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Seminar 03 As psychoses

Seminar 03 As psychoses

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Seminário 03 - As psicoses

Digo a questão, porque não se pode sem mais nem menos falar do tratamento das psicoses, como havia sido inicialmente comunicado por uma primeira nota, e menos ainda do tratamento da psicose em Freud, pois ele jamais falou disso, salvo de maneira totalmente alusiva.


tratar todos os problemas que as psicoses nos suscitam atualmente


Admitamos que seja um lapso, um lapso significativo.


se interessou em primeiro lugar .e essencialmente pela paranóia


As psicoses são, se quiserem - não há razão para se dar ao luxo de recusar empregar este termo -, o que corresponde àquilo a que sempre se chamou, e a que legitimamente continua se chamando, as loucuras.


setenta por cento dos doentes dos manicômios portavam a etiqueta paranóia. Tudo o que chamamos psicose ou loucura era paranóia.


nosologia


Um paranóico era uma pessoa má, um intolerante, um tipo de mau humor, orgulho, desconfiança, suscetibilidade, sobrestimação de si mesmo.


quando o paranóico era por demais paranóico, ele acabava por delirar


ocorria ao paranóico sair dos limites, e cair nessa horrível loucura, exagero desmedido dos traços de seu caráter intratável.
Essa perspectiva pode ser designada como psicológica, psicologizante ou mesmo psicogenética. Todas as referências formais a uma base orgânica, ao temperamento por exemplo, não mudam nada aí - na verdade, tratava-se de uma gênese psicológica.


O progresso maior da psiquiatria, desde a introdução deste movimento de investigação que se chama psicaná­lise, consistiu, acredita-se, em restituir o sentido na cadeia dos fenô­menos. Isso não é falso em si. Porém, o que é falso, é conceber que o sentido de que se trata é aquele que se compreende. O que teríamos aprendido de novo, de acordo com o que se pensa de maneira ambiente nas salas de plantão, expressão do sensus commune dos psiquiatras, é compreender os doentes. É uma pura miragem.


A noção de compreensão tem uma significação muito nítida. É um móbil do qual Jaspers fez, com o nome de relação de compreensão, o pivô de toda a sua psicopatologia dita geral. Isso consiste em pensar que há coisas que são evidentes, que, por exemplo, quando alguém está triste é porque não tem o que seu coração deseja. As incoerências logo aparecem - essa é a utilidade de um discurso firme.


Ora, sabe-se já há muito tempo que se suicidam muito mais na primavera. Isso não é mais nem menos compreensível.


o grande segredo da psicanálise é que não há psicogênese.


etológico


Na ordem imaginária, ou real, nós temos sempre mais e menos, um limiar, uma margem, uma continuidade. Na ordem simbólica, todo elemento vale como oposto a um outro.


Um de nossos psicóticos conta-nos em que mundo estranho ele entrou já há algum tempo. Tudo para ele tornou-se signo. Não somente ele é espiado, observado, vigiado, falam dele, julgam-no, indi­cam-no, olham-no, dão-lhe uma piscadela de olho


Vemos aqui Freud proceder logo de saída com uma audácia que tem a característica de um começo absoluto.


Traduzindo Freud, dizemos - o inconsciente é uma linguagem. Que ela seja articulada nem por isso implica que ela seja reconhecida. A prova é que tudo se passa como se Freud traduzisse uma língua estrangeira, e mesmo a reconstituísse­ recortando-a. O sujeito está simplesmente, no que diz respeito à sua linguagem, na mesma relação que Freud. A se supor que alguém possa falar numa língua que lhe seja totalmente ignorada, diremos que o sujeito psicótico ignora a língua que ele fala.


O recalcado está sempre aí, e ele se exprime de maneira perfeitamente articulada nos sintomas e numa multidão de outros fenômenos.


tudo o que é recusado na ordem simbólica, no sentido da Verwerfung, reaparece no real.


Nosso esquema, lembro isso a vocês, figura a interrupção da palavra plena entre o sujeito e o Outro e seu desvio pelos dois eu, a e a’, e suas relações imaginárias. Uma triplicidade está aqui indicada no sujeito, que abrange o fato de que é o eu do sujeito que fala normalmente a um outro, e do sujeito, do sujeito S, em terceira pessoa.


o sujeito se fala com o seu eu.


Porém, no sujeito normal, falar-se com o seu eu não é nunca plenamente explicitável, sua relação com o eu é fundamentalmente ambígua, toda assunção do eu é revogável. No sujeito psicótico ao contrário, certos fenômenos elementares, e especialmente a alucinação que é a sua forma mais característica, mostram-nos o sujeito completamente identificado ao seu eu com o qual ele fala, ou o eu totalmente assumido através do modo instrumental. É ele que fala dele, o sujeito, o S, nos dois sentidos equívocos do termo, a inicial S e o Es alemão. É justamente o que se apresenta no fenômeno da alucinação verbal. No momento em que ela aparece no real, isto é, acompanhada desse sentimento de realidade que é a característica fundamental do fenômeno elementar, o sujeito fala literalmente com o seu eu, e é como se um terceiro, seu substituto de reserva, falasse e comentasse sua atividade.


Autenti­ficar assim tudo o que no sujeito é da ordem do imaginário é, propriamente falando, fazer da análise a antecâmara da loucura, e nós só temos é de ficar admirados que isso não leve a uma alienação mais profunda - sem dúvida, esse fato indica bastante que, para ser louco, é necessário alguma predisposição, se não alguma condição.


á havia muito tempo que eu não .fazia .diferença entre a psicologia e a fisiologia, e que certamente não se torna louco quem quer


é a uma certa maneira de manejar a relação analítica que consiste em autentificar o imaginário, em substituir o reconhecimento no plano simbólico pelo reconhecimento no plano imaginário, que é preciso atribuir os casos bem conhecidos de desencadeamento bastante rápido de delírio mais ou menos persistente, e às vezes definitivo.


O fato de que uma análise possa desencadear uma psicose desde os seus primeiros momentos é bem conhecido, mas nunca ninguém explicou por quê. É evidentemente função das disposições do sujeito, mas também de um manejo imprudente da relação de objeto.


Pascal, o qual formula, com todo o acento do grave e do meditado, que sem dúvida há uma loucura necessária, que não ser louco da loucura de todo o mundo seria ser louco de uma outra forma de loucura.


Penso que os psiquiatras que estão entre vocês têm bastante conhecimento dos diferentes tipos clínicos, para saber, por exemplo, que um delírio de interpretação não é de modo algum a mesma coisa que um delírio de reivindicação. Há igualmente razão para distinguir entre as psicoses paranóicas e as psicoses passionais


Pode-se quase dizer que não há discurso da loucura mais manifesto e mais sensível que o dos psiquiatras, e precisamente acerca da paranóia.


vocês encontrarão aí sobre a paranóia páginas, às vezes capítulos inteiros, extraiam-nos de seus contextos, leiam-nos em voz alta, e verão os desenvolvimentos mais incríveis concernentes ao comportamento de todo o mundo.


Eu relia, para preparar esta discussão, um artigo já antigo, 1908, no qual Abraham descreve o comportamento de um demente precoce, e sua dita inafetividade, a partir de sua relação aos objetos.
Ei-lo que passou meses amontoando, pedra sobre pedra, seixos ordinários que parecem ser para ele o maior bem. Ora, à força de amontoá-lo numa prateleira, esta se rompe e , grande estrondo no quarto, varrem tudo, e essa personagem, que parecia dar uma tão grande importância àqueles seixos, não presta a menor atenção ao que se passa, não esboça o menor protesto diante da evacuação geral dos objetos de seus desejos. Simplesmente ele recomeça, vai acumular outros tantos. Aí está o dementé precoce.


Desse pequeno apólogo, gostaríamos de fazer uma fábula, que mostraria o que é que fazemos todo o tempo. Direi mesmo mais - acumular um monte de coisas sem valor, dever considerá-las de um dia para o outro como perdas e ganhos, e recomeçar, isto é um ótimo sinal. Realmente, se o sujeito ficasse ligado ao que ele perde, se não pudesse suportar essa frustração, é que se poderia dizer que há supervalorização dos objetos.


obnubilação


o compreensível é um termo sempre fugidio, inapreensível


fugidio


Comecem por não crer que vocês compreendem. Partam da ideia do mal-enten­dido fundamental. Aí está uma disposição primeira, na falta da qual não há verdadeiramente nenhuma razão para que vocês não compreendam tudo e não importa o quê. Tal autor lhes dá tal comportamento como um signo de inafetividade num certo contexto, alhures será o contrário. Que se recomece sua obra após ter-lhe acusado a perda, pode ser compreendido em sentidos completamente opostos. Faz-se apelo de modo perpétuo a noções consideradas como estabelecidas, quando de modo algum elas o são.


Temos então um sujeito para quem o mundo começou a ganhar uma significação. O que significa isso? Ele anda há algum tempo atormentado por fenômenos que consistem nisto: ele percebe que se passam coisas na rua, mas quais? Interrogando-o, vocês verão que há pontos que permanecem misteriosos para ele mesmo, e outros sobre os quais ele se exprime. Em outros termos, ele simboliza o que se passa em termos de significação. Freqüentemente, ele não sabe, se vocês examinarem as coisas bem de perto, se as coisas são favoráveis ou desfavoráveis para ele, mas ele procura o que indica tal comportamento de seus semelhantes, tal traço obser­vado no mundo, nesse mundo que nunca é pura e simplesmente inumano pois que é composto pelo homem.


Que diz o sujeito afinal de contas, sobretudo num certo período de seu delírio? Que há significação. Qual, ele não o sabe, mas ela vem no primeiro plano, ela se impõe


É a partir daí que nasce a ilusão - já que se trata da compreensão, nós compreendemos.
Pois bem; de fato, não.


o próprio das psicopatologias é enganar a compreensão


É sempre no momento em que eles compreenderam, em que se precipitaram para satisfazer o caso com uma compreensão, que eles falharam na interpretação que convinha ou não fazer. Isso se exprime em geral com toda a ingenuidade na fórmula -O sujeito quis dizer isso. O que vocês sabem a respeito?
O que há de certo é que ele não o disse. E na maioria das vezes, ao ouvir o que ele disse, parece quando menos que uma questão teria podido ser posta, que talvez ela teria bastado por si só para constituir a interpretação válida, e ao menos para encetá-la.


Tomemos a interpretação elementar. Ela comporta sem dúvida um elemento de significação, mas esse elemento é repetitivo, ele procede por reiterações. Pode acontecer que o sujeito o elabore, mas o que há de garantido é que ele permanecerá, durante um certo tempo ao menos, sempre se repetindo com o mesmo sinal de interrogação que ele comporta, sem que nunca lhe seja dada nenhuma resposta, nenhuma tentativa de integrá-lo em um diálogo;
O fenômeno está fechado a toda composição dialética.


Tomemos a psicose dita passional, que parece tão mais próxima do que se chama a normal. Se se insiste a esse respeito na prevalência da reivindicação, é que o sujeito não pode engolir tal perda, tal dano, e que toda a sua vida parece centrada em torno da compensação do dano sofrido, e da reivindicação que ela acarreta.


o que era num momento perda e desvantagem tornar-se no instante seguinte a própria felicidade concedida pelos deuses.


paranóia combinatória


Parecem esquecer que na fala humana, entre muitas outras coisas, o emissor é sempre ao mesmo tempo um receptor, que ouvimos o som de nossas próprias palavras.
Podemos não dar atenção a isso, mas o certo é que ouvimos.


Após uma curta doença, entre 1884 e 1885, doença mental que consistiu em um delírio hipocondríaco, Schreber, então no exercício de um cargo bastante importante na magistratura alemã, sai da casa de saúde do professor Flechsig, curado, parece que de maneira completa, sem seqüela aparente.


Ele leva durante cerca de oito anos uma vida que parece normal, e ele próprio afirma que sua felicidade doméstica só é ensombrecida pelo desgosto de não ter um filho. Ao cabo desses oito anos, ele é nomeado Presidente do Tribunal de Apelação na cidade de Leipzig. Tendo recebido antes do período de férias o aviso daquela promo ç ão importantíssima, ele assume suas funções


em outubro. Ele é, parece, como acontece com bastante freqüência em muitas crises mentais, um pouco ultrapassado por suas funções.
Ele é jovem, cinqüenta e um anos, para presidir um tribunal de apelação daquela importância, e essa promo ç ão o desnorteou um pouco. Ele se encontra no meio de pessoas muito mais experientes, mais calejadas no manejo de processos delicados, e durante um mês ele se estafa, como ele próprio se exprime, e recomeça a ter problemas - insônias, fuga das idéias, aparição no seu pensamento de temas cada vez mais perturbadores que o levam a ter de novo uma consulta.


Mais uma vez o internamento. Em primeiro lugar na casa de saúde, com o professor Flechsig, depois, após uma curta estada na casa do Dr. Pierson em Dresden, na clínica de Sonnenstein, onde ele permanecerá até 1901. É ali que seu delírio vai passar por toda uma série de fases das quais ele nos dá um relato extremamente seguro, parece, e extraordinariamente composto, escrito nos últimos meses de seu internamento. O livro será publicado logo depois de sua saída. Ele não dissimulou portanto a ninguém, no momento em que reivindicava o direito de sair, que participaria sua experiência à humanidade inteira, com o desígnio de transmitir a todos as revelações capitais que ela comporta.


Ele anota, no fim de sua análise do caso Schreber, que nunca viu nada que se parecesse tanto com sua teoria da libido, com seus desinvestimentos, reações de separação, influências à distância, quanto a teoria dos raios divinos de Schreber, e nem por isso fica mais impressionado, uma vez que todo o seu desenvolvimento tende a mostrar no delírio de Schreber uma surpreendente aproximação das estruturas da troca interindividual com o da economia intrapsíquica.


Vocês sabem que a psicanálise explica o caso do presidente Schreber, e a paranóia em geral, por um esquema segundo o qual a pulsão inconsciente do sujeito é tão-somente uma tendência ho­mossexual.


há uma relação entre essa promoção e o desencadear da crise.


Em outros termos, no primeiro caso, põe-se em função o fato de que Sc hreber não pôde satisfazer sua ambição, no outro, que ela fo i realizada pelo exterior, de uma forma que se ratifica quase como imerecida. O mesmo valor desencadeador é reconhecido nesses dois acontecimentos. Anotam que o presidente Schreb e r não tenha tido filho para consignar um papel fundamental à nQ Ç ão da pater­ nidade. Mas se admite, ao mesmo tempo, que é porque ele acede finalmente a uma posição paterna que, ao mesmo passo, o temor à castração revive nele, com uma apetência homossexual correlativa.
Eis o que estaria diretamente em caus a no desencadeamento da crise, e acarretaria todas as distorções, as deformações patológicas, as miragens, que progressivamente vão evoluir como delírio.


O sistema da linguagem, em qualquer ponto em que vocês o apreendam, nunca se reduz a um indicador diretamente dirigido a um ponto da realidade, é toda a realidade que está abrangida pelo conjunto da rede da linguagem.


A intuição delirante é um fenômeno pleno que tem para o sujeito um caráter submergente, inundante. Ela lhe revela uma perspectiva nova cujo cunho original e cujo sabor particular ele sublinha, como Schreber quando fala da língua fundamental na qual ele foi introduzido por sua experiência. Ali, a palavra - com sua ênfase plena, como dizem a palavra do enigma - é a alma da situação.


É, portanto, a economia do discurso, a relação da significação com a significação, a relação de seu discurso com o ordenamento comum do discurso, que nos permite distinguir que se trata do delírio.


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A primeira é fides, a palavra que se dá, o Voe� 4 é a minha mulher, ou o Voe� é o meu mestre, o que quer dizer -Voe� é o que está ainda na minha fala, e isso, eu só posso afirmá-lo tomando a palavra em seu lugar. Isso vem de voe� para encontrar aí a certeia do que eu empenho. Esta palavra é uma fala que o empenha, a vo e �.
A unidade da palavra falada, enquanto fundadora da posição dos dois sujeitos, aí está man i festada.


O que o sujeito me diz está sempre numa relação fundamental a um fingimento possível, aonde ele me remete e onde eu recebo a mensagem sob uma forma invertida.


O que constitui precisamente o valor fundador dessas falas é que o que é visado na mensagem, como também o que é manifesto no fingimento, é que o outro está aí enquanto Outro absoluto.
Absoluto, isto é, que ele é reconhecido, mas que ele não é conhecido. Da mesma forma, o que constitui o fingimento é que vocês não sabem no fim de contas se é um fingimento ou não. Essencialmente essa incógnita na alteridade do Outro que caracteriza a ligação da palavra no nível em que ela é falada ao outro.


Todo conhecimento humano se origina na dialética do ciúme, que é uma manifestação primordial da comunicação. Trata-se aí de uma noção genérica observável, behaviouristicamente observável. O que se passa entre criancinhas comporta esse transitivismo fundamental que se exprime no fato de que uma criança que bateu numa outra pode dizer: o outro me bateu.
Não que ela minta - ela é o outro, literalmente.


Como isso será possível? É que o eu humano é o outro, e que no começo o sujeito está mais próximo da forma do outro do que do surgimento de sua própria tendência. Ele é originariamente coleção incoerente de desejos - aí está o verdadeiro sentido da expressão corpo espedaçado - e a primeira síntese do ego é essencialmente alter ego, ela é alienada. O sujeito humano desejante se constitui em torno de um centro que é o outro na medida em que ele lhe dá a sua unidade, e o primeiro acesso que ele tem do objeto, é o objeto enquanto objeto do desejo do outro.


O conhecimento dito paranóico é um conhecimento instaurado na rivalidade do ciúme, no curso dessa identificação primeira que tentei definir a partir do estádio do espelho. Essa base rivalitária e concorrencial no fundamento do objeto é precisamente o que é superado na fala, na medida em que faz intervir o terceiro. A pa­lavra é sempre pacto, acordo, há um entendimento, chega-se a um acordo - isto é para você, isto é para mim, isto é isto, isto é aquilo. Mas o caráter agressivo da concorrência primitiva deixa sua marca em qualquer espécie de discurso sobre o pequeno outro, sobre o Outro enquanto terceiro, sobre o objeto. O testemunho, não é por acaso que isso se chama em latim testis, e que se testemunha sempre em cima dos próprios colhões. Em tudo o que é da ordem do testemunho, há sempre empenho do sujeito, e luta virtual a que o organismo está sempre latente.


O senhor tomou do escravo seu gozo, ele se apoderou do objeto do desejo enquanto objeto do desejo do escravo, mas da mesma feita ele perdeu aí sua humanidade. Não era de modo algum o objeto do gozo que estava em causa, mas a rivalidade enquanto tal.
Sua humanidade, a quem ele a deve? Unicamente ao reconhecimento do escravo. Porém, como ele não reconhece o escravo, esse reconhecimento não tem literalmente nenhum valor. Assim como é habitual na evolução concreta das coisas, aquele que triunfou e conquistou o gozo torna-se completamente idiota, incapaz de outra coisa que não seja gozar, enquanto aquele que foi dele privado guarda toda a sua humanidade. O escravo reconhece o senhor, e ele tem então a possibilidade de ser reconhecido por ele. Ele iniciará a luta através dos séculos para sê-lo efetivamente.


Essa distinção entre o Outro com um A maiúsculo, isto é, entre o Outro enquanto não é conhecido, e o outro com um a minúsculo, isto é, do outro que é o eu, fonte de todo conhecimento, é fundamental. É nesse afastamento, é no ângulo aberto dessas duas relações, que toda a dialética do delírio deve ser situada.


Quando falamos de neurose, fazemos desempenhar um certo papel, a uma fuga, a uma evitação, no qual um conflito com a realidade tem seu lugar


No momento em que desencadeia sua neurose, o sujeito elide, escotomiza como se disse depois, uma parte de sua realidade psíquica, ou, numa outra linguagem, de seu id. Essa parte é esquecida, mas continua a fazer-se ouvir. Como? De uma forma que é aquela sobre a qual todo o meu ensino insiste - de uma forma simbólica.


Freud, no primeiro de seus artigos que eu citava, evoca esse armazém que o sujeito põe à parte na realidade, e no qual ele conserva recursos para uso da construção do mundo exterior -é aí que a psicose vai pedir emprestado seu material. A neurose, diz Freud, é alguma coisa de bem diferente, pois a realidade que o sujeito elidia um momento, ele tenta fazê-la ressurgir emprestando­ lhe uma significação particular, um sentido secreto, que chamamos simbólico. Mas Freud não insistiu tanto quanto era conveniente. De um modo geral, a maneira impressionista como se emprega o termo simbólico jamais foi precisada até aqui de uma forma verdadeiramente consentânea com aquilo de que se trata.


Mas Freud não insistiu tanto quamo era conveniente


Quanto a este termo projeção, seria melhor abandoná-lo.


duas pessoas dentro de um só delírio, o que se chama um delírio a dois.


Naturalmente, eu sou como todo o mundo, incorro nos mesmos erros que vocês, faço tudo o que lhes digo que não se deve fazer. Nem por isso tenho razão - mesmo que isso me faça ser bem-sucedido. Uma opinião verdadeira não deixa de ser uma opinião do ponto de vista da ciência, ver Espinosa. Se vocês compreendem, tanto melhor, guardem isso para vocês, o importante não é compreender, é atingir o verdadeiro. Mas se vocês o atingem por acaso, mesmo se vocês compreendem, vocês não compreendem. Naturalmente, eu compreendo - o que prova que nós temos todos alguma coisinha de comum com os delirantes. Eu tenho o tanto disso como todos vocês, o que há de delirante no homem normal.


Ela estava bem de acordo, era o que ela queria que eu compreendesse. Era também talvez o que ela queria que o outro compreendesse.


A resistência do paciente é sempre a de vocês, e quando uma resistência é bem-sucedida, é porque vocês estão dentro até o pescoço, porque vocês estão compreendendo. Vocês compreendem, vocês não têm razão. O que se trata precisamente de compreender é porque há alguma coisa que é dada para ser compreendida. Por que ela disse Eu venho do salsicheiro, e não Porco?


Aqui, não é a mesma coisa, é análogo, e é ainda mais interessante porque não é a mesma coisa.


Toda a vida íntima daqueles pacientes se desenrolou fora do elemento masculino, elas sempre fizeram deste um estranho com o qual jamais concordaram, para elas o mundo era essencialmente feminino.


Quem será que fala? Já que há alucinação, é a realidade que fala. Isso está implicado em nossas premissas, se afirmamos que a realidade é constituída de sensações e de percepções. Não há ambigüidade nisso, ela não diz: Eu tive o sentimento de que ele me respondeu: - Porca; ela diz: Eu disse: - Eu venho do salsicheiro, e ele me disse: - Porca.
Ou nos contentamos em dizer para nós mesmos -Ai está, ela alucinou. Ou tentamos - o que pode parecer uma empresa insensata, mas não é papel dos psicanalistas até o presente terem se entregado a empresas insensatas? - ir um pouquinho mais longe.


Na palavra verdadeira, o Outro, é aquilo diante do que vocês se fazem reconhecer. Mas vocês só podem se fazer reconhecer por ele porque ele é em primeiro lugar reconhecido. Ele deve ser reconhecido para que vocês possam fazer-se reconhecer. Essa dimensão suplementar, a reciprocidade, é necessária para que possa valer esta fala cujos exemplos típicos lhes dei: Você é meu mestre ou Você é minha mulher, ou também a palavra mentirosa, que, muito embora sendo o contrário, supõe igualmente o reconhecimento de um Outro absoluto, visado além de tudo o que vocês poderão conhecer, e para quem o reconhecimento não tem efetivamente de como valer senão porque está além do conhecido. É no reconhecimento que vocês o instituem, e não como um elemento puro e simples da realidade, um pião, um fantoche, mas um absoluto irredutível, da existência do qual como sujeito depende o valor mesmo da palavra na qual vocês se fazem reconhecer. Há aí alguma coisa que nasce.


Uma palavra exorta vocês a sustentá-la pelo discurso de vocês, ou a renegá-la, a recusá-la ou a confirmá-la, a refutá-la, mas ainda mais, a se curvarem a muitas coisas que estão na regra do jogo. E mesmo se a rainha mudasse a todo instante a regra, isso não mudaria nada no essencial - uma vez introduzido no jogo dos símbolos, você é sempre forçado a se comportar segundo uma regra.


Há somente duas maneiras de falar desse S, desse sujeito que radicalmente somos, ou seja: ou dirigindo-se verdadeiramente ao Outro, A maiúsculo, e dele recebendo a mensagem que concerne a você sob uma forma invertida, ou indicando sua direção, sua existência, sob a forma da alusão. Se essa mulher é propriamente uma paranóica, é que o ciclo, para ela, comporta uma exclusão do Outro com A maiúsculo. O circuito se fecha nos dois outros com minúscula que são o fantoche na frente dela, que fala, e no qual ressoa a mensagem que é a dela, e ela própria que, enquanto eu, é sempre um outro e fala por alusão.


O Outro estando portanto verdadeiramente excluído, o que concerne ao sujeito é dito realmente pelo outro com minúscula, pelas sombras de outro

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Que a significação seja da natureza do imaginário não é duvidoso. Ela é, como o imaginário, no fim das contas sempre evanescente, pois está estritamente ligada ao que lhes interessa, isto é, àquilo a que vocês estão presos. Soubessem vocês que a fome e o amor é a mesma coisa, vocês seriam como todos os animais, verdadeiramente motivados.


Desconfiem sempre das pessoas que lhes digam -Voce com­ preen d e. É sempre para remeter vocês em outra parte que ali onde se trata de ir. E. o que ela faz. Voce compreen d e bem -isso quer dizer que ela própria não está tão segura da significação e que esta remete pão tanto a um sistema de significação contínuo e conciliável quanto à significação enquanto inefável, à sig n ificação básica da realidade dela, ao seu espedaçamento pessoal.


e o que digo não é verdade, Freud jamais disse nada de ver­ dadeiro, pois o inconsciente quer dize r isso.


O que é o recalque para o neurótico? B uma língua, uma outra língua que ele fabrica com seus sintomas, isto é, se é um histérico ou um obsessivo, com a dialética imaginária dele e ·do outro. O sintoma neurótico desempenha o papel da língua que permite ex p ri­ mir o recalque. B justamente aquilo que nos faz ver claramente que o recalque e o retorno do recalcado são uma só e mesma coisa, o direito e o avesso de um só e mesmo processo.


podemos, no interior mesmo do fenômeno da fala, integ r ar os três planos, o do simbólico, representado pelo sig n ifi­ cante, o do imaginário. representado pela significação, e o do real, que é o discurso de fato efetuado realmente em sua dimensão diacrônica.


A noção de que o real, por mais delicado que seja de penetrar, não pode fazer velhacarias conosco, não nos passará para trás de propósito, é, ainda que ninguém absolutamente se detenha nisso, essencial à constituição do mundo da ciência.


O grande perigo de Deus é, afinal de contas, o de amar demasiado Schreb e r, esta zona transversalmente transversal.


e que o fato de vocês serem psicanalistas não os exime de serem inteligentes e sensíveis. Não basta que um certo número de chaves lhes tenham sido dadas para que vocês se aproveitem disso para não mais pensar em nada


É preciso realmente dizer que, por serem psicanalistas, vocês não são de modo algum obrigados, salvo a se sacudirem um pouco, a conservar presente no espírito que o mundo não é completamente como cada qual o concebe, mas que ele está preso nesses mecanismos pretensamente conheci­ dos de vo c ês.


s psicólogos, por não fre­ qüentarem verdadeiramente o louco, se colocam o falso problema de saber por que ele acredita na realidade de sua alucinação.


Mas, contra­ riamente ao sujeito normal para quem a realidade lhe chega de bandeja, ele tem uma certeza, que é a de que aquilo de que se trata - da alucinação à interpretação - lhe concerne.


Não é de realidade que se trata com ele, mas de certeza.
Mesmo quando ele se exprime no sentido de dizer que o que sente não é da ordem da realidade, isso não atinge a sua certeza, que lhe concerne. Essa certeza é radical. O natural mesmo daquilo de que ele está certo pode muito bem continuar sendo de uma ambigüidade perfeita, em toda a gama que vai da malevolência à benevolência.
Mas isso significa alguma coisa de inabalável para ele.


Fica-se encantado, isso correspondeu. Mas o que será que isso quer dizer? Quer dizer que o sujeito, ele próprio, não compreendeu absolutamente nada da coisa, e que ele não compreende nada tam­ pouco do que nos traz, de modo que não se vê muito bem onde está o prog r esso realizado.


Para um analista, abordar a qu e stão do plag i arismo no registro simbólico deve es ta r em primeiro lugar centrado na idéia de que o plagiarismo não existe.
Não há propriedade simb ó lica. É justamente a questão - se o símbolo é de todos, por que as coisas da ordem do símb o lo toma­ ram para o sujeito aquele acento, aquele peso ?


Como se trata de um grande neur ó tico que resiste a uma tentativa analít i ca certa­ mente não-negligenciável - antes de vir ter com Kr is, ele já tinha tido uma análise -, vocês têm todas as chances para que esse plagiarismo seja fantasmático. Em compensação, se vocês apóiam a intervenção no plano da realidade, isto é, se vocês retornam à psicoterapia mais primária, que faz o :sujeito? Ele responde da maneira mais clara, num nível mais profundo da realidade. Ele testemunha que alguma coisa surge da realidade que é obstinada, que se impõe a ele, e que tudo o que poderão lhe dizer não mudará no fundo nada do problema. Vo c ês lhe demonstram que ele não é mais plagiário, ele lhes mostra de que se trata, fazendo vo c ês come­ rem miolos frescos. Ele renova o seu· sintoma, e num ponto que não tem mais fundamento nem existência do que aquele sobre o qual ele o mostrou no primeiro instante. Se rá que ele mostra mesmo alguma coisa? Irei mais longe - direi que ele não mostra absolu­ tamente nada, que é essa alguma coisa que se mostra.


Há sempre coisa s que não colam. É um fato evidente, se não partimos da idéia que inspira toda a psicologia clássica, acadêmica, ou seja, a de que os seres humanos são seres adaptados, como se diz, já que vivem, e portanto que tudo deve colar. Vocês não são psicanalistas se admi­ tem isso. Ser psicanalista é simplesmente abrir os olhos para essa evidência de que não há nada mais desbaratado que a realidade humana. Se vocês crêem ter um eu bem adaptado, razoável, que sabe navegar, reconhecer o que tem de ser feito e o que não tem de ser feito, levar em conta as realidades, não resta senão mandá-los para longe daqui. A psicanálise, nisso se juntando à experiência comum, mostra-lhes que não há nada mais estúpido que um destino humano, ou seja, que sempre se é passado para trás. Mesmo quando se faz alguma coisa que dá certo, não é justamente o que se queria.
Não há nada mais desiludido que um senhor que chega suposta­ mente ao cúmulo de seus votos, basta falar três minutos com ele, francamente, como talvez só o artifício do divã psicanalítico o per­ mite, para saber que, no fim de contas, esse lance é justamente o lance de que ele zomba, e que ele está, além disso, particularmente enfastiado com todas as espécies de coisas. A análise é perceber isso, e levá-lo em conta.


Se Freud insistiu a tal ponto no complexo de Édipo, que che­ gou até a construir uma sociologia de totens e tabus, é patentemente porque para ele a Lei está ali ab origine. Não se trata por conse­ guinte de se colocar a questão das origens - a Lei está justamente ali desde o início, desde sempre, e â sexualidade humana deve se realizar por meio e através dela. Essa Lei fundamental é simples­ mente uma Lei de simbolização. É o que o �dipo quer dizer.


A V erdichtung é simplesmente a lei do mal-entendido, graças à qual nós sobrevivemos, ou ainda graças à qual fazemos várias coisas ao mesmo tempo, ou ainda graças à qual podemos, por exemplo, quando somos um homem, satisfazer completamente nos­ sas tendências opostas ocupando numa relação simbólica uma posi­ ção feminina, embora permanecendo um homem, dotado de st i à virilidade, no plano imaginário e no plano real. Essa função que é, com maior ou menor intensidade, de feminidade pode ter assim oportunidade de ser satisfeita com esta receptividade essencial que é um dos papéis existentes fundamentais. Isso não é metafórico -recebemos realmente alguma coisa quando acolhemos a palavra faladà. A participação na relação da fala pode ter vários sentidos ao mesmo tempo, e uma das significações interessadas pode ser precisamente a de se satisfazer na posição feminina, como tal es­ sencial a nosso ser.


A V erdri i ngung, o recalque, não é a lei do mal-entendido, é o que se passa quando isf . o não cola ao nível de uma cadeia simbólica.
Cada cadeia simbólica a que estamos ligados comporta uma coerên-


cia inter n a, que faz com que sejamos forçados em tal momento a devolver o que recebemos a um outro. Ora, po d e aconte c e r que não possamos devolver em todos os planos ao mesmo tempo, e que, em outros termos, a lei nos seja intolerável. Não que ela o seja em si mesma, e sim porque a posição em que estamos comporta um sacrifício que é reconhecido como impossível no piano das signifi­ caçõ e s. Então, recalcamos nossos atos, nossos discursos, nosso comportamento. Mas a cadeia nem por isso deixa de correr por debaixo, a exprimir suas exigências, de fazer valer sua dívida, c isso, por intermédio do sintoma neurótico. É nisso que o recalque é do âmbito da neurose.


A V er n einung é da ordem do discurso, e concerne ao que somos capazes de fazer vir à tona por uma via articulada. O dito princípio de realidade intervém est r itamente nesse nível. Freud o exprime da maneira mais clara, em três ou quatro lugares que percorremos de sua obra nos di f erentes momentos de nosso comentário. Trata-se da atribuição, não do valor de símbolo, Bejahung, mas do valor de existência. Desse nível, que Freud situa em seu vocabulário como o de juízo de existência, ele dá, com uma oportunidade mil vezes à frente do que se dizia em seu tempo, a seguinte característica:
que se trata se mpre de reencontrar um objeto.


O que é o fenômeno psicótico? É a emergência na realidade de uma significação enorme que não se parece com nada - e isso, na medida em que não se pode ligá·la a nada, já que ela jamais entrou no sistema da simbolização - mas que pode, em certas con· dições, ameaçar todo o edifício.


Podemos falar de processo de compensação, e mesmo de pro­ cess o de cura como alguns não hesitariam em fazê-lo, sob pretexto de que, no momento da estabilização de 5eu delírio, o sujeito apresenta um estado mais calmo que no momento da irrupção do delírio? Seria uma cura, ou não? É uma questão que vale a pena de ser posta, mas creio que ela só pode ser posta num sentido abusivo se r posta, mas creio gue só em sentido abusivo se pode fa la r de cura.


Quando uma pulsão, digamos feminina ou pacificante, aparece num sujeito para quem a dita pulsão já foi posta em ação nos di­ ferentes pontos de sua simbolização prévia, em sua neurose infantil por exemplo, ela encontrou o meio de se exprimir num certo número de sintomas. Assim o que é recalcado se exprime assim mesmo, o recalque e o retorno do recalcado sendo uma só e mesma coisa.
O sujeito tem a possibilidade, no interior do recalque, de se sair bem com o que acontece de novo. Há compromisso. É o que ca-


racteriza a neurose, i a coisa ao mesmo tempo mais evidente do mundo, e aquela que não se quer ver.


Tudo parece mostrar que a psicose não tem pré-história. Mas acontece apenas que, quando, em condições especiais que deverão ser precisadas, alguma coisa aparece no mundo exterior que não foi primitivamente simbolizada, o sujeito se vê absolutamente desar­ mado, incapaz de fazer dar certo a V erneinung com relação ao acontecimento. O que se produz então tem o caráter de ser absolu­ tamente excluído do compromisso simbolizante da neurose, e se traduz em outro registro, por uma verdadeira reação em cadeia ao nível do imaginário, seja na contradiagonal de nosso quadradinho mágico.


Um delírio não é forçosa­ mente sem relação com um discurso normal, e o sujeito é bem capaz de nos participa r , e de se satisfazer com isso, no interior de um mundo em que toda comunicação não foi rompida.


Dora é uma histérica, e como tal ela tem relações singulares com o objeto. Vo c ês sabem que embaraço constitui em sua obser­ vação, bem como na pers e guição da cura, a ambigüidade que permanece sobre a questão de saber qual é verdadeiramente seu objeto de amor. Freud viu finalmente seu erro, e nos diz que é sem dúvida por ter desconhecido o verdadeiro objeto de amor de Dora que ele fez fracassar toda a transa, e que a cura rompeu-se prema­ turamente, sem permitir uma resolução suficiente do que estava em questão. Vocês sabem que Freud tinha acredit a do entrever nela uma relação conflitiva que se ligava à impossibilidade em que ela se encontrava de se desvincular do objeto principal de seu amor, seu pai, para ir em direção de um objeto mais normal, ou seja, um outro homem. Ora, o objeto para Dora não era outro que essa mu­ lh e r chamada, na obs e rvação, de a Senhora K., e que é precisa­ mente a amante de seu pai.


A história, como vocês sabem, é de um minueto de quatro personagens. Dora, seu pai, o Senhor K. e a Senhora K. O Senhor K. serve, em resumo, de eu para Dora, na medida em que é por seu int e rmédio que ela pode efetivamente sustentar sua ligação com a Senhora K.


Só a mediação do Senhor K. permite a Dora sustentar uma relação suportável. Se esse quarto mediador é essencial à manuten­ ção da situação, não é porque o objeto de sua afeição é do mesmo sexo que ela, é que ela tem com seu pai relações mais profunda­ mente motivadas, de identificação e de rivalidade, ainda acentuadas pelo fato de que a mãe é no casal uma personagem inteiramente apagada. É porque a relação triangular lhe seria especialmente insus­ tentável que a situação é não só mantida, mas foi efetivamenk sustentada nessa composição de grupo quartenário.


O que prova isso é o que sucede com efeito no dia em que o Senhor K. pronuncia aquela palavra fatídica -Minh a mulhe r . nã o é nad a para mim. Tudo se passa nesse momento como se ela lhe respondesse -Então, o que voc2 pode significar para mim? Ela o


esbofeteia imediatamente, enquanto que até então ela tinha mantido com ele a relação ambígua que era necessária para preser v ar o grupo a quatro. Daí ruptura de equili õrio da situação.


Dora é apenas uma pequena histérica, ela-tem poucos sintomas.
Vocês se lembram, eu o espero, da min h a insistência nesta famosa afonia que só se produz em seus momentos de estar a sós, de con­ frontação, com o seu objeto de amor, e que está certamente liga d a a uma erotização muito especial da função oral, desviada de seus usos habituais desde que Dora se aproxima perto demais do objeto de seu desejo. É pouca coisa, e não é o que a precipitaria no divã de Freud, ou faria que seu meio a induzisse a isso. Em compensa­ ção, a parti r do momento em que, indo embora a qu a r t a pe rsona­ gem, a situação se descompensa, uma pequena síndrome, de pers e ­ guição tão-somente, aparece em Dora com rela ç ão a seu pai.
Até então, a situação era um pouco escabrosa, mas não ultra­ passava a medida do que chamaremos a opereta vienense. Como todas as observações ulteriores sublinham, Dora se comportava admiravelmente para que não houvesse histórias, e para que seu pai tivesse com essa mulher amada relações normais - para dizer a verdade, a natureza dessas relações fica bastante na sombra. Dora cobria o conjunto da situação e ela estava no fim de contas bastante à vontade. Mas a partir do momento em que a situação se de s c om­ pensa, ela reivindica, afirma que seu pai a quer prostituir, e entregá-la àquele Senhor K. em troca de manutenção de suas relações ambí­ guas com a mulher dele.


Eu me recusei a dar o diagnóstico de psicose por uma razão decisiva, é que não havia nenhuma dessas perturba­ ções que constituem o objeto de nosso estudo este ano, e que são os distúrbios na ordem da linguagem. Devemos exigir, antes de dar o diagnóstico de psicose, a presença desses distúrbios.


definir o paranóico como um homem suscetível, intolerante, desconfiado e em estado de conflito verbalizado com o seu meio.
Mas, para que estejamos na psicose, é preciso haver distúrbios de linguagem, e é essa, em todo o caso, a convenção que lhes proponho adotar provisoriamente.


Dora experimenta em relação ao pai um fenômeno significa­ tivo, interpretativo, até alucinatório, mas que não chega a produzir um delírio. É contudo um fenômeno que está na via inefável, intui­ tiva, de imputar ao outro hostilidade e má intenção, e isso, a res­ peito de uma situação da qual o sujeito realmente participou, da maneira eletiva mais profunda.


Se em toda relação, mesmo erótica, com o outro, há algum eco dessa relação de exclu-


são, é ele ou eu, é que, no plano imaginário, o sujeito humano é assim constituído de forma que o outro está sempre prestes a retomar seu lugar de domínio em relação a ele, que nele há um eu que sem­ pre é em parte estranho a ele, senhor implantado nele acima do conjunto de suas tendências, de seus comportamentos, de seus ins­ tintos, de suas pulsões.


A tensão agressiva desse eu ou o outro está absolutamente integrada a toda .espécie de funcionamento imaginário no homem.


A ordem que impede a colisão e o rebentar da situação no conjunto está fundada na existência desse nome do pai.


a ordem simbólica subsiste como tal fora do sujeito, distinta de sua existência, e o determinando.


A longa e notável observação que constituem as Memórias de Schreber é sem dúvida excepcionàl, mas ela não é certamente única.
Ela só o é provavelmente em virtude do fato de que o presidente Sc hreber estava em condições de fazer publicar o seu livro, embora censurado, e também do fato . de que Freud se tenha interessado por ele.


que lhe : : importa no registro da experiência analítica é outra coisa, ou seja, a lembrança do trauma. Eis em que consiste a noção da Abwehrhysterie.


Cada um de seus textos é um texto problemático, de tal modo que ler Freud é reabrir as questões.


Quando Freud explica o delírio por uma regressão narcísica da libido, sua retirada dos objetos tendendo a uma desobjetalização, isso quer dizer, no ponto aonde ele chegou, que o desejo que tem de ser reconhecido no delírio se situa num plano bem diver s o do desejo que tem de fazer-se reconhecer na neurose.


O delírio é, com efeito, legível, mas ele é também transcrito num outro registro.


Ele é legível, mas sem saída


O recalcado na psicose, se sabemos ler Freud, reaparece num qutro lugar, in alte r o, no imaginário, e aí com efeito sem máscara.


Leiam Katan, por exemplo, que tenta nos dar uma teoria analítica da esquizo­ frenia, no quinto tomo da coletânea A �sicanálise da criança.


A psicose não é mais interpretada a partir da economia complexa de uma dinâmica das pulsõ e s, mas a partir dos pro c edimentos empregados pelo eu para se sair bem com diversas exigências, para se defender contra as pulsõ e s. O eu tor n a-se não só o centro, mas a causa do distúrbio.
O termo defesa não tem mais a partir daí outro sentido que aquele que ele tem quando se fala de se defender contra uma �en­ tação, e toda a dinâmica do caso Schreber nos é explicada a panir dos esforços do eu para se sair bem com uma pulsão dita homos­ sexual que ameaçaria sua completude. A castração não tem mais outro sentido simbólico que o de uma perda de integridade física.
Dizem-nos formalmente que o eu, não sendo mais bastante forte para encontrar pontos de ligação no meio exterior a fim de exercer sua defesa contra a pulsão que está no isso, encontra um out r o recurso, que é o de fomentar esta neoprodução que é alucinação, e que é uma outra maneira de agir, de transformar seus instintos duais.
Sublimação à sua maneira, mas que tem grandes inconvenientes.


Porque uma psicose não é simplesmente isso, não é o desen­ volvimento de uma relação imaginária, fantasmática, com o mundo exterior.


se, em suma, ficamos na relação elementar com a realidade, no registro acadêmico escolar, confiando numa teoria do conheci­ mento manifestamente incompleta, deixamos escapar toda a sua im­ portância.


A continuidade de tudo o que um sujeito viveu desde o seu nascim.en­ to nunca tende a surgir, e isso não nos interessa em absoluto. O que nos interessa são os pontos decisivos da articulação simbólica, da história, mas no sentido em que vocês dizem a História da França


O que é importante é compreender o que se diz. E para com­ preender o que se diz é necessário ver os seus substitutos, as suas ressonâncias, as suas superposições significativas. Se jam quais fo r em, e podemos admitir todos os contra-sensos, nunca é ao acaso. Quem medita sobre o organismo da linguagem deve saber o mais possível, e fazer, tanto a propósito de uma palavra quanto de um tor n eio, ou de uma locução, o fichário mais completo possível. A linguagem funciona inteiramente na ambigüidade, e a maior parte do tempo vocês não sabem absolutamente nada do que estão dizendo. Na nossa interlocução mais corrente, a linguagem tem um valor pura­ mente fictício, vocês atribuem ao outro o sentimento de que estão sempre entendendo, isto é, de que são sempre capazes de dar a res­ posta que se espera, e que não tem nenhuma ligação com qualquer coisa que seja possível de ser aprofundada. Os nove décimos dos discursos efetivamente realizados são completamente fictícios.


abandonemos a idéia, implícita em muitos sistemas, de que o que o sujeito coloca em palavras é uma elaboração imprópria e sempre distorcida de um vivido que seria uma realidade irredutível.


Se o incons­ ciente é tal como Freud nos descreveu, um trocadilho pode ser em si mesmo a cavilha que sustenta um sintoma, trocadilho que não existe numa língua vizinha. Isso não quer dizer que o sintoma está sempre fundado em um trocadilho, mas ele está sempre fundado na existência do significante como tal, numa relação complexa de totalidade a totalidade, ou mais exatamente de sistema inteiro a sis­ tema inteiro, de universo do significante a universo do significante.


para que haja sintoma, é preciso que haja ao menos duplicidade, ao menos dois conflitos em causa, um atual e um antigo. Sem a duplicidade fundamental do significante e do signifi­ cado, não há determinismo psicanalítico concebível. O material liga­ do ao conflito antigo é conservado no inconsciente enquanto signi­ fican . te em potencial, significante virtual, para ser tomado no signifi­ cado do conflito atual e servir-lhe de linguagem, isto é, de sintoma.


Assim como todo discurso, um delírio deve ser julgado em primeiro lugar como um campo de significação que organizou um certo significante, de modo que as primeiras regras de um bom interrogatório, e de uma boa investigação das psicoses, poderiam ser a de deixar falar o maior tempo possível.


insis­ tindo no caráter significativo da suspensão do sentido, que aparece pelo fato de que as vozes não completam as suas frases.


Na verdade, não se apressar participa desta atitude de boa von­ tade cuja necessidade sustento aqui para avançar na estrutura do delírio.


interroga com toda a inge­ nuidade o psiquiatra -O senhor não tem medo de vez em qu a ndo .d e ficar louco? Mas isso é totalmente verdade. Um dos bons mes­ tres que con h ecemos tinha justamente o sentimento de onde isso o levaria, ao escutá-los, esses tipos que dizem durante todo o dia disparates tão sing u lares.
· Não sabemos, nós psicanalistas, que o sujeito normal é essen­ cialmente alguém que se coloca na posição de não levar a sério a maior parte de seu discurso interior? Obser v em bem nos sujeitos normais, e por conseguinte em vocês mesmos, o número de coisas em relações às quais a ocupação fundamental de vocês é verdadei­ ramente não levá-las a sério. Talvez seja precisamente a primeira diferença entre vocês e o alienado. E é por isso que. o alienado en­ carna para muitos, e mesmo sem que ele diga isso para si mesmo, ali onde isso nos conduziria se começássemos a levar as coisas a sério.


No fundo, não entra na discussão de saber se ele se en­ ganou ou não, diz: É assim. :t: : um fato de que eu tive as provas mais diretas, isso só pbde ser Deus,. se esta palavra tem um sentido. Eu nunca tinha levado a sério essa palavra até então, e, a partir do mo­ mento em que experimentei essas coisas, fiz a experiência de Deus.
Não é a experiência que é a garantia de Deus, é Deus que é a garantia de minha experiência. Eu lhes falo de De us, é preciso justamente que cu o tenha pego em algum lugar, e como não o peguei na minha ba­ gagem de preconceitos e de infância, minha experiência é verdadeira.
Aí, ele é finíssimo. Não só ele é, em suma, uma boa testemunha, como não comete abusos teológicos. Ele está além disso bem infor­ mado, eu diria mesmo que é um bom psiquiatra clássico.


Logo, esse Deus está aí. Já sabemos que é aquele que fala todo o tempo, aquele que não pára de falar não dizendo nada. A tal pon­ to isso é verdadeiro que Schreber consagra muitas páginas a consi­ derar o que isso pode precisamente querer dizer, esse Deus que fala não dizendo nada, e que fala no entanto sem parar.


Em opo­ sição ao Deus que sonda o íntimo das pessoas, o Deus de Schreber só conhece as coisas superficialmente, ele só vê o que vê, no tocante ao interior ele não compreende nada, mas como tudo está inscrito em alguma parte por aquilo que se chama o sistema de notação, nas fichinhas, no fim, no extremo dessa totalização, ele estará assim mesmo perfeitamente a par.


deus de linguagem


a obra desse presidente Schreber, que nos dá uma exposição tão sensível, tão atraente, tão tolerante, de sua concepção do mundo e de suas experiências, e que manifesta com uma grande força de as serção o modo inadmissível de suas experiências alucinatórias?


nenhum apoio na parte sã do eu não nos permitiria ganhar um milímetro sobre a parte manüestamente alienada


A psicanálise dá, em compensação, ao delírio do psicótico uma sanção singular, porque ela o legitima no mesmo plano em que a ex­ periência analítica opera habitualmente, e que ela torna a achar no seu discurso o que comumente descobre como discurso do incons­ ciente. Mas nem por isso ela acarreta o sucesso na experiência. Esse discurso, que emergiu no eu, se revela - por mais articulado que ele seja, e se poderia mesmo admitir que ele está em grande parte invertido, posto entre parênteses pela Verneinung - irredutível, não­ manejável, não-curável


Em resumo, poder-se-ia dizer, o psicótico é um mártir do incons­ ciente, dando ao termo mártir seu sentido, que é o de testemunhar.
Trata-se de um testemunho aberto.


A servidão básica da consciência nesse estado infeliz deve ser atribuída ao discurso que provocou essa profunda transformação so­ ciaL Podemos chamar esse discurso de a mensagem de frater n idade.
Trata-se de alguma coisa de novo, que não apareceu no mundo so­ mente com o cristianismo, pois ele já estava preparado pelo estoicis­ mo, por exemplo. �m suma, atrás da servidão generalizada, há um discurso secreto, um� mensagem de liberação, que subsiste de algum modo sob a forma de recalcado.


O mesmo se passará com o que chamaremos o discurso patente da liberdade? Com certeza que não. Perceberam há algum tempo uma discórdia entre o fato puro e simples da revolta e a eficácia transfor­ madora da ação social. Eu diria mesmo que toda a revolução moderna foi instituída sobre essa distinção, e sobre a noção de que o discurso da liberdade era, por definição, não só ineficaz, mas também profun­ damente alienado em relação ao seu fim e ao seu objeto, que tudo o que se liga a ele de demonstrativo é, propriamente, o inimigo de todo progresso no sentido da liberdade, na medida em que ela pode aspirar a animar algum movimento contínuo na sociedade. Não é me­ nos verdade que esse discurso da liberdade se articula no fundo de cada um como representando um certo direito do indivíduo à auto­ nomia.


Um certo campo parece indispensável à respiração mental do homem moderno, aquele em que se afirma sua independência em relação, não só a todo senhor, mas também a todo deus, aquele de sua ir r edutível autonomia como indivíduo, como existência indivi­ dual. Há justamente aí alguma coisa que merece ser comparada em todos os pontos a um discurso delirante. É um deles.


noções de liberação interior e de manifestação de alguma coisa que está inclusa em si.


Será que não vemos, aliás, que a experiência analítica está pro­ fundamente ligada a esse duplo discursivo do sujeito, tão discordante e derrisório, que é o seu eu? O eu de todo homem moder n o?


Não é patente que a experiência analítica penetrou no fato de que, afinal de contas, ninguém, no estado atual das relações inter­ lmmanas em nossa cultura, se sente à vontade? Ninguém se sente honesto simplesmente por ter de fazer face à menor demanda de conselho, por mais elementar que ela seja, estendendo-se sobre os princípios. Não é simplesmente porque ignoramos demais a vida do sujeito que não podemos responder-lhe se é melhor casar-se ou não casar-se em tal circunstância, e que seremos, se somos honestos, levados a uma posição de reserva - é porque a própria significação do casamento é para cada um de nós uma questão que permanece aberta, e aberta de tal modo que, quanto à sua aplicação em cada caso particular, não nos sentimos habilitados para responder quando somos chamados como diretor de consciência. Essa atitude, cuja per­ tinência cada qual pode experimentar a cada vez que não se aban­ dona a si próprio em proveito de uma personagem, e não se coloca como moralista ou como onisciente, é também a primeira condição a ser exigida do que se pode chamar um psicoterapeuta - a psico­ terapêutica deve ter ensinado a ele os riscos de iniciativas tão arriscadas.


É precisamente de uma renúncia a qualquer tomada de posição no plano do discurso comum, com suas dilacerações profundas, quanto à essência dos costumes e ao estatuto do indivíduo em nossa sociedade, é precisamente de evitação desse plano que a análise partiu. Ela se atém a um discurso diferente, inscrito no próprio sofri­ mento do ser que temos diante da gente, já articulado em alguma coisa que lhe escapa, seus sintomas e sua estrutura - na medida em que a neurose obsessiva, por exemplo, não é simplesmente sin­ tomas, é também uma estrutura. A psicanálise não se coloca nunca no plano do discurso da liberdade, mesmo que este esteja sempre presente, constante no interior de cada um, com suas contradições c discordâncias, pessoal embora sendo comum, e sempre, impercepti­ velmente ou não, delirante. A psicanálise visa, aliás, o efeito do discurso no interior do sujeito.


Voltemos a Schreber. Dizem que eu sou um paranóico, e dizem que os paranóicos são pessoas que relacionam tudo a elas. Nesse caso, eles se enganam., não sou eu que relaciono tudo a mim, é ele que relaciona tudo a: mim, é esse Deus que fala sem parar no interior de mim mesmo por meio de seus diversos agentes e pro­ longamentos. :É ele que tem o hábito desgraçado, seja o que for que cu experimente, de me fazer logo notar que isso me visa, ou mesmo que isso me cabe.


Naturalmente, estamos num jogo de miragens, mas não é uma miragem ordinária a desse Outro considerado como radicalmente estranho, como errante, e que intervém para provocar perto do sujeito na segunda potência uma convergência, uma inten­ cionalização do mundo exterior, que o próprio sujeito, na medida em que se afirma como eu, repele com grande energia.


Se o surdo-mudo ficar fascinado pelas lindas mãos de seu interlocutor, ele não registrará o discurso veiculado por essas mãos. Eu diria mais - o que ele registra, ou seja, a sucessão dos sinais, sua oposição sem a qual não há sucessão, será que se pode dizer que, propria­ mente falando, ele o vê?


Todavia não podemos nos ater aí . Com efeito, o surdo-mudo, embora registrando a sucessão que lhe é proposta, pode muito bem não compreender nada se a gente se dirige a ele numa língua que ele ignora. Como aquele que escuta o discurso numa língua estrangeira, terá visto perfeitamente a dita frase, mas será uma frase morta. A frase só se torna viva a partir do momento que ela apresenta uma significação.


E da natureza da significação, enquanto ela se projeta, tender incessantemente a se fechar para aquele que a ouve. Em outras palavras, a participação do ouvinte do discurso com aquele que é o seu emissor é permanente, e há um vínculo entre o ouvir e o falar que não é externo, no sentido em que nos ouvimos falar, mas que se situa no próprio nível do fenômeno da linguagem. É no nível em que o significante acarreta a significação, e não no nível sensorial do fenômeno, que o ouvir e o falar são como o direito e o avesso.
Escutar as palavras, acomodar o seu ouvir a elas, é já ser mais ou menos obediente a elas. Obedecer não é outra coisa, é ir ao encontro, numa audição.


A alucinação enquanto invenção da realidade é aí o que constitui o suporte do que o sujeito experimenta.


a psicanálise não consiste em tornar consciente um pensamento, nem menos paradoxais as defesas de um ego, a fim de obter o que se chama tmprudentemente seu reforço. Essa rejeição das duas vias pelas quais a psicanálise enveredou, primeiramente em seu estado nascente, em seguida em seu estado atual, desviado, é quase evidente desde que a gente se aproxime das psicoses.


Seja qual for o papel que convenha atribuir-lhe na economia psíquica, um ego nunca está totalmente só. Ele comporta sempre um estranho gêmeo, o eu ideal


A fenomenologia mais aparente da psicose nos indica que esse eu ideal fala. f: uma fantasia, mas ao contrário da fantasia, ou do fantasma, que mostramos com clareza nos fenô­ menos da neurose, é uma fantasia que fala, ou mais exatamente, é uma fantasia falada. É nisso que esse personagem que faz eco aos pensamentos do sujeito intervém, o vigia, designa gradativamente a seqüência de suas ações, as comanda, não é suficientemente expli­ cado pela teoria do imaginário e do eu especular.


Não há, portanto, ego sem esse gêmeo, digamos, cheio de de­ lírio


um cadáver leproso que arrasta atrás de sz um outro cadáver leproso. Bela imagem efetivamente para o eu, pois há no eu algo fundamentalmente morto, e sempre dupli­ cado por esse gêmeo, que é o discurso.


ransitivismo imaginário que faz com que, no momento em que a criança bateu em seu semelhante, ela diga sem mentir - Ele me bateu, porque para ela é exatamente a mesma coisa. Isso define uma ordem de relação que é a relação imaginária, c que encontramos incessantemente em toda espécie de mecanismos.
Há nesse sentido um ciúme por projeção, que projeta sobre o outro as tendências à infidelidade do sujeito, ou as acusações de infideli­ dade que ele tem de fazer pesar sobre si mesmo.


De que se trata quando falo de V erwerfung? Trata-se da rejei­ ção de um significante primordial em trevas exteriores, significante que faltará desde então nesse nível. Eis o mecanismo fundamental que suponho na base da paranóia. Trata-se de um processo pri­ mordial de exclusão de um dentro primitivo, que não é o dentro do corpo, mas aquele de um primeiro corpo de significante.


A pri­ meira apreensão da realidade pelo sujeito é o julgamento da existên­ cia, que eonsiste em dizer - Isso não é meu sonho ou minha alucinação ou minha representação, mas um objeto.


O que quer dizer o significante primordial? É claro que, de modo bem preciso, isso não quer dizer nada.


O que lhes conto é também um mito, pois não creio de modo algum que haja em parte alguma um momento, uma etapa em que o sujeito adquire em primeiro lugar o significante primitivo, e que depois disso o jogo das significações é introduzido, e que depois disso ainda, significante e significado tendo se dado os braços, entremos no domínio do discurso.


O aparelho psíquico que ocupa Freud não é o aparelho psíquico tal como o concebe um professor atrás de uma mesa e diante de um quadro-negro, o qual lhes dá modestamente um modelo, que, enfim, parece funcionar - isso funciona bem ou isso funciona mal, pouco importa, o importante é ter dito alguma coisa que parece sumariamente se assemelhar ao que se chama realidade.


Não é porque vocês são psicanalistas que estão dispensados de ler os trabalhos dos psicó­ logos, alguns fizeram coisas sensatas


O que significaria senão que os desejos no inconsciente não se extinguem jamais, porque aqueles que se extinguem, por definição não se fala mais deles? Há os que não se extinguem jamais, que continuam a circular na memória e que fazem com que, em nome do princípio do prazer, o ser humano recomece indefinidamente as mesmas experiências dolorosas, nos casos em que as coisas se conectaram na memória de maneira tal que persistem no inconsciente.


Não nos lembramos das coisas que não causam prazer. Isso é completamente normal. Que chamemos isso de defesa, nem por isso é algo patológico. É mesmo o que é preciso fazer -se esquecemos as coisas que nos são desagradáveis, só podemos ganhar com isso. Uma no ç ão da defesa que não parte daí falseia toda a questão.


Eu dizia isso esquematicamente no tempo arcaico destes semi­ nários - o sujeito começa por falar dele, e não fala com você -a seguir, ele fala com você, mas não fala dele - quando ele tiver falado dele, que terá sensivelmente mudado nesse meio-tempo, com você, teremos chegado ao fim da análise.


Se quisermos situar o analista nesse esquema da fala do sujeito, podemos dizer que ele está em algum lugar de A. Pelo menos ele deve estar aí. Se ele entra no acoplamento da resistência, justamente o que lhe é ensinado não fazer, então ele fala a partir de a’, e é no sujeito que ele se verá. Isso se produz da maneira mais natural se ele não é analisado - o que acontece de vez em quando, e direi mesmo que, por um certo lado, o analista jamais é completamente analista, pela simples razão de que é homem, e de que participa, ele também, dos mecanismos imaginários que dificultam a passagem da fala. Trata-se para ele de não se identificar com o sujei­ to, de ser bastante morto para não ser pego na relação imagi­ nária, no interior da qual ele é sempre solicitado a intervir e a per­ mitir a progressiva migração da imagem do sujeito em direção ao S, a coisa a revelar, a coisa que não tem nome, que só pode encontrar seu nome na medida em que o circuito tiver terminado diretamente de S em direção A. O que o sujeito tinha a dizer através de seu falso discurso encontrará m.ais facilmente uma passagem à medida que a economia da relação imaginária tiver sido progressivamente diminuída.


Pois bem, analisando a estrutura do delírio de Schreber no momento em que ele se estabilizou num sistema que liga o eu do sujeito a esse outro imaginário, esse estranho Deus que não com­ preende nada, que não responde, que engana o sujeito, soubemos reconhecer que há, na psicose, exclusão do Outro onde o ser se realiza na confissão da fala.


a relação de eco interior


relativamente a seu próprio discurso.


Para que no interior de si mesmo ele sofra esse automatismo da função do discurso? Não só o dis­ curso o invade e o parasita, mas ele fica suspenso em sua presença.


Em Estrasburgo colocaram-me as mesmas questões que em Viena.. Pessoas que pareciam bastante sensíveis a certas perspectivas que eu abria, terminavam por me dizer -Como o senhor opera na s psicoses? -como se não houvesse bastante por fazer, diante de um auditório tão pouco preparado quanto aquele, para insistir no beabá da técnica. Eu respondia -A questão está em ação um pouquinho. Será preciso tentar achar alguns pontos de referência, antes de falar da técnica, e mesmo da receita psicoterapêutica. Insis­ tiam ainda -Não se pode contudo não fazer alguma coisa por eles? -Ma s sim, certamente. Para falar disso, esperemos que certas coisas sejam isoladas.


-Felizmente, você não é o único na Sociedade de Psicanálise. Existe também um a mulher de gênio, Françoise Dolto, que nos mostra a função essencial da imagem do corpo, e nos esclarece sobre a maneira como o sujeito se apóia em suas relações com o mundo. Aí, nós ficamos muito contentes de encontrar uma relação substancial, sobre a qu a l se bro c ha sem dúvida a relação da linguagem, mas que é infinitamente mais concreta.


Não fico surpreso de que alguma coisa persista como mal-en­ tendido a ser dissipado, mesmo entre as pessoas que crêem me seguir. Não pensem que eu esteja exprimindo uma decepção. Isso estaria em desacordo comigo mesmo, pois que lhes ensino que o próprio fundamento do discurso inter-humano é o mal-entendido.


pros­ sigo este discurso de tal maneira que lhes ofereço a oportunidade de não compreendê-lo completamente.


Em outros termos, se eu me arranjasse de maneira a ser facil­ mente compreendido, isto é, para que vocês tenham totalmente a certeza de que compreenderam, pois bem, em virtude mesmo de mi-


nhas ·premissas concer n entes ao discurso inter-humano, o mal-enten­ dido seria irremediável. Ao contrário, considerando a maneira como acredito que os problemas devam ser abordados, há sempre para vo c ês a possibilidade de estarem abertos a uma revisão do que é dito, de uma forma tanto mais cômo d a quanto o fato de que vocês não tenham compreendido mais cedo me cabe inteiramente - vo­ cês podem imputar-me isso.


O que constitui o campo analítico é idêntico ao que constitui o fenômeno analítico, ou seja, o sintoma.


Lá dentro, o sujeito é a boneca infantil que ele foi, ele é o objeto excrementício, ele é esgoto, ele é ventosa. A análise nos convocou a explorar esse mundo imaginário, que participa de uma espécie de poesia bárbara, mas ela não foi em absoluto a primeira a fazer sentir isso, foram certas obras poéticas.


Se digo que tudo o que pertence à comunicação analítica tem estrutura de linguagem, isso não quer dizer que o inconsciente se exprima no discurso. A Traumdeutung, a Psicopatologia da vida quotidiana e o Chiste tornam isso transparente - nada dos rodeios de Freud é explicável, salvo que o fenômeno analítico como tal, seja ele qual for, é, não uma linguagem no sentido em que isso significaria ser um discurso - eu nunca disse que é um discurso -, mas estruturado como uma linguagem.


Ele tem trinta e três anos, é um protestante húngaro - auste­ ridade, solidez, tradição camponesa. Ele abandonou sua família no fim da adolescência a fim de ir para a cidade. Sua vida profissional está marcada por mudanças que não são sem significação - pri­ meiramente ele é padeiro, depois trabalha num laboratório químico, enfim, é condutor de bonde. Ele puxa a sineta e picota as passa­ gens, mas também foi motorneiro.


Tomam a examiná-lo em todos os pontos. Não encontram absolutamente nada. Pensam numa histeria traumática, e o enviam ao no s so autor, que o analisa.


Esse sujeito é suficientemente bem adaptado. Ele tem com seus camaradas relações que são as de um sindicalista militante, meio líder, e se interessa muito pelo que o liga socialmente a eles. Ele goza nesse meio de um prestígio incontestável.


Vocês vêem que Eissler tenta encontrar traços do caráter anal, e progride. Mas a interpre­ tação que ele acaba por dar ao sujeito de suas tendências homos• sexualizantes, deixa-o totalmente indiferente - nada se modifica.
Há esse mesmo batente que Freud encontrava com o homem dos lobos alguns anos antes, e cuja chave não é inteiramente dada por ele naquele caso, porque sua pesquisa tinha então um outro objeto.


Há, porém, um pequeno inconveniente, é que se percebe, com a vinda do material, que o que foi decisivo na descompensação da neurose não foi o acidente, mas os exames radiológicos.


E essas crises, o seu sentido, a sua modalidade, a sua periodicidade, o seu estilo, aparecem liga­ dos de forma muito evidente à fantasia de uma gravidez


Pode-se reconhecer aí a relação anal, ou ho­ mossexual, ou isto, ou aquilo, mas esses elementos mesmos estão considerados na questão que é posta -Será que sou ou nã o al­ guém capaz de procriar? Essa questão se situa evidentemente ao nível do Outro� na medida em que a integraçáo à sexualidade está ligada ao reconhecimento simbólico.


Se o reconhecimento da posição sexual do sujeito não está ligado ao aparelho simbólico, a análise, o freudismo, não têm mais por que existir, não significam absolutamente nada. O sujeito en­ contra o seu lugar num aparelho simbólico pré-formado que instaura a lei na sexualidade. E essa lei não permite mais ao sujeito realizar sua sexualidade senão no plano simbólico. É o que quer dizer o �dipo, e se a análise não soubesse disso, ela não teria descoberto absolutamente nada.


O que está em discussão no nosso sujeito, é a questão Quem sou eu?, ou Sou eu, é uma relação de ser, é um significante fun­ damental. :E: na medida em que essa questão foi reanimada como sendo simbólica, e não reativada como imaginária, que foi desenca­ deada a descompensação de sua neurose, e que seus sintomas foram organizados. Sejam quais forem as suas qualidades, a sua natureza, o material a que eles recorreram, estes tomam valor de formulação, de reformulação, mesmo de insistência, dessa questão.


Ele pôde um dia observar, escondido, uma mulher da vizi­ nhança de seus pais que soltava gemidos que não acabavam mais.
Ele a surpreendeu em suas contorções, as pernas levantadas, e soube de que se tratava, tanto mais que, não chegando ao fim o trabalho do parto, o médico teve de intervir, e ele viu ser levada po r um corredor a criança em pedaços, que foi tudo o que se pô d e tirar.


tudo isso é tão-somente um material, favorável certa­ mente, que o sujeito utiliza para exprimir a sua questão. Se rvir-se-ia também de qualquer outro, para exprimir o que está além de toda relação, atual ou inatual, um Quem sou eu? Um homem ou uma mulher?, e Sou eu capaz de gerar?


Fala-se, por exemplo, de suas preocupações anais. Mas em torno de que funciona o interesse que ele tem nos seus excrementos? Em torno da questão de saber se pode haver nos seus excrementos sementes de frutas ainda capazes de germinar se postas na terra.


O .sujeito tem uma grande ambição, a de se ocupar com a criação de galinhas, e em especial com o comércio de ovos. Ele se interessa por toda espécie de questões relativas à botânica, todas centradas em torno de germinação. Pode-se mesmo dizer que toda uma série de acidentes que se passaram com ele na sua profissão de condutor de bonde está ligada ao espedaçamento da criança que ele presenciou. Não é a origem extrema da questão do sujeito, mas é uma particularmente expressiva.


Terminemos por onde começamos, o último acidente. Ele cai do bonde, que se tornou para ele um aparelho significativo, ele tomba, ele dá à luz a si mesmo. O tema único de fantasia de gra­ videz domina, mas enquanto quê? Enquanto significante - o con­ texto o mostra -da questão de sua integração à função viril, à função de pai. Pode-se notar que ele se arranjou para desposar uma mulher que já tinha uma criança, e com a qual ele só pôde ter rela­ ções insuficientes.


A tópica freudiana do ego nos mostra como uma histérica ou um histérico, como um obsessivo, usa de seu eu para pôr a questão, isto é, justamente para não pô-la. A estrutura de uma neurose é


essencialmente uma questão


E Freud termina por perceber que, neste balé a quatro - Dora, seu pai, o Sr. e a Sra. K. -, é a Sra. K. o objeto que verdadeiramente interessa a Dora, na medida em que ela própria está identificada com o Sr. K.
A questão de saber onde está o eu de Dora fica assim resolvida -o eu de Dora é o. Sr. K. A função preenchida no esquema do es­ tádio do espelho pela imagem especular, em que o sujeito situa seu sentido para se reconhecer, onde pela primeira vez ele situa o seu eu, esse ponto externo de identificação imaginária é no Sr. K. que Dora o coloca. É na medida em que ela é o Sr. K. que todos os seus sintomas adquirem o seu sentido definido.


Que diz Dora através de sua neurose? Que diz a histérica­ mulher? Sua questão é a seguinte: O que é ser uma mulher?


Não há, propriamente, diremos nós, simbolização do sexo da mulher como tal. Em todo o caso, a simbolização não é a mesma, não tem a mesma fonte, não tem o mesmo modo de acesso que a simb o lização do sexo do homem. E isso, porque o imaginário for­ nece apenas uma ausência, ali onde alhures há um símbolo muito prevalente.


� a prevalência da Gestalt fálica que, na realização do com­ plexo edípico, força a mulher a tomar emprestado um desvio através da identificação com o pai, e portanto a seguir durante um tempo os mesmos caminhos que o menino. O acesso da mulher ao complexo edípico, sua identificação imaginária, se faz· passando pelo pai, exatamente como no menino, em virtude da prevalência da forma imagin á ria do falo, mas na medida em que esta é ela própria tomada como o elemento simbólico central do Édipo.


Ali onde não há material simbólico, há obstáculo, falha, na realização da identificação essencial à realização da sexualidade do sujeito. Essa falha provém do fato de que, num ponto, o simbólico está falto de material - pois lhe é preciso algum. O sexo feminino tem uma característica de ausência, de vazio, de buraco, que faz com que aconteça ser menos desejável que o sexo masculino no que ele tem de provocante, e com que uma dissimetria essencial apare ç a. Se tudo devesse ser discer n ido na ordem de uma dialética das pulsões, não se veria por que um tal desvio, uma tal anomalia seria requerida.


Quando Dora se vê interrogar a si mesma sobre o que é uma mulher?, ela tenta simbolizar o órgão feminino como tal. Sua iden­ tificação com o homem, portador do pênis, é para ela, nessa oc asião, um meio de aproximar-se dessa definição que lhe escapa. O pênis lhe serve literalmente de instrumento imaginário para apreender o que ela não consegue simbolizar.


Tornar-se uma mulheJ e interrogar-se sobre o que é uma mulher são duas coisas essencial­ mente diferentes. Eu direi mesmo mais - é porque não nos tor­ namos assim que nos interrogamos, e até certo ponto, interrogar-se é o contrário de tor n ar-se.


A questão do histérico macho concerne também à posição feminina.


Podemos agora precisar o fator comum à posição feminina e à questão masculina na histeria? - fator que se situa sem dúvida no nível simbólico, mas sem talvez a ele se reduzir inteiramente.
Trata-se da questão da procriação. Tanto a paternidade como :i maternidade têm uma essência problemática - são termos que não se situam pura e simplesmente no nível da experiência.


O simbólico dá uma forma na qual se insere o sujeito no nível de seu ser. É a partir do significante que o sujeito se reconhece como sendo isto ou aquilo. A cadeia dos significantes tem um valor explicativo fundamental, e a própria noção de causalidade não é outra coisa.


Há, contudo, uma coisa que escapa à trama simbólica, é a procri.ação em sua raiz essencial - que um ser nasça de um outro.


Há, com efeito, algo de radicalmente inassimilável ao signifi­ cante. E, simplesmente, a existência singular do sujeito. Por que será que ele está ali? De onde ele sai? Que está fazendo ali? Por que vai desaparecer? O significante é incapaz de dar-lhe a resposta, pela simples razão de que ele o coloca justamente além da morte. O significante o considera já como morto, ele o imortaliza por essência.


ele deixou passar muito tempo antes de divulgar o que tinha a dizer. Ele marca bem o tempo de latência, sempre de três ou quatro anos, que houve entre o momento em que ele compôs suas obras principais e aquele em que as fez circular. A Traumdeutung foi escrita três -ou quatro an o s antes de sua publicação. Da mesma forma, a Psicopatologia da vida quotidiana, e o caso de Dora.


A dimensão até o pre­ sente elidida na compreensão do freudismo é a de que o subjetivo não está do lado daquele que fala. É algo que reencontramos no real.


O subjetivo aparece no real na medida que supõe que temos à nossa frente um sujeito capaz de se servir do significante, do jogo do significante. E capaz de servir-se dele como nós nos servimos -não para significar algo, mas precisamente para enganar sobre o que se tem de significar.


O subjetivo é para nós o que distingue o campo da ciência em que se baseia a psicanálise, do conjunto do campo da física. É a instância da subjetividade como presente no real que é o motor essencial que faz com que digamos algo de novo quando distingui­ mos por exemplo essas séries de fenômenos de aparência natural, que chamamos neuroses ou psicoses.
São as psicoses uma série de fenômenos naturais? Entram elas num campo de explicação natural? Chamo natural o campo da ciência em que não há ninguém que se sirva do significante para significar.


Não há outra definição científica da subjetividade senão a partir da possibilidade de manejar o significante com fins puramente significantes, e não significativos, isto é, não exprimindo nenhuma relação direta que seja da ordem do apetite.


As coisas são simples. Mas é preciso ainda que a ordem do significante, o sujeito a adquira, a conquiste, seja colocado em seu lugar numa relação de implicação que afeta seu ser, o que resulta na formação do que chamamos em nossa linguagem o superego.


que se prendem os sintomas? - senão à implicação do organismo humano em alguma coisa que é estruturada como uma linguagem, com o que tal ele­ mento de seu funcionamento vai entrar em jogo como significante.


A histeria é uma questão centrada em torno de um significante que permanece enigmático quanto à sua significação. A questão da morte, a do nascimento, são, com efeito, as duas últimas que justamente não têm solução no significante. ‘S o que dá aos neuróticos seu valor existencial.


o que foi rejeitado do interior reapa­ rece pelo exterior, ou ainda, como se tenta expressá-lo numa lin­ guagem amplificadora, que o que foi suprimido na idéia reaparece no real.


Nada se parece tanto com uma sintomatologia neurótica quanto uma sintomatologia pré-psicótica. Uma vez formulado o diagnóstico, vão nos dizer então que o inconsciente se acha aí exposto de fora, que tudo o que é do id passou no mundo exterior, e que as significações em jogo são tão· claras que não podemos precisamente intervir de maneira analítica.


Trata-se de um rapaz na puberdade, cujo período pré-psicótico o autor analisa muito bem, dando-nos a noção que. naquele sujeito, nada ali é da ordem do acesso a algo que possa realizá-lo no tipo


viril. Faltou tudo. E se ele tenta conquistar a tipificação da atitude viril, é por intermédio de uma imitação, de um atrelamento, na esteira de um de seus companheiros. Como este e nas suas passadas, ele se entrega às primeiras manobras sexuais da puberdade, a mas­ turbação especialmente, ele renuncia a isso logo depois por injunção do dito companheiro, e passa a identificar-se a ele por uma série de exercícios denominados de conquista sobre si mesmo. E se comporta como se estivesse nas mãos de um pai severo, que é o caso de seu companheiro. Como ele, ele se interessa por uma menina, a qual, como por acaso, é a mesma por quem seu companheiro se interessa. E quando ele tiver ido bastante longe nes’ i a identificação com o colega, a menina lhe cáirá prontinha nos braços.
Aí se encontra manifestamente o mecanismo do como se que a Sra. Helena Deutsch avaliou como uma dimensão significativa da sintomatologia dos esquizofrênicos. É um mecanismo de compensa­ ção imaginária - verifiquem a utilidade da distinção dos três re­ gistros, - compensação imaginária do Édipo ausente, que lhe teria dado a virilidade sob a forma, não da imagem paterna, mas do significante, do nome-do-pai.


Quando a psicose eclode, o sujeito vai se comportar como an� tes, como homossexual inconsciente. Nenhuma significação emerge que seja basicamente diferente do período pré-psicótico. Todo o seu comportamento em relação ao amigo, que é o elemento piloto de sua tentativa de estruturação no momento da puberdade, vai se en­ contrar no seu delírio. A partir de que momento ele delira? A partir do momento em que ele diz que seu pai o persegue para matá-lo, para roubá-lo, para castrá-lo. Todos os conteúdos implicados nas significações neuróticas estão ali. Mas o ponto essencial, que não �e põe em destaaue, é que o delírio começa a partir do m0mento em que a iniciativa vem de um Outro, com um A maiúsculo. em que a iniciativa está fundada numa atividade subjetiva. O Outro quer isso, e ele quer sobretudo que se saiba disso, ele quer significar.


E disso que se trata o tempo todo no delírio. Fazem eles fazerem isso.


Trata-se, no fundo da psicose, de um impasse, de uma per­ plexidade concernente ao significante. Tudo se passa como se o sujeito reagisse a isso com uma tentativa de restituição, de compen­ sação. A crise está desencadeada fundamentalmente por alguma questão sem dúvida. O que é que … ? Eu nada sei disso. Suponho que o sujeito reage à ausência do significante pela afirmação tanto mais reforçada por um outro que, como tal, é essencialmente enigmático. O Outro, com um A maiúsculo, eu lhes disse que ele estava excluído, enquanto detentor do significante. Por isso ele é tanto mais potentemente afirmado, entre ele e o sujeito, no nível do outro com minúscula, do imaginári o .


É ao nível do entre-eu, isto é, do outro com minúscula, do duplo do sujeito, que é ao mesmo tempo seu eu e não seu eu, que apa r ecem falas que são uma espécie de comentário corrente da existência. Vemos esse fenômeno no automatismo mental, mas ele é aqui bem mais acentuado, já que há um uso por assim dizer impli­ cante do significante nas frases começadas, depois interrompidas.


Que pro c uramos nós, analistas, quando abordamos uma per­ turbação mental, quer ela se mostre de maneira patente ou esteja latente, quer ela se mascare ou se revele nos sintomas ou nos comportamentos? Procuramos sempre a significação . É isso que nos distingue . Contam com o analista para não se deixar enganar quanto à significação verdadeira . Quando ele revela o alcance que adquire para o sujeito um objeto qualquer, é sempre do registro da significação que se trata, de uma significação em que ele con-


sidera que algo do sujeito está interessado. :e. aqui onde quero detê-los, pois há aí uma encruzilhada.


O· significante tem suas leis próprias, independen­ temente do significado


A força da descoberta analítica não está nas significações ditas · libidinais ou instintivas relativas a toda uma série de comportamen­ tos. Isso é verdade, há isso. Mas, no ser humano, as significações mais próximas da necessidade, as significações relativas à inserção mais animal no meio enquanto nutritivo e enquanto cativante, as significações primordiais, estão submetidas, em sua seqüência e em sua própria instauração, às leis que são aquelas do significante.


Refletindo sobre is s o, teremos necessidade da psicanálise pa r a sabê-lo? Não ficamos perplexos de que os filósofos não tenham desta­ cado há muito tempo o fato de que a realidade humana é irreduti­ velmcnte estruturada como significante?


estamos reduzidos a permanecer muito medrosamente no conformismo, tememos nos tornar um pouquinho loucos logo que não digamos exatamente a mesma coisa que todo o mundo. f: essa a situação do homem moderno.


A aparição de uma nova estrutura nas relações entre os significantes de base, a criação de um novo termo na órdem do signi­ ficante, têm um caráter devastador.
Isso não é problema nosso. Não temos a obrigação de nos interessar pela aparição de um significante, pois é um fenômeno que jamais encontramos profissionalmente


Uma neurose sem Édipo, isso não existe.
Levantou-se essa questão, mas não é verdadeira. Numa psicose, admitimos perfeitamente que alguma coisa não funcionou, não se completou no :É dipo essencialmente.


psicose consiste em um buraco, uma falta ao nível do significante.


enquanto psica­ nalistas, somos mesmo assim preparados para tentar esclarecer os infelizes que, eles sim, colocaram-se questões. Estamos certos de que os neuróticos se puseram uma que s tão. Os psicóticos, não é tão certo. A resposta lhes veio talvez antes da questão - é uma hi­ pótese. Ou então a questão se pôs sozinha — não é impensável.


Lembrem-se daquele sujeito que evidentemente nos pa recia, para nós, muito lúcido. Tendo em vista a maneira como ele tinh a crescido e prosperado na existência, no meio da anarquia, nada além que um pouco mais evidente que nos outros, de sua situação fa­ miliar, ele se apegara a um amigo, que se tomara seu ponto de enraizamento na existência, e de repente algo tinha oc orrido, ele não era capaz de explicar o quê. Sacamos muito bem que isso dizia respeito ao aparecimento da filha de seu parceiro, e completamos dizendo que ele sentiu esse fato como incestuoso, daí a defesa.


Não somos muito exigentes quanto ao rigor de nossas arti­ culações desde que aprendemos com Freud que o princípio de contradição não funciona no inconsciente - fórmula sugestiva e interessante, mas, se atentarmos bem, um pouco curta - quando uma coisa não funciona num sentido, ela é explicada pelo seu con­ trário. E é por isso que a análise explica admiravelmente as coisas.
Esse rapazinho tinha �ompreendido muito menos que nós. Ele tro­ peçava ali diante de algo, e, faltando-lhe uma chave, ele tinha ido colocar-se durante três meses em seu leito, para se achar. Ele estava na perplexidade.


pré-psicose, a saber, o sentimento de que o sujeito chegou à beira do buraco.


Na psicose, é o significante que está em causa, e como o significante não é nunca solitário, como ele sempre forma alguma coisa de coerente - é a significância mes­ ma do significante - a falta de um significante leva necessariamente o sujeito a reconsiderar o conjunto do significante.


Segundo o que explicam, trata-se para o sujeito de proteger-se contra as tentações homossexuais. Ninguém nunca se ocupou em dizer - Schreber menos que os outros - que de repente ele não via mais as pessoas. que a própria face de seus semelhantes machos era, pela mão do Eterno, recoberta por um manto. Ele sempre os via muitíssimo bem. Consideram simplesmente que ele não os via por aquilo que eles verdadeiramente eram para ele, a saber: como obje­ tos de atração amorosa. Não se trata portanto do que se chama vagamente de realidade, como se fosse a mesma coisa que a reali­ dade das muralhas contra as quais batemos com a cabeça, trata-se de uma realidade significante, que não nos apresenta simple s mente botaréus e obstáculos, mas uma verdade que se verifica e se inst a ura por si mesma como orientando esse mundo, e introduzindo os seres, para chamá-los pelo nome deles.


O pai não é simplesmente o gerador. Ele é também aquele que possui de direito a mãe, e, em princípio, em paz. Sua função é cen­ tral na realização de Édipo. e condiciona o acesso do filho - que é também uma função, e correlativa da primeira - ao tipo da viri­ lidade. Que se passa se uma certa falta se produziu na função forma­ dora do pai?


Suponhamos que essa situação comporte precisamente para o ‘S ujeito a impossibilidade de assumir a realização do significante pai ao nível simbólico. O que lhe resta? Resta-lhe a imagem a que se reduz a função paterna. É uma imagem que não se inscreve em nenhuma dialética triangular, mas cuja função de modelo, de alie­ nação especular, dá air . Ja assim ao sujeito um ponto de engancha­ mento, e lhe permite apreender-se no plano imaginário.


Se a imagem captadora é desmedida, se a personagem em ques­ tão se manifesta simplesmente na ordem da potência, e não na do pacto, é uma relação de rivalidade que aparece, a agressividade, o temor etc. Na medida em que a relação permanece no plano ima­ ginário, dual e desmedido, ele não tem a significação de exclusão re­ cíproca que o afrontamento especular comporta, mas a outra função, que é aquela da captura imaginária. A imagem adquire em si mesma c logo de saída a função sexualizada, sem ter necessidade de ne­ nhum intermediário, de nenhuma identificação com a mãe nem com quem quer que seja. O sujeito adota então essa posição intimidada que observamos no peixe ou no lagarto. A relação imaginária se instaura sozinha, num plano que não tem nada de típico, que é desumanizante, porque não deixa lugar para a relação de exclusão recíproca que permite fundar a imagem do eu na órbita que dá o modelo do outro, mais acabado.


A alienação é aqui radical, ela não está ligada a um significado aniquilante, como um certo modo de relação rivalitária com o pai.
mas com um aniquilamento do significante. Essa verdadeira despos­ sessão primitiva do significante, será preciso que o sujeito dela se encarregue e assuma a sua compensação, longamente, na vida, por uma série de identificações puramente conformistas a personagens que lhe darão o sentimento do que é preciso fazer para ser um homem.
É assim que a situação pode se sustentar durante muito tempo, que certos psicóticos vivem compensados, têm aparentemente os comportamentos comuns considerados como normalmente viris, e de uma só vez, misteriosamente, Deus sabe por quê, se descompensam.
O que será que torna subitamente insuficientes as muletas imaginá­ rias que permitiam ao sujeito compensar a ausência do significante?
Como o significante repõe como tal suas exigências? Como o que é falho intervém e interroga?


não só nos passaremos por seus secretários, mas tomaremos ao pé da letra o que ele nos conta


O que vocês chamam leitura? Qual o momento ótimo da lei­ tura? Quando vocês estão seguríssimos de que vocês lêem? Vo c ês me dirão que isso não suscita nenhuma dúvida, e que se tem o sen­ timento da leitura. Há muitas coisas que aí vão de encontro a i’ . S o.
Nos sonhos, por exemplo, podemos ter o sentimento de ler alguma coisa, quando manifestamente não podemos afirmar que haja cor­ respondência com um significante. A absorção de certos tóxicos pode nos conduzir ao mesmo sentimento. Isso não nos dá a idéia de que não podemos nos fiar na apre e nsão sentimental da coisa, e qu e é preciso fazer intervir a objetividade da relação do significante e do sign�icado? É aí então que o problema realmente começa, e com ele as complicações.


Há, por exemplo, o caso daquele que finge esta r lendo


O outro extremo é o caso no qual vocês já sabem de cor o que há no texto. Isso acontece mais freqüentemente do que se crê. Aque- .
les textos de Freud que são de uso corrente na formação psicológica e médica de vocês, pode-se dizer que vocês já o sabem de cor.
É o que permite relativizar singularmente o que constitui o fundo da literatura dita científica, pelo menos em nosso domínio. Tem-se muitas vezes a impressão de que o que dirige muito profundamente a intenção do discurso não é talvez outra coisa senão ficar exata­ mente nos limites do que já foi dito. Parece que a última intenção desse discurso é fazer um sinal aos destinatários, e provar que o sig­ natário é, se posso assim dizer, não-nulo, que é capaz de escrever o que todo o mundo escreve.


Por que então, condenar de antemão à caducidáde o que se externa de um sujeito que se pre­ sume estar na ordem do insensato, mas cujo testemunho é mais singular, e mesmo inteiramente original? Por mais perturbadas que possam �star suas relações com o mundo exterior, mesmo assim não guarda talvez seu testemunho o seu valor?


Metodolog i camente, estamos, portanto, · no direito de aceitar o testemunho do alienado em sua posição em relação à lingua­ gom, e devemos tê-lo em conta na análise de conjunto das relações do sujeito com a linguagem.


Normalmente, a conquista da realização edípica, a integração e a introjeção da imagem edípica, se faz pela vida - Freud nos disse isso sem ambigüidade - da relação agressiva. Em outros ter­ mos, é pela via de um conflito imaginário que se faz a int , e gração simbólica.


A interrogação reno­ vada em torno da pessoa de Moisés, de seu hipotético medo, não tem outra razão senão responder à questão de saber por que via a dimensão da verdade entra de maneira viva na vida, na economia do homem. Freud responde que é por intermédio da significação última da idéia do pat.


A metáfora supõe que uma significação seja o dado que domi­ na, e que ela inflete, comanda o uso do significante, tão be m que toda espécie de conexão preestabelecida, diria Iexical, se acha desa­ tada. Nada que esteja no uso do dicionário pode, por um instante, sugerir-nos que um feixe possa ser avaro, e muito menos od iento.
E, no entanto, é claro que o uso da língua só é suscetível de signifi­ cação a partir do momento em que é possível dizer Seu feixe não er a nem avaro, nem odiento, isto é, em que a significação arranca o significante de suas conexões lexicais.


Todos vocês conhecem a afasia de Wemicke. O afásico enca­ deia uma seqüência de frases de caráter gr amatical extraordinaria­ mente desenvolvido. Dirá: -Sim, compreendo. Ontem, quando eu estava lá em cima, ele já disse, e eu queria, eu lhe disse, não é isso, a data, não inteiramente, não aquela … O sujeito mostra com isso um domínio completo de tudo o que é articulação, organização, subordinação e estruturação da frase, mas ele fica sempre ao lado do que quer dizer.


Não se poderia pôr melhor em evidência a dominância da contigüidade no fenômeno alucinatório do que apontando o efeito de fala interrompida, e de fala interrompida tal como ela precisa­ mente se dá, isto é, como investida, e digamos, libidinalizada.


O afásico de que eu falava não pode comunicar o essencial.
Daí um discurso aparentemente vazio, que, coisa curiosa, mesmo nos sujeitos mais experimentados, entre os neurólogos, provoca irre­ sistivelmente sempre um riso embaraçado. Aí está um tipo que está se servindo de imensos blablablás extraordinariamente articulados, algumas vezes ricos em inflexões, mas que nunca pode chegar ao cer n e do que ele tem a comunicar. O desequilíbrio do fenômeno de contigüidade que vem no primeiro plano do fenômeno alucina­ tório, e em torno do qual se organiza todo o delírio, não deixa de ter analogia com isso.


A forma retórica que se opõe à metáfora tem um nome - ela se chama metonímia. Ela concerne à substituição de alguma coisa que se trata de nomear - estamos, com efeito, ao nível do nome. Nomeia-se uma coisa por uma outra que é o seu conti­ nente. ou a parte. ou que está em conexão com.


De uma forma geral, o que Freud chama a condensação, é o que se chama em retórica a metáfora, o que ele chama o deslocamento é a metonímia


Do ponto de vista da fenomenologia, a linguagem do afásico sensorial é uma linguagem de paráfrases. Sua jarganofasia - o vo­ cábulo é um pouco forte demais - se caracteriza pela abundância e facilidade da articulação e do desenvolvimento das frases, por mais parcelares que elas se tornem no desfecho final.


A paráfrase se opõe diretamente à metáfrase, se chamarmos desse modo o que é da ordem de uma tradução literal. Isso signi­ fica que se vocês lhe pedirem para traduzir, dar um sinônimo, repetlr a mesma frase, aquela mesma que ele acaba de dizer, ele é incapaz disso. Ele pode dar continuidade, a partir do discurso de vocês ou do dele, mas ele tem as maiores dificuldades para comentar um discurso. Vocês obtêm dele réplicas tão vivas, tão patéticas no de­ sejo de fazer-se entendido que isso acaba sendo quase cômico.
É preciso estar interessado pelo próprio fenômeno para não rir.


Portanto, há aí um distúrbio da similaridade, que consiste nisto: o sujeito é incapaz da metáfrase, e o que ele tem a dizer está inteiramente no domínio da paráfrase.


Ao lado da afasia sensorial, há aquela que se chama grosseira­ mente motora.


É aqui essencialmente a articulação, a sintaxe da linguagem, que, progressivamente, na escala dos casos e na evolução de certos sujeitos, se degrada, a ponto de torná-los incapazes de articular numa frase composta o que eles podem entretanto corretamente nomear.
Eles guardam a capacidade nominativa, mas perdem a capacidade proposicional. Eles não são capazes de construir a proposição.


Ele intelectualiza demais, dizem. Isso serve de álibi ao medo da linguagem. De fato, vocês observarão que há verbalismo ali onde se comete o erro de outorgar demasiado peso ao significado, ao passo que é impelindo mais longe no sentido da indep e ndência do significante e do significado que toda operação de construção lóg i ca adquire seu pleno alcance.


Não parece que um toque de neurose, que pode servir certa·· mente para compreender Freud, tenha jamais guiado alguém antes dele na mesma via. Nada menos perverso, parece-me, que a vid.t de Freud. Se se tratasse de procurar por esse lado o preço de suas audácias, nem a pobreza do estudante, nem os anos de luta do pai de família numerosa, me parecem bastar para explicar alguma coisa


que chamarei uma abnegação quanto às relações de amor, que é preciso justamente assinalar quando se trata do renovador da teoria do Eros.


a raiva longo tempo conservada por Freud contra a sua noiva, por lhe ter feito perder, por causa de um deslocamento inoportuno, a glória de ser o inventor do uso cirúrgico da cocaína.


onde ele teve péssimas notícias de um dos seus doentes.


O eu nem mesmo é o lugar, a indi­ cação, o ponto de reunião, o centro organizador do sujeito, é pro­ fundamente dissimétrico a ele


Tudo se faz para evitar a relação de eu a eu, a miragem imaginária que poderia estabelecer-se com o analista. O sujeito não está face a face com o analista. Tudo é feito para que tudo se apague de uma relação dual, de semelhante a semelhante.


Por outro lado, é da necessidade de uma orelha, de um outro, auditor, que deriva a técnica analítica. A análise do sujeito não pode ser realizada senão com um analista. Isso nos lembra que o inconsciente é essencialmente fala, fala do outro; e não pode ser reconhecida senão quando o outro a remete a vocês.


Há um momento na obra de Freud entre 1920 e 1924 em que ele simples­ mente dá um salto. Ele sabe que já não lhe resta muito tempo de vida - ele morreu aos 83 anos, em 1939 -, e vai direto ao fundo do problema, a saber, o automatismo de repetição.


a insistência de uma fala que, no sujeito, volta até que ela tenha dito sua última palavra, uma fala que deve tornar a voltar, apesar da resistência do eu que é defesa, isto é, aderência ao contra­ senso imaginário da identificação com o outro. A repetição é funda­ mentalmente insistência de uma fala.


O homem é efetivamente possuído pelo discurso da lei, e é com esse discurso que ele se castiga, em nome dessa dívida simbólica que ele não cessa de pagar sempre mais em sua neurose.


Daí, qual é o centro de gravidade da descoberta freudiana, qual é sua filosofia? Não que Freud tenha feito filosofia, ele sem­ pre negou que fosse filósofo.


Mas pôr uma questão já é sê-lo, mes­ mo se não se sabe que ela está sendo posta. Portanto, Freud o filó­ sofo, que ensina ele?


Freud deve ser situado numa tradi­ ção realista e trágica, o que explica que é à sua luz que podemos hoje compreender e ler os trágicos gr egos.


É aquela de um estudo positivo cujos métodos e cujas formas nos são dados nessa esfera das ciências ditas humanas que concerne à ordem da linguagem, à lingüística. A psicanálise devia ser a ciência da linguagem habitada pelo sujeito. Na perspectiva freudiana, o ho­ mem é o sujeito preso e torturado pela linguagem.


É assim, diz ele, que o que um histérico exprime vomitando, um obsessivo o ex­ primirá tomando medidas muito penosamente protetoras contra a in­ fecção, enquanto um parafrênico será conduzido a queixas e a sus­ peitas. Nos três casos, serão diferentes representações do desejo do pa­ ciente de vir ao que foi reprimido em seu inconsciente, e sua reaçfio defensiva contra esse fato.


À maneira histérica de questionar ou … ou … , opõe-se a resposta do obsessivo, a denegação, nem… nem … , nem macho, nem fêmea.


Daí se pôr a ques­ tão de saber se o psicótico verdadeiramente entrou na linguagem.


Eles não entram jamais no jogo dos significantes, a não ser por uma espécie de imitação exterior.
A não-integração do sujeito no registro do significante nos dá a dire­ ção na qual a questão se põe quanto ao prévio da psicose - que só é solúvel seguramente pela investigação analítica.


Acomece recebermos pré-psicóticos em análise, e sab e mos em que isso dá - isso dá em psicóticos. Não se colocaria a questão das con­ tra-indicações da análise se todos nós não tivéssemos na memória tal caso de nossa prática, ou da prática de nossos colegas, em que uma bela e boa psicose - psicose alucinatória, não falo de uma esquizo­ frenia precipitada -é desencadeada quando das primeiras sessõ e s de anáhse um pouco acaloradas, a partir das quais o sentencioso ana­ lista se torna rapidamente um emissor que faz ouvir ao analis a d o durante o dia todo o que deve fazer e não fazer.


Não tocamos aí, na nossa própria experiência, e sem ter de pro­ curar mais longe, no que está no cerne dos motivos de entrada na psicose? É o que se pode propor de mais árduo a um homem, e ao que seu ser no mundo não enfrenta tão freqüentemente - é o que se chama tomar a palavra, eu entendo a sua, o contrário mesmo de di­ zer sim, sim, sim à do vizinho. Isso não se exprime forçosamente em palavras. A clínica mostra que é justamente nesse momento, se sabe­ mos referendá-lo a níveis muito diversos, que a psicose se declara.


no caso do pre­ sidente Schreber, a ausência do significante macho primordial com o qual ele pôde parecer durante anos poder ser igual


o Outro absoluto, é aquele ao qual nós nos


dirigimos para além desse semelhante, aquele que somos forçados a admitir para além da relação da miragem, aquele que aceita ou que se recusa na nossa presença, aquele que na ocasião nos engana, do qual não podemos jamais saber se ele não nos engana, aquele ao qual sempre nos endereçamos. Sua existência é tal que o fato de se endereçar a ele, de ter com ele como que uma linguagem, é mais importante que tudo o que pode ser uma aposta entre ele e nós.


Schreber atribui o mal-entendido com Deus ao fato de que este não sabe fazer a distinção entre o que exprime os ver­ dadeiros sentimentos ·das pequenas almas, e portanto do sujeito, e o discurso no qual ele se exprime comumente no curso de suas rela­ ções com os outros. A distinção está assim literalmente traçada entre o discurso inconsciente que o sujeito exprime com todo o seu ser e o discurso comum.


Freud diz isso em algum lugar - há mais verdade psicológica no delírio de Schreber que nos psicólogos


Há pronomes pessoais qúe se declinam, eu, me, tu, te, ele, o etc.
No registro, me, te, o, o pronome pessoal é suscetível de ser elidido.
No outro eu, mim, ti, lhe, ele não se elide.
Vocês percebem a diferença? Eu o quero, ou eu quero a ele ou a ela, não é a mesma coisa.


O sujeito ouve com sua orelha algo que existe ou que não existe? É bem evidente que isso não existe, e que conseqüentemente é da ordem da alucinação, isto é, de uma percepção falsa. Isso deve nos bastar?
Essa concepção maciça da realidade redunda numa explicação bem misteriosa sustentada pelos analistas, segundo a qual uma su­ posta recusa em perceber provoca um buraco, e que surge então na realidade uma pulsão rejeitada pelo sujeito. Mas por que aparecerá nesse buraco alguma coisa de tão complexo e arquitetado quanto a fala? É o que não se diz.


Essas frases retidas são em geral interrompidas no momento em que o vocábulo pleno que lhe daria seu sentido ainda está fal­ tando, mas está implicado. Já destaquei mais de um exemplo. O su-jeito ouve por exemplo -Vocês falam ainda .. . e a frase se intcr-romp.:. . Isso quer dizer -Vocês falam ainda … línguas estrangeiras?


Agora nos falta … o pensamento principal


é algo que devemos a todo homem de bem, e mesmo ao pecador mais desgraçado, sob condição de exigências de purificação inerentes à ordem do universo, que lhe devemos na troca na qualidade do que deve regular nossas relações com os seres humanos. É realmente da fé que se trata, da boa fé mínima impli­ cada pelo reconhecimento do outro.


O destaque essencial me parece ser o recuo ou a migração do sentido, sua ocultação num plano que o sujeito é levado a situar como um plano por detrás. Dois estilos se opõem, dois alcances.
De um lado, a escansão, que joga sobre as propriedades do signifi­ cante, com a interrogação implícita que ela comporta, e que vai até à coerção. Por outro lado, o sentido, que tem por natureza ocultar-se, acusar-se como algo que se oculta, mas que se põe ao mesmo tempo como um sentido extremamente pleno cuja fuga aspira o sujeito em direção ao que seria o cerne do fenômeno delirante, seu umbigo. Vocês sabem que este último termo, umbigo, é empre­ gado por Freud para designar o ponto em que o sentido do sonho parece acabar num buraco, um nó, além do qual é verdadeiramente no cerne do ser que parece se prender o sonho.


Po i s be m, eu disse isto com os meus botões -Parti’r de quê?
E me ponho a procurar uma frase, um pouquinho à maneira desse pseudo-Shakespeare desprovido de inspiração, que passearia de um lado para o outro, repetindo -To be or not … to be or not .. . -suspenso até que ele encontre a continuação, retomando o início -To be or not… to be. Eu começo por um sim. E, como não sou anglófono, mas de língua francesa, o que me vem depois é -Sim, eu venho em seu templo adorar o Eter n o.
21 Isso quer dizer que o significante não é isolável.


Não é necessário lidar com uma mulher da so c iedade para perceber que sim quer dizer às vezes não, e nã o às vezes talvez.


sim é em geral uma confirmação, e pelo menos uma concessão.
Quase sempre, um Sim, mas vai bem no estilo.


A frase só existe acabada, e seu sentido lhe vem só depois.


oportunidade de fazer-lhes sentir diante de que os psicót i cos se detêm, porque a função deles é a de compreender algo sobre o que eles não compreendem nada, e até onde os lingüistas não levam adiante, apesar do método maravilhoso que têm na mão.


Em suma, qual é aqui o papel do significante? O medo é algo de particularmente ambivalente, nós, analistas, não o ignoramos -é não só algo que impele vocês para a frente como também algo que os puxa para trás, é algo que faz de vocês um ser duplo e que, quando o exprimem diante de uma personagem junto de quem vocês querem dar mostras de ter medo junto, os coloca a cada instante na postura de reflexo. Mas há algo diverso, que parece homônimo, e é o temor a Deus.


Substituir os inumeráveis temores pelo temor de um ser único que não tem outro meio de manifestar sua potência senão pelo que é temido atrás desses inumeráveis tem o res é demais.


Quer se trate de um texto sagrado, de um romance, de um drama, de um monólogo ou de uma conversação qualquer, vocês me permitirão representar a função do significante por um artifício espacializante, do qual não temos nenhuma razão de nos privar. Esse


ponto em tor n o do qual deve exercer-se toda análise concreta do discurso, chamá-lo-ei um ponto de basta.


O ponto de basta é a palavra temor, com todas essas conota­ ções trans-significativas. Em torno desse significante, tudo se irradüi e tudo se organiza, como nes.sas linhazinhas de força formadas it superfície de uma trama pelo ponto de basta. É o ponto de conver­ gência que permite situar retroativa e prospectivamente tudo o que se passa nesse discurso.


psicose. Eu não sei o total, mas não é impossível que se chegue a determinar o número mínimo dç pontos de ligação fundamentais entre o significante e o significado necessários para que um ser humano seja dito normal, e que, quando eles não estão estabeleci­ dos, ou afrouxam, produzem o psicótico.


Ele faz alusão em algum lugar ao que se passa quando somos de repente tomados pela evocação afetiva de um acontecimento de nosso passado difícil de ser suportado.
Quando não se trata de comemoração, mas realmente de ressurgi­ mento do afeto, quando, recordando-nos de uma cólera, estamos bem perto de uma cólera, quando, recordando-nos de uma humi­ lhação, revivemos a humilhação, quando, recordando-nos de uma ruptura de ilusão, sentimos a ne c essidade de reo(ganizar nosso equi­ líbrio e nosso campo significativo, no sentido em qué se ·fala de campo social - pois bem, é o momento mais favoráv. . l, nota Clé­ rambau.lt, Pl : . ra a emergência, a que e.e chama emergência pura­ mente automática, de trechos de frase algumas vezes tomados na experiência mais recente, e que não tem nenhuma espécie de reJa­ cão significativa com aquilo de que se trata.


O Outro é portanto o lugar onde se constitui o eu que fala com aquele que ouve.


Quando o sentimento de estranhez a se manifesta em alguma parte. nunca é do lado do supere­ go - é sempre o eu que não se reconhece mais, é o eu que entra no estado tu, é o eu que se crê no estado de duplo, isto é, expulso da casa enquanto o tu continua sendo possuidor das coisas.


A dita terceira pessoa não existe. Digo-lhes isso de passagem para começar a abalar alguns princípios certamente bem tenazes no espírito de vocês em função do ensino primário da gramática. Não há terceira pessoa, o Sr. Benveniste o demonstrou perfeitamente.


Paremos um pouco para situar a questão que o sujeito se co­ loca, ou mais exatamente, a questão que eu me ponho sobre o que eu sou, ou posso esperar ser.
Em nossa experiência, jamais a encontramos senão expressa pelo sujeito fora de si mesmo, e sem que ele o saiba. É todavia fun­ damental, pois que é a questão que está no fundamento da neurose, e é aí que a apanhamos pelas orelhas.


Tu és aquele que me seguirás por toda a parte é quando me­ nos uma eleição, talvez única, um mandato, uma devolução, uma delegação, um investimento. Tu és aquele que me seguirá por toda a parte é uma constatação, e temos tendência em sentir antes do lado da constatação afligida. Desse tu que me seguirá por toda a parte, se isso tem um caráter determinativo, nós estaremos rapida­ mente fartos dis s o. Se por um lado isso transborda no sacramento, po r outro, isso iria bastante rápido do lado da perseguição, incluso no próprio termo seguir.


Seguir teu ser, tua mensagem, tua fala, teu grupo, o que cu represento? O que é que é? É um nó, um ponto de aperto num feixe de significações, adquiridas ou não pelo sujeito. Se o su­ jeito não o adquiriu, ele ouvirá tu és aquele que me seguirá por toda a parte o que o outro lhe disse seguirás, a, s, isto é, em um sentido bem outro, que muda até ao alcance do tu.


Vou tomar uma referência que toca no caráter mais radical das relações do eu com a significante. Nas línguas indo-européias anti­ gas, e em certas sobrevivências das línguas vivas, há o que se chama a voz média. A voz média se distingue da ativa e da passiva pelo fato de que, nela, aproximação que se aprende na escola, o su­ jeito faz para si a ação em causa. Há, por exemplo, duas formas diferentes para dizer Eu sacrifico, conforme a posição assumida de sacrificador ou como aquele que oferece o sacrifício.


são médios os seguintes verbos: nascer, morrer, seguir c ativar um movimento, ser mestre, estar deitado, voltar a um estado familiar, jogar, tirar proveito, sofrer, ter paciência, experimentar uma agitação mental, tomar suas medidas - que é o medeor de que todos vocês são investidos como médicos - falar. Enfim, é todo o registro em jogo precisamente na experiência analítica.


Todo o contexto de tu és aquele que me seguirás muda segundo a ênfase dada ao significante, segundo as implicações do seguirás, segundo o modo de ser que está atrás desse seguirás, segundo as significações ligadas pelo sujeito a um certo registro significante, segundo a bagagem com a qual o sujeito parte na indeterminação do que sou eu? -e pouco importa que essa bagagem seja pri­ mordial, adquirida, secundária, de defesa, fundamental, pouco im­ porta sua origem. Vivemos com um certo número de respostas ao que sou eu?, em geral das mais suspeitas. Se eu sou um pai tem um sentido, é uin sentido ·problemático. Se é de uso comum dizer-se eu sou um professor, isso deixa completamente em aberto a questão professor de quê? Se dizemos para nós mesmos, entre mil outras identificações, eu sou um francês, isso supõe o pôr entre parênteses de tudo o que pode representar a noção de pertencer à França.
Se vocês dizem eu sou cartesiano é, na maioria dos casos, que vocês não sacam nada do que disse o Sr. Descartes, porque provavel­ mente jamais o abriram. Quando vocês dizem eu sou aquele que tem idéias claras, trata-se de saber por quê. Quando vocês dizem eu sou aquele que tem caráter, todo o mundo pode perguntar-lhes com


razão qual? E quando vocês dizem eu digo sempre a verd a de, pois bem, vocês não têm medo.


As palavras-chaves, as palavras sig n ificantes do delírio de Schreber, o assassinato d’almas, a assunção de nervos, a volúpia, a beatitude, e mil outros termos, giram em tomo de um significante fundamental, que não é jamais dito, e cuja presença comanda, é determinante. Ele· próprio o diz.


Tu és aquele que me segues melhor.
Tu és aquele que me segue como um cãozin h o.
Tu és aquele que me seguia aquele dia.
Tu és aquele que me seguias através das provas.
Tu és aquele que segues a lei… o texto.
Tu és aquele que segue a multidão.
Tu és aquele que me seguiste.
Tu és aquele que me seguiu.
Tu és aquele que és.
Tu és aquele que é.


Em resumo, trata-se de mostrar a vocês que o suporte desse tu, sob qualquer forma em que ele apareça em minha experiênéia, é um ego, o ego que o formula, mas que este jamais pode ser con­ siderado como sustentando-o completamente. A cada vez que faço apelo ao outro at r avés dessa mensagem, dessa delegação, a cada vez que o desig n o nomeadamente como aquele que deve, aquele que vai fazer, mas, mais ainda, como aquele a quem anuncio o que vai ser, eu o sustento sem dúvida, mas resta alguma coisa de completamente incerto, problemático nessa comunicação fundamental que é o anún­ cio, para não dizer a anunciação.
O eu tem uma natureza essencialmente fugidia, que não sus­ tenta jamais totalmente o tu.


Trata-se disso no presidente Schreber - de um modo de construir o Outro-Deus


Um outro que se anuncia como Eu sou aquele que sou é, só por esse fato, um Deus além, um Deus escondido, e um Deus que não revela em caso algum o seu rosto. Na perspectiva precisamente aristotélica, poder-se-ia dizer que nosso ponto de partida é desde já ateu. É um erro, mas nessa perspectiva é estritamente verdadeiro, e em nossa experiência isso não o é menos. Seja o que for que se anuncie como Eu sou aquele que sou é perfeitamente problemá­ tico, não sustentado, e quase não sustentável, ou só sustentável por um tolo.


A nota fundamental de Andrômaca, lfigênia etc., é a putaria


Sucede irmos passear na estrada principal, �e propósito c in­ tencionalmente, para fazer em seguida o mesmo caminho no sentido contrário. Esse movimento de ida e volta também é totalmente es­ sencial, e nos leva ao caminho desta evidência - é que a estrada principal é um sítio em torno do qual não só se aglomeram todas as espécies de habitações, de estâncias, mas também que polariza, enquanto significante, as significações.


Manda-se construir casas na estrada principal, e a casa ganh: 1 andares e se espalha sem outra função que a de estar a olhar a estrada principal. É justamente porque a estrada principal é na experiência humana um significante incontestável que ela marca uma etapa da história.


Disso várias coisas são deduzidas, que nos explicam o delírio do presidente Schreber.
Qual é o significante que é posto em suspenso em sua crisç inaugural? É o significante procriação em sua forma mais problemá­ tica, aquela que o próprio Freud evoca a propósito dos obsessivos.
quç não é a forma ser mãe, mas a forma ser pai.
Convém aqui detê-los por um instante a fim dç meditar sobre isto: que a função de ser pai não é absolutamente pcnsável na ex­ periência humana sem a categoria do significante.


Concordo com vocês que não levantei ainda completamente o véu - deixo isso para a próxima vez.


Para que procriar tenha seu pleno sentido, é preciso ainda, nos dois sexos, que haja apreen­ são, relação com a experiência da morte que dá seu pleno sentido ao termo procriar. A paternidade e a morte são aliás dois signifi­ cantes que Freud associa a propósito dos obsessivos.


O significante ser pai é o que constitui a estrada principal entre as relações sexuais com uma mulher. Se a estrada principal não existe, a gente se vê diante de um certo número de pequenos cami­ nhos elementares, copular e em seguida a gravid.ez de uma mulher.


O presidente Schreber está falto, segundo o que se sabe, deste significante fundamental que se chama ser pai. Por isso é preciso que ele cometa um erro, que ele se embrulhe, até pensar estar ele próprio prenhe como uma mulher. Foi preciso que ele próprio se imaginasse mulher, e realizar numa gravidez a segunda parte do caminho necessário para que, adicionando-se um ao outro, a função ser pai seja realizada.


Para levar um pouquinho mais adiante ainda minha metáfora, eu lhes direi - como fazem eles, aqueles que a gente chama os usuários da estrada, qul . ndo não há a estrada principal, e que se trata de passar por pequenas estradas para ir de um ponto a outro? Eles seguem os letreiros postos na beira da estrada. Isso quer dizer que, ali onde o significante não funciona, isso me põe a falar sozinho à be ira da estrada principal. Ali onde não há a estrada, as palavras escritas aparecem nos letreiros. Talvez seja isso a função das aluci-


nações auditivas verbais de nossas alucinações são os letreiros à beira de seu pequeno caminho.


Vocês poderão, falando, mostrnr algum embaraço, mas não ganham nada se calando. Vocês me dirão que o que ga­ nham com isso é que é em grupo que vocês passam por tapados c que, afinal de contas, dessa forma, é muito mais suportável.


se relaciona com o curto-circuito da rela­ ção afetiva, que faz do outro um ser de puro desejo, o qual não pode ser por conseqüência, no registro do imaginárió humano, se­ não um ser de pura interdcstruição. Há aí uma relação puramente dual, que é a fonte mais radical do próprio registro da agressivi­ dade.


tu és aquele que é, ou qu:� será, pai


Nosso antilhano, muito desarraigado pelas bandas de Detroit, onde levava uma vida de artesão bastante folgado, se vê um dia na posse de uma mulher que lhe anuncia que vai ter um bebê. Não se sabe se é dele ou não, mas o que é verdade é que no prazo de alguns dias eclodem suas primeiras alucinações.
• Mal lhe an.unciaram você vai ser pai, uma personagem lhe aparece, dizendo-lhe: você é São Tomás. Devia tratar-se, creio, de São Tomás o cético, e nãc São Tomás de Aquino. As anunciações que seguem não deixam nenhuma dúvida - elas vêm de Elisabeth, aquela a quem anunciaram muito tarde em sua vida que ela ia estar prenhe de uma criança.
Em suma, esse caso demonstra muito bem a conexão do regis­ tro da paternidade com a eclosão de revelações, de anunciações concernentes à geração, ou seja, o que precisamente o sujeito não pode literalmente conceber, e não é por acaso que emprego essa palavra.


automaton é o que verdadeiramente pensa por si niesmo, sem vínculo com este além, o ego, que dá seu sujeito ao pensamento


Flechsig já foi alçado por ele ao valor de um eminente personagem paterno.


sua mulher, no intervalo de oito anos que separou a primeira crise da segunda, teve vários abor­ tos espontâneos.


Ora, Flechsig diz a ele que, desde a última vez, fizeram-se enormes progressos em psiquiatria, e que se vai botá-lo num desses soninhos que vai ser bem fe c undo.


Talvez isso fosse justamente a coisa que não se devia dizer.
A partir daquele momento o nosso Schreber não dorme mais, e naquela noite tenta se enforcar.
A relação de procriação está, com efeito, implicada na rela­ ção do sujeito com a morte.


O que avancei este ano estava centrado pela preocupação de tornar a insistir na estrutura do delírio. O delírio pode ser considerado como uma perturbação da relação com o outro, e ele está portanto- ligado ao mecanismo transferencial. Mas quis mostrar­ lhes que ele se aclarava em todos os seus fenômenos, e creio mes­ mo poder dizer em sua dinâmica, em referência às funções


e à estrutura da fala. Também aí, trata-se de liberar esse meca­ nismo transferencial de não sei que confusas e difusas relações de objeto.


Da última vez eu os deixei diante de duas descrições opostas, a de Freud e a de uma psicanalista que tem seus méritos, e que, por representar as tendências mais modernas, teve ao menos a van­ t: I gem de fazê-lo inteligentement


Para Freud, dizem-nos, o delírio de Schreber está ligado à ir­ rupção da tendência homossexual. O sujeito a nega, defende-se con­ tra ela. No caso dele, que não é o de um neurótiço, essa negação redunda no que poderíamos chamar uma erotomania divina.


É pela aceitação da castração que o sujeito deve pagar um preço tão pesado quanto esse remanejamento de toda a realidade.


sinto­ mas, primeiramen t e hipocondríacos, que são sintomas psicóticos.


O sujeito é concebido como nascido só na relação da criança com a mãe, antes de toda constituição de uma situação triangular. É então que ele veria nascer em si próprio uma fantasia de desejo, desejo de igualar a mãe na sua capacidade de fazer uma criança.


O arco-íris é um fenômeno que não tem nenhuma espécie de interesse imaginário, vocês jamais viram um animal prestar atenção nele, e, na verdad e , o homem não presta atenção em um número incrível de manlfestações vizinhas. As irisações diversas são exces­ sivamente espalhadas pela natureza, e posto de lado dons de obser­ vação ou uma pesquisa especial, ninguém se detém neles. Se, ao contrário, o arco-íris existe, é precisamente na sua relação ao é isso. :É o que faz com que o nomeemos arco-íris, e que, quando falamos a alguém que jamais viu um, há um momento em que lhe dizemos: O arco-íris, é isso. E este é isso supõe a implicação de que vamos nos comprometer nisso até que percamos o fôlego, para saber o que há de escondido atrás, qual é a sua causa, a que poderemos reduzi-lo.


Dizem-nos que a exigência de uma mãe é a de prover-se com um falo imaginário, e explicam-nos muito bem que sua criança lhe serve de suporte, suficientissir n ar n ente real, por. esse prolongamento imaginário. Quanto à criança, isso não oferece dificuldade alguma - macho ou fêmea, ela localiza o falo muito cedo, e, dizem-nos, ela o concede generosamente à mãe, em espelho ou não, ou em duplo espelho. O par deveria muito bem se conciliar em espelho em torno dessa ilusão comum de falicização recíproca. Tudo de­ veria se passar ao nível de ur n a função mediadora do falo. Ora� o par se acha, ao contrário, numa situação de conflito, e mesmo de alienação interna, cada um por seu lado. Por quê? Porque o falo, se posso me exprimir assim, é vadio. Ele está alhures. Todo o mundo sabe onde a teoria analítica o coloca - é o pai que é suposto ser o seu portador. � em torno dele que se instaura o te­ mor da perda do falo na criança, a reivindicação, a privação, ou o tédio, a nostalgia do falo na mãe.


Isco é tão fundamental que, se tentamos situar num esquema o que faz manter-se de pé a concepção freudiana do complexo de Édipo, não é de um triângulo pai-mãe-criança de que se trata, é de um triângulo (pai)-falo-r n ãe-criança. Onde estará o pai ali den­ tro? Ele está no anel que faz manter-se tudo junto.


Contudo, gosta r ia de fazer vo c ês observarem, antes de deixá-los este ano; que, para serem médicos, vocês podem ser inocentes, mas que, para se­ rem psicanalistas: . conviria no entanto que vocês meditassem de vez em quando num tema como este, se bem que nem o sol, nem a morte, possam ser olhados de frente. Não direi que o mínimo gesto para afastar um mal dê possibilidades para um mal maior, ele acar­ reta sempre um mal maior. É uma coisa a que conviria que um psicanalista se acostumasse, porque creio que sem isso ele não é absolutamente capaz de exercer com toda a consciência sua função profissional. Isto po s to, is so não Levará vo c ês longe. Os jor n ais dizem diariamente que os progressos da ciência, Deus sabe se é perigoso etc., mas para nós . isso não fede nem cheira. Por quê?
porque todos vocês estão, e eu mesmo com vocês, inseridos nesse significante maior que se chama o Papai Noel. Com o Papai Noel, isso se arranja sempre, e direi mais, isso se arranja bem.


Segundo a perspectiva imaginária, o que dizíamos, de passagem, na análise, não tem estritamente nenhuma importância, pois que se trata unicamente de frustração ou de não-frustração. Frustram-no, ele é agressivo, reg r ide, e vamos assim até o surgimento das fanta­ sias mais primordiais. Infelizmente, não é a teoria correta. É preciso saber o que se diz. Não basta fazer intervir os significantes desta forma: Eu lhe dou um tapinha nas costas… Você é gentil… Voe é teve um papai ruim … Isso vai se a”anjar … É pre c iso empregá-los com conhecimento de causa, fazê-los ressoar de outro modo, e saber ao menos não empregar alguns deles. As indicaçõ e s negativas que concernem a certos cont e údos de interpretações, são postas através de uma tal perspectiva no primeiro plano.


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