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Psychosis and Social Bond Schizophrenia Paranoia and Melancholy

Psychosis and Social Bond Schizophrenia Paranoia and Melancholy

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Psicose e laço social: Esquizofrenia, paranóia e melancolia
Quinet Antonio

Isto porque, se as formas dos sintomas mudam de acordo com o discurso dominante na civilização, as estruturas clínicas permanecem as mesmas e se declinam em neurose, perversão e psicose para a psicanálise


conforme a maneira como o sujeito lida com a falta inscrita na subjetividade


O “invólucro formal do sintoma” varia segundo a época


os dois grandes tipos clínicos da neurose – histeria e neurose obsessiva – e à psicose um terceiro tipo clínico que é a melancolia, base da psicose maníaco-depressiva,


Ao se substituir as doenças próprias da psiquiatria clássica por transtornos, opta-se mais pela descrição e pela comunicação desses fenômenos entre colegas que por uma clínica em que cada caso seja efetivamente um caso e onde os fenômenos sejam considerados sintomas, ou seja, formações de compromisso entre as diversas instâncias do aparelho psíquico.


preocupação de se constituir uma língua comum entre psiquiatras de todo o mundo, como um esperanto que pudesse terminar com o mal-entendido próprio à comunicação.


podemos nos perguntar se não estaria havendo uma inversão do procedimento psiquiátrico: os medicamentos determinam os diagnósticos.


Em outros termos, a estrutura é apreendida pela psicanálise e os fenômenos, pela psiquiatria.


Assim, ele encontra a semelhança da formação dos sonhos com a formação dos sintomas neuróticos, a analogia do sonho com a alucinação e seu parentesco com a psicose


o que leva Lacan a definir sua ética como ética do bem dizer.


Trata-se de uma ética relativa à implicação do sujeito, pelo dizer, no gozo que seu sintoma denuncia


ética de bem dizer o sinto


evitando assim o furor sanandi de exigir a qualquer custo a suspensão do sintoma. Pois lá onde há sintoma, está o sujeito.


É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico estrutural por meio de três modos de negação do Édipo – negação da castração do Outro – correspondentes às três estruturas clínicas.13 “Um modo, recalque (Vendrängung) do neurótico, nega o elemento, mas o conserva no inconsciente. Outro, o desmentido (Verleugnung) do perverso, nega-o mas também o conser


va, dessa vez no fetiche. Já a foraclusão (Verwerfung) do psicótico é um modo de negação que não deixa rastro ou vestígio algum: ele não conserva, arrasa. Os dois modos de negação que conservam o elemento implicam a admissão do Édipo no simbólico, o que não acontece na psicose.”


A essas formas de negação correspondem as modalidades de retorno da operação de negação da castração: o retorno do recalcado no sintoma neurótico, o retorno do desmentido no fetichismo do perverso e o retorno do foracluído nas alucinações e delírios do psicótico


O mal-estar na civilização é o mal-estar dos laços sociais


Governar corresponde ao discurso do mestre/senhor, em que o poder domina; educar constitui o discurso universitário, dominado pelo saber


analisar corresponde ao laço social inventado no início do século XX por Freud, em que o analista se apaga como sujeito por ser apenas causa libidinal do processo analítico,


e fazer desejar é o discurso da histérica dominado pelo sujeito da interrogação (no caso da neurose histérica, trata-se da interrogação sobre o desejo), que faz o mestre não só querer saber mas produzir um saber.


O discurso como laço social é um modo de aparelhar o gozo com a linguagem, na medida em que o processo civilizatório, para permitir o estabelecimento das relações entre as pessoas, implica a renúncia da tendência pulsional em tratar o outro como um objeto a ser consumido: sexual e fatalmente. Pois a inclinação do homem é ser o lobo do outro homem, ou seja, abusar dele sexualmente, explorá-lo, torturá-lo, matá-lo, saciando no outro sua pulsão de morte erotizada. A civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional. Todo laço social é portanto um enquadramento da pulsão, resultando em uma perda real de gozo.


quando o médico cala e, ocupando o lugar de objeto causa de desejo em transferência, faz o paciente segredar aquilo que ele mesmo nem sabia que sabia, vemos a emergência do discurso do analista


Quando o médico manda e o paciente obedece (até na prescrição de um remédio), estamos no discurso do mestre; quando o médico ensina ou convence o paciente do que a psiquiatria tem a dizer sobre seu caso, ele se encontra no discurso da universidade;


E, quando o médico se vê impulsionado a se deter, a estudar e a escrever para produzir um saber provocado pelo caso do paciente, estamos no discurso histérico.


Não importa o que aconteça, continue avançando; continue trabalhando para o saber


Não importa os meios nem os fins – não deixe de produzir saber


Mas, em contraposição a uma ciência universitalizante, só é possível uma ética do particular como propõe a psicanálise, que inclua o sujeito cuja essência, segundo Espinosa, é o desejo.


Trata-se de objetivar, objetalizar para aplicar o saber. Isto não é segredo nem novidade no âmbito médico.


Eis a divinização do saber promulgada pela idealização do discurso universitário da ciência. Deus é o cúmulo do saber.


Na psiquiatria, os objetos produzidos pelo saber da neurociência são os medicamentos que podem facilmente virar objetos de consumo quando a psiquiatria entra no discurso do capitalista.


Contra o imperativo do ter, a psicanálise propõe a ética da falta-a-ter, que se chama desejo, e a gestão, não do capital financeiro, mas do capital da libido, por definição sempre no negativo.


será que não são os “males” que agora são criados e categorizados em novas síndromes para serem então tratados pelas novas drogas?


tratamento psiquiátrico a partir de uma clínica do sujeito é um dever ético que a psicanálise propõe à psiquiatria.


o conceito de Inconsciente e de suas leis da fala e da linguagem; no segundo, dos conceitos de angústia e de pulsão; e no terceiro período, dos conceitos de repetição, pulsão de morte e seus sucedâneos (o supereu, o mal-estar, o masoquismo).


E o sujeito é definido como equivalente à falta de um significante


que diga o que ele é: o sujeito é um significante pulado da cadeia, falta-a-ser.


O gozo, enquanto tal, não se deixa apreender totalmente, ele está sempre extravasando, transbordando, escapando


ele não se deixa reduzir ao sexo, pois não se deixa aprisionar pelo significante fálico


O campo do gozo é, antes de tudo, um campo operatório e conceitual, estruturado pela linguagem por meio de seus aparelhos, que são aparelhos de tratamento do gozo nos laços sociais: os discursos. São eles que constituem a realidade


Ao ser aparelhado pelos discursos onde se inscreve o ser falante, o falasser, como o gozo se manifesta? Na repetição, como Freud detectara, que é repetição significante, a qual constitui o inconsciente como uma rede de saber.


No campo do gozo, os elementos que compõem os discursos – S1, S2 e objeto a – são, portanto, modalidades de gozo, e o sujeito () é resposta do rea


No campo do gozo, o Um do significante (S1) só existe como o


significante do transbordamento, significante do excesso e do fracasso, que, apesar de mestre, não o domina. Ele é o significante do encontro marcado e faltoso com o sexo, o significante do trauma que se repete ao longo da vida do sujeito


o S2, o significante binário, é o saber definido como meio de gozo, como aparece no discurso do mestre


Eis os matemas formalizados por Lacan para escrever os quatro discursos como laço social.


o impossível como real: impossível de ser escrito e de ser suportado


Esse real é tributário da pulsão de morte não-simbolizável que retorna no laço social sob a forma de gozo, trazendo as impossibilidades nos laços entre os homens


Um dizer é aquilo que, não sendo propriamente da ordem da fala, funda um fato. Os discursos fundam fatos, que são os laços entre as pessoas.


E, partindo do que se chama, na lógica da teoria dos conjuntos,“ a permutação circular”, propõe quatro lugares (agente, verdade, outro e produção) e quatro elementos que vão permutar nos lugares (S1, S2, a, ).


Mas o que é o S1? É um significante tomado a partir de sua propriedade de comando.


Assim o comando próprio ao significante-mestre é um comando de gozo, como é desvelado no discurso do mestre.


O S2 é a repetição do S1. A repetição, conceito fundamental da psicanálise, é retomada por Lacan no campo do gozo, a partir de Freud. Trata-se da repetição da primeira experiência de satisfação: estamos sempre buscando repeti-la e sempre fracassando em alcançá-la


Quando S1 se repete não é mais o S1, e sim o S2. Eis o paradoxo da repetição. É uma repetição de gozo, mas que implica o reencontro com a falta de gozo. Essa repetição que não cessa forma a própria rede de significantes – eis o saber inconsciente (S2), o qual se constitui, portanto, através da repetição do S1 comemorando o gozo


O mestre/senhor (S1) comanda o escravo (S2) a produzir os objetos (a) dos quais ele irá gozar. É o escravo que detém o saber para produzir os objetos, e esse saber constitui seus meios de gozo. O S2 como saber é um meio através do qual o sujeito goza – com o Inconsciente. Essa nova conceituação nos indica que o saber é também uma forma de gozar


O sujeito é uma resposta do real da repetição significante do gozo


Mas na verdade é a mais-valia de Marx que é uma forma do objeto mais-de-gozar.


O que é o mais-de-gozar? Na repetição, em que o sujeito está sempre procurando obter novamente aquela experiência que o S1 comemora, há um gozo de busca, e também um gasto. E o resultado é o gozo fracassado


A barra presente nas duas frações que compõem cada discurso não corresponde exatamente à barra do recalque, como no matema do signo lingüístico que Lacan vai tomar de Saussure, o do significante/significado (S/s). A barra da primeira fração de cada discurso representa a interceptação da apreensão de qual é a verdade em causa em cada laço social. No discurso do mestre (S1/), o governo parece se instaurar a partir de leis, projetos de sociedades, programas etc. representados no matema (sua fórmula) pelo S1. Mas, na verdade, o que é escamoteado é que há sempre sujeitos () sustentando esse governar, essa dominação que é imposta ou aplicada aos outros sujeitos


No discurso universitário, a educação se dá pela aplicação do saber (S2/S1) como saber universal, sustentado, porém, por autores, inventores ou descobridores (S1) desse saber. No discurso histérico (/a), se o agente do discurso é o sujeito do inconsciente com seu sintoma e sua divisão (), a verdade na qual esse discurso se embasa é o objeto a, mais-de-gozar (a) escondido do qual o sujeito se esmera em ser o porta-bandeira para atiçar o mestre. E no discurso do analista (a/S2), o analista como semblante de objeto a se sustenta em seu ato na verdade do saber sobre a castração, a falta e a inexistência da relação sexual.


que devem cumprir as ordens; eles devem saber fazer, saber obedecer e saber produzir.


do lado do analista aquela figura que Lacan chamou de sujeito suposto saber


Assim a barra da primeira fração é aquilo que indica o representante e o representado em cada laço social


O representado, escamoteado pela barra, é o que sustenta a verdade de cada discurso. O agente de cada laço social é o agente da verdade para o outro produzir alguma coisa.


O lugar do agente do discurso é o lugar da “dominante”


Trata-se daquilo que determina o agir do sujeito, ou seja, ele age de acordo com a dominante do discurso em que está inserido


o mestre (S1), o saber (S2), o sujeito () ou o objeto (a)


No discurso do mestre a dominante é a lei, no da histérica é o sintoma, no do universitário é o saber e no do analista, o mais-de-gozar.


o que vai dominar o discurso do analista é o próprio analista com seu desejo, pois é ele que dirige o tratamento.


e no discurso do analista, a referência não é o analista, é o analisante. Não há análise se o analisante não é “dominado” pelo objeto causa de desejo.


Todo discurso que trata o outro como objeto pode ser chamado de discurso universitário. Todo laço social que trata o outro como um mestre é discurso da histérica. Quando alguém trata o outro como um escravo ou como um saber produzir, estamos no discurso do mestre.


o significante-mestre (S1). No discurso do mestre o S1 é a lei que encarna o mestre; no discurso da histérica, o S1 é o mestre; e no universitário ele é o autor. Em cada um destes discursos, o S1 pode ser encarnado por alguém: o governante, o próprio mestre, o autor. O discurso do analista revela que esse S1é apenas um significante, que não precisa necessariamente ser encarnado por ninguém.


A barra da segunda fração dos matemas dos discursos refere-se ao que o outro de cada laço social deve produzir


No caso do discurso do mestre são os objetos de gozo para o mestre, a sociedade, a fábrica etc. No discurso do universitário o que é produzido é o sujeito dividido () que se revolta ou sintomatiza ao ser tratado como objeto a. No discurso da histérica é o saber (S2)que o mestre (S1) fabrica e no discurso do analista o analisante () produz o significante de sua singularidade, como por exemplo o sintoma analítico.


O mal-estar é o produto dos discursos dominantes em nossa civilização: do mestre, do universitário e do capitalista


Os discursos do avesso da civilização levam a pulsão em consideração (representada pelo objeto a): como verdade, no discurso histérico, e no lugar de agente, no discurso do analista


O laço de educar, do discurso universitário – que estruturalmente não se distingue do laço de burocratizar –, gera, ao tratar os indivíduos como objetos, o sujeito patológico, o sujeit


do sintoma, o sujeito-castração


É o único, insisto, em que o significante-mestre não pode ser encarnado por ninguém e se desvela como ele é: puro significante.


no discurso do analista, a a-cracia, onde se trata do governo de a (mais-degozar) – que se desvela como impossível de governar, pois esta forma de laço se encontra no “pólo oposto a toda vontade de dominar”.14


No lugar da verdade encontra-se o capital (S1) como significante-mestre desse discurso; o sujeito é reduzido a um consumidor () de objetos, os gadgets (a) produzidos pela ciência e tecnologia (S2).


Por outro lado, ao colocar a mais-valia no lugar da causa do desejo, essa sociedade transforma cada um num explorador em potencial de seu semelhante para dele obter um lucro de um sobretrabalho não contabilizado


Esse sujeito como falta-a-ser é o sujeito como falta-a-ser-rico; e a falta-de-gozo se inscreve como a falta-a-ter-dinheiro: é o sujeito descapitalizado. Assim, o discurso do capitalista produz o sujeito inadimplente, o sujeito da dívida que se eterniza.


Cria a dívida que só aumenta: começa-se a pagar os juros, os juros dos juros e os juros dos juros dos juros


O senhor absoluto moderno, que vem no lugar hegeliano da morte, é o capital, em relação ao qual, vaticina Lacan, somos todos proletários.


É, de fato, uma clínica do semidizer, pois em nenhum discurso, seja qual for o laço social, a verdade se mostra completamente. É uma clínica do ato e não da palavra.


O setting não define o discurso, tampouco as palavras pronunciadas, e sim o ato.


O ato analítico ocorre nesse laço inédito em que a desidentificação aos ideais do Outro é promovida e o sujeito é li


berado das amarras do mestre do significante


Na psicose, de forma geral, toda tentativa de cura é uma tentativa de inserção no laço social, inclusão em algum discurso


O perverso é um burocrata do gozo desvelando a perversão da burocracia e da educação como uma das formas do mal-estar na civilização


ainda que há um imperativo tirânico no ato de educar – este se enuncia seja como um imperativo de tudo saber, seja como imposição de um autor, ou ainda a imposição de uma leitura única.


Na clínica, encontramos freqüentemente o pai real como um pai gozador. É a imagem do pai safado, ladrão, de quem se herdam os pecados, pois cometeu alguma falta que implica seu gozo


é porque o que está “foracluído” do lado de dentro retorna no lado de fora, ou seja, na realidade, sob a forma de delírios e alucinações


O excluído está incluído do lado de fora, daí, foracluído


Assim como o que importa clinicamente na neurose é não só o recalque mas sobretudo o retorno do recalcado (o sintoma e outras formações do inconsciente), na psicose o que interessa ao clínico é o retorno do foracluído


não há ninguém que não esteja concernido pela loucura, não só a do outro, como também a sua própria.


O sintoma na psicose, como delírio ou alucinação, é uma tentativa de cura da foraclusão do Nome-do-Pai. O medicamento jamais é tentativa de cura.


Incluir o sujeito no tratamento


por um lado a inclusão do sujeito do inconsciente, com sua fala, sua história e seus sintomas, manifestações de sua singularidade


incluir o sujeito no tratamento é fazê-lo co-responsável por ele, solicitando do sujeito seu comprometimento, a começar pelo reconhecimento da “escolha” de sua patologia. Essa inclusão se opõe a paternalizá-lo ou prestar-lhe cuidados de maternagem. O psiquiatra não é nem pai nem mãe


aquele que cortou os laços com as exigências da civilização, tais como renunciar às pulsões sexuais em função do outro. O psicótico recusa radicalmente essa renúncia, por recusar a lei simbólica e a regra universal da castração para todo homem. Incluir o psicótico na sociedade não equivale a adaptá-lo e nem a tentar fazê-lo um igual, denegando sua diferença. A inclusão de que se trata é a inclusão da diferença radical no seio da sociedade de supostos iguais – por exemplo, a sociedade de cidadãos


para que ele não queira a qualquer custo fazer de um psicótico um neurótico


Podemos estender a todos os “psi”a precaução que Freud preconizou aos analistas contra o desejo de curar e a de Lacan contra o desejo de querer o bem do paciente


A foraclusão implica sempre o retorno no real daquilo que foi foracluído no simbólico


e sim deixá-lo fazer sintoma sem Nome-do-Pai, um sintoma que pode ir do delírio à arte, passando por todas as artimanhas.


Quem é esse Outro? Na paranóia, o outro é sem lei e quer prejudicar o sujeito. Na esquizofrenia, o sujeito se retrai autistamente em relação ao outro da injúria alucinatória. O melancólico é o indigno do outro e culpado pela ruína do social;o maníaco é o pródigo que faz do outro sua fartura, e o megalomaníaco é o Um que se considera o outro de todos os outros e quer ordenar o social.


Segundo Lacan, na psicose, o Outro está excluído e o sujeito só lida com o pequeno outro


Mas há também um avesso dos discursos como um todo que é representado pelo avesso ao laço social estabelecido, que é o psicótico. Ele é esse fora que nos remete ao fato de que nós estamos presos aos discursos.


A direção do tratamento na esquizofrenia vai no sentido daquilo que não se efetuou para ele e que ele mesmo se esforça em realizar. Daí o clínico não dever a qualquer custo eliminar os sintomas do sujeito, o que não quer dizer que não deva indicar a medicação para atenuá-los. A medicação deve ser um auxiliar na análise dos esquizofrênicos.


O analista pode secretariar o esquizofrênico em suas tentativas de estabelecer pares de oposição significante e promover a pontuação em sua fala para possibilitar a precipitação do sentido


Nesse sentido, são tentativas de fazer laço social: o delírio pode até inventar um outro do amor, pelo qual o sujeito se apaixona. Os delirantes não apenas amam seus delírios como a si mesmos, mas são apaixonados pelo Outro, e são os amados do Outro


O psiquiatra da reforma não pode ser o agente do capital. Nem o psiquiatra das neurociências, cujas pesquisas já são impulsionadas pelo capital e pela política de resultados que devem ser “evidentes para todos”


enquanto na esquizofrenia preponderam os distúrbios da associação de idéias (Bleuler), na paranóia predominam as interpretações


, ao auto-erotismo no caso dos esquizofrênicos e ao narcisismo na paranóia. Daí encontrarmos nos primeiros, em relação ao estádio do espelho, as imagens do corpo despedaçado e portanto tendência à fragmentação do corpo (não-unificado), inconstituição do eu, assim como a dispersão do sentido. Na paranóia prepondera a fixação à imagem do outro (a-a’), o congelamento do sentido e a enfatuação do eu que vai até a megalomania.


No registro do Real, no que concerne ao gozo, verifica-se na esquizofrenia a fragmentação do gozo do corpo, da fala e do pensamento – o gozo está disperso e tende a invadir todas as instâncias sem enquadramento algum, de forma anárquica. Na paranóia, em contraposição, há uma concentração do gozo no Outro, na figura do perseguidor, da pessoa amada ou odiada, do traidor etc.


Na clínica, a depressão não existe; o que encontramos são estados depressivos que ocorrem em algum momento na vida de um indivíduo e apresentam uma história subjetiva precisa.


Por outro, há um combate ferrenho à depressão – Abaixo os deprimidos. –, por ela ir contra os ideais da produtividade e contra o imperativo da saúde e do bom humor que caracterizam nossa sociedade utilitarista e de consumo.


tudo isso pode efetivamente contribuir para o estado depressivo de um sujeito desorientado em relação a seu desejo, perdido de seus ideais.


A tristeza, como sentimento humano, demasiadamente humano, é a expressão da dor própria à existência e se refere a uma posição do sujeito que faz parte da estrutura psíquica. Se essa posição não deixa de ser estrutural, a ela o sujeito não deve ceder, posto ser uma posição relativa ao gozo que se opõe ao desejo.


Oferecendo um tratamento pela via do desejo, a psicanálise torna possível para o sujeito o caminho que parte da dor de existir e segue em direção à alegria de viver. Para isso, todavia, é necessário que o sujeito queira saber, tendo a coragem de se confrontar com a dor que morde a vida e sopra a ferida da existência, a fim de fazer da falta que dói a falta constitutiva do desejo.


A melancolia é uma forma clínica da tristeza a ser diferenciada do luto e do estado depressivo neurótico. Pretendo aqui situá-la no âmbito da ética em relação à tristeza para entregar ao sujeito a escolha do destino que dará a seu desejo. Para que, ao se confrontar com os impasses do desejo, ele não fique triste e acovardado, mas queira saber, decifrar, criar. E do saber formalizado sobre seu desejo, fazer poesia; do matema fazer poema. Ética do bem-dizer.


O que provoca a dor psíquica? A primeira resposta de Freud, em sua correspondência com Fliess, é que a dor é produzida pela dissolução das associações na cadeia dos pensamentos inconscientes, como ocorre na melancolia, em que há um “furo no psiquismo”. Essa quebra da cadeia de significantes é concomitante a uma “hemorragia” de libido. Por outro lado, “a dor corresponde a um fracasso do aparelho psíquico”, quando ele deixa de ser eficiente e grandes quantidades de energia irrompem.


Isto porque todas essas perdas têm um significado: castração, que resume os “determinantes finais e definitivos”. Eis por que são dolorosas, e o sujeito, para sair da dor, deve fazer o luto do que perdeu


Encontramos aqui o fundamento freudiano do que desencadeia o luto, a depressão e a melancolia: é a perda daquilo que escamoteava a castração


No caso do neurótico, a castração que se inscreve como a falta de um significante que complete o Outro – (S()) – evocando a negativação do falo no imaginário (-φ); no caso do psicótico, a falta de inscrição simbólica da castração, que se manifesta co


mo furo real correlativo à elisão do falo (Φ0


O afeto depressivo da dor de existir remete ao furo de gozo próprio à estrutura de linguagem


De quem é a culpa? Aí aparecem três culpados.5 Em primeiro lugar, o sujeito culpa a sociedade, que não coloca à sua disposição objetos adequados para seu gozo. Em segundo lugar, diz que a culpa é do Outro, ou seja, o Outro não dá o que ele quer. Mas o Outro, enquanto tal, é inconsistente, porque também a ele o gozo falta. “A culpa seria do Outro se ele existisse”


O sujeito pode até pensar que o Outro é inteiro por causa do ideal do eu – I(A) – que o representa, mas quando o ideal cai e o sujeito se depara com a falta no/do Outro, ele não pode mais culpá-lo. E assim surge o terceiro culpado: o sujeito acaba tomando para si a culpa da castração como inadequação do gozo.


O sentimento de culpa é o índice do supereu que vigia, critica e pune o sujeito.


O não dar conta é sempre a queixa do impotente, mas na verdade trata-se de um prestar contas.


O sujeito está sempre aquém das contas que tem que prestar aos olhos do Ideal – e o credor é o supereu. Fazer as suas contas, ou acertar as contas, é realizar que aquilo que ele julgava ser impotente para resolver é impossível. A passagem da impotência (que corresponde à falência do desejo) ao impossível marca a saída da depressão. Trata-se da passagem do “eu não dou conta” do deprimido ao “o que não tem remédio, remediado está” da castração assumida pelo sujeito.


Tudo perdemos”, diz Lady Macbeth, “quando o que queríamos obtemos sem nenhum contentamento


Essas formas da tristeza são extravios do desejo.


O tristonho, seja deprimido ou melancólico, é aquele que não se orienta no inconsciente, e cujo desejo se encontra extraviado. Ele está portanto desorientado em relação ao desejo inconsciente. Ele mal-diz o desejo; ou seja, não tem um dizer sobre ele e nem quer saber nada sobre ele. Eticamente falando, o sujeito triste é um frouxo, pois mantém uma relação frouxa com a cadeia inconsciente do desejo. A tristeza é uma frouxidão do desejo.


Orientar-se no Inconsciente significa saber quais são as cadeias significantes, os significantes primordiais que determinam no sujeito suas ações, suas fantasias, seus sintomas, ou seja, as vias por onde corre seu desejo.


Estar orientado em relação à estrutura que o determina como sujeito é, portanto, condição para ele cumprir o dever ético de bem-dizer proposto pela psicanálise.


o sujeito se encontra dividido em relação a seus desejos – o que não é motivo para recuar, mas para tentar bem pensá-los (para Espinosa), bem decifrá-los (para Freud), bem dizê-los (para Lacan).


Desejar é correlativo ao pensar, e o pensar ao agir.


O desejo leva à ação, a tristeza diminui a potência da ação


Se, melancolicamente, o poeta diz que a tristeza não tem fim, a psicanálise mostra com a clínica a partir de Freud que a tristeza tem uma história: inicia uma perda, se constitui como covardia moral e rejeição do saber e termina com sua transmutação em gaio saber e desejo de existir.


O mal-dizer da tristeza corresponde ao calar-se, refugiar-se no silêncio, no isolamento onde o Outro está excluído, como dissemos


O sujeito triste está desorientado na estrutura dos significantes que determinam para ele onde se articula seu desejo.


Quando maníaco, sob o império do desvario metonímico da linguagem, o sujeito desvela-se como mortificado pelo significante, revelando em sua fala (que é uma fala de pura associação por assonância) que a palavra é de fato o assassinato da coisa. É o retorno no real do rechaço do inconsciente.


Como saber, trata-se de um saber orientar-se no inconsciente, como já dissemos, e também saber lidar com a falta a partir da linguagem.


O sentir-se frouxo, sinal de impotência, tem como correlato o sentimento de culpa, que é o indício de que o sujeito cedeu de seu desejo. Essa gama de afeto que faz do sujeito triste, covarde, sentir-se frouxo e daí culpado nos permite inserir o afeto depressivo no âmbito da ética.


o sintoma analítico com sua transferência de libido arranca o sujeito da covardia moral para pô-lo ao trabalho sobre o desejo


melancolia, caracterizando-a por uma “depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda atividade e a diminuição do sentimento de auto-estima, que se manifesta em auto-acusação e auto-injúria, indo até a espera delirante de punição.”


Quando saem do estupor e começam a recuperar alguma vivacidade, eles “ficam surpresos como se acordassem de um pesadelo; a cura é um despertar”


O delírio, diz ele, nada mais é senão “uma tentativa de interpretação do estado de aniquilamento profundo, de dor moral ou das causas que a produziram, e para as quais o paciente procura a razão ou prevê as conseqüências”


A causa incógnita, ou perda desconhecida, corresponde estruturalmente ao “furo no psiquismo” descrito por Freud, e, em Lacan, à foraclusão do Nome-do-Pai


A dor de existir, o simples fato de ser vivente, preço de ser sujeito da fala, se transforma na dor do preço a pagar pelo crime de estar vivo, o qual se materializa na busca de um crime efetivamente perpetrado.


A humildade e a auto-acusação, que são parte integrante da justificação delirante, são fenômenos necessários mas não suficientes para o diagnóstico da melancolia, pois não são elementares. A auto-acusação não é patognomônico da melancolia; ela pode estar presente em outras formas de psicose e também na neurose. A humildade engloba o sentimento de incapacidade, de não ser digno de estima e de merecer o mal de que sofre. Por sua vez, a tentativa de suicídio tem o sentido de suprimir um ser tão incapaz, inútil e inclusive perigoso para os demais


No delírio de ruína, eles pensam ter perdido sua riqueza moral, intelectual e material. É o avesso do delírio de grandeza, em que os doentes se atribuem imensas riquezas e múltiplos talentos e capacidades.


A melancolia, a esquizofrenia e a paranóia situam-se no âmbito da foraclusão do Nome-do-Pai. Isso significa que devemos abordar a questão da melancolia a partir dos fenômenos da ordem da linguagem e dos fenômenos do gozo.


relação entre a melancolia e a “anestesia sexual”. Trata-se de uma indiferença, falta de vontade de tudo e especialmente falta de vontade sexual. Há, portanto, abolição do desejo na melancolia: desejo . 0;


uma perda da vitalidade, um cansaço, fraqueza


A melancolia, diferentemente das neuroses de transferência, não faz economia da angústia


a melancolia pode se transformar em mania


a perda do melancólico é indefinida. Ele sabe que perdeu alguma coisa, mas não sabe o quê


A hemorragia é descrita como uma excitação escorrendo por um furo, que funciona como um ralo. Esse furo no psiquismo é equivalente ao furo no Simbólico, à foraclusão do Nome-do-Pai.


a melancolia desvela “a origem sórdida de nosso ser


a ambivalência, ambivalência de amor e ódio pelo pai, que faz parte do complexo de Édipo


Na paranóia, elas se transformam no delírio de perseguição;há um retorno do ódio do Outro contra o sujeito e o ódio do Outro se inverte: é o Outro que odeia, e o sujeito é seu objeto


Por sua vez, na melancolia o ódio ao Outro retorna e aparece como autorecriminação por sua morte. O sujeito é o culpado pela morte do Outro, ou seja, a pulsão hostil passa para o Real e o sujeito se considera o assassino.


o melancólico se identifica com o pai morto”, ou seja, há uma identificação com o pai como objeto perdido


Isso nos permite concluir que, na melancolia, diferentemente da paranóia, há a foraclusão do amor, restando esse puro ódio que o sujeito voltará contra si próprio.


a Coisa é aquilo que, do Real, padece do significante


há o gozo da Coisa, e esse gozo é esvaziado pelo significante


O sujeito é coisificado: todo o Simbólico se retira e ele se torna a “Coisa melancolizada


Digamos que ele compõe a melancolia a partir desse tripé: luto, narcisismo e teoria pulsional


Se essa perda é da ordem de um ideal, o que temos em jogo é um significante-mestre que poderia ser sustentado por alguém, ou um significante idealizado como a Pátria, a Liberdade etc., isto é, um S1 que ocuparia esse lugar de suplência à foraclusão do Nome-do-Pai.


Quando esse significante é perdido – ou a sua sustentação –, ele não pode mais ficar nesse lugar, e a melancolia é desencadeada, pois o sujeito se vê diante desse “furo no psiquismo


O ideal do eu é o traço do Outro, ou melhor, a insígnia do Outro que situa o eu ideal para o sujeito, i(a), como aquele objeto imaginário, amado pelo Outro, com o qual o sujeito se identifica


No caso do enlutado, o trabalho de luto fará com que o sujeito retire o investimento libidinal do objeto perdido e reinvista em um outro objeto, ou seja, erija um outro ideal do eu, seja um ideal abstrato, seja um objeto de amor. Já no caso do melancólico isso não ocorre; ele se identifica com o objeto perdido, “a sombra do objeto cai sobre o eu


Freud utiliza o conceito de narcisismo para explicar que todo o processo melancólico é “auto” .selbst., nele próprio, não partindo em direção ao outro


A análise da melancolia nos ensina que o eu não pode se matar a não ser quando ele pode, por um retorno de investimento de objeto, tratar a si mesmo como um objeto, quando ele consegue dirigir contra si mesmo a hostilidade que visa a um objeto e que representa a reação originária do eu contra os objetos do mundo exterior


Freud interpreta que essa acusação que o melancólico dirige contra si mesmo na verdade está sendo dirigida ao objeto perdido, àquele que morreu, àquele que o abandonou


na melancolia o eu se cindiu em uma parte que critica e noutra que é criticada, ou seja, ele já indica a estrutura do supereu, que trata sadicamente o sujeito como um objeto.


Quando o sujeito perde aquele que vem cumprir a função do Outro que cuida e ama, ele se vê diante da castração


Ora, sabemos que esse eu, que é um eu corporal, construído a partir da insígnia do Outro – I(A) –, é o que vem no lugar de (-φ), ou seja, no lugar do que falta ao Outro.


O sujeito se depara com essa falta até que ele possa voltar a colocar outra pessoa nesse lugar vazio e continuar a sua vida amorosa.


O enlutado tem lembranças em que demonstra um grande amor pela pessoa perdida, assim como um grande ódio.


No caso do melancólico, podemos dizer que há uma foraclusão do Outro do amor; ele perde esse Outro que ama e cuida, e o que lhe sobra é um supereu extremamente cruel, que odeia o sujeito.


O que eu fiz para merecer isso?”, que é uma forma de sustentar o Outro a partir de seu desejo


no trabalho de luto o sujeito estava desprendendo uma energia enorme para dar conta da perda do objeto amado


Quando consegue concluir esse trabalho, aparece um alívio, uma alegria, que vem de uma energia que agora é liberada.


No caso do delírio de pequenez ou delírio de ruína, o sujeito se encontra sempre em seu centro, foi por causa dele, de alguma coisa que ele fez, que ele se arruinou, arruinou a família, o bairro, o país e o mundo.


Freud situa o ideal do eu (o que os pais queriam que eu fosse) como herdeiro do narcisismo infantil, ou seja, é o ideal do eu – I (A) – que sustenta no adulto a imagem do eu – i(a) – do sujeito. O supereu é descrito como herdeiro do complexo de Édipo, que se tornará presente na angústia – sempre angústia de castração –, denotando a presença do objeto a.


A paixão amorosa – e Lacan diz que há algo parecido na loucura – ocorre quando o sujeito, de maneira contingente, encontra na mesma pessoa a conjunção do ideal do eu e do eu ideal


A mania, portanto, aparece como o avesso da melancolia. Se o sujeito fica triste porque perdeu o objeto, ficará extremamente contente quando encontrar o objeto em si mesmo.


Ele então se pergunta se a característica do objeto não resulta da sedimentação de investimentos de objetos abandonados. Isso é a própria composição do eu: o eu vai se compondo a partir da identificação com objetos abandonados.


a auto-acusação na melancolia: o sujeito identificado com o objeto atrai a cólera do supereu contra ele próprio


O homem não apenas é muito mais imoral do que ele acredita, como também muito mais moral do que ele sabe


O supereu pode conseguir “levar o eu à morte, se este não consegue se defender desse tirano”. Mas como o eu se defenderia do supereu? Ora, com a mania. Para Freud, a mania não é uma defesa contra a depressão, mas sim contra o supereu. O sujeito escapa do supereu no processo melancólico virando maníaco.


O objeto a apresenta duas valências: de objeto agalmático (objeto de desejo) e de rebotalho (dejeto do Simbólico).


sexualidade: Para haver a apreensão do objeto, é necessário esse componente de pulsão de morte, o “sadismo” da sexualidade


para transar, reduzir o outro a um objeto para nosso gozo


destruição: na destruição, como na guerra, pulsão de morte e Eros atuam.


Há um gozo envolvido na destruição e, como ele diz, o homem não abandona um gozo sem mais nem menos. Toda destruição implica a pulsão: a guerra é uma orgia de gozo


vontade de poder, na qual encontramos a satisfação da pulsão, que explica a atração pelo poder e o sadismo da tirania do mestre presente no S1


Não há mais a pulsação da vida porque Eros se retraiu – e é Eros que está do lado da vida, da cultura, da


cadeia significante, da linguagem.


O delírio reconstitui um Outro para o sujeito, o que é a função de qualquer delírio


enquanto o paranóico é um condenado.” Este se sente perseguido por algo que não fez; foi condenado injustamente, toda a culpa cabe ao Outro. Ele é sempre um réu inocente. Mas não é um resignado como o melancólico, que acata inteiramente sua situação de indiciado, tem aquela humildade, sobre a qual Freud chama a atenção, e da qual não tem a menor vergonha.


Não é impossível a auto-acusação transformar-se em heteroacusação, assim como não é impossível encontrarmos traços de perseguição no melancólico. Acho mais difícil encontrarmos traços de auto-acusação no paranóico que traços de acusação do Outro no melancólico.


na melancolia, o fenômeno é da ordem do afeto, enquanto na paranóia ele se encontra no âmbito do pensamento


o sintoma é signo de um conflito psíquico indicando a divisão do sujeito


ele é uma metáfora, pois nele trata-se de um significante que vem no lugar de outro significante, recalcado.


Além disso, ele é uma mensagem cifrada de gozo, já que o sintoma é a forma de gozar do neurótico, explicitada em sua fantasia inconsciente.


A psicanálise é atualmente o que se inscreve contra o mainstream comandado pela psiquiatria e pela indústria farmacêutica


Esses traços remetem à posição do sujeito como objeto.


Na neurose, a tristeza e seu cortejo fúnebre indicam a posição do sujeito como objeto de gozo na fantasia.


. A baixa autoestima ou, em termos freudianos, a perda narcísica, é mais um efeito que uma causa do afeto depressivo, que corresponde a um abalo no eu ideal, sustento imaginário do sujeito na posição de objeto de amor e admiração do Outro, este situado como ideal do eu


Trata-se de uma perda do gozo fálico vinculada ao narcisismo do sujeito.


Como afeto depressivo, a tristeza é enganadora, pois todo sentimento é mentiroso em relação à sua representação: le senti-ment, o senti-mente para usar um jogo de palavras caro a Lacan


De um lado, o sujeito do significante, determinado pela linguagem, sujeito do inconsciente; do outro, o objeto a, sem sentido, sem representação, fora do Simbólico, rechaço do inconsciente


No desencadeamento da depressão neurótica, o abalo do significante-mestre, que fazia as vezes de ideal para o sujeito, faz vacilar sua fantasia, uma vez que esta se encontra articulada às cadeias significantes do sujeito referidas à circulação de seu desejo.


Em contrapartida, quando, no fim de análise, o sujeito está no momento de travessia da fantasia, ele se experimenta nos dois pólos desta, ou seja, como sujeito do inconsciente às voltas com os significantes-mestre que lhe dão o ancoramento simbólico e como objeto que ele foi ou deixou de ser para o Outro


Maníaco, o sujeito do desejo, metonimicamente, passa de significante em significante, sem jamais se deter, pois jamais encontra seu objeto de satisfação


Deprimido, o sujeito é resposta do Real, fora do Simbólico, lá onde nem a vida tem sentido, apenas o pulsar do existir que não deixa de ser dor.


Travessia a ser efetuada e ultrapassada para o sujeito chegar ao gaio saber – um saber alegre que lhe confere o entusiasmo necessário para levar outro sujeito a fazer a experiência da análise, abrindo mão da saudade do Pai, e encontrar a melhor forma de lidar com o pior


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Psicose e Laço Social: Esquizofrenia, Paranóia e Melancolia

Psicose e laço social: Esquizofrenia, paranóia e melancolia
Quinet Antonio

Isto porque, se as formas dos sintomas mudam de acordo com o discurso dominante na civilização, as estruturas clínicas permanecem as mesmas e se declinam em neurose, perversão e psicose para a psicanálise.

conforme a maneira como o sujeito lida com a falta inscrita na subjetividade

O “invólucro formal do sintoma” varia segundo a época

os dois grandes tipos clínicos da neurose – histeria e neurose obsessiva – e à psicose um terceiro tipo clínico que é a melancolia, base da psicose maníaco-depressiva,

Ao se substituir as doenças próprias da psiquiatria clássica por transtornos, opta-se mais pela descrição e pela comunicação desses fenômenos entre colegas que por uma clínica em que cada caso seja efetivamente um caso e onde os fenômenos sejam considerados sintomas, ou seja, formações de compromisso entre as diversas instâncias do aparelho psíquico.

preocupação de se constituir uma língua comum entre psiquiatras de todo o mundo, como um esperanto que pudesse terminar com o mal-entendido próprio à comunicação.

podemos nos perguntar se não estaria havendo uma inversão do procedimento psiquiátrico: os medicamentos determinam os diagnósticos.

Em outros termos, a estrutura é apreendida pela psicanálise e os fenômenos, pela psiquiatria.

Assim, ele encontra a semelhança da formação dos sonhos com a formação dos sintomas neuróticos, a analogia do sonho com a alucinação e seu parentesco com a psicose

Ética

o que leva Lacan a definir sua ética como ética do bem dizer.
Trata-se de uma ética relativa à implicação do sujeito, pelo dizer, no gozo que seu sintoma denuncia.

ética de bem dizer o sinto
Evitando assim o furor sanandi de exigir a qualquer custo a suspensão do sintoma. Pois lá onde há sintoma, está o sujeito.

É a partir do simbólico, portanto, que se pode fazer o diagnóstico estrutural por meio de três modos de negação do Édipo – negação da castração do Outro – correspondentes às três estruturas clínicas. “Um modo, recalque (Vendrängung) do neurótico, nega o elemento, mas o conserva no inconsciente. Outro, o desmentido (Verleugnung) do perverso, nega-o mas também o conserva, dessa vez no fetiche. Já a foraclusão (Verwerfung) do psicótico é um modo de negação que não deixa rastro ou vestígio algum: ele não conserva, arrasa. Os dois modos de negação que conservam o elemento implicam a admissão do Édipo no simbólico, o que não acontece na psicose.”

A essas formas de negação correspondem as modalidades de retorno da operação de negação da castração: o retorno do recalcado no sintoma neurótico, o retorno do desmentido no fetichismo do perverso e o retorno do foracluído nas alucinações e delírios do psicótico

Laço Social

O mal-estar na civilização é o mal-estar dos laços sociais

Governar corresponde ao discurso do mestre/senhor, em que o poder domina; educar constitui o discurso universitário, dominado pelo saber, analisar corresponde ao laço social inventado no início do século XX por Freud, em que o analista se apaga como sujeito por ser apenas causa libidinal do processo analítico, e fazer desejar é o discurso da histérica dominado pelo sujeito da interrogação (no caso da neurose histérica, trata-se da interrogação sobre o desejo), que faz o mestre não só querer saber mas produzir um saber.

O discurso como laço social é um modo de aparelhar o gozo com a linguagem, na medida em que o processo civilizatório, para permitir o estabelecimento das relações entre as pessoas, implica a renúncia da tendência pulsional em tratar o outro como um objeto a ser consumido: sexual e fatalmente. Pois a inclinação do homem é ser o lobo do outro homem, ou seja, abusar dele sexualmente, explorá-lo, torturá-lo, matá-lo, saciando no outro sua pulsão de morte erotizada. A civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional. Todo laço social é portanto um enquadramento da pulsão, resultando em uma perda real de gozo.

quando o médico cala e, ocupando o lugar de objeto causa de desejo em transferência, faz o paciente segredar aquilo que ele mesmo nem sabia que sabia, vemos a emergência do discurso do analista

Quando o médico manda e o paciente obedece (até na prescrição de um remédio), estamos no discurso do mestre; quando o médico ensina ou convence o paciente do que a psiquiatria tem a dizer sobre seu caso, ele se encontra no discurso da universidade; E, quando o médico se vê impulsionado a se deter, a estudar e a escrever para produzir um saber provocado pelo caso do paciente, estamos no discurso histérico.

Não importa o que aconteça, continue avançando; continue trabalhando para o saber
Não importa os meios nem os fins – não deixe de produzir saber

Mas, em contraposição a uma ciência universitalizante, só é possível uma ética do particular como propõe a psicanálise, que inclua o sujeito cuja essência, segundo Espinosa, é o desejo.
Trata-se de objetivar, objetalizar para aplicar o saber. Isto não é segredo nem novidade no âmbito médico.
Eis a divinização do saber promulgada pela idealização do discurso universitário da ciência. Deus é o cúmulo do saber.
Na psiquiatria, os objetos produzidos pelo saber da neurociência são os medicamentos que podem facilmente virar objetos de consumo quando a psiquiatria entra no discurso do capitalista.
Contra o imperativo do ter, a psicanálise propõe a ética da falta-a-ter, que se chama desejo, e a gestão, não do capital financeiro, mas do capital da libido, por definição sempre no negativo.

Será que não são os “males” que agora são criados e categorizados em novas síndromes para serem então tratados pelas novas drogas?
tratamento psiquiátrico a partir de uma clínica do sujeito é um dever ético que a psicanálise propõe à psiquiatria.

Inconsciente

o conceito de Inconsciente e de suas leis da fala e da linguagem; no segundo, dos conceitos de angústia e de pulsão; e no terceiro período, dos conceitos de repetição, pulsão de morte e seus sucedâneos (o supereu, o mal-estar, o masoquismo).
E o sujeito é definido como equivalente à falta de um significante que diga o que ele é: o sujeito é um significante pulado da cadeia, falta-a-ser.

Gozo

O gozo, enquanto tal, não se deixa apreender totalmente, ele está sempre extravasando, transbordando, escapando, ele não se deixa reduzir ao sexo, pois não se deixa aprisionar pelo significante fálico.

O campo do gozo é, antes de tudo, um campo operatório e conceitual, estruturado pela linguagem por meio de seus aparelhos, que são aparelhos de tratamento do gozo nos laços sociais: os discursos. São eles que constituem a realidade
Ao ser aparelhado pelos discursos onde se inscreve o ser falante, o falasser, como o gozo se manifesta? Na repetição, como Freud detectara, que é repetição significante, a qual constitui o inconsciente como uma rede de saber.

No campo do gozo, os elementos que compõem os discursos – S1, S2 e objeto a – são, portanto, modalidades de gozo, e o sujeito ($) é resposta do real.

No campo do gozo, o Um do significante (S1) só existe como o significante do transbordamento, significante do excesso e do fracasso, que, apesar de mestre, não o domina. Ele é o significante do encontro marcado e faltoso com o sexo, o significante do trauma que se repete ao longo da vida do sujeito.

o S2, o significante binário, é o saber definido como meio de gozo, como aparece no discurso do mestre
Eis os matemas formalizados por Lacan para escrever os quatro discursos como laço social.

Real

o impossível como real: impossível de ser escrito e de ser suportado

Esse real é tributário da pulsão de morte não-simbolizável que retorna no laço social sob a forma de gozo, trazendo as impossibilidades nos laços entre os homens
Um dizer é aquilo que, não sendo propriamente da ordem da fala, funda um fato. Os discursos fundam fatos, que são os laços entre as pessoas.

(S1, S2, a, $)

E, partindo do que se chama, na lógica da teoria dos conjuntos,“ a permutação circular”, propõe quatro lugares (agente, verdade, outro e produção) e quatro elementos que vão permutar nos lugares (S1, S2, a, $).

Mas o que é o S1? É um significante tomado a partir de sua propriedade de comando.
Assim o comando próprio ao significante-mestre é um comando de gozo, como é desvelado no discurso do mestre.
O S2 é a repetição do S1. A repetição, conceito fundamental da psicanálise, é retomada por Lacan no campo do gozo, a partir de Freud. Trata-se da repetição da primeira experiência de satisfação: estamos sempre buscando repeti-la e sempre fracassando em alcançá-la
Quando S1 se repete não é mais o S1, e sim o S2. Eis o paradoxo da repetição. É uma repetição de gozo, mas que implica o reencontro com a falta de gozo. Essa repetição que não cessa forma a própria rede de significantes – eis o saber inconsciente (S2), o qual se constitui, portanto, através da repetição do S1 comemorando o gozo.
O mestre/senhor (S1) comanda o escravo (S2) a produzir os objetos (a) dos quais ele irá gozar. É o escravo que detém o saber para produzir os objetos, e esse saber constitui seus meios de gozo. O S2 como saber é um meio através do qual o sujeito goza – com o Inconsciente. Essa nova conceituação nos indica que o saber é também uma forma de gozar.
O sujeito é uma resposta do real da repetição significante do gozo.
Mas na verdade é a mais-valia de Marx que é uma forma do objeto mais-de-gozar.
O que é o mais-de-gozar? Na repetição, em que o sujeito está sempre procurando obter novamente aquela experiência que o S1 comemora, há um gozo de busca, e também um gasto. E o resultado é o gozo fracassado.

A barra presente nas duas frações que compõem cada discurso não corresponde exatamente à barra do recalque, como no matema do signo lingüístico que Lacan vai tomar de Saussure, o do significante/significado (S/s). A barra da primeira fração de cada discurso representa a interceptação da apreensão de qual é a verdade em causa em cada laço social. No discurso do mestre (S1/), o governo parece se instaurar a partir de leis, projetos de sociedades, programas etc. representados no matema (sua fórmula) pelo S1. Mas, na verdade, o que é escamoteado é que há sempre sujeitos ($) sustentando esse governar, essa dominação que é imposta ou aplicada aos outros sujeitos

No discurso universitário, a educação se dá pela aplicação do saber (S2/S1) como saber universal, sustentado, porém, por autores, inventores ou descobridores (S1) desse saber. No discurso histérico (/a), se o agente do discurso é o sujeito do inconsciente com seu sintoma e sua divisão (), a verdade na qual esse discurso se embasa é o objeto a, mais-de-gozar (a) escondido do qual o sujeito se esmera em ser o porta-bandeira para atiçar o mestre. E no discurso do analista (a/S2), o analista como semblante de objeto a se sustenta em seu ato na verdade do saber sobre a castração, a falta e a inexistência da relação sexual.

que devem cumprir as ordens; eles devem saber fazer, saber obedecer e saber produzir.
do lado do analista aquela figura que Lacan chamou de sujeito suposto saber
Assim a barra da primeira fração é aquilo que indica o representante e o representado em cada laço social.

O representado, escamoteado pela barra, é o que sustenta a verdade de cada discurso. O agente de cada laço social é o agente da verdade para o outro produzir alguma coisa.
O lugar do agente do discurso é o lugar da “dominante”
Trata-se daquilo que determina o agir do sujeito, ou seja, ele age de acordo com a dominante do discurso em que está inserido.
o mestre (S1), o saber (S2), o sujeito ($) ou o objeto (a)

No discurso do mestre a dominante é a lei, no da histérica é o sintoma, no do universitário é o saber e no do analista, o mais-de-gozar.
o que vai dominar o discurso do analista é o próprio analista com seu desejo, pois é ele que dirige o tratamento.
E no discurso do analista, a referência não é o analista, é o analisante. Não há análise se o analisante não é “dominado” pelo objeto causa de desejo.

Todo discurso que trata o outro como objeto pode ser chamado de discurso universitário. Todo laço social que trata o outro como um mestre é discurso da histérica. Quando alguém trata o outro como um escravo ou como um saber produzir, estamos no discurso do mestre.

O significante-mestre (S1). No discurso do mestre o S1 é a lei que encarna o mestre; no discurso da histérica, o S1 é o mestre; e no universitário ele é o autor. Em cada um destes discursos, o S1 pode ser encarnado por alguém: o governante, o próprio mestre, o autor. O discurso do analista revela que esse S1 é apenas um significante, que não precisa necessariamente ser encarnado por ninguém.

A barra da segunda fração dos matemas dos discursos refere-se ao que o outro de cada laço social deve produzir.
No caso do discurso do mestre são os objetos de gozo para o mestre, a sociedade, a fábrica etc. No discurso do universitário o que é produzido é o sujeito dividido ($) que se revolta ou sintomatiza ao ser tratado como objeto a. No discurso da histérica é o saber (S2) que o mestre (S1) fabrica e no discurso do analista o analisante () produz o significante de sua singularidade, como por exemplo o sintoma analítico.

O mal-estar é o produto dos discursos dominantes em nossa civilização: do mestre, do universitário e do capitalista
Os discursos do avesso da civilização levam a pulsão em consideração (representada pelo objeto a): como verdade, no discurso histérico, e no lugar de agente, no discurso do analista

O laço de educar, do discurso universitário – que estruturalmente não se distingue do laço de burocratizar –, gera, ao tratar os indivíduos como objetos, o sujeito patológico, o sujeito do sintoma, o sujeito-castração.
É o único, insisto, em que o significante-mestre não pode ser encarnado por ninguém e se desvela como ele é: puro significante.

No discurso do analista, a a-cracia, onde se trata do governo de a (mais-de-gozar) – que se desvela como impossível de governar, pois esta forma de laço se encontra no “pólo oposto a toda vontade de dominar”

No lugar da verdade encontra-se o capital (S1) como significante-mestre desse discurso; o sujeito é reduzido a um consumidor () de objetos, os gadgets (a) produzidos pela ciência e tecnologia (S2).

Por outro lado, ao colocar a mais-valia no lugar da causa do desejo, essa sociedade transforma cada um num explorador em potencial de seu semelhante para dele obter um lucro de um sobretrabalho não contabilizado
Esse sujeito como falta-a-ser é o sujeito como falta-a-ser-rico; e a falta-de-gozo se inscreve como a falta-a-ter-dinheiro: é o sujeito descapitalizado. Assim, o discurso do capitalista produz o sujeito inadimplente, o sujeito da dívida que se eterniza.
Cria a dívida que só aumenta: começa-se a pagar os juros, os juros dos juros e os juros dos juros dos juros.
O senhor absoluto moderno, que vem no lugar hegeliano da morte, é o capital, em relação ao qual, vaticina Lacan, somos todos proletários.

É, de fato, uma clínica do semidizer, pois em nenhum discurso, seja qual for o laço social, a verdade se mostra completamente. É uma clínica do ato e não da palavra.

O setting não define o discurso, tampouco as palavras pronunciadas, e sim o ato.
O ato analítico ocorre nesse laço inédito em que a desidentificação aos ideais do Outro é promovida e o sujeito é liberado das amarras do mestre do significante

Psicose

Na psicose, de forma geral, toda tentativa de cura é uma tentativa de inserção no laço social, inclusão em algum discurso.
O perverso é um burocrata do gozo desvelando a perversão da burocracia e da educação como uma das formas do mal-estar na civilização

ainda que há um imperativo tirânico no ato de educar – este se enuncia seja como um imperativo de tudo saber, seja como imposição de um autor, ou ainda a imposição de uma leitura única.

Na clínica, encontramos freqüentemente o pai real como um pai gozador. É a imagem do pai safado, ladrão, de quem se herdam os pecados, pois cometeu alguma falta que implica seu gozo.
é porque o que está “foracluído” do lado de dentro retorna no lado de fora, ou seja, na realidade, sob a forma de delírios e alucinações.

O excluído está incluído do lado de fora, daí, foracluído

Assim como o que importa clinicamente na neurose é não só o recalque mas sobretudo o retorno do recalcado (o sintoma e outras formações do inconsciente), na psicose o que interessa ao clínico é o retorno do foracluído.

não há ninguém que não esteja concernido pela loucura, não só a do outro, como também a sua própria.

O sintoma na psicose, como delírio ou alucinação, é uma tentativa de cura da foraclusão do Nome-do-Pai. O medicamento jamais é tentativa de cura.

Incluir o sujeito no tratamento; por um lado a inclusão do sujeito do inconsciente, com sua fala, sua história e seus sintomas, manifestações de sua singularidade
incluir o sujeito no tratamento é fazê-lo co-responsável por ele, solicitando do sujeito seu comprometimento, a começar pelo reconhecimento da “escolha” de sua patologia. Essa inclusão se opõe a paternalizá-lo ou prestar-lhe cuidados de maternagem. O psiquiatra não é nem pai nem mãe

aquele que cortou os laços com as exigências da civilização, tais como renunciar às pulsões sexuais em função do outro. O psicótico recusa radicalmente essa renúncia, por recusar a lei simbólica e a regra universal da castração para todo homem. Incluir o psicótico na sociedade não equivale a adaptá-lo e nem a tentar fazê-lo um igual, denegando sua diferença. A inclusão de que se trata é a inclusão da diferença radical no seio da sociedade de supostos iguais – por exemplo, a sociedade de cidadãos

Parei aqui

para que ele não queira a qualquer custo fazer de um psicótico um neurótico

Podemos estender a todos os “psi”a precaução que Freud preconizou aos analistas contra o desejo de curar e a de Lacan contra o desejo de querer o bem do paciente

A foraclusão implica sempre o retorno no real daquilo que foi foracluído no simbólico

e sim deixá-lo fazer sintoma sem Nome-do-Pai, um sintoma que pode ir do delírio à arte, passando por todas as artimanhas.

Quem é esse Outro? Na paranóia, o outro é sem lei e quer prejudicar o sujeito. Na esquizofrenia, o sujeito se retrai autistamente em relação ao outro da injúria alucinatória. O melancólico é o indigno do outro e culpado pela ruína do social;o maníaco é o pródigo que faz do outro sua fartura, e o megalomaníaco é o Um que se considera o outro de todos os outros e quer ordenar o social.

Segundo Lacan, na psicose, o Outro está excluído e o sujeito só lida com o pequeno outro

Mas há também um avesso dos discursos como um todo que é representado pelo avesso ao laço social estabelecido, que é o psicótico. Ele é esse fora que nos remete ao fato de que nós estamos presos aos discursos.

A direção do tratamento na esquizofrenia vai no sentido daquilo que não se efetuou para ele e que ele mesmo se esforça em realizar. Daí o clínico não dever a qualquer custo eliminar os sintomas do sujeito, o que não quer dizer que não deva indicar a medicação para atenuá-los. A medicação deve ser um auxiliar na análise dos esquizofrênicos.

O analista pode secretariar o esquizofrênico em suas tentativas de estabelecer pares de oposição significante e promover a pontuação em sua fala para possibilitar a precipitação do sentido

Nesse sentido, são tentativas de fazer laço social: o delírio pode até inventar um outro do amor, pelo qual o sujeito se apaixona. Os delirantes não apenas amam seus delírios como a si mesmos, mas são apaixonados pelo Outro, e são os amados do Outro

O psiquiatra da reforma não pode ser o agente do capital. Nem o psiquiatra das neurociências, cujas pesquisas já são impulsionadas pelo capital e pela política de resultados que devem ser “evidentes para todos”

enquanto na esquizofrenia preponderam os distúrbios da associação de idéias (Bleuler), na paranóia predominam as interpretações
, ao auto-erotismo no caso dos esquizofrênicos e ao narcisismo na paranóia. Daí encontrarmos nos primeiros, em relação ao estádio do espelho, as imagens do corpo despedaçado e portanto tendência à fragmentação do corpo (não-unificado), inconstituição do eu, assim como a dispersão do sentido. Na paranóia prepondera a fixação à imagem do outro (a-a’), o congelamento do sentido e a enfatuação do eu que vai até a megalomania.

No registro do Real, no que concerne ao gozo, verifica-se na esquizofrenia a fragmentação do gozo do corpo, da fala e do pensamento – o gozo está disperso e tende a invadir todas as instâncias sem enquadramento algum, de forma anárquica. Na paranóia, em contraposição, há uma concentração do gozo no Outro, na figura do perseguidor, da pessoa amada ou odiada, do traidor etc.

Na clínica, a depressão não existe; o que encontramos são estados depressivos que ocorrem em algum momento na vida de um indivíduo e apresentam uma história subjetiva precisa.

Por outro, há um combate ferrenho à depressão – Abaixo os deprimidos. –, por ela ir contra os ideais da produtividade e contra o imperativo da saúde e do bom humor que caracterizam nossa sociedade utilitarista e de consumo.

tudo isso pode efetivamente contribuir para o estado depressivo de um sujeito desorientado em relação a seu desejo, perdido de seus ideais.

A tristeza, como sentimento humano, demasiadamente humano, é a expressão da dor própria à existência e se refere a uma posição do sujeito que faz parte da estrutura psíquica. Se essa posição não deixa de ser estrutural, a ela o sujeito não deve ceder, posto ser uma posição relativa ao gozo que se opõe ao desejo.

Oferecendo um tratamento pela via do desejo, a psicanálise torna possível para o sujeito o caminho que parte da dor de existir e segue em direção à alegria de viver. Para isso, todavia, é necessário que o sujeito queira saber, tendo a coragem de se confrontar com a dor que morde a vida e sopra a ferida da existência, a fim de fazer da falta que dói a falta constitutiva do desejo.

A melancolia é uma forma clínica da tristeza a ser diferenciada do luto e do estado depressivo neurótico. Pretendo aqui situá-la no âmbito da ética em relação à tristeza para entregar ao sujeito a escolha do destino que dará a seu desejo. Para que, ao se confrontar com os impasses do desejo, ele não fique triste e acovardado, mas queira saber, decifrar, criar. E do saber formalizado sobre seu desejo, fazer poesia; do matema fazer poema. Ética do bem-dizer.

O que provoca a dor psíquica? A primeira resposta de Freud, em sua correspondência com Fliess, é que a dor é produzida pela dissolução das associações na cadeia dos pensamentos inconscientes, como ocorre na melancolia, em que há um “furo no psiquismo”. Essa quebra da cadeia de significantes é concomitante a uma “hemorragia” de libido. Por outro lado, “a dor corresponde a um fracasso do aparelho psíquico”, quando ele deixa de ser eficiente e grandes quantidades de energia irrompem.

Isto porque todas essas perdas têm um significado: castração, que resume os “determinantes finais e definitivos”. Eis por que são dolorosas, e o sujeito, para sair da dor, deve fazer o luto do que perdeu

Encontramos aqui o fundamento freudiano do que desencadeia o luto, a depressão e a melancolia: é a perda daquilo que escamoteava a castração

No caso do neurótico, a castração que se inscreve como a falta de um significante que complete o Outro – (S()) – evocando a negativação do falo no imaginário (-φ); no caso do psicótico, a falta de inscrição simbólica da castração, que se manifesta co

mo furo real correlativo à elisão do falo (Φ0

O afeto depressivo da dor de existir remete ao furo de gozo próprio à estrutura de linguagem

De quem é a culpa? Aí aparecem três culpados.5 Em primeiro lugar, o sujeito culpa a sociedade, que não coloca à sua disposição objetos adequados para seu gozo. Em segundo lugar, diz que a culpa é do Outro, ou seja, o Outro não dá o que ele quer. Mas o Outro, enquanto tal, é inconsistente, porque também a ele o gozo falta. “A culpa seria do Outro se ele existisse”

O sujeito pode até pensar que o Outro é inteiro por causa do ideal do eu – I(A) – que o representa, mas quando o ideal cai e o sujeito se depara com a falta no/do Outro, ele não pode mais culpá-lo. E assim surge o terceiro culpado: o sujeito acaba tomando para si a culpa da castração como inadequação do gozo.

O sentimento de culpa é o índice do supereu que vigia, critica e pune o sujeito.

O não dar conta é sempre a queixa do impotente, mas na verdade trata-se de um prestar contas.

O sujeito está sempre aquém das contas que tem que prestar aos olhos do Ideal – e o credor é o supereu. Fazer as suas contas, ou acertar as contas, é realizar que aquilo que ele julgava ser impotente para resolver é impossível. A passagem da impotência (que corresponde à falência do desejo) ao impossível marca a saída da depressão. Trata-se da passagem do “eu não dou conta” do deprimido ao “o que não tem remédio, remediado está” da castração assumida pelo sujeito.

Tudo perdemos”, diz Lady Macbeth, “quando o que queríamos obtemos sem nenhum contentamento

Essas formas da tristeza são extravios do desejo.

O tristonho, seja deprimido ou melancólico, é aquele que não se orienta no inconsciente, e cujo desejo se encontra extraviado. Ele está portanto desorientado em relação ao desejo inconsciente. Ele mal-diz o desejo; ou seja, não tem um dizer sobre ele e nem quer saber nada sobre ele. Eticamente falando, o sujeito triste é um frouxo, pois mantém uma relação frouxa com a cadeia inconsciente do desejo. A tristeza é uma frouxidão do desejo.

Orientar-se no Inconsciente significa saber quais são as cadeias significantes, os significantes primordiais que determinam no sujeito suas ações, suas fantasias, seus sintomas, ou seja, as vias por onde corre seu desejo.

Estar orientado em relação à estrutura que o determina como sujeito é, portanto, condição para ele cumprir o dever ético de bem-dizer proposto pela psicanálise.

o sujeito se encontra dividido em relação a seus desejos – o que não é motivo para recuar, mas para tentar bem pensá-los (para Espinosa), bem decifrá-los (para Freud), bem dizê-los (para Lacan).

Desejar é correlativo ao pensar, e o pensar ao agir.

O desejo leva à ação, a tristeza diminui a potência da ação

Se, melancolicamente, o poeta diz que a tristeza não tem fim, a psicanálise mostra com a clínica a partir de Freud que a tristeza tem uma história: inicia uma perda, se constitui como covardia moral e rejeição do saber e termina com sua transmutação em gaio saber e desejo de existir.

O mal-dizer da tristeza corresponde ao calar-se, refugiar-se no silêncio, no isolamento onde o Outro está excluído, como dissemos

O sujeito triste está desorientado na estrutura dos significantes que determinam para ele onde se articula seu desejo.

Quando maníaco, sob o império do desvario metonímico da linguagem, o sujeito desvela-se como mortificado pelo significante, revelando em sua fala (que é uma fala de pura associação por assonância) que a palavra é de fato o assassinato da coisa. É o retorno no real do rechaço do inconsciente.

Como saber, trata-se de um saber orientar-se no inconsciente, como já dissemos, e também saber lidar com a falta a partir da linguagem.

O sentir-se frouxo, sinal de impotência, tem como correlato o sentimento de culpa, que é o indício de que o sujeito cedeu de seu desejo. Essa gama de afeto que faz do sujeito triste, covarde, sentir-se frouxo e daí culpado nos permite inserir o afeto depressivo no âmbito da ética.

o sintoma analítico com sua transferência de libido arranca o sujeito da covardia moral para pô-lo ao trabalho sobre o desejo

melancolia, caracterizando-a por uma “depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda atividade e a diminuição do sentimento de auto-estima, que se manifesta em auto-acusação e auto-injúria, indo até a espera delirante de punição.”

Quando saem do estupor e começam a recuperar alguma vivacidade, eles “ficam surpresos como se acordassem de um pesadelo; a cura é um despertar”

O delírio, diz ele, nada mais é senão “uma tentativa de interpretação do estado de aniquilamento profundo, de dor moral ou das causas que a produziram, e para as quais o paciente procura a razão ou prevê as conseqüências”

A causa incógnita, ou perda desconhecida, corresponde estruturalmente ao “furo no psiquismo” descrito por Freud, e, em Lacan, à foraclusão do Nome-do-Pai

A dor de existir, o simples fato de ser vivente, preço de ser sujeito da fala, se transforma na dor do preço a pagar pelo crime de estar vivo, o qual se materializa na busca de um crime efetivamente perpetrado.

A humildade e a auto-acusação, que são parte integrante da justificação delirante, são fenômenos necessários mas não suficientes para o diagnóstico da melancolia, pois não são elementares. A auto-acusação não é patognomônico da melancolia; ela pode estar presente em outras formas de psicose e também na neurose. A humildade engloba o sentimento de incapacidade, de não ser digno de estima e de merecer o mal de que sofre. Por sua vez, a tentativa de suicídio tem o sentido de suprimir um ser tão incapaz, inútil e inclusive perigoso para os demais

No delírio de ruína, eles pensam ter perdido sua riqueza moral, intelectual e material. É o avesso do delírio de grandeza, em que os doentes se atribuem imensas riquezas e múltiplos talentos e capacidades.

A melancolia, a esquizofrenia e a paranóia situam-se no âmbito da foraclusão do Nome-do-Pai. Isso significa que devemos abordar a questão da melancolia a partir dos fenômenos da ordem da linguagem e dos fenômenos do gozo.

relação entre a melancolia e a “anestesia sexual”. Trata-se de uma indiferença, falta de vontade de tudo e especialmente falta de vontade sexual. Há, portanto, abolição do desejo na melancolia: desejo . 0;

uma perda da vitalidade, um cansaço, fraqueza

A melancolia, diferentemente das neuroses de transferência, não faz economia da angústia

a melancolia pode se transformar em mania

a perda do melancólico é indefinida. Ele sabe que perdeu alguma coisa, mas não sabe o quê

A hemorragia é descrita como uma excitação escorrendo por um furo, que funciona como um ralo. Esse furo no psiquismo é equivalente ao furo no Simbólico, à foraclusão do Nome-do-Pai.

a melancolia desvela “a origem sórdida de nosso ser

a ambivalência, ambivalência de amor e ódio pelo pai, que faz parte do complexo de Édipo

Na paranóia, elas se transformam no delírio de perseguição;há um retorno do ódio do Outro contra o sujeito e o ódio do Outro se inverte: é o Outro que odeia, e o sujeito é seu objeto

Por sua vez, na melancolia o ódio ao Outro retorna e aparece como autorecriminação por sua morte. O sujeito é o culpado pela morte do Outro, ou seja, a pulsão hostil passa para o Real e o sujeito se considera o assassino.

o melancólico se identifica com o pai morto”, ou seja, há uma identificação com o pai como objeto perdido

Isso nos permite concluir que, na melancolia, diferentemente da paranóia, há a foraclusão do amor, restando esse puro ódio que o sujeito voltará contra si próprio.

a Coisa é aquilo que, do Real, padece do significante

há o gozo da Coisa, e esse gozo é esvaziado pelo significante

O sujeito é coisificado: todo o Simbólico se retira e ele se torna a “Coisa melancolizada

Digamos que ele compõe a melancolia a partir desse tripé: luto, narcisismo e teoria pulsional

Se essa perda é da ordem de um ideal, o que temos em jogo é um significante-mestre que poderia ser sustentado por alguém, ou um significante idealizado como a Pátria, a Liberdade etc., isto é, um S1 que ocuparia esse lugar de suplência à foraclusão do Nome-do-Pai.

Quando esse significante é perdido – ou a sua sustentação –, ele não pode mais ficar nesse lugar, e a melancolia é desencadeada, pois o sujeito se vê diante desse “furo no psiquismo

O ideal do eu é o traço do Outro, ou melhor, a insígnia do Outro que situa o eu ideal para o sujeito, i(a), como aquele objeto imaginário, amado pelo Outro, com o qual o sujeito se identifica

No caso do enlutado, o trabalho de luto fará com que o sujeito retire o investimento libidinal do objeto perdido e reinvista em um outro objeto, ou seja, erija um outro ideal do eu, seja um ideal abstrato, seja um objeto de amor. Já no caso do melancólico isso não ocorre; ele se identifica com o objeto perdido, “a sombra do objeto cai sobre o eu

Freud utiliza o conceito de narcisismo para explicar que todo o processo melancólico é “auto” .selbst., nele próprio, não partindo em direção ao outro

A análise da melancolia nos ensina que o eu não pode se matar a não ser quando ele pode, por um retorno de investimento de objeto, tratar a si mesmo como um objeto, quando ele consegue dirigir contra si mesmo a hostilidade que visa a um objeto e que representa a reação originária do eu contra os objetos do mundo exterior

Freud interpreta que essa acusação que o melancólico dirige contra si mesmo na verdade está sendo dirigida ao objeto perdido, àquele que morreu, àquele que o abandonou

na melancolia o eu se cindiu em uma parte que critica e noutra que é criticada, ou seja, ele já indica a estrutura do supereu, que trata sadicamente o sujeito como um objeto.

Quando o sujeito perde aquele que vem cumprir a função do Outro que cuida e ama, ele se vê diante da castração

Ora, sabemos que esse eu, que é um eu corporal, construído a partir da insígnia do Outro – I(A) –, é o que vem no lugar de (-φ), ou seja, no lugar do que falta ao Outro.

O sujeito se depara com essa falta até que ele possa voltar a colocar outra pessoa nesse lugar vazio e continuar a sua vida amorosa.

O enlutado tem lembranças em que demonstra um grande amor pela pessoa perdida, assim como um grande ódio.

No caso do melancólico, podemos dizer que há uma foraclusão do Outro do amor; ele perde esse Outro que ama e cuida, e o que lhe sobra é um supereu extremamente cruel, que odeia o sujeito.

O que eu fiz para merecer isso?”, que é uma forma de sustentar o Outro a partir de seu desejo

no trabalho de luto o sujeito estava desprendendo uma energia enorme para dar conta da perda do objeto amado

Quando consegue concluir esse trabalho, aparece um alívio, uma alegria, que vem de uma energia que agora é liberada.

No caso do delírio de pequenez ou delírio de ruína, o sujeito se encontra sempre em seu centro, foi por causa dele, de alguma coisa que ele fez, que ele se arruinou, arruinou a família, o bairro, o país e o mundo.

Freud situa o ideal do eu (o que os pais queriam que eu fosse) como herdeiro do narcisismo infantil, ou seja, é o ideal do eu – I (A) – que sustenta no adulto a imagem do eu – i(a) – do sujeito. O supereu é descrito como herdeiro do complexo de Édipo, que se tornará presente na angústia – sempre angústia de castração –, denotando a presença do objeto a.

A paixão amorosa – e Lacan diz que há algo parecido na loucura – ocorre quando o sujeito, de maneira contingente, encontra na mesma pessoa a conjunção do ideal do eu e do eu ideal

A mania, portanto, aparece como o avesso da melancolia. Se o sujeito fica triste porque perdeu o objeto, ficará extremamente contente quando encontrar o objeto em si mesmo.

Ele então se pergunta se a característica do objeto não resulta da sedimentação de investimentos de objetos abandonados. Isso é a própria composição do eu: o eu vai se compondo a partir da identificação com objetos abandonados.

a auto-acusação na melancolia: o sujeito identificado com o objeto atrai a cólera do supereu contra ele próprio

O homem não apenas é muito mais imoral do que ele acredita, como também muito mais moral do que ele sabe

O supereu pode conseguir “levar o eu à morte, se este não consegue se defender desse tirano”. Mas como o eu se defenderia do supereu? Ora, com a mania. Para Freud, a mania não é uma defesa contra a depressão, mas sim contra o supereu. O sujeito escapa do supereu no processo melancólico virando maníaco.

O objeto a apresenta duas valências: de objeto agalmático (objeto de desejo) e de rebotalho (dejeto do Simbólico).

sexualidade: Para haver a apreensão do objeto, é necessário esse componente de pulsão de morte, o “sadismo” da sexualidade

para transar, reduzir o outro a um objeto para nosso gozo

destruição: na destruição, como na guerra, pulsão de morte e Eros atuam.

Há um gozo envolvido na destruição e, como ele diz, o homem não abandona um gozo sem mais nem menos. Toda destruição implica a pulsão: a guerra é uma orgia de gozo

vontade de poder, na qual encontramos a satisfação da pulsão, que explica a atração pelo poder e o sadismo da tirania do mestre presente no S1

Não há mais a pulsação da vida porque Eros se retraiu – e é Eros que está do lado da vida, da cultura, da

cadeia significante, da linguagem.

O delírio reconstitui um Outro para o sujeito, o que é a função de qualquer delírio

enquanto o paranóico é um condenado.” Este se sente perseguido por algo que não fez; foi condenado injustamente, toda a culpa cabe ao Outro. Ele é sempre um réu inocente. Mas não é um resignado como o melancólico, que acata inteiramente sua situação de indiciado, tem aquela humildade, sobre a qual Freud chama a atenção, e da qual não tem a menor vergonha.

Não é impossível a auto-acusação transformar-se em heteroacusação, assim como não é impossível encontrarmos traços de perseguição no melancólico. Acho mais difícil encontrarmos traços de auto-acusação no paranóico que traços de acusação do Outro no melancólico.

na melancolia, o fenômeno é da ordem do afeto, enquanto na paranóia ele se encontra no âmbito do pensamento

o sintoma é signo de um conflito psíquico indicando a divisão do sujeito

ele é uma metáfora, pois nele trata-se de um significante que vem no lugar de outro significante, recalcado.

Além disso, ele é uma mensagem cifrada de gozo, já que o sintoma é a forma de gozar do neurótico, explicitada em sua fantasia inconsciente.

A psicanálise é atualmente o que se inscreve contra o mainstream comandado pela psiquiatria e pela indústria farmacêutica

Esses traços remetem à posição do sujeito como objeto.

Na neurose, a tristeza e seu cortejo fúnebre indicam a posição do sujeito como objeto de gozo na fantasia.
. A baixa autoestima ou, em termos freudianos, a perda narcísica, é mais um efeito que uma causa do afeto depressivo, que corresponde a um abalo no eu ideal, sustento imaginário do sujeito na posição de objeto de amor e admiração do Outro, este situado como ideal do eu

Trata-se de uma perda do gozo fálico vinculada ao narcisismo do sujeito.

Como afeto depressivo, a tristeza é enganadora, pois todo sentimento é mentiroso em relação à sua representação: le senti-ment, o senti-mente para usar um jogo de palavras caro a Lacan

De um lado, o sujeito do significante, determinado pela linguagem, sujeito do inconsciente; do outro, o objeto a, sem sentido, sem representação, fora do Simbólico, rechaço do inconsciente

No desencadeamento da depressão neurótica, o abalo do significante-mestre, que fazia as vezes de ideal para o sujeito, faz vacilar sua fantasia, uma vez que esta se encontra articulada às cadeias significantes do sujeito referidas à circulação de seu desejo.

Em contrapartida, quando, no fim de análise, o sujeito está no momento de travessia da fantasia, ele se experimenta nos dois pólos desta, ou seja, como sujeito do inconsciente às voltas com os significantes-mestre que lhe dão o ancoramento simbólico e como objeto que ele foi ou deixou de ser para o Outro

Maníaco, o sujeito do desejo, metonimicamente, passa de significante em significante, sem jamais se deter, pois jamais encontra seu objeto de satisfação

Deprimido, o sujeito é resposta do Real, fora do Simbólico, lá onde nem a vida tem sentido, apenas o pulsar do existir que não deixa de ser dor.

Travessia a ser efetuada e ultrapassada para o sujeito chegar ao gaio saber – um saber alegre que lhe confere o entusiasmo necessário para levar outro sujeito a fazer a experiência da análise, abrindo mão da saudade do Pai, e encontrar a melhor forma de lidar com o pior