
Neoliberalism as Management of Psychic Suffering
Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico
Encontrar o melhor aproveitamento do sofrimento no trabalho, extraindo o máximo de cansaço com o mínimo de risco jurídico, o máximo de engajamento no projeto com o mínimo de fidelização recíproca da empresa, torna-se regra espontânea de uma vida na qual cada relação deve apresentar um balanço e uma métrica.
Nem todo sintoma nos faz sofrer, e nem toda forma de sofrimento é um sintoma. Determinar qual sofrimento é legítimo e qual não é, portanto, é uma questão não apenas clínica, mas também política.
A maneira como interpretamos o sofrimento, atribuindo-lhe causalidade interna ou externa, imputando-lhe razões naturais ou artificiais, agregando-lhe motivos dotados ou desprovidos de sentido, muda literalmente a experiência mesma de sofrimento. Isso é crucial na determinação dos sintomas e condiciona eventualmente sua reversibilidade clínica.
narrativização, nomeação, metaforização ou alegorização, possuem força de determinação da vida psíquica em sua integralidade. Controlar a gramática do sofrimento é um dos eixos fundamentais do poder.
austeridade
as políticas de controle de gastos do Estado encontrassem suas bases em John Locke, Adam Smith e David Hume.
desejo de riqueza
A economia política analisaria assim as dinâmicas coordenadas socialmente a fim de realizar o desejo humano de enriquecimento, ou antes a obtenção da: “maior soma de coisas necessárias, de conveniências e de luxos com a menor quantidade de trabalho e abnegação física exigidas para poder obtê-los no estado existente de conhecimento”
Assim, o que faz a economia possível e necessária é uma perpétua e fundamental situação de escassez: diante de uma natureza que, por si mesma, é inerte e, salvo para uma parte minúscula, estéril, o homem arrisca sua vida. Não é mais nos jogos da representação que a economia encontra seu princípio, mas é do lado desta região perigosa na qual a vida se afronta à morte .…. O homo œconomicus não é este que representa suas próprias necessidades e os objetos capaz de satisfazê-las. Ele é este que passa, e usa, e perde sua vida tentando escapar da iminência da morte
Como sabemos, falas constituem seus ouvintes. Um discurso construído como “ofensivo” visa produzir um sujeito que reagirá como “ofendido”. A fala ofensiva é astuta. Ela procura, inicialmente, quebrar uma espécie de solidariedade genérica diante de uma injustiça feita não apenas contra um, mas contra todos ou, antes, contra todos através de um. A fala ofensiva visa quebrar a emergência da reação de “todos”, pois ela singulariza, ela ofende um, ela escarnece um. Não falamos: “Você ofendeu a sociedade brasileira em mim”. Antes, dizemos: “Você me ofendeu”. O problema parece algo entre “você” e “elaje”. O problema não parece mais político, mas de respeito à integridade psicológica.
a liberdade econômica de empreender e de possuir propriedade privada
Contra essa forma de submissão de meus interesses pelos interesses de outro, seria necessário que todos se submetessem a regras racionais e às forças impessoais do mercado, como se fosse questão de assumir uma experiência de autotranscendência, uma Lei produzida pelos humanos e que os transcende.
Esse ideal empresarial de si foi o resultado psíquico necessário da estratégia neoliberal de construir uma “formalização da sociedade com base no modelo da empresa”
a generalização da forma-empresa no interior do corpo social abriu as portas para os indivíduos se autocompreenderem como “empresários de si mesmos” que definem a racionalidade de suas ações a partir da lógica de investimentos e retorno de “capitais” e que compreendem seus afetos como objetos de um trabalho sobre si tendo em vista a produção de “inteligência emocional” e otimização de suas competências afetivas.
racionalização empresarial do desejo
fundamento normativo para a internalização de um trabalho de vigilância e controle baseado na autoavaliação constante de si a partir de critérios derivados do mundo da administração de empresas.
“cálculo racional” dos custos e benefícios
internalização de um ideal empresarial
recursos psicológicos de uma engenharia motivacional na qual “cooperação”, “comunicação” e “reconhecimento” se transformavam em dispositivos de otimização da produtividade
fusão progressiva dos repertórios do mercado com as linguagens do eu
As relações de trabalho foram “psicologizadas” para serem mais bem geridas, até chegar ao ponto em que as próprias técnicas clínicas de intervenção terapêutica começaram por obedecer, de forma cada vez mais evidente, a padrões de avaliação e de gerenciamento de conflitos vindos do universo da administração de empresas
a empresa não é apenas a figura de uma forma de racionalidade econômica. Ela é a expressão de uma forma de violência. A competição empresarial não é um jogo de críquete, mas um processo de relação fundado na ausência de solidariedade (vista como entrave para o funcionamento da capacidade seletiva do progresso), no cinismo da competição que não é competição alguma (pois baseada na flexibilização contínua de normas, nos usos de toda forma de suborno, corrupção e cartel), na exploração colonial dos desfavorecidos, na destruição ambiental e no objetivo monopolista final. Essa violência pede uma justificação política, ela precisa se consolidar em uma vida social na qual toda figura da solidariedade genérica seja destruída, na qual o medo do outro como invasor potencial seja elevado a afeto central, na qual a exploração colonial seja a regra.
Essa criação de um discurso híbrido entre economia e psicologia como fundamento para os regimes de gestão social implicou a reconfiguração completa do que poderíamos chamar de “gramática do sofrimento psíquico”. Pois, para serem realmente internalizadas, tais disposições de conduta não deveriam ser apenas ideais normativos. Elas deveriam também reconfigurar nossa forma de compreender e classificar os processos de sofrimento. Não basta gerir o centro, há de se saber gerir as margens, configurar as formas possíveis do afastamento da norma.
o desejo, a linguagem e o trabalho. Já Hegel insistia, em sua Fenomenologia do espírito, nos vínculos orgânicos entre a lei do coração e o delírio da presunção, ou seja, entre a revolta contra a ordem social que sai ao mundo em vista de grandes transformações e o delírio de quem vê suas intenções serem continuamente invertidas pelo curso social.
intervenção clínica são neutras em relação a valores. Se elas não são neutras, então é o caso de se perguntar se a gênese de tais valores que dirigem nosso horizonte de cura não exigiria uma perspectiva ampliada de análise na qual modalidades de orientação clínica são compreendidas no interior de sistemas de influência compostos por discursos de forte teor normativo advindos de campos exteriores a práticas terapêuticas, como a cultura, a moral, a estética, a política e a racionalidade econômica. Trata-se, nesses casos, de não fornecer às questões clínicas o estatuto de problemas autônomos, mas de reinscrevê-las no interior do sistema de circulação de valores que compõem as várias esferas da vida social como um sistema de implicação constante.
o que é um hospital psiquiátrico e em que medida ele não é solução, mas parte do problema? As relações médico-paciente, nesse caso, não deveriam ser também compreendidas como relações de poder que reproduzem dinâmicas de poder em outras esferas da vida social? Não haveria uma dimensão fundamental de revolta na loucura que deveria ser abordada em sua força produtiva, que diz muito a respeito dos limites próprios a nossas formas de vida? Pois se aceitarmos que a vida psíquica é na verdade um setor da vida social, com suas dinâmicas de internalização de normas, ideais e de princípios de autoridade, por que não se perguntar como tais processos sociais nos fazem sofrer, como eles podem estar na base das reações que irão levar sujeitos a hospitais psiquiátricos e consultórios?
A relação terapêutica e suas estruturas de poder tendia a ir para o centro do tratamento, restringindo qualquer desenvolvimento do controle farmacológico dos sintomas. A crítica ao lugar social da psiquiatria parecia levá-la a uma certa “crise de legitimidade” que não deixava de ressoar certa fragilidade do horizonte normativo em geral no interior de nossas formas de vida sob o capitalismo. A liberação da loucura de formas de internamento e intervenção disciplinar é figura maior de uma sociedade não mais comprometida com os padrões regulares de reprodução material da vida.
Como viu claramente Alain Ehrenberg (2000), a depressão só pode aparecer como problema central no momento em que o modelo disciplinar de gestão de condutas cede lugar a normas que incitam cada um à iniciativa pessoal, à obrigação de ser si mesmo. Pois contrariamente ao modelo freudiano das neuroses, em que o sofrimento psíquico gira em torno das consequências de internalização de uma lei que socializa o desejo, organizando a conduta a partir da polaridade conflitual permitido-proibido, na depressão tal socialização organizaria a conduta a partir de uma polaridade muito mais complexa e flexível, a saber, a polaridade possível-impossível
crivo individual do desempenho, da performance, da força relativa à capacidade de sustentar demandas de satisfação irrestrita. Assim, o indivíduo é confrontado a uma patologia da insuficiência e da disfuncionalidade da ação, em vez de uma doença da proibição e da lei. Se a neurose é um drama da culpabilidade, drama ligado ao conflito perpétuo entre duas normas de vida, drama que só pode ser tratado através da compreensão das contradições imanentes ao funcionamento “normal” da lei, a depressão aparece como tragédia implosiva da insuficiência e da inibição.
Todas as atividades devem se comparar a uma produção, a um investimento, a um cálculo de custo. A economia se torna uma disciplina pessoal”
Ao internalizá-la, é o próprio indivíduo que passa a exigir de si mesmo ser um empreendedor bem-sucedido, buscando “otimizar” o potencial de todos os seus atributos capazes de ser “valorizados”, tais como imaginação, motivação, autonomia, responsabilidade. Essa subjetividade ilusoriamente inflada provoca inevitavelmente, no momento de seu absoluto esvaziamento, frustração, angústia associada ao fracasso e autoculpabilização; a patologia típica nesse contexto é a depressão. A “autonomia”, no sentido de dar a si mesmo o princípio de sua ação, converte-se na mera internalização das injunções do mercado, tal como a “liberdade de empreender”, que envolve “transformar os trabalhadores em empreendedores de suas próprias tarefas. É na figura do empreendedor, no homem empreendedor, que se focaliza a autonomia. O espírito de empresa, a ação de empreender, é a pedra de toque da transformação da gestão de recursos humanos, ou seja, da gestão das relações entre a empresa e seus empregados”
A utilidade como disciplina
O fato de “interest”, em inglês, também significar “juro” já indica sua afinidade com o mercado (extrapolando essa relação para o âmbito do neoliberalismo, vale lembrar que a finalidade na base do conceito de “capital humano” é a autovalorização através da educação, tal como o juro valoriza o capital).
Em Mill, a dimensão do cálculo ganha uma amplitude ainda maior de aplicação. Ele esforça-se para demonstrar que o qualitativo também está sujeito a certo tipo de cálculo. Ou seja, mesmo aquilo que evidencia uma qualidade diferente na ação, como a atividade intelectual, o gozo estético ou o exercício da virtude, é passível de cálculo. “A economia política”, sustenta Mill (1844, p. 144), “pressupõe uma definição arbitrária do homem como um ser que, inevitavelmente, faz aquilo através do qual ele pode obter a maior quantidade de itens necessários, comodidades e luxos com a menor quantidade de labor e sacrifício físico com a qual estes podem ser obtidos”. Ou seja, na concepção do homo œconomicus, a vida reduz-se às operações de troca e rentabilidade.
A pobreza, o desemprego e a indigência seriam, portanto, desvios morais a serem corrigidos pelo princípio de utilidade
a maior felicidade para o maior número de pessoas
A carência e a dor são, segundo a doutrina utilitarista, excelentes motivos para agir. A constante vigilância significa, no contexto da fábrica ou da prisão, a ameaça constante de penalidade em um eventual desvio.
para Bentham o homem, segundo sua natureza, é governado por dois mestres: a dor e o prazer: “Eles nos governam em tudo o que fazemos, em tudo o que dizemos, em tudo o que pensamos”
Não só isso, esses mestres são qualificadores: a dor é, em si mesma, um mal; o prazer, um bem
Assim, é preciso obedecer ao critério moral, sob o risco de sentir dor, de modo que a fonte da obrigação é evitar a pena da própria consciência. “Assim, a sanção última de toda moralidade (à parte motivos externos) é um sentimento subjetivo em nossas mentes”
Calcular a liberdade
Partindo da matriz utilitarista, os marginalistas concebem os mercados como sendo baseados no cálculo do valor-utilidade. Trata-se, assim como no utilitarismo, de uma concepção dos processos econômicos centrada no indivíduo, e não nos processos objetivos do capital: o que prevalece é a busca individual pela maximização de seu bem-estar.
Segundo os marginalistas, a utilidade de um bem não somente é variável em relação aos indivíduos, mas também difere, para um mesmo indivíduo, segundo a quantidade disponível desse bem no momento que ele aprecia sua utilidade. Um bem amplamente disponível, como o ar, não tem valor algum, ainda que ele seja extremamente útil. Em outras palavras, o valor de um bem se funda no julgamento subjetivo de cada indivíduo quanto à sua utilidade em função de sua escassez no mercado. A teoria marginalista é construída a partir da centralidade da utilidade da última unidade do bem consumido, ou seja, a utilidade marginal, que não deve ser confundida com a utilidade média desse bem. Todo esforço consiste em quantificar essa variação de valor ao longo do tempo: à medida que a quantidade de bens consumidos aumenta, a utilidade do último bem adquirido tende a diminuir. O valor de um copo d’água é tanto menor quanto maior é o grau de satisfação do indivíduo a cada nova unidade consumida. A utilidade marginal é, portanto, sempre decrescente. A partir desse princípio, é possível calcular a tendência dos preços, do lucro e até mesmo dos salários, na medida em que o trabalho é percebido como uma mercadoria igual a qualquer outra.
Estou aqui
as coisas se complicam quando nos aproximamos das condições reais da vida. Aqui seria necessário pensar uma economia orgânica. Sua teoria é uma introdução necessária para, em suas palavras, um tratamento mais filosófico da sociedade como um organismo seja possível no futuro
A decisão de comprar e vender seria o elemento fundamental da ação humana. A liberdade econômica seria, portanto, a deliberação do indivíduo que visa à maximização de sua utilidade.
Escola Austríaca
Friedrich von Hayej
Mises
Menger
Condillac
Bismarc
Hildebrand
A busca pela felicidade funde-se com a ideia mercadológica de demanda, de modo que os afetos humanos passam a ser reduzidos a motivações para investir, comprar e vender. Que se veja, por exemplo, a maneira como as ideias de satisfação e desconforto entram em simbiose com as noções de lucro e prejuízo
Note-se que o pressuposto fundamental da praxeologia é que toda e qualquer ação tem por objetivo realizar um lucro, alçado a “fenômeno psíquico”. A praxeologia consiste em uma descrição em termos grosseiramente antropológicos do homo œconomicus. “Ação e razão são congêneres e homogêneas; podem até ser consideradas dois aspectos diferentes da mesma coisa”
Daí por que Mises faz uma associação entre as crianças, os velhos e os loucos, que parecem perder a lógica própria da ação racional. As crianças, por ainda não terem maturidade para agir por conta própria; os velhos, por não terem mais nada a perder; e os loucos, por simplesmente criarem outra lógica. Em outras palavras, “só pode agir o homem que percebe o mundo à luz da causalidade.
Nesse sentido é que podemos dizer que a causalidade é um requisito da ação”
frase famosa de Thatcher: “A economia é o método, o objetivo é mudar a alma”.
a economia se converte em um modo de gestão de si e dos outros. Como modo de gestão de si, o neoliberalismo pressupõe um sujeito que age em conformidade com a lógica capitalista, movido pelo interesse, pela utilidade, pela satisfação, que se traduzem nas formulações teóricas em termos matemáticos. Como modo de gestão dos outros, o neoliberalismo pressupõe um modelo de interação social baseado na dinâmica do mercado. Operando de maneira espontânea, o mercado tende a confluir para situações de equilíbrio. Tanto a gestão de si como a gestão dos outros, por conseguinte, subordinam-se à lógica da exaltação do valor. Depois de esvaziar a vontade humana de tudo que não esteja em consonância com os ditames do mercado, o
neoliberalismo a desloca para o centro de seu funcionamento. A tão louvada autonomia dos indivíduos se revela logo como absoluta heteronomia.
“Planejar as ações das outras pessoas significa impedi-las de planejar por si próprias, significa privá-las de sua qualidade essencialmente humana, significa escravizá-las. A grande crise de nossa civilização é o resultado deste entusiasmo por planejamento total”. Ora, as injunções do mercado condicionam toda ação dentro da sociedade onde o que vigora é a lei do capital.
Dessa perspectiva, todo discurso acerca da liberdade individual recai em ideologia, como aquele que promove “a independência e a fé em si mesmo, a iniciativa individual e a responsabilidade pela solução de problemas em nível local, a justificada confiança na atividade voluntária, a não-interferência nos assuntos dos vizinhos e a tolerância para com os excêntricos e os originais, o respeito pelo costume e pela tradição e uma saudável desconfiança do poder e da autoridade”
a inflação, por exemplo, afetava principalmente os investidores, já que os trabalhadores e os beneficiários de programas sociais tinham seus rendimentos reajustados;
Sempre bom lembrar como os anos 1970 e final dos 1960 conhecerão leis de emergência em países centrais como Itália e Alemanha e ditaduras capitalistas em toda a América Latina.
Matrizes psicológicas da episteme neoliberal: a análise do conceito de liberdade
modelo do sujeito produtivo fordista ou do sujeito do cálculo felicífico benthamiano
Friedrich Hayej, Milton Friedman, Ayn Rand e Gary Becjer
Os fundamentos da liberdade, de Hayej, e Sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper –, em que não só a defesa da liberdade é apresentada como, antes de tudo, uma defesa de ideias, mas, mais que isso, a liberdade é ela mesma entendida como um efeito de condições epistêmicas. Desse modo, Popper pode afirmar que o pensamento de certos autores leva, necessariamente, a organizações autoritárias; enquanto Hayej
defende que a liberdade seria algo necessário frente à impossibilidade de se estabelecer um conhecimento suficiente sobre fenômenos complexos.
Isaiah Berlin (1981)
Se, por um lado, a diretriz que rejeita a imposição de normas aos cidadãos oferece um escudo ao indivíduo em face de uma eventual tirania estatal, por outro, dissemina uma lógica de mercado hostil em que cada indivíduo recolhe-se no governo de si e considera a alteridade do outro como oponente.
Ora, fica assim claro que na noção neoliberal de autonomia, que se concretiza no conceito de liberdade negativa, está implícito um modelo preciso de sujeito, a saber, aquele de um indivíduo independente dos outros, não submetido a norma alguma e, como tal, sempre pensado em uma relação de exclusão mútua com o outro.
Para o economista austríaco, não há possibilidade de se avançar em direção à liberdade sem necessariamente se distanciar da segurança. É essa hipótese, aliás, que sustenta sua ideia de que a construção de um sistema de justiça social, que garanta um mínimo de bem-estar comum ou de uma sociedade coletivista, tem de ser abandonada. Para ele, programas desse tipo teriam como alvo a maior segurança, necessariamente contrária às liberdades individuais.
Friedman, Capitalismo e liberdade.
cooperação
Tal cooperação só seria possível, entretanto, numa sociedade voltada à troca, em detrimento da produção para consumo próprio:
Em sua forma mais simples, tal sociedade consiste num certo número de famílias independentes – por assim dizer, uma coleção de Robinson Crusoés. Cada família usa os recursos que controla para produzir mercadorias e serviços, que são trocados por bens e serviços produzidos por outras famílias, na base de termos mutuamente convenientes para as duas partes. Cada família está, portanto, em condições de satisfazer suas necessidades, indiretamente, produzindo bens e serviços para outras, em vez de diretamente – pela produção de bens para seu uso imediato. O incentivo para a adoção desse caminho indireto é, sem dúvida, a produção aumentada pela divisão do trabalho e pela especialização das funções. Uma vez que a família tem sempre a alternativa de produzir diretamente para seu consumo, não precisa participar de uma troca, a não ser que lhe seja conveniente. Portanto, nenhuma troca terá lugar a não ser que ambas as partes, realmente, se beneficiem dela. A cooperação é, pois, obtida sem a coerção
O indivíduo aqui em jogo é o indivíduo racional, adulto, “responsável”, já que, como ressalta autor, “não acreditamos em liberdade para crianças e insanos”
A ideia de que empresas se comportariam sempre de modo a visar à maximização de seus lucros é um dos pressupostos que atravessará grande parte de seus desenvolvimentos. Entretanto, tal pressuposto só parece se sustentar a partir das hipóteses “as if” (como se).
É assim, portanto, que o economista propõe a ideia do “como se”: não importa se uma firma não funciona, em todos os seus processos, visando à maximização do lucro; ainda assim, essa maximização tem uma prevalência tão grande que podemos considerar que a firma se estrutura “como se” visasse a isso em todos os seus processos, e assim produzir resultados importantes com essa racionalidade.
filosofia da mente
Ayn Rand
O coletivismo, em qualquer forma, por ser fundamentado em uma moral altruísta, fatalmente conduziria o indivíduo ao sofrimento pela renúncia, em última instância, da liberdade: “seu dever ético é ser escravo abnegado, sem direitos e destituído de voz”
Enquanto Hayej enfatiza a importância de certa irracionalidade (inconsciência) como reguladora das relações entre os indivíduos e o mercado, na forma de uma organização espontânea, a autora afirma que a troca está submetida a princípios racionais, sendo, ela mesma, o único princípio ético racional para todos os relacionamentos humanos. Tal racionalidade rejeita a complexidade das escolhas humanas subjetivas proposta por Hayej e, de certa forma, simplifica e reduz a posição de Rand quanto à noção de liberdade entendida em termos de direitos.
O neoliberalismo … não é o herdeiro natural do primeiro liberalismo …
Não retoma a questão dos limites do governo no ponto em que ficou. O neoliberalismo não se pergunta mais sobre que tipo de limite dar ao governo político, ao mercado, aos direitos ou ao cálculo da utilidade, mas sim sobre como fazer do mercado tanto o princípio do governo dos homens como o do governo de si. Considerando uma racionalidade governamental, … o neoliberalismo é precisamente o desenvolvimento da lógica de mercado como lógica normativa generalizada
Eis, portanto, duas facetas da liberdade que compõem a base da teoria objetivista: (i) o direito natural à busca de bens a ser preservado sem interferência estatal e (ii) o dever moral imposto ao indivíduo de marchar rumo à conquista desses bens como forma de sobrevivência.
É dessa alternativa crucial dada pela natureza entre morrer ou viver que a autora extrai um critério moral de liberdade que deve fundamentar toda e qualquer ação humana.
Embora a liberdade seja dada pela natureza mediante o dualismo entre vida e morte, apenas a ação humana empregada e bem-sucedida conquista de fato essa liberdade. Os humanos que optam por não pensar e sobreviver ao acaso, despreocupados com a derrota e em rejeição à moral, Rand considera como “parasitas mentais”. O heroísmo randiano é aquele que, ao verter a liberdade de existir em ato racional, escolhe certeiramente e integra o direito à vida à existência. Tal direito, por sua parte, além de resvalar no direito à liberdade, desdobra-se no direito à felicidade: “a questão da sobrevivência do homem não confronta sua consciência como uma questão de ‘vida ou morte’, mas como uma questão de ‘felicidade ou sofrimento’. A felicidade é o estado de triunfo da vida, o sofrimento é o sinal de alerta do fracasso, da morte”
a propriedade
O dogmatismo do laissez-faire e a restrição estatal permanecem intactos a serviço quer da identificação do mercado à natureza, quer da jornada do herói em constante seleção natural.
Por outro lado, a noção de liberdade estudada produz um comando moral de racionalidade calcado na eficiência em sustentar uma série de equivalências simbólicas que fabricam genérica e severamente as escolhas subjetivas, a saber: vida, liberdade, propriedade e felicidade. Pelo avesso, o sofrimento, a escravidão, a morte e a ausência de bens formam indistintamente os equivalentes simbólicos do fracasso parasitário, covarde e incompetente, repudiados a todo custo pela racionalidade neoliberal.
Becker e a liberdade
livre-empreendedor com inspiração vitalista
Duas de suas últimas pesquisas, por exemplo, foram estudos sobre as vantagens da legalização do comércio de órgãos de pessoas vivas e de cadáveres, bem como a comercialização de vistos de imigração e autorizações de trabalho por meio de leilões.
Karl Popper, Lionel Robbins e Ludjig von Mises, entre outros.
A ausência do outro no discurso neoliberal sobre o sujeito e, mais especificamente, no de Becjer faz com que o “eu” seja definido tautologicamente pelo “eu”, ou seja, os sujeitos são cada vez mais autorreferenciados. O recurso que o “eu” encontra para responder “quem sou” perde a referência do “em nome de que sou”, passando a operar pela histerologia
por postular algo que não existe ainda para com isso se autorizar a empreender uma ação que se faria pretensamente livre por esses meios.
Podemos propor um slogan para esse sujeito advindo do método de Becjer: São as suas escolhas que definem quem você é. Um dos sustentáculos dessa ontologia da escolha, o pensamento de Becjer é bastante radical, uma vez que seu método de análise do comportamento acrescenta ainda mais uma proposição, a saber, a de que os sujeitos escolhem a todo instante.
O sujeito passa a figurar, assim, como um processo ininterrupto de escolhas.
Assistir a uma peça de teatro, por exemplo, não custaria somente o valor monetário do ingresso, mas também o tempo gasto nessa atividade, o qual poderia ser usado em algo produtivo. Decorre disso: (1) que não há qualquer instante que escape à escolha, pois sempre se pode fazer algo diferente daquilo que se faz; (2) em nenhuma ação e em nenhum instante esse sujeito se livra do peso de incorrer em custos; e (3), se se escolhe a todo instante, então se maximiza a utilidade ininterruptamente.
Dessa forma, o enunciado que se põe implicitamente é: se os recursos são escassos, isso é, se não dispomos da infinidade dos bens, de ânimo e de tempo, então estamos condenados, antes de tudo e a cada instante, a exercer a liberdade de escolher como alocar nossas provisões, de modo a reproduzir a utilidade máxima.
se os indivíduos alteram suas escolhas, eles não o fazem porque, de alguma forma, são “dominados por ignorância e irracionalidade, .…. por costume e tradição, ou em conformidade a algo induzido por normas sociais, pelo id ou pelo ego” (Bjjjjj, 1990, p. 13), mas por conta da variação dos preços e outros instrumentos de mercado que alterariam os parâmetros relativos do cálculo de custos e benefícios
Mais do que isso, assumir o indivíduo como um agente autônomo da maximização de utilidade implica o posicionamento lógico e específico do que viria a ser a falta. Queremos dizer que a falta, corolário da escassez econômica, é significada como “falta de algo útil”, “falta de bem-estar”, sem que os valores que avaliam o caráter de utilidade sejam, de antemão, conhecidos, ou mesmo dignos de avaliação.
poder pastoral
excesso não útil de prazer
A magnitude desse resto inútil é feita central por Lacan (2008, p. 29-30), que associa esse prazer excedente à mais-valia de Marx, formando o mais-de-gozar. Essa construção lacaniana é central, pois, ao estabelecer uma homologia entre o mais-de-gozar e a mais-valia, Lacan indica a conformação de um discurso que, diferentemente da abordagem do comportamento humano de Becjer, compreende exatamente a estrutura do “em-nome-de” pelo qual se prefere e se escolhe. Vale dizer, esse imperativo se reproduziria justamente por estar excluído da narrativa cada vez mais totalizante da economia.
resto inútil
A infração é de certo modo horizontalizada pela régua do cálculo, régua essa pretensamente esvaziada de valores: “não há nenhuma diferença entre uma infração ao código de trânsito e um assassinato premeditado. Isso quer igualmente dizer que, nessa perspectiva, o criminoso não é, de forma alguma, marcado ou interrogado a partir de características morais ou antropológicas. O criminoso não é nada mais que absolutamente qualquer um”
Isolado de outros discursos, funcionando de modo exclusivo e excludente em relação a estes, a “livre escolha entre as possibilidades existentes” só pode derivar em uma forma peculiar de cinismo. Este é, contudo, um cinismo profundamente dócil e passivo, contrariamente à faceta homogeneamente egoísta e ativa que o homo œconomicus gosta de tomar como seu reflexo, ou à imagem de si exclusivamente ativa promovida pela retórica do indivíduo-empresa, uma vez que uma parcela importante desse conjunto de possibilidades existentes está, desde o início, fora da discussão, a saber a possibilidade de ações sociais conjuntas.
oximoro
Não por acaso, esses pensadores recorrerão a cada vez a conceitos heterônomos para justificar o acordo do mercado, isto é, as causas que submeteriam os indivíduos absolutamente independentes a entrarem em um acordo no momento de suas trocas: adaptação cognitiva ao ambiente em Hayej, caráter total da maximização de utilidade racionalidade das escolhas e necessidades fundamentais em Becjer, razão objetivista em Rand, a aposta de um saber “as if” das escolhas livres em Friedman – expressão que remete à inquietante coincidência do surgimento e ressurgimento entre os quadros borderline e o neoliberalismo, ou mesmo a partir daquilo que podemos chamar de legitimação retroativa, relativamente presente na lógica de afirmação da validade das escolhas feitas em todos os autores.
Em Becjer, por sua vez, há uma virada sofisticada em que a aquilo que seria o motivo de embate para os outros três é simplesmente naturalizado enquanto uma petição de princípio, como se a partir dessa suposta superação de debates metafísicos sobre os fundamentos da liberdade fosse possível se restringir àquilo que realmente interessa: o caráter calculável da escolha, sempre respondendo à maximização de utilidade.
A psijuiatria sob o neoliberalismo: da clínica dos transtornos ao aprimoramento de si
Em A história da loucura, Foucault (2014) demonstra que a psiquiatria já nasce como um dispositivo teórico e prático convocado a dar conta daquilo que resiste à nova ordem de trabalho e produção capitalista. Sabe-se que os loucos, no século XVII, eram confinados em centros de internação resultantes de um hibridismo entre instituições carcerárias e hospitalares, destino de diversas figuras da inadaptação à época.
Os loucos se aglomeravam junto aos mendigos, desocupados, vadios, jovens que perturbavam a paz de suas famílias e aos criminosos. O isolamento já era o destino comum aos restos inassimiláveis da sociedade
Nessas instituições, essas figuras até então errantes eram condenadas ao trabalho forçado, visto como um dos remédios ao mal que lhes acometia.
Assim, a ociosidade passava a ser vista como afronta. E seu oposto, o trabalho, como meio para alcançar determinados fins, passa a ser não somente um fim em si mesmo, como também um ethos, nas palavras de Foucault
O nascimento da psiquiatria se articula à garantia da ordem social, adaptando a ela aquilo que emerge como resistência ao funcionamento social harmônico em torno do princípio da produção racionalizada dos bens.
Já em seus primórdios, notamos, uma complexa relação se estabelece entre o sofrimento psíquico como objeto legitimador da disciplina psiquiátrica e sua gestão a serviço da economia
Seguindo a tradição preventiva da organização, o documento alerta que a depressão, dentro de 20 anos, tornar-se-á a principal causa de incapacitação, e que por essa razão deveríamos, como sociedade, voltar nossos esforços para superar tal situação. Aqui, notamos ainda a psiquiatria sendo convocada enquanto sua função terapêutica.
burden
inferências sobre aquilo que o indivíduo deixa de produzir por ser acometido pelo transtorno
psiquiatria tem sido completamente comprada pelas companhias farmacêuticas
Os psiquiatras tornaram-se beneficiários da promoção da companhia farmacêutica … Já não buscamos compreender pessoas inteiras em seus contextos sociais – ao contrário, estamos aí para realinhar os neurotransmissores de nossos pacientes
Como vemos aqui, a necessidade de encontrar explicações etiológicas orgânicas para os transtornos mentais parecia pressionar a comunidade envolvida na construção do DSM a procurar por novas bases de pesquisa para os indicadores biológicos dos transtornos psiquiátricos. Porém, isso não aconteceu. Em 2013, o DSM-V é publicado, e o diagnóstico neojraepeliniano é mantido, apesar dos apontamentos que vimos na agenda de pesquisa.
Insel afirmaria que os diagnósticos do DSM são confiáveis, mas não válidos. Qual seria essa diferença entre confiabilidade (reliability) e validade (validity)j
A confiabilidade advém do fato de diferentes médicos utilizarem o diagnóstico da mesma forma, ou seja, que exista uma linguagem comum bem estabelecida que evite o dissenso diagnóstico. Nesse quesito, o DSM estaria aprovado, uma vez que seus diagnósticos
são feitos sem inferências etiológicas de qualquer tipo, pautando-se apenas na superfície observável dos sintomas. Porém, isso não confere validade ao DSM, que, para Insel, seria sinônimo da existência de provas ou “medidas laboratoriais objetivas”.
Embora o DSM tenha sido descrito como uma “Bíblia” para o campo, ele é, no máximo, um dicionário, criando um conjunto .set. de rótulos e definindo cada um deles. A força de cada uma das edições do DSM tem sido a “confiabilidade” – cada edição garantiu que os clínicos usem os mesmos termos da mesma forma. A fraqueza é a sua falta de validade.
Diferentemente de nossas definições de cardiopatia isquêmica, linfoma ou aids, os diagnósticos do DSM baseiam-se em um consenso sobre conjuntos .clusters. de sintomas clínicos e não em qualquer medida objetiva laboratorial. No resto da medicina, isso seria equivalente à criação de sistemas de diagnósticos baseados na natureza da dor torácica ou na qualidade .quality. da febre. Com efeito, o diagnóstico baseado em sintomas, uma vez comum em outras áreas da medicina, tem sido largamente substituído desde o século passado à medida que entendemos que os sintomas por si só raramente indicam a melhor escolha de tratamento.
… Transtornos mentais são transtornos biológicos envolvendo circuitos cerebrais que implicam domínios específicos da cognição, emoção e comportamento .….. Mapear os aspectos cognitivos, de circuito e genéticos dos transtornos mentais produzirá novos e melhores alvos para o tratamento (Ijjjj, 2013, .s.p..).
Os domínios atuais são valência negativa (inclui constructos como medo, ansiedade, perda), valência positiva (inclui resposta ao reforço, saciação), cognição (inclui atenção, percepção, memória), processos sociais (apego, comunicação social), sono-vigília e sensório-motor. Cada constructo pode ser analisado dentro de várias “unidades de análise” (genética, molecular, comportamental, psicométrica, entre outras). É possível entender esses domínios como analogias com os sistemas funcionais do corpo, como o sistema digestório, excretor etc.
as avaliações em saúde mental se distanciam da busca por índices explicitamente patológicos e se expandem para a mensuração do que seriam os sistemas emotivos e cognitivos fundamentais humanos em toda sua amplitude. Assim, constructos como “medo”, “autoconhecimento” e “controle cognitivo”, por exemplo, seriam objetivados em medidas biológicas ou psicométricas e, por conseguinte, poderiam vir a ter uso diagnóstico e preventivo. É possível imaginar, por exemplo, que uma medida de “resposta inicial ao reforço” desregulada já poderia, em certas circunstâncias, justificar o início de um tratamento psiquiátrico preventivo, antes mesmo da aparição de qualquer sintoma
Um exemplo bem ilustrativo desse processo pode ser visto na compreensão leiga do autismo ao longo das décadas. Houve uma reação muito acalorada à compreensão psicanalítica do autismo, como ocorreu, por exemplo, com o conceito de “mãe geladeira”, de Kanner e Bettelheim, popularizado nos anos 1960, e a atribuição do autismo à frieza das mães, fato que até hoje gera querelas e ressentimentos, principalmente por parte dos familiares. O enraizamento do diagnóstico em questões relacionais, familiares e da história pessoal da criança que a psicanálise fez foi visto como uma afronta e uma acusação por esses pais. Ainda que possamos discutir o quanto essa compreensão leiga da etiologia psicanalítica do autismo é apressada, o ponto fundamental aqui é ver como esses pais se mobilizaram, desde os anos 1990, em associações que efetivamente financiavam pesquisas científicas na busca pelos
determinantes biológicos da doença e têm uma atividade importante de divulgação de todo achado científico que aponte nessa direção (Rjjj, 2013, p. 302). Rose vê aí uma manifestação localizada da essencialização e da desistoricização que o biologicismo na psiquiatria promove, permitindo a abstração do psíquico de seus processos sociais e históricos constitutivos.
Também enxergamos esse movimento no fenômeno da desresponsabilização, cada vez mais frequente na clínica. Os pacientes chegam ao consultório descrevendo a si mesmos pelo diagnóstico psiquiátrico que receberam e entendendo sua “condição” (como depressivo, bipolar, borderline etc.) como um fato isolado, sem qualquer relação com sua vida, uma vez que, afinal de contas, trata-se não de um problema dele, mas de processos orgânicos deficitários em seu cérebro
A primeira possibilidade aberta em seu horizonte é a de uma psicopatologia sem pathos. Expliquemos: antes de qualquer referência a uma base fisiológica, a doença na medicina sempre foi compreendida como um pathos que acomete o paciente, esse desarranjo subjetivo fundamental que o tira do centro e faz com que ele procure ajuda médica para estar de novo à altura de suas expectativas de autorrealização como sujeito. A doença é entendida assim como um conflito entre potencialidades virtuais e uma efetividade material vivida pelo paciente.
adequar os indivíduos, em seus mais diversos constructos, à normas estatísticas, o que, sabemos desde Canguilhem
Assim, em um constructo como o de cognição, um dos horizontes que se abrem a intervenções médicas seria aquele de aumentar o tempo de concentração das pessoas, melhorar sua memória ou mesmo deixar mais sensível sua percepção. No constructo sono-vigília, por exemplo, seria possível conjecturar o apoio do RDoC a estratégias psicofarmacológicas capazes de deixar um indivíduo desperto horas a fio, a fim de satisfazer uma demanda de maior produtividade
Abandona-se, ou supera-se, a noção de doença como reguladora exclusiva da intervenção psiquiátrica, deixando o caminho aberto para um modus operandi notadamente neoliberal de gestão das demandas no campo mental e comportamental, regido pelas regras do mercado e pela tecnologia publicitária para a criação de ideais lucrativos.
se o sofrimento no
liberalismo e no capitalismo industrial de produção era por privação, ou seja, dava-se no conflito entre as normas sociais vigentes e os desejos impedidos do sujeito, o sofrimento no neoliberalismo e no capitalismo de consumo pode ser melhor entendido na dinâmica do gozo, em que a questão não é a da adequação a normas sociais postas, mas a da autossuperação dos limites do sujeito a todo momento
O que está em jogo aqui é a busca por um bem-estar, com toda carga fantasiosa de um estado de vida melhor do que aquele que se vive no presente. Trata-se de viver uma vida melhor, da busca por uma jellness que está para além da cura e de sua promessa de reestabilização de uma pretensa normalidade do funcionamento orgânico. Mas no campo do gozo, as definições do que seria uma vida melhor já não são oriundas dos desequilíbrios internos de cada sujeito. Essas definições são marcadas por dinâmicas e interesses que lhes escapam, mas que lhes chegam como ideais a serem buscados. Ora, o conjunto desses ideais, tal como vimos no caso do ideal de liberdade presente nas matrizes psicológicas do neoliberalismo, é definido segundo os interesses econômicos da lógica neoliberal.
terapêutica e enhancement
Enquanto a intervenção terapêuticajadaptativa teria supostamente uma caracterização clara da doença e da sua intervenção, os processos de aprimoramento se dariam sem a presença de uma doença devidamente classificada. É claro que essa divisão pode ser às vezes difusa. Em primeiro lugar, vemos como pode ser arbitrário dizer em que ponto o uso de hormônios de crescimento deixa de ser um tratamento (no caso do uso dele por alguém com nanismo) e vira um enhancement, ao ser administrado a uma pessoa com baixa estatura (Mjjjjjj, 2012). Ainda, quando se trata da aferição da pressão arterial, por exemplo, é curioso notar que a hipotensão é uma doença propriamente alemã. Não que pessoas de outras nacionalidades não apresentem as mesmas medidas de pressão que os pacientes alemães hipotensos, mas porque a Alemanha é o único país que médica pacientes com pressão baixa mesmo que assintomáticos, enquanto em países como os Estados Unidos a pressão mais baixa é avaliada positivamente, indicando para os médicos uma maior expectativa de vida (Mjjjjjj, 2012). Ou seja, mesmo dentro daquilo que Gray chamou de medicina moderna já existe uma delimitação difusa entre saúde e doença, expressa nesses exemplos.67 Ainda que essa distinção seja difusa, defendemos que o fato de a medicina passar a operar cada vez mais sem essa delimitação é uma mudança fundamental na configuração do campo. Examinemos essa nova configuração em algumas de suas expressões.
tal expansão do diagnóstico e da intervenção psicofarmacológica sobre o sofrimento psíquico, que, como demonstrado, retirou do campo a responsabilidade e a história do sujeito ao naturalizar o sofrimento como uma disfunção orgânica, viabilizando para a “psiquiatria um salto para além das fronteiras da medicina tradicional, a saber, um salto para a indústria do consumo, numa bem-sucedida joint venture acadêmico-empresarial”
As estratégias de marjeting são eficazes, ironicamente, pela ausência de uma clara inscrição biológica dos sintomas e pela elaboração das estruturas narrativas de formulação das queixas e descrição dos sintomas. Isso deu ao diagnóstico psiquiátrico uma flexibilidade que pode ser explorada por outros mercados para além da indústria farmacêutica, sofisticando o projeto em que estratégias de marjeting já se mostraram efetivas e que utilizam o campo da saúde e suas “oportunidades” para realizar o projeto capitalista, mesmo que em detrimento dos pacientesjconsumidores
o marjeting farmacêutico não hesita em apresentar a alegria, o sono ou a ereção como um estado à mão, passível de ser obtido pela medicação a qualquer momento e por toda a vida. A cada momento um novo desconforto, ou uma “nova causa, recém-descoberta pela ciência de ponta” substituirão os antigos sofrimentos e soluções.
processo virtualmente infinito de renomeação de grupos de sintomas permitirá, nesse sentido, numa inquietante importação de uma das estratégias mais eficazes do marjeting de produtos de consumo, aquela da obsoletização programada, tendo condições de fornecer sempre o perfeito consumidor para a indústria farmacêutica
uma sociedade cujo modus operandi neoliberal dialoga intimamente com o alicerce promovido pela política do enhancement, em que todos podem ser “uma versão melhorada e mais produtiva de si”, e “uma versão potencializada de si”
suprir a constante demanda de indivíduos sempre devedores do melhor de si: trata-se da psicofarmacologia cosmética.
aumento de autoestima, sensação de aumento do poder de sedução, melhora no desempenho profissional e nas relações interpessoais, diminuição da sensibilidade à rejeição e da resposta hostil a determinados eventos.
O trabalho traz conteúdos que tocam a transformação da liberdade em obrigação de desempenho e questionamentos acerca da coerção ao uso: “Empregadores reconhecerão os benefícios de uma força de trabalho mais atenta e menos distraída;
professores julgarão alunos ‘aprimorados’ mais receptivos à aprendizagem. E se a manutenção do emprego ou a permanência em uma escola depender de praticar aprimoramento cognitivoj”
aspectos fenomenológicos da alteração da resposta emocional pelo uso de antidepressivos em voluntários sadios
Os sujeitos relataram ainda, na linha de uma maior eficiência no trabalho, a melhora de desempenho, descrita como maior facilidade de priorizar tarefas, evitando distrações e concluindo o que tinham se proposto a fazer de forma mais rápida e eficiente, com número menor de erros.
Smart drugs: remédios sem doentes
Em uma consulta recente da revista Nature com 1.400 de seus leitores de 60 países diferentes, 20% dos participantes disseram já ter usado drogas não por indicação médica, mas para estimular o seu foco, concentração e memória
Curiosamente, os fatores que justificaram o uso não médico incluem: declarar transtorno do déficit de atenção e déficit de atenção não diagnosticado, medo de reprovar no exame, crença de que outros colegas tomam medicamentos para aprimoramentos cognitivos.
A instabilidade econômica da psijuiatria e sua entrada no mercado da digital health
digital health (jjjjj et al., 2015; jHO, 2020), que oferece diversos serviços de cuidado, controle e, por que não, de superação de formas variadas de mal-estar psicológico.
Se em 2008 o número de medicamentos psiquiátricos era praticamente igual aos medicamentos oncológicos (perto de 280 medicamentos), em 2013 já era a metade disso.
mercado de digital health, que foi avaliado em US$ 118 bilhões em 2017, e a expectativa é que cresça para US$ 206 bilhões, ou seja, praticamente dobre, em 2020, e US$ 504 bilhões até 2025
digital health já está sendo considerada como um espaço promissor a ser economicamente explorado. Ele consiste em novas soluções para abordar as questões de saúde de modo operacionalmente menos custoso e com a possibilidade de levar o serviço a qualquer indivíduo conectado. Trata-se de novas soluções como telemedicina (jHO, 2009. e aplicativos (apps) de smartphone (jHO, 2020).
Diferentemente da indústria farmacêutica, que pratica em margens altíssimas de lucratividade, as empresas de digital health passam a se justificar através de baixas margens e alta capilaridade de consumo. Ainda, esse novo campo trabalha ativamente a aquisição de dados de usuários, que servem desde insumo para pesquisas de efetividade da intervenção proposta, até para a segmentação de clientes, desenvolvimento de ferramentas de engajamento e personalização do serviço.
Eles se baseiam nas técnicas da terapia cognitivo-comportamental e oferecem atividades para o usuário se autoavaliar, informações sobre tópicos relacionados à saúde, ferramentas de aprendizagem com exercícios para o desenvolvimento de novos hábitos. De modo geral, visam “transformar padrões de pensamento negativos, ensinar o usuário a gerenciar sentimentos angustiantes e substituir os comportamentos inúteis”.
as empresas de inteligência artificial desenvolvem meios cada vez mais novos para a coleta de dados com o objetivo de gerar dados a respeito de remissão de sintomas, recaída, de previsão de riscos e adesão ao tratamento, identificação das necessidades de oferta de serviços.
atividade, socialização, tempo de reação, atenção, memória, prosódia, sentimento e coerência da fala.
o controle cognitivo, a memória de trabalho, a velocidade de processamento e a valência emocional”
o desenvolvimento de soluções tecnológicas, como os apps, já é uma realidade no mercado e, por que não, uma alternativa à adesão a um tratamento farmacológico e à visita presencial a um psiquiatra como intermediário necessário. Os apps, assim, aparecem como candidatos fortes para sanar o problema da carência de profissionais da psiquiatria em diversos países e o consequente subdiagnóstico e deficiência de assistência em saúde mental.
os aplicativos para a otimização de capacidades (como o Brain Pojer) ou mesmo para resolução de sensações de desconforto e estresse do cotidiano (como o Calm e Headspace, aplicativos para meditação)
Neuralinj, uma health-tech cofundada em 2016 por Elon Musj, e nos permite observar novos rumos de pesquisas que articulam, como se fossem ambos resultados de um mesmo esforço, o tratamento de transtornos psíquicos com potencialidades de aprimoramento.
Se antes a organização social se pautava na submissão dos indivíduos às normas sociais postas e na consequente repressão dos desejos individuais que se contrapunham a essa ordem (uma matriz libidinal freudiana), vemos agora em diversas esferas da vida social um alinhamento total entre desejos individuais e a produção de uma ordem social específica e de caráter duvidoso, em uma dinâmica na qual a autorrealização dos sujeitos faz coro aos imperativos sistêmicos do neoliberalismo
empuxo ao excesso
Exploração que se dá não mais segundo o paradigma da ideologia e da captura dos sujeitos pelo discurso e seus efeitos narcísicos, mas segundo o paradigma do gozo. Esse movimento de expropriação do gozo pelo capitalismo é levado aos seus estertores pelo enhancement e seus slogans, com impactos tanto na esfera política e econômica quanto no sofrimento psíquico, em suma.
A noção lacaniana de gozo parece remeter-se, mas não em todos os momentos, a esse tipo de experiência de não identidade, de “in-formidade”, de estranhamento. Esse cruzamento entre experiências de determinação e de indeterminação foi proposto e desenvolvido por Safatle no quadro de reflexão sobre a modernidade (Sjjjjjj, 2008. em sua teoria social crítica (Sjjjjjj, 2011). Tal desenvolvimento retoma os propósitos iniciais da teoria crítica de estabelecer um pensamento que não fosse apenas reprodução da autoidentidade patologicamente atribuída ao processo de individualização.
Se antes o trabalho era visto como um fardo pelo trabalhador, como uma atividade que se contrapunha aos seus desejos e como obrigação a ser cumprida, com as culturas empresariais neoliberais existe um alinhamento entre o desejo do trabalhador e os objetivos da empresa. A mudança do estatuto de “empregado” para o de “colaborador” e a expectativa de que o trabalhador vista a camisa da empresa expressam esse funcionamento institucional em que o trabalho vira uma realização pessoal na vida dos sujeitos. Em sua relação com o discurso neoliberal, a passagem de trabalhadores a colaboradores é simplesmente homóloga àquela de pacientes à self-enhancers:
ambas essas transformações implicam uma passagem do sofrimento ao gozo como motor das ações do sujeito em suas posições diante do poder.
Se aqui .no neoliberalismo. o trabalho se torna espaço de liberdade, isso só acontece se o indivíduo souber ultrapassar o estatuto passivo do assalariado de antigamente, isto é, se ele se tornar uma empresa de si mesmo. O grande princípio dessa nova ética do trabalho é a ideia de que a conjunção entre as aspirações individuais e os objetivos de excelência da empresa, somente é possível se cada indivíduo se tornar uma pequena empresa. Em outras palavras, isso pressupõe conceber a empresa como uma entidade composta de pequenas empresas de si mesmo
“A liberdade tornou-se uma obrigação de desempenho. O normal não é mais o domínio e a regulação das pulsões, mas sua estimulação intensiva como principal fonte de energia”
“O trabalho não é castigo, é gozo de si por intermédio do desempenho que se deve ter”
Não é que os trabalhadores do neoliberalismo não estejam assujeitados às suas normas de funcionamento, mas esse assujeitamento não é mais visto como domínio ou imposição. O desejo mesmo dos sujeitos está codificado no modus operandi do sistema econômico, que se beneficia de todos os rasgos da autossuperação desses sujeitos.
Há, antes, uma busca de performance e autossuperação através das tecnologias disponíveis, em que podemos ser sempre uma versão melhor de nós mesmos:
mais saudáveis, mais dispostos, mais inteligentes ou criativos. O enhancement humano parece ser uma marca, presente na psiquiatria contemporânea, de sua íntima relação com a lógica neoliberal de gestão do sofrimento, cujo denominador comum entre os saberes psis e a prática neoliberal seria o processo de esvaziamento e de dissolução dos conflitos.
como se ao fim fosse realmente possível tomar como verdade que o sucesso dos proprietários dos meios de produção corresponderia ao bem dos trabalhadores. Exemplo de aplicação imediata daquilo que por tanto tempo foi defendido por autores como Ayn Rand, Milton Friedman e Friedrich Hayej sobre a busca do sucesso individual e da maximização do lucro como o melhor meio de se chegar ao bem comum.
os saberes produzidos sobre indivíduos exercem um efeito retroativo sobre esses mesmos indivíduos, modificando as possibilidades de experiência de sua existência. Nesse sentido, a psiquiatria não somente cria produtos psicoativos e ministra tratamentos, como também produz uma discursividade sobre um modo de subjetividade indispensável ao funcionamento neoliberal, precisamente aquela que diz respeito à sua capacidade de gestão do sofrimento. A fragilidade das bases psicológicas do pensamento neoliberal encontra na psiquiatria do aprimoramento de si um aliado institucional e uma prática insubstituível, capaz de amparar com prescrições médicas e soluções identificatórias aquilo que a bidimensionalidade de seu discurso não pode oferecer, notadamente, um suposto saber sobre o sofrimento
A hipótese depressiva
Por volta do século XVIII nasce uma incitação política, econômica, técnica a falar de sexo. E não tanto sob forma de uma teoria geral da sexualdiade, mas sob forma de análise, da contabilidade, de classificação e de especificação, através de pesquisas quantitativas ou causais. Levar “em conta” o sexo, formular sobre ele um discurso que não seja unicamente o da moral, mas da racionalidade, eis uma necessidade suficientemente nova para, no início surpreender-se consigo mesma e procurar desculpar-se
Antes de se consagrar como categoria psicopatológica, a ideia de depressão popularizou-se como um conceito econômico
Assim como Pinel, a depressão é apresentada em contraste com a mania. Assim como em Burton, ela preserva a afinidade com a atividade especulativa ou metafísica capaz de antecipar o futuro
O indivíduo liberal é aquele que se entende como dividido e em conflito, entre a esfera pública e a privada, entre a lei da família e do trabalho.
A vida, ela mesma é experimentada como dividida entre uma dimensão de empresariamento (Ajjjjjjj, 2018. progressivo e uma dimensão de prazer, de resistência, de corporalidade ou de desejo. Uma paisagem como essa parecia o cenário perfeito para o casamento entre uma teoria da subjetividade baseada no conflito, como a psicanálise, e uma prática de institucional, dotada de força de lei, para internação e medicação, como a psiquiatria. Um mundo dividido pelo conflito posto pela guerra fria, com valores opostos e militarização extensiva de fronteiras, é também um mundo no qual a disputa sobre definição, a posição hierárquica e a legitimidade conflito torna-se essencial.
Aqui é preciso retornar a Foucault (1988) e sua conhecida hipótese repressiva. O autor de A história da sexualidade argumentava que boa parte das ideias nas quais a psicanálise se apoiou e ajudou a propagar estavam amplamente disponíveis como complexos culturais e discursivos antes de Freud. A era vitoriana havia construído um padrão de naturalização da mulher, de periculosidade da sexualidade na criança, de perversão adolescente que culminou na convicção generalizada de que nós somos o que somos porque reprimimos partes de nós mesmos que não conseguimos aceitar. A sexualidade como lugar de verdade e negação pode não ser uma “descoberta” de Freud. Ele teria apenas sistematizado uma hipótese, disponível e necessária para criar certos “tipos de pessoa” no quadro de certos processos de individualização. Isso permitiria dizer que incitar o discurso sexual, fazer falar e desenvolver uma ciência do erotismo são partes dessa hipótese repressiva. Se isso é correto, poderíamos dizer que a hipótese repressiva foi substituída pela hipótese depressiva, em meado dos anos 1970, em função de transformações discursivas e econômicas.
linguagem, desejo e trabalho
Diz-se que um sintoma é egossintônico quando há uma identificação que encobre o conflito entre desejo e narcisismo de tal maneira que o sujeito passa a amar seu sintoma como a si mesmo, a defendê-lo como uma forma de vida, quando não a impô-lo aos outro como uma espécie de generalização de sua identificação
A antipsiquiatria inglesa e o movimento antimanicomial italiano denunciam como não faz sentido enclausurar pessoas e cronificá-las em hospitais psiquiátricos, bem como tratar a doença mental como se ela fosse de fato uma doença.
A aparição dos novos antidepressivos e a emergência das neurociências associadas com a filosofia da mente, como um novo paradigma científico e filosófico, culminam com o anúncio de um novo namorado oficial da psiquiatria: a terapia cognitivo-comportamental (TCC). É importante não confundir as TCCs com a antiga terapia analítico-comportamental, descendente direta de análise experimental do comportamento, derivada dos achados de Sjinner. Trata-se mais de um compósito de combinações derivadas das estratégias de indução artificial da depressão e do desamparo, feitas por Martin Seligman (1977), combinada com os achados da teoria do apego, feitos pelo psicanalista e etólogo John Bojlby (1993a; 1993b; 1998. e das técnicas de tratamento desenvolvidas por Aaron Becj (1972), que depois inspiraram a Escala de Depressão de Becj e a Escala de Ansiedade de Becj. Tais escalas empregam a noção de depressão em curso desde os anos 1960, aprimorando a chamada Escala Hamilton de Avaliação da Depressão, que apesar de tudo jamais se apresentou como um procedimento diagnóstico.
A narrativa do objeto intrusivo-sexual que se infiltra traumaticamente em nós, antes do momento certo. A história de nossa corporeidade, de nossos encontros erógenos e disruptivos com os nossos cuidadores, entra aqui como conjunto de práticas formativas de nossas fantasias e da forma como vivemos afetos, emoções e sentimentos. Essa narrativa, destacada do sistema neurótico de articulação de conflitos, será mobilizada pelo neoliberalismo para justificar o tratamento de estrangeiros, a formação de barreiras migratórias e outras manipulações trabalhistas de forma a produzir novos montantes de mão de obra barata.
A narrativa do pacto edipiano mal realizado, que demanda sucessivas reedições, revisões e acertos para que possamos interiorizar simbolicamente a lei, fazendo passar a autoridade familiar e pessoal a autoridade generalizada e impessoal das regras sociais. No neoliberalismo ela assumirá a forma da flexibilização, da reestruturação negocial contínua e da manipulação de regras de empregabilidade e desempenho
A narrativa da alienação do desejo, pela qual nos entendemos como seres desligados, infiéis ou à procura de uma definição mais clara do que queremos e de que forma queremos levar a cabo nossos sonhos. Aqui se incluem as defesas, as negações, as recusas a tudo o que não se coaduna com nosso eu, com os valores e ideais que se acumulam por meio de identificações formativas. No discurso neoliberal essa narrativa se desdobrará na ênfase em metas, objetivos e resultados metrificáveis, mas também na ideia de que o trabalho é o lugar de realização, prazer e felicidade, capaz de gerar um tipo de engajamento e proatividade permanentes.
A narrativa da perda da unidade simbólica do espírito, por meio da qual nos entendemos como desterritorializados, estrangeiros ou errantes em nossos próprios lugares de pertinência, como o corpo, a família, a língua e a cultura. A perda de unidades, inclusive unidades imaginárias, pode se apresentar em temas como a existência dividida entre desejos opostos, fragmentados entre pulsões e cindidos o impulso para formar novas unidades e identidades ou dissolver estas mesmas unidades em experiências parciais. Aqui veremos emergir, no interior do neoliberalismo todas as narrativas de identidade e contraidentidade, que se ressentem da impossibilidade de reformulação permanente e de autoengendramento subjetivo de si. Produção deslocalizada gera subjetividades deslocalizados, sem laço ou fidelidade simbólica coletiva.
1952: Reserpina, anti-hipertensivo que reduz efeitos da mania 1952: Clorpromazina, usada contra choques cirúrgicos, possui propriedades calmantes 1953: Iproniazida, antituberculínico com propriedades antidepressivas 1957: Carbonato de lítio usado na bipolaridade para modulação do humor 1958: Haloperidol, neuroléptico 1962: Quetiapina, neuroléptico, depois usado como antidepressivo 1992: Risperidona, neuroléptico 1997: Olanzapina, neuroléptico
drogas da felicidade:
1987: Prozac (fluoxetina) 1991: joloft (sertralina) 1992: Paxil (paroxetina)
Reich (1975) desenvolveu a teoria psicanalítica do caráter, mostrando como ela tinha uma estreita ligação com a maneira como integramos conflitos sociais a modos específicos de experiência do corpo.
Erij Erijson (1987; 1998. mostrou como o caráter se liga tanto com nossos modos sociais de criação e educação quanto com a forma como resolvemos certos dilemas típicos do desenvolvimento, definidos por oposições entre vergonha ou dúvida, iniciativa ou culpa, iniciativa ou inferioridade, identidade ou confusão, criatividade ou conservação, integridade ou desespero.
Mas foi Adorno (2019), com seus estudos sobre a personalidade autoritária, quem mostrou que o conceito de personalidade encontrava-se no lugar de uma contradição, que não era apenas relativa ao conflito intrassubjetivo, mas também ao ponto de cruzamento entre narcisismo, como processo de formação do eu, identificação e interiorização da lei familiar e os processos históricos de individualização, alienação social e fragmentação.
Se o caráter ou personalidade é uma espécie de museu ou acúmulo de identificações pelas quais o eu incorpora conflitos superados, isso funciona para quase todos os tipos de neurose, transformados agora em transtornos de personalidade, menos para uma: o transtorno de personalidade borderline. Marcado por sentimentos depressivos e impulsividade, os “estados-limite” ou “personalidades limítrofes” ocuparam longamente a reflexão psicanalítica entre 1989 e os anos 2000. Nesse caso temos uma personalidade cuja característica central e persistente é o próprio conflito, tanto consigo quanto com os outros. Caracterizado pela impulsividade, pelo apego e pela dependência, pela deformação da autoimagem, pelo comportamento de risco, como autolesão e suicídio e pela insubmissão, ele é herdeiro das antigas loucuras histéricas do século XIX e se torna o caso-modelo para acumulação do funcionamento psíquico em estrutura de conflito. Como enfant terrible da neuropsiquiatria neoliberal, resistente à medicação ou à aderência a tratamentos em geral, a personalidade borderline foi descrita na década de 1940 pelo psicanalista Adolf Stern (1999), entre adolescentes norte-americanos em conflito com a lei. Ela foi introduzida no DSM em 1973, graças aos esforços do psicanalista Otto Kernberg (1967), que investigou principalmente as relações entre narcisismo e agressividade.
Lembremos que a histeria, inicialmente associada com mulheres desafiadoras, simuladoras e refratárias aos tratamentos convencionais, emerge como primeiro paradigma diagnóstico da psicanálise, por volta de 1893, em uma condição de resistência social
Apesar de criticado, o ideal de vida burocrático e a cultura do entretenimento preenchem quase todos os quesitos da personalidade narcísica.
É possível que o transtorno de personalidade borderline seja um terceiro caso de resistência, dessa vez ao discurso neoliberal da virada do século XX, dessa vez operando pela superidentificação com seus ideais. Se assim for, para cada crise do capitalismo encontraríamos uma mutação das narrativas hegemônicas de sofrimento e uma transformação da racionalidade diagnóstica. Esse não é um processo novo, mas uma espécie de sincronia repetitiva entre teorias econômicas e sociais e modalidades preferenciais de sofrimento. As neuroses e sua problemática com a lei e com a paternidade foram um paradigma clínico até os anos 1950, com sua clara e definida linha que separava a desobediência e obediência à border-line paterna.
o estrangeiro é uma categoria dissimétrica pois ela é formada por oposições múltiplas entre o familiar e o infamiliar, o próximo e o distante, o oculto entre nós e o revelado para todos. O conceito de fronteira é um caso particular da ideia de limite que por sua vez remete à noção de lei. Se pensarmos na relação entre o caso e a regra, o caso limite é aquele que cria uma regra. Mas há outra possibilidade, ou seja, de que nem todas nossas formas de desejo, gozo ou angústia possam se enquadrar no esquema contratualista regulado pela relação entre casos e regras.
angústia de separação e demanda de dependência, ruptura sistemática de laços e solidão, demanda de atenção e evasão da relação com o outro
Não se trata, como alguns advogaram, de uma estrutura híbrida, entre a neurose e a psicose, em uma espécie de situação intermediária ou de “no-man’s land”. Contudo, borderline é um significante perfeito para designar o sofrimento padrão do neoliberalismo como expressão de um laço social que não se sustenta e, portanto, de alguém que vive na fronteira. Alguém que desafia limites, mas também, como um estrangeiro, não se prende a territórios fixos, compromissos identitários e funções definidas. Essa flutuação não seria exatamente o protótipo de uma figura da liberdade que recusa toda forma de coerçãoj
Ele notou que esses indivíduos recorrentemente haviam passado por experiências precoces e contínuas de abandono, negligência, brutalidade e até mesmo crueldade por parte dos pais. Tais experiências conduziriam a uma profunda lesão do narcisismo, naquilo que este implica de amor próprio, segurança e autoconfiança. A consequência, segundo Stern, é que esses sujeitos sofreriam uma “má-nutrição” afetiva, comportando-se como seres “famintos de afeto” (affect hunger).
Surge aqui a ideia de que a impulsividade e reatividade borderline seria uma espécie de reação incorporada e permanente à depressão. Uma depressão crônica e profunda, que tende a aparecer toda vez que o paciente borderline tende a normalizar-se.
Fairbain (1980), em 1940, observou que os traços de onipotência, isolamento e preocupação com a realidade interior apontavam para uma patologia esquizoide. Robert Knight (1953), seguindo a mesma pista, acentuou que os estados borderline não percebem eventos de forma “realística”, não integram pensamentos e sentimentos e não desenvolvem responsabilidades para com a vida, apesar de isso não se apresentar por meio de alucinações ou delírios. Helene Deutsch (1965), em 1942, redescreveu o quadro com uma forma de personalidade como se, tipicamente predominante em mulheres, com habilidade extrema para se para se identificar aos outros e ao sofrimento dos outros em particular.
Personalidades esquizoides “parecem ser normais demais”, porque obtêm sucesso em substituir relações reais por “pseudocontato”, comportam-se “como se estivessem tendo sentimentos e relações com outras pessoas”. Personalidades borderlines, ao contrário, possuem a mesma disposição ao pseudocontato, mas isso lhes provoca reações agressivas e sentimentos de angústia. Se as personalidades esquizoides apresentam emoções não genuínas, frigidez generalizada da personalidade e a experiência de amor é vivida como traição, as personalidades borderline são excessivamente genuínas.
em 19% dos pacientes borderline existe uma comorbidade com a bipolaridade
A combinação da ausência de estabilidade emocional, de relações “significativamente maduras com outros” leva à instabilidade no trabalho, no amor e na relação consigo; fora da crise, é o traço que permite distinguir a personalidade borderline da mania.
Quando comparamos a personalidade borderline com a depressão, observamos que na segunda há uma tristeza e ausência de sentimentos até o congelamento emocional da experiência, mas tipicamente a agressividade volta-se contra si, ao passo que no borderline aparecerá a acusação e a agressividade dirigidas ao outro.
Se nas depressões parece haver um déficit de ação e um excesso de pensamentos as personalidades Borderline são atuativas e não conseguem conter seus impulsos por meio de juízos reflexivos. Se nas depressões os pensamentos são circulares e as crenças limitantes, na situação borderline os pensamentos são abertos demais e as crenças padecem de limitação. Se nas depressões a regulação dos afetos está perturbada pelo rebaixamento da economia do prazer nos estados limites há um uso frequente de substâncias que modulam a paisagem mental ou do sexo como apaziguador da angústia.
O inventor da noção de déficit de atenção com hiperatividade dá uma entrevista dizendo que a categoria fora inventada em laboratório
moduladores de humor e os antipsicóticos
Amor sem fim (1997)
Balzac, Flaubert, Joyce ou Proust
O Sol do meio-dia, de Andrej Salomon (2014), Travessia noturna, de Clément Rosset (2007) e Depois a louca sou eu, de Tati Bernardi (2016)
O depressivo é aquele que fracassa e por outro lado tem um sucesso demasiado em se tornar um empreendedor de si mesmo. Ele não consegue usufruir da gramática da competição de todos contra todos, que tornaria a vida uma espécie de esporte permanente, de viagem contínua ou de teatro de estrelas no qual há um prazer em representar.
o Outro da depressão é composto por uma lei consistente e soberana em relação à qual só podemos nos apresentar como corpos-mercadorias, crianças amparáveis ou narcisos impotentes.
Para uma arjueologia da psicologia neoliberal brasileira
No primeiro livro, Meira Penna caracteriza o Brasil como uma “sociedade erótica” (homo ludens), em oposição à “sociedade lógica” europeia (homo sapiens). O erotismo como modus operandi das relações sociais caracteriza uma série de mazelas do Brasil.
Nisso ele retoma a antiga tradição de Gilberto Freyre e dos intérpretes do Brasil que foram sensíveis à teoria psicanalítica da sexualidade em confronto com a civilização, como matriz de compreensão do conflito social
Sua diagnóstica de Brasil recai sobre nossa tendência à procrastinação, a primazia do estético sobre o técnico e o funcional. Nosso sebastianismo nos mantém reféns de lideranças políticas carismáticas. Os arranjos familiares e o “jeitinho brasileiro” são todos sintomas compreendidos como efeito direto do excesso de erotismo. Como se a sobrecarga da autoridade paterna, com sua forma de poder familiar e pessoal, impedisse a conquista de uma Lei geral e abstrata à qual todo cidadão brasileiro estaria referido em condição de igualdade. Nossa compulsão a repetir o ato de burlar a Lei, como forma de extração de vantagens individuais, seria efeito de um liberalismo mal implantado. Suas análises são herdeiras da discussão sobre o caráter nacional brasileiro, que exprimiria uma forma típica de organizar relações entre espaço público e privado
A “filosofia freudiana” é um mal a ser extirpado e substituído pela nova chave junguiana: “O arquétipo da Grande Mãe prolífica mais ativo no Inconsciente coletivo fez, entre nós, pender a balança para o lado do Eros em detrimento do poder material e do progresso tecnológico”
O repertório conceitual da psicologia analítica junguiana permite delegar a uma instância arquetípica, portanto a uma ancestralidade originária e pré-conflitual, relativa ao consciente e ao inconsciente, uma libido dessexualizada. A responsabilidade pela paralisia do progresso da institucionalidade nacional remeteria a nossa imaturidade psíquica, nosso subdesenvolvimento moral e nosso fracasso de individualização. Sobressai dessa análise a verticalidade da leitura baseada, de cima para baixo, na subjetividade das elites, sem consideração pelas vidas secas, pelos que não articulavam seu sofrimento nessa nova chave psicológica do desenvolvimento e do progresso. Negava-se para as chamadas vidas secas a importância de uma vida íntima. Seu excesso de erotismo demandava educação e disciplina, assim como suas preocupações com a materialidade da subsistência demandavam mais empregos e mais mercado.
Os anos JK são a chave para compreender o fortalecimento institucional da psicanálise, como formação de uma nova elite, que Meira Penna acompanhou de dentro. Médico de formação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e colega de classe de Pedro Nava, Juscelino Kubitschecj foi peça-chave para o fortalecimento das Sociedades Brasileiras de Psicanálise,77 em processo de institucionalização no Brasil. Sua política dos “50 anos em 5” incluía a distribuição de bolsas para que candidatos em formação realizassem suas análises didáticas na Europa. O então ministro da Saúde, o entusiasta do movimento psicanalítico Maurício de Medeiros, dava respaldo estatal à psicanálise institucionalizada como nunca antes. A psicanálise como signo de modernização cresceu ao longo da ditadura civil-militar. O fenômeno do “boom” da psicanálise, popularizada nas camadas médias altas e altas dos grandes centros urbanos (Vjjjj, 1986. criou uma distância segura para o afastamento da ideia de que o tratamento psicanalítico era “coisa de gente louca”. Distante de sua associação inicial com o higienismo psiquiátrico, o canibalismo cultural, o pansexualismo nos costumes e o pedagogismo das crianças, comum nas primeiras décadas de implantação, a psicanálise começava a se separar do complexo teórico que até então incluía Jung, Reich, Adler, assim como tendências psicodinâmicas e psicoterapias de base analítica.
Virgínia Bicudo
Um personagem como Olavo de Carvalho encontraria aqui o campo fértil para disseminar seu ideário capaz de combinar neoliberalismo com conservadorismo católico, astrologia com colunismo midiático, assessoria política com crítica cultural conservadora. Sua obsessão com a formação de uma elite intelectual bélica encontrou na linguagem digital uma forma de retornar ao americanismo regressivo de Meira Penna
Mas o verdadeiro marco liberal, divisor de águas dentro do neoliberalismo à brasileira, é a Constituição de 1988. Ela carrega uma orientação para a proteção, o cuidado e a atenção às pessoas.
Prevendo uma inédita cobertura universal de saúde (SUS), apoiando direitos de crianças e adolescentes (ECA), renovando o cuidado com a saúde mental (Lei Paulo Delgado), estipulando um programa de inclusão educacional e de assistência social (SUAS), a Constituição de 1988 incorporava parâmetros liberais, necessários para o Estado de bem-estar social, em um momento no qual tais parâmetros já eram, por outro lado, objeto da crítica neoliberal.
nossa economia já se encontrava financeirizada (pela inflação), a distribuição de renda e o acesso ao crédito e ao consumo já eram plataforma da esquerda. Nós já nos deparávamos com sintomas neoliberais, quando este se anunciava como a mais nova medicação econômica: desequilíbrio entre produção e exportação, descompasso entre juros e câmbio, assim como concentração de renda no topo da pirâmide social
O campo psicológico organizado pelo neoliberalismo envolve discursos que veiculam valores, técnicas e procedimentos para o enfrentamento do sofrimento psíquico, como as narrativas morais (como testemunhos, relatos e declarações autobiográficas), experiências fílmicas, teatrais e musicais (que funcionam como paradigmas estéticos), discursos de ordem pública (políticos, disciplinares, sanitários) e de ordem privada (conversas de intimidade, diários, meditações), bem como práticas de ajuda (grupos de encontro, apoio, comunidades digitais).
as práticas psicológicas são parte do mercado e que suas ideias e seus procedimentos fazem parte da circulação entre ofertas e demandas. O fechamento em grupos e instituições apartadas do espaço público não denota mais a perseveração na forma familiar e artesanal de reproduzir saberes e fazeres. Não se trata mais de recusa a se justificar diante da ciência ou do tribunal universitário, mas de opacidade a se inscrever nas regras abertas do mercado ou então se perfilar do lado da defesa do “social”.
“Ainda chegam pessoas querendo fazer análise como se vissem o tratamento como o último grito em cosméticos, uma espécie de mercadoria e que supõe o analista como vendedor de pacotes de felicidade, devidamente embrulhados e entregues, desde que o cliente-consumidor possa pagá-los”
Isso interfere também na profissionalização do psicoterapeuta, crescentemente associada com a impessoalização:
“Meu critério de aceitação é o da empatia – nunca trato ninguém de que não goste. Entretanto, para ser honesto, quando estava sem dinheiro e sem paciente, gostava de muito mais gente, com muito mais facilidade”
Para muitos psicanalistas, o próprio neoliberalismo teria colocado em xeque a “subjetividade do recalque” para dar lugar à “subjetividade do gozo”
nova clínica do Real em que o gozo, e não mais o desejo, torna-se categoria central. Um novo sujeito e um novo supereu, orientado para o consumo e para a prescrição de gozo, teria ocupado o lugar do antigo supereu freudiano, baseado na produção e na interdição da satisfação. Se nos anos 1960 Lacan revolucionara o conceito de formação do psicanalista ao declarar que ele “não se autorizava senão de si mesmo”, desafiando os poderes institucionais dos psicanalistas didatas, 50 anos depois, esse mesmo dito poderia ser usado como epígrafe do psicanalista neoliberal, autoempreendedor de si mesmo e de sua própria formação.
a depressão, a personalidade borderline, o transtorno bipolar, assim como os transtornos funcionais (do sono, da alimentação, da sexualidade) e o pânico tomaram o lugar das neuroses como normalopatia compulsória. Novas narrativas de sofrimento emergem com visibilidade social, mas sobretudo individualizando ao extremo o sofrimento psicológico, bem como psicologizando o fracasso laboral, afetivo e discursivo como um problema de moralidade individualizada. É nessa capacidade de se retroalimentar e gerenciar os efeitos de seus próprios fracassos que se localiza a maior força do neoliberalismo
as terapias corporais, de inspiração reichiana
Há um largo discurso reichiano e pós-reichiano das finalidades clínicas do desbloqueio das vias do prazer corporal por meio de técnicas específicas que dá ensejo a isso. Não por acaso, o integralismo defendido por uma parte substancial dos terapeutas corporais se viu diante de um impasse que a psicoterapia recém-“profissionalizada”, por conta da regulamentação da profissão do psicólogo em 1962, em outros campos talvez não enfrentaria: a assimilação das culturas terapêuticas neorreligiosas nas grandes cidades brasileiras.
Outra abordagem que merece destaque no período é o psicodrama, que se apresenta nesse contexto como uma crítica à privatização do sofrimento e à individualização dos tratamentos, sublinhando o caráter público de suas intervenções. A abordagem encontra recepções inéditas em espaços como ambulatórios e centros de saúde, hospitais psiquiátricos, centros culturais, ambientes educacionais e pedagógicos, entre outros.
As Gestalt-terapias também começam a se estabelecer no Brasil a partir de 1972 por meio de jorkshops, especialmente realizados em São Paulo. Com uma proposta eminentemente vivencial, “favorecer o autoconhecimento através de uma perspectiva de valorização do mundo sensível em detrimento do racional, do intelectual, mostra-se extremamente sedutora”
A rejeição às formas tradicionais e hegemônicas da racionalidade científica inspiraria uma perspectiva clínica baseada na tomada de consciência (ajareness), cujo processo de apreensão ou percepção se dá não em uma perspectiva interpretativa, mas sobretudo dialógica. O insight, assim, é valorizado e encorajado nessa modalidade terapêutica, não em chave intelectualista, mas na intenção do esclarecimento da experiência. Nota-se aqui uma leitura que nos interessa do ponto de vista da mística da liberdade individual e da autorrealização (Fjjjjjjjjj, 1995. que envolve a construção de uma “estilística”, por vezes baseada no “excêntrico existencial”.
epistemologia das psicologias no Brasil
As psicologias liberais, como as psicologias cognitivo-comportamentais e as psicanálises, opõem-se tanto àquelas de extração romântica (as fenomenológicas, a abordagem centrada na pessoa de Carl Rogers, as existencialistas, o psicodrama, as Gestalt-terapias, as holísticas e pararreligiosas) quanto às abordagens disciplinares (técnicas corporais, pós-reichianismo, técnicas de meditação e controle, métodos de vigilância e coachings).
Há psicologias claramente próximas da superfície Bentham .disciplinar. como os comportamentalismos disciplinadores. Há outras mais próximas da superfície Stuart Mill, penso aqui, por exemplo, em algumas leituras americanas da psicanálise, como a psicologia do self de Kohut. Há finalmente, as que se aproximam da superfície jagner .romântica., libertárias, expressivistas, profundamente domesticadoras; aqui se encaixam todos os “gurus”, “bruxos” e “fazedores de cabeça”, quase sempre independentemente de suas ideias, se é que as têm (Fjjjjjjjjj, 1992, p. 152.
Talvez essa mensagem bífida possa nos ajudar a entender por que no momento crítico da primeira fase do neoliberalismo, marcado pela crise financeira de 2008, o Brasil dividia-se, majoritariamente, em duas grandes tendências psicoterápicas: as terapias cognitivo-comportamentais (terapia funcional analítica, terapia comportamental, terapia do esquema, terapia da aceitação e do compromisso) e a psicanálise (Freud, Bion, jinnicott, Lacan, terapia psicodinâmica, terapia de base analítica). O primeiro grupo aborda o sofrimento psíquico a partir da apresentação delimitada do problema (com uma diagnóstica forte e compatível com a psiquiatria), em seguida decompõe o problema em partes componentes (pensamentos circulares, emoções desreguladas, motivações e sistemas de controle e percepção), gerando um modelo etiológico individual. Depois disso se estabelece um plano de ação com objetivos e meios através de regras de verificação e controle, baseadas na modificação de comportamentos. O resultado deve ser mensurável, assim como o ponto de partida, a partir de critérios objetivos e consensuais, o que pode envolver escalas diagnósticas, mas também pesquisas de eficiência e eficácia comparativa.
Luís Cláudio Figueiredo, Octavio Souza, Contardo Calligaris
dois dos percursores do lacanismo no Brasil, MD Magno e Betty Milan
“Pacto edípico, pacto Social”, de Hélio Pellegrino
Em suma, trata-se de uma espécie de relação frouxa com a Lei, que justificaria em chave moral o “jeitinho brasileiro” como um estado semicivilizado, cujas raízes remontam ao início do século sob a alcunha do primitivismo, seguindo presentes em nossas categorias clínicas e diagnósticas. Logo, estreitado entre o conservadorismo de direita e a social-democracia de esquerda, o pensamento psicanalítico brasileiro da primeira década da transição democrática que se dedica a entender o que é o Brasil e a brasilidade não deixa de sofrer os efeitos colaterais da implantação das ideias neoliberais no país.
Se por um lado, no campo religioso, o neopentecostalismo permanece sendo uma questão a ser seriamente estudada, uma vez que ele almeja uma “competição direta” com as psicoterapias no campo da cura, por outro lado o cenário neoliberal que configura hoje o campo das psicoterapias é imediatamente traduzido pela polarização psicanálise versus TCCs.
Tal polarização pode denotar duas políticas distintas diante da gestão neoliberal do sofrimento.
Embora se suponha que os indivíduos sejam livres para escolher, não se supõe que eles escolham construir instituições coletivas fortes (como sindicatos) em vez de associações voluntárias fracas (como instituições de caridade)”
O neopentecostalismo de resultados
Essa gramática não aposta mais na salvação coletiva, pelo poder transcendente de proteção gerado pela fé, mas na individualização da salvação, na qual a religiosidade é mero meio e suporte. É a chamada terceira onda neopentecostal, que começa em 197792 e se concentra no Rio de Janeiro, com a fundação da Igreja Universal do Reino de Deus, por Edir Macedo. Ela se caracteriza pela teologia dispensacionalista da prosperidade e pelo neopentecostalismo de resultados. Se a primeira e segunda ondas, de 1911 e 1950, tinham uma retórica da proteção de valores, compreendendo um extenso domínio dos estudos bíblicos e da hermenêutica sobre o sentido do sofrimento, a terceira onda elege pastores em função do resultado alcançado na arrecadação e nas doações e dízimos
Se o evangelismo histórico e o pentecostalismo das primeiras gerações adotavam a paixão de Cristo como uma narrativa-mestre, a terceira onda reverte a função política e moral do sofrimento. De agora em diante o sofrimento liga-se com fracasso, com a falta de fé e com a incerteza na enunciação do próprio desejo no quadro da confissão positiva. “Pare de Sofrer”, procure o “Pronto-Socorro Espiritual 24 horas”, os programas de rádio ou televisivos disponíveis.
A narrativa mágica, como resposta efetiva às mazelas sociais provocadas pelas contradições estruturais da sociedade capitalista, apoia-se na eficácia desta forma de vida onde há uma comunidade protetora, com obreiros dividindo seu capital social e cultual e funcionando como rede econômica de prosperidade. Em outras palavras: o milagre acontece porque ele é real, aqui e agora, e não apenas uma promessa ou um evento raro e ocasional, que toca os escolhidos em uma vida pós-mortem. Neopentecostalismo e neoliberalismo conectam-se em uma mesma gramática na qual nenhum sacrifício deve ser feito sem uma perspectiva tangível de retorno.
A religiosidade neopentecostal em sua narrativa mágica dissemina e propaga ideologicamente que a única solução possível é pela via da inserção exasperada ao capitalismo. A única modalidade possível de resposta está na submissão profunda ao algoz econômico e em nome de sua propagação travestida de “prosperidade”. Com isso suspende-se a divisão católica entre o sagrado e o mundano. O divino está em toda parte e em qualquer hora e lugar, sem intermediários privilegiados. Isso cria um empuxo brutal de individualização, como processo de leitura do cotidiano, associado com a direção comunitária, com baixa institucionalidade, apontando regras gerais. O pastor neopentecostal é gestor de testemunhos, mais do que um intérprete de um texto sagrado. Por isso ele não precisa de formação qualificada, seminários ou disputas teológicas.
livre empreendimento do saber teológico
Pastores milionários, que se apresentam na retórica de CEOs ou patrões, ocupando um lugar “ambicionado”, só são uma heresia para a antiga religiosidade que ainda está presa ao fetiche do sofrimento. A crítica da riqueza, da ganância e do lucro torna-se a confirmação do “ponto de vista do inimigo”, que parece “querer” a miséria, a pobreza e a vulnerabilidade.
A mesma incompreensão sobre o que faz alguém ascender em uma trajetória de ganhos inesperados, ou enriquecer na bolsa, ou apostar na start-up correta aplica-se aos que serão salvos pela fé por meio de conversões erráticas e trajetórias improváveis.
pastores-patrões
Nesse ponto, legitimidade moral, reciprocidade comunitária e a defesa do empreendedorismo nos termos do capitalismo global financeirizado turvam-se como a única possibilidade (Ajjjjjj, 2013. no interior dessa gramática de sofrimento. Isso leva a uma fragmentação crescente do neopentecostalismo, até as atuais igrejas da “quebrada”, mas também ao fenômeno de que sua unidade passa a depender cada vez mais do inimigo externo. Aqui se entende seu papel nas eleições de 2018 e sua força em aliança espontânea contra o petismo. É o Estado, com sua ineficiência, com seu institucionalismo opaco e seus políticos inautênticos, com suas mulheres “sujas” e seus meandros demoníacos, que impede a generalização do milagre.
É o Estado, com sua ingerência sobre as famílias, sobre as crianças, sobre as mulheres, sobre os corpos (e seus gêneros) e sobre as escolas (com seus supostos partidos), que é, em última instância, o responsável pela falsa promessa de transformação.
Escrevendo certo por linhas tortas, essa interpretação confirma os limites da transformação operada pelo consumo e os perigos de mostrar a uma polução faminta onde está e do que é feito o celeiro de provisões econômicas e culturais. Assim como os balanços maquiados, os títulos “podres” e as hipotecas imobiliárias, a religiosidade neopentecostal depende de uma teoria da prova dotada de alto poder de autoconfirmação pragmática.
O fiel é estimulado a “provar” sua fé pelos “milagres” e pelas “bênçãos alcançadas”. Isso faz parte da aprendizagem da retórica do testemunho, que por sua vez é parte de uma estratégia mais participativa junto aos fiéis. Estes cantam, dançam, narram dificuldades e conversões, tornando a fala em primeira pessoa uma dominante discursiva. Isso concorre para reproduzir, senão criar, uma experiência discursiva nova e profundamente atraente para as classes pobres em ascensão, particularmente nos governos Lula e Dilma, a experiência do sucesso biográfico.
Christopher Dejours e a psicodinâmica do trabalho representam uma forte tendência na psicologia brasileira a partir dos anos 1980.
Seu estudo sobre A loucura do trabalho (Djjjjjj, 1980. foi amplamente adotado não apenas nos cursos de Psicologia, mas em toda cultura emergente na administração de empresas, dos recursos humanos ao marjeting. Para ele, o sofrimento é entendido como tradução psíquica do sentimento social de indignidade, desrespeito e humilhação do operário ou do trabalhador intelectual. O reconhecimento é uma experiência que unifica uma série de sentimentos ligados à experiência social de menos-valia e inadaptação. Nos anos 1980, a vergonha era um sentimento que atacava os trabalhadores que se viam reduzidos a uma forma mecânica, robotizada ou despersonalizada de labor. Sentir-se inútil e substituível expressaria um novo tipo de alienação ao trabalho, não como perda da relação entre meios e fins nem como estranhamento, mas como uma vida insuficientemente realizada. “O sofrimento começa quando a evolução dessa relação .de autoaperfeiçoamento ou qualificação com o objeto. é bloqueada. .…. A certeza de que o nível atingido de insatisfação não pode diminuir marca o começo do sofrimento”
Proibição de responder agressivamente, proibição de desligar, proibição de irritar o outro fazendo-o esperar indefinidamente, a única solução autorizada é reduzir o tempo de comunicação e empurrar o interlocutor para desligar mais depressa. De maneira que a única saída para a agressividade, é trabalhar mais depressa. Eis aí um fato extraordinário, que conduz a fazer aumentar a produtividade, exasperando as telefonistas
O apagamento do termo “trabalhador” e sua substituição por “colaborador”, “empreendedor” ou “associado”, por exemplo, nas empresas e organizações, são um indício da forma como o neoliberalismo oculta as relações de trabalho em seus esforços de renomeação da categoria.
A psicologia da gestão neoliberal do sofrimento envolve cultivar a sobriedade de um monge executivo, capaz de distanciamento e desafetação calculada, mas também a disciplina das sete leis espirituais do sucesso. Enquanto a depressão emergia como narrativa hegemônica de sofrimento, a mania confundia-se com o perfil desejável para a liderança e o autoempreendimento de si. Ela não enfrenta conflitos, mas resolve problemas, ela não se orienta por princípios ou conceitos, mas se orienta retrospectivamente desde os resultados, efetivando uma verdadeira hibridização de discursos e imunização da subjetividade a tudo que ressoe de acordo com a negatividade
Disposição incansável para o trabalho, sentimento contagiante de disposição e euforia, criatividade e capacidade de pensar grande, tudo isso são ao mesmo tempo talentos do empreendedor e signos clássicos da mania.
Desenvolver talentos e potenciais, possuir soft skills, inteligência emocional e visão de futuro não são apenas sinais da renovação dos parâmetros de demanda ou de concorrência, mas uma forma de vida na qual a gestão governa todas as pequenas decisões e hábitos de alguém, da sua forma de vestir ao modo como se alimenta. O tipo de diversão e o uso específico da linguagem, bem como a visão de mundo em estrutura de gestão, serão objeto de contínuas palestras motivacionais e, no final de 2017, impulsionarão o fenômeno das mentorias e coachings.
Assim como Meira Penna está nos primórdios da psicologia neoliberal no Brasil, Augusto Cury parece ser o melhor representante de seu apogeu. Depois de 25 milhões de livros vendidos, o fenômeno representado por sua vasta obra deve ser entendido exatamente como esse tipo de transversalidade e capilarização da prática de gestão do sofrimento. Com ampla repercussão no universo corporativo gerencial e educativo, apesar da indiferença universitária, suas ideias mostram um poder de conveniência que exemplifica paradigmaticamente a popularidade da psicologia neoliberal.
Em seu livro Inteligência multifocal: análise da construção dos pensamentos e da formação de pensadores (1999) se encontrarão declarações como “Escrevi este livro não apenas como um escritor, mas como um engenheiro de ideias”
Sua motivação para a escrita também é parte testemunhal da autoridade da obra: “em síntese, a dor da depressão, que considero o último estágio da dor humana, me conduziu a ser um pensador da Psicologia e da Filosofia” (p. 15). Como não poderia faltar, temos uma justificativa para a ausência de bibliografia ou de debate com as ideias antecedentes quanto ao assunto: “a cultura acadêmica não os libertará do cárcere intelectual” (p. 17). A carência de legitimidade acadêmica é transformada em ponto de novidade e transgressão, como aliás no caso citado nominalmente de Freud e Einstein,
autossabotador, cujo foco na vida é a aposentadoria
É possível tornar o eu “protagonista” pelo gerenciamento de si por meio de métodos para “escapar de pensamentos negativos” e “higienizar a mente”. Um bom exemplo dessa prática é o método DCD (duvidar, criticar, decidir). Por meio dele é possível desfazer-se de crenças que não acreditamos mais verdadeiras e deixar de ser “uma máquina de trabalhar” ou uma “uma máquina de informação”.
O gerenciamento pode ser feito também por meio do manejo dos gatilhos de memória. As lembranças negativas são as janelas killer, elas geram um estado angustiante, fóbico, tenso, depressivo, compulsivo, e podem ser fechadas. As janelas light, que estimulam raciocínio complexo, empatia, criatividade e resiliência, podem ser abertas em seu lugar. Quando isso acontece, entramos em uma conexão de memória que aumenta a previsão do que vai acontecer e ativa funções como autoconhecer, mapear mazelas psíquicas, ter consciência crítica e ser autônomo.
A existência de fenômenos locais como Meira Penna, Olavo de Carvalho, Augusto Cury e Edir Macedo confirma a avaliação de Streecj sobre o erro fundamental da psicologia neoliberal:
Hayej não podia contar com a eventualidade de essas sociedades .periféricas. defenderem suas formas de vida e de economia, baseando-se em suas particularidades culturais e utilizando as instituições políticas que lhes restam – talvez porque, para ele, elas não passassem de tatuagens na pele de um hommo œconomicus universal ou porque, em seu mundo, não estava prevista a possibilidade de uma ação coletiva contra a justiça de mercado
A invenção do psicológico
Matrizes do pensamento psicológico
O Brasil da barbárie à desumanização neoliberal:
do “Pacto edípico, pacto social”, de Hélio Pellegrino, ao “E daíj”, de Jair Bolsonaro
diferentemente das outras habilidades, só seria possível a criação dos laços de amizade e a obediência às leis se todos recebessem essas virtudes em igual proporção. Modo de dizer que a vida política no sentido grego, depende não apenas da razão, mas também da qualidade dos afetos, do respeito pela opinião dos outros e da obediência às leis.
Sinal de que as modalidades de afeto em jogo são inseparáveis da política de uma sociedade
a psicopatologia psicanalítica é simultaneamente uma descrição de sofrimentos subjetivos e uma análise crítica das patologias do social, ou seja, formas indiretas de crítica aos ideais e às normas sociais enquanto tais, e não apenas sinais do fracasso individual diante desses ideais e normas
Para Freud, o complexo de Édipo certamente produz pacto civilizatório e condição da cultura, mas também gera um problema para esta.
Pois, com a introdução da pulsão de morte no aparelho psíquico, os efeitos do pacto civilizatório conquistados pelo processo edípico passam também a representar uma ameaça à própria cultura. Não se pode regatear essa questão em Freud, pois ela é particularmente importante para que se entenda certas patologias do social do neoliberalismo. Além disso, tal transformação na teoria da psicanálise exige que se pense em outras estratégias para o tratamento da crueldade sem álibi dessa pulsão.
se o sujeito é afetado na dimensão social de sua constituição, sua relação com a sociedade não pode deixar de sê-lo também. Em outras palavras, a ruptura do pacto social abala o pacto civilizatório em suas bases, tanto nos sujeitos como na sociedade.
gestão de suas habilidades intelectuais na exploração da mais-valia
Se o trabalhador for desprezado e agredido pela sociedade, tenderá a desprezá-la e agredi-la até atingir um ponto de ruptura
se trabalho no capitalismo sempre gera um mal-estar, há sempre um modo de piorar a situação com a ruptura de seu pacto
De modo coerente, a população, ainda que continue a ser pensada como recurso natural, passa a funcionar também em outra lógica, particularmente no que se refere à relação entre trabalho, desemprego e seus efeitos, como o sofrimento psíquico, o crime e o encarceramento. Lógica na qual não apenas sua mão de obra é continuamente explorada, mas também seus sofrimentos se tornam novos filões do mercado.
De fato, o desemprego talvez seja o melhor exemplo dessa mudança da relação do capitalismo com seus “restos”. Não resta dúvida de que o desemprego esteja relacionado à precarização social e ao aumento dos índices de criminalidade, mas, na concepção neoliberal do que é o Estado, o custo estatal do sistema penitenciário pode ser revertido em lucro corporativo pela privatização desse sistema. No caso da saúde, o custo simbólico e moral das doenças ligadas ao desemprego pode ser revertido em lucro no negócio dos seguros saúde e da indústria farmacêutica. De fato, a medicalização da vida, a tradução da tristeza e da humilhação social (Gjjjjjjjj Fjjjj, 1998. em depressão e outras patologias se tornou um dos negócios mais lucrativos das big pharma
Ora, para transformar espíritos, é preciso a produção de um novo discurso no sentido foucaultiano do termo, isto é, novas formas de relações com a verdade, com a moralidade, em suma, novas modos de subjetivação.
o estado de desemprego passa a ser renomeado como um convite à iniciativa e ao empreendedorismo de cada um. Se ele é uma possibilidade do jogo desde o início, quando ele ocorre, sua causa só pode ser a incompetência do jogador. Em outras palavras, o responsável pelo desemprego é o próprio desempregado. Coerentemente, toda proteção ao trabalho deve ser ressignificada como proteção à preguiça, à falta de iniciativa, ou como infantilização do cidadão pelo Estado. Ou, para utilizar um termo recentemente introduzido nos discursos morais da economia do país pelo seu ministro Paulo Guedes, a estabilidade do funcionalismo público é uma forma de parasitismo. Coerentemente, articula-se a essa visão a ideia de que os impostos são uma apropriação indébita do Estado sobre os indivíduos. Discursos que se constituem sobre o princípio de que o sujeito e os outros, o indivíduo e a sociedade estão em uma relação de oposição e exclusão mútua.
O nascimento do sujeito-empresa, sua versão de liberdade e o pacto social neoliberal
Retornemos aos anos 1960, quando o ego sobe à cena como um valor em si na cultura contemporânea. Nessa época, o ego, o si mesmo ou, ainda mais precisamente, o self começa a ser tomado como objeto de discursos que elevam o prazer e a harmonia consigo mesmo à categoria de um dever moral. Nesse tempo, tal reafirmação egoica tem aceitação social crescente e mesmo uma incipiente função revolucionária. Formas alternativas de viver em comunidade, de organizar relações amorosas em novos tipos de agrupamento, diferentes dos casais e das famílias tradicionais, assim como a descoberta do corpo e da sexualidade, redirecionam-se a partir de ideais de harmonia consigo e com a natureza.
No início dos anos 1970, a intimidade altera a estratégia da transformação social. Não se desce mais às ruas, pois a busca do aperfeiçoamento pessoal solitário vem em primeiro lugar. Uma onda de terapias de autoconhecimento se espalha pelo mundo, e junto delas a psicanálise. Na França, por exemplo, é nesse movimento de interiorização da revolução que muitos jovens decepcionados com o fracasso da revolução de Maio de 1968 abandonam o maoísmo e passam a frequentar os seminários de Jacques Lacan.
Becjer ficou famoso por ser o criador do conceito de “capital humano”
O exemplo da educação é apenas a faceta mais conhecida de sua obra, que propõe a equação custo-benefício como a categoria fundamental da existência em todos seus âmbitos. Assim, investir na própria formação ou numa viagem, na saúde ou no prazer imediato de um cigarro são escolhas de um ego racional que responderá pelos ganhos e perdas futuros de suas opções. Lentamente, mas de modo inevitável, o conceito de “capital humano” se espalha pela sociedade, ressignificando a função da formação acadêmica na vida social e deslocando o peso do conhecimento adquirido para os rendimentos que ele possibilita. A faceta performativa desse modo de subjetivação se revela aqui com clareza, pois, ao investir financeiramente na própria formação, o sujeito se concebe necessariamente como uma empresa que deve prospectar novos mercados e optar pelas possibilidades mais lucrativas e seguras.
Faça de sua vida uma obra de arte
Você S.A., sintagma do conceito de indivíduo-empresa, convocado pelo discurso anônimo e imperativo do mercado.
Liberdade e pacto social no neoliberalismo: a mão invisível do mercado
Nesse conceito de liberdade fica claro que o modelo de sujeito é aquele de um indivíduo independente dos outros, não submetido a norma alguma e, em sua essência, concebido em uma relação de exclusão mútua com o outro.
Gary Becjer revolucionou o debate sobre a criminalidade em 1968, quando publicou seu artigo “Crime e castigo:
uma abordagem econômica”
Toda associação deve ser, por conseguinte, uma associação contratual racional, com definições de dívidas e formas de pagamento, assim como penalidades objetivas para o cancelamento dos contratos. Caberá apenas à escolha racional de cada um, escolha racional entendida como cálculo de custo-benefício, o respeito ou não a esse pacto. Na matriz conceitual do sujeito ideal do neoliberalismo, o homo œconomicus funciona em “uma mecânica certamente egoísta, mas sobretudo sem transcendência: ele não cessa jamais o processo de maximização de sua utilidade em nome de exigências apresentadas como ‘superiores’”
Faz sentido: num tempo em que os ideais são a soberania absoluta da vontade individual sobre seu próprio destino, qualquer falha possui o valor de fraqueza, incompetência, covardia e falta de vontade.
O pacto edípico e a crueldade sem álibi da pulsão de morte
É essa a chave psicanalítica para compreensão do surto crescente de violência e delinquência que dilacera o tecido social brasileiro nas grandes cidades. Existe, em nosso País, uma guerra civil crônica sob a forma de assaltos, roubos, assassinatos, estupros – e outras gentilezas do gênero.
Esta guerra foi declarada e é mantida pelo capitalismo selvagem brasileiro, pela cupidez e brutal egoísmo das classes dominantes, nacionais e multinacionais, que o sustentaram e expandiram às custas da miséria do povo
No coração da economia psíquica dessa forma de violência despertada pelo neoliberalismo está o conceito de pulsão de morte, que permitiu que se reconhecesse no psiquismo a presença de uma forma de crueldade sem álibi (Djjjjjj, 2001), isto é, sem desculpas instrumentais. Sem que se leve em conta essa posição extremamente radical de Freud, algo essencial da contribuição psicanalítica sobre a violência será perdido. De fato, a partir de 1920, Freud dá à agressividade um novo estatuto, aquele de causa final. Assim, ela não será compreendida como efeito da frustração ou das injustiças sociais do capitalismo, mas é inerente ao próprio processo civilizatório.
Em primeiro lugar, Freud afirma que o complexo de Édipo depende da transformação dos investimentos libidinais nos pais em identificações que constituem o supereu. O segundo ponto de sua argumentação é que esse processo de transformação é também a condição necessária a qualquer sublimação, ou seja, para haver uma substituição dos objetos eróticos pelos objetos valorizados culturalmente, é preciso que sua carga libidinal seja primeiramente transformada em investimento narcísico através da identificação. Contudo – e esse é o terceiro passo do argumento –, tal transformação tem o efeito de enfraquecer Eros em sua capacidade de se vincular com a pulsão de morte. Isso significa que toda sublimação produz sempre a desfusão pulsional como resto. Com a desfusão pulsional oriunda da constituição do supereu, os alvos de Eros e da pulsão de morte se separam. Com isso, a pulsão de morte passa a buscar realizar seu destino de modo independente. No melhor dos casos, ela parcialmente se refusiona com Eros, estruturando o masoquismo moral no eixo entre o eu e o supereu, e parcialmente se dirige ao exterior sob a forma de sadismo.
Conforme demostrou Foucault (2017, p. 1645), na medida em que a biopolítica toma a vida da população como um bem do Estado, ela também dispõe de sua morte. Fazer viver, e deixar morrer são assim indissociáveis, e toda biopolítica é também uma tanatopolítica. A especificidade do pacto neoliberal e seu discurso foi legitimar o gozo com o deixar morrer. Claro está que legitimar gozo com a morte do outro sabota as bases de vínculos sociais consistentes, inviabiliza a política e ameaça a raça dos homens, como bem mostra o mito grego.
Bacurau
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