
Sade
Biografia
A 29 de outubro de 1763, Donatien-Alphonse tem sua primeira experiência de prisão, na qual passará quase trinta anos de sua vida. Ele é preso em Vincennes por “devassidão”, blasfêmia e profanação da imagem de Cristo, mas no mês seguinte é libertado, sendo porém obrigado a permanecer numa residência indicada, o palácio de Echauffour, na Normandia.
O sentido do crime, como lhes mostrei, só pode ser uma fantasia derrisória, mas o que está em questão é o que o pensamento designa. O crime seria o que não respeita a ordem natural. E o pensamento de Sade chega até a forjar esse excesso verdadeiramente singular - inédito, certamente, na medida em que antes dele isso não tinha sido muito articulado, pelo menos aparentemente, embora não saibamos o que as seitas místicas há muito tempo puderam for mular - que, por meio do crime, está no poder do homem liberar :a natureza das correntes de suas próprias leis. Pois suas próprias leis são correntes. A reprodução das formas em torno das quais suas possibilidades, ao mesmo tempo, harmônicas e inconciliáveis vêm-se ocultar num impasse de conflitos, é tudo isso que é preciso afastar para forçá-la, digamos assim, a recomeçar a partir do nada. Tal é a visada do crime. Não é por nada que o crime é, para nós, um ho rizonte de nossa · exploração do desejo, e que foi a partir de um -crime original que Freud teve de tentar reconstruir a genealogia da lei. As fronteiras do a partir de nada, do ex nihilo, é nesse ponto, disse-lhes nos primeiros passos de nossas conversas deste ano, que um pensamento que se quer rigorosamente ateu se sustenta. Um pen samento rigorosamente ateu se situa na perspectiva do criacionismo, e em nenhuma outra.
para ilustrar que o pensamento sádico se sustenta justamente nesse limite, nada é mais exemplar do que a fan tasia fundamental em Sade, aquela que as mil imagens extenuantes que ele nos dá da manifestação do desejo nada mais fazem do que ilustrar. Essa fantasia é a de um sofrimento eterno.
No enredo sádico típico o sofrimento não leva a vítima a esse ponto que a dispersa e que a aniquila. Pelo contrário, parece que o objeto dos tormentos deve conservar a possibilidade de ser um suporte indestrutível. A análise mostra claramente que o sujeito destaca um duplo de si mesmo, que ele torna inacessível ao aniquilamento, para fazê-lo suportar o que se deve chamar, no caso, por um termo extraído do âmbito da estética, dos jogos da dor. Pois trata-se justamente aí da mesma região que aquela em que os fenômenos da estética se deleitam, um certo espaço livre. E é nisso que reside a conjunção entre os jogos da dor e os fenômenos da beleza.
jamais ressaltada, como se pesasse sobre ela, não sei que tabu, não sei que interdição parente dessa dificuldade que conhecemos bem em nossos pacientes confessando o que é, propriamente falando, da ordem da fantasia.
Mostrar-lhes-ei isso, tão manifesto no texto de Sade que acaba não se vendo. As vítimas estão sempre ornadas não apenas com todas as belezas, mas com a própria graça, sua derradeira flor.
Como explicar essa necessidade senão inicialmente porque é preciso encontrá-la escondida, sempre iminente, por qualquer lado que abordemos o fenômeno, pelo lado da exposição emotiva da vítima e pelo lado igualmente de toda a beleza por demais exposta, por demais bem produzida, que deixa o homem interditado diante da imagem, delineada atrás dela, daquilo que a ameaça. Mas de quê? -pois não é de aniquilamento.
O albergue. Hostel.
A função da beleza, o desejo, o corpo despedaçado.
O ponto de angústia.
Fazer de suporte de algo.
O limiar.
Suporte indestrutível.
Conjunção entre os jogos da dor e a função da beleza.
Âmbito da estética.
Vocês não estão apreendendo a analogia com a fantasia sádica? -em que objeto só se encontra aí enquanto poder de um sofrimento, que, ele mesmo, é apenas o significante de um limite. O sofrimento é aí concebido como uma estase que afirma que o que é não pode entrar de novo no nada de onde saiu.
O cristianismo, a crucificação.
Sangue, pedaço, coroa de espinhos, desejo.
Jesus seminu. Descoberto. Coberto de sangue. Os pedaços. Ressurreição. A imagem que volta. Reaparecimento.
Função de desejo.
Perda do objeto.
Reencontro.
Morte e ressurreição.
A imagem de Cristo sobre a cruz.
Cristo com o filtro lgbt. A encenação de crucificação, o ator que representa Cristo é uma mulher trans.
Cristo e seus pedaços.
CRONOLOGIA
1740 - Nasce, a 2 de junho, Donatien-Alphonse-François, o marquês de Sade, em Paris.
1744 - Donatien é enviado à Provença, onde é educado primeiramente por suas tias e depois pelo tio, o abade de Sade, erudito e libertino.
1746 - Diderot publica seus Pensamentos filosóficos e assume a direção da Enciclopédia.
1751 - A Enciclopédia começa a ser publicada.
1755 - O marquês é nomeado alferes de infantaria junto à casa do rei.
1756 - Tem início a “Guerra dos Sete Anos”. Durante a campanha, o jovem oficial Sade é beneficiado com várias promoções. Começam suas primeiras ações como libertino.
1763 - Fim da “Guerra dos Sete Anos” com o tratado de Paris. Sade é reformado como capitão de cavalaria. Ligação com a senhorita de Lauris, de uma antiga casa da nobreza provençal. Casa-se a contragosto, a 17 de maio, com Renée-Pélagie de Montreuil, uma jovem rica oriunda da aristocracia inferior. Ações de libertinagem em Paris. Sade é encarcerado em Vincennes, a 29 de outubro, por uma lettre de cachet (ordem de prisão com o selo real), e solto a 13 de novembro.
1764 - Voltaire publica o Dicionário filosófico. Sade se relaciona com a senhorita Colet, atriz do Teatro Italiano, e com diversas prostitutas de Paris.
1766 - Várias relações com prostitutas e atrizes.
1767 - Nascimento do primeiro filho do marquês, Louis-Marie, a 27 de outubro.
1768 - A França adquire a Córsega um ano antes do nascimento de Napoleão Bonaparte.
A 3 de abril, o primeiro grande escândalo do marquês: flagela em Arcueil, num domingo de Páscoa, uma jovem mendiga, Rose Keller, que consegue fugir e denunciá-lo. A 8 de abril, é encarcerado em Saumur, a despeito dos apelos da mulher Renée e da desistência da vítima do processo. É transferido em seguida para Pierre-Enclise, perto de Lyon. A 10 de junho é processado em Paris e condenado a pagar multa de cem libras. A 16 de novembro é solto por ordem do rei.
1769 - Nasce a 27 de junho o segundo filho do marquês. Viagem aos Países Baixos. Redige uma Viagem a Holanda, em forma de cartas.
1770 - D’Holbach publica sob o nome falso de Mirabaud o Sistema da Natureza, obra que terá grande influência no pensamento sadiano. Retoma seu trabalho como capitão-comandante.
1771 - Nasce, a 17 de abril, Madeleine-Laure, filha do marquês. Nova prisão, em agosto, por causa de dívidas.
1772 - Ligação de Sade com a cunhada. Orgia em Marselha, a 27 de junho, juntamente com seu criado e quatro mulheres. As mulheres, obrigadas a ingerir bombons de anis contaminados por cantáridas, como “afrodisíaco” e “para fazê-las peidar”, segundo o marquês, sentiram-se mal e deram queixa, o que lhe valeu nova condenação, desta vez “à morte por contumácia”, pena que equivalia a uma grande desonra e cuja execução foi “en effigie”. Tratava-se na verdade de uma representação grosseira, mediante um quadro ou boneco do condenado a quem se fazia experimentar a pena pronunciada. Tinha ao menos dois objetivos: imprimir uma maior ignomínia ao acusado e inspirar no povo, por tal aparelho, maior horror pelo crime. O marquês e seu criado, por terem cometido crimes de libertinagem, algolagnia, sodomia e envenenamento, foram assim “queimados” em praça pública.
1774 - Morte de Luís XV.
1775 - Uma criada dá à luz uma filha do marquês: novo risco de escândalo, que a família procura abafar. Sade foge para a Itália e só retorna no ano seguinte para seu castelo de Lacoste.
1777 - É encarcerado novamente em Vincennes, por uma lettre de cachet emitida pelo rei por insistência da sogra, visando preservar a honra da família Sade-Montreuil de suas afrontas.
1778 - Morte de Rousseau e de Voltaire. Durante uma transferência a Paris, Sade foge, e após 39 dias em liberdade é preso em Lacoste. A 7 de setembro retorna ao torreão de Vincennes, onde ficará cinco anos e meio. Inicia sua obra literária.
1782 - Choderlos de Laclos publica As relações perigosas. Sade redige o Diálogo entre um padre e um moribundo e começa os 120 dias de Sodoma.
1784 - É conduzido à Bastilha, onde permanece até a Revolução de 89.
1786 - Começa a redigir Aline e Valcour.
1787 - Problemas de saúde. Escreve Os infortúnios da Virtude, em dezesseis dias.
1788 - Convocação dos Estados Gerais. Publicação dos últimos livros das Confissões, de Rousseau. Morte de Buffon, naturalista que Sade admirava. Redige Eugénie de Franval e conclui Aline e Valcour ou romance filosófico.
1789 - Reunião dos Estados Gerais que se tornam Assembleia Constituinte. A 4 de julho, Sade é transferido da Bastilha para Charenton. Permanece nove meses em Charenton. 14 de julho: Queda da Bastilha. A 4 de agosto, dá-se a abolição dos privilégios. Declaração dos Direitos do Homem.
1790 - A Assembleia constituinte abole as “lettres de cachets”. Sade é libertado a 2 de abril. A 9 de junho, a senhora de Sade obtém o divórcio. Sade torna-se “cidadão ativo” da futura seção de Piques a 1 de julho. Tem início, a 25 de agosto, sua relação com Marie-Constance Quesnet, a “sensível”. Aceita várias encomendas de peças para os teatros parisienses.
1791 - Fuga de Luís XVI, destituído de suas funções. Reunião da Assembleia Legislativa. Sade passa a viver com a senhora Quesnet. Primeira edição de Justine ou os infortúnios da virtude. Em outubro e novembro, faz sucesso com a peça O Conde Oxtiern ou as desgraças da libertinagem.
1792 - Em setembro, o castelo de Lacoste é saqueado. Em outubro, Sade é nomeado comissário da seção de Piques.
1793 - 21 de janeiro: execução de Luís XVI. Instaura-se a fase do “Terror”. Em julho, o “cidadão” de Sade torna-se presidente da seção de Piques. Ele risca os Montreuil da lista dos suspeitos. A 29 de setembro, pronuncia um Discurso às almas de Marat e de Le Pelletier, ambos “mártires da liberdade”. A 8 de dezembro, nova detenção de Sade, acusado de “moderado”. É sucessivamente encarcerado nas Madelonnetes, nos Carmes, em Saint-Lazare e em Picpus.
1794 - Sade é condenado à morte, a 27 de julho. Robespierre, Saint-Just e outros são executados a 28 de julho. 15 de outubro: Sade é liberado.
1795 - Agosto: publicação de Aline e Valcour e da A filosofia na Alcova.
1796 - O castelo de Lacoste é vendido em outubro.
1797 - Publicação de A nova Justine ou os infortúnios da Virtude, seguida da História de Juliette, sua irmã. Viagem de Sade à Provença. Problemas financeiros e jurídicos.
1799 - Sade vive na miséria, trabalhando como empregado no espetáculo de Versalhes.
1800 - Publicação dos Crimes do amor, precedidos de uma ideia sobre os romances.
1801 - 6 de março: detenção de Sade como autor de obras pornográficas. É encarcerado em Sainte-Pélagie.
1802 - 14 de março: após tentar seduzir jovens detentos, Sade é transferido de Sainte-Pélagie para Bicêtre. Finalmente, a 27 de abril, é enviado ao Hospício de Charenton. Inicia Jornadas de Florbelle ou a natureza desvelada.
1805 - Sade auxilia na missa de Páscoa, em Charenton.
1806 - Morte de Restif de la Bretonne. Sade redige seu testamento.
1807 - Conclui, em abril, as Jornadas de Florbelle. A 5 de junho, tem seus manuscritos apreendidos e destruídos pela polícia.
1808 - Sade organiza um teatro com os detentos de Charenton.
1809 - Morre seu filho mais velho.
1810 - Morre, a 7 de julho, Renée-Pélagie, a marquesa de Sade.
1812 - Sade redige Adelaide de Brunswick, princesa da Saxônia.
1813 - Escreve A história secreta de Isabelle da Baviera, e publica A marquesa de Gange.
1814 - Abdicação de Napoleão e retorno de Luís XVIII. O novo diretor do hospício pede transferência do marquês. Morre Donatien-Alphonse-François de Sade, a 2 de dezembro. A despeito de suas disposições testamentárias, é sepultado religiosamente no cemitério do hospício.
O Marquês de Sade, na Rua Paradis, em Marseille, fechado com seu rapazinho, procedia igualmente com os orgasmos28 .coups |, ainda que diversamente variados, que ele tinha na companhia do parceiro, ou mesmo com alguns companheiros diversamente variados. Esse homem notável, cujas relações com o desejo deviam, seguramente, ser marcadas por um ardor pouco comum, não importa o que se pense, marcava na cabeceira de seu leito, dizem, com pequenos traços, cada um de seus orgasmos .coups. - para chamá-los por seu nome - que foi levado a cometer até sua consumação nessa espécie de retiro probatório singular.
Com certeza, é preciso estar-se bem engajado na aventura do desejo, pelo menos de acordo com tudo o que o comum das coisas nos ensina acerca da experiência mais ordinária dos mortais, para sentir uma tal necessidade de se demarcar na sucessão de suas realizações sexuais;
todavia, não é impensável que, em algumas épocas favorecidas da vida, algo possa tornar-se vago, no ponto exato em que se está no campo da numeração decimal.
Os 120 dias de Sodoma
Cronologia
1740
2 DE JUNHO Nasce em Paris Donatien Alphonse François, filho de Jean-Baptiste François Joseph, nobre provençal e conde de Sade, e de Marie Éléonore de Maillé de Carman, da família dos príncipes de Condé.
1744
Donatien é mandado para a Provença, onde mora com as tias paternas, em Avignon, e depois com o tio padre, erudito e libertino, em Saumane.
1750
Retorna a Paris, sendo matriculado no colégio Louis-LeGrand, dos jesuítas. Quatro anos depois, entra na escola dos Cavaleiros-Ligeiros, reservada à velha nobreza.
1755
Subtenente no regimento de infantaria do rei. Dois anos depois, parte com o regimento de carabineiros do conde da Provença para a Guerra dos Sete Anos, contra a Prússia. Tem início sua vida libertina.
1763
É reformado como capitão de cavalaria.
17 DE MAIO Casa-se em Paris com Renée-Pélagie de Montreuil, de família de pequena nobreza.
29 DE OUTUBRO É preso por ordem do rei no castelo de Vincennes, por deboche ultrajante e fustigações contra a jovem operária Jeanne Testard.
1764
Herda do pai o cargo de tenente-general do rei em diversas províncias da França. Relaciona-se, nestes anos, com várias atrizes. A polícia de Paris começa a vigiar seus encontros, orgias, textos.
1767
Nascimento de Louis-Marie, seu primeiro filho. Dois anos depois, nasce Donatien Claude Armand. Em 1771, nasce Madeleine-Laure.
1768
3 DE ABRIL Primeiro grande escândalo, em Arcueil. Acusado de flagelação e sacrilégio com a viúva Rose Keller. O caso tem grande repercussão e Sade é preso em Saumur, mas a família consegue soltá-lo em novembro.
1769
Leva vida mundana no castelo familiar de Lacoste, na Provença, e se cobre de dívidas, que várias vezes o fazem ser detido. Tenta retomar a carreira militar, mas é barrado por sua má reputação.
1772
Vive na Provença e organiza no castelo encenações teatrais dirigidas por ele. Inicia uma relação com a cunhada, a cônega Anne-Prospere de Launay.
27 DE JUNHO Segundo grande escândalo, em Marseille. É acusado de envenenamento, flagelações, sodomia. Foge para a Itália, sob o nome falso de conde de Mazan.
3 DE SETEMBRO Sade e seu criado são condenados à morte na fogueira, à revelia, em Aix-en-Provence.
8 DE DEZEMBRO É localizado e preso na Savoia.
1773
Foge da prisão graças ao suborno pago por sua mulher, viaja pelo sul da França e pela Itália, disfarçado de padre. Dificuldades financeiras.
1775
Retorna à França. Escreve Voyage à l’Italie. Em Lacoste, novos escândalos.
1777
Vai a Paris visitar a mãe gravemente doente e acaba preso no castelo de Vincennes, por manobra da sogra. Passará os treze anos seguintes nas prisões de Vincennes e da Bastilha ou internado no asilo para doentes mentais em Charenton.
1784
29 DE FEVEREIRO Transferido para a prisão da Bastilha.
1785
22 DE OUTUBRO A 28 DE NOVEMBRO
1789
3 DE JULHO É transferido para Charenton. Deixa na prisão da Bastilha seus móveis, livros e papéis, entre eles o rolo com o manuscrito de Os 120 dias de Sodoma. Duas semanas depois, a prisão é saqueada e demolida.
1790
2 DE ABRIL É solto. A esposa se nega a recebê-lo e pede o divórcio. Ele tenta encenar suas peças de teatro, e liga-se à atriz Marie-Constance Quesnet, com quem viverá maritalmente até o fim da vida.
1791
Publicação anônima de Justine ou As desgraças da virtude. No ano seguinte, seu castelo em Lacoste é saqueado, e cinco anos depois é vendido.
1792
É nomeado secretário da Section des Piques, organismo revolucionário do centro de Paris, e depois comissário para os hospitais. Como “Cidadão Sade, homem de letras”, e delegado da Convenção, escreve discursos de caráter político, apresenta um projeto para renomear as ruas de Paris e uma petição anticlerical.
1793
8 DE DEZEMBRO Preso pelo Terror como politicamente suspeito. No ano seguinte, é condenado à morte por “inteligência com os inimigos da República”, sendo salvo da guilhotina pela queda de Robespierre.
1795
Publicação de Aline e Valcour, assinada pelo Cidadão S.., e de A filosofia da alcova, como obra anônima.
1798
Sade e Marie-Constance Quesnet estão na miséria.
1799
Publicação de A nova Justine, seguida de A história de Juliette, sua irmã, obra ilustrada com uma centena de gravuras pornográficas.
1800
Apreensão de uma edição de Justine.
1801
Em nome da defesa dos bons costumes, é preso em Sainte-Pélagie, depois em Bîcetre, e enfim no asilo de Charenton.
1804
Escreve Les Journées de Florbelle ou la Nature dévoilée, cujo manuscrito será apreendido e em seguida destruído.
1808
Organiza com os doentes mentais de Charenton encenações teatrais, cujos convites são disputados pelos parisienses.
1814
3 DE DEZEMBRO Morte de Sade, vítima de edema pulmonar. Contrariando seu testamento, é enterrado em cerimônia religiosa, mas respeita-se seu desejo de não ter nome nem crucifixo no túmulo, cujos vestígios desapareceram.
1904
Publicação de Os 120 dias de Sodoma em Berlim por Eugen Dührer, pseudônimo do psiquiatra Iwan Bloch. A edição tem muitos erros de transcrição.
1929
Maurice Heine compra em Berlim, em nome do visconde de Noailles, o manuscrito de Os 120 dias de Sodoma. Publica-o na França, em três volumes, entre 1931 e 1935.
1947
Início da edição das Obras completas de Sade, por JeanJacques Pauvert, que dez anos depois será condenado ao confisco e destruição de várias dessas obras, apreendidas pela Justiça.
2014
O bicentenário da morte de Sade é inscrito na lista de celebrações nacionais. O Museu d’Orsay organiza uma grande exposição sobre o imaginário do Marquês de Sade.
2017
O governo francês declara o manuscrito de Os 120 dias de Sodoma “tesouro nacional”.
Sexualidade Polimorfa
Fluxo de libido: quantidade e a multiplicidade de objetos a que ela se destina.
De um lado do espectro temos os ensinamentos de Sade: multiplicidade de objetos, multiplicidade de zonas érogenas.
Higiene, pessoas, animais, pai e mãe, jovens, crianças. Zonas érogenas: anus, genitais, boca, nariz, orelha, orifícios, pés, mãos. Orifícios e membros. Atividades: sujar, cortar, bater, morder, amarrar, molhar, queimar, etc. Atividades mecânicas, eletromagneticas, termodinâmicas.
Heterossexualidade: multiplicidade de pessoas em que o único requisito seria o outro gênero.
Do outro lado: um único objeto, um objeto muito específico, atividades sexuais limitadas. Sexo papai e mamãe.
Psicose: os efeitos do Real, gozo que invade.
Justine
Marquês de Sade
A 29 de outubro de 1763, Donatien-Alphonse tem sua primeira experiência de prisão, na qual passará quase trinta anos de sua vida. Ele é preso em Vincennes por “devassidão”, blasfêmia e profanação da imagem de Cristo, mas no mês seguinte é libertado, sendo porém obrigado a permanecer numa residência indicada, o palácio de Echauffour, na Normandia
lamenta não tê-la desposado.
“dizem coisas horríveis a seu respeito”.
Seu pai falece a 24 de janeiro de 1767 e Donatien-Alphonse torna-se herdeiro das senhorias de La Costa, Mazan e Saumane, e também de dívidas muito altas
O dia 3 de abril de 1768 assinala o começo da espinhosa carreira sádica do marquês. Neste dia, um domingo de Páscoa, no passeio, uma mulher pede-lhe uma esmola. Os encantos dessa mulher, chamada Rose Keller, é que o levarão pela primeira vez às barras do tribunal. Oferecendo-lhe um escudo ele a convence a acompanhá-lo à sua casinha. Ao chegarem, Donatien-Alphonse prende-a num aposento. Mais tarde, volta, manda-a despir-se e a flagela. Depois torna a prendêla com algum alimento, prometendo voltar à noite para soltá-la. Rose Keller, porém, não espera e consegue fugir por uma janela, encontra-se com algumas mulheres, conta sua aventura, é levada ao palácio do notário onde lhe tomam o depoimento. Sade é preso por ordem do rei no palácio de Saumur, onde ficará dezoito dias. Dali é transferido para a fortaleza de Pierre-Encisa, próximo de Lyon, onde fica um mês
ele realiza uma festa de prazer com várias jovens e seu criado Latour. Nesta reunião elas são flageladas e flageladoras e possuídas ora por Sade, ora pelo seu criado. Depois, as mulheres farão queixa de várias sevícias a que foram submetidas, declarando também que o marquês quis fazer sodomia com elas, acrescentando, porém, que recusaram
acusado de envenenamento e sodomia
seu criado Latour
Em 1775, ouve-se falar novamente do marquês, acusado de ter raptado várias jovens. A Senhora de Montreuil, usando do seu vasto relacionamento, procura abafar o escândalo. Em fins de 1776 segundo uns, ou começo de 1777, segundo outros, o pai de uma cozinheira do castelo, Catherine Treillet, também chamada Justine, provoca um escândalo em La Coste, querendo arrancar sua filha daquele meio que considera pervertido. O marquês procura acalmá-lo e resolve não deixar que ele leve a filha antes de encontrar uma substituta. O pai, furioso, dá-lhe um tiro de pistola, sem contudo feri-lo.
condessa de Lorsang
Juliette
Justine
uma jovem sensata e bem nascida devia evitar com cuidado tudo o que pudesse fazê-la cair numa armadilha.
requintes criminosos, prazeres vergonhosos, devassidões secretas e crapulosas, gostos escandalosos e bizarros, fantasias humilhantes, e tudo isso fruto de parte do desejo de desfrutar sem arriscar a saúde, do outro, fruto de uma sociedade perniciosa que, corrompendo a imaginação, só se deixa expandir pelo excesso e satisfazer-se somente pela libertinagem.
pervertida pelos maus livros e pelos maus conselhos, desejosa de desfrutar da vida sozinha, de ter um nome e nada que a prendesse
dava elegantes jantares na sua residência, para onde a cidade e a corte sentiam-se muito felizes em serem convidadas. Mas, mesmo assim, ela ia para cama por cem luíses e se entregava por quinhentos por mês. Até os vinte e seis anos fez brilhantes conquistas, arruinou três embaixadores, quatro fazendeiros, dois bispos e três cavaleiros das ordens do rei.
é verdade que a prosperidade pode acompanhar o crime e que mesmo dentro da desordem e da corrupção mais refletida, tudo a que os homens chamam de felicidade pode dourar o fio da vida
Aprendei, pequena noviça, que o céu é a coisa do mundo que menos nos interessa; se o que fazemos na terra o agrade ou não é coisa que praticamente não nos inquieta; muito seguros do seu pouco poder sobre os homens, nós o desafiamos todos os dias sem tremer e nossas paixões só são verdadeiramente encantadoras quado mais transgridem suas intenções, ou pelo menos aquilo que os tolos nos asseguram que seja, mas que, no fundo, não é senão o grilhão ilusório cuja impostura quer cativar o mais forte.
se vossa economia corresponder à nossa
Nosso serviço é pouco, trabalhareis sozinha e trata-se apenas de limpar e arrumar três vezes por semana este apartamento de dez peças, arrumar a cama de minha mulher e a minha, atender a porta, cuidar do cão, do gato e do periquito, e tratar da cozinha, lavar seus utensílios, quer sejam usados ou não, ajudar minha mulher quando faz a comida e empregar o resto do dia a cuidar da roupa branca, meias, toucas e dos outros pequenos móveis. Vedes bem que não é nada Sofia, e ainda vos sobrará muito tempo o qual vos permitiremos de usar por vossa conta e de fazer também para vosso uso a roupa branca e os vestidos de que podereis necessitar.
Entre meia-noite e uma hora, continuou aquela feliz bandida, esta casa pegará fogo … é obra dos meus cuidados, talvez alguém morra queimado, pouco importa, o que é certo é que nós nos salvaremos, meus cúmplices e meus amigos se unirão a nós e respondo pela tua liberdade.
Se a Providência me torna penosa minha passagem pela vida, é para me recompensar mais amplamente num mundo melhor; esta esperança me consola, suaviza todas as minhas tristezas, acalma minhas queixas, fortifica-me na adversidade e me faz superar todos os males que ela possa me oferecer
A insensibilidade dos ricos legitima a velhacaria dos pobres
A oração é o mais doce consolo do desgraçado, ele fica mais forte após ter orado;
— Vem, meu amigo, vem, disse um deles, estaremos muito bem aqui; a cruel e fatal presença de minha mãe não me impedirá pelo menos de gozar um momento contigo dos prazeres que me são tão caro.
Vamos, Jasmin, disse o Senhor de Bressac levantando-se assim que acabei, sejamos justos pelo menos uma vez na vida, meu querido; e a justa Têmis condenou essa marota, não deixemos que os olhos da deusa sejam tão cruelmente frustrados e façamos a criminosa sofrer a pena a que foi condenada; o que vamos cometer não é um crime, é uma virtude, meu amigo, é um restabelecimento da ordem das coisas e como às vezes temos a má sorte de perturbá-la, vamos restabelecê-la corajosamente, pelo menos quando a ocasião se nos apresenta.
o Senhor de Bressac não tinha irmãos ou irmãs; jamais se conseguira convencê-lo a entrar para o exército; tudo o que o afastasse dos prazeres da sua escolha eram-lhe tão insuportáveis que lhe era impossível aceitar qualquer grilhão. A Senhora Condessa e seu filho passavam três meses por ano nessa terra e o resto do tempo em Paris, e esses três meses que o obrigava a passar com ela já eram um transtorno bem grande para um homem que jamais abandonava o centro dos seus prazeres sem se desesperar.
Estou aqui
Acredita, Sofia, que este deus que reconheces é apenas o fruto da ignorância de um lado e da tirania de outro; quando o mais forte quis acorrentar o mais fraco, ele o convenceu de que deus santificava as correntes que o oprimiam, e este, embrutecido pela sua miséria, acreditou em tudo o que o outro queria. Todas as religiões, seqüências fatais dessa primeira fábula, devem portanto ser sacrificadas ao desprezo como ela, não há nenhuma que não traga consigo o emblema da impostura e da estupidez; vejo em todas elas mistérios que fazem tremer a razão, dogmas que ultrajam a natureza e cerimônias grotescas que só inspiram o ridículo. Mal abri os olhos, Sofia, detestei esses horrores e impus a mim mesmo uma lei, a de pisoteá-los; jurei jamais voltar a eles em minha vida; imitame se queres ser razoável.
Oh, senhor, respondi ao marquês, privarieis uma desgraçada de sua mais doce esperança se lhe arrancasseis essa religião que a consola
Quanto maior a vossa sensibilidade, mais ele vos afligirá… a cada dia, a cada minuto, vós a vereis diante dos olhos, aquela mãe terna que vossa mão bárbara terá lançado ao túmulo, ouvireis sua voz queixosa pronunciar ainda o doce nome que encantava vossa infância… Ela aparecerá em vossas vigílias, atormentar-vos-á em vossos sonhos, mostrará com suas mãos ensangüentadas as chagas que tereis aberto nela; daí por diante não tereis um só momento de felicidade, todos os vossos prazeres estarão envenenados, todas as vossas idéias vos perturbarão, uma mão celeste cujo poder desprezais, vingará os dias que havereis destruído envenenando todos os vossos; e sem terdes desfrutado de vossas perversidades, perecereis com o arrependimento mortal de haverdes destruído os seus dias.
nada como conceber um crime para fazer chegar a felicidade; parece que somente os malfeitores encontram o caminho aberto. Oitenta e sessenta, minha menina, eis aí cento e quarenta mil libras de renda que servirão aos meus prazeres
O perjúrio é virtude quando se promete um crim
sem demonstrar a menor emoção pela torrente de lágrimas que me haviam inundado, me agarrando fortemente pelo braço e me arrastando até seus sequaze
A ordem foi cumprida incontinente, amordaçaram-me com um lenço, fizeramme abraçar a árvore e me amarraram pelas espáduas e pelas pernas, deixando o resto do corpo desimpedido para que nada o pudesse proteger das chicotadas que ia receber
Jeannette
Encontrando-me sozinha, um dia, na casa, ao percorrer os diversos locais que exigiam minha atenção e trabalho, pensei ouvir gemidos que saíam do fundo de um porão; aproximo-me… distingo melhor, ouço o choro de uma menina, mas uma porta bem fechada isolava-a de mim, impossibilitando-me de abrir-lhe a saída do seu cárcere. Mil idéias passaram-me então pela minha cabeça… O que poderia estar essa criatura fazendo ali? O Senhor Rodin não tinha filhos, não conhecia irmãs ou sobrinhas que lhes pudessem despertar o interesse e a quem pudesse estar castigando. A extrema regularidade em que eu o via viver não me permitia crer que aquela jovem se destinasse às suas devassidões. Por que motivo então ele a mantinha presa? Extremamente curiosa e decidida a resolver suas dificuldades, arrisquei-me a interrogar a criança e lhe perguntei quem era e o que fazia ali.
desconfiar que eles tinham a intenção pavorosa de fazer alguma dissecação anatômica no corpo vivo daquela desgraçada menina
— Jamais, disse Rodin, a anatomia será perfeitamente conhecida a não ser que o exame dos vasos seja feito numa criança que acabe de expirar com uma morte cruel. Somente esta contração nos pode dar uma análise completa de uma parte tão interessante.
É odioso, continuou Rodin, que considerações fúteis detenham o progresso das artes… Ora pois, é um paciente sacrificado para salvar milhões; deve-se hesitar por esse preço? O crime operado pelas leis é de outro tipo, diferente do que vamos praticar, e o objeto dessas leis tão sábias não é o sacrifício de um para salvar mil? Então, que nada nos detenha.
Tenho por princípio, meu amigo, que todas as pessoas de classe aviltada só servem para experiências
Eu, sem pensar por instantes sequer o que arrisco, sem refletir sobre o destino que me aguarda, empenho-me em faze
Rodin me reanima, e quando abro os olhos, eles me mandam ficar nua; assim que me ponho no estado que desejam, um deles me segura enquanto o outro me opera; cortam-me um dedo de capa pé; acalmam-me, depois cada um arranca-me um molar.
aplica-me na espádua o ferro ardente com que se marca os ladrões.
decidi repousar alguns dias, mas como não me atrevia a confiar a ninguém a causa dos meus sofrimento, e lembrando-me dos medicamentos que vi Rodin usar em ferimentos semelhantes, eu mesma os comprei e fiz meus curativos. Uma semana de repouso fizeram-me recuperar por complet
Agitada com desejo de ir imediatamente implorar socorro aos pés daquela santa mãe de Deu
padre Rafael
padre Clement
E onde então, encantadora peregrina, respondeu-me o monge abrindo uma das portas do claustro que dão para a sacristia, e introduzindo-me na casa. O que, temeis passar a noite com quatro religiosos? Oh, vereis, meu anjo, que não somos tão carolas como parecemos e que sabemos muito bem divertir-nos com uma bela noviça
A porta se abre e vejo ao redor de uma mesa três monges e três moças, todos os seis no estado mais indecente do mundo; duas delas estavam inteiramente nuas, a terceira estava sendo despida e os monges estavam quase que no mesmo estado.
Esta a sociedade onde eu ia viver, esta a cloaca de impureza e imundícies onde pensara encontrar as virtudes como o asilo respeitável que as convinha.
Na situação em que vos encontrais, Sofia, como esperais defender-vos? Olhai para o abandono em que vos encontrais no mundo; como haveis confessado, não vos restam parentes ou amigos; encarai vossa situação como um deserto, longe de qualquer socorro, ignorada por toda a terra, nas mãos de quatro libertinos que certamente não têm vontade de vos poupar… a quem recorrereis então; será a esse deus a quem vindes implorar com tanto zelo, e que aproveita-se deste fervor para vos precipitar num pouco mais dentro da armadilha?
não sabia ainda que as lágrimas têm um atrativo a mais aos olhos do crime, e da devassidão. Ignorava que tudo o que tentava para comover esses monstros apenas os inflamava ainda mai
deveriam prestar socorro e consolos morais
s; a dor, dizem, predispõe ao prazer, estou convencido de que esta bela menina vai tornarme o mais feliz dos homens
E malgrado minha repugnância, meus gritos e minhas súplicas, tornou-me pela segunda vez o alvo infeliz dos insolentes desejos daqueles miseráveis.
não há nisso nenhuma regra senão a vontade, ou melhor, os caprichos
Rafael, um dos monges mais libertinos do seu século, quis vir para cá apenas para viver uma vida de acordo com seus gostos; sua intenção é de manter os privilégios secretos durante o tempo que puder.
cruel depravação e todos os quatro se revesam como carrasco
Somos obrigadas a nos levantar e estarmos prontas às nove horas da manhã; às dez trazem-nos pão e água para o desjejum; às duas horas servem-nos um almoço que consiste de uma sopa muito boa, um pedaço de carne cozida, um prato de legumes, às vezes algumas frutas e uma garrafa de vinho para as quatro. Regularmente, todos os dias, verão ou inverno, às cinco horas da tarde, o regente vem nos visitar; é então que ele recebe a delação da mais velha; e as queixas que esta pode fazer referem-se às meninas do seu quarto; se não houve nenhuma sugestão de mau humor ou revolta, se todas levantaram-se à hora prescrita, se elas se arrumaram como deviam, se comeram direito e se ninguém pensou em fuga. Eles nos fazem prestar contas de todas essas coisas e arriscamo-nos a sermos castigadas se não o fizermo
a primeira coisa que se faz é ler o livro de faltas
fechadas à chave e nunca temos oportunidade de respirar o ar puro
Não sabemos de uma só mulher que tenha saído desta casa que fosse vista novamente.
Onfalo
A reformada abraça suas companheiras, premete-lhes milhares de vezes que vai servi-las, levar suas queixas, divulgar o que se passa; chega a hora, o monge aparece, a mulher parte e nunca mais se tem notícia alguma do que lhe pode ter acontecido
Não há na Europa, disse-me Ônfalo, homem mais perigoso que Rafael e Antonin; a falsidade, crueldade, perversidade, impertinência e a irreligião são suas qualidades naturais e jamais se viu alegria em seus olhos exceto quando estão entregues aos seus vício
abriu uma das malas da nossa privada e tirou vários trajes feminino
satisfez como costumava fazer ignorando os costumes, a religião e a natureza.
Após ter sido mestra, voltei a ser alun
Eu estava ensaguentada
Retiraram-me dali inerte e foi preciso carregar-me para meu quarto onde chorei durante três dias seguidos lágrimas bem amargas pelo crime horrível que perpetraram em mim
respondeu-me com um olhar tão feroz e duro que recuei apavorada sem repetir o pedido
Teria preferido recusar, mas não podendo fazê-lo, eternamente obrigada a sacrificar meus desejos e vontades àqueles monstros, inclinei-me e prometi tudo fazer para que ele ficasse satisfeito
Otávia chora, mas não lhe dão importância;
conspurca
Eu bem desejaria poder consolá-la
necessitada de socorro
uma grande dose de devoção, de virtude, honra e sentimento e seu estado não lhe parecia, por isso, senão mais crue
jovem muito desavergonhada
. Infeliz como eu era, poderia estar eu apaixonada pela vida, quando a maior felicidade que me podia acontecer era deixá-la?
que a mão da Providência, cansada de me atormentar da mesma maneira, arrancou-me daquele novo abismo, para logo lançar-me num outro
como se a Providência se tivesse encarregado de me mostrar a inutilidade da virtude
Prometemos tudo o que ele queria
vamos destruir logo esta execrável devassidão, padre, ela revoltaria os que vivem no mundo e deixo-vos a imaginar o que poderia fazer quanto aos religiosos.
Então, esse padre nos perguntou o que queríamos. Cada uma de nós respondeu que queria voltar para seu país ou sua família.
Assim será, minhas filhas, disse o monge, e darei a cada uma de vós a quantia necessária para chegar à sua destinação. Mas é preciso que partais uma de cada vez, com dois dias de intervalo e que jamais reveleis nada do que se passou nesta casa.
Seu objetivo era o de que jamais fizéssemos qualquer queixa e estou bem certa de que, ao vos contar esta aventura, dela nada resultará de desagradável para a ordem daqueles padres
Meus primeiros cuidados foram ajoelhar-me e pedir a Deus novos perdoes pelas faltas involuntárias que cometera; fi-lo com mais devoção do que o fizera junto dos altares conspurcados da casa infame que eu abandonava com tanta alegria. Lágrimas de arrependimento correram-me pelo rosto.
mais o crime recompensado
“Que ele seja feliz, o perverso, que o seja pois a Providência o quer, e tu, desgraçada criatura, sofre sozinha, sofre sem te queixares, pois está escrito que as tribulações e os sofrimentos devem ser a partilha terrível da virtude”.
“Oh, céus, exclamei com amargor, será então impossível que uma ação virtuosa possa nascer-me no coração e que não seja logo punida com as desgraças mais cruéis para mim no universo?”
“Ai de mim, disse eu, eis aí um infeliz mais lamentável que eu; resta-me pelo menos a saúde e a força, posso ganhar a vida, e se ele não é rico, que o seja como eu, mais ei-lo estropiado pelo resto da vida. O que será dele.”
Mesmo que me devesse evitar tais sentimentos de comiseração, mesmo que eu viesse a ser cruelmente punida por isso, não pude resistir novamente a esses sentimentos. Aproximo-me do moribundo
e o que pode fazer para testemunhar sua gratidão. Tendo ainda o simplismo de crer que uma alma presa pelo reconhecimento devia ser minha para sempre, acreditei poder desfrutar com segurança o doce prazer de compartilhar minhas lágrimas com aquele que as vertera nos meus braços, conto-lhe todas as minhas aventuras
Agradeci humildemente ao meu proteto
uma inflexão mais ou menos pronunciada daqueles de quem dependemos, mata ou reanima a esperanç
mandou-me fazer o mesm
Dalville
Que entendes, diga-me, pelo sentimento de gratidão com que imaginas terme conquistado. Pensa melhor, criatura vil, que fazias tu quando me socorreste? Entre a possibilidade de seguires teu caminho e a de vires comigo, escolheste a última, como teu coração te inspirou. Pensavas então em alegrias? Por que diabos pensas que sou obrigado a te recompensar pelos prazeres que me deste e como te pode chegar à cabeça que um homem como eu, que nada no ouro e na opulência, um homem com mais de um milhão de renda, e pronto para ir a Veneza para desfrutar destas rendas à vontade, se digna aviltar-se e dever alguma coisa a uma miserável como tu?
Tivesses dado-me a vida, não te deveria nada, pois trabalhaste apenas para ti
Ao trabalho, escrava, ao trabalho. Aprende que a civilização, ao derrubar as instituições da natureza, não lhe roubou nenhum dos seus direitos. Ela criou seres fortes e seres fracos, sua intenção sempre foi a de que estes fossem subordinados àqueles, como o cordeiro sempre é subordinado ao leão, como o inseto ao elefante. A sagacidade e a inteligência do homem variam a posição do indivíduo; não é a força física que determina a posição, é a que ele adquire com suas riquezas. O homem mais rico torna-se o homem mais forte, o mais pobre passa a ser o mais fraco, mas isto, junto com os motivos que sustêm seu poder, a prioridade do forte sobre o fraco sempre esteve nas leis da natureza, que são iguais aos grilhões que prendem o fraco e que estão nas mãos do mais rico ou do mais forte, e pelas quais ela esmaga o mais fraco ou então o mais pobre.
“Mas estes sentimentos de gratidão que reclamas, Sofia, ela os ignora. Jamais esteve entre suas leis que o prazer a que um se entrega seja motivo para que aquele que o recebe relaxe seus direitos sobre o outro. Vês nos animais que nos servem exemplo desses sentimentos de que te gabas? Quando te domino pela minha riqueza ou pela minha força, será natural que eu te entregue meus direitos, ou por que tu mesma me serviste ou por que tua política mandou-te recompensares a ti mesma servindo-me?
Mas mesmo que o serviço fosse prestado de igual a igual, jamais o orgulho de uma alma elevada se deixará aviltar pela gratidão. Não é sempre o humilhado o que recebe do outro, e esta humilhação que ele sente não paga suficientemente ao outro o serviço que ele prestou — é um prazer para o orgulho elevar-se acima do seu semelhante, e se a obrigação, ao humilhar o orgulho daquele que a recebe, torna-se um fardo para ele, que direito se tem de obrigá-lo a suportá-lo? Por que devo consentir em deixar-me humilhar toda vez que olho para aquele a quem devo obrigações?
“A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas. O escravo a prega ao seu senhor porque tem necessidade dela, também o boi ou o asno a preconizariam se soubessem falar. Porém o mais forte, mais bem guiado pelas suas paixões e pela natureza, não se deve entregar a quem o serve ou a quem o adula. Que eles sirvam tanto quanto queiras, se isto lhes dá prazer, mas que jamais exijam nada em troca.
Por que devo consentir em deixar-me humilhar toda vez que olho para aquele a quem devo obrigações?
A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas
Todos eles me acabrunharam de tantos sarcasmos e impertinências sobre a marca desonrosa que trazia inocentemente no meu corpo desgraçado. Aproximaram-se de mim, tocaram-me em todo o corpo, fazendo gracejos cruéis e criticando tudo o que lhes oferecia a contragosto.
como recompensa pelos prazeres a ele dados, foram condenadas àquele trabalho humilhante
Não te peço nada… simplesmente pego o que desejo e não vejo nisso senão o uso de um direito que tenho sobre ti. Não há nada de amor no que faço, este é um sentimento que meu coração jamais conheceu. Sirvo-me de uma mulher por necessidade, como se serve de um vaso para uma necessidade diferente. Porém jamais dou àquele ser senão meu dinheiro ou minha autoridade a submete aos meus desejos; não há nem estima nem ternura, e não devo o que pego senão a mim mesmo e não exigindo dela senão a submissão. Não vejo por que ser-te grato por isso. Será o mesmo que dizer que o ladrão que arranca a bolsa de um homem numa floresta porque se julga mais forte que ele, lhe deve alguma gratidão pelo erro cometido. O mesmo é válido para o que se faz com uma mulher; pode ser um direito dele repeti-lo, mas jamais razão suficiente para recompensá-la por isso.
respondeu às minhas queixas com uma dúzia de bofetadas entremeadas com outras tantas pragas
Não te darei socorro algum, nem um escudo, respondeu duramente o perverso. Tudo o que sabe à esmola e caridade é coisa tão repugnante para o meu caráter que estivesse eu coberto de três vezes mais ouro, jamais pensaria em dar um tostão sequer a um mendigo. Tenho princípios sobre estas coisas e dos quais jamais me afastarei. O pobre faz parte da ordem natural das coisas; ao criar os homens com forças desiguais, a natureza nos convenceu do seu desejo de que esta desigualdade se conservasse mesmo nas mudanças que nossa civilização provoca nas suas leis.
É preciso que o tenha sido sempre, mas soube dominar minha sorte, soube espezinhar o fantasma da virtude que jamais conduz senão à forca ou ao hospital, soube ver logo que a religião, a beneficência e a humanidade se transformavam em obstáculos a todos os que visam alcançar a fortuna, e consolidei a minha sobre os escombros dos preconceitos do homem. Foi zombando das leis divinas e humanas, foi sacrificando sempre o fraco quando o encontrava no caminho, foi abusando da boa fé e da credulidade dos outros, arruinando o pobre e roubando o rico, que alcancei o templo escarpado da divindade a quem adorava. Por que não me imitaste? Tua fortuna estava nas tuas mãos, a virtude quimérica que preferiste àquela consolou-te dos sacrifícios que lhe fizeste? Não há mais tempo, desgraçada, não há mais tempo; chora as tuas faltas, sofre e trata de encontrares, se puderes, no seio dos fantasmas que adoras, o que a credulidade te fez perder.
Vai, disse-lhe ele queimando-lhe os miolos, vai levar notícias minhas para o outro mundo, vai dizer ao diabo que Dalville, o mais rico dos bandidos da terra, é aquele que desafia com maior insolência a mão do céu e a su
o infeliz Roland era honesto, era o que bastava para que ele fosse prontamente esmagado.
despertar um pouco de piedade do famoso magistrado, honra daquele tribunal, juiz íntegro, cidadão querido, filósofo esclarecido cuja beneficência e humanidade gravarão no tempo da memória o nome célebre e respeitável
Fraca, como de hábito, deixei-me conduzir até o quarto daquela mulher e contei-lhe todas as minhas desgraças.
Dubois
Um pouco mais de filosofia no mundo logo poria tudo no seu devido lugar e faria ver aos legisladores, aos magistrados, que estes vícios que eles acusam e castigam com tanto rigor, têm às vezes um grau de utilidade bem maior que essas virtudes que pregam sem jamais recompensá-las
como conseguirieis abafar o remorso que a cada momento nasceriam no meu coração
Nada mais fácil; só nos arrependemos daquilo que não estamos acostumados a fazer. Repete freqüentemente o que causa remorso e conseguirás eliminá-lo; enfrenta-o com o facho das paixões, com as leis poderosas do interesse e logo o terás dissipado. O remorso não prova o crime, mas indica somente uma alma fácil de subjugar. Se houver uma ordem absurda que te impeça de sair imediatamente deste quarto, tu não sairás daqui sem remorso, embora seja certo que não farás mal algum em sair.
Portanto, não é verdade que somente o crime é que causa remorso; convencendo-se da nulidade dos crimes ou da sua necessidade com relação ao plano geral da natureza, seria portanto possível vencer tão facilmente o remorso que se teria em cometê-los, como te seria fácil abafar aquele que nasceria da tua saída deste quarto após a ordem ilegal que terias recebido para aqui ficar. Ë preciso começar com uma análise exata de tudo o que os homens chamam de crime, começar por convencer-se que estes não passam de uma infração das suas leis e dos seus costumes nacionais, que eles assim caracterizam; o que chamamos de crime na França, deixa de sê-lo a algumas léguas dali, que não existe nenhuma ação que seja realmente considerada como um crime universalmente em toda a terra, e que, em conseqüência, nada no fundo merece razoavelmente o nome de crime, que tudo é uma questão de opinião e de geografia.
“Dito isto, é portanto absurdo querer se submeter à prática das virtudes que não passam de vícios em outros lugares, e a fugir de crimes que são boas ações em outros climas. Pergunto-te agora se este exame feito com reflexão pode causar remorso naquele que, por seu prazer ou por seu interesse, tenha cometido na França uma virtude da China ou do Japão que, todavia, a desonrará em sua pátria. Será que ele se deterá diante dessa vil distinção, e se for um pouco filosófico, será ele capaz de lhe causar remorso? Ora, o remorso só existe por causa da defesa, surge por causa do rompimento dos freios e não por causa da ação; será sensato deixá-lo subsistir em si, não será absurdo não eliminá-lo sem demora?
“Que a pessoa se acostume a considerar como indiferente a ação que provoca remorsos, que ela a julgue como tal pelo estudo ponderado dos modos e costumes de todas as nações da terra; em conseqüência desse raciocínio, que ela repita aquela ação, seja qual for, o mais freqüentemente possível, e o facho da razão logo destruirá o remorso, eliminará essa atitude tenebrosa, fruto apenas da ignorância, da pusilanimidade e da educação.
“Há trinta anos, Sofia, que uma seqüência perpétua de vícios e crimes me conduziu passo a passo rumo à fortuna, ei-la aqui; mais dois ou três golpes de sorte e passarei do estado de miséria e de mendicidade em que nasci para mais de cinqüenta mil libras de renda. Será que imaginas que nessa carreira brilhantemente percorrida, o remorso tivesse por um instante me feito sentir seus espinhos? Não o creias, jamais o conheci. Um revés terrível me precipitaria imediatamente do pináculo ao abismo e mesmo assim não o admitiria; eu me queixaria dos homens ou da minha inépcia, mas estaria sempre em paz com minha consciência.”
Seja, mas ponderemos um instante sobre vossos princípios de filosofia. Com que direito pretendeis exigir que minha consciência seja tão firme quanto a vossa, já que ela não está acostumada desde a infância a vencer os mesmos preconceitos; com que direito exigis que meu espírito, que não está organizado como o vosso, possa adotar os mesmos sistemas? Vós admitis que existe uma soma de males e de bens na natureza, e que, em conseqüência, é preciso que haja certa quantidade de seres que praticam o bem, e uma outra classe que se dedique ao mal. O partido que tomo, mesmo em vossos princípios, está, portanto, na natureza. Logo não exigis que eu me afaste das regras que ela me prescreve,
e como encontrais, assim o dizeis, a felicidade na carreira que seguis, também me seria impossível encontrá-la fora daquela que eu percorro. Não imaginais, ademais, que a vigilância das leis deixa em repouso por muito tempo àqueles que a infringem; não acabais de ver com vossos próprios olhos um exemplo disso? De quinze bandidos entre os quais tive a infelicidade de morar, um se salva e quatorze morrem ignominiosamente
E é isto que chamas de desgraça? Que importa, em primeiro lugar, essa ignominia a quem não tem mais princípios? Quando se infringiu tudo, quando a honra não passa de um preconceito, a reputação uma fantasia, o futuro uma ilusã
Creio que se existisse um deus, haveria menos males na terra; creio que se o mal existe na terra, ou estas desordens são exigidas por esse deus, ou então ele não tem forças para impedi-las; e não temo um deus que é apenas fraco ou perverso, enfrento-o sem medo e rio-me dos seus raios
Escutando somente a minha inclinação natural para fazer o bem, perguntei imediatamente à Dubois do que se tratava, para impedir com todas as minhas forças o crime que ela se preparava para conter.
Dubreuil
Senhora Bertrand
reverendo padre Antonin, agora guardião das recoletas daquela cidade, carrasco da minha virgindad
convento de Sainte Marie des Boi
tratar-se de um incêndi
Nesse instante lembro-me que a Bertrand, mais ocupada em salvar-se do que a sua filha, não pensara em salvá-la. Sem nada dizer-lhe corro para dentro do nosso quarto, em meio às chamas que me cegam e queimam-me várias partes do corpo, agarro a pobre criaturinha e corro a levá-la para sua mãe. Mas ao apoiarme sobre uma trave meio queimada, falta-me o pé e meu primeiro movimento é estender as mãos. Esse impulso da natureza me deixa cair o fardo precioso que seguro e a infeliz criança cai nas chamas aos olhos da mãe. Aquela mulher injusta, sem pensar no começo da minha ação para salvar sua filha, nem na maneira como ocorrera a queda, vem atacar-me, desvairada pela dor, atirando-se impetuosamente contra mim, acusando-me da morte da filha e cobrindo-me de socos que, no estado que estava, não podia evitar.
, acusa-me em altos gritos de ter sido a causadora do incêndio e de tê-lo provocado apenas para roubá-la mais à vontade; disse que ia denunciar-me e passando da ameaça ao ato, pede para falar com o juiz da cidade
Acostumada há muito tempo com a calúnia, a injustiça e a desgraça
Um usurário na minha infância quer obrigar-me a cometer um roubo; recuso e ele fica rico, enquanto eu fico às vésperas de ser enforcada. Ladrões querem violar-me no bosque porque não desejo acompanhálos, eles prosperam e eu caio nas mãos de um marquês devasso que me dá cem chibatadas com nervo de boi por não querer envenenar sua mãe. Dali vou parar na casa de um médico a quem salvo de cometer um crime execrável; o carrasco, para recompensar-me, me mutila, me marca e manda embora. Seus crimes se realizam, sem dúvida, ele faz fortuna e eu sou obrigada a mendigar meu pão. Quero aproximar-me dos sacramentos, quero implorar fervorosamente ao ser supremo que me envia tantas desgraças, o augusto tribunal onde espero purificar-me num dos mais santos dos nossos mistérios, torna-se o mais terrível teatro da minha desonra e da minha infâmia. O monstro que abusa de mim e que me desonra, recebe sem demora as maiores honrarias enquanto eu caio novamente nos abismos horríveis da minha miséria. Quero ajudar um pobre, e ele me rouba. Ajudo um homem desfalecido, o perverso faz-me girar uma roda como besta de carga. Esmaga-me com chicotadas quando as forças me faltam, todos os favores da sorte lhe são dados e estou prestes a perder a vida por ter trabalhado à força para ele. Uma mulher indigna quer seduzir-me para um novo crime e torno a perder os poucos bens que possuo para salvar a fortuna de sua vítima e para evitar sua desgraça. O infeliz quer recompensar-me dando-me seu nome e expira nos meus braços antes que possa fazê-lo. Exponho-me a um incêndio para salvar uma criança que não é nada minha e eis-me pela terceira vez sob o gládio da Têmis. Imploro a proteção de um desgraçado que me desonrou, ouso esperar que ele se sensibilize com o excesso dos meus infortúnios e novamente ao preço da minha desonra é que o bárbaro me oferece ajuda. Oh, Providência, será que eu sou obrigada por fim a duvidar da tua justiça? Que outros flagelos maiores ter-seiam abatido sobre mim se, a exemplo dos meus perseguidores, eu tivesse sempre adulado o vício?”
só conheceu os homens apenas para odiá-los
Durante muitos dias derramou lágrimas bem doces no seio dos seus protetores, quando de repente seu estado de espírito mudou sem que fosse possível saber por quê. Tornou-se sombria, inquieta, pensativa e às vezes chorava sem que ela mesma pudesse explicar o motivo das suas lágrimas.
Não nasci para tanta felicidade, dizia ela às vezes para a Senhora de Lorsange… Oh, minha querida irmã, é impossível que ela possa durar.
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Resumo
Juliette e Justine são duas jovem francesas desamparadas. O pai fugira para a Inglaterra e a mãe, morreu tempos depois, devido a enorme tristeza motivada pelo abandono do seu parceiro. O destino foi o mestre que criou as meninas. Com pouco dinheiro para se sustentarem, logo o convento lhes fecha as portas. Com 100 escudos (moeda), cada uma parte para caminhos separados.
“É porque só se gosta das pessoas por causa da ajuda ou dos agrados que se imagina que possa vir a receber” (Justine).
Juliette conheceu uma senhora prostituta que lhe ensinou como usar seu corpo para obter dinheiro fácil e ofereceu uma oportunidade de sobreviver a vida. Logo, casou-se com o Conde de Lorsange e tratou de matá-lo para logo desfrutar de seu dinheiro. Cometeu três infanticídios ao longo da vida e outros crimes.
Já Justine, preferindo viver honestamente sem vender sua virtude, resolve pedir ajuda a um padre, que tenta molestá-la.
“Quanto a desgraça que atormenta a virtude, o infeliz a quem a sorte persegue tem o consolo da sua consciência, e os prazeres secretos que colhe da sua pureza, logo o compensam da injustiça do homem” (Narrador).
Logo a história nos leva para o futuro: uma jovem acusada de crimes como assassinato, roubo e incêndio, vive com o senhor de Conville e sua esposa. Na presença daqueles nobres cidadãos, a jovem que oculta seu nome, resolve contar-lhe suas desgraças, narrando pois, sua vida.
“Esta virtude da qual fazeis tanto luxo de falar não serviu para nada neste mundo e fareis bem em entregá-la a alguém quando não tiverdes sequer um copo d’água para beber” (senhor Dubourg).
Mendigando pelos cantos, Justine é acolhida por um velho avarento chamando Du Harpin e sua amante. É encarregada de realizar os trabalhos domésticos.
“Já estava escrito na página dos meus destinos que cada uma das minhas ações honestas para onde meu caráter me levasse, deveria ser paga com uma desgraça” (Justine).
O patrão logo manda prender Justine acusando-a de roubo, sendo que os verdadeiros culpados sãos os próprios patrões da jovem.
“Aqui, acredita-se que a virtude é incompatível com a miséria, e nos tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado” (Justine).
Na prisão conhece uma ladra chamada Dubois que juntamente com seus comparsas, incendeia o local. Ela oferece ajuda a Justine, e quando a menina desconfia de Dubois, a mesma a obriga a seguir em sua vida de crimes, à medida que pressiona os delinquentes de seu bando a estuprar Justine. Aproveitando-se de um briga para ver quem primeiro estupra Justine, ela aproveita e foge.
Justine presencia no bosque a relação sexual de dois homens: o jovem Adonis Bressac e seu criado Jasmin. O jovem, temendo que Justine contasse o que viu, a leva para casa antes de ameaçá-la caso se atreva a dizer a verdade. Justine confia na senhora Bressac, que promete ajudá-la em seus problemas judiciais (o roubo e incêndio na prisão). Levando uma vida como criada, Justine ousa sonhar com o amor: está apaixonada por Adonis. Contudo, o jovem planeja atentar contra a vida de sua mãe e pede que Justine o ajuda. A mesma concorda em ser sua cúmplice, com medo de suas ameaças, mas conta tudo a condessa que fica horrorizada com o que o filho planejava.
“Mas estava escrito no céu que esse crime abominável seria executado e que a virtude humilhada cederia aos esforços da perversidade” (Justine).
Mesmo alertada da trama a condessa morre envenenada pelo filho e Justine é culpada por não ter participado do crime por Adonis. Ele a leva ao bosque e lá confessa que soubera que a jovem contou a condessa o seu plano, e a castiga fisicamente, dando chicotadas violentas. Quando percebe os suspiros fracos da jovem, diz que todos do castelo sabem que foi ela quem envenenara a condessa e aconselha que Justine fuja pois o seu processo criminal não fora nulo e sim acrescentado mais um crime: assassinato.
Chegando em uma aldeia, bastante debilitada, um médico ajuda a curar suas feridas. Justine passou dois anos vivendo na casa do médico, até que um dia, escuta um choro de menina no porão, e suspeitando das maldades do doutor, liberta a garotinha. Sem tempo para fugir, é surpreendida pelo médico, que a tortura e marca suas costas a ferro. Depois, deixa Justine na floresta. Aos 22 anos de idade, Justine só viu um mundo injusto e cruel.
“Doce solidão (…) como tua morada me causa inveja” (Justine).
Confiando na santidade de religiosos, ela se dirige ao Convento de Recoletos, onde é estuprada por quatro padres, perdendo pois sua virtude (sua virgindade), seu maior bem.
“Eu provei num tal grau de violência que as dores da dilaceração de minha virgindade foram as menores que tive que suportar naquele perigoso ataque” (Justine)
Ali, a moça torna-se prisioneira das depravações dos religiosos (para mim, as depravações sexuais dos padres, tem muita intertextualidade com as do próprio marques de Sade).
“A religião é para mim o efeito do sentimento e tudo que a ofende ou ultraje faz sangrar meu coração” (Justine).
Mesmo em tal provação, Justine sempre vale da religião como uma esperança diante da crueldade da vida e das pessoas que sempre utilizam-se da fraquezas de certas pessoas, para sua ascensão social ou sexual. Os anos passam e com a chegada de dois novos padres, as moças ou prisioneiras sexuais são libertas, sob a ameaça de um sigilo absoluto de tudo que lá viveram.
“E tu, desgraçada criatura, sofre sozinha, sofre sem te queixar, pois está escrito que as tribulações e os sofrimentos devem ser a partilha terrível da virtude” (Justine).
No caminho fora de Lyon, conhece Dalville que se encontrava muito machucado. Ela o ajuda e ele oferece um abrigo para a jovem. Dizendo morar com a esposa e que precisava de uma criada, seduz Justine rumo a mais uma prisão: um falsário, onde fora proposto “trabalhar em uma cisterna onde mais duas mulheres nuas e agrilhoadas, moviam a roda que despejava água num reservatório” (p. 91).
“A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas dos fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas” (Dalville).
Como prova de sua superioridade, Dalville chicoteia Justine, sem motivo algum.
“Portanto, o homem é naturalmente mau, ele está no delírio das suas paixões quase sempre como na sua calma, e em todos os casos, os males do seu semelhante podem ser prazeres execráveis para ele” (Justine).
Já rico com suas trapaças, Dalville vai embora, deixando um substituto nos negócios: Roland, um homem aparentemente bom, que liberta as jovens daquele humilhante trabalho e lhe emprega na oficina de cunhagem de moedas. Contudo, a polícia logo chega ao local e prende a todos, levando-os para Grenoble.
O magistrado ouve a história de Justine e não permite que ela vá para a forca. Instala a jovem em um albergue e avisa que já está livre de todas as suas supostas culpas. Reconhece naquele lugar a ladra Dubois, que agora já é condessa. A mesma planeja roubar um comerciante que está encantado com Justine e pede a ajuda da jovem. Sabendo que Justine iria alertar o senhor Dubrevil, homem digno que promete casar-se com Justine, a ladra/condessa envenena o comerciante. O amigo do comerciante acredita nas palavras de Justine e recomenda que a mesma siga a senhora Bertrand.
Alojada em um albergue em Villefranche, ocorre um incêndio. Na tentativa de salvar a vida da filha de Bertrand, Justine escorrega e acaba deixando a criança cair nas chamas. Notando que também fora roubada, a senhora Bertrand acusa Justine. Testemunhas acabam confessando ter visto Justine em várias cenas dos crimes descritos.
“Sabereis morrer inocente e pelo menos sem remorso” (Justine)
No final da narrativa, Justine que omitira seu verdadeiro nome, usando o nome de Sofia, diz ser Justine. A senhora de Lorsarge, trata-se pois de sua irmã Juliette. As duas se abraçam e choram bastante. O senhor de Corville, amante de Juliette, promete ajudar Justine. Escreve uma carta que chega nas mãos do rei que com a ajuda de um advogado (o mesmo que encaminha Justine ao albergue assim que o magistrado lhe absorve de seus crimes, antes de conhecer a senhora Bertrand e dos infelizes acontecimentos) inocentam a jovem.
Mesmo feliz, Justine não acredita nesse momento feliz, sentindo que a qualquer momento a sombra da infelicidade baterá a sua porta. Em um dia tempestuoso, ela é atingida por um raio e morre. Com esse acontecimento, Juliette se arrepende de todos os seus crimes do passado e abandona o senhor Corville. Pede perdão a providência e ingressa no Convento das Carmelitas.
“Oh, vós que ledes esta história, possai tirar dela o mesmo proveito daquela mulher mundana e corrigida; possais convencer-vos com ela que a verdadeira felicidade está somente no seio da virtude, e que se Deus quer que ela seja perseguida na Terra, é para preparar no céu a mais faustosa recompensa” (Narrador).
https://ladyblackraven.blogspot.com/2015/06/resenha-do-livro-justine-de-marques-de.html?m=1
Juliette
Resumo
Juliette is raised in a convent. However, at age thirteen she is seduced by a woman who immediately explains that morality, religion and other such concepts are meaningless. There are plenty of similar philosophical musings during the book, all attacking the ideas of God, morals, remorse, love, etc., the overall conclusion being that the only aim in life is “to enjoy oneself at no matter whose expense.” Juliette takes this to the extreme and manages to murder her way through numerous people, including various family members and friends.
During Juliette’s life from age 13 to about 30, the wanton anti-heroine engages in virtually every form of depravity and encounters a series of like-minded libertines. She befriends the ferocious Clairwil, whose main passion is the murder of boys and young men, as revenge for the general brutality of men toward women. She meets Saint Fond, a 50-year-old multi-millionaire who murders his father, commits incest with his daughter, tortures young girls to death on a daily basis, and even plots an ambitious scheme to provoke a famine that will wipe out half the population of France. She also becomes acquainted with Minski, a gigantic ogre-like Muscovite who delights in raping and torturing young boys and girls to death before eating them.
Contos Libertinos
Marquês de Sade
jogava bem amiúde o jogo de damas com o padre Gabriel que, cortejador astuto e amável, sabia que é preciso adular um pouco o marido de cuja mulher se deseja possuir.
Gabriel mostrara à sua encantadora amante uma dessas coisas que fazem com que uma mulher se decida, por mais que hesite… só faltava, portanto, a ocasião.
vesti meu hábito, esperai soar a décima primeira hora; então celebrai a missa, suplico-vos; nosso irmão sacristão é um bom diabo, e nunca nos trairá; àqueles que julgarem não me reconhecer, dir-lhes-emos que é um novo monge, quanto aos outros, os deixaremos em erro; correrei ao encontro de Renoult, esse velhaco, darei cabo dele ou recuperarei meu dinheiro, estando de volta em duas horas. O senhor me aguardará, ordenará que grelhem os linguados, preparem os ovos e busquem o vinho; na volta, almoçaremos, e a caça… sim, meu amigo, a caça creio que há de ser boa dessa vez: segundo se disse, viu-se pelas redondezas um animal de chifres, por Deus. Quero que o agarremos, ainda que tenhamos de nos defender de vinte processos do senhor da região.
Essas palavras são virtuosas apenas em nossa boca, mas também esta é virtuosa em nós… reparai, meu amigo, que se eu pronunciasse tais palavras deitado em cima de vossa mulher, ainda assim eu havia de metamorfosear em deus o templo onde sacrificais… Não, não, meu caro; só nós possuímos a virtude da transubstanciação; pronunciaríeis vinte mil vezes as palavras, e nunca faríeis descer algo dos céus; ademais, bem amiúde conosco a cerimônia fracassa por completo; e, aqui, é a fé que faz tudo; com um pouco de fé transportaríamos montanhas, vós sabeis, Jesus Cristo o disse, mas quem não tem fé nada faz… eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimônia penso mais nas moças ou nas mulheres da assembleia do que no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos, acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será, portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.
fiz de seu marido um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino, apressemo-nos em levar a cabo um profano…
mister
este havia celebrado a missa tão bem quanto um bispo.
Bernac - esse era o seu nom
srta. Lurci
a jovem mulher, na postura de uma menina que merece um corretivo, se prestava então por quinze ou vinte minutos, mais ou menos, aos caprichos bestiais do velho esposo
O que parecia de início apenas um divertimento, tornou-se pouco a pouco um verdadeiro tormento; essa srta. Lurcie não podia mais suportar isso, seu coração se exasperava, e ela sonhava o tempo todo com vingança. Via pouquíssimas pessoas; o marido a isolava tanto quanto possível.
A srta. Lurcie deitara os olhos nesse parente para se libertar da escravidão na qual vivia: ouvia diariamente as belas palavras do primo, e, por fim, revelou-se por completo a ele, tudo lhe confessando.
Vingai-me desse homem vil - disse-lhe -, e fazei isso por meio de uma cena que o impressione o bastante para ele próprio jamais ousar falar dela a alguém: o dia em que obtiverdes êxito há de ser o dia de vossa glória; apenas a esse preço serei voss
d’Aldour
Devíeis querer tal coisa - diz o homem, irritado no momento em que se vê a sós com sua mulher -, bem sabeis que absolutamente não me preocupo com tudo isso; saberei como dar fim a todos esses vossos desejos, e previno-vos de que em pouco tempo planejo isolar-vos numa de minhas terras, onde não vereis ninguém mais além de mim.
pagareis caro pelo desejo que demonstraste
satisfaz-se, dorme tranquil
libação
Era o sinal: no mesmo instante, nossas quatro malandras saltam sobre Bernac, armadas cada uma de um punhado de varas; retiram-lhe as calças, duas delas o imobilizam, e as outras duas se alternam para fustigá-lo e enquanto o molestam vigorosamente:
— Meu caro primo - exclama d’Aldour -, não vos disse ontem que seríeis servido a contento? Não imaginei nada melhor para agradar-vos do que devolver-vos o que dais todos os dias a essa encantadora mulher; vós não sois bastante bárbaro para fazer-lhe uma coisa que não gostaríeis de receber; assim, orgulho-me de fazer-vos minha corte; falta ainda uma circunstância, portanto, à cerimônia; minha prima, segundo dizem, embora há muito esteja ao vosso lado, ainda é tão virgem como se vós tivésseis vos casado apenas ontem; tal abandono de vossa parte provém unicamente da ignorância, seguramente; garanto que é por que não sabeis como proceder… vou mostrar-vos, meu amigo.
Ao dizer isso, tendo ao fundo uma agradável música, o homem fogoso deita sua prima na cama e a torna mulher aos olhos de seu indigno esposo… Só nesse momento termina a cerimônia.
Bernac, confuso, reconhece seus erros, não inventa mais sofismas para legitimá-los, lança-se aos joelhos de sua mulher para rogar seu perdão: Lurcie, terna e generosa, o levanta e abraça, ambos retornam a sua casa, e não sei que meios utilizou Bernac, mas desde esse dia, nunca a capital viu casal mais unido, amigos mais ternos e esposos mais virtuosos.
Sernenval
uma pudicícia insuportáve
Desportes
Pelos céus, - Sernenval transtorna-se quando reconhece sua mulher - é ela… é essa pudica que, não ousando descer dos seus aposentos por pudor diante de um amigo de seu esposo, tem a impudência de vir se prostituir em tal casa. - Miserável. exclama, furioso…
todos os prazeres que lhe proibiam as rigorosas lei
Dolmène
Des-Roues
Dolbreuse
gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem assim muito próximos um do outro: a chama da imaginação não se apagav
dois amantes valiam muito mais do que um; com respeito à reputação, era quase a mesma coisa, um encobria o outro; poderiam se equivocar, poderia ser sempre o mesmo a entrar e sair várias vezes durante o dia, e com relação ao prazer, que diferença.
A sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:
— Que diabo tens tu, - diz ela ao segundo Adônis - sem deixar de se entregar ao outro - não vejo nisso nada que te cause muito pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.
Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir-se do sangue-frio de sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com isso.
fornecer aos devassos objetos necessários ao alimento de suas paixõe
irmã Petronill
sr. Esclaponville
já fazia dez anos que com ela dormia e um hábito de dez anos é bem prejudicial ao fogo do himeneu
casta como sua mãe, que vivera oitenta e três anos com o mesmo homem sem o trair
- Purifica-se a alma em tão santo romance
abade du Bosquet
fazendo da testa de todos os esposos de Saint-Quentin, verdadeira floresta
, eu bem poderia matar esse maldito padre, e acabariam fazendo com que eu pagasse mais do que ele vale
— Mas, meu amigo, eu segui teus conselhos; não me dissestes que nada se arrisca quando se dorme com pessoas da Igreja? Que depuramos nossa alma em tão santo romance? Que tal ato equivalia a identificar-se ao Ser supremo, fazer entrar o Espírito Santo em si, e abrir caminho, em resumo, à beatitude celeste… pois bem, meu filho, só fiz o que me disseste; sou, portanto, uma santa, não uma meretriz. Ah. Respondo-te que se a alguma dessas boas almas de Deus é dado um meio de abrir caminho, como disseste, à beatitude celeste, esse meio é certamente o sr. vigário, pois nunca vi uma chave tão grande.
abade Du Parque
jovem conde de Nerceui
energúmeno
O complacente abade, a quem tal cena diverte tanto quanto a seu aluno, manda trazer de volta a jovem, e a lição recomeça, mas desta vez, o abade particularmente emocionado com a deliciosa visão que lhe apresentava o belo pequeno de Nerceuil consubstanciando-se com sua companheira, não pôde evitar colocar-se como o terceiro na explicação da parábola evangélica, e as belezas por que suas mãos haviam de deslizar para tanto acabaram inflamando-o totalmente.
Por Deus. - diz o abade, balbuciando de prazer - não vês, caro amigo, que te ensino tudo ao mesmo tempo? É a trindade, meu filho… é a trindade que hoje te explico; mais cinco ou seis lições iguais a esta e serás doutor na Sorbornne.
Um dos maiores defeitos das pessoas mal-educadas é expor uma porção de indiscrições, maledicências ou calúnias sobre tudo o que respira, e isso diante das pessoas que não conhecem
sr. Ranevill
, essa pitada de sal do adultério acrescenta com frequência grande sabor a um gozo
libertino
himeneu
se o acaso nos tivesse unido
que poderia desempenhar um papel importante em suas terras, consente vir se humilhar em antecâmaras, adular de modo vil porteiros, ou mendigar humildemente uma refeição pior do que a sua para alguns desses indivíduos que a sorte arranca, por uns momentos, às nuvens do esquecimento, a fim de os recolocar lá pouco depois.
Dutour
Mas uma mulher…
— … É um indivíduo que pode interessar quando dela nos servimo
com quem passais vosso tempo, senhor, eu vos pergunto?
a felicidade que se experimenta sozinho me parece insípida; só encontro satisfação junto à outra pessoa com quem compartilho.
. os olhos algumas vezes nos enganam; minha opinião é a de que, em matéria de volúpia, é preciso valer-se de todos os sentidos.
E Dutour com a mão afastava delicadamente o amigo, como que para deixá-lo a sós com essa mulher.
— Oh. para deixar-vos, não, não posso - diz Raneville -, mas sois, assim, tão escrupuloso que não podeis vos contentar com minha presença? Entre homens não se age absolutamente desse modo: de resto, são minhas condições; ou diante de mim, ou nada.
Esse infeliz Raneville que haveis tratado tão mal em Orléans… sou eu mesmo, senhor; como vedes, eu o retribuo a vós em Paris; de resto, aqui estais, bem mais avançado do que poderíeis crer; pensáveis ter feito corno de mim e acabais de fazê-lo de vós mesmo.
vivamos felizes os quatro, e que as vítimas do destino não se tornem as dos homen
pseudofilósofos que tudo querem analisar sem nunca compreender alg
srta. Villeblanch
que se permitisse a cada qual agir segundo a própria vontade … ? O que se pode temer dessa depravação? Aos olhos de todo ser verdadeiramente sábio, parecerá que ela é capaz de exercer influência sobre maiores depravações, mas nunca me convencerão de que ela pode acarretar depravações perigosas…
Pelos céus. receia-se que os caprichos dessas pessoas, de um ou de outro sexo, sejam a causa do fim do mundo; que ponham em risco a valiosa espécie humana, e que seu pretenso crime a aniquile, por não se entregarem à sua multiplicação? Refleti bem sobre isso, e vereis que todas essas perdas quiméricas são inteiramente indiferentes à natureza; que não apenas ela não as condena em absoluto, mas também prova a nós, de mil maneiras, que as quer e deseja; e, contrariassem-na essas perdas, ela haveria de as tolerar em mil casos; permitiria ela, fosse-lhe a progenitura tão essencial, que uma mulher a isso não pudesse servir senão durante um terço de sua vida, e que, ao sair-lhe das mãos metade dos seres que ela gera, estes tivessem inclinações contrárias a essa progênie, exigida, todavia, por ela? Sendo mais preciso: ela permite que as espécies se multipliquem, mas não exige isso de modo algum, e, bem segura de que haverá sempre mais indivíduos do que lhe é necessário, longe está de contrariar Os pendores de quantos não se entregam à reprodução, e que se recusam a conformar-se a isso. Ah. deixemos que aja essa boa mãe; convençamo-nos de que imensos são os seus recursos, de que nada do que fazemos a ultraja e o crime que atentaria contra as suas leis jamais nos há de sujar as mãos.
a srta. Villeblanche detestava os homens, e de todo se entregava àquilo que ouvidos castos entenderão com o termo safismo; não encontrava volúpia senão nas pessoas de seu sexo, e só com as Graças se compensava do desprezo que votava ao Amor.
— A maior de todas as loucuras - dizia ela - é enrubescer por causa de nossas inclinações naturais; e zombar de qualquer indivíduo que possua gostos singulares é absolutamente tão desumano quanto escarnecer de um homem ou de uma mulher saída zarolha ou coxa do seio de sua mãe; mas convencer os tolos sobre esses princípios racionais é tentar impedir o movimento dos astro
, é tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer.
Assim pensava a srta. Villeblanche; decidida de maneira muito segura a nunca se reprimir, desdenhando as maledicências e bastante rica para manter-se a si própria acima de sua reputação, visava epicurianamente a uma vida voluptuosa, e de maneira nenhuma a beatices celestiais em que acreditava muito pouco, para não mencionar a ideia de uma imortalidade, por demais quimérica aos seus sentidos; no centro de um pequeno círculo de mulheres que pensavam como ela, a cara Augustine entregava-se inocentemente a todos os prazeres que a deleitavam.
quando o trajavam de mulher, ficava tão bem que sempre enganava os dois sexos, e recebia amiúde, fugindo ao assédio de uns, dos que demonstravam segurança em sua ação, uma grande quantidade de declarações tão objetivas que no mesmo dia seria capaz de se tornar o Antínomo de algum Adriano ou o Adônis de alguma Psique.
Franville
Um dos maiores prazeres de Augustine era, durante o carnaval, vestir-se de homem, e participar de todos os bailes com esse disfarce, tão análogo a suas inclinações
— Quem é aquela bela moça? - diz a srta. Villeblanche a uma amiga que a acompanhava - … creio nunca tê-la visto; como é possível que tão deliciosa criatura tenha, pois, nos escapado?
teve o cuidado de a conduzir a um aposento muito isolado, do qual, por meio de acordos acertados com os organizadores do baile, ela sempre tinha o cuidado de se fazer senhora.
Franville faz o papel da mulher que ced
tanto trabalho para encontrar um mísero homem… é preciso ter azar demais.
foi bastante hábil para fazer da mais libertina das moças a mais sábia e a mais virtuosa das mulheres.
—
Reading books with ReadEra
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A filosofia na alcova, ou, Os preceptores imorais
Marquês de Sade (Highlight: 175; Note: 0.
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PRIMEIRO DIÁLOGO
Sr. Dolmancé
Aos vinte e seis anos já deveria ser devota, mas não passo da mais devassa das mulheres… Não se faz ideia do que posso conceber e de tudo o que seria capaz. Imaginava que me apegando às mulheres, eu teria juízo; que meus desejos, concentrados em meu sexo, não se expandiriam para o vosso.
gosto de tudo, tudo me diverte; quero reunir todos os gêneros
ser a vítima de seus erros
pago para me tratar dessa forma
Hoje, não é mais complacência ou capricho que me determinam, mas unicamente o gosto… Vejo uma inconcebível diferença no modo como até aqui me submeti e como de agora em diante irei me submeter a essa estranha mania e quero conhecê-la
Dolmancé, minha irmã, acaba de completar trinta e seis anos. É alto, dono de uma bela figura, olhos muito vivos e espirituais, mas, apesar disso, um quê de maldade e dureza transparece em seus traços; tem os dentes mais belos do mundo, um gingado na cintura e no andar, sem dúvida por assumir com frequência ares femininos. É de uma extrema elegância, possui voz bonita, talentos e, sobretudo, muita filosofia no espírito.
É o mais célebre ateu, o mais imoral dos homens… e da mais extrema e completa corrupção, o indivíduo mais celerado e cruel que possa haver no mundo.
Sujar-se… Precauções… Amo loucamente a linguagem dessa gente amável. Entre nós, mulheres, também temos palavras exclusivas que provam, como essas, o profundo horror que sentimos por tudo o que não diz respeito ao culto admitido. Ah, querido, conta-me, ele já te possuiu? Com esse teu tipo delicioso e teus vinte anos pode-se facilmente cativar um homem assim.
Ah, meu amigo, beija-me. Não serias meu irmão se pensasses de outro modo; suplico-te mais detalhes do físico deste homem e de seus prazeres contigo.
Um belíssimo cu virou-se para mim e alguém suplicou-me para desfrutá-lo; então compreendi que esse gosto era o verdadeiro motivo do exame.
ele quer ser dilacerado… rachado ao meio…” “Pois será satisfeito.”
Vês o estado em que me deixaste, querido cavaleiro?”
devolvendo-me ao cêntuplo os solavancos com que eu maltratava o terceiro, logo exalou no fundo do meu cu este licor fascinante com que quase ao mesmo tempo reguei o de V
Que prazer enorme deves ter sentido, meu irmão, ficando entre os dois… dizem ser encantador…
Trata-se de uma educação; é uma garota que conheci no convento o outono passado, enquanto meu marido estava numa estação de águas. Não pudemos fazer nada lá, e nem poderíamos ousá-lo com tantos olhos fixos sobre nós; mas prometemos mutuamente nos reunir assim que fosse possível. Dominada por este desejo, travei conhecimento com sua família para poder satisfazê-lo. Seu pai é um libertino… que logo cativei. Enfim, a bela está para chegar; estou aguardando-a. Passaremos dois dias juntas… dois dias deliciosos.
Como vou mesclar prática e teoria e demonstrar à medida que formos dissertando, meu caro irmão, destinei-te a colheita dos mirtos de Citera, e a Dolmancé a das rosas de Sodoma.
Que prazer terás educando esta criança. Como será delicioso corrompê-la, abafar num coração juvenil as sementes de virtude e de religião que suas preceptoras lhe incutiram. Na verdade, é devassidão demais para mim.
Quero, com duas lições, torná-la tão celerada quanto eu… tão ímpia… tão debochada
É assim que devem ser para que sejam seguros.
preencha melhor a imaginação
como seus grandes olhos me revelaram o estado de sua alma.
TERCEIRO DIÁLOGO
conduzir-te na carreira da felicidade e dos prazeres que percorreremos juntas.
Não o conheço mais do que tu, mas olha como me entrego a ele. (Beija-o lubricamente na boca.) Imita-me.
Certos homens, após alguns movimentos, derramam aí mesmo o bálsamo delicioso da vida, cujo escoamento faz a felicidade dos libertinos
Uma linda jovem deve ocupar-se apenas em foder e jamais em gerar. Contornaremos tudo o que se refere ao mecanismo vulgar da reprodução,11 para nos ater única e exclusivamente às volúpias libertinas, cujo espírito de modo nenhum é reprodutor.
Quer a introdução se faça pela frente ou por trás, se a mulher não está acostumada, ela sempre sente dor. Agrada à natureza só nos fazer chegar ao prazer mediante o sofrimento. Mas, uma vez vencida a dor, nada poderá se igualar aos prazeres que gozamos. E o que sentimos na introdução do membro em nosso cu é incontestavelmente preferível a todos os prazeres que proporcionam uma introdução pela frente. Quantos perigos, aliás, a mulher não evita deste modo. Menos riscos para a saúde e nenhum para a gravidez.
Masturbar-se, minha amiga… se dar prazer. Mas agora mudemos de posição
Estou aqui
abandonai vossos sentidos ao prazer. Que seja ele o único deus de vossa existência; a ele apenas uma jovem deve sacrificar tudo, e nada, a seus olhos, deve ser mais sagrado, que o prazer.
Como esporra a safadinha… Seu ânus vai cortar meus dedos de tanto que aperta… Como seria delicioso enrabá-la nesse instante. (Levanta-se e aproxima o pau do cu da mocinha.)
Teu grelo é um encanto, Eugénie. Como é bom beijar esta penugem… Vejo agora melhor teu clitóris, ainda pouco desenvolvido, mas já bastante sensível… Como te mexes bem.
Seguramente, embora esteja comprovado que o feto só deve sua existência à porra do homem; se lançada sozinha, sem se misturar à da mulher, ela não triunfaria; mas a que fornecemos só faz elaborar, nada cria; ajuda na criação, sem ser sua causa. Vários naturalistas modernos até afirmam que ela é inútil; de onde os moralistas, sempre guiados por essa descoberta, terem concluído, com muita verossimilhança, que neste caso a criança, uma vez formada pelo sangue do pai, só deva sentir ternura por ele. Tal asserção parece-me plausível, e, embora eu seja mulher, não ousarei combatê-la.
Essa predileção não me espanta; penso da mesma forma. Ainda não me consolei da morte de meu pai, e quando perdi minha mãe soltei até rojão…16 Detestava-a cordialmente. Adotai sem medo os mesmos sentimentos, Eugénie; eles se encontram na natureza. Formados unicamente do sangue de nossos pais, não devemos absolutamente nada a nossas mães. Aliás, elas só se prestaram ao ato, enquanto nossos pais o solicitaram. Logo, o pai queria que nascêssemos, enquanto a mãe não fez mais do que consenti-lo. Que diferença de sentimentos.
desfalecendo. - Eu morro, santíssimo… Dolmancé, como gosto de pegar teu belo pau enquanto esporro… Gostaria que ele me inundasse de porra… Agitai… Chupai-me… Deus fodido… Como gosto de bancar a puta quando meu esperma jorra assim… Foi o fim, já não podia mais… Vós me arrasastes, ambos… Acho que jamais tive tanto prazer.
entendes pela expressão puta? Perdoa-me, mas, como sabes, estou aqui para ser instruída.
SAINT-ANGE - Lindinha, chama-se deste modo as vítimas públicas do deboche dos homens, sempre prontas a se entregar ao temperamento deles ou ao seu interesse. São felizes e respeitáveis criaturas que a opinião difama, mas a volúpia coroa; e que, bem mais necessárias à sociedade do que as recatadas, têm a coragem de sacrificar, para servi-la, a consideração que esta sociedade ousa lhes tirar injustamente. Vivam as que se sentem honradas com esse título. Eis as mulheres verdadeiramente amáveis, as únicas filósofas de verdade. Quanto a mim, minha cara, que há doze anos trabalho para merecê-lo, asseguro-te que, longe de me escandalizar, ele muito me diverte. Ou melhor: adoro que me chamem assim quando me fodem. Esta ofensa ferve-me a cabeça.
renuncia às virtudes, Eugénie. Haverá algum sacrifício feito a essas falsas divindades que valha um só minuto dos prazeres que sentimos ultrajando-as? Ora, a virtude não passa de uma quimera cujo culto consiste em imolações perpétuas, em inúmeras revoltas contra as inspirações do temperamento. Serão naturais tais movimentos? Aconselhará a natureza o que a ultraja?
pode crer na religião
Pois bem. Se está demonstrado que o homem só deve sua existência aos planos irresistíveis da natureza; se está provado que tão antigo neste globo quanto o próprio globo, ele não passa, como o carvalho, o leão e os minerais que se encontram nas entranhas desse globo, de apenas uma produção exigida pela existência do globo e não deve a sua a quem quer que seja; se está demonstrado que este Deus, que os tolos veem como único autor e fabricante de tudo o que vemos, não passa do nec plus ultra da razão humana, do fantasma criado no instante em que esta razão não vê mais nada a fim de ajudar em suas operações; se está provado que a existência deste Deus é impossível e que a natureza, sempre em ação, sempre em movimento, tem por si só o que agrada aos tolos lhe dar gratuitamente; se é certo supor que este ser inerte existiu, ele certamente seria o mais ridículo dos seres, visto só ter servido um único dia, e que, após milhões de séculos, encontrar-se-ia numa inação desprezível; supondo que existisse, como as religiões no-lo pintam, ele seguramente seria o mais detestável dos seres, já que permitiria o mal sobre a terra, enquanto sua onipotência poderia impedi-lo; se tudo isso estivesse provado, como incontestavelmente está, crede então, Eugénie, que a piedade que liga o homem a esse Criador imbecil, insuficiente, feroz e desprezível, seria uma virtude absolutamente necessária?
injustiças essenciais às leis da natureza
E os estrondosos milagres que o veem realizar convenceram logo o universo inteiro. Com efeito, numa ceia de bêbados, segundo dizem, o vigarista transforma água em vinho; num deserto, alimenta alguns celerados com provisões escondidas que seus sectários preparam; um de seus camaradas finge-se de morto e nosso impostor ressuscita-o; ele vai para uma montanha, e, diante de apenas dois ou três amigos, faz uns passes de mágica que fariam corar o pior saltimbanco de nossos dias.
Mas não te deixes iludir por elas, encantadora amiga: a beneficência é antes um vício de orgulho do que uma verdadeira virtude da alma. É por ostentação que se consolam os semelhantes, jamais tendo apenas em vista praticar uma boa ação. Fica-se furioso quando a esmola concedida não obtém a publicidade desejada. Não penses também, Eugénie, que tal ação tenha tão bons efeitos quanto se imagina. Eu mesmo só consigo vê-la como o maior de todos os embustes. Ela acaba acostumando o pobre a uma ajuda que deteriora sua energia; ele não trabalha mais quando espera pela caridade. E quando esta lhe falta, torna-se ladrão ou assassino. Ouço clamores de todas as partes para que se encontrem meios de suprimir a mendicância, mas enquanto isso fazem de tudo para que ela se multiplique. Quereis ficar livre de moscas em vosso quarto? Não derrubeis açúcar para atraí-las. Não quereis que a França tenha pobres? Não distribuí nenhuma esmola, e suprimi, sobretudo, vossas casas de caridade. O indivíduo que nasce no infortúnio, vendo-se privado desses perigosos recursos, empregará toda sua coragem, todos os meios que recebeu da natureza para sair do estado em que nasceu. Ele não vos importunará mais. Destruí, derrubai sem a menor piedade essas casas abomináveis que ainda por cima encobrem descaradamente os frutos da libertinagem do pobre, essas cloacas medonhas que todos os dias vomitam na sociedade um repugnante enxame de novas criaturas cuja última esperança é vossa bolsa. De que adianta, pergunto, conservar com tanto zelo tais indivíduos? Teme-se que a França seja despovoada? Ah, jamais devemos ter esse medo.
chinês, mais sensato que nós, não se deixa dominar assim por uma população tão abundante. Não há asilos para os frutos vergonhosos de seu deboche: abandonam esses horríveis resultados como as consequências de uma digestão. Casas para pobres não há: não se as conhece na China. Lá, todos trabalham e são felizes; nada altera a energia do pobre, e cada um pode dizer, como Nero: Quid est pauper?
EUGÉNIE - Ah, Deus. Como as vossas lições me inflamam. Acho que preferia morrer a praticar uma boa ação.
SAINT-ANGE - E se fosse uma má ação, estarias pronta para cometê-la?
EUGÉNIE - Cala-te, sedutora. Só responderei a isso quando tiveres acabado de me instruir. Parece-me que depois de tudo o que dissestes, Dolmancé, nada é mais indiferente na Terra do que cometer o bem ou o mal; nossos gostos e temperamento devem ser os únicos respeitados?
DOLMANCÉ - Ah, não duvideis, Eugénie. Palavras como vício e virtude só nos dão ideias puramente locais. Não existe nenhuma ação, por mais singular que se possa supor, que seja verdadeiramente criminosa, e nenhuma que possa realmente se chamar virtuosa. Tudo se dá em razão de nossos costumes e do clima em que vivemos.18 O que é crime aqui, frequentemente é virtude cem léguas além. E as virtudes de um outro hemisfério poderiam muito bem, ao contrário, ser crimes para nós. Não há horror que não tenha sido divinizado ou virtude que não tenha sido execrada. Dessas diferenças puramente geográficas nasce o pouco-caso que devemos fazer da estima ou do desprezo dos homens, sentimentos ridículos e frívolos acima dos quais devemos nos colocar, a ponto mesmo de preferir sem medo o seu desprezo, pelo pouco que as ações que no-lo merecem sirvam de alguma volúpia para nós.
Oh, não, não Eugénie, tais laços se dissiparão em breve. É preciso libertar a jovem da casa paterna quando ela atingir a idade da razão. Em seguida, após lhe proporcionarem uma educação nacional, que a deixem ser senhora, aos quinze anos, de fazer o que bem lhe entender. Ela cairá no vício? O que importa?. Os serviços oferecidos por uma jovem, consentindo em fazer a felicidade de todos os que a procuram, não serão infinitamente mais importantes do que aqueles que ela, isolando-se, possa prestar a seu esposo? O destino da mulher é ser como a loba e a cadela: pertencer a todos os que a desejarem. É visivelmente ultrajar a destinação que a natureza impôs às mulheres, atando-as pelo laço absurdo de um himeneu solitário.
Que ela jogue poeira nos olhos de todos os que a cercam: irmãos, primos, amigos, parentes; que se entregue a todos, se necessário, para encobrir sua conduta. Que ela até mesmo sacrifique seus gostos, suas afeições, se assim for exigido. Uma intriga que a princípio lhe desagrade, a qual só se entregará por política, pode deixá-la mais cedo do que pensa numa situação mais agradável, e ei-la consagrada.21 Mas que não retorne mais aos preconceitos da infância: ameaças, exortações, deveres, virtudes, religião, conselhos, passando por cima de tudo isso. Que ela rejeite e despreze obstinadamente tudo o que só serve para aprisioná-la de novo, tudo o que, numa palavra, não visa senão mergulhá-la no seio da impudicícia.
Portanto fode, Eugénie; fode, meu anjo. Teu corpo só a ti pertence; só tu no mundo tens o direito de gozar dele e fazer gozar a quem bem quiseres.
Aproveita o tempo mais feliz de tua vida: duram pouquíssimo os anos felizes de nossos prazeres. Se formos bastante afortunados para aproveitá-los, deliciosas recordações nos consolam e até nos divertem na velhice. Perdemo-los?… Amargos pesares, horríveis remorsos dilaceram-nos e se somam aos tormentos da idade para cercar de lágrimas e de espinhos as aproximações funestas do caixão…
Qualquer que seja, querida, o estado de uma mulher, moça, casada ou viúva, ela não deve ter outra meta, ocupação ou desejo senão foder de manhã até a noite. Foi para este único fim que a natureza a criou. Mas se, para preencher tal intento, exijo que ela pisoteie todos os preconceitos da infância, se lhe prescrevo a mais formal desobediência às ordens de sua família, e o mais comprovado desprezo aos conselhos de seus pais, concordarás, Eugénie, que de todos os freios a serem rompidos aquele que mais cedo te aconselho a destruir certamente é o do casamento.
Com efeito, considera, Eugénie, uma jovem que mal saiu da casa paterna ou do internato, que não conhecendo nada, sem qualquer experiência, se veja obrigada a se atirar aos braços de um homem que ela nunca viu, obrigada a jurar a esse homem, aos pés do altar, uma obediência cega, uma fidelidade tão injusta que, com frequência, ela só conserva no fundo do coração o maior desejo em lhe faltar com a palavra. Pode existir no mundo, Eugénie, destino mais horrível que este? Entretanto, ei-la amarrada, quer o marido a agrade ou não, quer ele tenha por ela ternura ou maus procedimentos. Sua honra está presa a esses juramentos: será maculada se a mulher os quebrar; é preciso que ela se perca ou arraste o jugo, devendo morrer de dor. Não, Eugénie, não foi com esta finalidade que nascemos. Essas leis absurdas foram feitas pelos homens, e não devemos nos submeter a elas. E o divórcio? Poderá nos satisfazer? Não, sem dúvida. Quem nos garante se vamos encontrar com maior segurança num segundo vínculo a felicidade que nos escapou no primeiro? Compensemo-nos, pois, em segredo, de todos os constrangimentos de nós tão absurdos, bem certas de que nossas desordens neste gênero, por maiores que forem os excessos a que pudermos levá-las, longe de ultrajar a natureza, são uma homenagem sincera que lhe prestamos. Ceder aos desejos que somente ela nos incutiu é obedecer a suas leis; só a ultrajaremos se resistirmos a eles. O adultério que os homens veem como um crime, que ousaram punir como tal, arrancando a nossa vida, o adultério, Eugénie, é apenas a quitação de um direito à natureza, de que as fantasias desses tiranos jamais conseguirão nos tirar. Mas não é horrível, dizem nossos maridos, acariciar em público e beijar, como nossos filhos, os frutos de vossas desordens? É objeção de Rousseau. Admito ser a única algo ilusória23 para se combater o adultério. Ah, não é extremamente fácil cair na libertinagem sem ter medo da gravidez? Não é mais fácil ainda destruí-la, se por imprudência ela ocorrer? Mas, como voltaremos a este assunto, ocupemo-nos agora com o fundo da questão. Veremos que tal argumento, que à primeira vista pode iludir,24 não passa de quimérico.
Ora, se ele pode ser desconfiado em todos os casos, não há nenhum inconveniente em, às vezes, se legitimar suspeitas: não seria, para o seu estado de felicidade ou infelicidade moral, nem mais, nem menos; portanto, tanto faz que seja assim.
De que podereis me censurar? Ele desfruta da criança. — “Mas enganais vosso marido, tal falsidade é atroz.” — Não, estamos quites, e pronto. Fui vítima primeiro desse vínculo de que ele me forçou tomar parte; vingo-me, há algo mais simples? — “Mas há um ultraje real feito à honra do vosso marido.” — Que preconceito esse. Minha libertinagem em nada atinge meu marido. Meus erros são pessoais. Essa pretensa desonra era boa um século atrás. Hoje em dia nos curamos dessa quimera, e meu marido não está mais difamado pelos meus deboches do que eu estaria pelos seus. Eu foderia com a Terra inteira sem lhe fazer um arranhão. Essa pretensa lesão não passa de uma fábula, cuja existência é impossível. De duas uma: ou meu marido é bruto, ciumento, ou é um homem delicado. Na primeira hipótese, o que posso fazer de melhor é vingar-me de sua conduta; na segunda, eu não saberia afligi-lo. Já que gozo dos prazeres, ele, caso seja honesto, se sentirá feliz com isso: não há homem delicado que não goze ao espetáculo de felicidade da pessoa que adora. — “Mas se o amásseis, gostaríeis que ele fizesse o mesmo?” — Ah, infeliz da mulher que ousa ter ciúmes de seu marido. Que ela se contente com o que ele lhe dá, se de fato o ama. Mas que não tente coagi-lo. Não somente não teria sucesso, como também logo se faria detestar. Se sou razoável, jamais me afligirei dos deboches de meu marido. Que ele aja do mesmo modo comigo e a paz reinará no lar.
Toda lei humana que contraria as da natureza só merece o nosso desprezo.
Desde a primeira noite de núpcias, preveniu-me de suas fantasias, assegurando-me que, de sua parte, jamais iria interferir nas minhas. Jurei obedecer-lhe, e, desde então, ambos vivemos na mais deliciosa liberdade. O gosto de meu marido consiste em ser chupado, e eis o episódio singular que acrescenta a isso: enquanto estou curvada sobre ele, com a bunda apoiada em seu rosto, sugo com ardor a porra dos colhões… e cago em sua boca… Ele engole…
Mas, querida, teu marido, sendo estritamente ligado aos próprios gostos, nunca exigiu de ti outra coisa?
SAINT-ANGE - Jamais. Em doze anos não se contradisse um único dia, exceto quando estou menstruada. Uma linda moça, que trago comigo, substitui-me nessa ocasião e tudo sai às mil maravilhas.
A imaginação é o aguilhão dos prazeres. Em gente dessa espécie, ela regula tudo, é o móvel de tudo; ora, não é por ela que gozamos? Não é dela que nos vêm as volúpias mais picantes?
Interroguemos esse órgão sagrado, e veremos não haver nada mais delicioso que a união carnal das famílias. Deixemos de nos cegar sobre os sentimentos de um irmão por sua irmã, de um pai por sua filha. Em vão um e outro os disfarçam sob o véu de uma legítima ternura: o mais violento amor é o único sentimento que os inflama, o único que a natureza incutiu em seus corações. Dupliquemos, tripliquemos sem medo esses deliciosos incestos, admitindo que quanto mais próximo estiver o objeto de nosso desejo, maiores encantos teremos no prazer de gozá-los. Um de meus amigos vive normalmente com a filha que teve com sua própria mãe. Há menos de oito dias, deflorou um garoto de treze anos, fruto de suas relações com a filha. Dentro de alguns anos, esse mesmo jovem se casará com a mãe; são os votos de meu amigo, que preparou para ele um destino análogo nesses projetos. Suas intenções, bem sei, consistem em gozar ainda dos frutos que nascerão desse himeneu; ele é jovem e pode esperar. Vede, terna Eugénie, com quantos incestos e crimes sujar-se-ia esse honesto amigo se houvesse algo de verdadeiro no preconceito que nos faz crer que há maldade nessas ligações. Numa palavra: sobre essas coisas, eu parto sempre de um princípio; se a natureza proibisse os prazeres sodomitas, os gozos incestuosos, as masturbações etc., permitiria que encontrássemos neles tanto prazer? E impossível que ela possa tolerar o que verdadeiramente a ultraja.
o assassino também prepara um gozo para a natureza: fornece-lhe materiais que ela imediatamente emprega, e a ação que os tolos tiveram loucura em censurar revela-se apenas um mérito aos olhos desse agente universal. É nosso orgulho que se lembra de edificar o assassinato em crime. Estimando-nos como se fôssemos as primeiras criaturas do universo, imaginamos tolamente que toda lesão que viesse a sofrer essa criatura sublime deveria necessariamente ser um enorme crime. Acreditamos que a natureza pereceria se nossa maravilhosa espécie desaparecesse do globo, quando a destruição total dessa espécie, restituindo à natureza a faculdade criadora que ela nos cede, lhe devolveria a energia que lhe roubamos ao nos propagarmos. Mas que inconsequência, Eugénie. Então um soberano ambicioso poderá destruir à vontade e sem o menor escrúpulo os inimigos nocivos a seus projetos de grandeza… leis cruéis, arbitrárias, imperiosas, poderão da mesma forma assassinar em cada século milhões de indivíduos… e nós, fracos e infelizes particulares, não podemos sacrificar um único ser às nossas vinganças ou aos nossos caprichos? Existe algo mais bárbaro, mais ridiculamente estranho? E não devemos, sob o véu do mais profundo mistério, nos vingar amplamente dessa inépcia?.
Sim, meu querido Dolmancé, mas algo vos irá faltar.
DOLMANCÉ - Um pau no cu? Tendes razão senhora.
SAINT-ANGE - Passaremos sem ele agora de manhã, mas o teremos ao anoitecer. Meu irmão virá ajudar-nos e nossos prazeres chegarão aos píncaros. Mãos à obra.
Estou gozando… na mais doce embriaguez…
Muito bem, já que tuas resoluções são inabaláveis, serás satisfeita, Eugénie, eu juro. Mas antes de agir, permite-me alguns conselhos, que serão de primeira necessidade para ti. Que teu segredo jamais te escape, minha cara, e, sobretudo, age sozinha: nada é mais perigoso do que cúmplices. Desconfiemos sempre, mesmo daqueles que acreditamos nos serem mais ligados. Como disse Maquiavel, jamais devemos ter cúmplices, ou nos livrar deles tão logo nos tenham servido. Isso não é tudo: nos projetos que traças, Eugénie, o fingimento é indispensável. Aproxima-te como nunca da vítima antes de imolá-la. Finge ouvir suas queixas ou tenta consolá-la; agrada-a, divide suas penas, jura-lhe que a adora; faze mais ainda: persuade-a. Em tais casos, a falsidade nunca é demais. Nero acariciava Agripina na própria barca que deveria tragá-la. Imita esse exemplo; usa de todas as tramoias, de todas as imposturas que teu espírito sugerir. Se a mentira é sempre necessária às mulheres, é sobretudo quando querem enganar que se lhes torna ainda mais indispensável.
muita doçura e complacência para com ele; por outro lado, muita falsidade e compensações secretas
Ela se divide em duas classes, ativa e passiva; o homem que enraba, seja um garoto, seja uma mulher, comete a sodomia ativa; ele é sodomita passivo quando se deixa foder. Com frequência se questiona qual dos dois modos de praticar a sodomia é o mais voluptuoso; seguramente o passivo, já que se goza simultaneamente da sensação da frente e da de trás; é tão doce mudar de sexo, tão delicioso se fazer de puta, entregar-se a um homem que nos trata como uma mulher, chamar esse homem de amante, e de se confessar sua amante… Ah, meus amigos, que volúpia. Mas Eugénie, limitemo-nos aqui a alguns conselhos de detalhe concernentes apenas às mulheres que, transformadas em homens, querem como nós gozar desse prazer delicioso. Acabo de familiarizar-vos com esses ataques, Eugénie, e já vi o suficiente para convencer-me de que um dia fareis grandes progressos nessa carreira. Exorto-vos a percorrê-la como uma das mais deliciosas da ilha de Citera, perfeitamente seguro de que cumprireis à risca este conselho. Limitar-me-ei a dois ou três avisos essenciais a toda pessoa decidida a só conhecer este gênero de prazeres, ou os que lhe são análogos. Primeiramente, não deixeis d
Não receies o infanticídio, crime imaginário; somos sempre senhoras do que trazemos no ventre, e não fazemos mal pior destruindo essa espécie de matéria do que purgando outras com medicamentos quando necessitamos disso.
Reparai, minha cara Eugénie, como essa gente raciocina; e acrescento, graças a minha experiência e meus estudos, que bem longe de ser um vício, a crueldade é o primeiro sentimento que a natureza nos imprime. A criança destrói seu brinquedo, morde a teta de sua ama de leite, estrangula seu passarinho, muito antes de atingir a idade da razão. A crueldade está impressa nos animais, em quem, como creio que dissestes, as leis da natureza se leem muito mais energicamente do que em nós; ela está, entre os selvagens, muito mais próxima da natureza do que entre os homens civilizados; logo, seria um absurdo estabelecer que é consequência da depravação. Este sistema é falso, repito.43 A crueldade está na natureza. Todos nascemos com uma dose de crueldade que só a educação modifica; mas a educação não está na natureza e prejudica tanto seus efeitos sagrados quanto o cultivo prejudica as árvores. Comparai os vergéis em que a árvore é abandonada aos cuidados da natureza com a que tem seus movimentos tolhidos pela arte, e vede qual a mais bela, qual a que dá melhores frutos. A crueldade não é outra coisa senão a energia do homem ainda não corrompida pela civilização; é uma virtude, portanto, e não um vício
Foi ela que, refinando o gênero de suplício imposto a suas vítimas, inventou a famosa coluna de bronze oca que era abrasada após encerrar-se dentro a vítima. Teodora, mulher de Justiniano, divertia-se vendo fazer eunucos. E Messalina masturbava-se enquanto homens eram extenuados diante dela por meio da masturbação. Já as floridianas faziam endurecer o membro de seus esposos e colocavam sobre a glande pequenos insetos, causando-
-lhes dores horríveis; elas os amarravam durante a operação, e reuniam-se várias à volta de um único homem para dar cabo dele com maior segurança. Vendo os espanhóis se aproximarem, seguraram elas mesmas seus maridos, para que esses bárbaros europeus os assassinassem. A Voisin e a Brinvilliers envenenavam pelo único prazer de cometer um crime. Numa palavra: a história fornece-nos milhares de traços da crueldade das mulheres. E é por causa da inclinação natural que sentem nesses movimentos que eu gostaria que se acostumassem ao uso da flagelação ativa, pelo qual os homens cruéis acalmam a ferocidade delas.
A sociedade ganharia com essa opção dada à crueldade feminina; pois, não podendo ser maldosas deste modo, elas o são de outro, disseminando seu veneno pelo mundo e fazendo o desespero dos esposos e famílias. A recusa em praticar uma boa ação, quando a ocasião se apresenta, como socorrer o infortúnio, dá bem, se quisermos, um impulso a essa ferocidade a que certas mulheres são naturalmente levadas, mas isto é fraco e muitas vezes demasiado longe de sua necessidade em fazer pior. Sem dúvida existem outros meios pelos quais uma mulher, ao mesmo tempo sensível e feroz, possa acalmar suas fogosas paixões; mas são perigosos
QUARTO DIÁLOGO
Então penetra-a apresentando-me teu cu; eu o foderei durante esse voluptuoso incesto. Servida deste consolo,47 Eugénie virá enrabar-me. Destinada a desempenhar um dia todos os diferentes papéis da luxúria, ela deve exercitar-se nas lições que lhe damos para cumprir todos com igual desenvoltura.
Todos os excessos o proporcionam quando se é libertino; e o melhor que uma mulher tem a fazer é multiplicá-
-los mesmo além do possível.
Ora, o altar é o cu. A natureza, meu caro cavaleiro, se perscrutares com cuidado suas leis, jamais indicou outro à nossa homenagem que não fosse o olho do traseiro; ela permite o resto, mas ordena este. Ah, por Deus. Se não tivesse a intenção de que fodêssemos cus, teria ajustado tão proporcionalmente seu orifício aos nossos membros? Seu orifício não é redondo como eles? Que ser tão inimigo do bom senso pode imaginar que um buraco oval possa ter sido criado pela natureza para membros redondos?. Leem-se suas intenções nessa disformidade. Com isso a natureza nos faz ver claramente que sacrifícios reiterados em demasia nesta parte da frente, multiplicando uma propagação que ela apenas tolera, infalivelmente a desagradaria. Mas continuemos a nossa educação. Eugénie acaba de considerar, totalmente à vontade, o mistério sublime de um esporro; gostaria que agora ela aprendesse a dirigir seus jatos.
QUINTO DIÁLOGO
Tendes razão, senhora: treze polegadas de comprimento por oito e meia de circunferência. O maior que já vi. É isso que chamamos de pau soberbo. E vos servi dele, senhora?
SAINT-ANGE - Sim, todas as noites quando estou nesta chácara.
DOLMANCÉ - No cu, espero…
SAINT-ANGE - Com mais frequência que na xoxota.
DOLMANCÉ - Ah, meu Deus. Que libertinagem… Com toda a honestidade, não sei se o aguentaria…
SAINT-ANGE - Não vos façais de apertado, Dolmancé. Entrará no vosso rabo como entra no meu.
Vem, meu garotão, vou reanimar-te… Como é belo… Beija-me, querido amigo… Continuas molhado de porra… e é porra que te peço… Ah, meu Deus. É preciso chupar-lhe o cu enquanto o masturbo…
Eis meu homem de pau duro…
Ah. meus amigos, sou fodida pelos dois lados… Deus. Que prazer divino… Não… não existe nada igual no mundo… Porra. Tenho pena da mulher que nunca o experimentou… Ui. Ai. Mexe, Dolmancé, mexe… Arremessa-me com a violência de teus solavancos contra o gládio de meu irmão… E tu, Eugénie, contempla-me. Vem me ver em pleno vício… Vem aprender com meu exemplo a gozá-lo com furor, a saboreá-lo deliciosamente… Vê, meu amor… vê o que cometo ao mesmo tempo: escândalo, sedução, mau exemplo, incesto, adultério, sodomia… Ó Lúcifer. Único deus da minha alma. Inspira-me algo mais… oferece-me novos desvios ao coração… e me verás mergulhar neles…
Quanto progresso não o vemos fazer junto aos imperadores. Ao abrigo das águias romanas, ele se espalha de um canto a outro da Terra. Com a destruição do império, refugia-se junto à tiara, segue as artes na Itália, e nos alcança quando nos civilizamos. Descubramos um hemisfério, encontraremos nele a sodomia. Cook ancora num novo mundo: ela reina nele. Se nossos balões tivessem chegado na Lua, ela igualmente lá estaria. Gosto delicioso, filho da natureza e do prazer, deveis estar em toda parte onde se encontrem homens, e, onde quer que estiverdes, vos elevarão altares. Ó meus amigos. Pode haver uma extravagância igual a esta de conceber o homem como um monstro digno de perder a vida, porque preferiu em seu gozo o buraco de um cu ao de uma boceta; porque um jovem que lhe proporciona dois prazeres, o de ser amante e puta ao mesmo tempo, lhe pareceu melhor ao de uma mulher que só lhe promete um gozo. Ele então é um celerado, um monstro, por querer viver o papel de um sexo que não é o seu? Ora, por que a natureza o fez sensível a este prazer?
Ah, cara Eugénie, se soubésseis como gozamos deliciosamente quando um pau grosso nos enche o traseiro… Quando, enterrado até os colhões, ele se agita com ardor… e, retirado até o prepúcio, volta a mergulhar até os pelos.? Não, não há no mundo inteiro um gozo igual a este. É o gozo dos filósofos e o dos heróis, e seria o dos deuses, se as partes desse gozo divino não fossem elas próprias os únicos deuses que devemos adorar na terra…
Dizei-me agora, meus amigos, se uma mulher deve aceitar sempre propostas para ser fodida assim…
SAINT-ANGE - Sempre, minha cara, sempre, e deve fazer mais ainda; como esta maneira de foder é deliciosa, deve exigi-la daqueles de quem se serve. Mas se depende daquele com quem se diverte, se espera obter favores dele, presentes ou graças, que se valorize, que finja estar necessitada; não há homem com esse gosto que, em semelhante caso, não se arruine por uma mulher suficientemente hábil para não recusá-lo, com o desígnio de inflamá-lo ainda mais. Ela conseguirá tudo o que quiser se dominar a arte de só conceder oportunamente o que lhe pedem.
Falai-me dos laços de amor, Eugénie; que jamais venhais a conhecê-los. Ah, que um sentimento como esse, pelo bem que vos desejo, jamais se aproxime de vosso coração. O que é o amor? Só podemos considerá-lo, creio, como o efeito que nos causam as qualidades de um belo objeto. Estes efeitos nos transportam, nos inflamam. Se possuímos este objeto, ficamos contentes; mas se nos é impossível tê-lo, nos desesperamos. Qual a base deste sentimento?… o desejo. Quais as suas conseqüências?… a loucura. Atenhamo-nos, pois, ao motivo, e garantiremos os efeitos. O motivo é possuir o objeto? Ora, tentemos então consegui-lo, mas com sabedoria; gozemos dele, assim que o tivermos; consolemo-nos em caso contrário: mil outros objetos semelhantes, e quase sempre melhores, consolar-nos-ão da perda deste. Todos os homens e mulheres se parecem: não há amor que resista aos efeitos de uma reflexão sadia. Oh, que embriaguez enganosa essa que, nos absorvendo o resultado dos sentidos, coloca-nos em tal estado que não mais enxergamos e só passamos a existir para esse objeto loucamente adorado. Isso é viver? Não é antes se privar voluntariosamente de todas as doçuras da vida? Não é querer ficar numa febre ardente que nos absorve e devora sem nos proporcionar outra felicidade além dos gozos metafísicos, tão semelhantes aos efeitos da loucura? Se devêssemos amar sempre este objeto adorável, se fosse certo que nunca viéssemos a abandoná-lo, já seria sem dúvida uma extravagância, mas ao menos desculpável. Mas é isso que acontece? Acaso temos muitos exemplos dessas ligações eternas que jamais são desmentidas? Alguns meses de gozo, que recolocam depressa o objeto em seu verdadeiro lugar, fazem-nos corar pelo incenso queimado em seus altares, e muitas vezes chegamos a nem mesmo conceber como ele pode nos seduzir a tal ponto
Respeitemos os primeiros, concordo, enquanto nos são úteis; conservemos nossos amigos enquanto nos servem; esqueçamo-los desde que não possamos tirar deles mais nada. Só devemos amar as pessoas por nossa própria causa; amá-las por elas mesmas é um ledo engano. Nunca foi próprio da natureza inspirar aos homens outros movimentos, outros sentimentos, senão aqueles que lhe servem para alguma coisa; nada é tão egoísta quanto a natureza; sejamo-lo nós também se quisermos cumprir suas leis
Vou masturbá-lo por baixo; quer dizer, tendo meu engenho num cu, agitarei um pau em cada mão; quanto a vós, senhora, depois de ter sido vosso marido, quero que sejais agora o meu; tomai o maior de vossos consolos. (A senhora de Saint-Ange abre uma caixa cheia deles e nosso herói escolhe o mais temível.) Bom, este aqui, diz o número, tem catorze polegadas de comprimento por dez de contorno. Senhora, colocai isso em volta dos rins e desferi-me os golpes mais medonhos.
SAINT-ANGE - Sois mesmo louco, Dolmancé, vou estropiar-
-vos com ele.
DOLMANCÉ - Não receais nada. Empurrai, penetrai, meu anjo. Só enrabarei vossa querida Eugénie quando vosso enorme membro estiver bem dentro do meu cu… Já entrou. Entrou, santíssimo… Ah, tu me pões nas nuvens… Sem piedade, minha bela… Declaro-te que vou foder teu cu sem qualquer preparação… Ah, meu deus. Que lindo traseiro…
Enraba-me, Augustin, o que está esperando?
Vem, querido, penetra, abandono-me a ti.
Grita quanto quiseres, putinha, vai entrar nem que morras mil vezes.
Porra. Ele vai me matar… Devagar, estúpido… Ah, o bugre. Ele está entrando… este porra já entrou… ai, chegou ao fundo… eu morro… Oh, Dolmancé, como me bateis… queimam-me os dois lados; minhas nádegas estão em chamas.
Já sou puta o suficiente agora?
FRANCESES, MAIS UM ESFORÇO SE QUEREIS SER REPUBLICANOS
é com inquietude que sinto que estamos à véspera de fracassar novamente
Só se trata de amar nossos semelhantes como irmãos, como amigos que a natureza nos dá e com os quais deveremos viver tanto melhor num Estado republicano, em que o desaparecimento das distâncias deve necessariamente estreitar os laços.
Que se evite pronunciar alguma pena contra a calúnia; consideremo-la sob o duplo aspecto de um fanal e de um estimulante e, em todos os casos, como algo muito útil. O legislador, que deve ter sempre grandes ideias como a obra a que se dedica, jamais deve estudar o efeito do delito que só atinja individualmente; é seu efeito em massa que ele deve examinar. E quando observar desta maneira os efeitos que resultam da calúnia, desafio-o a encontrar aí algo que possa ser punido; desafio-o a colocar alguma sombra de justiça na lei que o puniria; ele se tornará, ao contrário, o mais justo e o mais íntegro dos homens se a favorecer ou a recompensar.
Jamais um ato de posse pode exercer-se sobre um ser livre; é tão injusto possuir exclusivamente uma mulher quanto possuir escravos. Todos os homens nascem livres, todos são iguais em direito; não devemos jamais perder de vista esses princípios.
Para defenderem-se, as mulheres podem apelar em vão ao pudor ou à sua ligação com outros homens; esses meios quiméricos são nulos; vimos antes o quanto o pudor é um sentimento artificial e desprezível. O amor, que podemos chamar de loucura da alma, não possui mais títulos para legitimar sua constância. Não satisfazendo senão a dois indivíduos, o ser amado e o amante, não pode servir à felicidade dos outros; e foi para a felicidade de todos, não para uma felicidade egoísta e privilegiada, que nos foram dadas as mulheres. Todos os homens têm um direito de gozo idêntico sobre todas as mulheres. Não há um só homem que, diante das leis da natureza, possa erigir sobre uma mulher um direito único e pessoal. A lei que as obrigará a se prostituírem quando quisermos, nas casas de deboche que há pouco mencionamos, que as obrigará a frequentá-las, punindo-as caso se recusem a isso, será uma lei das mais equitativas e contra a qual nenhum motivo legítimo ou justo poderia reclamar.
desde que me concedeis o direito de propriedade sobre o gozo, esse direito é independente dos efeitos que ele produz; a partir de então, tanto faz esse gozo ser vantajoso ou prejudicial ao objeto que a ele deve se submeter.
Ela será recebida com respeito, satisfeita em profusão e, retornando à sociedade, poderá falar publicamente dos prazeres que tiver provado, como faz hoje a respeito de um baile ou de um passeio. Sexo encantador, sereis livre.
A natureza o quer; não tenhais outros freios senão os de vossas inclinações, outras leis senão os vossos desejos, outra moral que não seja a da natureza. Não vos deixeis languescer tanto tempo nesses bárbaros preconceitos que murchavam vossos encantos e escravizavam os impulsos divinos de vossos corações
Que nenhum freio vos detenha
jamais a luxúria foi considerada criminosa em nenhum dos povos sábios da Terra. Todos os filósofos sabem muito bem que devemos aos impostores cristãos o fato de ela ter sido instituída como crime. Os padres tinham seus motivos proibindo-nos a luxúria: tal recomendação, reservando-lhes o conhecimento e a absolvição dos pecados secretos, lhes proporcionava um incrível domínio sobre as mulheres e lhes abria uma carreira de lubricidade cuja extensão não tinha limites. Sabemos como eles desfrutavam disso, e como ainda abusariam caso seu crédito não estivesse perdido sem recursos.
Será mais perigoso o incesto? Não, sem dúvida; ele estende os laços de família e, em consequência, torna mais ativo o amor dos cidadãos pela pátria. Ele nos foi ditado pelas primeiras leis da natureza, nós o experimentamos, e o gozo dos objetos que nos pertencem nos parece sempre mais delicioso. As primeiras instituições favoreceram o incesto; encontramo-lo na origem das sociedades; ele é consagrado em todas as religiões; todas as leis o favorecem.
Como é que homens razoáveis chegaram ao absurdo de crer que gozar de sua mãe, irmã ou filha pudesse ser um crime? Pergunto-vos se não é um abominável preconceito querer fazer de um homem um criminoso só porque ele prefere gozar do objeto que o sentimento da natureza mais aproxima dele?
é certo que o estupro, ação tão rara e difícil de provar, causa menos dano ao próximo do que o roubo, já que este último invade a propriedade que o primeiro se contenta em deteriorar. Que podereis, aliás, objetar ao violador, se ele vos responde que, de fato, o mal que causou é bem medíocre, já que deixou mais cedo o objeto de que abusou no estado em que logo mais seria necessariamente deixado pelo himeneu ou pelo amor?
os absurdos dos legisladores
Tenhamos bem claro que é tão simples gozar de uma mulher de uma maneira ou de outra, que é absolutamente indiferente gozar de uma moça ou rapaz, e que é constante em nós não existir outras inclinações além das que recebemos da natureza; ela é por demais sensata e consequente para ter colocado em nós as que pudessem alguma vez ofendê-la
Sabemos a que ponto ele reinou em Roma: havia lugares públicos em que os rapazes prostituíam-se vestidos de mulheres e as moças vestidas de rapazes. Marcial, Catulo, Tíbulo, Horácio, Virgílio escreviam tanto para homens como para suas amantes, e podemos ler em Plutarco. que as mulheres não devem ter nenhuma parte no amor dos homens. Os amásios da Ilha de Creta raptavam outrora rapazes nas cerimônias mais singulares: quando amavam um rapaz informavam aos pais o dia em que o raptor iria buscá-lo; se o amante não lhe agradasse, o rapaz mostrava alguma resistência; em caso contrário, partia com ele, e o sedutor o restituía à família tão logo se servisse dele; nesta paixão, como na das mulheres, sempre se quer mais quando já se tem o bastante. Estrabão nos conta que nessa mesma ilha os haréns estavam cheios só de rapazes; eram prostituídos publicamente.
Enfim, as mulheres, ciumentas e desprezadas, ofereceram-se para prestar aos maridos os mesmos serviços que eles recebiam dos rapazes. Alguns tentaram, mas voltaram a seus antigos hábitos, não achando a ilusão possível.
Enfim, as mulheres se compensaram entre elas.
Em suma, não há um único perigo em todas essas manias, mesmo que fossem mais longe; mesmo se chegassem a acariciar monstros e animais, como nos demonstra o exemplo de muitos povos, não haveria nessas frivolidades o menor inconveniente porque a corrupção dos costumes, quase sempre muito útil num governo, não poderia ser nociva sob nenhum aspecto; devemos esperar de nossos legisladores bastante sabedoria e prudência para estarmos seguros de que lei alguma emanará deles para reprimir essas misérias, que, levando em conta a organização, jamais poderiam tornar mais culpado aquele que se acha inclinado a ele do que o indivíduo que a natureza criou contrafeito.
o único cuja perda é irreparáve
- Essa ação, considerando apenas as leis da natureza, é verdadeiramente criminosa?
- E em relação às leis da política?
- O assassinato é prejudicial à sociedade?
- Como ele deve ser considerado num governo republicano?
- Enfim, o assassinato deve ser reprimido com o assassinato?
haverá, pois, tanto mal em matar um animal quanto um homem, ou quase muito pouco em fazê-lo num caso ou no outro, e a distância residirá apenas nos preconceitos de nosso orgulho. Mas nada infelizmente é tão absurdo como os preconceitos do orgulho. Encurtemos, todavia, a questão. Não podereis discordar que seja igual destruir um homem ou um animal;
O homem custa alguma à natureza? E, supondo que custe, custa-lhe mais do que um macaco ou elefante? Vou mais longe: quais são as matérias geradoras da natureza? De que são compostos os seres que nascem? Os três elementos que os formam não resultam da primitiva destruição de outros corpos? Se todos os indivíduos fossem eternos, não se tornaria impossível à natureza criar novos seres? Se a eternidade dos seres é impossível à natureza, sua destruição torna-se portanto uma de suas leis. Ora, se as destruições lhe são tão úteis que ela não possa absolutamente passar sem elas, e se não pode criar sem extrair dessas massas de destruição que a morte lhe prepara, a partir desse momento a ideia de aniquilamento que ligamos à morte deixará de ser real; não haverá mais aniquilamento passível de se constatar
A morte, de acordo com esses princípios irrefutáveis, não é mais do que uma mudança de forma, uma imperceptível passagem de uma existência a outra, eis o que Pitágoras chamava de metempsicose.
Pequenos animais se formam no instante em que o grande deixa de respirar; a vida desses pequenos animais é apenas um dos efeitos necessários e determinados para o sono momentâneo do grande. Ousareis dizer que um agrada mais à natureza do que o outro?
provar que existe crime na pretensa destruição de uma criatura de qualquer idade, sexo ou espécie está acima das forças humanas. C
Que outra voz senão a da natureza nos sugere os ódios pessoais, as vinganças, as guerras, enfim, todos esses motivos de assassinatos perpétuos? Se ela nos aconselha isso tudo, é porque necessita. Como podemos, em consequência, nos considerar culpados diante dela se não fazemos outra coisa que seguir seus desígnios?
Será ele um crime em política? Ousemos confessar, pelo contrário, ser ele, infelizmente, uma das grandes molas da política. Não foi à custa de assassinatos que Roma se tornou a senhora do mundo? Não foi à custa de assassinatos que a França hoje é livre? É inútil advertir que só falamos aqui dos assassinatos ocasionados pela guerra, e não das atrocidades cometidas pelos facciosos e desordeiros; estes são tão execrados pelo público que basta mencioná-los para excitar de uma vez o horror e a indignação geral. Que outra ciência humana tem maior necessidade de se sustentar pelo assassinato do que esta que tende a enganar, que só almeja o crescimento de uma nação às expensas de outro? As guerras, únicos frutos dessa bárbara política, são outra coisa a não ser os meios pelos quais ela se alimenta, se fortifica, se sustém?
O que é a guerra senão a ciência de destruir? Estranha cegueira a do homem que ensina publicamente a arte de matar, que recompensa quem nela mais se distingue e que pune aquele que por motivos particulares se desfaz de seu inimigo. Já não é tempo de nos afastarmos desses erros tão bárbaros
A natureza inteira nada sofreria, e o tolo orgulho do homem que acredita que tudo é feito para ele ficaria bem espantado, após a destruição total da espécie humana, ao verificar que nada muda na natureza e que o curso dos astros nem sequer é desviado.
Certamente haveria o maior perigo em levar esta ação à desgraça ou puni-la. O orgulho do republicano pede um pouco de ferocidade; se amolece, se perde a energia, logo será subjugado. Uma singularíssima reflexão surge agora; apesar de ousada é muito verdadeira; vou dizê-la: uma nação que começa a ser governada como República só se sustentará por virtudes, pois para chegar ao máximo é preciso começar com pouco; mas uma nação velha e corrupta, que, corajosamente, abalará o jugo de seu governo monárquico para adotar um republicano, só se manterá com muitos crimes; como ela já vive no crime, se quiser passar do crime à virtude, isto é, sair de um estado violento para um suave, cairá numa inércia que certamente logo a levará à ruína.
O imperador e os mandarins da China, de tempos em tempos, tomam medidas para revoltar o povo a fim de obter, com essas manobras, o direito de promover horrendas carnificinas. Que este povo mole e afeminado se liberte do jugo de seus tiranos; ele os espancará por sua vez com muito mais razão, e o assassinato, sempre adotado, sempre necessário, só teria mudado de vítimas; ele faria o prazer de alguns e a felicidade de outros.
Os indianos tomam ópio para se encorajarem ao assassinato; depois se precipitam pelas ruas massacrando todos os que encontram pela frente; viajantes ingleses também encontraram essa mania na Batávia.
O espetáculo dos gladiadores animava sua coragem; Roma tornou-se guerreira pelo hábito de fazer do assassinato um jogo. Mil e duzentas a mil e quinhentas vítimas lotavam diariamente a arena do circo; e as mulheres, mais cruéis do que os homens, exigiam que os moribundos caíssem com graça e ainda encenassem66 sob as convulsões de morte
A República romana encorajava o suicídio; seus célebres devotamentos à pátria não passavam de suicídios. Quando Roma foi tomada pelos gauleses, os senadores mais ilustres consagraram-se à morte.
Só a piedade e a beneficência são perigosas no mundo. A bondade é apenas uma fraqueza cuja ingratidão e a impertinência dos fracos forçam sempre as pessoas honestas a se arrepender. Que um bom observador ouse calcular todos os perigos da piedade, e que os coloque em paralelo com os de uma firmeza convicta, e verá se os primeiros não serão maiores. Mas estamos indo longe demais, Eugénie; resumamos para a vossa educação um único conselho que podemos tirar de tudo o que foi dito: não deis ouvidos ao coração, minha filha, é o guia mais falso que a natureza nos poderia ter dado; fechai-o cuidadosamente aos apelos falaciosos do infortúnio. Vale muito mais a pena recusar aquele que de fato seria conforme o vosso interesse, do que vos arriscar entregando-vos a um celerado, a um intrigante ou a um trapaceiro; um teria leve consequência, o outro, o maior inconveniente.
Aquilo que os tolos chamam de corrupção está suficientemente estabelecido em mim para não deixar uma única esperança de retorno, e seus princípios estão muito bem gravados em meu coração para que os sofismas do cavaleiro possam destruí-los.
Sim, meu irmão, dá-nos apenas tua porra; dispensamos tua moral; ela é doce demais para os devassos de nossa espécie.
O que se deseja quando se goza? Que todos aqueles que nos rodeiam só se ocupem de nós, só pensem em nós, só cuidem de nós. Se os objetos que nos servem também gozam, ei-los mais ocupados consigo próprios do que conosco, e consequentemente nosso prazer será prejudicado. Não há homem que não queira ser déspota quando sente tesão. Por certo seu prazer diminui quando os outros também parecem senti-lo. Levado por um movimento de orgulho muito natural nesse momento, ele quer ser o único no mundo a ser suscetível de experimentar o que sente. A ideia de ver outro gozar como ele coloca-o numa espécie de igualdade que prejudica os atrativos individuais que o despotismo proporciona.. É falso, aliás, que haja prazer quando o proporcionamos aos outros; isto seria servi-los, e o homem de pau duro está longe do desejo de ser útil aos outros. Praticando o mal, ao contrário, ele experimenta todos os encantos provados por um indivíduo nervoso que faz uso de suas forças; ele então domina, é tirano. Que diferença para o amor próprio. Não acreditemos que ele se cale neste caso.
Quereis permitir, senhora, que eu morda e belisque vossa bela carne enquanto fodo?
SAINT-ANGE - O quanto quiser, meu amigo; mas minha vingança não tardará, estou te avisando; juro que, a cada vexação, soltarei um peido em tua boca.
DOLMANCÉ - Ah, meu deus. Que ameaça… só servirá para apressar teu suplício, querida. (Morde-a.) Vejamos se manterás a palavra. (Recebe um peido.) Ah, porra. Que delícia. Que delícia… (Ele lhe dá umas palmadas e imediatamente recebe outro peido.) Oh, que divino, meu anjo. Guarda alguns para o instante da crise69… e saibas que irei tratar-te com toda a crueldade… toda a barbárie… Porra… Não aguento mais… estou esporrando… (Morde-a, dá-lhe palmadas e ela não para de peidar.) Vê como te trato, sacana… como te domino… Toma mais esta… e esta… e que o último insulto seja no próprio ídolo em que sacrifiquei. (Morde-lhe o olho do cu; a postura se desfaz.)
Mas não podeis fazer aqui tudo o que quiserdes com ele?
DOLMANCÉ, baixo e misterioso. - Não, há certas coisas que exigem véus.
EUGÉNIE - Ah, meu deus. Dizei-nos ao menos de que se trata.
SÉTIMO E ÚLTIMO DIÁLOGO
Oh, quanto aos cuidados, nunca passaram de frutos do uso ou do orgulho; não tendo feito por Eugénie mais do que aquilo que o costume prescreve no país em que viveis, ela seguramente não vos deve nada. Quanto à sua educação, deve ter sido mesmo muito ruim, pois nos vemos aqui obrigados a refazer todos os princípios que vós lhe inculcais. Não há um único deles que trabalhe por sua felicidade, e nenhum que não seja absurdo ou quimérico. Vós lhe falastes em Deus, como se de fato houvesse um; de virtude, como se ela fosse necessária; de religião, como se todos os cultos religiosos fossem outra coisa que o resultado da impostura do mais forte e da imbecilidade do mais fraco; de Jesus Cristo, como se esse bandido fosse outra coisa além de um celerado e de um hipócrita. Vós lhe dissestes que foder era um pecado, e foder é a coisa mais deliciosa da vida; vós quisestes lhe inculcar os bons costumes, como se a felicidade de uma jovem não estivesse no deboche e na imoralidade, como se a mais feliz das mulheres não devesse ser incontestavelmente aquela que mais se atolou na imundice e na libertinagem, aquela que melhor afronta todos os preconceitos e que mais zomba da reputação. Ah, desiludi-vos, senhora, desiludi-vos. Nada fizestes por vossa filha; não cumpristes, a propósito, nenhuma obrigação ditada pela natureza
É preciso estar rodeado de cus quando se fode um.
Tu sofres, minha cara, tu choras, e eu gozo…
Sou ao mesmo tempo incestuosa, adúltera, sodomita, tudo isso numa garota que só foi deflorada hoje… Quantos progressos, meus amigos… com que rapidez percorri a estrada espinhosa do vício..
Na verdade, Dolmancé, é horrível o que nos mandais fazer; isso ultraja ao mesmo tempo a natureza, o céu, e as leis mais santas da humanidade.
Os crimes são impossíveis ao homem. A natureza, incutindo-lhes o irresistível desejo de cometê-los, soube prudentemente afastar deles as ações que pudessem perturbar suas leis.
Pois bem, meus amigos; como vosso instrutor vou atenuar a sentença; mas a diferença entre o meu pronunciamento e o vosso é que vossas sentenças são apenas efeitos de uma mistificação mordaz, ao passo que a minha será executada. Lá embaixo há um valete meu munido com um dos mais belos membros que existem na natureza, mas, infelizmente, destilando vírus e roído por uma das mais terríveis sífilis jamais vistas neste mundo. Vou mandá-lo subir: lançará seu veneno nos dois condutos naturais dessa amável e querida dama, a fim de que, durante o longo tempo em que durarem as impressões desta cruel doença, a puta se lembre de não incomodar sua filha quando ela foder
Acho agora essencial que o veneno que circula nas veias desta senhora não se exale; por isso, Eugénie deve cuidadosamente costurar a boceta e o cu, para que o humor virulento, mais concentrado e menos sujeito a evaporar-se, possa calcinar os ossos mais depressa.
EUGÉNIE - Excelente. Vamos, vamos, agulha e linha… Afastai as coxas, mamãe; vou coser-vos para que não me deis mais irmãos nem irmãs. (A senhora de Saint-Ange entrega a Eugénie uma enorme agulha contendo um grosso fio vermelho e encerado; Eugénie costura.)
Ah, sagrado-coração-de-Jesus. que tesão me dá essa loucura. Multiplicai os pontos, Eugénie, para que fique bem firme.
não fode esta senhora no caminho; lembra-te que ela está costurada e tem sífilis
A REVOLUÇÃO DA PALAVRA LIBERTINA
As condições não eram melhores. Os prisioneiros vagavam sujos, maltrapilhos e barbudos pelos corredores infectos. Seis deles contraíram febre maligna, dois morreram na semana em que Sade lá esteve.
Após uma semana em São Lázaro, Sade é transferido para o Albergue de Picpus, prisão domiciliar para nobres perseguidos que podiam gozar ali de certas regalias mediante uma considerável soma em dinheiro. A França vivia então o auge do Terror sob o comando de Robespierre, o “incorruptível”. Em nome da Revolução, seus partidários mandavam para a guilhotina (a “navalha nacional”) todos aqueles de algum modo ligados ao Antigo Regime, ou por simples desconfiança disso. Ser ateu confesso (ou suspeito), nesse momento, era no mínimo oferecer o pescoço à lâmina poderosa de Sanson, o carrasco sanguinário da Revolução que, segundo consta, teria chegado a cortar num dia 54 cabeças em apenas 24 minutos. O certo é que o ateísmo era visto como sinônimo de aristocracia. Robespierre em seus discursos propalava um ideário “inspirado por Deus”, fazendo crer que a Providência conspirava a favor dos revolucionários. Em A filosofia na alcova, Sade dá o troco: “Um deus que relegamos ao esquecimento” (…) “De onde o infame Robespierre quis tirá-lo”.
Numa de suas cartas desesperadas ele argumenta: “Meu coração é puro e meu sangue, se preciso, está prestes a correr pela felicidade da República”.5 Mas sua vida e seus escritos são suspeitos demais para que tais palavras surtam efeito.
romance libertino
Leitor de Rousseau e de toda a tradição sentimental, Sade tornar-se-á, no entanto, um de seus mais ferozes críticos. Em sua obra, pratica vários gêneros entre os recorrentes do século e quase sempre recombinando-os no interior de um único romance, como em Aline e Valcour, publicado em 1795, o mesmo ano de A filosofia na alcova. Formas como a do romance epistolar, do romance picaresco, do romance filosófico estão presentes
Mikhail Bakthin
Lembrar que, para Bakthin, “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”.
era a época em que chorar em público valorizava o sujeito aos olhos da sociedade. Lágrimas no salão. Lágrimas no teatro. Lágrimas em toda parte: a senhora de Chatelet ria para não chorar. Mas Voltaire, o “humano Voltaire se desfazia em lágrimas, porque não tinha vergonha em parecer sensível”.13 “Que povo é feroz o bastante para não ser tocado pelos signos da dor?”, diz a senhora Graffigny nas Cartas de uma peruana.14 Diderot se comove diante de Greuze. Sua pintura lhe parece dramática; a pintura tem mesmo para esse filósofo uma função moralizadora: instruir, corrigir o caráter, convidar à virtude, “o pincel já não foi longe demais e consagrado o bastante ao deboche e ao vício?”.15 Diante de O paralítico, Diderot exclama: “Ah meu Deus, como ele me toca. Se o vir de novo, acho que vou chorar.”.16 Eis o sentido da “bela moralidade” (termo do filósofo). A beleza é ética. Começa aqui, por sinal, com Diderot, a crítica de arte, na crença de que o homem sensível está acima do homem de gênio e até do grande escritor, embora o próprio filósofo reconheça que a sensibilidade “é a qualidade dominante dos seres medíocres”,17 palavras que terão, quem sabe, deliciado o marquês.
No universo literário sadiano, porém, a relação entre os seres sensíveis e virtuosos está subordinada a outra, mais poderosa e determinante: a dos libertinos com suas vítimas. Nela, os virtuosos ou vítimas e sua sensibilidade (seu idealismo sentimental) são a parte ofendida naquilo que Maurice Blanchot denominou “sistema sadiano”.18 De um lado, o sofrimento das vítimas faz o prazer dos libertinos; de outro, os valores do idealismo sentimental são atacados, ridicularizados e destruídos pela palavra desses devassos.
infortúnios da virtude e a das prosperidades do vício
Sua formação consiste em corromper-se no uso da linguagem dos devassos e na prática das ações de tal modo que, liberta dos “laços absurdos e perigosos de uma virtude quimérica e de uma religião nojenta”, possa “semear algumas rosas sobre os espinhos da vida”.
Costumes diferentes de outros povos, ou de outras épocas, comprovam que tais valores podem até se inverter, e “o que é crime aqui, frequentemente é virtude cem léguas além”.19 Os vícios fazem parte do direito natural do homem. Quanto mais libertino ele se torna, mais fiel à natureza será.
Com efeito, Eugénie parece ter as mesmas disposições para o vício e para o crime que outra grande libertina sadiana: Juliette. Ambas farão carreira nas “prosperidades do vício”. À maneira de Juliette, Eugénie é uma heroína menos a moral. Em Sade, palavras como vício, fortuna, crime e prazer se confundem.
Deus não existe e a virtude é uma quimera
a crueldade sadiana é apenas uma estratégia de negação do mundo, uma forma de demonstrar seus equívocos e quão distante ele se encontra do ideal de felicidade humana. Para isso, ele desceu nos abismos do homem, iluminou seus territórios (a moral, a filosofia política, a psicologia), mas seu principal domínio sempre foi a estética
A natureza, em Sade, é deus destituído da divindade. Quando fala da natureza, ele com frequência a trata em termos como “esse grande agente universal”.
Dolmancé explica a Eugénie, contestando o cavaleiro: “É da natureza que os devassos tiram os princípios que colocam em ação. Já te disse mil vezes que a natureza, para a perfeita manutenção das leis de seu equilíbrio, necessita tanto de vícios quanto de virtudes, e nos inspira um por vez os movimentos que lhe são necessários; logo, não praticamos nenhuma espécie de mal nos livrando a tais movimentos, de quaisquer tipos que se possa supô-los”
Seu maior objetivo, como diz Dolmancé, é gozar, não importando de que modo seja. O ato de gozar é uma paixão que subordina todas as outras e que reúne todas ao mesmo tempo. Saber ouvir a natureza, portanto, é ouvir a si próprio.
Um ser que aprecia valores como a benevolência, a caridade, a solidariedade, necessariamente é surdo para o clamor natural da volúpia, excetuando-se, é claro, os gozos que a dor proporciona, mas que dizem respeito a um universo místico ou masoquista, não propriamente ao sadiano. É por isso que Dolmancé e Saint-Ange fazem questão de destruir tais valores na educação de Eugénie.
Vauvenargues prefere um homem apaixonado e criminoso (sic) a um virtuoso desprovido de paixões, porque ele se mostra no limite máximo de sua grandeza, na explosão do sentimento, das paixões.
O que se poderia chamar de “fisiologia da perversidade”, dada a predisposição natural do libertino aos crimes, depende exclusivamente de uma circulação mais violenta dos espíritos no sangue provocada pelo choque nos nervos graças à percepção ou efeito da dor alheia. Para se obter isso, é necessário uma certa “predisposição” (que, diga-se de passagem, todo libertino tem). É parte importante da educação de Eugénie que sua “máquina de gozo” seja despertada nesse sentido. As formas pelas quais o organismo libertino será disposto ao prazer dizem respeito a uma prática sistemática de luxúria com inúmeros procedimentos e posturas, na qual a imaginação representa um suplemento essencial.
Em Sade as vítimas não gozam. Só fornecem este alimento indispensável ao desejo libertino em direção ao gozo: a linguagem da dor.
É bem verdade que as heroínas sentimentais choravam por um amor culpável, por perseguição e maus tratos sofridos de um esposo cruel ou pai, entre outros infortúnios; mas a intenção daqueles autores visava fortalecer a moral do leitor provocando nele uma espécie de comoção mesclada de revolta interior, que o fazia identificar-se com os infortunados e tomar seu partido. A emoção provocada no leitor era a prova de que a virtude era o único ideal de verdade a seguir, apesar da má sorte de seus heróis.
Em Sade, o tema da “inocência punida” que atravessa todo o século é orientado num sentido inverso pela narrativa, sendo oferecido ao leitor, ao contrário, como uma prova de que o destino infeliz que atinge as heroínas sentimentais é o resultado de sua opção pela virtude e de não terem ouvido os “conselhos da natureza”. Questão de sensatez, mas uma sensatez tendenciosa que em nome da verdade natural torna-se ela própria o fiel da balança. Assim, Justine morre fulminada por um raio. O raio é a vingança da natureza contra os ideais dos virtuosos e seu “deus de farinha”.
Para Sade, nada é tão oposto ao sistema da liberdade republicano quanto os dogmas do cristianismo. Michelet também salienta esta incompatibilidade
Vê-se logo por que todas as vítimas sadianas são cristãs, como a maior parte das heroínas virtuosas dos romances sentimentais. E, se a Julie de Rousseau é a síntese e o ponto culminante dessa tradição, Aline e Justine, a grande virtuosa sadiana, representam a sua crítica e ruptura.
Segundo Versini,59 é do interesse do público que o horror do vício seja sublinhado com um traço espesso. Tal tendência, aliás, reforça a tese defendida por Sade em sua “Ideia sobre o romance”,60 segundo a qual o vício é o principal responsável para que um romancista possa prender a atenção do leitor. Com Sade, essa tendência, já delineada em sua época, é levada às últimas consequências.
Julia Kristeva mostra que menipeia, de Menipeu, filósofo do século III a.C., foi o termo empregado pelos romanos para designar certo gênero satírico.62 “Todos os grandes romances polifônicos herdam uma estrutura carnavalesca menipeana (Rabelais, Cervantes, Swift, Sade, Balzac, Lautréamont, Dostoiévski, Joyce, Kafka). A história do romance menipeano é também a história da luta contra o cristianismo e sua representação, isto é, uma exploração da linguagem (do sexo, da morte), uma consagração da ambivalência, do “vício
Se Sade aprecia tanto o ideal estético clássico, talvez seja porque, no mundo pagão, os costumes são mais condizentes com os valores libertinos e parecem convir melhor às suas ações. Por isso, deveriam ser adotados pelos republicanos. O homem ativo, agressivo, analisa Nietzsche, está muito mais próximo da justiça do que o homem “reativo” da tradição judaico-cristã
os “bons” passaram a ser, na tradição judaico-cristã, os infelizes, os pobres, os fracos, os piedosos e sofredores em geral.71 Pensando-se nesses termos, “boas”, no sistema sadiano, são as Alines, as Justines, as Mistival; são as vítimas, esses seres altruístas unidos em compaixão na dor e nas lágrimas.
a calúnia não pode ser considerada um mal, pois, se atinge um homem perverso, não tem efeito por ser redundante, já que ele o praticou em demasia. E se recai sobre um virtuoso, acaba, na verdade, ressaltando ainda mais suas qualidades. Logo, a calúnia está liberada.
Quanto ao roubo, recorrer-se-á à história, procedimento constante em Sade, e, diga-se de passagem, iluminista, que repudia a idéia de leis morais universais, preferindo pensar a moral em termos da relatividade dos costumes nos povos, a exemplo de Voltaire e Montesquieu.
A propósito, como disse Espinosa, “nada é tão útil a um homem quanto seu próximo”. Sabe-se o quanto o sistema sadiano depende da figura do outro para funcionar, uma vez que se estrutura na bipolaridade libertino/vítima. O outro, em Sade, é a condição do gesto transgressor.
Para que alguém seja admitido na Sociedade dos Amigos do Crime, é preciso que aceite determinadas regras segundo as quais, para satisfazer seus desejos, ele deverá saciar os desejos de outrem
Em sua utopia, Sade quer convencer que a libertinagem instituída pela corrupção dos costumes é o único modo de tornar os cidadãos felizes
ção dos costumes é o único modo de tornar os cidadãos felizes. Não por acaso, aliás, a forma de texto escolhida para veicular estas ideias é a do panfleto político. Texto pletórico, cheio de energia, o panfleto se caracteriza por seu caráter de urgência, por ser um programa de ação imediata: práxis e logos se harmonizam. O ponto de partida desse “mais um esforço”, dessa “mais-revolução”, é fazer da palavra libertina um instrumento de transformação política onde o erotismo se torna o centro do poder, e o desejo individual suas bases de sustentação. “Um povo só tem um inimigo perigoso, seu governo”, diz Saint-Just.77 Mas na utopia de Sade, o governo é o único que poderá garantir a felicidade dos cidadãos institucionalizando a libertinagem e a corrupção dos costumes como formas novas de convívio social. O mundo de pernas para cima
Eugénie, você vai ser castigada, diz Dolmancé, vou açoitá-la. Mas não se aflige, porque depois será sua vez de bater. Apanhar, ser aviltado, acirra o orgulho libertino.
Dolmancé explica a Eugénie a necessidade do egoísmo no gozo: “O que se deseja quando se goza? Que todos aqueles que nos rodeiam só se ocupem de nós, só pensem em nós, só cuidem de nós. Se os objetos que nos servem também gozam, ei-los mais ocupados consigo próprios do que conosco, e consequentemente nosso prazer será prejudicado. Não há homem que não queira ser déspota quando sente tesão”.79 Desse modo, não apenas se aceita a tirania na libertinagem, mas ela própria é a razão do gozo. “A ideia de ver o outro gozar como ele (o devasso) coloca-o numa espécie de igualdade que prejudica os atrativos individuais que o despotismo (grifo de Sade) proporciona. Contraditoriamente, a libertinagem só liberta e torna os indivíduos felizes numa relação que os torna ao mesmo tempo dominantes e dominados. O ideal burguês revolucionário da igualdade sofre outro golpe da política do corpo sadiana.
É certo que a libertinagem sadiana recomenda o gozo solitário, pois goza-se melhor quando o outro (a vítima) não participa deste prazer; ao contrário, o libertino prefere que o outro sofra enquanto ele goza.
Nas orgias, os libertinos desempenham todas as funções, sem preconceito. Seu erotismo vive dessa inversão de papéis, desse jogo de máscaras. Isso serve para estimular a imaginação e multiplicar os prazeres, estendendo-os, como pede um dos monges libertinos na Nova Justine, para além de todos os limites.
o altar é o cu
Seu principal argumento, com muito humor, baseia-se na lógica mecanicista que determina que o orifício do ânus se ajusta perfeitamente aos membros viris, o que faz dessa disposição a mais natural. Caso contrário, “como é possível querer que um membro redondo possa se ajustar a um buraco oval?”.81 A sodomia, portanto, é questão de organização natural de cada indivíduo.
Finalmente, tem lugar no texto o exame do assassinato. Será o assassinato um crime? Tal questão é analisada sob diversos aspectos.
Seu ponto de partida é “rebaixar o homem ao nível de todas as outras produções da natureza”, pois o filósofo “não acaricia as pequenas vaidades humanas”.84 Aos olhos da natureza, não existe diferença entre o homem e as outras criaturas, animais e plantas.
Resumo
A Filosofia na Alcova ou Preceptores imorais
Sobre a obra
Tratados como “os libertinos” – denominação dada aqueles que vivem do prazer oriundo do sexo e suas variâncias – a Senhora de Saint-Ange solicita a um certo banqueiro que disponha sua filha de 15 anos à sua casa por poucos dias para que a mesma seja iniciada no mundo da libertinagem, como ela mesmo foi e como ele (pai e banqueiro) faz parte. Assim, concedido o pedido, Senhora de Saint-Ange aguarda a senhorita Eugénie em sua casa, e trama conjunto a seu irmão o Cavaleiro de Mirvel, o modo como Eugénie será devidamente educada. O Cavaleiro por sua vez, encontra um terceiro libertino, mais libertino que a todos os outros para auxiliá-los nesta situação, chamado Dolmancé.
Inserindo novos personagens em determinados momentos da história e os retirando logo que sua presença se torna inútil aos ensinamentos da senhorita, em meio a teorias e práticas, o trio, porém principalmente Dolmancé e a Senhora de Saint-Ange, ensinam e aprendiz que o que é a libertinagem, como ser libertina e o que está errado na atual sociedade. Nestes ensinamentos tem-se discussões sobre: como e porquê Deus não existe; a quem os libertinos se remetem; como se precaver de doenças e gravidez indesejada; como mesmo com um casamento, seguir a vida de libertinagem ainda é possível; os meios mais libertinos de se conseguir prazer (incluindo aqui a prática de como fazer); como a natureza do ser humano enxerga os atos cometidos por um indivíduo em detrimento de seu prazer que são considerados crimes na sociedade (a exemplos têm-se o assassinato, a agressão, o estupro, o incesto ou qualquer outra violação física e moral); e muitos outros questionamentos que no século atual, se expostos de tal maneira, seriam no minimo polêmicos.
Todo o enredo, se passa dentro de uma alcova que nada mais é que um quarto, onde os personagens além de filosofarem sobre os desejos humanos, sobre os chamados por eles de preconceitos morais e sem fundamentos em que está inserida toda a sociedade, ainda praticam orgias, contextualizando posições em que todos eles possam estar conectados e terem prazer ao mesmo tempo. Outra questão impactante da história, é o modo como a mãe de Eugénie é vista pelos preceptores e após, pela própria.
Trazendo uma visão de liberdade individual, sexualismo e doutrinas/aprendizados, o livro se propõe a tentar quebrar os ensinamentos aprendidos em sociedade. criticando à época o governo em seu contexto amplo de leis e deveres com os cidadãos, além de, claro, insinuar a liberdade sexual de homens e mulheres, tornado a um, objeto sexual do outro, e vice-versa, sem pormenores.
Filosofia da Alcova, seus princípios
Cleuza Maria de Oliveira Bueno
A Filosofia da Alcova ou Escola de Libertinagem, conforme tradução de Aguinaldo Silva, é o livro mais cruel de Sade, em que questiona os chamados crimes da natureza humana: homossexualidade, adultério, roubo e assassinato. É composto de duas partes em relação entre si: os diálogos para o ensino teórico-prático da libertinagem e suas ideias sobre a República.
O livro apresenta sete diálogos que se passam numa alcova e um texto sobre a República, que é lido para os participantes da cena de uma aula completa de libertinagem. O mestre principal é Dolmancé, auxiliado por Madame de Saint-Ange e Eugenie, uma bela jovem virgem de 15 anos que vai até lá em busca de sabedoria. As lições vão alternando exposições teóricas e experiências práticas, nas quais participam ainda o Cavalheiro de Mirval, irmão de Madame, o jovem jardineiro Agostinho, apreciado por seu membro de 12 polegadas, e, nas últimas lições, Lapierre, o criado sifilítico, e, por fim, Madame de Mistival, mãe de Eugenie.
Nas primeiras lições só participam os mestres Dolmancé e Madame. De início, a aluna é coberta somente com túnica de gaze para que fiquem escondidos os encantos que precisam ser cobertos ao desejo, mas aos poucos é convidada a se despir da roupa e do pudor. É iniciada na experiência sexual libertina a partir da apresentação do aparelho anatômico-fisiológico, bem como das posições mais adequadas para os fins do gozo. Como diz Lacan, a fisiologia compõe-se aí com receitas de ama-de-leite. No tocante à educação sexual, é como se lêssemos um folheto médico.
O que chama a atenção, além da explícita forçação dos limites, é o rigoroso enquadramento da cena do gozo que se dá sob ordens. As cenas práticas são regradas e dirigidas por Dolmancé, que vai dando os comandos de como cada um deve proceder na montagem cuidadosamente organizada por ele. A entrada do cavalheiro e, mais adiante, a de Agostinho ocorrem para enriquecer e esquentar a demonstração prática, mas não interferem na explanação teórica. “Espera, vamos dispor este gozo de uma maneira mais ordenada.” Em alguns momentos, é Madame quem convoca: “Por favor, precisamos de um pouco de ordem nessa orgia. Assim é necessário, mesmo quando se trata de delírio e infâmia” (Sade, 1980, p. 55).
Sua filosofia, didaticamente apresentada ao visar o rompimento com as leis e com os valores estabelecidos pela moral e pela religião, propõe, no seu avesso, uma outra, não menos rigorosa. Ao invés da renúncia pulsional individual em prol da vida social e da civilização, o primado passa a ser o do gozo individual irrestrito. As leis, diz “mestre Dolmancé”, não foram feitas para o particular, mas para o geral, donde a perpétua contradição com o interesse pessoal. Estas leis, boas para a sociedade, são más para o indivíduo que a compõe.
Retiro do texto algumas ideias e preceitos que são ali apregoados através dos diálogos.
Religião
“A religião estimula a fé num criador ridículo, falho, feroz e desprezível, fantasma abominável, fruto do medo de uns e da fraqueza de outros” (p. 28-29). O filho é concebido da imaginação humana que quis que seu deus também fodesse. É no ventre de uma puta judia, no meio de uma pocilga, que se anuncia que Deus vem salvar a terra.
Virtudes
Ordena a renúncia às virtudes, utopias cujo culto consiste em sacrifícios perpétuos. Na verdade, suas paixões são ainda piores, devem-se à ambição e ao orgulho, ao amor próprio. Das virtudes prescritas pela religião, as piores são a castidade e a caridade, verdadeiro vício do orgulho.
“O destino da mulher é de ser como a cadela, a loba, deve ser de todos que a querem (a mulher é livre para ser objeto de qualquer um, não de um só). Se o teu pai, que é um libertino, te deseja, então muito bem, que te possua, mas sem te escravizar. Quebra o jugo se ele o pretender. Fode, numa palavra fode, é para isso que estás no mundo. Não devem existir limites para os teus prazeres senão os da tua força ou da tua volúpia” (p.37).
Matrimônio
De todas as cadeias a serem rompidas, a primeira deve ser a do casamento, pois essas leis geradas pelos homens são impossíveis e não devemos nos submeter a elas. Assim, esse constrangimento absurdo deve ser descartado em segredo, sendo o adultério, considerado um crime pelos homens, apenas um direito natural. A vida social exige a falsidade.
Amor
Não há amor que resista a uma reflexão: “(…) alguns meses de gozo devolvem o objeto ao seu lugar verdadeiro. Deveis trepar, multiplicar e mudar com frequência de fodedores, deveis, sobretudo evitar que apenas um tente cativar vossos encantos, pois que o fim de tais meios seria impedir-vos de se entregar aos outros, um egoísmo cruel que cedo se tornaria fatal aos vossos prazeres” (p.95).
Laços entre pais e filhos
“Nada deveis a tais indivíduos cujo sangue os fez nascer. O cuidado interessado dos pais aos filhos na infância se deve ao receio de serem abandonados na velhice. Não deves recear o infanticídio, tal crime é imaginário; somos senhores do que temos no ventre” (p. 95-96).
Amizade
“Conservemos nossos amigos enquanto nos servimos deles.” (p. 97.
Reconhecimento
É o mais fraco dos laços. Nada pesa mais que a caridade recebida. Não há meio termo; ou a devolvemos ou nos aviltamos.
Gozo
A imaginação é o aguilhão dos prazeres, através dela se goza. É preciso não cair na tentação do amor e da maternidade. Apesar de que não há Deus vale a pena manter as blasfêmias, são as que melhor servem à imaginação.
“Não se trata de saber se nossos métodos agradam ou não àquele que nos serve. Sem dúvida a dor afeta mais vivamente o prazer” (p. 66). A crueldade está na natureza e muito longe de ser um vício, é apenas o primeiro sentimento que a natureza nos imprime e só a educação a modifica.
Como Lacan (1998) comenta no final de Kant com Sade, há pregação demais na Filosofia de Alcova. Trata-se de um tratado de educação para moças que expõe às claras o “sádico-anal” (p. 799).
O texto sobre a República – “Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos” – sintetiza o que já vinha discorrendo nos diálogos sobre um ideal de República em que se coloca contra a religião, critica os hábitos franceses e propõe novas leis fazendo desaparecer os crimes religiosos e a pena de morte. Questiona a universalidade de leis como a de amar ao próximo e o caráter maléfico da calúnia, do roubo e do assassinato. Questiona ainda os crimes morais, a partir dos ditos deveres do homem para com seus semelhantes, por tratarem de ações que podem ser inspiradas pela libertinagem, como a prostituição, o adultério, o incesto, a violação e a sodomia. Para um Estado tornado imoral, deixa de ser essencial aos indivíduos a moral.
(…) o homem gosta de ordenar, de ser obedecido, de se rodear de escravos obrigados a satisfazê-lo; ora se reprimirmos no homem o meio secreto de utilizar a dose de tirania que a natureza implantou no fundo do seu coração, ele encontrará desculpas para exercê-la sobre os que o rodeiam e, com isso perturbará o governo (p. 125).
“Se me é concedido o privilégio do gozo, este privilégio existe independente de suas consequências; a partir desse momento, é indiferente que esse gozo seja bom ou ruim para o objeto a se submetido (p. 128).
Como diz Lacan (1998), precisa-se de estômago para acompanhar algumas pregações de Sade, falta às vezes um chiste, um pouco de malícia. “Essa mediocridade não impede a sombria beleza que se irradia desse monumento de desafios. Ela nos atesta a experiência que procuramos por trás da fabulação da fantasia” (p. 800).
Um pouco adiante, acrescenta: “Cremos que ele não é tão vizinho de sua própria maldade que nela possa encontrar seu próximo” (p.801). A prova disso é sua recusa da pena de morte, cuja história bastaria para provar, senão sua lógica, que ela é um dos correlatos da caridade. A apologia do crime impele-o apenas ao reconhecimento indireto da Lei. O Ser supremo é restaurado no malefício. Sua técnica mostra como procura acabar com a lei do lado de dentro. Encoraja-nos a segui-lo com a promessa de que, “a natureza, magicamente, como mulher que é, nos fará cada vez mais concessões. Seria um erro nos fiarmos nesse típico sonho de poder” (p. 802).
Sade funda o reino de seus princípios no direito do homem. O fato de que nenhum homem pode ser propriedade de outro homem não é pretexto para que seja suspenso o direito de todos a gozar dele conforme seu capricho.
Para Lacan, o juízo sobre a ordem infame é indiferente, já que a questão é reconhecer o caráter universal, a prática universal da razão, do mesmo modo que a de Kant. Só que no imperativo sadiano a experiência moral é desde o Outro, é desde o Outro que seu mandato nos requer. É a liberdade do Outro quanto ao gozo que o discurso do direito ao gozo põe como sujeito de sua enunciação.
Sade, ao enunciar o direito ao gozo, desvela o antigo eixo da ética: o egoísmo da felicidade. Até onde Sade nos leva na experiência desse gozo, de sua verdade? O que se experimenta, ultrapassados certos limites (vizinhança da Coisa), nada tem a ver com aquilo pelo qual o desejo se apoia na fantasia, que justamente se constitui a partir desses limites.
A experiência sadiana reduz o gozo à miséria do efeito que produz: o horror. Monopoliza a vontade do sujeito já atravessado por esse gozo até atingir seu pudor. Entre dois, o despudor de um constitui por si só a violação do pudor do outro, forma de afirmação do sujeito no lugar do Outro.
Para Lacan, a razão prática de Kant é homóloga (não análoga) à Filosofia na Alcova: elas não só concordam como se completam. O mandato de Sade só é concebível a partir de uma ética radical como a de Kant, como a condição de exercício de uma razão prática, de uma vontade moral, ponto em que pode manifestar-se uma relação com um puro bem moral. Enfim, em Kant com Sade, o que Lacan propõe é uma equivalência entre o bem kantiano e o mal sadiano. A lei (máxima kantiana) vela a parcela de gozo que Kant enfatiza. Do lado de Kant, a renúncia ao gozo que também é gozo; do lado de Sade, sua liberação.
Referências Bibliográficas
LACAN, Jacques. “Kant com Sade.” In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
SADE, Marques de. Escola de Libertinagem. Tradução Aguinaldo Silva. Rio de Janeiro: Ed. Esquina, 1980.
Cleuza Maria de Oliveira Bueno é psicanalista - APPOA.
1 Marques de Sade, Escola de Libertinagem. Rio de Janeiro: Ed. Esquina, 1980.
2 Donatien Alphonse François, Marques de Sade, nasceu em 1740 em Paris e morreu aos 74 anos em 1814 em Charenton.
Filme
“Devassos, de qualquer idade ou sexo, só a vós dedico esta obra”. É com esta mensagem que se iniciam os 76 minutos, definindo muito bem o tom do que vem pela frente. Não demora mais de um minuto para entender toda essa aura, e o porquê do filme não ser recomendado para menores de 18 anos. Com uma trama que gira em torno de sexo, uma trilha sonora forte e um elenco afiado, A filosofia na alcova (2017) surpreende positivamente – mesmo que pareça improvável.
A filosofia na alcova é uma obra da literatura escrita pelo grande mestre do erotismo, Marquês de Sade. Sua adaptação para o cinema mantém o mesmo enredo, contando a história de Eugenie, uma garota virgem de 16 anos que vivia em um convento. Sua mãe, responsável por sua criação, era muito religiosa. No entanto, seu pai, era o extremo oposto. Em um dado momento, o pai da garota – um dos aficcionados pelos desejos devassos – envia a garota para Juliette e Dolmancé, especialistas no assunto, que ficam encarregados de quebrar a inocência da garota e ensiná-la tudo o que ela precisa saber sobre a libertinagem.
A jovem Eugenie é enviada, a mando do pai, para aprender a filosofia da libertinagem, e perder sua inocência. Foto: Divulgação.
Feito isto, os mestres desse estilo de vida passam a dar suas lições sobre o assunto, através de histórias sobre orgias, aventuras sexuais de suas vidas, e pensamentos filosóficos de Dolmancé, contrariando completamente tudo o que Eugenie havia aprendido por toda a vida – como a própria crença em Deus. Assim, nesse ambiente escuro e sujo, remetendo a estrutura de um bordel, a garota aprende de forma prática sobre seu corpo e sobre sexo – a princípio, involuntariamente. Pouco depois a garota se entrega aos seus desejos e passa a praticar os princípios libertinos, ouvindo agora a palavra dos dois mestres, e não mais às palavras do seu prévio conhecimento conservador.
Tratando-se de uma história sobre libertinagem, não há outra forma de representá-la senão sendo fiel a esse ideal. Por conta disso, não demora até assistirmos a primeira cena de nudez explícita – apenas o ponto de partida. Seios, vaginas, pênis, bundas, gemidos, orgasmos, aparecem como em uma passeata dando vislumbre a cada parte do corpo em excitação, concretizando a nudez com as sucessivas cenas de sexo. Todo esse erotismo domina ao longo de todo o filme, com as histórias sendo contadas por pessoas nuas ou mesmo pela representação em relações sexuais.
Mesmo após mais de 200 anos, o resultado é algo que, possivelmente, agradaria o criador da obra original. O roteiro é muito poético e, a cada discurso, o público é convidado a participar nas reflexões de uma sabedoria diferente da qual estão acostumados. Muito bem escrita, essa filosofia ganha um tom ainda mais forte na voz de Henrique Mello, que interpreta Dolmancé. Os ensinamentos à Eugenie constituem grande parte da história e são contribuições fundamentais para que o filme seja tão atrativo como ele é.
O personagem de Henrique Mello, Dolmancé, representa um grande expoente do tom irônico do filme, através de olhares e sorrisos maliciosos. Foto: Divulgação.
É inegável a percepção do tom irônico que permeia o filme. Percebe-se um tipo de sarcasmo em todos os personagens, como uma acidez em cada fala, sempre com um ar malicioso, como é visto logo na chegada da menina e seu primeiro encontro com os novos tutores. Isso fica ainda mais explícito ao ver o sorriso quase maléfico de Dolmancé, que chega a se assimilar ao de Heath Ledger na interpretação do icônico Coringa de Batman: O cavaleiro das trevas (2008), um dos pequenos toques que acabam sendo de muita importância e incrementando a narrativa.
A atuação também é algo impecável. O elenco composto pelos atores do grupo Os Satyros – que já apresenta essa obra há anos -, por serem do teatro, trazem atuações muito mais profundas do que a já rotineira atuação no cinema. Aliás, todos os atores são dignos de honra por entregarem um excelente resultado em cenas que exigem muito esforço, tendo que se despir e, literalmente, se entregar. Como exemplo dessa entrega, vemos as cenas em que é preciso ejacular e representar o sexo sem nada técnico, ou fake.
Um outro detalhe que merece destaque é a fotografia do filme. Por mais que o jogo de câmeras e angulações não sejam dos melhores, a suave e amena iluminação, e a paleta em tons escuros com predominância do vermelho representam muito bem essa atmosfera que exala a lascívia e os prazeres carnais. Essas cores já são típicas quando o assunto são as práticas sadomasoquistas (que, aliás, ganham esse nome por conta do Marquês de Sade), como vemos também no quarto vermelho, de 50 tons de cinza (2015). Todo esse contraste em preto e vermelho, além de agregar beleza, é extremamente adequado.
O aspecto visual é um ponto fundamental na execução de A filosofia na alcova, com sua fotografia e paleta de cores bem trabalhadas. Foto: Divulgação.
Talvez um dos pontos que mais chamam a atenção é a mistura de passado com presente. Chega a ser cômico ver personagens caracterizados com roupas de época em meio a uma São Paulo contemporânea. Todos os personagens utilizam um figurino fiel ao século XVII, tem seus rostos cobertos pelo pó branco (pancake) e ainda assim vivem no presente. Não sabemos se estamos assistindo a um filme de época ou contemporâneo. O contraste fica claro na cena em que Juliette está no topo de um prédio e parte em um voo de helicóptero, ou quando vemos uma limusine andando pela cidade. O oposto é visto quando a mãe de Eugenie é transportada por uma carruagem que é puxada por dois homens, seus escravos. Essa escolha conflitante pode, na verdade, ser vista como uma ideia conceitual, tendo um interessante resultado final.
Tudo isso é embalado por uma ótima trilha sonora, que é muito mais do que plano de fundo. Os sons de piano, violino dão ritmo e energia às cenas do longa. Toda essa mistura da música forte fazem com que o longa tenha um aspecto artístico muito interessante, complementando sua fotografia.
Com uma narrativa ousada, o filme expõe, sem qualquer pudor, a temática do sexo. Foto: Divulgação.
Um telespectador desavisado ou despreparado pode se constranger ou até mesmo se irritar com o choque que o filme promove em várias cenas. No entanto, em dois momentos esse choque ultrapassa os limites, sendo desconfortáveis pelos personagens forçarem outros em relações sexuais. Mas o ápice dos choques são as cenas finais do filme, que surpreendem e nos fazem pensar em como as coisas foram longe demais aos personagens.
Apesar de não ser de uma grande produtora, estando mais próximo do universo indie, A filosofia na alcova nos prova que o cinema independente tem muito a oferecer. Mesmo que seus recursos não se comparem às grandes produções de outros estúdios brasileiros, ainda assim se mostra uma grande obra. O tema polêmico é bem desenvolvido, e tudo é bem construído. Todos esses fatores apenas nos comprovam que o cinema nacional é promissor e pode sempre nos surpreender.