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History of Sexuality III

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Historia da Sexualidade III
Foucault

onirocricia


Não somente colecionou inúmeras obras como também percorreu pacientemente as lojas dos leitores de sonhos e dos dizedores do futuro nas encruzilhadas do mundo mediterrâneo.


Por um lado, os sonhos do desejo dizem o real da alma em seu estado atual; por outro, os sonhos do ser dizem o futuro do acontecimento na ordem do mundo.


o prazer que se tem com o seu comércio anuncia o prazer que se terá com os benefícios do ofício.


Sonha-se que se tem relação com um homem? Se o sonhador é uma mulher (e esta é uma das raras passagens do texto onde o sonho das mulheres é levado em conta), o sonho é favorável em todos os casos já que é conforme aos papéis naturais e sociais da mulher. Em troca, se se trata de um homem que sonha ser possuído por outro, o elemento de discriminação que permite distinguir o valor favorável ou desfavorável do sonho depende do status relativo dos dois parceiros: o sonho é bom se o sujeito for possuído por outro mais velho e mais rico do que ele (e isso anuncia presentes); é mau se o parceiro ativo é mais jovem e mais pobre — ou mesmo simplesmente mais pobre: signo de gastos, com efeito.


uma significação social. É claro que acontece desses sonhos anunciarem uma peripécia na ordem da saúde — doença ou restabelecimento; acontece deles serem signos de morte. Mas, numa proporção muito mais importante, eles remetem a acontecimentos como o sucesso ou o insucesso nos negócios, o enriquecimento ou o empobrecimento, a prosperidade ou o revés da família, um empreendimento vantajoso ou não, casamentos favoráveis ou alianças desastradas, disputas, rivalidades, reconciliações, boas ou más oportunidades na carreira pública, um exílio, uma condenação. O sonho sexual pressagia o destino do sonhador na vida social; o ator que ele é no cenário sexual do sonho antecipa o papel que será o seu no cenário da família, do ofício, dos negócios e da cidade.


Em primeiro lugar as personagens. Do próprio sonhador Artemidoro não reterá, por exemplo, o passado próximo ou longínquo, o estado d’alma nem em geral as paixões; mas os traços sociais: a classe de idade à qual ele pertence, se faz ou não negócios, se possui responsabilidades políticas, se procura casar seus filhos, se está ameaçado de ruína ou de hostilidade por seus próximos, etc. É igualmente enquanto “personagens” que os parceiros representados no sonho são focalizados; o mundo onírico do sonhador de Artemidoro é povoado de indivíduos que não possuem quaisquer traços físicos, e que não parecem ter muitos vínculos afetivos ou passionais com o próprio sonhador; só aparecem enquanto perfis sociais: jovens, velhos (em todo caso são mais jovens ou mais velhos do que o sonhador), ricos ou pobres; são pessoas que trazem riquezas ou demandam presentes; são relações lisonjeiras ou humilhantes; são superiores aos quais convém ceder ou inferiores dos quais se pode aproveitar legitimamente; são pessoas da casa ou do exterior; são homens livres, mulheres sob o poder do marido, escravos ou prostitutas de ofício.


são esses elementos referentes à penetração como jogo “estratégico” de dominação-submissão e como jogo “econômico” de despesa-benefício que são retidos por Artemidoro para desenvolver sua análise


Para ser “bom”, o ato sexual com que se sonha necessita obedecer a um princípio geral de “isomorfismo”. E, continuando-se a falar esquematicamente, poder-se-ia acrescentar que esse princípio toma duas fontes: a de um princípio de “analogia de posição” e a de um princípio de “adequação econômica”. De acordo com o primeiro desses princípios, um ato sexual será bom na medida em que o sujeito que sonha ocupa em sua atividade sexual com o parceiro uma posição conforme àquela que ele ocupa na realidade com esse mesmo parceiro (ou um parceiro de mesmo tipo): desse modo, ser “ativo” com seu escravo (qualquer que seja o sexo) é bom; ou ser ativo com uma ou um prostituto; ou ser ativo com um rapaz jovem e pobre; mas será “bom” ser passivo com alguém mais velho e mais rico, etc. É em virtude desse princípio de isomorfismo que o sonho de incesto com a mãe é carregado de tantos valores positivos: vê-se, com efeito, o sujeito em posição de atividade em relação a uma mãe que o fez nascer e que o alimentou e que, em retorno, ele deve cultivar, honrar, servir, manter e enriquecer como uma terra, uma pátria, uma cidade. Mas para que o ato sexual tenha no sonho um valor positivo também é preciso que ele obedeça a um princípio de “adequação econômica”; é preciso que a despesa” e o “benefício” que essa atividade comporta sejam convenientemente regulados: em quantidade (muita despesa para pouco prazer não é bom) e também em direção (não fazer despesas vãs com aqueles ou aquelas que não estão na posição de restituir, de compensar ou de ser úteis em retorno). É esse princípio que faz com que seja bom sonhar com uma relação sexual com escravos: lucra-se com o próprio bem; o que foi comprado para o benefício do trabalho proporciona além disso o do prazer. É também o que dá significações múltiplas aos sonhos nos quais um pai tem relação com a própria filha: em função da filha estar ou não casada, do próprio pai ser ou não viúvo, do genro ser mais rico ou mais pobre do que o sogro, o sonho significará despesa com o dote, ou ajuda por parte da filha, ou, então, obrigação de mantê-la após o seu divórcio.


a partir do ator, de sua maneira de ser, de sua própria situação, de sua relação com os outros e da posição que ocupa face a esses outros. A questão principal parece estar muito menos na conformidade dos atos com uma estrutura natural ou com uma regulamentação positiva, do que no que se poderia chamar o “estilo da atividade” do sujeito, e a relação que ele estabelece entre a atividade sexual e os outros aspectos de sua existência familiar, social e econômica. O movimento da análise e os procedimentos de valorização não vão do ato a um campo como poderia sê-lo o da sexualidade ou o da carne, cujas formas permitidas fossem desenhadas pelas leis divinas, civis ou naturais; eles vão do sujeito, enquanto ator sexual, aos outros campos da vida onde ele exerce sua atividade; e é na relação entre essas diferentes formas de atividade que se situam, não exclusivamente, mas no que diz respeito ao essencial, os princípios de apreciação de uma conduta sexual.


cenobitismo


anacorese


princípio segundo o qual é preciso “ter cuidados consigo”; é esse princípio do cuidado. de si que fundamenta a sua necessidade, comanda o seu desenvolvimento e organiza a sua prática. Mas é necessário precisar; a idéia segundo a qual deve-se aplicar-se a si próprio, ocupar-se consigo mesmo


tornar-se e retornar-se para si mesmo


Que ninguém, sendo jovem, tarde a filosofar, nem velho se canse da filosofia. Pois para ninguém é demasiado cedo nem demasiado tarde para assegurar a saúde da alma


poder ocupar-se consigo mesmo; “entregando-se à leitura, à composição, aos cuidados com a saúde”, e entrando em conversação “consigo mesmo e com seus próprios escritos”


É preciso tempo para isso. E é um dos grandes problemas dessa cultura de si fixar, no decorrer do dia ou da vida, a parte que convém consagrar-lhe. Recorre-se a muitas fórmulas diversas, Pode-se reservar, à noite ou de manhã, alguns momentos de recolhimento para o exame daquilo que se fez, para a memorização de certos princípios úteis, para o exame do dia transcorrido; o exame matinal e vesperal dos pítagóricos se encontra, sem dúvida com conteúdos diferentes, nos estóicos; Sêneca.91., Epicteto.92., Marco Aurélio.93., fazem referência a esses momentos que se deve consagrar a voltar-se para si mesmo. Pode-se também interromper de tempos em tempos as próprias atividades ordinárias e fazer um desses retiros que Musonius, dentre outros, recomendava vivamente.94.: eles permitem ficar face a face consigo mesmo, recolher o próprio passado, colocar diante de si o conjunto da vida transcorrida, familiarizar-se, através da leitura, com os preceitos e os exemplos nos quais se quer inspirar e encontrar, graças a uma vida examinada, os princípios essenciais de uma conduta racional. É possível ainda, no meio ou no fim da própria carreira, livrar-se de suas diversas atividades e, aproveitando esse declínio da idade onde os desejos ficam apaziguados, consagrar-se inteiramente, como Sêneca, no trabalho filosófico ou, como Spurrina, na calma de uma existência agradável.95., à posse de si próprio.


Ocupar-se de si não é uma sine-cura. Existem os cuidados com o corpo, os regimes de saúde, os exercícios físicos sem excesso, a satisfação, tão medida quanto possível, das necessidades. Existem as meditações, as leituras, as anotações que se toma sobre livros ou conversações ouvidas, e que mais tarde serão relidas, a rememoração das verdades que já se sabe mas de que convém apropriar-se ainda melhor. Marco Aurélio fornece, assim, um exemplo de “anacorese em si próprio”: trata-se de um longo trabalho de reativação dos princípios gerais e de argumentos racionais que persuadem a não deixar-se irritar com os outros nem com os acidentes, nem tampouco com as coisas.96.. Existem também as conversas com um confidente, com amigos, com um guia ou diretor; às quais se acrescenta a correspondência onde se expõe o estado da própria alma, solicita-se conselhos, ou eles são fornecidos a quem deles necessita — o que, aliás, constitui um exercício benéfico até para aquele chamado preceptor, pois assim ele os reatualiza para si próprio.97.: em torno dos cuidados consigo toda uma atividade de palavra e de escrita se desenvolveu, na qual se ligam o trabalho de si para consigo e a comunicação com outrem.


Tem-se aí um dos pontos mais importantes dessa atividade consagrada a si mesmo: ela não constitui um exercício da solidão; mas sim uma verdadeira prática social.


De acordo com uma tradição que remonta a muito longe na cultura grega, o cuidado de si está em correlação estreita com o pensamento e a prática médica. Essa correlação antiga ampliou-se cada vez mais. A ponto de Plutarco dizer no início dos Preceitos de saúde que filosofia e medicina lidam com “um único e mesmo campo” (mia chora).103.. Elas dispõem, de fato, de um jogo nocional comum cujo elemento central é o conceito de “patos”; ele tanto se aplica à paixão como à doença física, à perturbação do corpo como ao movimento involuntário da alma; e num caso como no outro, refere-se a um estado de passividade que, para o corpo, toma a forma de uma afecção que perturba o equilíbrio de seus humores ou de suas qualidades e que, para a alma, toma a forma de um movimento capaz de arrebatá-la apesar dela própria


É um gabinete médico (iatreion) a escola de um filósofo; não se deve, ao sair, ter gozado, mas sofrido”.106.. Ele insiste muito junto aos seus discípulos: que tomem consciência de sua condição como de um estado patológico; que não se considerem de início e antes de mais nada como escolares que vêm buscar conhecimentos em quem os possui, mas que se apresentem a título de doentes como se um tivesse o ombro deslocado, o outro um abscesso, o terceiro uma fístula e aquele dores de cabeça. Ele os reprova de vir junto a ele não para se fazer cuidar (therapeuthesomenoi) mas para retificar seus julgamentos e corrigi-los (epanorthosontes). “Quereis aprender os silogismos? Curai primeiro vossas feridas, estancai o fluxo de vossos humores, acalmai vossos espíritos”


nessas práticas de si, como também o estilo dessa preocupação: o medo do excesso, a economia do regime, a escuta dos distúrbios, a atenção detalhada ao disfuncionamento, a consideração de todos os elementos (estação, clima, alimentação, modo de vida) que podem perturbar o corpo e, através dele, a alma.


Após ter reconhecido sua fraqueza não se quererá mais fazê-la servir a usos mais importantes. Mas, hoje em dia, as pessoas que são incapazes de engolir o menor bocado compram um tratado e começam a devorá-lo. Assim, vomitam ou têm indigestão. Depois vêm as eólicas, as gripes, as febres, e lhes conviria, antes de mais nada, refletir sobre sua própria capacidade…


Sêneca se pergunta se convém ou não participar das festividades: abster-se e romper com a atitude geral significa dar prova de comedimento. Mas agir com uma força moral ainda maior é não isolar-se; o melhor é “sem se confundir com a multidão, fazer as mesmas coisas, porém, de uma outra maneira”


Ele apresenta a prática de Sextius como centrada essencialmente no balanço de um progresso no fim do dia; quando se recolhia para o repouso da noite, Sextius interrogava sua alma: “De qual falta ficaste curada; que vício combateste; no que ficaste melhor?”


Demétrio, citado por Sêneca, ressaltava que a natureza, encobrindo apenas os segredos inúteis, tinha colocado ao alcance do ser humano e sob o seu olhar as coisas que lhe era necessário conhecer


Essa relação é pensada frequentemente através do modelo jurídico da posse: pertencer “a si”, ser “seu”.(suum fieri, suum esse, são expressões que voltam sempre em Sêneca).130.; somente de si mesmo é que se depende, é-se sui júris; nada limita nem ameaça o poder que se exerce sobre si;


Se converter-se a si é afastar-se das preocupações com o exterior, dos cuidados com a ambição, do temor diante do futuro, pode-se, então, voltar-se para o próprio passado, compilá-lo, passá-lo em revista e estabelecer com ele uma relação que nada perturbará: “Trata-se da única parte de nossa vida que é sagrada e inviolável, que escapa a todos os acasos humanos, que está livre do império da fortuna, que a pobreza não desordena, nem o temor, nem a incursão das doenças; ela não pode ser perturbada nem arrebatada; perpétua e serena é a sua posse”


E a experiência de si que se forma nessa posse não é simplesmente a de uma força dominada, ou de uma soberania exercida sobre uma força prestes a se revoltar; é a de um prazer que se tem consigo mesmo. Alguém que conseguiu, finalmente, ter acesso a si próprio é, para si, um objeto de prazer. Não somente contenta-se com o que se é e aceita-se limitar-se a isso, como também “apraz-se” consigo mesmo


Entretanto já se pode ver de que maneira a questão do mal começa a trabalhar o antigo tema da força, de que maneira a questão da lei começa a desviar o tema da arte e da techne, de que maneira a questão da verdade e o princípio do conhecimento de si desenvolvem-se nas práticas da ascese.


originalmente, o casamento romano era somente uma situação de fato “dependendo da intenção das partes”, “marcado por uma cerimônia”, implicando “efeitos de direito”, sem ser por isso “um ato jurídico”


transmissão do nome, constituição de herdeiros, organização de um sistema de alianças, junção de fortunas.


os engajamentos da mulher implicavam a obediência ao marido, a interdição de sair, de noite ou de dia, sem a sua permissão, a exclusão de qualquer relação sexual com um outro homem, a obrigação de não arruinar a casa e de não desonrar o marido. Este, em compensação, devia manter sua mulher, não instalar uma concubina em casa, não maltratar sua esposa e não ter filhos das ligações que pudesse manter fora de casa. Mais tarde, os contratos estudados especificam obrigações muito mais estritas do lado do marido. Sua obrigação de prover às necessidades de sua mulher é tornada mais precisa; como também é especificada a interdição de ter uma amante, ou um favorito, e de possuir uma outra casa (na qual ele poderia manter uma concubina).


O casamento passaria a ser mais geral enquanto prática, mais público enquanto instituição, mais privado enquanto modo de existência, mais forte para ligar os cônjuges e, portanto, mais eficaz para isolar o casal no campo das outras relações sociais.


meus pés levam-me direto para o vosso aposento


As filosofias da idade helenística eram essencialmente filosofias da evasão, e o principal meio dessa evasão era o de cultivar a autonomia”


condições de exercício do poder


Enquanto a ética antiga implicava uma articulação bem estreita entre o poder sobre si e o poder sobre os outros e, portanto, devia referir-se a uma estética da vida em conformidade com o status, as novas regras do jogo político tornam mais difícil a definição das relações entre o que se é, o que se pode fazer e o que se é obrigado a realizar; a constituição de si mesmo enquanto sujeito ético de suas próprias ações se torna mais problemática.


É verdade que se encontra em certas correntes filosóficas o conselho de afastar-se dos negócios públicos, das perturbações e paixões que elas suscitam. Mas não é nessa escolha entre participação e abstenção que reside a principal linha de demarcação; e não é por oposição à vida ativa que a cultura de si propõe seus próprios valores e suas práticas. Ela procura muito mais definir o princípio de uma relação consigo que permitirá fixar as formas e as condições nas quais uma ação política, uma participação nos encargos do poder, o exercício de uma função, serão possíveis ou impossíveis, aceitáveis ou necessários


a prática de um ofício sério e que demanda muito trabalho: examinar de perto os negócios, nunca abandonar um dossiê incompleto, não empenhar despesas inúteis, calcular bem seus empreendimentos e a eles se ater. Toda uma elaboração de si por si é necessária para essas tarefas que serão realizadas tanto melhor na medida em que não se esteja identificado de modo ostentatório com as marcas do poder.


Não sabes que um homem dessa espécie deve reservar pouco tempo para os negócios de sua casa, mas dela deve estar quase sempre ausente para comandar ou obedecer, ou para exercer alguma magistratura ou para fazer campanha ou exercer a justiça?”.178. Embora o magistrado deva deixar de lado a própria vida privada e tudo o que o vincula a ela, são as suas virtudes pessoais de homem racional que deverão servir-lhe de guia e de princípio regulador na maneira como ele governa os outros.


A precariedade da fortuna — quer seja porque demasiado sucesso atrai a inveja dos deuses, quer seja porque os povos amam retirar os favores que eles, por um momento, concederam


Quando, repentinamente, a infelicidade nos golpeia, quando se está em desgraça ou no exílio, deve-se dizer — e este é o conselho que Plutarco dirige, sem dúvida, ao mesmo Menêmaco que, alguns anos antes, ele tinha encorajado a fazer política “enquanto livre escolha”.184. — que, finalmente, se está livre da obediência aos governantes, das liturgias demasiado dispendiosas, dos serviços a prestar, das funções diplomáticas a realizar, dos impostos a paga


A medicina não era, a esse título, simplesmente concebida como uma técnica de intervenção que, em caso de doença, empregaria remédios e operações. Ela também devia, sob a forma de um corpus de saber e de regras, definir uma maneira de viver, um modo de relação refletida consigo, com o próprio corpo, com o alimento, com a vigília e com o sono, com as diferentes atividades e com o meio. A medicina teria a propor, sob a forma de um regime, uma estrutura voluntária e racional de conduta


adquirir, quando se é jovem, conhecimentos suficientes para poder ser, no decorrer da vida e nas circunstâncias comuns, seu próprio conselheiro de saúde


Por um lado, existe a doença da excitação permanente que retém o ato prolongando indefinidamente o mecanismo da excitação. Na versão masculina desse gênero de afecção — que se designa como satiríase ou priapismo — todos os mecanismos que preparam o ato sexual e a ejaculação (tensões, agitações, calores) estão reunidos e se mantêm de maneira contínua, quer haja ou não evacuação do esperma: trata-se de um eretismo sexual que nunca se resolveria. O doente fica num estado de convulsão permanente, atravessado por altas crises, que se aproximam muito da epilepsia. A descrição de Areteu pode servir de exemplo para testemunhar a maneira pela qual era percebida essa estranha doença onde o ato sexual fica, de certa forma, entregue a si mesmo sem tempo nem medida; sua natureza convulsiva e epiléptica se revela aí a olhos vistos. “É uma doença que coloca a verga em ereção… Essa afecção é um desejo insaciável do coito que a própria satisfação da paixão não pode moderar; pois a ereção continua após os mais multiplicados gozos; ocorre a convulsão de todos os nervos e dis-tensão dos tendões das virilhas e do períneo; as partes sexuais ficam inflamadas e doloridas”.


uma excreção involuntária do esperma


Pois é um sêmen vivificante que nos torna viris, corajosos, plenos de fogo, cheios de pêlos, robustos, que dá um tom grave à nossa voz, e nos torna apropriados para pensar e para agir com vigor: tais são os homens que atingiram a puberdade.


É a propósito da histeria que Galeno encontra a objeção daqueles que não podem crer que sintomas tão numerosos, tão extensos e tão violentos possam dever-se à retenção e à alteração de uma pequena quantidade de humor, que permanece no corpo após a suspensão das relações sexuais


os animais que são ferozes quando procriam ficam mansos após o coito”


o coito, outras, se não o usam habitualmente, ficam com a cabeça pesada, são tomados por ansiedade e febre, perdem o apetite e digerem menos bem


Algumas pessoas têm um esperma abundante e quente, que desperta incessantemente a necessidade de excreção; entretanto, após sua expulsão, as pessoas que estão nesse estado experimentam langor no orifício do estômago, esgotamento, fraqueza e secura em todo o corpo; elas emagrecem, os olhos se afundam e se, por ter incidido esses acidentes após o coito, eles se abstêm de relações sexuais, sentem indisposições na cabeça e no orifício do estômago, com náuseas, e não obtêm nenhuma vantagem importante de sua continência


nos sujeitos que tinham o hábito de relações sexuais frequentes, e nos quais a interrupção provoca como que uma mudança brutal de regime


pelo efeito dessa privação, tinham-se tornado “entorpecidos e preguiçosos”, e, outros, “turrões sem razão e desanimados”


a ambiguidade dos efeitos da atividade sexual, extensão das correlações que se lhes reconhece através de todo o organismo, acentuação de sua própria fragilidade e de seu poder patogênico, valorização das condutas de abstinência, e isso para os dois sexos. Os perigos da prática sexual eram percebidos outrora do lado da violência involuntária e do dispêndio inconsiderado; agora, eles são descritos antes de mais nada como o efeito de uma fragilidade geral do corpo humano e do seu funcionamento.


nada de más digestões, nem embriaguez; em suma, uma purificação geral do corpo que atingirá a quietude necessária à função sexual; é assim


“nem toda estação é apropriada para fazer brotar as semeaduras, assim como também nem todo momento é favorável ao sêmen projetado no útero pelas aproximações sexuais


São perigosas as relações sexuais realizadas quando se é velho: elas esgotam um corpo incapaz de reconstituir os princípios que lhe foram retirados


O “momento favorável”. O kairos do ato sexual é sujeito a muitas discussões. No que diz respeito à cronologia ampla admite-se muito facilmente o calendário tradicional: o inverno e a primavera são as melhores estações; o outono é aceito por alguns, rejeitado por outros; de modo geral pensa-se que se deve abster-se, na medida do possível, durante o verão.260.. Em compensação, a determinação da hora do dia implica diversas considerações. Fora dos motivos religiosos que Plutarco evoca em uma das Questões de convivas.261., a questão do momento está ligada à dos exercícios, das refeições e da digestão. É melhor que as relações sexuais não sejam precedidas de exercícios demasiado violentos, que desviam para outras partes do corpo os recursos de que ele necessita; inversamente, após o amor, os banhos e as fricções reparadoras são recomendados. Não é bom usar dos aphrodisia antes da refeição, quando se está com fome, pois o ato, nessas condições, não cansa mas perde sua força.262.. Por outro lado, porém, deve-se evitar as refeições copiosas e os excessos de bebida. O momento da digestão é sempre nocivo: “Eis por que o coito no meio da noite é enganoso, é que nesse momento os alimentos ainda não foram elaborados; ocorre o mesmo quando se exerce o coito de madrugada, porque poderia acontecer de ter ainda alimentos maldigeridos no estômago e porque todas as superfluidades ainda não foram evacuadas pela urina e pelas fezes”.263.. De tal modo que, no final das contas, é após uma refeição moderada e antes do sono — ou eventualmente da sesta — que o momento das relações sexuais será o mais favorável; e, segundo Rufo, a própria natureza indicaria sua preferência por esse instante dando então ao corpo a sua mais forte excitação. Aliás, quando se quer ter filhos, convém que o homem “se entregue às aproximações sexuais, após ter comido e bebido bem, ao passo que a mulher deve seguir um regime menos fortificante”; na verdade, convém que “um dê e que o outro receba”.264.. Galeno é da mesma opinião: ele recomenda esse momento em que se vai adormecer, após ter feito “uma refeição sólida mas que não incomoda”; assim os alimentos são suficientes para nutrir e reforçar o corpo, e o sono permite reparar a fadiga; além disso, é o melhor momento para ter filhos “porque a mulher retém melhor o esperma dormindo”; enfim, é por essa hora que a natureza indica por si mesma sua preferência ao suscitar então o desejo


os alimentos que aquecem


poluções: daí o conselho tão frequentemente repetido de não dormir de costas


um dos aspectos mais constantes da ética sexual, desde o fim da Antiguidade, a luta contra as imagens internas ou externas como condição e garantia da boa conduta sexual.


um campo que terá suas formas normais e suas formas mórbidas, sua patologia específica, sua nosografia e sua etiologia — eventualmente sua terapêutica


Uma tal medicina exige uma extrema vigilância para com a atividade sexual. Mas essa atenção não leva a uma decifração dessa atividade em sua origem e em seu desenvolvimento; não se trata para o sujeito de saber precisamente o que é de seus próprios desejos, dos movimentos particulares que o levam ao ato sexual, das escolhas que ele faz, das formas de atos que ele comete ou dos modos de prazer que ele experimenta. A atenção exigida é aquela que faz com que lhe estejam sempre presentes no espírito as regras às quais ele deve submeter sua atividade sexual. Ele não tem que reencontrar o curso obscuro do desejo dentro dele; ele tem que reconhecer as numerosas e complexas condições que devem estar reunidas para realizar de maneira conveniente, sem perigo nem dano, os atos de prazer


não é o médico, mas “a saúde que cura o doente”; e que de um modo geral “a responsabilidade de uma produção técnica não diz respeito ao artesão, mas à arte…;


os retornos explícitos à medicina latina e grega


OS GRANDES textos clássicos que tratavam do casamento — a Econômica de Xenofonte, a República ou as Leis de Platão, a Política e a Ética a Nicôtnaco, a Econômica do Pseudo-Aristóteles — inscreviam a reflexão sobre as relações conjugais num amplo quadro: a cidade, com as leis ou os costumes necessários para sua sobrevivência e para sua prosperidade, a casa com a organização que permite sua manutenção ou seu enriquecimento


nessa arte de ser casado, era o necessário domínio de si que devia dar sua forma particular ao comportamento do homem sábio, moderado e justo.


o conjunto das ajudas, comodidades e prazeres que a vida a dois, com seus serviços e suas obrigações, pode proporcionar;


Sobre o casamento como obstáculo à filosofia


Para ele, os homens são


lhe permita passar a vida com um parceiro.


casar-se é um dever. O vínculo matrimonial é de regra universal. Esse princípio geral, se apoia em dois tipos de reflexão. A obrigação de casar-se é, antes de mais nada, para os estóicos, a consequência direta do princípio de que o casamento foi desejado pela natureza e que o ser humano é levado a ele por um impulso que, sendo ao mesmo tempo natural e racional, é o mesmo em todos. Mas ela também está implicada, a título de elemento, no conjunto de tarefas e deveres aos quais o ser humano não se deve furtar, a partir do momento em que ele se reconhece como membro de uma comunidade e parte do gênero humano: o casamento é um desses deveres mediante os quais a existência particular tem valor para todos.


o princípio de ter que se casar está fora do jogo comparativo entre as vantagens e os aborrecimentos do casamento; ele se expressa como a exigência para todos de uma escolha de vida que se dê a forma do universal porque é conforme à natureza e útil a todos


Dentre essas circunstâncias, há uma que foi por muito tempo objeto de discussão: a escolha da existência filosófica. Que o casamento do filósofo tenha sido, desde a época clássica, um tema de debate, pode-se explicar por várias razões: a heterogeneidade desse tipo de vida em relação às outras formas de existência; ou ainda a incompatibilidade entre o objetivo do filósofo (os cuidados com a própria alma, o domínio de suas paixões, a procura da tranquilidade de espírito) e o que é tradicionalmente descrito como a agitação e as perturbações da vida de casamento. Em suma, parecia difícil conciliar o estilo característico da vida filosófica e as exigências de um casamento definido sobretudo por suas tarefas


Esse estilo de existência se marca, antes de mais nada, por uma certa arte de estar junto.


por fragmentos, o esboço de um “modelo forte” da existência conjugal, Nesse modelo, a relação com o outro, que aparece como a mais fundamental, não é a relação de sangue nem a da amizade, é a relação entre um homem e uma mulher, quando essa relação se organiza na forma institucional do casamento e na vida comum que se superpõe a ela. O sistema familiar ou a rede das amizades mantiveram, sem dúvida, uma grande parte de sua importância social; mas, na arte da existência, eles perdem um pouco de seu valor em relação ao vínculo que une duas pessoas


A arte da conjugalidade faz parte integrante da cultura de si.


Mas aquele que se preocupa consigo mesmo não deve somente se casar, ele deve dar à sua vida de casamento uma forma refletida e um estilo particular


A essa discrição grega se oporá a meticulosidade atenta da pastoral cristã, a partir da Idade Média: então se fará com que tudo seja regulado — posições, frequência, gestos, estado de alma de cada um, conhecimento por um das intenções do outro, signos do desejo por um lado, marcas de aceitação por outro, etc. A moral helenística e romana, por seu lado, diz pouco sobre isso.


Com exceção da questão dos nascimentos ilegítimos, e considerando a exigência ética do domínio de si, não havia razão para pedir a um homem, mesmo casado, que reservasse todos os seus prazeres sexuais para a própria mulher e somente para ela.


Quanto aos prazeres do amor, deve-se, na medida do possível, permanecer puro antes do casamento; se o sujeito se entrega a esses prazeres, que tome sua parte daquilo que é permitido. Não importunes os que usam deles, nem lhes dês lição; não publiques em todos os lugares que tu não usas deles


é que, para o ser humano, racional e social, é da própria natureza do ato sexual inscrever-se na relação matrimonial e nela produzir uma descendência legítima. Ato sexual, vínculo conjugal, progenitura, família, e mesmo para além da cidade, comunidade humana, tudo isso constitui uma série cujos elementos são ligados, e onde a existência do homem encontra sua forma racional


A renúncia tão completa quanto possível às relações extraconjugais deve dizer respeito, por parte do marido, a uma busca de delicadeza nessas relações; ela deve ser o efeito de uma conduta ao mesmo tempo hábil e afetuosa; ao passo que se pede à mulher uma certa sutileza na tolerância de fato que é obrigada a conceder e que ela seria imprudente em não observar.


que ela não se queixe e não seja exigente em relação ao que ele faz, mas que atribua tudo isso à doença, à inexperiência ou a erros acidentais


não se pode “ter relação com a mesma mulher, ao mesmo tempo como esposa e como amante”


comportar-se muito ardentemente com a própria mulher é tratá-la como adúltera


buscar no casamento, prioritariamente, sensações de prazer, seria infringir a lei, reverter a ordem dos fins e transgredir o princípio que deve unir, num casal, um homem e uma mulher.


àquelas que só têm como finalidade o prazer, elas são “injustas e contrárias à lei, mesmo quando ocorrem no casamento”


A exclusão do prazer como fim parece ter sido, nos moralistas mais rigorosos, uma exigência; mas essa exigência era mais uma posição de princípio do que um esquema que permitisse regular os comportamentos e codificar com precisão suas formas permitidas ou proibidas.


uma boa esposa não deve, por si mesma, tomar a iniciativa em relação a seu marido.352.; mas também não deve se mostrar aborrecida com as iniciativas do marido; a primeira atitude teria algo de atrevido que lembra a cortesã, mas na segunda haveria uma arrogância inamistosa.353.. Temos aí, de uma forma ainda vaga, o esboço dessas regras fixando as formas das respectivas iniciativas e dos sinais a serem trocados, de que a pastoral cristã, mais tarde, fará tanto caso


evitar, dentre todas as disputas, as que podem ocorrer no quarto de dormir; porque “não é fácil apaziguar num outro lugar as discórdias e as recriminações que a cama provoca”.357.; ou ainda, quando se tem o hábito de dormir junto, não ir para um quarto separado porque se brigou; ao contrário, é nesse momento que se deve invocar Afrodite, “que é o melhor médico para esse tipo de males”


Esses conselhos podem parecer demasiado grosseiros. Mas eles não deixam de figurar entre os preliminares de uma longa história: a da codificação das relações morais entre os esposos, sob o duplo aspecto de uma recomendação geral de reserva, e de uma lição complexa de comunicação afetiva através dos prazeres sexuais.


Um princípio “monopolístico”: nada de relações sexuais fora do casamento. Uma exigência de “des-hedonização”: que as conjunções sexuais entre os esposos não obedeçam a uma economia do prazer. Uma finalização procriadora: que tenham por objetivo o surgimento de uma progenitura. Temos aí os três traços fundamentais que marcam a ética da existência conjugal, que certos moralistas desenvolveram no início da época imperial, e cuja elaboração deve muito ao estoicismo tardio. Mas não se trata, contudo, de traços que lhe sejam próprios: encontraram-se exigências semelhantes nas regras impostas por Platão aos cidadãos de sua República; podemos reencontrá-las mais tarde, naquilo que a Igreja pôde exigir de um bom casal cristão. Muito mais do que uma inovação ao rigor estóico, muito mais do que um projeto próprio à moral dessa época, esses três princípios não deixaram, durante séculos, de marcar o papel de foco de austeridade sexual que se quis que o casamento desempenhasse.


O princípio de uma fidelidade conjugal perfeita será, na pastoral cristã, um dever incondicional para quem se preocupa com a própria salvação. Em troca, nessa moral inspirada pelo estoicismo, é para satisfazer as exigências próprias à relação consigo, a fim de não lesar o que se é por natureza e por essência, a fim de honrar-se a si mesmo como ser racional, que convém fazer, dos prazeres sexuais, um uso interno ao casamento e conforme aos seus fins


Trata-se da universalidade sem lei de uma estética da existência que, de todo modo, só é praticada por alguns.


E, justamente em nome dessa intensificação do valor dos aphrodisia nas relações conjugais, por causa do papel que se lhe atribui na comunicação entre esposos, é que se começa a interrogar de modo cada vez mais dubitativo os privilégios que tinham sido possíveis reconhecer ao amor pelos rapazes.


COMPARADA com as elevadas formulações da época clássica, a reflexão sobre o amor pelos rapazes perdeu, nos primeiros séculos de nossa era, se não em atualidade, pelo menos em intensidade, em seriedade e algo que tinha de vivo


O que não quer dizer que a prática tenha desaparecido ou que ela tenha-se tornado o objeto de uma desqualificação. E todos os textos mostram muito bem que ela ainda era corrente e sempre considerada como coisa natural. O que parece ter mudado não é o gosto pelos rapazes, nem o julgamento de valor que se faz sobre aqueles que têm essa inclinação, mas o modo pelo qual se interroga sobre ele. Obsolescência, não da própria coisa, mas, sim, do problema; recuo do interesse que se lhe confere; desaparecimento da importância que se lhe reconhece no debate filosófico e moral.


Máximo de Tiro faz coincidir essa distinção, de acordo com a tradição platônica, com a oposição entre o amor verdadeiro e aquele que nada mais é do que sua aparência. E, a partir daí, ele desenvolve a comparação sistemática e tradicional entre os dois amores. De acordo com as qualidades particulares que lhes pertencem: um comporta virtude, amizade, pudor, franqueza, estabilidade; o outro comporta excesso, ódio, impudor, infidelidade. De acordo com as maneiras de ser que os caracterizam: um é helênico e viril, e outro efeminado e bárbaro. Enfim, segundo as condutas pelas quais eles se manifestam: um cuida do amado, acompanha-o ao ginásio, à caça, ao combate; segue-o na morte; e não é na noite nem na solidão que ele procura sua companhia; o outro, em troca, foge do sol, procura a noite e a solidão, e evita ser visto com aquele a quem ama


Ao interrogá-lo, em vez de procurar nele uma das formas mais elevadas possíveis de amor, vai-se objetar-lhe, como insuficiência radical, sua incapacidade para instaurar as relações de prazer. A dificuldade em pensar as relações entre essa forma de amor e o uso dos aphrodisia tinha sido por muito tempo o motivo de sua valorização filosófica; ela se torna agora a razão de ver nele um gosto, um hábito, uma preferência que podem ter sua tradição, mas que não poderiam definir um estilo de vida, uma estética da conduta e toda uma modalidade de relação consigo, com os outros e com a verdade.


mas o menos bom


partidários do amor pelos rapazes


o essencial de seu argumento contra o amor pelas mulheres é que ele nada mais é do que uma inclinação da natureza


que nos faz unir-nos às mulheres


o amor pelos rapazes, ao contrário, só é verdadeiramente conforme à sua essência se dele se afastar


a natureza do desejo, que liga um homem a uma mulher “pelo sexo”, como um cão à sua fêmea, é excludente do amor; e por outro lado, não seria conveniente, para uma mulher sábia e casta, experimentar “amor” por seu marido e aceitar “ser amada” por ele (eram, erastai).379.. Não há, portanto, senão um amor verdadeiro, o dos rapazes: porque os prazeres indignos dele estão ausentes, e porque implica necessariamente uma amizade que é indissociável da virtude; se, além disso, o erasta constata que seu amor não suscita no outro “amizade e virtude”, ele renuncia, então, aos seus cuidados e à sua fidelidade


Como se Aquiles, às lágrimas, não tivesse evocado as coxas de Pátrocles, como se Sólon, a propósito dos rapazes em flor, não tivesse cantado “a doçura de suas coxas e de seus lábios”, o amador de rapazes gosta de se dar um ar de filósofo e de sábio; mas, sem dúvida, só espera uma oportunidade; e de noite, quando tudo repousa, “doce é a colheita na ausência do guardião”. Percebe-se o dilema: ou os aphrodisia são incompatíveis com a amizade e o amor, e nesse caso os amadores de rapazes, que em segredo gozam dos corpos desejados, decaíram da dignidade do amor; ou, então, se aceita que as volúpias físicas ocorram na amizade e no amor, e então não há razão de excluir destes a relação com as mulheres.


supõe a comunidade perfeita, e a unidade das almas, em corpos distintos, unidade tão forte que os esposos “não querem mais, não pensam mais em ser dois”.388.; enfim, ela exige a temperança recíproca, a sophrosune que faz renunciar a qualquer outra ligação


Ora, pode o amor pelos rapazes dar lugar aos aphrodisia? Conhece-se o argumento.390.: ou as relações sexuais são, nesse caso, impostas pela violência e aquele que as sofre só pode experimentar cólera, ódio e desejo de vingança; ou, então, elas são consentidas por aquele que, por causa de sua “moleza”, de sua “feminidade”, “obtém prazer em ser passivo” (hedomenos toi paschein), coisa “vergonhosa”, “antinatural” e que o rebaixa à posição mais ínfima.391.. Plutarco retoma aí o “dilema do erômeno”: violentado, ele experimenta ódio e, consentindo, provoca o desprezo. Os adversários tradicionais da pederastia ficam nisso. Mas a análise de Plutarco vai mais longe, procurando definir o que falta ao amor pelos rapazes e que o impede de ser, como o amor conjugal, uma composição harmoniosa de Eros e de Afrodite, onde o vínculo entre as almas está associado ao prazer físico. Plutarco designa essa falta com uma palavra: o amor pelos rapazes é acharistos.


integrar a relação sexual, com seus dois pólos de atividade e de passividade definidos pela natureza, nas relações recíprocas de benevolência e inscrever o prazer físico na amizade.


E Plutarco chega assim à formulação essencial: “No casamento, amar é um maior bem do que ser amado”.398.. A fórmula é importante na medida em que em toda relação de amor a erótica tradicional marcava fortemente a polaridade entre o amante e o amado e a necessária dissimetria entre um e o outro. Aqui, é a dupla atividade de amar, presente nos dois cônjuges, que constitui o elemento essencial. E por razões que são fáceis de distinguir. Essa dupla atividade de amar é princípio de reciprocidade: porque cada um ama o outro é que aceita o seu amor, é que consente em receber as suas marcas e que assim ama ser amado.


Em relação a esse modelo relacional, a prática dos rapazes, com a distinção fortemente marcada entre o erasta e o erômeno, com o dilema da passividade, com a necessária fragilidade da idade, só pode ser inadequada. Falta-lhe a dupla e simétrica atividade de amar; por conseguinte, falta-lhe a regulação interna e a estabilidade do casal. Ela é desprovida dessa “graça” que possibilita que os aphrodisia se integrem na amizade para constituírem a forma completa e acabada de Eros. A pederastia, poderia dizer Plutarco, é um amor ao qual falta “a graça”.


efebo


signos que, tradicionalmente, são atribuídos ao estado passional: violência incontrolável, estado doentio, cegueira quanto à realidade das coisas, inaptidão a atingir os objetivos fixados para a natureza humana.


Em suma, o amor pelos rapazes é situado, alternadamente, sobre os três eixos da natureza: como ordem geral do mundo, como estado primitivo da humanidade e como conduta racionalmente ajustada a seus fins; ele perturba o ordenamento do mundo, ocasiona condutas de violência e de embuste e, finalmente, ele é nefasto para os objetivos do ser humano. Cosmológica, “política” e moralmente, esse tipo de relações transgride a natureza.


O prazer com os rapazes é, ao contrário, colocado sob o signo da verdade.420.. A beleza do jovem é real, pois ela é sem afetação. Como Aquiles Tácio faz dizer a uma de suas personagens: “A beleza dos rapazes não é impregnada dos perfumes da mirra nem de odores enganosos e artificiais; e o suor dos rapazes cheira melhor do que toda a caixa de unguentos de uma mulher”.421.. Às seduções enganosas da toalete feminina, Calicrátidas opõe o quadro do rapaz que não se preocupa com nenhuma afetação: cedo, de manhã, ele salta da cama, lava-se com água pura; não necessita de espelho nem usa pente; joga sua clâmide sobre os ombros; apressa-se em ir à escola; e, na palestra, ele se exerce com vigor, sua, toma um banho rápido; e depois de ter ouvido as lições de sabedoria que lhe são dadas ele rapidamente adormece sob o efeito das boas fadigas do dia.


a partir do momento em que ele não toma por objeto a graça física que se apaga, ele pode durar toda a vida: velhice, doença, morte, até o túmulo, tudo pode ser colocado em comum; “a poeira dos ossos não se separaria”


Não se pode, realmente, fazer-nos crer, diz ele, que todo o prazer dessa relação consiste em se olhar olhos nos olhos e de encantar-se com as conversas mútuas. A visão é agradável, na verdade, mas esse só é um primeiro momento. Após, vem o toque que convida todo o corpo ao gozo. Depois o beijo que, no início tímido, logo se torna consentido. Durante esse tempo a mão não fica desocupada, corre sob ‘as roupas, aperta um pouco o peito, desce ao longo do ventre firme, atinge “a flor da puberdade” e finalmente chega ao objetivo


Por um lado, nela se requer uma atenção mais ativa à prática sexual, a seus efeitos sobre o organismo, ao seu lugar no casamento e ao papel que ela exerce nele, ao seu valor e às suas dificuldades na relação com os rapazes. Mas ao mesmo tempo em que ela retém mais a atenção e que se intensifica o interesse que se lhe dedica, mais facilmente ela aparece como perigosa e como suscetível de comprometer a relação consigo que se trata de instaurar; parece cada vez mais necessário desconfiar dela, controlá-la, localizá-la tanto quanto possível somente nas relações de casamento — nem que seja para sobrecarregá-la, nessa relação conjugal, de significações mais intensas. Problematização e inquietação vão juntas, questionamento e vigilância. Um certo estilo de conduta sexual é assim proposto por todo esse movimento da reflexão moral, médica e filosófica; ele é diferente daquele que tinha sido esboçado no século IV; mas ele também é diferente daquele que será encontrado mais tarde no cristianismo. A atividade sexual nele se aparenta ao mal por sua forma e seus efeitos, mas ela não é em si mesma e substancialmente um mal. Ela encontra sua realização natural e racional no casamento; mas este não é, salvo exceção, a condição formal e indispensável para que ela deixe de ser um mal. Ela dificilmente encontra seu lugar no amor pelos rapazes, mas este não é por isso condenado a pretexto de antina-tureza.


um modo de realização ética que tende à renúncia a si


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