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Seminar 02 O eu na teoria de Freud e na tecnica da psicanalise

Seminar 02 O eu na teoria de Freud e na tecnica da psicanalise

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Seminário 02 - O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-55)

Quem é Sócrates? Ê aquele que inaugura na subjetividade humana este estilo de onde surgiu a noção de um saber ligado a determinadas exigências de coerência, saber prévio a todo progresso ulterior da ciência como experimental


Como é que vocês sabem? Vocês, em todo caso, estão do lado das pessoas que pensam ou, pelo menos, chegaram depois das pessoas que pensaram. Então, tentemos abrir a questão antes de arrematá-la com tanta comodidade.


fórmula de Rimbaud - os poetas, que não sabem o que dizem, cor n o é bem sabido, sempre dizem, no entanto, as coisas antes dos outros -.Eu. é um outro.


Freud nos diz - o sujeito não é a sua inteligência, não está no mesmo eixo, é excêntrico.


o sujeito está descentrado com relação ao indivíduo. É o que .Eu. é um outro quer dizer.


La Roche­ foucauld, para nomeá-lo, resolveu, de repente, ensinar-nos algo de singular, ao qual não se deu suficiente atenção, e que ele chama de amor-próprio. Curioso que isto tenha parecido tão escandaloso, pois o que é que ele dizia? Ele salientava o seguinte - até mesmo nossas atividades aparentemente mais desinteressadas são feitas para cuidar da glória, até mesmo o amor-paixão ou o mais secreto exercício da virtude.


É nesta concavidade, nesta cuia, que a verdade freudiana vem despejar-se. Vocês se acham engodados, decerto, mas a verdade está alhures. E Freud nos diz onde ela está.


Vocês acreditam que sabem - ele , também - o que não quer dizer que estejamos assim tão seguros.
Vai ser preciso rever isto de perto,


Na época das primeiras revelações analíticas, os sujeitos saravam mais ou menos milagrosa­ mente, o que ainda nos é perceptível quando lemos as observações


Freud, com as suas interpretações fulgurantes e explicações que não acabam mais. Pois bem, fato é que isso foi funcionando cada vez menos, que se amorteceu com o passar do tempo.


Nestas unidades convencionais, que denominamos subjetividades devido a particularidades individuais, o que ocorre.
o que torna a fechar-se, o que resiste’ . Foi justamente em 1920, ou seja, logo depois da guinada da qual acabo de lhes falar - a crise da técnica analítica - que Freud achou que devia introduzir suas novas noções metapsicológicas. E quando se lê atentamente o que Freud escreveu a partir de 1920, a gente se dá conta de que há um laço estreito entre esta crise da técnica que tinha de ser superada e a fabricação dessas novas estruturas.


Mas para isto é preciso ler seus escritos - e é preferível lê-los na ordem.


algo que, tal como a realidade, se conquista num drama


Mas não estamos assim tão seguros, observem bem de perto.


Não resolveremos de entrada todos os enigmas.


a análise, quando aquele que está seguro, que confia no que faz, inquieta-se com o que pode acontecer se isto for posto em questão.


O Mênon mostra como se faz a verdade sair da boca do escravo, isto é, de seja lá quem for, e que seja lá quem for está de posse das formas eternas


não é uma doutrina que explica tudo, mas sim o manejo do discurso, o que é bastante diferente.


O senhor foge um pouco da pergunta de Mannoni.
Não fujo. Há muito tempo que me desvio dela.


Tomo esta vida humana que está aí, o escravo, e vocês vão ver que ele sabe tudo. Basta espertá-lo.


tornar-se flexível num outro âmbito que não aquele onde se sedimenta, onde se deposita aquilo que em sua experiência vai formando-se pouco a pouco de saber


E fazer a boa interpretação no momento necessário é ser bom analista .


É claro que, neste caso, são apenas os senhores que fazem a história, e que o escravo, a quem Sócrates quis fazer dar uma voltinha no palco, não tem nada a dizer.


E até mesmo um cara como Sócrates vai ser posto out porque saiu um pouco demais da sociedade dos gentlemen.


Penso que é preciso começar sempre tomando as questões no ponto mais difícil - depois, basta descer.


A questão da natureza do eu poderia estar ligada à função do narcisismo. Também aí, encontrei certas contradições em Freud, que, por vezes, parece identificá-lo com o instinto de conserva­ção, e, por outras, fala dele como se fosse , uma espécie de busca da morte.
Eis aí, aproximadamente, o que eu queria dizer.


a noção da tendência à repetição como drive é explicitamente oposta à idéia de que haja o que quer que seja na vida que tenda ao progresso, contrariamente à perspectiva do otimismo tradicional, do evolucionismo, o que deixa a problemática da adaptação - e eu diria inclusive a da realidade - inteiramente em aberto.


Estão aqui para abrirem-se as coisas que ainda não foram vistas por vocês, e que são, em princípio, inesperadas.


Em outros termos, a única L”rlliCa que lhes poderia fazer, :, c posso permitir-uH:, � a de lJ LI I . : rcrem todos pareçam inteligentes demais.
Todo mundo sab..: que voc. : s o são. Entiio para que quacr pare­ cê-lo? E. de qualquer modo, qu..: importância tem isto, quer p:m1 o s..: r, qu..: r para o parecer?


A pergunta que eu lhe estava fazendo não implicava absolutamente um inconsciente coletivo, que foi o termo que ele empregou. Que solução poder-se-ia esperar da palavra coletivo neste caso, quando, no entanto, coletivo e individual são estritamente a mesma coisa?


Se a função simbólica funciona, estamos dentro. E digo mais: estamos de tal maneira dentro que não podemos sair.


A respeito da introdução do sistema simbólico, creio que a resposta à pergunta que Lévi-Strauss fazia ontem é a seguinte - o complexo de Édipo é, ao mesmo tempo, universal e contingente, porque é único e puramente simbólico.


O universal simbólico não precisa absolutamente espalhar-se pela superfície da terra inteira para ser universal. Aliás, que eu saiba, não há nada que faça a unidade mundial dos seres humanos.
Não há nada que se ache concretamente realizado como universal.


O eu, em seu aspecto mais essencial, é uma função imaginária.
Isto é uma descoberta da experiência e não uma categoria que eu quase qualificaria a priori, como a do simbólico.


Peço a vocês todos que leiam este texto extraordinário de Freud, incrivelmente ambíguo, e inclusive confuso, que o leiam várias vezes - senão, vocês não vão pegar a crítica literária que farei a respeito dele.


Eu mio. estava dizendo o contrário.
A função simbólica é, para o senhor, se é que entendo bem, uma função de transcendência, no seguinte sentido - ao mesmo tempo, nós não podemos nem ficar nisto, nem sair disto. Para o que é que ela serve? Não podemos privar-nos disto, e, no entanto, tam­bém não podemos instalar-nos nisto.
Claro… É a presença na ausência e a ausência na presença.


As resistências têm sempre sua sede, nos ensina a análise, no eu. O que corresponde ao eu é o que por vezes chamo a soma dos preconceitos que comporta todo saber, e que cada um de nós carrega individualmente. Trata-se de algo que inclui o que sabemos ou cremos saber -pois saber é sempre, por algum lado, crer saber.


situar o centro da experiência analítica no fato de cada indivíduo ser uma criança.


Esta criança é o sujeito, não há dúvida alguma


Afinal, não sou filho seu, do senhor, o analista?
Vocês estão vendo que o que aí está em destaque não é, como sempre se tem tendência a acreditar, a dependência concreta, afetiva da criança com relação a adultos supostos mais ou menos parentais. Se o sujeito se coloca a questão do que ele é como filho não é para saber se ele é mais ou menos dependente, e sim se é reconhecido ou não, tendo ou não o direito de usar seu nome de filho de fulano de tal. É na medida em que as próprias relações onde ele se acha são levadas ao grau do simbolismo, que o sujeito se interroga sobre si mesmo. O problema se coloca, pois, para ele, na segunda potência, no plano da assunção simbólica de seu destino, no registro de sua autobiografia.
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não é intervir junto ao sujeito para que ele se conscientize da maneira pela qual seus apegos, seus preconceitos, o equilíbrio do seu eu, o impedem de enxergar. Não é uma persuasão que vai dar bem depressa na sugestão. Não é reforçar, como se diz, o eu do sujeito ou fazer de sua parte sã um aliado. Não é convencer. É saber, a cada momento da relação analítica, em que nível deve ser trazida a resposta. Esta resposta é possível que, às vezes, ela deva ser trazida ao nível do eu. Mas no caso que estou-lhes dizendo não é nada disto. A questão do sujeito não se refere absolutamente ao que pode resultar de tal desmame, abandono, falta vital de amor ou de afeto, ela concerne sua história visto que ele a desconhece e é isto que ele expressa a despeito de si através de toda sua conduta, na medida em que busca obscuramente reconhecê-la. Sua vida é orientada por uma problemática que não é a de sua vivência, porém, a de seu destino, isto é - o que será que sua história significa?


Pois, há problemas que é preciso resignar-se a abandonar sem tê-los resolvido.


Uma outra imagem é a da serpente e do pássaro fascinado pelo olhar. A fascinação é absolutamente essencial para o fenômeno de constituição do eu. É na qualidade de fascinada que a diversidade descoordenada, incoerente, do despedaçamento primitivo adquire sua unidade. A reflexão também é fascinação, bloqueio. Esta função da fascinação, e até mesmo do terror, mostrá-la-ei a vocês do próprio punho de Freud, a propósito justamente da constituição do eu.


Esta rivalidade constitutiva do conhecimento em estado puro é, evidentemente, uma etapa virtual. Não há conhecimento em estado puro, pois, a estrita comunidade do eu e do outro no desejo do objeto enceta uma coisa radicalmente outra, ou seja, o reconhecimento.
O reconhecimento supõe com toda evidência um terceiro. Para que a primeira máquina bloqueada na imagem da segunda possa chegar a um acordo, para que não sejam forçadas a se destruir no ponto de convergência do desejo delas - que é em suma o mesmo desejo, já que nesse nível elas são apenas um só e mesmo ser -, seria preciso que a maquininha pudesse informar à outra, dizer-lhe - Desejo isto. Não é possível. Admitindo que haja .eu. , isto se transforma logo em desejas isto. Desejo isto quer dizer -Tu, outro, que és minha unidade, desejas isto.


Este terceiro é, no entanto, o que encontramos no inconsciente.


No inconsciente, excluído do sistema do eu, o sujeito fala.


A introdução por Freud de sua nova tópica foi entendida como a volta do bom velho eu - textos, e dos melhores analistas, testemunham isto, inclusive os Mecanismos de defesa de Anna Freud, escritos dez anos depois. Foi uma verdadeira libertação, uma explosão de alegria -Ah. ei-lo de volta. A gente vai poder de novo ocupar-se dele, não apenas se tem o direito, mas ainda é recomen­dado. É assim que a Srta. Freud se expressa no início dos Mecanismos de defesa. É preciso dizer que para os analistas o fato de ocuparem-se de outra coisa que não do eu, era uma experiência tão estranha que eles a experimentavam como uma proibição de ocupar-se do eu.


Freud não dispõe do termo de homeostase, ele emprega o de inércia, há aí uma ressonância de fechnerismo. Vocês sabem que Fcchna tem duas faces? De um lado, é o psicofísico que afirma que só os princípios físicos podem permitir simbolizar as regulações psíquicas. Mas existe uma outra face de Fechner, que se conhece mal, que é singular. Ele vai bastante longe no gênero subjetivação universal, e teria certamente feito uma leitura realista do meu pe­queno apólogo do outro dia, o que estava muito longe de minhas intenções. Eu não lhes dizia que o reflexo da montanha no lago era um sonho do cosmos, mas vocês poderiam encontrar isso em Fe� : hnl . r.


O que será que é esta insistência do sujeito em reproduzir? Reproduzir o quê? Será em sua conduta? Será em suas fantasias? Será em �eu carátl . r? Será até mesmo em seu eu?
Coisas de todo gênero, registros extremamente diferentes, podem ser­ vir como material c como elemento para esta reprodução.


análise de caráter, análise da personalidade total, e outras bostas mais.


infinitamente desapegado de curar os homens


Ultrapassa-se tudo e se fica muito simplesmente no mesmo lugar.


Falemos de coisas elementares. Freud é um médico, mas ele nasceu mais ou menos um século depois de Hegel, e no intervalo muitas coisas ocorreram, que não deixaram de ter incidências sobre o sentido que se pode dar à palavra médico. Freud não é um médico como Esculápio, Hipócrates ou São Lucas. É um médico mais ou menos como nós todos somos. É um médico que, em suma, não é mais um médico, assim como nós mesmos somos um tipo de médico que não está mais nem um pouco na tradição do que o médico sempre foi para o homem.


com Hegel e sem sabê-lo - dado que todo mundo é hegeliano sem sabê-lo


A biologia freudiana não tem nada a ver com a biologia. Trata-se de uma manipulação de símbolos no intuito de resolver questões energéticas, como manifesta a aderência homeostática, a qual permite caracterizar como tal não .. Ó n ser vivo. mas também o funcionamento de seus mais impor­ tanks aparelhos. É em torno desta qu�stão que gira a discussão int�ir.t de Frcud - energeticamentc, o que é o psiquismo?


Donde a revolução completa de seu pensamento e a passagem para a Traumdewung. Diz-se que ele abandona uma perspectiva fisiologizante por uma perspectiva psicologizante. Não é disto que se trata. Ele descobre o funcionamento do símbolo como tal, a manifestação do símbolo em estado dialético, em estado semântico, nos seus deslocamentos, os trocadilhos, os chistes, gracejos funcionando sozinhos na máquina de sonhar. E ele tem de tomar partido frente a esta descoberta, aceitá-la ou desconhecê-la, como fizeram todos os outros que estavam tão perto dela quanto ele. É uma virada tal que ele absolutamente não soube o que lhe estava acontecendo. Foi preciso que percorresse ainda vinte anos de uma existência já muito avançada no momento desta descoberta, para poder voltar-se para suas premissas, e tentar reencontrar o que isso quer dizer no plano energético. Eis o que lhe impôs a elaboração nova do além do princípio do prazer e do instinto de morte.


Este, no ponto em que cheguei hoje, não posso ainda nomeá-lo.


A ideia de uma evolução vital, a noção segundo a qual a natureza produziria formas sempre superiores, organismos cada vez mais elaborados, cada vez mais integrados, cada vez mais bem construídos, a crença num progresso imanente ao movimento da vida, tudo isto lhe é estranho, e ele o repudia expressamente. Como Freud em suas escolhas é um sujeito pouco inclinado a partir de posições de princípio, creio que é a sua experiência do homem que o orienta. É uma experiência médica. Ela permitiu-lhe situar o registro de um certo tipo de sofrimento e de doença no homem, de um conflito fundamental.


Explicar o mundo por uma tendência natural a criar formas superiores vai no sentido oposto ao conflito essencial tal como ele o vê atuar no ser humano.


Freud retoma perpetuamente a uma noção que parece escapar-lhe sempre.


É por detrás desta necessidade do ser vivo de passar pelos caminhos da vida - e isso só pode passar-se por aí - que o princípio que o leva de volta à morte se situa, é deslindado. Ele não pode ir para a morte por qualquer caminho.


Há uma articulação essencial que é preciso colocar imediatamente - quando se tira um coelho de uma cartola é que a gente o tinha previamente colocado dentro.


Num certo ponto do desenvolvimento do sistema simbólico, todo mundo não pode falar com todo mundo. Quando lhe falamos de subjetividade fechada.
disse -’ Se não se puder falar com os comunistas, o fundo da linguagem se esvanecerá, pois o fundo da linguagem consiste em ser universal. Claro. Ainda é preciso que se esteja por dentro deste circuito da linguagem, e saber do que se está falando quando se fala da comunicação.


Encaravam a máquina como o senhor encara o escravo - a máquina está aí a distância, e trabalhando. Só esqueciam uma coisa, é que eram elas que tinham assinado o pedido.


A noção segundo a qual existe uma espécie de prazer próprio à atividade, o prazer lúdico, por exemplo, faz desabar as próprias categorias do nosso pensamento. A partir daí, o que poderíamos fazer com a nossa técnica? Seria simplesmente o caso de ensinar às pessoas ginástica, música ou o que mais vocês quiserem. Os procedimentos pedagógicos são de um registro absolutamente estranho à experiência analítica. Não estou dizendo que não tenham lá seu valor e que não se possa fazê-los desempenhar um papel essencial na República - basta reportar-se a Platão.


como na análise, do destino do homem, de sua conduta, quando acaba a lição de piano e que ele vai ver a namorada.


Nas primeiras descobertas analíticas - o trauma, a fixação, a reprodução, a transferência. O que na experiência analítica se denomina a intrusão do passado no presente é dessa ordem aí. Trata-se sempre da aprendizagem de alguém que vai fazer melhor da próxima vez. E quando digo que vai fazer melhor da próxima vez é que vai ser preciso que ele faça algo totalmente diferente.


O que será que a análise desvenda - se não é a discordância fundamental, radical, das condutas essenciais para o homem, com relação a tudo o que ele vive? A dimensão descoberta pela análise é o contrário de algo que progrida por adaptação, por aproximação, por aperfeiçoamento. É algo que vai aos saltos, aos pulos. É sempre a aplicação estritamente inadequada de certas relações simbólicas

Continuação Posts


totais, e isso implica diversas tonalidades, por exemplo, a imição do imaginário no simbólico, ou inversamente.


No homem é a má forma que é prevalente. E na medida em que uma tarefa está inacabada que o sujeito volta a ela.


É na medida em que um fracasso foi acerto que o sujeito se lembra melhor dele.


Digo isto freqüentemente às pessoas que dou supervisão - cuidem principalmente de não compreender o doente, não há nada como isso que os possa pôr a perder. O doente diz uma coisa que não tem pé nem cabeça e, ao relatá-la, dizem-me - Pois bem, entendi que ele queria dizer isso. Quer dizer que, em nome da inteligência, há mera e simplesmente elisão daquilo que deve deter-nos, que não é compreensível.


Vocês vão ver o que lhe acontece quando procura seu bem na sombra de seu prazer. A experiência fracassa totalmente.


Reencontramos aqui o que já lhes indiquei, isto é, que o inconsciente é o discurso do outro. O discurso do outro não é o discurso do outro abstrato, do outro da díade, do meu correspondente, nem mera e simplesmente o do meu escravo, é o discurso do circuito no qual estou integrado. Sou um dos seus elos. É o discurso do meu pai, por exemplo, na medida em que meu pai cometeu faltas as quais estou absolutamente condenado a reproduzir - é o que se denomina superego. Estou condenado a reproduzi-las porque é preciso que eu retome o discurso que ele me legou, não só porque sou o filho dele, mas porque não se pára a cadeia do discurso, e porque estou justamente encarregado de transmiti-lo em sua forma aberrante a outrem. Tenho de colocar a outrem o problema de uma situação vital onde existem todas as probabilidades que ele também venha a tropeçar, de forma que este discurso efetua um pequeno circuito no qual se acham presos uma família inteira, um bando inteiro, uma facção inteira, uma nação inteira ou a metade do globo.

Forma circular de uma fala, que está justo no limite do sentido e do não sentido, que é problemática.


Eis o que é o precisar repetir tal como o vemos surgir para além do princípio do prazer. Ele vacila para além de todos os mecanismos de equilibração, de harmonização e de concordância no plano biológico. Ele só é introduzido pelo registro da linguagem.


Foi justamente o que eu quis dizer.
Mas o senhor não disse.


este real, para apreendê-lo, não temos outros meios - em todos os planos, e não somente no do conhecimento - a não ser por intermédio do simbólico.


Naturalmente, o sujeito pode passar a vida inteira sem entender do que se trata. É até o que ocorre mais comumente. A análise é feita para que ele entenda, para que compreenda em que roda do discurso está tomado, e da mesma feita em que outra roda tem de entrar.


quanto ao estádio do espelho, seria preciso disciplinar-se.
Seu reparo tem meu assentimento no sentido de que não se deve fazer dele um uso abusivo. O estádio do espelho não é a palavra mágica. Já está meio antiquado. Tem uns vinte anos, pois saí-me com ele em 1936. Está começando a dar comichão neste precisar renovar, que nem sempre é o melhor, pois para progredir é preciso saber retomar as coisas. O que é chato não é tanto o fato de repeti-lo, porém de mal empregá-lo. E quanto a isto, pode-se dar uma boa nota a Lang por ele ter tentado fazer algo que é indispensável em matéria de compreensão analítica, especialmente quando se avança nas fronteiras, isto é - tomar distância.

Há dois perigos em tudo o que tange à apreensão de nosso campo clínico.
O primeiro é não ser suficientemente curioso. Ensina-se às crianças que a curiosidade é um defeito feio, e, em geral, é verdade, não somos curiosos, e não é fácil provocar este sentimento de maneira automática.
O segundo é compreender. Compreendemos sempre demais, especialmente na análise. Na maioria das vezes, nos enganamos. Pensa-se poder fazer uma boa terapêutica analítica quando se é bem dotado, intuitivo, quando se tem o contato, quando se faz funcionar este gênio que cada qual ostenta na relação interpessoal. E a partir do momento em que não se exige de si um extremo rigor conceitual, acha-se sempre um jeito de compreender. Mas fica-se sem bússola, não se sabe nem de onde se parte, nem para onde se está tentando ir.


o homem não é um objeto, mas um ser que está realizando algo de metafísico.


Em suma, a memória é concebida aqui como seqüência de engramas, como soma de séries de trilhagens, e esta concepção se revela totalmente insuficiente se nela não introduzimos a noção da imagem. Se afirmarmos que uma série de trilhagens, que uma seqüência de experiências faz surgir uma imagem num aparelho psíquico concebido como uma mera placa sensível, é óbvio que, assim que uma mesma série for reativada por uma nova excitação, uma pressão, uma precisão, a mesma imagem se reproduzirá. Em outras palavras, toda estimulação tende a produzir uma alucinação. O princípio do funcionamento do aparelho é a alucinação. Eis o que processo primário quer dizer.


o pensamento é um ato mantido no nível do mínimo de investimento.


Sejam capazes de suspender o pensamento de vocês em momentos ingratos, e não se esqueçam de que são os primeiros momentos de um pensamento criador, cujo desenvolvimento leva bem mais além.


Bernfeld é um analista de qualidade, que soube reencontrar uma recordação de infância de Freud por detrás do véu de anonimato sob o qual este o comunicara como recordação-encobridora.
Freud o apresentara de maneira camuflada atribuindo-o a um paciente. Mas, o próprio texto, e não concatenações biográficas, mas sim a própria estrutura do texto, permitiu a Bernfeld mostrar que não podia tratar-se de um verdadeiro diálogo com um verdadeiro paciente, que se tratava de uma transposição, e que o exemplo de­via ser tomado de empréstimo à vida de Freud, o que ele demonstra cotejando-o com dois ou três sonhos da Ciência dos sonhos. Os que assistiram ao meu comentário sobre o Homem dos ratos conhecem este trecho.


Eu, que já digo que os homens só pensam, raramente,


Em 1897, Freud ainda não avançou muito em , sua própria análise.


O que, na época, é para Freud a fala que polariza, que organiza toda sua existência, é a conversa com Fliess. Ela continua em filigrana durante toda sua existência como sendo a conversa fundamental. No final das contas, é neste diálogo que se realiza a auto­ análise de Freud. E por intermédio disto que Freud é Freud, e que ainda hoje estamos falando nele.


A conversa de Freud com Fliess, a fala fundamental, que é então inconsciente, é o elemento dinâmico essencial. Por que será que ela é inconsciente naquele momento? Porque ela ultrapassa infinitamente aquilo que os dois, como indivíduos, podem então apreender conscientemente dela.


é a mensagem como discurso in­terrompido e que insiste.


Este realismo psicológico, esta busca de uma subjetividade es­sencial não o .Freud. detém. Para ele, o importante não é que se sonhe em ser uma borboleta, mas sim o que o sonho quer dizer, o que ele quer dizer para alguém. Quem é este alguém? A questão toda esta aí.


A censura não se situa no mesmo nível que a resistência. Ela faz parte do caráter interrompido do discurso.


No sentido próprio, a resistência do sujeito está ligada ao re­gistro do eu, é um efeito do eu.

Continuação


O que é censura tem sempre relação com o que, no discurso, se relaciona à lei como incompreendida.


Como vocês sabem, seu filho Ivan o conduz pelas avenidas audaciosas por onde envereda o pensamento de um homem culto, e em particular, ele diz, se Deus não existir … - Se Deus não existir, diz o pai, então tudo é permitido. Noção evidentemente ingênua, pois, nós, analistas, sabemos muito bem que se Deus não existir então absolutamente mais nada é permitido. Os neuróticos nos de­ monstram isto todos os dias.


Se o rei da Inglaterra é um babaca, então tudo é permitido


O homem se acha sempre na postura de nunca entender completamente a lei porque nenhum homem pode dominar em seu conjunto a lei do discurso


Tudo o demonstra, o rei da Inglaterra é um babaca. Tivemos exemplos disto. E a um rei da Inglaterra que não era um babaca foi-lhe imediatamente intimado que abdicasse. Ele se distinguia dos outros pelo seguinte - acontecia-lhe cair do cavalo e tinha a pre­ tensão de casar-se com a mulher que amava - isso assinalava evidentemente que não era um babaca, e foi, imediatamente, obriga­ do a levar alhures suas considerações íntimas. O que quer dizer isto? Será que basta não ser um babaca para se redimir? f: um engano - isso também não basta. Não estou dizendo que o rei da Inglaterra teve razão ao submeter-se à abdicação por não ser um babaca. Mas é um parêntese.


A censura é isso, visto que para Freud, na origem, isso ocorre ao nível do sonho. o supereu é isso, na medida em que terroriza efetivamente o sujeito, que constrói nele sintomas eficientes, elabora­ dos, vivenciados, que prosseguem e que se encarregam de represen­ tar este ponto onde a lei não é compreendida pelo sujeito, mas é desempenhada por ele. Eles se encarregam de encarná-la como tal, eles lhe fornecem sua figura de mistério.


É coisa totalmente diferente da relação narcísica com o seme­ lhante; é a relação do sujeito com a ·lei no seu conjunto, visto que nunca pode haver relação com a lei no seu conjunto, já que a le i ; nunca é assumida completamente.


Censura e supereu têm de ser situados no mesmo registro que a lei. E o discurso concreto, não só na medida em que domina o homem e faz surgir fulgurâncias de todos os tipos - seja lá o que for, tudo o que ocorrer, tudo o que estiver no discurso - mas na medida em que fornece ao homem seu mundo próprio, que deno­ minamos, de maneira mais ou menos exata, cultural. É nesta di­ mensão que se situa o que é a censura, e vocês vêem em que ela se distingue da resistência. A censura não está nem no nível do sujeito nem no do indivíduo, porém no nível do discurso, na medida em que ç: omo tal ele constitui sozinho um universo compl�to e que há, ao mesmo tempo, algo de .irredutivelmente discordante em todas as suas partes. Basta um nada, uma coisinha de nada, que vocês se achem trancados na privada, ou que vocês tenham tido um pai acusado injustamente de sei lá que crime, para que, de repente, a lei lhes apare ç a sob sua forma dilaceradora. É isso a censura, e Freud nunca confunde o que é a Widerstand c o que é a censura.


E assim qu� esperamos fazer senti r o ponto em que se situa exatamente e que não po d e ser. atacado de frente, já que àtacá-lo é atacar-se as próprias raízes da �guagem


A tran­ qüilidade com a qual abandona esta tarefa, à qual vêem-se outros, mais ingênuos, consagrarem-se, é, por si só, um ensinamento.


As construções de Freud perderam muito de seu interesse para nós com o passar do tempo


Não sou o único, entre as pessoas que desempenham a função de ensinar a anáiise e formar analistas


repreendê-la por não haver aind a aceito a “solução”. Digo-lhe: “Se você ainda sente dores, é realmente apenas por sua culpa.” Ela responde: “Se v, t J cê soubesse as dores que .s into na garganta, no estômago e na barriga, isso me sufoca.”


Irma é uma doente amiga da família de Freud. Este último se acha, pois, em relação a ela nesta situação delicada, sempre a evttar, em que se encontra o analista que trata alguém da roda de seus co­ nhecidos. Estamos muito mais prevenidos do que Freud estava, naquele estádio pré-histórico da análise, acerca das dificuldades, neste caso, de uma contra-transferência


Se não aceita, a culpa é dele, é um feio, um malvado, um mau paciente. Quando ele é bom paciente, aceita, e tudo corre bem. Não estou forçando nada - há os bons e os maus pacientes.


Assim como está fora de cogitação analisar os autores falecidos; está fora de cogitação analisar o pró­ pr i o sonho de Freud melhor do que ele. Quando Freud interrompe as associações, tem lá suas razões. Ele nos diz -Aqui, não posso dizer-lhes mais do que isto, não quero contar-lhes as hist6rias dt ’ cama e penico - ou bem -Aqui não tenho mais vontade de con­ tinuar associando.


Aí, discussão confusíssima sobre esta oposição do superficial e do profundo, da qual sempre lhes suplico que se livrem.


O doutor M. corresponde a uma função que foi capital para Freud, a de seu meio-irmão Philippe, do qual eu lh es dizia, num outro contexto, que era o personagem essencial para enteader o complexo epidiano de Freud: Se Freud foi introduzido ao Édipo de maneira tão decisiva para a história da humanidade, é evidentemente porque tinha um pai, o qual já tinha, de um primeiro casamento, dois filhos, Emmanuel e Philippe, de idades vizinhas, com uma di­ ferença de uns três anos, mas já tendo, cada um, idade para ser pai do pequeno Freud Sigmund, nascido, ele, de uma mãe que tinha exatamente a mesma idade que o tal do Emmanuel. Este Emmanuel foi para Freud o objeto de horror por excelência. Acreditou-se até que todos os horrores estivessem concentrados nele - engano, pois Philippe levou também sua parte. Foi ele quem mandou para o xadrez a boa velha ama de Freud, à qual se atribui uma impor­ tância desmedida, tendo os culturalistas querido anexar FreÚd, por seu intermédio, ao catolicismo.


Será que tenho razão ou que estou equivo­ cado? Onde está a verdade? Qual vai ser o destino do problema?
Onde é que estou situado?


õ es fundamentais para Freud -Qual é o sentido da neurose? Qual é o sentido do tratamento? :17 Qual é o bem-fun d ado de minha tera­ pêutica das neuroses?


Na primeira fase, vemos, pois, Freud acossando Irma, recri­ minando-a por não ouvir o que ele quer fazer-lhe compreender. Ele continuava exatamente no estilo das relações da vida vivenciada, no estilo de pesquisa apaixonada, por demais apaixonada, diremos, c justamente um dos sentidos do sonho é dizê-lo formalmente, já que, no fim, é disto que se trata - a seringa estava suja, a paixão do analista, a ambição de vencer, eram aí poderosas demais, a contra­ transferência era o próprio obstáculo.


O que foi que tentei fazer entender com o estádio do espelho?
Que aquilo que existe no homem de desvinculado, de despedaçado, de anárquico, estabelece sua relação com suas percepções no plano de uma tensão totalmente original. É a imagem de seu corpo que é o princípio de toda unidade que ele percebe nos objetos. Ora, . desta própria imagem, ele só percebe a unidade do lado de fora, e de maneira antecipada. Devido a esta relação dupla que tem consigo mesmo, é sempre ao redor da sombra errante do seu próprio eu que vão-se estruturando todos os objetos de seu mundo. Terão todos um caráter fundamentalmente antropomórfico, podemos até dizer cgomórfico. E. nesta percepção que é evocada para o homem, a todo instante, sua unidade ideal, que, como tal, nunca é atingida e que a todo instante lhe escapa. O objeto, para ele, nunca· é definitivamente o derradeiro objeto, a não ser em certas experiências excepcionais.
Ma s este se apresenta, então, como um objeto do qual o homem está irremediavelmente separado, e que lhe mostra a figura mesma de sua dciscência dentro do mundo - objeto que por essência o des­ trói, o angustia, que não pode alcançar, no qual não pode verdadei­ ramente encontrar sua reconciliação, sua aderência ao mundo, sua complementaridade perfeita n. o plano do desejo. O desejo ’ tem um caráter radicalmente rasgado. A própria imagem do homem forne­ ce uma mediação, sempre imaginária, sempre problemática que não se acha, pois, nunca completamente efetivada. Ela se mantém através de uma sucessão de experiências instantâneas, e esta experiência, ou bem aliena o homem de si próprio ou bem vai dar numa destruição, numa negação do objeto.


Caso o objeto petcebido do lado de fora tenha sua própr i a unidade, esta coloca o homem, que a vê, em estado de tensão, por­ que ele percebe a si mesmo como desejo, e desejo insatisfeito. In­ versamente, quando ele apreende sua unidade, é, ao �ontrário, o mundo que, para ele, se decompõe, perde seu sentido, e se apresenta sob um aspecto alienado e discordante. É esta oscilação imaginária que dá, a toda percepção humana, a subjacência dramática na qual é vivida, na medida em que ela interessar realmente um sujeito.


Se o quadro da relação com o mundo não se acha desrcali­ zado pelo sujeito, é por comportar elementos que representam ima­ gens diversificadas do seu eu, e que são, igualmente, pontos de arri­ mo, de estabilização, de inércia. É justamente assim que nas super­ visões ensino-lhes a interpretar os sonhos - trata-se de reconhecer onde está o eu do sujeito.


De fato, no momento em que se faz ouvir, na maior das cacofo­ nias, o discurso dos múltiplos egos, a objeção que interessa a Freud é sua própria culpa, no caso, em relação à Irma. O objeto é destruí­ do, se é que se pode dizer, c sua culpa, é dela que se trata, é com efeito destruída c. o m ele. Como na história do caldeirão furado, aqui não houve crime, já que, primeiro, a vítima - o que o sonho diz de mil maneiras - já estava morta, ou seja; já estava doente de uma do e nça orgânica que Freud justamç : nte não podia tratar, segundo, o homicida, Freud, era inocente de qualquer intenção de cometer o mal e, terceiro, o crime, de que se trata, teve um efeito curativo, já que a doença que é a disenteria - há um jogo de palavras entre disenteria e difteria - é justamente o que livrará a doente - o mal to d o, os maus humores, irão embora com ela.


Este desarvoramento, este despedaçamento, esta discordância fundamental, esta não-adaptação essencial, esta anarquia, que abrem todas as possibilidades de deslocamento, ou seja, de erro, caracte­ rizam a vida instintual do homem - a própria experiência da análi· se nos mostra isto. Além do que, se o objeto nunca é apreensível senão como miragem, miragem de uma unidade que nunca pode ser reapreendida no plano imaginário, toda a relação objetai só pode ficar como que paralisada por uma incerteza fundamental. B jus­ tamente isto que se reencontra num monte de experiências, as quais, chamá-las de psicopatológicas, não quer dizer nada já que elas estão em contigüidade com múltiplas experiências que são qualificadas de normais.


Assim como numa análise o sonho se endereça ao analista, Freud neste sonho já está endereçando-se a nós;
Já é para a comunidade dos psicólogos, dos antropólogos, que ele sonha. Quando interpreta este sonho, é a nós que ele se endereça.


Sou aquele que quer ser perdoado por ter ousado começar a sarar estes. doentes, que até agora não se queria compreender e que se proibia a si mesmo de sarar. Sou aquele que quer ser perdoado por isto. Sou aquele que quer não ser culpado por isto, pois se é sempre culpado quando se transgride um limite até então imposto à atividade humana. Quero não ser isto, Em lugar de mim há todos os


outros. Sou aí apenas o representante de: ; te rasto, vago movimento que é a busca da verdade onde, eu, me apago. Não sou mais nada.
Minha ambição foi maior do que eu. A seringa estava suja, sem dú­ vida. E justamente na medida em que a desejei demais, em que par­ ticipei desta ação, em que quis ser, eu, o criador, não sou o criador.
O criador é alguém maior do que eu. E; o meu inconsciente, é esta fala que fala em mim, para além de mimP Eis o sentido deste sonho.


:E: preciso que vo c ês avisem à máquina que ela perdeu, inscre­ vendo um menos. Não tenho a menor idéia se é assim que a máquina funciona, mas isso pouco se me dá - ela não pode funcionar de outro jeito, e se funcion. l r de outro jeito, dá na mesma.


A questão toda resume-se em saber se o outro é suficientemente astuto para saber que cu também sou um outro para ele, e se é capaz de transpor este st.: gundo tempo.


Freud é o primeiro a dar-se conta de que um número tirado do chapéu vai rapidamente fazer aparecer coisas que levarão o sujt.: ito àquela ocasião em que dormiu com a irmãzinha, ou ainda ao ano em que fracassou no ves t ibular42 por ter-se masturbado naquda manhã. Se admitirmos estas experiências, é preciso assentar que não existe acaso. Enquanto o sujeito não está pensando nisto, os símbolos continuam acavalando-se, copulando, proliferando, fecundando-se, trepando, rasgando-se. E quando vocês tiram um,


podem projetar nele uma fala deste sujeito inconsciente do qual estamos falando.


Este resultado, memorizado, está a todo instante pronto para intervir. Porém, no instante seguinte, ele pode muito bem não ser absolutamente mais o mesmo. E possível que haja q1udado de conteúdo, de sinal, de estrutura. Se um erro introduz-se �o dec4rso da experiência, o que ocorre? Não é o que vem depois que é modificado, porém tudo o que está antes. Temos um efeito de só-depois


Não é por ser um estra­ tegista, é por ser um poeta, que ele ganha, até a intervenção do superpoeta que é o Dupin.


O escravo supõe muito naturalmente que o senhor é um senhor, e que, quando ele tem ao seu alcance algo de precioso, ele o agarra. Da mesma maneira, crê-se que, quando se chegou a um certo ponto de compreensão da psicanálise, pode-se agarrar nela e dizer -Ela está aqui, somos nós que a temos. Pelo contrário, a significação, como tal, nunca está lá onde st : : crê que deva estar.
O valor do apólogo é desta ordem aí. � a partir da análise do valor simbólico dos diferentes momentos do drama que se pode des­ cobrir sua coerência, e até mesmo sua motivação psicológica.
Não é um jogo de esperteza, não é um jogo psicológico, é um jogo dialético.


O símbolo surge no real a partir de uma aposta. A própria noção de causa, no que ela pode comportar de mediação entre a cadeia dos símbolos e o real, se estabelece a partir de uma aposta . primitiva - será que isso vai ser isso ou não?


A aposta está no centro de toda e qualquer questão radical que trate do ‘pensamento simbólico. Tudo se resume no to be or not to be, na escolha entre o que vai ou não sair, no par primordial do mais e do menos. Mas, presença assim como ausência conotam au­ sência ou presença possíveis. Logo que o próprio sujeito chega ao ser, ele o deve a um certo não-ser sobre o qual ele ergue seu ser.
E se ele não é, se ele nãq � algo, é que �le testemunha, evidentemente de alguma ausência, mas ele permanecerá .empre devedor desta au­ sência, quero dizer que ele terá de dar a prova disto, na falta de dar prova da presenç�.
·


Se a carta fica aí, atirada com indiferença sobre a mesa, é justamente para o rei não notar sua presença. e. com sua desaten­ ção, senão com sua cegueira, que a rainha joga.


a carta é, para cada um, seu in­ consci. : nte. É seu inconsciente com todas as conseqüências, ou seja, a cada momento do circuito simbólico, cada qual torna-se um outro homem.


O que é, afinal, uma carta? Como é que uma carta · pode ser roubada? Ela pertence a quem? A quem a enviou, ou a quem é des­ tinada? Se disserem que pertence a quem a enviou, no que será que consiste a dádiva de uma carta? Por que é que se manda carta?
E se pensarem que ela pertence ao destinatário, como é que, em determinadas circunstâncias, vocês devolvem as cartas ao persona­ gem que com elas os bombardeou durante uma parte da existência de vocês?


As falas permanecem. O jogo dos símbolos, contra isto vocês nada podem fazer, e é por isso que é preciso tomar muito cuidado com o que dizem. Mas a carta, a letra,49 essa vai embora. Ela pas­ seia sozinha.


Esta carta, que é uma fala endereçada à rainha por alguém, o duque de S., a quem ela é realmente endereçada? Visto ser uma fala, ela pode ter diversas.funções. Tem a função de um certo pacto, de uma certa confidência. Tanto faz tratar-se do amor do duque ou de um complô contra a segurança do Estado ou até de uma banali­ dade. Ela está aí, dissimulada nt,� ma espécie de presença-ausência.
Ela está aí, mas não está aí, ela só está aí em seu valor próprio,· em refação a tudo o que ela ameaça, a tudo o que ela viola, a tudo de que ela escarnece, a tt.i do o que ela põe em perigo ou em sus­ penso.


Esta carta, que não tem o mesmo sentido em todo lugar, é uma verdade que não convém publicar. Assim que ela passa para o bolso do ministro, ela não é mais o que era antes, seja lá o que for que tenha sido. Ela não é mais uma carta de amor, uma carta de confidência.
o anúncio de um acontecimento, ela é uma prova, e se caso for uma prova material.


B uma espécie de carta de él mor que ele se manda a si mesmo.


O po­ der que a carta pode conferir-lhe, ele o suspende na indeterminação, não lhe dá nenhum sentido simbólico, joga apenas com o seguinte -entre ele c a rainha se estabelece esta miragem, esta fascinação re­ cíproca, que é o que eu lhes anunciava há pouco, ao falar de relação narcísica. Relação dual entre o senhor e o escravo fundamentada na ameaça indeterminada da morte em último termo, mas, neste caso, sobre os temores da rainha.


No final das contas, o caráter intolerável da pressão constituí­ da pela carta é devido ao ministro ter, em relação à carta, a mesma atitude que a rainha· - ele não fala dela. Não fala porque, assim como a rainha, ele não pode falar dela. E pelo simples fato de não poder falar dela, ele se encontra, no decurso da segunda cena, na mesma posição que a rainha, e ele não vai poder deixar de fazer com que lhe furtem a carta. Isto não é devido à esperteza de Dupin, porém à estrutura das coisas.


A carta roubada tornou-se uma carta escondida. P’or que será que os policiais não a encontram? Não a encontram porque não sabem o que é uma carta. Não o sabem porque são a polícia. Todo poder legítimo, assim como toda espécie de poder, repousa sempre sobre o símbolo.


Como puderam ver em períodos de agitação, vocês se teriam deixado prender que nem carneirinho� se um cara lhes tivesse dito Polícia. c mostrado uma carteira, caso contrário, começariam a quebrar-lhes a cara tão logo ele tivesse posto a mão em vocês. Só que a pequena diferença que existe entre a polícia e o poder é que persuadiram a polícia que sua eficácia re­ pousa na força - isso não é para que se sinta confiante, mas, pelo contrário, para limitá-la em suas funções. E graças ao fato de a po­ lícia crer que é pela força que ela exerce sua função, ela é tão im­ potente qu,anto se possa desejar.


Não é um joguinho mental. Reflitam - por que será que eles não a encontram? Ela está aí. Eles a viram. Viram o quê? ·Uma carta. Talvez a tenham até aberto. Mas não a reconhecem. Por quê?
Tinham dela u. W a ” descrição -Ela tem um carimbo vermelho e tal sobrescrito. Ora, ela tem um outro carimbo e não tem tal sobrescri­ to. Dir-me-ão vocês -E o texto? Mas justamente, o texto não lhes foi dado. Pois, das duas uma, ou o texto ter l t importância ou não tem. Se ele tem impor t ância, e mesmo que ninguém, salvo o rei, possa entendê-lo, convém, no entanto, que não’fique dando sopa.
Vocês estão vendo bem que só pode haver algo escondido na dimensão da verdade. No real, a própria idéia de um esconderijo é delirante - por mais longe nas e,ntranhas da terra que alguém tenha ido levar algo, isso lá não está escondiao, já que se ele foi, vo c ês também podem lá ir. Só pode estar escondido o que é da ordem da verdade. É a verdade que está escondida, não a carta. Para os policiais, a verdade não tem importânciaj para eles só e.xiste reali-dade, e é por esta razão que eles não enç ’ ontram.


A avestruz acredita estar em segurança porque ·ela está com a cabeça dentro da terra - ele é uma avestruz aperfeiçoada que acreditaria estar protegida porque uma outra avestruz -· outra­ truz “0 -estaria com a cabeça dentro. da areia. E ela se deixa depe­ nar o traseiro por uma terceira que lhe arrebata as plumas e com elas fabrica para si um penacho.


Com efeito, se o incidente da rua atrai sua atenção, é por ele saber-se vigiado pela polícia -Como é que pode ocorrer algo diante de minha casa quando estou com três tiras em cada esquina? Não só ele se feminizou com a posse da carta, mas além çl isto esta última, de cuja relação com o incons­ ciente lhes falei, lhe faz esquecer o essencial. Vocês conhecem a his­ tória do cara encontrado numa ilha deserta para onde ele se retirou para esquecer - Para esquecer o quê? - Esqueci. Pois bem, eh.
também esqueceu que, apesar de estar sob a vigilância da polícia, não se deve, no entanto, acreditar que ninguém vá funcionar melhor.


Não quero insistir, mas talvez vocês me façam delicadamente notar que nós também, que estamos o tempo todo servindo de por­ tador�s de todas as cartas roubadas do paciente, nós também cobra­ mos mais ou menos caro. Reflitam bem no seguinte - se nós não cobrássemos, entraríamos no drama de Atreu e de Tieste que é o de todos os sujeitos que nos vêm confiar a verdade deles. Eles nos contam umas histórias danadas 51 e por isto não estamos nem um pouco na ordem do sagrado 51 nem na do sacrifício. Todo mundo sabe que o dinheiro não serve simplesmente para comprar objetos, mas que os preços que, em nossa sociedade, são calculados o mais exata­ m�ntl.. possível, t�m como função amortecer algo de infinitamente mais perigoso do que pagar em dinheiro, que consiste em dever algo a algÜC.: m.


E, com efeito, se porventura ele tiver de abrir esta carta, só lhe restará sofrer as conseqüências de seus próprios atos, comer como


Tieste seus próprios filhos. B justamente com isto que temos todos os dias de lidar, cada vez que a linha dos símbolos topa em obstáculo terminal - são nossos atos que vêm ao nosso encontro. Trata-se aqui, -de repente de pagar à vista. Trata-se, como se diz, de preswr contas de seus crimes - o que aliás quer dizer que, se souberem prestar contas deles, não serão castigados. Se ele realmente comch:r esta loucura de sacar da carta, c sobretudo se não verificar um pouco antes se é ela mesma que aí está, ao ministro, só lhe restará com efeito seguir a palavra de ordem que eu lançara ironicamente em Zurich, em resposta a Leclaire -Coma teu Dasein. B a refeição de Tieste por excelência.


Hoje, estamos prestes a cht : gar no alto desta encosta, por vezes um tanto árdua, que escalamos este ano. Estamo-nos aproximando dt : : um cume. Mas nada nos indica que, do alto deste cume, teremos uma vista realmente panorâmica sobre aquilo que percorremos.


assistir ao sujeito na revelação que ele faz de si mesmo a si mesmo


Isto me leva a pensar que só é ensino verdadeiro aquele que consegue despertar uma insistência naqueles que escutam, este dese­ jo de saber que só pode surgir quando eles próprios tomaram a medida da ignorância como tal - naquilo em que ela é, como tal, fecunda - e isto também vale para aquele que ensina.


Toda pergunta que tiverem para me fazer, por mais que seja em aparência parcial, local, até ·mesmo indefinida, deve, contudo, ter uma certa relação com este ponto de mira.


Vamos proceder apelando para as boas vontades. Esta prova é realmente o mínimo que eu lhes posso pedir - exporem-se diante dos outros. Se voc�s não forem capazes de fazê-lo como analistas, do que é que são capazes?


Eu tinha conseguido, após ter lido o capítulo de Freud, fazer uma idéia do eu como de uma função-defesa que se dn·eria situar em superfície e não em profundidade, e que se exercaia em duas frentes, tanto contra os traumas que vêm de fora, como contra as impulsões que vêm de dentro. Depois de suas con­ faências, nüu consigo mais representá-lo assim para mim. E me pergunto qual será a melhor definição. Penso que seria dizer que se truta de um fragmento de discurso comum. Será que é isso? Mais uma pergunta.


não basta dizer que o cara é plenamente responsável para se resolver a coisa


esta carta, por um tempo, c nos limites do palquinho, da Schauplatz como diz Freud, do teatrinho de marionetes que Poe nos mostra, era o inconsciente dos diversos sujeitos que se vão sucedendo como seus possuidores. :B a própria carta, a própria letra, 40 esta frase inscrita num pedaço de pape., na medida em que ela for passando


o inconsciente de :B dipo é justamente este dis­ curso fundamental que faz com que, há muito tempo, desde sempre, a história de f: dipo aí esteja escrita, que nós a conheçamos e que :B dipo a ignore totalmente, apesar de ele ser, desde o início, joguete dela.


ele é o filho de Jocasta e de Laia, e ele vai pela vida ignorando isto. Toda a pulsa­ ção do drama de seu destino, de ponta a ponta, desde o começo até o fim, é devida a este velamento do discurso, que é a realidade sem que ele o saiba.


A relação entre o eu e a morte é extremamente estreita, pois o eu é um ponto de conjunção entre o discurso comum, no qual o sujeito se encontra preso, alienado, e sua realidade psicológica.


A relação imaginária no homem se acha desviada na medida em que é nela que se produz a hiância por onde a morte se prcsen­ tifica. O mundo do símbolo, cujo pr.óprio fundamento é o fenômeno da insistência repetitiva, é alienante para o sujeito ou, melhor, ele é causa de o sujeito realizar-se sempre alhures e de sua verdade lhe estar sempre velada em alguma parte. O eu está na interseção de um c de outro.


A que cor n . : spondc a resistência no tratamento analítico? A uma inércia. Enquanto tal, ela apresenta a propriedade de não ter em si mesma nenhuma espécie de resistência. A resistência, no sentido d..: Widerstand, obstáculo, obstáculo a um esforço, não deve ser pro­ curada em outro lugar a não ser em nós mesmos. Quem aplica a força provoca a resistência


É o que deixo no limite de sua pergunta, o que me prova que a senhora entendeu o que cu disse.


inter­ pretação do desejo de dormir como desejo narcísico


O desejo se satisfaz alhures e não numa satisfação efetiva. Ele é a fonte, a introdução fundamental da fan­ tasia como tal. Existe aí uma ordem outra que não vai dar em nenhuma objetividade, mas que define por si mesma as questões colocadas pelo registro do imaginário.


Há, com efeito, desejos que nunca encontrarão outra satisfação senão através do fato de serem reconhecidos, isto é, confessados.


A história fundamental do obsessivo é ele estar in­ teiramente alienado num mestre, num senhor, cuja morte espera, sem saber que ele já está morto, de maneira que ele não pode dar um passo.


Estamos chegando a uma encruzilhada radical da posição freu­ diana. É um ponto em que quase qualquer coisa pode ser dita. Mas esta qualquer coisa não é uma coisa qualquer, visto que, o que quer que se diga, será sempre rigoroso para quem souber ouvi-lo.


A experiência freudiana parte de uma noção diametralment� ; contrária à perspectiva teórica. Ela começa por estabelecer um mun­ do do desejo. Ela o estabelece antes de toda c qualquer espécie tk experiência, antes de qualquer consideração sobre o .mundo das apa­ rências c o mundo das essências. O desejo é instituído no interior do mundo freudiano onde nossa experiência se d� : senrola, ele o consti­ tui, e isto não pode ser apagado em instante algum do mais mínimo manejo de nossa experiência.
O mundo freudiano não é um mundo das coisas, não é um mundo do ser, é um mundo do desejo como tal.


O desejo é uma relação de ser com falta. Esta falta é falta de ser, propriamente falando. Não é falta disto ou daquilo, porém falta de ser através do que o ser existe.


O ser consciente de si, transparente a si mesmo, que a teoria clássi- : a põe no centro da experiência humana, aparece, nesta pers­ pectiva, como uma maneira de situar no mundo dos objetos este ser de desejo que não poderia ser visto como tal, a não ser na sua falta.
.. esta falta de ser, ele se dá conta de que o ser lhe falta, e que o ser c�tá aí, em todas as coisas que não sabem que são. E ele se imagina como um objeto a mais, pois não vê outra diferença. Ele diz -Eu, .1uu aquele que sabe que sou. Infelízmente, mesmo que ele saiba que �. não sabe absolutamente nada daquilo que é. Eis o que falta em q ualqucr ser.


Que � libido seja determinante no comportamento humano, não foi Freud quem descobriu isto. Aristóteles já for n �.: cia sobre a histéri­ ca uma teoria fundamentada no fato de o útero ser um bichinho que vivia dentro do corpo da mulher, c que mexia forte paca quando não lhe davam de comer. Se ele tomou este l. xemplo, evidentemente é que não quis tomar outro muito mais evidente, o órgão sexual mas­ culino que não precisa de teórico de espécie alguma para chamar a atenção com seus pinotes.


Na perspectiva que acabo de abrir-lhes, são vocês que provo­ cam a resistência. A resistência, no sentido em que vocês entendem, a saber u111a resistência que resiste, só resiste porque vocês a pres­ sionam. Não há resistência por parte do sujeito. Trata-se de libertar a insistência que existe no sintoma. O que, neste caso, o próprio Frcud chama de inércia não é uma resistência - como qualqul.. r es­ pécie de inércia, é uma espécie de ponto ideal. Vocês é que a su­ põem, para poderem entender o que está acontecendo. Vo c ês não estão enganados, caso não se esqueçam de que a hipótese é de vo c ês.
Isso quer simplesmente dizer que há um processo, c que para enten­ dê-lo, vocês imaginam um ponto zero. A resistência só começa a partir do momento em que deste ponto zero vocês tentam, com efei­ to, fazer o sujeito ir mais �diante.


Em outros tamos, a resistência é o estado atual de uma inter­ pr�tação do sujeito. E a maneira pela qual, naquele dado momento, o sujeito interpreta o ponto em . que ele está. Esta resistência é um ponto ideal abstrato. Vocês é que chamam isso de resistência. Isso quer simplesmente dizer que ele não pode ir adiante mais depressa, c quanto a isso, vocês não podem dizer nada. O sujeito está no ponto em que está. Trata-se de saber se ele vai mais adiante ou não. Está claro que ele não tende, de maneira nenhuma, a ir mais adiante, mas por menos que ele fale,’ por 1;1enor que for o valor daquilo que ele Liissa, o que diz é a interpretação dele no momento, ·e a continua­ ção do que diz é o conjunto da� suàs interpretações sucessivas. A rcsis­ t�ncia é, propriamente falando, uma abstração que vocês colocam aí dentro para se orientarem. Vocês introduzem a idéia de um ponto morto, que chamam de resistência, e de uma força, que faz com qu� isso vá adiante. Até aí está perfeitamente correto. Mas se daí fon:m chegar à idéia de que a resistência deve ser liquidada, como se �scrcve a toda hora, cairão no absurdo puro e simples. Depois de terem criado uma abstração, vocês dizem -é preciso fazer desapa­ recer esta abstração, é preciso que não haja inércia.
Existe apenas uma resistência, é a resistência do analista. O analista resiste quando não entende com o que ele tem de lidar. Não entende com o que ele tem de lidar quando crê que interpretar é mostrar ao sujeito que, o que ele deseja, é tal objeto sexual. Enga­ na-se. O que ele imagina aqui como sendo objetivo é apenas pura c simpks abstração. Ele é que está em estado de inércia e de resistência.
Trata-se, pelo contrário, de ensinar o sujeito a nomear, a ar­ ticular, a fazer passar para a existência, este desejo que está, literal­ mente, para aquém da existência, e por isto insiste. Se o desejo não ousa dizer seu nome, é porque, este nome, o sujeito ainda não o fez surgir.
Que o sujeito chegue a reconhecer e a nomear seu desejo, eis aí a ação eficaz da análise. Mas não se trata de reconhecer algo que estaria aí, já dado, pronto para ser coaptado. Ao nomeá-lo, o sujeito cria, faz surgir uma nova presença no mundo. Ele introduz a presença como tal e, da mesma feita, cava a . ausência como tal.
É apenas neste nível que a ação da interpretação é concebível.


Vocês é que chamam isso de resistência. Isso quer simplesmente dizer que ele não pode ir adiante mais depressa, c quanto a isso, vocês não podem dizer nada. O sujeito está no ponto em que está. Trata-se de saber se ele vai mais adiante ou não. Está claro que ele não tende, de maneira nenhuma, a ir mais adiante, mas por menos que ele fale,’ por 1;1enor que for o valor daquilo que ele Liissa, o que diz é a interpretação dele no momento, ·e a continua­ ção do que diz é o conjunto da� suàs interpretações sucessivas. A rcsis­ t�ncia é, propriamente falando, uma abstração que vocês colocam aí dentro para se orientarem. Vocês introduzem a idéia de um ponto morto, que chamam de resistência, e de uma força, que faz com qu� isso vá adiante. Até aí está perfeitamente correto. Mas se daí fon:m chegar à idéia de que a resistência deve ser liquidada, como se �scrcve a toda hora, cairão no absurdo puro e simples. Depois de terem criado uma abstração, vocês dizem -é preciso fazer desapa­ recer esta abstração, é preciso que não haja inércia.


Existe apenas uma resistência, é a resistência do analista. O analista resiste quando não entende com o que ele tem de lidar. Não entende com o que ele tem de lidar quando crê que interpretar é mostrar ao sujeito que, o que ele deseja, é tal objeto sexual. Enga­ na-se. O que ele imagina aqui como sendo objetivo é apenas pura c simpks abstração. Ele é que está em estado de inércia e de resistência.


É uma frase que arranquei de seu contexto, e é preciso que cu a recoloque nele para evitar que vocês tirem daí alguma ilusão


o drama essencial do des­ tino, a absoltua ausência de caridade, de fraternidade, do que quer que seja que se refira aos chamados sentimentos humanos.


Um sentido é uma ordem que surge. Uma vida insiste para entrar nele, mas talvez ele expresse algo de totalmente para além desta vida, já que quando vamos à raiz desta vida, e por detrás do drama· da passagem para a existência, não achamos nada senão a vida conjugada com a morte. :É aí que a dialética freudiana nos leva.


A vida não quer sarar. A reação terapêutica negativa lhe é fundamentalmente própria. Sarar, aliás, o que é?


A vida só pensa em morrer -Morrer, dormir, sonhar tal­ .‘t ’ Z, como disse um certo senhor, justamente no momento em que �c tratava disso -to be or 110t to be.


Tomem a mais idiota das histórias, aquela do homem que numa padaria, pretende que não tem nada com que pagar - elc estendeu a mão e pediu um doce, ele dl.. volve o doce c pede um copo de licor, ele o toma, pedem-lhe que pague o copo de licor c ele diz - Dei um doce no lugar. - Mas este doce, o senhor também não tinha pago. - Mas não o comi. Há troca. Mas como pôde a tr oca começar?
Foi preciso que num dado momento algo entrasse na roda da troca. J: : ra preciso, portanto, que a troca já estivesse estabelecida.
Isto equivale a dizer que, no final das contas, se está sempre pa­ gando o copinho com um doce que não se pagou.


As histórias de casamenteiros, que são absolutamente sublimes.
sâo engraçadas também por esta razão. Aquela que o senhor m. : apresentou tem uma mãe insuportável. - Escute, não é com a mãe que o senhor vai-se casar, é com a filha. - Mas acontece que ela não é excessivamente bonita, e nem mais tão jovem. - Ela lhe será tanto mais fiel. - Mas ela não tem muito dinheiro. - O senhor quer que ela tenha todas as qualidades. E assim por diante. Aquele que conjunta, o casamenteiro, conjunta num plano totalmente difl.. ­ rente do da realidade, já que o plano do engajamento, do amor, não tem nada a ver com a realidade. Por definição, o casamenteiro, pago para enganar, não pode nunca deparar com realidades grotescas.


Os planetas não falam -·primeiro, porque não têm nada a dizer - segundo, porque não têm 1cmpo para isto - terceiro, porque se os fez calar.


De início, fiquei um pouco decepcionado. Quando se fica de­ cepcionado, a gente sempre está enganado. Nunca se deve ficar tkcepcionado com as respostas que se recebe, pois se a gente ficar � uma maravilha, isso prova que se tratava de uma verdadeira res­ posta, ou seja, justo aquilo que precisamente não se esperava


O movimento newtoniana utiliza o tempo, mas ninguém liga para o tempo da física, porque não se trata de nada que ·se refira a reali­ dades - trata-se da linguagem justa e não se pode considerar o campo unificado a não ser como uma linguag�m bem feita, como uma sintaxe.


Graças a Deus, a experiência nunca é levada até seu derra­ deiro término, não se· faz o que se diz fazer, fica-se muito aquém de suas metas. Graças a Deus, os tratamentos falham, 37 e é por isso que o sujeito se salva.


Com respeito ao eu, o que sabemos? Será que o eu é real, será que é uma lua ou bem uma construção imaginária? Estamos par t indo da idéia, com que, tal um bordão, há muito tempo, os venho ataza­ nando, de que não há meio de apreender o que quer que seja da dialética analítica se 11 ão assentarmos que o eu é uma constr u ção imaginária. O fato de ele ser imaginário, isto não retira nada a este pobre eu - diria até que é o que ele tem de bom. Se ele não fosse imaginário, não seríamos homens, seríamos luas. O que não quer dizer que basta que tenhamos este eu imaginário para sermos ho­ mens. Podemos ser ainda esta coisa intermediária que se chama louco. Louco é justamente aquele que adere a este imaginário, pura c simplesmente.


Quando o sujeito fala com seus semelhantes, fala na lingua­ gem comum, que considera os eus imaginários como coisas IIl ão uni­ camente ex-sistentes, porém reais. Por não poder saber o que se acha no campo em que o diálogo concreto se dá, ele lida com um certo número de personagens, a’, a”. Na medida em que o sujeito os põe em relação com sua própria imagem, aqueles com quem fala são também aqueles com quem se identifica.


Se se formam analistas é para que haja sujeitos tais que neles o cu esteja ausente. f: o ideal da análise, que, é claro, permanece vir­ tual. Não existe nunca sujeito sem um eu, sujeito plenamente reali­ zado, porém é justamente o que sempre se deve visar a obter do sujeito em análise.
A análise deve visar à passagem de uma fala verdadeira, que junte o sujeito a um outro sujeito do outro lado do muro da lin­ guagem. f: a relação derradeira de um sujeito a um Outro verdadei­ ro, ao Outro que dá resposta que não se espera, que define o ponto terminal da análise.


Durante toda a duração da análise, mas unicamente com a condição de o eu do analista aceitar não estar aí, unicamente com a condição de o analista não ser um espelho vivo, porém espelho vazio, o que se passa, passa-se entre o eu do sujeito - é sempre o eu do sujeito quem fala, aparentemente - e os outros. O progresso todo da análise consiste no deslocamento progressivo desta relação, que


o sujdto, a todo momento, pode apreender, para além do muro da linguagem, como sendo a transferência, que é dele e onde ele não se reconhece. Não se trata de reduzir esta relação, como se tem ts­ crito, trata-se de o sujeito assumi-la em seu lugar. A análise consiste em fazê-lo tomar consciência de suas relações não para com o eu do analista, mas para com todos estes Outros, que são seus verda­ deiros fiadores, que respondem por ele, e que ele não reconheceu.
Trata�se de o sujeito descobrir progressivamente a que Outro ele verdadeiramente se endereça, apesar de não sabê-lo, e de ele assumir progressivamente as relações de transferência no lugar onde está, c onde, de início, não sabia que estava.


No fim da análise, é ele quem deve estar com a palavra, c entrar em relação com os verdadeiros Outros. Ali onde o S estava, lá tem de estar o Jch.


O que lhes ensino aqui são noçõe1 o fundamentais, alfabéticas, é mais uma rosa dos ventos, uma tábua de orientação, do que uma car­ tografia completa dos problemas atuais da análise. Isto supõe que.
munidos da tal da tábua de orientação, vocês procurem passear por �cus próprios meios ‘pelo n1apa, e que submetam meu ensino à prova de uma leitura extensa da obra de Freud.


na verdade, não era preciso o imenso rodeio da obra de Freud


Em Fairbairn, temos de lidar com uma noção sumamente picante, pois o autor niw parece ter encontrado na língua inglesa um termo que lhe parccl . ssc significar adequadamente a função perturbadora, c inclusive dcmu· níaca, do supercu, e forjou um - o intemal sabotar.


Esta questão do eu, nós a estamos abordando, este ano, por um lado diferente daquele pelo qual a ha­ víamos tomado no ano passado. No ano passado, nós a havíamos evocado a propósito do fenômeno da transferência. Este ano, esta­ mos tentando entendê-la com relação à ordem simbólica.


Coloquemo-nos na perspectiva da mulher. O amor que a mu­ lher dá a seu esposo não visa ao indivíduo, nem mesmo idealizado —: is o perigo daquilo que se denomina a vida em comum, a idealiza­ ção, nào dú para sustentar - visa, porém, a um ser para além. O amor sagrado propriamente falando, aquele que constitui o laço ma­ trimonial, vai da mulher àquilo que Proudhon denomina todos os homens. Assim como, através da mulher, são todas as mulheres que a fiddidad- : do esposo visa.


Em outros termos, na forma primitiva do casamento, se não for a um deus, a algo de transcendente que a mulher for dada, e se der, a relação fundamental sofrerá todas as formas de degradação imaginária, e é o que ocorre, pois não temos, e há já muito tempo, o estofo para encarnar deuses.


Eis aí a concepção que certas pessoas têm da intcrveÍlÇão própria à psicanálise naquilo que se denominam relações humanas, e que, ao se propagar por intermédio dos mass media, vai ensinando a cada um como comportar-se para que remt : a paz em casa - que a mulher desempenhe o papel de mãe, c o homem, o de filho.


Para que o casal se mantenha no plano humano, é preciso que aí esteja um deus.


: o tipo do homem que imagina que o objeto de seu desejo, a paz de seu gozo, depende de seus méritos. f: o. homem do supereu, aquele que quer eternamente elevar-se à dignidade dos ideais do pai, do amo, do senhor,6 0 e que fica imaginando que al­ cançará, desse jeito, o objeto de seu desejo.


Se o obsessivo se mortifica é porque, mais do que um outro neurótico, apega·se ao seu eu, o qual carrega em si o de­ sapossamento e a morte imaginária.
E por quê? O fato é evidente - o obsessivo é sempre um outro.
Seja o que for que ele contar para vocês, sejam quais forem os senti·


mentos que ele lhes trouxer é sempre os de um outro que não ele mesmo. Esta objetalização de si mesmo não é devida a uma tendên­ cia ou a um dom introspectivo. 1’: :. na medida em que evita seu pró­ prio desejo que todo desejo pelo qual, enveredar, nem que seja apa­ rentemente, ele o apresentará como sendo o desejo deste outro ele mesmo que é o seu eu.


Será que não se vai no mesmo sentido que ele quando se pensa em reforçar o seu eu? em permitir-lhe suas diversas pulsões, e sua oralidade, e sua analidade, e seu estádio oral tardio, e seu estádio anal primário? em lhe ensinar a reconhecer o que quer, e que já se sabe desde o início, a destruição do outro? E como é que não seria a destruição do outro, já que se trata de sua própria destruição, o que é exatamente a mesma coisa?


Não é nem para si mesmo, nem realmente, que ele está morto.
Para quem ele está morto? Para aquele que é seu senhor. E em rela­ ção a quê? Em relação ao objeto de seu gozo. Ele apaga seu gozo para não despertar ‘a cólera de seu senhor.


Dentro da psi­ cologia do sujeito há, repara Fairbairn, muito mais do que os três personagens de quem Freud nos fala, id, superego, e ego


A análise progride através da fala do sujeito na medida em que ela vai para alé� n da relação dual, c não encontra, então, mais nada, a não ser o Outro absoluto, que o sujeito não sabe reconhecer. É progressivamente que ele deve reintegrar em si esta fala, ou seja, falar enfim com o Outro absoluto dali onde ele se acha, dali onde o seu eu deve realizar-se, reintegrando a decomposição para­ nóide de suas pulsões das quais não basta dizer que nelas ele não se reconhece - fundamentalmente, na sua qualidade de eu, ele as des­ conhece.


Em .outros krmos, o que Sósia tem de aprender, não é que ele nur . ca encontrou �cu sósia -é .lbsolutamcnte verdadeiro que o en­ controu. Ele tem de aprender que ele é Anfitrião, o homem cheio de glória que ni l o entende nada de nada, nada daquilo que se deseja, que acredita que basta ser um general vitorioso para fazer amor com sua mu.hcr. Este homem, fundamentalmente alienado, que nunca en­ contr a o objeto de seus desejos, tem de dar-se conta de por que ele tem fundamentalmente apego por este cu, c de que maneira csrc cu constitui sua alienação fundamental.


Uma das molas secretas dos fracassos dos tratamen­ tos de obsessivos é a idéia que, por detrás da neurose obsessiva, há uma psicose latente.


Trata-se aí de uma questão de definição � Minha prometida vem sempre ao encontro marcado, porque quando ela não vem, deixo de chamá-la de minha prometida. Será que é o homem que é exato? Onde pode estar a mola da exatidão, a não ser justamer r te no fato de se porem os relógios em concordância?


Sabe-se bem que a máquina não pensa. Nós é que a fizemo�.
c ela pensa o que lhe mandamos pensar. Mas se a máquina não pensa, está claro que nós mesmos também não pensamos quand.. efetuamos uma operação. Seguimos exatamente os mesmos mecani�­ mos que a máquina.


Há uma inércia do imaginário que vamos intervir no discurso Jo sujeito, embaralhando este discurso, fazendo com que eu não me dê conta de que, quando quero bem a alguém, quero-lhe mal.
4uc quando o amo, sou eu mesmo que me amo, ou quando creio amar-me, é então, justamente, que estou amando um outro. Dissipar ..: sta confusão imaginária e restituir ao discurso seu sentido de dis­ curso é justamente nisto que o exercício dialético da análise consiste.


ele sabe que está fazendo psicanálise, c que a psicanálise formulou normas.
Será que se trata de encorajá-lo a ser bem bonzinho, a se tornar um verdadeiro personagem que alcançou sua maturidade instintual, saído dos estádios em que a imagem de um orifício tal domina?
Será que se trata, na análise, de uma coaptação a estas imagens fundamentais, de uma retificação, de uma normalização em termos de imaginário, ou de uma libertação do sentido no discurso, neste prosseguimento do discurso universal em que o sujeito se acha me­ tido? :É aqui que as escolas divergem.


O que quer dizer o sentido? O sentido é qul . o ser humano não é senhor desta linguagem primordial e primitiva. Ele foi jogado aí, metido aí, ele está preso em sua engrenagem.


É preciso maravilhar-nos com o paradoxo. O homem não é aqui senhor em sua casa. Há algo no qual ele se integra e que já reina por intermédio de suas combinações. A passagem do homem da ordem da natureza à ordem da cultura segue as mesmas cmnbi­ nações matemáticas que as que servirão para classificar e explicar.
Claude Lévi-Strauss as denomina estruturas elementares do paren­ tesco. E, no entanto, os homens primitivos não são supostos terem sido Pascal. O homem se acha metido, seu ser todo, na procissão dos números, -num primitivo simbolismo que se distingue das repre­ sentações imaginárias. É no meio disto que algo do homem tem de fazer-se reconhecer. Mas o que tem de fazer-se reconhecer não está expresso, nos ensina Freud, porém recalcado.


O que numa máquina não advém a tempo, cai simplesmente e não reivindica nada. Não é a mesma coisa no homem, a escansão está viva, e o que não adveio a tempo permanece suspenso. :É disto que se trata no recalque.


Decerto, algo que não é expresso não existe. Mas o , recalcado está sempre aí, insistindo, e pedindo para ser. A relação funda­ mental do homem com esta ordem simbólica é muito hatamente aquela que fundamenta a própria ordem simbólica - a relação de não-ser com ser.
O que insiste para ser satisfeito só pode ser satisfeito no reco­ nhecimento. O fim do processo simbólico é que o não-ser venha a ser, que ele seja porque falou.


Trata-se de uma seqüência de ausências e de presenças, ou melhor, da presença sobre fundo de ausência, da ausência consti­ tuída pelo fato de uma presença poder existir. Não há ausência no real. Só há ausência se o senhor sugerir que pode haver uma pre­ sença ali onde não há.


Alguns dizem que, no que diz respeito a fazer teoria analítica, sou eu que construo, que lhes proponho minha construção, e vocês lá se vão com isso. Isso, não quero. Com respeito a esta ordem arquetípica e platoniana quanto à qual, como sabem, tenho. muitas restrições, assim como com respeito a esta fala primordial que está aí para fornecer-nos a emergência do simbólico, estamos na posição de ter de conceber, no sentido pleno da palavra.


E é por isto que, para que haja algo de novo, é preciso que a ignorância exista.
� nesta posição que estamos, e é por isso que temos de conceber, no sentido pleno. Quando sabemos algo, já não concebemos mais nada.


Ouvimos aqui, du­ rante um certo número de meses, um seminário do qual cada um tirou o que pôde. Se· fizermos perguntas, teremos sempre tendência u preferir isso a coisas de um nível mais sólido, se é que se pode dizer isto, com tudo o que comporta de ruim.


Tudo o que é intuição está muito mais perto do imaginário do que do simbólico.


o eu, e a, o outro que não é outro coisa nenhuma, Já que ele é essencialmente acoplado com o cu, numa relação sempre reflexiva, intercambiável - o ego é sem­ pre um a/ter-ego.


Tudo está ligado à ordem simbói i ca, desde o momento em que houve homens no mundo e que eles falaram. E o que se trans­ mite e tende a se constituir é uma imensa mensagem na qual o real todo é, pouco a pouco, . retransposto, recriado, refeit o .


Quando um sujeito diz para um outro tu és meu mestre ou tu és minha mulher, isso quer dizer exatamente o contrário. Isso passa por A e por m, e volta em seguida ao sujeito que é, de repente intronizado, por isso, na perigosa e problemática posição de esposo, ou de discípulo. É dessa maneira que se expressam as falas fun­ damentais.


Pois bem, do que será que se trata no caso do sintoma, di­ zendo isto de outra maneira, no caso de . uma neurose? Puderam notar que, no circuito, o eu está verdadeiramente separado do sujeito pelo a minúsculo, ou seja, pelo outro. E, no entanto, eXiste uma ligação. Eu, sou eu70, e vocês, vocês também o são. Entre os dois, há este dado estruturante - os sujeitos são encarnados. Efeti­ vamente, o que se passa no nível dos símbolos passa-se em seres vivos. O que está em S passa, para revelar-se através do suporte corporal do sujeito, passa através de uma realidade biológica que estabelece uma divisão entre a função imaginária do vivente, da qual o eu é uma das formas estruturadas - não temos tanto assim do que nos queixar -, e a função simbólica que ele é capaz de preencher e que lhe outorga uma posição iminente frente ao real.


Dizer que há neurose, dizer que há um recalcado, o qual nunca existe sem retorno, é o mesmo que dizer que algo do dis­ curso que vai de A a S passa e ao mesmo tempo não passa.


O que merece denominar-se reSistência vem do fato de o cu não ser idêntico ao sujeito, e de ser da natureza do eu integrar-se no circuito imaginário que condiciona as interrupções do discurso fundamental. É esta resistência que Freud põe em destaque quando diz que toda resistência provém da organização do eu. Porque é na medida em que é imaginário, e não apenas na medida em que é existência carnal, que, na análise, o eu está na origem das interrup­ ções deste discurso que só pede para passar em atos, em falas, em Wiederholen -é a mesma coisa.


o sujeito descobre por intermédio da análise sua verdade, ou seja, a significação que, em seu destino particular, adquirem estes dados que lhe são próprios e que se pode deno­ minar seu quinhão.


Os seres humanos nascem com disposições de todos os tipos, extremamente heterogêneas. Mas seja qual for o quinhão fundamen­ tal, o quinhão biológico, o que a análise revela ao sujeito é a sua significação. Esta significação é função de uma determinada fala, que é e que não é fala do sujeito - esta fala ele já a recebe prontinha, ele é seu ponto de passagem.


O eu se inscreve no imaginário. Tudo o que pertence ao eu se inscreve nas tensões imaginárias, assim como o resto das tensões libidinais. Libido e cu estão do mesmo lado. O narcisismo é libidinal.
O cu não é uma potência superior, nem um puro espírito, nem uma instância autônoma, nem uma esfera sem conflitos - como se ousa escrever - sobre a qual deveríamos apoiar-nos. Que história é essa?
&. rá que temos de exigir dos sujeitos que tenham tendências supe­ rion. : s para a verdade? Que tendência transcendente à sublimação L : essa? Freud a repu�ia, da maneira mais formal, no Além do prin­ cípio do prazer. Ele não vê a mais mínima tendência para o pro­ gn:sso em nenhuma das manifestações concretas c históricas das fun­ ções humanas, e naquele que inventou nosso método, isto tem lá seu valor. Todas as formas da vida são igualmente espantosas, mi­ n.Jculosas, não há tendência em direção a formas superiores.


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