
KLEIN Melanie Love Guilt and Reparation e Others Trabalhos 1921 1945
KLEIN, Melanie - Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos - 1921-1945
Biografia
Melanie Klein iniciou seu trabalho psicanalítico junto às crianças. Ela foi pioneira na análise de crianças. Desenvolveu métodos para analisá-las, até as bem pequenas, sem se afastar dos princípios básicos da técnica psicanalítica. Como o modo de expressão natural das crianças é a brincadeira, ela sempre lhes oferecia pequenos brinquedos e considerava os seus jogos uma expressão simbólica de sua vida interior, comparável as associações livres dos adultos. Interpretava sua brincadeira e seu comportamento juntamente com a sua comunicação verbal. Ao contrário de outros especialistas da época, adotou desde o início rigorosa atitude psicanalítica, evitando qualquer tipo de influência educacional ou qualquer outro tipo de interferência no processo psicanalítico. Além disso, desde o princípio sempre interpretou tudo aquilo que a criança apresentava, quer seus sentimentos fossem positivos ou negativos. Acreditava-se na época que as crianças não podiam desenvolver transferência para o analista da mesma maneira que os adultos, pois ainda estavam presas a seus objetos originais: a mãe e o pai. Klein descobriu que as crianças rapidamente estabelecem transferência, tanto positiva quanto negativa. Descobriu que, desde que se preserve a atitude e o ambiente psicanalíticos, as relações de transferência das crianças não são muito diferentes daquelas dos adultos. Demonstrou que a base da transferência era a projeção para o analista do mundo interior da criança e das suas imagos internas, e não transferência linear para o analista de seus sentimentos em relação aos pais reais. Sua abordagem se caracterizava por grande convicção na validade do método psicanalítico de Freud e pela fé de que em toda criança, assim como em todo adulto, apesar de toda a resistência e das defesas, há anseio e prazer pela verdade. De fato, as crianças reagiram muito bem à sua abordagem simples e direta.
Hoje em dia é difícil compreender como esta maneira de tratar as crianças era revolucionária na época. A obra de Melanie Klein provocou choque e enormes controvérsias. Ela descreve sua técnica e a lógica por trás dela, assim como algumas das descobertas que fez, nos artigos “A análise de crianças pequenas” (19 2 3 ), “Os princípios psicológicos da análise de crianças pequenas” (1926) e “Simpósio sobre a análise de crianças” (1927). Estes trabalhos também lidam com os principais pontos de controvérsia da época. O grosso do material psicanalítico em que Melanie Klein baseou suas conclusões está incluído no livro A psicanálise de crianças (The Psychoanalysis of Children), escrito ao longo dos mesmos anos em que surgiram os artigos citados acima.
Novas ferramentas e técnicas levam a novas descobertas. A teoria de Freud sobre o desenvolvimento da criança se baseava principalmente na análise de adultos, com a exceção da análise do pequeno Hans, conduzida pelo próprio pai do menino sob sua supervisão. O trabalho de Klein confirmou as descobertas de Freud sobre a agressividade e a sexualidade infantil, o papel do superego e o complexo de Édipo. No entanto, o trabalho direto com crianças trouxe novas descobertas e permitiu uma descrição detalhada dos estágios iniciais do desenvolvimento, apenas esboçados por Freud. Estas descobertas acabaram provocando certas divergências de opinião entre os dois. Desde o início, Melanie Klein ficara impressionada com a riqueza da vida de fantasia das crianças e de seu mundo interior, que continha ao mesmo tempo figuras extremamente boas e extremamente aterrorizantes; também percebeu que elas sofriam de grandes ansiedades devido à existência das figuras más, ansiedades que tinham caráter psicótico. Este mundo interno resultava de uma história anterior. Aos dois anos e meio, a criança já possui uma história complexa, revelada numa transferência que Klein podia mapear. Freud descobriu que a criança continua ativa no adulto. Melanie Klein descobriu o bebê presente na criança e no adulto. Chegou à conclusão de que desde o início da vida o bebê forma intensas relações de objeto, tanto na realidade quanto na fantasia. Não via o bebê como ser passivo, que sofre a ação do ambiente e apenas reage de acordo. Via nele inúmeros desejos e fantasias, em interação constante com a realidade externa. Estes relacionamentos iniciais, tingidos pelas fantasias do bebê, são internalizados e formam a base da personalidade. Entendia o superego e o complexo de Édipo, de acordo com a descrição de Freud, como resultado final de um desenvolvimento anterior e como um estágio posterior de estruturas mais arcaicas e primitivas.
Descreve a relação da criança primeiro com objetos parciais, primordialmente o seio da mãe, cindido logo no início entre um seio muito bom e amado, e outro muito mau e odiado. Este relacionamento se estende gradualmente para o corpo inteiro da mãe. Klein descreve o intenso relacionamento que a criança forma com o corpo da mãe em fantasia, um relacionamento marcado pela curiosidade e a ambivalência. Na fantasia da criança, o corpo da mãe é a fonte de todas as riquezas, despertando tanto o ódio quanto o amor, além de enorme curiosidade. Melanie Klein considera o desejo de investigar o corpo da mãe como o início da pulsão epistemofílica. Entretanto, como estes impulsos epistemofílicos estão associados a desejos libidinais e agressivos, a ansiedade que eles provocam pode levar à sua inibição.
Klein vê a ansiedade como incentivadora e, ao mesmo tempo, possível inibidora do desenvolvimento. É a ansiedade provocada pelos impulsos epistemofílicos em relação ao corpo da mãe que faz com que a criança desloque seus ímpetos para o mundo exterior, dotando-o de significado simbólico. No entanto, se a ansiedade for forte demais, ela pode levar à inibição. Um trabalho particularmente importante nesta área é o artigo “A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego” (1930). Trata-se do relato do primeiro tratamento psicanalítico de uma criança autista, onde Melanie Klein descreve suspensão quase total da função simbólica e, somado a isso, de todo interesse pelo mundo. O seu trabalho neste campo lançou nova luz sobre o desenvolvimento cognitivo e intelectual, e suas inibições.
De início, Melanie Klein tentava comunicar suas descobertas empregando rigorosamente os termos de Freud. No entanto, começaram a surgir divergências em relação ao seu pensamento quase desde o ponto de partida. Ela observou que o complexo de Édipo e o superego começavam a existir bem mais cedo do que Freud acreditava e sempre enfatizou o quanto o complexo de Édipo é condicionado por desenvolvimentos anteriores. Além disso, suas opiniões a respeito da sexualidade feminina não são as mesmas de Freud. Descobriu que os meninos e as meninas estão cientes dos órgãos sexuais femininos e de seu potencial. Também via o estágio fálico descrito por Freud principalmente como estrutura defensiva. Dava muito mais ênfase ao papel da agressividade nas crianças do que se costumava dar na época. Em seu primeiro artigo sobre o simbolismo, “O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criança” (1923), por exemplo, Em seu trabalho posterior, ela dá mais ênfase à mãe como pessoa total, e não à percepção de um corpo inteiro. como elemento essencialmente libidinal, apesar de dar a devida atenção à agressividade no material que descreve. No artigo que escreveu em 1930, o papel da agressividade e das ansiedades associadas a ela ocupam o primeiro plano. Suas opiniões a respeito da agressividade estão de acordo com a obra de Freud posterior a 1920, com seu conceito de pulsão de morte e com sua noção de que o conflito básico é aquele que ocorre entre as forças libidinais e as destrutivas. Este conflito básico entre o amor e o ódio assume papel cada vez mais importante no trabalho de Klein.
A descoberta da ubiqüidade e da importância da fantasia fez com que ampliasse o conceito de fantasia inconsciente proposto por Freud. A fantasia inconsciente está ligada de forma inextricável ao simbolismo, pois é de forma simbólica que a fantasia se expressa. Sua noção de simbolismo diverge um pouco de Freud e Jones. No artigo de 1930, como o próprio título deixa claro, ela afirma que os símbolos não são dados, como acreditava Freud, mas são criados de forma dinâmica com o incentivo da ansiedade, estando sujeitos, portanto, à malformação e à inibição.
Com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais claro que a teoria de Freud não podia abarcar suas descobertas e que era preciso encontrar novos conceitos básicos. Em dois artigos, “Uma contribuição para a psicogênese dos estados maníaco-depressívos” (1935) e “O luto e sua relação com os estados maníaco- depressivos” (1940), Melanie Klein introduz um conceito completamente novo, o da posição depressiva.
Em seu trabalho clínico, Klein seguiu sempre o fio da ansiedade. Ela acreditava que a criança estava sujeita a ansiedades persecutórias, provocadas pela presença de figuras internas más, e ansiedades originárias da culpa e do medo da perda. No entanto, foi só em 1935 que começou a estabelecer distinção clara entre estes dois tipos de ansiedade, a persecutória e a depressiva. Sempre enfatizara a importância do primeiro ano de vida para o desenvolvimento posterior. Assim, acabou chegando à conclusão de que as duas ansiedades básicas, a persecutória e a depressiva, estão calcadas nas duas fases do primeiro ano de vida. Na primeira fase, o bebê é dominado pela ansiedade persecutória e este é o ponto de fixação da doença paranóide (como sugeriu Abraham). A segunda, que marca uma etapa crucial do desenvolvimento, ocorre quando o bebê reconhece a mãe como uma pessoa inteira. Ele deixa de se relacionar com partes da mãe, como na fase anterior, passando a lidar com uma pessoa completa. Também percebe que a figura má e a boa são a mesma pessoa: a mãe. Isso faz com que o bebê fique ciente de sua própria ambivalência diante desta figura. Esta percepção provoca sentimentos de culpa por causa da agressividade contra a pessoa amada, assim como o medo de perdê-la através de ataques destrutivos. Na fantasia, o bebê acredita que a mãe amada e odiada está destruída e perdida, o que gera sentimentos de culpa, anseio e perda. Estes sentimentos substituem gradualmente os sentimentos de perseguição anteriores, e despertam tendências amorosas e de reparação.
Klein prefere falar de posições ao invés de fases, pois o termo se refere a toda uma organização, o estado do ego, a natureza das relações de objeto, as fantasias e as defesas. As implicações das mudanças que ocorrem na posição depressiva são imensas. Ela traz nova maneira de ver a vida, nova atitude. Marca o início da tomada de consciência das realidades psíquicas e funciona como uma delimitação entre o funcionamento psicótico e o não-psicótico. Boa parte da obra posterior de Melanie Klein está centrada nestas implicações. A introdução do conceito de posições assinala a segunda fase do desenvolvimento de Klein, inaugurando um novo quadro metapsicológico.
A obra de Melanie Klein tomou as crianças como ponto de partida e abriu novas perspectivas. Como a neurose e a psicose estão calcadas na infância, todas as descobertas a respeito das crianças obviamente são relevantes para a compreensão da psicologia dos adultos. Ao longo de seus artigos, Melanie Klein se refere cada vez mais ao material obtido com seus pacientes adultos. Suas descobertas sobre as camadas primitivas da mente, as ansiedades psicóticas e as defesas que as dominam abriram o caminho para nova compreensão da doença mental grave. O conceito de posição depressiva e dos impulsos reparatórios associados a ela lançou nova luz sobre a nossa maneira de ver o desenvolvimento normal, a sublimação e a criatividade, enriquecendo em muito nosso conhecimento. Hanna Segal, Londres, 1987
Notas
Melanie Klein travou contato com a psicanálise aos 32 anos de idade, quando estava em Budapeste, em 1914. Leu o pequeno livro de Freud sobre os sonhos, “Uber den Traum”. Isso deu inicio ao maior interesse de sua vida —a psicanálise.
Mais ou menos na mesma época, começou sua própria análise com Ferenczi.
Acredita-se que deu este passo por motivos terapêuticos, mas a psicanálise capturara sua imaginação desde o início. Ela satisfazia sua enorme curiosidade intelectual, o interesse nas pessoas que sempre foi uma de suas características e o seu desejo de trabalhar com os outros e para os outros (sua intenção original era estudar medicina). Melanie Klein apresentou seu primeiro artigo para a Sociedade Psicanalítica Húngara em 1919, marcando o início de uma produção criativa que continuou até sua morte, em 1960, e que revolucionaria a teoria e a prática psicanalíticas.
Desde o início, Melanie Klein ficara impressionada com a riqueza da vida de fantasia das crianças e de seu mundo interior, que continha ao mesmo tempo figuras extremamente boas e extremamente aterrorizantes; também percebeu que elas sofriam de grandes ansiedades devido à existência das figuras más, ansiedades que tinham caráter psicótico. E
Freud descobriu que a criança continua ativa no adulto.
Melanie Klein descobriu o bebê presente na criança e no adulto. Chegou à conclusão de que desde o início da vida o bebê forma intensas relações de objeto, tanto na realidade quanto na fantasia. Não via o bebê como ser passivo, que sofre a ação do ambiente e apenas reage de acordo. Via nele inúmeros desejos e fantasias, em interação constante com a realidade externa. Estes relacionamentos iniciais, tingidos pelas fantasias do bebê, são internalizados e formam a base da personalidade.
Descreve a relação da criança primeiro com objetos parciais, primordialmen te o seio da mãe, cindido logo no início entre um seio muito bom e amado, e outro muito mau e odiado. Este relacionamento se estende gradualmente para o corpo inteiro da mãe. Klein descreve o intenso relacionamento que a criança forma com o corpo da mãe em fantasia, um relacionamento marcado pela curiosidade e a ambivalência.
A descoberta da ubiqüidade e da importância da fantasia fez com que ampliasse o conceito de fantasia inconsciente proposto por Freud. A fantasia inconsciente está ligada de forma inextricável ao simbolismo, pois é de forma simbólica que a fantasia se expressa. Sua noção de simbolismo diverge um pouco de Freud ejones. No artigo de 1930, como o próprio título deixa claro, ela afirma que os símbolos não são dados, como acreditava Freud, mas são criados de forma dinâmica com o incentivo da ansiedade, estando sujeitos, portanto, à malforma ção e à inibição.
Em seu trabalho clínico, Klein seguiu sempre o fio da ansiedade. Ela acreditava que a criança estava sujeita a ansiedades persecutórias, provocadas pela presença de figuras internas más, e ansiedades originárias da culpa e do medo da perda. No entanto, foi só em 1935 que começou a estabelecer distinção clara entre estes dois tipos de ansiedade, a persecutória e a depressiva.
Também percebe que a figura má e a boa são a mesma pessoa: a mãe. Isso faz com que o bebê fique ciente de sua própria ambivalência diante desta figura.
Na fantasia, o bebê acredita que a mãe amada e odiada está destruída e perdida,
o que gera sentimentos de culpa, anseio e perda. Estes sentimentos substituem graduaímente os sentimentos de perseguição anteriores, e despertam tendências amorosas e de reparação.
Klein prefere falar de posições ao invés de fases, pois o termo se refere a toda uma organização, o estado do ego, a natureza das relações de objeto, as fantasias e as defesas
latim e grego
Vale a pena observar que, como o próprio Freud e vários outros, ela também praticava a auto-análise, de modo que os trabalhos que publicou provavelmente eram fruto de observações analí ticas a respeito de seus pacientes e de si mesma, comparadas entre si.
O mais arcaico superego da criança, que contém sua própria destrutividade projetada voltada contra si mesmo, é uma construção esquizo-paranóide que, como Freud descobriu, funciona como um deus arcaico interno com uma moralidade arcaica do tipo olho-por-olho. Ele não é ego-sintônico e um dos grandes objetivos da análise é enfraquecê-lo
Na medida em que o indivíduo entra em luto pelos objetos amados danificados
ele sente que estes permaneceram vivos dentro de si como mentores internos que ajudam e apoiam o ego em sua luta contra os objetos maus que continuam dentro do .sujeito e contra inimigos externos reais
Outro aspecto típico é a aceitação da fala, da brincadeira, da ação e dos sonhos como meios equivalen tes, muitas vezes intercambiáveis, de expressão do inconsciente, a que se somam os relatos numerosos e detalhados da fala e da brincadeira da criança.
A pergunta foi provocada pelos comentários casuais de um irmão e uma irmã mais velhos, que em diferentes ocasiões lhe disseram: “Você não tinha nascido ainda.” Além disso, ela parecia estar calcada na sensação dolorosa de “não ter estado sempre lá”, pois ao ouvir essa informação (e diversas vezes depois disso), ele exprimia sua satisfação dizendo que já estava lá antes de qualquer jeito. Contudo, era óbvio que este não fora o único fator que instigara a pergunta, pois pouco tempo mais tarde ela surgiu novamente sob a forma alterada de “Como as pessoas são feitas?” Quando tinha a idade de quatro anos e um quarto, outra pergunta se repetiu freqüentemente durante algum tempo. Ele perguntava: “Para que se precisa de um papai?” e (mais raramente):
“Para que se precisa de uma mamãe?” A resposta para essa pergunta, cujo verdadeiro significado nãò foi percebido na época, era a de que o papai servia para amar e para cuidar da gente. Tratava-se obviamente de uma resposta insatisfatória e o menino repetiu freqüentemente a mesma pergunta, até abandoná-la gradualmente.
Com cerca de três anos, demonstrou interesse particular por jóias, especialmente as da mãe (esse interesse se mantém) e dizia repetidamente; “Quando eu for mulher, eu vou usar três broches ao mesmo tempo.” Ele dizia freqüentemente: “Quando eu for mamãe…”.
Olha, papai, que pipi grande eu tenho
Fritz
quando se livrou da compulsão de acreditar num ser onipotente e onisciente que, para ele, era incompreensível e misteriosamente invisível, o menino perguntou:
“Eu vejo as coisas, não vejo?… e o que ã gente vê é de verdade
Pouco depois da conversa sobre Deus, o menino informou à mãe, ao acordar uma manhã, que uma das meninas da família L. lhe afirmara ter visto uma criança feita de porcelana que podia andar. Quando a mãe lhe perguntou como se chamava esse tipo de informação, ele riu e disse: “Uma história.”
Passou a declarar repetidas vezes que se ganha dinheiro com o trabalho
Quando se dá um presente, não se ganha nada por isso, ganha?
Ele costuma pedir permissão várias vezes à irmã para ser muito mau de novo ‘uma vez só, prometendo amá-la muito depois por causa disso
as idéias de querer, dever, ter permissão e ser capaz.
“O galo pula para fora porque ele tem que.” Quando estavam discutindo a agilidade dos gatos e alguém observou que uma gata conseguia subir no telhado, o menino acrescentou: “Quando ela quer.” Viu um ganso e perguntou se o animal podia correr. Naquele mesmo instante o ganso começou a correr. Fritz perguntou: “Está correndo porque eu disse?” Quando lhe responderam que não, continuou: “Por que ele queria?”
Sentimento de onipotência
Creio que o declínio de seu “sentimento de onipotência”, tão marcante alguns meses antes, me parecia estar intimamente ligado ao importante desenvolvimento de seu senso de realidade, já iniciado no segundo período, mas cujo progresso se tornou bem mais visível desde então. Em várias ocasiões demonstrou, e ainda demonstra, conhecer os limites de seus poderes, do mesmo modo em que já não exige tanto de seu ambiente. Ainda assim, suas perguntas e comentários provam diversas vezes que houve apenas uma redução e que ainda se dão lutas entre o senso de realidade embrionário e o seu profundo sentimento de onipotência —ou seja, entre o princípio de realidade e o princípio de prazer —o que frequentemente leva a formações de compromisso. Muitas vezes, porém, essas lutas são resolvidas em favor do princípio de prazer.
quando fazem alguma coisa errada também lhe dá uma grande satisfação.
não quando eu for grande — eu quero de uma vez, agora
quando declarou que podia trabalhar com máquinas como um engenheiro porque tinha mexido numa pequena máquina de brinque do na casa de um amigo, ou quando acrescenta à admissão de sua ignorância sobre alguma coisa a frase: “Se me mostrarem direito, eu vou saber.”
Mas quem iria fazer essas coisas, se a familia L., ele e seus pais ficassem sozinhos no mundo?
Eu tentei pegar uma, consegui e agora eu sei como
resgatar a crença tanto na sua própria onipotência, quanto na dos seus pais.
a redução da autoridade
Existiría, então, uma interação, um apoio mútuo, entre a redução da autoridade e o enfraquecimento do sentimento de onipotência
Sendo naturalmente dócil e pouco agressivo, Fritz tentou conquistá-los devolta com sua afabilidade e suas súplicas, e durante algum tempo não parecia admitir a grosseria deles nem para si mesmo.
Por exemplo, apesar de não haver como fugir desse fato, recusava-se terminan- temente a admitir que eles lhe contavam mentiras. Quando seu irmão teve a oportunidade de lhe provar isso mais uma vez e lhe disse para não acreditar no que diziam, Fritz protestou: “Mas eles não mentem sempre,”
estava disposto a reconhecer os maltratos que tinha recebido
Tendências agressivas agora apareciam abertamente; ele falava de matá-los de verdade com o seu revólver de brinquedo, de lhes dar um tiro no olho; uma vez em que apanhou das outras crianças, falou de espancá-las até a morte, e mostrou estes desejos não só através de comentários desse tipo, mas também ao brincar.1 Ao mesmo tempo, não desistiu de tentar conquistá-los novamente. Sempre que voltam a brincar com ele, o menino parece esquecer tudo o que se passou e fica contente, apesar de comentários casuais demonstrarem que tem a perfeita noção de que suas relações não são mais as mesmas.
A questão da existência de Deus. A morte
Eu queria ter asas e poder voar.
Os passarinhos continuam a ter asas depois que morrem? A gente já está morto, não está, quando ainda não está aqui?”
O assunto da morte lhe causava muita preocupação nessa época
Ser honesto com as crianças e responder com franqueza todas as suas perguntas traz uma liberdade interna que influencia o desenvolvimento mental de forma profunda e benéfica. Isso protege o pensamento da tendência à repressão — i.e., do retraimento da energia pulsional responsável por parte da sublimação —que é o principal perigo que o ameaça. Também evita a repressão paralela de associações ideacionais ligadas aos complexos reprimidos, através da qual a seqüência do pensamento é destruída.
No artigo “Symbolic Repre- sentation of the Pleasure and Reality Principies in the Oedipus Myth”, Ferenczi (1912) afirma o seguinte: “Essas tendências que, devido à formação cultural da raça e do indivíduo, tornaram-se extremamente dolorosas para a consciência e passaram a ser reprimidas, arrastam consigo grande número de outras idéias e tendências associadas a estes complexos, dissociando-as do livre intercâmbio de pensamentos, ou pelo menos impedindo-as de serem tratadas com objetividade científica.”
Se a curiosidade natural e o impulso de inquirir sobre fatos e fenômenos desconhecidos ou apenas conjeturados encontram uma resistência externa, então indagações mais profundas (onde a criança teme inconscientemente se deparar com coisas proibidas e perversas) são igualmente reprimidas. Isso afeta 0 impulso de investigar a fundo qualquer questão mais complexa, que fica inibido. Estabelece-se, então, uma aversão à investigação cuidadosa, o que faz com que o prazer inato e irreprimível de fazer perguntas se ocupe apenas daquilo que se encontra na superfície, levando, assim, a uma curiosidade puramente superficial. Ou pode-se, então, desenvolver o tipo de pessoa dotada que encon tramos com muita freqüência no nosso dia-a-dia e no campo da ciência que, apesar de ser inteligente e possuir grande número de idéias, não consegue levar adiante a questão mais profunda de sua execução.
O pavor de constatar a falsidade de idéias que lhe foram impostas como verdadeiras pela autoridade, o medo de reconhecer de forma objetiva que certas coisas repudiadas e ignoradas realmente existem, levaram essa pessoa a evitar o exame mais cuidadoso de suas próprias dúvidas e a obrigam a fugir de toda profundidade
Ainda que partíssemos do princípio de que um pensador ocupado com grandes pensamentos não teria muito interesse nos afazeres do dia-a-dia, vemos que ele fracassa até mesmo em situações em que a mais pura necessidade o obrigaria a ter o mínimo de interesse, mas onde falha por não conseguir enfrentá-las de forma prática
Essa pessoa pulou este estágio, que se encontra trancado na repressão; da mesma maneira, o outro, a pessoa “absolu tamente prática”, só conseguiu atingir este estágio, e reprimiu o acesso a todos os outros que o levariam mais fundo.
Costumamos ressaltar a “coragem” do pensador que, opondo-se ao costume e à autoridade, consegue conduzir uma pesquisa totalmente original. Isso não exigiria tanta “coragem” se as crianças não precisassem ter um espírito peculiar para pensar por si mesmas, em oposição às autoridades mais elevadas, sobre os assuntos delicados que são em parte negados e em parte proibidos.
A noção de uma divindade invisível, onipotente e onisciente é esmagadora para a criança, principalmente porque dois fatores fortalecem o seu poder e eficácia. Um é a necessidade inata de autoridade. Como Freud diz em Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância (E.S.B. 11): “Em termos biológicos, a religiosidade deve ser atribuída ao longo desamparo da criança e à sua necessidade de ser ajudada; quando, mais tarde, ela descobre o quanto é impotente e fraca diante das grandes forças da vida, vive essa condição da mesma maneira que a vivia na sua infância e procura negar seu próprio desalento através de uma retomada das forças que a protegiam antes de crescer,” Ao reproduzir o desenvolvimento da humanidade, a criança encontra apoio para a sua necessi dade de autoridade nesta idéia de divindade. Contudo, o sentimento inato de onipotência, “a crença na onipotência do pensamento” —que, como aprendemos com Freud e com Ferenczi em “Stages in the Development of the Sense of Reality ” (1913), estão profundamente enraizados e, portanto, são permanentes no ho mem — a sensação de sua própria onipotência também, aceita de bom grado a noção de Deus. A sua própria sensação de onipotência faz com que a criança a atribua também ao seu próprio ambiente. Assim, a idéia de Deus, que dá à autoridade a mais total onipotência, vai ao encontro do sentimento de onipotên cia da própria criança, ajudando a estabelecê-lo e dificultando seu declínio.
A noção de Deus, no entanto, age como forte aliado desse sentimento de onipotência, um aliado quase imbatível, pois a mente infantil — incapaz de se familiarizar com essa idéia através dos meios usuais, mas impressionada demais pela sua autoridade esmagadora para rejeitã-la — nem se atreve a levantar uma luta, ou sequer uma dúvida, contra ela. O fato de a mente mais tarde poder vencer até mesmo esse obstáculo — apesar de muitos pensadores e cientistas nunca terem conseguido ultrapassar esta barreira e, portanto, seu trabalho ter sido obrigado a parar nela —não pode anular o dano já feito. Essa idéia de Deus pode destruir a tal ponto o senso de realidade, que ele não ousa rejeitar o incrível, o aparentemente irreal. Ele é de tal forma afetado, que o reconhecimento do tangível, daquilo que está ao alcance da mão, do “óbvio” em questões intelectuais, é reprimido junto com os mais profundos processos de pensamento.
Essa atitude negativa pode tomar as formas mais variadas, até chegar a uma absoluta má-vontade em aprender. Algumas vezes, ela se manifesta num interesse deslocado para alguma outra coisa, que apresenta com freqüência um caráter compulsivo. Outras, esta atitude só se estabelece depois de um esclarecimento parcial e neste caso, ao invés do vivido interesse exibido até então, a criança passa a manifestar forte resistência em aceitar novos esclarecimentos e simplesmente os rejeita.
Havia algu mas perguntas que voltavam à tona freqüentemente, apesar de já terem sido respondidas com o máximo de detalhes possível.
ficar mais exigente e a exibir clara aversão a determina dos
trabalhar apenas com as perguntas conscientes não tinha sido suficiente.
Fritz comentara pouco tempo antes: “Eu- queria ver alguém morrer; não como eles ficam depois, de mortos, mas quando estão morrendo. Então eu também ia querer ver como são depois de mortos.”
se dizia um “carrasco”
Quando a mãe lhe perguntou o que queria tanto saber, respondeu: “Como é seu pipi é seu buraco de onde sai a caca. Eu queria” (riu) “olhar lã dentro quando você estivesse no banheiro sem saber e ver o seu pipi e o buraco de onde sai a caca.”
as crianças são feitas de comida e são idçn|jç$s às fezes
ele de fato incorporou esta informação ao corpo de seu conhecimento
o componente homossexual, até então pouco observável, estava se tornando mais evidente, como também se pode constatar através de sonhos e fantasias subseqüentes
Quando perguntei por que tinha medo de que a mãe fizesse algo tão ruim, o que teria feito com ela ou desejado que acontecesse com ela para merecer isso, Fritz admitiu que quando ficava zangado, tinha vontade de que ela e o papai morressem, e que já tinha pensado consigo mesmo: “mamãe feia”. Também reconheceu que ficava zangado com ela quando lhe proibia de brincar com o seu pipi.
perguntou sobre o ato sexual em si, coisa que nunca tinha feito. Como o homem podia botar o pipi lá dentro, se o papai ia querer fazer outra criança, qual era o tamanho que se precisava ter para fazer uma criança, se a titia podia fazer isso com a mamãe, etc. Houve mais uma vez um abranda mento da resistência
Não tinha mais nenhum prazer em aprender, nem nenhum interesse profundo, apesar de obviamente possuir boas capacidades intelectuais.
Algumas que sempre foram bem comportadas e responsáveis tornam-se tímidas, intratáveis, ou até mesmo revol tadas e agressivas. Crianças alegres e amigáveis tomam-se anti-sociais e introver tidas. Outras, cujos dotes intelectuais prometiam desabrochar de forma resplandecente, têm esse recurso cortado pela raiz. Crianças brilhantes às vezes fracassam numa tarefa pequena e logo perdem a coragem e a auto-confiança.
Sua alegre tagarelice e sua óbvia necessidade de companhia, não só de outras crianças, mas também de adultos, com quem conversa com prazer e desenvoltura, agora formam um contraste marcante com seu caráter anterior.
as vantagens, ou mesmo a necessidade de introduzir a análise bem cedo na educação, a fim de preparar relação com o inconsciente da criança assim que for possível entrar em contato com seu consciente. Assim, é provável que se possa remover facilmente as inibições ou os traços neuróticos logo que eles começam a se desenvolver. Não há dúvida de que uma criança normal de três anos, e provavelmente crianças ainda mais novas, que muitas vezes demonstram interesses tão vividos, já tem a capacidade intelectual para compreender as explicações que lhe são dadas tão bem quanto qualquer outra coisa. Talvez sua capacidade seja ainda maior do que a de crianças mais velhas, que já enfrentam empecilhos afetivos em relação a estas questões, devido a uma resistência instalada com muito mais firmeza. A criança mais jovem, por outro lado, está mais próxima das coisas naturais, desde que as influências prejudiciais da educação que recebeu não tenham ido longe demais. Essa seria, portanto, a verdadeira educação com o auxílio da psicanálise, muito mais do que no caso deste menino, que já tinha cinco anos de idade.
Sua desenvolvida capacidade de ser bom não diminuiu; na verdade, ela foi estimulada. O menino dá com facilidade e de boa vontade, e faz sacrifícios pelas pessoas que ama; tem muita consideração e possui sua parcela completa de “bondade”
então tenta chamar atenção o dia inteiro com o mesmo argumento e vem falar de suas fantasias nos momentos mais inconvenientes; em suma, tenta de várias maneiras transformar a análise na ocupação de sua vida.
Refiro-me à criação de colégios infantis dirigidos por mulheres analistas. Não há dúvida de que uma mulher analista que trabalhe com um grupo de babás instruídas por ela pode observar todo um grupo de crianças, detectando os casos em que a análise é necessária e iniciando-a logo em seguida.
Muitas vezes, os professores, ansiosos para obter bons resultados nos exames, não investigam as causas do fracasso e não demonstram a menor compreensão e compaixão pelo sofrimento que este causa
Algumas citações da grande quantidade de material ilustrativo à nossa disposição serão o suficiente: “Se deixassem o pequeno selvagem fazer o que desejasse e ele pudesse enfrentar a força e a paixão das trinta com a irracionalidade do berço, ele quebraria o pescoço do pai e desonraria a mãe” (Diderot, O Sobrinho de Rameau, trad. de Goethe).
Lily Braun, no excelente livro Memoirs oj a Socialist, descreve como tentou estabelecer, durante sua gravidez, uma relação cordial com seus enteados pubes- centes, a fim de lhes fornecer esclarecimentos sexuais. Suas tentativas encontra ram apenas desprezo e rejeição, e tiveram que ser abandonadas; as mais inspiradas tentativas de. se oferecer uma educação sexual podem ter o mesmo fim. Às vezes é impossível vencer a recusa e a reserva da criança. Oportunidades perdidas para dar esclarecimentos às crianças quando ainda são pequenas podem nunca mais se repetir; no entanto, quando se consegue uma abertura, é possível diminuir ou até mesmo remover muitas dificuldades.
continuidade psíquica da vida
Sadger demonstrou que o medo de fazer prova, tanto no sonho quanto na realidade, é o medo da castração
O papel extremamenté importante que a escola desempenha geralmente se apóia no fato de que a escola e o aprendizado estão desde o início libídinalmente determinados para todos, pois suas exigências obrigam a criança a sublimar suas energias pulsionais libidinais. A sublimação da atividade genital, principalmente, tem um papel decisivo no aprendizado de várias matérias, que será inibido, portanto, pelo medo da castração.
Ferenczi sugeriu que para o inconsciente a volta ao corpo materno só é possível através do coito e levantou a hipótese de que essa fantasia frequentemente demonstrável se originaria de processos evolucionãrios filogenéticos
ser um pupilo significava aprender sobre o coito, enquanto uma profissão significava realizá-lo
O clérigo, que mostra aos alunos esses gestos, mas não dá nenhuma explicação, simboliza o pai bom que instrui os filhos a respeito do coito, ou permite que fiquem presentes para observá-lo
Felix também costumava copiar a lição de outra pessoa. Assim, quando era bem-sucedido, obtinha de certa maneira um aliado contra o pai e, simultaneamente, depreciava o valor — e, portanto, a culpa — de seu feito.
Pode-se observar como o significado simbólico-sexual da caneta se funde com o ato da escrita que esta descarrega. Da mesma maneira, o significado libidinal da leitura deriva do investimento simbólico do livro e do olho. Neste ponto, é claro, também agem outras determinantes oferecidas pelas pulsões componentes, como o “voyeurismo” na leitura e tendências exibicionis- tas, agressivas e sádicas na escrita; nas raízes do significado simbólico-sexual da caneta provavelmente se encontrava originalmente o da arma e da mão. Em correspondência com este fator, a atividade da leitura é mais passiva, enquanto a da escrita é mais ativa. As diversas fixações nos estágios pré-genitais da organização também são importantes para explicar a inibição de uma dessas atividades.
Lisa achava o número “3” insuportável, pois “uma terceira pessoa é sempre supérflua” e “dois podem apostar uma corrida” — com o objetivo de chegar a uma bandeira —mas o terceiro não tem nada o que fazer lá. Lisa, que gostava de matemática, mas tinha forte inibição nesta área, contou-me que na verdade só conseguia compreender de fato a idéia de adição; conseguia entender que “um se junta com o outro quando são a mesma coisa”, mas como se somavam quando eram diferentes? Esta idéia era condicionada pelo seu complexo de castração e dizia respeito à diferença entre os órgãos genitais do homem e da mulher. Para Lisa, a idéia de “adição” era determinada pelo coito entre os pais. Por outro lado, conseguia entender que coisas dispares participassem da multiplicação e que nesse caso o resultado fosse diferente. O “resultado” é a criança. No que lhe dizia respeito, só reconhecia o órgão genital masculino, deixando o feminino para as irmãs.
fundamento anal da aritmética
É uma observação frequentemente confirmada que as meninas geralmente se saem melhor na escola do que os meninos, mas que seus feitos posteriores não se igualam aos dos homens
Quando tinha dois anos e nove meses de idade, Fritz fugiu de casa e atravessou ruas movimentadas sem o menor sinal de medo. Essa inclinação para fugir durou cerca de seis meses. Mais tarde, o menino passou a exibir grande cuidado com veículos (a análise revelou que se tratava de uma ansiedade neurótica) e o desejo de fugir, assim como o prazer de caminhar, pareciam ter desaparecido por completo.
Através de várias fantasias, pudemos descobrir o que tanto o amedrontava no caminho da escola
Fritz associava ao fato de ficar sujo de tinta o óleo e o leite condensado — fluidos que, como a análise revelou, representavam o sêmen para o menino. Pata ele, havia uma mistura de sêmen e fezes no pênis da mãe e do pai.
A ferrovia circular que aparecia nas suas fantasias também estava presente em todas as suas brincadeiras. O menino construía trens que corriam num circulo e também andava de patinete em círculos. Seu interesse crescente no senüdo e no nome das ruas tinha se desenvolvido num interesse pela geografia. Ele fingia que estava fazendo viagens no mapa.
interesse pela geografia e pela capacidade de orientação
inibição do senso de direção
No caso de Fritz, percebi que a fala, que sem dúvida é uma das primeiras sublimações, estava inibida desde o início. Ao longo da análise, essa criança que começara a falar muito tarde e que sempre pareceu muito calada, acabou se transformando num rapazinho bastante tagarela. Fritz não se cansava de contar histórias que ele próprio inventava e onde se percebia um desenvolvimento da fantasia para o qual o menino não apresentava a menor tendência antes da análise. Por outro lado, também era óbvio que sentia grande prazer no ato de falar em si e tinha uma relação especial com as palavras. Ào mesmo tempo, começou a demonstrar um forte interesse na gramática.
seus interesses intelectuais e suas relações sociais estavam muito inibidos
Como Felix só vinha à análise três vezes por semana e o tratamento foi interrompido diversas vezes, a análise de 370 horas se estendeu por mais de três anos e um quarto
alternância entre o amor pelo esporte e o amor pelo estudo
Ao longo da análise, foi ficando cada vez mais claro para o menino que os jogos eram uma supercompensação fracassada da ansiedade, um substituto falho da masturbação; conseqüente- mente, seu interesse pelos jogos foi diminuindo. Ao mesmo tempo, ele foi desenvolvendo — também gradualmente — um interesse por várias matérias da escola e seu “Berührungsangst” (medo de tocar os órgãos genitais) foi se abran dando, até chegar a um ponto em que, depois de várias tentativas sem sucesso, o menino conseguiu vencer o velho medo da masturbação.
Essa relação levou à masturbação mútua e, tendo em consideração todas as complicações, achei que no interesse da análise era melhor dar um fim ao relacionamento entre os dois meninos.
Também ficou claro que ele tivera o desejo reprimido de insultar o professor com uma linguagem coprofílica e de sujá-lo com fezes. Isso mais uma vez nos levou de volta à cena primária, quando o mesmo desejo surgira em relação ao pai, sendo expresso pelo menino através da defecação e do choro
Pela primeira vez, desejos heterossexuais apareceram e tomaram a forma da admiração por uma atriz. Essa escolha de objeto se enquadrava na maneira como Felix identificava2 o teatro, os concertos, etc. com a relação sexual, e os artistas com os pais. Como já demonstrei, ele próprio aparecia como observador e ouvinte, ao mesmo tempo que, através da identifi cação com os pais, também desempenhava os diversos papéis.
A primeira escolha de objeto heterossexual de Felix foi muito influenciada pela sua atitude homossexual. Para ele, a atriz possuía atributos masculinos, ela era a mãe com pênis. Essa atitude ainda se fazia presente na relação com seu segundo objeto amoroso heterossexual. Ele se apaixonou por uma menina mais velha que tomara a iniciativa no relacionamento. Ela personificava a imagem construída no início da infância da mãe como prostituta e, ao mesmo tempo, da mãe com pênis superior a ele. A transferência foi forte o bastante para que eu impusesse uma interrupção temporária nesse relacionamento,1 mesmo porque Felix já tivera o insight de que sensações de ansiedade estavam associadas a essas relações. Essa escolha de objeto tinha o propósito de fugir dos desejos e fantasias dirigidas a mim, que só nesse estágio passavam a ocupar o primeiro plano na análise. Agora era fácil perceber que a tentativa de se afastar da mãe original mente amada, mas proibida, contribuira para o fortalecimento da atitude homos sexual e das fantasias sobre a apavorante mãe castradora.
Sua relação com o professor, desde o início, era uma repetição de sua relação com o pai e era determinada da mesma maneira pela homossexualidade reprimida. Toda resposta que dava em aula, todo trabalho que fazia na escola, tinham o significado de uma relação homos sexual com o pai. Mas aqui também, assim como no relacionamento com o parceiro ou o oponente nos jogos, a relação original com a mãe —por mais oculta que fosse — aparecia por trás da tendência homossexual. O banco em que se sentava na escola, a mesa em que o professor se apoiava e o quadro-negro onde escrevia, a sala de aula, o prédio da escola: tudo isso representava, no que diz respeito ao professor, a mãe com a qual o professor (pai) tem relações sexuais, da mesma maneira que o gol onde cai a bola, o pátio de recreio, a quadra de esportes, etc. A ansiedade de castração estava por trás de sua inibição tanto nos jogos quanto no aprendizado.
Nessas ocasiões, Wemer sujava o peitoril da janela e a mesa com os lápis de cor, tentava me sujar também, ameaçava-me com os punhos e uma tesoura, tentava me chutar, imitava o barulho do flato inchando as bochechas e soprando o ar para fora, ofendia-me de todas as maneiras possíveis, fazia caretas e assobiava; entrementes, enfiava muitas vezes o dedo no ouvido1 e declarava que estava escutando um som estranho, que parecia vir de longe, mas não sabia o que era.
a situação analítica e a abordagem ao tratamento são os mesmos presentes na análise dos adultos, mas ajustados ao modo de comunicação da criança através da brincadeira.
Entre essas elaborações, cuja conexão com a situação edipiana era bastante clara, devem ser incluídas a maneira como as crianças vivem caindo e se machucando, sua sensibilidade exagerada, sua incapacidade de tolerar privações, suas inibições na brincadeira, sua atitude altamente ambivalente em relação às festas e aos presentes e, finalmente, as diversas dificuldades de educação que muitas vezes aparecem surpreendentemente na mais tenra idade. No entanto, descobri que a causa desses fenômenos tão comuns é um sentimento de culpa particularmente forte,
Na época, já tinha o desejo de roubar os filhos da mãe, que estava grávida, de matá-la e de tomar o seu lugar no coito com o pai. Estas tendências de ódio e agressão eram a causa de sua fixação na mãe (que, na idade de dois anos, estava se tornando particularmente forte), assim como de seus sentimentos de ansieda de e culpa. No período em que esses fenômenos ocupavam uma posição proeminente na sua análise, Trude quase sempre conseguia se machucar logo antes da sessão analítica.
Melanie Klein argumenta, como já fizera um ano antes, em “Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas”, que a analogia é perfeita: a criança forma uma neurose de transferência e apresenta, através de sua brincadeira, o equivalente das associações livres do adulto para o analista, cuja única função é analisar ao máximo tudo o que seu pequeno paciente lhe traz.
sentimentos de culpa e ansiedade sem dúvida são fatores importantes para possibilitar o nosso trabalho.
A análise não é um método suave: ela não pode poupar o paciente de nenhum sofrimento e isso é igualmente válido para as crianças. Na verdade, ela deve fazer com que o sofrimento se torne consciente e provocar a ab-reação, para que os pacientes sejam poupados de um sofrimento permanente e mais grave depois
A minha crítica, portanto, não é que Anna Freud ative a ansiedade e o sentimento de culpa, mas, pelo contrário, que ela não os resolva de forma suficiente. Na minha opinião, é de uma crueldade desnecessária com a criança tomar consciente sua ansiedade de enlouquecer, como Anna Freud descreve nas páginas 11-12 de seu livro, sem atacar imediatamente as raízes inconscientes dessa ansiedade, aliviando-a novamente da melhor maneira possível.
Meu método pressupõe, é claro, que desde o início eu esteja disposta a atrair a transferência negativa — e não só positiva — além de investigar suas origens na situação edipiana. Essas duas medidas estão perfeitamente de acordo com os princípios, analíticos, mas Anna Freud as rejeita por motivos que, na minha opinião, são infundados.
Por isso, eu só consideraria encerrada a análise de uma criança, mesmo a de uma criança bem pequena, quando conseguisse fazer com que seu conteúdo fosse expresso pela fala, dentro das capacidades da criança, ligando-a, assim, à realidade.
Anna Freud acredita que, ao analisar crianças, ao contrário de quando o paciente é adulto o analista não é “impessoal, sem substância, uma página em branco onde o paciente pode escrever suas fantasias”, alguém que evita fazer proibições e permitir gratificações. Porém, de acordo com minha experiência, é exatamente assim que o analista da criança pode e deve se comportar, depois de estabelecer a situação analítica. Sua atividade é apenas aparente, pois mesmo quando se atira por completo em todas as fantasias de brincadeira da criança, adaptando-se aos modos de representação peculiares à infância, ele faz exata mente o mesmo que o analista de adultos, que, como sabemos, segue de bom grado a fantasia de seus pacientes. Mas fora isso, não permito às crianças que analiso nenhuma gratificação pessoal, quer sob a forma de presentes, carinhos, encontros pessoais fora da análise, ou coisa semelhante. Em suma, mantenho de modo geral as regras jã aprovadas da análise de adultos. O que ofereço ao paciente criança é auxílio analítico e alívio, que ele sente relativamente rápido, mesmo quando não tinha a sensação de estar doente antes. Além disso, em troca da confiança que deposita na minha pessoa, pode esperar de mim a mais completa sinceridade e honestidade.
Sabemos que um dos principais fatores do trabalho analítico é manejar a transferência com rigor e objetividade, de acordo com os fatos, da maneira que nosso conhecimento analítico nos ensinou ser a mais correta. A solução total da transferência é encarada como um dos sinais de que a análise foi concluída de forma satisfatória. Com base nesse princípio, a psicanálise estabeleceu uma série de regras importantes que se mostram necessárias em todos os casos. Anna Freud deixa de lado a maior parte dessas regras no caso da análise de crianças. Desse modo, a transferência, cujo reconhecimento claro sabemos ser uma condição importante do nosso trabalho, torna-se um conceito incerto e duvidoso
‘a juventude não conhece a virtude
Durante as sessões analíticas, extraordinárias ab-reações ocorriam:
ela tinha acessos de raiva que eram desabafados em objetos da minha sala, como almofadas etc.; destruía e sujava os brinquedos; sujava papéis com água, massa de modelar, lápis e assim por diante. No meio de tudo isso, a criança dava a impressão de estar livre de inibições e parecia ter um grande prazer nesse comportamento às vezes bastante turbulento. No entanto, descobrí que não se tratava simplesmente de uma gratificação “desinibida” de suas fixações anais, mas sim que outros fatores desempenhavam um papel decisivo nesse processo.
Ela não era de modo algum tão “feliz” quanto parecia à primeira vista e como acreditavam as pessoas que conviviam com a criança do caso citado por Anna Freud. Em grande parte, o que estava por trás da “falta de limites” de Ema era ansiedade, assim como a necessidade de punição que a impelia a repetir seu mau comportamento. Neste também havia claros sinais do ódio e da revolta que datavam do período em que a criança estava recebendo o seu treinamento em hábitos de higiene. A situação mudou completamente quando analisamos essas fixações iniciais, sua relação com o desenvolvimento do complexo de Édipo e o sentimento de culpa associado a ele.
descobri que a análise permitiu às crianças se adaptarem melhor, suportando, assim, o teste de um ambiente desfavorável e sofrendo bem menos do que antes de serem analisadas.
já provei diversas vezes que quando a criança fica menos neurótica, ela se torna menos cansativa para as pessoas à sua volta que também sofrem de neuroses ou que têm menos discernimento. A análise, assim, também só iria exercer uma influência positiva sobre seus relacionamentos.
De acordo com minha experiência, entretanto, todos os que trabalham com a análise de crianças devem esperar uma certa hostilidade de babás, governantas ou até mesmo das mães, e devem tentar levar adiante a análise apesar desse tipo de sentimento. À primeira vista, isso parece impossível e de fato representa uma dificuldade considerável peculiar à análise de crianças. De qualquer maneira, descobri na maioria dos casos que não se tratava de um obstáculo intransponível. Parto do princípio, é claro, de que não temos de “compartilhar com os pais o amor e o ódio da criança”, mas sim de que é preciso lidar com a transferência positiva e a negativa de tal maneira que possamos estabelecer uma situação analítica e calcar nosso trabalho sobre ela.
É impressionante como as crianças, até mesmo as bem pequenas, passam então a nos.dar apoio com seu insight e sua necessidade de ajuda, e como conseguimos incluir no nosso trabalho as resistências causadas por aqueles com quem convivem os pequenos pacientes.
Segundo Anna Freud (p. 71), “Melanie Klein e seus seguidores expressam continuamente a opinião de que, com a ajuda da técnica do brincar, é possível analisar crianças de quase qualquer idade, desde a infância mais inicial”. Não sei em que se fundamenta esse comentário. O leitor deste volume, assim como de A psicanálise de crianças, não encontrará nenhuma passagem que possa corroborá-lo, nem material de análise de crianças com menos de dois anos e três quartos. Dou, é claro, uma grande importância ao estudo do comportamento dos bebês, principalmente à luz das minhas desco bertas sobre os processos mentais arcaicos, mas esse tipo de observação analítica é completamente diferente do tratamento psicanalítico.
Sua tese, tão oposta ao senso comum quanto a de Freud, é que o criminoso não é destituído de consciência; ao contrário, ele possui uma consciência cruel demais: um superego primitivo que não foi modificado e funciona de forma diferente que o normal, impelindo-o para o crime sob a pressão do medo e da culpa.
a importância da agressividade
fixações orais, que devem ser dividi das entre a fixação oral de sugar e a fixação oral de morder. Esta se encontra muito ligada a tendências canibalescas. O fato freqüentemente observado de que os bebês mordem o seio da mãe é um dos indícios dessa fixação
No primeiro ano de vida também ocorre uma boa parte das fixações sádico-anais. Esse termo, erotismo sádico-anal, refere-se ao prazer oriundo da zona erógena anal e da função excretora, aliado ao prazer da crueldade, domínio, posse, etc., que já se descobriu estar intimamente ligado aos prazeres anais.
O pequeno menino, que odeia o pai como um rival pelo amor da mãe, fará isso com a raiva, agressividade e fantasias derivadas de suas fixações sádico-orais e sádico-anais. A fantasia de entrar no quarto e matar o pai está presente na análise de todo menino, mesmo no caso de uma criança normal.
O desejo de Gerald de entrar lá, cegar o pai, castrá-lo e matá-lo provocava o medo de que a fera fizesse a mesma coisa com ele.
Um jantar que inventou depois de uma fantasia desse tipo era na verdade uma refeição em que ele a mãe comiam o pai. É difícil dar uma idéia de como uma criança tão afetuosa como essa sofre com essas fantasias, que a parte civilizada de sua personalidade condena com toda a força.
Esse menino fazia o máximo para demonstrar a maior afeição e consideração pelo pai; podemos ver aí um forte motivo para que ele reprimisse o amor pela mãe, que de certa forma é a causa dessas fantasias, permanecendo ligado ao pai numa fixação redobrada que poderia se tornar a base para uma atitude homossexual permanente mais adiante.
Desejos sádicos também são voltados contra o bebê recém-nascido. Além disso, esses desejos sádicos também são dirigidos contra irmãos mais velhos, pois a criança sente-se ignorada em comparação com eles, mesmo quando isso não ocorre na realidade. No entanto, sentimentos de ódio e ciúme também dão à criança um forte sentimento de culpa, que pode influenciar a relação com os irmãos e as irmãs para sempre. O pequeno Gerald, por exemplo, possuía um boneco do qual cuidava com muito carinho e no qual muitas vezes fazia curativos. Este repre sentava seu irmão mais novo, que, segundo, seu rigoroso superego, o menino tinha mutilado e castrado quando o bebê ainda se encontrava no útero da mãe
Apesar de a psicologia e a pedagogia terem sempre defen dido o ponto de vista de que a criança é um ser feliz e sem nenhum conflito, chegando à conclusão de que os sofrimentos do adulto são consequência dos encargos e dificuldades da realidade, deve-se dizer que na verdade acontece o oposto. O que aprendemos sobre a criança e o adulto através da psicanálise mostra que todos os sofrimentos posteriores da vida são em parte uma repetição desses sofrimentos iniciais, e que toda criança passa por um padecimento incalculável nos primeiros anos de vida.
Às vezes, ela tenta consertar os mesmos homens, trens e outros objetos que acabou de quebrar. Os atos de desenhar, construir e assim por diante também podem expressar as mesmas tendências reativas.
As teorias sexuais formam a base da maioria das fixações sádicas e primitivas.
Freud nos ensinou que a criança obtém um certo saber inconsciente, aparente mente de forma filogenética. Este inclui o conhecimento sobre a relação sexual entre os pais, o nascimento das crianças, etc.; contudo, trata-se apenas de um saber vago e confuso. Devido ao estágio sádico-oral e sádico-anal pelo qual está passando, a criança entende a relação sexual como uma ação onde comer, cozinhar, trocar as fezes e atos sádicos de todos os tipos (bater, cortar, e assim por diante) desempenham o papel mais importante. Gostaria de enfatizar o fato de como a conexão entre essas fantasias e a sexualidade se torna importante num estágio posterior da vida. Todas essas fantasias terão então aparentemente desapa recido, mas seu efeito inconsciente tem uma grande importância na frigidez, na impotência e em outros distúrbios sexuais.
Numa comunicação apresentada há alguns anos diante da Sociedade Psica- nalítica de Berlim, apontei para a analogia entre alguns crimes terríveis cometi dos recentemente é fantasias semelhantes que eu encontrara na análise de crianças pequenas. Um dos casos era na verdade uma combinação de crime e perversão. Agindo de forma extremamente habilidosa —o que lhe permitiu ficar muito tempo sem ser descoberto — um homem foi capaz de realizar os atos a seguir com um grande número de pessoas: o criminoso em questão, cujo nome era Harmann, criava intimidade com jovens, que primeiro utilizava para suas tendências homossexuais. Depois cortava-lhes a cabeça, queimava ou jogava fora as outras partes do corpo de alguma maneira, e ainda vendia suas roupas. Outro caso terrível foi o de um homem que matou várias pessoas, utilizando partes de se ps corpos para fabricar salsichas. As fantasias infantis que mencionei acima tinham em todos os detalhes as mesmas características desses crimes. As pessoas contra as quais se dirigiam eram, por exemplo, o pai e o irmão de um menino entre os quatro e os cinco anos, aos quais este estava ligado por forte fixação
sexual. Depois de expressar o desejo da masturbação mútua e de outras ações, ele cortou a cabeça de um bonequinho e vendeu o corpo para um açougueiro de faz-de-conta, que deveria trocá-lo por comida. O menino guardou a cabeça, que queria comer sozinho, pois aquele era o melhor pedaço. No entanto, ele também se apropriou dos pertences da vítima.
A maneira como esse menino sempre esperava algum tipo de punição talvez possa ser demonstrada com mais clareza no exemplo a seguir: uma vez, utilizando dois bonequinhos, ele fingiu que estava junto do irmão mais novo, esperando que ambos fossem punidos pelo seu mau comportamento com a mãe; ela chega, vê que os dois estão sujos, pune-os e vai embora. As duas crianças repetem mais uma vez seus atos ruins, são punidas novamente, e assim por diante. Finalmente, o medo da punição se torna tão forte, que ambas resolvem matar a mãe e o menino executa uma bonequinha. Os dois então cortam e comem o corpo. Mas o pai aparece para ajudar a mãe e também é morto de forma extremamente cruel;
seu corpo também é cortado e devorado. Agora as duas crianças parecem ficar felizes. Podem fazer o que quiserem. Pouco depois, porém, a ansiedade se manifesta novamente: os pais assassinados voltaram e estão vivos mais uma vez.
Quando a ansiedade surgiu, o menino tinha escondido os dois bonecos embaixo do sofá para que os pais não os encontrassem. Então acontece o que ele chama de “ficar educado”. O pai e a mãe encontram os bonecos; o pai corta fora a cabeça do menino e a mãe a do irmão, e agora é a vez deles serem cozinhados e comidos.
O menino perdeu a ansiedade e a inibição de brincar, passou a ter um bom desempenho na escola, e tornou-se socialmente bem adaptado e feliz.
encontramos nas crianças idéias tão fantásticas sobre aquilo que os pais podem Jazer com elas: matá-las, cozinhá-las, castrá-las, e assim por diante.
Aqueles que conhecem a vida de brincadeira infantil sabem que ela diz respeito apenas aos desejos e à vida de impulsos da criança, que os representa e realiza através de suas fantasias. Da realidade, à qual parece estar melhor ou pior adaptada, a criança toma apenas aquilo que é absolutamente essencial. Assim, podemos observar o surgimento de várias dificuldades nos períodos da vida da criança em que as exigências da realidade se tornam mais fortes —quando começa a escola, por exemplo.
Um menino de doze anos que ia ser enviado para um reformatório foi trazido a mim para ser analisado. Suas delmqüências ‘consistiam em arrombar o armário da escola e uma tendência geral de roubar — mas principalmente quebrar — objetos, além de atacar sexualmente as meninas. Não possuía nenhuma relação que não tivesse caráter destrutivo; suas amizades com outros meninos geralmente também serviam a esse propósito. Não tinha nenhum interesse em particular e parecia indiferente a todo tipo de punição e recompensa. A inteligência dessa criança estava muito abaixo do normal, mas isso não foi impedimento para a análise, que estava correndo muito bem e prometia bons resultados. Depois de algumas semanas me informaram que a criança estava passando por uma mudança favorável. Infelizmente, dois meses depois de iniciar a análise, fui obrigada a interromper o tratamento durante um longo período de tempo por motivos pessoais. Durante esses dois meses, o menino deveria ter vindo ao consultório três vezes por semana, mas só pude vê-lo 14 vezes, pois sua mãe adotiva fazia o máximo possível para mantê-lo afastado de mim. Mesmo assim, ele não cometeu nenhum ato de deliriqüência durante essa análise tão conturbada, mas sofreu uma recaída durante o período do intervalo. Foi imediatamente enviado para o reformatório e todas as minhas tentativas de trazê-lo de volta para a análise depois do meu retomo fracassaram. Diante dessa situação, não tenho a menor dúvida de que ele enveredou por uma carreira criminosa.
O menino, sentindo-se esmagado e castrado, tinha que mudar a situação, provando a si mesmo que também podia ser o agressor. Um motivo importante para essas tendências destrutivas era provar a si mesmo que ainda era um homem, além de ab-reagir o ódio pela irmã em outros objetos.
Em relação a isso, uma repressão ainda mais poderosa fechou todas as saídas para a fantasia e a sublimação, de modo que não restava nenhuma alternativa a não ser repetir o desejo e o medo continuamente através dos mesmos atos.
Gostaria de apontar para um meio através do qual boa parte da agressividade e do sadismo podem ser trabalhados, inclusive fisicamente: o esporte.
Sabemos que Freud chamava a neurose o negativo da perversão. Sachs fez uma colaboração importante para a psicologia das perversões, chegando à conclusão de que não é verdade que o pervertido se permita, por falta de consciência, aquilo que o neurótico reprime como conseqüência de suas inibi ções. Ele descobriu que a consciência do pervertido não é menos severa, mas sim que ela simplesmente funciona de outra maneira. Ela permite que algumas das tendências proibidas sejam mantidas, para fugir de outras que o superego considera ainda mais censuráveis. O que ele rejeita são desejos ligados ao complexo de Édipo, e aquilo que parece uma ausência de inibição no pervertido, na verdade é o efeito de um superego tão rigoroso quanto qualquer outro, mas que funciona de forma diferente.
A criança não precisa ter motivos especiais para ser analisada; bastam medidas técnicas para estabelecer a transferência e manter a análise em andamento. Não acredito na existência de uma criança com a qual seja impossível obter esse tipo de transferência, ou cuja capacidade de amar não possa ser trazida â tona.
capacidade para amar,
A sensação inicial de não saber está ligada a vários elementos. Ela se une à.
sensação de ser incapaz, impotente, que logo resulta da situação edipiana. A criança também sente essa frustração de forma mais aguda porque não possui um conhecimento claro sobre os processos sexuais. Em ambos os sexos, o complexo de castração é acentuado por essa sensação de ignorância
A conexão inicial entre o impulso epistemofilico e o sadismo é muito importante para todo o desenvolvimento mental. Essa pulsão, ativada pelo surgimento das tendências edipianas, volta-se de início principalmente para o corpo da mãe, visto como o palco de todos os processos e desenvolvimentos sexuais. Nesse ponto, a criança ainda está dominada pela posição libidinal sádico-anal, que a impele ao desejo de se apropriar do conteúdo do corpo. Ela então passa a sentir forte curiosidade sobre o conteúdo desse corpo, sua aparência, etc. Assim, a pulsão epistemofüica e o desejo de se apossar do objeto estão intimamente ligados desde muito cedo e, ao mesmo tempo, associam-se ao sentimento de culpa criado pelo conflito edipiano incipiente.
complexo de feminilidade dos homens
A fusão do desejo de ter um filho com o impulso epistemofílico permite ao menino executar um deslocamento para o plano intelectual; a sensação de estar em desvantagem então é ocultada e supercompensada pela superioridade que deduz do fato de possuir um pênis, superioridade que também é reconhecida pelas meninas. Esse exagero da posição masculina provoca afirmações exagera das de masculinidade. No artigo “Die Wurzel des Wissbegierde”, Mary Chadwick (1925) também atribui o valor excessivo que o homem confere narcisicamente ao pênis, assim como sua atitude de rivalidade intelectual em relação às mulhe res, à frustração do desejo de ter filho e ao deslocamento desse desejo para o plano intelectual.
A tendência dos meninos de exibir uma agressividade excessiva, coisa que ocorre com muita freqüência, tem sua origem no complexo de feminilidade. Ela é acompanhada por uma atitude de desprezo e de “saber melhor”, além de ser extremamente anti-social e sádica, sendo determinada em parte pela tentativa de ocultar a ansiedade e a ignorância que se encontram por trás dela. Também coincide em parte com o protesto do menino (resultante do medo da castração) contra o pàpel feminino, mas não deixa de estar calcada no medo da mãe, da qual o menino pretendia roubar o pênis do pai, os filhos e os órgãos sexuais femininos. Essa agressividade excessiva se une ao prazer em atacar decorrente
da situação edipiana direta, genital, mas representa a parte dessa situação que é de longe o fator mais anti-social da formação do caráter. É por isso que a rivalidade do homem com as mulheres pode ser bem mais anti-social do que sua rivalidade com outros homens, que é provocada em grande parte pela pòsição genital. A quantidade de fixações sádicas, é claro, também vai determinar a relação do homem com outros homens quando eles são rivais. Se, ao contrário, a identificação com a mãe está calcada numa posição genital melhor estabele cida, a relação com as mulheres terá um caráter positivo e o desejo de ter filho, assim como o componente feminino, que desempenham um papel tão importante no trabalho do homem, encontrarão condições mais favoráveis para a sublimação.
Além do caráter receptivo do órgão genital — posto em ação pelo desejo intenso de encontrar uma nova fonte de gratificação —a inveja e o ódio da mãe, que possui o pênis do pai, também parecem ser mais um motivo para que a menina se volte para o pai no período em que seus primeiros impulsos edipianos estão se manifestando. As carícias do pai agora têm o efeito de uma sedução e são sentidas como “a atração do sexo oposto”
Por trás do impulso de se embelezar, sempre há a tentativa de restaurar a graça destruída, noção originária da ansiedade e do sentimento de culpa
Há outro tipo de experiência no início da infância que me parece característico e extremamente importante. Essas experiências muitas vezes se seguem à obser vação do coito e são provocadas ou alimentadas pela excitação que esta desperta.
Refiro-me às relações sexuais de crianças pequenas entre si, entre irmãos e irmãs ou amiguinhos, que consistem nos atos mais diversos: olhar, tocar, defecar juntos, felação, cunilíngua e muitas vezes tentativas diretas de realizar o coito. Elas são profundamente reprimidas e possuem o investimento de um enorme sentimento de culpa. Esse sentimento é provocado principalmente pelo fato de que o objeto amoroso, escolhido sob a pressão da excitação trazida pelo conflito edipiano, é visto pela criança como substituto do pai, da mãe, ou de ambos. Assim, essas relações, que parecem tão insignificantes e aparentemente são vividas por todas as crianças sob o estímulo do desenvolvimento edipiano, tomam o caráter de relação edipiana realizada e exercem influência decisiva sobre a formação do complexo de Édipo, o desligamento do sujeito desse complexo e suas relações sexuais posteriores.
Eu tinha, então, que passar pelas torturas e humilhações mais fantásticas. Se alguém me tratava bem nesse jogo, geralmente logo se descobria que sua bondade era apenas simulada. Os traços paranóicos se manifestavam no fato de que eu era constantemente espionada, as pessoas adivinhavam meus pensamentos, e o pai ou professor se aliavam à mãe contra mim — na verdade, eu vivia cercada de perseguidores. Eu mesma, no papel da criança, era constantemente obrigada a espionar e atormentar os outros. A própria Erna muitas vezes desempenhava o papel da criança. Nesse caso, o jogo geralmente terminava com a menina conseguindo fugir de seus perseguidores (nessas ocasiões, a “criança” era boa), ficando rica e poderosa, transformando-se numa rainha e realizando uma vingança cruel contra aqueles que a atormenta-
Temos exemplo disso na crença fantástica em um Deus que ajudaria a perpretar todo tipo de atrocidade a fim de destruir o inimigo e seu país (como tivemos a oportunidade de constatar na última guerra).
a rapidez com que os aliados se transformam em inimigos (que também é o motivo pelo qual a realização de desejos através da brincadeira muitas vezes entra em colapso) — tudo isso indica que o processo de síntese das identificações fracassou. Èsse fracasso se manifesta através da ambivalência, da tendência de ansiedade, da falta de estabi lidade ou da rapidez com que esta é derrubada e da relação deficiente com a realidade que é típica das crianças neuróticas.2 A necessidade de síntese do superego surge da dificuldade do indivíduo para chegar a um acordo com um superego composto de imagos de naturezas tão contraditórias.3 Quando o período de latência se instala e as exigências da realidade aumentam, o ego faz esforço ainda maior para realizar a síntese do superego, a fim de finalmente atingir um equilíbrio entre o superego, o id e a realidade.
À medida que análise avança, a influência das figuras ameaçadoras se toma mais fraca e as figuras de realização de desejos aparecem com mais força e de forma mais duradoura na brincadeira; ao mesmo tempo, há um aumento proporcional do desejo de brincar e da satisfação no final dos jogos. Há uma redução do pessimismo e um crescimento do otimismo.
3 A criança muitas vezes possui um amplo leque de figuras paternas e maternas, que vai desde as aterrorizantes “Mamãe-gigante” e “Mamãe-que-esmaga”, até a generosa “Mamãe-fada”. Também já me deparei com uma “Mamãe-média” e uma “Mamãe-três-quartos”, que representavam um meio-termo entre os exemplos mais extremos.
No caso da esquizofrenia, na minha opinião, a capacidade de personificação e transferência fracassa, entre outros motivos, por causa do funcionamento defi ciente do mecanismo de projeção. Isso interfere com a capacidade de estabelecer ou manter uma relação com a realidade e o mundo externo.
ele deve aceitar aquilo que lhe é oferecido na situação analítica.
“As coisas maltratadas começam a viver.” A poltrona, a almofada, a mesa, a cadeira, etc. atacam o menino, recusam-se a servi-lo e o expulsam para fora. Descobrimos que objetos feitos para se sentar e deitar, assim como as camas, aparecem regularmente na análise de crianças como símbolos da mãe protetora e carinhosa. As tiras do papel de parede rasgado simbolizam o interior ferido do corpo da mãe, enquanto o estranho homenzinho de números que sai da capa do livro é o pai (representado pelo pênis), exercendo agora o papel de juiz e prestes a punir a criança, que desmaia de ansiedade, pelos danos que fez e o roubo que cometeu no corpo da mãe. Quando o menino foge para o mundo da natureza, este assume o papel da mãe que ele atacou. Os animais hostis representam a multiplicação do pai, que ele também atacou, junto com as crianças que o menino acredita estarem dentro da mãe. Agora vemos os aconte cimentos que ocorreram dentro da sala se reproduzirem em maior escala, num espaço mais amplo e com mais participantes. O mundo, transformado no corpo da mãe, está armado contra o menino e o persegue.
vencer seu sadismo através da pena e da compaixão.
Também descobrimos no texto qual é o fator que acionou o sadismo do menino. Ele diz: “Quero ir passear no parque.
O que eu mais queria era comer todos os bolos do mundo.” No entanto, a mãe ameaça lhe dar chá sem açúcar e pão seco. A frustração oral que transforma a indulgente “mãe boa” na “mãe má” estimula seu sadismo.
Já contei que a casa dela era uma verdadeira galeria de arte moderna? O irmão de seu marido era um dos maiores pintores do país e seus melhores quadros decoravam as paredes da sala. No entanto, pouco antes do Natal, esse cunhado levou embora um quadro que tinha apenas emprestado. O quadro foi vendido. Isso deixou um espaço vazio na parede, que parecia coincidir, de alguma forma inexplicável, com o espaço vazio dentro dela. Ruth caiu na mais profunda tristeza. O espaço em branco na parede fez com que esquecesse sua belíssima casa, sua felicidade, seus amigos, tudo.
Era possível, é claro, arranjar outro quadro, mas isso levaria tempo; era preciso procurar muito para encontrar a pintura certa.
“O espaço vazio continuava a escancarar seu sorriso horrendo para ela.
“Marido e mulher estavam sentados um diante do outro na mesa do café. Os olhos de Ruth estavam enevoados de desespero. Mas de repente seu rosto se transfigurou num sorriso: Já sei o que eu vou fazer. Acho que vou tentar dar umas pinceladas na parede, até a gente arranjar um quadro novo.’ ‘Faça isso, querida’, respondeu o marido, certo de que nenhuma pincelada que ela pudesse dar seria monstruosamente feia.
“Ele mal saiu da sala e ela, tomada de um frenesi, telefonou para a loja de pintura para encomendar as tintas que o cunhado costumava usar, além dos pincéis, da palheta e de todo o resto do ‘material’. Pediu que entregassem tudo imediatamente. Não tinha a menor idéia de como começar. Nunca tinha espre mido um tubo de tinta, passado pigmento na tela ou misturado as cores numa palheta. Enquanto as coisas não chegavam, ficou em pé diante da parede vazia com um pedaço de giz negro na mão e foi fazendo traços ao acaso, à medida que apareciam na sua cabeça. Será que deveria pegar o carro e sair correndo até a casa do cunhado para perguntar como se pintava? Não, preferia morrer.
“No final da tarde, o marido chegou e ela foi ao seu encontro com um brilho ardente nos olhos. Ela não estava ficando doente, estava? Ruth arrastou o marido, dizendo: ‘Vem cá, você vai ver.’ E ele viu. Não conseguia tirar os olhos daquela imagem; não entendia, não acreditava, não podia acreditar. Ruth se atirou no sofá num estado de total exaustão: ‘Você acha isso possível?’ “Na mesma noite, chamaram o cunhado, Ruth estava muito ansiosa para ouvir o veredicto do especialista. Mas o artista exclamou na mesma hora: ‘Você acha que pode me convencer de que pintou isso?. Que mentira. Este quadro só pode ser de um pintor muito experiente. De quem é? Eu não conheço.’
o simbolis mo é o fundamento de toda sublimação e de todo talento, pois é através da igualdade simbólica que as coisas, as atividades e os interesses se tornam o conteúdo de fantasias libidinais.
a primeira realidade da criança é totalmente fantástica; ela se vê cercada de objetos de ansiedade e, nesse sentido, os excrementos, os órgãos, os objetos, coisas anima das e inanimadas de início são igualadas umas às outras. À medida que o ego se desenvolve, uma relação verdadeira com a realidade vai se estabelecendo a partir dessa realidade irreal. Assim, o desenvolvimento do ego e a relação com a realidade dependem da capacidade do indivíduo de tolerar a pressão das primeiras situações de ansiedade, já num período muito inicial.
Enquanto corria de um lado para o outro, seus movimentos pareciam totalmente descoordenados. A expressão de seus olhos e de seu rosto era fixa, distante e não deixava transparecer nenhum tipo de interesse
Dick passara por tempos difíceis e de grande frustração quando ainda era um bebê de colo, pois a mãe tentara inutilmente amamentá-lo durante algumas semanas, fazendo com que o bebê quase morresse de fome. Recorreu-se, então, a alimentos artificiais. Quando Dick tinha seis semanas devida, finalmente se encontrou uma ama de leite, mas nessa época ele já não gostava de mamar no peito. Começou a sofrer de problemas digestivos, prolapsus ani e, mais tarde, de hemorróidas. É po’ssível que seu desenvolvimento tenha sido afetado pelo fato de, apesar de ser alvo de todo tipo de atenção, o menino nunca ter recebido amor verdadeiro, pois desde o início a atitude da mãe em relação a ele era de extrema ansiedade
Díck era totalmente incapaz de qualquer ato de agressão;
o fundamento dessa incapacidade se revelou com clareza já num período muito inicial, com sua recusa em mastigar a comida. Aos quatro anos de idade, não conseguia segurar tesouras, facas, nem ferramentas e seus movimentos eram extraordinariamente desajeitados. A defesa contra os impulsos sádicos dirigidos contra o corpo da mãe e seu conteúdo —impulsos ligados a fantasias de coito — resultou na suspensão das fantasias e na interrupção da formação de símbolos.
0 resto do desenvolvimento de Díck foi prejudicado porque o menino não conseguia levar para a fantasia a relação sádica com o corpo da mãe.
Juntamente com esse desenvolvimento de seus interesses e de uma transfe rência cada vez maior em relação a mim, finalmente veio à tona as relações de objeto que até então estavam ausentes. Ao longo deses meses, a atitude do menino para com a mãe e a babá tornou-se afetuosa e normal. Ele agora deseja sua presença, quer que elas lhe dêem atenção e fica triste quando vão embora.
Seu relacionamento com o pai também dá mostras crescentes de estar seguindo a atitude edipiana normal e há uma relação cada vez mais firme com os objetos em geral. O desejo de se fazer entender, que antes estava ausente, agora age com toda a força. Dick íáz grandes esforços para se comunicar com seu vocabulário ainda bastante limitado, mas que ele diligentemente procura ampliar, com bons resultados. Há também várias indicações de que o menino esteja começando a estabelecer certa relação com a realidade
A única coisa a fazer ao se analisar essa criança, que não conseguia se fazer entender e cujo ego não estava aberto a qualquer tipo de influência, era tentar ganhar acesso ao seu inconsciente e, diminuindo as dificuldades inconscientes, abrir caminho para o desenvolvimento do ego. No caso de Dick, assim como em qualquer outro, o acesso ao inconsciente só podia ser obtido, é claro, através do ego. Os acontecimentos mostraram que até mesmo esse ego de desenvolvimento tão imperfeito se prestava a estabelecer uma ligação com o inconsciente. Do ponto de vista teórico, é importante observar que, mesmo num caso tão grave de desenvolvimento deficiente do ego, é possível desenvolver tanto o ego quanto a libido apenas ao se analisar os conflitos inconscientes, sem exercer nenhuma influência educacional sobre o ego.
demência precoce avançada nos adultos.
Resumindo-o mais uma vez: ele se caracterizava por ausência quase total de afeto e ansiedade, considerável afastamento da realidade, inacessibilidade, falta de ligações emotivas, comportamento negativo em alternância com sinais de obe diência automática, indiferença à dor, repetição —sintomas típicos da demência
Além disso, acredito que uma das principais tarefas da análise de crianças é a descoberta e a cura das psicoses durante a infância. O conhecimento teórico adquirido dessa maneira sem dúvida seria de grande valor para compreendermos a estrutura das psicoses e nos ajudaria a estabelecer um diagnóstico diferenciador mais preciso entre as várias doenças.
Abraham afirmava que na paranóia a libido regredia para o início do estágio anal. Minhas conclusões estão de acordo com as hipóteses de Freud, segundo as quais os pontos de fixação da demência precoce e da paranóia devem ser procurados no estágio narcísico, sendo que o da demência precoce antecede o da paranóia.
acredito que uma das principais tarefas do analista de crianças é a descoberta e a cura das psicoses durante a infância
UMA CONTRIBUIÇÃO À TEORIA DA INIBIÇÃO INTELECTUAL (1931)
Percebia agora que podia ter um coito simbólico com a mãe; antes da análise, porém, o corpo dela era um museu de horrores. Isso parece apontar para aquilo que podemos ver confirmado na análise de todo homem: o medo do corpo da mulher como um lugar cheio de destruição pode ser uma das principais causas dos problemas de potência. Essa ansiedade também é um fator básico das inibições do desejo de conhecimento, uma vez que o interior do corpo da mãe é o primeiro objeto desse impulso; ele é explorado e investigado na fantasia, além de ser atacado com todo o armamento sádico, inclúindo o pênis, que é visto como uma perigosa arma ofensiva. Aí temos outra causa da impotência nos homens: penetração e exploração são, em grande parte, sinônimas no inconsciente. Por esse motivo, quando foi analisada a ansiedade relacionada ao seu próprio pênis e ao pênis sádico dõ pai - o lápis amarelo que fura, igualado ao sol que queima —John se tomou mais capaz de representar a si mesmo tendo um coito simbólico com a mãe e investigando seu corpo. No dia seguinte, olhou com atenção e interesse para as figuras na parede da escola e conseguiu distinguir as palavras com facilidade.
Nos primeiros estágios de sua vida, o menino encara o pênis como o órgão executor do seu sadismo; conseqüentemente, esse se torna o veiculo de seu sentimento inicial de onipotência. Por esse motivo — e porque, sendo um órgão externo, ele pode ser examinado e posto à prova de várias maneiras — o pênis acaba adquirindo o significado do ego, das funções do ego e da consciência; ao mesmo tempo, o pênis internalizado do pai —o superego —que é invisível e sobre o qual o menino não pode saber nada, toma-se o representante do inconsciente.
Se o medo que a criança tem do superego e do id for grande demais, ela não só será incapaz de conhecer seus processos mentais e o conteúdo de seu corpo, como não conseguirá utilizar o pênis em seu aspecto psicológico como órgão
regulador e exeeutor do ego. Assim, suas funções de ego também sofrerão inibições ao longo dessas linhas.
Ela está calcada na ansiedade da criança, derivada dos níveis mais profundos de sua mente, de ter seu interior destruído ou preenchido por substâncias “más” e perigosas, ficando privada de substâncias “boas”. O material causador dessa ansiedade sofre uma alteração bem maior com os mecanismos obsessivos, do que com os psicóticos.
o impulso compulsivo, quase voraz, da criança para colecionar e acumular várias coisas (inclusive o conhecimento) se baseia, entre outros fatores que não precisam ser mencionados aqui, na tentativa sempre renovada de (a) obter substâncias e objetos “bons” (em última instância, leite “bom”, fezes “boas”, pênis “bom” e crianças “boas”), e com sua ajuda paralisar a ação das substâncias e objetos “maus” dentro do corpo; e (b) reunir reservas suficientes dentro de si mesma para resistir a ataques feitos por objetos externos e, se necessário, restaurar ao corpo da mãe, ou melhor, aos seus objetos, tudo aquilo que a criança roubou deles. Uma vez que as tentativas de fazer isso através de ações obsessivas são continuamente perturbadas por acessos de ansiedade oriundos de várias fontes opostas (por exemplo, a dúvida de se aquilo que absorveu é realmente “bom” e aquilo que jogou fora é “mau”; ou o medo de que ao colocar mais material dentro de si, ela tenha roubado mais uma vez o corpo da mãe), podemos entender por que a criança está numa obrigação constante de repetir as mesmas tentativas e como essa obrigação é em parte responsável pelo caráter compulsivo de seu comportamento.
Como a criança cria uma imagem tão fantástica de seus pais — uma imagem tão afastada da realidade? A resposta pode ser encontrada nos dados obtidos através da análise de crianças pequenas. Ao penetrar nas camadas mais profundas da mente da criança e descobrir essas enormes quantidades de ansiedade — o medo de objetos imaginários e de ser atacado de diversas maneiras — também nos deparamos com uma quantidade correspondente de impulsos de agressão reprimidos
À medida que os impulsos genitais vão ganhando força, surgem imagos benignas e prestativas, baseadas em fixações criadas no estágio oral de sugar em torno da mãe bondosa e generosa. Essas imagos estão mais próximas dos objetos reais; o superego, que antes era força despótica e ameaça dora, dando ordens sem sentido e contraditórias que o ego è incapaz de obedecer, começa a exercer um domínio mais suave e persuasivo, fazendo exigências que podem ser cumpridas.
a pena é uma reação à crueldade
Sabemos que a evacuação das fezes simboliza a expulsão forçada do objeto incorporado e é acompanhada por sentimentos de hostilidade e crueldade, além de vários tipos de desejos destrutivos. As nádegas ganham grande importância como objetos dessas atividades. Em minha opinião, porém, as tendências sádico-anais contêm metas e objetos ainda mais profundos e reprimidos.
a mãe incorpora continuamente o pênis do pai pela boca durante a cópula, de modo que seu corpo fica repleto de pênis e bebês. A criança deseja comer e destruir todos eles.
Jones, Abraham e Ferenczi.
A análise do brincar mostra que quando as pulsões agressivas da criança estão no auge, ela nunca se cansa de rasgar, cortar, quebrar, molhar e queimar todo tipo de coisa, incluindo papel, fósforos, caixas e pequenos brinquedos, que representam os pais e os irmãos, assim como o corpo e os seios da mãe. Essa ânsia de destruição se alterna com crises de ansiedade e sentimento de culpa.
desejo de restaurar o objeto danificado
Diante desses fatos, não se pode deixar de imaginar se o âmbito de atuação da psicanálise não está destinado a ir além do indivíduo e influenciar a vida da humanidade como um todo. As diversas tentativas feitas até hoje para aperfeiçoar a humanidade — principalmente para torná-la mais pacífica — fracassaram porque ninguém entendeu a profundidade e a força das pulsões agressivas inatas de cada indivíduo. Esses esforços procuram apenas encorajar os impulsos positivos e benévolos de cada um, ao mesmo tempo ém que negam ou suprimem os de agressão. Assim, estão condenados ao fracasso desde o início. A psicaná lise, contudo, dispõe de meios diferentes para uma tarefa desse tipo. Ela não pode, é verdade, eliminar por completo a pulsão agressiva do homem como tal;
mas ao diminuir a ansiedade que acentua essas pulsões, pode quebrar o reforço mútuo entre o ódio e o medo. Quando, no trabalho analítico, vemos como a resolução da ansiedade arcaica infantil, além de reduzir e modificar os impulsos agressivos da criança, leva a um emprego e uma gratificação mais valiosa desses impulsos do ponto de vista social; como a criança mostra cada vez mais o desejo profundo de amar e ser amada, e de ficar em paz com o mundo à sua volta; como ela obtém prazer e benefícios com a realização desse desejo, chegando também à diminuição da ansiedade
Crianças que, inconscientemente, esperam ser cortadas em pedaços, decapitadas, devoradas, e assim por diante, sentem-se impelidas a se comportar mal para serem punidas, pois o castigo real, por mais que seja severo, sempre será tranqüilizador em comparação com os ataques assassinos que esperam de pais fantasticamente cruéis.
No artigo que acabo de citar, cheguei à conclusão de que não é a fraqueza ou a ausência do superego (como se costuma supor) — ou seja, a falta de consciência — a responsável pelo comportamento característico de pessoas criminosas e anti-sociais, mas sim a severidade avassa ladora do superego.
A análise do brincar mostra que quando as pulsões agressivas e a ansiedade da criança estão muito fortes, ela nunca se cansa de rasgar, cortar, quebrar, molhar e queimar todo tipo de coisa, incluindo papel, fósforos, caixas e pequenos brinquedos, que representam os pais e os irmãos, assim como o corpo e os seios da mãe. Também podemos constatar que essas atividades agressivas se alternam com forte ansiedade.
Se não há nada no mundo além de inimigos, e é assim que o criminoso se sente, então seu ódio e espírito destrutivo, no seu ponto de vista, estão em grande parte justificados —atitude que alivia até certo ponto seu sentimento de culpa inconsciente. O ódio muitas vezes é usado como disfarce mais eficiente para o amor; no entanto, não podemos nos esquecer de que para a pessoa que se encontra sob pressão contínua da perseguição, a segurança do próprio ego é a primeira e única consideração.
UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGÊNESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVOS (1935)
De acordo com Freud e Abraham, o processo básico da melancolia é a perda do objeto amado. A perda verdadeira de um objeto real, ou uma situação semelhante que tenha o mesmo significado, resulta na instalação do objeto dentro do próprio ego. No entanto, devido a um excesso de impulsos canibales cos no indivíduo, essa introjeção fracassa e a consequência é a doença.
Mas por que o processo de introjeção seria específico à melancolia? Creio que a principal diferença entre a incorporação na paranóia e na melancolia está ligada a mudanças na relação do sujeito com o objeto, apesar de também estar relacionada a uma alteração na constituição do ego introjetor.
Ao dar esse passo, o ego atinge nova posição, que serve de base para a situação chamada de perda do objeto amado. Só quando o objeto é amado como um todo é que sua perda pode ser sentida como um todo.
Ele está cheio de ansiedade de que esses objetos morram. Tanto em crianças quanto em adultos que sofriam de depressão, pude encontrar o medo de guardar dentro de si objetos mortos ou agonizantes (principalmente os pais), assim como a identificação do ego com objetos nessa condição.
Se aceitarmos essa explicação para a formação do superego, fica mais fácil entender sua severidade implacável no caso do melancólico. As perseguições e as exigências dos objetos maus internalizados; os ataques desses objetos uns contra os outros (principalmente aqude representado pelo coito sádico dos pais); a necessidade premente de cumprir as exigências rigorosas dos “objetos bons”, além de protegê-los e apaziguá-los dentro do ego, com o resultante ódio ao id; a constante incerteza a respeito da “bondade” do objeto bom, o que faz com que ele rapidamente se transforme num objeto mau — todos esses fatores se combinam para produzir no ego a sensação de estar preso entre reivindicações contraditórias e impossíveis de se realizar, condição sentida como um peso na consciência. Em outras palavras: as primeiras manifestações da consciência estão associadas à perseguição de objetos maus. A própria expressão “ser mordido pela consciência” (Gewissensbisse) aponta para a “perseguição” implacável reali zada pela consciência e para o fato de que ela é imaginada originalmente como algo que devora suas vítimas.
A ansiedade de que os objetos bons sejam destruídos, e o ego junto com eles, ou de que estejam num estado de desintegração, está entrelaçada a esforços contínuos e desesperados para salvar os objetos bons internalizados, bem como os externos.
O desejo de perfeição aparentemente está calcado na ansiedade depressiva da desintegração, que, portanto, é muito importante em todas as sublimações.
a dúvida na verdade diz respeito à própria capacidade de amar do sujeito e “o homem que duvida de seu próprio amor pode, ou melhor, deve, duvidar de todas as coisas menores”
Em minha opinião, um aspecto típico do paranóico é que, apesar de desenvolver um poder de observação extremamente aguçado do mundo externo e dos objetos reais (por causa da sua ansiedade persecutória e das suas suspeitas constantes), essa capacidade de observação e seu senso de realidade são distor cidos, pois a ansiedade persecutória faz com que o paranóico observe as pessoas principalmente no intuito de averiguar se são perseguidores ou não. Não é possível haver uma identificação completa e estável com outro objeto, no sentido de observá-lo e compreendê-lo como ele realmente é, nem uma capacidade total de amar, quando a ansiedade persecutória pelo ego está em ascendência.
Se compararmos os sentimentos do paranóico com os do depressivo no que diz respeito à desintegração, podemos ver que o depressivo está cheio de pesar e ansiedade pelo objeto, que tenta juntar novamente num todo, enquanto para o paranóico o objeto desintegrado é principalmente uma multidão de persegui dores, pois cada pedaço se transforma em um deles.1 Essa noção dos fragmentos perigosos aos quais o objeto é reduzido me parece estar de acordo com a introjeção de objetos parciais igualados às fezes (Abraham) e com a ansiedade em tomo de uma multidão de perseguidores internos, criada, na minha opinião,2 a partir da introjeção de vários objetos parciais e de uma multidão de fezes perigosas.
Foi a ânsia excessiva de consertá-los (por tê-los danificado em sua fantasia) e o sofrimento exagerado causado por isso que levaram a um aumento tão grande das ansiedades e defesas paranóides, a ponto de soterrar com ódio o amor e o interesse pelas pessoas, assim como sua identificação com elas.
Enquanto urinava, reparou que seu pênis era muito grande e se sentiu incomodado por causa disso - como se o pai não devesse ver aquilo, pois se sentiría derrotado pelo filho e o paciente não queria humilhá-lo. Ao mesmo tempo, tinha a sensação de estar poupando o pai de se levantar da cama para urinar também. Nesse ponto o paciente se interrompeu e disse que os pais pareciam fazer parte dele próprio,
a idade avançada dos pais no sonho (que estavam mais velhos do que na realidade), de seu desamparo e da necessi dade de que o paciente os mantivesse aquecidos.
Estava cheio de pesar pela morte iminente dps pais internalizados, mas ao mesmo tempo não se atrevia a trazê-los de volta para uma vida completa (não puxava a corda do bico de gás), pois isso levaria ao coito, o que resultaria na morte dos pais e do próprio paciente
Em pouco tempo, a criança percebe cada vez mais a mãe como uma pessoa inteira, e essa percepção mais realista se estende ao mundo além da mãe. (O fato de uma boa relação com a mãe e com o mundo externo ajudar o bebê a superar suas ansiedades paranóides arcaicas lança nova luz sobre a importância dessas experiências iniciais.
Sempre que a criança encontra o seio novamente depois de tê-lo perdido, o processo maníaco através do qual o ego e o ego ideal coincidem (Freud) é posto em andamento; pois a gratificação da criança ao se alimentar não só é percebida como uma incorporação canibalesca de objetos externos (o “banquete” da mania, como diz Freud), mas também gera fantasias canibalescas relacionadas aos objetos amados internalizados, estando ligada ao controle desses objetos.
a cisão das imagos entre a amadas e as odiadas, ou seja, entre boas e perigosas.
Talvez se possa dizer que na verdade é nesse momento que surge a ambiva lência — que, afinal, diz respeito às relações de objeto, isto é, a objetos totais e reais. A ambivalência, estabelecida através de uma cisão das imagos, permite à criança pequena ter mais confiança nos seus objetos reais e, conseqüentemente, nos seus objetos internalizados também — desse modo, ela consegue amá-los com mais força e desenvolver cada vez mais as fantasias de restaurar o objeto amado.
Ao mesmo tempo, as ansiedades e defesas paranóides se voltam contra os objetos “maus”. O apoio que o ego obtém do objeto “bom” real é ampliado por um mecanismo de fuga, que se alterna entre objetos bons externos e internos.
A análise de crianças bem pequenas (recentemente, até crianças entre um e dois anos de idade têm sido analisadas) mostra que bebês de alguns meses associam fezes e urina a fantasias onde essas substâncias são encaradas como presentes. Mais do que presentes —e, portanto, sinais de amor pela mãe ou babá —eles são vistos como materiais capazes de realizar restauração. Por outro lado, quando os sentimentos destrutivos se tornam dominantes, o bebê defeca e urina com ódio na sua fantasia, utilizando os excrementos como agentes hostis. Assim, os excrementos produzidos com sentimentos amistosos são empregados, na fantasia, como meio de compensar os danos causados pelas fezes e a urina em momentos de raiva.
a criança absorve mentalmente para dentro de si mesma (introjeta) o mundo externo à medida em que pode percebê-lo. Primeiro introjeta o seio bom e o seio mau, mas acaba absorvendo gradualmente a mãe total (mais uma vez encarada como mãe boa e má). Ao mesmo tempo, o pai e as outras pessoas em volta da criança também são absorvidos, seguindo o mesmo padrão da relação com a mãe, ainda que numa intensidade menor no início; com o tempo, essas figuras ganham maior importância e se tomam independentes dentro da mente da criança. Se ela consegue estabelecer dentro de si mesma mãe boa e prestativa, essa mãe internalizada exercerá uma influência extremamente benéfica pelo resto de sua vida
O Dr. Emest Jones descobriu que a frustração é sempre percebida como uma privação: se a criança não pode obter aquilo que deseja, é porque isso está sendo retido pela mãe má, a cujo poder está submetida
Entrando na questão central deste trabalho, constatamos que quando a criança quer o peito e ele não está lá, ela se sente como se o tivesse perdido para sempre; como a idéia que tem do seio se estende à mãe, a sensação de ter perdido o peito leva ao medo de ter perdido a mãe amada como um todo —não só a mãe real, mas a mãe boa interiorizada. De acordo com minha experiência, esse medo da perda total do objeto bom (internalizado ou externo) se mistura ao sentimento de culpa por tê-lo destruído (devorando-o). A criança, então, percebe sua perda como punição pelo ato terrível que cometeu; desse modo, sentimentos extrema mente penosos e conflitantes acabam se associando à frustração, e é isso o que torna tão pungente a dor daquilo que parece uma simples contrariedade. A experiência do desmame reforça essas sensações dolorosas e tende a confirmar esses medos; no entanto, uma vez que o bebê nunca tem uma posse ininterrupta do seio, vendo-se repetidamente numa situação em que sente sua falta, pode-se dizer que, num certo sentido, ele está em constante estado de desmame, ou pelo menos num estado que leva ao desmame. De qualquer maneira, o ponto crítico é atingido no período real do desmame, quando a perda é completa e o seio ou a mamadeira desaparecem definitivamente.
Há muitas outras ocasiões, além do contato com o seio, em que o bebê percebe e registra inconscientemente o amor, a paciência e a compreensão da mãe —ou o seu oposto. Como já observei, os primeiros sentimentos estão ligados a estímulos internos e externos —agradáveis ou desagradáveis — e estão associa dos a fantasias. A maneira como o bebê é tratado desde a hora do parto pode deixar impressões permanentes em sua mente.
uma leve frustração na boca pode ter o efeito desejável de distribuir os ímpetos sexuais.
Não quero dizer, é claro, que se deve deixar o bebê sujo indefinidamente; o que deve ser evitado, na minha opinião, é que a higiene seja uma questão tão importante, pois assim a criança percebe a ânsia da mãe a esse respeito. É preciso encarar tudo isso com calma e evitar qualquer sinal de nojo ou desaprovação ao se limpar o bebê. Creio que é melhor adiar o treinamento sistemático de hábitos de higiene até que o processo de desmame esteja encerrado. Esse tipo de treinamento sem dúvida cria forte pressão mental e física sobre o bebê, que deve ser evitada enquanto ele lida com as dificuldades do desmame. Mesmo mais tarde, esse treinamento não deve ser conduzido com severidade, como a Dra.
Isaacs demonstra no artigo “Habit” (Isaacs, 1936).
Uma relação verdadeiramente feliz entre mãe e filho só pode ser obtida quando cuidar do bebê e alimentá-lo não é uma obrigação, mas um verdadeiro prazer para a mãe. Se ela consegue aproveitar tudo isso de forma completa, a criança perceberá inconscientemente seu prazer e essa felicidade recíproca levará a um total entendimento emocional entre mãe e filho.
Isso me leva a outra questão importante. É essencial que o bebê não durma no quarto dos pais, nem esteja presente durante a relação sexual. As pessoas muitas vezes acreditam que isso não é prejudicial ao bebê, pois não percebem que seus sentimentos sexuais, sua agressividade e seus medos são atiçados por essa experiência. Também ignoram o fato de que o bebê absorve inconsciente mente aquilo que parece incapaz de compreender intelectualmente. Muitas vezes, quando os pais pensam que o bebê está dormindo, na verdade ele está desperto ou semi-desperto, e mesmo quando parece estar dormindo é capaz de sentir o que está ocorrendo à sua volta. Apesar de tudo ser percebido apenas de forma muito vaga, uma memória vivida, mas distorcida, permanece ativa na sua mente inconsciente, o que traz efeitos negativos para seu desenvolvimento. Essa experiência é particularmente nociva quando coincide com outras que também criam uma tensão na criança, como uma doença, operação ou — voltando ao assunto deste capítulo — o desmame.
Contudo, uma melhor compreensão das necessidades emocionais do bebê certamente terá uma influên cia favorável na nossa atitude em relação aos seus problemas e poderá ajudá-los a atingir maior estabilidade.
Joan Riviere falou de “Ódio, culpa e agressividade” e Melanie Klein de “Amor, culpa e reparação”
AMOR, CULPA E REPARAÇÃO (1937) As duas PARTES deste livro1 discutem aspectos muito diferentes das emoções humanas. A primeira, “Ódio, voracidade e agressão”, trata dos fortes impulsos do ódio que são parte fundamental da natureza humana. A segunda, onde procuro fazer uma descrição da força igualmente poderosa do amor e do impulso de reparação, serve como complemento à primeira, pois a aparente divisão subentendida por esse tipo de apresentação na verdade não existe na mente humana
O primeiro objeto de amor e ódio do bebê —a mãe —é ao mesmo tempo desejado e odiado com toda intensidade e força características dos anseios arcaicos da criança.
O bebê, que vê a mãe basicamente como o objeto que satisfaz todos os seus desejos —o seio bom,1 por assim dizer —logo começa a reagir a essas gratificações e ao seu carinho criando sentimentos de amor em relação a ela como pessoa.
ter raiva de alguém que amamos É como loucura no cérebro.
As descobertas da psicanálise mostram que sensações desse tipo têm raízes mais profundas do que se supõe e estão sempre ligadas ao sentimento incons ciente de culpa. O motivo pelo qual algumas pessoas precisam tanto de elogios e da aprovação geral é a necessidade de ter provas de que são dignas de amor.
Esse sentimento surge do medo inconsciente de ser incapaz de amar os outros de verdade ou de forma suficiente e, principalmente, de não conseguir dominar seus próprios impulsos agressivos: essas pessoas têm medo de ser um perigo para aquele que amam.
Odiar pessoas e coisas que são vistas como dignas de ódio —sejam elas pessoas de que não gostamos, ou princípios (políticos, artísticos, religiosos ou morais) de que discordamos — é uma maneira geral de dar vazão aos nossos sentimentos de ódio, agressividade e desprezo numa forma que nos parece permisstvel e que pode ser bastante construtiva, desde que não seja levada ao extremo. Essas emoções, apesar de serem empregadas de forma adulta, no fundo são as mesmas que experimentamos na infância quando odiavamos as pessoas que ao mesmo tempo amavamos — nossos pais. Mesmo naquela época, tentávamos reservar nosso amor para os pais e desviar o ódio para outras pessoas ou outras coisas — processo que é mais bem-sucedido quando nossa capacidade de amar já está desenvolvida e estabilizada, e quando estendemos nosso campo de interesse, afeição e ódio na vida adulta. Para dar alguns outros exemplos: o trabalho dos advogados, políticos e críticos envolvem combater determinados oponentes, mas de uma forma que é permitida e considerada útil; nesse caso, as conclusões precedentes também se aplicariam.
Uma das várias maneiras através das quais é possível expressar a agressividade de forma legitima, ou até mesmo louvável, são os jogos, onde o oponente é temporariamente (e o fato de esse oponente ser temporário também ajuda a diminuir o sentimento de culpa) atacado com senti mentos que mais uma vez são oriundos de situações emocionais arcaicas. Assim, hã muitas maneiras - sublimadas e diretas — pelas quais a agressividade e o ódio são expressos por pessoas que, ao mesmo tempo, têm bom coração e uma enorme capacidade amar.
A relação da mãe com os filhos se altera novamente — e seu amor passa a se manifestar de outras maneiras — quando eles se tornam adultos, passam a ter sua própria vida e se libertam dos velhos laços, A mãe pode descobrir, então, que não desempenha mais um papel tão importante em suas vidas. No entanto, pode encontrar alguma satisfação em manter seu amor pronto para eles sempre que for necessário. Desse modo, percebe inconscientemente que ainda pode oferecer-lhes segurança e será sempre a mãe dos primeiros dias, cujo seio lhes dava gratificação e que satisfazia seus desejos e suas necessidades. Numa situação desse tipo, a mãe se identifica com sua própria mãe prestativa, cuja influência protetora nunca deixou de agir em sua mente. Ao mesmo tempo, ela também se identifica com os próprios filhos: na sua fantasia, ela é mais uma vez criança, por assim dizer, e compartilha com os filhos a presença de uma mãe boa e prestativa.
A mente inconsciente dos filhos muitas vezes corresponde à mente inconsciente da mãe
Algumas mulheres, por sua vez, não conseguem amar e aproveitar a posse dos filhos porque se sentem muito culpadas, em sua fantasia, por terem tomado o lugar da mãe. Uma mulher desse tipo pode ser incapaz de cuidar do próprio filho, deixando- o aos cuidados de babás ou outras pessoas — que na sua mente inconsciente representam a mãe, à qual devolve desse modo as crianças que desejava roubar dela. Esse medo de amar o filho, que .obviamente prejudica o relacionamento com a criança, pode ocorrer tanto nos homens quanto nas mulheres e provavelmente afetará as relações mútuas entre marido e mulher.
A psicanálise demonstrou que há profundos motivos inconscientes que contri buem para a escolha do parceiro e que tomam duas pessoas atraentes e sexualmente satisfatórias uma para a outra.
No relacionamento amoroso bem-sucedido, as mentes inconscientes dos parceiros se correspondem.
os desejos sexuais estão intimamente ligados a fantasias e impulsos agressivos, à culpa e ao medo da morte das pessoas amadas. Isso faz com que a criança procure reduzir seu apego aos pais. Ela também possui a tendência de reprimir esses sentimentos sexuais, i.e., eles se tornam inconscien tes e permanecem, por assim dizer, enterrados nas profundezas da mente. A criança também separa seus impulsos sexuais das primeiras pessoas amadas, o que lhe dá a capacidade de amar algumas pessoas de forma predominantemente afetuosa.
as novas amizades ajudam a solucionar dificuldades emocionais anteriores, sem que a pessoa tenha uma noção precisa desses problemas iniciais nem da maneira como estão sendo solucio nados. Através desse processo, as tendências de fazer reparação ganham maior espaço, o sentimento de culpa é aliviado e se aumenta a confiança em si mesmo e nos outros.
Em última análise, a imagem dos pais amados é preservada na mente inconsciente como a mais importante de todas as posses, pois ela protege aquele que a guarda da dor da total desolação.
A amizade provavelmente não terá sucesso se esperarmos demais dela, i.e., se esperarmos que a amiga compense nossas privações arcaicas. Essas exigências descabidas são em sua maior parte inconscientes e portanto não podem ser tratadas de forma racional. Elas levam necessariamente à decepção, à dor e ao ressentimento. Se essas exigências inconscientes excessivas provocam distúrbios na nossa amizade, então há uma repetição exata de situações mais remotas —por mais que as circunstâncias exteriores sejam diferentes —em que a voracidade e o ódio perturbaram nosso amor pelos pais é nos deixaram com sentimentos de insatisfação e solidão. Quando o passado não exerce uma influência tão forte sobre a situação atual, então conseguimos escolher melhor as amigas e nos satisfazer com aquilo que elas podem nos oferecer.
desejos sexuais agressivos da criança, contribui para o desejo do homem de explorar novos países
quando este também entra no país de seu desejo (arte, beleza, o mundo — em última análise, a mãe).
Não quero subestimar o sofrimento real, direto ou indireto, trazido pela pobreza; mas uma situação concreta que já é penosa toma-se ainda mais terrível com a dor e o desespero oriundos de situações emocionais mais arcaicos, quando além de se sentir privado da comida porque á mãe não satisfazia suas necessidades, o menino também achava quê ia perdê-la, juntamente com seu amor e sua proteção.’ Ficar sem trabalho também o impede de expressar suas tendências construtivas, que são uma maneira importante de lidar com os medos e o sentimento de culpa inconsciente —i.e., de fazer reparação. A dificuldade das circunstâncias tem algo em comum com o caráter inflexível dos pais terríveis que as crianças sob o peso da ansiedade acreditam realmente existir
Mais tarde, medos desse tipo têm o efeito de aumentar as dificuldades reais criadas pela perda de dinheiro, uma demissão ou a necessidade de abrir mão de uma casa, por exemplo; eles trazem consigo mais um elemento de dor e aprofundam o desespero.
Por outro lado, a ajuda oferecida aos pobres ou aos desempregados (seja de ordem material ou mental), fora seu valor concreto, é percebida inconscientemente como uma prova da existência de pais amorosos.
No fundo, porém, o nosso maior ódio está voltado contra o ódio dentro de nós mesmos. Temos tanto pavor desse ódio, que somos levados a empregar uma das nossas defesas mais fortes, transferindo-o para outras pessoas — ou seja, projetando-o. No entanto, também deslocamos o amor para o mundo externo; e só podemos fazer isso de forma genuína se estabelece mos boas relações com as figuras amistosas dentro da nossa mente.
o ego terá conseguido libertar sua libido do objeto perdido
cada uma das lembranças e expectativas que ligam a libido ao objeto é trazida à tona e hiper-investida, obtendo-se um desligamento da libido em relação a ele. É difícil explicar em termos econômicos por que esse compromisso através do qual o comando da realidade é executado aos poucos deveria ser tão doloroso. É impressionante que encaremos um incômodo tão penoso como algo natural
A relação da criança primeiro com a mãe e logo depois com o pai e as outras pessoas é acompanhada pelos processos de intemalização a que dei tanto destaque no meu trabalho. O bebê, tendo incorporado os pais, sente como se eles fossem pessoas vivas dentro de seu corpo, da mesma maneira concreta que profundas fantasias inconscientes são vividas —na sua mente, eles são objetos “internos”, como passei a chamá-los. Assim, se constrói um mundo interior na mente inconsciente da criança, mundo que corresponde às suas experiências reais e às impressões que recebe das pessoas e do mundo externo, que no entanto são alteradas pelas suas próprias fantasias e impulsos. Quando se trata de um mundo onde as pessoas estão predominantemente em paz umas com as outras e com o ego, o resultado é a harmonia, a segurança e a integração interna.
Afirmei em outro contexto que todo bebê sente ansiedades de conteúdo psicótico1 e que a neurose infantil2 é o meio normal de se trabalhar e modificar essas ansiedades
Melitta Schmideberg (1930)
O desejo de controlar o objeto, a gratifica ção sádica de dominá-lo e humilhá-lo, de sobrepujá-lo, o triunfo sobre ele, podem participar com tanta força do ato de reparação (realizado através de pensamen tos, atividades ou sublimações) que o círculo “benigno” iniciado por esse ato se rompe. Os objetos que deveríam ser restaurados se transformam novamente em perseguidores e os medos paranóides voltam à tona. Esses medos reforçam os mecanismos de defesa paranóides (de destruir o objeto) assim como os meca nismos maníacos (de controlá-lo ou mantê-lo em animação suspensa, e assim por diante). A reparação em progresso então é prejudicada ou anulada — dependendo da intensidade com que esses mecanismos são ativados. Como conseqüência do fracasso do ato de reparação, o ego se vê obrigado a recorrer constantemente a defesas obsessivas e maníacas.
O triunfo do sujeito sobre seus objetos necessariamente implica que estes por sua vez tentarão triunfar sobre ele, 0 que gera desconfiança e sentimentos de perseguição. O resultado pode ser a depressão, ou um aumento das defesas maníacas, acompanhado por um controle mais violento dos objetos:
uma vez que 0 sujeito não conseguiu reconciliá-los, restaurá-los ou melhorá-los, a sensação de ser perseguido por eles volta a ser dominante.
O triunfo sobre os objetos internos que o ego da criança pequena controla, humilha e tortura faz parte do aspecto destrutivo da posição maníaca que perturba a reparação e a recriação do mundo interno, assim como da paz e da harmonia interior; desse modo, o triunfo prejudica o trabalho do luto arcaico.
Quando, como conseqüência das constantes provas e contra-provas obtidas através do teste de realidade externa, a criança ganha mais confiança na sua capacidade de amar, nos seus poderes reparadores, e na integração e segurança do seu mundo interno bom, a onipotência maníaca diminui juntamente com a natureza obsessiva dos impulsos voltados para a reparação.
Sabemos que a perda da pessoa amada cria o impulso de reinstalar o objeto amado perdido dentro do ego (Freud e Ábraham). A meu ver, porém, o indivíduo não só joga para dentro de si (reincorpora) a pessoa que acaba de perder, como também reinstala os objetos bons internalizados (em última análise, os pais amados), que se tornaram parte de seu mundo interno desde as etapas mais arcaicas de seu desenvolvimento.
Assim como a criança pequena que passa pela posição depressiva está lutando, na sua mente inconsciente, para estabelecer e integrar seu mundo interno, a pessoa de luto também sofre a dor de restabelecê-lo e reintegrá-lo.
novamente que esse objeto não era perfeito, sem perder a confiança e o amor que sente por ele, nem temer sua vingança. Quando se atinge esse estágio, já se fez um avanço importante no trabalho de luto em direção à sua superação.
As associações mostraram que, no sonho, ela decidira não morrer com o filho, e sim sobreviver. Ficou claro que mesmo no sonho ela percebia que era bom estar viva e mau estar morta. Nesse sonho, o conhecimento inconsciente da sua perda é aceito com muito mais facilidade do que no de dois dias antes.
O pesar e a culpa estavam mais próximos. O sentimento de triunfo aparentemen te desaparecera, mas ficou claro que ele havia apenas diminuído. Ele ainda estava presente na satisfação de continuar viva —ao contrário do filho, que estava morto.
Os sentimentos de culpa que já se faziam sentir deviam-se em parte a esse elemento de triunfo.
Ao chorar, o indivíduo de luto não só expressa seus sentimentos, aliviando a tensão, mas, como as lágrimas são identificadas no inconsciente com os excrementos, ele também expele os sentimentos e objetos “maus”, o que “aumenta o alívio obtido com o choro.
Essa maior liberdade no mundo interior implica que os objetos internalizados, agora menos controlados pelo ego, também passam a mais liberdade: antes de mais nada, esses objetos passam a ter maior liberdade de sentimentos. No estado mental do indivíduo de luto, os sentimentos de seus objetos internos também são de pesar. Na sua mente, eles compartilham de seu sofrimento, assim como fariam os pais reais em sua bondade. O poeta nos diz que “A natureza chora com aquele de luto”
Na sessão seguinte, D não mencionou de início a morte da mãe. Ao invés disso, expressou o ódio que tinha de mim: o meu tratamento iria matá-lo. Então recordei-lhe o sonho do touro, e ofercçi a interpretação de que, em sua mente, a mãe tinha se misturado com o agressivo pai-touro — que também estava meio- morto —tornando-se estranha e perigosa. Naquele momento, eu e o tratamento representávamos essa figura dos pais combinados. Observei que o aumento recente do ódio contra a mãe era uma defesa contra o sofrimento e o desespero que sentia diante de sua morte, cada vez mais próxima. Mencionei as fantasias agressivas em que, na sua mente, tinha transformado o pai num touro perigoso que destruiría a mãe; daí seu sentimento de responsabilidade e culpa por esse desastre iminente. Também lembrei o comentário do paciente sobre a possibili dade de se comer os búfalos e expliquei que ele tinha incorporado a figura dos pais combinados, o que lhe fazia ter medo de ser esmagado intemamente pelo touro. O material anterior da análise demonstrara seu pavor de ser controlado e atacado internamente por seres perigosos, medos que resultaram, entre outras coisas, no hábito de adotar às vezes uma postura muito rígida e imóvel.
Interpretei a história do homem que corria o risco de ser esmagado pelo touro, e que se via imobilizado e controlado por ele, como uma representação dos perigos que o paciente acreditava estarem ameaçando-o intemamente
seus sentimentos se suavizaram, uma certa tristeza veio à tona e o paciente sentiu algum alívio.
Na noite seguinte ao funeral da mãe, D sonhou que X (uma figura paterna) e outra pessoa (que representava a mim) estavam tentando ajudá-lo, mas na verdade ele tinha que lutar pela sua vida contra nós; em suas próprias palavras, “A morte estava me chamando.” Nessa sessão, voltou a se queixar amargamente de que a análise estava desintegrando-o. Ofereci a interpretação de que, para ele, os pais
externos que o ajudavam eram ao mesmo tempo os pais desintegradores em luta, que o atacariam.e destruiríam — o touro meio morto e a mãe agonizante dentro dele.
Eu mesma e a análise tínhamos passado a representar as pessoas e os acontecimentos perigosos que se desenrolavam dentro de si. O fato de que o paciente internalizara pai como um pai morto ou agonizante foi confirmado quando ele me contou que durante o funeral da mãe chegara a se perguntar por um instante se seu pai também tinha morrido (na verdade, o pai ainda estava vivo).
Mostrei aqui e no meu artigo anterior os motivos profundos por trás da incapacidade do indivíduo para superar completamente a posição depressiva infantil. Esse fracasso pode causar doenças depressivas, a mania ou a paranóia.
Também apontei (op. cit.) para dois outros métodos através dos quais o ego procura escapar dos sofrimentos ligados à posição depressiva: a fuga para os objetos bons internos (que pode levar à psicose grave) e a fuga para os objetos bons externos (que pode provocar a neurose). De acordo com minha experiência, porém, há várias estratégias, baseadas em defesas obsessivas, maníacas e para- nóides que variam de pessoa para pessoa em sua proporção relativa, que servem ao mesmo propósito, ou seja, permitir ao indivíduo fugir dos sofrimentos ligados à posição depressiva.
durante os primeiros meses o bebê ocupa a posição esquizo-paranóide
A patologia sempre nos prestou o serviço de tornar discerníveis através do isolamento e do exagero certas condições que permaneceríam ocultas num estado normal”
Sua relação com Richard não era satisfatória em certos aspectos; enquanto o irmão mais velho tinha grande sucesso na escola e absorvia a maior parte da capacidade de amor da mãe, Richard era uma decepção para ela. Apesar de ser muito dedicado à mãe, o menino era extremamente difícil de se lidar. Ele não possuía nenhum interesse ou passatempo para ocupá-lo. Era muito ansioso e apegado à mãe, agarrando-se a ela de forma persistente e exaustiva.
Para ele, então, ir a Londres significava ir em direção à destruição e à morte. Isso veio se somar à ansiedade provocada pela interrupção da análise.
Ao voltar, encontrei Richard muito preocupado e deprimido. Durante toda a primeira sessão, ele mal olhou para mim. Ficava rígido na cadeira sem levantar os olhos, ou então saía agitado para a cozinha ao lado e o jardim. Apesar dessa clara resistência, entretanto, conseguiu me fazer algumas perguntas: eu tinha visto a Londres “arrasada”? Houve algum bombardeio enquanto eu estive lá?
Caiu alguma tempestade em Londres?
A mãe desaparecera desse lado do desenho porque, como Richard acreditava, ela fora incapaz de suportar os homens maus. Esse desenho expressava a.divisãó entre a mãe má ameaçada (a mãe genital) e a mãe amada e segura (a mãe-seio).
Richard disse: “O monstro ê muito feio, mas sua carne pode ser uma delícia de se comer”.
Uma vez que sua convicção na mãe internalizada boa tinha crescido, ele já não tinha tanto medo dos perseguidores internos (os ossos e os monstros).
Em sua mente, Richard tinha devorado a mãe, que assumira os contornos de um objeto destrutivo e devorador. Quando internalizou a mãe boa ao comer o café da manhã, sentiu que ela estava protegendo-o do pai mau internalizado, os “ossos no estômago”. Ao internalizar a “horrível” mãe-pássaro, teve a impressão de que ela tinha se unido ao pai monstro e em sua mente essa aterrorizante figura dos pais combinados o atacava e devorava por dentro, além de atacá-lo e castrá-lo por fora.1 Desse modo, Richard sentia-se mutilado e castrado pelos pais maus internos e externos, que se vingavam dos ataques do menino contra eles
Nessas sessões, ao lado do fortalecimento de seus desejos genitais e a diminuição da ansiedade e dadepressão, a fantasia de que ele poderia dar crianças “boas” para mim e para a mãe, somada ao seu amor por bebês, foi desempenhando um papel cada vez mais importante nas suas associações. A insistência obsessiva de manter o aquecedor ligado o máximo de tempo possível servia como medida de sua depressão.
ele pôde estabelecer seu amor pela mãe com mais firmeza
Desse modo, não era mais obrigado a idealizar tanto a mãe boa, nem a formar uma imagem tão aterrorizante da mãe má.
O aumento da esperança de manter a analista e a mãe vivas como objetos internos e externos estava ligado ao fortalecimento de sua posição genital e à maior capacidade de sentir os desejos edipianos. A reprodução, a criação de bebês bons, que Richard acreditava inconscientemente ser o instrumento mais importante para combater a morte e o medo da morte, agora não era tão impossível em sua fantasia.
Chorava muitas vezes, aparentemente sem motivo, e quando a mãe pergun tava por que estava chorando, respondia: “Porque estou muito triste.” No entanto, quando perguntavam: “Por que está tão triste?”, ela respondia: “Porque estou chorando.” Seus sentimentos de culpa e infelicidade se expressavam em constantes perguntas feitas à mãe: “Eu sou boa?” “Você me ama?”, e assim por diante. Não suportava nenhum tipo de censura e, quando levava alguma repri menda, caia no choro ou assumia uma postura desafiadora. A sensação de insegurança em relação aos pais se manifestou, por exemplo, no incidente a seguir, que ocorreu no seu segundo ano de vida. Contaram-me que uma vez começou a chorar porque o pai fez uma ameaça brincalhona a um urso num livro de figuras, com o qual ela obviamente se identificara.
à medida que o tempo passa, os fatos tendem a ser falseados nas suas lembranças.
Rita não só via sua mãe real de forma distorcida, como também se sentia constantemente ameaçada por uma aterrorizante figura materna inter na.
Rita era incapaz de lidar com essas profundas ansiedades e não conseguia superar a posição depressiva.
A imagem da mãe morta relaciona va-se não só à mãe externa quando fora da vista, mas também à mãe interna.
Rita foi obrigada a desistir da rivalidade com a mãe na situação edipiana porque o medo inconsciente de perder o objeto interno e externo agia como barreira para todo desejo que aumentasse o ódio pela mãe e, portanto, causasse sua morte.
As enormes dificuldades de Rita para lidar com seu complexo de Édipo invertido e positivo estavam, portanto, calcadas na sua posição depressiva. Com a redução dessas ansiedades, ela foi capaz de tolerar seus desejos edipianos e atingir cada vez mais uma atitude feminina e maternal.
Perto do fim da análise, que foi interrompida devido a circunstâncias externas, a relação de Rita com os pais e com o irmão já tinha melhorado. A aversão pelo pai, que até então fora muito marcante, foi substituída pela afeição; a ambivalência em relação à mãe se reduziu, ao mesmo tempo em que uma relação mais amistosa e estável foi se desenvolvendo.
A ansiedade, a culpa e os sentimentos depressivos às vezes empurram a libido para novas formas de gratificação, mas também podem frear seu desenvolvimento ao reforçar a fixação em objetos e finalidades anteriores.
De acordo com meu ponto de vista, o complexo de Édipo começa durante o primeiro ano de vida e de início segue as mesmas linhas em ambos os sexos. A relação com o seio da mãe é um dos fatores essenciais que determinam todo o desenvolvimento emocional e sexual.
Ansiedades desse tipo exercem uma influência importante sobre o medo da castração e a repressão dos desejos genitais, e também sobre a regressão a estágios anteriores. Se esses medos são excessivos e a ânsia de reprimir os desejos genitais é forte demais, é prôvável que surjam dificuldades de potência mais tarde. Normalmente, esses medos do menino são contrabalançados pela imagem do corpo da mãe como fonte de toda a bondade (leite e bebês bons) e pela introjeção dos objetos amados. Quando os impulsos amorosos são predominan tes, os produtos e o conteúdo do corpo da própria criança tomam o significado de presentes; seu pênis se torna o meio de dar gratificação e filhos para a mãe, além de fazer reparação. Além disso, se a sensação de conter o seio bom da mãe e o pênis bom do.pai for a mais forte, o menino tem uma confiança reforçada em si mesmo, que lhe permite dar mais liberdade a seus impulsos e desejos.
Unido e identificado com o pai bom, ele sente que seu pênis adquire qualidades criadoras e reparatórias. Todas essas emoções e fantasias lhe permitem enfrentar 0 medo da castração e estabelecer com firmeza a posição genital. Elas também são o pré-requisito da potência sublimada, que exerce uma influência importante sobre as atividades e os interesses da criança; ao mesmo tempo, formam-se os alicerces para se obter a potência num estágio posterior da vida.
No caso da menina, o desejo de possuir um pênis e de ser um menino é uma expressão de sua bissexualídade. Trata-se de uma característica tão inerente das meninas quanto o desejo de ser mulher dos meninos. O desejo de ter o seu próprio pênis é secundário ao desejo de receber o pênis dentro de si, sendo bastante reforçado pelas frustrações sofridas na posição feminina, somados à ansiedade e a culpa sentidas na posição edipiana positiva. A inveja do pênis na menina encobre até certo ponto o desejo frustrado de tomar o lugar da mãe junto ao pai e de receber crianças dele.
Segundo Freud, o surgimento dos desejos genitais e a escolha do objeto ocorrem durante a fase fálica, que vai de cerca dos três anos de idade até os cinco e é confemporânea ao complexo de Édipo. Ao longo dessa fase. apenas um ■ órgão genital, o masculino, é levado em consideraçãa 0,,que^p^^tóant^.Qão.é uma primazia dos órgãos genitais, mas uma primazia do/crio”
No caso do menino, “o que provoca a destruição da organização fálica na criança è a ameaça de castração” (E.S.B. 19, p. 195).. Além disso, o superego, o sucessor do complexo de Édipo, é formado pela intemalização da autoridade dos .pais. A culpa é expressão da tensão entre o ego e o superego. O uso do terjn.o “culpa” só se justifica depois que o superego se desenvolve. Freud dá um peso preponderante ao superego do menino como a autoridade internalizada do pai;
e, apesar de reconhecer até certo ponto a identificação com a mãe como um fator ria formação desse superego, ele não chegou a expressar seu ponto de vista sobre esse aspecto do superego de forma detalhada^ Quanto à menina, para Freud o seu longo “apego pré-edipiano” à mãe cobre o período anterior à sua entrada na situação edipiana. Freud também caracteriza esse período como “fase de apego exclusivo à mãe, que pode ser chamada de fase pré-edipiana” (E.5.B. 21, p. 238). Mais tarde, durante a fase fálica, os desejos fundamentais da menina em relação à mãe, mantidos ainda com grande inten sidade, concentram-se na vontade de receber um pênis dela, Na mente da menina, o clitóris representa o pênis e a masturbação do clitóris é uma expressão de seus desejos fãlicos. A vagina ainda não foi descoberta e só passará a desempenhar seu papel na vida adulta. Quando a menina percebe que não possui um pênis, seu complexo de castração passa a ocupar o primeiro plano. Nesse momento, o apego à mãe é rompido pelo ressentimento e o ódio por esta não ter lhe dado um pênis. A menina também descobre que nem mesmo a mãe possui um, o que contribui para que ela se afaste da mãe e se volte para o pai. De início, ela se aproxima do pai com o desejo de receber um pênis; só depois surge o desejo de receber um filho dele, “isto é, o bebê toma o lugar do pênis de acordo com uma antiga equivalência simbólica” (E.S.B. 22, p. 128). Desse modo, seu complexo de Édipo é ativado pelo complexo de castração.
A principal situação de ansiedade da menina é a perda do amor, e Freud liga esse medo ao temor da morte da mãe.
O desenvolvimento do superego da menina difere em vários pontos daquele do menino, mas eles guardam uma característica essencial em comum: o superego e o sentimento de culpa são seqüelas do complexo de Édipo.
Freud se refere a sentimentos maternais da menina derivados da relação inicial com a mãe na fase pré-edipiana. Também se refere à identificação da menina com a mãe, oriunda do complexo de Édipo. Entretanto, não liga essas duas atitudes, nem mostra como a identificação feminina com a mãe na situação
edipíana afeta o curso tomado pelo complexo de Édipo na menina. Em seu ponto de vista, enquanto a organização genital da menina está se formando, o que ela mais valoriza na mãe é o aspecto fálico.
O desejo feminino de internalizar o pênis e receber um filho do pai sempre precede o desejo de possuir o seu próprio pênis.
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