Translate
Fundamentals of Psychoanalysis from Freud to Lacan vol 1 Jorge Marco Antonio Coutinho

Fundamentals of Psychoanalysis from Freud to Lacan vol 1 Jorge Marco Antonio Coutinho

Analyzing content...
Published:

Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan - vol 1 - Jorge, Marco Antonio Coutinho (Highlight: 240; Note: 0.

───────────────

Sumário

SUMÁRIO
Introdução
I. PULSÃO E FALTA: O REAL
Jacques Lacan e o “Retorno ao sentido de Freud”
A pulsão e a sexualidade freudiana
O recalque: a “pedra angular”
Freud e Fliess: o recalque e a bissexualidade
“A anatomia é o destino”: o recalque orgânico e a perda originária do objeto
Do olfato à visão: do instinto à pulsão
O estádio do espelho e o imaginário
O conceito de pulsão
Os dois dualismos pulsionais
O circuito pulsional
A pulsão e o real
A pulsão olfativa
A pulsão de morte e a repetição
A repetição, o simbólico e o real
II. INCONSCIENTE E LINGUAGEM: O SIMBÓLICO
O inconsciente é um saber
O sintoma é estruturado como uma linguagem
O encontro entre Lacan e Saussure
Os anagramas e o inconsciente
Saussure e o signo lingüístico
A primazia do significante
Os dois estados do significante
Metáfora e metonímia: condensação e deslocamento
A metáfora paterna
“Não há Outro do Outro”
Real-simbólico-imaginário
De SIR a RSI: as duas vertentes indissociáveis do simbólico
III. FREUD E OS PARES ANTITÉTICOS
O significante e seus pares antitéticos
“A significação antitética das palavras primitivas”: um verdadeiro triunfo de Freud
A ironia e a representação pelo oposto
A controvérsia Freud-Benveniste
Os chistes e os pares antitéticos
A interpretação dos sonhos
Símbolo e significante nos sonhos
Os sonhos e os pares antitéticos
IV. O OBJETO PERDIDO DO DESEJO
Das Ding e objeto a
O impossível não é o proibido: das Ding não é o objeto materno
Amor, desejo e gozo
A sublimação: conceito imprescindível
APÊNDICE
Sobre a evolução da espécie humana
Breve história da hominização
Bipedia e hominização
Bipedia e sexualidade
Notas
Bibliografia

Introdução

INTRODUÇÃO

A experiência analítica é a única a proporcionar a um sujeito acesso ao mais amplo espectro de suas formações do inconsciente. Nesse sentido, a rigor, a transmissão da psicanálise se dá de um a um, o que impede sua generalização, sua universalização: não há nenhum tratado de psicanálise capaz de reunir a infinita gama de formações do inconsciente para auxiliar o psicanalista em sua prática interpretativa. Sua única bússola é a escuta analítica e esta se produz na relação transferencial a partir do dizer do analisando acionado pela regra fundamental da psicanálise, a regra da associação livre.

Não existe o acaso psíquico

patologia → normalidade → psicologia de grupo

o inconsciente é a verdadeira doença mental do homem.

Alain Didier-Weill

Os membros e associados do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro

Laço Analítico Escola de Psicanálise

Fazenda Freudiana de Goiânia

Laboratório de Psicanálise da UFC

Intersecção Psicanalítica do Brasil e da UNB, Brasília

Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, Rio de Janeiro

Práxis Lacaniana, Niterói,

Centro Clínico Maria Thereza, Niterói

I. PULSÃO E FALTA: O REAL

I. PULSÃO E FALTA: O REAL

Jacques Lacan e o “Retorno ao sentido de Freud”

JACQUES LACAN E O “RETORNO AO SENTIDO DE FREUD”

há algo nos homens que age à revelia deles próprios, algo a partir do que eles agem sem saber que o fazem. Em diferentes trabalhos, como “Uma dificuldade no caminho da psicanálise” (1917) e “As resistências à psicanálise” (1925), Freud subsume tais resistências ao fato, em si mesmo dificilmente aceitável, de que a psicanálise exibe uma divisão (Spaltung) constituinte, originária, reveladora de que os homens não são senhores de si mesmos.

Jung, com a ênfase numa libido dessexualizada; Adler, com a noção de “protesto masculino”, fundamentada numa limitada concepção do eu; Rank, com a visão reducionista do suposto “trauma do nascimento”; Reich, com os ideais libertários da sexualidade

Lacan afirma aí que “a psicologia é veículo de ideais”, e, mais ainda, que “o ideal é servo da sociedade”.

Escola Freudiana de Paris

Cabe a vocês serem lacanianos. Quanto a mim, sou freudiano.

Por outro, Lacan produziu novas conceituações que, embora possam hoje ser consideradas como implícitas no texto de Freud, ao serem explicitadas, ou, vale dizer, nomeadas, puderam não apenas retificar o campo teórico, como igualmente nele introduzir novas perspectivas. São exemplares desse aspecto a lógica do significante e a tripartição estrutural real-simbólico-imaginário, que passou a constituir um verdadeiro novo paradigma para a psicanálise.

como transmitir a psicanálise?

Lacan esclareceu que se tratava, para ele, não de matemizar tudo, mas sim de “começar a isolar um mínimo passível de ser matemizado”

Fórmulas mínimas passíveis de agregar a maior gama de achados da experiência psicanalítica, os matemas de Lacan representam a inclusão no quadro teórico do elemento mais limítrofe à conceituação e, entretanto, o mais nuclear: o real. Nesse sentido, é necessário sublinhar que, tendo inventado “o que se escreve como o real”,7 para Lacan, “nenhuma práxis, mais do que a análise, é orientada para aquilo que, no âmago da experiência, é o núcleo do real”.

A pulsão e a sexualidade freudiana

A PULSÃO E A SEXUALIDADE FREUDIANA

O recalque: a “pedra angular”

O RECALQUE: A “PEDRA ANGULAR”

Freud observara que aquilo que transformou seu processo catártico anterior (hipnose e sugestão) em psicanálise foram os “novos fatores”: “a teoria do recalque e da resistência, o reconhecimento da sexualidade infantil e a interpretação e a exploração dos sonhos como fonte de conhecimento do inconsciente”

para Wilhelm Reich, tratava-se de conseguir desreprimir ao máximo a sexualidade do sujeito para liberar as vias do gozo e da satisfação sexual. Isto significa que, para Reich, se há recalque, é porque há repressão e a tarefa terapêutica consistiria na desrepressão, para que não houvesse mais recalque. Lacan veio a precisar tal distinção, mostrando o engodo inerente à concepção reichiana e pontuando não só que o recalque não provém da repressão, como também que a repressão é, ela mesma, um efeito de haver recalque. Decorre precisamente daí o fato de Freud ter sido levado a formular a noção de recalque originário, isto é, de um recalque que antecede tudo e está na origem mesma da constituição da estrutura do sujeito.

• O retorno do recalcado consiste no fracasso do recalque e na irrupção do recalcado à superfície. A importância da fixação é tão maior quanto Freud irá observar que “essa irrupção nasce no ponto em que ocorreu a fixação e implica uma regressão da libido até esse ponto preciso”.23 Existem tantos pontos de fixação quantas são as etapas de evolução da libido.

Em 1915, no primeiro de seus artigos metapsicológicos intitulado “Pulsões e suas vicissitudes”, Freud postula que há quatro destinos possíveis da pulsão. São eles:
• reversão a seu oposto
• retorno em direção ao próprio eu
• recalque
• sublimação

Freud observa que há uma certa dificuldade em se conceber o processo do recalcamento, pois uma condição necessária para que ele se produza é a produção de desprazer ao invés de prazer. E a dificuldade aqui reside no simples fato de que “a satisfação de uma pulsão é sempre agradável”. A experiência psicanalítica mostra que uma pulsão que foi recalcada teria sua satisfação passível de ser realizada, na medida em que “tal satisfação seria agradável em si mesma, embora irreconciliável com outras reivindicações e intenções. Ela causaria, por conseguinte, prazer num lugar e desprazer em outro”.26 Assim, a condição para o recalque será formulada por Freud no sentido de que o desprazer seja maior que o prazer obtido pela satisfação da pulsão.

Outra característica maior do recalque é a de que ele exige um constante dispêndio de força. Pois, se o recalcado exerce uma pressão constante em direção ao consciente, é necessária igualmente uma contrapressão também incessante para equilibrá-la

Freud e Fliess: o recalque e a bissexualidade

FREUD E FLIESS: O RECALQUE E A BISSEXUALIDADE

Ao dirigir-se a Fliess enquanto sujeito suposto saber, Freud criou o lugar do psicanalista como o lugar do endereçamento da fala, ainda que Fliess não respondesse a partir de tal lugar. Pois o saber sobre o sexo, fundamento paranóico do discurso teórico de Fliess, com seus postulados a respeito de uma periodicidade própria ao sexo masculino e outra ao sexo feminino, impedia, com efeito, que ele pudesse se despojar da suposição de saber e o colocava identificado ao sujeito que sabe.

Num recente estudo, Erik Porge sugeriu que o que importava para Freud não era que este considerasse Fliess “como um sujeito suposto saber a significação de seu desejo inconsciente”,40 mas sim que Fliess — aparecendo para ele como um sujeito suposto saber quanto às ciências biológicas e se apresentando antecipadamente nada menos do que como o instaurador das bases da biologia —, surgia como um verdadeiro interlocutor para ele, que desejava igualmente abrir os caminhos de uma nova ciência. Têm-se aí outros elementos para refletir sobre a ambivalência de Freud que indicamos anteriormente: ela não seria inerente à rivalidade despertada entre conquistadores?

Ao mesmo tempo que não se pode negar o caráter delirante da elaboração teórica de Fliess, não se pode deixar de levar em consideração o fato de que, se Fliess parte do nariz, Freud, por sua vez, faz determinados desenvolvimentos extremamente interessantes a respeito do recalque mais antigo da espécie humana, o recalque orgânico,43 numa referência precisamente ao olfato. S. André ressalta que o nariz representa para Fliess o ponto central de sua psicose e afirma que é no órgão nasal que se encontra para Fliess aquela certeza fundamental que Lacan situa como fenômeno elementar da psicose.

Claus trabalhava então sobre sua descoberta, que tanto impressionara Krafft-Ebing, a da sexualidade de certas espécies de crustáceos, que são machos na primeira parte de suas vidas e fêmeas durante a segunda.

interesse de Freud pela bissexualidade e, simultaneamente, de sua dificuldade para produzir uma teoria a respeito dela. Isto se evidencia mais à frente numa nota em que ele fala dos “problemas todavia não explicados da perversão e da bissexualidade”.

Ao final de “Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância” (1910), quando discorre sobre os limites da investigação psicanalítica — “as pulsões e suas transformações são o termo último daquilo que a psicanálise pode discernir” —, e a importância da constituição biológica, Freud faz uma referência ao problema da bissexualidade acrescida da idéia de Fliess sobre o bilateralismo, da qual ele discordava: “A investigação biológica de nossa época se inclina a explicar os traços principais da constituição orgânica de um ser humano mediante a mistura de disposições masculinas e femininas no sentido das substâncias materiais .químicas.; tanto a beleza física de Leonardo como o fato de ser canhoto ofereceriam muitos apontamentos para isto.”67 Com efeito, se Fliess afirmava que havia um nexo entre bissexualidade e bilateralismo, durante algum tempo Freud se referiu ironicamente a essa teoria como sendo “a nossa bi-bi”.

O problema, pondera Freud, é que tal teoria ancora-se numa certeza sobre o sexo do sujeito baseada no sexo anatômico, ou seja, “no homem, o recalcado inconsciente se reduz a moções pulsionais femininas; e o inverso na mulher.” Isto significaria, obviamente, que o biológico seria a última palavra de todos os processos mentais referentes à sexualidade; mas, para Freud, conforme assinala em seu texto terminal “Esboço de psicanálise” (1938), a bissexualidade é igualmente “psicológica”.72
Mas o que é essa bissexualidade psicológica para Freud? Trata-se da oposição entre a heterossexualidade e a homossexualidade, presente para cada sujeito em sua escolha de objeto, pois “aprendemos que todos os seres humanos são bissexuais nesse sentido; que distribuem sua libido, de maneira manifesta ou latente, entre objetos de ambos os sexos”.73 Sendo mais rara a bissexualidade propriamente dita, isto é, a conciliação das duas orientações sexuais sem nenhum conflito, o comum é que cada uma das duas orientações sobrepuje a outra e a mantenha em estado latente. No encerramento desse mesmo ensaio, Freud vai radicalizar de modo significativo sua concepção no sentido da importância do fator psicológico em detrimento do fator biológico: “… desautorizo sexualizar o recalque dessa maneira, vale dizer, fundá-lo no biológico, em vez de fazê-lo em termos puramente psicológicos”.

É em torno da noção lacaniana de objeto a que se pode precisar o alcance da idéia da bissexualidade para Freud, salientando que não se trata de uma bissexualidade constitucional orgânica, mas sim da falta estrutural de inscrição do objeto do desejo no inconsciente. Trata-se de que o objeto do desejo do sujeito falante é faltoso por natureza e, nesse sentido, este poderia ser chamado chistosamente, com Lacan, de a-ssexual. Se Freud se empenhou em destacar a relação entre as fantasias e a bissexualidade, não será porque é nas fantasias sexuais que a proliferação da vestimenta imaginária do objeto — grafada por Lacan como i(a) — esconde mas também revela o objeto enquanto eminentemente faltoso — a? Daí Lacan ter escrito o matema da fantasia como sendo $ ◊ a, isto é, a relação desejante do sujeito com o objeto a.
O desejo humano é causado por um objeto que falta e que, como tal, é responsável pela estrutura faltosa que produziu o advento do simbólico enquanto fator absolutamente novo da evolução.77 Com o advento do simbólico, o sujeito humano desenvolveu uma linguagem que mediatizou um acesso diferente ao real, e, por meio dele, abriu portas que constituíram seus quatro mais excelentes caminhos: arte, ciência, filosofia e religião.

“A anatomia é o destino”: o recalque orgânico e a perda originária do objeto

“A ANATOMIA É O DESTINO”: O RECALQUE ORGÂNICO E A PERDA ORIGINÁRIA DO OBJETO

Freud expressa, pela primeira vez, a idéia de que “algo orgânico desempenha um papel no recalque”.79 Ele observa, nesse momento, também pela primeira vez, quão grande importância atribui à posição ereta e à substituição do olfato pela visão como fatores que estariam na própria base do processo normal de recalque.
Trata-se, para Freud, com efeito, de ressaltar que determinadas zonas sexuais que vigoram ativamente nos animais, como o ânus, a boca e a garganta, vêm a perder tal função no ser humano normal por intermédio do recalque. Nesse momento, ele ainda não chega a formular a expressão “recalque orgânico”, que só aparecerá mais tarde, mas suas observações sugerem que é precisamente graças à sexualidade recalcada nos processos de recalque normal que surge uma “multiplicidade de processos intelectuais do desenvolvimento — tais como a moral, a vergonha e coisas similares”.80
Além disso, Freud estabelece um verdadeiro paralelismo que aproxima a perda do olfato da essência do processo de recalque: “Dito de modo grosseiro, a lembrança realmente fede, da mesma forma que, no presente, o objeto cheira mal; e, do mesmo modo que afastamos nosso órgão sensorial (a cabeça e o nariz), enojados, o pré-consciente e o sentido da consciência desviam-se da lembrança. Isso é o recalcamento”.

a pulsão sexual e a função do órgão olfativo”

perda do olfato → recalque da sexualidade (recalque)

advento da postura bípede do homem → atrofia do sentido do olfato → recalque orgânico do prazer no cheiro → recalque da sexualidade em geral

Os comentários de Freud nesse trecho são extremamente valiosos na medida em que relacionam intimamente o sexual ao excrementício, o qual permanece bastante recalcado nos sujeitos, embora continue participando ativamente da sexualidade de modo inconsciente.

Do olfato à visão: do instinto à pulsão

DO OLFATO À VISÃO: DO INSTINTO À PULSÃO

A partir do advento da postura ereta, a seqüência de acontecimentos provavelmente teria sido a seguinte:
Desvalorização dos estímulos olfativos → isolamento do período menstrual → predominância dos estímulos visuais com os órgãos genitais visíveis → excitação sexual contínua e não mais cíclica

Freud aborda em seguida a conexão entre a tendência cultural para a limpeza e a repugnância pelos excrementos, situando-os como verdadeiros efeitos da adoção da postura ereta. Diz ele: “O incentivo à limpeza origina-se num impulso a livrar-se das excreções, que se tornaram desagradáveis à percepção dos sentidos”.88 Se as excreções são objeto de um repúdio tão acentuado, isso se dá na medida em que as substâncias expelidas do corpo são condenadas “por seus intensos odores a partilhar do destino acometido aos estímulos olfativos depois que o homem adotou a postura ereta”.

Freud finaliza essa nota sublinhando que o erotismo anal “sucumbe em primeiro lugar ao ‘recalque orgânico’ que preparou o caminho para a civilização”. Tanto na evolução da espécie, com a adoção da postura ereta, quanto na educação das crianças, com o repúdio aos excrementos e a higiene, o erotismo anal é o mais fortemente atingido pelo recalque.

o cão — como termo injurioso, se essa criatura não provocasse seu desprezo através de duas características: ser um animal cujo sentido dominante é o do olfato e não ter horror aos excrementos nem se envergonhar de suas funções sexuais.”

forçando-a a desviar-se do objetivo sexual em sublimações e deslocamentos libidinais”. Freud afirma em seguida: “Sei que Breuer (1913) certa vez assinalou a existência de uma atitude rechaçante primária como esta para com a vida sexual. Todos os neuróticos e várias outras pessoas repudiam o fato de que “inter urinas et faeces nascimur (nascemos entre urina e fezes)”. Também os órgãos genitais dão origem a intensas sensações de odor que muitas pessoas não podem tolerar e que estragam suas relações sexuais. Assim, descobriríamos que a raiz mais profunda do recalque sexual, que avança juntamente com a civilização, é a defesa orgânica da nova forma de vida alcançada com o porte ereto do homem contra a sua primitiva existência animal.

o gozo tem a ver com um “mais-além” do prazer, com a produção do aumento da tensão. E, como o gozo está intimamente ligado ao corpo (“para gozar, é preciso um corpo”), Lacan afirma que “a dimensão do gozo para o corpo é a dimensão da descida rumo à morte”.

recalque orgânico enquanto conceito específico e diferente do de recalque originário

• 0. Recalque orgânico
• postura ereta
• atrofia do olfato
• 1. Fixação (mais tarde: Recalque originário)
• precede e condiciona o recalque
• pulsão imobilizada num estádio infantil
• resto passivo
• contra-investimento
• 2. Recalque propriamente dito (Recalque secundário)
• processo ativo que emana do eu
• visa aqueles elementos pulsionais que ficaram para trás, logo, o recalque depende da fixação (mais tarde, do recalque originário)
3. Retorno do recalcado
• fracasso do recalque e irrupção do recalcado à superfície
• a irrupção nasce no ponto de fixação e a regressão da libido se produz até esse ponto

o olhar passou a ter uma primazia radical na função das trocas sexuais. O advento do modelo pulsional, com sua inédita especificidade, foi decalcado, como vimos, dessa função precipual da visão, o que faz com que se possa afirmar que esse modelo pulsional do funcionamento sexual encontra sua matriz no escópico; ou, dito de outro modo, a pulsão é, em sua essencialidade, pulsão escópica.
Temos na teoria psicanalítica essa função precipual da visão bastante bem delineada, não obstante ela não tenha sido até hoje relevada, como tentamos fazê-lo, de acordo com a importância que deve ser atribuída aos efeitos do recalque orgânico na evolução da espécie. Contudo, duas grandes concepções teóricas maximizam sua potência articulatória, quando são compreendidas à luz dessas considerações: a teoria do narcisismo, em Freud, e o estádio do espelho, em Lacan.

a cabeça do homem transformou-se num grande globo ocular, todos os sentidos foram reduzidos a um único sentido, a visão. A vestimenta impecável da figura não deixa sequer um só pedaço do corpo à mostra: assim, descobrimos que não foi apenas a cabeça que se tornou um grande olho, mas todo o corpo. O imaginário, constituído para o lado de cá da mureta, é como que uma defesa contra a devastação do real, representada pelo mar revolto e pelo barco que afunda. De fato, a figura se posta de costas para o maremoto: a ordem do imaginário se institui para fazer face à desordem do real.

O estádio do espelho e o imaginário

O ESTÁDIO DO ESPELHO E O IMAGINÁRIO

A vivência de unidade que o bebê tem nesse momento, com a súbita obtenção de um contorno nítido e definido, estabelece a passagem da sensação de um corpo espedaçado, no qual há uma indiferenciação entre seu corpo e o de sua mãe, para a do corpo próprio. Por esse fato, desde esse período tão precoce lhe é permitido o acesso à dimensão do recalque das pulsões parciais, que não se integram com harmonia a essa imagem unitária do eu ideal.

O eu é, então, desde sempre, a sede das resistências ao pulsional e ao desejo, e a ilusão de totalidade que ele configura estará a partir daí em constante confronto com a parcialidade da pulsão. Aí reside a alienação fundadora do eu, que, para se constituir, se vale de uma imagem que, no fundo, não é ele mesmo, mas um outro: “o eu é um outro”, Lacan formula em consonância com o poeta Arthur Rimbaud

Considerando o eu como a sede do “desconhecimento crônico”95 do desejo do sujeito, Lacan empenhou-se desde o início de seu Seminário em estabelecer a distinção entre o eu e o sujeito, a qual, na falta de ser feita, levou a psicanálise a ser confundida gradualmente com uma psicologia do eu. Tal distinção só foi possível por meio de outra distinção, aquela entre o imaginário e o simbólico: se o eu é da ordem do imaginário e do sentido, o sujeito é partido entre os significantes do simbólico. Isso equivale a dizer que a unidade obtida no eu não o é jamais no nível do sujeito, pois este é sempre dividido, conflitivo, impossível de se identificar de modo absoluto.

Real: não-senso (não-sentido)
Simbólico: duplo sentido
Imaginário: sentido

O conceito de pulsão

O CONCEITO DE PULSÃO

O elemento central da concepção freudiana da pulsão é seu caráter eminentemente parcial, especificado por uma fonte pulsional (oral, anal etc.) e por um alvo (a resolução de uma tensão interna). Através da formulação da parcialidade da pulsão, Freud indica o erro inerente ao fato de se restringir a sexualidade humana ao aspecto da reprodução.

Os dois dualismos pulsionais

OS DOIS DUALISMOS PULSIONAIS

Reunindo as pulsões sexuais e as de autoconservação sob a rubrica geral de pulsões de vida, Freud passa a opor estas à pulsão de morte

O circuito pulsional

O CIRCUITO PULSIONAL

Para Lacan, a pulsão deve ser concebida como o efeito da demanda do Outro, da linguagem, em sua mais precoce incidência sobre o sujeito ainda nem mesmo constituído enquanto tal. Assim, postula que o movimento pulsional só é passível de ser compreendido em sua especificidade caso seja referenciado à lógica do significante, com a qual ele fornece uma estrutura formal para o inconsciente freudiano. O fato de que as pulsões constituem “o eco no corpo do fato de que há um dizer”109 representa um dos mais importantes fundamentos da concepção psicanalítica da sexualidade. E coube a Lacan o mérito de explicitar precisamente essa via da “relação entre linguagem e sexo”.

o que há de mais fundamental nas assim chamadas relações sexuais do ser humano tem a ver com a linguagem, nesse sentido de que não é à toa que chamamos a linguagem que usamos de língua materna

Lacan esclarece que se trata, na verdade, para Freud, do destacamento da ação da linguagem em sua incidência inicial sobre determinadas regiões corporais privilegiadas, bordas orificiais cuja função de troca com o Outro é prevalente e cuja estrutura de hiância, de furo, é compatível com a própria estrutura do inconsciente:
As assim chamadas fases oral, anal e mesmo urinária estão misturadas de forma demasiado profunda com a aquisição da linguagem, o aprendizado da toilette, por exemplo, está manifestamente ancorado na concepção que a mãe tem do que espera da criança — especialmente os excrementos —, o que faz com que, fundamentalmente, seja em torno do primeiríssimo aprendizado da criança que gravitem todas as etapas daquilo que Freud, com seu prodigioso insight, chama de sexualidade.

Tal ação da linguagem, do Outro, sobre essas estruturas de borda é o que constitui aquilo que Freud denominou de zonas erógenas, devendo-se precisar, entretanto, que tal processo de erogeneização, longe de se restringir a determinadas regiões corporais específicas, espraia-se por todo o corpo do sujeito, transformando-o, assim, num corpo erógeno, ou, vale dizer, num corpo pulsional.

A pulsão e o real

A PULSÃO E O REAL

Lacan observa que na satisfação da pulsão entra em jogo a categoria do impossível — do real enquanto o impossível de ser simbolizado. Freud não indicou outra coisa ao assinalar que, por mais estranho que possa parecer, há algo na natureza mesma da pulsão sexual que é “desfavorável à realização da plena satisfação”,117 sempre persistindo uma diferença ineliminável entre a satisfação almejada e aquela obtida

A pulsão recalcada nunca deixa de esforçar-se em busca da satisfação completa, que consistiria na repetição de uma vivência primária de satisfação. Formações reativas e substitutivas, bem como sublimações, não bastarão para remover a tensão persistente da pulsão recalcada, sendo que a diferença de quantidade entre o prazer da satisfação que é exigida e a que é realmente conseguida, é que fornece o fator impulsionador que não permite qualquer parada em nenhuma das posições alcançadas, mas, nas palavras do poeta: Pressiona sempre para a frente, indomada.

O seio é objeto a somente na medida em que “especificado na função do desmame, que prefigura a castração”, e o excremento, na medida em que é o objeto que o sujeito “perde por natureza”. O olhar e a voz, do mesmo modo, presentificam tal perda, uma vez que representam “suportes que .o sujeito. encontra para o desejo do Outro”. Se esses objetos são, por excelência, objetos a, isto se dá porquanto “é em revolver esses objetos para neles resgatar, para restaurar em si sua perda original, que se empenha a atividade que denominamos de pulsão”

o amor é aquilo que vem em suplência à inexistência da relação sexual, Lacan opõe dois campos distintos:
• o do amor, para o qual vigora o imaginário (sentido) e a conseqüente elisão do real: o amor é da ordem do signo.
• o da pulsão, que se define pela contínua referência ao real (não-senso): a pulsão é da ordem do significante.

A pulsão olfativa

A PULSÃO OLFATIVA

Quando uma jovem analisanda, viúva em processo de elaboração do luto, se refere ao falecido marido, diz: “A casa, o armário ainda têm o nosso cheiro; não é nem o cheiro dele, nem o meu, é o nosso, e isso é insuportável porque ele não está mais ali.”

nada é mais real que um odor, mas também nada é tão subjetivo

Apesar disso, não costumamos valorizar o olfato conscientemente, sua importância parece ser implícita, tácita, como se não precisássemos dizê-la, como se ela retirasse sua potência justamente de seu caráter inefável. Contudo, quando o sentido do olfato é perdido,126 esse valor é ressaltado sobejamente pelos sujeitos.

relação do bebê com a mãe, por exemplo, no caso do lactente anoréxico descrito por Françoise Dolto, que só volta a aceitar a mamadeira quando se coloca em torno dele o lençol com o cheiro de sua mãe ausente.

François Baudry ressalta que, ainda que se possam destacar três aspectos solidários do objeto a — estilhaços, vazio e resto —, o vazio como objeto é o que se depreende da definição de Lacan do objeto primeiro como “o objeto de que não se tem idéia”,130 assim como do vazio central do nó borromeano referido por Lacan ao objeto a.

se analisarmos o odor, veremos que, enquanto objeto de satisfação pulsional, ele tem a singular característica de ser extremamente evanescente; seu caráter etéreo, volátil, parece indicar sua condição propícia de objeto a que, ao se desprender do corpo, implica igualmente uma perda.

Pergunto: quando o sujeito afirma seu vínculo profundo com o objeto amado através da referência ao odor, não estará ele aí falando da inerência de seu desejo a algo que é extremamente tênue? Este apego ao odor não significará um apontamento inconsciente extremamente poderoso de todo sujeito ao objeto enquanto algo fundamentalmente perdido? Pois se os odores são igualmente denominados de essências, eles não revelam assim que a essência do objeto é o nada?
Pois, se os odores, para serem sentidos, contrariamente à voz e ao olhar, exigem a proximidade135 acentuada do objeto, e, portanto, uma certa dimensão de desrecalcamento — uma vez que, como vimos, para Freud o recalque tem a ver com o manter à distância —, eles como que ausentificam o objeto que está ali tão junto de nós e nos introduzem imediatamente numa dimensão de falta inerente a toda relação com o outro. O odor como que presentifica o objeto enquanto falta, ele como que volatiliza o objeto in praesentia, o que pode ser entendido como a introdução da dimensão do impossível, situada mais-além do proibido, na referência ao objeto. A proibição está, de fato, sublinhamos isso em Freud, ligada à dimensão do recalcamento.

Os odores estão ligados aos orifícios corporais, inclusive aos poros que presentificam o furo sobre toda a superfície corporal. Por meio dos odores, o corpo adquire seu verdadeiro estatuto de ser uma grande abertura congruente com o funcionamento pulsional. Se Lacan fala do traumatismo como sendo da ordem do trou-matisme (em francês, trou significa furo), isto é, se o furo é da ordem do próprio trauma e do recalcamento originário, os odores seriam objetos a por excelência. Inefáveis, faltam palavras para designá-los; aliás, do olfato, já se disse que é o “sentido mudo”.

alucinação do cheiro de pudim queimado, Freud observa que “é muito raro que sensações olfativas sejam escolhidas como símbolos mnêmicos de traumas”.

a essência do recalque consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância

Dito de outro modo, é como se os sujeitos se apegassem ao odor do objeto amado como uma espécie de nostalgia da Coisa; mas que esta Coisa não ouse se presentificar sob a forma abjeta do objeto perdido, pois ela será alvo do recalcamento…

Arthur Rimbaud

Afirmo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O Poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura: buscar a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só reter a quintessência. Inefável tortura para a qual se necessita toda a fé, toda a força sobrehumana, e pela qual o poeta se torna o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito, — e o Sabedor supremo. — pois alcança o Insabido…. O poeta é um verdadeiro roubador de fogo. Responde pela humanidade, até pelos animais; deveria fazer com que suas invenções fossem cheiradas, ouvidas, palpadas; … Achar uma língua; afinal, como toda palavra é idéia, a linguagem universal há de chegar um dia… essa língua será da alma para a alma, resumirá tudo: perfumes, seres, sons: pensamento que se engata a um pensamento e o puxa para fora

A pulsão de morte e a repetição

A PULSÃO DE MORTE E A REPETIÇÃO

Em “O estranho” (1919), Freud enuncia pela primeira vez algo novo sobre a repetição, algo que será articulado efetivamente no ano seguinte, em Mais-além, ou seja, a necessidade de dar conta de certos fenômenos que indicam uma repetição pura a operar no sujeito, mas, aqui, a repetição ainda não será vinculada à pulsão de morte

as duas características primordiais de toda pulsão: por um lado, seu caráter conservador, restitutivo e, por outro, seu aspecto repetitivo. A natureza conservadora das pulsões é definida por meio da constatação de que “todas as pulsões tendem à restauração de um estado anterior de coisas”.

A repetição, o simbólico e o real

A REPETIÇÃO, O SIMBÓLICO E O REAL

o sujeito do inconsciente é efeito do significante

É no seminário sobre Os quatro conceitos fundamentais que Lacan introduzirá um novo discernimento sobre o conceito de repetição. Se até aí ele parece associar a repetição exclusivamente com o registro do simbólico, nesse seminário ele vai destacar dois aspectos diversos da repetição: o autômaton, associado intimamente ao simbólico, e a tiquê, vinculada ao real. O autômaton representa a repetição em seu aspecto de insistência automática da rede dos significantes, ele é o retorno, a volta, a insistência dos signos através dos quais nos vemos comandados pelo princípio de prazer. A tiquê é precisamente aquilo que se situa mais-além desse automatismo, ela é seu ponto terminal — e inicial —, pois implica o encontro (faltoso) com o real que vigora por trás do funcionamento automático do significante. O autômaton representa a tentativa de trazer para o campo do simbólico, do significante, alguma forma de ligação (Bindung) possível do real, de assimilação do real — cujo nome é por excelência o trauma.

II. INCONSCIENTE E LINGUAGEM: O SIMBÓLICO

II. INCONSCIENTE E LINGUAGEM: O SIMBÓLICO

O inconsciente é um saber

O INCONSCIENTE É UM SABER

O sujeito sabe sem saber que sabe — e isso constitui o saber do psicanalista mais essencial, o saber de que há sujeito do inconsciente, saber ao qual ele só pode ter tido acesso através de uma experiência de análise pessoal.

O sintoma é estruturado como uma linguagem

O SINTOMA É ESTRUTURADO COMO UMA LINGUAGEM

O encontro entre Lacan e Saussure

O ENCONTRO ENTRE LACAN E SAUSSURE

M. Arrivé enuncia três assertivas, nas quais as convergências e divergências entre Lacan e Saussure podem ser reunidas e elaboradas: “1/ o significante lacaniano tem por epônimo e por étimo epistemológico o significante saussuriano. 2/ o significante lacaniano não se confunde com o significante saussuriano. 3/ apesar das diferenças que os separam, os dois significantes são unidos por relações tais que sua denominação pelo mesmo significante — o significante significante — é legítima.”

Os anagramas e o inconsciente

OS ANAGRAMAS E O INCONSCIENTE

Para Freud, as características especiais do sistema inconsciente são as seguintes:
•  Não há no inconsciente negação, dúvida ou quaisquer graus de certeza. Esses são elementos introduzidos pelo trabalho da censura entre o sistema Ics e o sistema Pcs (Cs). A negação é um substituto, em grau mais elevado, do recalcamento. No Ics só existem conteúdos investidos com maior ou menor força.
•  Tais investimentos sofrem condensações e deslocamentos, modo de funcionamento do processo primário.
•  Os processos do Ics são intemporais. A referência ao tempo vincula-se ao trabalho do sistema Cs.
•  Os processos Ics dispensam pouca atenção à realidade externa. Estão sujeitos ao princípio de prazer, de modo que a realidade externa é substituída pela realidade psíquica.

O que há de comum entre esses dois episódios é que, em ambos, Saussure e Freud pedem a confirmação pelo artista dos achados do cientista; os dois procuraram nesses autores a confirmação de um saber do qual, efetivamente, eles nada sabiam e sobre o qual nada podiam dizer, pois tratava-se de um saber que por definição não se sabe a si mesmo. O que estava em jogo era algo absolutamente novo, o saber inconsciente, o saber do Outro. É nesse sentido que Lacan afirmou que Saussure aguardava o discurso psicanalítico para que a questão do saber fosse colocada de forma nova:
Um sonho, isso não introduz a nenhuma experiência insondável, a nenhuma mística, isso se lê do que dele se diz, e que se poderá ir mais longe ao tomar seus equívocos no sentido mais anagramático do termo. É nesse ponto da linguagem que um Saussure se colocava a questão de saber se nos versos saturninos, onde ele encontrava as mais estranhas pontuações da escrita, isto era intencional ou não. É aí que Saussure espera por Freud. E é aí que se renova a questão do saber.

Saussure e o signo lingüístico

SAUSSURE E O SIGNO LINGÜÍSTICO

Saussure introduz sua noção de signo lingüístico pela concepção de uma unidade indissociável entre o significante (imagem acústica) e o significado (conceito), tal como os dois lados de uma folha de papel, não sendo possível, para ele, falar-se do significante independentemente do significado e vice-versa. A “coisa”, os “objetos designados”, portanto, acham-se excluídos dessa definição do signo, o que introduz, de saída, uma concepção da língua diversa da de uma simples nomenclatura que estabeleceria um vínculo entre nomes e coisas

As noções de sincronia e diacronia são introduzidas por Saussure numa relação com dois eixos diversos: o eixo das simultaneidades, que diz respeito às relações entre coisas coexistentes e do qual toda intervenção do tempo está excluída e o eixo das sucessividades, no qual uma coisa é considerada a cada vez, mas no qual estão situadas todas as coisas do primeiro eixo com suas transformações. É interessante observar que a oposição entre esses dois eixos está rigorosamente relacionada com a concepção da língua como um sistema de valores. Além disso, cumpre distinguir a diacronia da linearidade: a primeira afeta a língua, ao passo que a segunda é uma propriedade da fala. A linearidade é o modo de intervenção do tempo na fala, enquanto que a diacronia é seu modo de intervenção na língua, o que permite que se perceba que a linearidade é a condição da diacronia, pois para que uma língua evolua, e não morra, é preciso que seja falada.

Lacan foi erroneamente considerado como um teórico estruturalista, pois o termo estrutura, comparecente em sua assertiva “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, não deve ser tomado no sentido estruturalista, mas sim no sentido psicanalítico. Trata-se, na estrutura em jogo na lingüística, de uma estrutura de exclusão do sujeito, ao passo que, na psicanálise, de uma estrutura de inclusão do sujeito. Assim, tal assertiva lacaniana deve ser compreendida à luz daquela outra que afirma que “o inconsciente é o discurso do Outro”, na qual se depreende, por um lado, a necessária referência à fala, ao discurso do sujeito, e, por outro lado, ao Outro enquanto lugar de absoluta alteridade dos significantes.
Se para Lacan o desejo é desejo do Outro, é na medida em que, antes mesmo de seu nascimento, o sujeito já tem sua inscrição numa ordem simbólica predeterminada. Esta ordem simbólica, ao mesmo tempo que determina o sujeito, tanto o antecede em sua vida como o ultrapassa após sua morte. Disso dão um eloqüente testemunho o nome para sempre inscrito numa lápide funerária e o nome-do-pai que se transmite de geração em geração.

A primazia do significante

A PRIMAZIA DO SIGNIFICANTE

Assim, no futebol, o time é constituído como um verdadeiro miniexército, cujo objetivo é vencer uma contenda: nele, fala-se do “capitão” do time, de “tática”, de “ataque” e “defesa”, de “tiro de meta”, de “artilheiro”, de “petardo” e “canhão” (para designar chutes poderosos), de “barreira”, de “explodir” a bola no “adversário”, de “armar” a jogada, de “dominar” e “bater” a bola, “morte súbita”, “poder de fogo” do time etc. A linguagem utilizada é uma linguagem bélica, mas a guerra ali só comparece velada. Pois nele, as palavras servem nitidamente a dois senhores distintos, mas muito próximos: a pulsão de agressão ou de dominação, cuja manifestação implica o aparelho motor, e a sua sublimação… O mesmo pode ser observado com o ritual posto em cena nas grandes Copas do mundo, no qual os atletas ocupam o lugar de verdadeiros soldados que representam suas pátrias nos campos (de batalha?) e, enfileirados, cantam seus hinos antes do jogo começar, vendo com orgulho as bandeiras nacionais serem içadas…

O inconsciente não se encontra num suposto mais-além da linguagem, nem em qualquer profundeza abissal ou oculta; ele se acha nas palavras, apenas nas palavras e é nas palavras enunciadas pelo sujeito que ele pode ser escutado. Estruturado como uma linguagem, é nela que o inconsciente se acha profundamente enraizado.

• o significado desliza sob o significante, como no esquema das duas massas amorfas de Saussure. É a partir desse esquema que Lacan irá produzir o grafo das duas curvas, em “Subversão do sujeito”, no qual o significante será assimilado à enunciação e circulará em sentido inverso em relação ao discurso, que constitui o enunciado. No deslizamento entre os dois se produz, de quando em quando, um ponto de basta, no qual vêm atar-se o significado e o significante, ponto em torno do qual deve exercer-se toda análise concreta do discurso.

Vê-se que o que está em jogo, para Lacan, em sua definição do significante é a rigor uma visão que enfatiza o caráter puramente diferencial do significante, decalcado por ele da concepção saussuriana do signo: o significante enquanto tal não é “jamais senão um-entre-outros, referido a esses outros, não .é. senão a diferença para com os outros”.

Lacan preserva a definição do signo, que ele extrai de Peirce, precisamente no que ela não implica a referência ao sujeito e introduz sua definição do significante numa estrita referência a este: o significante é o que representa um sujeito para outro significante, enquanto que o signo é o que representa alguma coisa para alguém que saiba lê-lo.

O modo pelo qual Lacan isola o advento do sentido reside não na concatenação dos signos em frases, mas sim, por um lado, naquilo que escapa à materialidade significante, ou seja, à pontuação, e, por outro, no efeito de retroação inerente à série significante, no que seu sentido depende necessariamente do último termo enunciado. Aqui, Lacan resgata a noção freudiana de só-depois ou a posteriori (Nachträglichkeit), à qual não havia sido dado nenhum relevo pelos analistas até então.

A pontuação, sendo na escrita o elemento que estabiliza o sentido, presentifica-se na fala por meio da enunciação, na dependência da qual é facultado a um mesmo enunciado apresentar os sentidos mais díspares, desde que pronunciado de maneiras diferentes. Assim como a pontuação o faz na escrita, a enunciação, na fala, altera os enunciados e, desse modo, revela o sujeito da enunciação, levando à constatação de que a enunciação jamais possa ser reduzida a qualquer enunciado.

• S1: o significante-mestre é uma referência particular do sujeito (trata-se de um número bastante limitado de significantes) que se exemplifica lidimamente por seu nome próprio. É na medida mesma em que um nome próprio é uma representação extremamente particular de um sujeito que ele é intraduzível. Contudo, Lacan observa que, antes de ser um significante, o significanteum, S1, é um enxame (essaim, em francês, apresentando uma homofonia com S-Un) de significantes singulares do sujeito. Mas, como um significante não possui isoladamente potência de representação — este é o princípio que rege a lógica do significante —, S1 está sempre situado numa referência a S2, isto é, numa referência à diferença em relação a S2.
• S2: o saber do Outro, ou seja, o conjunto faltoso dos significantes, é uma das formas de se escrever A, o Outro. S2 designa todos os significantes que não têm valor de S1, de marca fundadora para o sujeito.
• $: o sujeito é barrado, para Lacan, na medida em que nenhum significante, nem S1, nem S2, basta para representá-lo integralmente. Por isso, ele é sempre representado de um significante para outro, entre-dois significantes. O sujeito é, assim, intervalar, pontual (daí ocupar o lugar mesmo da pontuação e da enunciação); ele é “o que desliza numa cadeia de significantes, quer ele tenha ou não consciência de que significante ele é efeito”.63
• a: o objeto a, objeto faltoso, objeto causa do desejo, é o que resta da aptidão do significante para representar o sujeito, daí sua estrutura de resto, de dejeto. Ele é o que sobra de toda tentativa de representar o sujeito.

O real ex-siste
O imaginário consiste
O simbólico insiste

Sendo o que não se inscreve, o real é o que ex-siste (o que está fora) à consistência do imaginário. Pois se o real é, por definição, aquilo que é impossível de ser simbolizado — isto é, o não-senso radical, o que não tem nenhum sentido —, o imaginário é o oposto do real, ele é da ordem do sentido. Há, apontadas em Freud, várias formas de se nomear o real: o registro do real surge nas vivências cujo teor excede à capacidade de representação psíquica; o real é a morte, a perda, aquilo que não tem inscrição possível no psiquismo; o real é por excelência o trauma, isto é, aquilo que não pode de modo algum ser assimilado pelo sujeito em suas representações simbólico-imaginárias; ele é o limite da simbolização. Já o simbólico é o campo da linguagem através do qual o sujeito faz face, por um lado, ao real traumático, e, por outro, reconstitui incessantemente seu imaginário que está continuamente submetido à invasão do real.

Os dois estados do significante

OS DOIS ESTADOS DO SIGNIFICANTE

Ressaltando que para Freud há uma analogia estrutural entre a técnica do chiste e os mecanismos inconscientes de condensação e deslocamento, Lacan observa que, no chiste, há o surgimento de um elemento novo, cuja característica é a de escapar ao código e introduzir uma mensagem. Ao estabelecer a oposição entre código e mensagem, Lacan apresenta um esquema que visa esclarecer a topologia do deslizamento recíproco do significante e do significado. Tal esquema representa para ele dois estados do significante: a cadeia do significante e o círculo do discurso.

Manoel de Barros: “A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.” E ainda: “Não gosto de palavra acostumada.”68 E também: “Carrego meus primórdios num andor./ Minha voz tem um vício de fontes./ Eu queria avançar para o começo./ Chegar ao criançamento das palavras./ Lá onde elas ainda urinam na perna./ Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos./ Quando a criança garatuja o verbo para falar o que não tem….”

Metáfora e metonímia: condensação e deslocamento

METÁFORA E METONÍMIA: CONDENSAÇÃO E DESLOCAMENTO

Roman Jakobson foi um lingüista pós-saussuriano de cujo trabalho Lacan se valeu para dar consistência teórica a sua tese sobre as relações entre inconsciente e linguagem. Seu artigo “Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia”,70 no qual aplica, de forma inovadora, critérios da lingüística estrutural à interpretação e à classificação das afasias, possibilitou a Lacan estabelecer um paralelo igualmente novo entre os dois modos de funcionamento do processo primário, segundo Freud, a condensação eo deslocamento, com duas figuras da retórica clássica, a metáfora e a metonímia.71 Tal fato é surpreendente, quando lembramos que Freud também abordou o problema da linguagem, de forma inaugural em sua obra, com um ensaio sobre as afasias.

JAKOBSON:
Seleção → similaridade → substituição → afasia sensorial → metáfora → poesia → romantismo e simbolismo → identificação e simbolismo
Combinação → contigüidade → contextura → afasia motora →
metonímia → prosa → realismo → condensação e deslocamento

A condensação é entendida como um processo metafórico no qual trata-se da substituição de vários significantes por outro significante num processo de superposição: “A Verdichtung, condensação, é a estrutura de superposição dos significantes em que ganha campo a metáfora, e cujo nome, por condensar em si mesmo a Dichtung, indica a conaturalidade desse mecanismo com a poesia, a ponto de envolver a função propriamente tradicional desta.”75
O deslocamento é visto como um processo puramente metonímico, no qual não há substituição de um significante por outro, mas sim um remetimento a outro significante: “A Verschiebung ou deslocamento… é o transporte da significação que a metonímia demonstra e que, desde seu aparecimento em Freud, é apresentado como o meio mais adequado do inconsciente para despistar a censura.”

A metonímia manifesta a resistência da significação presentificada pela permanência da barra entre S e s: f(S…S’)S . S(–)s. A metáfora manifesta a emergência da significação presentificada pelo franqueamento da barra entre S e s: f(S’/S)S . S(+)s.

LACAN:
Condensação → substituição → metáfora → Verdichtung
Deslocamento → remetimento → metonímia → Verschiebung

A metáfora paterna

A METÁFORA PATERNA

Já foi salientado que, em Aristóteles, a singularidade do sujeito é apontada como um traço essencial na produção de uma metáfora. A entrada do sujeito na ordem da linguagem — ordem simbólica — re-produz uma perda de ser original, da qual o produto é o advento do sujeito da enunciação, evasivo a todo e qualquer enunciado e produtor mesmo da metáfora. Porque a linguagem se deposita precisamente no lugar de uma falta-a-ser, ela será desde sempre metáfora do sujeito.

objeto transicional

um objeto que se destina a “proteger a criança da angústia da separação no processo de diferenciação entre o eu e o não-eu”;83 o objeto transicional só consegue cumprir essa função por representar para a criança um esboço de domínio sobre os objetos.

vivência passiva do bebê
(posição de objeto) → brinquedo (objeto transicional) → posição ativa
real                                                                      simbólico

“Não há Outro do Outro”

“NÃO HÁ OUTRO DO OUTRO”

A relação apaixonada de Lacan com os matemas da psicanálise se inscreve justamente nesse ponto, pois os matemas, sendo fórmulas mínimas passíveis de agregarem nelas mesmas a maior gama possível de achados da experiência psicanalítica, representam, no campo da linguagem, sua fronteira, sua margem, isto é, a possibilidade de o simbólico tocar no real; assim, eles oferecem igualmente um mínimo de condições para a transmissibilidade da teoria psicanalítica.

Real-simbólico-imaginário

REAL-SIMBÓLICO-IMAGINÁRIO

a diferença sexual

Lacan depreende dos textos freudianos sobre a sexualidade o fato de que o imaginário do sujeito falante, opostamente ao do animal — pleno, sem brechas —, apresenta uma falta originária, uma hiância real que virá precisamente a ser preenchida pelo simbólico.94 Nesse sentido, Lacan falou dessa falha no imaginário do sujeito humano como sendo uma “hiância congênita que o ser real do homem apresenta em suas relações naturais”.

Recorrendo à palavra-valise parlêtre (fala-ser), neologismo que associa num único termo o ser e a fala, Lacan especifica que o humano se especifica pela fala, fato através do qual acha-se precarizado o estatuto do ser, cuja ressonância no discurso filosófico apresenta em seu horizonte a idéia de uma unidade originária. Para Lacan, ao contrário, o que a psicanálise evidencia é que o ôntico para o falante é precisamente uma falta originária, daí ele introduzir outro neologismo hontologie, que associa a vergonha (honte) à ontologia: se o ôntico para o humano está relacionado com a vergonha, é porque o sexual está em seu cerne.

O estádio do espelho representa o momento inaugural de constituição da matriz imaginária do eu, que, sendo a sede das posteriores identificações imaginárias alienantes, tem o poder de uma verdadeira estátua pregnante.
Assim, estabelecendo inicialmente a distinção fundamental entre o eu e o sujeito, Lacan distingue a um só tempo o imaginário do simbólico e indica a situação excêntrica do sujeito em relação ao eu. Para ele, a descoberta freudiana do inconsciente reside na apreensão primeira de que o sujeito não é o indivíduo, termo que, proveniente do latim individuu, significa o indiviso, aquele que não é dividido.
Ao contrário, tal como uma cabeça de Janus, o sujeito se especifica por sua divisão constituinte, sendo determinado pelo simbólico justamente enquanto barrado, dividido pelos significantes que o constituem — daí Lacan escrever $ para designar o sujeito.96 Lacunar, evanescente, o lugar do sujeito é o lugar do corte, da escansão, da ruptura, ao passo que o eu representa precisamente a configuração de uma unidade, uma completude constituída imaginariamente.

• o real é o impossível de ser simbolizado
• o real é o que retorna sempre ao mesmo lugar

a realidade, diferentemente do real que já estava ali, “é essa montagem do simbólico e do imaginário”

Ao contrário, o real é precisamente aquilo que escapa a esta realidade, o que não se inscreve de nenhum modo pelo simbólico; ele remete ao traumático, ao inassimilável, ao impossível.

Já a realidade — que podemos entender como sendo a própria realidade psíquica —, é configurada a partir da fantasia inconsciente fundamental, modo pelo qual cada sujeito faz face ao real da inexistência da relação sexual.

Dito de outro modo, situada na base da realidade psíquica, a fantasia é constituída pelo simbólico, pelos significantes do Outro, e mediatiza o encontro do sujeito com o que é inabordável enquanto tal — o real. Todo futuro relacionamento do sujeito com seu semelhante e com o mundo externo será sempre mediatizado por essa tela da fantasia, por um lado protetora do real traumático, e, por outro, produtora de uma fixação objetal perversa. Lacan fala da père-version para designar essa entrada do sujeito no simbólico a partir de alguma versão paterna constituinte de sua fantasia inconsciente. Se a fantasia protege do real, ela igualmente será a responsável pela produção de sintomas que passarão a ter o valor de real para o sujeito.

a clínica psicanalítica “é o real na medida em que ele é o impossível de suportar”

De SIR a RSI: as duas vertentes indissociáveis do simbólico

DE SIR A RSI:
AS DUAS VERTENTES INDISSOCIÁVEIS DO SIMBÓLICO

$
R ← S → I
• A vertente significante do simbólico é aquela que associa o simbólico ao real, ela representa a face de Janus voltada para o real.
• A vertente sígnica do simbólico é aquela que associa o simbólico ao imaginário, ela representa a face de Janus voltada para o imaginário.

o sujeito é esse entre.

Hamlet odeia Janus, este constitui seu grande horror. Querendo decidir entre ser ou não-ser, ele pretende decidir entre a vida ou a morte, e tem seu desejo paralisado. Hamlet recusa precisamente a estrutura, pois a vida implica necessariamente a morte — ser e não-ser.

O simbólico é o registro que permite ao sujeito ocupar pontualmente seu lugar de intervalo, pois o simbólico apresenta uma estrutura que abre esse intervalo ou, melhor dizendo, é aberta por ele. Do lugar intervalar do simbólico, o sujeito pode olhar para dois lados opostos. Esses dois lados se excluem mutuamente e são, por definição, antagônicos: eles são representados, na estrutura da diferença sexual, tal como elaborada por Lacan nas fórmulas quânticas da sexuação,107 pelo falo e pelo furo. Note-se que, para Lacan, essas fórmulas “são as únicas definições possíveis da parte dita homem ou bem mulher para o que quer que se encontre na posição de habitar a linguagem.”108 Masculino e feminino são concebidos aqui, por Lacan, como planos absolutamente distintos da anatomia corporal, ainda que esta tenha sua incidência sobre eles.

Assim, do campo do simbólico, o sujeito pode olhar para o falo ou olhar para o furo. As posições masculina e feminina do sujeito dependem precisamente da tendência, mais ou menos acentuada, com que ele olhe para um ou outro lado. Nesse sentido, o masculino está mais relacionado com a neurose e o feminino com a psicose, embora delas se distingam. Melhor seria dizer que há uma tendência estrutural acentuada à neurose no masculino e uma tendência estrutural acentuada à psicose no feminino. Mas os termos não se equivalem e as posturas sexuais são tendências que se acentuam e se exacerbam nas diferentes estruturas. Somente a exclusão do falo, ou seja, o contínuo olhar para o furo, pode ser considerada como da mesma ordem que a psicose; e a exclusão do furo, ou seja, o contínuo olhar para o falo, homóloga à estrutura da neurose.

A análise faliciza onde o furo se exacerba e perfura onde o falo se exorbita. Nesse sentido, a direção do tratamento deve levar em conta a tendência masculina ou feminina predominante do sujeito. Há, de fato, uma freqüência mais acentuada da posição masculina pelos sujeitos e isso se explica pelo horror ao feminino, destacado por Freud ao fim das análises, que de algum modo se instaura como efeito da própria estrutura. O feminino é o resto ineliminável da estrutura instaurada pelo falo e, sendo assim, faz contraponto a ela. De algum modo, a análise tende a produzir a representificação do furo da estrutura, isto é, do real, pois a perda da referência ao furo é altamente comprometedora subjetiva mente.

Por isso, diz Manoel de Barros: “O que não sei fazer desmancho em frases./ Eu fiz o nada aparecer./ (Represente que o homem é um poço escuro./ Aqui de cima não se vê nada./ Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.)/ Perder o nada é um empobrecimento.”

Caminhando do imaginário para o real, a análise leva o sujeito do lugar de não ver nada àquele de ver nada. O gesto de Édipo, ao furar os próprios olhos — e é importante observar que é contra o sentido da visão que sua ira se volta de modo privilegiado e instantâneo, e contra nenhum outro —, após vir a saber (ou, melhor dizendo, vir a não mais poder querer não saber) de seu ato parricida e de sua relação incestuosa, é o daquele que passa do não ver nada a ver nada.

escuta é essencialmente ambígua, ela pertence aos dois campos opostos e não se reduz nem a um nem a outro, pertencendo a um e a outro. A escuta psicanalítica é a invenção freudiana que requisita seu lugar no próprio cerne dessa ambigüidade irredutível do simbólico — ambigüidade fundadora do sujeito humano.

III. FREUD E OS PARES ANTITÉTICOS

III. FREUD E OS PARES ANTITÉTICOS

O significante e seus pares antitéticos

O SIGNIFICANTE E SEUS PARES ANTITÉTICOS

unidade clivada pela dualidade

o belo e o feio, o novo e o velho, e, mais essencialmente, o masculino e o feminino.

pares antitéticos

• a lógica do significante
• a topologia da banda de Moebius

o esquema do halo significante associa tal definição lacaniana do significante às observações feitas por Freud sobretudo em “A significação antitética das palavras primitivas”, mas também em “O estranho”, para conceber o significante como um halo composto de dois alelos. O significante é, ao mesmo tempo, um-dois, um-bífido: postulando na superfície unária da banda de Moebius um ponto bífido — ponto de revirão — pode-se isolar no halo significante dois segmentos distintos, seus dois alelos. Insituável na superfície da banda, por definição inapreensível, o ponto bífido é necessariamente suponível, podendo ser a rigor referenciado a qualquer de seus pontos, pois é ele que define logicamente a própria estrutura da banda, esta sendo apenas a sua conseqüência.

“A significação antitética das palavras primitivas”: um verdadeiro triunfo de Freud

“A SIGNIFICAÇÃO ANTITÉTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS”: UM VERDADEIRO TRIUNFO DE FREUD

A ironia e a representação pelo oposto

A IRONIA E A REPRESENTAÇÃO PELO OPOSTO

A ironia é uma figura de retórica que, ao empregar uma palavra com o sentido de seu antônimo, ilustra de modo excelente o caráter antitético do significante. A ela pode-se aplicar, como nunca, a indagação de Lacan: “Na linguagem plena e viva, é o que há de mais surpreendente, mas também de mais problemático — como pode ser que a linguagem tenha seu ponto máximo de eficácia quando ela consegue dizer alguma coisa dizendo outra?”

a ironia manifesta a possibilidade, inerente a todo significante, de produção da significação antitética, na medida em que esta revela a função sujeito em seu caráter radicalmente cindido. A ironia é exemplar para evidenciar o sujeito do inconsciente, na medida em que nela, não se produzindo nenhuma alteração no enunciado, mas apenas na enunciação, o sujeito fica como que reduzido ao seu verdadeiro lugar — entre os significantes. Expressões utilizadas comumente em nossa linguagem cotidiana ilustram a total relatividade da significação na dependência estrita da enunciação: quando se diz, por exemplo, “existem poetas e poetas…”, vê-se que a duplicação do mesmo significante vem servir à potência de produção da significação oposta inerente a todo significante. O mesmo significante, pronunciado quase do mesmo modo, mostra que o bom e o mau poeta podem ser designados exatamente pelo mesmo termo…

Os sons iniciais da linguagem teriam se destinado originalmente à comunicação e à atração do parceiro sexual. Sperber postulou a existência de um “período de raízes”, a partir do qual a linguagem foi gradativamente sendo flexionada. A evolução posterior dessas raízes lingüísticas de cunho sexual, inicialmente com o caráter de verbos, teria feito com que elas aderissem às atividades de trabalho, passando a designar tanto os atos sexuais como a atividade laborativa. Posteriormente, a significação ligada ao trabalho teria se fixado e aquela ligada ao sexual se perdera.

Aliás, haverá outra figura de linguagem mais onipresente nos escritos de Lacan do que a ironia? Certamente, é a ela que podemos atribuir, em grande parte, a dificuldade de sua leitura, pois na fala a ironia é detectável pela enunciação, ao passo que na escrita ela impõe uma decifração.

A controvérsia Freud-Benveniste

A CONTROVÉRSIA FREUD-BENVENISTE

A lingüística é aquilo por meio do que a psicanálise poderia se prender à ciência

Como os fenômenos de ambigüidade constituem uma parcela significativa da linguagem, há a ocorrência mais ou menos freqüente da enantiossemia, ou seja, de significantes que apresentam dois conteúdos opostos e mutuamente excludentes. Outros termos foram utilizados para designá-los, como cabeça de Janus e Janus bifrontino, ou ad’dâd, plural de d’did, usado pelos gramáticos árabes, palavra que ilustra o próprio fenômeno que ela designa, pois significa ao mesmo tempo semelhante e contrário.

Concretamente, os ad’dâd podem significar as duas direções opostas de uma ação transitiva (bâ’a: vender e comprar) ou intransitiva (tala’a: aparecer e desaparecer); ou a coincidência do sujeito e do objeto como conseqüência de uma ação na qual o agente constitui um com o agido (wâmeq: amante e amado). Por outro lado, os ad’dâd podem significar o próprio objeto (sarîm: manhã e noite), uma qualidade do objeto (aswad: branco e negro), relações espaciais (dûn: alto e baixo, diante e detrás) ou finalmente relações temporais (ba’d: depois e antes).

Talvez não seja sem motivo que tantos sujeitos se queixem de uma certa nostalgia ao entardecer: essa hora da Ave-Maria é a hora em que todos parecemos ser convocados como sujeitos de forma inarredável — a hora da divisão. Pois o sujeito está ali naquela transição invisível do dia para a noite, naquela passagem impalpável, em que as luzes já começam a se acender, mas o dia ainda não escureceu.

Os chistes e os pares antitéticos

OS CHISTES E OS PARES ANTITÉTICOS

Para Freud, o chiste deve ser distinguido do cômico e, nesse sentido, Charles Melman salienta que a diferença entre os dois é que o cômico diz respeito essencialmente à ordem do imaginário, pois, nele, o que faz rir é a queda da imagem ideal, da rigidez da imago, procedimento que é muito explorado no circo e nos primeiros comediantes do cinema.48 Essa queda nos faz rir na medida mesma em que nos alivia da imagem ideal que cada um de nós carrega dentro de si como ideal a ser observado. Assim o sujeito que cai deve estar bem vestido, elegante, pois jamais se ri de um pobre miserável que cai ou de um velhinho que se esborracha no chão…

Melman sublinha ainda que as quatro grandes tendências dos chistes destacadas por Freud — a obscenidade, a agressividade, o cinismo e o ceticismo —, são, de fato, precisamente aquelas que estão proibidas e recalcadas em nossas relações sociais, que tendem por isso a retornar na produção dos chistes. No momento do chiste, o sujeito do inconsciente como que triunfa momentaneamente em relação ao recalcamento, que é suspenso pontualmente e sua suspensão pode ser partilhada pelos sujeitos socialmente. Assim, diversamente do sonho, que é algo privado, e do lapso e do ato falho que são da ordem do sintoma, o chiste é a única maneira de expressão social do sujeito do inconsciente. O chiste seria, desse modo, “o único meio de se estabelecer com o semelhante uma relação de comunicação fundada sobre a ressonância do sujeito do inconsciente”

I. Formação de substitutos:
a. condensação com formação de palavra composta
b. condensação com modificação
II. Múltiplo uso do mesmo material:
c. como um todo e suas partes
d. em ordem diferente
e. com leve modificação
f. com sentido pleno e sentido esvaziado
III. Duplo sentido:
g. significado como um nome e como uma coisa
h. significados metafórico e literal
i. duplo sentido propriamente dito (jogo de palavras)
j. double entendre
k. duplo sentido com uma alusão

A interpretação dos sonhos

A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

O sonho não quer dizer nada a ninguém; não é um veículo de comunicação; ao contrário, se empenha em permanecer incompreendido

Nunca vamos tão longe como quando não sabemos aonde vamos’

Símbolo e significante nos sonhos

SÍMBOLO E SIGNIFICANTE NOS SONHOS

trouxe grande número de traduções simbólicas insuspeitadas; a princípio, não encontraram crédito, mas depois em sua maioria foram corroboradas e tiveram que ser admitidas. Não diminui o mérito de Stekel a observação de que a reserva cética dos outros não era gratuita. Com efeito, muitos dos exemplos nos quais apoiou suas interpretações não eram convincentes e ele se serviu de um método duvidoso do ponto de vista científico. Stekel descobriu suas interpretações simbólicas por via da intuição, em virtude de uma faculdade que lhe é própria, de compreensão imediata dos símbolos.

a lógica do significante

Os sonhos e os pares antitéticos

OS SONHOS E OS PARES ANTITÉTICOS

Freud destaca essa aptidão do sonho para avessar o sentido de um significante ao postular que “a alternativa ‘ou…ou’ não pode ser expressa em sonhos, seja de que maneira for. Ambas as alternativas costumam ser inseridas no texto do sonho como se fossem igualmente válidas”

Quando, no entanto, ao reproduzir um sonho, seu narrador se sente inclinado a utilizar “ou…ou” — por exemplo, “era ou um jardim ou uma sala de estar” —, o que estava presente nos pensamentos do sonho não era uma alternativa, e sim um “e”, uma simples adição…. Em tais casos, a norma de interpretação é: trate as duas aparentes alternativas como se fossem de igual validade e ligue-as por um “e”.

A maneira como os sonhos tratam a categoria dos contrários e dos contraditórios é altamente digna de nota. Ela é simplesmente desconsiderada. O “não” não parece existir no que diz respeito aos sonhos. Eles mostram uma preferência particular por combinar os contrários numa só unidade ou por representá-los como uma só coisa. Os sonhos se sentem livres, além disso, para representar qualquer elemento por seu oposto imaginário, de modo que não há maneira de decidir, à primeira vista, se qualquer elemento que admita um contrário está presente nos pensamentos do sonho como positivo ou negativo

Há nesse ponto, para Freud, a necessidade de salientar a congruência entre a estrutura da linguagem operada nos sonhos e a estrutura das línguas mais arcaicas, estabelecendo um paralelismo entre elas. Assim, na língua egípcia antiga era o contexto do discurso que indicava “qual dos dois contrários .da significação antitética das palavras. o interlocutor tencionava comunicar”. Nesta, ao nível da escrita o equívoco era evitado, apesar da ambigüidade dos sons e sinais, por intermédio de “um sinal pictográfico que não se destinava a ser falado”. Exemplos proliferam em Freud quanto a isso: o de algumas escritas semíticas nas quais acham-se indicadas apenas as consoantes, cabendo ao leitor “inserir as vogais emitidas, segundo seus conhecimentos e o contexto”; também a escrita hieroglífica, na qual “o que mais perturba … é o fato de não haver separação entre as palavras”, mesmo fator que surge na escrita cuneiforme persa, evidenciado por meio de “uma cunha oblíqua .que. serve para separar as palavras”. Quanto ao idioma e à escrita chinesa, extremamente antigos, nos quais afirma que já esperava encontrar analogias com a imprecisão dos sonhos, Freud salienta que tem-se, para cada som, em média, dez significados diferentes, tendo-se como métodos para evitar a ambigüidade tanto a combinação de “dois sons em uma palavra composta”, como a utilização de “quatro diferentes ‘tons’ na pronúncia das sílabas”.

Cumpre notar que, aqui, como no caso de muitos chistes, não se trata da significação antitética (enantiossemia) propriamente dita, mas sim da partição de um significante em dois sentidos. O paradigma das palavras antitéticas primitivas é tão-somente o exemplo mais evidente dessa bipartição produzida pela diferença intrínseca ao significante, no que ele abre o sentido de um mesmo significante para abarcar dois pólos absolutamente opostos.

que “a principal característica desses processos é que toda a ênfase recai em tornar móvel e passível de descarga a energia de investimento; o conteúdo e o significado intrínseco dos elementos psíquicos a que se ligam os investimentos são tratados como coisas de importância secundária”

IV. O OBJETO PERDIDO DO DESEJO

IV. O OBJETO PERDIDO DO DESEJO

Das Ding e objeto a

DAS DING E OBJETO a

Para Lacan, o objeto a é “apenas a presença de um cavo, de um vazio, ocupável, nos diz Freud, por não importa que objeto, e cuja instância só conhecemos na forma de objeto perdido, a minúsculo”

O agalma “termo grego que significa ornamento, tesouro, objeto de oferenda aos deuses ou, de modo mais abstrato, valor”4 e designa todo tipo de objeto precioso, representa o núcleo da conceituação lacaniana do objeto a. Como observa Christiane Lacôte, agalma vem de agallein, que significa ao mesmo tempo ornar e honrar e, no período clássico, designava aqueles objetos de trocas e transmissões míticas, como o tripé dos Sete Sábios, ou objetos mágicos, como o velocino de ouro. No seminário sobre A transferência, Lacan irá comentar, a respeito do Banquete de Platão, que o que Alcibíades deseja em Sócrates é esse agalma, que Sócrates sabe que não tem e, por isso, designa-lhe Agatão como objeto de seu desejo. O agalma representa, assim, o caráter sumamente enigmático do objeto do desejo e sua relação com o real da falta.

E o nome dessa dimensão real do objeto a, Lacan empenhou-se em mostrar que foi chamado por Freud de das Ding, a Coisa.

Assim, embora o objeto a participe simultaneamente dos três registros, seu pertencimento ao registro do real, das Ding, é o que se revela como absolutamente prevalente na estrutura, pois das Ding implica a representificação, na estrutura, do real sem nome originário e sem imagem. Lacan fala, nesse sentido, que das Ding é “essa Coisa, o que do real primordial padece do significante”.

Lacan dedicou várias aulas de seu seminário sobre A ética da psicanálise a abordar das Ding no texto freudiano. Distinguindo incialmente os termos alemães das Ding e die Sache, ele mostrou que os termos Sache (coisa) e Wort (palavra) formam um par — daí Freud falar de Sachvorstellung (representação-coisa) e Wortvorstellung (representação-palavra) —, ressaltando que há uma relação entre coisa e palavra. Nesse sentido, a Sache é “a coisa, produto da indústria ou da ação humana enquanto governada pela linguagem”.7 Já das Ding, trata-se de algo diverso, pois “o que há em das Ding é o verdadeiro segredo”.

Lacan, em seu seminário RSI, insistiu sobre o fato de que aquilo que Freud introduziu como sendo o recalque originário tem a estrutura mesma do furo, daí ele ter falado do trauma como troumatisme, neologismo criado por ele, que associa o trauma ao próprio furo, trou. Pois, como diz Lacan, ninguém sabe o que é um furo, ainda que a respeito dele falemos dos orifícios corporais pré-edipianos, ou ainda, de algo inteiramente não representável — a morte.

O impossível não é o proibido: das Ding não é o objeto materno

O IMPOSSÍVEL NÃO É O PROIBIDO:
DAS DING NÃO É O OBJETO MATERNO

Somente as relações entre mãe e filho são capazes de dar à mãe uma plenitude de satisfação, pois, de todas as relações humanas, são as mais perfeitas e as mais desprovidas de ambivalência.

Lacan, nesse sentido, chegou a comentar que o Édipo era um sintoma de Freud, isto é, uma forma de repertoriar o campo do impossível a partir da estrutura já instalada no campo edípico. A definição que Lacan fornece do mito, em Televisão, ajuda a entender que o mito edipiano seja a melhor forma de se ter acesso a essa dimensão do impossível: “o mito é a tentativa de dar forma épica ao que se opera da estrutura”;17 isto é, o mito só faz dar um contorno poderoso ao fato estrutural, de forma a torná-lo mais visível.

Do mesmo modo, o que significa a própria definição freudiana da força da pulsão como força constante, senão que essa Drang em jogo na pulsão se revela surpreendentemente como algo inesgotável? Que sua força provém de algo que está para sempre negativizado e que insiste em tentar se positivizar a partir dessa negatividade? E que, portanto, a própria manutenção da constância dessa força está relacionada com a impossibilidade de atingimento do alvo, a satisfação?

Como observa John Rajchman em sua excepcional abordagem da ética psicanalítica, “o recalque não é uma proibição que por acaso incida sobre as inclinações naturais que possamos conceber como imperativos hipotéticos”.22 Este é o grande engodo em que recaem algumas leituras psicanalíticas, que pretendem suspender a repressão como forma de liberação, supondo que o gozo não é limitado pelo impossível. Claro que Freud sustentou em sua época que a repressão sexual podia e devia ser amenizada, mas isso de modo algum impede que o recalque compareça necessariamente enquanto algo estrutural: como vimos, o recalque é o efeito, na história individual, do recalque orgânico produzido na espécie.

Se há uma outra saída que não seja a do recalque, esta não consiste na desrepressão, mas unicamente na sublimação. A sublimação se revela, assim, como um conceito imprescindível para a teoria freudiana, pois é ela que dá à pulsão seu verdadeiro estatuto — o de a pulsão estar referida essencialmente ao impossível e não ao proibido. Nesse sentido, Lacan esclarece, no seminário sobre A ética da psicanálise, que “a sublimação, que confere ao Trieb uma satisfação diferente de seu alvo — sempre definido como seu alvo natural —, é precisamente o que revela a natureza própria ao Trieb uma vez que ele não é puramente o instinto, mas que tem relação com das Ding como tal, com a Coisa dado que ela é distinta do objeto.”

Amor, desejo e gozo

AMOR, DESEJO E GOZO

Esse é o nível do impossível, que define a essencialidade da estrutura do desejo: o objeto do desejo não existe, ou, dito de outro modo, o objeto enquanto real não cessa de não se escrever.

O encontro do parceiro se dará, para cada sujeito, pelas vias daquilo que constitui o regime simbólico da estrutura, através do discurso do Outro, e pela contingência (histórica, social, cultural etc.), fundamentalmente simbólica, na qual cada sujeito se inscreve. Esse regime altera o regime anterior e produz uma afirmação, que recusa a negação insistente do real originário: o objeto enquanto simbólico é aquele que cessa de não se escrever, ele passa a existir. Apenas que tal existência é precária e fugaz, ela se afirma, mas de um modo que ainda não é definitivo e pode ser alterado. O objeto no campo do simbólico introduz um mínimo de estabilidade na relação que o sujeito mantém com o objeto, mas não basta para estancar o acentuado deslocamento metonímico do objeto do desejo.

inscrição (borromeana) do objeto do desejo

O amor se atém à passagem do que cessa de não se escrever para o que não cessa de se escrever. É nessa região de intercessão entre os regimes simbólico e imaginário que o amor se inscreve e, sendo assim, o amor é essencialmente produção de sentido. Por isso, o amor é não só produtor de um discurso fragmentado,26 porque infinitizado, como também constitui um legítimo estilo literário, a correspondência amorosa: o amor exige reciprocidade, exige “correspondência”, o que leva Lacan a afirmar que “amar é querer ser amado”.

Mais essencialmente, o amor visa produzir sentido para fazer face à falta de sentido radical inerente ao regime do real originário, por isso Lacan afirma que “o amor nada tem a ver com a relação sexual”.27 Esse regime do real originário é, de fato, o regime do desejo enquanto tal, no que este se relaciona de modo primordial com das Ding, o objeto faltoso da estrutura. Nesse sentido, amor e desejo se opõem de modo bastante radical: o amor é uma tentativa de resposta exitosa do sujeito à falha inerente ao desejo, pois o amor não admite essa falha, ele quer preenchê-la a todo custo e “dar à relação sexual, a esse termo que manifestamente escapa, o seu significado”.28 O aforismo lacaniano de que o amor “vem em suplência à relação sexual”29 vem designar que não é outra a configuração do amor senão a de constituir um a partir de dois, produzir o parceiro absoluto, necessário e imprescindível. O cara-metade, na linguagem popular, designa precisamente o objeto que completa, que complementa e estanca o movimento desejante: “Nós dois somos um só. Todo mundo sabe, com certeza, que jamais aconteceu, entre dois, que eles sejam só um, mas, enfim, nós dois somos um só. É daí que parte a idéia do amor.”

O gozo absoluto está totalmente fora da estrutura psíquica, ele não se inscreve de maneira alguma. O que se inscreve, na estrutura, no lugar do gozo absoluto, é a angústia, na qual a proximidade de das Ding é sentida pelo sujeito. Na angústia, o sujeito está vivenciando o registro do real; por isso, no seminário sobre A angústia, Lacan afirma não só que a angústia é o afeto por excelência como também que o melhor remédio para a angústia é o desejo. Pois o desejo reintroduz, para o sujeito, a referência à falta originária da estrutura.

É nesse ponto que entra em cena o amor como aquilo que visa transformar aquela referência objetal, instável e contingencial em algo da ordem do necessário. Se o encontro entre os parceiros se dá sempre pelas vias da contingência, por outro lado, o amor pretende proporcionar uma estabilidade na referência a um determinado objeto exclusivo.

o amor se situa na junção do simbólico e do imaginário; o ódio, na junção do imaginário e do real; e a ignorância, na junção do real e do simbólico.

Decorre daí que, no amor, o real é elidido, pois o amor é uma produção de sentido que elide o não-senso inerente ao real (o amor desconhece o tempo e a morte); ao passo que no ódio, trata-se da elisão do simbólico, pois nele as palavras perdem sua função de mediação salutar entre os sujeitos (como na agressão e na guerra, em que os pactos e tratados fracassam); e, na ignorância, tem-se a elisão do imaginário, isto é, a falta de sentido é radical (a ignorância se atém à interrogação e não à resposta):
amor: S-I//R — sentido de completude: um e outro
ódio: I-R//S — sentido de exclusão: um ou outro
ignorância: R-S//I — falta de sentido: nem um nem outro

A paixão amorosa, por sua vez, exacerba esse sentimento inerente ao amor, de que se trata de uma complementaridade entre dois sujeitos. Por isso, a paixão não correspondida tem muitas vezes, no seu horizonte, o crime passional — o assassinato — que, para Lacan, é a única maneira de atingir, ilusoriamente, A relação sexual, com a eliminação radical da diferença do desejo do Outro, o qual sempre introduz, naturalmente, em toda relação, alguma forma de castração. Desse modo, o pólo inicial do gozo absoluto revela seu aspecto mortífero e sua relação indissociável com a pulsão de morte, pois a ilusão de seu atingimento e de sua perda se ilustra pelo assassinato passional.

pulsão sexual (→ pulsão de morte) → objeto i(a) (→ das Ding)

A pulsão de morte só aparece, de modo manifesto, na ocorrência do que foi denominado por Freud de desfusão pulsional, nos processos acentuadamente patológicos, como, por exemplo, nas toxicomanias graves, nos quais o sujeito se empenha na obtenção do gozo absoluto a qualquer preço sem a mediação dos processos sexuais.

Ainda sobre a oposição entre amor e desejo, pode-se observar que, na análise, a regra de abstinência, que impede as trocas sexuais entre analista e analisando, tem como corolário precisamente o fato de produzir o advento do amor de transferência, forma de se evidenciar clinicamente que o amor é aquilo que vem em suplência à inexistência da relação sexual.

A sublimação: conceito imprescindível

A SUBLIMAÇÃO: CONCEITO IMPRESCINDÍVEL

Uma pulsão acha-se sublimada precisamente quando visa um novo alvo não-sexual ou objetos socialmente valorizados. Assim, para Freud, as atividades sublimatórias são constituídas eminentemente pela atividade artística, pela investigação intelectual e pelos esportes.

• A sublimação é um desvio do sexual para o não-sexual — elemento que, por si só, remete à própria concepção freudiana da sexualidade. Ela é também um desvio da perversão para o social.
• O termo desvio surge freqüentemente em Freud para falar da sublimação, e isto em idêntica proporção com que o termo afastar aparece para falar do recalque: “A essência do recalque consiste simplesmente em afastar determinada coisa da consciência, mantendo-a à distância”.36 O afastar está para o recalque assim como o desvio está para a sublimação: afastar-se de algo implica mantê-lo no próprio horizonte como referência, ao passo que desviar-se implica ir mais além…
• A sublimação tem seu protótipo na formação reativa do período de latência.

A vida sexual de cada um de nós se estende ligeiramente — ora numa direção, ora noutra — além das estreitas linhas impostas como padrão de normalidade. As perversões não são bestiais nem degeneradas no sentido emocional da palavra. São desenvolvimentos de germes os quais se contêm, todos, na disposição sexual indiferenciada da criança e que, suprimidos ou desviados para objetivos assexuais mais elevados — “sublimados” — destinam-se a fornecer a energia para um grande número de nossas realizações culturais.

A visão é uma atividade que, em última instância, deriva do tato. As impressões visuais continuam a ser o caminho mais freqüente ao longo do qual a excitação libidinal é despertada; com efeito, a seleção natural conta com a acessibilidade deste caminho (se é permissível tal forma teleológica de afirmação) quando ela encoraja o desenvolvimento da beleza no objeto sexual. O esconder progressivo do corpo que acompanha a civilização mantém desperta a curiosidade sexual. Esta curiosidade busca completar o objeto sexual revelando suas partes ocultas. Pode, contudo, ser desviado (“sublimado”) na direção da arte, se seu interesse puder ser deslocado dos órgãos genitais para a forma do corpo como um todo.

Os primórdios do processo de sublimação interessam a Freud pois permitem estabelecer diferentes associações, de outro modo impossíveis de serem observadas. Haveria, assim, uma íntima associação entre a sublimação e a chamada pulsão de saber ou de pesquisa, cuja atividade emerge entre 3 e 5 anos. Esta pulsão estaria associada por um lado à pulsão de domínio, da qual seria uma forma sublimada, e por outro, à escopofilia. Nesse sentido, lembre-se que o termo teoria se origina do grego theoria, que designa o ato de ver, de observar e de examinar.

• a perversão
• o recalque → sintomas → neurose
• a sublimação → formação reativa → traços de caráter → disposição artística

• A pulsão exige sempre sua satisfação, a todo e qualquer preço. Nesse sentido, Freud chega a afirmar que nenhum sujeito jamais renuncia a nada, mas apenas substitui uma coisa por outra: “Na verdade, não podemos renunciar a nada; apenas trocamos uma coisa por outra; o que parece ser uma renúncia é, na realidade, uma formação de substituto ou sub-rogado.”43
• É absolutamente necessário, para a economia libidinal do sujeito, haver uma saída para a pulsão diferente daquela proporcionada pelo recalque. Através do recalque, há o escamoteamento do enlace entre desejo e castração (Lacan fala do “nó do desejo com a lei”44), pois no recalque o sujeito lida com o impossível rebaixando-o ao nível do proibido.
• Através da sublimação, acha-se evidenciado o impossível em jogo na satisfação pulsional. Isto é o mesmo que dizer que a sublimação é a vicissitude da pulsão que dá a esta seu mais legítimo estatuto.

Para Melanie Klein, o vazio interior, que está na origem da vocação artística, resulta da angústia arcaica de ter roubado e destruído o conteúdo do corpo materno, isto é, o pênis do pai, as crianças, as fezes que este corpo supostamente continha: “A obra de arte corresponderia, assim, ao desejo de reparar o corpo materno danificado, de restituir-lhe seus objetos internos, de restaurá-lo em sua integridade.”47 Millot se refere a um artigo de M. Klein de 1929, “As situações de angústia da criança e seu reflexo na obra de arte e no élan criador”, que Lacan comenta em seu seminário sobre A ética da psicanálise.

APÊNDICE

APÊNDICE

Sobre a evolução da espécie humana

SOBRE A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE HUMANA

Breve história da hominização

BREVE HISTÓRIA DA HOMINIZAÇÃO

Bipedia e hominização

BIPEDIA E HOMINIZAÇÃO

Bipedia e sexualidade

BIPEDIA E SEXUALIDADE

Bourguignon chama atenção para o fato de que, devido à bipedia, os órgãos sexuais masculinos e femininos adquirem uma posição diferente: a vulva, ficando entre as coxas, escapa tanto à percepção visual quanto à olfativa, ao passo que o pênis e a bolsa escrotal permanecem não só expostos como também vulneráveis. Ele vê nisso um elemento filogenético essencial para a compreensão da angústia de castração, cujo comparecimento no psiquismo Freud observou de forma universal:28 trata-se, de fato, da angústia, nos meninos, decorrente da ameaça de ter o seu órgão mais valorizado, o pênis, cortado, sobretudo após a percepção de sua ausência nas meninas.

A permanência dos estímulos sexuais visuais, como pólo preponderante nas trocas sexuais dos indivíduos da espécie, fez com que a atividade sexual humana, tornando-se aperiódica e contínua, acabasse por ser a mais rica dentre os animais, pois o comportamento de reprodução “perdeu sua significação fisiológica exclusiva, para se tornar fonte de ternura, de prazer e de apego recíprocos”.

Segundo Morris, os lábios, por serem mais vermelhos que a pele vizinha mesmo fora dos períodos de excitação sexual, constituem “verdadeiros cartazes publicitários que chamam atenção para a presença de uma estrutura tátil sexual”