
Our Dark Side. A History of the Perverse
A parte obscura de nós mesmos. Uma história dos perversos (Transmissão da Psicanálise)
Elisabeth Roudinesco
No que se refere à perversão enquanto denominação, estrutura e vocábulo, não foi estudada senão pelos psicanalistas.
Gilles de Rais (Barba Azul), George Chapman (Jack o Estripador), Erzebet Bathory (a Condessa de Sangue), Peter Kürten (o Vampiro de Düsseldorf).
Dorian Gray e Gregor Samsa, 3 investiram-se de suas formas, um para fazer cintilar contra a medicina mental a grandeza do desejo perverso no cerne de uma aristocracia caduca que preferia servir à ar
te em vez de ao poder, o outro para desmascarar a nudez abjeta no cerne da normalidade burguesa.
Seja gozo do mal ou paixão pelo soberano bem, a perversão é uma circunstância da espécie humana: o mundo animal está excluído dela, assim como do crime. Não somente é uma circunstância humana, presente em todas as culturas, como supõe a preexistência da fala, da linguagem, da arte, até mesmo de um discurso sobre a arte e sobre o sexo: “Imaginemos uma sociedade sem linguagem”, escreve Roland Barthes, “eis que um homem nela copula com uma mulher, a tergo, misturando à sua ação um pouco de pasta de trigo. Nesse nível, não há nenhuma perversão.”
Pica” é um termo de medicina derivado de “pega” (a ave que come todo tipo de coisas). Designa uma perversão do paladar caracterizada pela aversão aos alimentos corriqueiros e pelo desejo de comer substâncias não-nutrientes: carvão, gesso, raízes. A diplopia é uma alteração da visão, uma má convergência, que faz com que vejamos dois objetos em lugar de um.
Nessa época, ensina a hagiografia, vivia num mosteiro uma jovem virgem que simulava ser louca. As demais passaram a rechaçá-la e a relegaram à cozinha. Ela então começou a prestar todo tipo de serviço, a cabeça coberta por um trapo, comendo migalhas e cascas sem se queixar, mesmo sendo espancada, injuriada e amaldiçoada. Avisado por um anjo, um santo homem dirigiu-se ao mosteiro e pediu para conhecer todas as mulheres, inclusive a apelidada de “esfregão”. Quando esta lhe foi apresentada, ele caiu a seus pés, rogando sua bênção, em meio às outras mulheres doravante convencidas de sua santidade. Entretanto, incapaz de suportar a admiração de suas irmãs, a “esfregão” abandonou o mosteiro e sumiu para sempre.
ela se reconforta apenas no fato de ser esse ponto de abjeção, o “nada” rechaçado. Eis o que ela “prefere”: ser a esfregão … . Ela reivindica para si as mais humildes funções do corpo, perdendo-se num insustentável, abaixo de qualquer linguagem. Mas esse rechaço “repugnante” permite às outras mulheres a partilha das refeições, a comunidade dos signos vestimentares e corporais escol
hidos, a comunicação das palavras; a excluída viabiliza toda uma circulação
conspurcação
Em outras palavras a imersão na degradação comanda o acesso a um além da consciência — o subliminar —, bem como à sublimação no sentido freudiano. 8 E a travessia do sofrimento e da decadência leva assim à imortalidade, suprema sabedoria da alma.
Por essa narrativa, portanto, o homem deve persistir em sua fé, suportar seus sofrimentos, ainda que injustos, e jamais esperar resposta de Deus, pois é independentemente de qualquer súplica que Deus o liberta de sua queda e lhe revela sua transcendência.
Nessa perspectiva, a salvação do homem reside na aceitação de um sofrimento incondicional. E esta é a razão de a experiência de Jó ter sido capaz de abrir caminho para as práticas dos mártires cristãos — e das santas mais ainda — que farão da destruição do corpo carnal uma arte de viver e das práticas mais degradantes a expressão do mais consumado heroísmo.
Eis efetivamente por que A legenda áurea, obra pia que relata a vida dos santos, pode ser lida como uma espécie de prefiguração dessa inversão perversa da Lei que será efetuada por Sade em Os 120 dias de Sodoma. Encontramos ali os mesmos corpos supliciados, nus, degradados. Martírio vermelho, martírio branco, martírio verde. Com base no modelo desse confinamento monástico, repleto de macerações e dores, o marquês criará, privando-o da presença de Deus, uma espécie de jardim sexológico, entregue à combinatória de um gozo ilimitado dos corpos. 1
Naturalmente, a marca de cada sexo subsiste. Assim, enquanto as jovens virgens sacrificadas são em geral cristãs desde a infância, os soldados convertem-se brutalmente, sofrendo imediatamente o martírio. Essa diferença entre a vocação precoce das mulheres e a conversão mais tardia dos homens atravessa toda a história da santidade. 12
Toda ideologia funerária cristã vai oscilar entre esse corpo de miséria e esse corpo de glória e organizar-se em torno do desenraizamento de um na direção do outro.”
O discurso místico, portanto, alimenta-se de desvios, conversões, margens, anormalidade. O que ele busca captar, sua maneira de perverter o corpo, é da ordem do indizível — mas também do essencial.
Catarina de Siena 26 afirmou um dia não ter comido nada tão delicioso quanto o pus dos seios de uma cancerosa. E ouviu então Jesus lhe falar:
Minha bem-amada, travaste por mim grandes combates e, com a minha ajuda, saíste vitoriosa. Nunca me foste mais querida e mais agradável … . Não apenas desprezaste os prazeres sensuais, como venceste a natureza bebendo com alegria, por amor a mim, uma horrível beberagem. Pois bem, uma vez que praticaste uma ação acima da natureza, quero oferecer-te um licor acima da natureza.
Uma vez que Deus não pode apegar-se senão a carnes imundas, ela desejava, dizia, obedecer a esse senhor e servir seu ideal, tornando-se carrasco de si mesma ao substituir o encanto de seu belo rosto pelo horror de uma face escalavrada. Então, durante 38 anos, levou a vida de uma grabatária, impondo a seu corpo terríveis sofrimentos: gangrena, epilepsia, peste, fratura dos membros.
Quanto mais os médicos acorriam à sua cabeceira para extirpar o mal, examinar seus órgãos e, às vezes, retirá-los do corpo para limpá-los, mais a doença piorava — sem com isso levá-la à morte.
Utilizando-se de chicote, nervo de boi, chibata, bastão, urtigas, cardos, espinhos, cactos ou de diversos instrumentos de tortura, a flagelação foi, em todas as épocas e culturas, um dos componentes mais importantes de uma prática especificamente humana que visava a ora punir, ora proporcionar uma satisfação sexual ou influir na procriação. 33 Seu uso era freqüente na família ocidental, e mais ainda nos colégios ingleses, antes da interdição progressiva, durante todo o século XX, dos diferentes tipos de castigos corporais infligidos aos adultos, depois às crianças.
Seus adeptos acusavam-se a si mesmos a fim de compensarem com o sofrimento o prazer que o vício proporciona ao homem: prazer do crime, do sexo, da depravação.
“O importante”, aponta Patrick Vandermeersch, “… é manifestar e sentir pessoalmente e de maneira profunda que a carne é feia, que seu próprio corpo é malformado, e pedir que outra corporeidade instale-se espontaneamente. A flagelação, portanto, proporcionaria a sensação de um corpo diferente.”
Deixando de ser uma oferenda a Deus ou um culto mariano, a flagelação foi então considerada um vício ligado a uma inversão sexual ou a um travestimento, sobretudo quando o rei Henrique III, homossexual notório, foi suspeito de se entregar a ela após ter fundado, em 1583, uma Congregação de Penitentes:
Por volta do século XVI, viu-se, com um refinamento digno de sua pessoa e de sua corte, o rei
Henrique III flagelar-se em público com seus namorados nas procissões que faziam, vestidos com túnicas brancas, excitando-se dessa forma para as orgias de luxúria às quais, após a cerimônia, esses pios personagens dedicavam-se nos aposentos secretos do Louvre.
Nascido em 1404, Gilles de Rais
Em 1424, Gilles apoderou-se da imensa fortuna desse avô odioso, pensando em dilapidá-la integralmente em despesas feéricas e bebedeiras desvairadas. Com seus excessos, destruía as riquezas que o velho senhor feudal acumulara graças a tramas cínicas e brutalidades premeditadas. À avareza de um sucedia portanto a prodigalidade do outro. Porém, no cerne dessa inversão, perpetuava-se o gozo do mal: com efeito, os dois predadores compartilhavam a mesma paixão pelo sangue e a mesma negação da lei dos homens.
Depois da morte do avô, em novembro de 1432, Gilles de Rais embrenhou-se no crime: em Champtocé, Tiffauges, Machecoul. Cercado por serviçais, que eram seus fornecedores, seqüestrava crianças das famílias camponesas e lhes impunha as piores sevícias. Retalhava os corpos, arrancava os órgãos, corações sobretudo, dando-se ao trabalho de sodomizá-las na hora de sua agonia. Freqüentemente, tomado pelo furor, usava seu membro ereto para esfregá-lo contra os ventres dilacerados. Era quando entrava numa espécie de delírio no momento da ejaculação. Preocupado com a estética e a perfeição teatral, escolhia as crianças mais bonitas — meninos de preferência —, fazendo-se passar por seu salvador e atribuindo o vício a seus lacaios. Assim, obtinha as mímicas desejadas. Seduzidas e sedutoras, as crianças eram misericordiosas com ele, sem saber que lhe provocavam intensa excitação. No auge da loucura, ele lhes rachava o crânio, depois entrava em transe, invocando o demônio ou transformando-se ele próprio num dejeto, sujo de sangue, esperma e restos de comida
aniquilar o humano no homem
Loki é um deus do mundo escandinavo essencialmente amoral, sem dignidade, desbocado, semeador de desordem, travesti, culpado de se submeter à sodomia. Não é representante de nenhuma das três funções (soberania, guerra, fecundidade). Excluído da comunidade
dos outros deuses, todavia lhes é indispensável: eles precisam de seus serviços, embora desconfiem dele e o “ponham para correr”
Convém saber”, dizia Paracelso, “que toda doença é uma expiação e que,
se Deus não a considera terminada, nenhum médico pode interrompê-la.”
Segundo esse individualismo barroco, a experiência prevalecia sobre o dogma e a paixão sobre a razão. “Quando dizemos: aquele senhor está apaixonado por aquela senhora”, afirmava Marivaux, “é a mesma coisa que disséssemos: o sujeito viu a mulher, sua visão excitou desejos em seu coração, ele arde de vontade de enfiar seu cacete na boceta dela.”
A filosofia da alcova
Nesse texto admiravelmente construído, e não comportando nenhum relato de atos sexuais, Sade preconiza, como fundamento para a República, uma inversão radical da lei que rege as sociedades humanas: obrigação da sodomia, do incesto e do crime. Segundo esse sistema, nenhum homem deve ser excluído
da possessão das mulheres, mas nenhum pode possuir uma em particular. Daí decorre que as mulheres devem não apenas prostituir-se — tanto com mulheres quanto com homens —, como não aspirar senão à prostituição pela vida afora, uma vez que esta é a condição de sua liberdade. Como os homens, devem ser sodomitas 12 e sodomizadas na medida em que receberam da natureza pendores mais violentos que os dos homens para os prazeres da luxúria. Assim, são submetidas ao princípio generalizado de um ato sexual que imita o estado de natureza — o coito a tergo —, mas que, ao mesmo tempo, dilui as fronteiras da diferença entre os sexos.
a consciência da diferença sexual e o desejo de sua transgressão ou sua superação.
20Como podemos constatar, aos olhos de Sade só é aceitável a coletividade dos irmãos predadores, as mulheres tornando-se ora seus carrascos, porque os superam no vício, ora suas vítimas, quando se negam a obedecer às leis de uma natureza integralmente tomada pelo exercício do crime.
Sade propõe, de certa forma, um modelo social fundado na generalização da perversão. Nem interdito do incesto, nem separação entre o monstruoso e o ilícito, nem delimitação entre loucura e razão, nem divisão anatômica entre homens e mulheres: “Para conciliar o incesto, o adultério, a sodomia e o sacrilégio”, diz ele, “o pai deve enrabar sua filha casada com uma hóstia.”
Se o homem é assassino por natureza, diz Dolmancé, deve obedecer à sua pulsão. Dessa maneira, tem o direito, e mesmo o dever, de matar o outro sob o impulso de suas paixões. Em contrapartida, nenhuma lei humana pode substituir friamente a natureza para permitir que o assassinato se torne legal.
um jogo recreativo em que viriam soçobrar todas as fantasias típicas dessa perversidade polimorfa que caracteriza o mundo da infância.
todo um breviário da desconstrução corporal que, sabemos, permite à criança projetar para fora de si o terror que lhe inspira sua entrada no universo da linguagem.
Daí o paradoxo: ao inventar um mundo centrado na absoluta transparência dos corpos e da psique, isto é, numa infantilização fantasística das condutas humanas, Sade propõe um modelo de laço genealógico que elimina a perversão para melhor normalizá-la — e portanto impedi-la de desafiar a Lei. Assim, tenta — sem conseguir, uma vez que dela quer fazer a Lei — aboli-la enquanto parte obscura da existência humana.
Por outro lado, se não houvesse passado de um mero libertino, pornógrafo e panfletário, levando uma existência de dândi no contexto de uma época dominada pela tranqüilidade, o marquês nunca teria sido capaz de ocupar essa postura única de príncipe dos perversos na história ocidental (literária e política). Profanador da Lei, inventor de uma erótica disciplinar, senhor que desafia apenas a si próprio, miasma obsceno jogado às traças por três regimes sucessivos, em suma, criador de uma linguagem do êxtase textual capaz de resistir a todos os interditos
Sade”, escreve Bataille, “não teve em sua vida senão uma ocupação, que definitivamente o arrebatou, a de enumerar até o esgotamento as possibilidades de destruir os seres humanos, destruí-los e gozar com o pensamento de sua morte e de seu sofrimento.
Por conseguinte, o casamento não impediu o marquês de se entregar a seus vícios. E foi com Jeanne Testard, uma jovem operária grávida que às vezes fazia “programas”, que ele voltou a se enfurecer contra a religião. Um dia, ao mesmo tempo em que ejaculava num cálice, introduziu-lhe hóstias no ânus, depois de se flagelar com uma palmatória em brasa. Obrigou-a no fim a blasfemar e tomar um laxante para que se aliviasse sobre um crucifixo.
aproveitou-se do confinamento para conquistar, na intimidade de um violento confronto consigo mesmo, a mais elevada das liberdades, a única à qual pôde aspirar: a liberdade de dizer tudo — logo, de escrever tudo.
cadafalso
Robespierre põe fim à campanha anticristã: “Aquele que quer impedir a missa”, disse ele, “é mais fanático que aquele que a oficia. Há homens que querem ir mais longe, que sob o pretexto de destruir a superstição querem transformar o próprio ateísmo numa espécie de religião … . Se Deus não existisse, teríamos que inventá-lo.”
Logo, é efetivamente porque não era nem louco, nem criminoso, nem palatável pela sociedade que Sade foi considerado um “caso” de novo gênero, isto é, um perverso — louco moral, semilouco, louco lúcido —, segundo a nova terminologia psiquiátrica.
Para obrigar as mulheres a serem sodomitas, Sade preconiza a utilização do consolo: “Após eu ter sido seu marido”, diz Dolmancé a Madame de Saint-Ange, “quero que seja o meu; pegue o seu mais enorme consolo, … prenda-o nos quadris, madame, e inflija-me agora as mais terríveis estocadas”
A pederastia, na Grécia, baseava-se numa relação amorosa e sexual, com ou sem penetração, entre dois homens, um sendo o iniciador e outro o aluno: um adulto (eraste) e um adolescente (erômenos), entre 12 e 18 anos e em geral púbere.
Após ter provocado a morte de todos com quem se depara, procura extrair, para dela fazer o perfume mais sublime, a própria essência do corpo humano. E, para tanto, comete, sem a menor culpa e em nome da ciência dos aromas, os crimes mais atrozes. Morrerá, vítima de si mesmo, devorado cru por um bando de rufiões e putas, em meio ao fedor cadavérico do cemitério dos Inocentes.
Nessa perspectiva, todas as práticas sexuais são laicizadas e nenhuma delas mais constitui objeto de delito ou crime desde que exercidas em privado e consentidas por parceiros adultos. A lei intervém apenas para proteger os menores, punir o escândalo — isto é, os “ultrajes” cometidos nas vias públicas — e condenar os abusos e violências perpetrados sobre personagens não consentâneos.
Richard von Krafft-Ebing, médico austríaco contemporâneo de Freud, efetua a síntese mais rigorosa de todas as correntes da sexologia numa obra célebre, Psychopathia sexualis, 20 que será sucessivamente reeditada
Krafft-Ebing conduz o leitor pela imensidão de uma espécie de inferno existencial onde se cruzam os representantes 21 de todas as classes da sociedade: idiotas das cidades e dos campos exibindo seus órgãos ou penetrando os animais por todas as cavidades possíveis, professores universitários fantasiados com corpetes ou calçados femininos, homens da alta sociedade adeptos dos cemitérios, travestis em busca de disfarces e andrajos, pais tranqüilos estupradores e aliciadores à procura de crianças ou moribundos, ministros do culto proferindo blasfêmias ou se entregando à prostituição etc.
percebem que à homossexualidade não pode ser atribuída, no discurso da ciência, o mesmo status das outras perversões. Com efeito, se a descrição das perversões sexuais efetua-se sob os auspícios do grotesco, do monstruoso, da compaixão, a da homossexualidade assume aspecto bem diferente. Portanto, a questão de sua definição divide cada vez mais os psiquiatras na medida em que todos eles concordam ao apontar sua ocorrência entre os maiores homens que a civilização já produziu: Sócrates, Alexandre o Grande, Shakespeare, Michelangelo, Leonardo da Vinci, o papa Júlio II, Henrique III, Cambacérès etc.
O homossexual era estigmatizado no século XIX apenas se pretendesse viver de acordo com seu vício e escapando às leis da procriação. Da mesma forma, o adepto do sexo solitário.
onanismo
Designada no século XVIII como um “perigoso suplemento”, a masturbação continuou a ser vista, um século mais tarde, ao lado da homossexualidade, como a maior das perversões: uma exposição perigosa à loucura e à morte.
Muito tempo depois de aceitas as teses pasteurianas, ainda se acreditava na fábula inventada por Tissot segundo a qual todo tipo de doença infecciosa ou viral tinha como origem a prática da masturbação
Nunca é o bastante insistir no fato de que Freud foi o único cientista de sua época — depois de muitas divagações — 41 a deixar de ver no trio infernal do homossexual, da histérica e da criança masturbadora a encarnação de uma noção de perversão reduzida à inépcia. E assim como deixou de querer domesticar a perversão ao atribuir seus pretensos estigmas a personagens excluídos da procriação, da mesma forma abandonou as classificações oriundas da sexologia, rompendo, por conseguinte, com o princípio de uma descrição voyeurista — isto é, perversa — das perversões sexuais. Substituiu esse dispositivo por uma conceitualização do mecanismo psíquico da perversão, assumindo todavia o risco de desprezar a longa ladainha das confissões oferecidas à medicina mental pelo povo dos perversos.
a perversão aparece como uma renegação da castração com fixação na sexualidade infantil.
“É precisamente a ênfase colocada no mandamento ‘Não matarás’ que nos dá a certeza de que descendemos de uma linhagem infinitamente longa de assassinos que tinham no sangue o prazer do assassinato, como talvez nós mesmos ainda.”
A perversão, segundo Freud, é de certa forma natural no homem. Clinicamente, é uma estrutura psíquica: ninguém nasce perverso, torna-se um ao herdar, de uma história singular e coletiva em que se misturam educação, identificações inconscientes, traumas diversos. Tudo depende em seguida do que cada sujeito faz da perversão que carrega em si: rebelião, superação, sublimação — ou, ao contrário, crime, autodestruição e outros.
a patologia esclarece a norma
ao contrário da medicina mental que buscava, mediante a dessacralização, circunscrever, controlar ou erradicar as perversões, Freud reportava a perversão a uma categoria antropológica da própria humanidade
Nada era mais perverso, a seus olhos, do que aquela moral positivista que visava a domesticar as paixões humanas, até mesmo as mais transgressivas.
Muito mais que Balzac, Flaubert, inventor do romance moderno, inscreve-se resolutamente contra os ideais de seu século. Homem do Iluminismo sombrio, tinha horror à democracia de opinião, ao colonialismo e à ordem moral. Temia que a industrialização, isto é, o advento das massas na história, levasse o povo a aderir a crenças vãs: devoções cientificistas, cultos obscurantistas. Entretanto, adepto de uma pornografia cujas delícias ressuscitava por ocasião de suas viagens ao Oriente
Porém, na realidade, prosseguia ele, pelo próprio estilo de sua narrativa, o escritor perverte tanto as regras do romance quanto as da moral, tornando-se cúmplice do gozo destruidor de sua heroína. Assim, deve ser julgado culpado, em nome dela, por odiar o casamento, valorizar o adultério e a luxúria, estimular a ruína financeira dos lares, negligenciar o instinto materno e, por fim, fazer a apologia do suicídio.
O autor falava por exemplo, dizia ele, das “degradações do casamento” e das “desilusões do adultério”, ali onde deveria ter dito “desilusões do casamento” e “degradações do adultério”.
Rebelde sem causa, sempre à procura de um destino diferente do seu, escrava sexual e flagelada de seu primeiro amante, inapta a assumir seus deveres de mãe e esposa, Emma encarna no mais alto ponto esse gozo feminino, essa loucura do amor desvairado e essa atração pela morte voluntária cujos danos a ciência médica jamais deixará de apontar sem conseguir domesticá-los.
acha-se afogada na contemplação melancólica de seu desejo insatisfeito. A meio caminho entre Justine e Juliette, não sabendo escolher entre os infortúnios da virtude e as prosperidades do vício, a heroína flaubertiana só encontra seu caminho aniquilando-se a si própria num ato sacrílego. É dessa forma que ingere intempestivamente uma dose cavalar de pó de arsênico.
Flaubert termina seu romance com o triunfo de Homais. Respeitado por suas virtudes cívicas, o diabo de pantufas verdes consegue, após a morte de Charles Bovary, impor aos habitantes de Yonville a política higienista com que sonhara, manipulando, nos fundos de sua lúgubre botica, suas poções, venenos e instrumentos de tortura. Em nome da ciência e do progresso, expulsa da região todos os indesejáveis — miseráveis, doentes, mendicantes, anormais, vagabundos —, a fim de poder gozar, o mais legalmente possível, do ódio que dedica ao gênero humano
Tornou-se policial como quem se torna criminoso. Frio e lúgubre, vestindo preto, sem afeto, casto e imbuído de abnegação, tem como maior paixão odiar os livros, abominar toda forma de rebelião e idolatrar a autoridade a ponto de se identificar com a Lei para melhor pervertê-la.
a arte de governar os povos não com a ajuda de uma política baseada numa filosofia da história, mas por meio das ciências da vida e das ciências ditas humanas — antropologia, sociologia etc. —, na época vinculadas à biologia.
Favoráveis à emancipação das mulheres e a um controle harmônico da procriação, esses médicos iluministas executaram um projeto estadístico de regeneração de almas e corpos, um programa eugenista pelo qual incitavam a população a se purificar mediante casamentos medicamente controlados.
convencidos de que determinadas vidas não valiam a pena ser vividas: a dos sujeitos acometidos por um mal incurável, uma deformidade, uma deficiência ou uma anomalia, a dos doentes mentais e finalmente a das raças ditas inferiores.
Homossexualidade: termo criado em 1869 pelo médico húngaro Karoly Maria Kertbeny (1824-82) para designar todas as formas de amor carnal entre pessoas do mesmo sexo biológico. Entre 1870 e 1910, o termo se impôs, substituindo assim as antigas denominações (sodomia, inversão, uranismo, pederastia, safismo, lesbianismo). Faz então par com a palavra “heterossexualidade”, forjada em 1880.
Theodor Adorno, La psychanalyse révisée
Flaubert define a estupidez como o mal absoluto (um mal bestial), o pecado capital do advento da democracia burguesa, e, portanto, inimigo irredutível. Foi o primeiro a ter feito dela uma perversão ao identificá-la ao poder exercido sobre o povo pelas idéias feitas, pela opinião pública, pelos ideais da falsa ciência
Jacques Lacan retomará essa tese numa fórmula inesquecível: “A psicanálise pode tudo”, dirá, “mas é impotente contra a burrice.”
Ser feliz é uma coisa terrível.”
Hannah Arendt emprega essa expressão para designar um tipo de criminoso que comete crimes em tais circunstâncias que lhe é impossível saber ou sentir que pratica o mal.
O “homem novo” comunista deve regenerar-se pelo trabalho manual.
Dialética do Esclarecimento
Eichmann não era nem sádico, nem psicopata, nem perverso sexual, nem monstruoso, nem acometido por nenhuma patologia visível. O mal estava nele, mas ele não apresentava sinal de qualquer perversão. Em suma, era normal, pavorosamente normal, uma vez que era agente de uma inversão da Lei que fizera do crime a norma.
Assim, a moral kantiana originava-se, em virtude da interpretação lacaniana, não de uma teoria da liberdade, mas de uma teoria do desejo na qual o objeto era recalcado. Esse recalcamento era em seguida “esclarecido” pelo discurso sadiano. Havia portanto simetria entre o imperativo sadiano do gozo e o imperativo categórico de Kant
O nazismo inventou efetivamente um modo de criminalidade que perverte não apenas a razão de Estado, como, mais ainda, a própria pulsão criminal, uma vez que, em tal configuração, o crime é cometido em nome de uma norma racionalizada e não enquanto expressão de uma transgressão ou de uma norma não-domesticada. Nessa perspectiva, o criminoso nazista não poderia ser herdeiro do criminoso sadiano, ainda que, em ambos os casos, o crime fosse o resultado da inversão da Lei. O criminoso no sentido de Sade obedece a uma natureza selvagem que o determina, mas nunca aceitaria submeter-se, como o criminoso nazista, a uma potência estadística que viesse curvá-lo a uma lei do crime.
Apesar da importância dos testemunhos reunidos, que constituem hoje considerável fonte historiográfica, todas essas abordagens da criminalidade nazista, oriundas da medicina positivista e da psicanálise, são de uma pobreza desconcertante. De fato, elas apresentam o perigoso defeito de tentar provar que, para terem realizado esses atos, os nazistas genocidas eram forçosamente, apesar de sua normalidade aparente, psicopatas, doentes mentais, pornógrafos, desviantes sexuais, toxicômanos ou neuróticos. Em seguida, após Nuremberg, os representantes dessa medicina mental, de tanto designarem Stálin como paranóico e Hitler como histérico com tendências perversas e fóbicas, tiveram a extravagante idéia, durante um célebre congresso de higiene mental, realizado em Londres em 1948, de sugerir submeter todos os grandes homens de Estado a um tratamento psíquico a fim de atenuar seus instintos agressivos e preservar a paz mundial
proxenetismo
Matar o judeu e matar também a testemunha da matança, eis o mandamento principal dos responsáveis pelo extermínio. Assim, os Sonderkommando, encarregados pelos SS de esvaziar as câmaras de gás e queimar os corpos nos crematórios, eram escolhidos porque eram judeus e, portanto, destinados a ser exterminados por sua vez a fim de jamais virem a testemunhar o que presenciaram
A propósito, quando Himmler teve a idéia de substituir em Auschwitz as sentinelas dos campos por cães, ou ainda obrigá-los a vigiar os detentos, os testes não deram o resultado esperado. Mesmo treinados na devoração de prisioneiros, os cães do Lager jamais conseguiram se igualar aos nazistas, que haviam feito deles tanto assassinos quanto vítimas. A “besta imunda” não é o animal, mas o homem.
Segundo ele, elas teriam querido e desejado sua destruição. Em conseqüência, os carrascos seriam meros executantes de uma vontade autopunitiva das vítimas, elas próprias desejosas de se libertar das perversões que as caracterizam, em virtude de seu pertencimento a uma raça impura. Com esse raciocínio, Höss pode apresentar-se, a seus próprios olhos, como benfeitor de uma humanidade em sofrimento, aceitando que os deportados, culpados de viverem uma existência inútil, lhe ofereçam suas vidas precipitando-se para as câmaras de gás
se tornara soldado por ódio à humanidade
Já se falou muito, apoiando-se na noção de banalidade do mal, que, nessas circunstâncias, qualquer um podia tornar-se nazista, até mesmo genocida. Em seguida afirmou-se que bastava homens comuns serem condicionados, adestrados e formatados para se transformarem em carrascos sedentos de sangue, capazes de destruir seus semelhantes sem sentir o menor afeto.
Na realidade, se foi de fato necessária a participação de uma imensa população de burocratas, alcagüetes, caminhoneiros, funcionários, soldados, oficiais, juristas, cientistas e empregados de todo tipo 62 para que fosse implantado o extermínio dos judeus da Europa, isso não significa que todo personagem capturado pela espiral desse sistema fosse capaz de se tornar Rudolf Höss. E os altos responsáveis pela Solução Final sabiam disso plenamente, uma vez que selecionaram, para dirigir as fábricas da morte, funcionários SS de uma têmpera particular.
Josef Mengele era um puro produto da ciência institucional alemã.
No campo dos ciganos, onde brincava-se de “queimar os judeus”, instalou uma espécie de jardim-de-infância no qual acolhia os gêmeos de tenra idade que ele próprio selecionara quando chegaram ao campo. Visitava-os diariamente, vestindo seu jaleco branco, fornecendo-lhes uma comida mais abundante que aos outros detentos. Dava-lhes bombons e os levava para passear em seu automóvel. Então, após tê-los seduzido, entregava-se serenamente às suas pesquisas, injetando-lhes nos olhos diversos produtos destinados a modificar sua cor. As anomalias pigmentares oculares lhe interessavam tanto quanto as deformações dos dentes e do maxilar. Às vezes, tentava fabricar siameses artificialmente, atando entre si, cirurgicamente, as veias de dois gêmeos.
Bonito, elegante, perfumado, usando luvas brancas e assobiando despreocupadamente árias da Tosca, selecionava os seres humanos na rampa de Birkenau batendo levemente com sua chibata em uma das botas. Escutava com veneração as sinfonias de Beethoven, adorava cães, comia torta de maçã, dirigia-se educadamente a todos e não apresentava nenhum sinal particular, a não ser um absoluto cinismo, uma ausência total de afeto, um fanatismo cientificista e uma vontade sem limites de eliminar os judeus, a quem considerava responsáveis, em virtude de sua inteligência, pela degradação da “raça” alemã.
os nazistas vieram a levar quase ao seu termo uma espécie de metamorfose estatizada das múltiplas figuras da perversão. Em suma, fizeram da ciência o instrumento de um gozo do mal que, escapando a toda representação do sublime e do abjeto, do lícito e do ilícito, permitiu-lhes designar a coletividade dos homens — isto é, a espécie humana — como um povo de perversos a ser reduzido a dejetos contabilizáveis e coisificados: carnes, ligamentos, músculos, ossos, mãos, pele, dentes, olhos, órgãos, pêlos, cabelos.
objetivo o extermínio, no prazo de um ano, de 11 milhões de judeus europeus. Pela ação de Höss e de seus sucessores, Auschwitz irá tornar-se então a maior fábrica de morte de todo o sistema concentracionário nazista até a chegada das tropas soviéticas em 27 de janeiro de 1945.
Stanley Milgram (1933-84): psicólogo americano, inventor de um experimento dito de “submissão à autoridade”, que consiste em colocar experimentalmente um sujeito em situação de obedecer, por condicionamento, a uma ordem aflitiva contrária à sua consciência
autóctones
Quanto aos psicanalistas, tenderam a ver na copulação frontal, exclusivamente humana, uma espécie da prova da existência de um complexo pré-edipiano que faria de cada homem um filho desejando fundir-se com a sua mãe e de cada mulher uma mãe transformando o homem inseminador num anexo de seu próprio corpo. Ao copular dessa forma, diziam em suma, o homem ocupa, perante a mulher, o lugar de um bebê que ela seguraria nos braços, e ela própria é, por sua vez, nessa posição, um substituto do bebê para o homem.
A observação dos bonobos jogou por terra todos esses pontos de vista. Primos dos chimpanzés, esses símios excepcionais formam uma estranha sociedade, na qual machos e fêmeas parecem antes atraídos pelos prazeres do sexo e da comida que pela conquista e a dominação. Eles copulam face a face, conhecem a prática da felação e da masturbação, e, mais que isso, possuem uma sexualidade que não é diretamente ligada à reprodução. Às vezes, os machos têm relações com outros machos e as fêmeas
com outras fêmeas. O orgasmo, partilhado pelos dois sexos, gera manifestações de prazer intenso.
Os animais não conhecem nem a Lei nem a transgressão da Lei, não são fetichistas, nem zoófilos, nem pedófilos, nem coprófilos, nem necrófilos, nem criminosos, nem sádicos, nem masoquistas, nem voyeuristas, nem exibicionistas, nem capazes de sublimação. Não são nem transexuais, nem travestis, nem sequer homossexuais, bissexuais ou heterossexuais. A atividade sexual animal não responde a nenhuma dessas classificações. E o fato de a alguns primatas machos repugnar a copulação com sua genitora, 19 ou parecerem preferir outro macho a uma fêmea, não nos autoriza a deduzir que os grandes símios conhecem a proibição do incesto ou os deleites da sodomia.
Singer considera assim que o fato de comer o animal seria em si um ato tão criminoso e abjeto quanto torturá-lo por simples prazer. Desse modo, transforma cada humano carnívoro em cúmplice de um assassinato coletivo semelhante a uma espécie de genocídio.
De uma maneira mais genérica, podemos dizer que, pela identificação com o ideal de uma fetichização globalizada do corpo e do sexo dos humanos e dos não-humanos, e através da primazia generalizada de uma supressão de todas as fronteiras — o humano e o não-humano, o corpo e a psique, a natureza e a cultura, a norma e a transgressão da norma etc. —, a sociedade mercantil de hoje está em vias de se tornar uma sociedade perversa. Aliás, tanto pela difusão de imagens quanto pela instauração de uma pornografia virtual, regulamentada, limpa, higienista, sem perigo aparente. Essa sociedade, de certa forma, é mais perversa que os perversos que ela não sabe mais definir mas cuja vontade de gozo ela explora para em seguida melhor reprimi-la.
Treze anos mais tarde, em 1987, sem a menor discussão teórica, o termo “perversão” desapareceu — como, aliás, “histeria” — da terminologia psiquiátrica mundial para ser substituído por “parafilia” 35, categoria sob a qual a homossexualidade não era mais inserida.
em vias de abandonar definitivamente a terminologia psicanalítica, psicodinâmica ou fenomenológica — que humanizara a psiquiatria durante cerca de 60 anos dotando-a de uma filosofia do sujeito —, para substituí-la por critérios comportamentais dos quais estava excluída qualquer referência à subjetividade. O objetivo era demonstrar que o distúrbio da alma derivava exclusivamente da psicofarmacologia ou da cirurgia e que podia ser reduzido a uma desordem, a uma dissociação, isto é, a uma pane de motor.
Por toda parte no mundo, a televisão dita de “reality show” ou de exploração da intimidade de cada um funciona como o novo hospício dos tempos modernos, um hospício aberto
organizado como um reino da vigilância infinita e do tempo suspenso.
Uma sociedade que dedica tal culto à transparência, à vigilância e à abolição de sua parte maldita é uma sociedade perversa. Porém — e aí está o paradoxo —, é também em virtude dessa transparência, erigida pela mídia audiovisual num imperativo categórico, que os Estados democráticos não conseguem mais dissimular suas práticas bárbaras, vergonhosas, perversas. Atesta isso, se necessário, a história da tortura. Quando foi praticada na Argélia com a cumplicidade tácita das mais altas autoridades do Exército francês, as vítimas e historiadores precisaram de anos para apresentar a prova de sua existência. Hoje, como vimos recentemente na guerra do Iraque, os torturadores são os primeiros a exibir seus atos: fotografam-se entre si e se exibem. Cópias são então distribuídas pelo mundo inteiro.
fetichização pornográfica dos corpo
não é mais a exclusão dos homossexuais do modelo familiar que incomoda os reacionários de todos os matizes: é, ao contrário, sua vontade de fazer parte dele.
É nessa óptica que Christophe Dejours, observador dos novos sofrimentos sociais, denuncia o capitalismo pós-industrial como um “sistema perverso”. Exclusivamente centrado na busca do lucro e na perfeição da avaliação, esse capitalismo quase imaterial engendra o contrário do que pretende executar. Em vez de melhorar o rendimento e a eficiência, produz um estiolamento do tecido social que leva os sujeitos à autodestruição. Daí a multiplicação dos suicídios e dos fracassos econômicos. “Trata-se de desempenhos em termos de lucro”
Nesse contexto, os perversos, portanto, não são mais vistos como perversos a partir do momento em que a Lei não os define como perigosos para a sociedade e suas perversões permanecem privadas. E são agora perversos normalizados, autorizados, despenalizados, despsiquiatrizados que reproduzem por sua vez, em livros científicos, eróticos, pornográficos, psicanalíticos, sexológicos, o imenso relato dos prazeres, paixões, transgressões e vícios elaborado desde Sade pelos escritores ou especialistas em história da psicopatologia.
Nunca o sexo, sob suas mais variadas formas, suscitou tantos trabalhos, nunca fascinou tanto, nunca foi tão estudado, teorizado, examinado, sondado, exibido, interpretado quanto em nossa sociedade, que, ao liberá-lo da censura, da coerção e da submissão à ordem moral, julgou descobrir no enunciado do gozo dos corpos a solução do enigma do desejo e suas intermitências.
Identificam-se igualmente nessa categoria de “desviantes” ou “delinqüentes” todos aqueles que, carrascos e vítimas de si mesmos e dos outros, perturbam a ordem pública atentando, com seu comportamento niilista e devastador, contra o ideal veiculado pelo biopoder: homossexuais promíscuos infectados pelo vírus da aids e julgados culpados de transmiti-lo por recusa de qualquer proteção, adolescentes delinqüentes reincidentes, crianças ditas hiperativas, agressivas, violentas, que escapam à autoridade parental ou escolar, adultos obesos, depressivos, narcísicos, suicidas, voluntariamente rebeldes a qualquer tratamento.
foi a figura do pedófilo que substituiu em nossos dias a do invertido, para encarnar uma espécie de essência da perversão no que ela teria de mais odioso, uma vez que ataca a infância, e portanto o humano em devir.
Nunca o sexo solitário foi tão valorizado como depois que o culto do narcisismo tornou-se dominante na sociedade da transparência sexual que é a nossa. Após ter sido pensado, na perspectiva freudiana, como uma etapa normal da sexualidade, o “perigoso suplemento” é hoje reivindicado como o desfecho derradeiro de um movimento emancipador. E isso tanto mais na medida em que o sexo solitário é o melhor meio de evitar os parceiros estorvantes, os conflitos
dolorosos, os ciúmes passionais — e sobretudo o flagelo das doenças sexualmente transmissíveis.
A partir dos trabalhos de Freud e seus sucessores, a criança não é mais considerada uma criatura pura e inocente, mas, ao contrário, um “perverso polimorfo” cuja sexualidade deve ser educada sem ser nem reprimida nem, principalmente, excitada por
tentativas de sedução
É mais do que sabido que é caso a caso que esses sujeitos devem ser tratados, não porque sofreriam de uma doença, mas porque sua subjetividade é pervertida
No fundo, esses tratamentos perversos não passam da volta disfarçada dos antigos castigos corporais. E não são mais eficazes que as sangrias e as purgações que os médicos de Molière ministravam a seus pacientes, antes da era da medicina científica.
Sejam artífices das mais altas criações da civilização ou, ao contrário, adeptos de um puro gozo de destruição, sejam, por sua vida miserável, designados como a parte maldita das sociedades, os perversos, por sua força psíquica, resis
tem efetivamente a toda forma de medicalização. Num mundo em que Deus não pode mais ouvi-los, desafiam a ciência para ridicularizá-la. E, quando alguns dela se apoderam, é para aprimorar uma arma de guerra a serviço de sua pulsão criminosa.
Nesses dois casos paradigmáticos, o travesti — em geral um homem — goza por ser assimilado a um objeto vestimentar através do qual dissimula seu próprio sexo, exagerando até o estereótipo as características de uma feminilidade de aparência: uso de lingerie fina ou saltos-agulha, maquiagem extravagante, perucas de cores vivas etc
Quando sabemos que o tratamento hormonal deverá durar a vida inteira e que o transexual operado nunca conhecerá, com tais órgãos, o menor prazer sexual, não podemos nos impedir de pensar que o gozo que ele sente em ter acesso dessa forma a um corpo inteiramente mutilado é de natureza igual ao do vivenciado pelos grandes místicos que ofereciam a Deus o suplício de sua carne atormentada.
Como vemos, o discurso da queer theory também não passa de uma mera continuação, sob uma forma puritana, da utopia sadiana. Mas ali onde Sade fazia do crime, do incesto e da sodomia os fundamentos de uma sociedade imaginária centrada na inversão da Lei, a queer theory transforma a sexualidade humana em uma erótica domesticada na qual é rechaçada qualquer referência ao amor pelo ódio. Ela é de certa forma o avesso inteligente e sofisticado das classificações do DSM. Pode-se então sustentar que, seja qual for porventura a extrema acuidade de suas análises, esse discurso da reconversão das figuras da sexualidade perversa numa combinatória dos papéis e das posturas é uma nova maneira de normalizar a sexualidade.
Apagar as fronteiras e negar à perversão sua força transgressiva no dispositivo da sexualidade humana, a ponto de censurar seu nome, significa fazer da noção de apagamento a medida de toda norma.
A psicanálise não é mais manchete nos dias de hoje … . Entretanto, que outro empreendimento, que outro tratamento, que outra forma de estudo do ser humano repousa tão fundamentalmente numa curiosidade e numa interrogação tão incessantes, na exigência absoluta de que o indivíduo encontre sua verdade —
livre do sortilégio, do segredo e da erotização do estado de vítima?
se o movimento psicanalítico soube, há 100 anos, elaborar uma clínica coerente da psicose e implementar novas abordagens da neurose — hoje contestadas por teorias e práticas perversas —, negligenciou a questão histórica, política, cultural e antropológica da perversão, interrogando-se essencialmente sobre sua estrutura 87 no sentido clínico do termo. Por conseguinte e durante anos, os psicanalistas permaneceram cegos às transformações do olhar que a sociedade dirigia para o perverso e que aqueles designados como tais dirigiam para si mesmos, à medida que rejeitavam, em sua luta emancipatória, as classificações da psicopatologia.
durante três quartos de século, apoiando-se equivocadamente nos conceitos de renegação ou de clivagem, enganaram-se de alvo proibindo aos homossexuais — julgados perversos em virtude de sua homossexualidade 89 — acesso à profissão de psicanalista.
Com essa atitude, não apenas mantiveram-se distantes dos novos desafios da sociedade civil, como consideraram que os perversos seriam inaptos à confrontação com seu inconsciente.
Entretanto, há tantos perversos na comunidade psicanalítica quanto no conjunto da sociedade. Ainda assim, os que praticam abusos sexuais em seus pacientes (o que é uma perversão do tratamento) são pouco numerosos, 90 marginalizados e, se for o caso, punidos por seus pares, quando não pela justiça. Quanto aos grandes clínicos da perversão — de Masud Khan a Stoller passando por François Peraldi — 91, sempre formaram, na história do freudismo, uma comunidade à parte, como se, tendo firmado um pacto com o diabo, assumissem sempre o risco de se verem acusados de cúmplices do que os apaixona.
Na França, os transexuais que desejem, por meio de uma operação, tornar-se homossexuais não são admitidos para uma redefinição. É provável que um dia este direito lhes seja concedido, como em outros países.
Masud Khan (1924-89): psicanalista inglês, de origem indiana, autor de diversas obras sobre a perversão, entre as quais Figures de la perversion, Paris, Gallimard, 1981. Acusado de bissexualidade e loucura, por sua prática julgada transgressiva do tratamento, foi excluí
do da British Psychoanalytical Society. François Peraldi (1938-93): psicanalista francês, atuante no Canadá. Homossexual declarado, apaixonado pelas sexualidades transgressivas, era, por sua prática, um clínico clássico. Morreu de aids. Na França, Joyce Mc Dougall, provavelmente a maior clínica francesa de sua geração, sempre defendeu um olhar diferente para os anormais, um pouco na linha de Stoller. Cf. Em defesa de uma certa anormalidade (Paris, 1975.
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