
Seminar 01 Os writings tecnicos de Freud
Seminário 01 - Os escritos técnicos de Freud (1953-54)
O que é que é o sonho? A reconstituição que o sujeito faz dele seria exata? Que garantia temos nós de que uma verbalização ulterior não se misturou aí ? Todo sonho não seria uma coisa instantânea, à qual a palavra do sujeito dá uma história ? Freud afasta todas essas objeções, e mostra que não são fundadas. Mostra-o sublinhando o fato, inteiramente singular, de que, quanto mais o texto que o sujeito nos dá é incerto, mais ele é significativo. É na dúvida mesma que o sujeito manifesta sobre certas partes do sonho, que ele, Freud, que o escuta, que o espera, que está lá para revelar o seu sentido, reconhece justamente o que é importante. Porque o sujeito dúvida, deve-se ter certeza.
Mas, à medida que o capítulo avança, o procedimento se atenua a tal ponto que no limite, o sonho mais significativo seria o sonho completamente esquecido, de que o sujeito não pudesse dizer nada.
Isolei esse momento, que permanece mascarado na teoria analítica, em que a resistência, no seu fundo mais essencial, se manifesta por um movimento de báscula da palavra em direção à presença do auditor, da testemunha que é o analista. O momento em que o sujeito se interrompe, é ordinariamente o momento mais significativo da sua aproximação em direção à verdade. Apreendemos aqui a resistência no estado puro, que culmina no sentimento, freqüentemente tinto de angústia, da presença do analista.
Continuação
A todo instante essa experiência consiste em mostrar ao sujeito que ele diz mais do que pensa dizer - para não tomar a questão senão por esse ângulo
Não temos de provocar no sujeito retornos de experiências mais ou menos evanescentes, confusas, em que consistiria toda a magia da Psicanálise. Estamos, pois, plenamente no nosso dever, escutando, a propósito de um texto como esse, as opiniões qualificadas de alguém que é exercitado na crítica da linguagem e formado nas disciplinas filosóficas.
Deixarei essas questões em aberto, para ir direto a um pequeno exemplo que vou tentar colocar no espírito de vocês, antes de colocá-lo no quadro-negro, porque não há nada mais perigoso do que as coisas no quadro-negro - é sempre um pouco sem graça.
Trata-se de um experimento clássico, que se fazia no tempo em que a Física era divertida, no tempo da verdadeira Física.
Também nós, nós estamos, no momento em que se trata verdadeiramente da Psicanálise. Quanto mais próximos estamos da Psicanálise divertida, mais se trata da verdadeira Psicanálise.
Como os seus olhos devem se deslocar linearmente no mesmo plano, vocês terão uma impressão de realidade, sem deixarem de sentir que alguma coisa é estranha, borrada, porque os raios não se cruzam muito bem. Quanto mais longe vocês estiverem, mais a paralaxe agirá, e mais a ilusão será completa.
Essa vista da forma total do corpo humano dá ao sujeito um domínio imaginário do seu corpo, prematuro em relação ao domínio real. Essa formação é destacada do processo mesmo da maturação e não se confunde com ele. O sujeito antecipa-se ao acabamento do domínio psicológico, e essa antecipação dará seu estilo a todo exercício posterior do domínio motor efetivo.
É a aventura original através da qual, pela primeira vez, o homem passa pela experiência de que se vê, se reflete e se concebe como outro que não ele mesmo - dimensão essencial do humano, que estrutura toda a sua vida de fantasia.
Essa criança não tem o desejo de se fazer compreender, não procura se comunicar, as suas únicas atividades mais ou menos lúdicas são emitir sons e comprazer-se nos sons sem significação, nos barulhos.
É que não há em Melanie Klein nem teoria do imaginário, nem teoria do ego. Cabe a nós introduzir essas noções, e compreender que, na medida em que uma parte da realidade é imaginada, a outra é real, e inversamente, na medida em que uma é realidade, é a outra que se torna imaginária. Apreende-se aí por que, no início, a conjunção das diferentes partes, dos sets, nunca pode ser acabada.
Estamos aqui na relação em espelho.
Chamamos a isso plano de projeção. Mas como indicar o correlato da projeção? Seria preciso encontrar uma outra palavra que não introjection. Tal como nos servimos dela em análise, a palavra introjeção não é o contrário da projeção. Praticamente só é empregada, como vocês o · observarão, no momento em que se trata de introjeção simbólica. Acompanha-se sempre de uma denominação simbólica. A introjeção é sempre introjeção da palavra do outro, o que introduz uma dimensão muito diferente da de projeção. É em torno dessa distinção que vocês podem fazer a separação entre o que é função do ego e é da ordem do registro dual, e o que é função do supereu. Não é por nada que se distinguem na teoria analítica, nem que se admite que o supereu, o supereu autêntico, é uma introjeção secundária em relação à função do ego ideal.
de objetos marcados por ti m valor de Gestalt no seu Umwelt, de objetos isolados nas suas formas.
Melanie Klein sublinha a pobreza do mundo imaginário, e, no mesmo lance, a impossibilidade para essa criança de entrar numa relação efetiva com os objetos enquanto estruturas.
Não são a mesma coisa, a linguagem e a palavra - essa criança é, até certo nível, mestre da linguagem, mas ela não fala. É um sujeito que está aí e que, literalmente, não responde.
A palavra não chegou a ele. A linguagem não envolveu o seu sistema imaginário, cujo registro é excessivamente curto - valorização dos trens, dos botões das portas, do lugar negro.
Suas faculdades, não de comunicação, mas de expressão, estão limitadas a isso. Para ele, o real e o imaginário são equivalentes.
Eis um caso onde é absolutamente manifesto. Não há nenhuma espécie de inconsciente no sujeito. É o discurso de Melanie Klein que enxerta brutalmente sobre a inércia eu-óica inicial da criança as primeiras simbolizações da situação edipiana.
No caso dramático, nesse sujeito que não acedeu à realidade humana porque não faz ouvir nenhum apelo; quais são os efeitos das simbolizações introduzidas pela terapeuta? Elas determinam uma posição inicial a partir da qual o sujeito pode fazer agir o imaginário e o real e conquistar o seu desenvolvimento. Ele se precipita numa série de equivalências, num sistema em que os objetos se substituem uns aos outros. Percorre toda uma sequência de equações que o fazem passar do intervalo entre os dois batentes da porta em que ia se refugiar como no escuro absoluto do continente total, a objetos que ele lhe substitui - a bacia
d’água, por exemplo. Ele desdobra e articula assim todo o seu mundo. E, depois da bacia d’água,·· passa a um radiador elétrico, a objetos mais e mais elaborados. Acede a conteúdos cada vez mais ricos, como à possibilidade de definir o conteúdo e o não conteúdo.
É verdadeiramente a chave - uma chave muito reduzida.
Já lhes indiquei que havia, muito provavelmente, todo um molho de chaves. Talvez lhes faça um dia uma conferência sobre o que nos dá, a esse respeito, o mito dos primitivos - não direi os menores primitivos, porque não são menores, sabem muito mais que nós.
Melanie Klein - ela nos diz, por exemplo, que, no interior do império do corpo materno, o sujeito ali está com todos os seus irmãos, sem contar o pênis do pai etc.
É mesmo? Não importa.
Perguntem-se o que representa o apelo no campo da palavra. Pois bem, é a possibilidade da recusa. Eu digo a possibilidade. O apelo não implica a recusa, ele não implica nenhuma dicotomia, nenhuma bipartição. Mas vocês podem constatar que é no momento em que se produz o apelo, que se estabelecem no sujeito as relações de dependência. Ele acolherá a partir de então a sua babá com os braços abertos e, indo se esconder atrás da porta, de propósito, manifestará, de repente, em relação a Melanie Klein, a necessidade de ter um companheiro nesse canto reduzido que foi ocupar por um momento. A dependência virá em seguida.
A partir do caso de Dick e utilizando as categorias do real, do simbólico e do imaginário, mostrei-lhes que pode acontecer que um sujeito que dispõe de todos os elementos da linguagem, e que tem a possibilidade de fazer certo número de deslocamentos imaginário que lhe permitem estruturar o seu mundo, não esteja no real. Porque não está ? - unicamente porque as coisas não vieram numa certa ordem. A figura no seu conjunto está perturbada. Não há meio de dar a esse conjunto o menor desenvolvimento.
Vocês puderam familiarizar-se, através do nosso diálogo, com a ambição que preside ao nosso comentário, a de repensar os textos fundamentais da experiência analítica.
Esse domínio central da experiência analítica, nós o reencontramos indicado em todo lugar na obra de Freud, nunca nomeado, mas indicado em todos os seus passos. Não acredito estar forçando nada quando digo que é o que se pode imediatamente traduzir de um texto freudiano qualquer, quase algebricamente. E essa tradução dá a solução de inúmeras antinomias que se manifestam em Freud com essa honestidade que faz com que um texto dele não seja nunca fechado, como se todo o sistema estivesse lá.
O paciente que sofre de histeria ou de neurose obsessiva abandonou, como o psicótico, e até onde for a influência da sua doença, sua relação à realidade, mas a análise mostra que não rompeu de maneira alguma, por isto, todas as suas relações eróticas com as pessoas e as coisas, ele as sustenta, mantém, conserva ainda na fantasia. Por um lado, substituiu, aos objetos reais , objetos imaginários fundados nas suas lembranças, ou misturou os dois enquanto, por outro lado, parou de dirigir suas atividades motoras para o acesso dos seus fins em conexão com os objetos reais. Unicamente a essa condição da libido que podemos legitimamente aplicar o termo introjeção da libido, que Jung usa de maneira não discriminada. 2 diferente com o parafrênico. Parece realmente ter retirado a sua libido das pessoas e da s coisa s do mundo exterior, sem as substituir por outras fantasias. Isso significa que ele recriou esse mundo imaginativo. a processo parece um pro cesso secundário e faz parte do seu esforço em direção à recons trução que tem por fit�alidade dirigir de novo a libido para 11m objeto.
Caso Roberto
Desde essa época até a idade de três anos e nove meses, esta criança sofreu vinte e cinco mudanças de residência , passando por instituições de crianças ou hospitais, sem nunca ter vivido num ambiente familiar propriamente dito
Do ponto de vista do comportamento, era hiperativo, o tempo todo agitado por movimentos bruscos e desordenados, sem finalidade. Atividade de preensão incoerente - ele jogava o braço para a frente a fim de pegar um objeto e, se não o atingisse, não podia retificar e devia recomeçar o movimento desde o início. Perturbações variadas do sono. Sobre esse fundo permanente, tinha crises de agitação convulsiva, sem convulsões verdadeiras, com enrubescimento da face, berros dilacerantes, por ocasião de cenas rotineiras da sua vida - o penico, e sobretudo o esvaziamento do penico, o despir-se, a comida, as portas abertas que não podia suportar, não mais do que o escuro, os gritos das outras crianças e, como veremos, as mudanças de quarto.
Uma noite, após a hora de deitar, em pé na cama , com tesouras de plástico, tentou cortar o seu pênis diante das outras crianças terrificadas.
É preciso lembrar aqui da sua história - as mudanças de lugar, de quartos, eram para ele uma destruição, porque tinha mudado sem parar tanto de lugar como de adultos. Tinha-se tornado para ele um verdadeiro princípio de destruição, que havia marcado intensamente as manifestações primordiais da sua vida de digestão e de excreção
Sua confusão era grande entre ele próprio, os conteúdos do seu corpo, os objetos, as crianças, os adultos que o cercavàm.
Foi preciso que pegasse o menor pedacinho de areia, como se fosse um pedaço dele mesmo, e berrava: -O lobo . O lobo .
Roberto se representava assim, ele era O lobo . É a st t a própria imagem que ele golpeia ou evoca com tanta tensão. Esse penico em que colocou o que entra nele e o que sai, o xixi e o cocô, depois uma imagem humana, a boneca, depois os fragmentos da mamadeira, era verdadeiramente um a imagem dele mesmo, semelhante à do lobo, como o testemunhou o pânico quando um pouco de areia tinha caído no chão. Sucess i vamente, e, ao mesmo tempo, ele é todos os elemetttos que colocou no penico. Era apeJ U Js a série de objetos pelos quais entrava em contato com a vida cotidiana, símbolos dos conteúdos do sett próprio corpo. A areia é o símbolo das fezes, a água o da urina, o leite o daqu�1o que e11tra 110 seu corpo. Mas a cena do penico mostra que ele diferenci a va muito pouco tudo isso. Par a ele, todos os conteúdos
estão unidos 110 mesmo sentimento de destruição permanente do seu corpo, que, por oposição a esses conteúdos, representa o continente, e que ele simbolizou pela mamadeira quebrada, cujos pedaços foram enfiados nesses conteúdos destrutivos.
Reencontrava aqui essa imagem confusa que tinha de si nzesnw. Esva: : : iml ( l esse xixi, e tentava recuperá-lo, persuadido de que era ele que se iria. Berrava: -O lobo ., e o penico só podi a ter realidade pa.ra ele, quando cheio. Toda a minha atitude con sistil� e1n lhe mostrar a realidade do penico, que ficava, após ter sido esvaziado do seu xixi, como ele, Roberto, ficava, após ter feito xixi, como a torneira não era arrastada pela água que corre.
Soube-se então que no serviço O.R.L. en’ que ele fora ope r a do, não hat•ia sido at1estesiado, e que durante essa oprração do lorosa, se mantinha à força 11a sua boca uma mamadeira de água açucarada.
Esse episódio traumático esclareceu a imagem que Roberto tinha construído de uma mãe esfomeadora, paranóica, perigosa , que certamente o atacava. Depois a separação, uma mamadeira é mantida à força, fazendo-o engolir os seus gritos. As alimentações por sonda, vinte e cinco mudanças sucessivas. Tive a impressão de que o drama de Roberto era que todas as suas fantasias orais-
sádicas tinham-se realizado nas suas condições de existência . Suas fantasias tinham-se tornado realidade.
-Nas histórias infantis se diz sempre que o lobo vai comer. No estádio sádico-oral, a criança tem vontade de comrr a sua mãe, e pensa que a sua mãe vai comê-lo. Sua mãe se tor11a o lobo.
O supereu é constrangedor e o ideal do eu exaltante.
o supereu se situa essencialmente no plano simbólico da palavra, à diferença do ideal do eu.
O supereu é um imperativo. Como indicam o bom senso e -o uso que se faz dele, é coerente com o registro e com a noção da lei, quer dizer, com o conjunto do sistema da linguagem, na medida em que define a situação do homem enquanto tal, quer dizer, enquanto não é somente indivíduo biológico. Por outro lado, é preciso acentuar também, e ao contrário, o seu caráter insensato, cego, de puro imperativo, de simples tirania. Em que direção po demos nós fazer a síntese dessas noções?
O si l pereu tem uma relação com a lei, e ao mesmo tempo, é uma lei insensata, que chega até a ser o desconhecimento da lei.
É sempre assim que vemos agir o supereu no neurótico. Não será porque a moral do neurótico é uma moral insensata, destrutiva, puramente oprimente, quase sempre antilegal, que foi preciso elaborar na análise a função do supereu?
O supereu é, a um só tempo, a lei e a sua destruição. Nisso, ele é a palavra mesma, o comando da lei, na medida em que dela não resta mais do que a raiz. A lei se reduz inteiramente a alguma coisa que não se pode nem mesmo exprimir, como o Tu deves, que é uma palavra privada de todos os seus sentidos. É nesse sentido que o supereu acaba por se identificar àquilo que há somente de mais devastador, de mais fascinante, nas experiências primitivas do sujeito. Acaba por se identificar ao que chamo figura feroz, às figuras que podemos ligar aos traumatismos primitivos, sejam eles quais forem, que a criança sofreu.
Um delírio alucinatório, no sentido em que se entende, de uma psicose alucinatória crônica, só tem uma coisa em comum com o que se passa nesse sujeito, é essa dimensão, que foi observada com fineza pela Sra. Lefort, que é o fato de essa criança só viver o real. Se a palavra alucinação significa alguma coisa, é esse sentimento de realidade. Há na alucinação alguma coisa que o paciente assume verdadeiramente como real.
Ele é evidentemente O lobo. na medida em que diz esta palavra. Mas O lobo. é qual quer coisa enquanto pode ser nom: . ada. Vocês vêem aí o estado nodal da palavra. O eu (: aqui completamente caótico, a palavra interrompida. 1Ias é a partir de O lobo. que ela poderá encon trar o seu lugar e se coustruir.
A palavra plena é a que visa, que forma a verdade tal como ela se estabelece no reconhecimento de um pelo outro. A palavra plena é palavra que faz ato. Um dos sujeitos se encontra, depois, outro que não o que era antes. É por isso que essa dimensão não pode ser eludida da experiência analítica.
Não podemos pensar na experiência analítica como um jogo, um engodo, uma manigância ilusória, uma sugestão. Ela coloca em causa a palavra plena. Desde que este ponto foi colocado, vocês puderam se aperceber, muitas coisas se orientam e se esclarecem, mas muitos paradoxos e contradições aparecem. O mérito dessa concepção é justamente o de fazer aparecer esses paradoxos e essas contradições, que nem por isso são opacidades e obscurecimentos. É freqüentemente, ao contrário, o que aparece harmonioso e compreensível que encerra alguma opacidade. E é, inversamente, na antinomia, na hiância, na dificuldade, que encontramos chances de transparência.
Na sua essência, a transferência eficaz de que se trata é simplesmente o ato da palavra. Cada vez que um homem fala a outro de maneira autêntica e plena, há, no sentido próprio, transferência, transferência simbólica - alguma coisa se passa que muda à natureza dos dois seres em presença.
Há várias maneiras de introduzir as noções. A minha tem seus limites, como toda exposição dogmática. Mas sua utilidade é ser crítica, isto é, sobrevir no pónto em que o esforço empírico dos pesquisadores se depara com uma dificuldade a manejar a teoria já existente. É nisso que está o interesse de proceder pela via do comentário de textos.
A libido ganha seu sentido, ao contrário, por se distinguir das relações reais os realizantes, de todas as funções que nada têm a ver com a função do desejo, de tudo que toca as relações do eu e do mundo exterior. Ela nada tem a ver com outros registros instintivos que não o registro sexual, com o que toca por exemplo o domínio da nutrição, da assimilação, da fome, na medida em que serve à conservação do indivíduo. Se a libido não é isolada do conjunto das funções de conservação do indivíduo, perde todo o seu sentido.
Isso lhes dará tempo de cozinhar e de trabalhar um pouco daqui até à próxima vez.
.A Introdução ao Narcisismo data do início da guerra de 1914, e é bastante comovente pensar que é nessa época que Freud prosseguia numa tal elaboração. Tudo que classificamos sob a rubrica metapsicologia desenvolve-se entre 1914 e 1918, sucedendo-se à aparição em 1912 do trabalho de Jung traduzido em francês com o título J.} J ctamorfoscs c Símbolos da Libido.
Jung abordou as doenças mentais sob um ângulo inteiramente diferente do de Freud, porque sua experiência se centrou na gama das esquizofrenias, enquanto a de Freud estava centrada nas neurose.
No que, em suma, está fundada a descoberta freudiana? - senão nessa apreensão fundamental de que os sintomas do neurótico revelam uma forma desviada de satisfação sexual.
Nós não seguimos Freud, o acompanhamos. Que uma noção figure em algum lugar na obra de Freud, nem por isso nos assegura de que a manejamos no espírito da pesquisa freudiana.
De nossa parte, é ao espírito, à palavra de ordem, ao estilo dessa pesquisa que tentamos obedecer.
É, pois, por um esquema óptico que devem ser interpretadas as instâncias.
Mas não substantivemos depressa demais, porque não se trata aqui, vocês o verão melhor em seguida, de uma pura e simples elaboração da teoria do homenzinho-que-está-no-homem. Se eu estivesse refazendo o homenzinho-que-está-no-homem, · não vejo por que o criticaria o tempo todo. E, se eu cedo a isso, é porque há alguma razão para que ceda.
Esse primeiro narcisismo se situa, se vocês quiserem, ao nível da imagem real do meu esquema, na medida em que ela permite organizar o conjunto da realidade num certo número de quadros pré-formados.
O outro tem para o homem valor cativante, pela antecipação que representa a imagem unitária tal como é percebida, seja no espelho, seja em toda realidade do semelhante.
O outro, o alter ego, confunde-se mais ou menos, segundo as etapas da vida, com o Ich-ideal, esse ideal do eu invocado o tempo todo no artigo de Freud. A identificação narcísica - a palavra identificação, indiferenciada, é inutilizável -, a do segundo narcisismo, é a identificação ao outro que, no caso normal, permite ao homem situar com precisão a sua relação imaginária e libidinal ao -mundo em geral.
O objeto amado é, no investimento amoroso, pela captação que ele opera do sujeito, estritamente equivalente ao ideal do eu.
Estamos aqui num seminário, não professamos um ensino ex-cathedra. Procuramos nos orientar, e tirar o máximo de proveito de um texto e sobretudo de um pensamento em desenvolvimento.
O artigo do dito exerceu uma influência decisiva. É como as coisas recalcadas, que têm importância tanto maior na medida em que não as conhecemos. Igualmente, quando um tipo escreve uma bela besteira, não é porque ninguém a leu que seus efeitos não prosseguem. Porque, sem tê-la lido, todo o mundo a repete. Há assim besteiras veiculadas que agem sobre misturas de planos aos quais as pessoas não estão atentas.
Assim, a primeira teoria analítica da constituição do real está impregnada das idéias dominantes da época, que se exprimem em termos mais ou menos míticos, sobre as etapas da evolução do espírito humano. Persevera em todo lugar, em Jung também é m, a idéia de que o espírito humano teria feito nos últimos tempos progressos decisivos, e de que, antes, estávamos ainda numa confusão pré-lógica - como se não estivesse claro que não há nenhuma diferença estrutural entre o pensamento do Sr. Aristóteles e a de alguns outros. Essas idéias trazem consigo o seu poder de desordem e difundem o seu veneno. Isso se vê bem na dificuldade que o próprio Freud demonstra quando se refere ao artigo de Ferenczi.
A doença é o último fundamento do conjunto do impulso criativo. Criando, pude curar. Criando, eu me tornei bem disposto.
Frcud afirmou, pois, a exi s tênci a do eu / ideal, a que chama em seguida o ideal do eu, ou forma do ideal do eu. Diz que, daí a procurar as rel a ções da for m a ção do ideal à sublimação, não há mais q1te 1tm passo. A S1tblim a ção é unJ pro cesso da libido objetai. A idealização, ao contrár i o, concerne ao objeto que é aumentado, elevado, e is so sem modif i cações da suo natureza. A idealização é possível tanto no domínio da libido do e1 1 quanto no da libido objetai.
O ser humano não vê sua forma realizada, total, a miragem de si mesmo, a não ser fora de si.
Aquilo que o sujeito, que existe, vê no espelho, é uma imagem, nítida ou bastante fragmentada, inconsistente, descompletada. Isso depende da sua posição em relação à imagem real. Muito nas bordas, vê-se mal.
Da inclinação do espelho depende, pois, que vocês vejam menos ou mais perfeitamente a imagem. Quanto ao espectador virtual, que vocês, pela ficção do espelho, substituem a vocês mesmos para ver a imagem real, basta que o espelho plano esteja inclinado de um certo modo para que fique no campo em que se vê muito mal. Só por esse fato, vocês também, voçês vêem muito mal a imagem no espelho. Digamos que isso representa a difícil acomodação do imaginário no homem.
Podemos supor agora que a inclinação do espelho plano é comandada pela voz do outro. Isso não existe ao nível do estádio do espelho, mas é em seguida realizado pela noss a relaçãor com outrem no seu conjunto -a relação simbólica.
O que é a ligação simbólica? É, para colocar os pingos nos i’s, que socialmente nós nos definimos por intermédio da lei. É da troca dos símbolos que nós situamos uns em relação aos outros nossos diferentes eus - você é você, Mannoni, e eu, Jacques Lacan, e estamos numa certa relação simbólica, que é complexa.
Segundo os diferentes planos em que nos colocamos, segundo estejamos juntos no comissariado de polícia, juntos nesta sala, juntos em viagem.
Em outros termos, é a relação simbólica que define a posição do sujeito como aquele que vê. É a palavra, a função simbólica que define o maior ou menor grau de perfeição, de completude, de aproximação, do imaginário.
Vocês se vêem no vidro e vêem os objetos além.
Trata-se justamente disto - de uma coincidência entre certas imagens e o real.
Chama-se investimento libidinal aquilo através de que um objeto se torna desejável, quer dizer, aquilo através de que se confunde com essa imagem que levamos em nós, diversamente, e mais ou menos estruturada.
Qual é o meu desejo ? Qual é a minha posição na estrutura imaginária ? Esta posição não é concebível a não ser que um guia se encontre para além do imaginário, ao nível do plano simbólico, da troca legal que só pode se encarnar pela troca verbal entre os seres humanos. Esse guia que comanda o sujeito é o ideal do eu.
O amor é um fenômeno que se passa ao nível do imaginário, e que provoca uma verdadeira subdução do simbólico, uma espécie de anulação, de perturbação da função do ideal do eu. O amor reabre a porta como escreve Freud, que não usa meias medidas -à perfeição.
É isso, o amor. É o seu próprio eu que se ama no amor, o seu próprio eu realizado ao nível imaginário.
A gente se mata ao se colocar este problema - como será que nos neuróticos, que são tão entravados no plano do amor, a transferência pode se produzir ? A produção da transferência tem um caráter absolutamente universal, verdadeiramente automático, enquanto as exigências do amor são, ao contrário, como todos sabem, tão específicas. Não é todos os dias que se encontra o que é feito para dar a justa imagem do seu desejo.
o tema hegeliano fundamental - o desejo do homem é o desejo do outro.
O sujeito localiza e reconhece originalmente o desejo por intermédio não só da sua própria imagem, mas também do corpo do seu semelhante. É exatamente aí, nesse momento, que se isola, no ser humano, a consciência enquanto consciência de si. É na medida em que é no corpo do outro que ele reconhece o seu desejo que a troca se faz. É na medida em que o seu desejo passou para o outro lado, que ele assimila o corpo do outro e se reconhece como corpo.
Continuação 27/01/22
É o Ideal-Ich. O seu desejo, ao contrário, não está constituí do. O que o sujeito encontra no outro é inicialmente uma série de planos ambivalentes, de alienações do seu desejo -de um desejo ainda em pedaços. Tudo que conhecemos da evolução ins-
tintiva nos dá o esquema disso, porque a teoria da libido em Freud é feita da conservação, da composição progressiva de um certo número de pulsões parciais, que conseguem ou não conse guem chegar a um desejo amadurecido.
O corpo como desejo despedaçado se procurando, e o corpo como ideal de si, se reprojetam do lado do sujeito como corpo des pedaçado, enquanto ele vê o outro como corpo perfeito. Para o sujeito, um corpo despedaçado é uma imagem essencialmente des membrável do seu corpo.
Estamos todos de acordo em que o amor é uma forma de suicídio
Ele conjuga esses três termos, e depois, virem-se.
Mas se não tivéssemos de nos virar, não haveria necessidade de estarmos aí. E seria bem infeliz.
Portanto, o sujeito toma consciência do seu desejo no outr o , por intermédio da imagem do outro que lhe dá a fantasia do seu próprio domínio. Assim como é muito freqüente nos nossos racio cínios cientificos reduzirmos o sujeito a um olho, poderíamos tam· IJ ém reduzi-lo a uma pérsonagem instantânea, apreendida na rela ção à imagem antecipada dele mesmo, independentemente de sua evolução. Mas resta o fato de que é um ser humano, de que nasceu num estado de impotência, e que, muito preco cemente, as palavras, a linguagem, lhe serviram de apelo, e de apelo dos mais miseráveis, quando era dos seus gritos que dependia a sua comida.
a função pura da linguagem, que é a de nos assegurar que somos, e nada mais. Que se possa falar. para não dizer nada é tão significativo quanto o fato de que, quando se fala, em geral é para alguma coisa. O que é chocante é que há muitos casos em que se fala quando se poderia calar .. Mas calar-se, então, é justamente o que há de mais cobra.
Por um lado, o inconsciente é, como acabo de defini-lo, alguma coisa de negativo, de idealmente inace�sível. Por outro lado, é algo de quase real.
Enfim, é algo que será realizado no simbólico ou, mais exatamen te, que, graças ao progresso simbólico na análise, terá sido. Eu lhes mostrarei, segundo os textos de Freud, que a noção de inconscien te deve satisfazer esses três termos.
Ler Schreber é apaixonante. Há como fazer sobre isso um tratado completo da paranóia e dar um rico comentário · sobre o mecanismo das psicoses.
Ora, se o eu tem o que dizer na Psicologia humana, ele só pode ser concebido num plano transpsicológico.
ou, como diz Freud literalmente - porque Freud, apesar das di ficuldades que teve com a formulação do eu, nunca perdeu o fio �. metapsicológico.
metapsicológico
há Psicologia quando se trata da observação do que se passa no homem. Como aprende ele a dizê-lo, esse eu?
o eu se constitui inicialmente numa experiência de linguagem, em referência ao tu, e isso, numa relação em que o outro lhe manifesta o quê? - ordens, desejos, que ela deve reconhecer, do seu pai, da sua mãe, dos seus educa dores, ou dos seus pares e camaradas.
Como, aliás, faria ele reconhecer os seus desejos ? Não sa õ e nada sobre eles. Digamos que temos todas as razões para pensar que não sabe nada. É o que nos mostra, a nós, analistas, a nossa experiência do adulto. O adulto, com efeito, tem de procurar seus desejos. Sem o que não teria necessidade de análise. O que nos indica suficientemente que está separado do que se relaciona ao seu eu, a saber, do que pode fazer reconhecer de si mesmo.
O que é a ignorância? É uma noção certamente dialética, porque é somente na perspectiva da verdade que ela se constitui como tal. Se o sujeito não se coloca em referência com a verdade, não há ignorância. Se o sujeito não começa a se colocar a questão de saber o · que é e o que não é, não há razão para que haja um verdadeiro e um falso, nem mesmo, para além, a realidade e a aparência.
no-lo
Desconhecimento não é ignorância. O desconhecimento repre senta uma certa organização de afirmações e de negações, a que o sujeito está ligado. Não se conceberia, pois, sem um conheci mento correlativo. Se o sujeito pode desconhecer alguma coisa, é preciso que saiba em torno de que operou essa função. É preciso que haja atrás do seu desconhecimento um certo conhecimento do que há a desconhecer.
Está, ainda assim, muito longe do nosso pensamento real -desde que pensemos. Graças a Deus, não pensamos, é o que nos desculpa. Eis aí o grande erro de sempre - imaginar que os seres pensam o que dizem.
·
No momento em que desaparece, o estádio do espelho apresenta uma analogia com esse momento de báscula que se produz em certos momentos do desenvolvimento psíquico. Po demos constatá-lo nesses fenômenos de transitivismo em que se vê equivalerem-se, para a criança, sua ação e a do outro. Ele diz -Francisco me bateu, quando é ele que bateu em Francisco. Há aí um espelho instável entre a criança e o seu semelhante. Como explicar esses fenômenos?
n num movimento de bá scula, de troca com o outro que o homem se apreende co m o corpo, forma vazia do corpo. Da mesma forma, tudo o que está então nele no estado de puro desejo, desejo originário, inconstituído e confuso, o que se exprime no vagido da criança - é invertido no outro que ele aprenderá a reconhecê lo. Aprenderá, porque não aprendeu ainda, enquanto não coloca mos em jogo a comunicação.
Antes que ·o desejo aprenda a se reconhecer - digamos agora a palavra - pelo símbolo, ele só é visto no outro.
O desejo do sujeito só pode, nessa relação, se confinnar através de uma concorrência,· de uma rivalidade absoluta com o outro, quanto ao objeto para o qual tende. E cada vez que nos aproximamos. num sujeito, dessa alienação primordial, se en gendra a mais radical agressividade - o desejo do desaparecimen to do outro enquanto suporte do desejo do sujeito.
Não experimentava nenhum sentimento de .: ulpabilidade -Eu quebrar cabeça Francis. Ela o formulava com segurança e tranqüilidade. Nem por isso lhe prometo um futuro de criminosa. Manifestava somente a estrutura mais fundamental do ser humano no plano imaginário - destruir aquele que é a .s ed e da alienação.
Que a criat1ça se enderece agora a um parceiro imaginário oít real, ela o verá obedecer igualmente à t1egativ i dadc do seu dis curso e seu apelo -porque não esq�eçam que, quando diz Fort, é que o objeto está lá, e que quando diz Da o objeto está ausente -e o seu apelo tendo por efeito fazê-lo se furtar, ela procurará numa afirmação banidora -aprenderá muito cedo a força da recusa -a provocação da volta que leva de novo seu objeto a esse desejo.
Compreende-se por aí a técnica analítica. Soltam-se nela, com efeito, todas as amarras da relação falada, rompe-se a relação de cortesia, de respeito, de obediência ao outro. Associação livre, este termo define muito mal o de que se trata - são as amarras da conversa com o outro que procuramos cortar. A partir de então, o sujeito encontra-se numa certa mobilidade em relação a esse universo da linguagem no qual o engajamos. Enquanto acomoda seu desejo em presença do outro, produz-se no plano imaginário essa oscilação do espelho que permite, a coisas imaginárias e reais que não têm o hábito de coexistir para o sujeito, reencontrarem-se numa certa simultaneidade,· ou em certos contrastes.
A fórmula o desejo do homem é o desejo do outro deve ser, como todas as fórmulas, manejada no seu lugar. Não é válida num único sentido.
Há aí entre os seres humanos uma relação destrutiva e mor tal. Está aliás sempre aí, subjacente. O mito político do struggle for life pôde servir para inserir muitas coisas. Se o Sr. Darwin o forjou, é que ele fazia parte de uma nação de corsários, para quem o racismo era a indústria fundamental.
Na verdade, essa tese de sobrevivência das espécies mais fortes, tudo vai contra ela. É um mito que vai ao contrário das coisas. Tudo prova que há · pontos de constância e de equilíbrio próprios a cada espécie, e que as espécies vivem numa forma de coordenação, mesmo de comedores a comidos.
A estreita intercoaptação que existe no plano da vida não se faz na luta até à morte.
É no outro, pelo outro, que o dese jo é nomeado. Entra na relação simbólica do cu e do tzt, numa relação de reconhecimento recíproco c de transcendência, na ordem de uma lei já inteiramente pronta para incluir a história de cada indivíduo.
Começa a brin car com o objeto, mais exatamente, com o simples fato da sua pre sença e da sua ausência. É, pois, um objeto transformado, um objeto de função simbólica, um objeto desvitalizado, que já é um signo. É quando o objeto está lá que ela o manda embora, e quando não está lá que o chama. Por esses primeiros jogos, o objeto pass a como que naturalmente para o plano da linguagem.
O símbolo emerge, e tor n a-se mais importante que o objeto.
A palavra é essa roda de moinho por onde incessantemente o desejo humano se mediatiza, entrando no sistema da linguagem.
Coloco o registro da ordem simbólica em valor porque não deveríamos nunca perder a referência, quando ela é a mais esquecida e nos afastamos dela na análise. Porque, em suma, do que falamos nós de hábito? Aquilo de que falamos sem cessar, de maneira freqüentemente confusa, apenas articulada, são relações imaginárias do sujeito à construção do seu eu. Falamos sem ces sar dos perigos, dos choques, das crises que o sujeito experimenta ao nível da construção do seu eu.
No interior dessa relação, trata-se inicialmente de desfazer as amarràs da palavra. No seu modo de falar, seu estilo, sua maneira de se endereçar ao seu alocutor, o sujeito é liberado dos laços, não somente da polidez, da cortesia, mas mesmo da coerência. Desfaz se um certo número de amarras da palavra. Se considerarmos que há um laço estreito, perm a nente, entre a maneira pela qual um sujeito se exprime, se .faz réconhecer, e a dinâmica efetiva, vivida, das suas relações de desejo, devemos ver que só isso introduz na relação de espelho ao outro uma certa desinserção, uma flutu1 1 ção, uma possibilidade de oscilações.
Para o sujeito, a desinserção da sua relação ao outro faz· variar, espelhar, oscilar, completa e descompleta a imagem do seu eu. Trata-se de que ele o perceba na sua completude, à qual nun ca teve acesso, a fim de que possa reconhecer todas as etapas .;l o seu desejo, todos os objetos que vieram trazer a essa imagem sua consistência, sua alimentação, sua encarnação. Trata..: se de que o sujeito constitua, por retomadas e identificações sucessivas, a história do seu eu.
Como dirige Freud sua intervenção? Ab o rda Dora no plano do que ele próprio chama resistência. O que quer dizer isso? Eu já o expliquei a vocês. Freud faz intervir, é absolutamente mani festo, seu ego, a concepção que ele tem daquilo para que é feita uma menina - uma menina é feita para amar os meninos. Se há algo que não vai, que a atormenta, que está recalcado, só pode ser, aos olhos de Freud, isto - ela ama o Sr. K. E ela ama talvez um pouco Freud na mesma ocasião. Quando se entra nessa linha, é inteiramente evidente.
Simplesmente, fala a ela do Sr. K. O que quer dizer? - senão que lhe fala no nível da experiência dos outros. É a esse nível que o sujeito tem de reco nhecer e fazer reconhecer os seus desejos.
enquanto Dora ainda está nesse estado, em que, se é que posso dizer, aprendeu a não compreender nada,
Freud está aí, dizendo a Dora -A senhora ama o Sr. K.
Acontece que, além disso, o diz de forma bastante desajeitada para que Dora cesse imediatamente. Se naquele momento tivesse sido iniciado no que se chama análise das resistências, teria feito com que ela o degustasse por bocadinhos, teria começado a lhe ensinar que tal e tal coisa eram nela uma defesa, e, à força, ter-lhe-ia reti rado, com efeito, toda uma série de pequenas defesas. Teria assim exer : cido, para falar propriamente, uma ação sugestiva, quer dizer, terit introduzido no seu ego um elemento, uma motivação suple mentar.
É no momento em que o desejo está em O’ que Freud deve nomeá-lo, porque, naquele momento, ele pode se realizar. Se a intervenção é suficientemente repetida e completa, a V er liebtheit, que é desconhecida, quebrada, continuamente refratada como uma imagem na água que não se consegue pegar, pode realizar�se.
Nesse ponto, Dora poderia reconhecer seu desejo, o objeto do seu amor, como sendo efetivamente a Sr.a K.
Se Freud tivesse . intervindo, permitindo ao sujeito nomear seu desejo - porque não era necessário que ele próprio o nomeas-
se para ele
é unicamente a partir do sentido da análise que se pode enunciar uma regra técnica. ·
recolocar cem vezes nosso trabalho no tcar,14 para que certos progressos, franqueamentos subjetivos, sejam rea lizados.
Naquele momento, o desejo é, pelo sujeito, sentido - não pode sê-lo sem a conjunção da palavra. E é um momento de pura angústia, e nada mais. O desejo emerge numa confrontação com a imagem. Quando essa imagem, que tinha sido descompletada, . se t: ompleta, quando a face imaginária que estava não�integrada, reprimida, recalcada, surge, então a angústia aparece. :a o ponto fecundo.
O que quer dizer ? - senão que é o momento em que o ima ginário e o real da situação analítica se confundem. :a o que estou lhes explicando. O desejo do sujeito está ali, na situação, ao mesmo tempo presente e inexprimível. .Nomeá-lo, no dizer de Strachey, é ao que deve se limitar a intervenç�o do analista. :a o
único ponto em que a sua palavra tenha de se acrescentar à que fomenta o paciente durante o seu longo monólogo, moinho de palavras, cujo movimento das flechas sobre o esquema justifica ria suficientemente bem a metáfora
tergo
É isso que Freud nos explica ao nos contar toda a história do sujeito, tal como ela se depreende então das suas declarações, entre o momen to original x e esta idade de 4 anos, em que ele situa o recalque.
O recalque só ocorreu na medida em que os eventos dos anos precoces do sujeito são historicamente muito movimenta dos. Não posso lhes contar toda a história - sua sedução pela irmã mais velha, mais viril do ’ que ele, objeto também de rivalida-
de e de identificação -, seu recuo e sua recusa diante dessa sedu ção, de que, nessa idade precoce, não tem nem os móveis, nem os elementos, - depois, sua tentativa de aproximação e de sedução ativa da governanta, a famosa Nania, sedução normativamente dirigida no sentido de uma evolução genital primária edipiana, mas entrada falsificada pela primeira sedução cativante da irmã.
Do terreno em que ele se engaja, o sujeito é, pois, empurrado para posições sadomasoquistas, de que Freud nos dá o registro e todos os elementos.
Por outro lado, o que é que se passa durante esse período, entre três anos, um mês e quatro anos? - senão que o sujeito aprende a integrar os eventos de sua vida numa lei, num campo de significações simbólicas, num campo humano universalizante de significaÇões. É por isso que, pelo menos nessa data, essa tl eu rose infantil é exatamente a mesma coisa que uma Psicanálise.
Desempenha o mesmo papel que uma Psicanálise, a saber, realiza a reintegração do passado, e coloca em função no jogo dos sím bolos a própria Pri i g11ng, que ali só é atingida no limite, por um jogo retroativo, 11achtri i glich, escreve Freud
O trauma, enquanto tem ação recalcante, intervém só depois.
tJachtri i glich. Naquele momento, a)go se destaca do sujeito no pró prio mundo simbólico que ele começa a integrar. Daí por diante, aquilo não será mais algo do sujeito. O sujeito não o falará mais, não o integ l -ará mais. Não obstante, ficará lá, em alguma parte, falado, se é que se pode dizer, por algo de que o sujeito não tem o controle. Será o primeiro núcleo do que chamaremos, em segui da, os seu sintomas.
Sim, sem volta do recalcado. A integração na história com porta evidentemente o esquecimento de um mundo inteiro de som bras que não são levadas à existência simbólica. E se essa exis tência simbólic a é bem sucedida e plenamente assumida pelo sujeito, não deixa nenhum peso atrás dela.
O fato fundamental que nos traz a análise, e que estou lhes ensinando, é que o ego é uma função imaginária. Se nos cegamos para esse fato, caímos nessa via em que, nos dias de hoje, to d a análise ou quase, se engaja no mesmo passo.
Se o ego é uma função imaginária, não se confunde com o sujeito. O que é que chamamos um sujeito? Muito precisamente o que, no desenvolvimento da objetivação, está fora do objeto
Bem, a dimensão do sujeito que fala, do sujeito que fala enquanto enganador, é o que Freud descobre para nós no incons - c iente.
O eu é destituído da sua posição absoluta no sujeito. O eu assume estatuto de miragem, como o resto, não é mais do que um elemento das relações objetais do sujeito.
Há uma função absolutamente es s encial l. O pro c esso de in tegração simbólica da su a história pelo sujeito, uma função em relação à qual, todo o mundo o observou há muito temp o , o.
analista oc upa uma posição significativa. A ess a função cham a mos o supereu.
O supereu é uma cisão análoga, que se produz no sis tema simbólico integrado. pelo sujeito. Esse mundo simbólico não é limitado ao sujeito, porque se realiza numa língua que é a língúa comum, o sistema simbólico universal, na medida em que esta belece o seu império sobre uma certa comunidade à qual pertence o sujeito. O supereu é essa cisão enquanto se produz para o su jeito - mas não somente para ele - nas suas relações .com o que chamaremos a lei.
No progresso da análise, como lhes mostrei, é na aproxima ção dos elementos traumáticos - fundados numa imagem que nunca foi integrada - que se produzem os buracos, os pontos de fratura, na unificação, na síntese, da história do sujeito. Indiquei lhes que é a partir desses buracos que o sujeito pode se reagrupar
nas diferentes determinações simbólicas que fazem dele um su jeito que tem uma história. Bem, igualmente para todo ser huma no, é na relação à lei à qual ele se liga que se situa tudo o que lhe pode acontecer de pessoal. Sua história é unificada pela lei, pelo seu universo simbólico, que não é o mesmo para todos.
O fato de que a estmtura do complexo de J. dipo seja sempre exi gível, nem por isso nos dispensa de nos apercebermos de que outras estruturas do mesmo nível, do plano da lei, podem desem penhar, num caso determinado, um papel igualmente decisivo. 1. o que encontramos neste último caso clínico
. muito bonito dizer que teoria e técnica são a mesma coisa.
O caráter controla as relações do homem aos seus objetos.
O caráter significa sempre uma limitação mais ou menos extensiva das possibilidades de amor e de ódio. Portanto, o caráter signifi c a limitação da capacidade for ·love and enjoyment, para o amor e para a alegria. A dimensão da alegria, que vai muito longe, ul trapassa a categoria do gozo de um modo que seria preciso des tacar. A alegria comporta uma plenitude subjetiva que mereceria desenvolvimento.
Assinalo de passagem que -Ferenczi, no curso de sua vida� mt l dou muitas vezes de posição. Voltou atrás sobre certas tenta tivas suas, declarand( ) que a experiência as tinha mostrado exces sivas, pouco frutífer a s, e mesmo nocivas.
Para a criança, tudo que é bom para ela, vindo da mãe, é natural. Nada implica a autonomia desse parceiro, nada implica que seja um outro sujeito. A necessidade exige. E tudo, na re-, .ação de objeto, se orienta de si para a satisfação da necessidade .
quando não se tem mais nada a dar, então toma-se.
A absorção faz parte das relações in teranimais. das relações de objeto. Em tempo normal, a ·criança se nutre de sua mãe, absorve-a na medida em que pode. A recí proca é verdadeira. Quando a mãe não pode fazer outra coisa, ela a enfia no bucho.
teoria kleiniana, a saber, a idéia dos elementos traumáticos primeiros, ligados à noção de bom e de mau objeto, de projeções e de introjeções primitivas.
É demais. Isso quer dizer que ele é forçado a fundar no primary lovc uma dimensão original do estado genital que com por t a essa relação tão complexa a outrem pela qnal a copulação se torna amor. Ora, ele passou o tempo até então a definir o pr i mary /ope como uma relação objetai fechada soure si mesma, sem intersubjetividade. Eis que, chegado ao genital, ele gostaria de fazer surgir desse mesmo primary love algo de que compor a rela Iação intersubjetiva. É isso, a contradição· da sua doutrina.
Se a análise fez uma descoberta positiva sobre o desenvol vimento libidinal, é que a criança é um perverso, e mesmo um perverso polimorfo.
Uma ,coisa é certa - a relação sádica só se sustenta na me dida em que o outro está no justo limite em que continua ainda sendo um sujeito. Se não é mais nada além de uma carne que reage, forma de molusco cujos bordos a gente titila e que palpita, não há mais relação sádica. O sujeito sádico parará aí, reencon trando de repente, vazio, hiância, oco. A relação sádica implica, com efeito, que o consentimento do parceiro seja aprisionado -sua lib e rdade, sua confissão, sua humilhação.
a maior parte das manifestações sádicas, em vez de serem levadas até o extremo, permanecem antes na porta da execução? - jo gando com a espera, o medo do outro, a pressão, a ameaça, obser vando as formas mais ou menos secretas da participação do par ceiro.
A partir do momento em que esse olhar existe, já sou algo de difet : ente, pelo fato de que me sinto eu mesmo tornar-me um objeto pará o olhar de outrem. Mas, nessa posição, que é recíproca, outrem também sa be que sou um objeto que se sabe ser visto.
Toda a fenomenologia da vergonha, do pudor, do prestígio, do medo particular engenqra�o pelo olhar, está ali admiravelmente descrita, e eu os aconselho a se reportar a isso na obra de Sartrc.
É uma leitura essencial para �m analista, sobretudo r10 ponto em que a análise chegou, a esquecer a intersubjetividade até na ex periência perversa, entretanto tecida no interior de um registro em que vocês devem reconhecer o plano do imaginário.
Tentei há pouco fazê-los apreendê-la nesse duplo olhar que faz com que eu veja que o outro me vê, e que um terceiro inter vindo me vê sendo visto. Não há nunca uma simples dupliciqade de termo. Não é somente que eu vejo o outro·, eu o vejo me ver, o que implica o terceiro termo, a saber, que ele sabe que eu o vejo.
O círculo está fechado. Há sempre três termos na estrutura, me.smo se esses três termos não estão explicitamente presentes.
Conhecemos. no adulto a riqueza sensível da perversão. A perversão é, em suma,, a exploração privilegiada de uma pos sibilidade existe11cial da natureza humana - seu dilaceramen to interno, sua hiância, por onde pôde entrar o mundo suprana tural do simbólico.
O que é a perversão ? Ela não é simplesmente aberração em relação a critérios sociais, anomalia contrária aos bons costumes, se bem que esse registro não esteja ausente, ou atipia em relação a critérios naturais, isto é, que ela derroga mais ou menos a fina lidade reprodutora da conjunção sexual. Ela é outra coisa na sua estrutura mesma.
Não é por nada que se disse de certo número de tendências perversas que são de um desejo que não ousa dizer seu nome. A perversão situa-se com efeito no limite do registro do reconheci mento e é isso que a fixa, a estigmatiza como tal.
Na história do suje i to, ou antes no seu desenvolvimento, aparecem certos momentos fecundos, temporalizados, em que se revelam os diferentes estilos de frustração. São os ocós, as falhas, as hiâncias aparecidas no desenvolvimento que definem esses momentos fecundos.
Então, o que é que funda ess a relação? Não o fato de que aquele que se confessa vencido peça mercê e grite, é que o senhor se tenha enga jado nessa luta por razões de puro prestígio, e que tenha arris cado sua vida. Esse risco estabelece a sua superioridade, e é em nome disso, não da sua força,. que é reconhecido como senhor pel(l escravo.
Essa situação começa por um impasse, porque o seu re c onhe cimento pelo escravo não vale nada para o senhor, já que é apenas
um escravo que o reconhece, quer dizer, alguém que ele não reco· nbcce como um homem.
Uma lei se impõe ao escra vo, que é a de satisfazer o desejo e o gozo do outro. Não basta que ele peça mercê, é preciso que· vá ao trabalho. E quando se vai ao trabalho, há regras, . horas -entramos no domínio do sim bólico.
A morte· não é nunca experi· mentada como tal, ela não é nunca real, não é? O homem nunca tem medo a não ser medo imaginário. Mas não é tudo. No mito hegeliano, a morte não é nem mesmo estruturada como temor, ê estruturada como risco, e, para dizer logo tudo, como aposta. � que há, desde a origem, entre o senhor e o escravo, uma regra do jogo.
Em toda a análise ela relação intersubjetiva, o essencial não é o que está ali, o .‘) Ue é visto. O que a estrutura, é o que não está ali.
Sartre não percebe que o campo intersubjetivo não pode deixar de desembocar numa estruturação numérica, no três, no quatro, que são as nossas refe. ; rências na experiência analítica.
O símbolo só vale se se organiza num mundo de símbolos.
No uso de certos povos, e vocês não teriam necessidade de procurar longe para encontrar o uso comum, há frases, expressões que não são decomponíveis, e que se reponam a uma situação tomada no seu conjunto - são as holófrases.
·Acredita-se apreender ali um ponto de junção entre o ·animal que passa sem estruturar as situações, e o homem, que habita um mundo simbólico.
s.ituação de duas pessoa s , cad a uma olhando a outra, esperando cada um a da outra que ela se vá oferecer a fazer alguma coisa que as dua s partes desejam, mas nã o çstão dispostas a fazer.
A resistência define-se-a, muito bem aliás, relacionando-a ao fenômeno da linguagem - é tudo o que freia, altera, retarda o débito, ou então o interrompe completamente
s observações de Balint não têm nada de errado . em si mesmas, simplesmente a via é tomada no sentido transversal -ao invés de sê-lo no sentido em que ela deve avançar, o é no sen tido em que tudo pára.
Um senhor vai vê-lo. Está no limiar da análise - nós conhecemos be i n essa situação - e ele não se decide. Foi ver vários analistas
o nosso Balint - cujas posições teóricas, por outro lado, es tou difamando, e só Deus sabe que o faço lamentando
que eu nãÔ compreenda, isso deve ter um sentido.
1 curioso, você me conta uma porção de coisas mtJito interessantes, mas eu devo lhe dizer que, da sua história, não compreendo nada
. :1 1 a palavra que instaura na realidade a mentira. E é pre c is a -mente porque introduz o que não é, que pode tamb é m introduzir o que é. Antes da palavra, nada é, nem não é. Tudo já está aí, sem dúvida, mas é somente com a palavra , que há coisas que são -que são verdadeiras ou falsas, quer dizer, que são -e cois a s que não são. É com a dimensão da palavra que se cava no real a ver dade. Não há nem verdadeiro nem falso antes da palavra.
Para não ser eng a jado, situado no mundo dos adultos, em que s: mpr� se está · mais o� .menos reduzido à escravidão, ela fala para nao d1zer nada e mob1ha as, sessões com vento.
lá onde o isso estava, o eu deve estar
Contingência e essência Homem, tor n a-te essencial: porque, quando o mundo passa, a contingência se perde e o essencial subsiste.
t. disso mesmo que se trata, ao termo da análise, de um cre púsculo, de um declínio imaginário do mundo, e até de uma expe riência no limite da derpersonalização. 2 então que o contingente cai -o acidental, o traumatismo, os obstáculos da história -E é o ser que vem então a se constituir.
Alexander fez um grande artigo, de que poderemos ta lvez falar um dia, que se chama Logic of Emotions, com o que ete está sem nenhuma dúvida no coração da teoria analítica.
as diversas maneiras de negar Eu o amo - Não sot’ eu que o amo - Não é ele IJ1. ‘e eu amo -Eu não o amo - Ele me odei a -2 ele que me am a
Bem, vocês se engajarão em vias sempre sem saída, o que se vê muito bem nos impasses atuais da teoria analítica, se ig n ora rem que a significação não reenviá nunca senão a ela mesma, isto· é, a uma outra significação.
Que necessidade de falar de uma realidade que sustentaria os em pregos qitos metafóricos? Toda espécie de emprego, em cer t o sen tido, é sempre metafórica.
Façam vocês mes mos o ensaio - verão que nãó hão de sair nunca do mundo do símbolo.
O ;�runhido do porco não se torna uma palavra a não ser quando alguém se coloca a questão de saber o que ele quer fazer crer. Uma palavra não é palavra a não ser na medida exata em �ue alguém acredita nela
É nessa dimensão que uma palavra se situa antes de tudo. A palavra é essencialmente o meio de ser reconhecido. Ela está aí antes de qualque,r coisa que haja atrás. E, por isso, é ambivalente e absolutamente insondável. O que ela diz, será que é verdade?
Será que não é verdade ? É uma rp iragem. É essa primeira mira gem que lhes assegura que estão no domínio da palavra.
Eis por que, num sentido, se pode falar da linguagem dos animais. Há uma linguagem dos animais na medida exata em que há alguém para compreendê-la.
A partir de quando há verdadeiramente transferência? Quan do a imagem que o sujeito exige se confunde para o sujeito com a realidade em que ele está situado. Todo o progresso da análise está em lhe mostrar a distinção desses dois planos, deslocar o ima ginário e o real. Teoria clássica - o sujeito tem um comporta mento por assim dizer ilusório, de que se faz ver a ele o quanto é pouco adaptado à situação efetiva.
A palavra não tem nunca um único sentido, o termo, um único emprego. Toda palavra tem sempre um mais-além, sustenta muitas funções, envolve ·muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer, c, atrás .do que quer dizer, há ainda um outro querer-dizer, c nada será nunca esgotado
o conceito é o que faz com que a coisa esteja aí, não estando.
Encontramo-nos aqui no coração do problema do que Freud .a vança quando diz que o inconsciente se coloca fora do temp o . É e não é verdade. Ele se colo c a fora do tempo exatamente como o conceito, porque é o tempo de si mesmo, o tempo puro da coisa, e pode comQ tal reproduzir a cois a numa certa modulação, de que ·qualquer coisa pode ser o suporte material. Não se trata de outra ·coisa no automatismo de repetição.
Freud mostra-nos como a palavra, isto é, a transmissão do c’l e sejo, pode se fazer reconhecer através de qualquer coisa, desde que essa qualquer coisa seja organizada em sistema simb ó lico
Há relações essenciais que nenhum discurso pode exprimir suficientemente, senão no que eu chamava há pouco de entrelinhas.
O material significante, quer seja fonemático, hieroglífico etc. é constituído de formas destituídas do seu pró prio sentido e retomadas numa organização nova através da qual um outro sentido encontra como se exprimir. É exatamente a isso que Freud chama Übertragung.
obser v em também que os sonhos se tornam
m:J.is claros, mais analisáveis, ;. medida que a análise avança.
:1 1 a partir daí que escutamos aquele que nos fala. E só temos de nos referir à nossa definição do discurso do inconsciente, que é o discurso do outro, para compreender como ele reencontra au tenticamente a ihtersubjetividac l e nessa realização plena da pala-vra que é o diálogo.
Interrogação de Agos t i11ho ao seu filho : - O que é que que remos fazer, quando falamos? Resposta - Queremos ensinar ou aprender, segundo a posição de mestre ou de discípz1lo. Santo Agostinho vai tentar mostrar que, mesmo quando se quer apren der e se pergunta para aprender, en- s ina-se ainda. Por quê. Por que se ensina. àquele a quem nos endereçamos em que direção se quer saber. Portanto, a definição geral: -Você. vê pois, meu caro, que pela linguagem, não se faz nada senão ensinar.
Pode-se crer que Deus receba de nós um ensinamento .ou uma cha1n a da? Nossa reza não tem necessidade de palavras, .di z exatamente Agostinho, senão qttando é preci s o que os outros saibam que rezamos. Com Deus, não tentamos lembrar ou ensinar ao sujeito com o qual se di a loga, ma s antes advertir os outros de que estamos rezando. Portanto, não nos exprimimos senáo em re-lação àqueles .que podem nos ver nesse diálogo.
· A reza toca aqui no inefável. Não está no campo da pal a vra.
Fala-se para conhecer, não o inverso.
AG. -Examinemps de mais perto se há coisas que se podem mostrar por si mesmas, sem nenhum signo, como falar, andar, sentar e outras semelhantes. Será que há coisas que podem ser mostradas sem signo?
AD. -Nenhuma, menos a palavra.
AG. Você está tão certo assim de tudo o que diz.
AD. -Não estou certo de modo algum.
Santo Agostinho faz apelo à mesma dimensão que nós, psicólogos. Porque ós psicólogos são gente mais espiritual - no sentido técnico, religioso da palavra - do que se acredita. Acre ditam, como Santo Agostinho, na iluminação, na inteligência. É o que eles designam, quando fazem psicologia animal, com o nome de instinto, de Erlebnis
Evidentemente, nos diz ele, afinal de contas os signos são in teiramente impotentes, porque não podemos reconhecer nós mes mos o seu valor de signos, e só sabemos que são palavras quando sabemos o que significam na língua, concretamente falando. A par tir de. então, lhe é fácil operar uma inversão dialética, e dizer que no manejo dos signos que se interdefinem, nunca apreendemos nada. Ou já sabemos a verdade de que se trata, e não são, pois, os signos que a ensinam para nós, ou não a sabemos, e não pode mos situar os sinais que se relacionam a ela.
A palavra, tanto ensinada quanto ensinante, está, pois, situa da no registro el a equivocação, el o erro, da tapeação, da mentira.
Ele vai muito longe, porque a coloca mesmo sob o signo da am-
bigüidade, e não somente da ambigüidade semântica, mas da ambigüidade subjetiva. Admite que o sujeito mesmo que nos diz algo, muitas vezes não sabe o que nos diz, e nos diz mais ou menos ’ que ele quer dizer. o lapso é mesmo introduzido.
Há lapso para ele quando o sujeito significa alguma coisa diversa � aliud - do que a que quer dizer.
Em suma, é em torno desses três pólos, o erro, a equivoca ção, a ambigüidade da palavra, que Santo Agostinho faz girar toda a sua dialética. Bem, é em função dessa impotência dos signos para ensinar -para retomar simplesmente os termos do P.
Beirnaert -’- que tentaremos da próxima vez abordar a dialética fundadora da verdade da palavra.
Porque o que fa l a no homem vai bem além da palavra até penetrar nos seus sonhos, seu ser e seu organismo mesmo.
Hoje, o círculo de vocês, cuja fidelidade nunca tinha sido desmentida, vai não obstante cedendo. E, no fim da . corrida, sou eu quem terá ganho.
não se pode dar conta da transferência como de uma relação dual, imaginária, e que o motor do seu progresso é a palavra.
.
Colocar em jogo a projeção ilusória de qualquer das relações fundamentais do sujeito sobre o parceiro analítico, ou ainda a relação de objeto, a relação entre a transferência e a contratrans: . ferência, tudo isso, que fica nos limites de uma two bodies’ psy c. J ology, é inadequado. É o que nos mostram não somente as de duções teóricas, mas os testemunhos concretos dos autores que citei.
Apesar de todos os esforços que podemos fazer para esquecer a palavra, ou para subordiná-la a uma função de meio, a análise é, enquanto tal, uma técnica da palavra, e a palavra é o meio mesmo no qual ela se desloca. É em relação à função da palavra que as diferentes instâncias da análise se distinguem umas das outras, e tomam seu sentido, seu lugar exato.
O sentido, ou bem vocês o possuem, ou bem não o possuem.
Quando compreendem o que se exprime pelos signos da lingua gem, é sempre, afinal de contas, graças a uma luz que lhes é tra zida de fora dos signos - seja por uma verdade interior que per mite a vocês reconhecerem o que é trazido pelos signos, seja pela apresentação de um objeto colocado em correlação, de maneira repetida e insistente, com um signo. E eis a perspectiva invertida.
A verdade está fora dos signos, alhures. Essa báscula da dialétic a agostiniana orienta-nos em direção ao reconhecimento do magi s ter autêntico, do mestre interior de verdade.
Da mesma forma como, num lugar da sua demonstração, San to Agostinho esquece que a técnica do caçador de passarinhos, essa técnica complexa - astúcia, armadilha· para o seu objeto, o passarinho a pegar - já está estruturada, instrumentalizada pela palavra - da mesma forma, aqui, ele parece desconhecer que a questão mesma da verdade já está incluída no interior de sua dis cussão, porque é com a palavra que ele coloca em caus a a pala vra, e cria a dimensão da verdade. Toda palavra formulada como tal introduz no mundo o novo da emergência do sentido. Não é que ela se afirme como verdade, mas antes que introduz no real a dimensão da verdade.
Santo Agostinho argumenta - a palavra pode ser enganado ra. Ora, por si só, o signo só pode se apresentar e sustentar na dimensão da verdade. Porque, por ser enganadora, a palavra se afirma como verdadeira. Isso para aquele que escuta. Para aquele que diz, a tapeação mesma exige inicialmente o apoio da verdade que se trata de dissimular, e à medida que ela se desen volve, supõe um verdadeiro aprofundamento da verdade a que, se se pode dizer, ela responde.
Com efeito, à medida que a mentira se organiz a , desenvolve seus tentáculos, lhe é necessário o controle correlativo da verdade
que ela encontra em todas as viradas do caminho e que deve evi tar. A tradição moralista o diz -é preciso ter boa memória quando se mentiu. É preciso saber um bocado de coisas para che gar a .sustentar uma mentira. Nada mais difícil de fazer do que uma mentira q.te se sustente. Porque a mentira, nesse sentido, realiza, desenvolvendo-se, a constituição da verdade.
não há erro que não se coloque e não se ensine como verdade. Em suma, o erro é a encarnação habitual da verdade. E se quisermos ser inteiramente rigorosos, diremos que, enquanto a verdade não for inteiramente revelada, isto é, segundo toda probabilidade até o fim dos séculos, será de sua natureza propagar-se em forma de erro.
Não há mais razão· para cham4r à girafa girafa e ao elefante elefante, do que para chamar à girafa elefante e ao elefante girafa. Não há nenhuma razão para não dizer que a. girafa tem uma tromba e que o elefan te tem um pescoço muito longo. Se é um erro no sistema geral mente recebido, não é possível ser detectado, como observa Santo Agostinho, enquanto as definições não estão colocadas. E o que é mais difícil do que colo c ar as justas definições?
O próprio do campo psicanalítico é supor, com efeito, que o discurso do sujeito se desenvolve normalmente - isto é Freud -na ordem do erro, do desconhecimento, e mesmo da denegação -não é hem a mentira, é entre o erro e a mentira. São verdades de grosseiro bom senso. Mas - eis o novo - durante a anf t lise, nes se discurso que se desenvolve no registro do erro, algo acontece por onde a verdade faz irrupção, e não é a contradição.
Dev,em os analistas empurrar os sujeitos na via do sab e r absoluto, fazer sua educação em todos os planos, não ·só em Psico logia, para que eles descubram os absurdos no meio dos quais vivem habitualmente, mas também no sistema das ciências? Cer tamente que não - fazemos isso aqui porque somos analistas,
Não é também que preparamos para eles o encontro do real, porque nós os tomamos entre quatro paredes. Não é nossa função guiá-los pela mão na vida, quer dizer, nas conseqüências das suas besteiras. Na vida, pode-se ver a verdade pegar o . erro por trás.
Na análise, a verdade surge pelo que é o representante mais mani festo da equivocação - o lapso, a ação a que se chama impropria mente falhada.
Nossos atos falhados. são atos que são bem sucedidos, nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam. Eles, elas.
revelam uma verdade de detrás. No interior do que se chamam associações livres, imagens . do sonho, sintomas, manifesta-se uma palavra que traz a verdade. Se a descoberta de FreU.l tem um sen tido é este - a verdade pega o erro pelo cangote, na equivoc a ção.
muito freqüen· temente os sujeitos dizem coisas que vão bem mais longe do que o que pensam, e que são mesmo capazes de confessar a verdade sem aderir a ela.
É, pois, verossÍJ U il que sua atividade exija do analista que ele se mantenha alerta para o sentido do que faz; e que· ele deixe, de tempos em tempos, um momento para o pensamento.
E eu, que lhes entrego coisas imajadas, destinadas a recolocar as idéias no lugar, eu também recalco, mas é um pouco menos do que o que se faz habitualmente, que é da ordem da denegação.
Freud nunca perdoou à sua mulher tê-lo feito vir com urgência para perto dela, porque senão, dizia ele, teria levado sua descoberta adiante, e teria se tornado um homem célebre.
Porque a luta que ele tem para se fazer reconhecer está aí subjacente ao que evoca dos seus diálogos com seus colegas
Vocês querem que eu a formule? Para dizê-la cruamente, é -Não amo mais a minha mulher. Ou ainda, o que ele evoca a propósito de suas fantasias e gostos de luxo -Sou desconhecido pela sociedade, e entravado nas minhas ambições.
hagiografia
na junção do simbólico c do imaginário, essa fenda, se vocês quiserem, essa aresta, que se chama o amor - na junção do imaginário e do real, o ódio - na junção do real e do simbólico, a ignorância.
·
ego, superego e Es não são nomes novos para as velhas enti dades psicológicas
Não se trata aí de uma dimensão intelectual. Se o intelec tual se situa em alg u ma parte, é ao nível dos fenômenos do ego, na projeção imaginária do ego, pseudoneutralizada -pseudo no sentido de mentira - que a análise denunciou como fenômeno de defesa e de resistência.
-Precisamente, isso tinha chocado, e essa ausênci a , esses ataques diretos contra o termo afetivo.
Acredito que é um termo que é preciso absolutamente ris c ar dos nossos trabalhos.
·
O desejo de ser amado é o desejo de que o objeto amante seja tomado como tal, enviscado, submetido na particularidade absoluta de si mesmo como objeto. Aquele que aspira a ser ama do se satisfaz muito pouco, isso é bem sabido, com ser amado pelo seu bem. Sua exigência é ser amado tão longe quanto possa ir a completa subversão do sujeito numa particularidade, e no que essa particularidade possa ter de mais opaco, de mais impensável.
Queremos ser amados por tudo - não somente pelo nosso eu, como o diz Descartes, mas pela cor dos nossos cabelos, pelas nos s a s mãos, pelas nossas fraquezas, por tudo.
1 Mas inversamente, direi correlativamente, por causa disso inesmo, amar é amar um ser para além do que ele parece ser. O dom ativo do amor visa o outro, não na sua especificidade, mas no seu ser.
Que o psicanalista acredite saber alguma coisa, em Psicologia por exemplo, e já é o começo da sua perda, pela boa razão de que em Psicologia ning u ém sabe ·g1 4 nd e coisa, a não ser que a Psicologia seja ela mesma um erro de pers pectiva sobre o ser humano.
Vocês devem, apesar disso, perceber que, quando o homem diz eu sou, ou eu serei, e mesmo eu terei sido ou eu quero ser, há sempre um salto, uma hiância. É tão extravagante em relação à realidade dizer cu sot� psicanalista quanto eu sou rei. Uma e outra são afirmações inteiramente válidas, que nada justifica entretanto na ordem do que se pode chamar a medida das capaci dad e s.
Nessa linha, trazendo cem vezes ao tear o nosso traba lho, o sujeito, confessando a sua história na primeira pessoa, pro gride na ordem das relações simbólicas fundamentais em que tem de encontrar o tempo, resolvendo as paradas e as inibições que constituem o supereu. É preciso o tempo.
Se os ecos do discurso se aproximam muito depressa do ponto O’ - quer dizer, se a transferência se faz muito intensa -, pro d uz-se um fenômeno crítico que evo c a a resistência, a resis tência sob a forma mais aguda em que possamos vê-la manifes tar-se - o silêncio. Em que vocês apreendem que, como o disse Freud, a transferência se torna um obstáculo quando é excessiva, não é?
É preciso esperar. É preciso esperar o tempo necessário para que o sujeito realize a dimensão de que se trata no plano do símb o lo, quer dizer, depreenda da coisa vivida na análise -dessa busca, dessa briga, desse ealaçamento que realiza a análise el as resistências - a duração própria de certos automatismos de repetição, o que lhes dá de algum modo valor simbólico.
obsedados
O que é que o obsedado espera? A morte do mestre. Para que lhe serve essa espera? Ela se interpõe entre ele e a morte. Quando o mestre estiver morto, tudo começará. Vo c ês reencontram essa es trutura sob todas as suas formas.
Até aqui vivemos na angústia, agora vamos viver na esperança.
O mestre, digamo-lo bem, está numa relação muito mais abrupta com a morte. O mestre no estado puro está aí numa po sição desesperada, porque não tem nada a esperar senão a sua morte, porque não tem nada a esperar da morte do seu escravo 5enão alguns inconvenientes. Ao contrário, o escravo tem muito que esperar da morte do mestre. Para além da morte do mestre, será preciso que se afronte à morte, como todo ser plenamente realizado, e que assuma, no sentido heideggeriano, o seu ser para a morte. Precisamente, o obsedado não assume o seu ser para a morte, está em sursi s . É o que se trata de lhe mostrar. Eis qual é a função da imagem do senhor enquanto tal.
… que está encarnado no analista. É somente após ter es boçado, um certo número de vezes, saídas imaginárias para fora da prisão do mestre, e isso, segundo certas escansões, segundo um �erto timing, é somente então, que o obsedado pode realizar o .c onceito das suas obsessões, quer dizer, o que elas significam
Em cada caso de obsessão, há necessariamente um certo nú mero de escansões temporais, e mesmo signos numéricos. É o que já abordei num artigo sobre O Tempo Lógico. O sujeito que pen sa o pensamento do outro, vê no outro a imagem e o esboço dos seus pr óprios movimentos. Ora, cada vez que o outro é ex a tamen te o mesmo que o sujeito, não há outro mestre exceto o mestre absoluto, a morte. Mas é preciso ao escravo um certo tempo para ver 1sso.
Porque ele está bem contente de ser escravo, como todo o mundo.
—
Reading books with ReadEra
https://play.google.com/store/apps/details?id=org.readera.hl=en