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Seminar 05 As formacoes do unconscious

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Seminário 05 - As formações do inconsciente (1957-58)

noção da função do simbólico como a única capaz de dar conta do que podemos chamar de determinação no plano do sentido


É justamente porque alguma coisa foi atada a alguma coisa semelhante à fala que o discurso pode desatá-la.


Assinalei a esse respeito a distância que separa a fala, quando preenchida pelo ser do sujeito, do discurso vazio que burburinha por sobre os atos humanos. Esses atos são tomados impenetráveis pela imaginação de motivos irracionais, uma vez que só são racionalizados na perspectiva egóica do desconhecimento. Que o próprio eu seja função da relação simbólica e possa ser afetado por ela em sua densidade, em suas funções de síntese, todas igualmente feitas de uma miragem, mas de uma miragem cativante, isso, como igualmente lhes ensinei no primeiro ano, só é possível em razão da hiância aberta no ser humano pela presença nele, biológica, original, da morte, em função daquilo que chamei de prematuração do nascimento. Eis o ponto de impacto da intrusão simbólica.


o fator da insistência repetitiva como oriunda do inconsciente.


Creio, não obstante, que o seminário sobre a psicose lhes permitiu compreender, se não o fundamento último pelo menos o mecanismo essencial da redução do Outro, do grande Outro, do Outro como sede da fala, ao outro imaginário. É uma suplência do simbólico pelo imaginário.


Penso, logo existo, dizemos intransitivamente. Com certeza, é essa a dificuldade para o psicótico, precisamente em razão da redução da duplicidade do Outro com maiúscula e do outro com minúscula, do Outro como sede da fala e garantia da verdade, e do outro dual, que é aquele diante de quem o sujeito se encontra como sendo sua própria imagem. O desapareci­mento dessa dualidade é justamente o que causa ao psicótico tantas dificuldades de se manter num real humano, isto é, num real simbólico.


-Eis como esse Deus vos responde por minha boca. Só existe sujeito na referência a esse Outro. Isso é simbólico daquilo que existe em toda fala válida.


Post marker

não existe objeto a não ser metonímico, sendo o objeto do desejo objeto do desejo do Outro, e sendo o desejo sempre um desejo de Outra coisa - muito precisamente, daquilo que falta, a, o objeto perdido primordialmente, na medida em que Freud mostra-o sempre por ser reencontrado. Da mesma forma, não existe sentido senão metafórico, só surgindo o sentido da substituição de um significante por outro significante na cadeia simbólica.


essa é a definição de frase - que eu tenha dito a última palavra para que vocês compreendam a situação da primeira


nível do semantema, isto é, do que é fixado e definido por um emprego.


a linha do discurso corrente, comum, tal como este é admitido no código do discurso que chamarei de discurso da realidade que nos é comum. Esse é também o nível em que se produz o mínimo de criações de sentido, uma vez que, nele, o sentido já está como que dado. Na maioria das vezes, esse discurso consiste apenas numa mistura refinada dos ideais comumente aceitos. É nesse nível, muito precisamente, que se produz o famoso discurso vazio


Um Outro é um Outro. Basta apenas um para que uma língua seja viva. Aliás, a tal ponto um só é suficiente que esse Outro pode constituir, sozinho, o primeiro tempo - se restar um só, e se ele puder falar sua língua consigo mesmo, bastará isso para que existam ele e não somente um Outro, mas até dois, ou, em todo caso, alguém que o compreenda.
Pode-se continuar a fazer tiradas espirituosas numa língua mesmo quando se é o único a possuí-la.


Não se trata de sentidos que estejam presentes ali, mas dos sentidos que a verdade faz surgir neles, que ela literalmente introduz.


Do .Eu., um deles vai em direção ao objeto metonímico, e o segundo, ao Outro.


Simetricamente, pela via de retorno do discurso, a mensagem vai em direção ao objeto metonímico e ao Outro.


A tirada espirituosa é, vez por outra, objeto de uma certa depreciação - é leviandade, falta de seriedade, extravagância, capricho. E que acontece com o espírito? Nesse, em contrapartida, nós nos detemos, olhamos duas vezes antes de falar dele da mesma maneira.


Kuno Fischer, Theodor Vischer e Theodor Lipps


Sim­ plesmente, se o sr. Lipps não fosse tão cioso da respeitabilidade de seu Witz, se não tivesse querido que houvesse o Witz falso e o verdadeiro, certamente teria ido muito mais longe. Foi isso que, ao contrário, não deteve Freud. Ele já tinha o hábito de se expor, e foi por essa razão que enxergou com muito mais clareza. E também por ter visto as relações estruturais existentes entre o Witz e o inconsciente.


O inconsciente, justamente, só se esclarece e só se entrega quando o olhamos meio de lado.


vocês olham para ele, e é isso que lhes permite ver o que não está ali.


Heinrich Heine


Podemos, evidentemente, esquematizar o discurso, dizendo que ele parte do .Eu. e vai para o Outro. É mais correto perceber que, não importa o que pensemos, todo discurso parte do Outro, a, reflete-se no .Eu., - já que é preciso que este seja incluído na história, retoma ao Outro no segundo tempo - donde a invocação ao Outro


Pode ser que esse esquema lhes pareça pueril como poucos, embora esteja certo, porque fui eu que o fiz


A sanção do Outro terceiro, seja ele suportado ou não por um indivíduo, é essencial aqui. O Outro rebate a bola, alinha a mensagem no código como tirada espirituosa. Ele diz no código: Isto é um tirada espirituosa. Quando ninguém faz isso, não há tirada espirituosa. Quando ninguém se apercebe disso, quando familionário é um lapso, ele não constitui um tirada espirituosa. É preciso, portanto, que o Outro o codifique como tirada espirituosa, que ele seja inscrito no código através dessa intervenção do Outro.


a dimensão de álibi da verdade.


expressamente a tirada espirituosa, é isto: ela designa, e sempre de lado, aquilo que só é visto quando se olha para outro lugar


É surpreendente ver que, à medida que se engalfinham com o delicado tema da afasia, isto é, do déficit da fala, os neurologistas, não especialmente preparados para isso por sua disciplina, fazem progressos notáveis, dia após dia, quanto ao que se pode chamar de sua formação linguística, enquanto os psicanalistas, cuja arte e técnica repousam inteiras no uso da fala, até hoje não a levaram minimamente em conta, ainda que a referência de Freud ao campo da filologia não seja uma simples referência humanista que evidencie sua cultura ou suas leituras, mas uma referência interna, orgânica.


Toda vez que invocamos a totalidade, é por não estarmos inteiramente seguros de que ela esteja realmente formada. Isso se verifica em muitos níveis, eu diria até em todos os níveis, do uso da noção de totalidade.


É pela via significante, a do equívoco e da homonímia


é na relação de um significante com um significante que vem gerar-se uma certa relação significante sobre significado


Já registrei um lapso que colhi quando brotava da boca de um de meus pacientes. Tenho outros, mas retomo àquele porque é sempre bom voltar às mesmas coisas até que elas tenham sido bem usadas, e depois, então, passa-se a outra coisa


Trata-se do paciente que, no curso da narrativa de sua história ou de suas associações em meu divã, evocou a época em que, junto à companheira com quem acabou casando perante o juiz, apenas vivia maritavelmente.
Vocês todos já perceberam que isso pode ser escrito no esquema de Freud: em cima, maritalmente, o que significa que não se é casado, e embaixo, um advérbio no qual se conjugam perfeitamente a situação dos casados e a dos não casados, miseravelmente. Daí resulta mari­tavelmente. Isso não é dito, é muito melhor do que dito. Por aí vocês veem a que ponto a mensagem ultrapassa não o mensageiro, pois é realmente o mensageiro dos deuses que fala pela boca desse inocente, mas ultrapassa o suporte da fala.


que o próprio Freud é forçado a dizer, e somos forçados a acreditar em sua palavra


para o homem, basta que ele tenha os cinco membros direitos.


E ponto final, é isso aí, está afirmado que não


Signorelli, Bol­ traj f z o e Botticelli


suicídio de um de seus pacientes por causa de impotência sexual.


aquela morte, como diz La Rochefoucauld, que nos é tão impossível olhar fixamente quanto o sol;


A morte, aqui, é duplamente presentificada diante de Freud. Ela o é pelo incidente que concerne à sua função de médico e o é também por uma certa ligação, manifestamente presente, e que tem um toque todo pessoal, entre a morte e a potência sexual.


a tradução de um termo em uma língua estrangeira no eixo substitutivo, na comparação exigida pela existência de diversos sistemas linguísticos, chama-se substituição heteronímica


não estou inovando - tudo isso vocês deverão admitir, se admitirem o texto de Freud.


Devolvo-lhe sua pergunta


Seguramente, a pergunta oferece uma resposta - o sujeito não é estruturado do mesmo modo que o eu da experiência. O que se apresenta nele tem suas leis próprias. Suas formações têm não somente um estilo particular, mas uma estrutura particular. Essa estrutura, Freud a aborda e a demonstra no nível das neuroses, no nível dos sintomas, no nível dos sonhos, no nível dos atos falhos, no nível da tirada espirituosa, e a reconhece como única e homogênea. Ela é seu argumento fundamental para fazer da tirada espirituosa uma manifes­ tação do inconsciente


Essas leis, Freud as reconhece na estrutura da tirada espirituosa, enumera-as e as articula. São elas a lei da condensação, Verdichtung, a do deslocamento, Verschiebung, e um terceiro elemento, que adere a essa lista, e que denominei, no final de meu artigo, de consideração às necessidades da encenação,

Aqui


A sequência do romance desenvolve o fato de que os dois personagens jamais conseguirão conjuminar o que devem um ao outro.
Um fi cará quase caolho por isso, e o outro morrerá disso.


Toda vez que lidamos com uma formação do inconsciente, devemos sistematicamente pro­ curar o que chamei de destroços do objeto metonímico.


os matemáticos quando manejam seus simbolozinhos, x e y, a e b, isto é, sem pensar em nada, sem pensar no que eles significam


É graças a negligências dessa espécie que podemos imaginar que compreendemos os textos antigos tal como eles eram compreendidos pelos seus contemporâneos.


numa palavra, da morte e da impotência que o ameaçam pessoalmente, a ele, Freud.


O objeto de que se trata, o objeto representado, pintado sobre as coisas derradeiras, Freud o extrai sem esforço de sua memória -Não somente eu não encontrava o nome Signorelli, como nunca visualizei tão bem o afresco de Orvieto, logo eu, diz ele, que não sou muito imaginativo. Disso nós sabemos por toda sorte de outros traços - pela forma de seus sonhos, em particular -, e, se Freud pôde fazer todas essas descobertas, muito provavelmente foi por ser muito mais receptivo e permeável ao jogo simbólico do que ao jogo ima­ ginário. Ele mesmo notou a intensificação da imagem no plano da lembrança, a reminiscência mais intensa do objeto em questão, ou seja, a pintura, e até do rosto do próprio Signorelli, que ali estava na postura em que, nos quadros da época, apareciam os doadores e, às vezes, o autor. Signorelli estava no quadro e Freud o visualizou.


Não houve, portanto, um esquecimento puro e simples, um es­ quecimento maciço do objeto. Houve, ao contrário, uma relação entre a revivescência intensa de alguns de seus elementos imaginários e a perda de outros elementos, que são elementos signif i cantes no nível simbólico. Encontramos nisso o sinal do que estava acontecendo no nível do objeto metonímico.


Aí encontramos a fórmula da metáfora, na medida em que ela se exerce por um mecanismo de substituição que coloca um significante S no lugar de outro significante, S’


não se pode falar da morte, porque a morte é, muito precisamente, o limite de toda a fala e, ao mesmo tempo, provavel­ mente também a origem de onde ela parte.


Como viu, senhorita, eu sou conde. - At. -respondeu ela, simplesmente. •


Não existe .eu., o .eu. não se nomeia. Nada é mais exemplar do presente do dizer, como oposto ao dizer do presente, do que a exclamação pura e simples. A exclamação é o protótipo da presença do discurso, na medida em que aquele que o sustenta apaga por completo seu presente. Seu presente é, por assim dizer, inteiramente situado no presente do discurso.


• A palavra comte (conde) soa idêntica ao termo chulo con (babaca), acrescido de um t. A resposta dada pela moça corresponderia mais ou menos a ” Ah, t.”


Para pôr no devido lugar a questão da pretensa inteligência dos homens como a fonte de sua realidade mais X, seria preciso começar perguntando - inteligência de quê? Que há por compreender? Com o real, será mesmo de compreender que se trata? Se é pura e simplesmente de uma relação com o real que se trata, o discurso certamente deve conseguir restabelecê-lo em sua existência de real, isto é, não deve levar, estritamente falando, a nada. É isso, aliás, que o discurso costuma fazer. Se chegamos a uma outra coisa, se até podemos falar de uma história que chega a seu fim num certo saber, é na medida em que o discurso introduz nela uma transformação essencial.


Digamos que tudo o que é da ordem do inconsciente como estruturado pela linguagem coloca-nos diante do seguinte fenômeno: não é nem o gênero nem a classe, mas tão somente o exemplo particular que nos permite apreender as propriedades mais significativas.


trata-se de algo que introduz nas relações humanas constantes um modo de impasse essencial que repousa nisto: que nenhum desejo pode ser aceito, admitido pelo Outro, a não ser através de toda sorte de intermediários que o refratem, que façam do desejo um objeto de troca, algo diferente do que é, e que, em suma, submetam desde a origem o processo da demanda à necessidade da recusa.


sobre o masoquista e o sádico: Me machuca, diz o primeiro ao segundo, que responde:
Não.


Com efeito, quem está mais fadado a se entender do que o masoquista e o sádico? Sim, mas, como estão vendo por essa história, desde que não falem um com o outro.


Não é por maldade que o sádico responde não. Ele responde em função de sua condição sádica. E, a partir do momento em que se fala, ele é obrigado a responder no nível da fala. Portanto, é na medida em que somos transpostos para o nível da fala que aquilo que deveria, sob a condição de que nada fosse dito, levar ao mais profundo entendimento conduz ao que chamei há pouco de dialética da recusa, necessária para sustentar em sua essência de demanda o que se manifesta por intermédio da fala.


O que significa essa tirada espirituosa? Onde está o tempero?
Qual é seu fundamento?


A propósito da tirada espirituosa, vocês sabem que Freud nos colocou imediatamente neste plano: a tirada espirituosa deve ser investigada ali onde está, ou seja, em seu texto. Nada é mais cativante.
O homem a quem se atribui o talento de sondar todos os aléns da hipótese psicológica, por assim dizer, sempre parte, ao contrário, do ponto inverso, ou seja, da materialidade do significante, tratando-o como um dado dotado de existência própria


Seria bom lembrar, a propósito disso, o que Freud elide - não digo que o ignore


A metonímia, por sua vez, consiste na função assumida por um significante S no que ele se relaciona com outro significante na continuidade da cadeia significante. A função atribuída à vela em relação ao navio está numa cadeia significante, e não na referência ao real; está na continuidade dessa cadeia, e não numa substituição.
Trata-se, então, da maneira mais clara, de uma transferência de significação ao longo dessa cadeia.


Com efeito, a ideia de substituição de um significante por outro requer que o lugar já esteja definido. Trata-se de uma substituição posicional, e a própria ideia de posição exige a cadeia significante, isto é, uma sucessão combi­ natória. Não digo que exija todos os traços dela, mas digo que essa sucessão combinatória é caracterizada por elementos que chamarei, por exemplo, de intransitividade, alternância e repetição.


Não haveria metáfora se não houvesse metonímia ocorreu-me como um eco


dentre os romances da época realista, a um romance de Maupassant, Bel-Ami.


Foi a hora dos subentendidos refinados, dos véus erguidos por palavras à maneira de saias levantadas, a hora dos artifícios de linguagem, das ousadias hábeis e dissimuladas, de todas as hipocrisias impudicas, da frase que mostra imagens despidas mediante expressões veladas, que faz passar pelos olhos e pela mente a visão célere de tudo o que não se pode dizer, e permite à gente grã-fina uma espécie de amor sutil e misterioso, uma espécie de contato impuro dos pensamentos, através da evocação simultânea, perturbadora, sensual como um enlace, de todas as coisas secretas, vergonhosas e desejadas do intercurso sexual.
Haviam trazido o assado, perdizes …


Esse efeito não apareceria se as coisas fossem ditas de maneira mais extensa, ou seja, se tudo isso estivesse afogado num mar de palavras.


o Outro, pelo simples fato de existir a dimensão da fala, está em todos nós


que a metonímia é, propriamente falando, o lugar onde devemos situar a dimensão - primordial e essencial na linguagem humana - que é oposta à dimensão do sentido: a saber, a dimensão do valor.


Peço-lhes que se reportem à página em que Marx, no plano da formulação da chamada teoria da forma particular do valor da mercadoria, revela, numa nota, ser um precursor do estádio do espelho.


a origem primitiva do prazer é referida a um período lúdico da atividade infantil, àquela brincadeira precoce com as palavras que nos remete diretamente à aquisição da linguagem como puro significante, ao jogo verbal, ao exercício, que chamaríamos de quase puramente emissor, da forma verbal. Será que se trataria, pura e simplesmente, de um retomo a um exercício do significante como tal, num período anterior ao controle, ao passo que a razão obrigaria o sujeito, progressivamente, por força da educação e de todas as aprendizagens da realidade, a introduzir o controle e a crítica no uso do significante? Será nessa diferença, portanto, que reside a mola mestra do prazer do chiste? Se nisso se resumisse o que Freud nos oferece, a coisa decerto pareceria muito simples, mas está longe de ser assim.
Freud nos diz que aí está a origem do prazer, mas ele também nos mostra as vias por onde passa esse prazer


o chiste tem duas faces.
Há, por um lado, o exercício do significante, com a liberdade que leva ao máximo sua possibilidade de ambiguidade fundamental.


A outra face é a face de inconsciente


o sentido no nonsense


destaca duas faces aparentes do prazer - o chiste causa impacto primeiramente pelo nonsense, nos envolve e depois recompensa-nos pelo aparecimento, nesse próprio nonsense, de sabe-se lá que sentido secreto, aliás sempre tão difícil de definir.


É que o nonsense tem o papel de nos enganar por um instante, tempo suficiente para que um sentido até então despercebido nos atinja através da captação do chiste. Esse sentido, aliás, passa muito depressa, é fugidio, é um sentido em lampejo, da mesma natureza da sideração que nos reteve por um breve instante no nonsense.


Que é a demanda? É aquilo que, a partir de uma necessidade, passa por meio do significante dirigido ao Outro.


ele havia proferido algo que significava mais ou menos que a moça tinha demands singulares, ou mesmo intensas, o que, em inglês, tem um sabor ainda mais acentuado do que em francês. Ela ficara literalmente transtor n ada, como por uma acusação ou uma denúncia. Mas, quando ele ref i zera a mesma interpretação, momentos depois, servindo-se da palavra needs, ou seja, necessidades, havia deparado com alguém completamente dócil na aceitação de sua interpretação. E o autor se deslumbrou com isso.


a demanda, por si só, é tão relativa ao Outro, que o Outro logo se descobre na posição de acusar o sujeito, de repeli-lo, ao passo que, ao evocar a necessidade, ele o autentica, assume, homologa, aproxima-o de si, já começa a reconhecê-lo, o que é uma satisfação essencial.


Ref l itamos bem. O sistema das necessidades entra na dimensão da linguagem para ali ser remodelado, mas também para se despejar no complexo significante ao infinito, e é isso que faz com que a demanda seja, essencialmente, algo que se coloca por natureza como podendo ser exorbitante. Não é à toa que as crianças pedem a lua.
Elas pedem a lua porque é da natureza de uma necessidade que se exprime por intermédio do sistema significante pedir a lua. Por isso, aliás, não hesitamos em prometê-la. Por isso, aliás, estamos muito perto de possuí-la. Mas, af i nal, ainda não possuímos a lua.


Ele lhe diz: -Mas, como, foi para isso que lhe dei o dinheiro? Para você se regalar com salada de salmão? O outro então entra no chiste, respondendo: -Ora, não


compreendo. Quando não tenho dinheiro, não posso comer salada de salmão; quando tenho algum, também não posso comê-la. Af inal, quando vou comer salada de salmão?


a relação entre o significante e o desejo. O desejo é profun­ damente modificado em sua ênfase, subvertido, tornado ambíguo ele mesmo por sua passagem pelas vias de significante


Toda satisfação é permitida em nome de um certo registro que faz intervir o Outro para além daquele que demanda, e é exatamente isso que perverte profundamente o sistema da demanda e da resposta à demanda.


Vestir quem está nu, alimentar quem tem fome, visitar os doentes - não preciso recordar-lhes os sete, oito ou nove atos de misericórdia.
Os próprios termos já são bem claros. Vestir quem está nu: se a demanda fosse algo a ser sustentado em seu sentido literal, por que não dizer ” vestir aqueles ou aquelas que estão nus na maison Christian Dior” ? Isso acontece de vez em quando, mas, em geral, é porque justamente se começou por despi-los. Do mesmo modo, alimentar quem tem fome: - por que não empanturrá-los goela abaixo? Não, isso não se faz, isso lhes faria mal, eles estão habituados à sobriedade, não convém desarranjá-los. Quanto a visitar os doentes, lembrarei o dito de Sacha Guitry: -fazer uma visita sempre dá prazer, se não quando se chega, pelo menos quando se vai embora.


eu não diria que alguma coisa passa a despeito de tudo, mas que alguma coisa que está destinada a passar - o desejo que deveria passar deixa em algum lugar não apenas vestígios, mas um circuito insistente.


O jovem sujeito dirige sua demanda.


Vejam bem. As coisas se desenrolam em dois planos, o da intenção, por mais confusa que a suponham, do jovem sujeito enquanto dirige seu chamado, e o do significante, também por mais desordenado que possam supor seu uso, na medida em que ele é mobilizado nesse esforço, nesse chamado. O significante progride ao mesmo tempo que a intenção, até que os dois atingem estes cruzamentos, A e M, cuja utilidade já lhes assinalei para a compreensão do efeito retroativo da frase que se fecha.


Em outras palavras, quem diz alguma coisa, ao mesmo tempo diz mais e diz menos do que deve dizer. A referência ao caráter tateante da utilização primordial da língua da criança encontra aqui a plenitude de seu emprego.


O que começou como necessidade irá chamar-se demanda, ao passo que o significante se fechará sobre aquilo que consuma, de maneira tão aproximativa quanto quiserem, o sentido da demanda, e que constitui a mensagem evocada pelo Outro - digamos, a mãe, para de vez em quando admitir a existência de boas mães. A instituição do Outro coexiste assim com a consumação da mensagem. Ambos se determinam ao mesmo tempo, um como mensagem, o outro como Outro.


É a necessidade mais o significante. O socialismo, dizia Lenin, provavelmente é uma coisa muito simpática, mas a comunidade perfeita tem, além disso, a eletricidade. Do mesmo modo, na expressão da necessidade, existe a mais o significante.


No caso ideal de sucesso, o Outro surge no próprio prolongamento do exercício do significante.
O que prolonga o efeito do significante como tal é sua resolução num prazer próprio, autêntico, o prazer do uso do signif i cante. Vocês podem registrá-lo em alguma linha limite.


Na medida em que ao mesmo tempo cria a mensagem e o Outro, a passagem com pleno sucesso da demanda para o real conduz, por um lado, a um remanejamento do significado, que é introduzido pelo uso do significante como tal, e, por outro, prolonga diretamente o exercício do significante num prazer autêntico. Ambos se equilibram.


O que é o desejo? O desejo é definido por uma defasagem essencial em relação a tudo o que é, pura e simplesmente, da ordem da direção imaginária da necessidade - necessidade que a demanda introduz numa ordem outra, a ordem simbólica, com tudo o que ela pode introduzir aqui de perturbações.


O fenômeno da surpresa tem algo de originário - quer se produza no interior de uma formação do inconsciente, na medida em que em si mesma ela choque o sujeito por seu caráter surpreendente, quer ainda quando, no momento em que é feito para o sujeito o desvelamento, provoca-se nele o sentimento da surpresa.


Só entram no inconsciente os desejos que, por terem sido simbolizados, podem, ao entrar no inconsciente, conservar-se em sua forma simbó­ lica


São desejos que não se desgastam, que não têm o caráter de impermanência próprio a toda insatisfação, mas que, ao contrário, são sustentados pela estrutura simbólica, que os mantém num certo nível de circulação do significante, aquele que lhes apontei como devendo ser situado, nesse esquema, no circuito entre a men­ sagem e o Outro, onde ele ocupa uma função variável conforme as incidências em que se produz. É por essas mesmas vias que devemos conceber o circuito rotativo do inconsciente, na medida em que ele está sempre pronto a reaparecer.


É só o que se vê: pedintes a quem se concedem coisas. Ou lhes é concedido o que eles não pedem, ou, havendo obtido o que demandam, eles fazem outro uso disso, ou ainda comportam-se perante quem lhes satisfez a demanda com uma insolência toda especial, reproduzindo, na relação do pedinte com o solicitado, a bendita dimensão da ingratidão sem a qual seria realmente insuportável assentir em qualquer demanda


o mecanismo normal da demanda na qual assentimos é provocar demandas sempre renovadas.


quando quem demanda pode achar que, efetivamente, o Outro consentiu de verdade numa de suas demandas, de fato não há mais limite - é normal que ele lhe confie todas as suas necessidades. Daí os benefícios da ingratidão, que evoquei há pouco, que põe termo ao que não teria como acabar.


Mas, também, por experiência, o pedinte não tem o hábito de apresentar sua demanda assim, inteiramente nua. A demanda nada tem de confiante. O sujeito sabe muito bem com que está lidando no espírito do Outro, e é por isso que disfarça sua demanda. Ele pede alguma coisa de que tem necessidade, em nome de outra da qual às vezes também necessita, mas que será mais facilmente aceita como pretexto para a demanda.


Irá dirigir-se de uma certa maneira à senhora que faz obras de caridade, de outra ao banqueiro, de outra ao casamenteiro, de outra a este ou aquele dos personagens


Ou seja, seu desejo será tomado e remanejado não apenas no sistema do signif i cante, mas no sistema do signif i cante tal como instaurado ou instituído no Outro.


Trata-se do objeto aceitável pelo Outro, do objeto do que o Outro quer desejar, em suma, do objeto metonímico.


Não é garantido que a significação assim formada seja unívoca.
É tão pouco unívoca, aliás, que a equivocação .maldonne. e o desconhecimento são um caráter fundamental da linguagem, consti­ tuem dela uma dimensão essencial. É na ambiguidade dessa formação da mensagem que trabalha o chiste. É a partir desse ponto que, por diversas razões, será formado o chiste.


O objetivo do chiste, com efeito, é nos reevocar a dimensão pela qual o desejo, se não reconquista, pelo menos aponta tudo aquilo que perdeu ao percorrer esse caminho, ou seja, por um lado, o que deixou de dejetos no nível da cadeia metonímica, e por outro, o que não realizou plenamente no nível da metáfora.


Toda uma parte do desejo continua a circular sob a forma de dejetos do signif i cante no inconsciente


É na medida em que o sujeito consegue, com sua tirada espirituosa, surpreender o Outro, que ele colhe o prazer


A homologação do pouco-sentido da frase pelo Outro, sempre mais ou menos manifesta na tirada espirituosa


É por eu estar tentando propelir-me passo a passo numa coisa difícil de comunicar que esses tropeços se produzem.


não importa a que autor me dirija, mesmo remontando ao período


fecundo, o período romântico, realmente não vejo nenhum que tenha sequer reunido os elementos primordiais, materiais, da questão.


que faz com que até a mentira tenha de recorrer à verdade, e com que a própria verdade possa parecer que não é do registro da verdade.


Mais ainda, no exato momento em que baixo as cartas, minha boa-fé torna a me colocar na dependência da apreciação do Outro, na medida em que ele pode achar que está surpreendendo meu jogo, quando, precisa­ mente, estou a lho mostrar. A discriminação entre o blefe e a tapeação fi ca também à mercê da má-fé do Outro.


Todo o pensamento freudiano acha-se impregnado da heteroge­ neidade da função significante, ou seja, do caráter radical da relação do sujeito com o Outro, na medida em que ele fala. Ora, isso fora mascarado, até Freud, pelo fato de que se tinha por certo que o sujeito fala, por assim dizer, de acordo com sua consciência, boa ou má, que ele nunca fala sem uma certa intenção de significação, e que essa intenção está por trás de sua mentira - ou de sua sinceridade, tanto faz. Ora, essa intenção é derrisória tanto o sujeito acredite mentir


quanto dizer a verdade, pois ele não se engana menos em seu esforço de confissão do que no de enganação.


Podemos, muito rapidamente, formar a ideia de que, em média, sem dúvida não há muito mais pensamentos em ação no conjunto desse corpo cogitante do que no de qualquer empregada doméstica industriosa, às voltas com as necessidades mais imediatas da vida. A dimensão do pensamento não tem em si mesma absoluta­ mente nada a ver com a importância do discurso veiculado. Pelo contrário, quanto mais esse discurso é coerente e consistente, mais ele parece prestar-se a todas as formas de ausência quanto ao que se pode razoavelmente def i nir como uma pergunta formulada pelo sujeito à sua existência enquanto sujeito.


que esse ser vivo entenda a linguagem e, mais do que isso, possua um estoque do que é verbalmente trocado - usos, empregos, locuções, termos -, sem o que não haveria nenhum meio de entrarmos em comunicação com ele pela linguagem.


à sombra da tirada espirituosa, satisfez-se uma coisa que é a tendência agressiva do sujeito. De outro modo, ela não se manifestaria. Não seria permitido falar tão grossei­ ramente de um confrade literato. A coisa só é possível sob a proteção da tirada espirituosa.


Eis-nos portanto em condição de dizer que, longe de o sujeito diante de nós ter que ser um vivente real, esse Outro é, essencialmente, um lugar simbólico.


O que se produz entre mim e o Outro, no momento da tirada espirituosa, é como uma comunhão toda especial ent r e o pouco-sentido e o passo-do-sentido


Cer t as leituras parecem albergues espanhóis: nelas só se encontra aquilo que se leva para lá


o prazer da surpresa e a surpresa do prazer.


Esse circuito é a autenticação, pelo Outro, daquilo que, em suma, é uma alusão ao fato de que nada da demanda, desde que o homem entrou no mundo simbólico, pode ser alcançado, a não ser por uma sucessão infinita de passos-de-sentido


O homem, novo Aquiles perseguindo uma outra tartaruga, está fadado, em razão da captação de seu desejo no mecanismo da linguagem, a essa aproxi­ mação infinita e nunca satisfeita, ligada ao próprio mecanismo do desejo, que chamaremos simplesmente de discursividade.


Como estavam prestando muita atenção, uma parte de vocês levou algum tempo para compreender.


É o que tentaremos abordar hoje, sem esgotar o assunto


Não é raro ver evocadas as variedades do fenômeno. Existe a simples comunicação do riso, o riso do riso. Há o riso ligado ao fato de que não convém rir. O riso incontido das crianças em certas situações também merece reter a atenção. Há ainda um riso de angústia e até o da ameaça iminente, o riso nervoso da vítima que de repente se sente ameaçada por algo que ultrapassa até mesmo os limites de sua expectativa, o riso do desespero. E há até o riso do luto do qual se é bruscamente informado.


Não se pode deixar de perceber o caráter extravagante disso quando se lê que uma das características do mecânico, como oposto ao vital, seria seu caráter repetitivo, como se a vida não nos apresentasse nenhum fenômeno de repetição, como se não mijássemos todos os dias da mesma maneira, como se não dormíssemos todos os dias da mesma maneira, como se reinventassemos o amor a cada vez que trepássemos.


Ora, se encontramos nas subjacências do chiste a estrutura essencial da de­ manda que faz com que, enquanto retomada pelo Outro, ela permaneça essencialmente insatisfeita, ainda assim há uma solução, a solução fundamental, aquela que todos os seres humanos procuram desde o começo da vida até o fim da existência. Uma vez que tudo depende do Outro, a solução é ter um Outro só para si. É a isso que se chama amor. Na dialética do desejo, trata-se de ter um Outro todo seu.


Existem bons casamentos, mas não os há deliciosos,


o isso do homem está inteiramente engajado


na dialética da linguagem, e que ele veicula e conserva a existência primordial da tendência.


É por isso que a comédia faz sua entrada no que podemos considerar, com Hegel, a face estética da religião.


n udo.
Essa é sua paixão principal. É uma paixão como outra qualquer. Todas as paixões se equivalem, todas são igualmente metonímicas.


Vá embora, não quero mais ouvir suas conversas, e aqui está minha resposta, o que dava a impressão de querer dizer Aqui está a pedra que lhe atiro, só que a pedra foi também o veículo de uma cartinha. Horácio observa muito bem que, para uma moça a quem até então haviam querido manter na mais extrema ignorância, essa é uma ambiguidade bastante bem achada, esboço dos duplos sentidos e de todo um jogo do qual é possível augurar o melhor no futuro.


O isso, por natureza, está para além da captação do desejo na linguagem. A relação com o Outro é essencial, uma vez que o caminho do desejo passa necessariamente por ele, mas não porque o Outro seja o objeto único, e sim na medida em que o Outro é o fiador da linguagem e a submete a toda sua dialética.


Como lhes disse muito bem a sra. Pankow, ontem à noite, há na mensagem em que a criança decifra o comportamento da mãe dois elementos. Estes não se definem um em relação ao outro, no sentido de um se apresentar como a defesa do sujeito em relação ao que o outro quer dizer, o que constitui a ideia comum que vocês têm do mecanismo da defesa quando praticam a análise. Vocês consideram que aquilo que o sujeito diz tem por fim desconhecer o que há de signif i cação em algum lugar dele, e que, de esguelha, ele indica -a si mesmo e a vocês - suas intenções. Não é disso que se trata.
Trata-se de alguma coisa que conceme ao Outro, e que é aceita pelo sujeito de tal maneira que, se ele responder a respeito de uma coisa, sabe que, por isso mesmo, será acuado acerca de outra. É como o exemplo usado pela sra. Pankow: se respondo à declaração de amor


que minha mãe me faz, provoco seu afastamento, e, se não lhe dou ouvidos, isto é, se não lhe respondo, eu a perco.


Isso lhes prova que, mesmo na América, está havendo um enorme progresso.


sobre a psicose, que se resume mais ou menos nisto: não existe, dizia ela, a palavra que funda a fala como ato. Entre as palavras, é preciso haver uma que funde a fala como ato no sujeito.


alguma coisa que se coloca como conferindo autoridade à lei.


Trata-se do que chamo de Nome-do-Pai, isto é, o pai simbólico. Esse é um termo que subsiste no nível do significante, que, no Outro como sede da lei, representa o Outro. É o significante que dá esteio à lei, que promulga a lei. Esse é o Outro no Outro.


Para que haja alguma coisa que faz com que a lei seja fundada no pai, é preciso haver o assassinato do pai. As duas coisas estão estreitamente ligadas - o pai como aquele que promulga a lei é o pai morto, isto é, o símbolo do pai. O pai morto é o Nome-do-Pai, que se constrói aí sobre o conteúdo.


na psicose - a saber, que o sujeito tem de suprir a falta desse significante que é o Nome-do-Pai. Tudo o que chamei de reação em cadeia, ou de debandada, que se produz na psicose, ordena-se em torno disso.


O momento da demanda satisfeita é representado pela simulta­ neidade da intenção, na medida em que ela se manifeste como mensagem, e da chegada dessa mensagem como tal ao Outro. O sig­ nificante - é dele que se trata, uma vez que essa cadeia é a cadeia significante - chega no Outro. A identidade perfeita, a simultanei­ dade, a superposição exata entre a manifestação da intenção, uma vez que ela é a do ego, e o fato de o significante ser como tal ratificado no Outro acham-se no princípio da própria possibilidade da satisfação da fala. Se esse momento, que chamo de momento primordial ideal, existe, ele deve ser constituído pela simultaneidade, pela coextensi­ vidade exata do desejo, na medida em que ele se manifesta, e do significante, na medida em que ele o porta e o comporta. Se esse momento existe, a sequência, ou seja, o que sucede à mensagem, à sua passagem para o Outro, é ao mesmo tempo realizado no Outro e no sujeito, e corresponde ao que é necessário para que haja satisfação.
Esse é, muito precisamente, o ponto de partida que convém para vocês compreenderem que isso nunca acontece.


A identidade perfeita, a simultanei­ dade, a superposição exata entre a manifestação da intenção, uma vez que ela é a do ego, e o fato de o significante ser como tal ratificado no Outro acham-se no princípio da própria possibilidade da satisfação da fala


O desejo cruza a linha signif i cante e, no nível de seu cruzamento com a linha signif i cante, encontra o quê? Encontra o Outro.


Ele encontra o Outro, disse-lhes eu, não como uma pessoa, mas o encontra como tesouro do signif i cante, como sede do código. É aí que se produz a refração do desejo pelo signif i cante.


desejo chega como significado, portanto, diferente do que era no começo, e é por isso não que sua mulher é muda, mas que seu desejo é sempre comudo. Ou melhor, é você quem é comudo. Você próprio é traído, uma vez que seu desejo deitou-se com o significante.


Toda a significação do esquema está em fazê-los visuali­ zarem o conceito de que a passagem do desejo - como emanação, como ressalto do ego radical - pela cadeia significante introduz, por si só, uma mudança essencial na dialética do desejo.


Verifica-se que qualquer satisfação possível do desejo humano vai depender da concordância entre o sistema significante, tal como articulado na fala do sujeito, e, como lhes diria o sr. de la Palice, . do sistema do significante como assentado no código, isto é, no nível do Outro como lugar e sede do código


Mesmo não comportando nenhuma satisfação particular imediata, o chiste consiste em acontecer no Outro alguma coisa que simboliza o que poderíamos chamar de condição necessária de qualquer satisfação. Ou seja, que vocês sejam ouvidos para além do que dizem. Em nenhum caso, com efeito, o que vocês dizem pode realmente fazer com que sejam ouvidos.


A tirada espirituosa desenvolve-se como tal na dimensão da metáfora, isto é, para além do signif i cante como aquilo através do qual vocês procuram expressar alguma coisa, e através do qual, apesar de tudo, expressam sempre uma coisa diferente. É justamente na medida em que se apresenta como tropeço do significante que vocês ficam satisfeitos, simplesmente porque, por esse sinal, o Outro reco­ nhece a dimensão para além onde deverá se expressar o que está em causa, e que vocês não conseguem expressar como tal. É essa dimensão que a tirada espirituosa nos revela.


No Tu és aquele que me seguirás, há uma coisa que não está no Tu és aquele que me seguirá, e é a isso que se chama invocação. Quando digo Tu és aquele que me seguirás, estou invo­ cando você, atribuindo-lhe a função de ser aquele que me seguirá, suscito em você o sim que diz Estou contigo .j e suis à toi., entrego-me a ti, sou aquele que te seguirá. Mas, quando digo Tu és aquele que me seguirá, não faço nada parecido: anuncio, constato, objetivo e até, vez por outra, rechaço. Isso pode querer dizer: Tu és aquele que me seguirá sempre, e estou f arto disso. Da maneira mais comum e mais consequente de proferir essa frase, ela é uma recusa. A invocação exige, é claro, uma dimensão inteiramente diversa, ou seja, que eu faça meu desejo depender do teu ser, no sentido de te convidar a entrar na via desse desejo, seja ele qual for, de maneira incondicional.


Toda estrutura subjetiva, seja qual for, na medida em que conse­ guimos acompanhar o que ela articula, é estritamente equivalente a qualquer outra, do ponto de vista da análise subjetiva


o que está mais além se articula. Em outras palavras, não há por que falar de inefável quanto ao sujeito, seja ele delirante ou místico. No plano da estrutura subjetiva, estamos na presença de algo que não pode se apresentar de outra maneira senão daquela como se apresenta, e que, como tal, apresenta-se, por conseguinte, com todo o seu valor, em seu nível de credibilidade.


Se existe o inefável, quer no delirante, quer no místico, por definição ele não fala disso, uma vez que é inefável. Então, não temos que julgar o que ele articula, ou seja, sua fala, a partir daquilo de que ele não pode falar


Esclareço que, se esse oco ou esse vazio aparece, é por ter sido evocado ao menos uma vez o Nome-do-Pai - é na medida em que o que foi chamado num dado momento no nível do Tu foi, justamente, o Nome-do-Pai como aquele que é capaz de ratificar a mensagem, e que, por isso mesmo, é a garantia de que a lei como tal se apresente como autônoma. É esse o ponto de báscula, de virada, que precipita o sujeito na psicose,


o sujeito se descobre dependente dos três polos chamados Ideal do eu, supereu e realidade.


-De que o senhor espera nos falar na continuação do ano? E respondi: -Espero abordar questões de estrutura


O que o inconsciente revela, no princípio, é, acima de tudo, o complexo de Édipo. A importância da revelação do inconsciente é a amnésia infantil, que incide sobre o quê? Sobre a existência dos desejos infantis pela mãe e sobre o fato de esses desejos serem recalcados. E não apenas eles são reprimidos, como se esquece que esses desejos são primordiais. E não apenas são primordiais, como estão sempre pre­ sentes. Foi daí que partiu a análise e é a partir daí que se articula um certo número de indagações clínicas.


a de o complexo de Édipo ter uma função essencial de normalização. Assim, podia-se, por um lado, considerar que era um acidente do Édipo que provocava a neurose, mas, por outro, formular a pergunta: existem neuroses sem Édipo?


” Neurose sem complexo de Édipo?” é precisamente o título de um artigo de Charles Odier.


supereu materno


Nachtri i glichkeit


A perversão era, para alguns, o estado primário, o estado bruto.
Graças a Deus, já não estamos nesse ponto. Se, nos primórdios, essa concepção foi legítima, pelo menos a título de uma aproximação da questão, certamente ela o é menos em nossos dias. A perversão era considerada essencialmente uma patologia cuja etiologia devia ser especificamente referida ao campo pré-edipiano, e que extraía seu condicionamento de uma fixação anormal. Foi por essa razão, aliás, que a perversão foi considerada apenas como a neurose invertida, ou, mais exatamente, como a neurose mantida patente, não tendo sido invertida. O que se invertera na neurose era visto às claras na perversão.
Posto que a perversão não teria sido recalcada nem passado pelo Édipo, o inconsciente ficava exposto a céu aberto. Essa é uma concepção na qual ninguém mais se detém, o que não quer dizer, no entanto, que estejamos mais avançados nisso.


Assinalo, pois, que em tor n o da questão do campo pré-edipiano reúnem-se a questão da perversão e a da psicose.


Quer consideremos a perversão ou a psicose, sempre se trata da função imaginária.


trata-se de mani­ festações patológicas nas quais o campo da realidade é profundamente perturbado por imagens.


Essa mulher, que nos trouxe visões profundas, muito esclarece­ doras, não apenas sobre o tempo pré-edipiano, mas sobre as crianças a quem examinou e analisou numa etapa supostamente pré-edipiana, numa primeira aproximação da teoria, essa analista, que abordou


necessariamente temas nessas crianças em termos às vezes pré-verbais, quase que no surgimento da fala- pois bem, quanto mais ela remontou à época da pretensa história pré-edipiana, mais enxergou nesta, mais continuou a ver o tempo todo como algo permanente, a interrogação edipiana.


ao aparecimento do corpo da mãe em sua totalidade. A ouvirmos o que ela diz, o papel predominante na evolução das primeiras relações objetais infantis seria desempenhado pelo interior do corpo da mãe, que concentraria toda a atenção da criança


Quanto mais ela recua no plano imaginário, mais constata a precocidade - muito difícil de explicar, se nos ativermos a uma ideia puramente histórica do Édipo - do apareci­ mento do terceiro termo paterno, e isso desde as primeiras fases imaginárias da criança. É nisso que digo que a obra diz mais do que pretende dizer.


o complexo de Édipo tem uma função normativa, não simplesmente na estrutura moral do sujeito,


nem em suas relações com a realidade, mas quanto à assunção de seu sexo - o que, como vocês sabem, sempre persiste, na análise, dentro de uma certa ambiguidade. Por outro lado, a função propriamente genital é objeto de uma maturação, após uma primeira onda sexual de ordem orgânica, para a qual se buscou um apoio anatômico na dupla onda dos testículos e na formação dos espermatozoides. A relação entre essa onda orgânica e a existência do complexo de Édipo na espécie humana permanece como uma questão fi logenética sobre a qual paira muita obscuridade, a ponto de ninguém mais se arriscar a escrever artigos sobre o assunto. Mas, enfim, nem por isso a questão deixou de estar presente na história da análise.


A questão da genitalização é dupla, portanto. Há, por um lado, um salto que comporta uma evolução, uma maturação. Por outro, há no Édipo a assunção do próprio sexo pelo sujeito, isto é, para darmos os nomes às coisas, aquilo que faz com que o homem assuma o tipo viril e com que a mulher assuma um certo tipo feminino, se reconheça como mulher, identifique-se com suas funções de mulher. A virilidade e a feminização são os dois termos que traduzem o que é, essencial­ mente, a função do Édipo. Encontramo-nos, aí, no nível em que o Édipo está diretamente ligado à função do Ideal do eu - ele não tem outro sentido.


Não existe a questão do Édipo quando não existe o pai, e, inversamente, falar do Édipo é introduzir como essencial a função do pai.


Repito, para aqueles que tomam notas. Com respeito ao tema histórico do complexo de Édipo, tudo gira em tomo de três polos -o Édipo em relação ao supereu, em relação à realidade e em relação ao Ideal do eu.


Ideal do eu na medida em que a genitalização, ao ser assumida, toma-se um elemento do Ideal do eu. E realidade na medida em que se trata das relações do Édipo com as afecções que comportam uma subversão da relação com a realidade - a perversão e a psicose.


mais grave quando ele era extremamente gentil.


Existem os pais fracos, os pais submissos, os pais abatidos, os pais castrados pela mulher, enfim, os pais enfermos, os pais cegos, os pais cambaios, tudo o que quiserem.
Conviria tentar perceber o que se depreende de tal situação, e encontrar fórmulas mínimas que nos permitissem progredir.


Mesmo nos casos em que o pai não está presente, em que a criança é deixada sozinha com a mãe, complexos de Édipo inteiramente normais - normais nos dois sentidos: normais como normalizadores, por um lado, e também normais no que se desnormalizam, isto é, por seu efeito neurotizante, por exemplo - se estabelecem de maneira exatamente homóloga à dos outros casos. É o primeiro ponto que nos deve chamar a atenção.


No que concerne à carência do pai, gostaria simplesmente de lhes assinalar que nunca se sabe em que o pai é carente. Em certos casos, dizem-nos que ele é meigo demais, o que parece dizer que lhe conviria ser malvado. Por outro lado, o fato de ele poder ser muito mau, manifestamente, implica que mais valeria talvez, de tempos em tempos, que fosse meigo. Finalmente, faz muito tempo que esgota­ ram-se as voltas desse pequeno carrossel. Vislumbrou-se que o pro­ blema da carência do pai não concer n ia diretamente à criança em questão, mas, como ficou evidente desde o início, que era possível começar a dizer coisas um pouco mais eficazes acerca dessa carência, tomando o pai como aquele que tem de manter seu lugar como membro do trio fundamental da família. Nem por isso, entretanto, conseguiu-se formular melhor aquilo de que se tratava.


A questão da carência do pai merece que retomemos a ela, mas, neste ponto, entramos num mundo tão movediço que é preciso tentar fazer uma distinção que permita ver em que peca a pesquisa. Ela peca não pelo que descobre, mas pelo que procura. Creio que o erro de orientação é este: confundem-se duas coisas que estão relacionadas, mas que não se confundem - o pai como normativo e o pai como normal. O pai pode, é claro, ser muito desnormatizador, na medida em que ele mesmo não seja normal, mas isso é rejeitar a questão para o nível da estrutura - neurótica, psicótica - do pai. Logo, a normalidade do pai é uma questão, e a de sua posição normal na família é outra.


Para começar, o pai terrível. Apesar de tudo, a imagem resume alguma coisa muito mais complexa, como indica o nome. O pai intervém em diversos planos. Antes de mais nada, interdita a mãe.
Esse é o fundamento, o princípio do complexo de Édipo, é aí que o pai se liga à lei primordial da proibição do incesto. É o pai, recor­ dam-nos, que fi ca encarregado de representar essa proibição. Às vezes, tem de manifestá-la de maneira direta, quando a criança se deixa levar por suas expansões, manifestações e pendores, mas é para além disso que ele exerce esse papel. É por toda a sua presença, por seus efeitos


no inconsciente, que ele realiza a interdição da mãe. Vocês estão esperando que eu diga: sob a ameaça de castração. É verdade, convém dizê-lo, mas isso não é tão simples. É certo que a castração tem nisso um papel manifesto e cada vez mais conf i rmado. O vínculo da castração com a lei é essencial, mas, vejamos como isso se apresenta a nós clinicamente.


A relação entre o menino e o pai é dominada, como se sabe, pelo medo da castração.


Como uma represália no interior de uma relação agressiva.
Essa agressão parte do filho, na medida em que seu objeto privilegiado, a mãe, lhe é proibido, e se dirige ao pai. E retoma para ele em função da relação dual, uma vez que ele projeta imaginariamente no pai intenções agressivas equivalentes ou reforçadas em relação às suas, mas que têm como ponto de partida suas próprias tendências agres­ sivas. Em suma, o medo experimentado diante do pai é nitidamente centrífugo, quer dizer, tem seu centro no sujeito


Foi sob esse ângulo que a experiência nos ensinou, com muita rapidez, que era preciso medir a incidência do medo experimentado no Édipo em relação ao pai.


Esse Édipo invertido nunca está ausente da função do Édipo, isto é, não se pode eludir dele o componente do amor pelo pai. É ele que proporciona o término do complexo de Édipo, seu declínio, numa dialética, que se mantém muito ambígua, do amor e da identificação, da identificação como enraizada no amor.


a identificação terminal que constitui sua solução. É na medida em que o pai é amado que o sujeito se identifica com ele, e que encontra a solução terminal do Édipo numa composição do recalque amnésico com a aquisição, nele mesmo, do termo ideal graças ao qual ele se transforma no pai.


ante esse pai temível, que proibiu muitas coisas, mas que, por outro lado, é muito gentil, colocar-se em boas condições de cair em suas graças, isto é, de se fazer amar por ele


Entretanto, uma vez que fazer-se amar por ele consiste em passar, primeiramente, para a categoria de mulher, e, como cada um sempre conserva seu pequeno amor-próprio viril, essa posição, como nos explica Freud, comporta o perigo da castração, donde aquela forma de homossexua­ lidade inconsciente que coloca o sujeito numa situação conflitante, com múltiplas repercussões: por um lado, o retor n o constante da posição homossexual em relação ao pai, e por outro, sua suspensão, isto é, seu recalque, em razão da ameaça de castração que essa posição comporta.


O que proíbe ele, precisamente?


proibir o menininho de se servir de seu pênis no momento em que o referido pênis começa a manifestar veleidades.
Diremos, pois, que se trata da proibição do pai em relação à pulsão real.


Mas; por que o pai? A experiência prova que a mãe também o faz tão bem quanto ele


a castração é um ato simbólico cujo agente é alguém real, o pai ou a mãe, que lhe diz Vamos mandar cortá-lo, e cujo objeto é um objeto imaginário - se o menino se sente cortado, é por imaginar isso.


o da frustração. Nesse, o pai intervém como detentor de um direito, e não como personagem real. Mesmo que não esteja presente, mesmo que telefone para a mãe, por exemplo, o resultado é idêntico. Nesse ponto, é o pai como simbólico que intervém numa frustração, ato imaginário concernente a um objeto muito real, que é a mãe, na medida em que a criança necessita dela, S’.r.


Por fim vem o terceiro nível, o da privação, que intervém na articulação do complexo de Édipo. Trata-se então do pai como aquele que se faz preferir em lugar da mãe, dimensão que vocês são abso­ lutamente forçados a fazer intervir na função terminal, aquela que leva à formação do ideal do eu, S +- —S’ .r. É na medida em que o pai


se tor n a um objeto preferível à mãe, seja por que vertente for, pelo lado da força ou pelo da fraqueza, que pode estabelecer-se a identi­ ficação final. A questão do complexo de Édipo invertido e de sua função se estabelece nesse nível. Direi mais: é aí que se centra a questão da diferença do efeito do complexo no menino e na menina


É na entrada que fica a dificuldade para ela, ao passo que, no fi m, a solução é facilitada, porque o pai não tem dificuldade de se fazer preferir à mãe como portador do falo


pela identificação com o pai que a virilidade é assumida.


É na medida em que o pai se torna o Ideal do eu que se produz na menina o reconhecimento de que ela não tem falo


Em outras palavras, no momento da saída normatizadora do Édipo, a criança reconhece não ter - não ter realmente aquilo que tem, no caso do menino, e aquilo que não tem, no caso da menina


Ora, o complexo de Édipo, afinal, não é unicamente uma catástrofe, uma vez que é a base de nossa relação com a cultura, como se costuma dizer.


É isto: o pai é uma metáfora


A função do pai no complexo de Édipo é ser um significante que substitui o primeiro significante introduzido na simbolização, o sig­ nificante matemo


o significado das idas e vindas da mãe é o falo.


se vocês explorassem a fenomenologia, digamos, da reclusão, perceberiam a que ponto é absurdo limitar a função do medo à relação com um perigo real. A ligação estreita entre o medo e a segurança deveria manifestar-se para vocês pela fenomenologia da fobia. E vocês perceberiam que, no fóbico, seus momentos de angústia se produzem quando ele percebe que perdeu seu medo, quando vocês começam a lhe retirar um pouco de sua fobia. É nesse momento que ele diz a si mesmo: -Ôpa, isso não funciona. Não sei mais os lugares onde devo me deter. Ao perder meu medo, perdi minha segurança


A gente pode até comer merda, contanto que não seja sempre a mesma


o desejo, a reclusão, a vigília,


Uma ocupação só começa a se tornar séria quando aquilo que a constitui, isto é, em geral, a regularidade, tor n a-se perfeitamente entediante.


Em particular, pensem em tudo aquilo que, em sua prática ana­ lítica, é exatamente a conta certa para que vocês se entediem. Ente­ diar-se, tudo se resume nisso. Uma grande parte, pelo menos, do que chamamos de regras técnicas a serem observadas pelo analista não são outra coisa senão meios de dar a essa ocupação as garantias de seu padrão prof i ssional - mas, se vocês olharem bem no fundo das coisas, perceberão que isso se dá na medida em que elas ratificam, alimentam, sustentam a função do tédio como estando no cerne da prática.


o que têm de insuficientes as fórmulas de que atualmente nos servimos na análise e, acima de tudo, sem ter-lhes mostrado em que podemos for n ecer fórmulas mais suficientes, por assim dizer.


numa determinada tribo primitiva, a procriação era atribuída a não sei o quê, uma fonte, uma pedra, ou o encontro com um espírito em lugares afastados


O importante, com efeito, não é as pessoas saberem perfeitamente que uma mulher só pode engravidar quando pratica um coito, mas sancionarem num signif i cante que aquele com quem ela praticou o coito é o pai. Isso porque, se assim não fosse, tal como se constitui por natureza a ordem do símbolo, absolutamente nada obstaria a que aquele algo que é responsável pela procriação continuasse a ser mantido, no sistema simbólico, como idêntico a uma coisa qualquer, uma pedra, uma fonte, ou o encontro com um espírito num local afastado.


Há nesse desenho uma relação de simetria entre f alo, que está aqui no vértice superior do temário imaginário, e pai, no vértice inferior do temário simbólico


Dadas as dif i culdades com que deparamos na clínica, o interrogatório, o exame e a manobra terapêuticos, esses esforços estão justif i cados de antemão.


Vemos que existem estados muito diferentes, casos e também etapas em que o filho se identif i ca com o falo. Isso foi objeto do caminho que percorremos no ano passado. Mostramos no fetichismo uma perversão exemplar, no sentido de que, nele, a criança tem uma certa relação com o objeto do além do desejo matemo, em cuja prevalência e valor de excelência, por assim dizer, ela reparou, e ao qual se liga por intermédio de uma identificação imaginária com a mãe. Também indicamos que, em outras formas de perversão, em especial no travestismo, é na posição contrária que a criança passa a assumir a dif i culdade da relação imaginária com a mãe. Dizem que ela mesma se identifica com a mãe fálica. Creio ser mais correto dizer que é propriamente com o falo que ela se identifica, como escondido sob as roupas da mãe.


Trata-se aqui do nível da privação. Nesse nível, o pai priva alguém daquilo que, afinal de contas, ele não tem, isto é, de algo que só tem existência na medida em que se faz com que surja na existência como símbolo.


Assim, é no plano da privação da mãe que, num dado momento da evolução do Édipo, coloca-se para o sujeito a questão de aceitar, de registrar, de simbolizar, ele mesmo, de dar valor de significação a essa privação da qual a mãe revela-se o objeto.
Essa privação, o sujeito infantil a assume ou não, aceita ou recusa.


Nesse nível, a questão que se coloca é ser ou não ser, to be or not to be o falo


Ponham também esse escolher entre aspas, porque o sujeito é tão passivo quanto ativo nisso, pela simples razão de que não é ele quem manipula as cordinhas do simbólico


A mãe é perfeitamente capaz de mostrar ao filho o quanto é insuficiente o que ele lhe oferece, e também é suf i ciente para proferir a proibição do uso do novo instrumento.


Sabemos que a função do pai, o Nome-do-Pai, está ligada à proibição do incesto, mas ninguém jamais pensou em colocar no primeiro plano do complexo de castração o fato de o pai promulgar efetivamente a lei da proibição do incesto.
Às vezes o dizemos, mas isso nunca é proferido pelo pai, digamos, como legislador ex cathedra. Ele é um obstáculo entre o fi lho e a mãe, é o portador da lei, mas isso de direito, ao passo que, nos fatos, intervém de outra maneira, e é também de outra maneira que se manifesta a falta de sua intervenção. É nisso que tocamos aqui. Em outras palavras, o pai como aquele que é culturalmente portador da lei, o pai como investido pelo significante do pai, intervém no complexo de Édipo de maneira mais concreta, mais escalonada, por assim dizer, e é isso que queremos articular hoje. Esse é o nível em que é mais difícil compreender alguma coisa, embora seja aquele em que nos dizem que se encontra a chave do Édipo, ou seja, seu desfecho.


é um mundo onde impera a fala, que submete o desejo de cada um à lei do desejo do Outro


A lei da mãe, é claro, é o fato de que a mãe é um ser falante, e isso basta para legitimar que eu diga a lei da mãe. Não obstante, essa lei é, por assim dizer, uma lei não controlada. Reside simplesmente, ao menos para o sujeito, no fato de que alguma coisa em seu desejo é completamente dependente de alguma outra coisa, que sem dúvida já se articula como tal, e que é realmente da ordem da lei, só que essa lei está, toda ela, no sujeito que a sustenta, isto é, no bem-querer ou malquerer da mãe, na mãe boa ou má.


toda a análise é uma dialética do desejo


a angústia do Pequeno Hans era, essencialmente, como eu lhes disse, a angústia de um assujeitamento


Trata-se do pai, portanto, como Nome-do-Pai, estreitamente ligado à enunciação da lei, como todo o desenvolvimento da doutrina freudiana no-lo anuncia e pro­ move. E é nisso que ele é ou não é aceito pela criança como aquele que priva ou não priva a mãe do objeto de seu desejo.


Primeiro tempo. O que a criança busca, como desejo de desejo, é poder satisfazer o desejo da mãe, isto é, to be or not to be o objeto do desejo da mãe.


saber se sou mesmo capaz de alguma coisa, com as decepções de se seguem. Ela a procura e a encontra na medida em que a mãe é interrogada pela demanda da criança. Também a mãe, por sua vez, está em busca de seu próprio desejo, e em algum lugar por aí situam-se os componentes deste.


Segundo tempo. Eu lhes disse que, no plano imaginário, o pai intervém efetivamente como privador da mãe, o que significa que a demanda endereçada ao Outro, caso transmitida como convém, será encaminhada a um tribunal superior, se assim posso me expressar.


Lembrem-se do Pequeno Hans no ano passado. O pai é tudo o que há de mais agradável, é tudo o que há de mais presente, é tudo o que há de mais inteligente, é tudo o que há de mais amistoso para Hans, não parece ser nem um pouco imbecil e leva o Pequeno Hans a Freud - o que, afinal, na época, era dar mostras de um espírito esclarecido; mas, com tudo isso, ele é totalmente inoperante, na medida em que aquilo que diz é precisamente sem efeito - junto à mãe, quero dizer. Isso fica perfeitamente claro, sejam quais forem as relações entre os dois personagens parentais.
A mãe, observem, em relação ao Pequeno Hans, acha-se numa posição ambígua. É proibidora, desempenha o papel castrador que poderíamos ver atribuído ao pai no plano real, diz-lhe: Não mexa aí , isso é nojento -o que não a impede, no plano prático, de deixar o filho entrar em sua intimidade, e não apenas de lhe permitir que exerça a função de seu objeto imaginário, mas de encorajá-lo a isso. Ele, com efeito, presta-lhe os melhores serviços, encama perfeitamente o falo para ela, e assim se vê mantido na posição de assujeito. Ele é assujeitado, e essa é toda a fonte de sua angústia e sua fobia


Existe um problema, na medida em que a posição do pai é posta em dúvida pelo fato de não ser sua palavra que serve de lei para a mãe. Mas não é só isso - parece que, no caso do Pequeno Hans, o que deveria produzir-se no terceiro tempo fi ca faltando. Foi por essa razão que assinalei, no ano passado, que o desfecho do complexo de Édipo, no caso do Pequeno Hans, foi desfigurado. Apesar de o menino haver saído dele graças à sua fobia, sua vida amorosa fi cou comple-


tamente marcada pelo estilo imaginário cujos prolongamentos apontei no caso de Leonardo da Vinci.


A terceira etapa é tão importante quanto a segunda, pois é dela que depende a saída do complexo de Édipo. O falo, o pai atestou dá-lo em sua condição e apenas em sua condição de portador ou de suporte, diria eu, da lei. E dele que depende a posse ou não desse falo pelo sujeito mater n o. Na medida em que a etapa do segundo tempo é atravessada, é preciso então, no terceiro tempo, que aquilo que o pai prometeu seja mantido. Ele pode dar ou recusar, posto que o tem, mas o fato de que ele, o pai, tem o falo, disso ele tem que dar provas. É por intervir no terceiro tempo como aquele que tem o falo, e não que o é, que se pode produzir a báscula que reinstaura a instância do falo como objeto desejado da mãe, e não mais apenas como objeto do qual o pai pode privar.


O terceiro tempo é este: o pai pode dar à mãe o que ela deseja, e pode dar porque o possui. Aqui intervém, portanto, a existência da potência no sentido genital da palavra - digamos que o pai é um pai potente. Por causa disso, a relação da mãe com o pai tor n a a passar para o plano real.


Em primeiro lugar, a instância pater n a se introduz de uma forma velada, ou que ainda não aparece. Isso não impede que o pai exista na realidade mundana, ou seja, no mundo, em virtude de neste reinar a lei do símbolo. Por causa disso, a questão do falo já está colocada em algum lugar da mãe, onde a criança tem de situá-la.
Em segundo lugar, o pai se afirma em sua presença privadora, como aquele que é o suporte da lei, e isso já não é feito de maneira velada, porém de um modo mediado pela mãe, que é quem o instaura como aquele que lhe faz a lei.
Em terceiro lugar, o pai se revela como aquele que tem. É a saída do complexo de Édipo. Essa saída é favorável na medida em que a identif i cação com o pai é feita nesse terceiro tempo, no qual ele intervém como aquele que tem o falo. Essa identificação chama-se Ideal do eu.


No terceiro tempo, portanto, o pai intervém como real e potente.


Não obstante, se o que Freud articulou tem algum sentido, a criança detém consigo todas as condições de se servir delas no futuro. A metáfora paterna desempenha nisso um papel que é exatamente o que poderíamos esperar de uma metáfora - leva à instituição de alguma coisa que é da ordem do significante, que fica guardada de reserva, e cuja significação se desenvolverá mais tarde.
O menino tem todo o direito de ser homem, e o que lhe possa ser contestado, mais tarde, no momento da puberdade, deverá ser rela­ cionado a alguma coisa que não tenha cumprido completamente a identificação metafórica com a imagem do pai, na medida em que essa identificação se houver constituído através desses três tempos.


Ressalto-lhes que isso quer dizer que, na medida em que é viril, um homem é sempre mais ou menos sua própria metáfora. É isso, aliás, que coloca sobre o termo virilidade a sombra de ridículo que, enfim, convém destacar.


Também lhes saliento que o desfecho do complexo de Édipo, como todos sabem, é diferente na mulher. Para ela, com efeito, essa terceira etapa, como sublinha Freud - leiam seu artigo sobre o declínio do Édipo -, é muito mais simples. Ela não tem de fazer essa identif i cação nem guardar esse título de direito à virilidade. Ela, a mulher, sabe onde ele está, sabe onde deve ir buscá-lo, o que é do lado do pai, e vai em direção àquele que o tem.


Isso também indica por que uma feminilidade, uma feminilidade verdadeira, tem sempre o toque de uma dimensão de álibi. Nas ver­ dadeiras mulheres há sempre algo meio extraviado


É nessa medida que o terceiro tempo do complexo de Édipo pode ser transposto, isto é, a etapa da identif i cação, na qual se trata de o menino se identificar com o pai como possuidor do pênis, e de a me­ nina reconhecer o homem como aquele que o possui.


isso implicaria uma enormidade de questões, e não posso dizer tudo de uma vez.


As razões dos psicólogos que projetam as relações individuais no campo inter-humano, ou interpsicológico, ou social, ou nas tensões dos grupos, eles que tentem inscrever isso em seus esquemas, se puderem


Do mesmo modo, os sociólogos deverão levar em conta relações estruturais que nisso constituem nosso deno­ minador comum, pela simples razão, que é a raiz derradeira, de que a existência mesma do complexo de Édipo é socialmente injustificável, isto é, não pode ser fundamentada em nenhuma finalidade social.


Nem por isso se deixa de continuar a fazer menção a ele em termos que é espantoso que não acarretem uma insatisfação maior no público.


Temos de fazê-lo intervir tanto no nível de uma perversão que chamarei de primária, no plano imaginário, quanto no de uma per­ versão da qual talvez falemos um pouco mais hoje, e que está intimamente ligada à conclusão do complexo de Édipo, a homosse­ xualidade.


é diferente desejar alguma coisa ou desejar o desejo de um sujeito. O que cabe compreender é que esse desejo de desejo implica que estejamos lidando com o objeto primordial que é a mãe, com efeito, e que a tenhamos constituído de tal maneira que seu desejo possa ser desejado por um outro desejo, o do filho, nomeadamente.


É necessário e suficiente que o .Eu. latente no discurso da criança venha aqui, em D, constituir-se no nível do Outro que é a mãe -que o .Eu. da mãe tome-se o Outro da criança, que o que circula no nível da mãe em D, na medida em que ela mesma articula o objeto de seu desejo, venha em M cumprir sua função de mensagem para a criança, o que supõe que, no fi nal das contas, esta renuncie momen­ taneamente a seja lá o que for que é sua fala própria, mas não há dif i culdade nisso, porque sua fala própria, nesse momento, ainda está basicamente em formação. A criança, portanto, recebe em M a mensagem bruta do desejo da mãe, ao passo que, abaixo, no nível metonímico em relação ao que a mãe diz, efetua-se sua identificação com o objeto dela.


Essa mensagem não é simplesmente o Não te deitarás com tua mãe, já nessa época dirigido à criança, mas um Não reintegrarás teu produto, que é endereçado à mãe


O Presidente Schreber distingue ele próprio muito bem duas ordens de coisas.
Primeiro, existem as vozes que falam na língua fundamental e cujo traço característico é ensinar o código ao sujeito at r avés dessa própria fala. As mensagens que ele recebe na língua fundamental, feitas de palavras que, neológicas ou não, continuam a ser palavras,


à sua maneira, consistem em ensinar ao sujeito o que elas são num novo código, aquele que lhe repete literalmente um novo mundo, um universo significante. Em outras palavras, uma primeira série de alucinações é feita de mensagens sobre um neocódigo, que se apresenta como proveniente do Outro. Isso é o que há de mais terrivelmente alucinatório.


Por outro lado, há uma outra forma de mensagem, a mensagem interrompida. Vocês estarão lembrados desses pedacinhos de frases -Ele deve, especialmente … , Agora, quero … etc. São começos de ordens e, em alguns casos, até verdadeiros axiomas -Acabar uma coisa quando se começou, e assim por diante. Em suma, essas mensagens se apresentam como mensagens puras, ordens ou ordens interrompidas, como puras forças de indução no sujeito, e são perfei­ tamente localizáveis dos dois lados, mensagem e código, como dis­ sociadas.
É nisso que se resume a intervenção do discurso paterno quando é abolido desde a origem, quando nunca é integrado na vida do sujeito, aquilo que produz a coerência do discurso, a saber, a autossanção mediante a qual, havendo concluído seu discurso, o pai retoma a ele e o sanciona como lei.


Por intermédio do dom ou da permissão concedidos à mãe, ele afinal consegue isto: que lhe seja permitido ter um pênis para mais tarde. Aí está o que é efetivamente realizado pela fase de declínio do Édipo - ele realmente carrega, como dissemos da última vez, o título de posse no bolso.


Há algo de abstrato, e, contudo, de dialético, na relação dos dois tempos de que acabo de lhes falar, aquele em que o pai intervém como proibidor e privador, e aquele em que intervém como permissivo e doador -doador no nível da mãe. Podem acontecer outras coisas e, para examiná-las, devemos agora colocar-nos no nível da mãe e nos interrogarmos novamente sobre o paradoxo representado pelo caráter central do objeto fálico como imaginário.


Elucidado isso, falemos agora dos homossexuais


Fala-se dos homossexuais. Trata-se dos homossexuais. Não se curam os homossexuais. E o mais impressionante é que não são curados, a despeito de serem absolutamente curáveis.
Se há uma coisa que se destaca das observações da maneira mais clara, é que a homossexualidade masculina - a outra também, mas hoje vamos limitar-nos ao homem, por razões de clareza - é uma inversão quanto ao objeto, que se estrutura no nível de um Édipo pleno e acabado. Mais exatamente, mesmo realizando a terceira etapa de que falávamos há pouco, o homossexual a modifica muito sensi­ velmente.


O homossexual, com efeito, desde que lhe sejam oferecidos os meios e a facilidade para isso, agarra-se extremamente à sua posição de homossexual, e suas relações com o objeto feminino, muito longe de serem abolidas, são, ao contrário, profundamente estruturadas.


Creio que somente essa maneira de esquematizar o problema permite apontar de onde provém a dificuldade de abalar sua posição e, mais do que isso, apontar por que, uma vez deslocada esta, a análise costuma fracassar. Não é em razão de uma impossibilidade inter n a dessa posição, mas em virtude de que toda sorte de condições é exigível e de que é preciso caminhar pelos desvios por onde sua posição veio a se tomar preciosa e primordial para ele.
Há um certo número de traços que podemos assinalar no homos­ sexual, a começar por uma relação profunda e perpétua com a mãe.
A mãe nos é apresentada, segundo a média dos casos, como tendo no casal parental uma função diretiva, eminente, e como havendo cuidado mais do fi lho que do pai. Também se costuma dizer, e isso já é outra coisa, que ela teria cuidado do fi lho de maneira muito castradora, que teria tomado um cuidado enorme, muito minucioso e muito prolongado com sua educação. Ninguém parece desconfiar que essas coisas não vão, todas elas, no mesmo sentido. É preciso acres­ centar alguns pequenos elos suplementares, para chegar a supor que o efeito de uma intervenção tão castradora teria como resultado, no filho, uma supervalorização do objeto, sob a forma geral como esta costuma se apresentar no homossexual, de tal sorte que nenhum parceiro passível de lhe despertar o interesse pode ser privado desse objeto.
Não quero levá-los a se impacientar, nem dar a impressão de lhes estar propondo adivinhações. Creio que a chave do problema concer­ nente ao homossexual é esta: se o homossexual, em todas as suas nuances, atribui um valor preponderante ao bendito objeto, a ponto de fazer dele uma característica absolutamente exigível do parceiro sexual, é na medida em que, de alguma forma, a mãe dita a lei ao pai, no sentido como lhes ensinei a distingui-lo.
Eu lhes disse que o pai intervém na dialética edipiana do desejo por ditar a lei à mãe. Aqui, o que está em pauta, e que pode revestir-se de formas diversas, sempre se resume nisto: é a mãe que mostra ter sido a lei para o pai num momento decisivo. Isso quer dizer, muito precisamente, que, no momento em que a intervenção proibidora do pai deveria ter introduzido o sujeito na fase de dissolução de sua relação com o objeto do desejo da mãe, e cortado pela raiz qualquer possibilidade de ele se identificar com o falo, o sujeito encontra na estrutura da mãe, ao contrário, o suporte, o reforço que faz com que essa crise não ocorra. No momento ideal, no tempo dialético em que a mãe deveria ser apreendida como privada do adjeto, de tal modo que o sujeito literalmente não soubesse mais para que santo apelar a


esse respeito, ele depara, ao contrário, com a segurança dela. Isso permite aguentar o tranco perfeitamente, por ele ter experimentado que é a mãe que é a chave da situação, e que ela não se deixa privar nem despojar. Em outras palavras, o pai pode continuar a dizer o que quiser, que isso para eles não fede nem cheira.


Há nisso os dois tempos, isto é, a proibição, mas vê-se também que essa proibição fracassou, ou, em outras palavras, que foi a mãe quem acabou ditando a lei.


Em particular, nos casos em que o pai ama excessivamente a mãe, nos quais parece, por seu amor, ser demasia­ damente dependente dela, o resultado é exatamente o mesmo.


nos casos em que o pai é apaixonado demais pela mãe, ele fica, de fato, na mesma posição daquele para quem a mãe dita a lei.


Em particular, por trás da relação tensa com a mãe - muito comumente marcada por toda sorte de acusações, de queixas, manifestações agressivas como se costuma dizer -, que constitui o texto da análise de um homossexual, a presença do pai como rival, não, em absoluto, no sentido do Édipo invertido, mas do Édipo normal, é revelada da maneira mais clara.
Nesse caso, contentamo-nos em dizer que a agressividade contra o pai foi transferida para a mãe, o que não fica muito claro, mas pelo


menos tem a vantagem de aderir aos fatos. O que se trata de saber é por que isso acontece.
Acontece porque, na situação crítica em que o pai era efetivamente uma ameaça para ele, o filho encontrou uma solução, aquela que consistiu na identif i cação representada pela homologia desses dois triângulos.


O sujeito considerou que a maneira certa de aguentar o tranco era identificar-se com a mãe, porque esta, por sua vez, não se deixava abalar. Desse modo, é na posição da mãe assim definida que ele se encontra.
Por um lado, ao lidar com um parceiro que é um substituto do personagem pater n o, trata-se, para ele, como frequentemente aparece nas fantasias e nos sonhos dos homossexuais, de desarmá-lo, humi­ lhá-lo, ou até, de um modo perfeitamente claro em alguns, de inca­ pacitar esse personagem substituto do pai de se impor perante uma mulher ou as mulheres.
Por outro lado, a exigência do homossexual de encontrar em seu parceiro o órgão peniano corresponde precisamente a que, na posição primitiva, aquela ocupada pela mãe que dita a lei ao pai, o que é questionado - não resolvido, mas posto em questão - é saber se, na verdade, o pai tem ou não tem, e é exatamente isso que é exigido pelo homossexual a seu parceiro, acima de qualquer outra coisa, e de um modo preponderante em relação às outras coisas. Depois se verá


o que terá de ser feito com isso, mas trata-se, antes de mais nada, de ele mostrar que tem.


Em todos os casos, na medida em que o pai se mostra verdadei­ ramente apaixonado pela mãe, ele fica sob a suspeita de não ter, e é sob esse ângulo que o mecanismo entra em jogo. Observo-lhes, a esse respeito, que as verdades nunca são completamente obscuras nem desconhecidas - quando não articuladas, pelo menos são pressentidas.
Não sei se vocês notaram que esse tema melindroso nunca é abordado pelos analistas, embora seja pelo menos tão interessante saber se o pai amava a mãe quanto se a mãe amava o pai. A questão é sempre colocada nesse sentido - o filho teve uma mãe fálica, castradora e o que mais vocês quiserem, que tinha em relação ao pai uma atitude autoritária, desamor, desrespeito etc. -, mas é muito curioso ver que nunca enfatizamos a relação do pai com a mãe. Não sabemos muito bem o que pensar disso e, em suma, não nos parece possível dizer alguma coisa realmente normativa a esse respeito. Por isso, deixamos cuidadosamente de lado, pelo menos até hoje, esse aspecto do pro­ blema, ao qual é muito provável que eu tenha de voltar.


Há também uma coisa que aparece muito frequentemente, e que não é dos paradoxos menos significativos da análise dos homossexuais. À primeira vista, parece paradoxal, em relação à exigência do pênis no parceiro, que eles tenham um medo pavoroso de ver o órgão da mulher, porque, segundo nos dizem, isso lhes sugere ideias de castração. Talvez seja verdade, mas não da maneira que se supõe, pois o que os paralisa diante do órgão da mulher é precisamente a suposição, em muitos casos, de que ele ingeriu o falo do pai, e o que é temido na penetração é justamente o encontro com esse falo.


Há sonhos - vou citar-lhes alguns - bem registrados na litera­ tura, e que também são encontrados em minha prática, que evidenciam da maneira mais clara que o que ocasionalmente emerge, no possível encontro com uma vagina feminina, é um falo que se desenvolve como tal e que representa qualquer coisa de insuperável, diante da qual não somente o sujeito tem de se deter, mas é também invadido por toda sorte de temores. Isso confere ao perigo da vagina um sentido inteiramente diferente daquele que se julgou dever colocar na categoria da vagina dentada, que também existe. Trata-se da vagina temida por conter o falo hostil, o falo paterno, o falo simultaneamente fantasístico e absorvido pela mãe, e cuja verdadeira potência ela detém no órgão feminino.


Mesmo havendo as mais estreitas relações com a mãe, a situação só tem importância pela relação com o pai. O que deveria ser a mensagem da lei é justamente o contrário e, ingerido ou não, mostra estar nas mãos da mãe. A mãe detém a chave, porém de um modo muito mais complexo do que o implicado pela noção global e maciça de que ela é a mãe provida de um falo. Se o homossexual se identifica com ela, não é, de modo algum, pura e simplesmente por ela ter ou não ter o adjeto, mas por deter as chaves da situação particular que prevalece na saída do Édipo, onde se julga a questão de saber qual dos dois, afinal de contas, detém o poder. Não um poder qualquer, mas, muito precisamente, o poder do amor, e na medida em que os vínculos complexos da edificação do Édipo, tal como lhes são apre­ sentados aqui, permitem-lhes compreender como a relação com a força da lei repercute, metaforicamente, na relação com o objeto fantasístico que é o falo, como o objeto com o qual, num dado momento, deve fazer-se a identificação do sujeito.


Com efeito, terminei meu último trimestre com o que lhes trouxe a respeito da comédia. Quando lhes disse que a essência da comédia era quando o sujeito retomava toda a questão dialética na mão e dizia, Af i nal, toda essa história dramática, a tragédia, os conflitos entre o pai e a mãe, nada disso equivale ao amor, e agora vamo-nos divertir, entremos na orgia, façamos cessarem todos os conf l itos, af i nal, isso tudo foi feito para o homem, isso não foi muito bem ingerido. Fiquei bastante espantado por haver surpreendido ou até escandalizado al­ gumas pessoas. Vou fazer-lhes uma conf i dência: isso está em Hegel.


Na perspectiva kleiniana, que é a que estou designando neste momento, toda a aprendizagem, por assim dizer, da realidade pelo sujeito é primordialmente preparada e sustentada pela constituição


essencialmente alucinatória e fantasística dos primeiros objetos, clas­ sificados como objetos bons e maus, na medida em que eles fi xam uma primeira relação primordial que, na sequência da vida do sujeito, for n ecerá os tipos principais de seus modos de relação com a realidade.
Chegamos, assim, à ideia de que o mundo do sujeito é construído por uma relação fundamentalmente irreal entre ele e objetos que não passam do reflexo de suas pulsões fundamentais.


Suponhamos que o objeto matemo chegue na hora exata para satisfazer a necessidade. Mal a criança começa a reagir para ter o seio, que a mãe o ofereça a ela. Winnicott detém-se, com justa razão, e levanta o seguinte problema: o que permite à criança, nessas condições, estabelecer uma distinção entre a satisfação alucinatória de seu desejo e a realidade? Em outras palavras, com esse ponto de partida, chegamos estritamente à seguinte equação: na origem, a alucinação é absolutamente impossível de distinguir do desejo com­ pleto. O paradoxo dessa confusão não tem como deixar de impres­ sionar.


Ela não sonha simplesmente com o que atenderia a uma necessidade, mas com o que se apresenta à maneira de um banquete, ultrapassando os limites do objeto natural da satisfação da necessidade.


As alucinações são fenômenos estruturados no nível do signif i cante. Não podemos, nem sequer por um instante, pensar na organização dessas alucinações sem ver que a primeira coisa a ser sublinhada nesse fenômeno é que ele constitui um fenômeno de significante.


satisfação fundamentalmente irreal do desejo, o que caracteriza a sa­ tisfação alucinatória do desejo é que ela se propõe no campo do significante e implica, como tal, um certo lugar do Outro.


À sra. Melanie Klein podemos perdoar tudo, porque ela é uma mulher de talento, mas, em seus alunos


Em que intervém ele? Nessa espécie de busca tateante do sujeito, que, sem tal intervenção, acabaria - e acaba, em alguns casos -numa relação exclusiva com a mãe. Essa relação exclusiva não é uma pura e simples dependência, mas se manifesta em toda sorte de perversões por uma certa relação essencial com o falo, quer o sujeito o assuma sob diversas formas, quer faça dele seu fetiche, quer, ainda, encontremo-nos, nesse ponto, no nível do que podemos chamar de raiz primitiva da relação perversa com a mãe.


É realmente preciso alguém ter a cabeça sabe-se lá onde para se contentar, por exemplo, com termos como masoquismo e sadismo, o que fornece toda sorte de considerações admiráveis sobre as etapas, os instintos, e sobre o fato de existir sabe-se lá que necessidade motora agressiva, para que se consiga chegar, simplesmente, ao objetivo do intercurso sexual genital. Mas, afinal, por que, nesse sadismo e nesse masoquismo, o fato de ser surrado - há outras maneiras de exercer o sadismo e o masoquismo - com uma bengala, muito precisamente, ou com alguma coisa análoga, desempenha um papel essencial? Por que minimizar a importância, na sexualidade humana, do instrumento a que se costuma chamar de chicote, de maneira mais ou menos elidida, simbólica, generalizada? E, no entanto, aí está uma coisa que merece ser considerada.


Ein Kind wird geschlagen


A perversão, portanto, não deve ser classificada como uma cate­ goria do instinto, de nossas tendências, mas deve ser articulada, precisamente, em seus detalhes, em seu material, e, para dizer a palavra exata, em seu significante. Toda vez, aliás, que vocês lidam com uma perversão, é um desconhecimento não ver quão fundamentalmente ligada ela está a uma trama de fabulação que é sempre passível de se transformar, de se modificar, de se desenvolver, de se enriquecer.
Em alguns casos, a experiência permite ver que a perversão liga-se quimicamente, da maneira mais estreita, ao aparecimento, ao desapa­ recimento, a todo o movimento compensatório de uma fobia, a qual, por sua vez, evidentemente mostra um direito e um avesso, mas num sentido bem diferente, no sentido de dois sistemas articulados se comporem e se compensarem, e se alternarem um com o outro


Ernest Jones, “The Phallic Phase”


Hanns Sachs, ” Genese der Perversion”


” Perversion and Neurosis” , de Otto Rank


Todo o artigo de Hanns Sachs sobre a gênese das perversões serve para mostrar que, em toda formação dita perversa, seja ela qual for, há exatamente a mesma estrutura de compromisso, de elusão, de dialética do recalcado e de retor n o do recalcado que há na neurose. Essa é a essência desse artigo notável, e ele for n ece exemplos absolutamente convincentes. Há sempre, na perversão, al­ guma coisa que o sujeito não quer reconhecer, com o que esse quer comporta em nossa linguagem - o que o sujeito não quer reconhecer só é concebível como estando articulado nela, mas, apesar disso, não somente desconhecido por ele, como também recalcado, por razões essenciais de articulação.


na perversão dá-se exatamente a mesma coisa.
Eis que, em 1923, depois do artigo de Freud, Sachs e todos os psicanalistas perceberam que, examinada de perto, ela comportava exatamente os mesmos mecanismos de elisão dos termos fundamen­ tais, isto é, edipianos, que encontramos na análise das neuroses.


Se, apesar disso, existe uma diferença, ela merece ser discernida muito de perto. Não podemos contentar-nos, de modo algum, com uma oposição sumária como a que consistiria em dizer que, na neurose, a pulsão é evitada, ao passo que, na perversão, ela se declara em sua nudez. A pulsão aparece nela, mas nunca aparece senão parcialmente.
Aparece em alguma coisa que, em relação ao instinto, é um elemento desligado, um signo propriamente dito, e, podemos até chegar a dizê-lo, um signif i cante do instinto


A constância de determinado elemento, através das trans­ formações que podem ser mostradas, no curso da vida de um sujeito, pela evolução de sua perversão - ponto no qual Sachs também insiste -, é apropriada para sublinhar a necessidade de admiti-lo não apenas como um elemento primordial, derradeiro, irredutível, cujo lugar devemos discernir na economia subjetiva, mas também como um elemento significante da perversão.


1924, “O problema econômico do masoquismo”


O pai recusa, nega seu amor à criança espancada, irmãozinho ou irmãzinha.
É por haver uma denúncia da relação de amor e humilhação que esse sujeito é visado em sua existência de sujeito. Ele é objeto de uma sevícia, e essa sevícia consiste em negá-lo como sujeito, em reduzir a nada sua existência de desejante, em reduzi-lo a um estado que tende a aboli-lo como sujeito. Meu pai não o( a) ama, eis o sentido da fantasia primitiva, e é isso que dá prazer ao sujeito - o outro não é amado, ou seja, não é estabelecido na relação propriamente simbó­ lica. É por esse meio que a intervenção do pai assume seu valor primordial para o sujeito, aquele do qual dependerá tudo o que vem depois.


Essa fantasia arcaica, portanto, nasce de saída numa relação triangular, que não se estabelece entre o sujeito, a mãe e o fi lho, mas entre o sujeito, o irmãozinho ou irmãzinha e o pai. Estamos antes do Édipo, e mesmo assim o pai presente.


Ao passo que esse primeiro tempo da fantasia, o mais arcaico, é reencontrado pelo sujeito em análise, o segundo, ao contrário, nunca o é, e tem de ser reconstruído.


Esse segundo tempo está ligado ao Édipo como tal. Tem o sentido de uma relação privilegiada da menina com o pai - é ela que é espancada. Freud admite, assim, que essa fantasia reconstruída pode indicar o retorno do desejo edipiano na menina, o de ser objeto do desejo do pai, com o que isso comporta de culpa, exigindo que ela seja espancada


Num terceiro tempo, e depois da saída do Édipo, não resta outra coisa da fantasia senão um esquema geral. Introduz-se uma nova transformação, que é dupla. A figura do pai é ultrapassada, transposta, remetida à forma geral de um personagem na posição de bater, onipotente e despótico, enquanto o próprio sujeito é apresentado sob a forma das crianças multiplicadas, que já nem sequer são de um sexo preciso, mas formam uma espécie de série neutra.
Essa forma derradeira da fantasia, na qual alguma coisa é mantida, fi xada, memorizada, diríamos, permanece, para o sujeito, investida da propriedade de constituir a imagem privilegiada na qual o que ele puder experimentar de satisfações genitais irá encontrar seu apoio.


o falo entra em jogo no sistema significante a partir do momento em que o sujeito tem de simbolizar, em oposição ao significante, o significado como tal, isto é, a significação.


O significante do significado em geral é o falo.


quando, na escola, vê diante de si uma criança espancada, ela não acha isso nem um pouco engraçado, diz Freud, fiando-se no texto de sua experiência com os sujeitos de quem extraiu a história dessa fantasia. Essa cena inspira na criança alguma coisa da ordem de umaAblehnung- corrijo a tradução -, de uma aversão, um desviar de olhos. O sujeito é obrigado a suportá-la, mas não tem nada a ver com isso, mantém-se a distância. O sujeito está muito longe de participar do que realmente acontece quando é confrontado com uma cena efetiva de fustigação.
E aliás, como indica Freud com muita precisão, o próprio prazer dessa fantasia está manifestamente ligado a seu caráter pouco sério, inope­ rante. A fustigação não atinge a integridade real e física do sujeito.
É justamente seu caráter simbólico que é erotizado como tal, e o é desde a origem.


A introdução radical do signif i cante comporta dois elementos distintos. Existem a mensagem e sua signif i cação - o sujeito recebe a notícia de que o pequeno rival é uma criança espancada, ou seja, um nada absoluto, que a gente pode mandar às favas. Há também um significante que é preciso isolar como tal, qual seja, aquele com que operamos, o instrumento.
O caráter fundamental da fantasia masoquista, tal como efetiva­ mente existe no sujeito - e não numa reconstrução modelar ou ideal qualquer da evolução dos instintos -, é a existência do chicote. É isso que, em si mesmo, merece ser por nós acentuado. Estamos lidando com um significante que merece ter um lugar privilegiado na série de nossos hieróglifos, antes de mais nada por uma simples razão, a de que o hieróglifo correspondente àquele que segura o chicote designa desde sempre o diretor, o governador, o mestre/senhor. Trata-se de não perder de vista que isso existe e constitui aquilo com que lidamos.
A mesma duplicidade é encontrada no segundo tempo. Só que a mensagem de que se trata, Meu pai me bate, não chega ao sujeito ­ é assim que é preciso entender o que Freud diz. A mensagem, que inicialmente quis dizer O rival não existe, não é nada em absoluto, agora quer dizer: Tu existes, e é até amado. É isso que, no segundo tempo, serve de mensagem, sob uma forma regressiva ou recalcada, não faz diferença. E é uma mensagem que não chega.


Existe a mensagem, portanto, aquela que não chega ao lugar do sujeito. Em contrapartida, a única coisa que persiste é o material do significante, esse objeto, o chicote, que permanece como um signo


até o fim, a ponto de se tomar o pivô e, diria eu, quase o modelo da relação com o desejo do Outro.
Com efeito, o caráter de generalidade da fantasia última, aquela que fica, é muito bem indicado pela multiplicação indefinida dos sujeitos. Ele evidencia a relação com o outro, os outros, os pequenos outros, o a minúsculo como libidinal, e significa que os seres humanos, como tais, estão todos sujeitos ao jugo de alguém. Entrar no mundo do desejo é, para o ser humano, suportar, logo de saída, a lei imposta por esse algo que existe mais-além, a lei da Schlag - o fato de o chamarmos aqui de pai já não tem importância, não vem ao caso. É assim que, num determinado sujeito, que entra na história por vias particulares, define-se uma certa linha de evolução. A função da fantasia terminal é manifestar uma relação essencial do sujeito com o significante.


Em todo caso, desde que admitamos que o princípio de prazer está em retornar à morte, o prazer efetivo, aquele com que lidamos concretamente, exige uma outra ordem de explicações. É preciso que alguma coisa da vida faça os sujeitos acreditarem, por assim dizer, que é para o prazer deles que eles existem. Voltamos, assim, à maior das banalidades filosóficas, ou seja, a de que o véu de Maia é que nos conservaria vivos, graças ao fato de nos engambelar. Afora isso, a possibilidade de atingirmos, quer o prazer, quer diferentes prazeres, fazendo toda sorte de desvios, repousaria no princípio de realidade.
Seria esse o mais-além do princípio de prazer.


o que Freud nos desvenda como o para-além do princípio de prazer é que talvez haja, com efeito, uma aspiração última ao repouso e à morte eterna, mas, em nossa experiência, e esse é todo o sentido de meu segundo ano de seminário, deparamos com o caráter específico da reação terapêutica negativa, sob a forma do irresistível pendor para o suicídio que se faz reconhecer nas derradeiras resistências com que lidamos nos sujeitos mais ou menos caracterizados pelo fato de terem sido filhos não desejados. À medida mesma que se articula melhor para eles aquilo que deve fazer com que se aproximem de sua história de sujeitos, eles se recusam cada vez mais a entrar no jogo. Querem sair dele, literalmente. Não aceitam ser aquilo que são, não querem essa cadeia significante na qual só foram aceitos com pesar por sua mãe.


O que se evidencia aqui para nós, analistas, nesses casos, é exatamente o que se encontra nos outros, ou seja, a presença de um desejo que se articula, e que se articula não somente como desejo de reconhecimento, mas como reconhecimento de um desejo. O signif i ­ cante é a dimensão essencial disso. Quanto mais o sujeito se af i rma, com a ajuda do significante, como querendo sair da cadeia significante, e quanto mais entra e se integra nela, mais ele próprio se tor n a um signo dessa cadeia. Quando abole a si mesmo, tor n a-se mais signo do que nunca. A razão disso é simples: é precisamente a partir do momento em que o sujeito morre que ele se torna, para os outros, um signo eterno, e os suicidas mais que os outros. É por isso mesmo que o suicídio tem uma beleza horrenda, que o faz ser tão terrivelmente condenado pelos homens, e também uma beleza contagiosa, que dá margem àquelas epidemias de suicídio que são o que há de mais real na experiência.


se o retorno à natureza inanimada é efetivamente concebível como o retorno ao nível mais baixo de tensão, ao repouso, nada nos garante que, na redução ao nada de tudo aquilo que se elevou e que seria a vida, também aí, por assim dizer, isso não se mexa, e que não haja, no fundo, a dor de ser. Essa dor, não a estou fazendo surgir, não a estou extrapolando: ela é apontada por Freud como o que devemos considerar como o resíduo último da ligação de Tânatos com Eros. Sem dúvida, Tânatos encontra meios de se libertar através da agressividade motora do sujeito diante daquilo que o cerca, mas resta alguma coisa no interior do sujeito sob a forma dessa dor de ser que, aos olhos de Freud, parece estar ligada à própria existência do ser vivo. Ora, nada prova que essa dor se detenha nos vivos, segundo tudo o que agora sabemos de uma natureza que é animada de um outro modo, estagnada, fermentante, fervilhante ou mesmo explosiva, mais ainda do que podíamos imaginar.


Em contrapartida, o que não precisamos imaginar, aquilo em que tocamos diretamente agora é que o sujeito em sua relação com o significante pode, de vez em quando, ao ser solicitado a se constituir no significante, recusar-se a fazê-lo. Ele pode dizer: - Não, eu não serei um elemento da cadeia. É isso, realmente, que constitui o fundo.
Mas aqui, o fundo, o avesso, é exatamente a mesma coisa que o direito. Que faz o sujeito, na verdade, a cada momento em que se recusa, de certo modo, a pagar uma dívida que não contraiu? Não faz outra coisa senão perpetuá-la. Suas recusas sucessivas têm como efeito fazer a cadeia repercutir mais, e ele se descobre sempre mais e mais ligado a essa mesma cadeia. A Absagüngzwang, essa necessidade eter n a de repetir a mesma recusa, é onde Freud nos mostra o último recurso de tudo aquilo que se manifesta do inconsciente sob a forma da reprodução sintomática.


Há sempre, na fantasia masoquista, uma faceta degradante e profanadora, que indica ao mesmo tempo a dimensão do reconhecimento e o modo de relação proibido do sujeito com o sujeito paterno. É isso que constitui o fundo da parte desconhecida da fantasia.


Não é pelo fato de os masoquistas manifestarem, em suas relações com 0 parceiro, certos sinais ou fantasias de uma posição tipicamente femi­ nina que, inversamente, a relação da mulher com o homem é uma relação masoquista. Nas relações entre o homem e a mulher, a ideia de que a mulher é alguém que recebe pancadas pode muito bem ser uma perspectiva de sujeito masculino, na medida em que a posição feminina o afeta. Mas, não basta o sujeito masculino perceber em algumas perspectivas, as suas ou as de sua experiência clínica, uma certa ligação entre a tomada de posição feminina e tal ou qual significante da posição do sujeito, que estaria mais ou menos relacio­ nado com o masoquismo, para que essa seja, de fato, uma posição constitutivamente feminina.


Observei que, até Freud, esse elemento em si sempre fora reduzido e, sob certo aspecto, precocemente elidido. Isso é o que permite dizer que, até Freud, qualquer estudo da economia humana partia mais ou menos de uma preocupação com a moral, com a ética, no sentido de que se tratava menos de estudar o desejo do que, desde logo, reduzi-lo e discipliná-lo. Ora, é com os efeitos do desejo, num sentido muito amplo - o desejo não é um efeito colateral -, que temos, na psicanálise, que lidar.


desvio ou a alienação do desejo no significante


vamos perguntar-nos o que pode signif i car, nessa perspectiva, o fato de o sujeito humano ser capaz de se apropriar das condições que lhe são impostas em seu mundo, como se essas condições fossem feitas para ele, e de se satisfazer com elas.


O leite e o seio transformam-se, posteriormente, quer no esperma, quer no pênis. Desde sempre, os objetos estão, se assim me posso exprimir, significantizados.


o artigo de Joan Riviere intitulado ” A feminilidade como mascarada” .


O sujeito em questão apresentava-se como dotado de uma femi­ nilidade ainda mais notável, em sua assunção aparentemente completa, pelo fato de que toda a sua vida podia, nessa época, muito mais até do que na nossa, parecer manifestar uma assunção de todas as funções masculinas. Em outras palavras, tratava-se de alguém que tinha uma vida profissional perfeitamente independente, elaborada, livre - o que, repito, destacava-se muito mais naquela época do que na nossa -, e que, não obstante, manifestava-se pela assunção correlata, e em grau máximo, de suas funções femininas - tanto sob a forma pública de suas funções de dona de casa quanto em suas relações com o marido, o que mostrava por toda parte a superioridade de qualidades que, em nossa sociedade e em todas as posições sociais, concer n em àquilo que fica forçosamente sob o encargo da mulher, e, num outro registro, concernem muito especialmente ao plano sexual, no qual suas relações com o homem revelavam-se inteiramente satisfatórias quanto ao gozo.


uma relação acabada, madura e feliz


Toda vez, com efeito, que essa mulher dava mostras de sua potência fálica, ela se precipitava numa série de providências, fosse de sedução, fosse até de um processo sacrif i cial - f azer tudo par a os outros -, nisso adotando, aparentemente, as formas mais elevadas da dedicação feminina, como se ela dissesse:

  • Vejam bem, eu não tenho esse f alo, sou mulher, e puramente mulher. Ela se mascarava especialmente em sua postura prof i ssional perante os homens: embora fosse eminentemente qualif i cada, de repente adotava, por uma espécie de evasiva, uma atitude excessiva-

mente modesta ou mesmo ansiosa quanto à qualidade do que havia feito, com isso fazendo, na realidade, todo um jogo de coquetismo, como se exprimiu a sra. Joan Riviere, que lhe servia menos para tranquilizar do que para ludibriar aqueles que pudessem ofender-se com o que se apresentava nela, fundamentalmente, como agressão, como necessidade e gozo com a supremacia como tal, e que se estruturava numa história de rivalidade, inicialmente com a mãe, e, depois, com o pai.


aquilo de que se trata numa análise, na compreensão de uma estrutura subjetiva, é sempre algo que nos mostra o sujeito empenhado num processo de reconhecimento como ta


O destino do sujeito humano está essencialmente ligado a sua relação com seu signo de ser, que é objeto de toda sorte de paixões e que presentifica, nesse processo, a morte. Em sua ligação com esse signo, o sujeito, com efeito, está suficientemente desligado de si mesmo para poder ter com sua própria vida uma relação que é única, ao que parece, na criação - uma relação que constitui a forma derradeira do que chamamos, na análise, de masoquismo, isto é, aquilo mediante o qual o sujeito apreende a dor de existir.


Como existência, o sujeito vê-se constituído desde o início como divisão. Por quê? Porque seu ser tem de se fazer representar alhures, no signo, e o próprio signo está num lugar terceiro. É isso que estrutura o sujeito na decomposição de si mesmo sem a qual nos é impossível fundamentar, de alguma maneira válida, o que se chama inconsciente.


Naturalmente, são sempre as formas mais simples que devem ser trazidas por último.


a mãe, na medida em que é o primeiro objeto simbolizado, já que sua ausência ou sua presença se tomarão, para o sujeito, o signo do desejo ao qual se agarrará o desejo dele próprio, uma vez que fará ou não dele não apenas uma criança satisfeita ou insatisfeita, mas uma criança desejada ou não desejada.


A juventude de André Gide.


a identif i cação com o personagem de Gribouille num conto de Andersen, que vai sendo levado pela correnteza e acaba chegando a um rio distante, transformado num feixe de vegetação


Nesse lugar, onde tinha havido um furo, passou a haver um lugar, porém nada além disso, pois, ao mesmo tempo, Gide recusou-se esse lugar, por não poder aceitá-lo, já que não podia aceitar o desejo do qual foi objeto. Em contrapartida, seu eu, incontestavelmente, não parou de se identif i car para sempre, e sem o saber, com o sujeito do desejo do qual ele se tomou dependente. Gide apaixonou-se para sempre, até o fi m da vida, por aquele menininho que ele fora por um instante nos braços da tia, dessa tia que lhe afagara o pescoço, os ombros e o peito. Sua vida inteira resumiu-se nisso.


Podemos registrar o fato, posto que ele o confessou, - todo o mundo se embasbacou e se escandalizou com isso - de que, já em sua viagem de núpcias e quase que na frente de sua mulher, ele pensava nas supliciantes delícias, como se exprimiu, de acariciar os braços e os ombros dos rapazinhos que encontrava no trem. Essa é uma página que se celebrizou, que faz parte da literatura, e na qual Gide mostra o que permaneceu, para ele, como o ponto privilegiado de toda a fi xação de seu desejo.


Em outras palavras, o que foi subtraído no nível daquilo que para ele se transformou em seu Ideal do eu, ou seja, o desejo do qual ele foi objeto e que não pôde suportar, Gide o assumiu por si mesmo, fi cando para sempre e eter n amente apaixonado pelo mesmo menininho acariciado que ele não quis ser.


A perversão de André Gide não se prende tanto ao fato de ele só poder desejar menininhos, o menininho que ele mesmo fora, i. A perversão de André Gide consiste em que ali, em C, ele só pode constituir-se ao se expressar perpetuamente, ao se submeter à corres­ pondência que é, para ele, o cer n e de sua obra, ao ser aquele que se impõe no lugar ocupado pela prima, aquele cujos pensamentos estão todos voltados para ela, aquele que lhe dá a cada instante, literalmente, tudo aquilo que não tem, porém nada além disso - que se constitui como personalidade nela, por ela e em relação a ela. É isso que o coloca, em relação à prima, numa dependência mortal, que o faz exclamar em algum lugar: -Você não tem como saber o que é o amor de um uranista. É qualquer coisa como um amor embalsamado.


Toda essa projeção de sua própria essência nessa relação é a base de sua vida, o cer n e e a raiz de sua existência de literato, de homem inteiramente inserido no signif i cante, e inteiramente inserido no que comunica a essa mulher. É através disso que ele é coisificado em sua relação inter-humana. Essa mulher não desejada pode ser, para ele, com efeito, objeto de um amor supremo, e quando esse objeto com o qual ele preencheu o vazio do amor sem desejo vem a desaparecer, ele solta aquela exclamação infeliz cujo parentesco indiquei, ontem à noite, com o grito cômico por excelência, o do avarento: -Meu cofrinho. Meu querido cofrinho.


A comédia apresenta-se como o momento em que o sujeito e o homem tentam assumir com a fala uma relação diferente da que há na tragédia. Já não se trata de seu engajamento ou de seu disfarce em exigências contrárias, não se trata apenas de seu problema, mas se trata daquilo em que ele mesmo tem de se articular como aquele que está destinado a absorver a substância e a matéria dessa comunhão, aquele que tira proveito dela, que goza com ela, que consome. A comédia, pode-se dizer, é qualquer coisa como a representação do fi m do banquete comunial a partir do qual a tragédia foi evocada. É o homem, afinal de contas, quem consome tudo o que é presentificado ali de sua substância, de sua car n e comum, e a questão é saber no que isso vai dar.


Aristófanes ensaiou o toque de alvorada que consistiu em dizer que os homens estavam-se desgastando numa guerra sem saída, e que não havia nada como ficarem em casa, bem aquecidos, em companhia de suas mulheres.


a uma parceira cúmplice, que queira, nessa oportunidade, encarregar-se do papel de contracenar com ele.


-Apareceu alguém que tenha vindo pedir para ser o chefe de polícia? E isso jamais acontece.


há gritos, pancadaria, enfim, as pessoas se divertem


O pressuposto mínimo de nosso trabalho é que vocês percebam o que tentamos fazer aqui. O que é, em outras palavras, levá-los sempre ao ponto em que as dificuldades, as contradições e os impasses que são o tecido de sua prática possam aparecer diante de vocês em seu verdadeiro alcance, ainda que vocês se esquivem deles, reportando-se a teorias parciais ou até mesmo praticando escamoteações e desliza­ mentos de sentido nos próprios termos que empregam, os quais são também a sede de todos os álibis.


O importante, com efeito, não é apenas a frustração como tal, ou seja, um mais ou um menos de real que tenha ou não tenha sido dado ao sujeito, mas é aquilo pelo qual o sujeito almejou e identificou o desejo do Outro que é o desejo da mãe. E o importante é fazê-lo reconhecer, em relação ao que é um X de desejo na mãe, de que modo ele foi levado a se tor n ar ou não aquele que atende a esse desejo, a se tor n ar ou não o ser desejado.


o corpo mater n o tor n ou-se o recinto, o habitáculo de tudo o que nele se pode localizar, por projeção, das pulsões da criança, sendo essas mesmas pulsões motivadas pela agressão decorrente de uma decepção fundamental


A função constitutiva do falo, na dialética da introdução do sujeito em sua existência pura e simples e em sua posição sexual, é impossível de deduzir, se não fi zermos dele o signif i cante fundamental pelo qual o desejo do sujeito tem que se fazer reconhecer como tal, quer se trate do homem, quer se trate da mulher.


A menina apresenta-se no complexo de Édipo, inicialmente, em sua relação com a mãe, e é o fracasso dessa relação com a mãe que lhe descortina a relação com o pai, com o que depois será normatizado pela equivalência entre o pênis, que ela jamais possuirá, e o filho que ela de fato poderá ter, e que poderá dar em seu lugar.


Early Female Sexuality


Early Development of Female Sexuality


Por quê? Muito precisamente, porque há sempre como terceiro, até na relação mais primitiva, a da criança com a mãe, o falo como objeto do desejo da mãe, o que instaura uma barreira intransponível à satisfação do desejo da criança, o qual consiste em ela mesma ser o objeto exclusivo do desejo da mãe. E é isso que a impele a uma série de soluções, que serão sempre de redução ou de identificação dessa tríade. Sendo preciso que a mãe seja fálica, ou que o falo seja colocado no lugar da mãe, teremos o fetichismo. Sendo preciso que ela realize em si mesma, intimamente, a junção do falo com a mãe, sem a qual nada nela poderá satisfazer-se, teremos o travestismo. Em suma, é na medida em que a criança - isto é, o ser que entra com necessidades naturais nessa dialética - não renuncia a seu objeto que seu desejo não consegue satisfazer-se.


a saída do Édipo, do qual, após o recalque do desejo edipiano, o sujeito sai renovado, e provido de quê? A resposta é: de um Ideal do eu.


o sentido que podemos dar à imagem do eu, por mais exaltada que a suponhamos, ao fazermos dela uma imagem ideal com a qual o sujeito se identifica, modelo bem-sucedido, por assim dizer, dele mesmo, com o qual ele se confunde e no qual se assegura de sua inteireza.


Freud tende a colocar todas as depressões no registro não do Ideal do eu, mas de uma relação vacilante, conflitiva, entre o eu e o Ideal do eu.


Admitamos que tudo o que acontece no registro depressivo, ou, ao contrário, no da exaltação, deve ser tomado sob o prisma de uma franca hostilidade entre as duas instâncias, qualquer que seja a instância da qual parte a declaração de hostilidades, quer seja o eu que se insurge, quer seja o Ideal do eu que se torna severo demais, com as consequências e contragolpes do desequilíbrio dessa relação desme­ dida. A verdade é que o Ideal do eu nos propõe seu problema.


seu Ideal do eu lhe pertence, é, para ele, algo de adquirido


Digamos que elas se confundem, em parte, mas que o Ideal do eu desempenha uma função mais tipificadora no desejo do sujeito.


Helene Deutsch e Karen Horney


Helene Deutsch intitulado “The significance o f masochism in the mental life of women”


Karen Hor n ey, de janeiro de 1924, no volume V, intitulado ” On the genesis o f the castration-complex in women”


ela observa, na mulher


A identificação com o pai que então se produz articula-se como um problema, ou até um mistério. O próprio Freud observou que a transformação do amor em identificação, cuja possibilidade se mani­ festa por excelência aqui, não acontece por si só


Não tomemos coisas insuficien­ temente formuladas por coisas suficientemente esclarecedoras. É ar­ ticulando-as bem que poderemos avaliar efetivamente o que acontece, e distinguir o que sucede num caso do que sucede em outro.


É isso que constitui o processo de identificação.
É preciso que haja, inicialmente, o elemento libidinal que aponta para um certo objeto como objeto. Esse objeto toma-se, no sujeito, um significante, ocupando o lugar que desde então será chamado de Ideal do eu. O desejo, por outro lado, sofre uma substituição - um outro desejo. surge em seu lugar. Esse outro desejo não vem do nada, não é o nada, ele existia antes, dizia respeito ao terceiro termo, e sai dele transformado.


Que diz uma Helene Deutsch?
Ela nos fala de outra coisa. Ela também nos diz que a fase fálica realmente desempenha o papel afirmado por Freud; o que lhe importa entretanto é seguir sua vicissitude posterior, que é a adoção, pela menina, da posição masoquista que, no dizer dela, é constitutiva da posição feminina. Na medida em que o gozo clitoridiano é proibido à menina, esta passa a extrair sua satisfação de uma posição que já não será, portanto, unicamente passiva, mas uma posição de gozo assegurado na própria privação do gozo clitoridiano que lhe é imposta.


Para Helene Deutsch, a questão da satisfação feminina apresen­ ta-se de uma maneira tão complexa que ela considera que uma mulher, em sua natureza de mulher, pode encontrar uma satisfação completa - completa o bastante para que não apareça nada que se apresente como neurótico ou atípico em seu comportamento, em sua adaptação a suas funções femininas - sem que para isso intervenha, sob nenhuma forma claramente marcada, a satisfação propriamente genital.


Isso está def i nido, mas o que constitui a privação do desejo não é que ele vise alguma coisa real, mas que vise alguma coisa que pode ser demandada. Só pode instaurar-se uma dialética de privação propriamente dita a propósito de algo que o sujeito possa simbolizar. É na medida em que o pênis pater n o pode ser simbolizado e solicitado que se produz o que sucede no nível da identificação de que estamos tratando hoje.


Isso é inteiramente distinto do que intervém no plano da proibição do gozo fálico. O gozo clitoridiano, para chamá-lo por seu nome, pode ser proibido num dado momento da evolução. O que é proibido rejeita o sujeito colocando-o em uma situação na qual ele não encontra mais nada que seja apropriado para significá-lo. É isso que constitui seu caráter doloroso e, na medida em que o eu se encontra nessa posição de rejeição por parte do Ideal do eu, por exemplo, estabelece-se


o estado melancólico


É na medida em que, por parte do Ideal do eu, o próprio sujeito pode descobrir-se, em sua realidade viva, numa situação de exclusão de qualquer significação possível, que se estabelece o estado depressivo como tal.


Isso se produz na identificação com o objeto do desejo, no caso de a menina se identificar com o pai. Esse pai que ela desejou, e que lhe recusou o desejo de sua demanda, surge em seu lugar. A formação do Ideal do eu tem, portanto, um caráter metafórico, e, tal como na metáfora, o que resulta disso é a modificação de um desejo que nada tem a ver com o desejo que está em pauta na constituição do objeto, um desejo que está em outro lugar, aquele que havia ligado a menina a sua mãe.


toda identificação do tipo Ideal do eu vinculava-se ao relacionamento do sujeito com certos signif i cantes, no Outro, aos quais chamei insígnias


é na medida em que uma mulher se identif i ca com o pai que ela dirige ao marido todas as censuras que fazia a sua mãe


máxima de La Rochefoucauld acerca das coisas para as quais não podemos olhar fixamente, o sol e a morte


Observem o que acontece, e o que aconteceu desde as primeiras concepções que Freud teve disso. Havia ali um ponto essencial, pivô, na formação do sujeito, uma coisa estranha, convém dizer, e que até então nunca tinha sido promovida nem articulada. O passo de Freud consistiu em fazer a formação do sujeito girar em torno de uma ameaça precisa, particularizada, paradoxal, arcaica, até provocadora do horror propriamente dito, e que sobrevinha num momento decisivo, patogê­ nico, sem dúvida, mas também normativo. Essa ameaça não estava sozinha, isolada, mas era coerente com a chamada relação edipiana entre o sujeito, o pai e a mãe - o pai servindo, aqui, de portador da ameaça, e a mãe sendo o objeto visado por um desejo, por sua vez, profundamente oculto.


o significante de uma fobia tem trezentas mil significações para o sujeito.


a estreita ligação que existe entre a morte e o aparecimento do significante


Comecemos por esclarecer o que querem dizer aquelas letras ali.
O d minúsculo é o desejo. O $ é o sujeito. O a minúsculo é o pequeno outro, o outro como nosso semelhante, cuja imagem nos retém, nos cativa, nos sustenta, e na medida em que constituímos em tor n o dela aquela primeira ordem de identificações, que lhes defini como a identif i cação narcísica, que é o m minúsculo, o eu.


Essa primeira linha coloca essas letras numa certa relação, que as setas lhes indicam que não pode ser percorrida até o fim em se partindo de cada extremidade, mas que se detém no ponto exato em que a seta diretriz depara com uma outra de sinal oposto.


na tirada espirituosa uma certa relação fundamental do desejo não com o signif i cante como tal, mas com a fala, isto é, com a demanda


O D escrito aqui quer dizer demanda. O A maiúsculo que se segue é o grande Outro, o lugar, a sede, a testemunha a que o sujeito se refere em sua relação com um a minúsculo qualquer, como sendo o lugar da fala.


o s minúsculo, com a mesma signif i cação que ele costuma ter em nossas fórmulas, ou seja, a de significado.


O s minúsculo do A maiúsculo designa o que é expresso no outro, e expresso com a ajuda do significante, ou seja, aquilo que, no Outro, para mim, sujeito, adquire valor de significado, isto é, aquilo que há pouco chamamos de insígnias. É na relação com essas insígnias do Outro que se produz a identif i cação que tem por fr uto e resultado a constituição, no sujeito, do I maiúsculo, que é o Ideal do eu.


O delta é precisamente aquilo sobre o qual nos interrogamos, ou seja, o próprio eixo pelo qual o sujeito humano é colocado numa certa relação com o significante, e isso em sua essência de sujeito, de sujeito total, de sujeito em seu caráter completamente aberto, problemático, enigmático - que esse símbolo exprime.


o S maiúsculo, que, como de hábito, é a letra com que designamos o significante


. , o falo


o sujeito apreende-se como aquele que sofre, capta sua existência de ser vivo como aquele que sofre, isto é, como sendo sujeito do desejo.


O sujeito não satisfaz simples­ mente um desejo, mas goza por desejar, e essa é uma dimensão essencial de seu gozo


Sartre, em O ser e o nada. Aquilo nem sempre é de absoluto rigor filosófico, mas é, certamente, de incontestável talento literário.


Foi por isso que, desde o início, o sr. Jones substituiu o termo complexo de castração pela palavra af ânise, a qual foi buscar no dicionário de grego e a qual, convém dizer, não é uma palavra das mais empregadas pelos autores. Ela significa desaparecimento. De­ saparecimento de quê? Desaparecimento do desejo. É isso que o sujeito temeria no complexo de castração, no dizer do sr. Jones.


Nossas interpretações e as dele


De maneira geral, não foi a análise que descobriu a função do desejo, mas ela nos permitiu perceber a que grau de profundidade é levado o fato de o desejo humano não estar diretamente implicado numa relação pura e simples com o objeto que o satisfaz, mas estar ligado a uma posição assumida pelo sujeito na presença desse obje­ to e a uma posição que ele assume fora de sua relação com o objeto, de tal modo que nada jamais se esgota, pura e simplesmente, na relação com o objeto.


o caráter vagabundo, fugidio, inapreensível do desejo. Ele justamente escapa à síntese do eu, não lhe deixando outra saída senão ser, a todo instante, apenas uma af i rmação ilusória de síntese. Embora seja sempre eu quem desejo, isso em mim só pode ser apreendido na diversidade dos desejos.


Através dessa diversidade fenomenológica, através da contradição, da anomalia, da aporia do desejo, é certo, por outro lado, que se manifesta uma relação mais profunda, que é a relação do sujeito com a vida e, como se costuma dizer, com os instintos. Por se haver situado nesse caminho, a análise nos leva a fazer progressos na situação do sujeito em relação à sua posição de ser vivo. Mas, justamente, a análise nos faz experimentar por quais meios se realizam não apenas os objetivos ou finalidades da vida, mas também, talvez, do que está para-além da vida.


Podemos até acrescentar que as interpretações dele nos impres­ sionam, até certo ponto, por seu caráter enviesado.


Porventura não lhes assinalei mil vezes, a propósito do caso Dora, por exemplo, ou das intervenções dele na análise da jovem homossexual de que falamos longamente aqui, o quanto as interpretações de Freud - ele mesmo o reconheceu - estavam ligadas a seu conhecimento incompleto da psicologia, muito especialmente a dos homossexuais em geral, mas também a dos histéricos? O conhecimento insuficiente que Freud tinha nessa ocasião fez com que, em mais de um caso, suas interpretações se apresentassem com um caráter demasiadamente diretivo, quase forçado e, ao mesmo tempo, precipitado, o que de fato confere pleno valor à expressão interpretação enviesada.


Não obstante, é certo que essas interpretações se apresentavam naquele momento, até certo ponto, como tendo de ser feitas, como as interpretações eficazes para a resolução do sintoma. Que quer dizer isso?


pelo simples fato de lhe dizerem para falar, devia haver em jogo alguma coisa da ordem da verdade.


Hoje em dia, o sujeito já chega à análise com a ideia de que a maturação da personalidade, dos instintos, da relação de objeto, é uma realidade já organizada e normatizada, da qual o analista representa o padrão.


Chamo aqui de sintoma, em seu sentido mais geral, tanto o sintoma mórbido quanto o sonho, ou quanto qualquer coisa analisável. O que chamo de sintoma é aquilo que é analisável.
O sintoma apresenta-se sob uma máscara, apresenta-se de uma forma paradoxal.


são todos os laços de afeição ou até de paixão que ligam aquele que cuida ao que é cuidado


A ideia de máscara significa que o desejo se apresenta sob uma forma ambígua, que justamente não nos permite orientar o sujeito em relação a esse ou aquele objeto da situação. Há um interesse do sujeito na situação como tal, isto é, na relação desejante. É precisamente isso que é exprimido pelo sintoma que aparece, e é isso que chamo de elemento de máscara do sintoma.


a degradação, a Er n iedrigung, da vida amorosa


que não abandonaram o objeto incestuoso - enf i m, que não o abandonaram o bastante, pois, af i nal, aprendemos que 0 sujeito nunca o abandona por completo


a prostituta é o oposto diametral da mãe


O que o sujeito vai buscar na prostituta é o falo de todos os outros homens, é o falo como tal, o falo anônimo


Não se trata, aliás, de um simples obstáculo, mas de um desf i ladeiro essencial, que faz com que seja apenas por intermédio de uma certa posição assumida em relação ao falo - na mulher, como carente dele, e no homem, como ameaçado - que se realiza, necessariamente, aquilo que se apresenta como devendo ser o desfecho, digamos, mais feliz.


o desejo é desejo daquela falta que, no Outro, designa um outro desejo.


se falo da função da fala ou da instância da letra no inconsciente, certamente não é para eliminar o que o desejo é de irredutível e impossível de formular -não de pré-verbal, mas de para-além do verbo


o fato de o desejo não ser articulável não é razão para que ele não seja articulado.


Quero dizer que, em si mesmo, o desejo é articulado, na medida em que está ligado à presença do significante no homem. Isso não significa, entretanto, que ele seja articulável. Justamente por se tratar essencialmente da ligação com o significante, ele nunca é plenamente articulável num caso particular.


Qual é o oposto do riso? O riso comunica, dirige-se àquele que, para-além da presença significada, é o pilar, o recurso do prazer. E a identificação? É o contrário. Não se ri mais. Fica-se sério como um papa, ou como um papai. Faz-se um ar de quem não quer nada, porque aquele que está presente faz uma cara meio impassível, porque, sem dúvida, essa não é a hora de rir. Não é hora de rir porque, nesse momento, as necessidades não têm de ser satisfeitas. O desejo mol­ da-se, como se costuma dizer, naquele que detém o poder de satisfa­ zê-lo, e lhe opõe a resistência da realidade, que talvez não seja, em absoluto, o que dizem que ela é, mas que seguramente se apresenta, aqui, sob uma certa forma e, em suma, desde logo na dialética da demanda.


a máscara constitui-se na insatisfação e por intermédio da demanda recusada


a condição essencial que liga o sujeito a um signif i cante prevalente, privilegiado, que chamamos - não por acaso, mas porque ele é concretamente esse significante - falo.
Veremos que é precisamente nessa etapa que se realiza, paradoxal­ mente, aquilo que permite ao sujeito descobrir-se um através da diversidade das máscaras, mas que também, por outro lado, o toma fundamentalmente dividido, marcado por uma Spaltung essencial entre o que é desejo e o que é máscara.


Citei-lhes alguns artigos como constituindo a verdadeira introdu­ ção na questão da perversão, na medida em que também ela se apresenta como um sintoma, e não como a pura e simples manifestação de um desejo inconsciente


o ser humano tanto se satisfaz com palavras quanto com satisfações mais substan­ ciais, ou, pelo menos, numa proporção sensível, muito ponderável, em relação a estas últimas. Essa é a característica fundamental do que se refere ao que acabo de recordar.


Repito: isso não quer dizer, no entanto, que não haja no animal nenhuma dimensão do Outro com maiúscula, mas apenas que nada se articula deste para ele, efetivamente, como discurso.


Na impossibilidade da satisfação, é com o sujeito capaz de aceder à demanda que o sujeito se identifica


É claro que isso não é simples. Se tudo fosse apenas uma questão de mamãe e papai, é difícil ver como poderíamos dar conta dos fatos com que lidamos.


Spaltung -da hiância entre o desejo e a demanda


Eu sei, vocês se perguntam, toda vez que nos despedimos: -Mas, a final, o que ele está querendo dizer? Têm razão de se fazer essa pergunta, porque, seguramente, isso não se diz assim, não é uma coisa já dada.


Partamos do que é um traço. Um traço é uma marca, não é um signif i cante. A gente sente, no entanto, que pode haver uma relação entre os dois, e, na verdade, o que chamamos de material do signif i ­ cante sempre participa um pouco do caráter evanescente do traço.
Essa até parece ser uma das condições de existência do material significante. No entanto, não é um significante. A marca do pé de Sexta-feira, que Robinson Crusoé descobre durante seu passeio pela ilha, não é um significante. Em contrapartida, supondo-se que ele, Robinson, por uma razão qualquer, apague esse traço, nisso se introduz claramente a dimensão do significante. A partir do momento em que é apagado, em que há algum sentido em apagá-lo, aquilo do qual existe um traço é manifestamente constituído como significado.


O que mais uma vez constatamos aí é que, apesar de existir um texto, apesar do signif i cante se inscrever entre outros significantes, o que resta após o apagamento é o lugar onde se apagou, e é também esse lugar que sustenta a transmissão. A transmissão é algo de essencial nisso, já que é graças a ela que o que acontece na passagem ganha consistência de voz.


As pessoas não parecem deter-se o bastante em que ser anulado, propriamente falando, somente uma única espécie de coisa, diria eu em termos grosseiros, pode sê-lo - é um signif i cante. Na verdade, quando anulamos qualquer outra coisa, seja ela imaginária ou real, por isso mesmo a elevamos ao grau, à qualificação de signif i cante.


o significante tem seu lugar no dado da bateria significante, na medida em que ela constitui um certo sistema de signos disponíveis num discurso atual, concreto - e em que ele pode sempre decair da função que lhe constitui seu lugar, ser arrancado da consideração em constelação que o sistema significante institui ao ser aplicado ao mundo e ao pontuá-lo


A partir daí, ele cai da desconsi­ deração para o rebaixamento .désidération.., onde é marcado preci­ samente por isso, por deixar a desejar.


É unicamente a partir do momento em que pode ser barrado que um significante qualquer tem seu status próprio, ou seja, entra na dimensão que faz com que todo significante seja, em princípio - para distinguir aqui o que quero dizer -, revogável.


Em princípio, todo signif i cante é revogável. Daí resulta que, quanto a tudo o que não é significante, ou seja, em particular quanto ao real, a barra é um dos modos mais certeiros e mais rápidos de elevá-lo à dignidade de significante.


Para isso, não basta nos contentarmos com o clitóris, que, sob tantos aspectos, deixa muito a desejar


Por que, efetivamente, vemos que uma coisa é o modo como fazemos intervir o falo, e outra coisa é a maneira como o pênis, de maneira mais ou menos satisfatória, vem em suplência dele, tanto no sujeito masculino quanto no sujeito feminino? Em que medida o clitóris, nessa ocasião, está implicado no que podemos chamar de funções econômicas do falo?
Observemos o que é o falo na origem. Ele é o phallos.
Vemos este falo atestado pela primeira vez na Antiguidade grega.
Se formos aos textos, em diferentes pontos de Aristófanes, Heródoto, Luciano etc., veremos, primeiro, que o falo de modo algum é idêntico ao órgão como acessório do corpo, prolongamento, membro, órgão em funcionamento. O uso mais predominante da palavra é seu emprego a propósito de um simulacro, de uma insígnia, seja qual for a maneira como ele se apresente - bastão em cujo cimo fi cam pendurados os órgãos viris, iniciação do órgão viril, pedaço de madeira, pedaço de couro, outras variedades em que ele se apresenta. Trata-se de um objeto substituto e, ao mesmo tempo, essa substituição tem uma propriedade muito diferente da substituição no sentido como acabamos de entendê-la, a substituição-signo. Quase podemos dizer que esse objeto tem todas as características de um substituto real, daquilo que chamamos nas boas piadas, e sempre mais ou menos com um sorriso, de consolo .godemiché., que vem de gaude mihi, ou seja, um dos objetos mais singulares, por seu caráter inencontrável, que existem na indústria humana. Trata-se, apesar disso, de uma coisa que não podemos deixar de levar em conta quanto à sua existência e à sua própria possibilidade.


O falo é sempre coberto pela barra colocada sobre seu acesso ao campo signif i cante, isto é, sobre seu lugar no Outro. E é através disso


que a castração se introduz no desenvolvimento.


É no lugar onde se manifesta a castração no Outro, onde é o desejo do Outro que é marcado pela barra significante, aqui, é essencialmente por intermédio disso que, tanto no homem quanto na mulher, introduz-se esse algo específico que funciona como complexo de castração.


Justamente por ser intro­ duzido no complexo de castração da mulher sob a forma de substituto simbólico, o pênis acha-se na origem, na mulher, de toda sorte de conf l itos do tipo dos conf l itos de ciúme. A infidelidade do parceiro é sentida por ela como uma privação real. A ênfase, nesse caso, é totalmente diferente da que há nesse mesmo conflito, visto pelo lado do homem.


Que, afinal de contas, ela só obtém uma satisfação tão intrínseca, tão fundamental, tão instintiva quanto a da mater n idade, e tão exigente, aliás, pelos caminhos da linha substitutiva. É na medida em que o pênis é, a princípio, um substituto - eu chegaria até a dizer um fetiche - que também o filho, sob certo aspecto, é posteriormente um fetiche


quais a mulher se aproxima, digamos, do que é seu instinto e sua satisfação natural.
Inversamente, quanto a tudo o que está na linha de seu desejo, ela se vê ligada à exigência implicada na função do falo - a de ser, até certo grau, que é variável, esse falo, na medida em que ele é o próprio signo do que é desejado. Por mais verdri i ngt que possa ser a função do falo, é justamente a ela que correspondem as manifestações do que é considerado feminilidade. O fato de ela se exibir e se propor como objeto do desejo identif i ca-a, de maneira latente e secreta, com o falo, e situa seu ser de sujeito como falo desejado, signif i cante do desejo do Outro. Esse ser a situa para além do que podemos chamar de mascarada feminina, já que, afinal, tudo o que ela mostra de sua feminilidade está ligado, precisamente, a essa identificação profunda com o significante fálico, que é o que está mais ligado à sua feminilidade.


Não pensem que a situação é melhor para o homem. É até mais cômica. O falo, o infeliz o tem, e é justamente saber que sua mãe não o tem que o traumatiza - pois, sendo assim, já que ela é muito mais forte, onde é que vamos parar? Foi no medo primitivo diante das mulheres que Karen Horney most r ou um dos pilares mais essen­ ciais dos distúrbios do complexo de castração. Assim como a mulher é apanhada num dilema, o homem é apanhado em outro. Nele, é na linha da satisfação que se estabelece a mascarada, porque ele resolve a questão do perigo que ameaça aquilo que efetivamente ele tem através de algo que conhecemos bastante, ou seja, da identificação pura e simples com aquele que tem as insígnias do falo, que tem toda a aparência de haver escapado ao perigo, ou seja, o pai. No final das contas, o homem nunca é viril senão por uma série infinita de procurações, que lhe provêm de todos os seus ancestrais varões, passando pelo ancestral direto.
Inversamente, porém, na linha do desejo, isto é, na medida em que ele deve encontrar sua satisfação com a mulher, também ele vai à procura do falo. Ora - temos todos os testemunhos disso, clínicos e outros, e voltarei a esse ponto -, é justamente por não encontrar


esse falo ali onde o procura que ele vai procurá-lo em tantos outros lugares.


Em outras palavras, na mulher, o pênis simbólico acha-se no interior, por assim dizer, do campo de seu desejo, ao passo que, no homem, ele está no exterior. Isso lhes explica que os homens sempre tenham tendências centrífugas na relação monogâmica.


E é na medida em que também ele não é ele mesmo como alguém que se satisfaz, ou seja, que obtém do Outro a satisfação, mas só se percebe como instrumento dessa satisfação, que o homem se acha, no amor, fora de seu Outro.


O problema do amor é o da profunda divisão que se introduz no interior das atividades do sujeito. A questão de que se trata, para o homem, segundo a própria def i nição do amor -dar o que não se tem -, é dar aquilo que ele não tem, o falo, a um ser que não o é.


O dese jo do Outro O dese jo insatis f eito O desejo de outra coisa O desejo barr a do A identif i cação de Dora


É que há outra coisa além da dialética da luta entre o senhor e o escravo, há a relação da criança com os pais, há, precisamente, o que acontece no nível do reconhecimento, quando o que está em jogo não é a luta, o conf l ito, mas a demanda.


Em razão da ambiguidade dos limites do sujeito com o Outro, vemos introduzirem-se na demanda o objeto oral, que, na medida em que é demandado no plano oral, é incorporado, e o objeto anal, suporte da dialética do dom primitivo, essencialmente ligado, no sujeito, ao fato de ele atender ou não à demanda educativa,


isto é, de aceitar ou não desprender-se de um certo objeto simbólico.


a criança sabe muito bem que ela também detém algo que pode recusar à demanda da mãe, recusando-se, por exemplo, a aceder aos requisitos da disciplina excrementícia


Eis o sonho -diz Freud. . Eu queria oferecer um jantar, mas o único mantimento que tinha em casa era um pouco de salmão defumado. Quis


sair para fazer compras, mas lembrei-me de que era domingo à tarde e todas as lojas estavam f echadas. Quis telefonar para alguns for n ecedores, mas o telefone estava pifado. Assim, tive que renunciar ao desejo de oferecer um jantar.


Ela se havia identificado com a amiga. Foi como um sinal dessa identificação, isto é, na medida em que se identi f i cou com a outra, que ela se atribuiu na vida real um desejo não realizado


identificação histérica


Uma delas teve sua crise hoje, e as outras sabem muito bem que uma carta de casa, uma lembrança de uma mágoa de amor ou outras coisas semelhantes foram a causa disso. Sua compaixão é despertada e, inconscientemente, elas f azem o seguinte exame: se esses motivos acarretam esses tipos de crises, também posso ter uma crise dessas - articulação do sintoma elementar com uma identificação discur­ siva, com uma situação articulada no discurso -, porque tenho os mesmos motivos. Se essas fossem conclusões conscientes, elas leva­ riam à angústia de ver sobrevir a mesma crise. Mas as coisas se passam em outro plano psíquico, e levam à realização do sintoma temido. A identi f icação, portanto, não é uma simples imitação, mas uma apropriação decorrente de uma etiologia idêntica: ela expressa um “como se”, relacionado com um traço comum c que persiste no inconsciente. O termo apropriação não foi muito bem traduzido.
Trata-se, antes, de um tomado como próprio.


A histérica se identif i ca, de preferência, com pessoas com quem manteve relações sexuais, ou que tenham as mesmas relações sexuais com as mesmas pessoas que ela. A língua, aliás, é responsável por essa concepção. Dois amantes são um só, diz Freud.


a histérica fi ca presa na clivagem cuja necessidade lhes mostrei há pouco, entre a demanda e o desejo


Que pede ela antes do sonho, em sua vida? Essa paciente, apaixonadíssima pelo marido, demanda o quê? Amor; e as histéricas, como todo o mundo, demandam amor, só que, nelas, isso é mais incômodo. Que deseja ela? Ela deseja caviar. Basta simplesmente ler.
E que quer ela? Quer que não lhe deem caviar


A questão, justamente, é saber por que, para que uma histérica mantenha um relacionamento amoroso que a satisfaça, é necessário, primeiramente, que ela deseje outra coisa, e o caviar não tem aqui outro papel senão o de ser outra coisa, e, em segundo lugar, que, para que essa outra coisa desempenhe bem a função que tem a missão de desempenhar, ela justamente não lhe seja dada. Seu marido não lhe pediria mais do que dar-lhe caviar, mas nesse caso, provavelmente, ele ficaria mais tranquilo, imagina ela. Porém o que nos diz Freud, formalmente, é que ela quer que o marido não lhe dê caviar, para que eles possam continuar a se amar loucamente, isto é, a implicar um com o outro, a se atazanar a perder de vista.


A histérica é, precisamente, o sujeito para quem é difícil estabelecer com a consti­ tuição do Outro como grande Outro, portador do signo falado, uma relação que lhe permita preservar seu lugar de sujeito


Numa palavra, o histérico ou a histérica estão tão abertos à sugestão da fala que deve haver alguma coisa nisso.


Se é necessário ao sujeito criar para si um desejo insatisfeito, é por ser essa a condição para que se constitua para ele um Outro real, isto é, que não seja inteiramente imanente à satisfação recíproca da demanda, à captura inteira do desejo do sujeito pela fala do Outro.
Que o desejo de que se trata é, por natureza, o desejo do Outro, é nisso, muito precisamente, que a dialética do sonho nos introduz, uma vez que o desejo de caviar, a paciente não quer que ele seja satisfeito na realidade. E o sonho tende, incontestavelmente, a satisfazê-la quanto à solução do problema que ela busca.


A paciente é histérica e, com certeza, a outra também o é, ainda mais que o sujeito histérico se constitui quase que integralmente a partir do desejo do Outro. O desejo que o sujeito registra no sonho é o desejo favorito da amiga, o desejo de salmão, e, mesmo no momento em que ela não pode oferecer um jantar, só lhe resta isso, salmão defumado, que indica ao mesmo tempo o desejo do Outro e o indica como podendo ser satisfeito, mas somente para o Outro. Por outro lado, não tenha medo, temos salmão defumado. O sonho não diz com isso que as coisas chegam a ponto de ela o dar à amiga, mas a intenção está presente.


Inversamente, o que é posto de lado é a demanda da amiga, elemento genético do sonho. Ela lhe pediu para ir jantar em sua casa, onde se come muito bem e onde, ademais, pode-se encontrar o belo açougueiro. Esse marido amável, que sempre fala tão bem da amiga,


também deve ter seu desejozinho lá atrás, no fundo da cabeça, e o traseiro da moça, tão prontamente evocado a propósito da amável proposta do pintor que queria retratá-lo, desenhar seu rosto tão interessante, tão expressivo, certamente está aí para demonstrá-lo.
Numa palavra, cada um tem seu pequeno desejo para além, apenas mais ou menos intensificado.


Só que, no caso específico da histérica, o desejo como para além de qualquer demanda, isto é, como devendo ocupar sua função a título de desejo recusado, desempenha um papel de primeiríssimo plano.


tudo o que analisamos nisso, é claro, é inconsciente para o sujeito. Em outras palavras, o histérico não sabe que não pode satisfazer-se na demanda, mas é absolutamente essencial que, de sua parte, vocês o saibam


Em outras palavras, é na medida em que o desejo do Outro é barrado que o sujeito vem a reconhecer seu desejo barrado, seu próprio desejo insatisfeito. É no nível desse desejo, barrado por intermédio do Outro, que se produz o encontro do sujeito com seu desejo mais autêntico, isto é, o desejo genital. É por essa razão que o desejo genital é marcado pela castração, ou, dito de outra maneira, por uma certa relação com o significante falo. Aí estão duas coisas equivalentes.


é aqui que se desenrola para ele a dialética da demanda, sem que ele saiba que essa dialética só é possível na medida em que seu desejo, seu verdadeiro desejo, encontra lugar numa relação, que para ele perma­ nece inconsciente, com o desejo do Outro


Temos que dizer: antes da análise, a vida de Dora está muito bem equilibrada. Até o momento em que eclode o drama, ela encontrara uma solução muito feliz para seus problemas. É ao pai que endereça a demanda, e as coisas correm muito bem, porque o pai tem um desejo, e tudo corre ainda melhor na medida em que esse desejo é um desejo insatisfeito.


Essa é a fúria contra o outro na medida em que ele é nosso semelhante e em que, sendo nosso semelhante, simplesmente nos arrebata a existência


Mas Freud não é, pura e simplesmente, um histérico. Se mantém com a histeria a relação


que qualquer relação com o desejo comporta, é de maneira um pouco mais elaborada.


Traumdeutung


Aliás, o livro foi acolhido por um silêncio quase total.


Se é preciso que o que não se é seja o que se é, resta não ser o que se é, ou seja, empurrar o que se é para o parecer, que é exatamente a posição da mulher na histeria.
Como mulher, ela se faz máscara. Faz-se máscara precisamente para, por trás dessa máscara, ser o falo. Todo o comportamento da histérica manifesta-se no gesto da mão levada ao botão - cujo sentido o olho de Freud, durante muito, muito tempo, habituou-nos a ver -, acom­ panhado pela frase Não vale a pena. Por que não vale a pena? Porque, é claro, não se trata de olharmos para o que está por trás, porque por trás, é claro, é onde trata-se de estar o falo. Mas realmente não vale a pena ir ver, Es lohnt sich nicht, já que, justamente, ele não será encontrado ali.


Assinalo, diz Freud nessa nota, que esse sonho encerra uma fantasia: conduta provocante de minha parte, defesa da parte dela.


Não vale a pena você abrir meu corpete, porque não encontrará o falo, mas, se levo minha mão ao corpete, é para que você aponte, por trás desse corpete, o falo, isto é, o significante do desejo.


Nessa dialética, colocamos o desejo como aquilo que, no pequeno móbile, encontra-se além da demanda. Por que é preciso um além da demanda? É preciso um além da demanda na medida em que a de­ manda, por suas exigências articulatórias, desvia, modifica, transpõe a necessidade. Há, pois, a possibilidade de um resíduo.


formular sua demanda


que o Outro entra em jogo a partir do momento em que o desejo sexual entra em causa sob a forma de instrumento do desejo.


dialética do ser ou do ter na histérica


“O eu na neurose obsessiva”


” Incidências terapêuticas da conscientização da inveja do pênis na neurose obsessiva feminina”


“A importância do aspecto homossexual da trans­ ferência em quatro casos de neurose obsessiva masculina”


Na perspectiva do autor, o tratamento da neurose obsessiva gira inteiramente em tomo de uma incorporação ou introjeção imaginária do falo que aparece no diálogo analítico sob a forma do falo atribuído ao analista, ao qual se referem todas as fantasias.
Haveria nele duas fases. Na primeira, as fantasias de incorporação e devoração desse falo fantasístico teriam um caráter nitidamente agressivo, sádico, ao mesmo tempo que ele seria sentido como horrível e perigoso. Essas fantasias teriam um valor revelador da posição do sujeito em relação ao objeto constitutivo de seu estágio - no caso, o de uma certa segunda fase do estágio sádico-anal, marcado por tendências fundamentais para a destruição do objeto. Daí se passaria a uma segunda fase, onde se começaria a respeitar a autonomia do objeto, ao menos sob uma forma parcial.


O obsessivo nos é apresentado, com efeito, como sempre pronto a resvalar para uma destruição do mundo, uma vez que, na perspectiva em que se expressa o autor, pensa-se também em termos de relação do sujeito com seu ambiente. É através da manutenção do objeto parcial - manutenção que requer todo um arcabouço de sustentação, que é justamente o que constitui a neurose obsessiva - que o sujeito evitaria resvalar para uma psicose sempre ameaçadora


Não podemos, no entanto, deixar de objetar a isso que, sejam quais forem os sintomas parapsicóticos do obsessivo - despersona­ lização, por exemplo, distúrbios do eu, sentimento de estranheza, de obscurecimento do mundo, todos eles sentimentos que tocam, eviden­ temente, na cor ou até na estrutura do eu -, apesar de sempre ter havido casos de transição entre a obsessão e a psicose, eles sempre foram raríssimos


Quando se trata de uma verdadeira neurose obsessiva, corre-se o risco, numa psicanálise, de não curar o sujeito, mas vê-lo resvalar para a psicose é um risco que parece extraordinariamente fantasioso, pois essa é realmente a coisa que menos se arrisca. Que o obsessivo, no correr de uma análise, mesmo após uma intervenção terapêutica inoportuna, ou até selvagem, resvale para a psicose, é muito, muito, muito raro


Pode ser que cheguemos a isso um dia, mas, antes de chegar lá, talvez convenha andarmos passo a passo e começarmos por


é preciso que a mãe fale com a criança, todo o mundo sabe disso. Não apenas que ela lhe fale, é claro, como também uma lactante muda não deixaria de acarretar algumas conse­ quências bastante visíveis no desenvolvimento do lactente


O que nos mostra a histérica de que falamos da última vez? A histérica, é claro, não é psicanalisada, sem o que, por hipótese, não mais seria histérica.


a imagem do outro, o pequeno a imaginário.


que é no lugar em que o sujeito procura articular seu desejo que ele depara com o desejo do Outro como tal


É pelo conjunto do caminho per­ corrido que convém julgar cada um de seus desvios


quando se retira dos neuróticos obsessivos sua obsessão, falta-lhes um ponto de apoio.


A histé­ rica, portanto, toma por ponto de apoio, como dissemos, um desejo que é o desejo do Outro. Essa criação de um desejo para além da demanda é essencial


cujos quatro vértices são repre­ sentados pelo eu, pela imagem do outro, pela relação do sujeito já constituído com o outro imaginário, e pelo desejo


a histérica tem toda sorte de dificuldades com seu imaginário, aqui representado pela imagem do outro, e que é suscetível de ver produzirem-se ali efeitos de despedaçamento, de desintegrações di­ versas, que são o que lhe serve em seu sintoma.


É certo que o obsessivo tende a destruir seu objeto.


Eu gostaria que vocês tivessem alguma experiência com o que é uma criança que irá tomar-se um obsessivo. Creio não haver pequenos sujeitos nos quais seja mais sensível o que procurei articular-lhes da última vez, quando lhes expus a ideia de que, nessa margem da necessidade, forçosamente de alcance limitado - como se costuma falar das companhias limitadas, porque a necessidade é sempre uma coisa de alcance limitado -, de que nessa margem, portanto, que vai da necessidade ao caráter incondicional da demanda de amor, situa-se o que chamei de desejo. Como foi que o defini, esse desejo como tal? Como uma coisa que, justamente por ter que se situar nesse além, nega o elemento de alteridade que está incluído na demanda de amor.
Mas, para conservar o caráter incondicional dessa demanda, transformando-o em condição absoluta do desejo, no desejo em estado puro, o Outro é negado. Em virtude de o sujeito ter tido que conhecer e transpor a incondicionalidade da demanda de amor, que tem um caráter limite, eis que esse caráter persiste e é transferido para a necessidade.
A criança pequena que irá tornar-se um obsessivo é a criança pequena de quem os pais dizem - convergência da língua comum com a língua dos psicólogos: ela tem ide ias fixas. Ela não tem ideias mais extraordinárias do que qualquer outra criança, se nos detivermos no material de sua demanda. Ela pede uma caixinha. Na verdade, não é grande coisa senão uma caixinha, e há muitas crianças em quem as pessoas não se detêm nem por um instante ante essa demanda da caixinha, exceto os psicanalistas, é claro, que verão nisso toda sorte de alusões requintadas. Na verdade, não estarão errados, mas acho mais importante ver que há certas crianças, entre todas as crianças, que pedem caixinhas e cujos pais consideram que essa exigência da caixinha é propriamente intolerável - e ela é intolerável.


Quando digo que o obsessivo faz seu desejo passar à frente de tudo, isso significa que ele vai buscá-lo num além, visando-o como tal em sua constituição de desejo, isto é, na medida em que como tal ele destrói o Outro.
Nisso reside o segredo da profunda contradição que há entre o obsessivo e seu desejo. Assim visado, o desejo traz em si a contradição inter n a que constitui o impasse do desejo do obsessivo, e que os autores tentam traduzir ao falar dos perpétuos vaivéns instantâneos entre introjeção e projeção.


E por isso que ela não dura muito, a cultura da neurose obsessiva.


Mas, enfim, para vermos o essencial, o que acontece quando o obsessivo, de vez em quando, segurando a coragem com as duas mãos, põe-se a tentar transpor a barreira da demanda, isto é, parte em busca do objeto de seu desejo? Primeiro, não o encontra com facilidade.
Af i nal, há muitas coisas, com as quais ele já tem prática, que podem servir-lhe de suporte, nem que seja a caixinha. É claro que é nesse caminho que lhe sucedem os acidentes mais extraordinários, que tentaremos explicar em diversos níveis pela intervenção do supereu e de mil outras funções que, evidentemente, existem. Porém, muito mais radicalmente do que tudo isso, o obsessivo, na medida em que seu movimento fundamental dirige-se para o desejo como tal, acima de tudo em sua constituição de desejo, é levado a almejar o que chamamos de destruição do Outro.


Ora, é da natureza do desejo como tal necessitar do apoio do Outro. O desejo do Outro não é uma via de acesso para o desejo do sujeito, é o lugar puro e simples do desejo, e, no obsessivo, qualquer movimento em direção a seu desejo esbarra numa barreira que é absolutamente tangível, no movimento, se assim posso dizer, de sua libido. Na psicologia de um obsessivo, quanto mais uma coisa de­ sempenha o papel de objeto do desejo, ainda que momentâneo, mais a lei de aproximação do sujeito em relação a esse objeto manifesta-se, literalmente, numa baixa da tensão libidinal. A tal ponto que, no momento em que ele detém esse objeto de seu desejo, para ele nada mais existe. Isso é absolutamente observável, e tentarei mostrá-lo a vocês através de exemplos.
O problema do obsessivo, portanto, está todo em dar um suporte a esse desejo - que, para ele, condiciona a destruição do Outro, onde o próprio desejo vem a desaparecer. Não há grande Outro aqui. Não estou dizendo que o grande Outro não exista para o obsessivo, mas que, quando se trata de seu desejo, ele não existe, e é por essa razão que ele fica à procura da única coisa que, fora desse ponto de referência, é capaz de manter no lugar esse desejo como tal. Todo o problema do obsessivo está em encontrar para seu desejo a única coisa capaz de lhe dar uma aparência de apoio, correspondente ao ponto que a histérica, por força de suas identificações, ocupa com tanta facilidade, ou seja, aquele que está em frente ao d, a fórmula S em relação ao pequeno a.


A obra de Freud é uma tentativa de pacto entre o ser do homem e a natureza


A inserção do homem no desejo sexual está fadada a uma problemática especial, cujo traço primordial é que ela deve encontrar lugar em alguma coisa que a precede, que é a dialética da demanda, na medida em que a demanda sempre pede alguma coisa que é mais do que a satisfação a que ela apela, e que vai mais além disso


Essas estruturas são diferentes, conforme a ênfase seja colocada na insatisfação do desejo, que é o modo como a histérica aborda seu campo e sua necessidade, ou na dependência do Outro para a obtenção do acesso a esse desejo, que é o modo como essa abordagem se propõe ao obsessivo


Com efeito, Freud não viu que o desejo se situa, para a histérica, numa posição tal que dizer-lhe Eis aquele ou aquela que você deseja é sempre uma interpretação forçada, inexata, lateral. Quer nas pri­ meiras observações de caso de Freud, quer mais tarde, no caso de Dora, quer até, se estendermos o sentido da palavra histeria ao caso da jovem homossexual que aqui comentamos longamente no ano passado, não há exemplo em que Freud não tenha cometido um erro, e que não tenha levado, pelo menos, sem nenhuma espécie de exceção, à recusa da paciente de ter acesso ao sentido do desejo de seus sintomas e seus atos, todas as vezes que ele assim procedeu


A fantasia, nós a definiremos, se vocês quiserem, como o imagi­ nário aprisionado num certo uso de significante.


Quando vemos um obsessivo bruto, em estado natural, tal como nos acontece ou se supõe que nos aconteça através das observações de caso publicadas, encontramos alguém que nos fala, acima de tudo, de toda sorte de empecilhos, inibições, bloqueios, medos, dúvidas e proibições. Sabemos também, desde logo, que não é nesse momento que ele nos falará de sua vida de fantasia, mas sim graças a nossas intervenções terapêuticas ou a suas tentativas autônomas de solução, de saída, de elaboração de sua dificuldade propriamente obsessiva.
Ele nos confiará então a invasão mais ou menos predominante de sua vida psíquica por fantasias. Vocês sabem o quanto essas fantasias podem assumir, em alguns sujeitos, uma forma realmente invasiva, absorvente, cativante, capaz de tragar pedaços inteiros de sua vida psíquica, de sua vivência, de suas ocupações mentais.


Essas fantasias têm como característica, no sujeito obsessivo, permanecer em estado de fantasias. Só se realizam de maneira total­ mente excepcional, e essas realizações são para o sujeito, aliás, sempre decepcionantes


o obsessivo está sempre pedindo alguma permissão


Pedir permissão é, justamente, ter como sujeito uma certa relação com a própria demanda. Pedir permissão, na medida mesma em que a dialética com o Outro - o Outro como falante -é posta em causa, posta em questão, ou até posta em perigo, é dedicar-se, af i nal de contas, a restaurar esse Outro, é colocar-se na mais extrema dependência dele. Isso já nos indica a que ponto esse lugar é de manutenção essencial para o obsessivo. É exatamente aí que vemos a pertinência do que Freud sempre chama de Versagung, a recusa. Recusa e permissão implicam uma na outra. O pacto é recusado sobre um fundo de promessa, o que é melhor do que falar em frustração.


Mas o que nos interessa não é dar gravitação, nem compensação, nem tampouco retomo simbólico, àquilo que foi, mais ou menos justificadamente, num dado momento do desenvolvimento, a insatis­ fação do sujeito no plano de uma demanda oral, anal ou de outra ordem, insatisfação essa em que ele estaria retido. Se isso nos interessa, é unicamente pelo seguinte: é que foi nesse momento de sua demanda que se colocaram para ele os problemas de suas relações com o Outro, tal como foram determinantes, em seguida, para a instauração de seu desejo.


Em outras palavras, tudo o que decorre da demanda no que foi vivido pelo sujeito ficou para trás de uma vez por todas. As satisfações, as compensações que possamos dar-lhe nunca serão senão simbólicas, e dar-lhas pode até ser considerado um erro, se é que não é impossível.


Não é inteiramente impossível, graças, precisamente, à interven­ ção das fantasias, desse algo mais ou menos substancial que é sustentado pela fantasia. Mas creio que isso é um erro de orientação da análise, pois deixa não apuràda, no final da análise, a questão das relações com o Outro.


O obsessivo, digamos, tal como a histérica, necessita de um desejo insatisfeito, isto é, de um desejo para além de uma demanda. O obsessivo resolve a questão do esvaecimento de seu desejo fazendo dele um desejo proibido. Faz com que ele seja sustentado pelo Outro, precisamente pela proibição do Outro.


A maneira como o obsessivo se comporta com seu semelhante, quando ainda é capaz disso, quando não está submerso em seus sintomas - e é raríssimo que o esteja completamente -, é, por si só, suf i cientemente indicativa.


proezas dos obsessivos. Que são essas proezas? Para que haja proeza, é preciso ser pelo menos três, porque não se pratica uma proeza sozinho. É preciso ser no mínimo dois, é preciso haver alguma coisa que se assemelhe a isso, para que haja um desempenho vitorioso, um sprint. Ademais, é preciso também que haja alguém que registre e seja testemunha dele. O que o obsessivo procura obter na proeza é, muito precisamente, o que chamamos há pouco de permissão do Outro, e isso, em nome de alguma coisa que é muito polivalente. Pode-se dizer, em nome disso, que ele realmente mereceu. Mas a satisfação que ele procura obter não se classifica, de modo algum, no campo em que ele realmente a mereceu.


Observem a estrutura de nossos obsessivos. O que chamamos efeito de supereu quer dizer o quê? Quer dizer que eles se infligem toda sorte de tarefas particularmente árduas, desgastantes, nas quais, aliás, obtêm sucesso, obtêm sucesso ainda mais facilmente por ser isso o que desejam fazer - mas saem-se nelas muito, muito brilhan­ temente, e em nome disso teriam direito a umas pequenas férias, durante as quais fosse possível fazer o que quisessem, donde a conhecida dialética do trabalho e das férias. No obsessivo, o trabalho é poderoso, sendo feito para liberar o tempo de navegação a todo pano que será o das férias - e a passagem das férias revela-se, habitualmente, quase perdida. Por quê? Porque o que se tratava era de obter a permissão do Outro. Ora, o outro - refiro-me agora ao outro de fato, ao outro que existe - não tem absolutamente nada a ver com toda essa dialética, pela simples razão de que o outro real está ocupadíssimo com seu próprio Outro, e não tem razão alguma para cumprir a missão de dar à proeza do obsessivo sua coroaçãozinha, isto é, aquilo que seria justamente a realização do desejo dele, visto


que esse desejo nada tem a ver com o terreno em que o sujeito demonstrou todas as suas aptidões.


Há na proeza do obsessivo algo que sempre permanece irreme­ diavelmente fictício, em razão de que a morte, ou seja, o lugar onde fi ca o verdadeiro perigo, não reside no adversário que ele dá a impressão de desafiar, mas num lugar completamente diferente. Está, justamente, do lado da testemunha invisível, do Outro que está ali como espectador, daquele que contabiliza os golpes e que dirá sobre o sujeito: Decididamente - como é dito em algum lugar no delírio de Schreber -, ele é um durão. Encontramos essa exclamação, essa maneira de demonstrar que se foi afetado, como implícita, latente, desejada em toda a dialética da proeza. O obsessivo, aqui, acha-se numa certa relação com a existência do outro como seu semelhante, como aquele em cujo lugar ele pode colocar-se, e é justamente por poder colocar-se em seu lugar que não há, na realidade, nenhuma espécie de risco essencial no que ele demonstra, em seus efeitos de imponência, de espírito esportivo, de risco mais ou menos assumido.
Esse outro com quem ele joga nunca é, afinal, senão um outro que é ele mesmo, e que, de qualquer modo, desde logo lhe entrega os louros, como quer que ele tome as coisas.


Phyllis Greenacre, intitulado “General problems of acting out”


Nunca chamaremos de acting out senão um ato que se apresente com um caráter especialmente imotivado. Isso não quer dizer que ele não tenha causa, mas que é muito difícil atribuir-lhe uma motivação psicológica, pois ele é um ato sempre significado.


Há quase uma equivalência entre a fantasia e o acting out. O acting out estrutura-se, em geral, de um modo que se aproxima muito de uma encenação.


Enquanto a proeza é um exercício, uma façanha, um passe de mágica destinado a dar prazer ao Outro, que, como eu lhes disse, não está nem aí para ela, o acting out é outra coisa


É sempre uma mensagem


O primeiro tipo de identif i cação é die ursprünglichste Form der Gefühlsbindung an ein Objekt, a forma mais originária do laço de sentimento com um objeto


A segunda forma de identif i cação produz-se no caminho de uma regressão, como substituta de uma ligação com um objeto, ligação libidinal que equivale a uma introjeção do objeto no eu.


Às vezes é mais importante sustentar o problema levantado do que resolvê-lo


Por conseguinte, tudo o que nos é pedido é que não favoreçamos essa confusão por nossa presença ali como Outro. Ora, pelo simples fato de estarmos ali para ouvir como Outro


Isso é ainda mais evidente, o que não é razão para não dizê-lo.


No caso do obsessivo, seja seu desejo forte ou fraco, esteja o sujeito em plena puberdade ou venha procurar-nos quando tem qua­ renta ou cinquenta anos - isto é, no momento em que seu desejo, de qualquer modo, está declinando, e em que ele deseja ter uma ideiazinha do que aconteceu, ou seja, daquilo de que não entendeu nada até esse momento de sua existência -, em todos os casos, evidencia-se que ele está ocupado, durante todo o tempo de sua existência, em colocar seu desejo numa posição forte, em constituir uma praça forte do desejo, e isso no plano de relações que são essencialmente significantes


Nessa praça forte habita um desejo fraco ou um desejo forte, a questão não é essa. Uma coisa é certa, é que as praças fortes são sempre uma faca de dois gumes. As que são construídas para as pessoas se protegerem do que está do lado de fora são muito mais incômodas para quem está do lado de dentro, e o problema está aí.


A terceira forma de identificação, Freud a articula como aquela que pode nascer de uma comunhão recém-percebida com uma pessoa que não é objeto de uma pulsão sexual


” A importância do aspecto homossexual da transferência”


É perceptível a todo momento, nesse caso, que a solução da análise do obsessivo está em que ele venh. l a descobrir a castração pelo que ela é, ou seja, pela lei do Outro. E o Outro que é castrado.
Por razões que se prendem à sua falsa implicação nesse problema, o próprio sujeito sente-se ameaçado por essa castração, num plano tão agudo que não consegue aproximar-se de seu desejo sem sentir seus efeitos. O que estou dizendo é que o horizonte do Outro, do grande Outro como tal, como distinto do pequeno outro, pode ser tocado a todo momento nesse caso.


tendência homossexual passiva do sujeito


Eis o sonho: - Eu o acompanho à sua residência particular.
Em seu quarto há uma cama grande. Deito-me nela. Fico extrema­ mente incomodado. Há um bidê num canto do quarto. Fico contente, embora pouco à vontade.


Será que, a seu ver, isso é o que basta articular?


Homossexual passivo, por quê? Até segunda ordem, nada se manifesta aí que, nessa oportunidade, faça do Outro um objeto de desejo. Ao contrário, vejo claramente desenhado aí, numa posição terceira e num canto, algo que é plenamente articulado e ao qual ninguém parece prestar atenção, embora não esteja ali à toa. É o bidê.


Desse objeto, podemos dizer, ao mesmo tempo, que ele presen­ tifica o falo e não o mostra, já que não suponho que, no sonho, haja


uma indicação de que alguém esteja ocupado em se servir dele. O bidê está ali indicando o que é problemático. Não é à toa que ele surge, esse famoso objeto parcial. Ele é o falo, mas, se assim posso dizer, como pergunta: o Outro o tem ou não tem? Essa é a ocasião de mostrá-lo. O Outro o é ou não é? Isso é o que está por trás. Em suma, é a questão da castraçã�.


presença constante do significante no inconsciente, na medida em que o significante já esculpiu, formou, estruturou o sujeito.


O desejo do homem, para ele, tem sempre de ser buscado no lugar do Outro como lugar da fala, o que faz com que o desejo seja um desejo estruturado nesse lugar do Outro


Aludimos, assim, ao fato de que, mesmo se existem entre os homens relações afetuosas, designadas pelo nome de amizade e com as quais ninguém se sente humilhado, essas relações sempre assumem um certo caráter de passividade para um dos parceiros, quando este se acha necessitado de receber do outr o um ensinamento, instruções ou certos incentivos. Nesse momento di f ícil, tivemos a ideia de usar uma analogia que podia ser sentida de plano por esse ex-of i cial. Por que os homens em combate deixam-se matar por um líder a quem amam, a não ser, justamente, por aceitarem com absoluta ausência de resistência, isto é, com uma passividade total, suas instruções e suas ordens? Assim, eles abraçam a tal ponto os sentimentos e as ideias do líder, que se identi f i cam com ele e sacrif i cam sua vida como ele próprio faria, se estivesse em seu lugar.
Vocês estão vendo que uma intervenção dessa espécie tem de requerer uma zona muito importante de silêncio, sobretudo quando se sabe que o analista escolheu esse exemplo porque seu paciente era militar.
Eles só podem agir assim porque amam passivamente o líder.
Essa observação não fez desaparecer de imediato toda a reserva do sujeito, mas lhe permitiu continuar a se mostrar objetivo, mesmo ao reviver conosco outras situações homossexuais, estas mais precisas.
E, de fato, isso não deixa de acontecer.


obsessão de haver contraído sífilis


obsessão com o infanticídio,


Na verdade, talvez não seja a mesma coisa desejar possuir o falo e desejar ser homem


que o pai não conseguira vencer o apego de sua mulher a um primeiro amor, aliás platônico


Se Freud marcou aí, em certa ocasião, o caráter unendlich, inf i nito, projetado no infinito - o que se traduziu mal por interminável -do que pode suceder com a análise, foi sem dúvida, afinal, porque havia coisas que ele não via, ou que não tivera a oportunidade de encontrar ou de articular, embora muitas indicações em sua obra tomem essa direção, especialmente seu último artigo sobre a Spaltung do eu, ao qual retor n arei. Ele não viu que a solução do problema da castração, tanto no homem quanto na mulher, não gira em torno do dilema de ter ou não ter o falo, pois é unicamente a partir do momento em que o sujeito percebe que, de qualquer modo, há uma coisa a ser reconhecida, a saber, que ele não é o falo, é a partir do reconhecimento, na análise, de que o sujeito não é o falo, que ele pode normalizar sua posição natural, e que ou bem ele o tem ou bem não o tem. É esse o termo derradeiro, a relação signif i cante última em tor n o da qual pode resolver-se o impasse imaginário gerado pela função que a imagem do falo vem assumir no nível do plano significante.


Eu quero ser o que ela deseja, ela, a mãe


que o homem é tão pouco o falo quanto a mulher


enquanto o que gera sua agressividade contra o marido como homem - vou mostrar-lhes isto ainda melhor da próxima vez - é ela considerar que ele é, não estou dizendo que ele tenha, mas que ele é o falo, e é nessa condição que ele é seu rival e que suas relações com ele são marcadas pelo signo da destruição obsessiva.


O que faz a paciente? A observação o diz, com total ignorância:
ela intervém com toda a sua força junto ao fi lho mais velho, de quem sempre teve um medo pavoroso, porque, a bem da verdade, ele é o único cujas reações masculinas ela nunca conseguiu dominar, dizen­ do-lhe que ele mesmo precisa, com toda a urgência, fazer-se analisar.


O analista orientou a análise inteira pelo seguinte: que a paciente quer ser homem. Até o fim, ela não está inteiramente convencida. No entanto, é verdade que a posse ou não desse falo encontrou nisso um apaziguamento. Mas o fundo, o essencial, não é resolvido - a significação do falo como significante do desejo.


É inteiramente insuficiente nos determos nisso, uma vez que, aliás, a dialética do ser e do ter vale para os dois.


Therapeutic effects of the inexact interpretation


É claro que agora os conhecemos mais do que nos primórdios da análise, e coloca-se a questão de saber de que serviam nossas tera-


pêuticas no momento em que não conhecíamos em todo o seu leque o sistema das fantasias. Seriam elas análises terapêuticas incompletas, menos válidas do que as que fazemos atualmente? É uma pergunta muito interessante, que levou Glover a traçar um panorama geral de todas as posturas assumidas por aquele que se encontra na posição de buscar consultas em relação a um distúrbio qualquer.


Os analistas em formação viam-se dizendo: -E então, você analisou bem sua agressividade?


A agressividade provocada na relação imaginária com o pequeno outro não pode confundir-se com a totalidade do poder agressivo.


Chegamos, assim, à sociedade ideal. O que estou pintando é o que sempre foi sonhado pelos utopistas, ou seja, uma sociedade que funciona perfeitamente e que leva à satisfação de todos, segundo suas necessidades. Acrescenta-se, é bem verdade, que todos participam dela de acordo com seus méritos, e é aí que começa o problema.


problema essencial está em saber como a criança sai da satisfação, e não da frustração, para construir um mundo para si.


O Outro não é, pura e simplesmente, o lugar desse sistema perfeitamente organizado, fi xo. Ele próprio é um Outro simbolizado, e é isso que lhe confere sua aparência de liberdade. O Outro, o Pai, no caso, o lugar onde se articula a lei, está submetido, ele mesmo, à articulação signif i cante, e, mais do que submetido à articulação significante, é marcado por ela, com o efeito desnaturalizante que a presença do significante comporta.


Também nós já estamos mortos em relação ao movimento da vida. Mas, através da linguagem e diferentemente do animal, somos capazes de projetá-lo em sua totalidade, e até mesmo em sua totalidade como havendo chegado a seu fi m.
É exatamente isso que Freud articula na noção de instinto de morte. Ele quer dizer que, para o homem, a vida projeta-se desde logo como havendo chegado a seu termo, isto é, ao ponto em que retoma à morte. O homem é esse animal preso e articulado num sistema significante que lhe permite dominar sua imanência de vivente e se perceber como já morto. E ele só o faz, justamente, de um modo imaginário, virtual, em última instância, especulativo.


O que o sintoma quer dizer? Onde se situa nesse esquema?
Ele se situa no nível da significação. Foi isso que Freud introduziu:
o sintoma é uma signif i cação, é um significado. Está longe de concer n ir unicamente ao sujeito, mas sua história, toda a sua anamnese está implicada nele. É por essa razão que podemos legitimamente simbo­ lizá-lo nesse lugar por um pequeno s(A), significado do Outro, vindo do lugar da fala.


Toda histérica faz eco a tudo o que é da ordem da indagação sobre o desejo, tal como esta se coloca na atualidade em alguns outros, sobretudo em outra histérica, bem como em alguém que pode só ser histérico ocasionalmente, e até de maneira latente, desde que apareça nele um modo histérico de formular a pergunta.


O que pode querer dizer, para nós, analistas, esse termo cônjuge? Ele adquire sua plena articulação no nível em que tentamos situar as coisas. Trata-se daquele com quem é preciso, de um modo qualquer, por bem ou por mà l, voltar a estar, o tempo todo, numa certa relação de demanda. Mesmo que, em toda uma série de coisas, o circuito se feche, isso nunca acontece sem dor. A demanda pede para ser levada até o fim.


Que acontece no plano das relações do obsessivo com seu cônjuge?
Muito exatamente isto, que é o mais sutil de se ver, mas que vocês observarão, quando se derem ao trabalho: o obsessivo empenha-se em destruir o desejo do Outro. Toda aproximação do interior do território obsessivo é saldada, no caso normal, por menos que nos deixemos apanhar, por um ataque surdo, um desgaste permanente, que tende, no outro, a levar à abolição, à desvalorização, à depreciação do que é seu próprio desejo.


O obsessivo é um homem que vive no signif i cante. Está muito solidamente instalado nele. Não tem absolutamente nada a temer quanto à psicose. Esse signif i cante basta para preservar nele a dimensão do Outro, mas esta é como que idolatrada


O conjunto do comportamento obsessivo ou histérico é estruturado como uma linguagem


A totalidade do compor­ tamento do neurótico apresenta-se como uma fala, e até como uma fala plena, no sentido no qual vimos seu modo primitivo no enceta­ mento da forma de um discurso. É uma fala plena, mas inteiramente criptográf i ca, desconhecida do sujeito quanto ao sentido, embora ele a pronuncie através de todo o seu ser, de tudo aquilo que manifesta, de tudo o que evoca e realiza, inelutavelmente, num certo caminho de conclusão e inconclusão, se não houver a intervenção de nada que seja dessa ordem de oscilação a que se chama análise. É uma fala proferida pelo sujeito barrado, barrado de si mesmo, que chamamos inconsciente. É isso que representamos sob a forma de um sinal, S.


Trata-se de uma fala que é articulada no horizonte do Outro. O Outro do Outro é o lugar em que a fala do Outro se desenha como tal. Não há nenhuma razão para que ele nos seja vedado. É até a raiz da relação intersubjetiva que o Outro, como lugar da fala, nos é dado, imediata e efetivamente, como sujeito, sujeito que pensa em nós


mesmos como seu Outro. Esse é o pfincípio de toda estratégia


Pois bem, embora ousemos dizer que esse Outro do Outro deveria ser o mais transparente para nós, dado com a própria dimensão do Outro, por que declaramos que esse Outro do Outro é o lugar onde se articula o discurso do inconsciente, articulado mas não articulável por nós? Por que devemos fazê-lo? Como temos o direito de fazê-lo?
É muito simples. As condições da vida humana fazem com que esta seja encetada na condição da fala, e estamos submetidos ao Outro pela condição da demanda, mas sem saber o que é para ele nossa demanda. Por que não o sabemos? O que lhe dá essa opacidade?
Essas são evidências, mas evidências cujas coordenadas não são o que há de menos útil a articular, pois sempre nos contentamos em obscurecê-las sob a forma de objetivações prematuras.
Esse Outro que não sabemos como acolhe nossa demanda intervém em nossa estratégia, torna-se unbewusst, e realiza uma posição para­ doxal do discurso. É isso que quero dizer quando lhes digo que o inconsciente é o discurso do Outro


É o horizonte dessa não resposta do Outro que vemos desenhar-se na análise, uma vez que desde logo o analista surge unicamente como o lugar da fala, um ouvido que escuta e não responde.


Não nos esqueçamos de que nosso sujeito não volta progressivamente, diante de nós, ao estado de recém-nascido


Trata-se é de significantes. O que chamamos de fase oral ou fase anal é a maneira como o sujeito articula sua demanda, através do aparecimento - em seu discurso no sentido mais amplo, na maneira como se presentifica diante de nós sua neurose - dos significantes que se formaram em tal ou qual etapa de seu desenvolvimento, e que lhe serviram para articular sua demanda em fases recentes ou mais antigas.


Se o Outro é o lugar da fala, é lá que isso fala e repercute por todo canto.


As partículas, os pronomes pessoais, os verbos auxiliares designam o lugar do mensageiro


a tríade destacada por todos os autores a propósito do obsessivo - anulação, isolamento, reação defensiva


O sujeito, captado no movimento do significante, deve conseguir conceber que aquilo com que ele se confrontou precocemente - o signif i cante do desejo que lhe subtraiu o objeto total, a mãe -, esse falo, ele não o é, mas está apenas submetido à necessidade de que esse falo ocupe um certo lugar. É somente a partir da percepção de que ele não o é que o sujeito pode aceitar aquilo que foi durante todo o processo profundamente questionado, ou seja, aceitar tê-lo, quando ele o tem, e não tê-lo, quando não o tem.


Foi por um desvio análogo, como lhes expliquei, que Dora se identificou com o Sr. K., a fim de situar o ponto de incidência da questão de seu desejo, qual seja: como se pode desejar uma mulher quando se é impotente?


O falo aparece aqui não sob sua forma simbólica, mas imagi­ nária. Digamos que o sujeito se complementa com uma imagem mais forte do que ele, uma imagem de potência.


o analista percebe perfeitamente que ela se recusa porque sua demanda só pode ser uma demanda de morte


quando não se quer falar, é em razão da presença do Outro


se ela não quer falar, é porque o que apareceu no lugar desse Outro (A) foi justamente o outro (a) que o analista fez tudo para presentificar


Que a conscientização da inveja do pênis é capital numa análise de neurose obsessiva feminina é evidente, pois jamais encontrar o falo na análise de uma neurose obsessiva, ou de qualquer outra neurose, seja ela feminina ou não, seria realmente muito est r anho.


Temos aqui uma neurose obsessiva e, como em toda neurose, o que temos primeiramente de fazer aparecer, justamente na medida em que não somos hipnotizadores e não tratamos pela sugestão, é uma dimensão mais além, na qual como que marcamos um encontro com o sujeito num certo ponto


toda demanda do sujeito obsessivo, e que é precisamente o que mais cria obstáculos à articu­ lação de sua demanda por ele. É o que a experiência nos ensina a qualificar de agressividade, e que nos levou cada vez mais a levar em consideração o que podemos chamar de anseio de morte


Se essa demanda é uma demanda de morte, é porque as primeiras relações do obsessivo com o Outro, como nos ensinam Freud e a teoria analítica, foram essencialmente compostas por uma contradição, a de que a demanda dirigida ao Outro de quem tudo depende tem por horizonte a demanda de morte


-Conheço os médicos o bastante para saber que, entre si, eles zombam de seus pacientes. O senhor é mais instruído do que eu. É impossível, para uma mulher, f alar com um homem.


o sujeito é como que remetido aos dois eixos de um impasse do qual não consegue sair


E de maneira inter n a que a demanda de morte conceme ao Outro. O fato de esse Outro ser o lugar da demanda implica, com efeito, a morte da demanda.


Não é que eu pense em tal coisa, articula-nos um desejo agressivo, desaprovador, depreciativo a nosso respeito.


Se não existe Deus, tudo é permitido.


Uma das coisas mais estranhas que existem, e foi preciso a psicanálise para apontá-la, é que não há necessidade alguma de qualquer referência a Deus nem à lei para que o homem fique literalmente imerso na culpa. A experiência nos mostra isso. Parece possível, inclusive, formularmos a expressão inversa, isto é, se Deus está morto, nada mais é permitido


Essa linha do horizonte não é formulada no neurótico, e é por isso que ele é neurótico.


Eu lhes disse antes que os dez mandamentos eram, muito provavelmente, leis da fala, ou seja, que todos os distúrbios começam a afetar o funcio­ namento da fala a partir do momento em que eles não são respeitados.


Se vocês lerem as notas tomadas por Freud sobre seu caso do Homem dos Ratos - trata-se do belo suplemento publicado na Standard Edition, onde encontramos alguns elementos cronológicos preciosos de conhecer -, verão que os primeiros con­ teúdos obsessivos de que o sujeito lhe falou eram os comandos que ele recebia -Você fará em seu exame antes de tal data, ou então, Que aconteceria se eu recebesse a ordem “Você vai cortar sua garganta com uma navalha” ? - e vocês sabem do estado de pânico em que ele entrou quando lhe veio à cabeça a ordem Você vai cortar a garganta da velha, a qual mantinha sua amada longe dele


Também vemos aparecerem esses comandos da maneira mais clara num outro contexto, nos psicóticos. Essas ordens, eles as rece­ bem, e um dos pontos-axiais da classif i cação é saber em que medida as obedecem. Numa palavra, a psicose coloca no horizonte da relação do sujeito com a fala a autonomia dessa função da ordem, experiência que só podemos considerar fundamental.


o sentimento de culpa aparece a propósito da aproximação de uma demanda sentida como proibida porque mata o desejo - e é preci­ samente nisso que ele se distingue da angústia difusa, que vocês sabem a que ponto difere do surgimento do sentimento de culpa.


Tudo o que vai na direção de uma certa formulação da demanda é acom­ panhado por um desaparecimento do desejo


determinado em seu impulso vivido, em seu impulso pelo sujeito, uma vez que o


sujeito está condenado a estar sempre em algum desses lugares, mas não pode estar em todos ao mesmo tempo. Eis o que é a culpa. É aí que aparece a interdição, mas não, dessa vez, como formulada - mas como demanda que interdita, que atinge o desejo, o faz desaparecer, mata-o.


É na medida em que o obsessivo está condenado a travar sua batalha de salvação por sua autonomia subjetiva, como costumamos exprimir-nos, no nível do desejo, que tudo o que aparece nesse nível, mesmo sob forma denegada, está ligado a essa aura de culpa.


A primeira relação de dependência é ameaçada pela perda do amor, e não simplesmente pela privação dos cuidados matemos, e é po r isso que ela já é homóloga, em si mesma, à que depois se organizará na perspectiva das leis da fala. Estas são desde logo prementes, virtuais, pré-formadas, desde a primeira demanda. Sem dúvida, elas não são completas, articuladas, e é por isso que um bebê não começa a ser obsessivo desde sua primeira mamada. Mas, desde sua primeira mamada, ele já pode muito bem começar a criar a hiância que fará com que seja na recusa a se alimentar que encontrará o testemunho por ele exigido do amor de sua parceira mater n a. Em outras palavras, po deremos ver surgir muito precocemente as manifestações da ano­ rexia nervosa.


O que especif i ca o caso do obsessivo? O caso do obsessivo está na dependência da formação precoce, nesse horizonte da demanda, do que chamamos de demanda de morte. Demanda de morte não é, pura e simplesmente, tendência mortífera. Trata-se de uma demanda art iculada e, pelo simples fato de ser articulada, ela não se produz no nível da relação imaginária com o outro, não é uma relação dual, mas visa, além do outro imaginário, seu ser simbolizado, e é também por isso que ela é pressentida e vivida pelo sujeito em seu retomo. É que o sujeito, por ser um sujeito falante, e unicamente por essa razão, não pode atingir o Outro sem atingir a si mesmo, de modo que a demanda de morte é a morte da demanda.


Que vemos no sujeito obsessivo masculino? O medo de ser contaminado e de con­ taminar, que a experiência corrente nos mostra a que ponto é impor­ tante nele. O obsessivo masculino, em geral, foi muito precocemente iniciado nos perigos das chamadas doenças venéreas, e todo o mundo sabe o lugar que, num grande número de casos, esse fato pode ocupar em sua psicologia. Não estou dizendo que isso seja constante, mas estamos habituados a interpretá-lo como indo muito além da racio­ nalidade da coisa. Como sempre, isso existe em Hegel. Muito embora, de uns tempos para cá, as coisas venham correndo muito bem, graças a algumas intervenções medicamentosas, nem por isso o obsessivo deixa de continuar muito obcecado no que conceme a tudo o que pode ser gerado por seus atos impulsivos na ordem libidinal. Quanto a nós, estamos habituados a ver nisso um impulso agressivo que transparece sob a pulsão libidinal, e que faz com que, de certa maneira, o falo seja algo perigoso.


Ela tem o falo sob a forma desse filho, possui de fato esse falo, uma vez que é nele que cristaliza a mesma obsessão dos doentes masculinos.


A própria violência de suas queixas contra a mãe era o testemunho da imensa af eição que


nutria por ela


Ela a achava de um meio mais elevado que o de seu pai, julgava-a mais inteligente, e era sobretudo f ascinada por sua energia, seu caráter, seu espírito de decisão, sua autoridade.


Essa é a primeira parte de um parágrafo em que se trata de nos fazer ver o desequilíbrio da relação parenta., que incontestavelmente existe, e de sublinhar o aspecto, diria eu, oprimido ou até deprimido do pai, na presença de uma mãe que talvez tenha sido viril, já que é assim que se interpreta o fato de o sujeito exigir que o atributo fálico esteja, de algum modo, ligado a essa mãe.


a paciente estava ligada a ela, sua mãe, num plano exclusivamente sadomasoquista.


A demanda de morte é a demanda da própria mãe. A mãe traz em si essa demanda de morte e a exerce no pobre personagem paterno, um cabo da polícia que, apesar de sua bondade e gentileza, das quais a paciente logo fala, mostra-se tristonho durante a vida inteira, deprimido, tacitur n o, não conseguindo superar a rigidez da mãe nem vencer o apego de


sua mulher a um primeiro amor, aliás platônico, ciumento e só rompendo seu mutismo para fazer eclodirem cenas veementes, das quais sempre sai derrotado. Ninguém duvida que a mãe tenha algo a ver com isso.


No nível do sujeito, essa demanda de morte é mediatizada por um horizonte edipiano que lhe permite aparecer no horizonte da fala, e não em seu imediatismo. Se não fosse mediatizada dessa maneira, não teríamos uma obsessiva, mas uma psicótica. Em contrapartida, na relação entre o pai e a mãe, essa demanda de morte não é mediatizada para o sujeito por nada que ateste um respeito pelo pai, uma colocação dele numa posição de autoridade e de suporte da lei pela mãe.


Num desses sonhos, que são os mais comuns de se observar na maioria das neuroses, a paciente percebe a si mesma como um ser fálico, vendo um de seus seios ser substituído por um falo, ou um falo situado entre seus dois seios.
Essa é uma das mais frequentes fantasias oníricas que podem ser encontradas em qualquer análise.


O analista muda o sentido do falo para sua paciente, tor n a-o legítimo para ela. Isso equivale mais ou menos a ensiná-la a amar suas obsessões. É isso mesmo que nos é dado como o saldo dessa terapêutica - as obsessões não diminuem, simplesmente a paciente não mais experimenta um sentimento de culpa em relação a elas. O resultado é operado por uma intervenção essencialmente centrada na trama das fantasias e na valorização delas como fantasias de rivalidade com o homem, rivalidade que supostamente transpõe sabe-se lá que agressividade referente à mãe, cuja raiz de modo algum é atingida.


solução verdadeiramente genita


o próprio estilo da interpretação, ou seja, que ela visa mais a redução da demanda do que a sua elucidação.


interpretação da agressividade. Talvez esse termo, justamente, seja vago demais para que os clínicos sempre tirem proveito dele. O termo demanda de morte poderia substituí-lo com vantagem, como o faz em alemão, a fim de indicar o nível de articulação subjetiva da demanda que é exigível atingir.


O mandamento cristão revela então seu valor ao ser prolongado: … como tu mesmo tu és .tu es., no nível da fala, aquele a quem odeias .tu hais. na demanda de morte, porque a desconheces


no nível da cadeia significante como tal, o sujeito está preso nesse Outro que é o inconsciente, e que, sem a intervenção de um Outro, ele não tem acesso ao inconsciente.


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