
Seminar 04 A relacao de object
Seminário 04 - A relação de objeto
Vamos falar, este ano, de um tema a que a evolução histórica da psicanálise, ou o que se chama assim, poderia dar, de maneira articulada ou não, uma posição central quanto à teoria e à prática.
O primeiro ano tratou dos próprios elementos da conduta técnica do tratamento, isto é, as noções de transferência e de resistência. O segundo ano abordou a base da experiência e da descoberta freudianas,
a saber, a noção do inconsciente, sobre a qual acredito ter-lhes mostrado bem que foi ela que impôs a Freud introduzir os princípios, literalmente paradoxais no plano dialético, que figuram em Além do princípio do prazer. Finalmente, no decorrer do terceiro ano, dei-lhes um exemplo manifesto da absoluta necessidade que existe de se isolar essa articulação essencial do simbolismo que se chama o significante, para compreender o que quer que seja, analiticamente falando, no campo propriamente paranoico das psicoses.
Tal como constituída no começo da análise, esta é a relação de fala virtual, pela qual o sujeito recebe do Outro sua própria mensagem, sob a forma de uma palavra inconsciente. Esta mensagem lhe é interditada, é por ele profundamente desconhecida, deformada, estagnada, interceptada pela interposição da relação imaginária entre a e a’, entre o eu e o outro, que é seu objeto típico. A relação imaginária, que é uma relação essencialmente alienada, interrompe, desacelera, inibe, inverte na maioria das vezes, desconhece profundamente a relação de palavra entre o sujeito e o Outro, o grande Outro, na medida em que este é um outro sujeito, um sujeito por excelência capaz de enganar.
A partir do momento em que a relação de objeto, como dual, se refere precisamente à linha a-a de nosso esquema, será possível a partir daí construir de maneira satisfatória o conjunto de fenômenos oferecidos à nossa observação na experiência analítica? Pode este instrumento permitir, por si só, responder pelos fatos? Pode o esquema mais complexo que lhe opusemos ser negligenciado, deverá ser ele até mesmo descartado?
E, sem dúvida, é muito difícil, a propósito da relação de objeto, partir dos próprios textos de Freud, porque ela não está neles.
o Entwurf, texto sobre o qual vou lembrá-los que só foi publicado por uma espécie de acidente histórico, pois não só Freud não fazia questão de publicá-lo como se pode até dizer que foi publicado contra a sua vontade.
Freud nos indica que o objeto é apreendido pela via de uma busca do objeto perdido. Este objeto, que corresponde a um estágio avançado da maturação dos instintos, é um objeto reencontrado, o objeto reencontrado do primeiro desmame, o objeto que foi inicialmente o ponto de ligação das primeiras satisfações da criança.
Uma nostalgia liga o sujeito ao objeto perdido, através da qual se exerce todo o esforço da busca. Ela marca a redescoberta do signo de uma repetição impossível, já que, precisamente, este não é o mesmo objeto, não poderia sê-lo
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A primazia dessa dialética coloca, no centro da relação sujeito-objeto, uma tensão fundamental, que faz com que o que é procurado não seja procurado da mesma forma que o que será encontrado. É através da busca de uma satisfação passada e ultrapassada que o novo objeto é procurado, e que é encontrado e apreendido noutra parte que não no ponto onde se o procura. Existe aí uma distância fundamental, introduzida pelo elemento essencialmente conflitual incluído em toda busca do objeto
Princípio do prazer e princípio de realidade não são destacáveis um do outro. Diria mais, eles se implicam e se incluem um ao outro, numa relação dialética.
O princípio de realidade só é constituído por aquilo que é imposto para sua satisfação ao princípio do prazer, ele não passa de seu prolongamento e, inversamente, implica, em sua dinâmica e procura fundamental, a tensão fundamental do princípio do prazer. Ainda assim, entre os dois, e isso é o essencial da contribuição da teoria freudiana, existe uma hiância, que não se poderia distinguir se um fosse simplesmente a continuação do outro. O princípio do prazer tende, com efeito, a se realizar em formações profundamente irrealistas, enquanto o princípio de realidade implica a existência de uma organização ou de uma estruturação diferente e autônoma, condicionando que o que ela apreende pode ser, justamente, fundamentalmente diferente daquilo que é desejado. Esta relação introduz, ela própria, na dialética do sujeito e do objeto, um outro termo, formulado aqui como irredutível.
em nenhum caso a relação sujeito-objeto é central.
Se essa relação pode parecer sustentar-se de maneira direta e sem hiância é somente porque se trata das relações chamadas, desde então, de pré-genitais: ver-ser visto, atacar-ser atacado, passivo-ativo. O sujeito vive essas relações de um modo que implica sempre, de maneira mais ou menos implícita, mais ou menos manifesta, sua identificação com o parceiro. Essas relações são vividas numa reciprocidade - o termo é válido aqui - de ambivalência entre-a posição do sujeito e a do parceiro.
O termo normalização já introduz, por si só, um mundo de categorias bem estranho ao ponto de partida da análise.
A ênfase posta no ambiente constitui uma redução do que é proporcionado por toda a experiência analítica.
Este exemplo não é único, pois o próprio dessa obra é ser coletiva em seu interior mesmo, de tal modo ela parece ser feita de uma curiosa homogeneização, mais que de uma articulação, propriamente falando.
Vamos ter que voltar a esses textos, que são obra de verdadeiros cagadores de pérolas. Mas não basta citá-los, mesmo formulando as observações humorísticas que eles sugerem suficientemente por si mesmos. É necessário ainda ter feito o progresso que se impõe.
A análise insiste em introduzir, do objeto, uma noção funcional de uma natureza bem diferente daquela de um puro e simples correspondente do sujeito. Não se trata de uma pura e simples cooptação do objeto com uma certa demanda do sujeito. O objeto tem ali um papel completamente outro, ele é, se podemos dizer assim, colocado sobre um fundo de angústia. O objeto é instrumento para mascarar, enfeitar o fundo fundamental de angústia que caracteriza, nas diferentes etapas do desenvolvimento do sujeito, sua relação com o mundo. É assim que, em cada etapa, o sujeito deve ser caracterizado.
Num outro registro, não é menos notável ver o que se tornam as noções de fetiche e de fetichismo. O fetiche desempenha, na perspectiva da relação de objeto, uma função de proteção contra a angústia e, coisa curiosa, a mesma angústia, isto é, a angústia de castração. Não parece que seja pelo mesmo viés que o fetiche estaria mais particularmente ligado à angústia de castração, na medida em que esta se liga à percepção da ausência de órgão fálico no sujeito feminino e à negação desta ausência. Pouco importa. Não podem deixar de ver que, também aqui, o objeto tem uma certa função de complementação com relação a alguma coisa que se apresenta como um furo, até mesmo como um abismo na realidade.
O objeto genital, para chamá-lo por seu nome, é a mulher.
Essas leituras, seria mais importante que vocês, e não eu, as fizessem. Isso lhes facilitaria a compreensão do que serei levado a dizer-lhes sobre nosso tema.
A estupidez humana dá uma ideia do inginito, dizia Renan. Pois bem, se ele vivesse em nossos dias, teria acrescentado: e as divagações teóricas dos psicanalistas.
Não creiam que eu as esteja assimilando à estupidez. Não, mas elas são de uma ordem própria a dar uma ideia do infinito. Com efeito, é surpreendente ver a que dificuldades extraordinárias se submeteram os espíritos de diferentes analistas, em consequência dos enunciados, tão abruptos e tão espantosos, de Freud.
O objeto se apresenta, inicialmente, em uma busca do objeto perdido. O objeto é sempre o objeto redescoberto, o objeto tomado ele próprio numa busca, que se opõe da maneira mais categórica à noção do sujeito autônomo, onde desemboca a ideia do objeto acabado.
A noção do objeto alucinado sobre um fundo de realidade angustiante. Este é o objeto, tal como surge do exercício do que Freud chama de sistema primário do prazer.
Inteiramente oposto a ele, na prática analítica, existe a noção do objeto que se reduz, afinal, ao real. Trata-se de reencontrar o real. Este objeto se destaca não mais sobre um fundo de angústia, mas sobre o fundo de realidade comum, se podemos dizer assim, e o limite da pesquisa analítica é perceber que não há razão para dele se ter medo. Medo é um termo a se distinguir de angústia.
reciprocidade imaginária, a saber que, em toda relação do sujeito com o objeto, o lugar do termo em relação é simultaneamente ocupado pelo sujeito. Assim, a identificação com o objeto está no fundo de toda relação com este.
O que é um obsessivo? É, em suma, um ator que desempenha seu papel e assegura um certo número de atos como se estivesse morto.
O jogo a que ele se entrega é uma maneira de colocá-lo ao abrigo da morte. É um jogo vivo que consiste em mostrar que ele é invulnerável.
Para este fim, exercita um adestramento que condiciona todas as suas abordagens de outrem. Vamos vê-lo numa espécie de exibição onde se trata, para ele, de mostrar até aonde pode ir no exercício, que tem todas as características de um jogo, inclusive suas características ilusórias - isto é, até aonde pode ir outrem, o pequeno outro, que não passa de seu alter ego, o duplo dele mesmo. O jogo se desenvolve diante de um Outro que assiste ao espetáculo. Ele próprio nada mais é que um espectador, a própria possibilidade do jogo e o prazer que dele retira residem aí. Em contrapartida, ele não sabe que lugar ocupa, eis o que há de inconsciente nele. O que ele faz, faz com fins de álibi.
Isso ele é capaz de entrever. Ele se dá conta, realmente, de que o jogo não é jogado ali onde ele está, e é por isso que quase nada do que acontece tem para ele verdadeira importância, mas isso não quer dizer que ele saiba de onde vê tudo isso.
Quem dirige o jogo, afinal? Sabemos que é ele mesmo, mas podemos cometer mil erros se não soubermos onde este jogo é conduzido. Daí a noção do objeto, do objeto significativo para este sujeito.
o sujeito, de certa forma, matou antecipadamente o desejo em si mesmo; se assim podemos dizer, ele o mortificou.
Quanto a dizer que uma reação como a da ironia seja, por sua natureza, agressiva, isso não me parece compatível com o que todo mundo sabe, a saber que, longe de ser uma reação agressiva, a ironia é antes de tudo uma maneira de questionar, um modo de questão. Se existe um elemento agressivo, ele é estruturalmente secundário com referência ao elemento em questão.
não se deve confundir falo e pênis
o real está no limite de nossa experiência.
Freud disse isso também, simplesmente é preciso reportar-se ali onde ele o disse, e ver que função isso tem. Ele deu a essa realidade uma importância inteiramente diversa.
Veem-se os analistas voltar a uma espécie de intuição primitiva, e perceber que tudo o que se dizia até então não explicava nada. Foi o que aconteceu com o Sr.
Winnicott, num pequeno artigo onde ele fala daquilo a que chama o tr a nsitional ob ject -vamos pensar em transição de ob jeto ou f enô meno transicional.
O princípio de prazer, nós o identificamos com uma certa relação de objeto, isto é, a relação com o seio matemo, enquanto o princípio de realidade foi identificado por nós ao fato de que a criança deva aprender a dele se abster.
distinguir entre o que é da ordem da satisfação fundada na alucinação do princípio, ligada ao funcionamento do processo primário, e a apreensão do real que a preenche e satisfaz efetivamente de que lado eles se situam na dialética reduzida, e encarnada, da alucinação e do objeto real.
Todos os objetos dos jogos da criança são objetos transicionais.
Os brinquedos, falando propriamente, a criança não precisa que lhe sejam dados, já que os cria a partir de tudo o que lhe cai nas mãos.
São objetos transicionais. A propósito destes, não é preciso perguntar se são mais subjetivos ou mais objetivos - eles são de outra natureza.
Mesmo que o sr. Winnicott não ultrapasse os limites chamando-os assim, nós vamos chamá-los, simplesmente, de imaginários.
Em suas obras, certamente muito hesitantes, cheias de rodeios e de confusões, vemos que é, ainda assim, a esses objetos que são sempre levados os autores que procuram explicar a origem de um fato como a existência do fetiche sexual.
a privação, em sua natureza de falta, é essencialmente uma falta real. É um furo.
A frustração é, por essência, o domínio da reivindicação. Ela diz respeito a algo que é desejado e não obtido, mas que é desejado sem nenhuma referência a qualquer possibilidade de satisfação nem de aquisição. A frustração é por si mesma o domínio das exigências desenfreadas e sem lei. O centro da noção de frustração, na medida em que esta é uma das categorias da falta, é um dano imaginário. É no plano imaginário que ela se situa.
só-depois nos maravilhar com isso, pois é certamente maravilhoso que só queiramos não falar disso
Aqui
A castração só pode se classificar na categoria da dívida simbólica.
Dívida simbólica, dano imaginário e furo, ou ausência, real, eis o que nos permite situar esses três elementos a que vamos chamar os três termos de referência da falta do objeto.
O objeto da frustração, em contrapartida, é realmente, em sua natureza, um objeto real, por mais imaginária que seja a frustração. É sempre de um objeto real que sente falta a criança por exemplo, sujeito preferencial da nossa dialética da frustração.
o objeto da privação, este não passa jamais de um objeto simbólico.
Isso é absolutamente claro - como é que alguma coisa poderia não estar em seu lugar, não estar num lugar onde, justamente, não está? Do ponto de vista do real, isso não quer dizer absolutamente nada. Tudo o que é real está sempre e obrigatoriamente em seu lugar, mesmo quando se o perturba. O real tem por propriedade carregar seu lugar na sola dos sapatos. Podem desarrumar quanto quiserem o real, ainda assim nossos corpos vão continuar em seu lugar depois da explosão de uma bomba atômica, em seu lugar de pedaços. A ausência de alguma coisa no real é puramente simbólica. E na medida em que definimos pela lei o que deveria estar ali que um objeto falta no lugar que é seu. Não há melhor referência do que esta: pensem no que acontece quando vocês pedem um livro numa biblioteca. Dizem-lhes que não está no lugar, ele pode estar bem ao lado, mas ainda assim, em princípio, falta no seu lugar - ele é, por princípio, invisível. Isso quer dizer que o bibliotecário vive inteiramente num mundo simbólico.
Quando falamos de privação, trata-se de objeto simbólico, e de nada mais.
Tam pouco estou aborrecido por não ter tido que fazê-lo.
a imagem do corpo não é um objeto
Estariam errados se acreditassem que esses objetos já revelaram seu segredo. Estão longe disso. Seja qual for o exercício a que nos entreguemos, acrobacia, contorsão, gênese fantasística, ainda assim permanece misterioso o fato
Podemos nos exercitar nisso, como se pode fazer qualquer coisa, mas mesmo assim fica um resíduo
Do mesmo modo, vocês puderam observar que o número de feti ches sexuais era bastante limitado. Por quê? Além dos sapatos, que desempenham aí um papel tão importante que podemos perguntar como é que não se presta mais atenção a eles, encontram-se apenas as ligas, as meias, os sutiãs e outros - todos muito chegados a pele. O principal é o sapato. Como se podia ser fetichista nos tempos de Catulo? Aí, também, há um resíduo
Já que se trata aqui de um ensino, e que nada mais importante que os mal-entendidos
simplesmente isso não interessa a ninguém
Não há nada que seja menos fixado a um suporte material do que a noção de libido em análise.
A referência a um suporte químico é, estritamente falando, sem importância alguma em se tratando da libido. Freud o diz: que haja uma, que haja várias, que haja uma para a feminilidade e uma para a masculinidade, ou duas ou três para cada uma, ou que sejam intercambiáveis, ou que haja uma, e apenas uma, como é com efeito muito possível que seja, isso não tem importância alguma, pois de qualquer maneira a experiência analítica nos traz a necessidade de pensar que só existe uma e única libido. Assim, Freud situa de imediato a libido num plano que é, se posso dizê-lo, neutra lizado, por mais paradoxal que o termo lhes pareça
A libido é o que liga o comportamento dos seres entre si
O Es é aquilo que no sujeito é suscetível, por intermédio da mensagem do Outro, de tomar-se Eu. Esta ainda é a melhor definição.
ESQUEMA DAS PARALELAS
Esta representaçao é tanto ma1s válida que nada se pode conceber, não apenas sobre a palavra, nem sobre a linguagem, mas sobre os fenômenos que se apresentam na análise, a menos que se admita a possibilidade essencial de perpétuos deslizamentos do significado sob o significante, e do significante sobre o significado. Nada da expe riência analítica se explica senão por este esquema fundamental.
O Espírito Santo é a entrada do significante no mundo.
Foi isso, com toda certeza, que Freud nos trouxe sob o termo instinto de morte. Trata-se desse limite do significado que jamais é atingido por algum ser vivo, ou mesmo que jamais é atingido de modo algum, a não ser num caso excepcional, provavelmente mítico, pois só o encontramos nos escritos últimos de uma certa experiência filo sófica. Todavia é algo que se encontra virtualmente no limite da reflexão do homem sobre sua vida, o que lhe permite entrever a morte como a condição absoluta, insuperável, de sua existência, como se expressa Heidegger. As relações do homem com o significante no seu conjunto estão muito precisamente ligadas a essa possibilidade de supressão, de colocação entre parênteses de tudo aquilo que é vivido.
EsQUEMA DAS PARALELAS (2)
as teorias sexuais infantis, que vão marcar com seus vestígios o desen volvimento de um sujeito, toda a sua história, tudo o que será para ele a relação entre os sexos, estão ligadas à primeira maturidade da fase genital, que se produz antes do desenvolvimento completo do Édipo, a saber, a fase fálica.
O que situo aqui no princípio da experiência analítica é a noção de que há significante já instalado e já estruturado. Já existe uma usina feita, e que funciona. Não foram vocês que a fizeram. Esta usina é a linguagem, que ali funciona há tão longo tempo quanto vocês podem lembrar. Literalmente, não podem lembrar-se para além disso, falo da história da humanidade em seu conjunto. Desde que existem aí signi f i cantes que funcionam, os sujeitos estão organizados em seu psiquis mo pelo jogo próprio desses significantes. Por esse motivo, o Es, que vocês vão buscar nas profundezas, não é algo tão natural assim, e menos ainda que as imagens. Para dizer a verdade, a existência na natureza da usina hidrelétrica feita por obra do Espírito Santo é o contrário mesmo da noção de natureza.
O instinto de morte nada mais é, com efeito, que percebermos que a vida é improvável e completamente caduca.
Noções deste tipo nada têm a ver com qualquer espécie de exercício vivo, pois o exercício vivo consiste precisamente em fazer sua pequena passagem na existência exatamente como todos aqueles que nos pre cederam na mesma linhagem típica.
o significante funciona sobre o fundo de uma certa experiência da morte.
Simbolizados quer dizer que eles são introduzidos no lugar do signif i cante como tal, que se caracteriza pelo fato de articu lar-se segundo leis lógicas.
designa-se por relação pré-genital a lembrança das experiências que são preparatórias para a experiência edipiana, mas que só se articulam nesta última
Na castração, há uma falta fundamental que se situa, como dívida, na cadeia simbólica. Na frustração, a falta só se compreende no plano imaginário, como dano imaginário. Na privação, a falta está pura e simplesmente no real, limite ou hiância real.
Qual é o objeto que está em causa, ou que é posto em jogo, na dívida simbólica instituída pela castração? Como lhes indiquei da última vez, é um objeto imaginário, o falo.
A noção de frustração, quando posta em primeiro plano da teoria analítica, se refere à primeira idade da vida. Ela está ligada à investi gação dos traumas, fixações, impressões, provenientes de experiências pré-edipianas. Isso não implica que seja exterior ao Édipo - ela lhe dá, de certa forma, o terreno preparatório, a base e o fundamento. Ela modela a experiência do sujeito e prepara nele certas inflexões que darão a vertente segundo a qual o conflito edipiano será levado a se infletir, de maneira mais ou menos intensa, num sentido que poderá ser atípico ou heterotípico.
Qual é o modo de relação para o objeto que está em jogo na frustração? Ele introduz manifestamente a questão do real.
os objetos que a criança quer reter consigo não são mais tanto objetos de satisfação, e sim a marca do valor dessa potência que pode não responder, e que é a potência da mãe.
Em outras palavras, a posição se inverteu - a mãe se tomou real, e o objeto simbólico. O objeto vale como o testemunho do dom oriundo da potência materna. O objeto tem, a partir daí, duas ordens de pro priedade satisfatória, ele é duas vezes objeto possível de satisfação -como anteriormente, ele satisfaz a uma necessidade, mas também simboliza uma potência favorável.
a imagem do falo para a mãe não é completamente reduzida à imagem da criança
a criança, como real, simboliza a imagem. Mais precisamente - a criança, como real, assume para a mãe a função simbólica de sua necessidade imaginária - os três termos estão aí.
Em que momento a criança pode, em certa medida, sentir-se despossuída ela mesma de algo que exige da mãe, percebendo que não é ela quem é amada, mas uma certa imagem?
Muito mais, a noção de que à mãe falta esse falo, de que ela própria é desejante, não somente de algo além dele próprio, porém simplesmente desejante, isto é, afetada em sua potência, será para o sujeito mais decisiva que tudo.
Anunciei-lhes, da última vez, o caso de uma fobia numa menina, e vou lhes indicar agora o seu interesse.
um elemento que é, como lhes dizia há pouco, provido de potência, a fim de justificar o que está ausente por estar ausente, por ter sido mordido, extraído
O interesse da observação é indicar com precisão as ausências da mãe durante o mês que precede a eclosão da fobia. Certamente, o tempo levado pela fobia para eclodir é bem mais longo, passam-se quatro meses entre a descoberta pela criança, de seu afalicismo, e a
eclosão da fobia, mas foi realmente necessário que acontecesse alguma coisa no intervalo. Primeiro, a mãe deixou de vir porque havia caído doente e foi preciso operá-la. A mãe não é mais a mãe simbólica, a mãe faltou, mas nada acontece. Ela volta, torna a brincar com a criança, nada acontece ainda. Ela volta apoiada numa bengala, volta fraca, não tem mais a mesma presença nem a mesma alegria, nem as mesmas relações hebdomadárias de aproximação e afastamento que fazem dela um ponto de ancoramento suficiente para a criança. E é nesse momen to, portanto, no terceiro tempo, muito afastado, que surge a fobia.
Descobrimos assim, graças à observação, que o afalicismo não bastou, mas que era preciso ainda haver essa segunda ruptura no ritmo alter n ado da ida-vinda da mãe. A mãe apareceu inicialmente como alguém que podia faltar, e sua falta inscreveu-se na reação e no comportamento da criança - a criança está muito triste, é preciso animá-la, no entanto não há fobia. A criança torna a ver a mãe, em seguida, sob uma forma débil, apoiada numa bengala, doente, cansada - no dia seguinte eclode o sonho com o cachorro, e a fobia se instala.
Nada é mais significativo e paradoxal no caso, a não ser um outro ponto que vou lhes dizer.
A partir de que momento a fobia se tor n a necessária? A partir do momento em que à mãe falta o falo
Há um outro ponto não menos surpreendente. Depois da fobia, a Blitz cessa, a mãe recupera sua filha, torna a casar-se. A garotinha se vê com um novo pai e um novo irmão, filho do padrasto. Este irmão, que ela adquiriu de repente e que é mais velho uns cinco anos, entre ga-se, com ela, a todo tipo de jogos, ao mesmo tempo de adoração e violentos. Pede a ela para mostrar-se nua, e se entrega, em sua direção manifestamente, a uma atividade inteiramente ligada ao interesse que lhe dedica na medida em que ela não tem pênis. E a psicoterapeuta se espanta - isso deveria ter sido uma bela ocasião para uma recaída de sua fobia.
A criança reencontra agora sua necessidade saturada pela pre sença materna, pela do pai, e de quebra por sua relação com o irmão.
Basta agora manter entre os três termos da relação mãe-criança-falo uma distância suficiente para que o sujeito não tenha, para mantê-la, que dar de si, que se pôr nisso.
o nascimento do objeto como fetiche.
Os autores, aqui, vão muito longe. Já aludi várias vezes ao fato de que um desses autores, é verdade que num período postulante de sua carreira, dera como virada crucial numa análise o momento em que seu analisando havia conseguido sentir seu cheiro. Não era uma metáfora, não se tratava de que ele pudesse senti-lo psicologicamente, tratava-se do momento em que o paciente percebera o odor do analista.
O afloramento dessa relação olfativa, sua vinda ao primeiro plano, é uma consequência matemática de tal concepção da relação analítica.
A partir do momento em que esta é concebida como uma posição real, simplesmente refreada, em cujo interior deve, pouco a pouco, se realizar uma distância que é a distância ativa e presente diante do analista, é realmente certo que um dos modos mais diretos da relação com o outro é esta apreensão à distância proporcionada pelo olfato.
Logo, eis como se chega a pensar a posição analítica quando se acredita que ela se inscreve numa situação de relação real entre dois personagens, que estes estão separados nesse recinto por uma barreira convencional, e que algo deve aí se realizar
Por que, aí, você não me responde?
este Outro suposto que é o sujeito como tal, o sujeito em que a fala de vocês se constitui, porque ele pode, não somente acolhê-la, percebê-la, mas também responder a ela. É sobre esta linha que se estabelece tudo o que é da ordem transferencial
Decerto, em cada neurose, o sujeito já tem, se podemos dizer, sua própria regulagem. A regulagem com referência à imagem lhe serve, com efeito, para ao mesmo tempo escutar e não escutar o que há a ser escutado no lugar da fala.
Se nosso esforço, nosso interesse, incide unicamente sobre a relação imaginária que ali está em posição trans versa com referência ao advento da palavra, se tudo é desconhecido sobre a relação entre a tensão imaginária e aquilo que se deve realizar, vir à luz, da relação simbólica inconsciente - e, no entanto, é toda a doutrina analítica que aí está, em estado potencial -, se esquecemos que existe algo que deve permitir ao sujeito elaborar-se, realizar-se tanto como história quanto como confissão, se negligenciamos a inte ração da relação imaginária com a simbólica e a impossibilidade do advento simbólico que constitui a neurose, se não os pensamos sem cessar cada um em função do outro, se não nos interessamos senão pelo que os paladinos dessa concepção chamam de distância para com o objeto, e para aniquilá-la, se é que isto é possível quando só nos interessamos por ela - que baste a vocês saber que já temos os resultados disso.
O que é abso lutamente certo num certo número de casos, e precisamente em casos de neurose obsessiva, é que, ao fazer do desenvolvimento inteiro da situação analítica uma busca da redução dessa famosa distância que seria característica da relação de objeto na neurose obsessiva, obtemos o que se pode chamar de reações perversas paradoxais.
a decepção funda mental da criança. Esta se produz quando ela reconhece - deixamos em aberto a questão de saber como - não apenas que ela não é o objeto único da mãe, mas que o interesse da mãe, mais ou menos acentuado segundo o caso, é o falo. A partir deste reconhecimento, resta perceber, em segundo lugar, que a mãe é justamente privada, que falta a ela mesma este objeto
Existe inicialmente uma dupla decepção imaginária - lo calização pela criança do falo que lhe falta, depois, num segundo tempo, percepção de que à mãe, a esta mãe que está no limite do simbólico e do real, falta também o falo. Segue-se o apelo feito pela criança a um termo que sustente esta relação insustentável. É então a eclosão da fobia, com o surgimento deste ser fantasístico que é o cão, que aqui intervém como, falando propriamente, o responsável por toda a situação, aquele que morde, aquele que castra, aquele graças ao qual o conjunto da situação é pensável, vivenciável simbolicamente, ao menos por um período provisório.
Para o menino, é absolutamente claro. Eu lhes disse outro dia, a criança enquanto ser real é considerada pela mãe como símbolo de sua falta de objeto, de seu apetite imaginário pelo falo. A saída normal desta situação é que a criança receba simbolicamente o falo de que necessita. Mas, para que dele necessite, é preciso que tenha sido previamente ameaçada pela instância castradora, que é originariamente a instância pater n a. É no plano simbólico, isto é, aqui, no plano de uma espécie de pacto, de direito ao falo, que se estabelece essa iden tificação viril que está no fundamento de uma relação edipiana nor mativa.
o objeto de amor anaclítico, que leva a marca de uma dependência primitiva da mãe
O termo anaclítico, ainda que o devamos a Freud, é muito mal empregado, pois na realidade não existe em grego o sentido que Freud lhe dá e que é indicado pelo termo alemão Anlehnung -é uma relação de apoio contra. Isso, aliás, se presta a todos os tipos de mal-enten didos, alguns tendo levado as coisas a ponto de fazer deste apoio contra uma reação de defesa. De fato, se lermos Freud, veremos muito bem que se trata de uma necessidade de apoio, que pede apenas para se abrir pelo lado de uma relação de dependência.
Desconhece-se sua essência, ao não se perceber o seguinte: é na medida em que o sujeito masculino, na relação simbólica, se vê investido do falo como tal, como perten cente a ele e sendo-lhe de um legítimo exercício, que ele se tor n a o portador do objeto do desejo para o objeto que sucede ao objeto mater n o, o objeto reencontrado e marcado pela relação com a mãe primitiva que é, em princípio, o seu objeto na posição normal do Édipo, e isso desde a origem da comunicação freudiana - a saber, a mulher.
É na medida em que a mulher depende dele, do falo de que ele é doravante o senhor, o representante, o depositário, que a posição se tor n a anaclítica.
A relação de dependência se estabelece à medida que, identifican do-se ao outro, ao parceiro objetai, o sujeito sabe que esse lhe é indispensável, que é ele, e somente ele, quem a satisfaz, porque é, em princípio, o único depositário deste objeto que é o objeto do desejo da mãe. É em função de semelhante realização da posição edipiana que o sujeito se encontra numa posição que podemos qualificar, se gundo uma certa perspectiva, de ótima em relação ao objeto reencon trado, sucessor do objeto materno primitivo com referência ao qual ele se torna, quanto a si, o objeto indispensável, e sabendo-se indis pensável. Uma parte da vida erótica dos sujeitos que participam desta vertente libidinal está inteiramente condicionada pela necessidade, uma vez experimentada, e assumida, do Outro, a mulher materna, na medida em que esta tem necessidade de encontrar nele o seu objeto, que é o objeto fálico. Eis o que faz a essência da relação anaclítica por oposição à relação narcísica.
No fetichismo, o próprio sujeito diz que encontrou finalmente seu objeto, seu objeto exclusivo, tanto mais satisfatório quanto é inanima do. Assim, ao menos, ele ficará muito tranquilo, certo de não sofrer decepção por parte dele. Amar um chinelo é, realmente, ter o objeto de seus desejos ao alcance. Um objeto desprovido de qualquer pro priedade subjetiva, intersubjetiva, até mesmo transubjetiva, é mais assegurado. No que diz respeito à realização da condição de falta como tal, a solução fetichista é, incontestavelmente, uma das mais concebí veis, e vamos encontrá-la efetivamente realizada.
O próprio das relações imaginárias é serem sempre perfeitamente recíprocas, já que são relações em espelho; por isso devemos também nos preparar para ver surgir de tempos em tempos, no fetichista, a posição, não de identificação com a mãe, mas de identificação com o objeto. É isso, efetivamente, o que veremos se produzir no decorrer de uma análise de fetichista, pois essa posição é sempre, como tal, o que há de menos satisfatório. O fato de que por um curto instante a iluminação fascinante do objeto que foi o objeto materno satisfaça o sujeito não basta para estabelecer um equilíbrio erótico de conjunto.
E, efetivamente, se é com o objeto que ele se identifica por um momento, ele aí perderá, se podemos dizê-lo, seu objeto primitivo, a saber, a mãe, e irá considerar a si mesmo como um objeto destruidor para ela. Este jogo perpétuo, esta profunda diplopia, marca toda a manifestação fetichista.
Esse sujeito fóbico, cuja atividade ficou bastante reduzida, chegou a uma inatividade quase completa. Seu sintoma mais manifesto é o medo de ser grande demais, e apresenta-se sempre com uma postura extremamente curvada. Quase tudo se lhe tornou impossível, no que diz respeito a suas relações com o meio profissional. Leva uma vida reduzida, limitada ao ambiente familiar, não sem ter uma amante quinze anos mais velha que ele, que lhe foi fornecida pela mãe. É no momento em que ele se encontra nesta constelação que a analista se apodera dele e começa, com ele, a abordar a questão.
o da perversão, entre aspas, a mais problemática possível na perspectiva da análise, a saber, a homossexualidade feminina.
exegese
A af i rmação paradoxal do falicismo é o próprio pivô em torno do qual a interpre tação teórica deve se desenvolver.
a própria prática analítica se engaja inflexivelmente num desvio indomável
a menina, no momento em que entra no Édipo, começa a desejar um filho do pai como substituto do falo faltoso, e que a decepção de não recebê-lo desempenha um papel essencial para fazê-la voltar atrás no caminho paradoxal por onde ela entrou no Édipo, a saber, a identifi cação com o pai, em direção à retomada da posição feminina
importância não no fato de que ela não tivesse o falo, mas no seguinte:
que sua mãe não lhe podia dá-lo, e mais, ainda, que não podia dá-lo porque ela própria não o tinha.
Frustração não é privação. Por quê? A frustração incide sobre algo de que vocês são privados por alguém de quem poderiam, justamente, esperar o que lhe pediam. O que está assim em jogo é menos o objeto que o amor de quem lhes pode fazer este dom. O objeto da frustração é menos o objeto que o dom.
O dom, se trazido como tal, faz em todos os casos evanescer-se o objeto como objeto. Se a demanda é atendida, o objeto passa a segundo plano. Se a demanda não é atendida, o objeto se evanesce igualmente.
Só há frustração - a palavra implica isso - se o sujeito entra na reivindicação, na medida em que o objeto é considerado como exigível por direito. O objeto entra, nesse momento, no que se poderia chamar de área narcísica das pertinências do sujeito.
o narcisismo, graças a que o objeto é ao mesmo tempo, para o sujeito, algo que é ele e que não é ele, e com o qual jamais se pode satisfazer, precisamente no sentido em que é ele e não é ele ao mesmo tempo. A entrada da frustração numa dialética que a situa legalizando-a, e lhe dá igualmente a dimensão da gratui dade, é uma condição necessária ao estabelecimento desta ordem simbolizada do real onde o sujeito poderá, por exemplo, instaurar como existentes e admitidas certas privações permanentes.
É unicamente a partir da entrada do sujeito numa ordem que preexiste a tudo o que lhe ocorre, acontecimentos, satisfações, decepções, que tudo a partir de que ele aborda sua experiência - a saber, aquilo a que chama o seu vivido, essa coisa confusa que está ali antes - se ordena, se articula, assume seu sentido e pode ser analisado.
Em suma, o fato de que isso deixe o pai absolutamente encolerizado é com certeza um motivo para a jovem não sustentar essa paixão, mas conduzi-la como o faz.
Houve, na infância do sujeito, um momento que parece não ter ocorrido isoladamente, quando ela pôde perceber, a propósito do mais velho de seus dois irmãos, a diferença que fazia dela alguém que não tinha o objeto essencialmente desejável, o objeto fálico.
O sujeito está intimamente ligado à escalada da tensão, até o momento em que estoura o conflito, em que a catástrofe acontece
Qual é, pois, a decepção que opera a inversão? No momento, por volta dos quinze anos, em que o sujeito se engajava no caminho de tomar posse da criança imaginária - e ela se ocupa disso o bastante para que marque uma data nos seus antecedentes -, sua mãe tem, realmente, um outro filho do pai. A paciente adquire um terceiro irmão.
Aí está o ponto-chave.
Também é este o caráter, aparentemente excepcional, deste caso.
Não é banal que a intervenção de um irmãozinho vindo ao mundo como este tenha por resultado uma inversão tão profunda da orientação sexual de um sujeito. Logo, é neste momento que a moça muda de posição.
plano de um interesse intelectual
seus sonhos anunciam um surpreendente ref l orescimento da orientação mais simpática, a espera da vinda de algum esposo belo e satisfatório
ela reproduz com ele sua posição fundamental, o jogo cruel que jogou com o pai.
o essencial do que está no inconsciente é a relação do sujeito com o Outro como tal, e essa relação implica em sua base a possibilidade de realizá-la no nível da mentira. Na análise, estamos na ordem da mentira e da verdade.
É também - diz ele -uma tentativa de me enr o lar, me cativar , f azer com que eu a ache muito bonita. Esta frase a mais basta para nos instruir. Ela deve ser encantadora, essa moça, para que, como com Dora, Freud não esteja completamente neutro nesse assunto. Afirman do que lhe é prometido o pior, o que ele quer evitar é sentir-se ele mesmo desiludido. Isso quer dizer que está prestes a iludir-se. Pondo-se em guarda contra as ilusões, ele já entrou no jogo. Ele realiza o jogo imaginário. Fá-lo tor n ar-se real, já que está dentro dele. E isso não falha.
o próprio das relações homossexuais seja apresentar toda a variedade das relações heterossexuais comuns
trata aqui do amor platônico no que este tem de mais exaltado.
Este é um amor que não demanda qualquer outra satisfação além do serviço
é a exaltação que está no fundo da relação
Em suma, ele situa a relação da moça com a dama no mais alto grau da relação amorosa simbolizada, colocada como serviço, como instituição, como referência. Não é simplesmente uma atração sentida ou uma necessidade, é um amor que, em si, não apenas dispensa a satisfação, mas visa, muito precisamente, a não-sa tisfação. Esta é a própria ordem em que um amor ideal pode se expandir: a instituição da falta na relação com o objeto.
Por que há uma verdadeira crise em seguida? É porque então intervém o objeto real. Uma criança é dada pelo pai, é verdade, mas justamente a outra pessoa, e a alguém que lhe é mais próximo.
No extremo do amor, no amor mais idealizado, o que é buscado na mulher é o que falta a ela. O que é buscado, para além dela, é o objeto central de toda a economia libidinal: o falo.
Enquanto as práticas masturbatórias mais ou menos associadas a essas fantasias não acarretam, para os sujeitos, qualquer carga de culpa, em compensação quando se trata de formular essas fantasias, não apenas se apresentam, frequentemente, grandes dificuldades, mas ainda isso provoca neles uma aversão bastante pronunciada, repugnância, culpa.
A distância entre o uso fantasístico ou imaginário dessas imagens e sua formulação falada
um limite: isso não é da mesma ordem do jogar mentalmente com a fantasia, ou falar dela.
Meu pai, pode-se dizer pra acentuar as coisas nesse sentido, bate em meu irmão ou
minha irmã por medo de que eu não acredite que o pre f iram a mim.
Eu sou espancado por meu pai.
situação dessubjetivada que é a da fantasia terminal, a saber: Bate-se numa criança.
Nesse Se, reencontra-se vagamente a função pater n a, mas em geral o pai não é reconhecível, não passa de um substituto
Por outro lado, Freud quis respeitar a fórmula do sujeito, mas trata-se, com frequência, não de uma criança, e sim de várias. A produção fantasística vai fazê-la explodir, multiplicando-a em mil exemplares, o que bem mostra a dessubjetivação essencial que se produz nessa relação.
Resta, com efeito, uma dessubjetivação radical de toda a estrutura, em cujo nível o sujeito ali está reduzido ao estado de espectador, ou simplesmente de olho, isto é, daquilo que sempre caracteriza no limite, no ponto da última redução, toda espécie de objeto. É preciso, para vê-lo, nem sempre um sujeito, mas ao menos um olho, que pode não passar de uma tela sobre a qual o sujeito é instituído.
pênis da mãe fálica.
a criança se detém na sua observação, pelo menos esta é a sua lembrança, na barra do vestido da mãe
a função de substituto daquilo que não é visto, mas que é articulado, formulado como sendo verdadeiramente para o sujeito o que a mãe possui, a saber, o falo, imaginário sem dúvida, mas essencial à sua fundação simbólica como mãe fálica.
A dimensão imaginária aparece, pois, prevalente a cada vez que se trata de uma perversão.
Vamos partir da fase fálica da organização genital. Qual é o sentido do que nos diz Freud a respeito disso? Logo antes do período de latência, o sujeito infantil, masculino ou feminino, chega à fase fálica, que indica o ponto de realização do genital. Tudo está ali, até e inclusive a escolha do objeto. Existe, no entanto, alguma coisa que não está ali, a saber, a plena realização da função genital, realmente estruturada e organizada. Resta, com efeito, um elemento fantasístico, essencialmente imaginário, que é a prevalência do falo, mediante o que há para o sujeito dois tipos de seres no mundo: os seres que têm o falo e os que não o têm, isto é, que são castrados
Freud insiste nesse ponto: o falo não tem, por uma boa razão, o mesmo valor para aquele que possui realmente o falo, isto é, a criança masculina, e para a criança que não o possui, isto é, a criança feminina.
A criança feminina, é na medida em que não possui o falo que ela se introduz na simbólica do dom. É na medida em que ela faliciza a situação, isto é, que se trate de ter ou não ter o falo, que ela entra no complexo de Édipo. O menino, como nos sublinha Freud, não é por aí que ele entra, é por aí que ele sai. No fim do complexo de Édipo, no momento em que realiza num certo plano a simbólica do dom, é preciso que ele faça dom daquilo que tem. A menina, se entra no complexo de Édipo, é na medida em que ela não tem, ela tem que encontrá-lo no complexo de Édipo.
O que ela não tem, o que quer dizer isso? Já estamos, aqui, no nível em que um elemento imaginário entra numa dialética simbólica.
Ora, numa dialética simbólica, o que não se tem é tão existente quanto o resto. Simplesmente, é marcado pelo sinal de menos. Ela entra, portanto, com este menos, como o menino com o mais. Resta que é necessário haver alguma coisa para se poder colocar mais ou menos, presença ou ausência. O que está em questão aí é o falo. Aí está, nos diz Freud, qual a mola da entrada da menina no complexo de Édipo.
Por outro lado, esta criança de quem ela toma conta, o que satisfaz nela? A substituição imaginária fálica, pela qual, como sujeito, ela se constitui, sem o saber, como mãe imaginária. Se ela se satisfaz cui dando dessa criança é realmente por adquirir, assim, o pênis imaginário de que foi fundamentalmente frustrada, o que vou notar pondo o pênis imaginário no nível do menos. Nada mais faço, assim, que valorizar o seguinte, que é característico da frustração originária: todo objeto introduzido por uma frustração realizada só poderia ser um objeto que o sujeito toma nessa posição ambígua que é a da pertinência ao seu próprio corpo.
a maneira como a criança poderia constituir um mundo a partir de suas frustrações.
Logo, produziu-se uma permutação que fez passar no imaginário o pai simbólico, por identificação do sujeito à função do pai.
Essa relação é marcada pelo fato de que aquilo que estava articu lado de maneira latente no nível do grande Outro começa a se articular de maneira imaginária, à maneira de perversão, e é, aliás, por essa razão e não por outra que isso vai resultar numa perversão. A moça se identifica com o pai e assume o papel deste. Toma-se ela mesma o pai imaginário. Ela também conserva seu pênis, e agarra-se a um objeto que não tem, ao qual é preciso, necessariamente, que ela dê este algo que ele não tem.
Essa necessidade de situar o eixo do amor, não no objeto, mas naquilo que o objeto não tem, nos põe, justamente, no coração da relação amorosa e do dom. É este algo que o objeto não tem e que toma necessária a constelação terceira da história deste sujeito.
Seria preciso que sua noção de transferência estivesse baseada numa posição menos oscilante, e que ele tivesse concebido bem precisa mente que a transferência se passa, de modo essencial, no nível da articulação simbólica.
essa passagem ao nível da consulta é um elemento que por si só denota claramente uma crise no conjunto social onde um certo equilíbrio fora até então mantido
a histérica é alguém que ama por procuração, e vocês vão encontrar isso numa multiplicidade de casos clínicos; a histérica é alguém cujo objeto é homossexual: a histérica aborda este objeto homossexual por iden tificação com alguém do outro sexo
é por intermédio do sr. K., é na medida em que ela é o sr. K., é no ponto imaginário constituído pela personalidade do sr. K. que Dora está ligada ao personagem da sra. K.
Dora é uma histérica, isto é, alguém que chegou ao nível da crise edipiana, e que ao mesmo tempo pôde e não pôde ultrapassá-la. Existe uma razão para isso: é que o pai dela, contrariamente ao pai da homossexual, é impotente. Toda a observação repousa na noção central da impotência do pai. Aí está, portanto, a ocasião de valorizar, e de uma maneira particularmente exemplar, aquilo que pode ser a função
do pai com referência à falta de objeto pela qual a menina entra no Édipo. Qual pode ser a função do pai como doador?
Essa situação repousa sobre a distinção que já fiz a propósito da frustração primitiva, aquela que pode se estabelecer na relação da criança com a mãe. Existe o objeto de que a criança é frustrada. Mas, depois da frustração, seu desejo subsiste. A frustração só tem sentido na medida em que o objeto, como pertinência do sujeito, subsiste depois da frustração. A mãe intervém, então, num outro registro: ela dá ou não dá, mas na medida em que esse dom é signo de amor.
Aí está agora o pai, que é feito para ser aquele que dá, simboli camente, esse objeto faltoso. Aqui, no caso de Dora, ele não o dá, porque não o tem. A carência fálica do pai atravessa todo o caso como uma nota fundamental, constitutiva da posição
Com efeito, ao pai de quem não recebe simbolicamente o dom viril, ela permanece muito ligada, tão ligada que sua história começa exatamente na idade da saída do Édipo, com toda uma série de aci dentes histéricos claramente ligados a manifestações de amor por este pai que, naquele momento, mais do que nunca, aparece decisivamente como um pai ferido e doente, afetado em suas próprias potências vitais.
O amor que ela tem por esse pai é então estritamente correlativo e coextensivo à diminuição deste.
Logo, temos aí uma distinção muito nítida. O que intervém na relação de amor, o que é demandado como signo de amor nunca passa de alguma coisa que só vale como signo. Ou, para ir ainda mais adiante, não existe maior dom possível, maior signo de amor que o dom daquilo que não se tem. Mas vamos observar bem que a dimensão do dom só existe com a introdução da lei. Como nos afirma toda a meditação sociológica, o dom é algo que circula, o dom que vocês fazem é sempre aquele que receberam. Mas quando se trata do dom entre dois sujeitos, o ciclo de dons vem ainda de outra parte, pois o que estabelece a relação de amor é que o dom é dado, se podemos dizê-lo, em troca de nada.
O nada por nada é o princípio da troca. Esta fórmula, como toda fórmula onde intervém o nada ambíguo, parece ser a fórmula própria do interesse, mas é também a fórmula da pura gratuidade. No dom de amor, alguma coisa é dada por nada, e que só pode ser nada. Em outras palavras, o que faz o dom é que um sujeito dá alguma coisa de uma maneira gratuita; na medida em que, por detrás do que ele dá, existe tudo o que lhe falta, é que o sujeito sacrifica para além daquilo que tem
Não há outra razão para se amar a Deus senão que talvez ele não exista
O que é certo é que Dora está ali, no momento em que ama seu pai. Ela o ama, precisamente, pelo que ele não lhe dá
Toda a situação se instaura como se Dora tivesse que se formular a questão: O que é que meu pai ama na sra. K. ? A sra. K. se apresenta
como algo que seu pai pode amar para além dela mesma. Aquilo a que Dora se apega é o que é amado por seu pai numa outra, na medida em que ela não sabe o que é
Dora se interroga: O que é uma mulher? E é na medida em que a sra. K. encama a função feminina como tal que ela é, para Dora, a representação daquilo em que esta se projeta como sendo a questão. Dora está no caminho da relação dual com a sra. K., ou melhor, a sra. K. é aquilo que é amado para além de Dora, e é por isso que Dora se sente, ela própria, interessada nessa posição. A sra. K. realiza aquilo que ela, Dora, não pode nem saber nem conhecer por essa situação em que não encontra onde se alojar. O que é amado num ser está para além daquilo que ele é, a saber, afinal de contas, o que lhe falta.
O sr. K. quer dizer que não há nada depois da sua mulher:
Minha mulher não está no circuito.
O que resulta disso? Dora não pode tolerar que ele não se interesse por ela senão na medida em que ele só se interesse por ela. Toda a situação estaria rompida ao mesmo tempo. Se o sr. K. só se interessa por ela, é porque seu pai só se interessa pela sra. K., e a partir daí ela não pode mais tolerá-lo. Por quê?
Dora se revolta absolutamente, e começa a dizer: Meu pai me vende a um outr o . Este é, com efeito, o resumo claro e perfeito da situação, na medida em que ela é mantida semiencoberta. De fato, é realmente para o pai uma maneira de pagar a complacência do marido da sra. K. tolerar de forma velada que este último faça a Dora essa corte a que, nos últimos anos, se entregou.
O sr. K., portanto, confessou não fazer parte de um circuito onde Dora poderia ou identificar-se a si mesma, ou pensar que ela, Dora, fosse seu objeto para além da mulher através de quem ela se liga a ele. Há uma ruptura desses laços, sutis e ambíguos, sem dúvida, mas dotados de um sentido, de uma orientação perfeita, que permitiam a Dora encontrar seu lugar no circuito, mesmo que de modo instável. A situação se desequilibra. Dora se vê relegada ao papel do puro e simples objeto, e começa desde então a entrar na reivindicação. Ela reivindica o que estava muito disposta até então a considerar que recebia, mesmo que por intermédio de uma outra, e que é o amor de seu pai. A partir daquele momento, já que este lhe é recusado total mente, ela o reivindica com exclusividade.
Se é verdade que o que se mantém no inconsciente de nossa homossexualidade é a promessa do pai, V ocê terá um f ilho meu, e se no seu amor exaltado pela dama ela mostra, como diz Freud, o modelo do amor absolutamente desinteressado, do amor por nada, não veem que tudo se passa como se a moça quisesse mostrar a seu pai o que é um verdadeiro amor, este amor que seu pai lhe recusou? Sem dúvida, existe no inconsciente do sujeito o pensamento de que o pai se envol-
veu com a mãe porque encontra nisso mais vantagens, e com efeito essa relação é fundamental em toda entrada da criança no Édipo, a saber, a superioridade esmagadora do rival adulto. O que a moça demonstra aqui ao pai é como se pode amar alguém, não apenas pelo que ele tem, mas literalmente pelo que não tem, por este pênis sim bólico que ela sabe muito bem que não vai encontrar na dama, porque sabe muito bem onde ele se encontra, isto é, em seu pai, que, este, não é impotente.
metonímia, que consiste em dar a escutar alguma coisa falando de uma coisa completamente dife rente
Se não apreenderem em toda a sua generalidade esta noção fun damental da metonímia, é inconcebível que cheguem a uma noção qualquer do que pode querer dizer a perversão no imaginário.
quando um filme é bom é porque é metonímico. E, igualmente, a função da perversão do sujeito é uma função metonímica.
na perversão, com uma conduta significante indicando um sig nificante que está mais longe na cadeia significante, na medida em que lhe está ligado por um significante necessário
Literalmente, o sr. K. é sua metáfora, por( . ue Dora nada pode dizer sobre o que ela é, Dora não sabe onde se situar, nem onde está, nem para o que serve, nem para que serve o amor. Simplesmente, ela sabe que o amor existe, e encontra nele uma historização onde acha seu lugar sob a forma de uma questão. Esta questão está centrada pelo conteúdo e articulação de todos os seus sonhos - a caixa de joias, Bahnho f , Friedho f , V orho f -que nada mais significam senão essa questão. Em suma, é na medida em que Dora se interroga sobre o que é ser mulher que ela se exprime como o faz, por seus sintomas. Esses sintomas são elementos significantes, mas na medida em que, sob eles, corre um significado perpetuamente em movimento, que é a maneira como Dora aí se implica e se interessa.
Como Freud nos sublinha, isso também tem um outro sentido, o de uma perda definitiva do objeto. Esse falo que lhe é decididamente recusado tomba, niederkommt. A queda tem aqui um valor de privação definitiva, e também de mímica de uma espécie de parto simbólico.
Encontram aí o lado metonímico de que lhes falava. Se o ato de se precipitar de uma ponte férrea no momento crítico e terminal de suas relações com a dama e com o pai pode ser interpretado por Freud como uma maneira demonstrativa de se fazer ela mesma essa criança que não teve, e ao mesmo tempo destruir-se num último ato signifi cativo do objeto, é por fundar-se unicamente na existência da palavra niederkommt.
Esta palavra indica metonimicamente o termo último, o termo de suicídio, onde se exprime na homossexual o que está em questão, e que é o único motor de toda a sua perversão, a saber, em conformidade com o que Freud muitas vezes afirmou em relação à patogênese de um certo tipo de homossexualidade feminina, um amor estável e particularmente reforçado pelo pai.
uma perda definitiva do objeto
o que é amado no objeto é aquilo que falta a ele - só se dá o que não se tem.
Em suma, o pênis de que se trata não é o pênis real, é o pênis na medida em que a mulher o tem - isto é, na medida em que ela não o tem.
nada é tão delicado, até mesmo fastidioso, como situar o ponto preciso onde um assunto se esquiva porque o autor evita o ponto crucial de uma discriminação
não se trata em absoluto de um falo real na medida em que, como real, ele exista ou não exista, trata-se de um falo simbólico, na medida em que é de sua natureza apresentar-se na troca como ausência, ausência funcionando como tal.
Com efeito, tudo o que se pode transmitir na troca simbólica é sempre alguma coisa que é tanto ausência quanto presença. Ele é feito para ter essa espécie de alternância fundamental, que faz com que tendo aparecido num ponto, desapareça, para reaparecer num outro.
Em outras palavras, ele circula, deixando atrás de si o signo de sua ausência no ponto de onde vem. Em outras palavras ainda, o falo em questão - nós o reconhecemos desde logo - é um objeto simbólico.
Por um lado, estabelece-se através desse objeto um ciclo estrutural de ameaças imaginárias que limita a direção e o emprego do falo real.
Aí está o sentido do complexo de castração, e é nisso que o homem fica preso. Mas existe também um outro uso, que é, se podemos dizê-lo, oculto pelas fantasias mais ou menos temíveis da relação do homem com os interditos, na medida em que estes incidem sobre o uso do falo: é a função simbólica do falo. Na medida em que ele está ali ou não está ali, e unicamente na medida em que ele está ou não está ali, é que se instaura a diferenciação simbólica entre os sexos.
Este falo, a mulher não o tem, simbolicamente. Mas não ter o falo, simbolicamente, é dele participar a título de ausência, logo, é tê-lo de alguma forma. O falo está sempre para além de toda relação entre o homem e a mulher. Ele pode ser, ocasionalmente, objeto de uma nostalgia imaginária por parte da mulher, na medida em que ela tem apenas um falo muito pequenino. Mas este falo que ela pode sentir como insuficiente não é o único que entra em função para ela, uma vez que, na medida em que ela está presa na relação intersubjetiva, existe para o homem, mais além dela, este falo que ela não tem, isto é, o falo simbólico, que existe ali como ausência. Isso é independente, por completo, da inferioridade que ela possa sentir no plano imaginá rio, pela participação real que ela tem com o falo.
É na medida em que a menina não tem esse falo, isto é, também na medida em que ela o tem no plano simbólico, na medida em que ela entra na dialética simbólica de ter ou não ter o falo, é por aí que ela entra nessa relação ordenada e simbolizada que é a diferenciação dos sexos, relação inter-humana assumida, discipli nada, tipificada, ordenada, marcada por interditos, m�rcada, por exem plo, pela estrutura fundamental da lei do incesto
é sempre o menino que é fetichista, nunca a menina. Se tudo residisse no plano da diferença, ou mesmo da inferioridade imaginária, entre os dois sexos, seria de preferência naquele que é realmente privado do falo que o fetichismo se deveria declarar mais abertamente. Ora, não é nada disso. O feti chismo é excessivamente raro na mulher
O véu, a cortina diante de alguma coisa, ainda é o que melhor permite ilustrar a situação fundamental do amor. Pode-se mesmo dizer que com a presença da cortina, aquilo que está mais além, como falta, tende a se realizar como imagem. Sobre o véu pinta-se a ausência.
Um senhor que passara sua primeira infância na Inglaterra e que viera se tornar fetichista na Alemanha, buscava sempre um pequeno brilho no nariz
Quais são as causas da instauração da estrutura fetichista? Nesse ponto, os gramáticos não lhes garantem nada
Em suma, encontramos nas relações com o objeto amoroso que organizam esse ciclo no fetichista uma alternância de identificações. Identificação com a mulher, confrontada com o pênis destruidor, com o falo imaginário das experiências pri mordiais do período oro-anal, centradas na agressividade da teoria sádica do coito, e, com efeito, muitas experiências que são reveladas pela análise mostram uma observação da cena primitiva percebida como cruel, agressiva, violenta, até mesmo assassina. Inversamente, identificação do sujeito com o falo imaginário, que o faz ser para a mulher um puro objeto, que ela pode devorar e, no limite, destruir.
uma criança fora impedida de andar até a idade de dois anos, laços efetivos a prendiam à cama. Isso não poderia deixar de ter alguma consequência. O fato de que ela vivesse assim, estrita mente vigiada no quarto de seus pais, colocava-a na posição exemplar de estar inteiramente entregue a uma relação puramente visual, sem qualquer esboço de reação muscular que partisse dela. Sua relação com os pais era assumida , no estilo da raiva e da cólera que vocês bem podem supor
Temos, igualmente, casos muito bonitos em que se vê o sujeito, na medida em que tentou ter acesso a uma relação plena em certas condições de realização artificial, de forçamento do real, exprimir por seu acting-out, isto é, no plano imaginário, aquilo que estava simbo licamente latente na situação. Temos disso um exemplo com o sujeito que tenta, pela primeira vez, uma relação real com uma mulher, mas que se envolve ali nessa posição de experiência, onde ele vai lá para mostrar que é capaz de fazê-lo. Ele alcança seu objetivo mais ou menos bem graças à ajuda da mulher, mas logo depois, e quando nada até então deixava prever nele a possibilidade de tais sintomas, entrega-se a uma exibição muito singular, e muito bem calculada, que consiste em mostrar seu sexo à passagem de um trem inter n acional, de modo que ninguém pode pegá-lo com a mão na botija. O sujeito foi forçado aqui a deixar sair alguma coisa que estava implícita em sua posição.
Seu exibicionismo é apenas a expressão, ou a projeção no plano imaginário, de algo de que ele mesmo não compreendeu todas as ressonâncias simbólicas, a saber, que o ato que acabava de efetuar, afinal de contas, não passavâ da tentativa de mostrar - de mostrar que ele era capaz, como qualquer outro, de ter uma relação normal.
À falta de poder de alguma maneira assumir essa paternidade, à falta mesmo de poder acreditar nela, este bom homem foi mostrar, no lugar certo, o equivalente da criança, ou seja, o que lhe restava então do uso de seu falo.
No travestismo, o sujeito se identifica com aquilo que está por trás do véu, com aquele objeto a que falta alguma coisa. Os autores viram isso com clareza na análise, e o dizem na língua deles: o travesti se identifica com a mãe fálica, na medida em que esta, por outro lado, vela a falta de falo.
Esse travestismo nos faz ir muito longe na questão. Tampouco esperamos por Freud para abordar a psicologia das roupas. Em todo uso da roupa, existe algo que participa da função do travestismo. Se a apreensão imediata, corrente, comum da função da roupa é esconder as pudenda, a questão deve se complicar um pouco aos olhos do analista. Bastaria que alguém dentre os autores que falam na mãef álica
quisesse mesmo perceber o sentido daquilo que diz. As roupas não são feitas apenas para esconder o que se tem, no sentido de ter ou não, mas também, precisamente, o que não se tem. Ambas as funções são essenciais. Não se trata, sempre e essencialmente, de esconder o objeto, mas também de esconder a falta de objeto. Esta é uma simples aplicação, no caso da dialética imaginária, daquilo que é esquecido com demasiada frequência, a saber, a presença e a função da falta de objeto.
Existe na escopofilia uma dimensão suple mentar da implicação, expressa no uso da língua pela presença do reflexivo, esta forma do verbo que existe em outras línguas e que se chama a voz média. Seria, aqui, dar-se a ver
Alguns falam, naturalmente, de um tipo Mignon. Todos vocês conhecem a criação de Goethe, Mignon a nômade, cuja posição bis sexuada é frisada pelo próprio autor, e que vive com uma espécie de protetor enorme, brutal e manifestamente superpaterno, chamado Harfner. Ele lhe serve, em suma, de servidor superior, mas ela, ao mesmo tempo, lhe é muito necessária. Goethe diz em algum lugar sobre este casal -Haif ner , de quem ela tem a maior necessidade, e Mignon sem a qual ele nada pode f azer. Encontramos aí acoplados a potência encarnada em estado maciço, brutal, e, por outro lado, aquilo sem o que esta é desprovida de eficácia, aquilo que falta à própria potência, e que, afinal de contas, é o segredo de sua potência verda deira. Aquilo nada mais é que uma falta.
Vimos aqui, em ação, um personagem enfeitiçado, ou uma fada - é a mesma palavra, ambos se referem a f actiso em português, de onde historicamente a palavra f eitiço (f étiche) nasceu, e que nada mais é que o termo f actício
Cada vez que há uma frustração de amor, esta é compen sada pela satisfação da necessidade. É na medida em que a mãe falta à criança que a chama que esta se agarra ao seu seio, e que este seio se toma mais significativo que tudo. Enquanto o tem na boca e se satisfaz com ele, por um lado a criança não pode ser separada da mãe, por out r o lado isso a deixa alimentada, repousada e satisfeita. A satis fação da necessidade é, aqui, a compensação da frustração do amor, e começa a se tomar, ao mesmo tempo, o seu álibi.
Lembro a vocês que é numa data situável e que, necessariamente, não se dá antes do sexto mês que se produz a relação com a imagem do outro, que dá ao sujeito a matriz em torno da qual se organiza para ele o que eu chamaria de sua incompletude vivida: a saber, o fato de que ele está em falta. É com relação a esta imagem que se apresenta como total, não apenas preenchedora, mas fonte de júbilo em razão da relação específica do homem com sua própria imagem, que este realiza que algo pode lhe faltar. É na medida em que o imaginário entra em jogo que, sobre os fundamentos das duas primeiras relações simbólicas entre o objeto e a mãe da criança, pode aparecer que, tanto à mãe quanto à ela, algo pode faltar imaginariamente. É na relação especular que o sujeito tem a experiência e a apreensão de uma falta possível, de que alguma coisa mais além pode existir, alguma coisa que é uma falta.
como substituto jamais consegue preencher a falta na mãe.
o desejo, no inconsciente, recalcado, é indestrutível.
o desejo do impossível.
E se vocês ainda pudessem duvidar de que a palavra desempenhe aqui um papel essencial, eu os faria observar que se a pequena Anna Freud não tivesse articulado aquilo em palavras jamais teríamos sabido nada disso.
a anorexia mental não é um não comer, mas um comer nada. Insisto: isso quer dizer comer nada.
Nada, isso é justamente algo que existe no plano simbólico
Desde a origem, a criança se alimenta tanto de palavras quanto de pão, e perece por palavras.
Como diz o Evangelho, o homem não perece apenas pelo que entra na sua boca, mas também pelo que dela sai.
não é simplesmente de faltar o falo que se trata, no que diz respeito à menina, mas simplesmente de dá-lo à sua mãe, ou dar a esta um equivalente dele, exatamente como se fosse um menino
Vamos tomar por exemplo o travestismo. No travestismo, o sujeito põe em causa o seu falo. Esquecemos que o travestismo não é sim plesmente um caso de homossexualidade mais ou menos transposta, que não é simplesmente um caso de fetichismo particularizado. É preciso que o fetiche seja portado pelo sujeito. Fenichel, em seu artigo Psychoanalysis o fTr a nsvestism, publicado no /J P n2 2, 1930, acentua muito bem o fato de que aquilo que está sob as vestes femininas é uma mulher. O sujeito se identifica com uma mulher, mas com uma mulher que tem um falo, apenas ela tem um, na medida que oculto.
O falo deve sempre participar do que o esconde. Vemos aí a impor tância essencial daquilo a que chamei o véu. É pela existência das roupas que se materializa o objeto. Mesmo quando o objeto real está ali, é preciso que se possa pensar que ele possa não estar, e que seja sempre possível pensar-se que ele está ali, precisamente onde não está.
Do mesmo modo, na homossexualidade masculina, para nos limi tarmos a ela hoje, é ainda de seu falo que se trata para o sujeito, mas, coisa curiosa, é do seu na medida em que vai buscá-lo num outro
Todas as perversões põem sempre em jogo, por algum lado, este objeto significante na medida em que ele é, por sua natureza e por si mesmo, um verdadeiro significante, isto é, algo que não pode em caso algum ser tomado por seu valor aparente. Quando se o apreende, quando se o encontra e se fixa nele definitivamente, como é o caso na perversão das perversões, que chamamos de fetichismo - é ela real mente, que mostra não apenas onde ele de fato está, mas o que ele é -, o objeto é exatamente nada. É uma roupa velha usada, uma roupa que não serve mais. Isso é o que se vê no travestismo: um sapatinho usado. Quando ele aparece, quando se revela realmente, é o fetiche.
Esta mãe insa ciável, insatisfeita, em tomo de quem se constrói toda a escalada da criança no caminho do narcisismo, é alguém real, ela está ali e, como todos os seres insaciados, ela procura o que devorar, quaerens quem devoret. O que a própria criança encontrou outrora para anular sua insaciedade simbólica, vai reencontrar possivelmente diante de si como uma boca escancarada. A imagem projetada da situação oral, vamos reencontrá-la também no nível da satisfação sexual imaginária.
O furo aberto da cabeça da Medusa é uma figura devoradora que a criança encontra como saída possível em sua busca da satisfação da mãe.
Aí está o grande perigo que nos é revelado por suas fantasias, ser devorado. Vamos encontrá-lo na origem, e reencontrá-lo nesse desvio, onde nos dá a forma essencial sob a qual se apresenta a fobia.
Trata-se de que a criança assuma o falo como significante, e de uma maneira que faça dele instrumento da ordem simbólica das trocas, na medida em que ele preside à constituição das linhagens. Trata-se, em suma, de que ela se confronte com esta ordem que fará da função do pai o pivô do drama.
menino, e, por exemplo, em suas atividades sedutoras com relação à mãe. Quando ele se exibe, não é pura e simples mostração, é mostração de si mesmo, por si mesmo, à mãe, que existe como um terceiro
Se a teoria analítica atribui ao Édipo uma função normativa, vamos lembrar que nossa experiência nos ensina que não basta que esta con duza o sujeito a uma escolha objetai, mas é preciso ainda que esta escolha de objeto seja heterossexual. Nossa experiência nos ensina também que não basta ser heterossexual para sê-lo conforme as regras, e que existem todas as espécies de formas de heterossexualidade aparente. A relação francamente heterossexual pode ocultar, ocasio nalmente, uma atipia posicional que a investigação analítica vai nos
mostrar ser derivada, por exemplo, de uma posição francamente ho mossexualizada. Portanto, não basta que o sujeito, depois do Édipo, alcance a heterossexualidade, é preciso que o sujeito, moça ou rapaz, chegue a ela de forma tal que se situe corretamente com referência à função do pai. Aí está o centro de toda a problemática do Édipo
A NOSTALGIA DO FALO
o Édipo é essencialmente androcêntrico ou patrocên trico.
A descoberta freudiana, que permite analisar a experiência subjetiva, nos mostra a mulher numa posição que é, se podemos dizê-lo - já que falei de ordenamento, de ordem, ou de ordenação simbólica - subordinada. O pai é para ela, inicial mente, objeto de seu amor - isto é, objeto do sentimento que se dirige ao elemento de falta no objeto, na medida em que é pela via desta falta que ela foi conduzida a esse objeto que é o pai. Esse objeto de amor se torna em seguida aquele que dá o objeto de satisfação, o objeto da relação natural de procriação. A partir daí, só é preciso que ela tenha um pouco de paciência para que o pai venha enfim ser substituído por aquele que irá preencher exatamente o mesmo papel, o papel do pai, dando-lhe, efetivamente, uma criança.
A simples redução da situação à identificação entre o objeto de amor e o objeto que dá satisfação explica também, aliás, o lado especialmente fixado, até mesmo precocemente estagnado, do desen volvimento da mulher com relação ao desenvolvimento que se pode qualificar de normal. Em certos momentos de seus escritos, Freud assume um tom singularmente misógino para se queixar amargamente da grande dificuldade que existe, ao menos para certos sujeitos femi ninos, em mobilizá-las, fazê-las sair de uma espécie de moral, como ele diz, de sopa com bolinhos, que comporta exigências muito impe riosas quanto às satisfações a usufruir, por exemplo, da própria análise.
No caso do menino, a função do Édipo parece muito mais clara mente destinada a permitir a identificação do sujeito com o seu próprio sexo, que se produz, em suma, na relação ideal, imaginária, com o pai.
Mas não é este o verdadeiro objetivo do Édipo, que é a justa situação do sujeito com referência à função do pai, isto é, que ele próprio aceda um dia a essa posição tão problemática e paradoxal de ser um pai.
Ora, este acesso apresenta inversamente uma montanha de dificulda des.
toda a interrogação freudiana se resume no seguinte: O que é ser um pai?
Se é fato que, para cada homem, o acesso à posição pater n a é uma busca, não é impensável dizer que, finalmente, ninguém jamais o foi por completo.
o objeto fóbico vem preencher sua função sobre o fundo da angústia
Devido ao apego permanente do sujeito a este primitivo objeto real que é a mãe enquanto frustrante, todo objeto feminino será para ele não mais que um objeto desvalorizado, um substituto, um modo quebrado, refratado, sempre parcial, com referência ao objeto primeiro matemo.
e isso desde o começo da doutrina freudiana, está na natureza do complexo de Édipo a sua resolução
a superação da hostilidade ao pai pode ser legitimamente ligada a um recalque. Mas na mesma frase ele faz questão de sublinhar que esta é mais uma ocasião para se constatar que a noção de recalque se aplica sempre a uma articulação particular da história, e não a uma relação permanente
Existe crise, existe resolução. E este acontecimento deixa atrás de si um resultado, que é a formação de alguma coisa de particular e de datado no inconsciente, a saber, o supereu
o grande Outro, que é, de certa forma, sua testemunha, aquele que vê o conjunto da situação
A PRESENÇA DO OUTRO
a noção de que, no nível do grande Outro, existe alguém que pode responder em qualquer situação, e que responde que, em todo caso, o falo, o verdadeiro, o pênis real, é ele quem o tem. É ele que tem o trunfo maior, e sabe disso. Ele se introduz na ordem simbólica como um elemento real, inverso da primeira posição da mãe, simbolizada no real por sua presença e sua ausência.
Até então, o objeto ao mesmo tempo estava e não estava lá. Era desse ponto que o sujeito havia partido com referência a qualquer objeto, a saber, que um objeto estava ao mesmo tempo presente e ausente, e que sempre se podia jogar com a presença ou a ausência de um objeto
objeto sobre o qual um Outro é sempre capaz de mostrar que o sujeito não o tem, ou o tem de forma insuficiente. Se a castração exerce esse papel essencial para toda a continuação do desenvolvimento, é porque ela é necessária à assunção do falo mater n o como um objeto simbólico.
Somente a partir do fato de que, na experiência edipiana essencial, ela está privada do objeto por aquele que o tem, que sabe que o tem, que o tem em todas as ocasiões, é que a criança pode conceber que este mesmo objeto simbólico lhe será dado um dia.
um pequeno criminoso. É pela via do crime imaginário que ele entra na ordem da lei.
Não acreditem em nada disso, pois, para dizer isso a quem quer que seja, quem sou eu?
A prova disso se encontra na própria obra de Freud. Foi preciso um espírito tão ligado, quanto o de Freud, às exigências do pensamento científico e positivo para fazer essa construção à qual Jones nos confia que ele se apegava mais que a toda sua obra. Ele não a colocava em primeiro plano, pois sua obra principal, a única - isso ele escreveu, afirmou e jamais desmentiu -, é a Interpretação dos sonhos, mas a que lhe era mais cara, com um êxito que lhe parecia uma performance, é T otem e tabu, que nada mais é que um mito moderno, um mito construído para explicar o que permanecia em hiância em sua doutrina, a saber: Onde está o pai?
se isso não é o que lhes digo, ou seja, um mito, é inteiramente absurdo.
Este supereu tirânico, fundamentalmente paradoxal e contingente, representa por si só, mesmo entre os não neuróticos, o significante que marca, imprime, impõe o selo no homem de sua relação ao sig nificante. Há no homem um significante que marca sua relação ao significante, e a isso se chama o supereu. Existem, mesmo, muito mais que um deles, e a isso se chama os sintomas.
apesar de todo o amor do pai, toda a sua gentileza, toda a sua inteligência graças à qual temos a observação, não existe pai real.
Toda a sequência do jogo prossegue no engodo, no final insupor tável, angustiante, intolerável, da relação do pequeno Hans com sua mãe, de onde não se sai. Ele ou ela, um ou outro, sem que jamais se saiba qual, é o falóforo ou a falófora, a grande ou a pequena girafa.
Segue se que, afinal de contas, se a doutrina freudiana atribui à fixação durável na mãe os fracassos, até mesmo as degradações da vida amo rosa, e vê em sua permanência uma coisa qualquer que marca por uma tara original o ideal que seria desejado da união monogâmica, não se deve crer, todavia, que exista uma nova forma de um ou … ou, mos trando que se o incesto não se produz ali onde o desejamos, isto é, no atual, ou nos lares perfeitos, como se diz, é justamente porque ele se produziu em outro lugar. Em ambos os casos, é realmente de incesto que se trata. Em outras palavras, existe aí algo que porta em si seu limite, uma duplicidade fundamental, uma ambiguidade sempre pronta a renascer.
Com efeito, a aphanisis é o desaparecimento, mas desaparecimen to de quê? Em Jones, é o desaparecimento do desejo. A aphanisis, substituindo a castração, é o temor para o sujeito de ver extinguir-se nele o desejo
Mas, se as coisas ficam facilitadas para o locutor, isso não quer dizer que o sejam igualmente para o ouvinte um pouco mais exigente
A própria noção de privação, tão sensível e visível numa expe riência como aquela, implica a simbolização do objeto no real. Pois, no real, nada é privado de nada. Tudo o que é real basta a si mesmo.
Por definição, o real é pleno. Se introduzimos no real a noção de privação, é na medida em que já o simbolizamos bastante, e mesmo plenamente. Indicar que alguma coisa não está ali é supor sua presença possível, isto é, introduzir no real, para recobri-lo e perfurá-lo, a simples ordem simbólica.
O pai simbólico, por sua vez, é uma necessidade da construção simbólica, que só podemos situar num mais-além, diria quase que numa transcendência, pelo menos como um termo que, como lhes indiquei de passagem, só é alcançado por uma construção mítica.
Insisti frequentemente no fato de que este pai simbólico, afinal de contas, não está representado em parte alguma. Cabe à continuação de nosso percurso confirmar para vocês se isso é válido, efetivamente útil, se isso nos fará reencontrar na realidade complexa este elemento do drama da castração.
Encontramos agora em nosso quadro o pai real e o pai imaginário.
Se o pai simbólico é o significante de que jamais se pode falar senão reencontrando ao mesmo tempo sua necessidade e seu caráter, e que portanto nos é necessário aceitar como um dado irredutível do mundo do significante, o pai imaginário e o pai real são dois termos que nos trazem muito menos dificuldade.
O pai imaginário é aquele com que lidamos o tempo todo. É a ele que se refere, mais comumente, toda a dialética, a da agressividade, a da identificação, a da idealização pela qual o sujeito tem acesso à identificação ao pai. Tudo isso se passa no nível do pai imaginário.
Se o chamamos de imaginário, é também porque ele está integrado à relação imaginária que forma o suporte psicológico das relações com o semelhante, que são, falando propriamente, relações de espécies, que estão no fundo de qualquer captura libidinal, como no fundo de qualquer ereção agressiva. O pai imaginário participa também desse registro e apresenta características típicas. E o pai assustador que conhecemos no fundo de tantas experiências neuróticas, e que não tem de forma alguma, obrigatoriamente, relação com o pai real da criança.
Vemos intervir frequentemente nas fantasias da criança uma figura ocasionalmente caricata do pai, e também da mãe, que tem somente uma relação extremamente longínqua com aquilo que esteve presente do pai real da criança, e que é unicamente ligada à função desempe nhada pelo pai imaginário num momento dado do desenvolvimento.
O pai real é uma coisa completamente diferente, do qual a criança só teve uma apreensão muito difícil, devido à interposição de fantasias e à necessidade da relação simbólica. O mesmo acontece, aliás, com
cada um de nós
temos uma enorme dificuldade de apreender aquilo que há de mais real em torno de nós, isto é, os seres humanos tais como são. Toda a dificuldade, tanto do desenvolvimento psíquico quanto, simplesmente, da vida quotidiana, é de saber com o que realmente estamos lidando
O fato de que o mundo da criança seja feito apenas de um puro estado de sujeição, de limites indeterminados, ao órgão que a satisfaz, isto é, ao órgão de nutrição, não sou o primeiro a contradizê-lo
Isso é o fato de que, em grau diferente conforme os sujeitos, a mãe conserva o Penis-neid. A criança o preenche ou não o preenche, mas a questão se coloca. A descoberta da mãe fálica para a
criança, a do Penis-neid para a mãe, são estritamente coextensivas do problema que abordamos.
O que é que muda, quando nada de crítico acontece na vida do pequeno Hans? O que muda, é que o seu próprio pênis começa a tornar-se alguma coisa completamente real. Seu pênis começa a agitar, e a criança começa a se masturbar. O elemento importante não é tanto que a mãe intervenha neste momento, mas que o pênis se tenha tornado real. Este é o fato concreto da observação. A partir daí, devemos nos perguntar se não existe uma relação entre este fato e o que aparece então, isto é, a angústia.
a angústia, nessa relação tão ex traordinariamente evanescente por onde nos aparece, surge a cada vez que o sujeito é, por menos sensivelmente que seja, descolado de sua existência, e onde ele se percebe como estando prestes a ser capturado por alguma coisa que vocês vão chamar, conforme o caso, de imagem do outro, tentação etc. Em suma, a angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar.
Ela é aprisionada em sua própria armadilha, vítima de seu próprio jogo, presa de todas as discordâncias, confrontada com a hiância imensa que existe entre satisfazer uma imagem e ter algo de real para apresentar: apresentar cash, se posso dizer. O que não deixa de se produzir não é simplesmente que a criança fracasse nas suas tentativas de sedução por tal ou tal razão, ou que ela seja, por exemplo, rejeitada pela mãe. O que desempenha, então, um papel decisivo é que aquilo que ela tem, afinal de contas, para apresentar aparece - disso temos mil experiências na realidade analítica - como algo de mise rável. A criança é então colocada diante dessa abertura de ser o cativo, a vítima, o elemento apassivado de um jogo onde vira presa das significações do Outro. Aí existe dilema.
A partir do momento em que o jogo fica sério, e em que, ao mesmo tempo, não passa de um jogo de tapeação, a criança é inteiramente sujeita àquilo que o parceiro lhe indica. Todas as manifestações do parceiro se tor n am para ela sanções de sua sufi ciência ou de sua insuficiência
orgia imaginária no decorrer da análise
a substituição daquilo que é real por algo de mais belo e maior.
eu só quis lhes dar o bastante para que pudessem ver o quanto se abre seu leque de questões
Saibam inclusive que não fabriquei tudo isso como uma espécie de excursão matemática, com a incompetência universal que me ca racterizaria. Estariam errados se pensassem assim. Para começar, essas não são coisas sobre as quais eu tenha começado ontem a ref l etir. Além disso, fiz com que isso fosse controlado por um matemático. Não acreditem que, pelo fato desses esclarecimentos terem sido acrescen tados, se tenha introduzido o menor elemento de incerteza ou de fragilidade.
Entendam bem que é porque o leão não sabe contar até três que as leoas não experimentam, entre elas, o menor sentimento de ciúme, ao menos aparentemente
Não é, em absoluto, a mesma coisa o fato da criança ser, por exemplo, a metáfora de seu amor pelo pai ou a metonímia de seu desejo do falo, que ela não tem e não terá jamais.
Tudo na conduta da mãe com o pequeno Hans - a quem ela carrega consigo para todo canto, desde o banheiro até sua cama - indica que a criança lhe é um apêndice indispensável.
A criança concebe então que pode não mais preencher de maneira nenhuma sua função, nada mais ser, não ser nada mais que este algo que parece ser alguma coisa, mas que ao mesmo tempo não é nada, e que se chama uma metonímia.
agorafobia
ela introduz no mundo da criança uma estrutura, ela põe, precisa mente, em primeiro plano, a função de um interior e de um exterior.
Até então, a criança estava, em suma, no interior de sua mãe, e acaba de ser rejeitada dali, ou de se imaginar rejeitada, ela está na angústia,
e ei-la que, com ajuda da fobia, instaura uma nova ordem do interior e do exterior, uma série de limiares que se põem a estruturar o mundo.
a fobia é construída à frente do ponto de angústia.
Sem dúvida, isso é muito bonito, transformamos a an gústia em medo, e o medo é, aparentemente, mais tranquilizador que a angústia. Mas isso tampouco é certo.
O medo não pode, em caso algum, ser considerado como elemento primitivo, elemento último na estrutura da neurose. No conflito neurótico, o medo intervém como um elemento de sentinela avançada, e contra alguma coisa inteiramen te diversa, que é, por natureza, sem objeto, a saber, a angústia. Aí está o que a fobia nos permite articular.
Mas, trata-se para mim de ensiná-los a imaginar a topografia de um campo fora dos itinerários já percor ridos
Acontece, por exemplo, de vocês retornarem ao ponto de partida sem se dar conta
quando estão num lugar tão familiar e tão perfeitamente autônomo quanto o seu banheiro, não lhes ocorre, com frequência, que se furassem a parede estariam no primeiro andar da livraria ao lado, que todos os dias, enquanto tomam seu banho, o trabalho continua na livraria vizinha, que está ali, ao alcance de suas mãos?
Quero simplesmente lhes mostrar, aí, coisas que qualquer imbecil poderia encontrar - a não ser um psicanalista, porque este não é um imbecil qualquer.
a criança é levada progressivamente a perceber que deve deslizar para uma posição terceira, enf i ar-se em algum lugar entre o desejo de sua mãe, que ela aprende a experimentar, e o objeto imagi nário que é o falo.
qual a simples oposição cerrada entre o intelectual e o afetivo não poderia dar conta de modo algum.
a atividade de pesquisa
A verdade tem uma estrutura, se podemos dizer, de ficção.
Qual é a autenticidade dos temas imaginativos do pequeno Hans?
Freud mesmo o evoca, é muito possível que eles lhe houvessem sido sugeridos.
Não somente esta sugestão existe no caso do pequeno Hans, mas vamos vê-la eclodir abertamente. O modo interrogatório do pai se apresenta a todo instante como uma verdadeira inquisição, às vezes pressionadora, que tem mesmo o caráter de uma direção dada às respostas da criança. Como Freud sublinha em muitas passagens, o pai intervém de maneira aproximativa, grosseira, até mesmo franca mente desajeitada. Todos os tipos de mal-entendidos se manifestam na maneira como ele registra as respostas da criança, e como ele se apressa em compreender demais, e depressa demais, o que Freud igualmente sublinha. Isso é absolutamente manifesto à leitura da ob servação - as construções de Hans estão longe de ser independentes da intervenção paterna, com seus constantes erros apontados por Freud; respondem a elas da maneira mais sensível, como seu próprio comportamento. Vê-se o mesmo, a partir de um certo momento, ace lerar-se, arrebatar-se, e a fobia assumir um caráter de hiperprodutivi dade absolutamente notável.
Trata-se de saber em que sentido isso é verdade. Os analistas, em especial os analistas do sexo feminino, objetam regularmente que não se vê por que as mulheres estariam fadadas, mais que os outros, a desejar justamente aquilo que não têm, ou a se acreditarem providas dele. Pois bem, isso é por razões - vamos nos limitar a isso - que são da ordem da existência do significante e de sua insistência própria.
É porque o falo tem um valor simbólico no sistema signif i cante, e porque ele é, assim, retransmitido através de todos os textos do dis curso inter-humano, que ele se impõe, de maneira prevalente dentre as outras imagens, ao desejo da mulher.
parece ser ainda cedo demais para que ela aceite as explicações que lhe são dadas
fato de ser Freud que tenha dito ao pai para intervir assim é interessante
É que, nessa série formada por esses três elementos ou instrumentos que se chamam a mãe, a criança e o falo, o falo não é mais apenas algo com que se joga, ele se torna recalcitrante, tem suas fantasias, suas necessidades, suas reclamações, e promove a maior confusão
Qual é a nossa tentativa deste ano?
É a de conservar o relevo e a articulação de Freud na famosa e pretensa relação de objeto, que se verifica ao exame não ser assim tão simples quanto se diz, e até mesmo jamais ter sido tão simples assim.
Caso contrário, não se veria por que a obra de Freud daria um lugar a essas duas dimensões - ainda, e talvez cada vez mais, enigmáticas - chamadas complexo de castração e mãe fálica, o que nos levou a concentrar nossas pesquisas no caso do pequeno Hans, onde tentamos agora aplicar a análise para desemaranhar as relações fundamentais
do sujeito, aquilo a que se chama o seu meio ambiente, destacando tipos relacionais que seriam de uso analítico.
categorias tão frouxas quanto as que Freud introduziu
O que está ali em questão não é tanto ver e sofrer o domínio daquilo que é visto, mas procurar ver, espiar, aquilo que ao mesmo tempo está e não está ali.
O que é visado na relação em jogo é algo que está ali na medida em que permanece velado, e deve-se sustentar o engodo para manter alguma coisa que está ali e não está. O drama imaginário tende para uma situação fundamental da qual não podemos desconhecer o caráter crucial, onde ele se insere e assume um sentido ainda mais elaborado - a situação da surpresa.
Se o objeto imaginário desempenha aqui um papel fundamental, é na me dida em que ele já está capturado na dialética do velamento e do desvelamento.
A profunda complexidade das relações do homem com a mulher vem precisamente do que poderíamos chamar, em nossa rude linguagem, a resistência dos sujeitos masculinos em admitir, efetivamente, que os sujeitos femininos sejam realmente desprovidos de alguma coisa, e, com mais forte razão, que sejam providos de alguma coisa diferente
ão importante brincar de que não fosse
o fato de que a mãe já é uma adulta e está presa no sistema de relações simbólicas no interior das quais se situam as relações sexuais inter-humanas
Como desconhecer, aqui, que os atos espontâneos de uma criança são algo de muito mais direto e mais vivo que as concepções mentais de um ser adulto depois de longos anos de cretinização amplificadora constituída comumente por aquilo que se chama educação.
Como é gentil e esperto, da parte do bom Deus, ter posto menos cavalos hoje
Tendemos a crer que o bom Deus lhe poupou dificuldades, mas como o cavalo não é apenas uma dificuldade, mas também um elemento essencial, isso quer dizer que ele, Hans, precisa menos de cavalos hoje. Seja como for, o bom Deus está ali como um ponto de referência essencial.
Muito antes que você nascesse, eu havia previsto que um dia um garotinho iria gostar demais da mãe dele e por causa disso ia ter pr o blemas com o pai.
É espantoso ver Freud assumir essa posição. Não vamos nem pensar em censurá-lo por isso. Há muito tempo observei para vocês a dimensão original, excepcional, que Freud assume em todas as suas análises, na medida em que a palavra interpretativa que ele dá ao sujeito não é um enunciado que ele transmite, mas algo que ele mesmo realmente encontrou, e que passa diretamente por sua boca na auten ticidade da palavra, referência que lhes ensino ser tão essencial. Não podemos deixar de perceber o quanto uma interpretação de Freud é diferente de todas aquelas que podemos dar, depois dele. Como vimos com muita frequência, Freud não se impõe, aqui, nenhuma espécie de regra, ele assume justamente a posição que eu poderia chamar de divina - é do alto do Sinai que ele fala ao jovem Hans, e este não deixa de demonstrar que sabe disso.
Em vez de nos satisfazermos recobrindo o fato com termos que servem para qualquer coisa - complexo disso, complexo daquilo, relação anal, ligação com a mãe -, mais vale tentar ver as funções, os elementos representativos, fi gurativos, que elas nos trazem, como essas narrativas muito articuladas que são os mitos antigos.
Temos o hábito de dar, aos termos em jogo, equivalentes em profusão, dizendo: isso representa o pai, isso representa a mãe, isso representa o pênis. Ora, cada um dos elementos, o cavalo, por exemplo, só é concebível em sua relação com um certo número de outros elementos igualmente significativos. É impossível fazer corresponder o cavalo, não mais que qualquer outro dos elementos dos mitos freu dianos, a uma significação unívoca. O cavalo é, inicialmente, a mãe, o cavalo é no final o pai, entre ambos ele também pôde ser o pequeno Hans que, com efeito, de vez em quando brinca de cavalo, ou ainda o pênis, do qual o cavalo é, manifestamente, o representante em diversos pontos da história.
Isso, que é verdadeiro da maneira mais manifesta no que se refere ao cavalo, o é também para qualquer elemento significante que se encontre nos diferentes modos da criação mítica, extremamente abun dante, a que se entrega o pequeno Hans. A banheira é, em dado momento, a mãe, mas é, no final, o traseiro do pequeno Hans - e é isso que compreendem tanto Freud quanto o pai, e o próprio pequeno Hans. Podem fazer a mesma operação a propósito de cada um dos elementos em causa, a mordida, por exemplo, ou ainda a nudez.
não compreender de imediato
Se não entenderem nada disso, guardem este ele mento significante e, como a inteligência lhes virá quando estiverem comendo, vão perceber que isso se recorta estritamente com algo de diferente que vão poder escrever na mesma folha. Não apenas estar com alguém, mas estar sozinho com, o que isso supõe? Supõe que poderia haver um outro.
a conjunção do imaginário com a angústia que se chama a fobia
Dão-lhe a ler sua história, tudo está apagado. Freud compara lindamente este apagamento ao que se produz quando um sujeito desperta no meio da noite, começa mesmo a analisar seu sonho - já conhecemos isso - e, passada a noite, pela manhã tudo está esquecido, sonho e análise
Esta comparação é bem sedutora, e nos permite pensar, com Freud, que o que está em jogo na observação de Hans - podemos constatá-lo - não é de modo algum comparável à integração ou reintegração pelo sujeito de sua história, que se realiza pela suspensão eficaz de uma amnésia, com a manutenção dos ele mentos conquistados. Trata-se, ao contrário, de uma atividade muito especial, no limite do imaginário e do simbólico, que é da mesma ordem que aquela do sonho. Igualmente, nessa mitificação em jogo ao longo de toda a observação, os sonhos desempenham um papel econômico, em todos os pontos assimilável ao das fantasias, até mesmo dos simples jogos e invenções de Hans.
Como ele vai dizer a seu agente para se comportar? Faz-lhe duas recomendações.
A primeira recomendação tem duas vertentes. Uma vez informado da atitude do pequeno Hans e dos fenômenos penosos e angustiantes de que este é objeto, Freud diz ao pai que explique à criança que aquela fobia é uma bobagem, eine Dummheit, e que a bobagem em questão está ligada a seu desejo de se aproximar da mãe. Além disso, como Hans se ocupa muito, há algum tempo, do Wiwimacher, ele lhe faz saber que, como ele próprio havia observado, isso não fica bem em absoluto, unrecht, e é por isso que o cavalo é tão malvado e quer mordê-lo.
Isso vai longe, pois temos de saída uma manobra direta sobre a culpa. Esta manobra consiste, por um lado, em suspender a culpa dizendo à criança que essas coisas são simples, e perfeitamente natu rais, que basta ordenar e dominar um pouco, mas, por outro lado, acentua o elemento de interdição, pelo menos relativo, sobre as satis fações masturbatórias. Veremos qual o resultado disso na criança.
A segunda recomendação de Freud é ainda mais característica da linguagem que ele emprega. Já que a satisfação do pequeno Hans é, manifestamente, de ir descobrir - e foi por esse motivo que retomei há pouco a dialética do descobrir e do surpreender - o objeto escon dido que é o pênis ou o falo da mãe, este desejo lhe será retirado, retirando-lhe o objeto da satisfação: V ocê vai lhe dizer que esse f alo desejado não existe. Isso é textualmente articulado por Freud no começo da observação, p. 263 e 264 do volume das Gesammelte W erke.
Como intervenção de pai imaginário, dificilmente se vê coisa melhor.
Aquele que ordena o mundo diz que, aqui, não há nada a procurar.
mesmo tempo nua e de camisola
Olhem para esta mulher, por debaixo das ro upas ela está nua.
Neste ponto, o pai do pequeno Hans, que não se distingue por um modo excessivamente perspicaz de apreensão das coisas, lhe diz: Mas das duas uma: ou ela está nua, ou de camisola. Ora, aí está todo o problema: para Hans, ela está ao mesmo tempo nua e de camisola, exatamente como para todos vocês que estão aqui. Daí a impossibili dade de assegurar a ordem do mundo por uma intervenção autoritária.
Evidentemente, o pai imaginário existe já há muito tempo, esta é uma certa forma do bom Deus, mas não é isso que resolve as nossas dificuldades, nós o sabemos de uma maneira não menos experimentada e permanente.
Essa intervenção, que em suma visava apaziguar a angústia da culpa, nós analistas, depois de uns vinte ou trinta anos de experiência, sabemos que é fadada a fracassar sempre, e que não se deve jamais abordar a culpa de frente, a não ser para transformá-la em diversas formas metabólicas.
como nos sistemas totalitários que se definem pelo fato de que tudo o que é permitido é obrigatório, ele se sente agora obrigado a isso.
Volto sempre a isso: o uso do significante só é concebível se vocês partirem do seguinte, de que o jogo fundamental do significante é a permutação. Por mais civilizados, e mesmo instruídos, que sejam, vocês são, no uso corrente da vida, tão desajeitados quanto possível na exaustão de todas as permutações possíveis. Vou lhes provar isso comigo mesmo. Saibam que tenho uma gravata que tem um lado um pouco mais claro e outro um pouco mais escuro, e para botar o lado claro por baixo e o lado escuro por cima é preciso que eu faça mentalmente uma permutação, e me engano todas as vezes.
Vão tentar ver como o atrelar - é bem isso que está em jogo, fala-se todo o tempo em cavalo, mas ele pode estar com ou sem carro -, como os diferentes elementos significantes que compõem a atre lagem, e os condutores, e a referência do veículo a um certo plano fixo, parecem ter significações diferentes à medida em que a história progride. Vão tentar ver o que, em seu interior, é o mais importante, e a que se liga o progresso de Hans. Será ao papel do significante, como lhes expliquei em meu Seminário sobre “A carta roubada ”, ou a outra coisa? Será - sim ou não? - ao deslocamento do elemento significante sobre as diferentes pessoas que se encontram presas à sua sombra e inscritas na sua posse? O progresso consiste no movimento giratório do significante em tor n o dos diferentes personagens a quem o sujeito interessa, e que são capturados no mecanismo de permutação?
Ou no contrário? No caso, não se vê bem que tipo de progresso poderia ser este, senão um progresso na ordem do significante.
O pequeno Hans mantém, se podemos exprimir assim, seus direitos à masturbação do começo ao fim da observação, sem se deixar abalar. Se há algo que caracteriza o estilo geral do progresso do pequeno Hans, é precisamente seu lado irredutível, e o próprio Freud o sublinha
Todo o progresso operado por Hans durante a observação está ligado ao detalhe dessa estruturação mítica, isto é, à utilização de elementos imaginários para o esgotamento de um certo exercício da troca simbólica. Isso é o que vai acabar por tornar inútil este elemento de limiar, isto é, de primeira estruturação simbólica da realidade, que era a sua fobia.
são orientadas suficientemente bem para não fazer calar, mas, ao contrário, estimular até o fi m a série de suas produções
Aliás é preciso observar que, durante toda a observação, tanto Freud como o pai são levados a permanecer na dúvida, na ambigui dade, e mesmo na abstenção no que toca à interpretação de um certo número de elementos. Verifica-se que por mais que eles pressionem a criança a confessar, por mais que lhe sugiram todas as equivalências, todas as soluções possíveis, nada obtêm dela além de evasivas, alusões, escapatórias. Tem-se mesmo por vezes a impressão de que, sob certos aspectos, a criança zomba deles.
De maneira mais geral, quando começamos a perceber a história de uma neurose, seu desenvolvimento no sujeito, a maneira como este foi capturado ou encerrado nela, o que vemos? O sujeito não entra ali de frente, entra, de certa forma, de ré, recuando
Digo o delírio - é quase como um lapso, pois o que está em questão não tem nada a ver com uma psicose, mas o termo não deixa de ser apropriado
Isso não é um sonho, é uma fantasia que ele próprio fabricou, veio até o quarto de seus pais para falar disso e vai desenvolvê-la.
O homem, porque é homem, é posto em presença de problemas que são, como tais, problemas de significantes. O significante, com efeito, é introduzido no real por sua própria existência de significante, porque existem palavras que se dizem, porque existem frases que se articulam e se encadeiam, ligadas por um meio, uma cópula, da ordem do por que ou do porque. É assim que a existência do significante introduz no mundo do homem um sentido novo. Para dizê-lo nos termos com que eu me exprimia outrora, ao final de uma pequena introdução ao primeiro número da revista La Psychanalyse: É atr a vessando diametralmente o curso das coisas que o símbolo se liga, para dar-lhes um outr o sentido
A função do mito se inscreve aí. Tal como descobre para nós a análise estrutural, que é a análise correta, um mito é sempre uma tentativa de articular a solução de um problema. Trata-se de passar de um certo modo de explicação da relação-com-o-mundo do sujeito ou da sociedade em questão para outro modo - sendo esta transformação requerida pela aparição de elementos diferentes, novos, que vêm con tradizer a primeira formulação. Eles exigem, de certo modo, uma passagem que é, como tal, impossível, que é um impasse. Isso é o que dá sua estrutura ao mito.
Por um lado, podem surgir das manifestações do ingênuo um efeito cômico, que é mesmo necessário definir, já que existe. Mas, por outro lado, vemos bem até que ponto o ingênuo é intersubjetivo. A ingenui dade da criança, somos nós que a implicamos, sem que nunca paire sobre ela qualquer dúvida.
O fato de que a criança vá diretamente a um absurdo sem se abalar minimamente desencadeia o riso. Isso se torna muito engraçado, com tudo o que essa palavra .drôle, “engra çado”, “estranho”. pode comportar de ressonâncias estranhas.
Esses guris são impagáveis. Supostamente, eles en contraram de saída, com toda a inocência, aquilo que um adulto teria tido muito mais trabalho para encontrar, ou que teria precisado enri quecer com alguma sutileza suplementar para que aquilo pudesse passar por engraçado, falando propriamente.
Mas esta ingenuidade, bem sabemos, nem sempre deve ser tomada ao pé da letra. Existe o ser ingênuo e existe o fingir ser ingênuo. Se atribuirmos ao jogo da comédia infantil uma ingenuidade fingida, restituímos a ela, dessa maneira, todo o seu caráter de Witz, e dos mais tendenciosos, como se exprime Freud. Basta um nada -precisamente, a suposição de que a ingenuidade não seja completa -para que sejam as crianças a levar vantagem e serem donas do jogo.
O cômico pode ser deslanchado simplesmente entre duas pessoas. A visão que uma pessoa tem de outra que leva um tombo, por exemplo, ou que se põe a efetuar coisas complicadas para realizar uma ação que para nós seria simples, pode bastar por si só, nos diz Freud. No ingênuo, ao contrário, a perspectiva da terceira pessoa, se permanecer virtual, é sempre mais ou menos implicada. Nada prova que para além dessa criança que tomamos por ingênua não exista um Outro - ele está ali, aliás - é este que supomos para que isso nos faça rir tanto. Bem poderia ser, afinal, que a criança afetasse ser ingênua, isto é, fingisse.
Esta dimensão do simbólico é exatamente o que se deixa sentir a todo instante nesse jogo de esconde-esconde, essa zombaria perpétua que colore todas as réplicas de Hans a seu pai, e dá seu tom.
O significante é uma ponte num domínio de significações
Por conseguinte, as situações não são reproduzidas por ele, mas transformadas, recriadas.
Logo, eis o que está em questão, e é por isso que devemos sempre centrar nossa questão no significante.
Essas pessoas estão de tal modo apressadas em impôr sua signi ficação ao pequeno Hans que nem mesmo esperam que este tenha acabado de se expressar a propósito do desaparafusar de seu pequeno pênis, para dizer-lhe que a única explicação possível é que, natural mente, trata-se de lhe dar um maior. O pequeno Hans não disse tudo isso, e não sabemos se o teria dito se o tivessem deixado falar. Nada indica que o dissesse. O pequeno Hans só falou da substituição de seu traseiro. Aí está, realmente, um caso onde se pode tocar na con tratransferência. É o pai quem emite a ideia de que, se lhe trocam seu pênis, é para dar-lhe um maior. Eis um exemplo das faltas que são cometidas a todo instante. Não se deixou de perpetuar essa tradição desde Freud, segundo um modo de interpretação onde se busca sempre em não-sei-que tendência afetiva aquilo que iria motivar, justificar, o que é dito, que tem no entanto suas leis próprias, sua estrutura e sua gravitação próprias, e que deve ser estudado como tal.
O desenvolvimento no neurótico de um sistema mítico qualquer - o que chamei outrora do mito individual do neurótico - se apresenta como a saída, o desencaixe progressivo de uma série de mediações ligadas por um encadeamento signif i cante cujo caráter é fundamentalmente circular.
O ponto de chegada tem uma relação profunda com o ponto de partida,
mito individual do neurótico
sem ser todavia o mesmo. O impasse, qualquer que seja, que é sempre contido na partida, se reencontra no ponto de chegada sob uma forma invertida, para ser considerado como a solução, com a diferença de uma mudança de sinal. O impasse de que se partiu se reencontra sempre, sob algum modo, ao fim do deslocamento operatório do sistema significante.
Se eu precisasse lembrar a vocês o caráter constitutivo da incidência simbólica no desejo humano, parece-me que, à falta de uma justa acomodação baseada na experiência mais comum e cotidiana, um exemplo fascinante poderia ser encontrado na seguinte fórmula, cujo caráter imediato e onipresente não pode escapar a ninguém. Trata-se da formulação desse desejo que talvez seja o mais profundo de todos os desejos humanos, o mais constante, pelo menos, este desejo difícil de desconhecer em dado ponto da vida de todos nós e, em todos os casos, da vida daqueles a quem conferimos maior atenção, aqueles que são atormentados por algum mal-estar subjetivo. Este desejo se chama, para nomeá-lo, enfim, o desejo de outra coisa.
fobia aqui toma mais coragem, desenvolve-se e mostra suas diversas fases.
Ele escreve o seguinte: -Aqui temos a experiência do quão dif usa esta f obia é na realidade. Ela reside no cavalo, mas também na carroça, mas também no f ato de que os cavalos caem, e também no f ato de que os cavalos mordem, e em cavalos que têm uma certa natureza e carr o ças que estão carregadas ou não - e patati, patatá, tal é o tom de Freud. Digamos simplesmente que todas essas particu laridades tor n am sensível que a angústia, originalmente, não tinha absolutamente nada a ver com os cavalos, mas, secundariamente, f oi transportada para eles, fixando-se, então no lugar - não do cavalo, mas do complexo do cavalo, mais exatamente -sobre os elementos do complexo dos cavalos, sobre o que pôde então se transportar tudo aquilo que se vai mostrar apr o priado a certas trans f erências.
Esses dois tipos de associação chamados de metáfora e metonímia, encon tro-os ali onde estão, no texto desse banho de linguagem em que Hans está imerso.
onde exprime sua vontade de dar uma trepadinha na carroça que costuma estar sendo descarregada diante da casa.
Não é à toa, vocês bem sabem que, nas retrospecções da memória, o momento em que Hans apanha a bobagem está longe de ser unívoco
Tudo se passa, em suma, entre duas nostalgias -nostalgia vem de vóatoõ, retor n o -, vir e tomar a vir. O retomo é por Freud afirmado como fundamental no que diz respeito ao objeto. Ele sublinha que é sempre sob sua forma reencontrada que o objeto consegue se constituir no desenvolvimento do sujeito. O distanciamento do objeto é neces sário para isso. Esta necessidade, falando propriamente, é correlata da dimensão simbólica. Mas, se o objeto se afasta, é para que o sujeito o reencontre.
É da casa que se trata, essencialmente. É a casa que está em causa, desde o momento em que ele compreende que esta mãe lhe pode faltar, e ao mesmo tempo que ele permaneceu totalmente solidário a ela. O que ele teme não é tanto ser dela separado, e sim ser levado com ela sabe Deus para onde. Este elemento, vamos vê-lo af l orar a todo instante na observação: na medida em que é solidário à mãe, ele não sabe mais onde está.
Ó cidades do mar, vejo em vocês seus cidadãos, homens e mulhe res, de braços e per n as solidamente atados por pessoas que nada entenderão da sua linguagem, e só poderão exalar entre vocês, com queixas lacrimosas, lamentos e suspiros, suas dores e suas saudades da liberdade perdida. Pois estes que os amarram não vão compreender a língua de vocês, não mais que compreendem a deles.
Ao final, real mente é preciso dizê-lo, reencontram-se as mesmas meninas habitando o mundo interior do pequeno Hans. Mas, se vocês lerem a observação, não poderão deixar de se surpreender ao ver não apenas o quanto elas são muito mais imaginárias, mas também o quanto elas são então realmente, radicalmente, imaginárias. São fantasias, agora, com que o pequeno Hans se entretém. A relação por ele mantida com elas mudou sensivelmente: são agora, preferencialmente, suas filhas.
estrutura da borda, ou da franja, que caracteriza a apreensão fetichista
Não se trata apenas de falar, mas de falar a alguém
O Édipo é implicado aqui por seu autor numa operação que põe em jogo seu caráter fundamentalmente mítico, o caráter de mito ori ginal por ele comportado na doutrina de Freud. Este se serve dele da mesma maneira como se ensina desde sempre à criança que Deus criou o céu e a terra e muitas outras coisas, conforme o contexto cultural em que se está implicado. É um mito das origens dado como tal, e porque se acredita no que ele determina como orientação, como es trutura, como caminho para a fala no sujeito que é seu depositário. É, literalmente, a sua função de criação da verdade que está em causa.
Freud não a apresenta de outro modo ao pequeno Hans, e o pequeno Hans dá uma resposta marcada pela mesma ambiguidade imprimida pelo assentimento que ele dará a tudo o que se vai seguir: -Isso é muito interessante, é o que ele mais ou menos diz, isso é muito excitante, como isso é bom, é preciso realmente que ele tenha f alado com Deus, o Pro f essor , para ter descoberto um tr o ço desses.
não se deve esperar que essa comunicação dê frutos imediatos, trata-se de que ela produza seus efeitos no inconsciente
Por que você me diz que estou de bem com mamãe, quando é você que eu amo? Se é preciso que eu o deteste, isso não cola.
a anatomia é o destino
no registro frustra ção-regressão-agressão.
Durante todo o tempo do dito tratamento, não somente o pequeno Hans não se submete a qualquer frustração, mas é inteiramente satis feito. Regressão, agressão? Agressão, sem dúvida alguma, mas ligada certamente a nenhuma frustração, tampouco a nenhum momento de regressão. Se há regressão, não é no sentido instintual, nem no sentido da ressurgência de alguma coisa anterior.
Não tenho outro jeito senão levá-lo comigo ao banheir o , diz ela. Existe, entre o pequeno Hans e sua mãe, este jogo de ver e não ver, mas também de ver o que não pode ser visto porque não existe, e que o pequeno Hans sabe muito bem. Para ver o que não pode ser visto, é preciso vê-lo por trás de um véu, isto é, é preciso que um véu seja colocado diante da inexistência daquilo que se deve ver. Por trás do tema do véu, da calça, da roupa, se dissi mula a fantasia essencial às relações entre a mãe e a criança: a fantasia da mãe fálica. É em torno deste tema que o loum f é introduzido.
A partir do momento em que se sente, ao mesmo tempo, entregue à mãe, ameaçado e anulado por ela, esta representa a situação de perigo, perigo além disso inominável em si, angústia, falando propriamente.
que recusa seu amor
O progresso da situação com a mãe reside no seguinte, que a criança tem que descobrir aquilo que, para além da mãe, é amado por esta. Não é a criança que é o elemento imaginário, mas o i, isto é, o desejo do falo da mãe. Afinal de contas, o que a criança tem a fazer nesse nível - o que não significa que o faça - é chegar a formular o seguinte: i S (i). Isso é o que nos mostra o jogo de ocultação da criança ainda in f ans, onde a alter n ância de seu comportamento é acompanhada por uma contrapartida simbólica, de uma oposição vo calizada.
Para o pequeno Hans, esse esquema veio se complicar com a introdução de dois elementos reais. Por um lado, Anna, isto é, uma criança real, complica a situação, as relações com o mais-além da mãe.
E depois há também alguma coisa que lhe pertence de fato, mas com a qual ele não sabe, literalmente, o que fazer: um pênis real, que começa a agitar-se e que recebeu má acolhida por parte da pessoa sobre a qual ele funciona. O pequeno Hans veio dizer à sua mãe: -V ocê não acha que ele é bonitinho? A tia lhe havia dito, há dias: Não pode ser mais bonito. Ao contrário, sua tentativa foi muito mal aco lhida pela mãe, e a questão se toma, a partir daí, muito complicada.
O cavalo morde, quer dizer: Já que não posso satis f azer a mãe em nada, ela vai se satis f azer como eu me satis f aço quando ela não me satis f az em nada, isto é, vai me morder como eu a mordo, uma vez que este é o meu último recurso quando não estou certo do seu amor.
O cavalo cai: Ele cai exatamente como eu, pequeno Hans, f ui deixado cair , na medida em que agora só se f ala de Anna.
complexo de Édipo invertido
Toda a sua situação de infância, com efeito, fora vivida por ele a partir da inoportunidade da insistência sexual do pai, homem muito exube rante, até mesmo exigente em suas necessidades relativas a uma mãe que as recusava com todas as forças, e sobre quem a criança tinha a percepção de que nessas ocasiões, justificadamente ou não, ela vivia a situação como uma vítima.
Beije-me em seu lugar , se f or preciso
O que nos ensina a teoria analítica sobre o complexo de Édipo?
O que o toma, de certo modo, necessário? Não falo de uma necessi dade biológica, nem de uma necessidade inter n a, mas de uma neces sidade ao menos empírica, já que é na experiência que se o descobriu.
É preciso que o verdadeiro pênis, o pênis real, o pênis válido, · o pênis do pai funcione, por um lado. É preciso, por outro lado, que o pênis da criança, que se situa comparativamente ao primeiro, numa V ergleichung, reúna-se a sua função, sua realidade, sua dignidade. E para fazer isso, é preciso que haja passagem por essa anulação que se chama o complexo de castração.
Em outras palavras, é na medida em que seu próprio pênis é momentaneamente aniquilado que a criança é prometida, mais tarde, a ter acesso a uma plena função pater n a, isto é, a ser alguém que se sinta legitimamente de posse de sua virilidade. E parece que este legitimamente é essencial ao funcionamento feliz da função sexual no
sujeito humano. Tudo o que dizemos sobre o determinismo das eja culações precoces e os diversos distúrbios da função sexual não tem qualquer espécie de sentido, senão nesse registro.
Há o pai simbólico. Há o pai real. A experiência nos ensina que, na assunção da função sexual viril, é o pai real cuja presença desem penha um papel essencial. Para que o complexo de castração seja pelo sujeito verdadeiramente vivido, é preciso que o pai real jogue real mente o jogo. É preciso que ele assuma sua função de pai castrador, a função de pai sob sua forma concreta, empírica, diria quase dege nerada, sonhando com o personagem do pai primordial e a forma tirânica e mais ou menos horripilante sob a qual o mito freudiano a apresentou para nós. É na medida em que o pai, tal como existe, preenche sua função imaginária naquilo que esta tem de empiricamente intolerável, e mesmo de revoltante quando ele faz sentir sua incidência como castradora, e unicamente sob este ângulo - que o complexo de castração é vivido.
como todos nós cremos no bom Deus: ele crê sem crer. Crê porque a referência a um tipo de testemunha suprema é um elemento essencial de toda espécie de articulação da verdade. Existe alguém que sabe tudo, ele descobriu isso, é o Professor Freud. Que sorte, ele tem o bom Deus aqui na terra. Não temos todos tanta sorte assim.
Trata-se de que o pequeno Hans encontre uma suplência para este pai que se obstina em não querer castrá-lo. Esta é a chave da obser vação.
Trata-se de saber como o pequeno Hans vai poder suportar seu pênis real, justamente na medida em que este não é ameaçado. Aí está o fundamento da angústia. O que há de intolerável em sua situação é essa carência do lado do castrador. De fato, através de toda a obser vação, não se vê em parte alguma aparecer o que quer que seja que represente a estruturação, a realização, o vivido, mesmo fantasístico, de algo que se chame uma castração.
filologia
etnografia
Leiam ou releiam a observação com esta chave. Vejam como Anna é reintroduzida sob uma forma completamente fantasística. O pequeno Hans nos diz, por exemplo: Há dois anos, Anna já tinha ido conosco a Gmunden. De fato, ela estava então no ventre de sua mãe, mas o pequeno Hans nos conta, no entanto, que a haviam levado num pe queno cofre na traseira do carro, e que ela ali levava uma vida bem divertida. Ou então, que em todos os anos precedentes tinham-na levado assim, pois a pequena Anna estava lá desde sempre. O que é intolerável para Hans, o que ele não pode encarar é que tenha havido uma Anna diferente daquela que ele conhece durante as férias de Gmunden, e ele compensa o fato por uma reminiscência.
epopeia
a verdade da advertência feita por Nietzsche: Se f or ver mulheres, não esqueça o chicote.
Não é porque tentei aqui lhes mostrar a relação de objeto em sua complexidade real que me repugna a expressão relação de objeto. Por que nosso semelhante não seria validamente um objeto? Diria mesmo mais: antes fosse um objeto. Na verdade, a análise nos mostra que, comumente, ele é, de saída, ainda bem menos que um objeto. Ele é aquilo que vem preencher seu lugar de significante no interior de nossa interrogação, se é que a neurose, como lhes disse e tornei a dizer, é uma questão.
Em suma, como lhes sublinhei no ano passado, ao fim de meu seminário sobre as psicoses, não é o problema do eu, e sim o do tu que é o mais difícil de realizar quando se trata de encontrar a pessoa.
Este tu, tudo indica que ele seja o significante-limite. Afinal de contas, não o atingimos jamais, nós nos detemos a meio caminho.
Todavia, é sempre dele que recebemos todas as investiduras, e não é à toa que ao fim de meu seminário do ano passado parei em: Tu és aquele que me seguirá, ou que não me seguirá, que f ará isso, ou que não o f ará.
Se o complexo de Édipo tem um sentido, é precisamente porque ele dá como fundamento de nossa instalação entre o real e o simbólico e de nosso progresso a existência daquele que tem a palavra, daquele que pode falar, do pai.
O termo aristotélico essencial a propósito de toda a consti tuição do objeto, e que se acrescenta como terceiro princípio à forma, stõoç, e à matéria, UÀT J , é cnspT . cnç, a privação.
oblatividade
Sem que haja necessidade de abordar a face feminista ou social da questão
Para entrar mais vivamente naquilo que vai hoje pontuar o que estou afirmando, e que nos vai remeter ao pequeno Hans, vou relatar uma informação que um de meus excelentes amigos extraiu do jor n al de informação por excelência e me trouxe. Essa novidadezinha vem do fundo da América. Desde a morte de seu marido, uma mulher, a ele ligada por um pacto de amor eterno, tem a cada dez meses um filho dele.
Isso pode lhes parecer surpreendente. Não creiam que se trate de um fenômeno partenogenético. Trata-se, ao contrário, de inseminação artificial. No momento da última doença que levou ao falecimento de seu marido, esta mulher, votada à fidelidade eterna, fez estocar uma quantidade suficiente do líquido que lhe deveria permitir perpetuar, à sua vontade, a raça do defunto, nos prazos mais curtos e a intervalos repetidos.
Isso, que não é absolutamente ficção científica, tem a vantagem de desnudar uma das dimensões do problema. E já que eu os dirigia há pouco para a porta ao lado, para a solução ideal do problema do casamento, será interessante ver como a Igreja vai encontrar meios de tomar posição diante do problema da inseminação póstuma pelo es poso consagrado. Se ela se referir ao que formula em semelhantes casos, a saber, ao caráter fundamental das práticas naturais, poderemos lhe observar que, se tal prática é possível, é justamente na medida em que chegamos a isolar, perfeitamente, a natureza daquilo que não o é.
A partir daí, talvez convenha precisar o termo “natural”, e chegaremos a enfatizar o caráter profundamente artificioso do que foi até aqui chamado de natureza. Em suma, talvez não sejamos, naquele momen to, completamente inúteis como termo de referência.
srta. Anna Freud, segundo a qual não há transferência possível nas análises de crianças
É demasiado evidente que em toda análise de criança praticada por um analista existe, de fato, transferência, simplesmente como existe no adulto, e melhor que em qualquer outra parte.
A função paterna assumida pela criança é imaginária. Hans subs tituiu a mãe, e tem filhos, como ela tem. Vai se ocupar de seus filhos imaginários, à maneira pela qual chegou a resolver completamente a noção do filho, da criança, inclusive a da pequena Anna
A mulher, para ele, jamais passará da fantasia dessas pequenas irmãs-filhas em torno das quais terá girado toda a sua crise infantil.
Isso não será, inteiramente, um fetiche, já que também será, justamen te, se posso dizê-lo, o verdadeiro fetiche. Ele não terá se detido naquilo que está inscrito sobre o véu, terá encontrado a forma heterossexual típica de seu objeto, o que não impede que sua relação com as mulheres seja daí por diante, e para sempre, sem dúvida alguma, marcada por essa gênese narcísica durante a qual ele conseguiu se colocar em ortoposição com referência ao parceiro feminino. Em suma, o parceiro feminino não terá sido engendrado a partir da mãe, e sim a partir desses filhos imaginários que ele pode fazer na mãe, eles mesmos herdeiros desse falo em tor n o do qual girou todo o jogo primitivo da relação de amor, da captação do amor, em direção à mãe.
Toda a análise que Freud fez de Leonardo da Vinci gira em tor n o desta Sant’ Ana de aspecto tão estranhamente andrógino - aliás, ela se parece com o São João Batista -, desta Virgem, e do Menino. E como sublinhamos aqui, não como na estampa de Londres, o primo, a saber, João Batista, é justamente um cordeirinho.
Leiam, e vão perceber até que ponto é difícil saber, af i nal de contas, o que isso quer chegar a dizer. Mas leiam, ao mesmo tempo, para ver até que ponto isso se sustenta, apesar de todos os erros -pois que há erros, mas isso não faz mal.
Essa questão assume, na histeria, as seguintes formas: O que é ter o sexo que eu tenho? O que quer dizer ter um sexo? O que quer dizer que eu possa, mesmo, me f ormular essa questão? Com efeito, devido à introdução da dimensão simbólica, o homem não é simplesmente um macho e uma fêmea, mas é-lhe necessário se situar com referência a algo de simbolizado que se chama macho e fêmea.
É assim que se situam como obsessivas as questões: O que é existir? Como sou com referên cia àquele que sou sem o ser, já que posso, de alguma maneira, dispensá-lo, distanciar-me dele o bastante para me conceber como morto?
Pois a neurose é uma linguagem.
Virtual mente, e no início, este, pelo simples fato de ser um discurso, comporta em alguma parte este Outro que é o lugar, a testemunha, a garantia, a sede ideal de sua boa fé.
Para dizê-lo agora em termos gerais, a interrogação da ordem simbólica emerge na criança a propósito do grande P, sob a forma da pergunta: O que é um pai? O pai é, com efeito, o pivô, o centro fictício e concreto da manutenção da ordem genealógica, que permite à criança se imiscuir de maneira satisfatória num mundo que, de qualquer ma neira que se o avalie, cultural, natural ou sobrenaturalmente, é aquele onde ele nasce. É num mundo humano organizado por essa ordem simbólica que ele faz sua aparição, e é isso que ele tem que enfrentar.
O que nos mostra a observação do pequeno Hans? Que, numa estrutura semelhante, é inútil agarrar-se à sua verossimilhança ou inverossimi lhança.
Não é dizendo à criança que isso é uma besteira, Dummheit, nem tampouco fazendo-lhe observações muito pertinentes sobre a relação existente entre o fato de ele tocar seu faz-pipi e o fato de experimentar, com mais intensidade, os temores que lhe são inspirados pela besteira, que se mobiliza seriamente a coisa, muito pelo contrário.
Se vocês lerem a observação à luz do esquema que lhes acabo de dar, vão perceber que essas intervenções, que não deixam de comportar alguns efeitos, jamais têm o alcance persuasivo direto da experiência inicial, a eficácia que se poderia desejar. Pelo contrário, todo o inte resse da observação é mostrar claramente que, nessas ocasiões, a criança reage reforçando os elementos essenciais de sua própria for mulação simbólica do problema. Ela torna a encenar o drama do esconde-esconde fálico com sua mãe: - Ela tem? Ela não tem? mostrando bem que se trata, aí, de um símbolo, que ela o considera como tal e que não se deve desorganizá-lo para ela. Daí a importância capital de um esquema como este.
Não é inútil que o pai intervenha, o grande Pai simbólico que é Freud, bem como o pequeno pai, este pai amado que só tem um defeito - porém grande -, o de não satisfazer realmente sua função de pai e, pelo menos por algum tempo, a sua função de pai, ou de deus, ciumento, ei f er n , como o invectiva o pequeno Hans.
Poderíamos, nesse sentido, entrar em articulações detalhadas que nos permitiriam formular de maneira completamente rigorosa o que está em questão, por uma série de formulações algébricas transfor mando-se umas nas outras. Tenho uma certa repugnância em fazê-lo, temendo que os espíritos ainda não estejam completamente abertos àquilo que, acredito, é o futuro, na ordem da análise clínica e terapêu tica da evolução dos casos. Todo caso, ao menos em suas etapas essenciais, deveria chegar a se resumir numa série de transformações.
Por que você me disse que eu amava minha mãe, quando é você que eu amo?
A fórmula normal do complexo de castração comporta que o menino, para falarmos só dele, só possui seu pênis sob a condição de reencontrá-lo na medida em que este lhe é devolvido após ter sido perdido. No caso do pequeno Hans, o complexo de castração é inces santemente convocado pela criança, ela mesma sugere sua fórmula, afixa-lhe imagens, quase obriga seu pai a fazê-lo submeter-se à sua prova; de uma maneira ref l etida, ele fomenta e organiza sua prova sobre a imagem do pai, fere-o e deseja que esta ferida seja realizada.
Vocês conhecem a história, tal como é narrada, daquele sujeito que tinha ido para uma ilha, a fim de esquecer alguma coisa. As pessoas que o descobriram se aproximam dele, perguntam-lhe o que queria, afinal, esquecer, e ele não pode responder. Como diz, finalmente, a história: ele esqueceu
Freud muda as próprias bases da consideração psicológica ao lhe introduzir uma dimensão que lhe é estranha.
um tipo que não lhes vai parecer estranho em nossa época, o da geração de um certo estilo que conhecemos, o estilo do ano 1945, daqueles encantadores rapazes que esperam que as iniciativas venham do outro lado - que esperam, para dizer tudo, que se lhes tirem as calças. Tal é o estilo como vejo esboçar-se o futuro desse encantador pequeno Hans, por mais heterossexual que ele pareça.
Esta intervenção retardada traz ao pequeno Hans este gestinho muito bonito, especialmente esclarecido na observação: no próprio momento em que o pai lhe fala, ele deixa cair o cavalinho. A conversa está superada, o diálogo expirou, o pequeno Hans instalou-se em sua nova posição no mundo.
O fato de Freud ter se interessado por Leonardo da Vinci não nos deve obrigar a levantar questões. Porque uma coisa aconteceu e não deixou de acontecer, isto deve ser, em geral, a última de nossas preo cupações. Freud é Freud justamente por ter se interessado por Leo nardo da Vinci.
Só que temos o defeito de segui-lo com uma certa preguiça de espírito, aceitando antecipadamente tudo o que ele nos diz
Eu não me permitiria a vantagem fácil de criticar, só-depois, uma invenção genial
Esta estrutura original é aquela em torno da qual fiz girar toda a crítica fundamental da relação de objeto a que procedi este ano, na medida em que ela é destinada a instituir uma certa relação estável entre os sexos, fundada segundo uma relação simbólica.
Outro radical com que lidamos, e que lhes ensinei a desenhar como sendo o lugar, a sede do inconsciente.
a figura da morte, que é o último Outro absoluto
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