual não se imagina a audácia -eu espantei-me que se pudesse falar a esse respeito de ambiguidade- ele fala ao objeto de seu amor, que, como cada um o sabe, era de seu próprio sexo, e ele tem a aparência de um jovem homem muito encantador que parece bem ter sido o Conde de Essex; ele lhe diz que ele tem todas as aparências que lhe satisfazem ao amor, nisso que ele assemelha-se em tudo a uma mulher, que não há que uma muito pequena coisa cuja natureza quis pro- vè-lo -Deus sabe por quê.- e que, dessa pequena coisa, ele não tem, infeliz­ mente, ele, nada a fazer, e que ele está bem desolado de que isso deva fazer as delicias das mulheres. Ele lhe diz que «Paciência, contanto que teu amor per­ maneça comigo, que isso seja o prazer delas».
Os termos «thing» e «nothing» são aqui estritamente empregados e não deixam nenhuma espécie de dúvida de que isso faça parte do vocabulário familiar de Shakespeare. Esse vocabulário familiar, após tudo, aqui, é uma coi­ sa secundária. O importante, é se, indo mais longe, nós podemos justamente penetrar nisso que é a posição, ela mesma criadora, de Shakespeare, sua posi­ ção que eu creio sem nenhuma dúvida poder ser dita sobre o plano sexual invertida, mas talvez não tão pervertida sobre o plano do amor. Se nós introduzimo-nos nesse caminho dos Sonnets que nos vai permitir de precisar um pouco mais de perto ainda o que pode aparecer nessa dialética do sujeito com o objeto de seu desejo, nós poderemos ir mais longe em algo que eu cha­ maria os instantes em que, por alguma via (e a via maior sendo essa do luto) o objeto desaparecendo, evanescendo-se a passo pequeno, faz, por um tempo - um tempo que não saberá subsistir que no clarão de um instante- manifestar- se a verdadeira natureza disso que lhe corresponde no sujeito, a saber, o que eu chamarei as aparições do falo, as falofanias. E em tomo disso que eu os deixa­ rei hoje.


Junto a isto, tudo o que nossa investigação comporta de inabilidade, de confusão, de inseguro mesmo nos seus princípios, tudo o que, na sua prática, isto traz de equivoco -eu penso em encontrar sempre não somente diante de si, mas na sua prática mesma o que é justamente seu princípio, o que queríamos evitar, ou seja a sugestão, a persuasão, a construção, até mesmo a mistagogia- todas estas contradições no movimento analítico não fazem senão marcar a especificidade de A coisa freudiana.


Essa alguma coisa que se apresenta de início para a experiência como perturbação, como alguma coisa que perturba a percepção do objeto, alguma coisa tal como as maldições dos poetas e dos moralistas, nos mostram como, igualmente, ele ò degrada, este objeto, o desorganiza, o avilta, em todo caso o desestabiliza, por vezes chega até a dissolver aquele mesmo que o percebe, quer dizer, o sujeito.


É a saber que a história do desejo se organiza em um discurso que se desenvolve no insensato —isto é o inconsciente- em um discurso cujos deslocamentos, cujas condensações são sem nenhuma dúvida o que são deslo­ camentos e condensações no discurso, quer dizer, metonímias e metáforas.
Mas metáforas que não engendram nenhum sentido, à diferença da metáfora, deslocamentos que não trazem nenhum ser e onde o sujeito não reconhece algo que se desloca. É em tomo da exploração deste discurso do inconsciente que a experiência da análise se desenvolveu, é portanto em tomo de algo cuja dimen­ são radical, nós podemos chamá-la, a diacronia do discurso.


GLOVER E., «The relation of perversion-formation to the development ôf reality-sense», I.J.P. 1933, vol.XIV, pp. 486-503


Que o termo do a enquanto termo opaco, enquanto termo obscuro, en­ quanto termo participante de um nada ao qual ele se reduz, é além deste nada que ele vai procurar a sombra de sua vida inicialmente perdida -este relevo do funcionamento do desejo que nos mostra que isto não é somente o objeto primi­ tivo da impressão primordial, numa perspectiva genética, que é o objeto perdido a reencontrar. Que é da natureza mesma do desejo constituir o objeto nesta dialética, é isto que nós retomaremos a próxima vez.


aquela das experiências reais do sujeito, porquanto elas vão se inscrever em um certo número de respostas que são gratificantes ou frustrantes e que são evidentemente muito essenciais para que se inscreva nelas uma certa modula­ ção de sua história.


é como corte e como intervalo que o sujeito se encontra no ponto termo de sua interrogação


Há disso três espécies referidas na experiência analítica, identificadas efetivamente até o presente como tais (a, .p, d), - A primeira espécie é aquela que nós chamamos habitualmente, a torto e a direito, o objeto pré-genital.

  • A segunda espécie é este tipo de objeto que está implicado nisto que se chama o Complexo de castração, e vocês sabem que sob sua forma a mais geral, é o falo.
  • A terceira espécie, é talvez o único termo que lhes surpreenderá como uma novidade mas, na verdade, eu penso que aqueles dentre vocês que pude­ ram estudar mais de perto isto que eu pude escrever sobre as psicoses não se encontrarão aí todavia essencialmente derrotados, a terceira espécie de objeto desempenhando exatamente a mesma função em relação ao sujeito de seu pon­ to de desfalecimento, de fading, isso não é outra coisa e nem mais nem menos que o que se chama comumente o delírio e muito precisamente, o porque Freud, desde quase o início de suas primeiras apreensões, pôde escrever: «Eles amam seu delírio como a si mesmos»

Se o esforço não pode servir de modo nenhum ao sujeito, pela razão de que nada permite a impressão do corte significante, inversamente, parece que este algo do qual vocês sabem o caráter de miragem, o caráter inobjetivável ao nível da experiência erótica, que se chama a fadiga do neurótico, esta fadiga paradoxal que não tem nada que ver com nenhuma das fadigas musculares que nós podemos registrar sobre o plano dos fatos -esta fadiga, enquanto ela res­ ponde, ela é de algum modo o inverso, a sequela, o traço de um esforço que eu chamarei de “significantidade”.


A consciência, na medida em que ela nos dá esse sentimento de ser eu (moi) no discurso, é alguma coisa que, na perspectiva analítica -aquela que nos faz, sem parar, tocar o desconhecimento sistemático do sujeito- é algo que justamente nossa experiência nos ensina a referir a uma relação, nos mostrando que essa consciência -na medida em que ela é primeiro experimentada, em que ela é primeiro provada numa imagem que é imagem do semelhante- é algo que, muito antes, recobre com uma aparência de consciência o que há de inclu­ ído nas relações do sujeito com a cadeia significante primária, ingênua, à de­ manda inocente, ao discurso concreto, porquanto ela se perpetua de bucle em bucle, organiza o que há de discurso na própria história; o que salta de articula­ ção em articulação no que se passa efetivamente a mais ou menos distância desse discurso concreto comum, universal, que engloba toda atividade real, social, do grupo humano.


é que não há nada no Outro, não há nada na significância que possa ser suficiente a esse nível da articulação significante. Não há nada na


significância que seja a garantia da verdade. Não há outra garantia da verdade do que a boa fé do Outro, isto é, alguma coisa que se passa sempre para o sujeito sob uma forma problemática. Quer dizer que o sujeito fica no extremo de sua questão, dessa inteira fé concernindo ao que para ele faz surgir o reino da fala?


Então, é do valor de guia do detalhe relevant que se trata. E aí, Eissler faz um tipo de oposição entre o que se passa na clínica e o que se passa na análise dita psicanálise aplicada que se faz comumente na análise de uma obra de arte. Ele repete por duas vezes algo -se eu tivesse tempo seria preciso que lhes lesse isso no texto, para lhes fazer sentir o caráter opaco- ele diz, em suma: é aproximadamente’ o mesmo papel que desempenham o sintoma e esse detalhe que não convém salvo que, na análise, partimos de um sintoma que é dado como um elemento relevant essencialmente para o sujeito, é em sua inter­ pretação que progredimos até sua solução. Noutro caso é o detalhe que nos introduz no problema, isto é, na medida que em um texto -ele não chega a formular essa noção de texto- num texto, apreendemos alguma coisa que não estando aí especialmente implicada, como estando discordante, somos intro­ duzidos a alguma coisa que pode nos levar à personalidade do autor 204 .


Não lhes parece absolutamente maravilhoso que alguém cuja obra por toda parte recortada apresente essa unidade de correspondência, que alguém que foi certamente um dos seres que avançaram mais longe nessa direção de oscilação, tenha ele próprio, sem dúvida nenhuma, vivido uma aventura, a que está descrita no Sonnet que nos permite recortar exatamente as posições funda­ mentais do desejo. Voltarei a isso mais tarde. Esse homem surpreendente atra­ vessou a vida da Inglaterra elisabetana, incontestavelmente, não desapercebi­ do, com suas quase quarenta peças e com alguma coisa da qual temos também alguns rastros, quero dizer, alguns testemunhos. Mas leiam uma obra muito bem feita e que resume agora aproximadamente tudo o que foi feito de pesqui­ sa sobre Shakespeare. Há uma coisa absolutamente surpreendente, é que, fora o fato de que ele seguramente existiu, não podemos sobre ele, sobre suas liga­ ções, sobre tudo o que lhe cercou, sobre seus amores, suas amizades, não pode­ mos verdadeiramente dizer nada. Tudo passou, tudo desapareceu sem deixar rastros. Nosso autor se apresenta, a nós analistas, como o enigma mais radical­ mente para sempre desvanecido, dissolute, desaparecido, que poderiamos assi­ nar em nossa história.


O ser, nós diremos então que é propriamente o real enquanto ele se ma­ nifesta ao nível do simbólico, mas entendamos bem que é ao nível do simbóli­ co. Em todo o caso para nós, não temos que considerar alhures, esta coisa que parece tão simples, que há alguma coisa a acrescentar quando dizemos “ele é isso”, e que visa o real, e na medida em que o real está afirmado ou rejeitado ou denegado no simbólico.


o desejo está estreitamente ligado àquilo que acontece porquanto o ser humano tem que se articular no significante


quero dizer sobre a propensão que nós sempre temos a esquecer isso com que temos que nos haver na experiência, a de nossos pacientes (esses dos quais temos a audácia de nos encarregar), e é por isso que eu lhes reenvio a vocês mesmos. No desejo, nós nos contamos contando


não há satisfação de cada um senão na satisfação de todos”


Não há outro mal-estar na cultura que o mal-estar do desejo.


O sujeito então, enquanto deseja, não sabe onde ele está em relação à articulação inconsciente, ou seja a esse signo, a essa escansão que ele repete enquanto inconsciente. Onde está esse sujeito como tal? Está no ponto em que ele deseja? Aí está o ponto de minha articulação de hoje, ele não está no ponto em que ele deseja, ele está em alguma parte no fantasma


As pessoas estão apesar de tudo detidas por limites de compreensão quando querem a qualquer preço compreender. O que tento fazer-lhes ultrapassar um pouquinho dizendo que se pode ir um pouco mais longe parando de tentar compreender. E é no que não sou fenomenologista.


Já que o sujeito teme que seu desejo desapareça, isto deve mesmo significar algo, é que, em alguma parte, ele se deseja desejante, que está aí o que é a estrutura do desejo, prestem atenção, do neurótico. E por isto que não abordarei o neuró­ tico de antemão, porque isto lhes parece muito facilmente uma simples dupli­ cação: eu me desejo desejante, e me desejo desejante desejado, etc.


Chegamos nesta estrutura com nossos grandes tamancos e lhe dizemos:
“meu amiguinho, se você se mostra tão longe é porque você tem medo de aproxi- mar-se do seu objeto. Aproxime-se, aproxime-se 1”. Eu me pergunto o que signifi­ ca esse gracejo. Vocês acreditam que os exibicionistas não trepam? A clínica vai completamente contra isto. Eles se fazem na ocasião bons esposos com suas mu­ lheres, porém somente o desejo do qual se trata está em outra parte. Certamente ele exige outras condições; essas são condições nas quais convém aqui se deter.


France A., La Révolte des anges (1914).


o vínculo muito preciso que une a dialética do desejo com essa espécie de virtualidade de um olho, inapreensível mas sempre imaginável.


Estabelece-se então a distribuição de uma dupla ignorância. Pois se o outro não se dá conta nesse nível, enquanto outro, do que supostamente está em conta no espírito daquele que se exibe ou daquele que se vê como manifes­ tação possível do desejo, inversamente em seu desejo, aquele que se exibe ou que se vê não se dá conta da função do corte que o abole num automatismo clandestino, que o esmaga num momento em que ele não reconhece absoluta­ mente a espontaneidade na medida em que ela designa o que se diz aí como tal,


A solução perversa a esse problema da situação do sujeito no fantasma é justamente esta, é a de visar o desejo do outro e de acreditar ver aí um objeto.


Essa estrutura que está aí figurada numa pequena manobra que forma, aliás, a trama e o texto da vida diária desses sujeitos vai, de fato, muito mais longe. Ela quer dizer, essa historieta, da função que a histérica atribui a si mesma. E ela que é o obstáculo, é ela que não quer. Quer dizer que na relação do. sujeito com o objeto no fantasma, ela vem ocupar essa mesma posição ter­ ceira que era há pouco devolvida ao significante fóbico, mas de outro modo. É ela que é o obstáculo, é ela que é a aposta na realidade. E seu gozo é impedir justamente o desejo nas situações que ela mesma trama. Pois está aí uma das funções fundamentais do sujeito histérico nas situações que ele trama, sua fun­ ção é impedir o desejo de vir a termo para ela mesma tomar-se a aposta dele.


como um neuróti­ co preso por seus sintomas.


Se me permitem servir-me de um signo dito lógico que é o V do qual nos servimos para designar o “ou, ou” da distinção, o sujeito vê abrir-se para ele a escolha entre o “não sê-lo” -não ser o falo- ou, se ele o é, “não tê-lo”, quer dizer ser o falo para o outro, o falo na dialética inter-subjetiva. É disso que se trata. E é nesse jogo que o neurótico experimenta a aproximação, a integração de seu desejo como uma ameaça de perda.


Afinal de contas, aí eu tenho apenas que fazer alusão a algo que lhes é familiar, que foi, eu creio, traduzido na revista, no caso notório de Melanie Klein, ou seja desta criança que era muito bem introduzida como tal a essa relação do desejo com o significante, mas que se encontrava em relação à ou­ tra, à relação possível no plano imaginário, no plano gestual, comunicativo, vivendo com o outro, completamente suspenso, tal como o descreveu Melanie Klein. Não sabemos tudo desse caso, e afinal de contas não podemos dizer que Melanie Klein tenha feito outra coisa do que nos apresentar aí um caso notável.
E o que este caso demonstra, é que seguramente esta criança que não falava já era tão acessível e tão sensível às intervenções faladas de Melanie Klein que para nós, em nosso registro, naquele que nós tentamos desenvolver aqui, seu comportamento é verdadeiramente brilhante.


As resistências do sujeito, porquanto são as formas próprias de coerência da construção neuróti­ ca, isto é, daquilo em que ele se organiza para subsistir como desejo, para não ser o lugar deste desejo, para estar abrigado do desejo do Outro como tal, para ver interpor-se entre sua manifestação mais profunda como desejo e o desejo do Outro, essa distância, esse álibi que é aquele em que ele se constitui respec­ tivamente como fóbico, histérico, obsessivo.


Diógenes, o Cínico, exibia, a ponto de fazê-lo em público como um ato demonstratório (e não exibicionista) que a solução do problema do desejo sexual estava, se posso dizer, ao alcance da mão de cada um, e ele o demonstrava brilhantemente se masturbando.


sofrer as sevícias do ser amado, no caso, do pai, e encontrar nesta situação original a sua felicidade.


O que é que o sujeito procura aí? Que estra­ nha via seguinte a dar a seu triunfo, esta maneira de sofrer ele próprio, por sua vez, as .condições desonrosas disso que foi infligido ao outro. Será que não nos encontramos aí diante do enigma derradeiro -Freud também não o dissi­ mula- diante daquilo que vem se inscrever na dialética analítica como maso­ quismo


Porum lado instrumento da alienação porquanto ela é desvalorização, ele é bate-se .on bat. de um lado, e é porque até um certo ponto eu pude dizer- lhes que ele se toma pura e simplesmente o instrumento fálico enquanto ele é aqui instrumento de sua anulação.


Comparado a quê? A on bat un enfant, uma criança sem rosto, uma criança que nada mais é do que a criança original, e que também não é mais do que a criança que foi no segundo tempo ele próprio, na qual não há nenhuma, ainda que especial, determinação de sexo.


É nessa relação entretanto do fantasma que vemos apontar nesse mo­ mento aquilo que, para o sujeito, faz o instante privilegiado de seu gozo. Dire­ mos que o neurótico -e veremos da próxima vez como nós podemos lhe opor algo de muito particular, não a perversão em geral, pois aqui a perversão no que nós exploramos como estrutura desempenha um papel de ponto pivô, mas no qual podemos opor-lhe algo de muito especial, e cujo fator comum não parece ter sido encontrado até aqui, ou seja a homossexualidade.


Mas, para nos limitarmos hoje, aqui, ao neurótico, sua estrutura mais comum, fundamental reside afinal de contas nisto, em que se ele se deseja desejante, desejante de quê? De algo que afinal de contas não é senão o que lhe permite sustentar em sua precariedade, seu desejo como tal. Sem saber que toda a fantasmagoria é feita para isto, quer dizer, que seus próprios sintomas são o lugar em que ele encontra seu gozo, esses sintomas, contudo, tão pouco satisfatórios em si mesmos.


Não há, por consequência, nenhum conteúdo inconsciente específico nas perver­ sões sexuais uma vez que os mesmos achados podem ser reconhecidos nos casos das neuroses e das psicoses


Tratam-se de S. Nacht, R. Diatkine e J. Foureau: «Le moi dans la relation perverse», XIX o .
Congresso Internacional de Psicanálise, Genebra, 24-28 julho 1955, in Revue française de psychoanalyse, 1956, Paris, P.U.F., pp. 458-523.


fantasma perverso e perversão


uma relação em suma anormal que, na perversão, é erotizada. Não é então de uma relação com o objeto que se trata, mas antes de uma valorização de uma relação por razões econômicas e, como tal, erótica -o que, mesmo assim, após um exame por pouco sensato que seja, na retomada da leitura, não pode apare­ cer verdadeiramente outra coisa senão como alguma “causa da virtude dormitiva”. Isto corresponde ao objeto, que ela seja erotizada, não é duvidoso.


E na medida, segundo Glover, em que em algum lugar algo na prova da realidade não funcio­ na, fracassa, que a perversão vem recobrir este hole, este “buraco”, por um modo particular de apreensão do real como tal


dialética kleiniana, ou seja, as duas etapas que ela distingue, entre a fase paranóide e imediatamente após a fase depressiva que é caracterizada, como vocês o sabem, com relação à pri­ meira, pela relação do sujeito com seu objeto maior e prevalente, a mãe, como com um todo.


momento dito do estádio do espelho, uma vez que é na medida em que a ima­ gem do outro dá ao sujeito esta forma da unidade do outro como tal, que pode se estabelecer em algum lugar esta divisão do dentro e do fora, ou em relação à qual vão se reclassificar os bons e os maus objetos, os bons na medida em que eles devam vir para dentro, os maus na medida em que eles devam ficar fora.


o que ela demanda ter, ou seja o falo, é tê-lo (neste momento crítico do desenvolvimento que Freud valoriza), é tê-lo no lugar em que ela deveria tê-lo se ela fosse um homem. Trata-se exatamente disto, não há nenhuma ambiguidade nisto. E todo o processo do que se passa implica que de fato, mesmo quando ela conseguirá tê-lo (pois ela está numa posição muito privilegiada, a mulher, em relação ao homem), este falo, que é um significante, eu digo exatamente isto, um siginificante, ela pode tê-lo real­ mente. E mesmo isto o que faz sua vantagem e a relativa simplicidade de seus problemas afetivos em relação aos do homem.


se há menos perversões nas mulheres do que nos homens, é que elas satisfazem, em geral, suas relações perversas em suas relações com seus filhos


Pois, enfim, está comple­ tamente claro que, na experiência, o amor e o desejo são duas coisas diferentes, e que é preciso mesmo assim falar claro e dizer que se pode amar muito um ser e desejar um outro.


Amá-la, com toda a temura e a devoção que se pode imaginar, disto não restará menos que, se um homem deseja uma outra mulher, ela sabe que mesmo se o que o homem ama é sua sandália ou a barra de seu vestido ou ainda a pintura que ela tem sobre o rosto, é todavia desse lado que se produz a homenagem ao ser


ou bem o sujeito não o é, ou bem o sujeito não o tem. O que quer dizer, que se o sujeito o é, o falo -e isto se ilustra em seguida sob essa forma, isto é, como objeto do desejo de sua mãe- pois bem, ele não o tem.


O neurótico, ele, se caracteriza de que maneira? Pois bem, o neurótico, certamente, se serve dessa alternância. É na medida em que ele se situa plena­ mente ao nível do édipo, ao nível da estruturação significante do édipo como tal, que ele usa, e de uma maneira que eu chamaria metonímica, e que eu cha­ maria mesmo (uma vez que aqui “ele não o é” se apresenta como primeiro em relação a “ela não o tem”) uma metonímia regressiva. Eu quero dizer que o neurótico é aquele que utiliza a alternativa fundamental sob essa forma metonímica no sentido em que, para ele, “não tê-lo” é a forma sob a qual ele se afirma, e de forma mascarada, “sê-lo” (entenda-se o falo). Ele “não tem” o falo para “sê-lo” de forma oculta, inconsciente, para “não tê-lo” a fim de “sê-lo”. É o “para ser” um pouco enigmático sobre o qual eu havia terminado, creio, nosso último encontro. “E um outro que o tem”, enquanto que ele “o é” de forma inconsciente. Observem bem isto, é que o fundo da neurose é constituí­ do nisso, é que em sua funçãp de desejante, o sujeito toma um substituto.


A questão assume uma forma, explícita na análise à medida que já a primeira experiência analítica nos mostra as pulsões em sua natureza parcial, a relação com o objeto pressupondo uma complexidade, uma complicação, um incrível risco no agenciamento dessas pulsões parciais, fazendo, depender a conjunção com o objeto desse agenciamento. A combinação das pulsões parci­ ais nos mostra verdadeiramente o caráter fundamentalmente problemático de todo acesso ao objeto que, para tudo dizer, não nos mostra uma teoria senão ao preço de mostrá-la a mais contrária do que poderiamos conceber em uma pri­ meira abordagem da noção de instinto que, de toda maneira, mesmo que dei­ xássemos extremamente flexível sua hipótese finalista, nada mais resta do que…
-qualquer que ela seja, toda teoria do instinto é uma teoria, se pode-se dizer, da centragem do objeto. Ou seja que o processo no organismo vivo faz com que um objeto seja fixado progressivamente em um certo campo, e aí captado numa certa conduta, processo que por si mesmo se apresenta sob uma forma de con­ centração progressiva do campo.


fantas­ ma perverso não é a perversão. O maior erro é imaginar que compreendemos a perversão porque também o somos (isto é enquanto somos mais ou menos neuróticos nas bordas…), à medida que temos acesso a esses fantasmas perver­ sos.


Seria necessário haver escutado as confidências de um masoquista? Se­ ria necessário ter lido o menor dos vários escritos que lhe são consagrados, entre eles alguns mais ou menos bons que saíram recentemente, para não reco­ nhecer uma dimensão essencial do gozo masoquista ligado a essa espécie de passividade particular que experimenta e do qual goza o sujeito:


E se olharem mais de perto, vocês verão que a castração do filho nada mais é aqui do que a sequência e o equivalente da castração do pai, como todos os mitos atrás do mito freudiano primitivo do pai, e o mito primitivo do pai, bem o indica: Cronos castra Júpiter, Júpiter castra Cronos antes de chegar à realeza celeste. A metonímia da qual se trata refere-se em última análise a isso, é que nunca há senão um único falo no jogo; e isso é justamente o que, na estrutura neurótica, se trata de impedir que se veja. O neurótico não pode ser o falo senão em nome do Outro. Há então alguém que o tem, que é aquele de quem depende seu ser. Ele não tem, o que todos sabem que se chama o Com­ plexo de castração. Mas, se não há ninguém a tê-lo, ele o tem ainda muito menos, naturalmente.


está sempre ocupado em fazer suas bagagens, ou seu exame de consciência (é a mesma coisa) ou em organizar seu labirinto (é a mesma coisa). Ele reúne suas bagagens, ele as es­ quece ou ele as deposita, mas trata-se sempre de bagagens para uma viagem que ele nunca faz.


Trata-se de um fetichista de trinta anos cujo fantasma se revela após a análise como o de ser dividido em dois pelos dentes da mãe cuja proa penetrante, se posso dizer, é aqui representada


GILLESPIE W. H.,X contribuition of the study offetischism, I.J.P., 1940, XXI, pp. 401-415.
228 Id., Notes on the analysis ofsexual perversions, I.J.P., 1952, XXXIII, pp. 397-402.
229 Id., The general theory ofsexual perversion, I.J ,P., 1956, XXXVII. pp. 396-403.


por seus seios mordidos, também pela fenda que, ele, acaba de penetrar e que subitamente se transforma em uma criatura parecida com um gorila peludo


Jeneusse de Gide ou La lettre et le désir», in Critique, n. 131, abril de 1958, retomado em Écrits, p.739.
234 DELAY I., La jeneusse d’André Gide, Paris, 1956, Gallimard, 2° vol.


Diriamos que a perversão se apresenta como uma espécie de simulação natural do corte. É nisso que a intuição de Gillespie está aí como um índice. O que o sujeito não tem, ele o tem no objeto. O que o sujeito não é, seu objeto ideal o é. Em suma uma certa relação natural é tomada como matéria dessa fenda subjetiva que é aquilo que se trata de simbolizar tanto na perversão como na neurose. Ele é o falo, enquanto objeto interno da mãe, e ele o tem em seu objeto de desejo. Eis aí aproximadamente o que vemos no homossexual mas­ culino.


Se tentarmos levar isso a propósito de cada caso, se fizermos em cada caso um esforço de interrogação, encontraremos aí aquilo que pretendo avan­ çar como uma estrutura. Vocês sempre podem .a. encontrar, não apenas na perversão, mas especialmente nessa forma da qual se objeta, certamente com pertinência, ser extremamente polimorfa, isto é a homossexualidade (princi­ palmente com o uso que damos a esse termo homossexualidade, quantas for­ mas diferentes a experiência com efeito nos apresenta dela.).


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