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Philosophy in the Bedroom ou The Immoral Preceptors

Philosophy in the Bedroom ou The Immoral Preceptors

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A filosofia na alcova, ou, Os preceptores imorais - Marquês de Sade (Highlight: 175; Note: 0.

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PRIMEIRO DIÁLOGO

Sr. Dolmancé

Aos vinte e seis anos já deveria ser devota, mas não passo da mais devassa das mulheres… Não se faz ideia do que posso conceber e de tudo o que seria capaz. Imaginava que me apegando às mulheres, eu teria juízo; que meus desejos, concentrados em meu sexo, não se expandiriam para o vosso.

gosto de tudo, tudo me diverte; quero reunir todos os gêneros

ser a vítima de seus erros

pago para me tratar dessa forma

Hoje, não é mais complacência ou capricho que me determinam, mas unicamente o gosto… Vejo uma inconcebível diferença no modo como até aqui me submeti e como de agora em diante irei me submeter a essa estranha mania e quero conhecê-la

Dolmancé, minha irmã, acaba de completar trinta e seis anos. É alto, dono de uma bela figura, olhos muito vivos e espirituais, mas, apesar disso, um quê de maldade e dureza transparece em seus traços; tem os dentes mais belos do mundo, um gingado na cintura e no andar, sem dúvida por assumir com frequência ares femininos. É de uma extrema elegância, possui voz bonita, talentos e, sobretudo, muita filosofia no espírito.

É o mais célebre ateu, o mais imoral dos homens… e da mais extrema e completa corrupção, o indivíduo mais celerado e cruel que possa haver no mundo.

Sujar-se… Precauções… Amo loucamente a linguagem dessa gente amável. Entre nós, mulheres, também temos palavras exclusivas que provam, como essas, o profundo horror que sentimos por tudo o que não diz respeito ao culto admitido. Ah, querido, conta-me, ele já te possuiu? Com esse teu tipo delicioso e teus vinte anos pode-se facilmente cativar um homem assim.

Ah, meu amigo, beija-me. Não serias meu irmão se pensasses de outro modo; suplico-te mais detalhes do físico deste homem e de seus prazeres contigo.

Um belíssimo cu virou-se para mim e alguém suplicou-me para desfrutá-lo; então compreendi que esse gosto era o verdadeiro motivo do exame.

ele quer ser dilacerado… rachado ao meio…” “Pois será satisfeito.”

Vês o estado em que me deixaste, querido cavaleiro?”

devolvendo-me ao cêntuplo os solavancos com que eu maltratava o terceiro, logo exalou no fundo do meu cu este licor fascinante com que quase ao mesmo tempo reguei o de V

Que prazer enorme deves ter sentido, meu irmão, ficando entre os dois… dizem ser encantador…

Trata-se de uma educação; é uma garota que conheci no convento o outono passado, enquanto meu marido estava numa estação de águas. Não pudemos fazer nada lá, e nem poderíamos ousá-lo com tantos olhos fixos sobre nós; mas prometemos mutuamente nos reunir assim que fosse possível. Dominada por este desejo, travei conhecimento com sua família para poder satisfazê-lo. Seu pai é um libertino… que logo cativei. Enfim, a bela está para chegar; estou aguardando-a. Passaremos dois dias juntas… dois dias deliciosos.

Como vou mesclar prática e teoria e demonstrar à medida que formos dissertando, meu caro irmão, destinei-te a colheita dos mirtos de Citera, e a Dolmancé a das rosas de Sodoma.

Que prazer terás educando esta criança. Como será delicioso corrompê-la, abafar num coração juvenil as sementes de virtude e de religião que suas preceptoras lhe incutiram. Na verdade, é devassidão4 demais para mim.

Quero, com duas lições, torná-
-la tão celerada quanto eu… tão ímpia… tão debochada

É assim que devem ser para que sejam seguros.

preencha melhor a imaginação

como seus grandes olhos me revelaram o estado de sua alma.

TERCEIRO DIÁLOGO

conduzir-te na carreira da felicidade e dos prazeres que percorreremos juntas.

Não o conheço mais do que tu, mas olha como me entrego a ele. (Beija-o lubricamente na boca.) Imita-me.

Certos homens, após alguns movimentos, derramam aí mesmo o bálsamo delicioso da vida, cujo escoamento faz a felicidade dos libertinos

Uma linda jovem deve ocupar-se apenas em foder e jamais em gerar. Contornaremos tudo o que se refere ao mecanismo vulgar da reprodução,11 para nos ater única e exclusivamente às volúpias libertinas, cujo espírito de modo nenhum é reprodutor.

Quer a introdução se faça pela frente ou por trás, se a mulher não está acostumada, ela sempre sente dor. Agrada à natureza só nos fazer chegar ao prazer mediante o sofrimento. Mas, uma vez vencida a dor, nada poderá se igualar aos prazeres que gozamos. E o que sentimos na introdução do membro em nosso cu é incontestavelmente preferível a todos os prazeres que proporcionam uma introdução pela frente. Quantos perigos, aliás, a mulher não evita deste modo. Menos riscos para a saúde e nenhum para a gravidez.

Masturbar-se, minha amiga… se dar prazer. Mas agora mudemos de posição

abandonai vossos sentidos ao prazer. Que seja ele o único deus de vossa existência; a ele apenas uma jovem deve sacrificar tudo, e nada, a seus olhos, deve ser mais sagrado, que o prazer.

Como esporra a safadinha… Seu ânus vai cortar meus dedos de tanto que aperta… Como seria delicioso enrabá-la nesse instante. (Levanta-se e aproxima o pau do cu da mocinha.)

Teu grelo é um encanto, Eugénie. Como é bom beijar esta penugem… Vejo agora melhor teu clitóris, ainda pouco desenvolvido, mas já bastante sensível… Como te mexes bem.

Seguramente, embora esteja comprovado que o feto só deve sua existência à porra do homem; se lançada sozinha, sem se misturar à da mulher, ela não triunfaria; mas a que fornecemos só faz elaborar, nada cria; ajuda na criação, sem ser sua causa. Vários naturalistas modernos até afirmam que ela é inútil; de onde os moralistas, sempre guiados por essa descoberta, terem concluído, com muita verossimilhança, que neste caso a criança, uma vez formada pelo sangue do pai, só deva sentir ternura por ele. Tal asserção parece-me plausível, e, embora eu seja mulher, não ousarei combatê-la.

Essa predileção não me espanta; penso da mesma forma. Ainda não me consolei da morte de meu pai, e quando perdi minha mãe soltei até rojão…16 Detestava-a cordialmente. Adotai sem medo os mesmos sentimentos, Eugénie; eles se encontram na natureza. Formados unicamente do sangue de nossos pais, não devemos absolutamente nada a nossas mães. Aliás, elas só se prestaram ao ato, enquanto nossos pais o solicitaram. Logo, o pai queria que nascêssemos, enquanto a mãe não fez mais do que consenti-lo. Que diferença de sentimentos.

desfalecendo. - Eu morro, santíssimo… Dolmancé, como gosto de pegar teu belo pau enquanto esporro… Gostaria que ele me inundasse de porra… Agitai… Chupai-me… Deus fodido… Como gosto de bancar a puta quando meu esperma jorra assim… Foi o fim, já não podia mais… Vós me arrasastes, ambos… Acho que jamais tive tanto prazer.

entendes pela expressão puta? Perdoa-me, mas, como sabes, estou aqui para ser instruída.
SAINT-ANGE - Lindinha, chama-se deste modo as vítimas públicas do deboche dos homens, sempre prontas a se entregar ao temperamento deles ou ao seu interesse. São felizes e respeitáveis criaturas que a opinião difama, mas a volúpia coroa; e que, bem mais necessárias à sociedade do que as recatadas, têm a coragem de sacrificar, para servi-la, a consideração que esta sociedade ousa lhes tirar injustamente. Vivam as que se sentem honradas com esse título. Eis as mulheres verdadeiramente amáveis, as únicas filósofas de verdade. Quanto a mim, minha cara, que há doze anos trabalho para merecê-lo, asseguro-te que, longe de me escandalizar, ele muito me diverte. Ou melhor: adoro que me chamem assim quando me fodem. Esta ofensa ferve-me a cabeça.

renuncia às virtudes, Eugénie. Haverá algum sacrifício feito a essas falsas divindades que valha um só minuto dos prazeres que sentimos ultrajando-as? Ora, a virtude não passa de uma quimera cujo culto consiste em imolações perpétuas, em inúmeras revoltas contra as inspirações do temperamento. Serão naturais tais movimentos? Aconselhará a natureza o que a ultraja?

pode crer na religião

Pois bem. Se está demonstrado que o homem só deve sua existência aos planos irresistíveis da natureza; se está provado que tão antigo neste globo quanto o próprio globo, ele não passa, como o carvalho, o leão e os minerais que se encontram nas entranhas desse globo, de apenas uma produção exigida pela existência do globo e não deve a sua a quem quer que seja; se está demonstrado que este Deus, que os tolos veem como único autor e fabricante de tudo o que vemos, não passa do nec plus ultra da razão humana, do fantasma criado no instante em que esta razão não vê mais nada a fim de ajudar em suas operações; se está provado que a existência deste Deus é impossível e que a natureza, sempre em ação, sempre em movimento, tem por si só o que agrada aos tolos lhe dar gratuitamente; se é certo supor que este ser inerte existiu, ele certamente seria o mais ridículo dos seres, visto só ter servido um único dia, e que, após milhões de séculos, encontrar-se-ia numa inação desprezível; supondo que existisse, como as religiões no-lo pintam, ele seguramente seria o mais detestável dos seres, já que permitiria o mal sobre a terra, enquanto sua onipotência poderia impedi-lo; se tudo isso estivesse provado, como incontestavelmente está, crede então, Eugénie, que a piedade que liga o homem a esse Criador imbecil, insuficiente, feroz e desprezível, seria uma virtude absolutamente necessária?

injustiças essenciais às leis da natureza

E os estrondosos milagres que o veem realizar convenceram logo o universo inteiro. Com efeito, numa ceia de bêbados, segundo dizem, o vigarista transforma água em vinho; num deserto, alimenta alguns celerados com provisões escondidas que seus sectários preparam; um de seus camaradas finge-se de morto e nosso impostor ressuscita-o; ele vai para uma montanha, e, diante de apenas dois ou três amigos, faz uns passes de mágica que fariam corar o pior saltimbanco de nossos dias.

Mas não te deixes iludir por elas, encantadora amiga: a beneficência é antes um vício de orgulho do que uma verdadeira virtude da alma. É por ostentação que se consolam os semelhantes, jamais tendo apenas em vista praticar uma boa ação. Fica-se furioso quando a esmola concedida não obtém a publicidade desejada. Não penses também, Eugénie, que tal ação tenha tão bons efeitos quanto se imagina. Eu mesmo só consigo vê-la como o maior de todos os embustes. Ela acaba acostumando o pobre a uma ajuda que deteriora sua energia; ele não trabalha mais quando espera pela caridade. E quando esta lhe falta, torna-se ladrão ou assassino. Ouço clamores de todas as partes para que se encontrem meios de suprimir a mendicância, mas enquanto isso fazem de tudo para que ela se multiplique. Quereis ficar livre de moscas em vosso quarto? Não derrubeis açúcar para atraí-las. Não quereis que a França tenha pobres? Não distribuí nenhuma esmola, e suprimi, sobretudo, vossas casas de caridade. O indivíduo que nasce no infortúnio, vendo-se privado desses perigosos recursos, empregará toda sua coragem, todos os meios que recebeu da natureza para sair do estado em que nasceu. Ele não vos importunará mais. Destruí, derrubai sem a menor piedade essas casas abomináveis que ainda por cima encobrem descaradamente os frutos da libertinagem do pobre, essas cloacas medonhas que todos os dias vomitam na sociedade um repugnante enxame de novas criaturas cuja última esperança é vossa bolsa. De que adianta, pergunto, conservar com tanto zelo tais indivíduos? Teme-se que a França seja despovoada? Ah, jamais devemos ter esse medo.

chinês, mais sensato que nós, não se deixa dominar assim por uma população tão abundante. Não há asilos para os frutos vergonhosos de seu deboche: abandonam esses horríveis resultados como as consequências de uma digestão. Casas para pobres não há: não se as conhece na China. Lá, todos trabalham e são felizes; nada altera a energia do pobre, e cada um pode dizer, como Nero: Quid est pauper?

EUGÉNIE - Ah, Deus. Como as vossas lições me inflamam. Acho que preferia morrer a praticar uma boa ação.
SAINT-ANGE - E se fosse uma má ação, estarias pronta para cometê-la?
EUGÉNIE - Cala-te, sedutora. Só responderei a isso quando tiveres acabado de me instruir. Parece-me que depois de tudo o que dissestes, Dolmancé, nada é mais indiferente na Terra do que cometer o bem ou o mal; nossos gostos e temperamento devem ser os únicos respeitados?
DOLMANCÉ - Ah, não duvideis, Eugénie. Palavras como vício e virtude só nos dão ideias puramente locais. Não existe nenhuma ação, por mais singular que se possa supor, que seja verdadeiramente criminosa, e nenhuma que possa realmente se chamar virtuosa. Tudo se dá em razão de nossos costumes e do clima em que vivemos.18 O que é crime aqui, frequentemente é virtude cem léguas além. E as virtudes de um outro hemisfério poderiam muito bem, ao contrário, ser crimes para nós. Não há horror que não tenha sido divinizado ou virtude que não tenha sido execrada. Dessas diferenças puramente geográficas nasce o pouco-caso que devemos fazer da estima ou do desprezo dos homens, sentimentos ridículos e frívolos acima dos quais devemos nos colocar, a ponto mesmo de preferir sem medo o seu desprezo, pelo pouco que as ações que no-lo merecem sirvam de alguma volúpia para nós.

Oh, não, não Eugénie, tais laços se dissiparão em breve. É preciso libertar a jovem da casa paterna quando ela atingir a idade da razão. Em seguida, após lhe proporcionarem uma educação nacional, que a deixem ser senhora, aos quinze anos, de fazer o que bem lhe entender. Ela cairá no vício? O que importa?. Os serviços oferecidos por uma jovem, consentindo em fazer a felicidade de todos os que a procuram, não serão infinitamente mais importantes do que aqueles que ela, isolando-se, possa prestar a seu esposo? O destino da mulher é ser como a loba e a cadela: pertencer a todos os que a desejarem. É visivelmente ultrajar a destinação que a natureza impôs às mulheres, atando-as pelo laço absurdo de um himeneu solitário.

Que ela jogue poeira nos olhos de todos os que a cercam: irmãos, primos, amigos, parentes; que se entregue a todos, se necessário, para encobrir sua conduta. Que ela até mesmo sacrifique seus gostos, suas afeições, se assim for exigido. Uma intriga que a princípio lhe desagrade, a qual só se entregará por política, pode deixá-la mais cedo do que pensa numa situação mais agradável, e ei-la consagrada.21 Mas que não retorne mais aos preconceitos da infância: ameaças, exortações, deveres, virtudes, religião, conselhos, passando por cima de tudo isso. Que ela rejeite e despreze obstinadamente tudo o que só serve para aprisioná-la de novo, tudo o que, numa palavra, não visa senão mergulhá-la no seio da impudicícia.

Portanto fode, Eugénie; fode, meu anjo. Teu corpo só a ti pertence; só tu no mundo tens o direito de gozar dele e fazer gozar a quem bem quiseres.

Aproveita o tempo mais feliz de tua vida: duram pouquíssimo os anos felizes de nossos prazeres. Se formos bastante afortunados para aproveitá-los, deliciosas recordações nos consolam e até nos divertem na velhice. Perdemo-los?… Amargos pesares, horríveis remorsos dilaceram-nos e se somam aos tormentos da idade para cercar de lágrimas e de espinhos as aproximações funestas do caixão…

Qualquer que seja, querida, o estado de uma mulher, moça, casada ou viúva, ela não deve ter outra meta, ocupação ou desejo senão foder de manhã até a noite. Foi para este único fim que a natureza a criou. Mas se, para preencher tal intento, exijo que ela pisoteie todos os preconceitos da infância, se lhe prescrevo a mais formal desobediência às ordens de sua família, e o mais comprovado desprezo aos conselhos de seus pais, concordarás, Eugénie, que de todos os freios a serem rompidos aquele que mais cedo te aconselho a destruir certamente é o do casamento.

Com efeito, considera, Eugénie, uma jovem que mal saiu da casa paterna ou do internato, que não conhecendo nada, sem qualquer experiência, se veja obrigada a se atirar aos braços de um homem que ela nunca viu, obrigada a jurar a esse homem, aos pés do altar, uma obediência cega, uma fidelidade tão injusta que, com frequência, ela só conserva no fundo do coração o maior desejo em lhe faltar com a palavra. Pode existir no mundo, Eugénie, destino mais horrível que este? Entretanto, ei-la amarrada, quer o marido a agrade ou não, quer ele tenha por ela ternura ou maus procedimentos. Sua honra está presa a esses juramentos: será maculada se a mulher os quebrar; é preciso que ela se perca ou arraste o jugo, devendo morrer de dor. Não, Eugénie, não foi com esta finalidade que nascemos. Essas leis absurdas foram feitas pelos homens, e não devemos nos submeter a elas. E o divórcio? Poderá nos satisfazer? Não, sem dúvida. Quem nos garante se vamos encontrar com maior segurança num segundo vínculo a felicidade que nos escapou no primeiro? Compensemo-nos, pois, em segredo, de todos os constrangimentos de nós tão absurdos, bem certas de que nossas desordens neste gênero, por maiores que forem os excessos a que pudermos levá-las, longe de ultrajar a natureza, são uma homenagem sincera que lhe prestamos. Ceder aos desejos que somente ela nos incutiu é obedecer a suas leis; só a ultrajaremos se resistirmos a eles. O adultério que os homens veem como um crime, que ousaram punir como tal, arrancando a nossa vida, o adultério, Eugénie, é apenas a quitação de um direito à natureza, de que as fantasias desses tiranos jamais conseguirão nos tirar. Mas não é horrível, dizem nossos maridos, acariciar em público e beijar, como nossos filhos, os frutos de vossas desordens? É objeção de Rousseau. Admito ser a única algo ilusória23 para se combater o adultério. Ah, não é extremamente fácil cair na libertinagem sem ter medo da gravidez? Não é mais fácil ainda destruí-la, se por imprudência ela ocorrer? Mas, como voltaremos a este assunto, ocupemo-nos agora com o fundo da questão. Veremos que tal argumento, que à primeira vista pode iludir,24 não passa de quimérico.

Ora, se ele pode ser desconfiado em todos os casos, não há nenhum inconveniente em, às vezes, se legitimar suspeitas: não seria, para o seu estado de felicidade ou infelicidade moral, nem mais, nem menos; portanto, tanto faz que seja assim.

De que podereis me censurar? Ele desfruta da criança. — “Mas enganais vosso marido, tal falsidade é atroz.” — Não, estamos quites, e pronto. Fui vítima primeiro desse vínculo de que ele me forçou tomar parte; vingo-me, há algo mais simples? — “Mas há um ultraje real feito à honra do vosso marido.” — Que preconceito esse. Minha libertinagem em nada atinge meu marido. Meus erros são pessoais. Essa pretensa desonra era boa um século atrás. Hoje em dia nos curamos dessa quimera, e meu marido não está mais difamado pelos meus deboches do que eu estaria pelos seus. Eu foderia com a Terra inteira sem lhe fazer um arranhão. Essa pretensa lesão não passa de uma fábula, cuja existência é impossível. De duas uma: ou meu marido é bruto, ciumento, ou é um homem delicado. Na primeira hipótese, o que posso fazer de melhor é vingar-me de sua conduta; na segunda, eu não saberia afligi-lo. Já que gozo dos prazeres, ele, caso seja honesto, se sentirá feliz com isso: não há homem delicado que não goze ao espetáculo de felicidade da pessoa que adora. — “Mas se o amásseis, gostaríeis que ele fizesse o mesmo?” — Ah, infeliz da mulher que ousa ter ciúmes de seu marido. Que ela se contente com o que ele lhe dá, se de fato o ama. Mas que não tente coagi-lo. Não somente não teria sucesso, como também logo se faria detestar. Se sou razoável, jamais me afligirei dos deboches de meu marido. Que ele aja do mesmo modo comigo e a paz reinará no lar.

Toda lei humana que contraria as da natureza só merece o nosso desprezo.

Desde a primeira noite de núpcias, preveniu-me de suas fantasias, assegurando-me que, de sua parte, jamais iria interferir nas minhas. Jurei obedecer-lhe, e, desde então, ambos vivemos na mais deliciosa liberdade. O gosto de meu marido consiste em ser chupado, e eis o episódio singular que acrescenta a isso: enquanto estou curvada sobre ele, com a bunda apoiada em seu rosto, sugo com ardor a porra dos colhões… e cago em sua boca… Ele engole…

Mas, querida, teu marido, sendo estritamente ligado aos próprios gostos, nunca exigiu de ti outra coisa?
SAINT-ANGE - Jamais. Em doze anos não se contradisse um único dia, exceto quando estou menstruada. Uma linda moça, que trago comigo, substitui-me nessa ocasião e tudo sai às mil maravilhas.

A imaginação é o aguilhão dos prazeres. Em gente dessa espécie, ela regula tudo, é o móvel de tudo; ora, não é por ela que gozamos? Não é dela que nos vêm as volúpias mais picantes?

Interroguemos esse órgão sagrado, e veremos não haver nada mais delicioso que a união carnal das famílias. Deixemos de nos cegar sobre os sentimentos de um irmão por sua irmã, de um pai por sua filha. Em vão um e outro os disfarçam sob o véu de uma legítima ternura: o mais violento amor é o único sentimento que os inflama, o único que a natureza incutiu em seus corações. Dupliquemos, tripliquemos sem medo esses deliciosos incestos, admitindo que quanto mais próximo estiver o objeto de nosso desejo, maiores encantos teremos no prazer de gozá-los. Um de meus amigos vive normalmente com a filha que teve com sua própria mãe. Há menos de oito dias, deflorou um garoto de treze anos, fruto de suas relações com a filha. Dentro de alguns anos, esse mesmo jovem se casará com a mãe; são os votos de meu amigo, que preparou para ele um destino análogo nesses projetos. Suas intenções, bem sei, consistem em gozar ainda dos frutos que nascerão desse himeneu; ele é jovem e pode esperar. Vede, terna Eugénie, com quantos incestos e crimes sujar-se-ia esse honesto amigo se houvesse algo de verdadeiro no preconceito que nos faz crer que há maldade nessas ligações. Numa palavra: sobre essas coisas, eu parto sempre de um princípio; se a natureza proibisse os prazeres sodomitas, os gozos incestuosos, as masturbações etc., permitiria que encontrássemos neles tanto prazer? E impossível que ela possa tolerar o que verdadeiramente a ultraja.

o assassino também prepara um gozo para a natureza: fornece-lhe materiais que ela imediatamente emprega, e a ação que os tolos tiveram loucura em censurar revela-se apenas um mérito aos olhos desse agente universal. É nosso orgulho que se lembra de edificar o assassinato em crime. Estimando-nos como se fôssemos as primeiras criaturas do universo, imaginamos tolamente que toda lesão que viesse a sofrer essa criatura sublime deveria necessariamente ser um enorme crime. Acreditamos que a natureza pereceria se nossa maravilhosa espécie desaparecesse do globo, quando a destruição total dessa espécie, restituindo à natureza a faculdade criadora que ela nos cede, lhe devolveria a energia que lhe roubamos ao nos propagarmos. Mas que inconsequência, Eugénie. Então um soberano ambicioso poderá destruir à vontade e sem o menor escrúpulo os inimigos nocivos a seus projetos de grandeza… leis cruéis, arbitrárias, imperiosas, poderão da mesma forma assassinar em cada século milhões de indivíduos… e nós, fracos e infelizes particulares, não podemos sacrificar um único ser às nossas vinganças ou aos nossos caprichos? Existe algo mais bárbaro, mais ridiculamente estranho? E não devemos, sob o véu do mais profundo mistério, nos vingar amplamente dessa inépcia?.

Sim, meu querido Dolmancé, mas algo vos irá faltar.
DOLMANCÉ - Um pau no cu? Tendes razão senhora.
SAINT-ANGE - Passaremos sem ele agora de manhã, mas o teremos ao anoitecer. Meu irmão virá ajudar-nos e nossos prazeres chegarão aos píncaros. Mãos à obra.

Estou gozando… na mais doce embriaguez…

Muito bem, já que tuas resoluções são inabaláveis, serás satisfeita, Eugénie, eu juro. Mas antes de agir, permite-me alguns conselhos, que serão de primeira necessidade para ti. Que teu segredo jamais te escape, minha cara, e, sobretudo, age sozinha: nada é mais perigoso do que cúmplices. Desconfiemos sempre, mesmo daqueles que acreditamos nos serem mais ligados. Como disse Maquiavel, jamais devemos ter cúmplices, ou nos livrar deles tão logo nos tenham servido. Isso não é tudo: nos projetos que traças, Eugénie, o fingimento é indispensável. Aproxima-te como nunca da vítima antes de imolá-la. Finge ouvir suas queixas ou tenta consolá-la; agrada-a, divide suas penas, jura-lhe que a adora; faze mais ainda: persuade-a. Em tais casos, a falsidade nunca é demais. Nero acariciava Agripina na própria barca que deveria tragá-la. Imita esse exemplo; usa de todas as tramoias, de todas as imposturas que teu espírito sugerir. Se a mentira é sempre necessária às mulheres, é sobretudo quando querem enganar que se lhes torna ainda mais indispensável.

muita doçura e complacência para com ele; por outro lado, muita falsidade e compensações secretas

Ela se divide em duas classes, ativa e passiva; o homem que enraba, seja um garoto, seja uma mulher, comete a sodomia ativa; ele é sodomita passivo quando se deixa foder. Com frequência se questiona qual dos dois modos de praticar a sodomia é o mais voluptuoso; seguramente o passivo, já que se goza simultaneamente da sensação da frente e da de trás; é tão doce mudar de sexo, tão delicioso se fazer de puta, entregar-se a um homem que nos trata como uma mulher, chamar esse homem de amante, e de se confessar sua amante… Ah, meus amigos, que volúpia. Mas Eugénie, limitemo-nos aqui a alguns conselhos de detalhe concernentes apenas às mulheres que, transformadas em homens, querem como nós gozar desse prazer delicioso. Acabo de familiarizar-vos com esses ataques, Eugénie, e já vi o suficiente para convencer-me de que um dia fareis grandes progressos nessa carreira. Exorto-vos a percorrê-la como uma das mais deliciosas da ilha de Citera, perfeitamente seguro de que cumprireis à risca este conselho. Limitar-me-ei a dois ou três avisos essenciais a toda pessoa decidida a só conhecer este gênero de prazeres, ou os que lhe são análogos. Primeiramente, não deixeis d

Não receies o infanticídio, crime imaginário; somos sempre senhoras do que trazemos no ventre, e não fazemos mal pior destruindo essa espécie de matéria do que purgando outras com medicamentos quando necessitamos disso.

Reparai, minha cara Eugénie, como essa gente raciocina; e acrescento, graças a minha experiência e meus estudos, que bem longe de ser um vício, a crueldade é o primeiro sentimento que a natureza nos imprime. A criança destrói seu brinquedo, morde a teta de sua ama de leite, estrangula seu passarinho, muito antes de atingir a idade da razão. A crueldade está impressa nos animais, em quem, como creio que dissestes, as leis da natureza se leem muito mais energicamente do que em nós; ela está, entre os selvagens, muito mais próxima da natureza do que entre os homens civilizados; logo, seria um absurdo estabelecer que é consequência da depravação. Este sistema é falso, repito.43 A crueldade está na natureza. Todos nascemos com uma dose de crueldade que só a educação modifica; mas a educação não está na natureza e prejudica tanto seus efeitos sagrados quanto o cultivo prejudica as árvores. Comparai os vergéis em que a árvore é abandonada aos cuidados da natureza com a que tem seus movimentos tolhidos pela arte, e vede qual a mais bela, qual a que dá melhores frutos. A crueldade não é outra coisa senão a energia do homem ainda não corrompida pela civilização; é uma virtude, portanto, e não um vício

Foi ela que, refinando o gênero de suplício imposto a suas vítimas, inventou a famosa coluna de bronze oca que era abrasada após encerrar-se dentro a vítima. Teodora, mulher de Justiniano, divertia-se vendo fazer eunucos. E Messalina masturbava-se enquanto homens eram extenuados diante dela por meio da masturbação. Já as floridianas faziam endurecer o membro de seus esposos e colocavam sobre a glande pequenos insetos, causando-
-lhes dores horríveis; elas os amarravam durante a operação, e reuniam-se várias à volta de um único homem para dar cabo dele com maior segurança. Vendo os espanhóis se aproximarem, seguraram elas mesmas seus maridos, para que esses bárbaros europeus os assassinassem. A Voisin e a Brinvilliers envenenavam pelo único prazer de cometer um crime. Numa palavra: a história fornece-nos milhares de traços da crueldade das mulheres. E é por causa da inclinação natural que sentem nesses movimentos que eu gostaria que se acostumassem ao uso da flagelação ativa, pelo qual os homens cruéis acalmam a ferocidade delas.

A sociedade ganharia com essa opção dada à crueldade feminina; pois, não podendo ser maldosas deste modo, elas o são de outro, disseminando seu veneno pelo mundo e fazendo o desespero dos esposos e famílias. A recusa em praticar uma boa ação, quando a ocasião se apresenta, como socorrer o infortúnio, dá bem, se quisermos, um impulso a essa ferocidade a que certas mulheres são naturalmente levadas, mas isto é fraco e muitas vezes demasiado longe de sua necessidade em fazer pior. Sem dúvida existem outros meios pelos quais uma mulher, ao mesmo tempo sensível e feroz, possa acalmar suas fogosas paixões; mas são perigosos

QUARTO DIÁLOGO

Então penetra-a apresentando-me teu cu; eu o foderei durante esse voluptuoso incesto. Servida deste consolo,47 Eugénie virá enrabar-me. Destinada a desempenhar um dia todos os diferentes papéis da luxúria, ela deve exercitar-se nas lições que lhe damos para cumprir todos com igual desenvoltura.

Todos os excessos o proporcionam quando se é libertino; e o melhor que uma mulher tem a fazer é multiplicá-
-los mesmo além do possível.

Ora, o altar é o cu. A natureza, meu caro cavaleiro, se perscrutares com cuidado suas leis, jamais indicou outro à nossa homenagem que não fosse o olho do traseiro; ela permite o resto, mas ordena este. Ah, por Deus. Se não tivesse a intenção de que fodêssemos cus, teria ajustado tão proporcionalmente seu orifício aos nossos membros? Seu orifício não é redondo como eles? Que ser tão inimigo do bom senso pode imaginar que um buraco oval possa ter sido criado pela natureza para membros redondos?. Leem-se suas intenções nessa disformidade. Com isso a natureza nos faz ver claramente que sacrifícios reiterados em demasia nesta parte da frente, multiplicando uma propagação que ela apenas tolera, infalivelmente a desagradaria. Mas continuemos a nossa educação. Eugénie acaba de considerar, totalmente à vontade, o mistério sublime de um esporro; gostaria que agora ela aprendesse a dirigir seus jatos.

QUINTO DIÁLOGO

Tendes razão, senhora: treze polegadas de comprimento por oito e meia de circunferência. O maior que já vi. É isso que chamamos de pau soberbo. E vos servi dele, senhora?
SAINT-ANGE - Sim, todas as noites quando estou nesta chácara.
DOLMANCÉ - No cu, espero…
SAINT-ANGE - Com mais frequência que na xoxota.
DOLMANCÉ - Ah, meu Deus. Que libertinagem… Com toda a honestidade, não sei se o aguentaria…
SAINT-ANGE - Não vos façais de apertado, Dolmancé. Entrará no vosso rabo como entra no meu.

Vem, meu garotão, vou reanimar-te… Como é belo… Beija-me, querido amigo… Continuas molhado de porra… e é porra que te peço… Ah, meu Deus. É preciso chupar-lhe o cu enquanto o masturbo…

Eis meu homem de pau duro…

Ah. meus amigos, sou fodida pelos dois lados… Deus. Que prazer divino… Não… não existe nada igual no mundo… Porra. Tenho pena da mulher que nunca o experimentou… Ui. Ai. Mexe, Dolmancé, mexe… Arremessa-me com a violência de teus solavancos contra o gládio de meu irmão… E tu, Eugénie, contempla-me. Vem me ver em pleno vício… Vem aprender com meu exemplo a gozá-lo com furor, a saboreá-lo deliciosamente… Vê, meu amor… vê o que cometo ao mesmo tempo: escândalo, sedução, mau exemplo, incesto, adultério, sodomia… Ó Lúcifer. Único deus da minha alma. Inspira-me algo mais… oferece-me novos desvios ao coração… e me verás mergulhar neles…

Quanto progresso não o vemos fazer junto aos imperadores. Ao abrigo das águias romanas, ele se espalha de um canto a outro da Terra. Com a destruição do império, refugia-se junto à tiara, segue as artes na Itália, e nos alcança quando nos civilizamos. Descubramos um hemisfério, encontraremos nele a sodomia. Cook ancora num novo mundo: ela reina nele. Se nossos balões tivessem chegado na Lua, ela igualmente lá estaria. Gosto delicioso, filho da natureza e do prazer, deveis estar em toda parte onde se encontrem homens, e, onde quer que estiverdes, vos elevarão altares. Ó meus amigos. Pode haver uma extravagância igual a esta de conceber o homem como um monstro digno de perder a vida, porque preferiu em seu gozo o buraco de um cu ao de uma boceta; porque um jovem que lhe proporciona dois prazeres, o de ser amante e puta ao mesmo tempo, lhe pareceu melhor ao de uma mulher que só lhe promete um gozo. Ele então é um celerado, um monstro, por querer viver o papel de um sexo que não é o seu? Ora, por que a natureza o fez sensível a este prazer?

Ah, cara Eugénie, se soubésseis como gozamos deliciosamente quando um pau grosso nos enche o traseiro… Quando, enterrado até os colhões, ele se agita com ardor… e, retirado até o prepúcio, volta a mergulhar até os pelos.? Não, não há no mundo inteiro um gozo igual a este. É o gozo dos filósofos e o dos heróis, e seria o dos deuses, se as partes desse gozo divino não fossem elas próprias os únicos deuses que devemos adorar na terra…

Dizei-me agora, meus amigos, se uma mulher deve aceitar sempre propostas para ser fodida assim…
SAINT-ANGE - Sempre, minha cara, sempre, e deve fazer mais ainda; como esta maneira de foder é deliciosa, deve exigi-la daqueles de quem se serve. Mas se depende daquele com quem se diverte, se espera obter favores dele, presentes ou graças, que se valorize, que finja estar necessitada; não há homem com esse gosto que, em semelhante caso, não se arruine por uma mulher suficientemente hábil para não recusá-lo, com o desígnio de inflamá-lo ainda mais. Ela conseguirá tudo o que quiser se dominar a arte de só conceder oportunamente o que lhe pedem.

Falai-me dos laços de amor, Eugénie; que jamais venhais a conhecê-los. Ah, que um sentimento como esse, pelo bem que vos desejo, jamais se aproxime de vosso coração. O que é o amor? Só podemos considerá-lo, creio, como o efeito que nos causam as qualidades de um belo objeto. Estes efeitos nos transportam, nos inflamam. Se possuímos este objeto, ficamos contentes; mas se nos é impossível tê-lo, nos desesperamos. Qual a base deste sentimento?… o desejo. Quais as suas conseqüências?… a loucura. Atenhamo-nos, pois, ao motivo, e garantiremos os efeitos. O motivo é possuir o objeto? Ora, tentemos então consegui-lo, mas com sabedoria; gozemos dele, assim que o tivermos; consolemo-nos em caso contrário: mil outros objetos semelhantes, e quase sempre melhores, consolar-nos-ão da perda deste. Todos os homens e mulheres se parecem: não há amor que resista aos efeitos de uma reflexão sadia. Oh, que embriaguez enganosa essa que, nos absorvendo o resultado dos sentidos, coloca-nos em tal estado que não mais enxergamos e só passamos a existir para esse objeto loucamente adorado. Isso é viver? Não é antes se privar voluntariosamente de todas as doçuras da vida? Não é querer ficar numa febre ardente que nos absorve e devora sem nos proporcionar outra felicidade além dos gozos metafísicos, tão semelhantes aos efeitos da loucura? Se devêssemos amar sempre este objeto adorável, se fosse certo que nunca viéssemos a abandoná-lo, já seria sem dúvida uma extravagância, mas ao menos desculpável. Mas é isso que acontece? Acaso temos muitos exemplos dessas ligações eternas que jamais são desmentidas? Alguns meses de gozo, que recolocam depressa o objeto em seu verdadeiro lugar, fazem-nos corar pelo incenso queimado em seus altares, e muitas vezes chegamos a nem mesmo conceber como ele pode nos seduzir a tal ponto

Respeitemos os primeiros, concordo, enquanto nos são úteis; conservemos nossos amigos enquanto nos servem; esqueçamo-los desde que não possamos tirar deles mais nada. Só devemos amar as pessoas por nossa própria causa; amá-las por elas mesmas é um ledo engano. Nunca foi próprio da natureza inspirar aos homens outros movimentos, outros sentimentos, senão aqueles que lhe servem para alguma coisa; nada é tão egoísta quanto a natureza; sejamo-lo nós também se quisermos cumprir suas leis

Vou masturbá-lo por baixo; quer dizer, tendo meu engenho num cu, agitarei um pau em cada mão; quanto a vós, senhora, depois de ter sido vosso marido, quero que sejais agora o meu; tomai o maior de vossos consolos. (A senhora de Saint-Ange abre uma caixa cheia deles e nosso herói escolhe o mais temível.) Bom, este aqui, diz o número, tem catorze polegadas de comprimento por dez de contorno. Senhora, colocai isso em volta dos rins e desferi-me os golpes mais medonhos.
SAINT-ANGE - Sois mesmo louco, Dolmancé, vou estropiar-
-vos com ele.
DOLMANCÉ - Não receais nada. Empurrai, penetrai, meu anjo. Só enrabarei vossa querida Eugénie quando vosso enorme membro estiver bem dentro do meu cu… Já entrou. Entrou, santíssimo… Ah, tu me pões nas nuvens… Sem piedade, minha bela… Declaro-te que vou foder teu cu sem qualquer preparação… Ah, meu deus. Que lindo traseiro…

Enraba-me, Augustin, o que está esperando?

Vem, querido, penetra, abandono-me a ti.

Grita quanto quiseres, putinha, vai entrar nem que morras mil vezes.

Porra. Ele vai me matar… Devagar, estúpido… Ah, o bugre. Ele está entrando… este porra já entrou… ai, chegou ao fundo… eu morro… Oh, Dolmancé, como me bateis… queimam-me os dois lados; minhas nádegas estão em chamas.

Já sou puta o suficiente agora?

FRANCESES, MAIS UM ESFORÇO SE QUEREIS SER REPUBLICANOS

é com inquietude que sinto que estamos à véspera de fracassar novamente

Só se trata de amar nossos semelhantes como irmãos, como amigos que a natureza nos dá e com os quais deveremos viver tanto melhor num Estado republicano, em que o desaparecimento das distâncias deve necessariamente estreitar os laços.

Que se evite pronunciar alguma pena contra a calúnia; consideremo-la sob o duplo aspecto de um fanal e de um estimulante e, em todos os casos, como algo muito útil. O legislador, que deve ter sempre grandes ideias como a obra a que se dedica, jamais deve estudar o efeito do delito que só atinja individualmente; é seu efeito em massa que ele deve examinar. E quando observar desta maneira os efeitos que resultam da calúnia, desafio-o a encontrar aí algo que possa ser punido; desafio-o a colocar alguma sombra de justiça na lei que o puniria; ele se tornará, ao contrário, o mais justo e o mais íntegro dos homens se a favorecer ou a recompensar.

Jamais um ato de posse pode exercer-se sobre um ser livre; é tão injusto possuir exclusivamente uma mulher quanto possuir escravos. Todos os homens nascem livres, todos são iguais em direito; não devemos jamais perder de vista esses princípios.

Para defenderem-se, as mulheres podem apelar em vão ao pudor ou à sua ligação com outros homens; esses meios quiméricos são nulos; vimos antes o quanto o pudor é um sentimento artificial e desprezível. O amor, que podemos chamar de loucura da alma, não possui mais títulos para legitimar sua constância. Não satisfazendo senão a dois indivíduos, o ser amado e o amante, não pode servir à felicidade dos outros; e foi para a felicidade de todos, não para uma felicidade egoísta e privilegiada, que nos foram dadas as mulheres. Todos os homens têm um direito de gozo idêntico sobre todas as mulheres. Não há um só homem que, diante das leis da natureza, possa erigir sobre uma mulher um direito único e pessoal. A lei que as obrigará a se prostituírem quando quisermos, nas casas de deboche que há pouco mencionamos, que as obrigará a frequentá-las, punindo-as caso se recusem a isso, será uma lei das mais equitativas e contra a qual nenhum motivo legítimo ou justo poderia reclamar.

desde que me concedeis o direito de propriedade sobre o gozo, esse direito é independente dos efeitos que ele produz; a partir de então, tanto faz esse gozo ser vantajoso ou prejudicial ao objeto que a ele deve se submeter.

Ela será recebida com respeito, satisfeita em profusão e, retornando à sociedade, poderá falar publicamente dos prazeres que tiver provado, como faz hoje a respeito de um baile ou de um passeio. Sexo encantador, sereis livre.

A natureza o quer; não tenhais outros freios senão os de vossas inclinações, outras leis senão os vossos desejos, outra moral que não seja a da natureza. Não vos deixeis languescer tanto tempo nesses bárbaros preconceitos que murchavam vossos encantos e escravizavam os impulsos divinos de vossos corações

Que nenhum freio vos detenha

jamais a luxúria foi considerada criminosa em nenhum dos povos sábios da Terra. Todos os filósofos sabem muito bem que devemos aos impostores cristãos o fato de ela ter sido instituída como crime. Os padres tinham seus motivos proibindo-nos a luxúria: tal recomendação, reservando-lhes o conhecimento e a absolvição dos pecados secretos, lhes proporcionava um incrível domínio sobre as mulheres e lhes abria uma carreira de lubricidade cuja extensão não tinha limites. Sabemos como eles desfrutavam disso, e como ainda abusariam caso seu crédito não estivesse perdido sem recursos.

Será mais perigoso o incesto? Não, sem dúvida; ele estende os laços de família e, em consequência, torna mais ativo o amor dos cidadãos pela pátria. Ele nos foi ditado pelas primeiras leis da natureza, nós o experimentamos, e o gozo dos objetos que nos pertencem nos parece sempre mais delicioso. As primeiras instituições favoreceram o incesto; encontramo-lo na origem das sociedades; ele é consagrado em todas as religiões; todas as leis o favorecem.

Como é que homens razoáveis chegaram ao absurdo de crer que gozar de sua mãe, irmã ou filha pudesse ser um crime? Pergunto-vos se não é um abominável preconceito querer fazer de um homem um criminoso só porque ele prefere gozar do objeto que o sentimento da natureza mais aproxima dele?

é certo que o estupro, ação tão rara e difícil de provar, causa menos dano ao próximo do que o roubo, já que este último invade a propriedade que o primeiro se contenta em deteriorar. Que podereis, aliás, objetar ao violador, se ele vos responde que, de fato, o mal que causou é bem medíocre, já que deixou mais cedo o objeto de que abusou no estado em que logo mais seria necessariamente deixado pelo himeneu ou pelo amor?

os absurdos dos legisladores

Tenhamos bem claro que é tão simples gozar de uma mulher de uma maneira ou de outra, que é absolutamente indiferente gozar de uma moça ou rapaz, e que é constante em nós não existir outras inclinações além das que recebemos da natureza; ela é por demais sensata e consequente para ter colocado em nós as que pudessem alguma vez ofendê-la

Sabemos a que ponto ele reinou em Roma: havia lugares públicos em que os rapazes prostituíam-se vestidos de mulheres e as moças vestidas de rapazes. Marcial, Catulo, Tíbulo, Horácio, Virgílio escreviam tanto para homens como para suas amantes, e podemos ler em Plutarco. que as mulheres não devem ter nenhuma parte no amor dos homens. Os amásios da Ilha de Creta raptavam outrora rapazes nas cerimônias mais singulares: quando amavam um rapaz informavam aos pais o dia em que o raptor iria buscá-lo; se o amante não lhe agradasse, o rapaz mostrava alguma resistência; em caso contrário, partia com ele, e o sedutor o restituía à família tão logo se servisse dele; nesta paixão, como na das mulheres, sempre se quer mais quando já se tem o bastante. Estrabão nos conta que nessa mesma ilha os haréns estavam cheios só de rapazes; eram prostituídos publicamente.

Enfim, as mulheres, ciumentas e desprezadas, ofereceram-se para prestar aos maridos os mesmos serviços que eles recebiam dos rapazes. Alguns tentaram, mas voltaram a seus antigos hábitos, não achando a ilusão possível.

Enfim, as mulheres se compensaram entre elas.

Em suma, não há um único perigo em todas essas manias, mesmo que fossem mais longe; mesmo se chegassem a acariciar monstros e animais, como nos demonstra o exemplo de muitos povos, não haveria nessas frivolidades o menor inconveniente porque a corrupção dos costumes, quase sempre muito útil num governo, não poderia ser nociva sob nenhum aspecto; devemos esperar de nossos legisladores bastante sabedoria e prudência para estarmos seguros de que lei alguma emanará deles para reprimir essas misérias, que, levando em conta a organização, jamais poderiam tornar mais culpado aquele que se acha inclinado a ele do que o indivíduo que a natureza criou contrafeito.

o único cuja perda é irreparáve

  1. Essa ação, considerando apenas as leis da natureza, é verdadeiramente criminosa?
  2. E em relação às leis da política?
  3. O assassinato é prejudicial à sociedade?
  4. Como ele deve ser considerado num governo republicano?
  5. Enfim, o assassinato deve ser reprimido com o assassinato?

haverá, pois, tanto mal em matar um animal quanto um homem, ou quase muito pouco em fazê-lo num caso ou no outro, e a distância residirá apenas nos preconceitos de nosso orgulho. Mas nada infelizmente é tão absurdo como os preconceitos do orgulho. Encurtemos, todavia, a questão. Não podereis discordar que seja igual destruir um homem ou um animal;

O homem custa alguma à natureza? E, supondo que custe, custa-lhe mais do que um macaco ou elefante? Vou mais longe: quais são as matérias geradoras da natureza? De que são compostos os seres que nascem? Os três elementos que os formam não resultam da primitiva destruição de outros corpos? Se todos os indivíduos fossem eternos, não se tornaria impossível à natureza criar novos seres? Se a eternidade dos seres é impossível à natureza, sua destruição torna-se portanto uma de suas leis. Ora, se as destruições lhe são tão úteis que ela não possa absolutamente passar sem elas, e se não pode criar sem extrair dessas massas de destruição que a morte lhe prepara, a partir desse momento a ideia de aniquilamento que ligamos à morte deixará de ser real; não haverá mais aniquilamento passível de se constatar

A morte, de acordo com esses princípios irrefutáveis, não é mais do que uma mudança de forma, uma imperceptível passagem de uma existência a outra, eis o que Pitágoras chamava de metempsicose.

Pequenos animais se formam no instante em que o grande deixa de respirar; a vida desses pequenos animais é apenas um dos efeitos necessários e determinados para o sono momentâneo do grande. Ousareis dizer que um agrada mais à natureza do que o outro?

provar que existe crime na pretensa destruição de uma criatura de qualquer idade, sexo ou espécie está acima das forças humanas. C

Que outra voz senão a da natureza nos sugere os ódios pessoais, as vinganças, as guerras, enfim, todos esses motivos de assassinatos perpétuos? Se ela nos aconselha isso tudo, é porque necessita. Como podemos, em consequência, nos considerar culpados diante dela se não fazemos outra coisa que seguir seus desígnios?

Será ele um crime em política? Ousemos confessar, pelo contrário, ser ele, infelizmente, uma das grandes molas da política. Não foi à custa de assassinatos que Roma se tornou a senhora do mundo? Não foi à custa de assassinatos que a França hoje é livre? É inútil advertir que só falamos aqui dos assassinatos ocasionados pela guerra, e não das atrocidades cometidas pelos facciosos e desordeiros; estes são tão execrados pelo público que basta mencioná-los para excitar de uma vez o horror e a indignação geral. Que outra ciência humana tem maior necessidade de se sustentar pelo assassinato do que esta que tende a enganar, que só almeja o crescimento de uma nação às expensas de outro? As guerras, únicos frutos dessa bárbara política, são outra coisa a não ser os meios pelos quais ela se alimenta, se fortifica, se sustém?

O que é a guerra senão a ciência de destruir? Estranha cegueira a do homem que ensina publicamente a arte de matar, que recompensa quem nela mais se distingue e que pune aquele que por motivos particulares se desfaz de seu inimigo. Já não é tempo de nos afastarmos desses erros tão bárbaros

A natureza inteira nada sofreria, e o tolo orgulho do homem que acredita que tudo é feito para ele ficaria bem espantado, após a destruição total da espécie humana, ao verificar que nada muda na natureza e que o curso dos astros nem sequer é desviado.

Certamente haveria o maior perigo em levar esta ação à desgraça ou puni-la. O orgulho do republicano pede um pouco de ferocidade; se amolece, se perde a energia, logo será subjugado. Uma singularíssima reflexão surge agora; apesar de ousada é muito verdadeira; vou dizê-la: uma nação que começa a ser governada como República só se sustentará por virtudes, pois para chegar ao máximo é preciso começar com pouco; mas uma nação velha e corrupta, que, corajosamente, abalará o jugo de seu governo monárquico para adotar um republicano, só se manterá com muitos crimes; como ela já vive no crime, se quiser passar do crime à virtude, isto é, sair de um estado violento para um suave, cairá numa inércia que certamente logo a levará à ruína.

O imperador e os mandarins da China, de tempos em tempos, tomam medidas para revoltar o povo a fim de obter, com essas manobras, o direito de promover horrendas carnificinas. Que este povo mole e afeminado se liberte do jugo de seus tiranos; ele os espancará por sua vez com muito mais razão, e o assassinato, sempre adotado, sempre necessário, só teria mudado de vítimas; ele faria o prazer de alguns e a felicidade de outros.

Os indianos tomam ópio para se encorajarem ao assassinato; depois se precipitam pelas ruas massacrando todos os que encontram pela frente; viajantes ingleses também encontraram essa mania na Batávia.

O espetáculo dos gladiadores animava sua coragem; Roma tornou-se guerreira pelo hábito de fazer do assassinato um jogo. Mil e duzentas a mil e quinhentas vítimas lotavam diariamente a arena do circo; e as mulheres, mais cruéis do que os homens, exigiam que os moribundos caíssem com graça e ainda encenassem66 sob as convulsões de morte

A República romana encorajava o suicídio; seus célebres devotamentos à pátria não passavam de suicídios. Quando Roma foi tomada pelos gauleses, os senadores mais ilustres consagraram-se à morte.

Só a piedade e a beneficência são perigosas no mundo. A bondade é apenas uma fraqueza cuja ingratidão e a impertinência dos fracos forçam sempre as pessoas honestas a se arrepender. Que um bom observador ouse calcular todos os perigos da piedade, e que os coloque em paralelo com os de uma firmeza convicta, e verá se os primeiros não serão maiores. Mas estamos indo longe demais, Eugénie; resumamos para a vossa educação um único conselho que podemos tirar de tudo o que foi dito: não deis ouvidos ao coração, minha filha, é o guia mais falso que a natureza nos poderia ter dado; fechai-o cuidadosamente aos apelos falaciosos do infortúnio. Vale muito mais a pena recusar aquele que de fato seria conforme o vosso interesse, do que vos arriscar entregando-vos a um celerado, a um intrigante ou a um trapaceiro; um teria leve consequência, o outro, o maior inconveniente.

Aquilo que os tolos chamam de corrupção está suficientemente estabelecido em mim para não deixar uma única esperança de retorno, e seus princípios estão muito bem gravados em meu coração para que os sofismas do cavaleiro possam destruí-los.

Sim, meu irmão, dá-nos apenas tua porra; dispensamos tua moral; ela é doce demais para os devassos de nossa espécie.

O que se deseja quando se goza? Que todos aqueles que nos rodeiam só se ocupem de nós, só pensem em nós, só cuidem de nós. Se os objetos que nos servem também gozam, ei-los mais ocupados consigo próprios do que conosco, e consequentemente nosso prazer será prejudicado. Não há homem que não queira ser déspota quando sente tesão. Por certo seu prazer diminui quando os outros também parecem senti-lo. Levado por um movimento de orgulho muito natural nesse momento, ele quer ser o único no mundo a ser suscetível de experimentar o que sente. A ideia de ver outro gozar como ele coloca-o numa espécie de igualdade que prejudica os atrativos individuais que o despotismo proporciona.. É falso, aliás, que haja prazer quando o proporcionamos aos outros; isto seria servi-los, e o homem de pau duro está longe do desejo de ser útil aos outros. Praticando o mal, ao contrário, ele experimenta todos os encantos provados por um indivíduo nervoso que faz uso de suas forças; ele então domina, é tirano. Que diferença para o amor próprio. Não acreditemos que ele se cale neste caso.

Quereis permitir, senhora, que eu morda e belisque vossa bela carne enquanto fodo?
SAINT-ANGE - O quanto quiser, meu amigo; mas minha vingança não tardará, estou te avisando; juro que, a cada vexação, soltarei um peido em tua boca.
DOLMANCÉ - Ah, meu deus. Que ameaça… só servirá para apressar teu suplício, querida. (Morde-a.) Vejamos se manterás a palavra. (Recebe um peido.) Ah, porra. Que delícia. Que delícia… (Ele lhe dá umas palmadas e imediatamente recebe outro peido.) Oh, que divino, meu anjo. Guarda alguns para o instante da crise69… e saibas que irei tratar-te com toda a crueldade… toda a barbárie… Porra… Não aguento mais… estou esporrando… (Morde-a, dá-lhe palmadas e ela não para de peidar.) Vê como te trato, sacana… como te domino… Toma mais esta… e esta… e que o último insulto seja no próprio ídolo em que sacrifiquei. (Morde-lhe o olho do cu; a postura se desfaz.)

Mas não podeis fazer aqui tudo o que quiserdes com ele?
DOLMANCÉ, baixo e misterioso. - Não, há certas coisas que exigem véus.
EUGÉNIE - Ah, meu deus. Dizei-nos ao menos de que se trata.

SÉTIMO E ÚLTIMO DIÁLOGO

Oh, quanto aos cuidados, nunca passaram de frutos do uso ou do orgulho; não tendo feito por Eugénie mais do que aquilo que o costume prescreve no país em que viveis, ela seguramente não vos deve nada. Quanto à sua educação, deve ter sido mesmo muito ruim, pois nos vemos aqui obrigados a refazer todos os princípios que vós lhe inculcais. Não há um único deles que trabalhe por sua felicidade, e nenhum que não seja absurdo ou quimérico. Vós lhe falastes em Deus, como se de fato houvesse um; de virtude, como se ela fosse necessária; de religião, como se todos os cultos religiosos fossem outra coisa que o resultado da impostura do mais forte e da imbecilidade do mais fraco; de Jesus Cristo, como se esse bandido fosse outra coisa além de um celerado e de um hipócrita. Vós lhe dissestes que foder era um pecado, e foder é a coisa mais deliciosa da vida; vós quisestes lhe inculcar os bons costumes, como se a felicidade de uma jovem não estivesse no deboche e na imoralidade, como se a mais feliz das mulheres não devesse ser incontestavelmente aquela que mais se atolou na imundice e na libertinagem, aquela que melhor afronta todos os preconceitos e que mais zomba da reputação. Ah, desiludi-vos, senhora, desiludi-vos. Nada fizestes por vossa filha; não cumpristes, a propósito, nenhuma obrigação ditada pela natureza

É preciso estar rodeado de cus quando se fode um.

Tu sofres, minha cara, tu choras, e eu gozo…

Sou ao mesmo tempo incestuosa, adúltera, sodomita, tudo isso numa garota que só foi deflorada hoje… Quantos progressos, meus amigos… com que rapidez percorri a estrada espinhosa do vício..

Na verdade, Dolmancé, é horrível o que nos mandais fazer; isso ultraja ao mesmo tempo a natureza, o céu, e as leis mais santas da humanidade.

Os crimes são impossíveis ao homem. A natureza, incutindo-lhes o irresistível desejo de cometê-los, soube prudentemente afastar deles as ações que pudessem perturbar suas leis.

Pois bem, meus amigos; como vosso instrutor vou atenuar a sentença; mas a diferença entre o meu pronunciamento e o vosso é que vossas sentenças são apenas efeitos de uma mistificação mordaz, ao passo que a minha será executada. Lá embaixo há um valete meu munido com um dos mais belos membros que existem na natureza, mas, infelizmente, destilando vírus e roído por uma das mais terríveis sífilis jamais vistas neste mundo. Vou mandá-lo subir: lançará seu veneno nos dois condutos naturais dessa amável e querida dama, a fim de que, durante o longo tempo em que durarem as impressões desta cruel doença, a puta se lembre de não incomodar sua filha quando ela foder

Acho agora essencial que o veneno que circula nas veias desta senhora não se exale; por isso, Eugénie deve cuidadosamente costurar a boceta e o cu, para que o humor virulento, mais concentrado e menos sujeito a evaporar-se, possa calcinar os ossos mais depressa.
EUGÉNIE - Excelente. Vamos, vamos, agulha e linha… Afastai as coxas, mamãe; vou coser-vos para que não me deis mais irmãos nem irmãs. (A senhora de Saint-Ange entrega a Eugénie uma enorme agulha contendo um grosso fio vermelho e encerado; Eugénie costura.)

Ah, sagrado-coração-de-Jesus. que tesão me dá essa loucura. Multiplicai os pontos, Eugénie, para que fique bem firme.

não fode esta senhora no caminho; lembra-te que ela está costurada e tem sífilis

A REVOLUÇÃO DA PALAVRA LIBERTINA

As condições não eram melhores. Os prisioneiros vagavam sujos, maltrapilhos e barbudos pelos corredores infectos. Seis deles contraíram febre maligna, dois morreram na semana em que Sade lá esteve.

Após uma semana em São Lázaro, Sade é transferido para o Albergue de Picpus, prisão domiciliar para nobres perseguidos que podiam gozar ali de certas regalias mediante uma considerável soma em dinheiro. A França vivia então o auge do Terror sob o comando de Robespierre, o “incorruptível”. Em nome da Revolução, seus partidários mandavam para a guilhotina (a “navalha nacional”) todos aqueles de algum modo ligados ao Antigo Regime, ou por simples desconfiança disso. Ser ateu confesso (ou suspeito), nesse momento, era no mínimo oferecer o pescoço à lâmina poderosa de Sanson, o carrasco sanguinário da Revolução que, segundo consta, teria chegado a cortar num dia 54 cabeças em apenas 24 minutos. O certo é que o ateísmo era visto como sinônimo de aristocracia. Robespierre em seus discursos propalava um ideário “inspirado por Deus”, fazendo crer que a Providência conspirava a favor dos revolucionários. Em A filosofia na alcova, Sade dá o troco: “Um deus que relegamos ao esquecimento” (…) “De onde o infame Robespierre quis tirá-lo”.

Numa de suas cartas desesperadas ele argumenta: “Meu coração é puro e meu sangue, se preciso, está prestes a correr pela felicidade da República”.5 Mas sua vida e seus escritos são suspeitos demais para que tais palavras surtam efeito.

romance libertino

Leitor de Rousseau e de toda a tradição sentimental, Sade tornar-se-á, no entanto, um de seus mais ferozes críticos. Em sua obra, pratica vários gêneros entre os recorrentes do século e quase sempre recombinando-os no interior de um único romance, como em Aline e Valcour, publicado em 1795, o mesmo ano de A filosofia na alcova. Formas como a do romance epistolar, do romance picaresco, do romance filosófico estão presentes

Mikhail Bakthin

Lembrar que, para Bakthin, “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”.

era a época em que chorar em público valorizava o sujeito aos olhos da sociedade. Lágrimas no salão. Lágrimas no teatro. Lágrimas em toda parte: a senhora de Chatelet ria para não chorar. Mas Voltaire, o “humano Voltaire se desfazia em lágrimas, porque não tinha vergonha em parecer sensível”.13 “Que povo é feroz o bastante para não ser tocado pelos signos da dor?”, diz a senhora Graffigny nas Cartas de uma peruana.14 Diderot se comove diante de Greuze. Sua pintura lhe parece dramática; a pintura tem mesmo para esse filósofo uma função moralizadora: instruir, corrigir o caráter, convidar à virtude, “o pincel já não foi longe demais e consagrado o bastante ao deboche e ao vício?”.15 Diante de O paralítico, Diderot exclama: “Ah meu Deus, como ele me toca. Se o vir de novo, acho que vou chorar.”.16 Eis o sentido da “bela moralidade” (termo do filósofo). A beleza é ética. Começa aqui, por sinal, com Diderot, a crítica de arte, na crença de que o homem sensível está acima do homem de gênio e até do grande escritor, embora o próprio filósofo reconheça que a sensibilidade “é a qualidade dominante dos seres medíocres”,17 palavras que terão, quem sabe, deliciado o marquês.

No universo literário sadiano, porém, a relação entre os seres sensíveis e virtuosos está subordinada a outra, mais poderosa e determinante: a dos libertinos com suas vítimas. Nela, os virtuosos ou vítimas e sua sensibilidade (seu idealismo sentimental) são a parte ofendida naquilo que Maurice Blanchot denominou “sistema sadiano”.18 De um lado, o sofrimento das vítimas faz o prazer dos libertinos; de outro, os valores do idealismo sentimental são atacados, ridicularizados e destruídos pela palavra desses devassos.

infortúnios da virtude e a das prosperidades do vício

Sua formação consiste em corromper-se no uso da linguagem dos devassos e na prática das ações de tal modo que, liberta dos “laços absurdos e perigosos de uma virtude quimérica e de uma religião nojenta”, possa “semear algumas rosas sobre os espinhos da vida”.

Costumes diferentes de outros povos, ou de outras épocas, comprovam que tais valores podem até se inverter, e “o que é crime aqui, frequentemente é virtude cem léguas além”.19 Os vícios fazem parte do direito natural do homem. Quanto mais libertino ele se torna, mais fiel à natureza será.

Com efeito, Eugénie parece ter as mesmas disposições para o vício e para o crime que outra grande libertina sadiana: Juliette. Ambas farão carreira nas “prosperidades do vício”. À maneira de Juliette, Eugénie é uma heroína menos a moral. Em Sade, palavras como vício, fortuna, crime e prazer se confundem.

Deus não existe e a virtude é uma quimera

a crueldade sadiana é apenas uma estratégia de negação do mundo, uma forma de demonstrar seus equívocos e quão distante ele se encontra do ideal de felicidade humana. Para isso, ele desceu nos abismos do homem, iluminou seus territórios (a moral, a filosofia política, a psicologia), mas seu principal domínio sempre foi a estética

A natureza, em Sade, é deus destituído da divindade. Quando fala da natureza, ele com frequência a trata em termos como “esse grande agente universal”.

Dolmancé explica a Eugénie, contestando o cavaleiro: “É da natureza que os devassos tiram os princípios que colocam em ação. Já te disse mil vezes que a natureza, para a perfeita manutenção das leis de seu equilíbrio, necessita tanto de vícios quanto de virtudes, e nos inspira um por vez os movimentos que lhe são necessários; logo, não praticamos nenhuma espécie de mal nos livrando a tais movimentos, de quaisquer tipos que se possa supô-los”

Seu maior objetivo, como diz Dolmancé, é gozar, não importando de que modo seja. O ato de gozar é uma paixão que subordina todas as outras e que reúne todas ao mesmo tempo. Saber ouvir a natureza, portanto, é ouvir a si próprio.

Um ser que aprecia valores como a benevolência, a caridade, a solidariedade, necessariamente é surdo para o clamor natural da volúpia, excetuando-se, é claro, os gozos que a dor proporciona, mas que dizem respeito a um universo místico ou masoquista, não propriamente ao sadiano. É por isso que Dolmancé e Saint-Ange fazem questão de destruir tais valores na educação de Eugénie.

Vauvenargues prefere um homem apaixonado e criminoso (sic) a um virtuoso desprovido de paixões, porque ele se mostra no limite máximo de sua grandeza, na explosão do sentimento, das paixões.

O que se poderia chamar de “fisiologia da perversidade”, dada a predisposição natural do libertino aos crimes, depende exclusivamente de uma circulação mais violenta dos espíritos no sangue provocada pelo choque nos nervos graças à percepção ou efeito da dor alheia. Para se obter isso, é necessário uma certa “predisposição” (que, diga-se de passagem, todo libertino tem). É parte importante da educação de Eugénie que sua “máquina de gozo” seja despertada nesse sentido. As formas pelas quais o organismo libertino será disposto ao prazer dizem respeito a uma prática sistemática de luxúria com inúmeros procedimentos e posturas, na qual a imaginação representa um suplemento essencial.

Em Sade as vítimas não gozam. Só fornecem este alimento indispensável ao desejo libertino em direção ao gozo: a linguagem da dor.

É bem verdade que as heroínas sentimentais choravam por um amor culpável, por perseguição e maus tratos sofridos de um esposo cruel ou pai, entre outros infortúnios; mas a intenção daqueles autores visava fortalecer a moral do leitor provocando nele uma espécie de comoção mesclada de revolta interior, que o fazia identificar-se com os infortunados e tomar seu partido. A emoção provocada no leitor era a prova de que a virtude era o único ideal de verdade a seguir, apesar da má sorte de seus heróis.
Em Sade, o tema da “inocência punida” que atravessa todo o século é orientado num sentido inverso pela narrativa, sendo oferecido ao leitor, ao contrário, como uma prova de que o destino infeliz que atinge as heroínas sentimentais é o resultado de sua opção pela virtude e de não terem ouvido os “conselhos da natureza”. Questão de sensatez, mas uma sensatez tendenciosa que em nome da verdade natural torna-se ela própria o fiel da balança. Assim, Justine morre fulminada por um raio. O raio é a vingança da natureza contra os ideais dos virtuosos e seu “deus de farinha”.

Para Sade, nada é tão oposto ao sistema da liberdade republicano quanto os dogmas do cristianismo. Michelet também salienta esta incompatibilidade

Vê-se logo por que todas as vítimas sadianas são cristãs, como a maior parte das heroínas virtuosas dos romances sentimentais. E, se a Julie de Rousseau é a síntese e o ponto culminante dessa tradição, Aline e Justine, a grande virtuosa sadiana, representam a sua crítica e ruptura.

Segundo Versini,59 é do interesse do público que o horror do vício seja sublinhado com um traço espesso. Tal tendência, aliás, reforça a tese defendida por Sade em sua “Ideia sobre o romance”,60 segundo a qual o vício é o principal responsável para que um romancista possa prender a atenção do leitor. Com Sade, essa tendência, já delineada em sua época, é levada às últimas consequências.

Julia Kristeva mostra que menipeia, de Menipeu, filósofo do século III a.C., foi o termo empregado pelos romanos para designar certo gênero satírico.62 “Todos os grandes romances polifônicos herdam uma estrutura carnavalesca menipeana (Rabelais, Cervantes, Swift, Sade, Balzac, Lautréamont, Dostoiévski, Joyce, Kafka). A história do romance menipeano é também a história da luta contra o cristianismo e sua representação, isto é, uma exploração da linguagem (do sexo, da morte), uma consagração da ambivalência, do “vício

Se Sade aprecia tanto o ideal estético clássico, talvez seja porque, no mundo pagão, os costumes são mais condizentes com os valores libertinos e parecem convir melhor às suas ações. Por isso, deveriam ser adotados pelos republicanos. O homem ativo, agressivo, analisa Nietzsche, está muito mais próximo da justiça do que o homem “reativo” da tradição judaico-cristã

os “bons” passaram a ser, na tradição judaico-cristã, os infelizes, os pobres, os fracos, os piedosos e sofredores em geral.71 Pensando-se nesses termos, “boas”, no sistema sadiano, são as Alines, as Justines, as Mistival; são as vítimas, esses seres altruístas unidos em compaixão na dor e nas lágrimas.

a calúnia não pode ser considerada um mal, pois, se atinge um homem perverso, não tem efeito por ser redundante, já que ele o praticou em demasia. E se recai sobre um virtuoso, acaba, na verdade, ressaltando ainda mais suas qualidades. Logo, a calúnia está liberada.
Quanto ao roubo, recorrer-se-á à história, procedimento constante em Sade, e, diga-se de passagem, iluminista, que repudia a idéia de leis morais universais, preferindo pensar a moral em termos da relatividade dos costumes nos povos, a exemplo de Voltaire e Montesquieu.

A propósito, como disse Espinosa, “nada é tão útil a um homem quanto seu próximo”. Sabe-se o quanto o sistema sadiano depende da figura do outro para funcionar, uma vez que se estrutura na bipolaridade libertino/vítima. O outro, em Sade, é a condição do gesto transgressor.

Para que alguém seja admitido na Sociedade dos Amigos do Crime, é preciso que aceite determinadas regras segundo as quais, para satisfazer seus desejos, ele deverá saciar os desejos de outrem

Em sua utopia, Sade quer convencer que a libertinagem instituída pela corrupção dos costumes é o único modo de tornar os cidadãos felizes

ção dos costumes é o único modo de tornar os cidadãos felizes. Não por acaso, aliás, a forma de texto escolhida para veicular estas ideias é a do panfleto político. Texto pletórico, cheio de energia, o panfleto se caracteriza por seu caráter de urgência, por ser um programa de ação imediata: práxis e logos se harmonizam. O ponto de partida desse “mais um esforço”, dessa “mais-revolução”, é fazer da palavra libertina um instrumento de transformação política onde o erotismo se torna o centro do poder, e o desejo individual suas bases de sustentação. “Um povo só tem um inimigo perigoso, seu governo”, diz Saint-Just.77 Mas na utopia de Sade, o governo é o único que poderá garantir a felicidade dos cidadãos institucionalizando a libertinagem e a corrupção dos costumes como formas novas de convívio social. O mundo de pernas para cima

Eugénie, você vai ser castigada, diz Dolmancé, vou açoitá-la. Mas não se aflige, porque depois será sua vez de bater. Apanhar, ser aviltado, acirra o orgulho libertino.

Dolmancé explica a Eugénie a necessidade do egoísmo no gozo: “O que se deseja quando se goza? Que todos aqueles que nos rodeiam só se ocupem de nós, só pensem em nós, só cuidem de nós. Se os objetos que nos servem também gozam, ei-los mais ocupados consigo próprios do que conosco, e consequentemente nosso prazer será prejudicado. Não há homem que não queira ser déspota quando sente tesão”.79 Desse modo, não apenas se aceita a tirania na libertinagem, mas ela própria é a razão do gozo. “A ideia de ver o outro gozar como ele (o devasso) coloca-o numa espécie de igualdade que prejudica os atrativos individuais que o despotismo (grifo de Sade) proporciona. Contraditoriamente, a libertinagem só liberta e torna os indivíduos felizes numa relação que os torna ao mesmo tempo dominantes e dominados. O ideal burguês revolucionário da igualdade sofre outro golpe da política do corpo sadiana.
É certo que a libertinagem sadiana recomenda o gozo solitário, pois goza-se melhor quando o outro (a vítima) não participa deste prazer; ao contrário, o libertino prefere que o outro sofra enquanto ele goza.

Nas orgias, os libertinos desempenham todas as funções, sem preconceito. Seu erotismo vive dessa inversão de papéis, desse jogo de máscaras. Isso serve para estimular a imaginação e multiplicar os prazeres, estendendo-os, como pede um dos monges libertinos na Nova Justine, para além de todos os limites.

o altar é o cu

Seu principal argumento, com muito humor, baseia-se na lógica mecanicista que determina que o orifício do ânus se ajusta perfeitamente aos membros viris, o que faz dessa disposição a mais natural. Caso contrário, “como é possível querer que um membro redondo possa se ajustar a um buraco oval?”.81 A sodomia, portanto, é questão de organização natural de cada indivíduo.

Finalmente, tem lugar no texto o exame do assassinato. Será o assassinato um crime? Tal questão é analisada sob diversos aspectos.
Seu ponto de partida é “rebaixar o homem ao nível de todas as outras produções da natureza”, pois o filósofo “não acaricia as pequenas vaidades humanas”.84 Aos olhos da natureza, não existe diferença entre o homem e as outras criaturas, animais e plantas.