
Justine
Justine
Marquês de Sade
A 29 de outubro de 1763, Donatien-Alphonse tem sua primeira experiência de prisão, na qual passará quase trinta anos de sua vida. Ele é preso em Vincennes por “devassidão”, blasfêmia e profanação da imagem de Cristo, mas no mês seguinte é libertado, sendo porém obrigado a permanecer numa residência indicada, o palácio de Echauffour, na Normandia
lamenta não tê-la desposado.
“dizem coisas horríveis a seu respeito”.
Seu pai falece a 24 de janeiro de 1767 e Donatien-Alphonse torna-se herdeiro das senhorias de La Costa, Mazan e Saumane, e também de dívidas muito altas
O dia 3 de abril de 1768 assinala o começo da espinhosa carreira sádica do marquês. Neste dia, um domingo de Páscoa, no passeio, uma mulher pede-lhe uma esmola. Os encantos dessa mulher, chamada Rose Keller, é que o levarão pela primeira vez às barras do tribunal. Oferecendo-lhe um escudo ele a convence a acompanhá-lo à sua casinha. Ao chegarem, Donatien-Alphonse prende-a num aposento. Mais tarde, volta, manda-a despir-se e a flagela. Depois torna a prendêla com algum alimento, prometendo voltar à noite para soltá-la. Rose Keller, porém, não espera e consegue fugir por uma janela, encontra-se com algumas mulheres, conta sua aventura, é levada ao palácio do notário onde lhe tomam o depoimento. Sade é preso por ordem do rei no palácio de Saumur, onde ficará dezoito dias. Dali é transferido para a fortaleza de Pierre-Encisa, próximo de Lyon, onde fica um mês
ele realiza uma festa de prazer com várias jovens e seu criado Latour. Nesta reunião elas são flageladas e flageladoras e possuídas ora por Sade, ora pelo seu criado. Depois, as mulheres farão queixa de várias sevícias a que foram submetidas, declarando também que o marquês quis fazer sodomia com elas, acrescentando, porém, que recusaram
acusado de envenenamento e sodomia
seu criado Latour
Em 1775, ouve-se falar novamente do marquês, acusado de ter raptado várias jovens. A Senhora de Montreuil, usando do seu vasto relacionamento, procura abafar o escândalo. Em fins de 1776 segundo uns, ou começo de 1777, segundo outros, o pai de uma cozinheira do castelo, Catherine Treillet, também chamada Justine, provoca um escândalo em La Coste, querendo arrancar sua filha daquele meio que considera pervertido. O marquês procura acalmá-lo e resolve não deixar que ele leve a filha antes de encontrar uma substituta. O pai, furioso, dá-lhe um tiro de pistola, sem contudo feri-lo.
condessa de Lorsang
Juliette
Justine
uma jovem sensata e bem nascida devia evitar com cuidado tudo o que pudesse fazê-la cair numa armadilha.
requintes criminosos, prazeres vergonhosos, devassidões secretas e crapulosas, gostos escandalosos e bizarros, fantasias humilhantes, e tudo isso fruto de parte do desejo de desfrutar sem arriscar a saúde, do outro, fruto de uma sociedade perniciosa que, corrompendo a imaginação, só se deixa expandir pelo excesso e satisfazer-se somente pela libertinagem.
pervertida pelos maus livros e pelos maus conselhos, desejosa de desfrutar da vida sozinha, de ter um nome e nada que a prendess
dava elegantes jantares na sua residência, para onde a cidade e a corte sentiam-se muito felizes em serem convidadas. Mas, mesmo assim, ela ia para cama por cem luíses e se entregava por quinhentos por mês. Até os vinte e seis anos fez brilhantes conquistas, arruinou três embaixadores, quatro fazendeiros, dois bispos e três cavaleiros das ordens do rei
é verdade que a prosperidade pode acompanhar o crime e que mesmo dentro da desordem e da corrupção mais refletida, tudo a que os homens chamam de felicidade pode dourar o fio da vida
Aprendei, pequena noviça, que o céu é a coisa do mundo que menos nos interessa; se o que fazemos na terra o agrade ou não é coisa que praticamente não nos inquieta; muito seguros do seu pouco poder sobre os homens, nós o desafiamos todos os dias sem tremer e nossas paixões só são verdadeiramente encantadoras quado mais transgridem suas intenções, ou pelo menos aquilo que os tolos nos asseguram que seja, mas que, no fundo, não é senão o grilhão ilusório cuja impostura quer cativar o mais forte.
se vossa economia corresponder à noss
Nosso serviço é pouco, trabalhareis sozinha e trata-se apenas de limpar e arrumar três vezes por semana este apartamento de dez peças, arrumar a cama de minha mulher e a minha, atender a porta, cuidar do cão, do gato e do periquito, e tratar da cozinha, lavar seus utensílios, quer sejam usados ou não, ajudar minha mulher quando faz a comida e empregar o resto do dia a cuidar da roupa branca, meias, toucas e dos outros pequenos móveis. Vedes bem que não é nada Sofia, e ainda vos sobrará muito tempo o qual vos permitiremos de usar por vossa conta e de fazer também para vosso uso a roupa branca e os vestidos de que podereis necessitar.
Entre meia-noite e uma hora, continuou aquela feliz bandida, esta casa pegará fogo … é obra dos meus cuidados, talvez alguém morra queimado, pouco importa, o que é certo é que nós nos salvaremos, meus cúmplices e meus amigos se unirão a nós e respondo pela tua liberdade.
Se a Providência me torna penosa minha passagem pela vida, é para me recompensar mais amplamente num mundo melhor; esta esperança me consola, suaviza todas as minhas tristezas, acalma minhas queixas, fortifica -me na adversidade e me faz superar todos os males que ela possa me oferecer
A insensibilidade dos ricos legitima a velhacaria dos pobre
A oração é o mais doce consolo do desgraçado, ele fica mais forte após ter orado;
— Vem, meu amigo, vem, disse um deles, estaremos muito bem aqui; a cruel e fatal presença de minha mãe não me impedirá pelo menos de gozar um momento contigo dos prazeres que me são tão caro
Vamos, Jasmin, disse o Senhor de Bressac levantando-se assim que acabei, sejamos justos pelo menos uma vez na vida, meu querido; e a justa Têmis condenou essa marota, não deixemos que os olhos da deusa sejam tão cruelmente frustrados e façamos a criminosa sofrer a pena a que foi condenada; o que vamos cometer não é um crime, é uma virtude, meu amigo, é um restabelecimento da ordem das coisas e como às vezes temos a má sorte de perturbá-la, vamos restabelecê-la corajosamente, pelo menos quando a ocasião se nos apresenta.
o Senhor de Bressac não tinha irmãos ou irmãs; jamais se conseguira convencê-lo a entrar para o exército; tudo o que o afastasse dos prazeres da sua escolha eram-lhe tão insuportáveis que lhe era impossível aceitar qualquer grilhão. A Senhora Condessa e seu filho passavam três meses por ano nessa terra e o resto do tempo em Paris, e esses três meses que o obrigava a passar com ela já eram um transtorno bem grande para um homem que jamais abandonava o centro dos seus prazeres sem se desesperar.
Acredita, Sofia, que este deus que reconheces é apenas o fruto da ignorância de um lado e da tirania de outro; quando o mais forte quis acorrentar o mais fraco, ele o convenceu de que deus santificava as correntes que o oprimiam, e este, embrutecido pela sua miséria, acreditou em tudo o que o outro queria. Todas as religiões, seqüências fatais dessa primeira fábula, devem portanto ser sacrificadas ao desprezo como ela, não há nenhuma que não traga consigo o emblema da impostura e da estupidez; vejo em todas elas mistérios que fazem tremer a razão, dogmas que ultrajam a natureza e cerimônias grotescas que só inspiram o ridículo. Mal abri os olhos, Sofia, detestei esses horrores e impus a mim mesmo uma lei, a de pisoteá-los; jurei jamais voltar a eles em minha vida; imitame se queres ser razoável.
Oh, senhor, respondi ao marquês, privarieis uma desgraçada de sua mais doce esperança se lhe arrancasseis essa religião que a consola
Quanto maior a vossa sensibilidade, mais ele vos afligirá… a cada dia, a cada minuto, vós a vereis diante dos olhos, aquela mãe terna que vossa mão bárbara terá lançado ao túmulo, ouvireis sua voz queixosa pronunciar ainda o doce nome que encantava vossa infância… Ela aparecerá em vossas vigílias, atormentar-vos-á em vossos sonhos, mostrará com suas mãos ensangüentadas as chagas que tereis aberto nela; daí por diante não tereis um só momento de felicidade, todos os vossos prazeres estarão envenenados, todas as vossas idéias vos perturbarão, uma mão celeste cujo poder desprezais, vingará os dias que havereis destruído envenenando todos os vossos; e sem terdes desfrutado de vossas perversidades, perecereis com o arrependimento mortal de haverdes destruído os seus dias.
nada como conceber um crime para fazer chegar a felicidade; parece que somente os malfeitores encontram o caminho aberto. Oitenta e sessenta, minha menina, eis aí cento e quarenta mil libras de renda que servirão aos meus prazeres
O perjúrio é virtude quando se promete um crim
sem demonstrar a menor emoção pela torrente de lágrimas que me haviam inundado, me agarrando fortemente pelo braço e me arrastando até seus sequaze
A ordem foi cumprida incontinente, amordaçaram-me com um lenço, fizeramme abraçar a árvore e me amarraram pelas espáduas e pelas pernas, deixando o resto do corpo desimpedido para que nada o pudesse proteger das chicotadas que ia receber
Jeannette
Encontrando-me sozinha, um dia, na casa, ao percorrer os diversos locais que exigiam minha atenção e trabalho, pensei ouvir gemidos que saíam do fundo de um porão; aproximo-me… distingo melhor, ouço o choro de uma menina, mas uma porta bem fechada isolava-a de mim, impossibilitando-me de abrir-lhe a saída do seu cárcere. Mil idéias passaram-me então pela minha cabeça… O que poderia estar essa criatura fazendo ali? O Senhor Rodin não tinha filhos, não conhecia irmãs ou sobrinhas que lhes pudessem despertar o interesse e a quem pudesse estar castigando. A extrema regularidade em que eu o via viver não me permitia crer que aquela jovem se destinasse às suas devassidões. Por que motivo então ele a mantinha presa? Extremamente curiosa e decidida a resolver suas dificuldades, arrisquei-me a interrogar a criança e lhe perguntei quem era e o que fazia ali.
desconfiar que eles tinham a intenção pavorosa de fazer alguma dissecação anatômica no corpo vivo daquela desgraçada menina
— Jamais, disse Rodin, a anatomia será perfeitamente conhecida a não ser que o exame dos vasos seja feito numa criança que acabe de expirar com uma morte cruel. Somente esta contração nos pode dar uma análise completa de uma parte tão interessante.
É odioso, continuou Rodin, que considerações fúteis detenham o progresso das artes… Ora pois, é um paciente sacrificado para salvar milhões; deve-se hesitar por esse preço? O crime operado pelas leis é de outro tipo, diferente do que vamos praticar, e o objeto dessas leis tão sábias não é o sacrifício de um para salvar mil? Então, que nada nos detenha.
Tenho por princípio, meu amigo, que todas as pessoas de classe aviltada só servem para experiências
Eu, sem pensar por instantes sequer o que arrisco, sem refletir sobre o destino que me aguarda, empenho-me em faze
Rodin me reanima, e quando abro os olhos, eles me mandam ficar nua; assim que me ponho no estado que desejam, um deles me segura enquanto o outro me opera; cortam-me um dedo de capa pé; acalmam-me, depois cada um arranca-me um molar.
aplica-me na espádua o ferro ardente com que se marca os ladrões.
decidi repousar alguns dias, mas como não me atrevia a confiar a ninguém a causa dos meus sofrimento, e lembrando-me dos medicamentos que vi Rodin usar em ferimentos semelhantes, eu mesma os comprei e fiz meus curativos. Uma semana de repouso fizeram-me recuperar por complet
Agitada com desejo de ir imediatamente implorar socorro aos pés daquela santa mãe de Deu
padre Rafael
padre Clement
E onde então, encantadora peregrina, respondeu-me o monge abrindo uma das portas do claustro que dão para a sacristia, e introduzindo-me na casa. O que, temeis passar a noite com quatro religiosos? Oh, vereis, meu anjo, que não somos tão carolas como parecemos e que sabemos muito bem divertir-nos com uma bela noviça
A porta se abre e vejo ao redor de uma mesa três monges e três moças, todos os seis no estado mais indecente do mundo; duas delas estavam inteiramente nuas, a terceira estava sendo despida e os monges estavam quase que no mesmo estado.
Esta a sociedade onde eu ia viver, esta a cloaca de impureza e imundícies onde pensara encontrar as virtudes como o asilo respeitável que as convinha.
Na situação em que vos encontrais, Sofia, como esperais defender-vos? Olhai para o abandono em que vos encontrais no mundo; como haveis confessado, não vos restam parentes ou amigos; encarai vossa situação como um deserto, longe de qualquer socorro, ignorada por toda a terra, nas mãos de quatro libertinos que certamente não têm vontade de vos poupar… a quem recorrereis então; será a esse deus a quem vindes implorar com tanto zelo, e que aproveita-se deste fervor para vos precipitar num pouco mais dentro da armadilha?
não sabia ainda que as lágrimas têm um atrativo a mais aos olhos do crime, e da devassidão. Ignorava que tudo o que tentava para comover esses monstros apenas os inflamava ainda mai
deveriam prestar socorro e consolos morais
s; a dor, dizem, predispõe ao prazer, estou convencido de que esta bela menina vai tornarme o mais feliz dos homens
E malgrado minha repugnância, meus gritos e minhas súplicas, tornou-me pela segunda vez o alvo infeliz dos insolentes desejos daqueles miseráveis.
não há nisso nenhuma regra senão a vontade, ou melhor, os caprichos
Rafael, um dos monges mais libertinos do seu século, quis vir para cá apenas para viver uma vida de acordo com seus gostos; sua intenção é de manter os privilégios secretos durante o tempo que puder.
cruel depravação e todos os quatro se revesam como carrasco
Somos obrigadas a nos levantar e estarmos prontas às nove horas da manhã; às dez trazem-nos pão e água para o desjejum; às duas horas servem-nos um almoço que consiste de uma sopa muito boa, um pedaço de carne cozida, um prato de legumes, às vezes algumas frutas e uma garrafa de vinho para as quatro. Regularmente, todos os dias, verão ou inverno, às cinco horas da tarde, o regente vem nos visitar; é então que ele recebe a delação da mais velha; e as queixas que esta pode fazer referem-se às meninas do seu quarto; se não houve nenhuma sugestão de mau humor ou revolta, se todas levantaram-se à hora prescrita, se elas se arrumaram como deviam, se comeram direito e se ninguém pensou em fuga. Eles nos fazem prestar contas de todas essas coisas e arriscamo-nos a sermos castigadas se não o fizermo
a primeira coisa que se faz é ler o livro de faltas
fechadas à chave e nunca temos oportunidade de respirar o ar puro
Não sabemos de uma só mulher que tenha saído desta casa que fosse vista novamente.
Onfalo
A reformada abraça suas companheiras, premete-lhes milhares de vezes que vai servi-las, levar suas queixas, divulgar o que se passa; chega a hora, o monge aparece, a mulher parte e nunca mais se tem notícia alguma do que lhe pode ter acontecido
Não há na Europa, disse-me Ônfalo, homem mais perigoso que Rafael e Antonin; a falsidade, crueldade, perversidade, impertinência e a irreligião são suas qualidades naturais e jamais se viu alegria em seus olhos exceto quando estão entregues aos seus vício
abriu uma das malas da nossa privada e tirou vários trajes feminino
satisfez como costumava fazer ignorando os costumes, a religião e a natureza.
Após ter sido mestra, voltei a ser alun
Eu estava ensaguentada
Retiraram-me dali inerte e foi preciso carregar-me para meu quarto onde chorei durante três dias seguidos lágrimas bem amargas pelo crime horrível que perpetraram em mim
respondeu-me com um olhar tão feroz e duro que recuei apavorada sem repetir o pedido
Teria preferido recusar, mas não podendo fazê-lo, eternamente obrigada a sacrificar meus desejos e vontades àqueles monstros, inclinei-me e prometi tudo fazer para que ele ficasse satisfeito
Otávia chora, mas não lhe dão importância;
conspurca
Eu bem desejaria poder consolá-la
necessitada de socorro
uma grande dose de devoção, de virtude, honra e sentimento e seu estado não lhe parecia, por isso, senão mais crue
jovem muito desavergonhada
. Infeliz como eu era, poderia estar eu apaixonada pela vida, quando a maior felicidade que me podia acontecer era deixá-la?
que a mão da Providência, cansada de me atormentar da mesma maneira, arrancou-me daquele novo abismo, para logo lançar-me num outro
como se a Providência se tivesse encarregado de me mostrar a inutilidade da virtude
Prometemos tudo o que ele queria
vamos destruir logo esta execrável devassidão, padre, ela revoltaria os que vivem no mundo e deixo-vos a imaginar o que poderia fazer quanto aos religiosos.
Então, esse padre nos perguntou o que queríamos. Cada uma de nós respondeu que queria voltar para seu país ou sua família.
Assim será, minhas filhas, disse o monge, e darei a cada uma de vós a quantia necessária para chegar à sua destinação. Mas é preciso que partais uma de cada vez, com dois dias de intervalo e que jamais reveleis nada do que se passou nesta casa.
Seu objetivo era o de que jamais fizéssemos qualquer queixa e estou bem certa de que, ao vos contar esta aventura, dela nada resultará de desagradável para a ordem daqueles padres
Meus primeiros cuidados foram ajoelhar-me e pedir a Deus novos perdoes pelas faltas involuntárias que cometera; fi-lo com mais devoção do que o fizera junto dos altares conspurcados da casa infame que eu abandonava com tanta alegria. Lágrimas de arrependimento correram-me pelo rosto.
mais o crime recompensado
“Que ele seja feliz, o perverso, que o seja pois a Providência o quer, e tu, desgraçada criatura, sofre sozinha, sofre sem te queixares, pois está escrito que as tribulações e os sofrimentos devem ser a partilha terrível da virtude”.
“Oh, céus, exclamei com amargor, será então impossível que uma ação virtuosa possa nascer-me no coração e que não seja logo punida com as desgraças mais cruéis para mim no universo?”
“Ai de mim, disse eu, eis aí um infeliz mais lamentável que eu; resta-me pelo menos a saúde e a força, posso ganhar a vida, e se ele não é rico, que o seja como eu, mais ei-lo estropiado pelo resto da vida. O que será dele.”
Mesmo que me devesse evitar tais sentimentos de comiseração, mesmo que eu viesse a ser cruelmente punida por isso, não pude resistir novamente a esses sentimentos. Aproximo-me do moribundo
e o que pode fazer para testemunhar sua gratidão. Tendo ainda o simplismo de crer que uma alma presa pelo reconhecimento devia ser minha para sempre, acreditei poder desfrutar com segurança o doce prazer de compartilhar minhas lágrimas com aquele que as vertera nos meus braços, conto-lhe todas as minhas aventuras
Agradeci humildemente ao meu proteto
uma inflexão mais ou menos pronunciada daqueles de quem dependemos, mata ou reanima a esperanç
mandou-me fazer o mesm
Dalville
Que entendes, diga-me, pelo sentimento de gratidão com que imaginas terme conquistado. Pensa melhor, criatura vil, que fazias tu quando me socorreste? Entre a possibilidade de seguires teu caminho e a de vires comigo, escolheste a última, como teu coração te inspirou. Pensavas então em alegrias? Por que diabos pensas que sou obrigado a te recompensar pelos prazeres que me deste e como te pode chegar à cabeça que um homem como eu, que nada no ouro e na opulência, um homem com mais de um milhão de renda, e pronto para ir a Veneza para desfrutar destas rendas à vontade, se digna aviltar-se e dever alguma coisa a uma miserável como tu?
Tivesses dado-me a vida, não te deveria nada, pois trabalhaste apenas para ti
Ao trabalho, escrava, ao trabalho. Aprende que a civilização, ao derrubar as instituições da natureza, não lhe roubou nenhum dos seus direitos. Ela criou seres fortes e seres fracos, sua intenção sempre foi a de que estes fossem subordinados àqueles, como o cordeiro sempre é subordinado ao leão, como o inseto ao elefante. A sagacidade e a inteligência do homem variam a posição do indivíduo; não é a força física que determina a posição, é a que ele adquire com suas riquezas. O homem mais rico torna-se o homem mais forte, o mais pobre passa a ser o mais fraco, mas isto, junto com os motivos que sustêm seu poder, a prioridade do forte sobre o fraco sempre esteve nas leis da natureza, que são iguais aos grilhões que prendem o fraco e que estão nas mãos do mais rico ou do mais forte, e pelas quais ela esmaga o mais fraco ou então o mais pobre.
“Mas estes sentimentos de gratidão que reclamas, Sofia, ela os ignora. Jamais esteve entre suas leis que o prazer a que um se entrega seja motivo para que aquele que o recebe relaxe seus direitos sobre o outro. Vês nos animais que nos servem exemplo desses sentimentos de que te gabas? Quando te domino pela minha riqueza ou pela minha força, será natural que eu te entregue meus direitos, ou por que tu mesma me serviste ou por que tua política mandou-te recompensares a ti mesma servindo-me?
Mas mesmo que o serviço fosse prestado de igual a igual, jamais o orgulho de uma alma elevada se deixará aviltar pela gratidão. Não é sempre o humilhado o que recebe do outro, e esta humilhação que ele sente não paga suficientemente ao outro o serviço que ele prestou — é um prazer para o orgulho elevar-se acima do seu semelhante, e se a obrigação, ao humilhar o orgulho daquele que a recebe, torna-se um fardo para ele, que direito se tem de obrigá-lo a suportá-lo? Por que devo consentir em deixar-me humilhar toda vez que olho para aquele a quem devo obrigações?
“A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas. O escravo a prega ao seu senhor porque tem necessidade dela, também o boi ou o asno a preconizariam se soubessem falar. Porém o mais forte, mais bem guiado pelas suas paixões e pela natureza, não se deve entregar a quem o serve ou a quem o adula. Que eles sirvam tanto quanto queiras, se isto lhes dá prazer, mas que jamais exijam nada em troca.
Por que devo consentir em deixar-me humilhar toda vez que olho para aquele a quem devo obrigações?
A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas
Todos eles me acabrunharam de tantos sarcasmos e impertinências sobre a marca desonrosa que trazia inocentemente no meu corpo desgraçado. Aproximaram-se de mim, tocaram-me em todo o corpo, fazendo gracejos cruéis e criticando tudo o que lhes oferecia a contragosto.
como recompensa pelos prazeres a ele dados, foram condenadas àquele trabalho humilhante
Não te peço nada… simplesmente pego o que desejo e não vejo nisso senão o uso de um direito que tenho sobre ti. Não há nada de amor no que faço, este é um sentimento que meu coração jamais conheceu. Sirvo-me de uma mulher por necessidade, como se serve de um vaso para uma necessidade diferente. Porém jamais dou àquele ser senão meu dinheiro ou minha autoridade a submete aos meus desejos; não há nem estima nem ternura, e não devo o que pego senão a mim mesmo e não exigindo dela senão a submissão. Não vejo por que ser-te grato por isso. Será o mesmo que dizer que o ladrão que arranca a bolsa de um homem numa floresta porque se julga mais forte que ele, lhe deve alguma gratidão pelo erro cometido. O mesmo é válido para o que se faz com uma mulher; pode ser um direito dele repeti-lo, mas jamais razão suficiente para recompensá-la por isso.
respondeu às minhas queixas com uma dúzia de bofetadas entremeadas com outras tantas pragas
Não te darei socorro algum, nem um escudo, respondeu duramente o perverso. Tudo o que sabe à esmola e caridade é coisa tão repugnante para o meu caráter que estivesse eu coberto de três vezes mais ouro, jamais pensaria em dar um tostão sequer a um mendigo. Tenho princípios sobre estas coisas e dos quais jamais me afastarei. O pobre faz parte da ordem natural das coisas; ao criar os homens com forças desiguais, a natureza nos convenceu do seu desejo de que esta desigualdade se conservasse mesmo nas mudanças que nossa civilização provoca nas suas leis.
É preciso que o tenha sido sempre, mas soube dominar minha sorte, soube espezinhar o fantasma da virtude que jamais conduz senão à forca ou ao hospital, soube ver logo que a religião, a beneficência e a humanidade se transformavam em obstáculos a todos os que visam alcançar a fortuna, e consolidei a minha sobre os escombros dos preconceitos do homem. Foi zombando das leis divinas e humanas, foi sacrificando sempre o fraco quando o encontrava no caminho, foi abusando da boa fé e da credulidade dos outros, arruinando o pobre e roubando o rico, que alcancei o templo escarpado da divindade a quem adorava. Por que não me imitaste? Tua fortuna estava nas tuas mãos, a virtude quimérica que preferiste àquela consolou-te dos sacrifícios que lhe fizeste? Não há mais tempo, desgraçada, não há mais tempo; chora as tuas faltas, sofre e trata de encontrares, se puderes, no seio dos fantasmas que adoras, o que a credulidade te fez perder.
Vai, disse-lhe ele queimando-lhe os miolos, vai levar notícias minhas para o outro mundo, vai dizer ao diabo que Dalville, o mais rico dos bandidos da terra, é aquele que desafia com maior insolência a mão do céu e a su
o infeliz Roland era honesto, era o que bastava para que ele fosse prontamente esmagado.
despertar um pouco de piedade do famoso magistrado, honra daquele tribunal, juiz íntegro, cidadão querido, filósofo esclarecido cuja beneficência e humanidade gravarão no tempo da memória o nome célebre e respeitável
Fraca, como de hábito, deixei-me conduzir até o quarto daquela mulher e contei-lhe todas as minhas desgraças.
Dubois
Um pouco mais de filosofia no mundo logo poria tudo no seu devido lugar e faria ver aos legisladores, aos magistrados, que estes vícios que eles acusam e castigam com tanto rigor, têm às vezes um grau de utilidade bem maior que essas virtudes que pregam sem jamais recompensá-las
como conseguirieis abafar o remorso que a cada momento nasceriam no meu coração
Nada mais fácil; só nos arrependemos daquilo que não estamos acostumados a fazer. Repete freqüentemente o que causa remorso e conseguirás eliminá-lo; enfrenta-o com o facho das paixões, com as leis poderosas do interesse e logo o terás dissipado. O remorso não prova o crime, mas indica somente uma alma fácil de subjugar. Se houver uma ordem absurda que te impeça de sair imediatamente deste quarto, tu não sairás daqui sem remorso, embora seja certo que não farás mal algum em sair.
Portanto, não é verdade que somente o crime é que causa remorso; convencendo-se da nulidade dos crimes ou da sua necessidade com relação ao plano geral da natureza, seria portanto possível vencer tão facilmente o remorso que se teria em cometê-los, como te seria fácil abafar aquele que nasceria da tua saída deste quarto após a ordem ilegal que terias recebido para aqui ficar. Ë preciso começar com uma análise exata de tudo o que os homens chamam de crime, começar por convencer-se que estes não passam de uma infração das suas leis e dos seus costumes nacionais, que eles assim caracterizam; o que chamamos de crime na França, deixa de sê-lo a algumas léguas dali, que não existe nenhuma ação que seja realmente considerada como um crime universalmente em toda a terra, e que, em conseqüência, nada no fundo merece razoavelmente o nome de crime, que tudo é uma questão de opinião e de geografia.
“Dito isto, é portanto absurdo querer se submeter à prática das virtudes que não passam de vícios em outros lugares, e a fugir de crimes que são boas ações em outros climas. Pergunto-te agora se este exame feito com reflexão pode causar remorso naquele que, por seu prazer ou por seu interesse, tenha cometido na França uma virtude da China ou do Japão que, todavia, a desonrará em sua pátria. Será que ele se deterá diante dessa vil distinção, e se for um pouco filosófico, será ele capaz de lhe causar remorso? Ora, o remorso só existe por causa da defesa, surge por causa do rompimento dos freios e não por causa da ação; será sensato deixá-lo subsistir em si, não será absurdo não eliminá-lo sem demora?
“Que a pessoa se acostume a considerar como indiferente a ação que provoca remorsos, que ela a julgue como tal pelo estudo ponderado dos modos e costumes de todas as nações da terra; em conseqüência desse raciocínio, que ela repita aquela ação, seja qual for, o mais freqüentemente possível, e o facho da razão logo destruirá o remorso, eliminará essa atitude tenebrosa, fruto apenas da ignorância, da pusilanimidade e da educação.
“Há trinta anos, Sofia, que uma seqüência perpétua de vícios e crimes me conduziu passo a passo rumo à fortuna, ei-la aqui; mais dois ou três golpes de sorte e passarei do estado de miséria e de mendicidade em que nasci para mais de cinqüenta mil libras de renda. Será que imaginas que nessa carreira brilhantemente percorrida, o remorso tivesse por um instante me feito sentir seus espinhos? Não o creias, jamais o conheci. Um revés terrível me precipitaria imediatamente do pináculo ao abismo e mesmo assim não o admitiria; eu me queixaria dos homens ou da minha inépcia, mas estaria sempre em paz com minha consciência.”
Seja, mas ponderemos um instante sobre vossos princípios de filosofia. Com que direito pretendeis exigir que minha consciência seja tão firme quanto a vossa, já que ela não está acostumada desde a infância a vencer os mesmos preconceitos; com que direito exigis que meu espírito, que não está organizado como o vosso, possa adotar os mesmos sistemas? Vós admitis que existe uma soma de males e de bens na natureza, e que, em conseqüência, é preciso que haja certa quantidade de seres que praticam o bem, e uma outra classe que se dedique ao mal. O partido que tomo, mesmo em vossos princípios, está, portanto, na natureza. Logo não exigis que eu me afaste das regras que ela me prescreve,
e como encontrais, assim o dizeis, a felicidade na carreira que seguis, também me seria impossível encontrá-la fora daquela que eu percorro. Não imaginais, ademais, que a vigilância das leis deixa em repouso por muito tempo àqueles que a infringem; não acabais de ver com vossos próprios olhos um exemplo disso? De quinze bandidos entre os quais tive a infelicidade de morar, um se salva e quatorze morrem ignominiosamente
E é isto que chamas de desgraça? Que importa, em primeiro lugar, essa ignominia a quem não tem mais princípios? Quando se infringiu tudo, quando a honra não passa de um preconceito, a reputação uma fantasia, o futuro uma ilusã
Creio que se existisse um deus, haveria menos males na terra; creio que se o mal existe na terra, ou estas desordens são exigidas por esse deus, ou então ele não tem forças para impedi-las; e não temo um deus que é apenas fraco ou perverso, enfrento-o sem medo e rio-me dos seus raios
Escutando somente a minha inclinação natural para fazer o bem, perguntei imediatamente à Dubois do que se tratava, para impedir com todas as minhas forças o crime que ela se preparava para conter.
Dubreuil
Senhora Bertrand
reverendo padre Antonin, agora guardião das recoletas daquela cidade, carrasco da minha virgindad
convento de Sainte Marie des Boi
tratar-se de um incêndi
Nesse instante lembro-me que a Bertrand, mais ocupada em salvar-se do que a sua filha, não pensara em salvá-la. Sem nada dizer-lhe corro para dentro do nosso quarto, em meio às chamas que me cegam e queimam-me várias partes do corpo, agarro a pobre criaturinha e corro a levá-la para sua mãe. Mas ao apoiarme sobre uma trave meio queimada, falta-me o pé e meu primeiro movimento é estender as mãos. Esse impulso da natureza me deixa cair o fardo precioso que seguro e a infeliz criança cai nas chamas aos olhos da mãe. Aquela mulher injusta, sem pensar no começo da minha ação para salvar sua filha, nem na maneira como ocorrera a queda, vem atacar-me, desvairada pela dor, atirando-se impetuosamente contra mim, acusando-me da morte da filha e cobrindo-me de socos que, no estado que estava, não podia evitar.
, acusa-me em altos gritos de ter sido a causadora do incêndio e de tê-lo provocado apenas para roubá-la mais à vontade; disse que ia denunciar-me e passando da ameaça ao ato, pede para falar com o juiz da cidade
Acostumada há muito tempo com a calúnia, a injustiça e a desgraça
Um usurário na minha infância quer obrigar-me a cometer um roubo; recuso e ele fica rico, enquanto eu fico às vésperas de ser enforcada. Ladrões querem violar-me no bosque porque não desejo acompanhálos, eles prosperam e eu caio nas mãos de um marquês devasso que me dá cem chibatadas com nervo de boi por não querer envenenar sua mãe. Dali vou parar na casa de um médico a quem salvo de cometer um crime execrável; o carrasco, para recompensar-me, me mutila, me marca e manda embora. Seus crimes se realizam, sem dúvida, ele faz fortuna e eu sou obrigada a mendigar meu pão. Quero aproximar-me dos sacramentos, quero implorar fervorosamente ao ser supremo que me envia tantas desgraças, o augusto tribunal onde espero purificar-me num dos mais santos dos nossos mistérios, torna-se o mais terrível teatro da minha desonra e da minha infâmia. O monstro que abusa de mim e que me desonra, recebe sem demora as maiores honrarias enquanto eu caio novamente nos abismos horríveis da minha miséria. Quero ajudar um pobre, e ele me rouba. Ajudo um homem desfalecido, o perverso faz-me girar uma roda como besta de carga. Esmaga-me com chicotadas quando as forças me faltam, todos os favores da sorte lhe são dados e estou prestes a perder a vida por ter trabalhado à força para ele. Uma mulher indigna quer seduzir-me para um novo crime e torno a perder os poucos bens que possuo para salvar a fortuna de sua vítima e para evitar sua desgraça. O infeliz quer recompensar-me dando-me seu nome e expira nos meus braços antes que possa fazê-lo. Exponho-me a um incêndio para salvar uma criança que não é nada minha e eis-me pela terceira vez sob o gládio da Têmis. Imploro a proteção de um desgraçado que me desonrou, ouso esperar que ele se sensibilize com o excesso dos meus infortúnios e novamente ao preço da minha desonra é que o bárbaro me oferece ajuda. Oh, Providência, será que eu sou obrigada por fim a duvidar da tua justiça? Que outros flagelos maiores ter-seiam abatido sobre mim se, a exemplo dos meus perseguidores, eu tivesse sempre adulado o vício?”
só conheceu os homens apenas para odiá-los
Durante muitos dias derramou lágrimas bem doces no seio dos seus protetores, quando de repente seu estado de espírito mudou sem que fosse possível saber por quê. Tornou-se sombria, inquieta, pensativa e às vezes chorava sem que ela mesma pudesse explicar o motivo das suas lágrimas.
Não nasci para tanta felicidade, dizia ela às vezes para a Senhora de Lorsange… Oh, minha querida irmã, é impossível que ela possa durar.
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