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Memories of a Nervous Patient

Memories of a Nervous Patient

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Memórias de um doente dos nervos - Schreber, Daniel Paul (Highlight: 199; Note: 0.

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Agradecimentos da tradutora
Da loucura de prestígio ao prestígio da loucura por Marilene Carone
Cronologia de Schreber
Memórias de um doente dos nervos
Prólogo
Carta aberta ao sr. conselheiro prof. dr. Flechsig
Introdução

  1. Deus e imortalidade
  2. Uma crise dos reinos de Deus? Assassinato de alma
  3. (Não foi impresso)
  4. Experiências pessoais durante a primeira doença nervosa e início da segunda
  5. Continuação. Língua dos nervos (vozes interiores). Coação a pensar. Emasculação, um postulado da Ordem do Mundo frente às circunstâncias
  6. Experiências pessoais (continuação). Visões. “Visionários”
  7. Experiências pessoais (continuação); manifestações mórbidas estranhas. Visões
  8. Experiências pessoais durante a estada no sanatório do dr. Pierson. “Almas provadas”
  9. Transferência para o Sonnenstein. Mudanças na relação com os raios. “Sistema de transcrições”
  10. Experiências pessoais no Sonnenstein. “Distúrbios” como fenômeno concomitante ao contato com os raios. “Moldagem do estado de ânimo”
  11. Danos à integridade física por meio de milagres
  12. Conteúdo da conversa das vozes. “Concepção das almas”. Língua das almas. Continuação das experiências pessoais;
  13. Volúpia de alma como fator de atração. Fenômenos resultantes
  14. “Almas provadas”; seu destino. Experiências pessoais (continuação)
  15. Brincadeiras com os homens e com os milagres. Gritos de socorro. Pássaros falantes
  16. Coação a pensar. Suas manifestações e fenômenos correlatos
  17. Continuação do anterior; “desenhar” no sentido da língua das almas
  18. Deus e os processos da criação; geração espontânea; pássaros miraculados. “Direção do olhar”. Sistema de exame
  19. Continuação do anterior. Onipotência divina e livre-arbítrio humano
  20. Concepção egocêntrica dos raios com relação à minha pessoa. Configuração ulterior das relações pessoais
  21. Beatitude e volúpia em suas relações recíprocas. Consequências dessas relações no comportamento pessoal
  22. Considerações finais. Perspectivas futuras
    Suplementos

Primeira série

  1. Sobre milagres (outubro de 1900.

  2. Sobre a relação entre a inteligência divina e a humana (11 de outubro de 1900.

  3. Sobre a brincadeira com os homens (janeiro de 1901.

  4. Sobre as alucinações (fevereiro de 1901.

  5. Sobre a natureza de Deus (março e abril de 1901.

  6. Considerações sobre o futuro — diversos (abril e maio de 1901.

  7. Sobre a cremação (maio de 1901.
    Segunda série
    Apêndice
    Em que condições uma pessoa considerada doente mental pode ser mantida reclusa em um sanatório contra sua vontade manifesta?
    Pós-escrito
    Segundo pós-escrito
    Anexos (Documentos dos autos do processo)
    A. Laudo médico-legal
    B. Laudo médico distrital
    C. Fundamentação do recurso
    D. Laudo pericial do conselheiro dr. Weber
    Sentença da Corte de Apelação de Dresden, de 14 de julho de 1902
    Glossário
    Referências bibliográficas
    Posfácios
    O caso Schreber
    por Elias Canetti
    Nota sobre os leitores de Schreber
    por Roberto Calasso
    Sobre o autor e a tradutora
    Notas
    Créditos

  8. Sobre milagres (outubro de 1900.

  9. Sobre a relação entre a inteligência divina e a humana (11 de outubro de 1900.

  10. Sobre a brincadeira com os homens (janeiro de 1901.

  11. Sobre as alucinações (fevereiro de 1901.

  12. Sobre a natureza de Deus (março e abril de 1901.

  13. Considerações sobre o futuro — diversos (abril e maio de 1901.

  14. Sobre a cremação (maio de 1901.

1. Deus e imortalidade

em cada nervo do intelecto está, por assim dizer, inscrita a totalidade das recordações

Deus é, desde o princípio, apenas nervo, e não corpo, portanto algo aparentado à alma humana. Os nervos de Deus, contudo, não existem em número limitado, como no corpo humano, mas são infinitos ou eternos. Possuem as propriedades inerentes aos nervos humanos elevadas a uma potência que ultrapassa tudo o que o homem possa conceber.

Têm, em particular, a capacidade de se transformar em todas as coisas possíveis do mundo criado; nessa função chamam-se raios, e nisso consiste a essência da criação divina.

há anos o Sol fala comigo em palavras humanas, fazendo-se conhecer desse modo como um ser animado ou como órgão de um ser ainda superior por detrás dele

Obtive, por exemplo, indicações bastante seguras de que o rude inverno de 1870—1 foi algo decidido por Deus para, em determinadas oportunidades, favorecer a vitória dos alemães na guerra, e também a orgulhosa frase sobre o aniquilamento da Armada espanhola de Felipe II no ano de 1588, “Deus afflavit et dissipati sunt” (Deus soprou o vento e eles desapareceram), contém muito provavelmente uma verdade histórica

Deus acredita poder afastar-se de mim, como uma pessoa supostamente idiota, assim que eu me abandono a não pensar em nada.

Ele também podia se conectar com algumas pessoas altamente dotadas (poetas etc.) — (“fazer com eles uma conexão nervosa”) — é como as vozes que falam comigo designam esse processo

os nervos de homens vivos, sobretudo em estado de uma excitação muito intensa, possuem uma tal força de atração sobre os nervos de Deus que Deus não poderia mais se livrar deles, ficando portanto ameaçado em sua própria existência

Vi, por exemplo, o sr. Von W. e o sr. Von O., que tínhamos conhecido no balneário báltico de Warnemünde, como diabos com rosto e mãos peculiarmente vermelhos, e vi também o conselheiro privado W. como diabo superior.

Deus se servia da língua alemã na forma da chamada “língua fundamental” naturalmente não deve ser compreendida no sentido de que a beatitude estaria destinada só aos alemães.

Um caso particularmente digno de nota foi o do sr. Von W., cuja alma, durante um período de tempo — como ainda agora a alma de Flechsig —, exerceu uma influência muito profunda sobre minhas relações com Deus e, consequentemente, sobre meu destino pessoal..55. Na época em que eu estava no sanatório Pierson (a “cozinha do diabo”), Von W. ocupava o cargo de guardião-chefe — de acordo com minha concepção da época, que ainda hoje não consigo contestar, não como um homem real, mas como um “homem feito às pressas”, isto é, como uma alma posta provisoriamente em figura humana, por milagre divino. Nesse ínterim ele já teria vivido uma segunda vida em qualquer outro planeta, na condição de “agente de seguros Marx”.

Para o homem, a ideia de um eterno não fazer nada significaria algo insuportável, já que o homem está habituado ao trabalho e, como diz o provérbio, só o trabalho torna doce a vida.

O deus inferior e o deus superior me foram designados pela primeira vez sob os nomes de Ariman e Ormuzd pelas vozes que falavam comigo, no princípio de julho

A data indicada coincide com a dissolução dos reinos anteriores de Deus, com os quais eu antes me relacionava (meados de março de 1894, aproximadamente).

a natureza de Deus e a sobrevivência da alma humana depois da morte

serem ou não dignos de acolhida no reino dos céus

2. Uma crise dos reinos de Deus? Assassinato de alma

desempenham um papel importante, por um lado, os nomes de Flechsig e Schreber (provavelmente sem se limitar a um indivíduo particular das respectivas famílias) e, por outro, o conceito de assassinato de alma.

talvez em gerações anteriores, teve lugar um fenômeno qualificável como assassinato de alma entre as famílias Flechsig e Schreber; da mesma forma, com base em acontecimentos posteriores, estou convencido de que na época em que minha enfermidade nervosa parecia assumir um caráter dificilmente curável, da parte de alguém tentou-se, embora sem êxito, cometer contra mim o assassinato de alma.

Em todo caso, durante muito tempo estive em conexão nervosa com o prof. Paul Theodor Flechsig e com Daniel Fürchtegott Flechsig (com o primeiro, também na sua qualidade de alma?), e tive no corpo partes da alma de ambos. A alma de Daniel Fürchtegott Flechsig já desapareceu há anos (volatilizou-se); da alma do prof. Paul Theodor Flechsig existe ainda hoje no céu, como “alma provada”, pelo menos uma parte (isto é, um certo número de nervos que originariamente tinham a consciência de identidade do prof. Paul Theodor Flechsig, aliás muito enfraquecida nesse ínterim). Como a partir de outras fontes além das vozes que falam comigo não tenho o menor conhecimento da árvore genealógica da família Flechsig, talvez não deixe de ter interesse poder verificar se entre os antepassados do atual prof. Flechsig havia realmente um Daniel Fürchtegott Flechsig e um Abraham Fürchtegott Flechsig.

para reter os raios divinos

não existiam ainda sanatórios públicos para doentes mentais.

ver em sonho imagens maravilhosas e experimentar coisas maravilhosas, sentindo-se estimulado a investigá-las mais

O próprio Deus, contudo, não era nem é o ser de perfeição absoluta que a maioria das religiões diz ser.

contínuos pedidos de socorro dos pedaços de nervos que se destacaram da massa global, que escuto diariamente no céu.

4. Experiências pessoais durante a primeira doença nervosa e início da segunda

Estive doente dos nervos duas vezes, ambas em consequência de uma excessiva fadiga intelectual; a primeira vez por ocasião de uma candidatura ao Reichstag (quando eu era diretor do Tribunal de Província em Chemnitz), a segunda vez por ocasião da inusitada sobrecarga de trabalho que enfrentei quando assumi o cargo de presidente da Corte de Apelação de Dresden, que me tinha sido então recentemente transmitido.

mentiras piedosas, a que o médico dos nervos de fato não pode deixar de recorrer para com certos doentes mentais, ainda assim utilizando-as sempre com o máximo cuidado, não ocorreram quase nunca comigo

Era a ideia de que deveria ser realmente bom ser uma mulher se submetendo ao coito. Essa ideia era tão alheia a todo o meu modo de sentir que, permito-me afirmar, em plena consciência eu a teria rejeitado com tal indignação que de fato, depois de tudo o que vivi nesse ínterim, não posso afastar a possibilidade de que ela me tenha sido inspirada por influências exteriores que estavam em jogo.

o esforço de conseguir por meio de uma indiscutível dedicação a meu trabalho, antes de mais nada, a necessária consideração da parte de meus colegas e demais círculos correlatos (advogados etc.)

O sono começou a faltar justamente no momento em que eu poderia dizer que superava, no essencial, as dificuldades de adaptação ao novo cargo, à casa nova etc. Comecei a tomar brometo de sódio. Como não conhecíamos ninguém em Dresden, não havia oportunidade de distração social, o que certamente me teria feito muito bem — como deduzo do fato de que dormi bem melhor depois da única ocasião em que fomos convidados a passar uma noite em sociedade.

Durante várias noites, nas quais eu não conseguia conciliar o sono, fazia-se ouvir em nosso quarto um estalo na parede, que se repetia com pausas mais ou menos longas, e que me despertava toda vez que eu estava a ponto de adormecer. Naturalmente na ocasião pensamos em um rato, embora na verdade nos devesse parecer muito estranho que um rato tivesse se insinuado no primeiro andar de uma casa tão solidamente construída. Mas, depois de ter ouvido ruídos semelhantes inúmeras outras vezes — e os ouço ainda hoje dia e noite —, ruídos que já reconheci indubitavelmente como milagres divinos — tanto que as vozes que falam comigo os designam como os chamados “distúrbios” —, posso, sem querer com isso fazer uma afirmação absolutamente precisa, ao menos não afastar a suspeita de que também naquela ocasião já se tratava de tal milagre, isto é, que desde o começo se manifestou a intenção mais ou menos determinada de impedir meu sono e mais tarde minha cura da doença causada pela insônia, com um objetivo que no momento ainda não pode ser mais bem explicitado

passei praticamente toda a noite sem dormir e até me levantei da cama uma vez em estado de angústia para tentar uma espécie de suicídio por meio de um lenço ou um expediente desse tipo, o que minha esposa, despertada por isso, impediu-me de fazer.

Quando penso retrospectivamente nessa época, parece-me que o plano de cura do prof. Flechsig consistia em primeiro aprofundar ao máximo minha depressão nervosa e depois, de uma vez, provocar a cura através de uma súbita mudança de estado de ânimo

Em torno da quarta ou quinta noite após a minha entrada na clínica, fui arrancado da cama no meio da noite por dois enfermeiros e levado a uma cela de dormir própria para dementes (loucos furiosos). Aliás, eu já me encontrava em estado de enorme agitação, por assim dizer, num delírio febril, e naturalmente fiquei extremamente assustado por esse incidente, cujos motivos eu desconhecia. O caminho passava pela sala de bilhar, e, como eu não sabia o que pretendiam comigo, acreditando portanto ter de me defender, travou-se uma luta entre mim, que vestia apenas uma camisa de dormir, e os dois enfermeiros; eu tentei me agarrar ao bilhar, mas fui finalmente dominado e conduzido à mencionada cela. Lá, abandonaram-me ao meu destino; passei o resto da noite, na maior parte sem dormir, na cela decorada apenas com um estrado de ferro e roupa de cama, considerando-me totalmente perdido; durante a noite fiz uma tentativa, naturalmente frustrada, de me enforcar com um lençol preso à cabeceira da cama. Dominava-me inteiramente a ideia de que, para um homem que não consegue dormir, mesmo com todos os meios da arte médica, nada mais resta a não ser dar um fim à própria vida. Eu sabia que isso não era permitido nas clínicas, mas vivia na ilusão de que, uma vez esgotadas todas as tentativas de cura, devia se seguir uma alta — com o simples objetivo de que o interessado fosse dar um fim à sua vida em casa ou em qualquer outro lugar

vivi o melhor dia que passei em toda a minha (segunda) estada no sanatório de Flechsig, isto é, o único dia em que me senti animado por auspiciosos sentimentos de esperança

reapareciam estados de angústia

Minha vontade de viver estava completamente destroçada: tinha desaparecido em mim qualquer outra perspectiva que não a de uma saída para a morte através do suicídio; diante dos planos para o futuro, com os quais minha mulher frequentemente tentava me animar, eu sacudia a cabeça, incrédulo.

Por volta de 15 de fevereiro de 1894, sobreveio mais um colapso nervoso, que marca uma etapa importante em minha vida; foi quando minha esposa, que até então passava diariamente algumas horas comigo e também almoçava em minha companhia no sanatório, fez uma viagem de quatro dias para a casa de seu pai, em Berlim, para buscar um pouco de descanso, de que tinha muita necessidade. Nesses quatro dias cheguei a decair tanto que, depois do retorno de minha esposa, só a revi uma única vez e depois eu mesmo declarei que não podia de modo algum desejar que minha esposa me visse no estado de decadência em que me encontrava. As visitas da minha esposa cessaram a partir dessa época; depois de muito tempo, voltei a vê-la algumas vezes à janela de um quarto em frente ao meu; nesse ínterim já tinham acontecido tantas mudanças importantes no meu ambiente e em mim mesmo que acreditei ver nela não mais um ser vivo, mas apenas uma figura humana feita por milagre, do tipo dos “homens feitos às pressas”. Foi particularmente decisiva para o meu colapso mental uma ocasião em que, numa única noite, tive uma insólita quantidade de poluções (cerca de meia dúzia).

5. Continuação. Língua dos nervos (vozes interiores). Coação a pensar. Emasculação, um postulado da Ordem do Mundo frente às circunstâncias

Além da língua humana habitual há ainda uma espécie de língua dos nervos, da qual, via de regra, o homem não é consciente. Em minha opinião, a melhor maneira de ter uma ideia disso é recordar os procedimentos pelos quais o homem tenta gravar na memória certas palavras numa determinada sequência, como, por exemplo, quando um estudante decora uma poesia que precisa recitar na escola ou um padre decora o sermão que tem de dizer na igreja. As palavras em questão são então repetidas em silêncio (como em uma oração silenciosa que, do púlpito, se exortam os fiéis a fazer), isto é, o homem incita seus nervos a induzir as frequências vibratórias correspondentes ao uso das palavras em questão, ao passo que os instrumentos próprios da linguagem (lábios, língua, dentes etc.) não são postos em movimento ou o são apenas casualmente.

ocorre que meus nervos são postos em movimento a partir do exterior, e isso incessantemente, sem interrupção.

A capacidade de interferir desse modo sobre os nervos de uma pessoa é, antes de mais nada, própria dos raios divinos; isso decorre do fato de que Deus sempre esteve em condições de inspirar sonhos a uma pessoa adormecida

coação a pensar

buscar refúgio em um sistema de falsificação do pensamento, dando, por exemplo, a essa pergunta a resposta: “Na Ordem do Mundo é que ele deveria”, subentendido, pensar,.77. isto é, pela ação dos raios obrigavam-se meus nervos a fazer as vibrações correspondentes ao uso dessas palavras

Estes e os citados membros da corporação Saxônia pareciam considerar toda a questão que se passava na minha cabeça como uma mera continuação da velha rixa entre corporações e associações estudantis

Todas essas almas falavam comigo na qualidade de “vozes”, de modo mais ou menos indiferenciado, sem que nenhuma soubesse da presença da outra.

nessa época as almas ainda tinham pensamento próprio e por isso eram capazes de dar informações do maior interesse para mim e também podiam responder a perguntas, ao passo que agora, já desde há muito tempo, todo o discurso das vozes consiste apenas em uma repetição espantosamente monótona das mesmas frases

O judeu errante (no sentido aqui indicado) deve ter sido emasculado (transformado em uma mulher) para poder gerar filhos. A emasculação ocorria do seguinte modo: os órgãos sexuais externos (escroto e membro viril) eram retraídos para dentro do corpo e transformados nos órgãos sexuais femininos correspondentes, transformando-se simultaneamente também os órgãos sexuais internos. Ela acontecia durante um sono que durava alguns séculos, dado que era também necessária uma modificação da estrutura óssea (bacia etc.). Ocorria também uma involução ou uma inversão do processo de desenvolvimento, que no embrião humano tem lugar no quarto ou quinto mês de gravidez, conforme a natureza queira dar à futura criança o sexo masculino ou feminino. Sabe-se que nos primeiros meses de gravidez estão presentes ambos os sexos e que, segundo a observação, as características do sexo que não consegue se desenvolver, como as mamas masculinas, permanecem como órgãos rudimentares em um grau inferior de desenvolvimento. A capacidade de realizar o mencionado milagre da emasculação é própria dos raios do deus inferior (Ariman); os raios do deus superior (Ormuzd) têm a capacidade de restabelecer a masculinidade em determinadas condições

experimentei por duas vezes em meu próprio corpo durante a minha internação (por pouco tempo) a realização desse milagre da emasculação; o fato de o milagre não ter atingido seu pleno desenvolvimento ou de ter sido anulado deve-se à seguinte circunstância: não estavam em ação apenas raios divinos puros, mas também, além destes, outros raios (por exemplo, raios Flechsig etc.) foram conduzidos por almas (impuras) provadas (ver pp. 53-4) e devido à sua interferência ficou impedida a realização do processo de metamorfose em sua pureza

Deus, de acordo com a Ordem do Mundo, não conhecia verdadeiramente o homem vivo, nem precisava conhecer, e sim, de acordo com a Ordem do Mundo, só tinha relações com cadáveres

um sistema de manobras no qual se alternavam sucessivamente tentativas de ainda curar

Desse modo foi preparada uma conspiração dirigida contra mim (em março ou abril de 1894), que tinha como objetivo, uma vez reconhecido o suposto caráter incurável da minha doença nervosa, confiar-me a um homem de tal modo que minha alma lhe fosse entregue, ao passo que meu corpo — numa compreensão equivocada da citada tendência inerente à Ordem do Mundo — devia ser transformado em um corpo feminino e, como tal, entregue ao homem em questão para fins de abusos sexuais, devendo finalmente ser “deixado largado”, e portanto abandonado à putrefação

quando o prof. Flechsig se apresentava a mim na sua qualidade humana.

Que o próprio Deus fosse cúmplice, senão instigador, do plano que visava o assassinato da minha alma e o abandono do meu corpo como prostituta feminina, é um pensamento que só muito mais tarde se impôs a mim

6. Experiências pessoais (continuação). Visões. “Visionários”

Suponho que essas almas, que à primeira aproximação talvez ainda dispusessem de um número bastante grande de nervos, tendo por isso uma forte consciência de identidade, devido à força de atração, a cada aproximação perdiam uma parte dos seus nervos em favor do meu corpo para finalmente consistirem apenas de um único nervo, que então — com base em uma conexão prodigiosa, posteriormente não esclarecida — assumia a forma de um homúnculo, no sentido indicado, como última forma de existência da alma em questão, antes de desaparecer por completo

De todas as direções chegavam notícias dramáticas, de que a partir de então esse ou aquele astro, essa ou aquela constelação teria precisado ser “abandonada”; ora se dizia que também Vênus fora “inundada”, ora que a partir de agora todo o Sistema Solar devia ser “desatrelado”, ora que Cassiopeia (toda a sua constelação) devia ser condensada em um único Sol, ora que as Plêiades talvez ainda pudessem ser salvas etc

considerando-me em consequência disso o único homem verdadeiro que ainda restava, e as poucas figuras humanas que além de mim eu ainda via — o próprio prof. Flechsig, alguns enfermeiros e muito poucos pacientes isolados, de aparência mais ou menos bizarra —, eu considerava como meros “homens feitos às pressas”, produzidos por milagre

O céu estrelado eu considerava inteiramente ou ao menos na maior parte extinto. Nenhuma possibilidade de corrigir tais representações me era oferecida. A janela do meu quarto ficava fechada à noite por uma pesada folha de madeira, de tal modo que me era impedida a visão do céu à noite. Durante o dia, eu via por sobre os muros do jardim da clínica apenas poucos edifícios vizinhos. Na direção da estação da Baviera, eu via, para além dos muros da clínica, só uma estreita faixa de terra, que me dava uma impressão completamente estranha, totalmente diversa da natureza da região bem conhecida por mim; falava-se às vezes de uma paisagem “sagrada”

Uma outra vez, atravessei a Terra do lago Ladoga até o Brasil e construí lá um edifício semelhante a um castelo, e, junto com um enfermeiro, fiz um muro para proteger os reinos de Deus de uma maré amarelada que avançava — relacionei isso com o perigo de uma epidemia sifilítica.

jardim da clínica da universidade, um jardim novo, plantado só em 1882, e que essencialmente consistia apenas de fileiras de árvores isoladas, ao longo dos caminhos

coroa de raios

Ainda no ano de 1895.92. considerei a possibilidade de me encontrar em Fobos, um satélite do planeta Marte, que foi mencionado pelas vozes em algum contexto, e pensei discernir o planeta Marte na Lua, que nessa época às vezes eu via no céu.

Se a psiquiatria não quiser simplesmente negar tudo o que é sobrenatural e entrar de armas e bagagens no campo do materialismo grosseiro, não poderá deixar de reconhecer a possibilidade de, em fenômenos do tipo descrito, ter, em certas circunstâncias, de se haver com acontecimentos reais, que não se deixam reduzir, sem mais, ao rótulo de “ilusões dos sentidos”.

7. Experiências pessoais (continuação); manifestações mórbidas estranhas. Visões

me veio às mãos um jornal no qual se podia ler algo como a notícia da minha morte; tomei esse evento como uma advertência de que eu não deveria mais pensar em retornar à sociedade humana

Tive visões relacionadas a isso, segundo as quais o prof. Flechsig, em Weissenburg, na Alsácia ou na prisão, em Leipzig, teria se matado com um tiro; vi também — como imagem de sonho — seu cortejo fúnebre, que partia de sua casa em direção a Thonberg

Agora pelo menos está fora de dúvida para mim que essas visões não são fenômenos que aconteceram realmente, como acreditei ter visto. Mas considero lícita a sua interpretação, no sentido de que eram uma manifestação do que Deus pensava que deveria acontecer ao prof. Flechsig. Ao contrário, e este é um fenômeno real, isto é, para mim subjetivamente certo, dada a clareza da minha recordação neste ponto — acreditem-me ou não as outras pessoas —, por volta dessa mesma época eu tive no corpo por um certo tempo a alma, e provavelmente a alma inteira, do prof. Flechsig

Tenho tão pouca dúvida sobre a realidade objetiva desse acontecimento que mais tarde, em toda uma série de outros casos, tive condições de receber em minha boca almas ou partes de almas e delas conservo ainda particularmente uma lembrança muito clara da impressão do cheiro e gosto terríveis que essas almas impuras provocam na pessoa em cujo corpo penetram pela boca.

não posso deixar de reconhecer que do ponto de vista externo tudo permaneceu como antes. Mais adiante se discutirá se no entanto não se verificou uma profunda modificação interna.

O certo é que essas beatitudes se consumiram, isto é, os nervos em questão, em consequência da força de atração, foram absorvidos no meu corpo e nele adquiriram o caráter de nervos da volúpia feminina, conferindo ao meu corpo uma marca mais ou menos feminina, e à minha pele, particularmente, a suavidade típica do sexo feminino.

meu sono tinha se tornado sono de raios

Os raios de fato têm, como ficou mencionado anteriormente na nota 83, entre outros, também um efeito tranquilizante e sonífero. Essa afirmação parecerá tanto mais digna de crédito se se atribuir um efeito semelhante mesmo à irradiação solar comum, embora em um grau incomparavelmente menor. Todo psiquiatra sabe que nos doentes dos nervos a excitação nervosa aumenta consideravelmente à noite, mas de dia, particularmente no final da manhã, sobrevém uma considerável tranquilidade, depois de várias horas de ação da luz solar. Esse efeito tem lugar em um grau incomparavelmente mais elevado quando o corpo, como no meu caso, recebe raios divinos diretamente. Num caso como esse, basta então apenas uma quantidade relativamente pequena de raios; só é necessário que todos esses raios estejam unidos, uma vez que, além dos raios divinos propriamente ditos, há também raios derivados (isto é, conduzidos por almas impuras ou almas provadas, como a de Flechsig etc.). Quando é esse o caso, caio logo no sono. Quando nos últimos tempos da minha estada na clínica de Flechsig eu me apercebi desse fenômeno, depois das extraordinárias dificuldades que até então enfrentara para conseguir dormir, fiquei maravilhado ao extremo num primeiro momento; só com o correr do tempo adquiri clareza sobre os fundamentos do fenômeno

Além disso imaginava possível a notícia de que de repente no mundo moderno poderia ter surgido algo como um mágico, na pessoa do prof. Flechsig,.101. e eu, que era aliás uma pessoa bastante conhecida em amplos círculos, teria desaparecido subitamente — notícia que disseminou terror e pânico entre os homens, destruiu as bases da religião e provocou uma epidemia de nervosismo e imoralidade geral, em consequência da qual a humanidade teria sido atingida por pestes devastadoras

Nisso era sempre decisiva a ideia de “deixar-me largado”, isto é, abandonar-me, coisa que, na época tratada aqui, se acreditava poder conseguir através da emasculação e do abandono do meu corpo como o corpo de uma prostituta do sexo feminino; às vezes também através do assassinato e, mais tarde, através da destruição do meu entendimento (tornar-me imbecil).

8. Experiências pessoais durante a estada no sanatório do dr. Pierson. “Almas provadas”

Por isso eu não sabia, por exemplo, se não devia considerar as ruas da cidade de Leipzig, por onde eu passava, como cenários de teatro, do tipo dos que o príncipe Potemkin deve ter mandado erguer para a imperatriz Catarina II da Rússia, em sua viagem através do campo deserto, a fim de proporcionar a ela a impressão de uma paisagem florida.

acredito recordar-me muito bem de ter visto esse “servente da Corte de Apelação”, que dormia no mesmo quarto que eu, mas em outra cama, mais de uma vez, naquelas claras manhãs de junho, evaporar-se, isto é, desaparecer gradualmente, de tal modo que sua cama ficava vazia sem que eu pudesse observá-lo levantar-se e abrir a porta para deixar o quarto.

que quase toda a população dos pacientes da clínica, portanto no mínimo várias dúzias de pessoas, trazia a marca de personalidades que na vida tinham estado mais ou menos próximas de mim.

As vozes procuravam continuamente me atiçar contra esse enfermeiro-chefe; já no primeiro dia me foi exigido que o tratasse simplesmente de “W.”, eliminando com intenção ofensiva o predicado de nobreza; no início eu não tinha a menor inclinação a fazê-lo, mas acabei por ceder, para me livrar da pressão das vozes. Em outra oportunidade, eu até lhe dei uma bofetada, não me recordo mais por que motivo; sei apenas que as vozes o exigiam de mim, porque ele tinha pretendido de mim alguma coisa inadmissível, e elas ficaram me insultando por causa da minha suposta falta de coragem viril, até que passei à execução do ato anteriormente descrito

ficava o dia inteiro entretido na conversação com as vozes e pasmado pelas coisas prodigiosas que aconteciam em torno de mim

Por outro lado, havia também momentos engraçados, que por instantes traziam, se assim posso dizer, um toque de comicidade à minha vida, de resto tão sombria. Para mim eram realmente os nervos de Von W., que assim atingiam uma espécie de hegemonia celeste; quanto a isso não há dúvida, porque conversei várias vezes com a alma de Von W. sobre suas recordações do tempo em que vivia, em particular a época da universidade, desde a corporação estudantil Misnia até o conhecido garçom B., do bar de Eutritzsch, perto de Leipzig. Às vezes ficava mesmo muito engraçado ver como, apesar da aliança entre as duas almas — a de Flechsig e a de Von W. —, assumida contra a onipotência de Deus, entravam no entanto em atrito a enfatuação professoral de um e o orgulho aristocrático do outro

9. Transferência para o Sonnenstein. Mudanças na relação com os raios. “Sistema de transcrições”

No primeiro período, os milagres, com relação aos efeitos espirituais e físicos, eram ainda em parte de natureza apavorante e ameaçadora, tanto que eu vivia permanentemente tomado pelas mais graves apreensões, temendo pela minha vida, pela minha virilidade e mais adiante pelo meu entendimento;

Durante todo o primeiro período eu imaginava não lidar com pessoas reais, mas com “homens feitos às pressas”

observada do exterior

M. e Sch. às vezes também descarregavam uma parte de seu corpo no meu, na forma de uma massa podre, com o objetivo de “cair fora”. M. frequentemente se postava no meu braço, como uma espécie de “grande nervo” — um tipo de massa gelatinosa mais ou menos do tamanho de uma cereja — onde, como os demais nervos e raios, ele de certo modo compartilhava do meu pensamento e das minhas impressões sensoriais.

Durante muito tempo, por ocasião das visitas de minha esposa no Sonnenstein, acreditei que ela fosse ad hoc “feita às pressas”, para aquela ocasião, e que por isso se dissolveria logo em seguida já na escada ou logo depois de sair do sanatório; foi dito que seus nervos, após cada visita, voltavam a se “encapsular”.

a expressão “paz de Deus”, nele recorrente, é a definição da língua fundamental para o sono engendrado por raios

De minha parte, sempre tinha em mente atrair para mim essas almas e partes de almas, com o objetivo de fazê-las desaparecer, pois eu partia da ideia inteiramente correta de que, através da eliminação de todas as almas “provadas”, ou impuras, que como instâncias intermediárias ficavam entre mim e a onipotência de Deus, resultaria automaticamente uma solução do conflito, em conformidade com a Ordem do Mundo, quer através da minha cura, obtida por meio de um sono que pudesse acalmar inteiramente os nervos, quer — coisa em que depois acreditei ter de almejar — através de uma emasculação conforme à Ordem do Mundo, para criar novos seres humanos.

Assim, a “ligação às terras” se tornou uma instituição permanente, que continua a existir até hoje, e que levou a consequências ulteriores, particularmente ao “sistema de transcrições”, que ainda será descrito. Não deixo de reconhecer que é quase inconcebível para os homens uma concepção segundo a qual se teria de pensar o meu corpo, situado na Terra, como um corpo ligado a outros corpos cósmicos por meio de nervos esticados, dadas as enormes distâncias em jogo; entretanto, depois das experiências quase diárias por que passei no correr dos últimos seis anos, não posso alimentar a menor dúvida sobre a realidade objetiva dos fatos.

domínio do incompreensível

Mantêm-se livros ou outro tipo de anotações, nos quais já há anos são transcritos todos os meus pensamentos, todas as minhas expressões de linguagem, todos os meus objetos de uso pessoal, todas as coisas que possuo ou estão nas minhas proximidades, todas as pessoas com quem me relaciono etc.

Todos os ataques que no correr dos anos foram feitos contra minha vida, minha integridade física, minha virilidade e meu entendimento, sempre tiveram e ainda têm por fundamento, força que deixa para trás todas as demais que um dia existiram.

Mas, então, ele ainda não foi emasculado?”. Não raro, os raios divinos, aludindo à emasculação supostamente iminente, acreditavam poder zombar de mim como “Miss Schreber”;.121. algumas das expressões na época frequentemente usadas e repetidas até a exaustão eram: “Você deve ser representado.122. como alguém entregue à devassidão voluptuosa” etc. etc. Eu próprio sentia o perigo da emasculação naturalmente como uma ignomínia que me ameaçava durante muito tempo, ou seja, enquanto se falou de um abuso sexual do meu corpo por outros homens.

Os nervos da volúpia, ou nervos femininos, que já tinham penetrado maciçamente no meu corpo, não puderam, por isso, no espaço de um ano ou mais, chegar a ter qualquer influência sobre a minha conduta e sobre o meu modo de sentir. Eu reprimia qualquer movimento nesse sentido, mobilizando meu sentimento de hombridade e a santidade das concepções religiosas que me dominavam quase que completamente; na verdade, só tomava consciência da presença de nervos femininos quando, em certas ocasiões, eles eram artificialmente mobilizados pelos raios, para produzir neles uma terrível excitação para então me “representar” como uma pessoa transida de pusilanimidade feminina

Dia após dia, hora após hora, acumularam então ininterruptamente no meu corpo veneno de cadáver ou outras matérias putrefatas, trazidos pelos raios, com a intenção de finalmente me esmagar e me tirar o entendimento.

as almas provadas ainda existentes no céu e certos restos dos antigos vestíbulos do céu, que tinham sido poupados para servirem de trincheira, com o tempo foram perdendo completamente a sua inteligência, não possuindo portanto mais nenhum pensamento próprio

já há anos os raios, na ausência de pensamentos próprios, essencialmente não sabem falar de outra coisa a não ser dos próprios milagres, atribuindo aos meus nervos as ideias de temor que lhes correspondem, mas de maneira falsa (por exemplo: “Se ao menos meus dedos não ficassem paralisados”, ou: “Se ao menos minha rótula não estivesse ferida”), ou ainda maldizendo qualquer atividade de que eu comece a me ocupar (por exemplo: “Se ao menos se cessasse de tocar esse maldito piano” assim que me sento ao piano, ou ainda: “Se ao menos parasse essa maldita limpeza de unhas” assim que começo a limpar as unhas). Ainda por cima se tem a enorme desfaçatez — não posso recorrer a outra expressão — de pretender que eu exprima em voz alta, como se fosse um pensamento meu, essa bobagem falsificada; de modo que à frase “Se ao menos se cessasse de tocar esse maldito piano” se acrescenta a pergunta: “Por que você não diz (em voz alta)?” — ao que se segue a resposta: “Porque sou burro, algo assim” ou “Porque tenho medo do sr. M.”

milagre dirigido contra a minha pessoa, nem aparece um determinado “pensamento de decisão”, de empreender esta ou aquela atividade, da parte dos raios, que são capazes de ler meus pensamentos;

dar ao leitor ao menos uma ideia dos absurdos que meus nervos há anos são obrigados a suportar.

As expressões verbais ofensivas e os insultos tinham por objetivo me estimular a falar em voz alta, tornando assim impossível o sono nos momentos adequados a esse fim

Acreditava-se, com a transcrição, poder esgotar toda a minha reserva de pensamentos

de manhã cedo o pensamento: “Agora vou me lavar”, ou, ao tocar piano, o pensamento: “Esta é uma bela paisagem” etc

10. Experiências pessoais no Sonnenstein. “Distúrbios” como fenômeno concomitante ao contato com os raios. “Moldagem do estado de ânimo”

tudo o que se dizia era autêntico, sem frases decoradas, como mais tarde, tão somente a expressão direta de sentimentos verdadeiros.

eu vi o deus superior (Ormuzd), dessa vez não com meu olho espiritual, mas com meu olho carnal

dada a segurança das minhas recordações, fica completamente excluído do ponto de vista subjetivo, tanto que a aparição se repetiu várias vezes nos dias subsequentes e mesmo naquele único dia ela se sustentou;

A vida exterior que eu levava no tempo de que aqui se trata — os primeiros meses da minha estada no Sonnenstein — era extraordinariamente monótona. Afora os passeios que eu fazia diariamente, de manhã e à tarde, no jardim, na maior parte do tempo eu ficava o dia todo imóvel na cadeira em frente à minha mesa, não indo nem mesmo até a janela, onde, de resto, só havia árvores verdes para se ver (ver supra); mesmo no jardim, eu ficava de preferência sempre sentado no mesmo lugar e só de vez em quando, na verdade contra a minha vontade, era induzido pelos enfermeiros a andar

Eu não tinha nada com que escrever; todos os meus objetos de uso pessoal me tinham sido tomados (roupas, relógio, porta-moedas, faca, tesoura e outros) e no meu quarto havia apenas quatro ou cinco livros, que em todo caso eu poderia ter lido, se tivesse tido vontade. Mas a razão principal da minha imobilidade não vinha da falta, aliás real, de objetos apropriados para o exercício de alguma atividade qualquer, mas do fato de que eu considerava uma passividade absoluta quase uma obrigação religiosa.

Essa ideia não surgiu dentro de mim, mas me foi provocada pelas vozes que falavam comigo

A imposição que os raios me determinavam, de uma total imobilidade (“Nem o menor movimento”, dizia-me a frase frequentemente repetida), por sua vez, de acordo com minhas convicções, deve ser relacionada com o fato de que Deus, por assim dizer, não era capaz de lidar com homens vivos, estando acostumado a lidar só com cadáveres ou, em todo caso, com homens adormecidos (sonhando)

elevada força de atração dos meus nervos.

Além do mais, influenciado pelas opiniões expressas pelas vozes que falavam continuamente comigo nesse sentido, eu tinha me apegado à ideia de que seria mais fácil atrair as “almas provadas” com o objetivo de atingir uma total dissolução no meu corpo, restaurando, desse modo, no céu, o poder absoluto de Deus, se eu conservasse meu corpo em uma quietude permanente. Foi assim que fiz o sacrifício quase inacreditável de me abster, praticamente, de qualquer movimento corporal, e portanto de qualquer ocupação que não fosse a conversa com as vozes, durante várias semanas e meses; a coisa ia tão longe que mesmo durante as noites, que pareciam ser da maior importância, dado que se esperava que a dissolução das almas provadas ocorresse de preferência no sono, eu não me atrevia a modificar minha posição na cama. Fazia esse sacrifício porque, mesmo já tendo tido diversas provas da “política de meias medidas” que Deus realizava contra mim, naquela época ainda não queria acreditar em uma verdadeira má vontade de Deus para comigo.

eles não podiam deixar de ver em mim uma pessoa decaída em uma imbecilidade estuporosa. E, no entanto, que distância imensa entre essa aparência e a realidade: eu vivia com a consciência — e ainda hoje estou convencido de que essa consciência coincide com a verdade — de ter de resolver uma das tarefas mais difíceis jamais propostas a um ser humano e ter de levar adiante um combate sagrado pelos bens supremos da humanidade. Mas, infelizmente, a aparência enganadora do contrário tinha como resultado uma enorme soma de indignidades no tratamento dado à minha pessoa, e sob as quais eu sofri muito, anos a fio, e que às vezes faziam esquecer completamente a minha posição social e o elevado cargo que eu ocupava em vida. Frequentemente, o enfermeiro M. mandava-me de volta à banheira no momento em que eu queria sair do banho, depois de passar nele o tempo adequado, ou de manhã, chegada a hora de acordar, por motivos que desconheço mandava-me de volta para a cama, ou ainda de dia, se eu cochilava um pouco sentado à mesa, me despertava puxando os pelos da barba; o mesmo enfermeiro me penteava o cabelo durante o banho com um pente fino — e isso justamente num período em que fluxos de raios faziam sulcos no meu crânio (ver capítulo seguinte). Às refeições, durante um certo tempo, ele costumava pôr um guardanapo à volta do meu pescoço, como a uma criança.

11. Danos à integridade física por meio de milagres

Os milagres que mais de perto evocavam uma situação ainda em acordo com a Ordem do Mundo pareciam ser aqueles que tinham alguma relação com uma emasculação a ser efetuada no meu corpo. A esse contexto pertence em particular todo tipo de modificações nas minhas partes sexuais, que algumas vezes (particularmente na cama) surgiam como fortes indícios de uma efetiva retração do membro viril, mas frequentemente, quando prevaleciam os raios impuros, como um amolecimento do membro, que se aproximava da quase completa dissolução; além disso, a extração, por milagre, dos pelos da barba, em particular do bigode, e, finalmente, uma modificação de toda a estatura (diminuição do tamanho do corpo) — provavelmente baseada numa contração da espinha dorsal e talvez também da substância óssea das coxas. Este último milagre, proveniente do deus inferior (Ariman), era regularmente anunciado com as palavras: “E se eu o diminuísse um pouco?”. Eu próprio tinha a impressão de que meu corpo tinha se tornado de seis a oito centímetros mais baixo, aproximando-se, portanto, da estatura feminina.

A comida e a bebida então ingeridas caíam diretamente na cavidade abdominal e nos quadris, um fenômeno, por mais incrível que pareça, que ficava para mim completamente fora de dúvida, dada a clareza da percepção.

Essa alma jogava com total desconsideração em minha barriga a matéria putrefata que produzia a putrefação do baixo-ventre, tanto que eu mais de uma vez acreditei estar apodrecendo vivo, e o odor da podridão emanava de minha boca do modo mais repugnante.

cujas vozes eu percebia nos meus pés

Pode-se imaginar que sensações desagradáveis devem gerar todos esses processos, quando se pensa que os raios de todo o mundo — fixados mecanicamente em seu ponto de partida — ficam girando em torno de uma única cabeça tentando despedaçá-la ou arrebentá-la, como num esquartejamento.

Os que se ocupavam de abrir e fechar os olhos ficavam em cima dos olhos, nos supercílios, e de lá puxavam as pálpebras para cima e para baixo, a seu bel-prazer, servindo-se de fios muito finos, semelhantes a fios de teia de aranha. Também aqui eram, via de regra, um “pequeno Flechsig” e um “pequeno Von W.”, e ao lado destes também um “homúnculo” que saíra da alma, na ocasião ainda existente, de Daniel Fürchtegott Flechsig. Quando às vezes eu não queria permitir esse levantar e abaixar de minhas pálpebras e reagia contra isso, essa atitude provocava a indignação dos “homúnculos”, e então eu era saudado com a expressão “puta”; quando às vezes eu tentava limpá-los de meus olhos com uma esponja, isso era considerado pelos raios como uma espécie de crime contra o poder milagroso de Deus. Aliás, essa limpeza tinha um resultado meramente passageiro, pois os “homúnculos” sempre eram colocados de novo. Outros “homúnculos” naquela época se reuniam quase sempre em grande número no meu corpo.

Os raios pareciam não compreender que um homem que realmente existe afinal precisa estar em algum lugar

12. Conteúdo da conversa das vozes. “Concepção das almas”. Língua das almas. Continuação das experiências pessoais

me conferiam a denominação de “príncipe dos infernos”. Inúmeras vezes, por exemplo, disse-se: “A onipotência de Deus decidiu que o príncipe dos infernos deve ser queimado vivo”, “O príncipe dos infernos é responsável pela perda de raios”, “Proclamemos vitória sobre o príncipe dos infernos vencido”; mas depois uma parte das vozes dizia: “É Schreber, não Flechsig, o verdadeiro príncipe dos infernos” etc.

Desde que recomecei a jogar xadrez e a tocar piano, estas têm sido no sanatório minhas duas principais atividades durante todos os cinco anos transcorridos desde então. Tocar piano, particularmente, me foi de um valor inestimável, e ainda o é até hoje; devo dizer que mal posso imaginar como poderia ter suportado a coação a pensar com todos os seus fenômenos secundários durante esses cinco anos se não tivesse podido tocar piano. Enquanto toco piano, a tagarelice desvairada das vozes que falam comigo fica abafada —.141. trata-se, ao lado dos exercícios físicos, de uma das formas mais adequadas do chamado pensamento de não pensar em nada,.142. do qual se queria me privar, enganando-me, pretendendo que se tratava do pensamento musical de não pensar em nada, como se dizia na língua das almas

às vezes deplorei não ter favorecido (“ter tranquilizado”, como dizia a expressão na língua fundamental) o milagre, para ver se ele realmente se completaria.

Considerando a missão que me fora dada, de a todo momento convencer Deus, que não conhecia o homem vivo, da existência intacta da minha força intelectual, a luz necessária a qualquer atividade humana era para mim algo tão indispensável como o pão de cada dia. Cada privação de luz, cada prolongamento da escuridão natural, significava, portanto, para mim, um enorme agravamento da minha situação

13. Volúpia de alma como fator de atração. Fenômenos resultantes

convicção de que a Ordem do Mundo exigia imperiosamente de mim a emasculação, quer isso me agradasse pessoalmente ou não e, portanto, por motivos racionais, nada mais me restava senão me reconciliar com a ideia de ser transformado em mulher

uma das locuções inúmeras vezes repetidas desde então, a cada manifestação da volúpia de alma, dizia: “Não se envergonha diante de sua esposa?”, ou, de um modo ainda mais vulgar: “Eis um presidente da Corte de Apelação que se deixa f…”. Mas, por mais que essas vozes fossem revoltantes mesmo para mim, e por mais frequentes que fossem as oportunidades de exprimir de algum modo a minha justa indignação, nas milhares de vezes em que essas locuções se repetiram, com o tempo não me deixei mais confundir no comportamento, que daí por diante eu reconhecera como necessário e salutar para todas as partes: para mim e para os raios.

Gostaria de ver qual o homem que, tendo de escolher entre tornar-se um idiota com aparência masculina ou uma mulher dotada de espírito, não preferiria a última alternativa. Mas é desse modo e apenas desse modo que a questão se coloca para mim. O exercício da minha antiga profissão, à qual eu me dedicava com toda a minha alma, qualquer outro objetivo da ambição masculina, qualquer outra valorização da minha energia intelectual a serviço da humanidade, agora, dado o rumo que as coisas tinham tomado, tudo isso me fora subtraído;

Mas a atração perdia o caráter apavorante para os nervos em questão se, e à medida que, ao penetrarem no meu corpo, nele encontravam a sensação de volúpia de alma, da qual por seu turno eles tomavam parte. Encontravam então no meu corpo um substituto de valor igual ou aproximado à sua perdida beatitude celeste, que também consistia num gozo de tipo voluptuoso

Ora, o sentimento da volúpia de alma nem sempre estava presente no meu corpo com a mesma intensidade; chegava ao seu pleno desenvolvimento só quando as partes da alma de Flechsig e as demais partes das almas “provadas” ficavam na frente, produzindo assim uma unificação de todos os raios

uma parte dos raios começou a tomar gosto pela penetração no meu corpo

mixórdia

também na forma elas me aborrecem menos, à medida que se adaptam melhor ao direito natural do homem de não pensar em nada; com o tempo a gente se acostuma a permitir que passem pela cabeça essas expressões absurdas

Algumas frases eram bem genéricas, sem qualquer alusão pessoal, como: “Os conhecimentos e as capacidades não se perdem de modo algum” e “O sono deve vir”; ainda: “Todo absurdo (isto é, o absurdo de ler e falsificar pensamentos) se anula”, e “Os êxitos duradouros estão do lado do homem”. Outras expressões do deus inferior eram em parte endereçadas a mim, em parte — de certo modo faladas através da minha cabeça — endereçadas ao seu colega, o deus superior; do primeiro tipo era, por exemplo, a expressão já recordada: “Não se esqueça de que está ligado à concepção das almas”; do último, por exemplo, as frases: “Não se esqueça de que toda representação é um absurdo”, ou “Não se esqueça de que o fim do mundo é uma contradição em si”, “Agora vocês tornaram as condições atmosféricas dependentes do pensamento de um único homem”, ou “Agora vocês tornaram impossível qualquer atividade sagrada” (isto é, através dos diversos milagres que tornavam difícil tocar piano, jogar xadrez etc.). Em alguns poucos casos, aliás raríssimos, chegava-se a ponto de admitir uma espécie de confissão da própria culpa, por exemplo: “Se ao menos eu não o tivesse posto entre os homens feitos às pressas”, ou “Essas são as consequências da famosa política das almas”, ou “Agora o que será desta maldita história”, ou “Se parasse a maldita brincadeira com os homens”. Vez por outra se fazia, nestas palavras, a confissão: “Falta-nos uma atitude”, isto é, aquela atitude que deveríamos demonstrar diante de qualquer homem bom, até mesmo diante do pecador mais abjeto, conservando os meios de purificação, de acordo com a Ordem do Mundo

Falava-se de “forças colossais” do lado da onipotência de Deus e da “resistência sem perspectiva” da minha parte; acreditava-se também que eu devia ser advertido de que, para Deus, a possibilidade de retirada é ilimitada, através da frequente repetição da frase: “Não se esqueça de que a eternidade não tem limites”.

ambos parecem incorrer no erro, quase incompreensível para o homem, segundo o qual tudo o que parte dos nervos de um homem na minha situação — e que em grande parte é consequência da falsificação de pensamento operada pelos raios — soa para eles como algo que deve ser considerado manifestação da minha própria atividade de pensamento, e também no erro de considerar que qualquer interrupção, por passageira que seja, da atividade de pensamento e o estado que isso acarreta — durante o qual certos pensamentos formulados em palavras pelos nervos humanos não soam compreensíveis para os raios — significaria a extinção pura e simples das faculdades mentais do homem ou, como se costuma designar, com uma expressão humana francamente equivocada,.146. o início da idiotia..147. Desse modo, Deus parece, em ambas as suas formas, tender a acreditar erroneamente que a língua dos nervos derivada da vibração dos nervos (ver início do capítulo 5. deve ser considerada a verdadeira língua dos homens, de modo que aparentemente não se consegue distinguir em particular se aquilo que se percebe são as manifestações mentais de um homem que sonha ou de alguém que em plena consciência faz uso de sua capacidade de pensar — dado que também há uma certa excitação dos nervos no homem adormecido que sonha.

Estou aqui

Eu mesmo, já de muito tempo para cá, tenho repetido em formulações escritas.150. o seguinte pensamento: “Qualquer tentativa de exercer uma influência educativa sobre o exterior deve ser abandonada por ser votada ao fracasso”; e todos os dias que se passaram desde aquele momento me confirmaram a veracidade dessa ideia.

Por volúpia interior se entende a volúpia de alma que surge no meu corpo

14. “Almas provadas”; seu destino. Experiências pessoais (continuação)

forma da alma de Von W. Esta última, mais adiante, parece ter até renunciado espontaneamente à “ligação”; ela então se instalou, durante um longo tempo — cerca de um ano —, principalmente na minha boca e nos meus olhos, mas me incomodava muito pouco, proporcionando-me até uma certa distração na medida em que eu mantinha com ela uma espécie de intercâmbio de pensamentos, no qual naturalmente eu era quase sempre a parte que dava e a alma de Von W., a que recebia

Por volta do ano de 1897, a alma de Von W. finalmente desapareceu por completo e de um modo que me passou despercebido. No fim, eu já estava tão acostumado à sua companhia que um dia, depois de não ter pensado mais nela durante muito tempo, ao tomar consciência do seu desaparecimento, me pus a tocar ao piano, em homenagem ao seu falecimento, a marcha fúnebre da Heroica de Beethoven.

Traduzido na linguagem humana, este “se um dia, agora” da alma de Flechsig deve ter mais ou menos o seguinte significado: “Que vá para o diabo a preocupação com o futuro, se eu estou bem no momento”.

Como a princípio eu só dispunha de alguns lápis de cor e mais tarde também de outros objetos para escrever, comecei a fazer anotações escritas; minha situação era tão miserável que um lápis ou uma borracha foram por muito tempo conservados por mim como um tesouro. As anotações consistiam inicialmente apenas em apontamentos esparsos de pensamentos soltos ou lembretes; mais adiante, a partir do ano de 1897, comecei a fazer um diário organizado no qual eu registrava todas as minhas experiências; antes disso — ainda no ano de 1896 —, eu tinha de me limitar a anotações que fazia num pequeno calendário.

enquanto eu comia permanentemente, faziam-se milagres em torno da minha boca; nessa mesma ocasião também continuavam livremente as perguntas idiotas: “Por que o senhor não diz (em voz alta)?” etc., embora para um homem que está com a boca cheia seja praticamente impossível falar alto. Nessas ocasiões, meus dentes ficavam expostos a um perigo permanente; muitas vezes também acontecia, por milagre, que alguns dentes se quebrassem enquanto eu comia. Frequentemente me eram infligidos, durante a refeição, milagres que me faziam morder a língua. Os fios do bigode, durante as refeições, eram enfiados por milagre na boca, a tal ponto que em razão disso eu precisei me decidir, em agosto de 1896, a mandar raspar completamente o bigode. Mas a supressão do bigode, também por outras razões, tinha se tornado para mim uma necessidade, por menos que me agradasse, e ainda hoje não me agrada me ver durante o dia com o rosto glabro.

me é necessário, pelo menos de noite, com auxílio da minha fantasia, imaginar-me como um ser feminino, e essa ilusão teria no bigode um obstáculo difícil de superar

Quando eu comia sozinho, via-me forçado, durante as refeições, a tocar piano ou a ler, uma vez que era sempre necessário, mesmo durante as refeições, dar ao Deus distante.153. a prova da integridade das minhas energias intelectuais; se eu não quisesse fazer isso, só me restava comer em pé ou andando.

De fato, nos primeiros anos da minha estada no atual sanatório, muitas vezes houve, da minha parte, atritos com outros pacientes, e algumas vezes também com os enfermeiros. Tomei nota, uma por uma, de todas essas ocorrências; trata-se de dez a doze incidentes, sendo que o último deles aconteceu no dia 5 de março de 1898, no qual, aliás, ao menos na medida em que se tratava de outros pacientes, eu sempre fui a parte agredida.

estava constantemente tocando piano, jogando xadrez, lendo livros e jornais, e me comportava de modo educado, tranquilo e inteiramente de acordo com o meu nível cultural. Pode ser que durante a noite, uma vez ou outra, eu tenha falado em voz alta — era forçado a fazê-lo pelas razões indicadas na nota 101; é possível, portanto, que outros pacientes que dormiam no mesmo corredor ou no andar acima do meu tenham tido algumas vezes motivo de queixa contra mim. Mas, mesmo aqui, não se tratava de modo algum de perturbações da tranquilidade que se repetissem todas as noites ou na maioria das noites, tanto que eu mesmo, não raro, tive de suportar coisas semelhantes de outros pacientes, e, além do mais, meu quarto é consideravelmente isolado dos outros.

está longe de mim fazer qualquer tipo de queixa com relação ao passado; só que não posso deixar de supor que tenha estado em jogo, em tudo isso, uma cerca vis inertiae, que deixa as coisas como estão uma vez determinada uma condição, por mais insuportável que seja, sem refletir se realmente ainda perduram os motivos que levaram a tomar essa providência

Por isso, por menor que seja a minha intenção de dar à exposição que se segue um tom de ressentimento pessoal, uma descrição dos sofrimentos inenarráveis pelos quais passei nessas celas faz parte do quadro completo da história da minha doença. Meu sono, como se deduz do que foi relatado anteriormente, depende exclusivamente da configuração das relações celestes; basta que Deus se retire para uma distância muito grande, o que costuma acontecer, via de regra, periodicamente, durante meio dia ou várias horas, e para mim se torna simplesmente impossível conciliar o sono

Mas, se fico acordado, o falatório das vozes na minha cabeça se torna um martírio francamente insuportável, ao qual além de tudo se acrescentam, há mais de um ano, com maior ou menor intensidade, os estados de urros que mais adiante serão descritos, tudo isso contanto que não consiga convencer do contrário a Deus, que, à distância, acha que eu me tornei um idiota.

Mas o que poderia eu fazer naquelas noites insones na cela, onde me faltavam tanto iluminação como qualquer objeto apropriado à realização de uma atividade? Ficar na cama era simplesmente impossível, tatear pela cela escura, vestido só com uma camisa de dormir e descalço (pois não me deixavam nem os chinelos), era muito desagradável, ainda mais que no inverno o frio era muito sensível; além disso, havia o perigo, decorrente dos milagres, de bater com a cabeça no baixo teto da cela. A necessidade nos torna criativos e assim, ao longo daqueles anos, lancei mão de todos os expedientes possíveis para passar o tempo de um modo pelo menos suportável

15. Brincadeiras com os homens e com os milagres. Gritos de socorro. Pássaros falantes

há algo de podre no reino da Dinamarca, isto é, na relação entre Deus e a humanidade

não saíram da minha cabeça, mas penetraram nela, faladas de fora para dentr

o milagre dos urros, no qual os músculos que concorrem para a respiração são postos em movimento pelo deus inferior (Ariman), de tal modo que sou forçado a emitir o barulho do urro, se não fizer um grande esforço para reprimi-lo; em certos momentos, os urros se sucedem numa repetição tão rápida e frequente que o resultado para mim é uma situação praticamente insuportável, e particularmente à noite fica impossível continuar deitado;

pensar;   
Os gritos de “socorro” da parte dos nervos de Deus que se destacam da massa total, cujo tom de lamentação é mais forte quanto maior for a distância à qual Deus se retirou para longe de mim, e portanto maior é o caminho que esses nervos precisam percorrer, em um estado de angústia manifesta.

Não têm a menor capacidade de entender aquilo que falaram: as frases decoradas — para manter essa expressão, que naturalmente só deve ser entendida de modo figurado —, eles as tagarelam sem saber o significado das palavras; justamente no que se refere à inteligência, eles aparentemente não são superiores a nenhum outro pássaro da natureza.

Fazem parte dos pássaros miraculados todos os pássaros que voam velozmente e, portanto, em particular, todos os pássaros canoros, além das andorinhas, pardais, gralhas etc.; entre essas espécies de pássaros nunca encontrei, no decorrer dos anos, um único exemplar que não falasse; mesmo durante os dois passeios de carro que fiz no verão deste ano (1900),.167. eles me acompanharam o tempo todo pela estrada, até o fim da minha excursão.

16. Coação a pensar. Suas manifestações e fenômenos correlatos

Agora eu vou me render ao fato de que sou burro;
Você deve de fato ser representado como renegador de Deus, dedicado a excessos de volúpia etc.;
Nisto eu quero pensar primeiro;
Mas agora ele deveria estar bem cozido, o assado de porco;
Mas isto era realmente demais para a concepção das almas;
Falta-nos agora o pensamento principal, isto é, nós, os raios, não temos pensamentos.

meus nervos são induzidos pelos raios a vibrações

vozes interiores, estendem-se para dentro da minha cabeça como longos fios, produzindo nelas, por causa do veneno de cadáver que elas descarregam, uma sensação dolorosa de tensão.

Não há dúvida nenhuma de que a cada dia, cada ano, cada semana que passa, as coisas ficarão cada vez mais fáceis para nós, à parte certas recaídas ligadas ao fato de que lá fora não há a necessária compreensão, nem haverá nunca, por causa da constituição dos reinos de Deus e do caráter das almas; por isso sempre se continuará a fazer tentativas, cada vez mais fracas, de se subtrair a uma solução que esteja em conformidade com a Ordem do Mundo.

da política que se seguiu com relação a mim. Quase toda vez que se provoca em mim, por milagre, a necessidade de evacuar, envia-se — estimulando os nervos da pessoa em questão — uma outra pessoa do meu ambiente para me impedir de evacuar;

17. Continuação do anterior; “desenhar” no sentido da língua das almas

durante certos períodos, se podia encontrar uma espécie de compensação para as injustiças cometidas contra mim. Além das revelações sobre as coisas sobrenaturais, que coube a mim receber no decorrer dos anos, e que hoje não apagaria da minha memória nem por todo o ouro do mundo, tenho em vista aqui principalmente o efeito estimulante do ponto de vista espiritual que a coação a pensar exerceu sobre mim.

fico então obrigado, ou pelo menos constrangido num grau incomparavelmente maior que os outros homens, a refletir sobre a causa ou a finalidade do fenômeno em questão.

O desenhar (no sentido da língua das almas) é o uso consciente da imaginação, com o objetivo de produzir imagens (predominantemente imagens mnemônicas) que depois são vistas pelos raios.”.173. Eu consigo produzir imagens de todas as recordações da minha vida, de pessoas, animais e plantas, de objetos naturais e objetos de uso de qualquer tipo, por meio de uma viva representação dessas imagens, e o resultado é que se tornam visíveis na minha cabeça ou também fora dela, conforme as minhas intenções, tanto para os meus próprios nervos quanto para os raios que estão em conexão com eles, visíveis lá onde eu quero que essas coisas sejam percebidas. Consigo fazer isso com os fenômenos meteorológicos e com outros eventos; posso, por exemplo, fazer relampejar ou chover — um desenho particularmente eficaz, pois todos os fenômenos meteorológicos, principalmente o relampejar dos raios, são tidos como expressões do poder milagroso de Deus; posso fazer uma casa pegar fogo sob a janela do meu quarto etc. etc., tudo isso naturalmente na minha representação, mas de tal modo que os raios, ao que me parece, têm a impressão de que esses objetos e fenômenos realmente existiram

Posso me “desenhar” em um outro lugar diferente daquele no qual eu de fato estou; por exemplo, enquanto me sento ao piano, estar ao mesmo tempo no quarto ao lado em frente ao espelho, com roupas femininas;

impressão de que meu corpo é dotado de seios e de órgãos sexuais femininos. Desenhar um traseiro feminino no meu corpo — honny soit qui mal y pense — tornou-se para mim um hábito de tal forma que eu o faço quase involuntariamente toda vez que me inclino

Ninguém que não tenha passado por tudo o que eu vivi pode fazer uma ideia dos inúmeros aspectos em que a capacidade de “desenhar” me foi valiosa. Na desolação infinita de minha vida tão monótona, no martírio espiritual que me era proporcionado pelo falatório idiota das vozes, essa capacidade muitas vezes, quase a cada dia e a cada hora, constituía para mim um verdadeiro consolo e um real refrigério. Que grande alegria era poder reproduzir diante do meu olho espiritual as impressões paisagísticas de todas as minhas recordações de viagem e, às vezes, realmente — quando a conduta dos raios favorecia —, numa fidelidade à natureza e com uma magnificência de cores tão surpreendente que eu e os raios tínhamos quase a mesma impressão: a de que as paisagens estavam de fato ali presentes.

Nas noites de insônia, de certa forma, muitas vezes vinguei-me dos fantasmas que apareciam por milagre dos raios fazendo, por minha vez, aparecer no meu quarto ou na cela todo tipo de figuras, sérias e alegres, sensualmente excitantes ou horrorosas

todos os ruídos que ouço parecem falar; particularmente os que têm maior duração, como o barulho dos trens, o rumor dos barcos a vapor, a música de certos concertos etc., as palavras faladas pelas vozes dentro da minha cabeça, bem como as palavras com as quais formulo, independentemente, meus pensamentos, com vibrações correspondentes dos nervos.

a ideia de que, para afastar qualquer mal-estar, basta expressar com frequência, em palavras, o desejo de fazê-lo, parece ter seu fundamento na peculiaridade do caráter das almas

18. Deus e os processos da criação; geração espontânea; pássaros miraculados. “Direção do olhar”. Sistema de exame

Em si mesmo, o objetivo dos raios divinos não é combater um simples ser humano e realizar um trabalho de destruição no seu corpo, e sim a criação. Essa função peculiar dos raios, o milagroso poder criador de Deus

Deus quer que algo seja feito, e, ao enviar os raios com essa vontade, aquilo que Ele quer simplesmente acontece. É a situação que a Bíblia expressa de um modo tão significativo com as palavras: “Deus disse ‘Faça-se a luz’ e a luz se fez”; mas o contexto mais íntimo do processo escapa ao entendimento humano

enquanto trabalho, fico permanentemente exposto a milagres que distraem o meu pensamento ou de algum modo provocam danos à minha cabeça, tornando frequentemente impossível um trabalho de pensamento consistente num campo tão difícil como ess

toda vez que falam comigo, as vozes transformam esses fenômenos em tema de uma conversa expressamente dedicada a eles. Isso acontece de diversas maneiras: seja infiltrando nos meus nervos, por meio da falsificação, determinados pensamentos de temor ou de desejos, por exemplo “Se ao menos as malditas moscas parassem” ou “Se ao menos as malditas vespas parassem” etc., seja procedendo a uma intenção de examinar, que de resto ocorre em qualquer ocasião

Nos últimos anos, às vezes quando eu estava na cama — não dormindo, mas desperto —, apareciam-me bem perto da cama todo tipo de figuras extravagantes, figuras de dragões bem grandes, quase do tamanho da minha cama, e tão perto que eu quase teria podido agarrá-las com a mão

19. Continuação do anterior. Onipotência divina e livre-arbítrio humano

a famosa passagem da Bíblia “Ele criou o homem à Sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou” adquire uma luz inteiramente nova. Tem-se a impressão de que é como se a essas palavras da Bíblia se pudesse atribuir um significado literal que até agora os homens não tinham ousado dar

para Deus, em certo sentido, não há nem passado nem futuro: por si mesmo Deus não tem de esperar de um tempo futuro nem circunstâncias felizes particulares, nem uma sorte adversa; Ele permanece em todos os tempos igual a Si mesmo; isso está contido no conceito de eternidade

para Deus elas são todas, num certo sentido, igualmente insignificantes. Deus dotou todas as espécies criadas por Ele (e, portanto, indiretamente também os indivíduos a elas pertencentes) das condições necessárias para sua conservação; até que ponto utilizam essas condições e com que resultado, é uma questão deixada para esses seres, algo que, portanto, Deus não pode saber com antecedência

Em primeiro lugar, realizam-se milagres com a minha pessoa e com todos os objetos de que me ocupo; da mesma forma realizam-se milagres com todas as manifestações de vida dos homens que se encontram nas minhas proximidades, fazendo com que seus nervos, por influência dos raios, sejam levados a falar, a executar todas as funções naturais, a tossir, a espirrar e até mesmo a emitir flatos etc.; realizam-se milagres também com todos os animais vivos do meu ambiente, o que se tornou para mim indubitável a partir das observações feitas, provocando também, por meio de uma influência adequada, exercida sobre os nervos dos animais, o relinchar dos cavalos, o latido dos cães etc. Finalmente, realizam-se milagres também através de uma nova criação de animais inferiores (os insetos mencionados no capítulo anterior etc.). Na realidade, tudo em vão, uma vez que os animais e os homens vivos, mesmo sem isso, teriam a capacidade de expressar essas manifestações de vida e os insetos que são recém-criados pertencem a espécies que, mesmo sem milagres, já existem em numerosos exemplares e, portanto, não se trata de chamar à vida uma nova espécie.

O exercício de poder realizar milagres se reduz, portanto, em cada um dos seus aspectos, no que me diz respeito, a uma tortura vã e, no que diz respeito a outros homens e animais, a um jogo vazio.

20. Concepção egocêntrica dos raios com relação à minha pessoa. Configuração ulterior das relações pessoais

tudo o que acontece se refere a mim

Desde que Deus entrou em uma conexão nervosa exclusiva comigo, eu me tornei para Deus, num certo sentido, o homem, ou o único homem em torno do qual tudo gira, ao qual tudo deve se referir e que por isso, também do seu próprio ponto de vista, tem de referir a si mesmo todas as coisas.

Uma vez que os pacientes.183. são predominantemente loucos de baixo grau de instrução e de sentimentos grosseiros, nessas ocasiões, em geral, vêm à tona insultos vulgares que, de acordo com a intenção dos raios, eu devo relacionar comigo. Em alguns casos, sem uma prévia troca de palavras chegou-se até a me fazer cometer agressões, como, por exemplo, aconteceu uma vez com um certo dr. D., enquanto eu tranquilamente jogava xadrez com um outro senhor. Da minha parte, sempre me guiei pelo esforço de ignorar, se possível, os insultos proferidos contra mim, como sendo provenientes de loucos. Mas a possibilidade de ignorar tem seus limites; quando, o que antigamente acontecia muito e ainda hoje não raro acontece, os loucos me empurram com força ou não param de me aborrecer com insultos, apesar do desprezo que lhes demonstro pelo silêncio, se eu não quiser parecer covarde, só me resta replicar verbalmente. Como, nessas ocasiões, uma palavra costuma puxar outra, nos últimos anos se chegou a verdadeiras cenas de pancadaria, nas quais, aliás, tive sempre a satisfação de derrubar o agressor — embora simultaneamente fossem operados milagres, particularmente na minha rótula, para me tornar incapaz de lutar.

Meu lugar é entre pessoas cultas, e não entre loucos; se estou entre pessoas bem-educadas, como, por exemplo, à mesa do diretor do sanatório, onde tomo as refeições desde a Páscoa deste ano (1900), desaparecem muitos dos incômodos causados por milagres, particularmente os chamados urros, porque nessas ocasiões, ao tomar parte de uma conversa em voz alta, eu tenho a oportunidade de demonstrar a Deus que estou de plena posse das minhas faculdades mentais. De fato, sou doente dos nervos, mas não sofro de modo algum de uma doença mental que me torne incapaz de cuidar de meus próprios interesses (artigo 6 do Código Civil do Império Alemão) ou que possa levar à confinação em um sanatório contra a minha vontade por motivos de direito público.

A sensação de bem-estar físico se deve à volúpia de alma, que em certos momentos atinge uma grande intensidade; não raro, ela é tão intensa que, quando estou na cama, me basta um mínimo esforço de imaginação para me propiciar um bem-estar dos sentidos, que constitui uma intuição bastante nítida do prazer sexual feminino no coito.

ainda mais que o meu ambiente se constitui predominantemente de loucos, que por sua vez contribuem para que aconteça todo tipo de coisas insensatas.

Raramente me é possível persistir muito tempo na mesma ocupação; muito frequentemente, a ocorrência de dores de cabeça ao ler, escrever ou realizar outra ocupação desse tipo torna necessária uma mudança. Sob muitos aspectos, sou obrigado a passar o meu tempo às voltas com amenidades insignificantes; do ponto de vista físico, isso me proporciona o maior bem-estar (além de tocar piano). Por isso, nos anos anteriores tive muitas vezes de me ocupar com trabalhos mecânicos, como colagens, pinturas de figuras e coisas do gênero; do ponto de vista do bem-estar do corpo, são particularmente recomendáveis os trabalhos de tipo feminino, como costurar, tirar o pó, fazer a cama, lavar louça e assim por diante. Ainda hoje, há dias em que, além de tocar piano, praticamente só posso me dedicar a essas pequenas coisas, isto é, dias em que o estado da minha cabeça exclui qualquer outra ocupação que corresponderia melhor às necessidades do espírito

Já não se ouvem mais muitas das expressões que antigamente eram habituais, em particular as que lembravam o “pensamento de não pensar em nada”

21. Beatitude e volúpia em suas relações recíprocas. Consequências dessas relações no comportamento pessoal

compete a mim comunicar minha concepção sobre a natureza da minha doença

tais nervos da volúpia encontram-se no corpo todo da mulher e, no homem, só nas partes sexuais e suas imediações

Ora, para mim é algo subjetivamente certo

Nos momentos de aproximação, meu peito dá a impressão de ter seios bastante desenvolvidos; esse fenômeno pode ser visto com os próprios olhos por qualquer um que queira me observar. Estou, portanto, em condições de fornecer, por assim dizer, uma prova passível de inspeção ocular. Certamente, não bastaria uma observação rápida num determinado momento; o observador precisaria fazer o esforço de permanecer junto a mim cerca de dez a quinze minutos. Nesse caso, qualquer um poderia observar que meu peito alternadamente aumenta e diminui de volume. Naturalmente, permanecem nos braços e no tórax os pelos viris, que, aliás, em mim estão presentes em pequena escala; também os mamilos continuam do tamanho pequeno, que corresponde ao sexo masculino. Mas, à parte isso, ouso afirmar que qualquer pessoa que me vir de pé diante do espelho, com a parte superior do corpo desnudada — sobretudo se a ilusão for corroborada por algum acessório feminino —, terá a impressão indubitável de um torso feminino.

Considero como um direito meu, e num certo sentido como meu dever, o cultivo dos sentimentos femininos, possibilitado pela presença dos nervos da volúpia

assim que eu — se assim posso me expressar — estou a sós com Deus, para mim é uma necessidade fazer, por todos os meios imagináveis, com todo o empenho da minha energia intelectual, em particular com a minha imaginação, com que os raios divinos tenham do modo mais contínuo possível, ou — uma vez que isso o homem não pode fazer —, pelo menos em certos momentos do dia, tenham a impressão de uma mulher que se regala de gozo voluptuoso.

a experiência ensina que, por causa de excessos de volúpia, foi levado à ruína não apenas um grande número de indivíduos, como também até povos inteiros. Para mim, esses limites morais da volúpia não existem mais; num certo sentido, eles se transformaram no contrário

represento a mim mesmo como homem e mulher numa só pessoa, consumando o coito comigo mesmo, realizando comigo mesmo certas ações que visam à excitação sexual, ações que de outra forma seriam consideradas indecorosas e das quais se deve excluir qualquer ideia de onanismo ou coisas do gênero.

Por outro lado, Deus exige um gozo contínuo, correspondente às condições de existência das almas de acordo com a Ordem do Mundo; é meu dever proporcionar-lhe esse gozo na forma de um abundante desenvolvimento de volúpia de alma, na medida em que isso estiver no domínio da possibilidade, dada a situação contrária à Ordem do Mundo que foi criada; se, ao fazê-lo, tenho um pouco de prazer sensual, sinto-me justificado a recebê-lo, a título de um pequeno ressarcimento pelo excesso de sofrimentos e privações que há anos me é imposto;

a opinião de que Deus jamais passaria a uma ação de retirada (que é sempre nociva ao meu bem-estar físico) e seguiria a atração sem qualquer resistência e com constante uniformidade se me fosse possível desempenhar sempre o papel da mulher no amplexo sexual comigo mesmo, deixar sempre meu olhar recair sobre seres femininos, ver sempre imagens femininas etc.

as locuções “A volúpia se tornou temente a Deus” e “Então excite-se sexualmente” foram outrora ouvidas muito frequentemente da boca das vozes que provinham do deus inferior. Todos os conceitos morais foram subvertidos na relação entre mim e Deus. De resto, do ponto de vista moral, a volúpia é permitida ao homem na medida em que é sacramentada pelos laços do matrimônio, ligando-se, assim, aos fins da procriação, mas em si mesma ela nunca valeu como algo particularmente meritório. Mas na relação entre mim e Deus a volúpia justamente se tornou “temente a Deus”, isto é, deve ser considerada o principal meio através do qual o conflito de interesses que agora se instalou (contrário à Ordem do Mundo) ainda pode encontrar uma solução satisfatória

os momentos em que eu descanso de uma atividade intelectual

22. Considerações finais. Perspectivas futuras

nunca se poderá chegar à destruição do meu entendimento, almejada por Deus

Pois o que pode haver de mais terrível para um homem, ainda mais para alguém tão bem-dotado em tantas direções, como posso, sem autoelogio, afirmar a meu próprio respeito, do que a perspectiva de perder a razão e sucumbir à idiotia?

No primeiro ano da minha doença, repetidas vezes vivi durante certo tempo sem os órgãos internos mais importantes ou com graves lesões nesses órgãos, bem como em um estado de extensa devastação do sistema ósseo, que em geral são considerados indispensáveis para a sobrevivência. As causas que então levaram, em todas as oportunidades, à reconstituição do que estava destruído estão presentes ainda hoje, de modo que não consigo imaginar um resultado mortal a partir dos eventos descritos. O mesmo vale para todas as consequências naturais das doenças. Por isso me parece que a única causa de morte que posso levar em consideração é aquilo que habitualmente se denomina senilidade

toda relação em que Deus agora se pôs com a nossa Terra e a humanidade que vive nela se baseia nas relações particulares que surgiram entre Deus e a minha pessoa. Se a minha pessoa viesse a faltar por motivo de morte, então aquelas relações certamente deveriam sofrer uma modificação; não me atrevo a afirmar se essas relações seriam visíveis também para outras pessoas. Talvez, por força da necessidade, se decidisse tomar as providências que implicam o retorno à Ordem do Mundo (eliminação da ligação às terras, total supressão dos resíduos ainda existentes das almas provadas etc.), para as quais até agora não se encontrou força de vontade. Em minha opinião, só por essa via Deus poderia voltar de novo à condição de assumir as tarefas que lhe competem segundo a Ordem do Mundo, principalmente o trabalho da nova fundação de beatitudes

cito uma emasculação a ser ainda completada, fazendo com que por meio da fecundação divina nasça do meu ventre uma descendência, ou ainda outra consequência: ao meu nome se ligaria uma fama que não foi concedida nem a homens com dotes intelectuais incomparavelmente maiores que os meus.

Lacan

La vie du psychanalyste… comme il me le fut rappelé plusieurs fois le même jour par une sorte de convergence, par mes analysés …la vie du psychanalyste n’est pas rose. La comparaison qu’on peut faire du psychanalyste avec un dépotoir est justifiée, car en effet il faut qu’il « encaisse » au cours des journées, des propos, des discours assurément de valeur douteuse, et bien plus encore pour le sujet qui le lui communique. C’est un sentiment que le psychanalyste - s’il en est un pour de vrai - est non seulement habitué à surmonter, mais à vrai dire qui, dans toute la mesure où il l’est véritablement et authentiquement, est aboli.

Par contre je dois dire qu’il renaît dans toute sa force quand sa fonction l’amène à devoir épuiser la somme des travaux qui constituent ce qu’on appelle la littérature analytique. Il n’y a pas d’exercice plus déconcertant de l’attention scientifique, pour peu qu’on doive littéralement s’y appliquer, c’est-à-dire qu’on doive lire dans un court espace de temps, les points de vue en apparence homogènes qui sont développés sur les mêmes sujets dans les auteurs. Et personne ne semble s’apercevoir des contradictions flagrantes, permanentes qui sont mises en jeu chaque fois qu’on fait intervenir les concepts fondamentaux.

Pour le cas du Président SCHREBER par exemple, vous n’avez que le schéma général et quasi inaugural de la démonstration de ce qui est la grande nouveauté apportée par la psychanalyse dans la pathogénie de la paranoïa, c’est à savoir que la tendance, ou autrement dit la pulsion fondamentale, celle qui serait pour son motif inconscient, ne serait autre chose qu’une tendance homosexuelle. Assurément l’attention attirée sur l’ensemble de faits qui se groupent autour d’une telle notion, a été une nouveauté capitale qui a profondément changé toute notre perspective sur la paranoïa. De savoir ce qu’est cette homosexualité, et à quel point de l’économie du sujet elle intervient, autrement dit comment elle détermine la psychose, je crois pouvoir témoigner qu’il n’y a dans ce sens d’ébauché que les démarches les plus imprécises, voire les plus contradictoires.

La notion de « défense » contre l’irruption supposée - pourquoi à tel moment qui reste à déterminer - de la tendance homosexuelle est quelque chose qui est loin de porter sa preuve, si on donne au terme de « défense » un sens précis. Heureusement pour la continuation de la majeure partie de la recherche analytique, c’est-à-dire de la poursuite dans les ténèbres du rêve pensable, cette notion de « défense » n’est précisément jamais précisée.

Car il est très clair qu’il y a une ambiguïté perpétuelle entre :

– la notion de « défense » dans sa relation à la psychopathologie générale, dans le fait de la maladie, « défense » qui n’a qu’un rapport loin d’être universel et univoque à la cause qui la provoque, défense qui n’est considérée que comme une voie du maintien d’un certain équilibre en elle-même, ou qui provoque la maladie,

– et la notion de défense telle que nous la mettons en avant quand il s’agit du psychisme, c’est-à-dire quelque chose qui est articulé, quelque chose qui refait, quelque chose qui est transformation d’un certain motif.

La tendance précisément de cette notion de « défense », on la fait donc entrer en ligne de compte, et on nous assure que les moments déterminants initiaux de détermination de la psychose de SCHREBER, sont à rechercher dans les moments de déclenchement des différentes phases de sa maladie.

Vous savez qu’il a eu vers l’année 1886 ou 1887 une première crise. On essaie de par ses mémoires - il y a là-dedans quelques renseignements - de nous en montrer les coordonnées. À ce moment, nous dit-on, on peut noter un trait dans la vie de SCHREBER : il aurait été sur le point de présenter sa candidature au Reichstag, la maladie arrive et il n’est plus question de cette candidature. Dans l’intervalle, c’est-à-dire pendant la période après la première crise d’une année environ, le magistrat SCHREBER est normal, à ceci près qu’il n’a pas été comblé dans un désir, voire un espoir, de paternité. Au bout donc d’une période de huit ou neuf ans, quelque chose de nouveau qui est pour lui l’accès… à un certain point prématuré, à un âge qui ne laissait pas prévoir qu’il fût nommé à une fonction aussi élevée …à la fonction de Président de la Cour d’Appel de Leipzig, et dit-on, à ce moment là le fait d’être élevé à cette fonction qui a le caractère d’une éminence, lui donne une autorité qui, pour tout dire, dans le plan de notre terminologie, le hausse à une fonction paternelle, à une responsabilité, non tout à fait entière, du moins plus pleine et plus lourde que toutes celles qu’il aurait pu espérer.