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Lacan Elucidated Jacques Alain Miller

Lacan Elucidated Jacques Alain Miller

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O desejo de Lacan, Os paradoxos do Psicanalista, ponto de basta

A demonstração própria da histeria é a impotência do saber. O oferecimento da histérica é algo do tipo “goza de meu enigma”. E assim é Lacan.

O encanto consistia em ser, para ele, uma desconhecida, mas a sensação de ser desconhecida foi desaparecendo a cada dia vivido em sua companhia.
Ela recorreu à análise porque estava cansada de precisar manter-se desconhecida para seu parceiro.
Usar todos os seus significantes talvez seja o resultado, no âmago de cada um, de uma certa identificação com ele. Mais ainda: talvez seja um obstáculo, um obstáculo ao trabalho.

Se nos depararmos com a questão: que significa o significante?, a resposta será: o significante é o que suscita a pergunta que significa isto?. Cada vez que nos perguntamos, o que significa isto?, isto é um significante.

aquilo que alguém quer dizer nunca é dito da primeira vez. Precisa ser dito uma segunda vez, como se a primeira vez não pudesse ser dita, como se a primeira vez fosse dita lateralmente. Para dizer verdadeiramente que isso significa é necessário dizê-lo outra vez, e de outra maneira.

Pelo simples fato de me dirigir ao Outro, estou lhe pedindo. O pedido mínimo é o pedido de ser escutado. Pelo simples fato de me dirigir ao Outro, careço de algo que o Outro tem. É o Outro quem realmente é. Se falo ao Outro, há, do meu lado, falta de ser, falta de ter, e o Outro é todo poder. Por essa razão Lacan pôde afirmar a equivalência entre o sujeito que quer dizer e o sujeito da necessidade.

Pelo simples fato de me dirigir ao Outro, obrigo-me a usar sua linguagem, de tal modo que o que digo nunca é o que quero dizer. Por este simples fato, não é isso. Trata-se do que Lacan transmitiu muito bem quando disse que o significado é sempre o significado do Outro, não o meu. Podemos lê-lo assim: “ce n’est pas” (não é isso). Deduz-se daí a proposição lacaniana de que toda comunicação é um mal-entendido, e que isso não é possível ser dito.

Lacan tentou solucionar o princípio da análise infinita a partir de um significante matemático, através dos anos e de maneira distinta, oferecendo uma saída da análise pela via do matema. Uma saída a partir de um elemento a respeito do qual a pergunta que significa isso? não tem lugar, não é possível de ser enunciada.

É preciso dizer que cada vez que alguém interrompe uma análise — e se separa de seu analista — produz uma cicatriz que pode ser vista quando, eventualmente, se retoma a análise, mesmo que não tenha havido final: a perfeição de uma análise.

tu não sabes o que queres dizer. Na experiência analítica, o que tu queres dizer e o que tu não sabes dizer estão vinculados.

Na linguagem de Lacan, quando o sonho se aproxima do real desejado, o sujeito desperta para continuar a dormir. Creio que é preciso tomar isto com a seriedade que merece: o desejo fundamental é o de dormir e o desejo do analista é a exceção.

O desejo do analista, que chamamos desejo de saber, não tem nada a ver com nenhum tipo de erudição e constitui a exceção à lei do desejo de dormir. É o desejo de despertar, não apenas despertar-se, mas também despertar o Outro. É um desejo de despertar-se do desejo do Outro.

Se pensarmos o analista a partir do objeto a, produto de sua análise, não teremos tanta certeza de que ele exista. O objeto a não é da ordem do universal, no sentido de que há analistas e não mais o analista.

Quando Lacan falava do desejo de Freud, era exatamente para mostrar nele um déficit, uma falta, um lapso quanto ao desejo de saber. Temos como exemplo o caso Dora. Aí pode-se enxergar nitidamente a fantasia de Freud, fantasia de proporção sexual, de relação sexual, pensando que a mulher se relaciona com o homem. Quando Dora se dirigiu à Outra mulher, vimos o desejo de Freud expresso na exigência de que Dora reconhecesse o objeto de seu desejo na pessoa do sr. K., o que justifica o diagnóstico de Lacan: há algo em Freud não analisado, como se ele quisesse localizar sua felicidade no lugar do sujeito; no lugar do desejo de saber, um desejo de poder.

Como se Freud, descobrindo o inconsciente, tivesse que pagar por isso com sua vinculação ao discurso do mestre;
Descobriu? Agora tem que ensinar. Elaborar. Produzir. Transmitir. Verificar.

Podemos perguntar o quê, em Lacan, não é redutível ao desejo do analista. E a cada analista podemos perguntar o quanto lhe custou conformar seu desejo ao desejo do analista.

Em tudo isso parece haver um mistério, a tal ponto que formulei, em Paris, uma hipótese: Lacan visitou Freud em segredo. E talvez tenha havido um mal-entendido, um mau encontro. De qualquer modo, suspeito que aconteceu algo que algum dia, talvez, possamos ficar sabendo…

Lacan buscava o real mais além do princípio de realidade.
Parece que entre Freud e Lacan circulava uma carta roubada. Como se Lacan considerasse a psicanálise uma carta roubada que não chegara a seu destino, e ele tivesse vindo para conduzir o projeto freudiano a seu verdadeiro destino.

Lacan procurou conduzir a psicanálise mais além do falo, até o objeto a que é também a chave do mais além do princípio do prazer.

Não podemos desconhecer que Lacan, desde sua entrada na psicanálise, elegeu outros autores para ler Freud. É algo constante em sua obra trabalhar sobre a obra freudiana através de leituras exteriores, buscar o ponto de Arquimedes e muitos outros pontos. Por exemplo, o Estádio do Espelhoq não é algo nascido da psicanálise, é algo que Lacan importou da psicologia para a psicanálise, a fim de justificar uma concepção do eu, uma parcialização da concepção freudiana.

quando Lacan entrou um pouco mais na psicanálise, foi em busca da definição do desejo não em Freud, mas em Hegel e em Kojève. Foi em Kojève que ele encontrou a definição do desejo como desejo do Outro.

foi a partir de Lévi-Strauss que Lacan construiu a tríade Real, Simbólico e Imaginário.

Bem, este é um percurso breve que, no entanto, mostra o desejo de Lacan em não se deixar capturar por Freud. Desejo de buscar, passo a passo, um respaldo exterior que lhe permitisse reordenar o discurso freudiano. Há uma tal frequência de pontos exteriores à obra freudiana que realmente situam e permitem reconhecer a permanência do desejo de não se deixar capturar por Freud.

Havia uma crescente fidelidade a Freud, mas também um desligamento de Freud.
Devemos ser fiéis à letra de Freud para entendê-lo melhor do que ele mesmo, pois, de certo modo, o próprio Freud não o sabia. A noção da existência de recalcamento situado em algum lugar em Freud foi um tema constante, sustentando o trabalho de Lacan. Este recalque está presente em toda a obra de Freud; ele não disse o que fez como deveria ter dito.

Há um certo número de analisantes de Lacan que não me parecem um sucesso notável — é o melhor que posso dizer, e é necessário pensar nisso porque é uma incidência do desejo de Lacan. Há uma hipótese: o desejo de Lacan enlouqueceu um certo número de pessoas.

Lacan disse que é mais suave obedecer à Lei e muito mais fácil subverter uma autoridade próxima e, assim, liberar a criatividade do sujeito.

Lacan disse que preferia o efeito da paródia ao estatuto do mestre para pensar — de mâitre à penser. Que é a paródia? É o canto que acompanha, o canto lacaniano depois do canto freudiano. É também imitação. Uma paródia, no seu sentido próprio, é o que eu disse, mas significa ainda a imitação burlesca de uma obra séria. Acredito que quando Lacan disse “é um efeito que eu prefiro”, indicou que não pretendeu para sua obra mais do que o estatuto de paródia.

conhece-te a ti mesmo e nada em excesso.”
Não se deve fazer nada em excesso, nem pensar.

Pode-se dizer, então, que Lacan deslocou o si mesmo do eu para este resto. A verdade do ser não é do domínio do eu. Esta pode ser a verdade, sim, do ser consciente, a verdade da ordem social. Na psicanálise, porém, o ser, o si mesmo, é o resto, e aí se concentra o gozo. Eis, de certo modo, o verdadeiro mestre. Na realidade vive-se o resto e para o resto. Lacan apontava esse resto de derrisão como a causa de desejo onde se busca o si mesmo.

Hoje em dia, sentimos todo o peso da obrigação de termos uma identidade. Há fantasias em torno disso. Recentemente, na França, se podia autorizar a emigração segundo a profissão, nacionalidade — utopias de controle social — através da carteira de identidade. Isso é a captura do ser humano a partir do discurso do mestre, da obrigação de ser um.

Seguramente o desejo de Freud produziu, na psicanálise, uma tradição, uma hierarquia, uma ortodoxia. O de Lacan produziu algo muito distinto, um deslocamento de forças, uma dispersão.

O que chama pulsão corresponde ao sentimento de que há algo no homem que sempre se satisfaz positivamente. Mas, satisfaz-se porque há neurose; para que existe psicanalista? Por que, às vezes, a maneira pela qual o homem se satisfaz lhe causa desprazer? lhe faz mal? Eis o paradoxo. Na satisfação, há pessoas neuróticas, nas quais a pulsão se satisfaz nos sintomas; foi esta uma descoberta freudiana.

A proposta da análise é obter que a pulsão se satisfaça por outras vias, não pelo sintoma. Sobre isso Lacan pôde falar de maneira freudiana: através da análise procura-se corrigir a maneira de satisfazer a pulsão.

Sabemos que nos analistas o analítico é compatível com o a-pragmático. A situação analítica fundamental se sustenta em um não fazer nada. Poder-se-ia definir a própria situação analítica como uma recusa do pragmático e, às vezes, não é segredo para ninguém, temos excelentes colegas, excelentes praticantes que realmente, na vida, são pouco pragmáticos. Uma vez que saem do consultório, parecem perdidos na complexidade da vida moderna. Não sou eu um exemplo completo de me situar bem dentro de todas essas complexidades. E esse a-pragmatismo é compatível com a posição analítica, e às vezes podemos chegar ao ponto de definir a posição analítica a partir de uma recusa da ação. Isto produz uma dificuldade, quando, no âmbito da psicanálise, se deve considerar um objetivo pragmático.

Além disso, fazer algo conjuntamente, fazer algo de maneira coletiva, não vai bem com o discurso analítico também. Ao discurso analítico repugna a injunção “todos juntos”. Essa não é uma injunção do discurso analítico. Há uma antinomia entre a experiência analítica, na qual um entra só — a experiência analítica se faz “um a um” e todo movimento é coletivizante. O tema é bem conhecido e permite vários desenvolvimentos com seus fundamentos.
Se considerarmos essa antinomia entre o analítico e o pragmático ou coletivo, pode-se perguntar por que os analistas estão tão preocupados com o grupal, com o institucional, com o associativo? Por que dão tal peso, tanta importância a essa dimensão?

Vocês sabem como Lacan ironiza as sociedades ditas ortodoxas, dizendo tratar-se de “sociedades de assistência mútua contra o discurso analítico” (SAMCDA) em Televisão. O mesm, porém, pode-se dizer de toda instituição analítica. No entanto, por sua vez, a instituição com esse valor, é também uma conseqüência do discurso analítico. E nisso, a sátira à instituição, a ironia, não é suficiente.

sublinhou na ética a problemática do Bem, do Mal e do Bem Supremo e não, relativamente à obrigação ou à interdição, mas sim à atração. Também o tema do prazer e da moderação do prazer.

o mais importante da Escola não é o que ela sabe — mas o que sabe que não sabe, o mais precioso do saber da Escola é que ela sabe que não sabe.

uma bela alma, que vem ao analista queixar-se da desordem do mundo, até o momento em que Freud faz com que Dora perceba sua responsabilidade nessa desordem.

Não vamos mais voltar a 1945, quando existiam vinte analistas na França. Podemos chorar porque temos agora a decadência da psicanálise, mas, de uma certa maneira, já podíamos fazê-lo nos tempos de Lacan.

Na psicanálise, a pessoa é responsável pelo que não queria, pelo que não sabia e pelo que fazia quando não sabia o que fazia.

Se levarmos em conta essas coisas não teremos a quem pedir desculpas, se por acaso surgirem efeitos nefastos, não poderemos pedir desculpas com o argumento “eu não sabia que…”. Isso não vale em psicanálise.

No casamento, não se trata apenas de um contrato simbólico, mas de saber se os vinculados aceitam ou não sofrer juntos.

cada um ensina por sua própria conta e risco.
“as provas cansam a verdade”, também de certa maneira as explicações cansam o objeto a.

Quando Indart diz: a Escola e a Academia não têm nada a ver, podemos pensar que ele quis dizer justamente o contrário.

Na verdade, na psicanálise não há nada a ver e há tudo a dizer. E mesmo se ela se faz face-a-face, é sempre um convite ao sujeito para se abstrair da inevitável modalidade do visível e renunciar à imagem pelo significante.

Há em mim, diz ele, de um lado, uma pessoa que sabia que isto existia realmente, e, de outro, uma outra pessoa (é esta a expressão: ‘uma outra pessoa’) que parecia duvidar.

Conhecemos a “forçada” de Lacan quanto ao “sujeito”. Pois sempre empregamos o termo sujeito em referência à subjetividade, ao sujeito da reflexão, ao sujeito da consciência, que possui conteúdos representativos. Lacan habituou-nos a chamar sujeito algo que não se assemelha a nada disso. Em nossa paróquia, chamamos sujeito o símbolo , com uma barra, e dizemos: é uma falta, é uma falta de significante. Lacan chamou tudo isso de sujeito e nós também chamamos. O que nos impede de dizer a palavra sujeito com outros sentidos.

Nem poderemos ter a noção de que o analista ocupa a posição de objeto a, se não captarmos que o objeto a, enquanto tal, é um semblante. Assim, não precisamos fazer semblante quanto a isso. Supor que há o objeto a, o bom, o verdadeiro, o substancial, e que, isso a parte, fazemos “semblante de”.

No fundo, utilizamos o do desejo, quando nos enganamos, e o de pulsão, quando há uma espécie de reta em direção ao objetivo, sem erro e sem “errância”.
É o que faz com que Lacan fale de cinismo no fim da análise. É a idéia de um sujeito reduzido à trajetória de sua pulsão.

Clínica e cultura

A psicanálise é a experiência do analista com uma pessoa e torna-se difícil em sendo falada para multidões.

falar aos desconhecidos de Belo Horizonte exatamente como em Paris, onde falo a um público conhecido e familiarizado com os escritos fundamentais da psicanálise.

seria necessário ao homem voltar à natureza, pois todas as enfermidades humanas eram conseqüência da cultura.

Freud, entretanto, não fala em coação, mas em Verdrängung, recalcamento, que é diferente de repressão social. Para ele a idéia de Verdrängung supõe haver censura, uma barra que impediria o inconsciente de aparecer ao nível do consciente.

pulsão sexual, tem o sexo por objetivo, que pode satisfazer-se com outros objetivos, como por exemplo a cultura. Encontramos aí uma substituição.

Lacan em um seminário vai dizer: “não estou fazendo amor, estou falando a vocês. E falar a vocês pode dar-me o mesmo gozo que fazer amor.”

a sexualidade pode satisfazer-se com palavras, com o belo, com os valores mais altos da cultura.
O gozo sexual pode satisfazer-se com o significante, e, por esta razão, a psicanálise é possível.

Um termo substituído por outro pode significar que o outro foi barrado, anulado, suprimido completamente.

A metáfora do gênero.
A metáfora da sexualidade.

Lacan, no texto “Os complexos familiares”, refere-se a Durkheim e à sociologia da família, porque lhe parece essencial para a psicanálise afirmar que a família é uma metáfora da biologia. O desenvolvimento do ensino de Lacan inclui também as estruturas elementares de parentesco de Claude Lévi-Strauss.

Há, na psicanálise, a presença constante da família. Freud criou a Associação Internacional ao redor de sua família, da mesma forma que a Fundação do Campo Freudiano estava nucleada na família de Lacan.

o papel fundamental que pode ocasionar nos filhos a visão dos órgãos sexuais dos pais.
A visão da mãe deitada e beijando outra mulher.
A vista do pênis do pai e seu abraço apertado na cama.
o sujeito é forçado ao enamoramento quando encontra a fórmula idealizada do objeto sexual.

Que os objetos primariamente libidinizados, que encontramos no espaço familiar, possibilitam condições para o amor e a eleição do objeto. O trabalho de análise visa eleger um novo objeto. A novidade introduzida por Freud não é tão teórica, é um novo objeto oferecido ao amor: a psicanálise, que permite elucidar a fórmula da condição do amor, ou seja, a psicanálise, tanto quanto a família, interdita as relações sexuais.

De acordo com Freud, transforma-se em traumatismo quando o sujeito tenta dar sentido ao ato sexual e não consegue.

Na experiência analítica, o analista não trabalha, apenas controla a experiência, toma a responsabilidade do ato analítico, mas o trabalho de decifração é feito pelo analisando, que paga ao analista pelo trabalho que ele (analisando) faz.

o Nome-do-Pai metaforiza o desejo da mãe.
As crianças são afastadas do seio materno e são enviadas ao mundo: escola, universidade, forças armadas, por uma lei comum.
Para a menina, no entanto, o objeto fundamental pode ser o pai, e dessa maneira é a mãe quem tem função de interditora.

Nome-do-Pai é uma função que para ambos os sexos representa o obstáculo à frente do objeto fundamental.
O sujeito do inconsciente não é uma criança, nem tampouco um adulto, mas o sujeito do desejo inconsciente, que não conhece tempo nem idade e permanece o mesmo durante toda a vida.

Entretanto, a interdição proveniente da análise não vem de nenhuma proibição do analista, mas deste imperativo único: fale. Fale de qualquer coisa.
uma substituição metafórica do gozo pela linguagem.

O fato de estarmos situados na linguagem nos adoece, nos coloca fora da natureza. O tratamento dessa enfermidade se dá através da própria enfermidade, pelo ato da palavra. E a que conduz o tratamento analítico? À posição do analista, a uma posição silenciosa no campo da linguagem. Por esta razão, o analista tem sempre um sentimento de culpa.

Na história analítica é necessária uma interdição precisa do pai: “Não deves tocar teu corpo, teu pênis”, para conduzir o sujeito em direção ao Outro a fim de obter gozo. Esta é a estrutura elementar do gozo. Do mesmo modo “Não deves encontrar teu objeto sexual na família”. É por esta razão que Lacan vai dizer que o gozo do Outro é a metáfora do gozo do próprio corpo. O gozo do Outro pode metaforizar o gozo auto-erótico.

Ao contrário, nos consultórios de psicanálise as portas devem estar fechadas, porque implica em uma intimidade que não deve ser dita a todos.
A palavra ética tem um fundamento: não rejeita o desejo, vai em sua direção.

a ética da psicanálise diz que se alguém é culpado, é de não ir em direção a seu desejo.

Lacan, a propósito dos militares franceses, vai dizer que se alguém elege a carreira das armas, da coragem profissional, o faz por medo das mulheres.

Estou, com certeza, falando para vocês, que podem me ver e ouvir no presente. Ao mesmo tempo, porém, devo confessar que falo para mim mesmo, porque continuo meu trabalho.

Em Lacan, tanto o pai quando a mãe (esta no sentido próprio da metáfora paterna) são tratados como significantes.

Só consegue fazer passar o fato de que cada sexo, cada sujeito relaciona-se com a função do falo de maneira própria.

É o que Lacan chama “sexuação”, exatamente significantizar o sexo para cada sujeito; há, então, a margem que propicia sentir que, sob este aspecto, há liberdade, sentimento proveniente da significantização, que permite a Lacan falar de eleição do sexo significantizado, que nos parece extraordinário.

A nominação apenas já é morte. Quando desaparecermos como viventes, que vai ocorrer a cada pessoa desta sala? Que vai restar? O que não vai mudar em nada é o significante que a representa, pois já era antes de seu nascimento. Seu nome fora eventualmente decidido antes dela nascer, ou pelo menos uma parte dele, o nome de família, que é imortal, porque o sujeito do significante não está vivo, está morto pelo significante, que traz a questão de saber se vai ou não representá-la para qualquer outro. Mas isto é uma nova história.

Ao mesmo tempo, não podemos estar seguros de que tenhamos o direito de direcionar as leis de nossa cultura para uma muito distinta, e nisso há algo que nos questiona profundamente.

É como se Mefistófeles houvesse proposto à espécie humana trocar o gozo pelo significante, pela linguagem. Seria um lindo conto a desenvolver: Mefistófeles, propondo a cada espécie abandonar seu gozo para desfrutar da cultura; dizendo ao peixe, à baleia que abandonassem seu gozo na água, do qual não sabemos muito, mas talvez tenha a ver, quanto ao peixe, como abrir e fechar a boca, como nós, porém sem emitir os sons da fala e, quanto à baleia, com o prazer de produzir jatos. Tanto a baleia como o peixe continuam seu gozo. Propondo à ostra abandonar sua pérola para, em troca, falar. Embora a ostra possa estar muito bem preparada para falar, ela e cada espécie animal rechaçam a proposta, mas o macaco, o estúpido macaco, decide trocar seu gozo pela linguagem.
Freud, nas primeiras tentativas de descrever o Édipo, em seu “Projeto para uma psicologia científica”, tenta apresentar, de maneira cronológica, como se dá no desenvolvimento do ser humano o gozo que vai se perdendo a cada etapa. Em Freud, libido sexual é a palavra mais próxima de gozo.

Lacan dirá, então, que Sócrates foi histérico, pois dizia: “eu não sei nada” e andava pela cidade questionando os que pretendiam saber, no propósito de demonstrar que este saber era inconsistente. As pessoas não sabiam o que estavam dizendo e, assim, eram obrigadas a trabalhar para produzir um saber.

A experiência analítica consiste em fazer com que o sujeito encontre seu ponto de horror, aquilo que nos sonhos o faz despertar para não se deparar com o horror. Os pesadelos são produzidos nos sonhos que vão além do ponto em que o sujeito deveria ter despertado. Por esta razão, Lacan diz que o despertar é o continuar dormindo com olhos abertos, para evitar o ponto do real que pode ser encontrado no sonho.

A condição de amor do Outro é aceitar a lei de seu significante para receber seu amor.

Quando Lacan diz que o analista está no lugar do objeto a, aponta que este não é o representante do princípio da realidade, mas, ao contrário, está no lugar ao redor do qual se move a palavra do paciente, no A.

o sujeito é produzido pelo discurso.
Assim se comporta o sujeito da cadeia significante, oscila numa posição de vai e vem e se apresenta como o sujeito do lapso, aparecendo inesperadamente, antes e depois desse exato momento, não está lá.

Lacan toma a questão da fantasia a partir da “obra literária” de Sade e não a partir de sua experiência clínica.

as universidades correspondem à vontade, num momento, à vontade explícita do poder do mestre: uma vontade de pôr a mão sobre a elaboração do saber. A elaboração do saber se inicia fora, sem o controle direto do mestre e a universidade foi a invenção extraordinária para submeter os que elaboram o saber. E, quando se faz isso de uma maneira eficaz, funciona por séculos. A conjunção das universidades, do discurso universitário como estrutura, permite, certamente, em nosso dias, conduzir as pessoas que elaboram o saber. Permite um controle completo sobre o “tem que lidar”, o “tem que possuir uma hierarquia”, o “tem que dar uma licença para ensinar”, o “todo mundo não pode ensinar, somente os licenciados”. E, depois, organizar intercâmbios mundiais entre os professores, dar créditos de investigação ou não, e todo esse pequeno mundo baila à música do mestre. Quando se elabora a estrutura de uma maneira coerente, séculos depois ela pode continuar funcionando.

Bem-estar é poder trabalhar, esta é uma definição: as pessoas doentes não podem trabalhar. O médico do trabalho não estuda as enfermidades produzidas pelo trabalho, mas aquelas que impedem o trabalho.

Não estamos na lua, num planeta, como às vezes os analistas pensam, nem estamos na Bastilha, para aceitar tudo da ordem social.

Na análise não se assina o que se diz porque na associação livre a frase seguinte pode ser: “não, eu não penso assim”. Não há obrigação do analista de dizer: “ah, não. Na sessão passada, você dizia que estava contente, agora não: não se pode entender nada com você mudando o tempo todo.”

Vocês sabem da tese de Leibniz: tudo o que aparece de mal no mundo permite um outro bem que não conhecemos. O mal é apenas uma aparência para nós.

Vincular os dois e dizer que Sade pode manifestar a verdade que há em Kant foi um escândalo filosófico. De um lado, o cume da moralidade filosófica, do outro lado esse perverso e imundo Sade dizendo a verdade.

É mais, porque as fantasias, isso é um fato clínico, as fantasias dos neuróticos são fantasias perversas, são também fantasias em relação com o gozo.

É muito raro, nas mulheres, a perversão. A perversão é um traço masculino, uma acentuação do desejo masculino, porque a constituição mesma do desejo está do lado masculino.

A trama da experiência analítica consiste numa lamentação sobre o sintoma. Quando alguém se aproxima do ponto limite onde a fantasia se vincula ao gozo, há uma reticência muito grande do sujeito, que pode ser muito negligenciada pelo analista.

Em “Bate-se numa criança”, há seis casos, e não são casos de perversos: são casos de neuróticos com a mesma fantasia perversa, a mesma fantasia sado-masoquista. Porém, os casos de Freud não são sádicos, não são masoquistas: são neuróticos.

É nisso que a perversão é tão humana como a psicose, pois as características não são de desumanidade, ao contrário, a loucura, como a perversão, são as duas, possibilidades humanas.

Porém, não é porque uma mulher chora, não é por essa razão que é uma masoquista; isto pode ser um meio de mandar.
Agora, os psiquiatras não são mais do que os distribuidores de medicamentos e vemos a queda da clínica psiquiátrica

a experiência analítica mesma que, ao contrário do sintoma, a fantasia é uma instância que não muda. É verdade que o que Lacan chama “a selva da fantasia”, “a selva fantasística”, com a diversidade dos personagens possíveis pode reduzir-se durante uma análise, porém o número, a base permanece a mesma, isto é, no matema da fantasia a selva pode ser reduzida num fundamental, isto é, diferente da selva da fantasia. A fantasia fundamental não muda, é estática e, assim, eu opus a estática da fantasia à dinâmica do sintoma. Porque há, numa experiência analítica, uma dinâmica do sintoma: os sintomas mudam, ou devem mudar, na experiência da análise, mas, ao contrário, há uma estática da fantasia.

o estatuto do desejo na perversão, não é semelhante ao estatuto do desejo na neurose. É na perversão que o desejo merece a nomeação de vontade de gozo.

O neurótico é um sujeito que se coloca a pergunta de seu desejo, e ela constitui este desejo.
Entretanto, tem a resposta, o desejo perverso não é uma pergunta, mas uma resposta, pois o perverso sabe o que quer e isso deve ser a base da arrogância perversa, que o faz convencido de saber a verdade escondida.

O sujeito histérico é o sujeito submetido ao significante até no seu corpo. Lacan disse: o analista nunca deve retroceder frente à psicose. É necessário dizê-lo aos nossos colegas norte-americanos: o analista nunca deve retroceder frente à histeria.

O Marquês de Sade não é um sádico como os outros, porque foi também um escritor. A questão seria se essa literatura é sublimação. Difícil questão, porém devemos pensar que ele sabia qualquer coisa de sua própria fantasia de maneira que poderia elaborá-la em obras que podem ser consideradas como obras de arte: as novelas de Sade são obras de arte.

Permite viver uma vida que tenha sua lógica, tenha um acordo entre o rigor de seu pensamento e a lógica de sua vida.

A Psicanálise e a universidade

Fonte: Lacan elucidado. Jacques Alain Miller.
A universidade é feita para acolher os saberes e é necessário prestar atenção ao fato de que não acolhe a todos. Somente o faz aos modos de transmissão, aos modos de saber que a interessam, que lhe convém. Somente os saberes que lhe permite o mestre, pois este é quem sustenta as relações universitárias.

O que perturba o sossego da universidade francesa, o que incomoda, é a existência da psicanálise e de psicanalisandos, de uma prática social que se sustenta desse saber e que conserva alguma coisa de selvagem, não regulamentada, não diretamente encaixada ao poder. A universidade é complacente, por razões de estrutura do saber desabitado do desejo, habitar o saber por um desejo já causara inconvenientes a Abelardo.

A psicanálise tem ainda algo de teimante e é por essa razão que não lamento que o Departamento de Psicanálise de Paris VIII seja ainda o único. No fundo, espero que a inscrição universitária da psicanálise seja retardada ao máximo.

Há uma exigência mínima do discurso universitário: é o professor quem fala, o estudante limita-se a imitar o professor quando fala. Ele é suposto saber o que diz.

Na psicanálise a experiência é fundada sobre o imperativo inverso, ou seja, o sujeito que fala está desligado do imperativo de saber o que diz, onde, ao contrário, é convidado a se excluir de saber. É o que comporta a regra fundamental de Freud: dizer tudo o que passa pela cabeça: que ele não saiba o que diz; interessante na experiência psicanalítica, mas não previsível no início.

A psicanálise comporta a conversão do sujeito, obriga-o a se colocar de outra forma quanto ao saber. Como o sujeito de Descartes: esvaziado, evanescente, é um sujeito dito “antiuniversitário”.

O sujeito na experiência psicanalítica imagina-se procurando a verdade, aquém ou além do saber. Não a encontra; mas ela, sim, o encontra. A isso chamamos lapsus, chiste, ato falho: momento em que o sujeito se depara ultrapassado pela palavra. Eis a razão por que tal sujeito está num estado de divisão e não no estado de controle, como no discurso universitário. Esse sujeito fica diante da verdade como transitória, como fugaz, como enigmática.

O que faz o saber da psicanálise é o depósito de verdades transitórias, a sedimentação dos efeitos de verdade em sua experiência. Daí sai o saber analítico.

O saber na psicanálise, sendo particular, apresenta problemas: algo que seja um achado para alguém, não o será para o outro, por ser o desejo individual. O que cada um deseja só diz respeito a ele mesmo. Somos todos fetichistas nesse sentido. Para cada um há um objeto, que é a condição de seu desejo e faz a autenticidade da experiência analítica, obrigando o analista a começar a cada vez do zero.

o analista é escolhido livremente, como já inscrito no inconsciente do analisando, fora da hierarquia, e não tem um diploma a apresentar. Além disso, é preciso pagá-lo e muito caro.

É do analisando que se espera a matéria-prima do saber e, aí está o porquê de não se poder ensiná-lo.

E Lacan formula o imperativo do supereu assim: goza. Este dever é terrível no supereu.

Estrutura, o método Psicanalítico, a lógica da análise

Jacques Alain Miller
A verdade da psicanálise nada tem a ver com a verdade do Evangelho, e talvez seja a razão por que essa verdade não é agradável e não promete salvação.

faltam-me referências, e para estabelecê-las eu deveria ouvi-los longamente a fim de formar uma certa consistência dos seus ditos.

O inconsciente, no sentido de Freud, tal como Lacan o retoma e o demonstra, é feito, é entremeado de mal-entendidos que se depositaram, se inscreveram, no sujeito e singularmente determinam o que pode ser chamado seu destino a partir da psicanálise, e por ela remontar ao que de imediato é compreendido obliquamente, e colocar o sujeito em seus trilhos.

“Você nunca será nada” proferido pelo pai.
Lindo no caso é o extremismo da posição subjetiva de assumir, até o fim, o nada proferido pela boca paterna, tomando-o ao pé da letra. Eis o mal-entendido.

SABER DEMAIS
Não se deve encher os outros de saber, é preciso moderação, não atochá-los, impedindo-os de se esvaziar…

Geralmente, a pessoa é compreendida já antes de começar a falar, e aí está o mal-entendido, a pré-compreensão.

não há outra coisa na experiência analítica, senão a linguagem.

O sujeito, durante toda a sua vida, é captado por imagens, às quais ele se identifica sucessivamente e, portanto, a esse respeito o seu ego, como diz Freud alhures, é um bazar de miudezas, identificações que podem ser contraditórias entre si.

Mas, que demonstra a experiência da psicanálise? Que as pessoas não sabem o que dizem: quando lhes repetimos uma palavra-chave do que acabaram de afirmar, podem sentir um efeito extraordinário. Lacan partiu do seguinte: que deve ser a linguagem? Que deve ser o sujeito para que as pessoas não saibam o que dizem?

a ignorância do próprio desejo é um efeito produzido pelo dispositivo analítico.

É a idéia em que Lacan se apóia quando considera a paranóia como a estrutura clínica de base para todo sujeito. De certa forma, a paranóia é inativa e devemos compreender que, no fundo, somos todos paranóicos e chegamos a manter distância, para não nos atacarmos uns aos outros.


Agora, quanto à psicanálise do corpo é preciso ser claro: não há psicanálise do corpo. O corpo está inscrito e representado no inconsciente, ele é representado como? Sob a forma despedaçada, representado essencialmente pelos quatro objetos envoltos no circuito da pulsão: os seios, as fezes, ao que Lacan acrescentou a voz e o olhar, quatro dejetos do corpo que têm função no inconsciente. Acrescenta-se a forma imaginária que se imprime no inconsciente, ao corpo do homem, que se chama falo. É assim o corpo no inconsciente. Não é a carne, é o que faz que não haja relação sexual no inconsciente. De um lado, há a representação de um único sexo, em relação ao qual os dois sexos tem que se determinar, ambos em relação ao mesmo símbolo sexual.

A partir do momento em que o medicamento para as doenças mentais foi inventado, necessitamos qual clínica? A clínica dos efeitos do medicamento. A grande clínica clássica, que era tão fina, cheia de nuances, dela resta simplesmente elementos que permitem dizer que tal medicamento tem tal efeito ou não. É uma clínica que se constrói a partir da eficácia do medicamento. Enquanto que a clínica psicanalítica não está perto do fim, se distingue da outra pelo fato do próprio paciente enunciar seu sintoma, diferença fundamental, é seu sintoma que o conduz à análise. A partir do momento em que o sintoma chama o complemento do psicanalista, o psicanalista vem em sua experiência analítica se juntar ao sintoma. Isso faz identidade, o sintoma toma forma própria, o que Freud diz que é somente na experiência analítica que os sintomas adquirem sua forma consistente na enunciação

A clínica psicanalítica tem esse traço particular que a torna dificilmente objetivável, dificilmente transmissível, ela inclui aquele que se diz observador e o inclui de forma essencial.

É sempre difícil ver Lacan esconder. Seu estilo é formular as coisas de forma afirmativa.

E a maior parte do tempo, quando comentamos Lacan, nós o seguimos como uma galinha fascinada, seguimos a linha do texto até o fim — momento em que nos encontramos exaustos —, acordamos no fim depois de uma pequena viagem encantada. Eu também sou sensível a essa fascinação absolutamente especial, enfim, isso não deveria impedir que pensemos por nós mesmos, comparemos um texto a outro, ou quando vemos três ou quatro expressões em páginas diferentes no mesmo texto que tentam encontrar alguma coisa. Há alguma coisa que não é satisfatória em seus esforços.

Temos funções que conhecem um ciclo de despertar e de satisfação.

A satisfação de que se trata, com o desejo segundo Freud, é outra coisa, não termina, e é verdade para o desejo e para a pulsão também. Em se tratando do desejo, a única coisa que o satisfaz são as coisas que não existem. O sonho é a realização do desejo, que satisfaz coisas que não existem.

Não são seminários do sujeito que sabe e que do alto da montanha diz: “É assim”. Ele quebra a cabeça para conseguir manter em conjunto suas colocações.

O desejo é, no sujeito humano, realizado no outro, pelo outro, no outro.

adoeceu de um saber que lhe é exterior. É bem isso que faz o problema de fundo da psicose, o psicótico tem sobre nós a vantagem de saber que o significante está fora, que não se trata de fazer psicologia das profundezas, como dizem os junguianos, que imaginam o significante bem profundo.

ponto de partida de Freud e de Lacan é diferente, é de que o sujeito da ciência está no mundo, nasceu, e não podemos nos desfazer desse parasita. Sonhamos fazê-lo, sonhamos tornar-nos homo natura.

É de outro tempo que emerge a idéia de estrutura: na medida em que é construída por fórmulas, que nos capturam e não nos permitem fazer funcionar a estrutura da linguagem, por exemplo, sem elas, é por isso que uma idéia de expressão é muito sumária, como demonstra a menor experiência da psicose ninguém se expressa como fala, falar supõe uma perda que se estende a tudo, é às custas do gozo que se fala.

Quando nos ocupamos da psicose, o fazemos a partir da estrutura da neurose como referencial pois supõe-se que a psicanálise sabe tratá-la.

Quando se é cirurgião, não se precisa ser reconhecido pelo paciente. O terapeuta, porém, conquanto se considere um, é preciso que seja constituído como tal pelo paciente.

No Relatório de Roma, o sintoma é visto como uma articulação significante, tal como aparece quando interpretado, ele se suprime. Foi o que vimos com entusiasmo no começo da psicanálise. Nessa época a psicanálise não durava tanto como agora: o paciente chegava pesado, com um sintoma enorme, e depois de dar alguns passos no jardim com o dr. Freud saía leve como uma pluma. Na época, se tivéssemos passeado três vezes com Freud poderíamos dizer que fizemos psicánalise. Foi o que os analistas verificaram, quando a partir de um certo momento, as coisas começaram a não andar tão bem. Houve uma crise na psicanálise que obrigou os psicanalistas, uma vez terminado o período miraculoso da interpretação, a tentar se fixar em outra coisa; construiu-se então a teoria da agressividade, cuja segunda tópica de Freud não foi bem compreendida. Com o tempo, o sintoma tornou-se mais resistente, e é preciso supor que o sujeito se satisfaz com seu sintoma, que este lhe traz gozo, para justificar-lhe o apego e o fato de que não se desfaça dele com tanta facilidade quanto era de se esperar. O gozo é como um lastro nesse nó de significantes. Se nos apegarmos somente ao aspecto do desaparecimento do desejo, ou ao caráter de falta, não conseguiremos deduzir o lugar prevalente do falo no desejo, nem perceber que o Outro maior é a mãe, e vem de seu desejo, aparecimento aí da função dominante. Recupera-se isso por outro lado, pois o que domina a questão é o falo da mãe, que não existe. Dessa forma, continuamos a respeitar a ancoragem do desejo na falta.

Quando Lacan passou pelas leis da palavra da linguagem, apoiando-se sobre a metáfora e a metonímia, segundo Jakobson, encontrou uma solução para algumas questões. Como diz em “A instância da letra”, o desejo apresenta enigmas para a filosofia natural, não encontra caminho, de forma regrada, na espécie humana. A solução proposta por Lacan em “A instância da letra” é ancorá-lo à metonímia e considerá-lo, o freudiano, nada mais ser que o reenvio indefinido de um termo a outro, operando-se na linguagem.

Todo significante é metonímico.
É preciso confiar para ser ensinado.

É muito chato quando as pessoas sabem demais: nas sociedades analíticas, percebem logo que a maioria das pessoas não se acham aptas, e os que têm coragem, ensinam.

“minha voz, por que falha em completar de reconhecimento?”. Esse instante ele apresenta como um momento de fading de sua voz de orador, é o momento em que rejeita cinco ou seis anos de elaboração sobre o desejo e abandona simultaneamente a idéia de reconhecimento do desejo e desejo de reconhecimento e fá-lo de forma muito convincente, sem dizer que está negando, pondo em causa, toda uma parte de sua elaboração anterior, pois não é dormindo que nos fazemos reconhecer.

Isso é o objeto em psicanálise, que Lacan qualifica de real, não o corpo em seu conjunto que é apenas forma, mas o que cai dele, o que decai é real.

Quando foi ensinar sobre a psicose considerou as memórias de Schreber, ocupando-se delas e dos comentários de Freud, aos quais acrescentou efetivamente um nível a mais no discurso. Pode-se reprovar isso na psicanálise, dizer: “Depois de tudo, onde estão seus casos? Vocês sempre falam indiretamente…” É assim mesmo, o erro é pensar que, quando temos alguém em presença, é seu corpo, sua individualidade que ali está.

Para me colocar no papel de analista, preciso esquecer esse olho que me acompanha, esse olho teórico, na ocasião em que escuto, preciso esquecer o referencial teórico que me faria antecipar o momento do analisando.

Mas enfim, é preciso ver que o saber do analista é engajado na interpretação que ele faz. E que é melhor explicitar suas supostas intervenções do que acreditar que não se tem pré-supostos. É melhor sistematizar como medida de autocontrole do que imaginar que não se tem preconceitos.

É preciso chamar-lhe a atenção para o fato de que há coisas que valem a pena serem escutadas e outras não. Sem isso, ela não terá razão alguma para se descolar de seu delírio.

A função do pai pode ser atribuída a um outro que não ao genitor biológico. O Nome-do-Pai é função significante; indispensável e fundadora da ordem simbólica.

E como insistissem, acrescentou: “sim, consegui tratar alguns psicóticos, mas não sei como o fiz”. Esta lição de humildade deve concluir a conversa sobre psicanálise e psiquiatria.

É um ponto essencial no diagnóstico diferencial. A distinção para Lacan recai na crença, a histérica não crê nunca nas vozes. O psicótico tem uma certeza quanto a isso.

A psiquiatria é um assunto de Estado, o paciente em seu vínculo social. Por exemplo, na União Soviética a psiquiatria não foi interditada como a psicanálise o foi. A relação com o poder do Estado não é a mesma para as duas disciplinas.

A associação de analistas Lacan intitulou Escola, com a ênfase no ensino, porém, ele nunca sustentou um diploma universitário ou uma produtividade social imediata. Na Escola o ensino não era obrigatório. Por outro lado os analistas têm interesses sociais, não são parasitas sociais. Promovem o avanço da psicanálise para se abrigar dos efeitos devastadores do discurso da ciência, tentando responder às questões do discurso contemporâneo.

É muito agradável, para quem vem de fora, ver a extrema atenção com que as pessoas, aqui, seguem o que estamos fazendo em Paris e, assim, podem contribuir para aquele trabalho.

Quando devemos encaminhar um paciente ao hospital psiquiátrico e quando não? Depois de pensar, Winnicott respondeu-lhes: “É fácil: se o paciente aborrecê-lo, encaminhe-o ao hospital psiquiátrico, caso contrário, conserve-o.” Parece piada, mas não é. É a conseqüência, digamos, da posição ética, não apenas de Winnicott, mas daqueles que pensam que a contratransferência deve ser operativa, na experiência analítica.

Aludir à “ignorância pura” provocou risos. A ignorância tem função operativa na experiência analítica e não podemos desfavorecê-la. Trata-se, porém, da ignorância douta, de alguém que sabe das coisas, mas que, voluntariamente, apaga até certo ponto seu saber para dar lugar ao novo que ocorrerá. Eis uma diferença muito importante para distinguir a posição do analista antes e depois do limiar da análise, antes e depois da fronteira do discurso analítico. A função operativa da ignorância é a mesma da transferência, a mesma da constituição do sujeito-suposto-saber.

A questão fundamental do sujeito em análise é: “tenho direito a quê?”. Assim o neurótico pode recusar-se a abandonar o que o impede de gozar, pois, inconscientemente, ele não se sente com esse direito, o qual é sempre uma ficção simbólica, embora operativa no mundo, porquanto o estrutura.

Nem sempre é um convite para que o analista seja inteligente, pode ser que o sujeito necessite de que o outro seja um tonto, pois com isso ganha segurança. Assim, não temos de parecer demasiado inteligentes, um certo ar de estupidez, pode, por vezes, fazer maravilhas.

Um neurótico obsessivo, por exemplo, não pode desejar uma mulher, se ela não tiver um defeito. No primeiro momento, tenta valorizá-la, mas a condição para implementar seu desejo está focalizada, num pequeno defeito, não visível à primeira vista na neurose obsessiva, depreciar o objeto de amor é condição própria do desejo. Isso faz parte do desejo neurótico. Às vezes, vemos casais, talvez os mais sólidos, fundados sobre o fato de ser depreciada a esposa pelo homem, porque encarna a marca negativa de seu desejo. Essa mulher criticada diariamente, na experiência analítica, revela-se objeto de amor intenso.

o consultório é também uma Boca Maldita;

Que é superficialidade num texto? É não se poder mudar de posição subjetiva, haver embaraço entre esta e o dito. Existe apenas nos textos pobres; uma vez entendidos, assim o serão sempre. Em Lacan, inversamente, sente-se que as palavras não são coisas e que introduzem uma chamada para cada sujeito inventar sua própria maneira de ler.

Quando me perguntou quanto deveria pagar, respondi: “Nada”, e acrescentei, “Pense e volte dentro de uma semana.

Isto me parece muito paradigmático, um pedido em três tempos articulados por uma lógica. Primeiro tempo: fazer o pedido. Segundo tempo: anular o pedido feito. Terceiro tempo: fazer de novo o pedido anulado, ou seja, anular a anulação. Podemos dizer que é uma redução à estrutura da neurose obsessiva, porque esta não é apenas sintoma de dúvida ou oscilação, é a impossibilidade de decidir, ou a pressa com a divisão do desejo, de tal maneira que este atravesse um momento de ser anulado, e as coisas só possam se iniciar no terceiro tempo. Sempre procurei saber por que Lacan dizia que para constituir a repetição três tempos são necessários. Foi através desse paciente que isso ficou claro para mim. É necessária uma afirmação, uma anulação, e a anulação da anulação. Lacan diz ser a maneira de recuar diante do próprio desejo.

É questão de consentir preocupar-se com coisas pequenas, como esquecer chaves ou nomes, recordar coisas da infância, dar atenção a asneiras; tudo isso é uma decisão do paciente que lhe diz respeito, de ordem ética. Ele pode achar que preocupar-se com o que lhe diz respeito, mesmo sendo minúsculo, vale a pena. A ontologia é concernente aos seres e a ética à falta-a-ser.

No que se refere ao neurótico, a sua paixão é justificar a própria existência. A palavra “justificação” é, propriamente falando, oriunda do direito.

do psicanalista que recebe a queixa da falta de justificação para o existir.
Um paranóico sabe por que existe, tem uma causa para a existência, está certo de mobilizar a atenção universal.
O presidente Schreber sabe que a sua é para que se transforme em mulher e, com Deus, produza uma nova humanidade. Quando alguém tem uma missão como esta, podemos dizer que sua existência está justificada, e, portanto, sua paixão não é justificá-la.
O verdadeiro perverso, por sua vez, sabe muito bem que existe para gozar e o gozo lhe é, em si mesmo, uma justificação da existência. O neurótico deve inventar uma causa, uma boa causa para defender que possa tapar-lhe o vazio em que consiste.

O sujeito histérico põe em questão o significante, o mestre, que vai buscar para demonstrar-lhe que, de sua posição de falta-a-ser, é mais potente que ele.

Pareceu-me não se tratar de uma alcoólatra, mas de uma histérica que bebia; foi uma decisão ética, mas de muita responsabilidade, admiti-la em análise e dissociá-la do significante que lhe permitia não beber. Admiti-la seria reabrir a distância entre o significante e ela própria. Depois de dois anos, recomeçou a beber. O primeiro resultado da análise não foi de efeito terapêutico, mas, ao contrário, contraterapêutico.

não se há de ser vaidoso de sua riqueza ou reprovar o outro por sua pobreza. Trata-se de um princípio moral de alto nível. O sujeito histórico, porém, vai além. É ele quem nada tem, restando-lhe apenas o vazio. De seu próprio vazio, do lugar de sua pobreza radical, exprobra a boa fortuna do Outro.

Logo que se inicia, não se tem muitos pacientes, e eu, então, tinha um longo tempo para as sessões.

Interpretar abre a questão do desejo: “O que quer dizer?”, “O que ele quer?”, “O que deseja dizer?”

mas há aí um redescobrimento vivo do valor da prática lacaniana: o corte e a oferta para voltar. O analista pode-se ter como um técnico da enunciação e é melhor que não sinta angústia na experiência.

Certa mulher eminente, chefe de um departamento universitário, muito ativa na vida, só conseguia se relacionar com homens casados. Era necessário saber que o homem tinha mulher, cotidiana e rotineira, para sentir-se segura de estar na posição da mulher desejada, estar como um mais-de-mulher.
Há também o exemplo que se refere à mulher, cuja fantasia era pensar que os homens com os quais se relacionava eram possuídos, no ato sexual, por outro homem que fazia o que ela não podia fazer. Ou seja, nessa variante de função, a outra mulher era encarnada pelo próprio homem em condição feminilizada — necessidade freqüente da mulher, de relacionar-se com um homem portador de um traço qualquer de feminilidade —, demonstrando que a chave da função da outra mulher não é algo que permita dispensar inflexões e variações.
O que não está inscrito no simbólico, reaparece no real.

Palestras no Brasil

Lacan elucidado: Palestras no Brasil (Campo Freudiano no Brasil)
Jacques-Alain Miller

Radicalizando, é o leitor quem escreve, o ouvinte quem fala por minha boca, o próprio receptor quem emite a mensagem.


Digamos que prestei-me ao desejo do Outro. Seja feita a tua vontade.


A verdade da psicanálise nada tem a ver com a verdade do Evangelho, e talvez seja a razão por que essa verdade não é agradável e não promete salvação.


faltam-me referências, e para estabelecê-las eu deveria ouvi-los longamente a fim de formar uma certa consistência dos seus ditos


Usei a palavra conversa, bem pouco lacaniana, pois, no fundo, não se pode dissimular que a conversa, longe de permitir compreensão mútua, alimente o mal-entendido. Só um tipo de conversa tem possibilidade de superá-lo: analítica, evidentemente muito especial em seu dispositivo.


O inconsciente, no sentido de Freud, tal como Lacan o retoma e o demonstra, é feito, é entremeado de mal-entendidos que se depositaram, se inscreveram, no sujeito e singularmente determinam o que pode ser chamado seu destino a partir da psicanálise, e por ela remontar ao que de imediato é compreendido obliquamente, e colocar o sujeito em seus trilhos.


Lindo no caso é o extremismo da posição subjetiva de assumir, até o fim, o nada proferido pela boca paterna, tomando-o ao pé da letra. Eis o mal-entendido.


SABER DEMAIS
Não se deve encher os outros de saber, é preciso moderação, não atochá-los, impedindo-os de se esvaziar…


Geralmente, a pessoa é compreendida já antes de começar a falar, e aí está o mal-entendido, a pré-compreensão.


Será que Lacan não chegou ao Brasil como parte integrante de cultura francesa dos anos 60? Ele foi propelido à notoriedade internacional no momento em que a influência do sartrismo, na França, se debilitava, e os estruturalistas passaram à primeira fila. Assim, fizeram um trem, colocaram Lacan dentro e o mandaram viajar, espalhando-se por boa parte do planeta, nas regiões onde se deixam espalhar as coisas.


Não é possível imaginar que um charlatão, como ele é qualificado às vezes


Não que ele não tivesse trabalhado antes, mas essa data marca um corte, o momento em que ele, de fato, falou em seu próprio nome, deixando de ser um pós-freudiano, para abrir uma nova dimensão


constante retificação, de luta entre as conseqüências.


a metáfora paterna, essencial para constituir um mundo normal para a criança: o metaforizar do desejo da mãe pelo significante do Nome-do-Pai


não há outra coisa na experiência analítica, senão a linguagem.


Ninguém é obrigado a entrar em análise, há quem prefira andar na praia…


O sujeito, durante toda a sua vida, é captado por imagens, às quais ele se identifica sucessivamente e, portanto, a esse respeito o seu ego, como diz Freud alhures, é um bazar de miudezas, identificações que podem ser contraditórias entre si.


O inconsciente tem orelhas, e não olhos, embora não escute conselhos e seja este o motivo de existir a psicanálise.


Lacan não publicou casos clínicos.


o psicanalista recuse publicar casos, porque sabe que se expõe, e esse medo explique grande parte da abstenção


Sem dúvida, o Homem dos Lobos ficou contente lendo seu caso, sabendo que existia, mas, na verdade, isso não lhe fez bem.


Fazendo graça, disse ter feito do ensino de Freud jardins à francesa.


Mas, que demonstra a experiência da psicanálise? Que as pessoas não sabem o que dizem: quando lhes repetimos uma palavra-chave do que acabaram de afirmar, podem sentir um efeito extraordinário.


Lacan partiu do seguinte: que deve ser a linguagem? Que deve ser o sujeito para que as pessoas não saibam o que dizem?


Quanto a dormir, é certo que se dorme para encontrar os sonhos.


O desejo é um conceito complexo, que segundo Freud pode ser recalcado e aí realizado nos sonhos e, sobretudo, pode ser modificado na experiência analítica.


a ignorância do próprio desejo é um efeito produzido pelo dispositivo analítico.


É a idéia em que Lacan se apóia quando considera a paranóia como a estrutura clínica de base para todo sujeito. De certa forma, a paranóia é inativa e devemos compreender que, no fundo, somos todos paranóicos e chegamos a manter distância, para não nos atacarmos uns aos outros.


A definição de mestre e escravo é: este reconhece aquele, que não reconhece ninguém. Hegel conclui que o essencial é que o escravo triunfa por ter reconhecido o outro e é suscetível de ser também reconhecido simetricamente, e por se dedicar ao trabalho vai se tornar a chave da história. O mestre se fixa em não reconhecer o outro, confrontado pura e simplesmente com sua morte inevitável. Fica à parte do trabalho, diante da questão de sua maestria. Enquanto o escravo se dedica ao trabalho e ao gozo, o mestre permanece contemplando o assumir de sua maestria, e, ao mesmo tempo, torna-se um elemento fora da dialética.
Foi essa a ficção que inspirou Marx, pois contém a promessa de que o futuro pertence ao escravo, aquele que produz. É um ponto-chave em Hegel.


Não posso dizer “eu sou”, porque só posso sabê-lo se o outro concordar com o lugar que lhe proponho.


Que é o desejo? É o desejo de fazer reconhecer seu desejo.


Essa parte do ensino de Lacan é a mais filosófica.


Ele poderia ficar, era aplaudido por seus amigos filósofos, houve um período em que Lacan foi amigo de filósofos, pessoas como Hyppolite, Merleau-Ponty etc., e em seguida os filósofos que vieram depois tiveram uma relação diferente com ele, uma relação que seria na verdade de hostilidade, de agressividade.


Você expôs uma seqüência lógica quanto ao desejo: primeiro ele em estado bruto, depois imaginarizado e finalmente simbolizado.


Não acho esse esquema muito satisfatório para uma reflexão hoje sobre a psicose.


Em primeiro lugar, o psicótico se recusa, ele é rejeitado, ele se rejeita do circuito do reconhecimento.


uma hipótese sobre a estrutura do inconsciente. A posição do analista é suscetível de mudar segundo o que ele supõe da estrutura.


Dizer “o psicótico está fora das leis da palavra” é algo um pouco radical.


Perguntei-lhe por que não tinha feito outros avanços sobre a questão da psicose? Respondeu gentilmente que era porque não via psicóticos suficientes e não tinha experiência suficiente para doutrinar de forma conveniente nesse assunto, marca de uma grande humildade clínica. Perguntamos-lhe se ele havia tido psicóticos em análise? Disse “sim”. E se ele os tinha curado? Respondeu que isso havia ocorrido, mas que não sabia como.


É normal então que ninguém tenha pensado verdadeiramente em praticar a esquizo-análise, nem eles mesmos, os primeiros.


É bem difícil constituir a psicose em laço social, ela não produz laço social.


Agora, quanto à psicanálise do corpo é preciso ser claro: não há psicanálise do corpo. O corpo está inscrito e representado no inconsciente, ele é representado como? Sob a forma despedaçada, representado essencialmente pelos quatro objetos envoltos no circuito da pulsão: os seios, as fezes, ao que Lacan acrescentou a voz e o olhar, quatro dejetos do corpo que têm função no inconsciente. Acrescenta-se a forma imaginária que se imprime no inconsciente, ao corpo do homem, que se chama falo. É assim o corpo no inconsciente. Não é a carne, é o que faz que não haja relação sexual no inconsciente. De um lado, há a representação de um único sexo, em relação ao qual os dois sexos tem que se determinar, ambos em relação ao mesmo símbolo sexual.


À medida que o mal-estar se estende a psicanálise estende ao mesmo tempo seu empreendimento, é irresistível desse ponto de vista.


Paul Bercherie publicou sua tese sobre os “Fundamentos da clínica”, na qual tenta demonstrar que a clínica psiquiátrica terminou há 50 anos.


A partir do momento em que o medicamento para as doenças mentais foi inventado, necessitamos qual clínica? A clínica dos efeitos do medicamento. A grande clínica clássica, que era tão fina, cheia de nuances, dela resta simplesmente elementos que permitem dizer que tal medicamento tem tal efeito ou não. É uma clínica que se constrói a partir da eficácia do medicamento.


Enquanto que a clínica psicanalítica não está perto do fim, se distingue da outra pelo fato do próprio paciente enunciar seu sintoma, diferença fundamental, é seu sintoma que o conduz à análise.


A partir do momento em que o sintoma chama o complemento do psicanalista, o psicanalista vem em sua experiência analítica se juntar ao sintoma. Isso faz identidade, o sintoma toma forma própria, o que Freud diz que é somente na experiência analítica que os sintomas adquirem sua forma consistente na enunciação


A clínica psicanalítica tem esse traço particular que a torna dificilmente objetivável, dificilmente transmissível, ela inclui aquele que se diz observador e o inclui de forma essencial.


Na clínica psicanalítica é sempre de transferência na qual é questão a posição do analista, não se pode abstraí-la.


Trata-se sempre, no relato de caso analítico, de um analista que explica a idéia que ele faz de seu lugar. E assim a forma como ele teoriza o desejo, o gozo, a sexualidade, a fome etc.


O desejo bruto é de certa forma negativado e substituído, eu diria, por uma auto-reflexão do desejo.


É sempre difícil ver Lacan esconder. Seu estilo é formular as coisas de forma afirmativa.


E a maior parte do tempo, quando comentamos Lacan, nós o seguimos como uma galinha fascinada, seguimos a linha do texto até o fim — momento em que nos encontramos exaustos —, acordamos no fim depois de uma pequena viagem encantada. Eu também sou sensível a essa fascinação absolutamente especial, enfim, isso não deveria impedir que pensemos por nós mesmos, comparemos um texto a outro, ou quando vemos três ou quatro expressões em páginas diferentes no mesmo texto que tentam encontrar alguma coisa. Há alguma coisa que não é satisfatória em seus esforços.


Temos funções que conhecem um ciclo de despertar e de satisfação.


A satisfação de que se trata, com o desejo segundo Freud, é outra coisa, não termina, e é verdade para o desejo e para a pulsão também. Em se tratando do desejo, a única coisa que o satisfaz são as coisas que não existem. O sonho é a realização do desejo, que satisfaz coisas que não existem.


Lacan promoverá a partir daí, “O desejo é o desejo do outro”, expressão extremamente sedutora, segundo a perspectiva de considerá-la, ela pode ter sentidos diferentes. Em princípio pode ser de ordem simplesmente imaginária, desejo o que deseja o outro, só desejo porque o outro deseja. Lacan ilustra essa rivalidade com o exemplo de Carlos V e Henrique VIII, “o que meu irmão quer, eu também quero”. Esta seria uma expressão de acordo ou de rivalidade? É difícil saber, penso que ocorre o mesmo em português. Será uma expressão de rivalidade, ou talvez, ao contrário, uma expressão de acordo e segundo se escreve o outro com “o” (outro) ou com “O” (Outro), situamos-nos em uma dimensão imaginária, de rivalidade, ou em uma dimensão simbólica. Por outro lado, a partir do momento em que Lacan efetivamente escreve o Outro e aí o simbólico, as duas dimensões que opus, as duas vertentes, podem se encontrar.


Não são seminários do sujeito que sabe e que do alto da montanha diz: “É assim”. Ele quebra a cabeça para conseguir manter em conjunto suas colocações.


O desejo é, no sujeito humano, realizado no outro, pelo outro, no outro


Trata-se aí do Lacan humanista, que diz que, definitivamente, a comunidade humana encontra sua consistência no simbólico.


O que fornece a fórmula que figura no grafo de Lacan: d para desejo, uma flecha, barrado, punção


adoeceu de um saber que lhe é exterior. É bem isso que faz o problema de fundo da psicose, o psicótico tem sobre nós a vantagem de saber que o significante está fora, que não se trata de fazer psicologia das profundezas, como dizem os junguianos, que imaginam o significante bem profundo.


ponto de partida de Freud e de Lacan é diferente, é de que o sujeito da ciência está no mundo, nasceu, e não podemos nos desfazer desse parasita.


Sonhamos fazê-lo, sonhamos tornar-nos homo natura.


É de outro tempo que emerge a idéia de estrutura: na medida em que é construída por fórmulas, que nos capturam e não nos permitem fazer funcionar a estrutura da linguagem, por exemplo, sem elas, é por isso que uma idéia de expressão é muito sumária, como demonstra a menor experiência da psicose ninguém se expressa como fala, falar supõe uma perda que se estende a tudo, é às custas do gozo que se fala.


Quando nos ocupamos da psicose, o fazemos a partir da estrutura da neurose como referencial pois supõe-se que a psicanálise sabe tratá-la.


Foi o que Lacan marcou, na época da apresentação no hospital psiquiátrico, diante de um certo tipo de louco, para o qual se lhe pediu a opinião. E ele disse: “Mas ele é completamente normal.” É, sem dúvida, paradoxal, mas é um convite ao público de se descolar das evidências, porque não é uma questão de maioridade, que tenhamos coincidências, mas sim, porque partilhamos o mesmo sintoma, e não é por sermos mais numerosos desse ponto de vista, que devemos impor nossa lei ao outro.


É buscar a certeza do paciente, que está alhures, um elemento do diagnóstico das psicoses. Regrar-se a partir dessa idéia evita confundir a histeria e a psicose.


O elemento de certeza que tem o paciente, tanto da entrada numa outra fase de sua existência, quanto de que suas alucinações estão no real, se diferencia por completo do estilo da histeria.


Quanto mais incerteza de que está em sonho ou em vigília, mais afastada fica a possibilidade de psicose verdadeira, que se caracteriza pela certeza do paciente e não pela idéia de que o mundo gira em torno dele, de que desconhece seu lugar e de que tenta se identificar com o mundo para se fixar. Este não é o estilo da psicose.


A psicose é uma cultura, precisa de tradição, é o supereu da psicanálise; espécie de referência, o supereu não é simplesmente a identificação com os pais, com as proibições parentais; condensa com efeito, as tradições existentes.


O momento de passagem é correlativo, sensível, desmoronamento de um mundo; mas marcado pelo quê? Que é tocado de forma sensível? O que concerne à fala, pois Nobel está persuadido de que é escutado por microfones, é a escritura que é tocada. Mas volta sempre que há desordem nos papéis, nas ordens de pagamentos, nas dívidas, de tudo que sustenta a ordem significante de seu mundo.


Era um mestre, em sua posição subjetiva, ele mesmo diz o quanto era duro no trabalho, duro para com ele mesmo, viveu sua existência em tensão.


Se reconstruirmos sua posição subjetiva coerentemente, poderemos compreender a emergência do significante mestre absoluto, a morte, que entrou, de fato, contra todo o fundamento de sua posição subjetiva


Lacan, na verdade, caracteriza como esquizofrênico aquele que tem dificuldade em distinguir funções para seus órgãos.


Quando se é cirurgião, não se precisa ser reconhecido pelo paciente. O terapeuta, porém, conquanto se considere um, é preciso que seja constituído como tal pelo paciente.


O obsessivo, por exemplo, é perfeitamente capaz de demandar uma análise, mas pode com a continuação não ser capaz de demandar muita coisa, pede um outro que responda automaticamente à demanda, mas não muito mais que isso.


a metáfora paterna, o falo como significante do desejo, o gozo do outro.


Lacan não fará alterações sobre o “pouco de realidade” do desejo, expressão que permite opor desejo e gozo. Há “pouco de realidade” no desejo, mas não se pode dizer o mesmo do gozo.


No Relatório de Roma, o sintoma é visto como uma articulação significante, tal como aparece quando interpretado, ele se suprime. Foi o que vimos com entusiasmo no começo da psicanálise. Nessa época a psicanálise não durava tanto como agora: o paciente chegava pesado, com um sintoma enorme, e depois de dar alguns passos no jardim com o dr. Freud saía leve como uma pluma. Na época, se tivéssemos passeado três vezes com Freud poderíamos dizer que fizemos psicánalise. Foi o que os analistas verificaram, quando a partir de um certo momento, as coisas começaram a não andar tão bem. Houve uma crise na psicanálise que obrigou os psicanalistas, uma vez terminado o período miraculoso da interpretação, a tentar se fixar em outra coisa; construiu-se então a teoria da agressividade, cuja segunda tópica de Freud não foi bem compreendida. Com o tempo, o sintoma tornou-se mais resistente, e é preciso supor que o sujeito se satisfaz com seu sintoma, que este lhe traz gozo, para justificar-lhe o apego e o fato de que não se desfaça dele com tanta facilidade quanto era de se esperar. O gozo é como um lastro nesse nó de significantes. Se nos apegarmos somente ao aspecto do desaparecimento do desejo, ou ao caráter de falta, não conseguiremos deduzir o lugar prevalente do falo no desejo, nem perceber que o Outro maior é a mãe, e vem de seu desejo, aparecimento aí da função dominante. Recupera-se isso por outro lado, pois o que domina a questão é o falo da mãe, que não existe. Dessa forma, continuamos a respeitar a ancoragem do desejo na falta.


Quando Lacan passou pelas leis da palavra da linguagem, apoiando-se sobre a metáfora e a metonímia, segundo Jakobson, encontrou uma solução para algumas questões. Como diz em “A instância da letra”, o desejo apresenta enigmas para a filosofia natural, não encontra caminho, de forma regrada, na espécie humana. A solução proposta por Lacan em “A instância da letra” é ancorá-lo à metonímia e considerá-lo, o freudiano, nada mais ser que o reenvio indefinido de um termo a outro, operando-se na linguagem.


não há significante que não reenvie a outro.


O exemplo que aí sempre uso, porque é claro, é o do lógico que diz “quando nos fazem uma pergunta sobre o termo a, qual é a resposta? Quando lhe perguntamos o que é ‘a’, a resposta é sempre: é um ‘b’, porque não se pode definir ‘a’, um termo, senão por outro.” Eis o valor do reenvio, que constitui a lei da linguagem. A solução de Lacan é dizer que o desejo não é nada mais que o investimento, o efeito, desse valor de reenvio. Assim, ele é o que está entre um significante e outro, jamais fica sobre, mas sim captado no reenvio indefinido dos significantes.


porque manteve na audiência o sentimento de que havia algo de essencial em debate e que seria possível saber tudo, um pouco mais tarde.


É preciso confiar para ser ensinado,


É muito chato quando as pessoas sabem demais: nas sociedades analíticas, percebem logo que a maioria das pessoas não se acham aptas, e os que têm coragem, ensinam


a idéia do desejo lacaniano, inapreensível, sempre entre dois, lá onde não se espera, mas sobre o qual nunca podemos pôr a mão; mesmo se aparecer por um instante desaparece em seguida, e na verdade segue seu caminho sozinho, sem encontrar limites


O sintoma aparece como uma fixação significante do desejo


o sintoma tem estrutura de metáfora


eis o princípio da interpretação analítica, dizer um pouco ao lado para estar onde é preciso. É bem o que Lacan chama o meio-dizer, o dizer pelo meio, se dizemos apenas a falta, por outro lado, se falta um pouco, temos chance de dizer justamente.


Cada vez que se é uma ilha, pode-se ser interpretado a partir do falo. É esse o milagre da psicanálise, do qual não se deve abusar: poder interpretar a partir do falo.


Estou Aqui

a interpretação deve ser metonímica e não metafórica, e reconduzir o sujeito sobre os trilhos da metonímia, sem fixá-lo no sintoma analítico.


“minha voz, por que falha em completar de reconhecimento?”. Esse instante ele apresenta como um momento de fading de sua voz de orador, é o momento em que rejeita cinco ou seis anos de elaboração sobre o desejo e abandona simultaneamente a idéia de reconhecimento do desejo e desejo de reconhecimento e fá-lo de forma muito convincente, sem dizer que está negando, pondo em causa, toda uma parte de sua elaboração anterior, pois não é dormindo que nos fazemos reconhecer.


a experiência analítica é apenas intersubjetiva, que visa a reconciliar o sujeito com o sentido de sua história.


o sujeito está oculto no desejo, a conseqüência é o sujeito não ter um desejo que pode ser reconhecido, e isso não constitui uma reconciliação do sujeito com seu desejo.


não se tratou mais do reconhecimento do desejo no fim da análise, outrossim de atravessar a fantasia.


para Lacan, o analista não deve ser reconhecido


por seus pares desde modo


Lacan pôde dizer que o analista, estruturalmente, se autoriza por si mesmo, não necessita de nenhum reconhecimento


como o que comportava a idéia anterior: deduzir uma posição institucional, ser analista dependia de ser reconhecido por outro analista, o seu.


Muitos aqui passaram, pelo reconhecimento da Internacional e têm a idéia de que o essencial da psicanálise não passa pelo tamponamento significante.


O trabalho sobre a clínica psicanalítica da criança psicótica, a obra mais importante dos últimos 15 anos, apareceu no ano passado, “Nascimento do outro”, de Rosine e Robert Lefort.


É verdade que as sessões padrão no critério da Internacional obedecem às leis do mercado, paga-se a força de trabalho do analista pelo tempo transcorrido. Teme-se perder essa murada e a psicanálise escapar das leis do mercado. Mas é precisamente disso que se trata, que ela escape, condição para que haja gozo, forma simples de Lacan situar o gozo como oposto a tudo o que é útil, há algo nele que parece não servir para nada.


É preciso conseguir transcender a economia do mercado; é o objetivo da psicanálise que Lacan levou ao extremo.


depois de termos tomado a palavra, que estava com a sala, vimos florescer o discurso da histeria. Devemos assumir as conseqüências, é bem melhor convocar 1.200 pessoas que vão se disputar como estrelas, algumas histéricas, do que fazer seminários entre vinte obsessivos que não esperam mais nada da existência.


depois de termos tomado a palavra, que estava com a sala, vimos florescer o discurso da histeria. Devemos assumir as conseqüências, é bem melhor convocar 1.200 pessoas que vão se disputar como estrelas, algumas histéricas, do que fazer seminários entre vinte obsessivos que não esperam mais nada da existência.


Por que se fala tanto de psicoterapia das psicoses? Justamente porque não tem importância. Quando não se tinha neurolépticos para construir a “camisa-de-força química”, o diálogo com o psicótico se limitava à observação clínica. A partir do momento em que se pôde dominá-lo pelos medicamentos surgiu a possibilidade de se conversar com ele, mas para perceber que isso não tinha importância. Realmente o blablablá — palavra francesa inventada por Le Canard Enchaînéa — desempenha o papel de acompanhar a medicação, e posso dizer que a eficácia essencial e determinante, o que determina a transformação nesse caso, é esse objeto científico interessan


te, o remédio, e nesse sentido tentaram fazer melhor.


O dialogo com o psiquiatra é que se chama a psicoterapia, a assistência social com sua dignidade de prática, mas que se mostra em dúvida sobre o que pode fazer nesses casos.


A psicose é uma clínica do imaginário


a clínica é o real, na medida em que é impossível de suportar


O simbólico é regido por leis metonímicas, um elemento na cadeia significante pode ser substituído por outro. É o que permite se liberar do sintoma.


No que concerne ao real, não é suscetível de metabolismo significante nem de transformações imaginárias, pois, nesse sentido, resiste.


A psicose é especialmente o que resiste como clínica. É por isso que se busca o que há de real na psicose, no sintoma, que não passa com o significante, ao psicótico o significante não fede nem cheira. A interpretação parece não servir para nada. No ato, tenta se operar em outro registro e, ao mesmo tempo, fica-se nos limites da psicanálise.


Desde que temos um nome já estamos mortos.


Isso é o objeto em psicanálise, que Lacan qualifica de real, não o corpo em seu conjunto que é apenas forma, mas o que cai dele, o que decai é real.


Na psicanálise, mesmo que o estatuto da supervisão não seja teoricamente regulamentado, ela é sempre uma questão teórica aberta.


A psicanálise, no entanto, se prevê efeitos de verdade e transmissão de saber, concebe com o caráter indireto da apresentação, sem a presença do indivíduo, porque em definitivo, se sabe bem que o essencial são os significantes, cujos essenciais e sua armadura são destacados, são isolados.


Quando foi ensinar sobre a psicose considerou as memórias de Schreber, ocupando-se delas e dos comentários de Freud, aos quais acrescentou efetivamente um nível a mais no discurso. Pode-se reprovar isso na psicanálise, dizer: “Depois de tudo, onde estão seus casos? Vocês sempre falam indiretamente…” É assim mesmo, o erro é pensar que, quando temos alguém em presença, é seu corpo, sua individualidade que ali está.


Na supervisão criaremos uma teoria e não teremos necessidade do corpo físico-biológico: há, porém, outra necessidade, a de trabalhar o caso.


Lacan nomeia de forma divertida: “ la pèreversion” (a pai-versão), o fato de se voltar para ao pai.


a neurose obsessiva é muito rara na mulher, embora não seja excepcional como seria o fetichismo.


Na própria ação de verificar se pode receber o chamado, ele se impede de recebê-lo. Em verificar se o aparelho funciona, ele o impede de funcionar e faz com que o bom funcionamento não sirva mais para nada. Há um efeito impressionante de anulação de atividade


É um pequeno caso, entretanto um paradigma do obsessivo, ele solucionou a relação sexual que não existe, substituindo a mulher pelo telefone. Encontrou o meio de telefonar ao telefone, e ter alguém sempre lá. No lugar da mulher, que no instante não existe de forma alguma, ele instala um telefone que lhe responde a cada vez que chama com um sinal de funcionamento perfeito.


Temos o típico do obsessivo, ter um Outro, um grande Outro a sua disposição, um grande Outro automático, um grande Outro que lhe responde assim que o chama


Diz ter a fantasia, que isso se arrisque a ser a confissão, de que poderá assinar a confissão de ter cometido um crime que, na verdade, não cometeu e, sem ter como provar sua inocência, pois assinara a confissão criminal, seria punida.


A depressão não é um conceito estrutural, pode-se pôr tudo nela.


Não se progride no diagnóstico quando se chega a um conceito puramente descritivo.


Há, em Virgínia, elementos histéricos que comportam, a relação com o pai e com esse homem, que ronda por perto, suscetível de violá-la.


Para me colocar no papel de analista, preciso esquecer esse olho que me acompanha, esse olho teórico, na ocasião em que escuto, preciso esquecer o referencial teórico que me faria antecipar o momento do analisando.


Mas enfim, é preciso ver que o saber do analista é engajado na interpretação que ele faz. E que é melhor explicitar suas supostas intervenções do que acreditar que não se tem pré-supostos. É melhor sistematizar como medida de autocontrole do que imaginar que não se tem preconceitos.


É preciso chamar-lhe a atenção para o fato de que há coisas que valem a pena serem escutadas e outras não. Sem isso, ela não terá razão alguma para se descolar de seu delírio.


O delírio não impede que seja uma neurose obsessiva bem constituída. Não é porque os pacientes contam histórias extravagantes que são psicóticos.


O fato de contá-las é totalmente compatível com a psicose, a histeria, a neurose obsessiva e a perversão


Um cartel de supervisão em que seus membros trariam problemas que seriam discutidos por outros três ou quatro, em escala alternada.


O Departamento de Psicanálise, único na França, é formação do inconsciente, um lapso, um ato falho e, ainda hoje, tratado como um caso, um dejeto, caído dos acontecimentos de maio de 1968, já que sua criação sucedeu-lhes.


A universidade é feita para acolher os saberes e é necessário prestar atenção ao fato de que não acolhe a todos. Somente o faz aos modos de transmissão, aos modos de saber que a interessam, que lhe convém. Somente os saberes que lhe permite o mestre, pois este é quem sustenta as relações universitárias.


Um departamento de física não tem absolutamente vocação para formar físicos, outrossim professores de física que se dirão físicos.


O que perturba o sossego da universidade francesa, o que incomoda, é a existência da psicanálise e de psicanalisandos, de uma prática social que se sustenta desse saber e que conserva alguma coisa de selvagem, não regulamentada, não diretamente encaixada ao poder.


A universidade é complacente, por razões de estrutura do


saber desabitado do desejo, habitar o saber por um desejo já causara inconvenientes a Abelardo.


A psicanálise tem ainda algo de teimante e é por essa razão que não lamento que o Departamento de Psicanálise de Paris VIII seja ainda o único. No fundo, espero que a inscrição universitária da psicanálise seja retardada ao máximo.


Há uma exigência mínima do discurso universitário: é o professor quem fala, o estudante limita-se a imitar o professor quando fala. Ele é suposto saber o que diz.


Na psicanálise a experiência é fundada sobre o imperativo inverso, ou seja, o sujeito que fala está desligado do imperativo de saber o que diz, onde, ao contrário, é convidado a se excluir de saber. É o que comporta a regra fundamental de Freud: dizer tudo o que passa pela cabeça: que ele não saiba o que diz; interessante na experiência psicanalítica, mas não previsível no início


A psicanálise comporta a conversão do sujeito, obriga-o a se colocar


de outra forma quanto ao saber. Como o sujeito de Descartes: esvaziado, evanescente, é um sujeito dito “antiuniversitário”.


O saber universitário imagina-se poder residir na dimensão do bem-entendido.


O sujeito na experiência psicanalítica imagina-se procurando a verdade, aquém ou além do saber. Não a encontra; mas ela, sim, o encontra. A isso chamamos lapsus, chiste, ato falho: momento em que o sujeito se depara ultrapassado pela palavra.


Eis a razão por que tal sujeito está num estado de divisão e não no estado de controle, como no discurso universitário.


Esse sujeito fica diante da verdade como transitória, como fugaz, como enigmática.


O que faz o saber da psicanálise é o depósito de verdades transitórias, a sedimentação dos efeitos de verdade em sua experiência. Daí sai o saber analítico.


O saber na psicanálise, sendo particular, apresenta problemas: algo que seja um achado para alguém, não o será para o outro, por ser o desejo individual.


O que cada um deseja só diz respeito a ele mesmo. Somos todos fetichistas nesse sentido. Para cada um há um objeto, que é a condição de seu desejo e faz a autenticidade da experiência analítica, obrigando o analista a começar a cada vez do zero.


o analista é escolhido livremente, como já inscrito no inconsciente do analisando, fora da hierarquia, e não tem um diploma a apresentar. Além disso, é preciso pagá-lo e muito caro.


É do analisando que se espera a matéria-prima do saber e, aí está o porquê de não se poder ensiná-lo.


a fórmula em que o sujeito é dividido contra si mesmo, questionando a positividade do bem, introduz-se numa ética que diverge da ética do bem e mostra a fórmula em que o sujeito se agarra a um bem que não é, absolutamente, seu bem-estar. É o que Freud chamou masoquismo primordial


O bem que está além do bem-estar, que pode fazer mal é o que Lacan chamou gozo, que não dá necessariamente o prazer e implica uma ética.


E Lacan formula o imperativo do supereu assim: goza. Este dever é terrível no supereu.


o que se satisfaz no sujeito pelo sintoma? Por que ele adere ao sintoma?


Qual o gozo encontrado no sintoma? Sem isso o sintoma se esvaeceria; ao contrário, Freud constatou haver resistência por parte do sintoma. Há implicação do sujeito no sintoma; ele não quer ser curado e, mesmo com o sofrimento que o sintoma causa, encontra satisfação.


O supereu vai contra o desejo, mas porque o desejo vai contra o gozo, sendo uma defesa contra este último. O gozo não é desejável.


Desde sempre se sabe que as mulheres fazem infração aos mandamentos da palavra, assim como os homens a concebem. É por isso que os homens jamais pararam de refletir.
Qual é a verdade? O supereu do homem é a mulher.


há antinomia entre a posição do psiquiatra e a do psicanalista.


Primeiramente, a demanda com a qual cada um se confronta não tem absolutamente a mesma estrutura.


a demanda ao psicanalista é o modo do paciente interpretar para si mesmo o próprio sintoma, a partir do que sabe e do que não sabe e do desconforto de tipo especial que lhe causa.


A demanda feita ao psiquiatra é diferente. É na maioria das vezes, uma demanda social. Em geral, não é o paciente que escolhe o hospital e sim a família, os vizinhos, o Poder Público.


Escolhem pelo paciente.


até mesmo os que escolhem tão bem esse refúgio, que o hospital psiquiátrico se torna a sua doença, e aí todo o esforço deve consistir em mantê-los fora.


Os loucos tinham outrora um lugar reservado na ordem social; nem imaginávamos curá-los.


A preocupação terapêutica com os loucos demonstra intolerância social à loucura.


a demanda psiquiátrica é essencialmente oposta à psicanalítica.


Também o sintoma não é o mesmo no campo psiquiátrico e no psicanalítico. O psiquiátrico é constituído pelo psiquiatra, que o observa, o descreve, o classifica e lhe dá nome. Trata-se de uma clínica de observação.


Quanto ao sintoma psicanalítico só existe se for falado pelo paciente, pois a clínica psicanalítica é feita pelo paciente, oriunda de seu próprio discurso.


O sintoma freudiano só existe a partir do discurso do paciente, dentro do dispositivo analítico. Logo, é um paradoxo, mas a base da clínica analítica é a autoclínica, e não a heteroclínica psiquiátrica. Se o sintoma psicanalítico é constituído na experiência psicanalítica, no endereçamento do discurso do paciente para o analista, este faz parte do sintoma, está implicado em sua função. Por este motivo Freud pôde dizer que o primeiro momento da experiência analítica se traduz por uma reorganização do sintoma, a qual requer que o psicanalista tenha se incluído nele para


para completá-lo. Isso torna a situação bastante difícil para o psicanalista, cuja relação quanto ao sintoma não é de exterioridade. Ele não pode manter-se à distância, nem desconhecer o fato de aí se achar implicado.


Tomando a definição de clínica que Lacan propôs: “a clínica é o real como impossível de suportar”, esta não tem, na psiquiatria e na psicanálise, o mesmo ponto de aplicação.
No caso da psicanálise, trata-se de um impossível de suportar para o sujeito; no caso da psiquiatra, trata-se do impossível de suportar para o corpo social. É claro que um é suscetível de recobrir o outro em certos pontos e, por isso os psicanalistas e os psiquiatras têm interesse em trabalhar juntos nos mesmos casos, conquanto suas responsabilidades não sejam as mesmas, especialmente no hospital.


Lacan sempre se apresentou como tendo formação médica e psiquiátrica.


Os três pontos: esquecer a psiquiatria, compreender o paciente e não fazer diagnóstico não são exatos, e traduzo aqui o ensinamento de Lacan tal qual o recebi em Sainte-Anne.


Primeiramente, a clínica fundamental é psiquiátrica, inclusive para a psicanálise, uma herança dela, talvez pesada, da qual devamos nos desfazer, mas que, por enquanto, está aí. Em segundo lugar, compreender não é psicanálise, Freud não é Jaspers.


Em terceiro, é da psicanálise que es


peramos a verdadeira disciplina do diagnóstico.


Costumo dizer a meus alunos que os psiquiatras não se preocupavam com a sistematização; foi necessário a psicanálise colocar a questão para que pudéssemos ver florescer esforços de grandes sínteses sobre o psiquismo.


consultei teses apresentadas por residentes em psiquiatria na França. São todas elas da sociologia; na verdade torna-se cada vez mais rara uma tese clínica. A que se deve esse movimento? Ele é devido à incidência dos medicamentos, dos tratamentos químicos que dissolveram a clínica. Não interessa mais pensar os fenômenos clínicos, senão a partir dos efeitos que se pode obter com os medicamentos, que passaram a ser o princípio organizador da clínica.


há um número muito restrito de sintomas.


Os sintomas são padronizados, dando assim fundamento à clínica.


O fato é que temos de constatar que a psicanálise não pode desconhecer que sua clínica de referência é a psiquiátrica.


Aprendemos com a experiência psicanalítica que não se deve prejulgar o significado ligado a um significante.


Da mesma forma não devemos nos contentar com o diagnóstico da histeria, quando o paciente diz ter alucinações, pois o psicótico não diz isso, mas tem.


Pelo contrário, diz ser real. Este é um dos critérios que faz a diferença entre o histérico e o psicótico


O humanitarismo que consistiria pura e simplesmente em dizer “tu és meu irmão” é a via mais opressiva, a via da dominação.


Se há algo que a experiência psicanalítica pode ensinar é que existem estruturas e são sólidas, não se modificam e não passam de uma para outra.


Costumamos pensar que haveria flutuações de uma estrutura para outra. Assim as pessoas se entusiasmaram pelo chamado borderline, que se tornou um caso limite, particular da espécie.


O que precisamos procurar no exame do psicótico é o ponto de certeza.


Do que mais sofre o paranóico senão do saber do Outro?


A partir daí fazemos uma pergunta à psicanálise: que pode ela fazer pelos psicóticos? Que pode ela fazer por nós, terapeutas de psicóticos?
Devemos reconhecer que ela, com freqüência, não pode fazer nada, que a lição do dr. Lacan, em suas apresentações de doentes, era apenas uma lição de humildade.


Podemos tentar interpretar os sintomas para os psicóticos delirantes, mas eles o fazem bem melhor. Ao invés disso, podemos manter atividades de apoio com méritos sociais, mas que não estão no campo da psicanálise. Precisamos saber quando estamos dando apoio a alguém, no caso do psicótico, pois, se nos dispusermos a ajudar uma histérica, afunda-la-emos, não deixando chance alguma para que se safe.


mesmo sendo especialmente pessimista, Lacan elaborou a tese de que o psicanalista não deve jamais recuar diante da psicose. Isto significa que, sem dúvida, ele pode e deve tentar.


Para a psicanálise a freqüência ao hospital psiquiátrico é importante somente num sentido: é necessário que os psicanalistas se defrontem com a loucura enclausurada, hospitalizada, porque se tranca cada vez menos. Não é tanto pela clínica, mas pelo fato de os loucos demonstrarem a exterioridade do inconsciente. Esta


lição do automatismo mental, segundo a qual o inconsciente funciona fora, e daí domina o sujeito, como bem o diz o indivíduo vítima, o louco, que melhor do que ninguém nos dá a razão por que a experiência da psicose é o fio condutor do ensino de Lacan.


É o que se costuma chamar de xenopatia ou sentimento de que as coisas nos vêm de fora, as palavras e o pensamento são escutados.


Toda uma parte do ensino de Lacan que o conduziu a distinguir entre o outro semelhante e o grande Outro, lugar da fala, está apoiada na experiência do automatismo mental, posto que aí, ele pôs às claras a função grande Outro do discurso, que fala no interior da própria identidade.


A esse respeito, é necessário manter distância, considerar o motivo no desejo de “terapeutizar” pessoas que não estão pedindo isso.


É querer impor-lhes nosso próprio sintoma.


A foraclusão do Nome-do-Pai vem de abordagem freudiana e continua sendo o fundamento do conceito, o mais simples possível, que utilizamos como oposto ao recalque neurótico, já que em ambos os casos temos de levar em conta o “não quero saber de nada disso”, justamente a essência do recalque. A diferença, no entanto, entre neurose e psicose nos obriga a distinguir dois modos de negação do saber.


Na neurose o recalcado, no sentido de Freud, volta no próprio discurso, no lapso, no ato falho e no sonho, pois o recalcado e seu retorno são indissociáveis.
O que caracteriza a psicose é que o recalcado não retorna no elemento do discurso, mas para o sujeito no real se tomarmos a sério o que ele diz.
Este último é a foraclusão.


Para ser mais preciso: o que é recalcado do simbólico retorna no simbólico (lapsos, atos falhos, formações


do inconsciente), o que é foracluído do simbólico, retorna no real.


A função do pai pode ser atribuída a um outro que não ao genitor biológico. O Nome-do-Pai é função significante; indispensável e fundadora da ordem simbólica.


E como insistissem, acrescentou: “sim, consegui tratar alguns psicóticos, mas não sei como o fiz”.


Esta lição de humildade deve concluir a conversa sobre psicanálise e psiquiatria


É um ponto essencial no diagnóstico diferencial. A distinção para Lacan recai na crença, a histérica não crê nunca nas vozes. O psicótico tem uma certeza quanto a isso.


A psiquiatria é um assunto de Estado, o paciente em seu vínculo social. Por exemplo, na União Soviética a psiquiatria não foi interditada como a psicanálise o foi. A relação com o poder do Estado não é a mesma para as duas disciplinas.


A associação de analistas Lacan intitulou Escola, com a ênfase no ensino, porém, ele nunca sustentou um diploma universitário ou uma produtividade social imediata. Na Escola o ensino não era obrigatório.


Por outro lado os analistas têm interesses sociais, não são parasitas sociais. Promovem o avanço da psicanálise para se abrigar dos efeitos devastadores do discurso da ciência, tentando responder às questões do discurso contemporâneo.


Contava-me como achava insuportável a expansão da psicanálise em uma determinada época e me dizia: “Você sabe, até mesmo as secretárias se fazem analisar.” Não tinha a mínima idéia de que a secretária na experiência analítica poderia ser muito mais interessante que ele.


o sujeito é produzido pelo discurso


Assim se comporta o sujeito da cadeia significante, oscila numa posição de vai e vem e se apresenta como o sujeito do lapso, aparecendo inesperadamente, antes e depois desse exato momento, não está lá.


Como na experiência analítica se deixar guiar pelas emoções? As emoções entram na experiência analítica na medida em que são faladas. Podem ser sinais, são até codificadas e às vezes significantizadas.


Na história das idéias em certa época esteve na moda chorar, entre os séculos XVIII e XIX. Existem emoções na moda.


No ser humano as emoções não são naturais, são determinadas pelo


Outro. No animal o afeto ajuda-o a sobreviver, não é o caso do animal doméstico, neurótico graças a nós.


Na experiência analítica constatamos emoções deslocadas, é o caso de uma jovem muito prejudicada pelo afeto. São risadas que acontecem em momentos inadequados, sinistros. É um sintoma que a faz sofrer.
Freud não nega a existência do afeto mas afirma que este se apresenta deslocado.


Lacan dedicou um seminário inteiro à angústia, considerava-a à parte dos outros afetos. Quanto à angústia propriamente dita está sempre bem colocado: a angústia é o que não engana quando se produz. O próprio Freud distingue esse afeto, dando-lhe um estatuto especial.


Há toda uma biblioteca nestas páginas, toda uma biblioteca de literatura e de filosofia, que nos impede de aproximarmo-nos da medida clínica da questão.


As fantasias histéricas da bissexualidade


Bate-se numa criança


Lacan toma a questão da fantasia a partir da “obra literária” de Sade e não a partir de sua experiência clínica.


as universidades correspondem à vontade, num momento, à vontade explícita do poder do mestre: uma vontade de pôr a mão sobre a elaboração do saber. A elaboração do saber se inicia fora, sem o controle direto do mestre e a universidade foi a invenção extraordinária para submeter os que elaboram o saber. E, quando se faz isso de uma maneira eficaz, funciona por séculos. A conjunção das universidades, do discurso universitário como estrutura, permite, certamente, em nosso dias, conduzir as pessoas que elaboram o saber. Permite um controle completo sobre o “tem que lidar”, o “tem que possuir uma hierarquia”, o “tem que dar uma licença para ensinar”, o “todo mundo não pode ensinar, somente os licenciados”. E, depois, organizar intercâmbios mundiais entre os professores, dar créditos de investigação ou não, e todo esse pequeno mundo baila à música do mestre. Quando se elabora a estrutura de uma maneira coerente, séculos depois ela pode continuar funcionando.


Primeiro, porque o analisante elabora o seu próprio saber na experiência.


Bem-estar é poder trabalhar, esta é uma definição: as pessoas doentes não podem trabalhar.


O médico do trabalho não estuda as enfermidades produzidas pelo trabalho, mas aquelas que impedem o trabalho.


O ponto de partida para Lacan: nossa pobre prática: cada dia receber gente, escutá-la, escutar coisas mais ou menos significativas. Perde-se tempo. É uma prática como toda profissão. Há, também, nesta profissão, uma dimensão de aborrecimento. Para Lacan quando as coisas tornam-se um pouco aborrecidas, são sérias; quando há entusiasmo, está bem.


Não estamos na lua, num planeta, como às vezes os analistas pensam, nem estamos na Bastilha, para aceitar tudo da ordem social.


Na medicina cada vez mais há algo que não se cura, o impossível de curar, uma forma do Real. Há que introduzir nessa discussão o sintoma e a fantasia, porque se trata de curar o sintoma. O sintoma produz a dimensão da terapêutica. Com as fantasias, não se trata de curá-las, mas quando tratamos de fantasia estamos, no nível próprio da análise. É ao nível da fantasia e não do sintoma que Lacan situa a questão do fim da análise.


nível do sintoma era tradicional: os analistas deveriam ser completamente curados para funcionarem como tal. Freud disse, como vocês sabem, no artigo “Análise terminável e interminável”, que o problema era que os analistas não são curados da mesma maneira que esperariam que seus pacientes o fossem. Não têm o nível de saúde mental que esperam dos seus pacientes. Assim, isso pode ser um chiste, porém deve-se também conhecer os analistas.


os contatos com o analista fora das sessões são considerados como mais ou menos difíceis e proibidos? É dessa forma que o paciente pode ignorar os traços neuróticos de seu próprio analista.


Assim, tem o mesmo sentido de não tomar a experiência analítica através do que se cura, e sim do que não se cura.É por essa razão que Lacan, quando fala do fim da análise, não o faz a partir da cura dos sintomas, mas da travessia da fantasia. Atravessar (foi um dos meus temas do ano) significa não curar.


Na análise não se assina o que se diz porque na associação livre a frase seguinte pode ser: “não, eu não penso assim”. Não há obrigação do analista de dizer: “ah, não. Na sessão passada, você dizia que estava contente, agora não: não se pode entender nada com você mudando o tempo todo.”


na ética da psicanálise, não se deve ceder de seu desejo


Era claro, quando havia um problema nos seminários de Lacan — uma estenografia pouco clara — ele muitas vezes não sabia mais exatamente o que dissera, 25 anos antes. Ele afirmou uma vez: “você sabe muito mais do que eu do que se trata nesse texto”. Esta é uma maneira de deixar vazio o lugar onde o significante seria completo.


Porque a palavra fundamental do supereu, como Lacan entende é: “goza.”. Não é uma interdição. O supereu organiza os sintomas, o que é uma tese clássica porque no sintoma também há um gozo que é a razão de nossa fascinação por ele ou de nossa vinculação com ele.


É uma literatura onde há dificuldades em se buscar o nome mau, uma literatura sobretudo angelical. Na novela de Jean-Jacques Rousseau, La nouvelle Heloïse, todo mundo é bom. Julie, seu marido e o jovem, cujo personagem encarna o próprio Jean-Jacques Rousseau: Devienne que ama Julie. Não é a fórmula de uma dramatização terrível que se produz. Ao contrário, tudo está bem e vão viver os três juntos — não exatamente num “ménage à trois”, não exatamente num casamento a três. Não é demais dizermos que Julie é muito terna com o personagem que encarna Jean-Jacques e o marido sabe disso e, quanto a ele, considerando os ideais elevados dos dois, não os molestava de nenhuma maneira. Julie é um modelo de virtude e não de… puta. Há uma certa idealização fantasística.


Vocês sabem da tese de Leibniz: tudo o que aparece de mal no mundo permite um outro bem que não conhecemos. O mal é apenas uma aparência para nós.


Madame Reviquy: O livro constituído de seis relatos de mulheres, “As diabólicas”, são seis relatos diabólicos e um deles se chama “A felicidade no crime”


Vincular os dois e dizer que Sade pode manifestar a verdade que há em Kant foi um escândalo filosófico. De um lado, o cume da moralidade filosófica, do outro lado esse perverso e imundo Sade dizendo a verdade.


Lacan formula o “imperativo sadeano” que é “direito de cada um gozar do corpo de outro sem sua permissão e até o limite que quiser”.


“Tenho o direito de gozar do teu corpo, pode me dizer quem queira…”


É mais, porque as fantasias, isso é um fato clínico, as fantasias dos neuróticos são fantasias perversas, são também fantasias em relação com o gozo.


É muito raro, nas mulheres, a perversão. A perversão é um traço masculino, uma acentuação do desejo masculino, porque a constituição mesma do desejo está do lado masculino.


Temos que diferenciar completamente o uso comum da linguagem e o uso técnico-clínico das palavras.


A trama da experiência analítica consiste numa lamentação sobre o sintoma. Quando alguém se aproxima do ponto limite onde a fantasia se vincula ao gozo, há uma reticência muito grande do sujeito, que pode ser muito negligenciada pelo analista.


As fantasias neuróticas são fantasias perversas, porém são muito distintas da fantasia de um perverso. Primeiro porque um perverso está mais próximo de realizar sua fantasia que um neurótico. A fantasia do neurótico é uma espécie de espetáculo privado dele. Conserva uma distância respeitável da fantasia como lugar de elaboração, como meio de gozar. O perverso demonstra de uma maneira aberta a sua fantasia.


Tudo isso é uma demonstração do que é uma fantasia quando se realiza, que é não pensar nisso, mas fazê-lo.


Não é freqüente ver, creio, essas pessoas em análise. Não sei se se trata aqui de direito de gozar do que Lacan chama de vontade de gozo, uma vontade decidida de gozar, realizando sua fantasia.


Porém, quando um homem pode andar em Copacabana vestido de mulher, acentuando todos os traços da feminilidade e, ao mesmo tempo, conservando o essencial de seus atributos masculinos, andar como um outro completo que tem os traços essenciais do outro sexo, essas pessoas são deuses.


É interessante tratar da fantasia a partir da perversão porque as próprias fantasias neuróticas são fantasias perversas e, em segundo lugar, porque na perversão são mais abertas.


Em “Bate-se numa criança”, há seis casos, e não são casos de perversos: são casos de neuróticos com a mesma fantasia perversa, a mesma fantasia sado-masoquista. Porém, os casos de Freud não são sádicos, não são masoquistas: são neuróticos.


É verdade que o perverso pode entrar em análise, mas, nestes casos há traços neuróticos. E quando a relação deles com o gozar é, às vezes, perturbada sobrevêm sintomas para eles. Um resultado de análise pode ser permitir-lhes regular os problemas que têm com o gozo perverso, não se trata de trocar o modo de gozar. O que permite a análise da obra de Sade é articular a fantasia na perversão de uma maneira mais completa. Porém, é o caso de um homem que não pode vir à análise, por razão de estrutura. Essa é a demonstração de Lacan: por que um perverso não pode vir à análise.


A perversão é uma demonstração — é a nobreza dela — de que há coisas que alguém pode querer mais do que bem-estar, que o bem-estar não é o valor supremo.


É uma característica comum nas duas — perversão e moralidade — haver algo mais do que bem-estar. A moralidade implica por exemplo, o sacrifício: quando alguém se sacrifica por um valor, é um testemunho moral que há na vida humana, mas que continua a viver, que se pode aceitar morrer por uma causa. Uma causa vemos, também, na perversão. Nesta, há uma causa — a causa do desejo — que, precisamente, pode permitir abrir uma dimensão mais além do bem-estar.


O interessante é que os analistas podem vender outra coisa. Vender, como disse Lacan, a destituição subjetiva, não o desenvolvimento da personalidade. O interessante é que a destituição subjetiva pode interessar a muitas pessoas: é uma segurança também porque dá na vida, uma certa posição absoluta.


Sade é o instrumento que permite ver o escondido em Kant.


Sade nos dá a verdade do discurso de Kant.


Como gozar do corpo do outro? Tocá-lo, penetrá-lo é uma atividade de apreensão. O limite é destruí-lo.


É nisso que a perversão é tão humana como a psicose, pois as características não são de desumanidade, ao contrário, a loucura, como a perversão, são as duas, possibilidades humanas.


Lacan diz, no seminário sobre a angústia, que não é o sofrimento do outro (la soufrance de l’autre) que Sade busca, mas sua angústia


Vamos ver o que significa a busca da angústia do outro. Quando se trata da fragmentação de corpo do outro, não podemos dizer que ele busca isso, porém, quando alguém toma o braço e depois os olhos, é uma fragmentação o resultado. Não podemos dizer que seja esta a busca de Sade, mas sim a busca da angústia do outro. Para obtê-la, há certas coisas que são feitas e, em Sade, a angústia se faz através das ameaças. É muito importante para os verdugos, em Sade, dizer antes à vítima o que vai passar, lhes interessa muito demonstrar à vítima que fazem o mesmo com outra vítima, e isso produz angústia. Porém, quando é arrancado um braço, a angústia para o outro braço é mais forte. Não há contradição entre essa fragmentação e a busca da angústia, a produção da angústia. E, bem, era uma resposta para a pergunta sobre a relação entre gozar do corpo ou de uma parte dele.


No fetichismo, é verdade, há somente uma parte, que não pode deixar de ser destacada de um todo: é uma parte, como diz Lacan em um texto, que joga o jogo por si mesma. A parte no fetichismo é uma parte apenas, porém tem funcionamento próprio. Essa é a posição correta da parte que é o objeto pequeno a, que


é, em si mesma, uma parte, mas uma parte de quê? É melhor dizendo, a parte é uma parte, porém a parte. Esta é a posição correta.


Vemos na fragmentação haver muita resistência, desse jeito puro, destacando, passo a passo, todas as partes de corpo, como se ele quisesse obter, o ponto puro do sujeito, o sujeito de pura angústia. Vemos mais adiante, isso tudo em ameaças. Antes de fazer alguma coisa, comunicá-la ao sujeito. Essa é a própria operação da fantasia sadeana: obter que sua angústia caia em todo o corpo.


Podemos falar um pouco sobre o auto-erotismo


Geralmente os analistas depois de Freud têm a idéia que o supereu é uma censura confundindo isso com a lei social. Porém, o supereu freudiano é uma instância de humor que complica a vida humana, é que não está no nível da harmonia do ser humano, concebível depois como a instância que permite regularizar o isso. Na verdade, ao contrário, no obsessivo por exemplo, é a matriz de seu comportamento precisamente a-social, difícil de reduzir à ordem social. O supereu não é o mestre da escola, não é a polícia.


Efetivamente, como um ponto exterior, um ponto que mani


festa a divisão do sujeito, que impõe uma lei — devemos dizer — um lei absurda, uma lei que abarca a alma e o corpo humano.


Trata-se dos deveres absurdos que se impõem aos seres humanos, em sintomas e em suas fantasias.


verdugos


Os verdugos, na fantasia sadeana, não são sujeitos, não têm esse essencial, não têm a falta. Quer dizer também — sabemos isso dos perversos — recusar a castração porém, temos que ver isso encarnado na fantasia: estamos muito perto da clínica. Não é somente recusar a castração: essa fórmula quer dizer que a subjetivação, o funcionamento da subjetividade, está do lado do parceiro e que, o verdugo — como representação de Sade, como encarnação do perverso — não tem nada que ver com a castração, com o sujeito, com a barra etc. Na fórmula da fantasia o peculiar é que o perverso tem o lugar do objeto e não o lugar do sujeito.


análise de Jean-Paul Sartre em O ser e o nada; suas famosas páginas sobre o sadismo e o masoquismo.


O ponto do sujeito como tal representa como um Real no sentido lacaniano, como um pedaço, uma ponta de real. Isto é: inalterável na lei, nas regras que impõe ao sujeito e obtém que, precisamente o sujeito, surja, manifeste-se mais além de todo o patológico. Fazer dor ao sujeito é a sua maneira de obter o ponto puro do sujeito, mais além de todo o patológico.


Não há diferença entre o sádico e o masoquista.


Isso vemos muito bem numa obra que temos que ler, sobre as memórias da senhora Sacher-Masoch, Wanda Sacher-Masoch.


Porém, não é porque uma mulher chora, não é por essa razão que é uma masoquista; isto pode ser um meio de mandar.


Agora, os psiquiatras não são mais do que os distribuidores de medicamentos e vemos a queda da clínica psiquiátrica


Porque a operação própria da Crítica da razão prática é a separação entre o sujeito e sua dimensão patológica para obter o campo da ética sem objeto, o campo da ética pura.


a experiência analítica mesma que, ao contrário do sintoma, a fantasia é uma instância que não muda.


É verdade que o que Lacan chama “a selva da fantasia”, “a selva fantasística”, com a diversidade dos personagens possíveis pode reduzir-se durante uma análise, porém o número, a base permanece a mesma, isto é, no matema da fantasia a selva pode ser reduzida num fundamental, isto é, diferente da selva da fantasia. A fantasia fundamental não muda, é estática e, assim, eu opus a estática da fantasia à dinâmica do sintoma. Porque há, numa experiência analítica, uma dinâmica do sintoma: os sintomas mudam, ou devem mudar, na experiência da análise, mas, ao contrário, há uma estática da fantasia.


o estatuto do desejo na perversão, não é semelhante ao estatuto do desejo na neurose. É na perversão que o desejo merece a nomeação de vontade de gozo.


O neurótico é um sujeito que se coloca a pergunta de seu desejo, e ela constitui este desejo.
Entretanto, tem a resposta, o desejo perverso não é uma pergunta, mas uma resposta, pois o perverso sabe o que quer e isso deve ser a base da arrogância perversa, que o faz convencido de saber a verdade escondida.


O obstáculo no caminho até o gozo é o prazer.


Que podemos dizer do gozo? Que não é da dimensão do prazer, é excesso, uma infração do princípio do prazer, está mais do lado da pulsão de morte — nas palavras de Freud — do que do lado da vida.


a lei do prazer é fazer encurtar a vontade de gozo.


A fantasia permite ir mais além, até ao gozo. Permite atravessar esse obstáculo do prazer e os limites do prazer.


A dor é a primeira maneira de atravessar os limites do prazer, de produzir um excesso. Às vezes não sabemos se é prazer ou dor. O gozo mistura, pode explodir através da dor.


A fórmula lacaniana neste texto, a fórmula da fantasia: a fantasia faz o prazer próprio para o desejo. A palavra desejo não é a melhor neste lugar, é melhor dizermos a fantasia faz o prazer próprio para o gozo ou para o desejo como vontade de gozo. Permite relacionar prazer e gozo, permite ultrapassar a antinomia do prazer e do gozo, função clássica da fantasia.


O que é a função da beleza? Por que tem, no nosso imaginário, essa prevalência?


Para Lacan, é precisamente com esse efeito — a beleza máxima — que se produz o último obstáculo antes do horror.


Não devemos nos esquecer de que a intenção de Lacan não era — quando fazia seus seminários — publicá-los. Por vinte anos, todos esses montões de textos de investigações permaneceram no seu consultório, circulando um pouco através de seus discípulos, sem publicação. Para cada parágrafo nos escritos, há um montão de textos. Se podemos estudar isso por tanto tempo, é porque há uma concentração extraordinária de investigação.


Porém, é verdade que o discurso analítico — em sua estrutura lacaniana


— é fundada sobre a fantasia.


Esta pergunta que o analista tem o lugar do objeto a e o analizante é o sujeito, de uma maneira cega, podemos dizer que ela é fundada sobre a estrutura da fantasia.


É muito esclarecedor comparar os dois. Há uma razão precisa porque um verdadeiro perverso, um perverso decidido não entra na análise, porque ele já está na posição de pequeno a e, ao mesmo tempo, está, por si mesmo, na posição de sujeito suposto saber.


O perverso considera-se como um sujeito que sabe a verdade do gozo; considera o neurótico como um ser débil, que não sabe o que quer, que tem depressões… Há um desprezo do perverso pelas depressões neuróticas.


Podemos entender também por que no fim de análise um neurótico pode tornar-se analista, aceitar ser um instrumento com o qual um outro vai analisar-se. É aceitar ser um instrumento do desejo do outro. Ora, a neurose é, precisamente, recusar essa posição, recusar a fantasia. Desse modo o fim idealizado, essencial da análise de um neurótico, é tornar-se


Para o perverso, ao contrário, é muito difícil a constituição do sujeito suposto saber, pela convicção de que já sabe o que deseja. O fetichista sabe o que deseja; para ele o desejo não é uma pergunta, já é uma resposta.


O analista, quando funciona, não é um sujeito. O analista funciona mais como a causa da palavra do analisante como objeto que produz a divisão do no analisante.


o analista lacaniano é, em geral, um neurótico mais ou menos curado, um neurótico analisado. Há alguns que são psicóticos, porém que podem suprir esse lugar, às vezes com certas dificuldades.


O sujeito histérico é o sujeito submetido ao significante até no seu corpo. Lacan disse: o analista nunca deve retroceder frente à psicose. É necessário dizê-lo aos nossos colegas norte-americanos: o analista nunca deve retroceder frente à histeria.


A fantasia como Imaginário é o mais claro; foi assim que a fantasia como devaneio diurno foi descoberta na análise de Anna O. que o chamou “meu teatro privado”. E, quando se trata de fantasia, há essa dimensão, a selva da fantasia, com todos esses personagens que podem ir e vir; na colocação imaginária a fantasia depende sempre do estádio do espelho. Segundo, há também a dimensão simbólica da fantasia. É precisamente assim que Freud trata da fantasia em seu paradigma “Bate-se numa criança”, porque a fantasia é uma frase que podemos estudá-la a partir de certas modificações gramaticais, e nesse texto Freud distingue três tempos da fantasia, segundo transformações gramaticais. Porém, ao mesmo


tempo, há uma localização da fantasia no Real, enquanto, na experiência analítica, a fantasia é estática, não muda, é impossível mudar. Podemos falar em curar o sintoma, mas não a fantasia. É somente no fim da análise que se trata de mudança da posição do sujeito frente à sua fantasia. Esta mudança Lacan chama “a travessia da fantasia”, que não é curar a fantasia, mas ir ver a máquina que a constrói, o matema da própria fantasia, podemos dizer.


O Marquês de Sade não é um sádico como os outros, porque foi também um escritor. A questão seria se essa literatura é sublimação. Difícil questão, porém devemos pensar que ele sabia qualquer coisa de sua própria fantasia de maneira que poderia elaborá-la em obras que podem ser consideradas como obras de arte: as novelas de Sade são obras de arte.


A fantasia é alimentada sempre por uma só substância, a “substância do gozo”. Podemos curar os sintomas no sujeito, sem tocar de alguma maneira sua fantasia. Que, também, a fantasia é uma coisa muito difícil de pensar, porque é uma frase fechada e, ao mesmo tempo, são várias.


O ponto limite da fantasia apresenta-se assim: “não sei, mas…”. E podemos prosseguir falando da fantasia, por um fato clínico de observação fenomenológica da experiência analítica: a reticência.


Permite viver uma vida que tenha sua lógica, tenha um acordo entre o rigor de seu pensamento e a lógica de sua vida.


A categoria do sujeito não é técnica, e sim, ética.


É muito agradável, para quem vem de fora, ver a extrema atenção com que as pessoas, aqui, seguem o que estamos fazendo em Paris e, assim, podem contribuir para aquele trabalho.


não há padrões na orientação lacaniana.


Porém, se não temos padrões, temos princípios e precisamos formalizá-los.


São princípios da prática e transmitem-se através da própria análise, da supervisão. Não se os explicam.


Para dar boas-vindas a um novo paciente, tanto em Paris quanto aqui, podemos dizer-lhe, “Bem-vindo.”;


Outras vezes, há necessidade de encaminhar o paciente para um colega que vai ter por nós um sentimento de gratidão.


Em psicanálise, a primeira avaliação é feita pelo paciente, é ele quem primeiro avalia seu sintoma, pois chega ao analista fazendo a demanda baseada numa auto-avaliação de seus sintomas e pede um aval para a auto-avaliação. Começa aí, na demanda de avalizar, autorizando a auto-avaliação de alguém que quer ser paciente, o ato analítico.


gostaria de ser analista. Devemos responder que a demanda será anotada, conquanto possa trazer um outro desejo escondido, que fará parte do processo analítico.


Significam que o começo é adiado, o analista se demora em iniciar o processo até que se satisfaça para poder autorizar a demanda de análise e, conseqüentemente, avalizá-la, segundo razões precisas e claras. Em caso contrário, não se deve avaliar tal demanda.


Os três níveis


o diagnóstico. Ele deve ser capaz de concluir, de uma maneira prévia, algo a respeito da estrutura clínica da pessoa que veio consultá-lo. Deve responder, a partir das entrevistas preliminares, às seguintes perguntas: trata-se de um caso de neurose? de psicose? ou de perversão? E não cabe dizer que há uma certa neurose, com algo de perversão que pode beirar a psicose. Do ponto de vista lacaniano, não se pode pertencer a duas estruturas, não há recobrimento de estruturas.


Há casos em que é difícil diferenciar as estruturas. Às vezes, depois de uma entrevista diagnóstica preliminar, o psicanalista fica em dúvida, e isso pode levá-lo a recusar a demanda, a prolongar o tempo das entrevistas, ou, ainda, a assumir um risco mais ou menos calculado.


é fundamental para o analista que ele saiba reconhecer o pré-psicótico, e psicótico, cuja psicose ainda não foi deflagrada.


Por essa razão, na prática lacaniana da psicanálise é necessário que o analista, embora possa não lidar com a psicose, tenha um saber profundo e extensivo de sua estrutura.


Quando devemos encaminhar um paciente ao hospital psiquiátrico e quando não? Depois de pensar, Winnicott respondeu-lhes: “É fácil: se o paciente aborrecê-lo, encaminhe-o ao hospital psiquiátrico, caso contrário, conserve-o.” Parece piada, mas não é. É a conseqüência, digamos, da posição ética, não apenas de Winnicott, mas daqueles que pensam que a contratransferência deve ser operativa, na experiência analítica.


Não basta ter flexibilidade ao desejo do Outro para ocupar o lugar de analista; pode ajudar, mas não é o bastante.


fenômenos psicóti


  1. Fenômenos de automatismo mental. Sem pretender desenvolver tal assunto, que pode ser encontrado em minha Conferência “Psicanálise e psiquiatria”, publicada no número 1 de Falo, vou dizer que é a irrupção de vozes, de discursos alheios na mais íntima esfera psíquica. São muito evidentes quando a psicose já se desencadeou. Contudo, podem estar presentes, em silêncio, durante anos, com apenas uma ou duas irrupções na infância ou na adolescência, sendo por isso necessário ao psicanalista centrar-se nessa irrupção.

Não só ao nível corporal, mas também mental, a empatia, a simpatia histérica pelo desejo do Outro, pode ser confundida com o automatismo mental. Ou a possibilidade histérica de tomar emprestado os sintomas psicóticos, de pessoa da família ou do círculo de amizades. É possível que um sujeito histérico traga para a consulta traços de outro, e aí se coloca para as entrevistas preliminares o problema de distinguir entre o que pertence ao sujeito em questão e o que pertence ao outro. Há histéricos que são psicólogos, psiquiatras, e, quando começam a apresentar sintomas psicóticos, o saber que têm sobre isso pode fazê-los confundir conhecimento com sensações próprias. Há ainda as alucinações do histérico, que nada têm a ver com as do psicótico. É necessário distingui-las.


O obsessivo, sempre retardatário, necessita de um estado de urgência e de pânico para a entrada em análise, e, muitas vezes, apresenta-se com traços aparentemente psicóticos. Aí é possível haver equívoco e confundir-se obsessão com automatismo mental.


Pode-se, também, confundir psicose com perversão. Para se certificar da clínica perversa é necessário, mas não suficiente, basta questionar o paciente sobre sua vida sexual. Devemos escutá-lo muito bem quando fala de sua vivência, quando diz, de forma evasiva, “tive algumas experiências homossexuais mas já terminei com isso…”. Contudo, não é suficiente tal escuta, pois a estrutura perversa não é o mesmo que a conduta pessoal perversa, mesmo porque sendo o gozo sexual, perverso, no sujeito o desejo sexual pode perfeitamente ser neurótico.


Não é freqüente o verdadeiro perverso vir à análise, pois ele sabe tudo o que há para se saber sobre o gozo. Contrariamente, o neurótico com um gozo perverso vem fazer análise. Não apenas porque não está satisfeito com a perversão, porque ambiciona ser curado, mas sobretudo porque se pergunta sobre o sentido de seu de


sejo, através de uma demanda para reconciliar-se com seu lado perverso, e não para normalizá-lo.


uma questão ética para o analista saber se pode aceitar a demanda do homossexual que não quer corrigir a homossexualidade, mas viver melhor com ela.


O verdadeiro perverso não é freqüente, e se trai quando vem pedir formação de analista, a fim de satisfazer a pulsão voyeurista de conhecer e retificar o gozo dos outros.


Lacan dizia que só a histeria é um tipo clínico fundado no discurso


analítico


Aludir à “ignorância pura” provocou risos. A ignorância tem função operativa na experiência analítica e não podemos desfavorecê-la. Trata-se, porém, da ignorância douta, de alguém que sabe das coisas, mas que, voluntariamente, apaga até certo ponto seu saber para dar lugar ao novo que ocorrerá. Eis uma diferença muito importante para distinguir a posição do analista antes e depois do limiar da análise, antes e depois da fronteira do discurso analítico. A função operativa da ignorância é a mesma da transferência, a mesma da constituição do sujeito-suposto-saber.


A questão fundamental do sujeito em análise é: “tenho direito a quê?”. Assim o neurótico pode recusar-se a abandonar o que o impede de gozar, pois, inconscientemente, ele não se sente com esse direito, o qual é sempre uma ficção simbólica, embora operativa no mundo, porquanto o estrutura.


Desta maneira, ir dos fatos aos ditos não é suficiente, um segundo passo essencial é questionar a posição tomada por quem fala quanto aos próprios ditos; e a partir dos ditos localizar o dizer do sujeito, retomar a enunciação — categoria buscada em Jakobson por Lacan — lugar em que está o enunciante frente ao enunciado.


Nem sempre é um convite para que o analista seja inteligente, pode ser que o sujeito necessite de que o outro seja um tonto, pois com isso ganha segurança. Assim, não temos de parecer demasiado inteligentes, um certo ar de estupidez, pode, por vezes, fazer maravilhas.


é preciso permitir, sobretudo nas entrevistas preliminares, que ele minta, para perceber alguma antinomia na lógica própria de seus ditos.


Um neurótico obsessivo, por exemplo, não pode desejar uma mulher, se ela não tiver um defeito. No primeiro momento, tenta valorizá-la, mas a condição para implementar seu desejo está focalizada, num pequeno defeito, não visível à primeira vista na neurose obsessiva, depreciar o objeto de amor é condição própria do desejo. Isso faz parte do desejo neurótico. Às vezes, vemos casais, talvez os mais sólidos, fundados sobre o fato de ser depreciada a esposa pelo homem, porque encarna a marca negativa de seu desejo. Essa mulher cri


ticada diariamente, na experiência analítica, revela-se objeto de amor intenso.


Uma coisa é o dito como fato, e outra é o que o sujeito faz do que disse


Não há uma só frase, um só discurso, uma única conversa, que não traga a marca da posição do sujeito quanto ao que ele diz.


Por exemplo, quando um epistemólogo como Karl Popper toma a psicanálise e diz, “os analistas não têm provas científicas, ‘sim’ ou ‘não’, a verdade está sempre com eles”. Popper está certo, pois, no registro da objetividade, isto não tem sentido, se não for aí introduzida a função do sujeito.


Você o disse, eu não fiz você dizê-lo


Deve-se apresentar ao sujeito o seu próprio dito, o mesmo que dizer “coma o que disse”, pois não se come apenas livros como no Apocalipse de São João; também se come as próprias palavras em análise, ainda que não sejam um prato saboroso.


Para marcar a posição subjetiva, que no direito não deve mudar, instituiu-se a escritura, porque é sempre possível fazer-se um contrato e, no dia seguinte, chegar-se dizendo: “Por causa de minha análise minha posição subjetiva mudou”.


O que Freud chama de Verneinung é justamente dizer e negar, dizer e repetir, ou dizer e confirmar.


“Para cada cadeia significante questiona-se a atribuição subjetiva.” Trata-se de que não há uma só cadeia significante para a qual não se pergunte do sujeito, de quem fala, e de que posição fala.


“A estrutura própria da cadeia significante é determinante na at


ribuição subjetiva, que, em geral, é distributiva, ou seja, com várias vozes.”c Esta frase é um axioma, que não vale somente para as psicoses, mas para toda cadeia significante, e para cada qual colocar a questão em termos de citações.


Ao analista, não lhe cabe participar emocionalmente das situações afetivas do paciente, demonstrando sempre que compreende e sente ternura. De


monstrar incompreensão frente aos afetos do outro por parte de um analista é uma posição sumamente importante, e, demonstração de incompreensão em geral, provoca reproches de desumanidade.


Permita-me perder essa mulher de quem gosto, como se ela fosse uma merda


há muitos casais formados da aliança entre uma histérica, sem ponto de referência, e um neurótico obsessivo, que se sacrifica para constituir-se como tal.


Que você quer dizer com isso?”. Esta é a única pergunta que dimensiona o sujeito-suposto-saber, pois mostra ao paciente que não o entendemos apenas por simpatia, e que ele mesmo não se entende


O que pode ser apresentado por “ninguém me entende” está na realidade, fundado sobre “quem não se entende é o próprio sujeito”. É o que significa a associação livre, o auto mal-entendido, e é o motivo da paixão analítica ser a da ignorância. A simpatia e a empatia, tão importantes para a escolha inglesa de psicanálise, não têm lugar na análise propriamente dita, porque o alívio vem justamente do mal-entendido.


Lacan diz que o mais importante é não entender o paciente.


o conselho de “não compreender” é conseqüência, unicamente, do fato de não haver metalinguagem, isto é, de não se poder explicar uma frase a partir de outra definitiva, sem que se reproduza e se continue a possibilidade de nova posição subjetiva.


Assim, localizar o sujeito consiste em fazer aparecer a caixa vazia onde se inscrevem as variações da posição subjetiva. É como pôr entre parênteses o que o sujeito diz, e fazer com que ele perceba que toma diferentes posições modalizadas para com seu dito. Às vezes, um sujeito poderá dizer: “Não me importa o que diga.” É o caso de ver se está sendo verdadeiro ou não. Um sujeito para quem as palavras não importam não nos dá certeza de que possa fazer análise, mas se isso significa “o que me importa é o que você vai dizer”, então muda tudo.


Que é o sujeito? É essa caixa vazia, o lugar vazio onde se inscrevem as modalizações, que encarna o lugar de sua própria ignorância, e também o fato de que a modalidade fundamental que deve surgir, através de todas as variações, é a seguinte: “Eu (o paciente) não sei o que digo.”


o consultório é também uma Boca Maldita;


Na análise não se dá bençãos, “ensina-se” a dizer bem aquilo de que se fala, aprende-se um bem-dizer.


pode contribuir para a aprendizagem do bem-dizer, pode introduzir o sujeito num acordo entre o dito e o dizer, para aproximá-lo de dizer o que deseja, numa concordância ideal.


Que é superficialidade num texto? É não se poder mudar de posição subjetiva, haver embaraço entre esta e o dito. Existe apenas nos textos pobres; uma vez entendidos, assim o serão sempre. Em Lacan, inversamente, sente-se que as palavras não são coisas e que introduzem uma chamada para cada sujeito inventar sua própria maneira de ler.


Quando me perguntou quanto deveria pagar, respondi: “Nada”, e acrescentei, “Pense e volte dentro de uma semana


Isto me parece muito paradigmático, um pedido em três tempos articulados por uma lógica. Primeiro tempo: fazer o pedido. Segundo tempo: anular o pedido feito. Terceiro tempo: fazer de novo o pedido anulado, ou seja, anular a anulação. Podemos dizer que é uma redução à estrutura da neurose obsessiva, porque esta não é apenas sintoma de dúvida ou oscilação, é a impossibilidade de decidir, ou a pressa com a divisão do desejo, de tal maneira que este atravesse um momento de ser anulado, e as coisas só possam se iniciar no terceiro tempo. Sempre procurei saber por que Lacan dizia que para constituir a repetição três tempos são necessários. Foi através desse paciente que isso ficou claro para mim. É necessária uma afirmação, uma anulação, e a anulação da anulação. Lacan diz ser a maneira de recuar diante do próprio desejo.


E, para completar, houve o testemunho de que as palavras contam. Nessa análise, tinham peso e preço.


Essa maneira de oscilar entre o sim e o não é observável, ocasionalmente, na conduta obsessiva


O sujeito é a própria perda, jamais contável em seu próprio lugar, ao nível físico, ao nível da objetividade.


É questão de consentir preocupar-se com coisas pequenas, como esquecer chaves ou nomes, recordar coisas da infância, dar atenção a asneiras; tudo isso é uma decisão do paciente que lhe diz respeito, de ordem ética. Ele pode achar que preocupar-se com o que lhe diz respeito, mesmo sendo minúsculo, vale a pena. A ontologia é concernente aos seres e a ética à falta-a-ser.


No que se refere ao neurótico, a sua paixão é justificar a própria existência. A palavra “justificação” é, propriamente falando, oriunda do direito.


Eis por que o verdadeiro perverso não entra em análise, não quer prestar conta a nenhum Outro.


Lacan chamou retificação subjetiva à passagem do fato de queixar-se dos outros para queixar-se de si mesmo.


Há sempre razões para nos queixarmos dos outros. É um ponto efetivamente muito refinado a entrada daquele que diz “não é minha culpa”. Inversamente, o ato analítico consiste em implicar o sujeito em seu queixume, em seu próprio motivo de queixar-se. É um erro pensar que em análise o inconsciente possa ser o responsável pelo sofrimento de alguém: seria como destituir o sujeito da responsabilidade.


Muitas vezes supõe-se que, em análise, todo o mal vem do que ocorreu muito antes, no relacionar-se com os pais, com o irmão mais velho, com a irmã mais nova. Desse modo, porém, o sujeito ficaria despossuído de seu estatuto. Nós analistas sabemos muito bem que não é assim. Ao contrário, dá-se a retificação subjeti


va, quando, em análise, o sujeito aprende sua responsabilidade essencial no que ocorre. O paradoxo é o lugar da responsabilidade do sujeito ser o mesmo do inconsciente.


do psicanalista que recebe a queixa da falta de justificação para o existir


Um paranóico sabe por que existe, tem uma causa para a existência, está certo de mobilizar a atenção universal.


O presidente Schreber sabe que a sua é para que se transforme em mulher e, com Deus, produza uma nova humanidade. Quando alguém tem uma missão como esta, podemos dizer que sua existência está justificada, e, portanto, sua paixão não é justificá-la.


O verdadeiro perverso, por sua vez, sabe muito bem que existe para gozar e o gozo lhe é, em si mesmo, uma justificação da existência. O neurótico deve inventar uma causa, uma boa causa para defender que possa tapar-lhe o vazio em que consiste.


Se o sujeito não pode mais suportar o ordenamento prévio de seu mundo, se a causa lhe faz falta e se, como dizia Lacan, não há nele um desejo decidido, é melhor não aceitá-lo na experiência analítica, pois a associação livre vai dissociá-lo da causa inventada para justificar-lhe o existir, vai levá-lo a questionar.


Atravessar a falta-a-ser implica, contudo, encará-la, questionar ou perder as razões de ser, e isso, via de regra, põe o sujeito numa situação muito difícil. Nesse sentido, quando ele não quer colocar certos elementos em jogo, na análise, as coisas se limitam. Daí o interesse que desperta a relação analista-analisando, quando não pertencem à mesma comunidade, pois, em caso contrário, o mal-entendido se estende a todos, havendo setores, em que as pessoas podem se entender. Antes de praticar a análise, eu não compreendia como é possível analisar uma pessoa de outra língua, tal a importância dos significantes, a ponto de obrigar o analista a conhecer tudo. Lacan dizia, no entanto, que essa situação possibilita o cruzamento das culturas.


Ao mesmo tempo, porém, a diferença de cultura e de comunidade, além de não permitir que possamos nos entender, instala um certo mal-entendido e, com ele, um questiona


mento de tudo o que é aceito implicitamente.


O exemplo, para mim esclarecedor, foi o ocorrido numa cidade ao leste da França, perto da Alemanha, na Alsácia, em Estrasburgo, onde, há muitos séculos, uma importante comunidade judaica se instalara. Interessando-se pela psicologia, solicitaram de Lacan, numa certa ocasião, que indicasse um analista, dentre os seus alunos, para ir regularmente, duas vezes por semana, até lá, analisar os psiquiatras e psicólogos que quisessem fazer análise. Lacan escolheu seu único aluno egípcio para ir analisar os judeus de Estrasburgo. Há, aí, uma lição extraordinária: imediatamente se faz do analista um Outro sem nenhum entendimento de comunidade preestabelecido. Ocorreu entre o analista e os analisandos uma transferência extraordinária. Foi a melhor maneira de pôr em questão todas as suspeitas implícitas do sujeito, alguns elementos para ele inquestionáveis, onde não se distinguem enunciado e enunciação.


Tudo o que você disser pode ser usado contra você mesmo”. É o melhor lugar para se observar as relações entre o dito e a posição subjetiva, pois é aí que se deve garantir um vínculo imutável entre eles.


Na psicanálise, ao contrário, nada do que você disser pode ser utilizado contra você, é a regra da associação livre, outrossim, você está, continuamente, obrigado a testemunhar contra si.


O sujeito histérico põe em questão o significante, o mestre, que vai buscar para demonstrar-lhe que, de sua posição de falta-a-ser, é mais potente que ele. Foi por essa razão que me encantou a frase da pseudo-esquizofrênica que o analista americano destacou: “Não há coisa alguma que você possa dizer para curar-me.” Esta frase responde exatamente à fórmula S1. É uma afirmação, uma assinatura clínica da histeria, pois enquanto o sujeito se coloca em situação de absoluta falta espera do outro algo que ele supõe não ter, mas tem.


Constitui o Outro como mestre e lhe demonstra que ele (o Outro) é incapaz de fazer qualquer coisa por ela, a qual, a partir da própria falta-a-ser, é mais poderosa que ele, apesar de tudo o que tem. É emblemático da posição da histérica.


Pareceu-me não se tratar de uma alcoólatra, mas de uma histérica que bebia; foi uma decisão ética, mas de muita responsabilidade, admiti-la em análise e dissociá-la do significante que lhe permitia não beber. Admiti-la seria reabrir a distância entre o significante e ela própria. Depois de dois anos, recomeçou a beber. O primeiro resultado da análise não foi de efeito terapêutico, mas, ao contrário, contraterapêutico.


não se há de ser vaidoso de sua riqueza ou reprovar o outro por sua pobreza. Trata-se de um princípio moral de alto nível. O sujeito histórico, porém, vai além. É ele quem nada tem, restando-lhe apenas o vazio. De seu próprio vazio, do lugar de sua pobreza radical, exprobra a boa fortuna do Outro.


acordo em que o caso, apresentado por Freud, é de demência paranóide, uma categoria kraepeliniana, que em termos de Bleuler pode se situar como intermediário entre a paranóia e a esquizofrenia.


Perceber que nada em sua existência é natural, é como sintomatizar seu mundo integralmente.


Deixou de beber e lembrou-se de um acontecimento envolvendo seu pai: ela estava chorando, quando ainda muito pequena, e ele deu-lhe um pouco de álcool, para animá-la. Recorrer ao álcool, durante boa parte de sua vida, relacionava-se a esse fato, embora o centro do problema fosse o pai. O álcool tinha seu valor, unicamente, como aquilo que lhe foi dado pelo pai, num momento de pânico.


“o real” para significar, efetivamente, algo excluído da linguagem, internamente excluído.


Quando se encontra algo impossível, pode-se dizer, “isso é real” e localizá-lo como excluído, mas dentro do campo da linguagem. A isso Lacan chamou “êxtimo”, o íntimo, excluído.


A retificação freudiana consiste em fazê-la perceber que ela própria se coloca como assediada, tal postura responde a seu desejo. Então, é o mesmo fazê-la perceber sua responsabilidade e fazê-la perceber seu desejo, que ela não conhece. Era fazê-la perceber a situação na qual se encontrava, e que somente seria conhecida a partir de seus ditos, nos quais se apresentava como vítima do desejo do Outro paterno. A retificação subjetiva consistiu em fazer surgir que o lugar de agente em sua vida era dela; ela quem agenciava a história.


Logo que se inicia, não se tem muitos pacientes, e eu, então, tinha um longo tempo para as sessões.


Progressivamente, experimentando, foi-me parecendo impossível não cortar as sessões. Pontuar implica em cortar as sessões; do contrário, a pontuação fica completamente no ar, uma apagando a anterior. Para que ela se inscreva, que seja permitido ao sujeito localizar-se, fixando-a, é necessário cortar a sessão.


Sob a demanda, há sempre um desejo que corre, , a mesma estrutura de , sob um significante corre um significado


Lacan acha que o desejo do analista deve constituir um x para o paciente, oferecendo-se para interpretá-lo.


Interpretar abre a questão do desejo: “O que quer dizer?”, “O que ele quer?”, “O que deseja dizer?”


mas há aí um redescobrimento vivo do valor da prática lacaniana: o corte e a oferta para voltar. O analista pode-se ter como um técnico da enunciação e é melhor que não sinta angústia na experiência.


a palavra retificação tem aí um ar pedagógico.


Certa mulher eminente, chefe de um departamento universitário, muito ativa na vida, só conseguia se relacionar com homens casados. Era necessário saber que o homem tinha mulher, cotidiana e rotineira, para sentir-se segura de estar na posição da mulher desejada, estar como um mais-de-mulher.


Há também o exemplo que se refere à mulher, cuja fantasia era pensar que os homens com os quais se relacionava eram possuídos, no ato sexual, por outro homem que fazia o que ela não podia fazer. Ou seja, nessa variante de função, a outra mulher era encarnada pelo próprio homem em condição feminilizada — necessidade freqüente da mulher, de relacionar-se com um homem portador de um traço qualquer de feminilidade —, demonstrando que a chave da função da outra mulher não é algo que permita dispensar inflexões e variações.


O que não está inscrito no simbólico, reaparece no real.


modo de gozar do inconsciente, na medida em que determina o sujeito


toxicômano


A psicanálise é a experiência do analista com uma pessoa e torna-se difícil em sendo falada para multidões.


falar aos desconhecidos de Belo Horizonte exatamente como em Paris, onde falo a um público conhecido e familiarizado com os escritos fundamentais da psicanálise.


seria necessário ao homem voltar à natureza, pois todas as enfermidades humanas eram conseqüência da cultura


Freud, entretanto, não fala em coação, mas em Verdrängung, recalcamento, que é diferente de repressão social. Para ele a idéia de Verdrängung supõe haver censura, uma barra que impediria o inconsciente de aparecer ao nível do consciente.


pulsão sexual, tem o sexo por objetivo, que pode satisfazer-se com outros objetivos, como por exemplo a cultura. Encontramos aí uma substituição.


Lacan em um seminário vai dizer: “não estou fazendo amor, estou falando a vocês. E falar a vocês pode dar-me o mesmo gozo que fazer amor.”


a sexualidade pode satisfazer-se com palavras, com o belo, com os valores mais altos da cultura.


O gozo sexual pode satisfazer-se com o significante, e, por esta razão, a psicanálise é possível.


Um termo substituído por outro pode significar que o outro foi barrado, anulado, suprimido completamente.


Lacan, no texto “Os complexos familiares”, refere-se a Durkheim e à sociologia da família, porque lhe parece essencial para a psicanálise afirmar que a família é uma metáfora da biologia. O desenvolvimento do ensino de Lacan inclui também as estruturas elementares de parentesco de Claude Lévi-Strauss


Há, na psicanálise, a presença constante da família. Freud criou a Associação Internacional ao redor de sua família, da mesma forma que a Fundação do Campo Freudiano estava nucleada na família de Lacan.


o papel fundamental que pode ocasionar nos filhos a visão dos órgãos sexuais dos pais.


o sujeito é forçado ao enamoramento quando encontra a fórmula idealizada do objeto sexual.


Que os objetos primariamente libidinizados, que encontramos no espaço familiar, possibilitam condições para o amor e a eleição do objeto. O trabalho de análise visa eleger um novo objeto. A novidade introduzida por Freud não é tão teórica, é um novo objeto oferecido ao amor: a psicanálise, que permite elucidar a fórmula da condição do amor, ou seja, a psicanálise, tanto quanto a família, interdita as relações sexuais.


De acordo com Freud, transforma-se em traumatismo quando o sujeito tenta dar sentido ao ato sexual e não consegue.


Através da relação dos pais pode-se deduzir o que é a mulher e o que é o homem, ou ainda como se dá a relação entre o homem e a mulher.


Na experiência analítica, o analista não trabalha, apenas controla a experiência, toma a responsabilidade do ato analítico, mas o trabalho de decifração é feito pelo analisando, que paga ao analista pelo trabalho que ele (analisando) faz.


O analista se sente aliviado no lugar de mestre, porque, efetivamente, reinstala uma função inconsciente essencial, fazer trabalhar. Na verdade, ele não ocupa o lugar de mestre como mestre, e não trabalhar de maneira adequada na experiência analítica é um aprendizado difícil. Muitos analistas não podem suportar essa posição e começam a falar no lugar dos analisandos, porque se sentem culpados. É melhor dar provas de trabalho fora da situação analítica.


O tema da transferência maternal é desenvolvido pelos kleinianos, principalmente Winnicott.


o analista não se faz de pai, nem de mãe, mas de objeto a, como na fórmula da fantasia fundamental.


o Nome-do-Pai metaforiza o desejo da mãe.


As crianças são afastadas do seio materno e são enviadas ao mundo: escola, universidade, forças armadas, por uma lei comum.


Para a menina, no entanto, o objeto fundamental pode ser o pai, e dessa maneira é a mãe quem tem função de interditora.


Nome-do-Pai é uma função que para ambos os sexos representa o obstáculo à frente do objeto fundamental.


O sujeito do inconsciente não é uma criança, nem tampouco um adulto, mas o sujeito do desejo inconsciente, que não conhece tempo nem idade e permanece o mesmo durante toda a vida.


Entretanto, a interdição proveniente da análise não vem de nenhuma proibição do analista, mas deste imperativo único: fale. Fale de qualquer coisa.


uma substituição metafórica do gozo pela linguagem.


O fato de estarmos situados na linguagem nos adoece, nos coloca fora da natureza. O tratamento dessa enfermidade se dá através da própria enfermidade, pelo ato da palavra. E a que conduz o tratamento analítico? À posição do analista, a uma posição silenciosa no campo da linguagem. Por esta razão, o analista tem sempre um sentimento de culpa.


O sujeito goza do seu próprio corpo. É difícil pensar que alguém possa gozar do corpo de outro. De certo modo, o gozo é sempre do próprio corpo.


O trabalho de análise tenta subverter o Estado de poder, porque quem tem o lugar de mestre é quem não fala, e quem trabalha é quem tem de falar.


Trata-se de subverter a relação de poder, não até que desapareça, pois quem dirige o tratamento é o analista. Dirige o tratamento de maneira tal, que deve obter a destruição de seu próprio poder, da transparência. A análise é o único vínculo social onde quem tem lugar de mestre tem como objetivo a destruição do seu próprio poder. Deve permitir ao sujeito esclarecer a condição inconsciente do amor e separar-se dela. Quando isso se realiza, está produzido um autêntico final de análise. Posso responder, sem modéstia, que o único estado sem poder do ser humano é o final de análise.


Ao contrário, nos consultórios de psicanálise as portas devem estar fechadas, porque implica em uma intimidade que não deve ser dita a todos.


A palavra ética tem um fundamento: não rejeita o desejo, vai em sua direção.


a ética da psicanálise diz que se alguém é culpado, é de não ir em direção a seu


Lacan, a propósito dos militares franceses, vai dizer que se alguém elege a carreira das armas, da coragem profissional, o faz por medo das mulheres.


Estou, com certeza, falando para vocês, que podem me ver e ouvir no presente. Ao mesmo tempo, porém, devo confessar que falo para mim mesmo, porque continuo meu trabalho.


Quando as coisas são realmente sérias, não necessitam de cultura universitária, não necessitam de conexões com a cultura geral para serem bem sentidas


Em Lacan, tanto o pai quando a mãe (esta no sentido próprio da metáfora paterna) são tratados como significantes.


Só consegue fazer passar o fato de que cada sexo, cada sujeito relaciona-se com a função do falo de maneira própria.


É o que Lacan chama “sexuação”, exatamente significantizar o sexo para cada sujeito; há, então, a margem que propicia sentir que, sob este aspecto, há liberdade, sentimento proveniente da significantização, que permite a Lacan falar de eleição do sexo significantizado, que nos parece extraordinário.


gozo está proibido a quem fala.


A nominação apenas já é morte. Quando desaparecermos como viventes, que vai ocorrer a cada pessoa desta sala? Que vai restar? O que não vai mudar em nada é o significante que a representa, pois já era antes de seu nascimento. Seu nome fora eventualmente decidido antes dela nascer, ou pelo menos uma parte dele, o nome de família, que é imortal, porque o sujeito do significante não está vivo, está morto pelo significante, que traz a questão de saber se vai ou não representá-la para qualquer outro. Mas isto é uma nova história.


Ao mesmo tempo, não podemos estar seguros de que tenhamos o direito de direcionar as leis de nossa cultura para uma muito distinta, e nisso há algo que nos questiona profundamente.


O problema é que o gozo, o processo de intercâmbio, nunca termina e podemos constatar que há algo do gozo e no gozo que não se traduz em significante, e Lacan o chama objeto pequeno a, resto da conta do gozo no significante.


É como se Mefistófeles houvesse proposto à espécie humana trocar o gozo pelo significante, pela linguagem. Seria um lindo conto a desenvolver: Mefistófeles, propondo a cada espécie abandonar seu gozo para desfrutar da cultura; dizendo ao peixe, à baleia que abandonassem seu gozo na água, do qual não sabemos muito, mas talvez tenha a ver, quanto ao peixe, como abrir e fechar a boca, como nós, porém sem emitir os sons da fala e, quanto à baleia, com o prazer de produzir jatos. Tanto a baleia como o peixe continuam seu gozo. Propondo à ostra abandonar sua pérola para, em troca, falar. Embora a ostra possa estar muito bem preparada para falar, ela e cada espécie animal rechaçam a proposta, mas o macaco, o estúpido macaco, decide trocar seu gozo pela linguagem.


Esta série de três fórmulas nos permite entender como Lacan lê Freud.


Lacan, em seu retorno a Freud, tratava de decifrá-lo e metaforizá-lo novamente.


Freud, nas primeiras tentativas de descrever o Édipo, em seu “Projeto para uma psicologia científica”, tenta apresentar, de maneira cronológica, como se dá no desenvolvimento do ser humano o gozo que vai se per


dendo a cada etapa. Em Freud, libido sexual é a palavra mais próxima de gozo.


Utilizamos o símbolo a para indicar que o mais-de-gozo é algo diferente do significante, que resiste à “significantização”.


Lacan dirá, então, que Sócrates foi histérico, pois dizia: “eu não sei nada” e andava pela cidade questionando os que pretendiam saber, no propósito de demonstrar que este saber era inconsistente. As pessoas não sabiam o que estavam dizendo e, assim, eram obrigadas a trabalhar para produzir um saber.


Algumas histéricas se tornam pobres, não ganham dinheiro; e a feminilidade parece estar vinculada por essa posição, pois é a forma de ter de pedir o que não tem, a fim de manter-se.


Nota-se a diferença no esquema do sujeito perverso, porque, segundo Lacan, ele conserva do seu lado o mais-de-gozo, mas não a função subjetiva, colocando-a no Outro. É paradoxal, mas, no texto “Kant com Sade”, Lacan interpreta a posição de Sade como aquele que quer se fazer objeto e, a partir dessa posição, coloca sobre o Outro o peso da barra. Isto é difícil de se entender no esquema de Lacan. O sujeito põe a função subjetiva no Outro, ou seja, busca nele sua falta-a-ser. Há exemplos lindos, como assinala Lacan, em que o torturador quer destruir a vítima e esta resiste. Usualmente, mulheres lindas são vítimas


A experiência analítica consiste em fazer com que o sujeito encontre seu ponto de horror, aquilo que nos sonhos o faz despertar para não se deparar com o horror. Os pesadelos são produzidos nos sonhos que vão além do ponto em que o sujeito deveria ter despertado. Por esta razão, Lacan diz que o despertar é o continuar dormindo com olhos abertos, para evitar o ponto do real que pode ser encontrado no sonho.


Schreber, deus não se contenta em ter um animal em seu lugar. Exige-lhe o sacrifício da virilidade e sua transformação em mulher. Schreber pontualiza muito bem que o deus que encontrou não respeita a ordem do mundo, apesar de sua tentativa em fazer com que ele compreendesse que um presidente da segunda jurisdição do Tribunal Alemão não poderia se transformar em mulher, pois isso criaria algo de indecente e em desacordo com a ordem simbólica do mundo. Como lhe falta o gozo, ele pretende obtê-lo de Schreber. Isto justifica a definição de Lacan, o paranóico identifica o gozo no lugar do Outro.


A condição de amor do Outro é aceitar a lei de seu significante para receber seu amor.


Freud fala de perceber, de substituir, mas jamais de suprimir o Lust Prinzip.


Quando Lacan diz que o analista está no lugar do objeto a, aponta que este não é o representante do princípio da realidade, mas, ao contrário, está no lugar ao redor do qual se move a palavra do paciente, no A.


Quando o sujeito procura se manter no nível da realidade, é porque há algo escondido.


Patologia da ética


A demonstração própria da histeria é a impotência do saber. O oferecimento da histérica é algo do tipo “goza de meu enigma”. E assim é Lacan.


O encanto consistia em ser, para ele, uma desconhecida, mas a sensação de ser desconhecida foi desaparecendo a cada dia vivido em sua companhia.


Ela recorreu à análise porque estava cansada de precisar manter-se desconhecida para seu parceiro.


Usar todos os seus significantes talvez seja o resultado, no âmago de cada um, de uma certa identificação com ele. Mais ainda: talvez seja um obstáculo, um obstáculo ao trabalho.


Quando utilizamos a palavra “desejo”, designamos algo não-dito, algo que não será cifrado; daí a necessidade de situá-lo no campo da linguagem.


Se nos depararmos com a questão: que significa o significante?, a resposta será: o significante é o que suscita a pergunta que significa isto?. Cada vez que nos perguntamos, o que significa isto?, isto é um significante.


aquilo que alguém quer dizer nunca é dito da primeira vez. Precisa ser dito uma segunda vez, como se a primeira vez não pudesse ser dita, como se a primeira vez fosse dita lateralmente. Para dizer verdadeiramente que isso significa é necessário dizê-lo outra vez, e de outra maneira.


Pelo simples fato de me dirigir ao Outro, estou lhe pedindo. O pedido mínimo é o pedido de ser escutado. Pelo simples fato de me dirigir ao Outro, careço de algo que o Outro tem. É o Outro quem realmente é. Se falo ao Outro, há, do meu lado, falta de ser, falta de ter, e o Outro é todo poder.


Por essa razão Lacan pôde afirmar a equivalência entre o sujeito que quer dizer e o sujeito da necessidade.


Pelo simples fato de me dirigir ao Outro, obrigo-me a usar sua linguagem, de tal modo que o que digo nunca é o que quero dizer. Por este simples fato, não é isso. Trata-se do que Lacan transmitiu muito bem quando disse que o significado é sempre o significado do Outro, não o meu. Podemos lê-lo assim: “ce n’est pas” (não é isso).


Deduz-se daí a proposição lacaniana de que toda comunicação é um mal-entendido, e que isso não é possível ser


Lacan tentou solucionar o princípio da análise infinita a partir de um significante matemático, através dos anos e de maneira distinta, oferecendo uma saída da análise pela via do matema. Uma saída a partir de um elemento a respeito do qual a pergunta que significa isso? não tem lugar, não é possível de ser enunciada.


É preciso dizer que cada vez que alguém interrompe uma análise — e se separa de seu analista — produz uma cicatriz que pode ser vista quando, eventualmente, se retoma a análise, mesmo que não tenha havido final: a perfeição de uma análise.


O desejo designa sempre infelicidade, a própria palavra é uma nostalgia. O desejo é articulado a uma falta, mas do lado da pulsão há uma felicidade que não conhece a si mesma, mas é felicidade.


De certo modo, é isso o que chamamos interpretação: falar sem pedir. É difícil interpretar sem pedir o consentimento do paciente. Interpretar é pedir uma resposta à pergunta o que queres?.


tu não sabes o que queres dizer. Na experiência analítica, o que tu queres dizer e o que tu não sabes dizer estão vinculados.


O recalque é o desejo de não-saber, e o desejo é sempre de não-saber.


Na linguagem de Lacan, quando o sonho se aproxima do real desejado, o sujeito desperta para continuar a dormir. Creio que é preciso tomar isto com a seriedade que merece: o desejo fundamental é o de dormir e o desejo do analista é a exceção.


O desejo do analista, que chamamos desejo de saber, não tem nada a ver com nenhum tipo de erudição e constitui a exceção à lei do desejo de dormir. É o desejo de despertar, não apenas despertar-se, mas também despertar o Outro. É um desejo de despertar-se do desejo do Outro.


A travessia da fantasia nada mais é do que um modo de dizer o desejo de despertar do desejo.


Se pensarmos o analista a partir do objeto a, produto de sua análise, não teremos tanta certeza de que ele exista. O objeto a não é da ordem do universal, no sentido de que há analistas e não mais o analista.


Quando Lacan falava do desejo de Freud, era exatamente para mostrar nele um déficit, uma falta, um lapso quanto ao desejo de saber. Temos como exemplo o caso Dora. Aí pode-se enxergar nitidamente a fantasia de Freud, fantasia de proporção sexual, de relação sexual, pensando que a mulher se relaciona com o homem. Quando Dora se dirigiu à Outra mulher, vimos o desejo de Freud expresso na exigência de que Dora reconhecesse o objeto de seu desejo na pessoa do sr. K., o que justifica o diag


nóstico de Lacan: há algo em Freud não analisado, como se ele quisesse localizar sua felicidade no lugar do sujeito; no lugar do desejo de saber, um desejo de poder.


Como se Freud, descobrindo o inconsciente, tivesse que pagar por isso com sua vinculação ao discurso do mestre;


O analisante se transforma em objeto da psicanálise, como um escravo do qual os analistas-mestres compram a verdade.


Podemos perguntar o quê, em La


can, não é redutível ao desejo do analista. E a cada analista podemos perguntar o quanto lhe custou conformar seu desejo ao desejo do analista.


A história do movimento psicanalítico


Vamos ver como Lacan contou sua própria história nos Écrits. Em um capítulo intitulado “De nossos antecedentes”n, ele contou como entrou na psicanálise. Pode-se dizer que ele relatou algo de seu passe, algo do que o levou a tornar-se analista, contando como passou da psiquiatria à psicanálise, como passou de Clérambault a Freud, como passou de um mestre a outro.


É preciso dizer que, nesse texto, Lacan homenageou Clérambault, considerando-o seu único mestre em psiquiatria, embora em sua tese de 1932 — não lerei a nota — o tenha fuzilado e destruído completamente. Jaspers, ao contrário, foi homenageado na tese da qual foi orientador. Mas nos Écrits foi reduzido a um pseudomes-tre, a um mestre de semblante. Tais fatos sugerem que a relação de Lacan com seus mestres era bastante difícil. E com Freud? Foi com certeza mais complexa ainda.


Não podemos ignorar a extraordinária distância pessoal que Lacan manteve de Freud. Coloquei essa questão também em Paris. Lacan era um jovem psiquiatra, apaixonado pela psicanálise, falava e lia perfeitamente o alemão, mas não pôde ir de Paris a Viena para encontrar Freud, que mantinha a porta sempre aberta. Parece que, quando Freud passou por Paris antes de ir para Londres, quando todos foram vê-lo, Lacan não foi.


Em tudo isso parece haver um mistério, a tal ponto que formulei, em Paris, uma hipótese: Lacan visitou Freud em segredo. E talvez tenha havido um mal-entendido, um mau encontro. De qualquer modo, suspeito que aconteceu algo que algum dia, talvez, possamos ficar sabendo…


Lacan buscava o real mais além do princípio de realidade.


Parece que entre Freud e Lacan circulava uma carta roubada. Como se Lacan considerasse a psicanálise uma carta roubada que não chegara a seu destino, e ele tivesse vindo para conduzir o projeto freudiano a seu verdadeiro destino.


Lacan procurou conduzir a psicanálise mais além do falo, até o objeto a que é também a chave do mais além do princípio do prazer.


Não podemos desconhecer que Lacan, desde sua entrada na psicanálise, elegeu outros autores para ler Freud. É algo constante em sua obra trabalhar sobre a obra freudiana através de leituras exteriores, buscar o ponto de Arquimedes e muitos outros pontos. Por exemplo, o Estádio do Espelhoq não é algo nascido da psicanálise, é algo que Lacan importou da psicologia para a psicanálise, a fim de justificar uma concepção do eu, uma parcialização da concepção freudiana.


quando Lacan entrou um pouco mais na psicanálise, foi em busca da definição do desejo não em Freud, mas em Hegel e em Kojève. Foi em Kojève que ele encontrou a definição do desejo como desejo do Outro.


foi a partir de Lévi-Strauss que Lacan construiu a tríade Real, Simbólico e Imaginário.


Bem, este é um percurso breve que, no entanto, mostra o desejo de Lacan em não se deixar capturar por Freud. Desejo de buscar, passo a passo, um respaldo exterior que lhe permitisse reordenar o discurso freudiano. Há uma tal frequência de pontos exteriores à obra freudiana que realmente situam e permitem reconhecer a permanência do desejo de não se deixar capturar por Freud.


Havia uma crescente fidelidade a Freud, mas também um desligamento de Freud.


Devemos ser fiéis à letra de Freud para entendê-lo melhor do que ele mesmo, pois, de certo modo, o próprio Freud não o sabia. A noção da existência de recalcamento situado em algum lugar em Freud foi um tema constante, sustentando o trabalho de Lacan. Este recalque está presente em toda a obra de Freud; ele não disse o que fez como deveria ter dito.


Ao contrário, mais do que isso, foi Lacan quem disse que ele próprio tinha algo de psicótico. Em seu diagnóstico considerou-se mulher, considerou-se obsessivo, considerou-se psicótico.


Há um certo número de analisantes de Lacan que não me parecem um sucesso notável — é o melhor que posso dizer, e é necessário pensar nisso porque é uma incidência do desejo de Lacan. Há uma hipótese: o desejo de Lacan enlouqueceu um certo número de pessoas.


Lacan disse que é mais suave obedecer à Lei e muito mais fácil subverter uma autoridade próxima e, assim, liberar a criatividade do sujeito.


Carta roubada de Edgar Allan Poe


Lacan disse que preferia o efeito da paródia ao estatuto do mestre para pensar — de mâitre à penser. Que é a paródia? É o canto que acompanha, o canto lacaniano depois do canto freudiano. É também imitação. Uma paródia, no seu sentido próprio, é o que eu disse, mas significa ainda a imitação burlesca de uma obra séria. Acredito que quando Lacan disse “é um efeito que eu prefiro”, indicou que não pretendeu para sua obra mais do que o estatuto de paródia.


Com o objeto a, Lacan deu um novo sentido ao si mesmo, o que é para cada um o si mesmo, em que parte de sua própria personalidade alguém pode situar o que é verdadeiramente o coração de si mesmo, sua essência.


Vemos a importância dessa questão quando Lacan enuncia que o analista não se autoriza senão a si mesmo. O que é o si mesmo em questão nesta frase? Penso que o si mesmo ao qual Lacan se refere, que surge de uma análise, não é o si mesmo comum à tradição ocidental que remonta aos gregos. É um si mesmo de outra ordem. Lacan chamou objeto a a esse novo tipo de si mesmo.


conhece-te a ti mesmo e nada em excesso.”
Não se deve fazer nada em excesso, nem pensar.


Na realidade, a problemática desse texto de Freud traz a do eu versus pulsão; como são distribuídas as forças entre o eu e a pulsão, seu conflito. Pode-se dizer que, para Freud, o homem está dividido entre o eu e a pulsão. A grande pergunta do texto é: como obter a domesticação?


Todo o problema consiste em como domesticar a pulsão, se é ou não possível, se a pulsão pode ter um mestre, obedecer, ser dominada pelo eu, como instância de dominação.


Essa vertente, em Freud, permite dizer que, para ele, a situação analítica consiste em ir até o eu para submeter as partes não dominadas do isso e procurar integrá-las na síntese do primeiro. É preciso dizer que tal fato é, em Freud, da ordem do discurso do mestre.


a síntese do eu põe em evidência seu fracasso constante, na medida em que o eu nunca parece poder fazer desaparecer e dominar completamente a pulsão. Pelo contrário, no domínio do eu fica sempre o que Lacan chamou de resto. É realmente a palavra lacaniana resto, dejeto, que é encontrada no texto.


Ele mesmo insiste que sobrará sempre um resto, resto rebelde que Lacan denominou objeto a.


Disse em outra parte que explicações dadas a pacientes, sem ter havido subjetivação por parte deles, leva-os a agir como primitivos, aos quais foi imposto o cristianismo: continuam, em segredo, celebrando os velhos ídolos.


Pode-se dizer, então, que Lacan deslocou o si mesmo do eu para este resto. A verdade do ser não é do domínio do eu. Esta pode ser a verdade, sim, do ser consciente, a verdade da ordem social. Na psicanálise, porém, o ser, o si mesmo, é o resto, e aí se concentra o gozo. Eis, de certo modo, o verdadeiro mestre. Na realidade vive-se o resto e para o resto. Lacan apontava esse resto de derrisão como a causa de desejo onde se busca o si mesmo.


O gosto de Lacan é muito mais de moque cômico do que trágico, por isso pôde dizer que o cômico é mais verdadeiro que o trágico. Foi o que mostrou ao falar do final da análise, dizendo haver, seguramente, sofrimento e tragédia numa análise. O passe só terá sentido quando a tragédia for transformada em comédia. Se não for assim, ninguém contará a outros sua história, sem a transformação de seu sofrimento em uma boa história, possível de ser contada a alguém.


Hoje em dia, sentimos todo o peso da obrigação de termos uma identidade. Há fantasias em torno disso. Recentemente, na França, se podia autorizar a emigração segundo a profissão, nacionalidade — utopias de controle social — através da carteira de identidade. Isso é a captura do ser humano a partir do discurso do mestre, da obrigação de ser um.


Seguramente o desejo de Freud produziu, na psicanálise, uma tradição, uma hierarquia, uma ortodoxia. O de Lacan produziu algo muito distinto, um deslocamento de forças, uma dispersão.


O que chama pulsão corresponde ao sentimento de que há algo no homem que sempre se satisfaz positivamente. Mas, satisfaz-se porque há neurose; para que existe psicanalista? Por que, às vezes, a maneira pela qual o homem se satisfaz lhe causa desprazer? lhe faz mal? Eis o paradoxo. Na satisfação, há pessoas neuróticas, nas quais a pulsão se satisfaz nos sintomas; foi esta uma descoberta freudiana.


A proposta da análise é obter que a pulsão se satisfaça por outras vias, não pelo sintoma. Sobre isso Lacan pôde falar de maneira freudiana: através da análise procura-se corrigir a maneira de satisfazer a pulsão.


O desejo é a defasagem que há sempre entre ele mesmo e sua causa


poderemos dizer que o sujeito da experiência analítica aprende o que não pode obter através da demanda, aprende a não pedir mais, porque toda demanda é fundamentalmente sem saída e porque é preciso desistir da própria demanda.


Nesta perspectiva tão simples, que seria a conclusão do tratamento? Talvez o tratamento se conclua somente quando o sujeito sai da demanda e não espera mais nada da análise, não pede mais nada ao analista.


que não tem um deslocamento da demanda para outros lugares, para outras pessoas, mas de algo muito misterioso: da desaparição profunda, radical, autêntica e inconsciente da demanda.


Trata-se da desaparição do próprio lugar da demanda, da possibilidade de esperar algo da demanda feita a um Outro.


ninguém deve colocar saquê em seu próprio copo, mas sempre servir o outro e, se os outros se esquecerem de você, seu copo fica sem saquê.


O pedir, a demanda, é fundamental e, com a desaparição do Outro, a quem pedir, se desvanece a esperança de poder encontrar alguém que dê o que falta a quem pede.


Há uma falta que ninguém pode completar, um defeito sem remédio e, neste sentido, o desvanecimento da demanda é a mesma coisa que consentir e assumir a castração


Na medida em que o sujeito se sustenta no Outro, naquilo que pede ao Outro, o que aparece do lado do Outro como desvanecimento, como não-existência do lado do sujeito, é uma destituição


O sujeito passa sua vida esperando, pedindo um lugar no Outro, um lugar ou um lugarzinho, mas perde toda a possibilidade de obter esse lugar, em vista de que o próprio lugar se perdeu.


viver sem identificações, em viver sem o suporte das identificações através das quais o sujeito, sem o saber, se inscrevia no lugar do Outro.


Que seria realmente viver sem identificações, sem pedir perdão, sem desculpar-se?


não daria explicações, porque não haveria mais ninguém para recebê-las.


existe algo de cínico no fim de análise. Um certo tipo de solidão cínica.


a posição do sujeito se conduzindo como se o outro não existisse e, assim, se permitindo de tudo, sem pudor, porque não está esmagado, limitado pelo olhar do Outro.


conhece um estado de entusiasmo à medida que desaparece o Outro ao qual ele dava o poder de esmagá-lo. Mas pela mesma razão o analisando conhece também um afeto depressivo quando descobre a inexistência do Outro e de todas as paixões que giravam a seu redor.


É por essa razão que Lacan situa os afetos possíveis do final de análise entre mania e depressão, de maneira antinômica e cíclica. O dois afetos produzem-se com o desvanecimento do Outro da demanda.


É essencial recompor um Outro sob medida, um lugar do Outro para os analisados, sem o qual os analisados tornam-se loucos.


Esse Outro sob medida para os analistas analisados (não é o caso de todos) é o que chamamos Escola. O papel é a verdade clínica da Escola; e a primeira razão para ser uma Escola deve ser clínica.


no final da análise, teria algo a ver, não com a psicose, mas com o mecanismo da foraclusão.


Supondo que o Outro da demanda desapareceu, resta uma última coisa a pedir, precisamente, que se reconheça e verifique que ele concluiu.


Aqueles que melhor concluíram suas análises nunca demandaram o passe.


Toda demanda se sustenta de uma falta no sujeito que pede testemunha de que lhe falta algo.


por causa do fenômeno essencial do desvanecimento da demanda, e que, quando se dá, o que surge é a pulsão. Por quê? Porque a pulsão é uma demanda. Em Freud, a pulsão é uma demanda muito particular: não pede nada a ninguém.


Falamos “pulsional” quando há algo que exige sem se preocupar se o Outro disse sim ou não. O amor é pendente do signo do amor do Outro. A pulsão é, nisso, o seu contrário. Quando falamos de pulsão, não esperamos nenhum signo do Outro, exigência sem qualquer concessão, sem qualquer limitação. A pulsão é exigência, mais que demanda ao Outro. E é no nível pulsional que o sujeito está destituído.


Poderíamos definir a pulsão como uma conexão pura do simbólico e do real sem nenhuma interposição imaginária. É por isso que a pulsão não se engana. O desejo engana-se, o amor engana-se e engana. Mas quando falamos da pulsão na experiência analítica, tratamos de desenhar um nível onde não há trapaças e enganos, onde a conexão do simbólico e do real se faz de maneira perfeita. A pulsão nunca se equivoca, o desejo sempre o faz. E não falamos do amor.


como se o sujeito aceitasse identificar-se a sua própria falta-a-ser, de tal maneira que ela viesse a desaparecer como tal e restasse, ao final da análise, sua cicatriz apenas.


A pulsão, fundamentalmente, não aponta para o objeto, mas através de sua trajetória busca gozar sob qualquer condição.


O desejo é sempre um lamentar-se, um deplorar, uma nostalgia ou um anelo


A pulsão não se satisfaz no sonho. Para satisfazer a pulsão, é necessário gozo.


E faz sentido o fato que o desejo, em Freud, se satisfaça somente no sonho. Na realidade, permanece fundamentalmente insatisfeito.


Falta um objeto — que dizemos perdido —, e o essencial é que o objeto reencontrado nunca é o adequado. Não é o bom. É como se houvesse sempre um equívoco


A castração está no centro de cada objeto de desejo.


o desejo é a sua insatisfação e, na análise, é a sua interpretação.


no campo da palavra, a insatisfação fundamental do desejo se traduz nos termos: jamais podemos dizer o desejo.


Tomemos como definição: no sentido de Lacan, ele é algo que não podemos dizer, pelo menos diretamente. É o que não conseguimos dizer dentro do que falamos. Assim, o desejo aponta para uma impotência da palavra e, mais além, para uma impossibilidade.


Lacan pôde nos propor que o final da análise seria conseguir o bem dizer. Que é o bem dizer? Não é dizer


o desejo, pois isso não é possível; é um saber fazer com a metonímia. É dizer, levando em conta que o desejo não pode ser dito diretamente, mas que é dito sempre entre as palavras.


É saber dizer de lado, por alusão, é ter um domínio do alusivo e saber dizer a verdade pela metade, porque a verdade toda, se dita, se converte sempre em mentira ou insulto.


Quando alguém diz a outro, “vou-lhe dizer toda a verdade”, está ameaçando.


O bem dizer é saber fazer-se responsável, da maneira segundo a qual, o outro vai entender o que é dito. Esse é o desejo do analista.


Seria o analista um sujeito que sabe o que diz? Não, ninguém sabe o que diz, ninguém sabe os efeitos que tem, no outro, o que alguém diz.


Mas, o analista seria um sujeito que sabe que o essencial está entre as palavras e não nas palavras.


Um analista — profissão impossível, dizia Freud; estafante, dizia Lacan — é um sujeito que aceita ser responsável pelos efeitos de seu dizer mais além do que diz, não pode se desculpar pelo fato de que não seria isso o que quereria dizer. Seu analisado não aceita isso, porque a disciplina da análise é, precisamente: quando você não diz o que queria dizer, o que diz é mais verdadeiro do que o que você queria dizer. Eis o terrível do lapso.


O desejo do analista não vem dele mesmo, mas é a interpretação, por parte do analisando, do que disse o analista; é o que o analisando interpreta daquilo que ouviu do analista.


a interpretação mais importante é a do analisando, quando ele interpreta o analista.


A entrada em análise precisa ser solicitada, mas o sujeito que faz uma demanda de análise não sabe o que está pedindo. Deve-se somente aceitar uma demanda de análise se, mais além da análise que é pedida, o analista consegue entender o que o sujeito deseja. É por isso que se necessita não de uma demanda determinada, para que se aceite um sujeito em análise, mas de um desejo decidido que não tem nada a ver com o imperativo, com a urgên


cia, com a pressão, e que é escutado entre as palavras.


É por isso que dizemos reconhecer a verdade do sujeito no momento da falta.


Como nos angustiam os computadores de computadores, que vigiam outros computadores, inventou-se o vírus. Entre as invenções mais inteligentes dos especialistas em computadores está a criação das enfermidades, pois introduzirão algo que desangustia todo mundo, que incomoda todo mundo, e incomodando, é desangustiante. Somente tendo computadores, teremos computadores enfermos, tratamentos de computadores, e amanhã computadores em análise.


o sintoma é algo de que o sujeito se queixa.


Na análise, é fundamental uma queixa.


E o que vai mais além de seu pai, no êxito, se sente angustiado por isso.


o sintoma é totalmente correlativo da antecipação que faz da saída, do que o sujeito quer obter na análise.


Podemos nos referir a alguém que terminou sua análise quanto ao sintoma, não se queixa mais dele.


É um chiste, porque alguém se cura do sintoma. É o que Lacan chamava de identificação ao sintoma: ao invés de sentir-se diferente de seu sintoma e, finalmente, reconhecer em que sentido alguém é seu sintoma.


Desse reconhecimento do seu ser no incurável, há também um efeito liberador, mas isso não deve ocorrer demasiado rápido. Não se trata de, com seu sintoma, depois de pouco tempo, dizer “sou meu sintoma, vou-me embora”. Esperamos da análise a redução do sintoma à sua parte irredutível. E quando isso ocorre, não há mais além. Nesse momento, há a solução do tratamento que Lacan chama de identificação ao sintoma.


“Não há que se falar do que não se pode dizer”


É uma posição ética efetivamente, mas também é uma posição não-humana, porque passamos a vida a falar do que não podemos dizer.


a maneira como algumas crianças sabem pedir e exigir sem a timidez, que chamamos desejo, com seus equívocos. O desejo é uma certa timidez da pulsão, de maneira que podemos tomar algumas crianças como exemplo de exigência. Nesse sentido, Lacan dizia que ele tinha cinco anos. Teve cinco anos por toda sua vida. É bom poder dizer isso. Pensei, no momento, em que ele disse isso, que eu não tinha cinco anos, não havia conseguido ter cinco anos; tenho 17 anos por toda a vida, uma idade mais problemática… Tratarei de diminuir…


A criança, na psicanálise, pelo menos, é esse ser que passa o tempo na demanda. A questão é saber o que pede.


O sujeito passa seu tempo nisso, na demanda. A idéia da psicanálise seria apagar isso. Efetivamente, faz dos analistas tipos raros — vê-se na história da psicanálise —, ainda que sempre se possa dizer que não são perfeitamente analisados. E como ser perfeitamente analisado? Há algo raro nesses indivíduos que vivem fora da demanda, fora de exigências com relação aos demais. Podemos dizer que são mais fáceis; porém, com relação a si mesmos… há sempre uma exigência. Não conheci Freud, mas conheci Lacan.


o símbolo implica numa barra sobre algo que existe.


O simbólico é onde algo que falta pode existir. Há o famoso exemplo da biblioteca, tomado por Lacan. Numa biblioteca, os livros são enumerados. Se alguém pega um, haverá um lugar vazio, uma falta, porque há uma ordem simbólica. Somente na ordem simbólica algo que não está pode existir e ser notado — falta aquele livro. O mais importante para o bibliotecário não são os livros que se tem, mas os que faltam.


Uma interpretação analítica é algo que faz alusão, que faz ver a direção de outra coisa. E este gesto que estou fazendo é distinto do gesto de dizer o que fazer. É bem distinto do imperativo — há aí noventa graus de diferença.


Sabemos que nos analistas o analítico é compatível com o a-pragmático. A situação analítica fundamental se sustenta em um não fazer nada. Poder-se-ia definir a própria situação analítica como uma recusa do pragmático e, às vezes, não é segredo para ninguém, temos excelentes colegas, excelentes praticantes que realmente, na vida, são pouco pragmáticos. Uma vez que saem do consultório, parecem perdidos na complexi


dade da vida moderna. Não sou eu um exemplo completo de me situar bem dentro de todas essas complexidades. E esse a-pragmatismo é compatível com a posição analítica, e às vezes podemos chegar ao ponto de definir a posição analítica a partir de uma recusa da ação. Isto produz uma dificuldade, quando, no âmbito da psicanálise, se deve considerar um objetivo pragmático.


Além disso, fazer algo conjuntamente, fazer algo de maneira coletiva, não vai bem com o discurso analítico também. Ao discurso analítico repugna a injunção “todos juntos”. Essa não é uma injunção do discurso analítico. Há uma antinomia entre a experiência analítica, na qual um entra só — a experiência analítica se faz “um a um” e todo movimento é coletivizante. O tema é bem conhecido e permite vários desenvolvimentos com seus fundamentos.


Se considerarmos essa antinomia entre o analítico e o pragmático ou coletivo, pode-se perguntar por que os analistas estão tão preocupados com o grupal, com o institucional, com o associativo? Por que dão tal peso, tanta importância a essa dimensão?


Significa que não há um conceito de analista, uma essência de analista, uma idéia, e nesse sentido os analistas podem representar o outro, precisamente o outro e não “o mesmo”


o modo de produção de um analista é cada vez mais particular e sabemos, no concreto do grupo analítico, que vêm de formações diferentes — psiquiatria, psicologia, e em vários países, os que agora passam a ser analistas são pessoas de formação muito diversa e isso vem acontecendo desde o início da história da psicanálise. Recordemos que nem Anna Freud e nem Melanie Klein tinham certificado e nem diploma.


O analista não existe, mas antes, que supostamente há algo comum aos analistas, de tal maneira que é muito simples definir o predicado analista como a perfeição do analisado e, nesse ponto é que se introduz o deslocamento realizado por Lacan, ao dizer que o analista é um analisado


Vocês sabem como Lacan ironiza as sociedades ditas ortodoxas, dizendo tratar-se de “sociedades de assistência mútua contra o discurso analítico” (SAMCDA) em Televisão. O mesm, porém, pode-se dizer de toda instituição analítica. No entanto, por sua vez, a instituição com esse valor, é também uma conseqüência do discurso analítico. E nisso, a sátira à instituição, a ironia, não é suficiente.


sublinhou na ética a problemática do Bem, do Mal e do Bem Supremo e não, relativamente à obrigação ou à interdição, mas sim à atração.


Também o tema do prazer e da moderação do prazer.


o mais importante da Escola não é o que ela sabe — mas o que sabe que não sabe, o mais precioso do saber da Escola é que ela sabe que não sabe.


A análise é uma profissão delirante, na medida em que se encontra entre os analistas aqueles que se pensam sós, pois é a própria experiência


analítica que favorece isso porque em seu consultório o analista é analista só quando analisa, nessa medida os analistas são conduzidos a levar sua subjetividade ao absoluto.


uma bela alma, que vem ao analista queixar-se da desordem do mundo, até o momento em que Freud faz com que Dora perceba sua responsabilidade nessa desordem.


Não vamos mais voltar a 1945, quando existiam vinte analistas na França. Podemos chorar porque temos agora a decadência da psicanálise, mas, de uma certa maneira, já podíamos fazê-lo nos tempos de Lacan.


Na psicanálise, a pessoa é responsável pelo que não queria, pelo que não sabia e pelo que fazia quando não sabia o que fazia.


Se levarmos em conta essas coisas não teremos a quem pedir desculpas, se por acaso surgirem efeitos nefastos, não poderemos pedir desculpas com o argumento “eu não sabia que…”. Isso não vale em psicanálise.


A resposta de Lacan foi substituir as Sociedades pela Escola, uma instituição cuja particularidade é a de não saber algo essencial, não saber o que é um analista.


Lacan disse, finalmente, que o passe foi um fracasso, tanto porque o passe na Escola Freudiana de Paris não havia alcançado os resultados clínicos esperados, quanto porque não tinha conseguido movimentar as sociedades da IPA de forma nenhuma, e acredito que a dissolução da Escola Freudiana de Paris consagrou esse fracasso.


No casamento, não se trata apenas de um contrato simbólico, mas de saber se os vinculados aceitam ou não sofrer juntos.


cada um ensina por sua própria conta e risco.


“as provas cansam a verdade”, também de certa maneira as explicações cansam o objeto a.


Quando Indart diz: a Escola e a Academia não têm nada a ver, podemos pensar que ele quis dizer justamente o contrário.


haver algo de semelhante entre a posição feminina e a posição analítica.


Há algo de sonho na demanda de formação porque há os que pensam que ser uma analista é um predicado. Estes querem aprender o saber necessário para ser um analista, da mesma forma que se aprende na Faculdade, onde se diz: “Tu és médico, tu és analista.”


Mas a psicanálise não é uma pedagogia, uma formação. É uma experiência com a qual o sujeito se articula e aceita suas conseqüênci


Na verdade, na psicanálise não há nada a ver e há tudo a dizer. E mesmo se ela se faz face-a-face, é sempre um convite ao sujeito para se abstrair da inevitável modalidade do visível e renunciar à imagem pelo significante.


Há em mim, diz ele, de um lado, uma pessoa que sabia que isto existia realmente, e, de outro, uma outra pessoa (é esta a expressão: ‘uma outra pessoa’) que parecia duvidar


o que desperta é o objeto a no sonho.


Creio que há algo, em termos da teoria de Lacan, que diz respeito ao objeto a, e que permanece ainda incompreendido entre nós. Cremos que é alguma coisa. Pensamos sempre o objeto a sob o modelo do seio, ou do excremento, mesmo do falo, isto é, como um objeto pleno em relação ao vazio do sujeito. Durante anos, e sem sucesso, tentei extirpar de nosso uso a expressão de “semblante de objeto”, que faz crer que o objeto a é algo diferente de semblante. Ora, se Lacan se refere, eletivamente, à pulsão escópica em se tratando do objeto a, é para mostrar, precisamente, que esse objeto a não é nem o seio, nem o excremento, nem o falo, nem o olhar, nem a VOZ. Que o objeto a como tal é um semblante de ser, que não existe, que não é wirklich. E, quando é real, todo o restante se apaga.


insistir sobre o caráter não substancial do que Lacan chamou objeto a. É uma “forçada” de Lacan chamar isso de objeto.


Conhecemos a “forçada” de Lacan quanto ao “sujeito”. Pois sempre empregamos o termo sujeito em referência à subjetividade, ao sujeito da reflexão, ao sujeito da consciência, que possui conteúdos representativos. Lacan habituou-nos a chamar sujeito algo que não se assemelha a nada disso. Em nossa paróquia, chamamos sujeito o símbolo , com uma barra, e dizemos: é uma falta, é uma falta de significante. Lacan chamou tudo isso de sujeito e nós também chamamos. O que nos impede de dizer a palavra sujeito com outros sentidos.


O que ele chama objeto não se assemelha de jeito nenhum a um objeto, não é absolutamente alguma coisa,


Pois, se cremos que o objeto é alguma coisa e falamos de perda, queda etc., o passe é imediatamente concebido como resignação, como renúncia.


Nem poderemos ter a noção de que o analista ocupa a posição de objeto a, se não captarmos que o objeto a, enquanto tal, é um semblante. Assim, não precisamos fazer semblante quanto a isso. Supor que há o objeto a, o bom, o verdadeiro, o substancial, e que, isso a parte, fazemos “semblante de”.


No fundo, utilizamos o do desejo, quando nos enganamos, e o de pulsão, quando há uma espécie de reta em direção ao objetivo, sem erro e sem “errância”.


É o que faz com que Lacan fale de cinismo no fim da análise. É a idéia de um sujeito reduzido à trajetória de sua pulsão.


mas de Heisenberg para cá em todo campo da cultura se admite não haver nenhuma observação, nenhum conhecimento do qual não participe o conhecedor. Aquele que conhece participa do objeto conhecido. O psiquiatra estaria fora do circuito contemporâneo da ciência se pretendesse ficar fora do sintoma. Tanto na psiquiatria como na psicanálise, o sintoma é criado pelo paciente diante de um observador.


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