
Portrait of the Artist as a Young Man James Joyce
Retrato do artista quando jovem - James Joyce (Highlight: 134; Note: 0.
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I
Quando se molha a cama, no começo fica quentinho; depois vai esfriando. Sua mãe punha por cima um oleado. Que cheiro esquisito que o oleado tinha.
cheirinho de sua mãe era mais gostoso do que o cheiro de seu pai. Ela tocava ao piano o Cachimbo de chifre do marujo para ele dançar.
O padre Arnall passou uma soma difícil no quadro
Stephen caprichou o melhor que pôde, mas a soma era difícil e ele se sentiu atrapalhado. A insigniazinha de seda, que tinha uma rosa branca em cima e que estava presa bem no peito da sua jaqueta, começou a mexer. Ele não era muito forte em somar parcelas, mas tentou o melhor que pôde de maneira que York não viesse a perder. A cara do padre Arnall parecia carregada e bastante, mas não estava furioso não; pelo contrário, estava sorrindo. Por fim Jack Lawton estalou os dedos e o padre Arnall, dando uma olhadela no caderno dele, disse:
— Acertou. Bravo, Lancaster. A rosa encarnada ganhou. Vamos, vamos, York. Toquem pra frente.
Mas ter uma rosa verde, isso não era possível. Mas talvez em algum lugar do mundo houvesse.
Sentiu saudades de casa, desejou encostar a cabeça sobre o colo da mãe. Mas isso agora era impossível; assim, pois, desejou que acabasse o brinquedo, o estudo e as orações para ir logo para a cama.
— Escutem vocês, este camarada aqui está dizendo que não beija a mãe dele antes de ir deitar.
Eles todos tornaram a rir. Stephen tentou rir com eles. Sentiu todo o corpo quente e confuso, de súbito. Qual era a resposta certa para tal pergunta? Ele tinha dado duas, e ainda assim Wells rira. Que Wells soubesse a resposta certa não era nada de mais, pois ele era o terceiro em gramática. Experimentou imaginar como seria a mãe de Wells, mas não ousou erguer os olhos para o rosto de Wells. Não lhe agradava a cara de Wells. Fora Wells quem o empurrara para dentro da valeta na véspera, só porque não quisera trocar o seu pequeno estojo pelo bastão de críquete dele que era de carvalho bem amadurecido e com o qual havia conquistado quarenta vitórias. Agir assim era uma coisa má; todos os camaradas tinham dito. E como a água estava fria e escorregadia. E um garoto tinha visto, uma vez, um rato enorme cair repentinamente na escuma.
Só Deus podia fazer isso. Tentou imaginar que enorme pensamento deveria ser esse, mas só conseguiu pensar em Deus. Deus era o nome de Deus, assim como o nome dele era Stephen. Dieu era o nome francês para Deus, e era também o nome de Deus; e quando alguém rezava a Deus e dizia Dieu, então Deus imediatamente ficava sabendo que era uma pessoa francesa que estava rezando. Mas embora houvesse nomes diferentes para Deus em todas as diferentes línguas do mundo, e Deus compreendesse o que era que todas as pessoas que rezavam diziam em suas línguas diferentes, ainda assim Deus permanecia sempre o mesmo Deus e o nome verdadeiro de Deus era Deus.
Que gostosa seria a cama depois que os lençóis ficassem um pouco quentinhos. No começo, que frio que eles eram para uma pessoa se meter dentro deles. Ficou todo arrepiado só em pensar como eram frios quando se entrava para debaixo deles. Mas logo ficavam quentinhos, e então poderia dormir. Bem que era agradável sentir-se cansado
Eu não fiz de propósito. Garante que não irá nos denunciar?
Seu pai dissera-lhe que jamais, fosse por que fosse, delatasse um companheiro. Ele sacudiu a cabeça, respondendo que não, e se sentiu contente.
Wells disse:
— Eu não fiz de propósito. Palavra de honra. Foi só por brincadeira. Sinto muito.
A face e a voz foram-se. Pedira desculpa, porque tinha medo. Medo de que fosse alguma doença. Ferrugem era doença das plantas e câncer era uma das que dão nos animais; ou outra, diferente. Como lhe parecia longe agora, quando estivera a dar pinotes de uma extremidade à outra no pátio da sua divisão, à luz mortiça da tarde, lá no recreio, um pássaro pesadão a voar através da claridade cinzenta. A abadia de Leicester toda iluminada. Wolsey morrera lá. Os próprios monges o tinham sepultado.
Aquele era o seu primeiro jantar de Natal; e pensou em seus irmãozinhos e irmãzinhas que estariam esperando na sala das crianças, como ele tantas vezes tinha esperado, que o pudim viesse. O duplo colarinho baixo e a jaqueta formato Eton faziam-no achar-se esquisito e como que mais velho; e aquela manhã, quando a mãe o descera para o parlatório, vestido para a missa, seu pai até se pusera a chorar. E isso porque estava pensando em seu próprio pai. Tio Carlos também dissera que fora por causa disso.
O senhor Dedalus cobriu a travessa e começou a comer como um esfomeado.
Stephen
tio Carlos
A senhora Dedalus comia devagar e Dante estava sentada com as mãos no colo. Todo o seu rosto estava vermelho. O senhor Dedalus raspou com os trinchantes o fundo da travessa
Uma raça cavalgada por padres e esquecida de Deus.
— Pois se sois uma raça cavalgada por padres, devíeis vos orgulhar disso. Eles são a menina dos olhos de Deus. “Ai de vós, se os tocardes, pois são a pupila dos meus olhos.”, disse Cristo.
Foi porque foram apanhados com Simon Moonan e com o Boyle Trombudo na área, de noite.
Contrabando
Stephen olhou para a cara dos colegas; mas todos estavam olhando lá para o fundo do pátio. Queria fazer uma pergunta a qualquer deles. Que queria dizer, que significava estar fazendo “contrabando” na área? Por que os cinco alunos da classe superior haviam fugido? Que tinha uma coisa com outra? Ou teria sido alguma brincadeira proibida? Simon Moonan só vestia roupas bonitas, e certa noite lhe mostrara uma bola assim de caramelos que os alunos do time de futebol de quinze lhe tinham jogado pelo tapete, quando ele estava na porta do refeitório. Fora depois da tarde da partida contra os Bective; e a bola era tal qual uma maçã vermelha e verde; só que, quando se abria, estava cheia de caramelos. E, um dia, Boyle havia tido um lapso de língua, equivocando-se, pois em vez de dizer um elefante tem duas enormes presas de marfim, dissera que tinha duas trombas. Razão pela qual o tinham apelidado definitivamente Boyle Trombudo. Outros alunos havia, porém, que preferiam chamá-lo de senhorita Boyle, por ele estar sempre às voltas com as unhas, tratando-as.
Eileen possuía mãos delgadas, frias e brancas, também, mas era uma menina. Mãos que pareciam marfim; só que tenras. Esse era o sentido de “torre de marfim”, mas os protestantes eram incapazes de entender e faziam gracejos com isso. Uma vez ele parara junto dela, vendo-a olhar para os pavimentos do hotel. Um servente estava enrolando uma bandeira numa haste e um cão fox-terrier corria em todas as direções na relva batida de sol. Ela havia posto a sua mão no bolso dele onde ele estava com a sua já enfiada; e ele havia sentido quão fria, delgada e macia era a mão dela. Ela dissera que bolsos eram coisa engraçada de ter; e então, depois, sem mais aquela, tinha parado de falar e saíra a correr, rindo, pelo declive abaixo do caminho. Seu lindo cabelo se tinha derramado atrás dela como ouro ao sol. Torre de marfim. Casa dourada. É pensando direito nas coisas que a gente as entende.
Algum dos alunos desenhara aquilo por brincadeira. A cara era engraçada, mas parecia mesmo um homem com barba
Qual misericórdia, o quê
Não escapas duma tunda.
Vai descendo logo as calças
E vira pra cima a bunda.
Os colegas riram; mas Stephen reparou que estavam todos um pouco amedrontados. No silêncio do ar macio e cinzento, ouvia o bastão de críquete, ora aqui, ora acolá: poc. Era apenas um som bem audível, mas se a gente estivesse sendo batido com ele, então esse golpe doeria. A palmatória também fazia barulho, mas não era um barulho parecido com esse. Diziam os alunos que ela era feita de osso de baleia e de couro e que tinha chumbo dentro; e ele ficava em dúvida com que dor se pareceria a dor que ela produzia. Havia diferentes espécies de barulho. Uma bengala fina e comprida deveria ter um som alto de assobio e ele perguntava a si mesmo com que espécie de dor se pareceria. Dava-lhe um arrepio pensar nisso; e calafrios. E o que Athy dissera, também. Mas que é que havia nessa história, então, para se rirem? Ouvir causava-lhe arrepio, mas era porque sempre se sente um calafrio quando a gente abaixa as calças. Por exemplo, no banheiro, quando a gente tinha que se despir. Ficou em dúvida sobre quem as abaixaria. Se o mestre, ou se o aluno mesmo. Oh. Como eles podiam rir disso, assim, dessa maneira?
Depois do que, mandou o aluno seguinte; e o outro; e o outro. Nenhum soube. O padre Arnall ficou parado, cada vez mais imóvel à medida que cada garoto tentava responder e errava. Mas a sua cara estava enfarruscada e os seus olhos chispavam apesar da sua voz estar tão calma. Então perguntou a Fleming. E Fleming disse que aquela palavra não tinha plural. Repentinamente o padre Arnall fechou o livro e gritou com ele:
— Ajoelhe-se já, lá no meio da sala. Você é um dos meninos mais vadios que já pude encontrar. Copiem os cadernos outra vez, vocês outros.
Fleming mexeu-se pesadamente do seu lugar e se ajoelhou entre os dois últimos bancos. Os demais meninos inclinaram-se sobre os seus cadernos de tema e começaram a escrever. Um silêncio enchia a sala e Stephen, relanceando timidamente o olhar até o padre Arnall assim de rosto duro, percebeu que o rosto dele estava um pouco vermelho por causa da zanga.
Ficar zangado, com raiva, seria um pecado para o padre Arnall? Ou lhe seria permitido ficar zangado e com raiva quando os alunos eram preguiçosos, talvez isso os fazendo estudar melhor? Ou lhe seria perdoado por estar com raiva? Era porque lhe era permitido, visto como um padre sabe muito bem o que seja um pecado e não o deve cometer. Mas se ele fizesse isso alguma vez por engano, que devia ele fazer para se confessar? Talvez fosse se confessar com o ministro. E caso o ministro cometesse pecado? Deveria confessar-se com o reitor; e o reitor com o provincial; e o provincial com o geral dos jesuítas. Chamava-se a isso a ordem; e tinha ouvido seu pai dizer que eram homens inteligentes, que poderiam ter se tornado pessoas importantes no mundo se não tivessem se tornado jesuítas. Imaginava o que o padre Arnall e o padreco Barret teriam sido, e o que o senhor McGlade e o senhor Gleeson chegariam a ser se não se tivessem feito jesuítas. Era difícil pensar o que teriam sido, porque a gente tinha que pensar neles de maneira muito outra, com diferentes casacos de cor e calças, com barbas e bigodes e diversos chapéus.
Saia pra cá, Dedalus. Seu trapaceirozinho preguiçoso. Estou vendo o fingimento na sua cara. Onde você quebrou os seus óculos?
Stephen tropeçava no meio da sala, cego de medo e de atrapalhação.
Stephen fechou os olhos e estendeu no ar a mão trêmula com a palma para cima. Sentiu o prefeito dos estudos tocá-la por um instante nos dedos, para esticá-la e depois o roçar da manga da batina quando a palmatória foi erguida para bater. Uma pancada ardente, zunindo, ressoou como um pesado cair de madeira se quebrando, fazendo a sua mão trêmula revirar toda como uma folha ao fogo; e o som e a dor encheram-lhe os olhos de lágrimas escaldantes. Todo o seu corpo tremia de medo; o seu braço arriava e a sua mão entortada e lívida abanava como uma folha solta no ar. Um grito saltou-lhe aos lábios, pedindo para acabar. Mas apesar das lágrimas lhe encherem os olhos e seus membros tremerem de dor e de medo, reprimiu as lágrimas quentes e o grito que lhe queimava a garganta.
— A outra mão. — berrou o prefeito dos estudos.
Stephen encolheu a mão direita crescida, inchada e trêmula, e estendeu a esquerda. A manga da batina sibilou outra vez quando a palmatória subiu; e uma pancada alta e uma dor de enlouquecer, dor forte, ardente e ecoante, fez a sua mão contrair-se toda com a palma e os dedos numa lívida e trêmula massa. O pranto escaldante rompeu-lhe dos olhos e, ardendo de vergonha, de desespero e de pavor, retirou a mão que dançava e aterrorizado rompeu num gemido de dor. O seu corpo sacudia todo num estertor de medo e, com vergonha e raiva, sentiu que o grito escaldante lhe subia da garganta e que as lágrimas de fogo lhe caíam dos olhos pelas faces quentes.
— Ajoelhe-se — gritou o prefeito dos estudos.
Stephen ajoelhou-se logo, comprimindo as mãos feridas no peito. Pensar nelas machucadas e inchadas, ardendo, o fez de súbito sentir tanta pena delas como se não fossem suas, e sim de uma outra pessoa de quem ele tivesse muito dó. E como se ajoelhasse, acalmando os últimos soluços de sua garganta e sentindo a dor ardida e crepitante ao apoiá-las nas ilhargas, ficou pensando como as estendera viradas para cima e como o prefeito dos estudos as pegara para lhes esticar os dedos trêmulos, e como aquelas duas massas inchadas e vermelhas de palmas e falanges haviam tremido no ar, sem socorro.
— E se ponham todos já a trabalhar — gritou o prefeito dos estudos lá da porta. — O padre Dolan há de vir todos os dias ver se algum menino, algum malcomportado vadio, está querendo bolos. Todos os dias. Todos os dias.
A porta fechou-se atrás dele.
Portanto, ter sido chamado de fingido diante da classe, e ter apanhado de palmatória quando sempre tirava o cartão de primeiro ou de segundo e era o chefe dos iorkistas. Como podia o prefeito dos estudos saber que era patranha? Tinha sentido os dedos do prefeito tocarem-no quando apresentara a mão; até cuidara que lhe ia apertar as mãos num cumprimento, pois os dedos do prefeito estavam macios e firmes; mas depois, logo depois, tinha ouvido o zunido da manga da batina e a pancada. Fora crueldade, e não fora nada bonito fazê-lo ajoelhar no meio da classe, depois; e o padre Arnall dissera a ambos que podiam voltar para os seus lugares, sem fazer nenhuma distinção entre eles. Escutava a voz baixa e amável do padre Arnall enquanto ia corrigindo os temas; talvez agora ele estivesse arrependido, e desejasse tornar-se correto. Mas tinha sido cruel e injusto. E aquele rosto macilento do outro, aqueles olhos sem cor, por detrás dos óculos de aro de metal, tinham uma expressão cruel porque ele havia esticado os dedos primeiro com os seus dedos fortes e macios, mas fora para ferir melhor e mais espalhafatosamente.
— Foi uma coisa mesquinha, é o que foi — disse Fleming no corredor quando as classes estavam passando para irem em fila para o refeitório. — Dar de palmatória num aluno que não fez nada.
— De fato você quebrou os óculos por acidente, não foi? — indagou Roche Relaxadão.
Stephen sentiu seu coração encher-se com as palavras de Fleming, e não deu resposta.
— Claro que foi — disse Fleming. — Eu não aguentaria isso. Eu iria lá em cima dar queixa dele ao reitor.
— Isso mesmo — disse vivamente Cecil Thunder. — E eu vi como ele ergueu a palmatória acima do ombro. E não é permitido fazer isso.
— Comigo a coisa não ficava assim, com aquele careca, ou qualquer outro careca. Foi uma ação má e baixa, é o que foi. Eu iria diretamente lá em cima, contar tudo a ele, depois do jantar.
— É sim, vai. Isso, vai. — disse Cecil Thunder.
— Vá sim. Isso, suba até lá e faça queixa dele ao reitor, Dedalus — insistiu Roche —, pois ele disse que amanhã havia de vir outra vez lhe dar de palmatória.
Fora injusto; fora cruel e mau; e, sentado no refeitório, sofria sem parar a recordação mesma dessa humilhação, até que começou a se perguntar se talvez, realmente, não haveria mesmo na sua cara qualquer coisa que lhe desse algum ar de trapaceiro. E bem vontade teve de arranjar um espelho, para se olhar. Mas isso não podia ser: fora, sim, injusto, cruel e falso.
Ia andando, descendo os estrados; e viu a porta em frente. Era impossível; não poderia. Lembrou-se da cabeça calva do prefeito dos estudos com aqueles olhos cruéis e sem cor que o fitavam, e ouviu aquela voz do prefeito dos estudos perguntando-lhe duas vezes como era o seu nome. Por que não se lembrava do nome já que lho havia dito a primeira vez? Seria que a primeira vez não escutara, ou fora para fazer graça com o seu nome? Os grandes homens da História têm nomes assim. E ninguém os debochou por isso. Era do seu próprio nome, isso sim, que ele devia debicar, já que tinha vontade de debicar. Dolan: tal e qual o nome duma lavadeira.
— O padre Dolan chegou hoje na classe e me bateu com a palmatória porque eu não estava escrevendo o meu tema.
O reitor encarou-o em silêncio e pôde sentir o sangue lhe subir às faces e as lágrimas quase a lhe virem aos olhos.
O reitor disse:
— Você se chama Dedalus, não é?
— É sim senhor.
— E onde foi que você quebrou os seus óculos?
— Na pista, onde tem cinza, senhor. Um aluno ia passando de bicicleta; eu caí, e eles se quebraram. Eu não sei o nome do aluno.
O reitor tornou a olhar para ele em silêncio. Em seguida sorriu e disse:
— Oh. Está bem. Foi um engano. Estou certo de que o padre Dolan não sabia.
— Mas eu disse a ele que os tinha quebrado e ele me deu bolos.
— Você lhe disse que tinha escrito pedindo um novo par?
— Não, senhor.
— Ora, então — disse o reitor —, o padre Dolan não entendeu. Você pode dizer que eu o escuso das suas lições por alguns dias.
Stephen disse imediatamente, com medo de que a tremura lho impedisse depois:
— Sim, senhor, mas o padre Dolan disse que voltaria amanhã para me dar bolos de novo.
— Ora muito bem — disse o reitor —, foi um engano e eu falarei com o padre Dolan pessoalmente. E agora, assim, fica bem?
Stephen sentiu as lágrimas molharem-lhe os olhos, e murmurou:
— Oh. Sim, senhor, obrigado.
II
Tio Carlos era um velho rijo; tinha a pele bem curtida; traços ásperos, e bigodes brancos para os lados.
Saiu uma ou duas vezes com a mãe a visitar parentes; e apesar de passarem por fileiras alegres de lojas iluminadas e enfeitadas para o Natal, suas maneiras de amargurado silêncio não o deixavam. As causas de tal amargura eram muitas, remotas e próximas. Zangava-se consigo mesmo por tão jovem ser vítima de impulsos insensatos de desassossego; aborrecia-se também com a mudança da sorte que estava transformando o mundo ao seu redor numa visão de sujeira e de insinceridade. No entanto a sua birra não concedia nada à visão. Registrava com paciência o que via, desprendendo-se de tudo e de tudo provando o gosto mortificante, em segredo.
Ficava sentado numa cadeira sem encosto na cozinha de sua tia. Uma lâmpada com um refletor pendia sobre a parede envernizada da chaminé; e ajudada por tal luz, a tia ficava a ler o jornal da noite que estava aberto sobre os seus joelhos.
Agora parecia que ia fracassar de novo; mas à força de prestar atenção no acidente, pôs-se a pensar com mais confiança. Durante essa elaboração todos aqueles elementos que julgou comuns e insignificantes caíram da cena. Não ficou traço algum do bonde, nem dos condutores e tampouco dos cavalos: e nem mesmo ele nem ela ficaram aparecendo como vivos. Os versos falavam apenas da noite, da brisa aromática e do virginal brilho da lua. Certa indefinida aflição estava escondida no coração dos protagonistas; e quando o momento da despedida chegou, o beijo que tinha sido recusado por um foi dado por ambos. Depois do que as letras L.D.S. foram escritas embaixo da página e, havendo escondido o livro, foi para o quarto de dormir de sua mãe, onde ficou a contemplar o rosto durante muito tempo no espelho da cômoda.
Tennyson
Byron
— Que é que você sabe do que está aí a dizer? — gritou Stephen. — Você nunca leu uma linha de coisa nenhuma na sua vida, a não ser traduções. E Boland muito menos.
— Mas sei que Byron foi um homem à toa — reajeitou-se Boland.
— Agora, agarrem esse herege. — ordenou, num berro, Heron.
Num segundo, Stephen estava preso nos braços deles.
Continuou parado com os dois companheiros na extremidade do pórtico, escutando ociosamente a conversa deles e as explosões de aplausos no teatro. Ela estaria sentada lá, entre os outros, esperando decerto que ele aparecesse. Tentou lembrar-se da sua fisionomia, mas não pôde. O mais que podia lembrar era que ela usava um xale em volta da cabeça como um capuz e que os seus olhos negros o convidavam e o enervavam. Perguntava a si mesmo se estaria nos pensamentos dela como ela estava nos seus. Em seguida, no escuro, sem que os outros dois se pudessem dar conta disso, roçou as pontas dos dedos de uma das mãos na palma da outra, mal a tocando de leve. Mas a pressão dos dedos dela fora mais leve e mais firme: e, de súbito, a recordação desse contato lhe atravessou o cérebro e o corpo como uma onda invisível.
Stephen deixou-se ficar aos fundos, deprimido mais do que nunca pela escuridão e pelo silêncio do anfiteatro e pelo ar que aquilo ressumava de estudo objetivo e cru. Sobre a carteira leu a palavra Foetus feita a canivete várias vezes na madeira escura e manchada. A inesperada legenda alvoroçou-lhe o sangue; pareceu-lhe sentir à sua volta os estudantes ausentes e tal companhia deixou-o arrepiado. Uma visão da vida dos estudantes, que as palavras do pai não tinham tido força para evocar, derramou-se diante dele, vinda da palavra entalhada na carteira. Um estudante de largos ombros, muito bigodudo, estava cortando as letras com um canivete de mola, muito sério. Um outro estudante, sentado ou em pé perto desse, ria do trabalho da sua mão. Um outro dava-lhe uma cotovelada. O estudante grandalhão voltava-se logo, franzindo a cara. Vestia roupa cinzenta ampla e tinha botas de couro curtido.
Chocava-o encontrar no mundo exterior um traço do que tinha julgado até então ser uma doença individual e brutal do seu próprio espírito. Seus monstruosos pesadelos voltaram, amontoando-se em sua memória, e eram bem mais do que meras palavras. Dera-lhes logo entrada e lhes permitira vasculharem e aviltarem o seu intelecto, sem que soubesse de onde tinham vindo, de qual antro de monstruosas imagens, e sempre frágeis, e humildes para com os outros, inquietando-o e maltratando-o ao se apoderarem dele.
As letras cortadas na madeira suja da carteira fixavam-se diante dele, zombando da sua fraqueza corporal e dos seus entusiasmos fúteis e fazendo-o aborrecer-se de suas loucas e impuras orgias. A saliva, em sua garganta, foi ficando cada vez mais amarga e difícil de engolir, e o mal-estar trepava por seu cérebro a ponto de, por um momento, haver fechado os olhos e caminhado nas trevas.
Podia, ainda assim, ouvir a voz do pai:
— Quando começares a te mexer sozinho, Stephen — como bem presumo que o farás qualquer dia destes —, lembra-te de uma coisa. Faças tu o que fizeres, anda só com cavalheiros. Quando eu era rapaz, digo-te eu, bem que eu me divertia. Meti-me com rapaziada decente e fina. Cada um de nós sabia fazer alguma coisa. Um rapaz tinha uma boa voz; um outro companheiro sabia representar; um outro podia cantar uma boa canção cômica; já outro era um bom remador ou um bom jogador de raquete; um outro sabia contar anedota; e assim por diante. Conservávamos o bloco sempre em movimento; distraíamo-nos. Eu te posso dizer que vi um bom pedaço da vida. E olha lá que não éramos dos piores. Mas éramos cavalheiros, Stephen — pelo menos espero que o tenhamos sido —, e, além disso, honestos irlandeses do bom sangue. Essa é a espécie de gente com que desejo que tu te associes. Gente de antes quebrar que torcer. Estou conversando contigo como amigo, Stephen, e não acredito que um filho precise ter medo do pai. Não. Eu cá te trato como o teu avô me tratava quando eu era rapazola. Parecíamos mais irmãos do que pai e filho. Nunca me hei de esquecer o primeiro dia que ele me apanhou fumando. Estava eu na ponta do Terraço Sul, um dia, com alguns frangotes como eu; e é claro que nos julgávamos grandes individualidades porque tínhamos cachimbos no canto de nossas bocas. Eis senão quando passa o meu velho. Não disse uma palavra e nem sequer parou. Mas no dia seguinte, por sinal um domingo, tínhamos saído os dois para um passeio juntos; e quando voltávamos para casa, ele tirou o seu estojo de charutos e disse: “Ah. É mesmo, eu não sabia, Simon, que tu fumavas — ou qualquer coisa assim.” Naturalmente que tratei de me ajeitar com aquilo o melhor que pude. Se desejas tirar uma boa fumaça, experimenta um destes charutos. Um capitão americano nos deu de presente a noite passada em Queenstown.
— O seu pai — disse o velhinho para Stephen — era o maior namorador de Cork, no seu tempo. Sabia disso?
Stephen observava os três copos serem erguidos do balcão à medida que seu pai e seus dois camaradões bebiam à memória do passado. Um abismo de felicidade ou de temperamento separava-o deles. O seu espírito parecia muito mais velho do que o deles; brilhava glacialmente sobre as disputas, venturas e saudade deles como uma lua sobre uma terra mais jovem. Vida alguma, e nem mesmo mocidade tumultuava dentro dele como tumultuara dentro deles. Nem havia conhecido o prazer da camaradagem com outros nem o vigor de uma saúde masculina rude; nem mesmo amor filial. Nada tumultuava dentro da sua alma a não ser uma cobiça fria, cruel e sem amor. A sua infância estava morta, ou perdida; e com ela, a sua alma já agora incapaz de alegrias simples. Ele estava sendo impelido rumo à vida como o disco estéril da lua.
A tua palidez, Lua, será cansaço
De vogar tanto e tanto, a contemplar a terra,
Sabendo que um de nós pode ser teu regaço?
Repetia para si mesmo as estrofes do fragmento de Shelley. A coaptação da sua triste ineficiência humana aos vastos ciclos de atividade sideral esfriava-o. Tinha de esquecer a sua própria situação que, sendo humana, era, no entanto, ineficaz.
Para uma época de festividades assim rápidas, o dinheiro dos prêmios de Stephen lhe escorreu por entre os dedos. Número sem conta de víveres, de guloseimas e frutas secas chegavam da cidade. Todos os dias trazia uma tira de bilhetes de passagens para a família e todas as noites levava um grupo de três ou de quatro ao teatro, para assistirem a Ingomar ou a A dama dos leões. Andava com os bolsos do casaco cheios de barras de chocolate de Viena para as visitas, enquanto os bolsos das calças chocalhavam com montes de moedas de prata e de cobre. Trazia presentes para todo mundo. Reformou o seu quarto. Escreveu resoluções. Enfileirou os livros de cima a baixo nas estantes. Esquadrinhou toda espécie de listas de preços. Estabeleceu uma forma de expediente doméstico, mediante o qual cada membro da família tinha uma obrigação. Abriu um banco de empréstimos para a família, e adiantou empréstimos sobre clientes voluntários, de maneira que pudesse ter o prazer de fazer recibos e contar os juros sobre as quantias emprestadas. Quando já não pôde mais prosseguir, deu em percorrer a cidade para cima e para baixo, de bonde. Até que a temporada de prazer teve seu fim. A panela de esmalte róseo rachou e as divisões do seu quarto de dormir ficaram com a pintura sem acabar e apenas com o mal alisado reboco.
A casa voltou ao antigo modo de vida. Sua mãe não teve mais ocasião de lhe censurar o gasto de dinheiro. Ele, por sua vez, voltou à sua antiga vida de escola e todos os seus novos empreendimentos caíram em pedaços. O expediente doméstico deu por terra, o banco de empréstimo fechou os cofres e os seus livros com um sensível prejuízo; as regras de vida que tinha estabelecido para si próprio não foram esquecidas.
Que louco que fora o seu intento. Tentara construir uma comporta de ordem e de conforto contra a sórdida maré da vida de que o rodeava e tentara represar, por meio de regras de conduta, ativos interesses e novas relações filiais, a poderosa recorrência da maré dentro dele. Tudo em vão. Por fora e por dentro a água irrompera sobre as suas barreiras; aquela enchente começou, outra vez mais, a empurrar indomavelmente para cima a mole fendida
Viu claramente, além do mais, o seu próprio fútil isolamento. Não se aproximara um passo sequer mais para perto das vidas que tinha determinado aproximar e nem transpôs a vergonha inquieta e o rancor que o separava da mãe, do irmão e da irmã. Dificilmente acreditaria ter o mesmo sangue que eles, permanecendo perante eles apenas com o parentesco místico de adoção, como filho e irmão adotivo.
Dá-me um beijo — disse-lhe.
Mas os lábios dele não puderam inclinar-se para beijá-la.
Queria estar bem preso pelos braços dela e ser acariciado devagar, devagar, bem devagar. Em seus braços sentiu que se tinha tornado subitamente forte, destemido e seguro de si próprio. Mas os lábios não queriam baixar para a beijar.
Com um inesperado movimento ela lhe virou a cabeça e grudou os lábios nos dele. Ele leu o sentido dos seus movimentos em seus olhos escancarados e erguidos. Isso era demais para ele. Fechou os olhos, apertando-se bem de encontro a ela, corpo e espírito, sem consciência de mais nada no mundo senão da sombria pressão dos lábios dela suavemente se entreabrindo. Eles lhe comprimiam o cérebro como lhe comprimiam os lábios, tal como se fossem o veículo de uma vaga linguagem. E entre os seus lábios e os dela sentiu uma desconhecida e tímida pressão, mais sombria do que o desmaio do pecado e mais suave do que som ou odor.
III
A equação, na página da sua pasta de cadernos, começou a abrir uma cauda muito larga, com olhos e estrelas como a cauda de um pavão; e depois, quando os olhos e as estrelas dos seus índices foram se eliminando, começaram vagarosamente a se fechar dobrando-se novamente. Os índices que apareciam e que desapareciam eram os olhos que se abriam e que se fechavam; os olhos que se abriam e que se fechavam eram estrelas que tinham nascido e que se apagavam. O vasto ciclo de rutilante vida atraía o seu espírito exausto para fora do seu limite e para dentro do seu centro, uma distante música acompanhando-o para dentro e para fora. Mas qual música? A música ia ficando mais próxima e ele recordava as palavras, aquelas palavras do fragmento de Shelley sobre a lua errando solitária, pálida de cansaço. As estrelas começaram a se fragmentar e uma nuvem fina de poeira de astros caía através do espaço.
A luz opaca caía debilmente sobre a página onde uma outra equação começava a se desdobrar vagarosamente, abrindo muito a sua cauda ampla. Era a sua própria alma a caminho da experiência, desdobrando-se pecado após pecado, abrindo muito o fardo de fogo de suas estrelas a arderem e o fechando sobre si mesmo, enlanguescendo devagar, apagando suas próprias luzes e fogos. Elas extinguiram-se; e a treva fria encheu o caos.
Em vez disso, a onda vital carregara-o no seu seio para fora de si próprio e o soltara quando retrocedera: e parte alguma do corpo ou da alma fora mutilada, antes uma paz sombria se estabelecera entre um e outro. O caos, no qual o seu ardor se extinguira, era um frio e indiferente conhecimento de si mesmo. Pecara mortalmente não só uma vez, mas muitas vezes, e sabia que enquanto permanecesse em perigo de danação eterna apenas pelo primeiro pecado só, em todos os sucessivos pecados fora multiplicando a sua culpa e a sua punição. Os seus dias, trabalhos e pensamentos não lhe podiam obter nenhuma reparação, as fontes da graça santificadora tendo cessado de refrescar a sua alma. No máximo, por uma esmola dada a um mendigo cuja bênção evitara, podia esperar, com enfado, ganhar para si certa medida de graça atual. Devoção, atirara-a n’água. De que lhe aproveitaria rezar quando sabia que a sua alma ambicionava a própria destruição? Um certo orgulho, um certo temor, impedia-o de oferecer a Deus até mesmo uma oração à noite, embora soubesse que estava no poder de Deus tomar a sua vida enquanto dormisse e jogar a sua alma para o inferno antes que pudesse pedir misericórdia. O seu orgulho no próprio pecado, o seu temor sem amor de Deus, lhe diziam que a sua ofensa era demasiado grave para ser tomada no todo ou em parte por uma falsa homenagem Ao-que-tudo-vê e Ao-que-tudo-sabe.
O seu pecado, que o havia feito esconder-se da vista de Deus, o havia levado mais para perto do refúgio dos pecadores. Os olhos dela pareciam olhá-lo com doce piedade: aquela sua santidade, uma estranha luz brilhando de leve sobre a sua frágil carne, não humilhava o pecador que se aproximava dela. Se alguma vez se sentia impelido a afastar de si o pecado e a arrepender-se, o impulso que o movia era o desejo de ser seu cavalheiro. Se alguma vez a sua alma reentrava timidamente na sua morada, depois da aflição do seu corpo em desejo se ter aplacado, era ainda voltada para ela, cujo emblema era a estrela da manhã, claro e musical, falando do céu e infundindo paz: e sentia isso quando os nomes dela eram murmurados suavemente pelos lábios onde, todavia, ainda se arrastavam sórdidas e vergonhosas palavras e até o sabor mesmo de um beijo lascivo.
O meu excelente amigo Bombados.
Um corpulento rapaz, pouco atrás de Stephen, friccionou as mãos e disse:
— Então vai haver jogo de bola. Podemos malhar a hora toda. Ele não estará de volta antes das duas e meia. E então lhe poderás fazer perguntas de catecismo, Dedalus.
Se um homem tivesse roubado uma libra na sua mocidade e tivesse se servido dessa libra para acumular uma enorme fortuna, quanto era ele obrigado a devolver; a libra que havia roubado ou a libra e mais os juros compostos contados sobre isso, ou toda a sua enorme fortuna? Se um clérigo, ao batizar, derrama a água antes de pronunciar as palavras, está a criança batizada? É válido o batismo com água mineral? Como é que, ao passo que a primeira bem-aventurança promete o reino do céu aos pobres de espírito, a segunda bem-aventurança também promete ao humilde que ele possuirá a terra? Por que era o sacramento da eucaristia instituído sob duas espécies de pão e de vinho, se Jesus Cristo estava presente corpo e sangue, alma e divindade no pão somente e no vinho somente? Contém uma partícula mínima do pão consagrado todo o corpo e sangue de Jesus Cristo, ou uma parte apenas do corpo e do sangue? Se o vinho se torna em vinagre e a hóstia se desfaz em corrupção, depois de terem sido consagrados, está Jesus Cristo ainda presente sob as suas espécies, como Deus e como homem?
Formas passavam nesta e naquela direção por entre a luz opaca. E isso era a vida. As letras do nome de Dublin jaziam pesadamente sobre o seu espírito, empurrando-se umas às outras, rudemente, para cá e para lá, com uma insistência vagarosa mas grosseira. A sua alma estava engordando e congelando-se dentro de uma grossa gordura, mergulhada cada vez mais profundamente com o seu temor estúpido dentro de um sombrio crepúsculo ameaçador, enquanto o corpo que era seu permanecia sem apoio e sem honra, contemplando tudo com olhos sombrios, falto de socorro, perturbado e humano para um deus bovino ficar encarando-o.
O dia seguinte trouxe morte e julgamento despertando a sua alma lentamente do seu desespero sem amparo. A débil claridade do medo tornou-se em terror do espírito, quando a voz rouquenha do pregador derramou morte dentro da sua alma. Sofreu a sua agonia. Sentiu o frio da morte tocar-lhe as extremidades e subir até o seu coração, a faixa da morte velando-lhe os olhos, os claros centros do cérebro extinguindo-se um a um como lâmpadas, o último suor fluindo-lhe da pele, a impassibilidade dos membros ao morrerem, a fala cerrando-se, atrapalhando-se, e o coração falhando, batendo debilmente, sempre mais debilmente, tudo o mais já vencido, a respiração, a pobre respiração, o pobre sopro humano sem auxílio, soluçando e suspirando, gargarejando e estertorando na garganta. Nenhum auxílio. Nenhum socorro. Ele — ele pessoalmente —, aquele seu corpo ao qual dera tudo, estava morrendo. Para a tumba com ele. Fechemo-lo, dentro duma caixa de madeira, a esse cadáver. Carreguemo-lo para fora de casa nos ombros dos serventes. Empurremo-lo para longe da vista dos homens, dentro dum buraco bem amplo, no chão, dentro da sepultura, para ser pasto dos seus vermes movediços e para ser devorado pelos ratos em sanha, os ratos de roliços ventres.
Agora era a vez de Deus. E Ele não podia ser enganado, nem Seus olhos podiam ser vendados. Todos os pecados, um por um, iriam sair de seu esconderijo, os mais rebelados contra a vontade divina, e os mais degradantes para a nossa pobre natureza corrupta, a mais fraca imperfeição e a mais hedionda atrocidade. O que adiantava agora ter sido grande imperador, grande general, formidável inventor, o mais culto dentre os cultos? Todos eram o mesmo diante da mesa do julgamento. Ele recompensaria os justos e puniria os culpados. Um rápido instante bastava para o julgamento da alma dum homem. Um rápido instante depois da morte do corpo e já a alma era pesada na balança. O julgamento particular tinha terminado e a alma tinha passado para a morada da felicidade ou para prisão do purgatório ou tinha sido arremessada, rugindo, no inferno.
Considerai, então, qual deva ser o fétido do ar do inferno. Imaginai um cadáver fétido e pútrido que tenha jazido a decompor-se e a apodrecer na sepultura, uma matéria gosmenta de corrupção líquida. Imaginai tal cadáver preso das chamas, devorado pelo fogo do enxofre a arder e a emitir densos e horrendos fumos de nauseante decomposição repugnante. E a seguir imaginai esse fedor malsão multiplicado um milhão e mais outro milhão de milhões sobre milhões de carcaças fétidas comprimidas juntas na treva fumarenta, uma enorme fogueira de podridão humana. Imaginai tudo isso e tereis uma certa ideia do horror do cheiro do inferno.
Mas tal fedentina não é, horrível pensamento é este, o maior tormento físico ao qual os danados estão sujeitos. O tormento do fogo é o maior tormento ao qual o tirano tem sempre sujeitado suas criaturas. Colocai o vosso dedo por um momento na chama de uma vela e sentireis a dor do fogo. Mas o nosso fogo terreno foi criado por Deus para benefício do homem, para manter nele a centelha de vida e para ajudá-lo nas artes úteis, ao passo que o fogo do inferno é de uma outra qualidade e foi criado por Deus para torturar e punir o pecador sem arrependimento. O nosso fogo terrestre, outrossim, se consome mais ou menos rapidamente, conforme o objeto que ele ataca for mais ou menos combustível, a ponto de a ingenuidade humana ter-se sempre entregado a inventar preparações químicas para garantir ou frustrar a sua ação. Mas o sulfuroso breu que arde no inferno é uma substância que foi especialmente designada para arder para sempre e ininterruptamente com indizível fúria. Além disso, o nosso fogo terrestre destrói ao mesmo tempo que arde, de maneira que quanto mais intenso ele for mais curta será a sua duração; já o fogo do inferno tem esta propriedade de preservar aquilo que ele queima e, embora se enfureça com incrível ferocidade, ele se enfurece para sempre.
Quão terrível é a sorte desses desgraçados seres. O sangue ferve e referve nas veias; os cérebros ficam fervendo nos crânios; o coração no peito flamejando e ardendo, os intestinos, uma massa vermelha e quente de polpa a arder; os olhos, coisa tão tenra, flamejando como bolas fundidas.
E através dos vários tormentos dos sentidos a alma imortal é torturada eternamente na sua essência mesma no meio de léguas e léguas de ardentes fogos acesos nos abismos pela majestade ofendida de Deus Onipotente e soprados numa perene e sempre crescente fúria pelo sopro da raiva da Divindade.
Considerai, finalmente, que o tormento dessa prisão infernal é acrescido pela companhia dos condenados mesmos. A má companhia, sobre a terra, é tão nociva que as plantas, como que por instinto, apartam-se da companhia seja do que for que lhes seja mortal ou funesto. No inferno, todas as leis estão trocadas — lá não há nenhum pensamento de família, de pátria, de laços, de relações. O danado goela e grita um com o outro, sua tortura e raiva se intensificando pela presença dos seres torturados e se enfurecendo como ele. Todo o senso de humanidade é esquecido. Os lamentos dos pecadores a sofrerem enchem os mais recuados cantos do vasto abismo. As bocas dos danados estão cheias de blasfêmias contra Deus e de ódio por seus companheiros de suplício e de maldições, contra as almas que foram seus companheiros no pecado. Era costume, nos antigos tempos, punir o parricida, o homem que havia erguido sua mão assassina contra o pai, arremessando-o nas profundezas do mar num saco dentro do qual também eram colocados um galo, um burro e uma serpente. A intenção desses legisladores, que inventaram tal lei, a qual parece cruel nos nossos tempos, era punir o criminoso pela companhia de animais malignos e abomináveis. Mas que é a fúria dessas bestas estúpidas comparada com a fúria da execração que rompe dos lábios tostados e das gargantas inflamadas dos danados no inferno, quando eles contemplam em seus companheiros em miséria aqueles mesmos que os ajudaram e incitaram no pecado, aqueles cujas palavras semearam as primeiras sementes do mal em pensamento e em ação em seus espíritos, aqueles cujas sugestões insensatas os conduziram ao pecado, aqueles cujos olhos os tentaram e os desviaram do caminho da virtude? Voltam-se contra tais cúmplices e os xingam e amaldiçoam. Não terão, todavia, socorro nem ajuda; agora é tarde demais para o arrependimento.
Stephen desceu a nave da capela, com as pernas tremendo e o couro cabeludo se arrepiando em sua cabeça como se mãos de fantasmas o estivessem tocando. Subiu até o fim da escadaria, meteu-se pelo corredor ao longo de cujas paredes sobretudos e capas pendiam como malfeitores enforcados, sem cabeças, gotejando, deformados. E a cada passo tinha medo de já haver morrido, de que a sua alma já tivesse sido arrancada do estojo do corpo, de que estivesse mergulhando de cabeça através do espaço.
A sua carne encolheu-se toda como se estivesse sentindo a aproximação das vorazes línguas de fogo, toda seca como se estivesse sentindo em volta o redemoinho do ar sufocante. Ele havia morrido. Sim. Fora julgado. Uma vaga de fogo arrebentara sobre o seu corpo; a primeira. Outra vaga, e o seu cérebro começava a arder. Mais outra; e o seu cérebro estava cozinhando e borbulhando dentro do revestimento estilhaçado do crânio, de onde rompiam chamas como uma corola, guinchando como vozes:
— Inferno. Inferno. Inferno. Inferno. Inferno.
Vozes diziam, perto dele:
— No inferno.
— Está me parecendo que ele o esfregou direito em ti.
— Se esfregou. Meteu-nos a todos numa fedentina azul.
— E é do que vocês colegas precisam: inferno e bastante, para então se meterem a trabalhar.
Bem longe; nalgum lugar escuro é que iria desvendar, em sussurros, a sua vergonha; e implorava a Deus, humildemente, que não ficasse ofendido com ele por não ousar confessar-se na capela do colégio e, numa extrema objeção de espírito, rogava mudamente o perdão daqueles corações juvenis à sua volta.
Assim como nos corpos mortos se engendram vermes devido à putrefação, também nas almas dos perdidos se ergue um remorso perpétuo provindo da putrefação do pecado, o aguilhão da consciência, o verme, como o Papa Inocêncio III o chamou, do tríplice aguilhão. A primeira ferroada descarregada por esse verme cruel será a lembrança dos prazeres passados. Ah. E que terrível recordação não será essa. Lá no lago das chamas que tudo devoram, o orgulhoso rei recordará as pompas da sua corte, o homem sábio mas mau seus livros e seus instrumentos de pesquisas, o amante dos prazeres artísticos, os seus mármores e quadros e mais tesouros de arte, aquele que se deleitava com os prazeres da mesa os seus festins ruidosos, os pratos preparados com tantas especiarias, os seus vinhos escolhidos; o usuário recordar-se-á do esconderijo do seu ouro; o ladrão da sua riqueza mal adquirida; os assassinos odientos, vingativos e desapiedados, seus feitos sangrentos e a violência que neles revelaram; o impuro e adúltero, os prazeres imundos e inenarráveis em que se comprazia. Hão de se recordar de tudo isso e ter nojo de si mesmos e dos seus pecados.
A divina justiça insiste em que a compreensão desses miseráveis desgraçados se fixe continuamente sobre os pecados de que são culpados; e além disso, como acentua Santo Agostinho, Deus lhes comunicará a Sua própria compreensão do pecado, de maneira que o pecado possa aparecer diante deles em toda a sua hedionda malícia, tal como aparece aos olhos de Deus mesmo. Hão de contemplar os seus pecados em toda a sua sordidez e arrepender-se; mas será demasiado tarde e, então, depois hão de deplorar as boas ocasiões que negligenciaram. Este é o último, o mais profundo e o mais cruel aguilhão do verme da consciência. A consciência dirá: tiveste tempo e oportunidade para te arrepender e não quiseste. Foste educado religiosamente por teus pais. Tiveste o ministro de Deus para te pregar, para te chamar quando te extraviavas, para te perdoar os teus pecados fossem lá quantos fossem, e por mais abomináveis se apenas te tivesses confessado e arrependido. Mas não. Não quiseste. Zombaste dos ministros da santa religião, afastaste-te do confessionário, emparedaste-te cada vez mais profundamente no lodo do pecado. Deus apelava para ti, prevenia-te, implorava-te que voltasses para Ele. Oh. Que vergonha, que miséria.
coisas que em si mesmas são boas tornam-se más no inferno. A companhia, seja onde for, é uma fonte de conforto para os aflitos. Pois lá será um contínuo tormento. O conhecimento, pelo qual se anseia tanto como o bem principal do intelecto, lá sofrerá ódio pior do que a ignorância; a luz, tanto e tanto aspirada por todas as criaturas desde o senhor da criação até a mais humilde planta da floresta, será insultada intensamente. Na nossa vida as nossas aflições jamais são longas ou grandes demais, porque a natureza ou as ultrapassa pelos hábitos ou lhes põe um fim sucumbido ao seu peso. Mas no inferno os tormentos não podem ser vencidos pelo hábito, pois enquanto são de terrível intensidade são, ao mesmo tempo, de contínua variedade, cada pena, por assim dizer, se incendiando através da outra e devolvendo àquela que a inflamou uma chama ainda mais potente. E nem pode a natureza escapar dessas intensas e variadas torturas sucumbindo à mercê delas, pois a alma é sustentada e mantida no mal de maneira a seu sofrimento poder ser sempre maior. Ilimitada extensão de tormento, incrível intensidade de sofrimento, incessante variedade de tortura — eis o que a divina majestade, tão ultrajada pelos pecadores, pede; eis o que a santidade do céu, menosprezada e posta à margem pelos prazeres baixos e luxuriosos da carne corrupta, requer; eis o que o sangue inocente do Cordeiro de Deus, derramado pela redenção dos pecadores e pisado pelo mais vil dos vis, exige.
intoleravelmente intensas e insuportavelmente extensas
Imaginai
sempre para sofrer; nunca para gozar; sempre para se danar; nunca para se salvar; sempre, nunca; sempre, nunca. Oh. Que horroroso castigo. Uma eternidade de agonia sem fim, de tormento corporal e espiritual sem fim, sem um raio de esperança, sem um momento de trégua. Só agonia ilimitada em sua intensidade, de tormento infinitamente variado, de tortura que sustenta eternamente aquilo que eternamente devora, de angústia que eternamente oprime o espírito enquanto aflige a carne; uma eternidade, da qual um só instante já é por si mesmo uma eternidade de desgraças. Tal o terrível castigo decretado para os que morrem em pecado mortal e decretado por um Deus todo poderoso e justo.
Ó meus irmãozinhos em Jesus Cristo, havemos nós então de ofender esse bom Redentor e provocar a sua cólera? Havemos nós, outra vez, de pisar sobre esse cadáver dilacerado, conspurcado? Havemos nós, outra vez, de cuspir sobre essa face tão cheia de aflição e de amor? Havemos nós, também, como os judeus cruéis e os soldados brutais, de escarnecer desse inefável e compassivo Salvador que provou sozinho, para nossa salvação, o vinho da amargura até as últimas gotas? Cada palavra de pecado é uma ferida em Seu tenro lado. Cada ato pecaminoso é um espinho traspassando a Sua cabeça. Cada pensamento impuro deliberadamente aceito é uma lança aguda transfixando esse sagrado e amantíssimo coração. Não, não. É impossível para qualquer ser humano fazer o que ofende tão profundamente a divina Majestade, fazer o que é punido com uma eternidade de agonia, fazer o que crucifica de novo o Filho de Deus e o transforma em escárnio.
todo o seu ser, memória, vontade, compreensão e carne, entorpecidos e exaustos.
Isso era obra dos demônios, esparramar os seus pensamentos, embotar sua consciência, atacá-lo nas entradas da sua carne covardemente corrompida pelo pecado; e, rogando a Deus timidamente que perdoasse a sua fraqueza, subiu arrastando-se para o leito e, enrolando-se bem nos lençóis, cobriu ainda a face com as mãos. Tinha pecado. Tinha pecado tão profundamente contra o céu e diante de Deus que não merecia ser chamado filho de Deus.
enquanto a sua alma, por dentro, era uma massa viva da corrupção. Como acontecera que Deus não o ferira de morte? A companhia leprosa dos pecados cerrava-se em torno dele, respirando em cima dele, inclinando-se sobre ele de todos os lados. Esforçou-se por esquecê-los com um ato de oração, cerrando os membros muito juntos e cerrando muito as pálpebras; mas os sentidos da sua alma não se sujeitaram; e, embora os seus olhos estivessem muito apertados, via os sítios onde tinha pecado, e, embora os seus ouvidos estivessem cobertos de todo, escutava. Desejava com todo seu querer não ouvir nem ver. Desejava até que o seu ânimo vibrasse sob a tensão do seu desejo e que mesmo os sentidos de sua alma se fechassem. Eles se fecharam por um instante e depois se abriram. E, então, viu.
Arrojou-se da cama, o odor fumarento invadindo-lhe a garganta, entupindo e revoltando as suas entranhas. Ar. O ar do céu. Aos tropeções correu para a janela, gemendo e quase desfalecendo de mal-estar. No lavatório, veio-lhe uma convulsão, de dentro; e, selvagemente apertando a fronte, vomitou profusamente, enojadíssimo.
Mas como assim tão de repente? Vendo, ou pensando ao ver. Os olhos veem uma coisa sem primeiro haverem desejado vê-la. Depois, num instante, aquilo se dá. Mas será que essa parte do corpo compreende, ou o que é que acontece? A serpente, o mais sutil dos animais da terra. Ela deve compreender logo, quando deseja; e então prolonga o seu próprio desejo instante após instante, pecaminosamente. Sente, compreende e deseja. Que coisa horrível. Quem fez isso ser assim, uma parte bestial do corpo apta a compreender bestialmente e a desejar bestialmente? Era, pois então, ele, ou uma coisa inumana movida por uma alma inferior? A sua alma sujeita ao pensamento de uma vida tórpida e rastejante alimentando-se do tutano tenro da sua vida e engordando com o lodo do desejo? Oh. Por que era isso assim? Oh. Por quê?
Um sopro de humilhação desolada desceu fracamente sobre a sua alma, ao pensar em como havia caído, ao sentir que aquelas almas eram mais caras a Deus do que a sua. O vento passou por ele e foi passar por miríades e miríades de outras almas, sobre as quais o favor de Deus brilhava ora mais, ora menos, estrelas ora mais claras, ora mais sombrias, ora suspensas, ora caindo. E as almas bruxuleantes lá se iam, fortalecidas ou tombando, fundindo-se num sopro móvel. Uma alma estava perdida: uma alma insignificante: a sua. Ela tremeluziu ainda uma vez e sumiu, esquecida, perdida. O fim: negro, frio, vazio e gasto.
Era tão fácil ser bom. O jugo de Deus era doce e leve. Bem melhor fora não haver pecado nunca, ter permanecido sempre como criança, pois Deus amava as criancinhas e se enternecia quando elas se aproximavam d’Ele. Triste e terrível coisa era pecar. Mas Deus era misericordioso para com os pobres pecadores que sinceramente se arrependiam. Quão verdadeiro era isso. Isso, com efeito, era bondade.
Todo mundo na capela ia pois ficar sabendo que espécie de pecador ele tinha sido. Pois que soubessem. Era verdade. Mas Deus prometera perdoar-lhe se se arrependesse. E bem que se arrependera. Apertou as mãos e as ergueu para a efígie branca, rezando com os seus olhos escurecidos, rezando com todo o seu corpo trêmulo, meneando a cabeça de um lado para outro como uma criatura desatinada, rezando com lábios que soluçavam.
E de que é que você se recorda, desse tempo para cá?
Ele começou a confessar os seus pecados; missas não assistidas, orações não proferidas, mentiras.
— E nada mais, meu filho?
— Pecados de cólera, inveja, gula, vaidade, desobediência.
— E nada mais, meu filho?
Não havia jeito. Murmurou:
— Eu… cometi pecados de impureza, padre.
O padre não virou o rosto.
— Consigo mesmo, meu filho?
— E… com outros, padre.
— Com mulheres, meu filho?
— Sim, padre.
— Eram elas mulheres casadas, meu filho?
Ele não sabia. Os seus pecados gotejavam dos seus lábios um por um, gotejavam em pingos vergonhosos da sua alma, ulcerando e destilando, como uma chaga, uma horrenda torrente de vício. Os últimos pecados destilavam ainda mais lentamente, sordidamente. Agora já não havia mais o que contar. Abaixou a cabeça, vencido.
O padre ficou calado até que, depois, perguntou:
— Que idade tem você, meu filho?
— Dezesseis anos, padre.
O padre passou a mão pelo rosto várias vezes. Depois, descansando o antebraço na outra mão, virou-se para a grade e, com os olhos afastados sempre, falou vagarosamente. Era uma voz velha e gasta, a sua.
— Você é muito jovem, meu filho — disse ele —, e consinta que eu lhe implore que abandone de vez esse pecado. É um terrível pecado. Ele mata o corpo e mata a alma. É a causa de muitos crimes e de muitas desgraças. Abandone-o de vez, meu filho, por amor de Deus. Ele é desonroso e desumano. Você nem pode saber até onde esse desgraçado hábito poderá conduzir você e nem até onde será ele contra você. Enquanto você, meu filho, cometer esse pecado, não merecerá nunca isto de Deus. Rogue à nossa mãe Maria para o ajudar. Ela o ajudará meu filho. Reze à Nossa Senhora, quando esse pecado lhe vier ao espírito. Estou certo de que você fará isso, não é mesmo, meu filho? Arrependa-se de todos esses pecados. Tenho a certeza de que está arrependido. E vai prometer a Deus, agora, que, por Sua divina graça, nunca mais o há de ofender com esse grave pecado. Vai fazer essa solene promessa a Deus, não é assim?
Sentou-se perto do fogo, na cozinha, não ousando falar, de tão feliz. Até aquele momento não conhecera quão bela e pacífica a vida podia ser. O halo verde de papel pregado em volta da lâmpada refletia uma sombra meiga
Afinal de contas, quão simples e bela que era a vida. E a vida ali estava inteira, diante dele.
Adormeceu num sonho. Num sonho se levantou e viu que já era manhã. Num sonho acordado saiu através da manhã plácida para o colégio.
Uma outra vida. Uma vida de graça, de virtude e de felicidade. Era, pois, verdade. Não era um sonho do qual devesse despertar. O passado era passado.
IV
sentia sempre que o seu corpo largava tal sentimento como uma pele ou como uma casca fácil de sair.
Tinha sentido uma sutil, negra e sussurrante presença penetrar no seu ser e aquecê-la com um rápido desejo iníquo; mas tal presença, também essa deslizara por seus membros abaixo, deixando o seu espírito lúcido e indiferente. Tal, cria ele, era o único amor e o único ódio que a sua alma podia abrigar.
Acabou, por fim, descobrindo que o único cheiro contra o qual o seu sentido do olfato se revoltava era um certo fedor de peixe podre que semelhava o da urina depositada durante muito tempo; e onde quer que isso lhe fosse possível, sujeitava-se a suportar tão desagradável cheiro. A fim de mortificar o paladar, praticava hábitos estritos à mesa, observando fielmente todas as abstinências da igreja e habituando-se, como uma distração, a afastar o seu espírito de todos os sabores de diferentes alimentos. Mas foi para com o sentido do tato que ele empregou com mais assiduidade ingênuos processos inventivos. Jamais, conscientemente, mudou de posição na cama; ficava sentado nas posições mais incômodas possíveis; sofria com paciência qualquer comichão ou dor; conservava-se longe do fogo; permanecia de joelhos durante toda a missa, exceto aos evangelhos; deixava parte do pescoço e do rosto sem enxugar de modo que o ar lhe doesse, e, onde quer que estivesse, se não estivesse dizendo terço, deixava os braços caídos ao longo do corpo como um corredor e jamais com as mãos nos bolsos; ou então cruzava-os atrás de si.
agora que sentia a sua alma sitiada, mais uma vez, pelas insistentes vozes da carne que começavam a aparteá-lo baixinho, de novo, durante as suas orações e meditações. Isso lhe deu um intenso senso de força para saber que podia, com um simples ato de consentimento, com o pensamento de um momento apenas, desfazer tudo quanto tinha feito. Pareceu-lhe sentir uma corrente vagarosamente avançando para os seus pés descalços e estar esperando a primeira ondazinha tímida avançar para lhe tocar a pele. Então, quase no instante mesmo desse contato, quase na extremidade do consentimento pecaminoso, se achou de pé, bem longe da corrente, sobre uma duna seca, salvo por um súbito ato de vontade ou por uma repentina jaculatória; e ao ver lá longe a linha prateada no chão continuar a avançar vagarosamente à procura dos seus pés, um novo estremecimento de vontade e de satisfação sacudiu a sua alma para que ela soubesse que não tinha cedido nem desfeito tudo.
Muitas vezes, ao confessar suas dúvidas e escrúpulos (uma ou outra inatenção momentânea numa oração, um movimento corriqueiro de raiva na sua alma ou uma sutil obstinação no falar ou no agir), era ele solicitado pelo seu confessor a nomear algum pecado da sua vida passada, antes de lhe ser dada a absolvição. Dizia-o com humildade e vergonha, e se arrependia dele ainda mais. Humilhava-o e envergonhava-o pensar que jamais pudesse libertar-se desse pecado completamente, vivesse embora santamente ou atingisse que virtudes ou perfeições pudesse atingir. Um sentimento sem paz, de culpa, havia de estar sempre presente nele; tinha de confessar, arrepender-se, ser absolvido, e tornar a confessar e arrepender-se e ser absolvido outra vez, mas em vão. Talvez aquela primeira confissão apressada lhe tivesse sido arrancada pelo medo do inferno e não tivesse sido bem-feita. Talvez, tendo relação apenas com a sua iminente condenação, não tivesse tido sincera mágoa por seu pecado? Mas o sinal mais certo de que aquela confissão tinha sido boa e de que tinha tido sincera mágoa por ter pecado era, bem o sabia, ter-se emendado de vida.
— Emendei a minha vida, não foi? — perguntava a si mesmo.
Num colégio como este — disse ele por fim — há um, ou talvez dois ou três rapazes, que Deus chama para a vida religiosa. Tal rapaz é marcado por seus companheiros por sua piedade, pelo bom exemplo que dá aos outros. E eles logo o consideram e escolhem, às vezes, até, como seu prefeito nos sodalícios. E você, Stephen, tem sido um desses rapazes neste colégio. Foi e é prefeito do sodalício de Nossa Senhora. Talvez seja você, neste colégio, o rapaz que Deus escolheu para o chamar a Si.
— Receber tal chamado, Stephen — disse o padre —, é a maior honra que Deus Todo-poderoso pode conferir a um homem. Nenhum rei, nenhum imperador, neste mundo, tem o poder de um sacerdote. Nenhum anjo, nenhum arcanjo no céu, nenhum santo, nem mesmo a própria Virgem Maria tem o poder de um sacerdote de Deus: o poder das chaves, o poder de ligar, de tirar do pecado, o poder do exorcismo, o poder de expulsar das criaturas de Deus os maus espíritos que sobre elas exerçam poder, a força, a autoridade de fazer com que o grande Deus do Céu desça sobre o altar e tome a forma de pão e vinho. Que formidável poder, Stephen.
Em reverente silêncio escutava, agora, o apelo do padre e, através das palavras, ouvia ainda mais distintamente uma voz convidando-o a aproximar-se, oferecendo-lhe secreto conhecimento e secreto poder. Viria, então, a saber qual tinha sido o pecado de Simão Mago e qual era o pecado contra o Espírito Santo, para o qual não existia perdão. Saberia coisas obscuras, escondidas dos outros, daqueles que eram filhos concebidos e nascidos na ira. Iria saber os pecados, os anseios pecaminosos, os atos pecaminosos, os pensamentos pecaminosos dos outros, ouvindo-os murmurados aos seus ouvidos, no confessionário, sob pejo, numa capela escura, dos lábios de mulheres e de moças; mas se tornara imune misteriosamente, na ordenação, pela imposição das mãos, e a sua alma passaria por tudo aquilo, sem se contaminar, rumo à branca paz do altar. Mácula alguma de pecado ficaria em suas mãos, com as quais, depois, havia de elevar e partir a hóstia; mácula alguma de pecado ficaria em seus lábios em prece, que o fizesse comer e beber danação para si mesmo não discernindo o corpo de Deus. Ele havia de sustentar o seu secreto conhecimento e o seu secreto poder, sendo tão sem pecado quanto um inocente: e seria sacerdote para sempre, segundo as ordens de Melquisedeque.
Ainda não descobrira o fim para o qual tinha nascido e se habilitado a servir, pois escapara por um invisível caminho; e agora lhe acenava de novo, mais uma vez, e uma nova aventura estava prestes a se abrir para ele. Parecia-lhe ouvir notas de uma música impulsiva, ora subindo um tom, ora descendo um quarto de tom, subindo um tom, descendo uma terça maior, como chamas de três braços pulando caprichosamente, chama após chama, para fora de uma acha da meia-noite. Era um prelúdio de gnomos, sem fim e sem forma; e à medida que se tornava mais selvagem e mais tenso, as chamas pulando fora do compasso, ele tinha a sensação de ouvir por baixo dos ramos e das raízes criaturas selvagens disparando, os seus pés tamborilando como chuva por cima de folhas. Pés que passavam tamborilando tumultuosamente sobre o seu espírito: pés de coelho e de lebres, pés de veados, de corças e de antílopes, até não ouvi-los mais e apenas ficar se recordando de uma altiva cadência de Newman:
— Cujos pés são como os pés de veados sob hastes imperecíveis.
— Stephanos Dedalos. Bous Stephanoumenos. Bous Stephaneforos.
Aqueles gracejos não eram novos para ele e mesmo agora agradavam a sua soberania orgulhosa e indulgente. Como nunca antes, o seu nome estranho lhe parecia uma profecia. Tão indefinido como ora lhe parecia o ar quente e cinzento, tão fluido e impessoal o seu próprio feitio, que todas as horas eram uma só para ele. Um momento antes o fantasma do antigo reino dos dinamarqueses surgira por entre a vestimenta da cidade embuçada na névoa. Agora, ante o nome do artífice fabuloso, lhe parecia ouvir o ruído de sombrias vagas e ver uma forma alada voando por sobre as ondas e vagarosamente escalando o ar. Que significava isso? Seria uma estranha divisa do frontispício dum livro medieval de profecias e de símbolos, esse homem voando como um falcão para o sol por sobre o mar? Uma profecia do fim para o qual havia nascido para servir e que andara a procurar por entre os nevoeiros da infância e da puerícia? Um símbolo do artista forjando de novo na sua oficina com matéria dútil da terra um novo ser alado, impalpável e imperecível?
V
Esquisita ideia tem ele de gênero, se julga que cadela é masculino.
— Ah. Mas é uma vergonha, um escândalo para ti, Stephen, e só me arrependo do dia em que puseste os pés em tal lugar. Eu é que sei quanto isso te transformou.
A erudição, na qual, acreditara, teria que passar os seus dias imerso atentamente, a ponto de o raptar da companhia da mocidade, não passava de uma seleção de arcaicas sentenças de Aristóteles sobre a poética e a psicologia e de uma Synopsis Philosophiae Scholasticae ad mentem divi Thomae. Seu raciocínio era um crepúsculo de dúvida e de autodesconfiança clareado, às vezes, pelos vislumbres da intuição, por iluminações de um tão claro esplendor que, em tais momentos, o mundo desaparecia debaixo dos seus pés como se o fogo o tivesse consumido; depois do que a sua língua se tornava pesada e encontrava os olhos dos outros com os seus olhos sem resposta, pois sentia que o espírito da beleza o tinha enrolado como um manto, e que, em devaneio, pelo menos, tinha se saído bem e com nobreza. Mas quando o seu breve orgulho de silêncio já não mais o soerguia, contentava-se em se encontrar outra vez no meio de vidas comuns, prosseguindo o seu caminho através da sordície, da indolência e dos ruídos da cidade, sem temor algum e com o coração leve.
Através dessa imagem tinha ele vislumbrado uma estranha caverna negra de especulação, mas imediatamente se arredara dali, sentindo que não era ainda hora de entrar por ela adentro. Mas a sombra noturna do seu amigo calado parecia haver disseminado no ar, à sua volta, uma tênue e mortal exalação; e a si mesmo se viu a olhar ora uma, ora outra palavra casual, à sua direita ou à sua esquerda, num espanto estólido por sentir que tais palavras estavam silenciosamente esvaziadas de instantâneo sentido até que cada legenda de qualquer armazém à toa saltava para o seu espírito como as palavras de um feitiço e a sua alma se contraía suspirando como que velha já, enquanto ele ia indo por um beco por entre pilhas de línguas mortas. O seu próprio conhecimento de linguagem tinha fluxos e refluxos no seu cérebro e se aventurava discretamente pelas próprias palavras adentro, vendo-as associarem-se e desassociarem-se em ritmos caprichosos:
A hera geme, agarrada muro acima
Geme e vai se agarrando muro acima.
A hera amarelada, muro acima,
Não para mais de se agarrar ao muro.
A palavra agora brilhava em seu cérebro, mais clara e mais luzente do que qualquer marfim serrado das presas mosqueadas dos elefantes. Ivory, ivoire, avorio, ebur. Um dos primeiros exemplos que lera no latim, citava: India mittit ebur; e recordava a cara franzida de homem do norte, do reitor que lhe havia ensinado a pôr as Metamorfoses de Ovídio em inglês elegante, tornado extravagante pela menção de cerdos, cacos de louça, e lombos de toucinho. O pouco que sabia das leis do verso latino tinha aprendido de um livro todo estraçalhado escrito por um padre português:
Contrahit orator, variant in carmine vates.
Perguntou-me se eu estava cansado e se gostaria de passar a noite ali. Disse-me que estava inteiramente sozinha na casa e que o marido tinha ido aquela manhã para Queenstown a acompanhar a irmã. E todo o tempo em que esteve a falar, Stevie, tinha os olhos fixos na minha cara. E estava tão perto de mim que eu podia ouvir a sua respiração. Quando lhe devolvi o canecão, acabou por segurar a minha mão, puxando-me para a soleira e disse assim: “Entre e passe a noite aqui. Não tem motivo para ficar assustado. Não tem ninguém, a não ser nós…” Pois, eu, Stevie, não entrei. Agradeci-lhe e prossegui, de novo, o meu caminho, todo em febre. Na primeira curva do caminho olhei para trás e lá estava ela ainda à porta.
— O senhor é um artista, não é mesmo, senhor Dedalus? — disse o deão, olhando de esguelha para cima e piscando os seus olhos pálidos. — O objetivo de um artista é criar a beleza. Já o que seja a beleza, é outra questão.
Uma das dificuldades — disse Stephen — na discussão estética é saber se as palavras estão sendo empregadas de acordo com a tradição literária ou de acordo com a tradição do mercado do dia. Lembro-me de uma das sentenças de Newman, na qual diz da Virgem Maria que ela foi detida na total companhia dos santos. O uso da palavra na praça do mercado é inteiramente diferente. Espero não estar detendo o senhor.
Hei de voltar a pensar nessa palavra. Palavra de honra que hei de pensar nela.
Em caso de necessidade, qualquer leigo ou mulher pode fazer isso.
A fórmula que ele escrevia obedientemente sobre a folha de papel, os cálculos dobrados e desdobrados do professor, os símbolos de força e de velocidade, como espectros, fascinavam e inflamavam o espírito de Stephen. Tinha ouvido dizer certa vez que o velho professor era um ateu franco-maçom. Oh. Mas que dia cinzento e opaco. Parecia um limbo de consciência paciente sem sofrimento através do qual as almas dos matemáticos podiam vagabundear, projetando longas fábricas esguias de um plano a outro plano de crepúsculo sempre mais raro e mais pálido, irradiando ágeis rotações para as últimas extremidades de um universo sempre mais vasto, mais afastado e mais impalpável.
Atrasado, como sempre. Não poderá você jamais combinar a tendência progressista com respeito pela pontualidade?
— Essa pergunta não vem ao caso — disse Stephen —; vamos ao que serve.
— O socialismo foi fundado por um irlandês, e o primeiro homem na Europa que pregou a liberdade de pensamento foi Collins. E isso há duzentos anos. Foi ele quem denunciou o clericalismo, o filósofo de Middlesex. Três vivas a John Anthony Collins.
— Com licença, preciso perguntar-lhe uma coisa, acredita você que Jean-Jacques Rousseau era um homem sincero?
Stephen deu uma risada gostosa. Cranly agarrou um pedaço de aduela dum barril que estava na relva, aos seus pés, virou-se logo para Temple e lhe disse sério:
— Escuta aqui, Temple, eu te juro por Deus vivo que se disseres mais uma só palavra, estás ouvindo, a quem quer que seja e sobre seja o que for, eu te mato super spottum.
— Eu já fui como tu — disse Stephen —, um homem emotivo.
— Ele que se dane, que vá para o diabo — disse Cranly categoricamente. — Não lhe dês sequer resposta. Palavra de honra, falares com um flamejante urinol ou falares com Temple é a mesma coisa. Vai para casa, Temple. Pelo amor de Deus, vai para casa.
— Não ligo a mínima a ti, Cranly — respondeu Temple, fugindo de ser alcançado pela aduela erguida e apontando, agora, para Stephen. — Ele, sim, é o único homem que eu vejo nesta instituição que tem um espírito individual.
— Instituição. Individual. — berrou Cranly. — Vai-te embora, dana-te, pois não passas dum excomungado estupor, sem quem te valha.
— Sou, sim, um homem emotivo — disse Temple. — Ele se expressou perfeitamente certo. E tenho orgulho de ser um emocional.
Saiu para um lado do caminho, rindo com astúcia. Cranly provocava-o, ameaçando-o com uma cara lívida e hirta.
— Olha só. — disse. — Onde já se viu andar alguém com a cara pelo muro?
— Tu te recordas ainda da primeira vez que nos vimos? Aquela primeira manhã em que nos encontramos pela primeira vez, tu me pediste para te mostrar o caminho para a matrícula nas classes, pondo um fortíssimo acento na primeira sílaba. Lembras-te? Depois tinhas o hábito de, quando te dirigias aos padres, dizer padre, lembras-te? Perguntei a mim mesmo, reparando em ti: “Será ele tão inocente quanto a sua fala?”
— Eu sou uma pessoa simplória — disse Davin. — Bem sabes disso. Quando me contastes aquela noite, na Harcourt Street, certas coisas sobre a tua vida particular, juro por Deus, Stevie, eu quase não pude comer o meu jantar. Sentia-me mal e muito. Passei acordado muito tempo, aquela noite. Por que me contaste aquelas coisas?
— Obrigado — disse Stephen. — Queres dizer, com isso, que sou um monstro.
— Não — disse Davin. — Mas desejaria que não me tivesses contado.
Qualquer coisa começou a surgir debaixo da superfície calma da amizade de Stephen.
— Foi esta raça, foi este país, foi esta vida que me produziram — disse ele. — Devo expressar-me como sou.
— Experimenta ser um dos nossos — repetiu Davin. — No coração és um irlandês, mas o teu orgulho é poderoso demais.
— Os meus antepassados jogaram fora a sua língua e tomaram uma outra — disse Stephen. — Consentiram que uma porção de estrangeiros os subjugassem. Imaginas então que eu vou pagar com a minha própria vida e pessoa as dívidas que contraíram? Para quê?
— Para a nossa liberdade — disse Davin.
— Homem algum, honrado e sincero — disse Stephen —, desistiu da sua vida, da sua mocidade e das suas afeições, desde os dias de Tone aos de Parnell, mas vós o vendestes ao inimigo, não o acudistes na necessidade, o vilipendiastes e o deixastes por um outro. E agora tu me convidas para ser um de vós. Preferiria, antes, ver-nos no inferno.
— Eles morreram por seus ideais, Stevie — disse Davin. — O nosso dia ainda virá, podeis crer.
Stephen seguindo o seu próprio pensamento, ficou algum tempo calado.
— A alma nasceu primeiro — disse ele vagamente —, naqueles momentos de que te falei. Foi um nascimento vagaroso e sombrio, mais misterioso do que o nascimento do corpo. Quando a alma de um homem nasce neste país, há redes atiradas sobre ela para a arrastarem da luz. Falas-me sobre nacionalidade, língua, religião. Hei de tentar voar através de tais malhas.
Davin sacudiu a cinza do seu cachimbo.
— Isso é profundo demais para mim, Stevie — disse ele. — Mas o país de um homem está em primeiro lugar. Em primeiro lugar, a Irlanda, Stevie. Depois, sim, podeis ser um poeta ou um místico.
Sei que és pobre. Toma — disse ele.
— Vai-te para o diabo com a tua insolência amarela — respondeu-lhe Lynch.
Stephen começou:
— Aristóteles não definiu a piedade e o terror. Eu defini. Escuta…
Lynch parou e disse de supetão:
— Para. Não quero escutar. Estou doente. Passei toda esta última noite fora, numa bebedeira amarela, com Horan e Goggins.
Stephen prosseguiu:
— A piedade é o sentimento que faz parar o espírito na presença de algo que seja grave e constante no sofrimento humano e o une com o sofredor humano. O terror é o sentimento que detém o espírito na presença de seja lá o que for que seja grave e constante no sofrimento humano e o liga à sua causa secreta.
— Repete lá isso — disse Lynch.
Stephen repetiu as definições, pausadamente.
“De fato, a emoção trágica é uma face olhando para dois lados, para o terror e para a piedade, pois que ambos são faces dela. Repara bem que emprego o termo deter, ficar parado. Quero com isso significar que a emoção trágica é estática. Ou, antes, a emoção dramática é que o é. Os sentimentos excitados pela arte imprópria são cinéticos, desejo, ou repulsa. O desejo nos compele a possuir, a ir para alguma coisa; a repulsa nos compele a abandonar, a partir de uma dada coisa. As artes que os excitam, pornográficas ou didáticas, são, por conseguinte, artes impróprias. A emoção estética (sempre emprego o termo geral) é, por conseguinte, estática. O espírito fica detido e suspenso acima do desejo e da repulsa.
— Segundo tu, pois, a arte não deve excitar desejo — disse Lynch. — Pois, olha, uma vez escrevi o meu nome, a lápis, nas costas da Vênus de Praxíteles, no museu. Não foi isso desejo?
— Estou falando de naturezas normais — explicou Stephen.
— Já uma vez me disseste também que, quando eras garoto, naquele inefável colégio dos carmelitas, comias pedaços de bosta de vaca seca.
Lynch não pôde conter-se, desandou outra vez em grunhidos de gargalhadas esfregando, como pouco antes, as mãos nas virilhas, mas sem as tirar dos bolsos das calças.
— Se comi. Comi sim. — exclamava ele.
Stephen voltou-se para o seu companheiro e o encarou bem nos olhos, algum tempo, dominando-o. Lynch, refeito do acesso de gargalhada, respondeu àquele olhar com olhos humilhados. Aquele crânio comprido e achatado debaixo do gorro muito pontudo trouxe ao espírito de Stephen a imagem de um réptil encapuzado. Os olhos, também eles eram como de réptil, tanto no brilho como na expressão. Naquele instante, porém, humilhados e alertas na sua expressão, estavam acesos, com um ponto insignificante mas humano, que era como que a janela de uma alma estilhaçada, acerba e amargurada.
— Quanto a isso — disse Stephen num parêntese polido —, somos todos animais. Eu também sou um animal.
O desejo e a repulsa excitados por meios estéticos impudicos não são realmente emoções estéticas, não só porque são cinéticas em caráter como também porque não são senão físicas. A nossa alma contrai-se ante aquilo que teme e responde ao estímulo daquilo que deseja por uma ação puramente reflexa do sistema nervoso. Nossas pálpebras fecham-se antes que estejamos cônscios de que a mosca está a ponto de entrar no nosso olho.
— Nem sempre — criticou Lynch.
— Da mesma maneira — prosseguiu Stephen —, a tua carne respondeu ao estímulo de uma estátua nua; mas isso foi, escuta, simplesmente uma ação reflexa dos nervos. A beleza expressa pelo artista não pode despertar em nós uma emoção que é cinética, ou uma sensação que é puramente física. Ela desperta ou deve despertar, ou induz, ou deve induzir, um êxtase estético, uma piedade ideal ou um terror ideal, um êxtase que perdura, que se prolonga e que acaba, por fim, dissolvido pelo que eu chamo o ritmo de beleza.
— A bem dizer, que é isso, propriamente? — perguntou Lynch.
— O ritmo — disse Stephen — é a primeira relação formal estética de uma parte com outra parte, em qualquer conjunto ou todo estético, ou de um todo estético para a sua parte ou para as suas partes, ou de uma parte para o todo estético do qual é parte.
— Se isso é que é ritmo, deixa-me ouvir o que chamas beleza; e, por favor, lembra-te, muito embora eu tivesse comido um bolo de estrume de vaca uma vez, só admiro a beleza.
Se tenho que ficar ouvindo a tua filosofia estética, passa-me, pelo menos, um outro cigarro. Não ligo para isso. Não ligo nem mesmo para mulheres. Vai-te para o diabo tu e tudo o mais. O que eu quero é um emprego de quinhentas libras por ano. E não és tu quem me há de dar um.
— Santo Tomás de Aquino — disse Stephen — diz que o belo é a apreensão do que agrada.
— Ele emprega a palavra visa — disse Stephen — para revestir as apreensões estéticas de todas as maneiras, seja através da vista ou do ouvido, seja através de qualquer outra perspectiva de apreensão. Esta palavra, conquanto seja vaga, é clara o suficiente para discernir o que haja de bom e de mau que excite o desejo e a repulsa. Significa certamente uma estase e não uma cinese. E relativamente ao real? Também produz uma estase do espírito. Não escreverias o teu nome a lápis através da hipotenusa de um triângulo retangular.
— Não — disse Lynch. — Dá-me, porém, a hipotenusa da Vênus de Praxíteles.
— Por conseguinte, estático — disse Stephen. — Platão, creio eu, disse que a beleza é o esplendor da verdade. Não acho que isso tenha um sentido, mas a verdade e a beleza são aparentadas. A verdade é contemplada pelo intelecto que é acalmado pelas mais satisfatórias relações do inteligível; a beleza é contemplada pela imaginação que é acalmada pelas mais satisfatórias relações do sensível. O primeiro passo na direção da verdade é compreender o escopo e o encaixe do próprio intelecto, compreender o próprio ato de intelecção. Todo o sistema de filosofia de Aristóteles repousa no seu livro de psicologia e esta, penso eu, no seu princípio de que o mesmo atributo não pode ao mesmo tempo e com a mesma conexão pertencer e não pertencer ao mesmo objeto. O primeiro passo na direção da beleza é compreender o limite e o escopo da imaginação, compreender o próprio ato da apreensão estética. Ficou isso bem claro?
— Mas que é a beleza? — perguntou Lynch, impacientemente. — A definição tem que ser uma outra. Algo que vemos e de que gostamos. É isto o melhor que Aquino e tu podem arranjar?
— Tomemos como exemplo a mulher — disse Stephen.
— Tomemo-la. — disse Lynch, com ardor.
— Os gregos, os turcos, os chineses, os coptas, os hotentotes — disse Stephen —, todos eles admiram um tipo diferente de beleza feminina. Isso parece uma confusão da qual não podemos escapar. Vejo, no entanto, duas saídas. Uma é a seguinte hipótese: que todas as qualidades físicas admiradas pelos homens nas mulheres estão em conexão direta com as múltiplas funções das mulheres para a propagação da espécie. Deve ser assim. O mundo, é evidente, é mais monótono do que tu mesmo, Lynch, imaginas. Por minha parte desagrada-me esta saída. Ela conduz antes à eugenia do que à estética. Conduz-te, através da confusão, para dentro de uma nova e aparatosa sala de leitura onde MacCann, com uma das mãos sobre A origem das espécies e a outra sobre o Novo Testamento, te dirá que tu admiraste os grandes flancos da Vênus porque sentes que ela deve dar à luz uma geração, e lhe admiravas os seus grandes seios porque sentes que ela deve dar bom leite a seus filhos e aos teus.
— Então MacCann é um mentiroso amarelo sulfuretado — disse Lynch, com energia.
— Esta hipótese — repetiu Sthephen — é a outra saída: que, embora o mesmo objeto possa não ser bonito para toda a gente, toda gente pode admirar um objeto bonito, encontrar nele certas relações que satisfaçam e coincidam com os estágios próprios mesmos de toda apreensão estética. Tais relações do sensível, visíveis para mim através de uma forma e para ti através de outras, devem ser, por conseguinte, as necessárias qualidades da beleza. Já agora podemos voltar ao nosso velho amigo Santo Tomás para outros dez vinténs de sabedoria.
Lynch riu.
— Agrada-me sobremodo — disse ele — ouvir-te fazer citações de tempos em tempos, como um jovial frade rotundo. Por que tapas teu riso com a manga?
— MacAlister — respondeu Stephen — chamaria à minha teoria estética uma aplicação de Santo Tomás. Até onde este lado de filosofia abrange, Santo Tomás me levaria de trambolhão. Quando chegamos aos fenômenos de concepção artística, de gestação artística e de reprodução artística, eu exijo uma nova terminologia e uma nova experiência pessoal.
— Naturalmente — disse Lynch. — Afinal de contas Aquino, a despeito do seu intelecto, foi exatamente um jovial frade rotundo. Mas, quanto à nova experiência pessoal e à nova terminologia, me falarás um outro dia. Apressa-te e acaba a primeira parte.
— Quem sabe? — disse Stephen, sorrindo. — Talvez Aquino me entendesse melhor do que tu. Ele era um poeta, além do mais. Escreveu um hino para a quinta-feira santa. O hino começa com as palavras Pange lingua gloriosi. Há quem diga que é a glória mais alta do hinário. É um hino complicado e acariciador. Gosto dele; mas não há hino algum que possa ser posto ao lado desta canção majestosa, melancólica e processional, o Vexilla Regis, de Venantius Fortunatus.
Falaram-me que estás escrevendo um ensaio sobre estética.
Stephen fez um gesto vago de negativa.
— Goethe e Lessing — disse Donovan — escreveram bastante sobre esse assunto, a escola clássica, a escola romântica e tudo o mais. O Laocoonte interessou-me muito quando o li. É claro que é idealista, alemão, ultraprofundo.
Nenhum dos outros dois disse nada. Donovan despediu-se deles com a maior urbanidade.
Três coisas são necessárias para a beleza: inteireza, harmonia e radiação. Correspondem essas três às fases da apreensão? Estás me seguindo?
— Naturalmente que estou — disse Lynch. — Se achas que eu tenho uma inteligência excrementícia, corre atrás de Donovan e pede-lhe para te ficar escutando.
— Para ver aquele cesto — prosseguiu Stephen —, o teu espírito, antes de mais nada, separa o cesto do resto do universo visível que não é o cesto. A primeira fase de apreensão é uma linha limitando, contornando o objeto a ser apreendido. Uma imagem estética se nos apresenta seja no espaço ou no tempo. O que é audível apresenta-se no tempo, o que é visível apresenta-se no espaço. Mas, tanto temporal como espacial, a imagem estética é em primeiro lugar luminosamente apreendida como autolimitada e autocontida sobre o incomensurável segundo plano do espaço ou do tempo, que não o são. Tu a apreendes como uma coisa. Tu a enxergas como um todo. Apreendes o seu todo. Eis o que é integritas.
— Bem no centro do alvo. Adiante. — disse Lynch.
— Então, depois, tu passas de um a outro ponto, conduzido por suas linhas formais; apreendes cada ponto como parte em função de outra parte dentro dos seus limites; sentes o ritmo de sua estrutura. Em outras palavras, a síntese da percepção imediata é seguida pela análise de apreensão. Tendo, primeiramente, sentido que é uma coisa, sentes, agora, que é uma coisa. Tu a apreendes como complexa, múltipla, divisível, separável, inteirada pelas suas partes, o resultado de suas partes e a sua soma harmoniosa. Eis o que é consonantia.
— Acertaste outra vez no centro do alvo. — disse Lynch, por brincadeira. — E agora dize-me lá o que é claritas e ganharás um charuto.
— A conotação desta palavra é um tanto vaga — disse Stephen. — Santo Tomás de Aquino emprega um termo que parece ser inexato, que me iludiu durante muito tempo. Tal termo te levaria a crer que ele tinha em mente simbolismo ou idealismo, a suprema qualidade da beleza sendo uma luz como que de um outro mundo, a ideia de que a matéria não era senão a sombra, a sua realidade não sendo senão o símbolo. Penso que ele cuidaria que claritas fosse a descoberta e a representação artística da intenção divina em alguma coisa, ou a força de generalização que faria da imagem estética uma imagem universal, que a faria irradiar as suas próprias condições. Mas isso não passa de linguagem literária. Pelo menos assim a tomo eu. Quando apreendeste aquela cesta como uma coisa e a analisaste, depois, de acordo com a sua forma e a apreendeste como coisa, fizeste a única síntese que lógica e esteticamente é permissível. Viste que é a coisa que de fato é, e não uma outra coisa. A radiação de que ele fala na escolástica quidditas, o quê de uma coisa. Tal qualidade suprema é sentida pelo artista quando primeiro a imagem estética é concebida em sua imaginação. O espírito, nesse misterioso instante, Shelley comparou-o lindamente a um carvão se apagando. O instante em que essa suprema qualidade de beleza, a radiação clara da imagem estética, é apreendida luminosamente pelo espírito que foi surpreendido por sua inteireza e fascinado por sua harmonia é o luminoso êxtase silencioso de prazer estético, um estado espiritual muito similar à condição cardíaca que o fisiologista italiano Luigi Galvani, servindo-se de uma frase quase tão bonita quanto a de Shelley, chamou de encantamento do coração.
— O que eu disse — comentou ele, de novo — se refere à beleza no mais lato sentido da palavra, no sentido que tal palavra possui na tradição literária. No mercado da bolsa, se bem me exprimo, ela tem outro sentido. Quando falamos em beleza, no segundo sentido do termo, o nosso julgamento é influenciado em primeiro lugar pela própria arte, bem como pela forma dessa arte. A imagem, é claro, deve ser posta entre o espírito ou os sentidos do artista pessoalmente e o espírito e os sentidos dos demais. Se fixares bem isso na tua memória, verás que a arte, necessariamente, se divide em três formas ligadas progressivamente uma à outra. Tais formas são: a forma lírica, isto é, a forma na qual o artista manifesta a sua imagem em imediata relação com ele próprio; a forma épica, isto é, a forma na qual ele manifesta a sua imagem em imediata relação consigo mesmo e com os outros; e a forma dramática, isto é, a forma na qual ele manifesta a sua imagem em imediata relação com os outros.
— Já me disseste isto uns dias atrás — disse Lynch —, e até começamos a famosa discussão.
— Tenho um livro em casa — disse Stephen — no qual anotei embaixo perguntas bem mais interessantes do que as que me vens fazendo. No achar as respostas para todas elas encontrei a teoria de estética que estou tentando explicar. Eis aqui algumas das perguntas que fiz a mim próprio: “É uma cadeira bem-feita trágica ou cômica? O retrato de Mona Lisa é bom, se o desejo ver? O busto de Sir Philip Crampton é lírico, épico ou dramático? Se não é, por que não o é?”
— Por que não, de fato? — perguntou Lynch, dando uma risada.
— “Se um homem, trabalhando com fúria um bloco de madeira” — continuou Stephen —, “faz aí a imagem de uma vaca, essa imagem é uma obra de arte? Se não, por que não?”
Lessing — disse Stephen — não devia ter tomado um grupo de estátuas para sobre elas escrever. A arte, sendo inferior, não apresenta as formas, de que falei, distintamente claras umas das outras. Mesmo em literatura, a arte mais alta e mais espiritual, as formas são muitas vezes confusas. A forma lírica é, de fato, a veste verbal mais simples dum instante de emoção, uma exclamação rítmica, dessas que, há muitos anos, são gratas ao homem que empunhava um remo ou que rolava pedras numa ladeira. Aquele que a profere está mais cônscio do instante de emoção do que de si mesmo ao sentir a emoção. A forma épica mais simples é vista emergindo da literatura lírica quando o artista prolonga e se põe a se examinar como centro dum fato épico e essa forma progride até que o centro de gravidade emocional fique equidistante do artista propriamente e dos outros. A narrativa tão pouco é meramente pessoal. A personalidade do artista passa para a própria narração, enchendo, enchendo de fora para dentro as pessoas e a ação como um mar vital. Tal progressão vê-la-ás facilmente nessa antiga balada inglesa, Turpin Hero, que começa na primeira pessoa e acaba na terceira. A forma dramática é atingida quando a vitalidade que encheu e turbilhonou em volta de cada pessoa enche todas as pessoas com uma força vital tal que ele ou ela acaba assumindo uma vida estética própria e intangível. A personalidade do artista, no começo um grito, ou uma cadência, ou uma maneira, e depois um fluido e uma radiante narrativa, acaba finalmente se clarificando fora da existência, despersonalizando-se, por assim dizer. A imagem estética, na forma dramática, é a vida purificada nela e tornando a se projetar para fora da imaginação humana. O mistério da criação estética, assim como o da criação material, então se realiza. O artista, como o Deus da criação, permanece dentro, junto, atrás ou acima da sua obra, invisível, clarificado fora da existência, indiferente, raspando as unhas dos seus dedos.
— Qual é o teu intento em tagarelar a propósito da beleza e da imaginação nesta miserável ilha esquecida de Deus? Não admira que o artista se retirasse para dentro ou para trás de sua obra depois de haver perpetrado esta terra.
Ouvia os estudantes conversarem entre si. Falavam a respeito de dois amigos que tinham concluído os exames finais de medicina, de suas probabilidades de arranjarem lugares em transatlânticos, de obterem clínica fosse de ricos ou de pobres.
— Isso tudo é bobagem. Uma clínica no interior irlandês seria muito melhor.
— Pois Hynes esteve dois anos em Liverpool e diz o mesmo. Diz ele que aquilo para ele foi um terrível buraco. Só arranjava um ou outro caso de parto.
— Quer dizer que achas preferível obter um emprego aqui no campo do que numa cidade rica como aquela? Pois eu conheço um antigo colega que…
— Hynes não tem a cabeça no lugar. Pensa só em servir a bordo, não pensa em outra coisa.
— Deixa-o. Há muito, mas muito dinheiro a ganhar numa grande cidade comercial.
— Depende da prática.
Temendo perder tudo, de súbito se ergueu apoiado num cotovelo em busca de papel e lápis. Não achou nem um nem outro sobre a mesa; apenas o prato da sopa que ele tinha tomado, o arroz da ceia e o castiçal com o seu coto de vela e o seu calço de papel chamuscado pela última chama. Estendeu o braço molemente para os pés do leito, vasculhando com a mão os bolsos do casaco que estava pendurado lá. Os seus dedos deram com um lápis e depois com um maço de cigarros. Estirou-se outra vez e, rasgando o maço já aberto, colocou o último cigarro na beirada da janela e se pôs a escrever as estâncias do vilancete com uma letrinha caprichada sobre a superfície do cartão do maço todo aberto.
Depois que escreveu, continuou estirado sobre o travesseiro cheio de calombos, repetindo as cadências. Os nós encaroçados de lã, debaixo da sua cabeça, faziam-no recordar os caroços de pelo de cavalo do sofá da sala de visitas dela onde ele costumava se sentar, ora risonho, ora sério, a perguntar a si mesmo por que tinha vindo, implicando com ela e consigo mesmo, todo confuso ante o quadro do Sagrado Coração em cima do aparador sem mais nada. Viu-a aproximar-se dele num lance da conversa, e lhe pedir para cantar uma de suas curiosas canções. Depois se viu a si mesmo sentado diante do velho piano, ferindo as cordas mansamente com a pressão sobre o teclado e cantando, por entre a conversa que se estabelecera na sala outra vez, mas cantando para ela que estava apoiada contra a cômoda, uma canção delicada dos elizabetanos, um triste e doce convite à partida, e canto vitorioso de Agincourt, a ária feliz dos Greensleeves. Enquanto cantava e ela escutava ou fingia escutar, o seu coração estava tranquilo; mas depois que as velhas canções tinham acabado, e ouvia, de novo, as vozes na sala, então ele se punha a recordar o seu próprio sarcasmo: a casa onde os rapazes são chamados por seus nomes de batismo, um pouco cedo demais.
Em dados momentos os olhos dela pareciam ter confiança nele, mas ele tinha esperado em vão. E agora passava dançando através da sua memória como se essa noite tivesse estado num baile de carnaval, e seu vestido branco um pouco erguido, um revérbero branco fulgindo em seus cabelos. Ela dançava de leve, em volta. E vinha dançando até ele e, ao se aproximar, os seus olhos se tinham desviado um pouco, e um leve fulgor brilhava na sua face. Durante o intervalo, ao fazerem todos cadeias com as mãos, a sua mão descansou um instante na dele, tal qual um suave objeto.
as letras líquidas do poema, símbolos do elemento do mistério, manariam por sobre o seu cérebro.
Uma alegria líquida e macia, como o ruído de muitas águas, derramava-se por sobre a sua memória; sentia no coração a doce paz dos espaços silenciosos, tenuamente esmaecidos por sobre as águas. A doce paz do silêncio oceânico; a doce paz das andorinhas voando através do mar escuro, por cima das águas oscilantes.
Uma alegria líquida e macia derramava-se por sobre as palavras onde as vogais maleáveis, roçando sem ruído, se desmanchavam, enrolando-se e desfazendo-se, a sacudirem sempre suas brancas campainhas de ondas em mudas baladas, em mudos dobres e em exclamações suaves como desmaios; e sentia que o augúrio que havia discernido naquelas aves, vagando como flechas, e naquele céu de espaços claros acima dele, tinha vindo do seu coração como um pássaro que vem dum torreão, mansa e velozmente.
Símbolo de partida ou de isolamento? Os versos vinham como melopeia ao ouvido da sua memória; compunham vagarosamente, diante dos seus olhos evocadores, a cena do vestíbulo na noite de inauguração do teatro nacional. Ele estava sozinho, ao lado da varanda, olhando com uns olhos mortos para a cultura de Dublin nos balcões, para os espalhafatosos cenários e para os bonecos humanos emoldurados pelas lâmpadas ofuscantes do palco. Um burlesco policial suava atrás dele, prestes a entrar em cena. As vaias, a pateada e os gritos de apupos passavam como rudes rajadas pela portaria, vindo dos colegas estudantes.
Mais triste ainda, para os ouvidos de Stephen, era a sua fala: um sotaque cortês, baixo, azedo, borrado de erros; e, ouvindo-a, ficava sem saber se seria verídica a história que contavam, se seria mesmo nobre e proveniente de um incesto aquele sangue ralo que corria na sua encarquilhada estrutura.
a reprodução é o começo da morte.
Confesso que eu sou um escroto — disse, sacudindo a cabeça com desespero. — Sou e sei que sou. E admito que sou.
Dixon deu-lhe uma palmada no ombro e disse com meiguice:
— E isso te será levado a crédito, Temple.
— Mas este aqui — disse Temple, apontando para Cranly — também é um escroto, como eu. Só que ele não sabe. Essa é a única diferença. Apenas essa, digo-lhes eu.
Uma explosão de gargalhadas cobriu-lhe as palavras. Tornando, porém, a virar-se para Stephen, disse com inesperado ardor:
— Esta palavra é uma palavra interessantíssima. É a única, em certo vernáculo, cujo número é duplo. Não sabias?
Sim. Não era a treva que caía do ar. Era a claridade.
A claridade vem caindo do ar.
Não se tinha, pois, antes, recordado direito da linha de Nash. Todas as imagens que tinha despertado tinham sido, pois, falsas. O seu espírito gerava vérmina. Os seus pensamentos eram piolhos nascidos do suor da preguiça.
Devagar com isso, meu caro senhor. Tu és, sabes o quê? Um estuporado dum homem excitável.
Fez um riso nervoso ao falar e, olhando para o rosto de Stephen, com olhos de bem-querer e de vivacidade, disse:
— Sabes que és um homem excitável?
— Concordo que sou — disse Stephen, também com um sorriso.
Seus espíritos, ultimamente distanciados, pareciam, de repente, agora, terem-se atraído mais intimamente um ao outro.
— Acreditas, ou não acreditas na eucaristia? — perguntou Cranly.
— Não — respondeu Stephen.
— Tu então não acreditas.?
— Nem acredito, nem deixo de acreditar — respondeu Stephen.
— Muitas pessoas há que têm dúvidas; e até mesmo pessoas religiosas, por mais que se dominem e afastem tais dúvidas — observou Cranly. — As tuas dúvidas sobre este ponto são, deveras, fortes?
— As minhas dúvidas, não as quero dominar — disse Stephen.
Cranly ficou embaraçado durante um momento, tirou outro figo do bolso, e ia comê-lo quando Stephen disse:
— Não comas. Como hás tu de discutir essa questão com a boca cheia de figo mastigado?
Cranly examinou o figo à luz da lâmpada sob a qual estava agora parado. Depois o cheirou com ambas as narinas, deu uma pequenina dentada nele, cuspiu o pedaço e atirou estabanadamente o figo na sarjeta. E se dirigindo ao figo, lá onde o figo jazia, disse:
— Pra longe de mim, tu, ó maldito. Vai para o fogo eterno.
E segurando Stephen pelos braços continuou a andar, dizendo:
— E não tens medo de que essas palavras te possam ser ditas no dia do julgamento?
— E que me é oferecido, na outra mão? — perguntou Stephen. — Toda uma eternidade de felicidade na companhia do deão dos estudos?
— Lembra-te de que ele será glorificado — disse Cranly.
— Ahn. — disse Stephen em certa maneira amargamente, com uma expressão larga, desenvolta, impassível e, acima de tudo, sutil.
— É uma coisa extraordinária, curiosa, digo-te eu — observou Cranly sem a menor paixão —, como o teu espírito está supersaturado com essa religião em que dizes não acreditar. Acreditavas nela, quando estavas no colégio? Aposto que acreditavas.
— Acreditava sim — respondeu Stephen.
— E não eras mais feliz, naquele tempo? — perguntou Cranly, com suavidade. — Bem mais feliz do que és agora, por exemplo?
— Muitas vezes era feliz; muitas outras vezes, infeliz. Mas, naquele tempo, eu era bem outro — explicou Stephen.
— Outra pessoa, como? Que queres dizer com essa declaração?
— Quero dizer que eu não era como sou hoje, como o que vim a ser — disse Stephen.
— Não eras o que és hoje, o que vieste a ser — repetiu Cranly. — Posso te fazer uma pergunta? Amas tua mãe?
Stephen sacudiu a cabeça vagarosamente.
— Não compreendo o sentido das tuas palavras — disse com simplicidade.
— Nunca amaste ninguém? — perguntou Cranly.
— Referes-te a mulheres?
— Não é disso que estou falando — disse Cranly num tom mais frio. — Estou perguntando se nunca sentiste amor por alguém ou por qualquer coisa.
Stephen ia caminhando, ao lado do amigo, com os olhos sinistramente fixos na calçada.
— Experimentei amar a Deus — disse, por fim. — Parece-me, agora, que não consegui. É muito difícil. Tentei ligar a minha vontade com a vontade de Deus, instante após instante. E isso, lá uma vez por outra, consegui. Ainda agora, talvez o consiga…
Cranly interrompeu-o com uma pergunta:
— Tua mãe teve uma vida feliz?
— Como hei de eu saber? — disse Stephen.
— Teve muitos filhos?
— Nove ou dez — respondeu Stephen. — Alguns morreram.
— Teu pai era… — Cranly se interrompeu, por alguns instantes e, depois, disse: — Não quero fazer pesquisas nos negócios da tua família. Mas era teu pai o que se chama uma pessoa em boa situação? Refiro-me a quando vocês já eram crescidos.
— Era — asseverou Stephen.
— Que é que ele era? — indagou Cranly, após uma pausa.
Stephen começou a enumerar fluentemente os atributos paternos.
— Foi estudante de medicina, remador, tenor, amador teatral, político exaltado, pequeno fundiário, pequeno investidor, bebedor, um bom sujeito, contador de rodelas, secretário não sei de quem, meteu-se uns tempos em destilarias, foi coletor de impostos, faliu, e atualmente vive a elogiar o seu próprio passado.
— Isso de destilaria rende como o diabo.
— Estás satisfeito, ou queres saber mais alguma coisa? — perguntou Stephen.
— E como está a tua gente, atualmente? Em boas condições?
— Eu dou a impressão disso? — perguntou desabridamente Stephen.
— Assim, pois — prosseguiu Cranly, gracejando —, nasceste no regaço do luxo.
Empregou tal frase com certa negligência, segundo fazia muitas vezes ao usar expressões técnicas, como se desejasse que o ouvinte compreendesse que ele as usava sem convicção.
— Tua mãe deve ter passado por uma porção de desgostos — disse, a seguir. — Não terias tu tentado poupá-la de sofrer mais, caso… ou não te incomodaste?
— Caso pudesse — disse Stephen —, isso me custaria bem pouco.
— Faze então lá isso — aconselhou Cranly. — Faze o que ela tanto quer que tu faças. Que é que te custa? Não acreditas, mas é sempre uma forma, nada mais do que uma forma de pores o espírito dela em sossego.
Calou-se e, como Stephen não desse resposta, prolongou esse seu silêncio. Depois do que, como a dar expressão ao próprio raciocínio, acrescentou:
— Muita e muita coisa, ou melhor, tudo é incerto neste mundo que não passa dum monte fedido de estrume, menos o amor de uma mãe. Tua mãe foi quem te pôs no mundo, trazendo-te, primeiro, no seu corpo. Que sabemos nós a respeito do que ela sente? Mas, seja lá o que for o que ela sinta, isso, no mínimo, deve ser real. Deve ser. Quais são as tuas ideias ou ambições? Sejamos francos. Ideias. Ora. Pois se até esse sanguinário bode a balir que é Temple tem ideias. Se ideias tem MacCann, também ele. Qualquer jumento que vai pelas estradas acha que tem ideias.
Stephen, que estava prestando atenção à conversa inaudita que havia atrás daquelas palavras, disse com arrogante desenvoltura:
— Pascal, se é que me lembro direito, não podia admitir que sua mãe o beijasse, como se temesse o contato do sexo dela.
— Pascal era um leitão — disse Cranly.
— Luís Gonzaga, creio eu, era assim também — disse Stephen.
— Também esse foi um leitão — disse Cranly.
— Um santo. É como a igreja o qualifica — objetou Stephen.
— Estou me lixando completamente com o que e como o qualificam — disse Cranly grosseiramente, de um modo categórico. — Eu cá o qualifico de leitão.
Stephen, preparando as palavras bem direito no seu espírito, continuou:
— Jesus, também, parece haver tratado sua mãe em público com escassa delicadeza, mas Juarez, teólogo jesuíta e fidalgo espanhol, desculpou-o por isso.
— Já alguma vez te ocorreu a ideia — perguntou Cranly — de que Jesus não fosse o que pretendia ser?
— A primeira pessoa a quem essa ideia ocorreu — respondeu Stephen — foi o próprio Jesus.
— Quero dizer — explicou Cranly, solidificando a sua conversa —, já te teria ocorrido a ideia de que ele próprio não passasse de um consciente hipócrita, que fosse ele próprio aquilo que chamava aos judeus do seu tempo: sepulcros caiados? Ou, para tornar isso mais categórico, que ele fosse um farsante?
— Tal ideia jamais me ocorreu — retrucou Stephen. — Mas estou curioso em saber o que é que estás tentando fazer: se um convertido, de mim, ou se um pervertido, de ti.
Voltou-se para a cara do amigo e viu que nela havia um sorriso cru, sorriso esse que alguma força tentava tornar finalmente significativo.
Cranly perguntou de repente, com um tom sensível de espontaneidade:
— Dize-me a verdade. Não ficaste completamente desconcertado com o que eu estive dizendo?
— Um tanto — confirmou Stephen.
— Mas desconcertado por quê — insistiu Cranly, com o mesmo tom —, se estás certo de que a nossa religião é falsa e que Jesus não é filho de Deus?
— Eu não estou absolutamente certo disso — disse Stephen. — É mais provável que ele seja um filho de Deus do que um filho de Maria.
— E é por isso que não queres comungar? — perguntou Cranly. — Por não estares bastante certo disso, por que achas que a hóstia, também, possa ser o corpo e o sangue do filho de Deus e não uma partícula de pão? E porque temes, justamente, que isso possa ser?
— É por isso sim — confirmou Stephen moderadamente. — Sinto isso. E também receio isso.
— Percebo — disse Cranly.
Stephen, impressionado com o seu tom de reserva, reabriu imediatamente a questão, declarando:
— Tenho medo duma porção de coisas: de cachorros, de cavalos, de armas de fogo, do mar, de trovoadas, de maquinismos, de estradas, à noite, no campo.
— Mas por que tens medo dum pedaço de pão?
— Imagino — disse Stephen — que haja uma realidade malévola por detrás dessas coisas de que te estou dizendo que tenho medo.
— Tens, então, medo — perguntou Cranly — que o Deus dos católicos romanos te fira de morte e te condene caso faças uma comunhão sacrílega?
— O Deus dos católicos romanos pode fazer isso mesmo agora — disse Stephen. — Tenho medo, mais do que disso, da ação química que se produziria em minha alma com a falsa homenagem a um símbolo detrás do qual estão amontoados vinte séculos de autoridade e de veneração.
— Serias capaz — perguntou Cranly — de, em perigo extremo, cometer esse sacrilégio particular? Por exemplo, se vivesses nos tempos de punição?
— Pelo passado não posso eu responder — retrucou Stephen. — Provavelmente, não seria capaz.
— Então — indagou Cranly — não tens a intenção de te tornares um protestante?
— O que eu disse foi que havia perdido a fé e não que havia perdido o respeito por mim mesmo — respondeu Stephen. — Que raio de espécie de libertação seria essa, abandonar um absurdo que é lógico e coerente, para abraçar um outro que é ilógico e incoerente?
— Consideras isso poesia? Ou percebes apenas o que as palavras significam?
De fato. A sua face era bela; e o seu corpo era forte, sólido. Ele tinha falado sobre o amor de uma mãe. Ele, pois, sentia os sofrimentos das mulheres, a fraqueza de seus corpos e de suas almas; e as protegeria com um braço forte e resoluto, inclinando o seu espírito para elas.
Para fora, pois; era tempo de ir. Uma voz falou suavemente ao coração solitário de Stephen, instigando-o a ir e lhe dizendo que a sua amizade ia seguindo para um fim. De fato; devia ir-se. Não podia competir com outro. Conhecia a sua parte.
— Provavelmente irei embora — disse.
— Para onde? — perguntou Cranly.
— Para onde puder — disse Stephen.
— Ah. Sim — observou Cranly. — Ser-te-ia difícil viver aqui, agora. Mas é isso que te obriga a ir?
— Tenho que ir — respondeu Stephen.
— Pois não precisas de exílio — continuou Cranly. — Não te há de ser difícil manobrar a tua vida, caso não queiras te ir como um herege ou como um proscrito. Há muitos bons crentes que pensam como tu. Surpreender-te-ias com isso? A igreja não é essa construção de pedra nem é tampouco o seu clero nem os seus dogmas. Ela é toda a massa dos que nascem dentro dela. Não sei o que queres fazer na vida. Será o que me disseste aquela noite quando estávamos do lado de fora da estação de Harcourt Street?
— É — disse Stephen, sorrindo, a despeito de si mesmo, ante o modo de Cranly se recordar das coisas; os seus pensamentos sempre em conexão com os lugares. — Aquela noite em que perdeste hora e meia altercando com Doherty a respeito do caminho mais curto de Sallygap a Larras.
— Aquele cabeça de panela. — disse Cranly com um calmo desprezo. — Que sabe ele quanto ao caminho de Sallygap até Larras? Pois se ele não sabe nada, por que se meteu nesse assunto? E que grande cabeça de jarro transbordando que aquele estupor é.
E soltou uma comprida gargalhada, bem alto.
— Bem? — disse Stephen. — E te recordas do resto?
— Referes-te ao que disseste, então? — perguntou Cranly. — Olá se me lembro. Descobrir o modo de vida ou de arte lá onde o teu espírito pudesse exprimir-se com liberdade, sem grilhões.
Stephen tirou o chapéu, num alívio de reconhecimento.
— Liberdade. — repetiu Cranly. — No entanto ainda não és livre bastante para cometeres um sacrilégio. Dize-me uma coisa: serias capaz de roubar?
— Antes tentaria pedir esmola — respondeu Stephen.
— E caso não arranjasses nada, roubarias?
— Estás mas é me querendo dizer — respondeu Stephen — que os direitos de propriedade são provisórios e que, em certas circunstâncias, não é ilícito roubar. Qualquer um se apoiaria nessa crença. Portanto, não te respondo a isso. Dirige-te ao teólogo jesuíta Juan Mariana de Talavera, que também explicará para ti em que circunstâncias podes licitamente matar o teu rei e, caso aches melhor, estender-lhe o seu veneno num pedaço de carne, ou esfregá-lo, com idêntico fim, sobre a sua roupa ou sobre o arco da sua sela. Seria preferível me perguntares se eu consentiria que os outros me roubassem ou, se tal me fizessem, se eu chamaria sobre eles o que, creio eu, se chama a punição do braço secular.
— Fá-lo-ias?
— Acho — confessou Stephen — que fazer isso me amofinaria tanto quanto ser roubado.
— Percebo — disse Cranly.
E, preparando o fósforo, começou a limpar os vãos dos dentes. E disse, descuidadamente, em seguida:
— Dize-me, por exemplo, serias capaz de deflorar uma virgem?
— Permites-me uma observação? — disse Stephen, com muita polidez. — Não é essa a ambição de muitos jovens?
— Qual é, então, o teu ponto de vista? — perguntou Cranly.
A sua última frase, nauseante, cheirando exacerbadamente como fumaça de carvão vegetal, excitou o cérebro de Stephen, sobre o qual seus vapores começaram a se aglomerar.
— Olha aqui, Cranly — disse ele. — Tu me perguntaste o que eu faria e o que eu não faria. Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza.
Cranly tomou-lhe o braço e o aproou para darem a volta rumo a Lesson Park. Ria quase dissimuladamente, e apertava o braço de Stephen com a afeição de um irmão mais velho.
— Sutileza. Deveras? — disse ele. — Mas és tu mesmo? Ah. Tu, meu pobre poeta.
— E me obrigaste a me confessar a ti — disse Stephen, emocionado por esse aperto —, como já te confessei tantas outras coisas, não foi mesmo?
— Isso mesmo, minha criança — disse Cranly, ainda alegremente.
— Fizeste que eu confessasse os pavores que tenho. Mas vou te dizer também o que não me apavora. Não tenho medo de estar sozinho, de ser desdenhado por quem quer que seja, nem de deixar seja lá o que for que eu tenha que deixar. E não tenho medo, tampouco, de cometer um erro, um erro que dure toda a vida e talvez tanto quanto a própria eternidade.
Cranly, grave desta vez, como ainda havia pouco, diminuiu o passo e disse:
— Sozinho. Completamente sozinho. Não receias nem sequer isso. E sabes o que tal palavra significa? Não apenas estar separado de todos os outros, mas não ter nem mesmo um amigo.
— Tomarei esse risco — disse Stephen.
— E não ter uma pessoa sequer — disse Cranly — que possa ser mais do que um amigo, mais mesmo do que o mais nobre e mais sincero amigo que um homem jamais tivesse.
Tais palavras pareceram haver ferido alguma corda profunda no âmago da sua própria natureza. Teria ele falado de si próprio, de si mesmo tal como era, ou como desejava ser? Imerso em silêncio, Stephen examinou o rosto dele durante alguns momentos. Havia por sobre aquele rosto uma tristeza fria. Sim, tinha falado de si mesmo, da sua própria solidão que, no entanto, o apavorava.
— De quem estás tu falando, amigo? — perguntou-lhe por fim, Stephen.
Mas Cranly não respondeu.
Comecei uma discussão com minha mãe. Causa: B. V. M. Tolhido por meu sexo e mocidade. Para escapar reatei relações entre Jesus e o Papa, contra as existentes entre Maria e seu filho. Disse que a religião não era um hospital de depósito. Mamãe indulgente. Disse que tenho um espírito extravagante e que li demais. Não é verdade. Tenho lido pouco e compreendido ainda menos. Ela então disse que eu devia mas era voltar à crença, visto como o meu espírito não tinha paz. Isso significaria haver abandonado a igreja pela porta dos fundos do pecado e reentrar através da luz celestial do arrependimento. Não posso arrepender-me. Disse-lhe isso e lhe pedi seis pence. Só arranjei três.
Depois fui ao colégio. Outra disputa com outro cabecinha de olhos espertalhões, Ghezzi. Desta vez a propósito de Bruno, o Nolan. Começou em italiano e terminou em jargão inglês. Disse que Bruno foi um terrível herege. Respondi que fora horrorosamente queimado. Concordou com isso, com certa mágoa. Depois me deu uma receita para o que chama de risotto alla bergamasca. Quando ele pronuncia o o breve estica e arredonda os lábios muito carnudos como se beijasse a vogal. Possível? Poderia ele arrepender-se? Sim, pôde, e chora duas lágrimas grossas, uma de cada olho.
Ao atravessar diante do jardim de Stephen, isto é, o meu, me lembrei que os seus concidadãos e não os meus tinham inventado o que Cranly, na outra noite, chamou a nossa religião. Um quarteto deles, soldados do 97º regimento de infantaria, estava sentado ao pé da cruz e sacudia os dedos, para ganhar a túnica do crucificado.
Entrei na biblioteca. Tentei ler três revistas. Para quê? Ela ainda não saiu. Estarei eu alarmado? Por causa de quê? Que ela não torne a sair nunca mais.
Blake escreveu:
Pergunto se William Bond morrerá,
Pois, decididamente, está bem mal.
Ai de mim, pobre William.
O que eu quero é apertar em meus braços a beleza que ainda não veio ao mundo.
15 de abril. Encontrei-a hoje, sem rodeios, na Grafton Street. A multidão foi que nos ajuntou. Paramos ambos. Perguntou-me por que eu não aparecia mais, disse que ouvira uma porção de histórias a meu respeito. Só para ganhar tempo. Perguntou se eu estava escrevendo poemas. “Sobre quem?”, perguntei-lhe eu. Isso ainda a pôs mais confusa e fez-me sentir triste e malvado. Virei logo essa válvula de vez e abri o aparelho espiritual-heroico aparelho refrigerador, inventado e patenteado em todos os países por Dante Alighieri. Falei rapidamente de mim e dos meus planos. Em meio a isso desafortunadamente fiz um gesto inesperado de uma natureza revolucionária. Devo ter ficado com cara dum sujeito atirando mãos cheias de ervilhas para o ar. Gente começou a olhar para nós. Apertou-me a mão um momento depois e, ao ir embora, disse que desejava que eu fizesse o que havia dito.
Agora chamo a isso amigável, pois não é?
Sim, gostei dela, hoje. Um pouco, ou muito? Sei lá. Gostei dela e isso parece um sentimento novo, para mim. Portanto, neste caso, todo o resto, tudo que eu pensava eu pensei, tudo que eu sentia senti, todo o resto antes de agora, de fato… Oh. Desiste disso, rapaz. Adormece isso.
16 de abril. Ir-me. Ir-me.
O feitiço de braços e de vozes; os brancos braços das estradas; as suas promessas de íntimos abraços. E os negros braços dos navios imensos erguendo de encontro à lua sua narrativa de distantes nações. Estão erguidos para dizerem: “Estamos sós. Vem.” E as vozes dizem com eles: “Somos teus parentes.” E o ar é denso com a companhia deles a me chamarem seu parente, prontos já para se irem, sacudindo as velas da sua exultante e terrível mocidade.
26 de abril. Mamãe está colocando minhas roupas novas (de segunda mão) em ordem. E está rogando agora, diz ela, para que eu possa aprender na minha própria vida, e longe do lar e dos amigos, o que o coração é e o que ele sente. Amém. Assim seja. Sê bem-vinda, ó vida. Eu vou ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça.
27 de abril. Velho pai, velho artífice, mantém-me, agora e sempre, em boa forma.