Translate
Complete Works

Complete Works

Analyzing content...
Published:

Obras Completas (Edição Standard)
Sigmund Freud

I - SOBRE O MECANISMO PSÍQUICO DOS FENÔMENOS HISTÉRICOS:
COMUNICAÇÃO PRELIMINAR (1893)
(BREUER E FREUD)


Podemos tomar como exemplo muito comum uma emoção penosa surgida durante uma refeição, mas suprimida na época, e que produz então náuseas e vômitos que persistem por meses sob a forma de vômitos histéricos. Uma jovem que velava o leito de um enfermo, atormentada por uma grande angústia, caiu num estado crepuscular e teve uma alucinação aterrorizante, enquanto seu braço direito, que pendia sobre o dorso da cadeira, ficou dormente; disso proveio uma paresia do mesmo braço, acompanhada de contratura e anestesia. Ela tentou rezar, mas não conseguiu encontrar as palavras; por fim, conseguiu repetir uma oração para crianças em inglês. Posteriormente, ao surgir uma histeria grave e altamente complicada, ela só conseguia falar, escrever e compreender o inglês, enquanto sua língua materna permaneceu ininteligível para ela por dezoito meses.


A mãe de uma criança muito doente, que finalmente adormecera, concentrou toda a sua força de vontade em manter-se imóvel a fim de não despertá-la. Precisamente por causa da sua intenção, produziu um ruído de “estalo” com a língua. (Um exemplo de “contravontade histérica”.) Esse ruído se repetiu numa ocasião subseqüente em que ela desejava manter-se perfeitamente imóvel, tendo dele surgido um tique que, sob a forma de um estalido com a língua, ocorreu durante um período de muitos anos sempre que ela se sentia excitada.


Um homem muito inteligente estava presente quando uma articulação da coxa anquilosada de seu irmão foi submetida a uma manobra de extensão sob a ação de um anestésico. No momento em que a articulação cedeu com um estalido, ele sentiu uma dor violenta em sua própria articulação, que persistiu por quase um ano.


A lembrança sem afeto quase invariavelmente não produz nenhum resultado. O processo psíquico originalmente ocorrido deve ser repetido o mais nitidamente possível; deve ser levado de volta a seustatus nascendie então receber expressão verbal. Quando aquilo com que estamos lidando são fenômenos que envolvem estímulos (espasmos, nevralgias e alucinações), estes reaparecem mais uma vez com intensidade máxima e a seguir desaparecem para sempre. As deficiências funcionais, tais como paralisias e anestesias, desaparecem da mesma maneira, embora, é claro, sem que a intensificação temporária seja discernível.


Uma ofensa revidada, mesmo que apenas com palavras, é recordada de modo bem diferente de outra que teve que ser aceita


AS NEUROPSICOSES DE DEFESA (1894)


levou a várias reações patológicas que produziram ou a histeria, ou uma obsessão, ou uma psicose alucinatória.


coisas inequivocamente associadas, de um modo ou de outro, com o que é sexual - tais como a micção, a defecação ou, de um modo geral, a sujeira e o contágio.


Uma moça devotara a um homem sua primeira afeição impulsiva e acreditava firmemente que ele lhe retribuía o amor. Na verdade, estava enganada; o rapaz tinha motivos diferentes para visitar sua casa. Não faltaram decepções. A princípio, a jovem se defendeu delas, fazendo uma conversão histérica das experiências em questão, e assim preservou sua crença de que um dia ele pediria sua mão. Ao mesmo tempo, porém, sentia-se doente e infeliz, porque a conversão fora incompleta e ela deparava-se continuamente com novas impressões dolorosas. Por fim, num estado de grande tensão, aguardou a chegada dele em determinado dia, que era de celebração familiar. Mas o dia passou e ele não apareceu. Quando todos os trens em que ele poderia vir já tinham chegado e partido, ela entrou num estado de confusão alucinatória: ele chegara, ela ouviu sua voz no jardim, desceu às pressas, de camisola, para recebê-lo. Daquele dia em diante, durante dois meses, ela viveu um sonho encantador cujo conteúdo era que ele estava presente, ao seu lado, e tudo voltara a ser como antes (antes da época das decepções que ela rechaçara com tanto empenho). Sua histeria e seu desânimo foram superados. Durante a enfermidade, ela silenciou sobre todo o período final de dúvida e sofrimento; ficava feliz desde que não fosse perturbada, e só explodia de ódio quando alguma norma de conduta reiterada pelos que a rodeavam vinha atrapalhá-la em algo que lhe parecia ser uma decorrência lógica de seu abençoado sonho. Essa psicose, que fora ininteligível na época, foi explicada dez anos depois com a ajuda de uma análise hipnótica.|cf.em .1.|.


O fato para o qual desejo agora chamar atenção é que o conteúdo de uma psicose alucinatória desse tipoconsiste precisamente na acentuação da representaçãoque era ameaçada pela causa precipitante do desencadeamento da doença. Portanto, é justificável dizer que o eu rechaçou a representação incompatível através de uma fuga para a psicose. O processo pelo qual isso é conseguido escapa, mais uma vez, à autopercepção do sujeito, assim como escapa à análise psicológico-clínica. Deve ser encarado como a expressão de uma predisposição patológica de grau bastante alto e pode ser descrito mais ou menos como se segue. O eu rompe com a representação incompatível; esta, porém, fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade, de modo que, à medida que o eu obtém esse resultado, também ele se desliga, total e parcialmente, da realidade. Em minha opinião, este último evento é a condição sob a qual as representações do sujeito recebem a vividez das alucinações; assim, quando a defesa consegue ser levada a termo, ele se encontra num estado de confusão alucinatória.


a mãe que adoeceu pela perda de seu bebê e que agora embala incessantemente um pedaço de madeira nos braços, ou a noiva rejeitada que, adornada com seus trajes nupciais, espera durante anos pelo noivo


nas funções mentais, deve-se distinguir algo - uma carga de afeto ou soma de excitação - que possui todas as características de uma quantidade… passível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga…” A noção de “quantidade deslocável”


Até muito pouco tempo antes, o interesse de Freud estivera centrado na neurologia, e agora que seus pensamentos estavam sendo cada vez mais desviados para a psicologia, era natural que seu primeiro esforço fosse o de conciliar esses dois interesses. Acreditava ele que devia ser possível postular os fatos da psicologia em termos neurológicos, e seus esforços nesse sentido culminaram precisamente no “Projeto”. A tentativa falhou; o “Projeto” foi abandonado; e nos anos que se seguiram, pouco mais se ouviu sobre a base neurológica dos eventos psicológicos, exceto (como veremos adiante, ver em .1. e seg.) em conexão com o problema das “neuroses atuais”. Contudo, esse repúdio não envolveu nenhuma revolução maciça. O fato, sem dúvida, é que as formulações e hipóteses apresentadas por Freud em termos neurológicos tinham sido efetivamente elaboradas com vistas mais do que parciais aos eventos psicológicos; e quando chegou o momento de abandonar a neurologia, verificou-se que a maior parte do material teórico podia ser entendida como aplicável - a rigor, mais convincentemente aplicável - a fenômenos puramente mentais.
Essas considerações aplicam-se ao conceito de “catexia”, que apresentou um sentido inteiramente não-físico em todos os escritos posteriores de Freud, inclusive o sétimo capítulo teórico deA Interpretação dos Sonhos(1900a)


OBSESSÕES E FOBIAS: SEU MECANISMO PSÍQUICO E SUA ETIOLOGIA


Caso1. Uma jovem censurava-se por coisas que sabia serem absurdas: por ter roubado, fabricado dinheiro falso, por envolver-se numa conspiração etc., conforme o que tivesse lido durante o dia.
Reinstauração da representação substituída: Ela se recriminava pela masturbação que vinha praticando em segredo, sem conseguir abandoná-la. Foi curada por uma cuidadosa vigilância, que a impediu de se masturbar.
Caso2. Um rapaz, estudante de medicina, sofria de obsessão análoga. Recriminava-se por toda sorte de atos imorais: por ter matado o primo, violado a irmã, ateado fogo a uma casa etc. Chegou ao ponto de ter que se voltar na rua para ver se ano tinha assassinado a última pessoa a passar por ele.
Reinstauração: Ficara muito afetado pela leitura, num livro paramédico, de que a masturbação, na qual era viciado, destruía a moral das pessoas.
Caso3. Várias mulheres queixaram-se de um impulso obsessivo de se atirarem pela janela, ferirem seus filhos com facas, tesouras etc.
Reinstauração: Obsessões baseadas em tentações típicas. Tratava-se de mulheres que, inteiramente insatisfeitas com seus casamentos, tinham de lutar contra os desejos e idéias voluptuosas que constantemente as perturbavam à visão de outros homens.
Caso4. Uma moça perfeitamente sadia e muito inteligente exibia um ódio incontrolável pelos empregados de sua casa. Este fora deflagrado em conexão com uma criada impertinente e se transferia de criada para criada, a ponto de tornar o serviço doméstico impossível. O sentimento era uma mistura de ódio e repugnância. Ela se justificava dizendo que a grosseria dessas moças arruinava sua representação do amor.
Reinstauração: Essa moça fora testemunha involuntária de uma cena de amor em que sua mãe tomara parte. Escondera o rosto, tapara os ouvidos e fizera o máximo para esquecer a cena, pois ela a repugnava e teria tornado impossível sua permanência com a mãe, a quem ela amava ternamente. Teve êxito em seus esforços, mas a raiva pela maculação de sua representação do amor persistiu dentro dela, e esse estado emocional logo se ligou à representação de alguma pessoa que assumisse o lugar de sua mãe.
Caso5. Uma jovem se isolara quase completamente por causa de um medo obsessivo da incontinência urinária. Não podia mais sair de seu quarto ou receber visitas sem ter urinado inúmeras vezes. Quando estava em casa ou inteiramente só, o medo não a perturbava.
Reinstauração: Tratava-se de obsessão baseada na tentação ou na desconfiança. Ela não desconfiava de sua bexiga, mas de sua resistência aos impulsos eróticos. A origem da obsessão mostra-o claramente. Uma vez, no teatro, vendo um homem que a atraía, ela sentiu um desejo erótico, acompanhado (como as poluções espontâneas nas mulheres sempre o são) de um desejo de urinar. Foi obrigada a deixar o teatro e, a partir desse momento, viu-se presa do medo de experimentar a mesma sensação, mas o desejo de urinar substituíra o desejo erótico. Ficou completamente curada.


a representação original foi substituída, mas não por outra representação - foi substituída por atos ou impulsos que serviram originalmente como medidas dealívioou como procedimentosprotetores, e que são agora grotescamente associados a um estado emocional que não lhes é adequado, mas que permaneceu inalterado e continuou a ser tão justificável quanto em sua origem.


Caso6.Aritmomania obsessiva. - Uma mulher via-se na obrigação de contar as tábuas do assoalho, os degraus da escada etc., atos estes que praticava num ridículo estado de angústia.
Reinstauração: Ela começara a contar para desviar sua mente das representações obsessivas (de tentação). Conseguira fazê-lo, mas o impulso de contar substituíra a obsessão original.
Caso7.Preocupação e especulação obsessivas. - Uma mulher sofria de ataques dessa obsessão, que só cessavam quando ela adoecia, cedendo então lugar a temores hipocondríacos. O tema de sua preocupação era sempre uma parte ou função de seu corpo; por exemplo a respiração: “Por que preciso respirar? Suponhamos que eu não queira respirar” etc.
Reinstauração: Logo no princípio ela sofrera do medo de enlouquecer - fobia hipocondríaca bastante comum entre mulheres não satisfeitas por seus maridos, como era seu caso.Para se assegurar de que não estava louca, de que estava ainda de posse de suas faculdades mentais, começara a se fazer perguntas e a se interessar por problemas sérios. Isso inicialmente a acalmara, mas, com o tempo, o hábito da especulação substituiu a fobia. Por mais de quinze anos, alternaram-se nela períodos de medo (patofobia) e de especulação obsessiva.
Caso8.Folie du doute. - Vários casos mostraram os sintomas típicos dessa obsessão, mas foram explicados de forma muito simples. Essa pessoas tinha sofrido ou sofriam ainda de várias obsessões, e o conhecimento de que essas obsessões haviam perturbado todos os seus atos e interrompido muitas vezes o curso de seu pensamento provocava uma dúvida legítima quanto à confiabilidade de sua memória. Todos já tivemos nossa confiança abalada, já fomos forçados a reler uma carta ou refazer um cálculo, quando nossa atenção é dispersada várias vezes durante a realização desse ato. A dúvida é um resultado bastante lógico na presença de obsessões.
Caso9.Folie du doute. (Hesitação.)- A moça do Caso 4 se tornara extremamente vagarosa na execução de todos os seus atos cotidianos, em especial na de sua toalete. Levava horas para amarrar os sapatos ou limpar as unhas. A guisa de explicação, dizia que não conseguia fazer sua toalete enquanto as representações obsessivas ocupavam sua mente, nem imediatamente após. Assim, acostumara-se a esperar um intervalo definido depois de cada retorno da representação obsessiva.
Caso10.Folie du doute. (Medo de pedacinhos de papel.)- Uma jovem sofria de escrúpulos após ter escrito uma carta; ao mesmo tempo, juntava todos os pedaços de papel que enxergava. Explicou esse fato confessando um amor que antes se recusara a admitir. Em conseqüência da repetição constante do nome de seu amado, fora dominada pelo medo de que esse nome pudesse ter-lhe escapado da pena, de que pudesse tê-lo escrito em algum pedaço de papel num momento de introspecção.
Caso11.Misofobia|Medo de sujeira.| - Uma mulher lavava suas mãos constantemente e só tocava os trincos das portas com os cotovelos.
Reinstauração: É o caso de Lady Macbeth. A lavagem era simbólica, destinada a substituir pela pureza física a pureza moral que ela lastimava ter perdido. Atormentavam-na os remorsos pela infidelidade conjugal, cuja lembrança ela resolvera banir da mente. Além disso, costumava lavar seus órgãos genitais.


Além desses dois grupos de obsessões verdadeiras, há a classe de “fobias”, que deve ser agora considerada. Já mencionei a grande diferença entre obsessões e fobias: nestas últimas, a emoção é sempre de angústia, de medo. Poderia acrescentar que as obsessões são variadas e mais especializadas, enquanto as fobias aso mais monótonas e típicas. Mas essa distinção não é de importância capital.


No caso da agorafobia etc., encontramos freqüentementea recordação de um ataque de angústia; e o que o paciente de fato teme é a ocorrência de tal ataque nas condições especiais em que acredita não poder escapar dele.


A HEREDITARIEDADE E A ETIOLOGIA DAS NEUROSES (1896)


Uma experiência sexual passiva antes da puberdade: eis, portanto, a etiologia específica da histeria.


Na neurose obsessiva, trata-se, por outro lado, de um evento que proporcionouprazer, de um ato de agressão inspirado no desejo (no caso do menino) ou de um ato de participação nas relações sexuais acompanhado de gozo (no caso da menina). As representações obsessivas, quando seu significado íntimo é reconhecido pela análise, quando se reduzem, por assim dizer, a sua expressão mais simples, nada passam derecriminações dirigidas pelo sujeito a si mesmo por causa desse gozo sexual antecipado, mas recriminações distorcidas por um trabalho psíquico inconsciente de transformação e substituição.


Às vezes deparamos com um par de pacientes neuróticos que formaram um casal de pequenos amantes em sua mais remota infância - o homem sofrendo de obsessões e a mulher, de histeria


OBSERVAÇÕES ADICIONAIS SOBRE AS NEUROPSICOSES DE DEFESA (1896)


uma experiênciasexualde caráter traumático - no caso da histeria, uma experiênciapassiva; no das obsessões,ativa, muito embora, mesmo nesse caso, uma experiência passiva anterior remonte a um plano ainda mais remoto. Em outras palavras, a causa última seria sempre a sedução de uma criança por um adulto. (Cf. “A Etiologia da Histeria”, 1896c, ver em .1., adiante.) Além disso, o evento traumático efetivo sempre ocorreria antes da puberdade, embora a irrupção da neurose ocorresseapósa puberdade.


a importante conseqüência dessa percepção foi que Freud se conscientizou do papel desempenhado pela fantasia nos eventos mentais, o que abriu as portas para a descoberta da sexualidade infantil e do complexo de Édipo


Além disso, fica aberto um caminho para se compreender por que a histeria é tão mais freqüente nos membros do sexo feminino, pois, já na infância, estes são mais suscetíveis de provocar ataques sexuais.


Meus treze casos eram graves, sem exceção; em todos eles a doença vinda de muitos anos, e alguns chegaram a mim após longo e fracassado tratamento institucional. Todos os traumas de infância que a análise descobriu nesses casos agudos tiveram que ser classificados como graves ofensas sexuais; alguns eram positivamente revoltantes. Em primeiro lugar entre os culpados de abusos como esses, com suas significativas conseqüências, estão as babás, governantas e empregadas domésticas, a cujos cuidados as crianças são muito impensadamente confiadas; os professores, ademais, figuram com lamentável freqüência. Em sete dos treze casos, entretanto, revelou-se que os autores das investidas tinham sido inocentes crianças; em sua maioria, eram irmãos que, por anos a fio, tinham mantido relações sexuais com irmãs um pouco mais novas. Sem dúvida, o curso dos acontecimentos, na totalidade dos casos, era semelhante ao que foi possível reconstituir com certeza em alguns casos individuais: em outras palavras, o menino sofrera um abuso por parte de alguém do sexo feminino, de modo que sua libido fora prematuramente despertada, e então, passados alguns anos, cometera um ato de agressão sexual contra sua irmã, com quem repetiu precisamente os mesmos procedimentos a que ele próprio fora submetido.


Não é nada raro ambas as crianças adoecerem, mais tarde, vítimas de uma neurose de defesa - o irmão com obsessões e a irmã com histeria. Isso naturalmente produz a aparência de uma predisposição neurótica familiar. Ocasionalmente, contudo, essa pseudo-hereditariedade é resolvida de modo surpreendente. Em um de meus casos, um irmão, uma irmã e um primo um pouco mais velho estavam todos doentes. A partir da análise que realizei com o irmão, fiquei sabendo que ele sofria de auto-acusações por ser a causa da doença da irmã. Ele próprio fora seduzido pelo primo, e este último, como era sabido na família, fora vítima de sua babá.


variar em intensidade e natureza, desde a efetiva violação sexual até meras investidas sexuais, ou ao testemunho dos atos sexuais de outras pessoas, ou ao recebimento de informações sobre os processos sexuais.


As experiências sexuais da primeira infância têm na etiologia da neurose obsessiva a mesma importância que na histeria. Aqui, entretanto, não se trata mais depassividadesexual, mas de atos de agressão praticados com prazer e de participação prazerosa em atos sexuais - ou seja, trata-se deatividadesexual. Essa diferença nas circunstâncias etiológicas está relacionada com o fato de a neurose obsessiva mostrar visível preferência pelo sexo masculino.
Além disso, em todos os meus casos de neurose obsessiva, descobri umsubstrato de sintomas histéricosque puderam ser atribuídos a uma cena de passividade sexual que precedeu a ação prazerosa. Suspeito de que essa coincidência não seja fortuita, e de que a agressividade sexual precoce implique sempre uma experiência prévia de ser seduzido


A natureza da neurose obsessiva pode ser expressa numa fórmula simples. Asidéias obsessivas são, invariavelmente, auto-acusaçõestransformadas que reemergiram dorecalcamentoe que sempre se relacionam com algum atosexualpraticado com prazerna infância


O afeto da auto-acusação pode, por meio de algum acréscimo mental, transformar-se em qualquer outro afeto desagradável. Quando isso acontece, não há mais nada que impeça o afeto posto no lugar do primeiro de se tornar consciente. Assim, aauto-acusação(por ter praticado o ato sexual na infância) pode facilmente transformar-se emvergonha(de que alguém o descubra), emangústia hipocondríaca(medo dos danos físicos resultantes do ato que envolve a auto-acusação), emangústia social(medo de ser socialmente punido pelo delito), emangústia religiosa, emdelírios de ser observado(medo de delatar-se pelo ato diante de outras pessoas), ou emmedo da tentação(justificada desconfiança em relação a seus próprios poderes de resistência), e assim por diant


A defesa secundária contra as representações obsessivas pode ser efetuada por um violento desvio para outros pensamentos de conteúdo tão contrário quanto possível. Eis por que aruminação obsessiva, quando bem-sucedida, versa regularmente sobre coisas abstratas esupra-sensuais, pois as representações recalcadas sempre se referem àsensualidade. Ou então o paciente tenta controlar, ele próprio, cada uma de suas representações obsessivas, exclusivamente pelo trabalho lógico e pelo recurso a suas lembranças conscientes. Isso leva a umpensamento obsessivo, a umacompulsão a testar coisase àmania de duvidar. A vantagem que a percepção leva sobre a lembrança em tais testes inicialmente impele e depois compele o paciente a colecionar e armazenar todos os objetos com que entra em contato. A defesa secundária contra osafetosobsessivos leva a um conjunto ainda mais vasto de medidas protetoras passíveis de se transformarem em atos obsessivos. Estes podem ser agrupados de acordo com seu objetivo; medidaspenitenciais(cerimoniais opressivos, observação de números); medidasde precaução(toda sorte de fobias, superstição, minuciosidade, aumento do sintoma primário de conscienciosidade); medidas relacionadas com omedo de delatar-se(colecionar pedaços de papel, isolar-se), ou medidas para assegurar oentorpecimento|da mente| (dipsomania). Entre esses atos e impulsos obsessivos, as fobias, por restringirem a existência do paciente, desempenham o papel mais importante.


a histeria efetua o recalque pelo método daconversãoem inervação somática, e neurose obsessiva, pelo método dasubstituição(ou seja, pelo deslocamento através de certas categorias de associações)


A Sra. P. achava que as pessoas tinham alguma coisa contra ela, embora não tivesse idéia do que fosse; mas não havia dúvida de que todos - parentes e amigos - tinham deixado de respeitá-la e estavam fazendo tudo o que podiam para menosprezá-la


Quando estava na rua, elas diziam: “Aquela é a Sra. P. - Lá vai ela. Aonde estará indo?” Cada um de seus movimentos e atos era comentado; e ouvia às vezes ameaças e censuras. Todos esse sintomas pioravam quando ela estava acompanhada ou na rua. Por essa razão, recusava-se a sair; dizia que comer a nauseava; e seu estado de saúde deteriorou-se rapidamente.


terminou numa cena aos seis anos de idade, na qual ela se despia no quarto das crianças antes de ir para a cama, sem sentir qualquer vergonha diante do irmão que lá estava. Quando a interroguei, tornou-se clara que cenas como essa tinham ocorrido freqüentemente e que, durante anos, irmão e irmã tiveram o hábito de se exibirem nus um para o outro antes de irem para a cama.


Quando lhe perguntei sobre o que a fizera sentir-se justificada para aplicar tais palavras a si mesma, respondeu que fora o tom em que a cunhada tinha falado que a convencera disso (embora, é verdade, apenas posteriormente).


Voltei-me então para a análise das vozes. Antes de mais nada, era preciso explicar por que um conteúdo tão neutro como “Ali vem a Sra. P.”, ou “Ela agora está procurando uma casa” etc., podia afligi-la tanto; em seguida, por que é que precisamente essas frases inocentes tinham chegado a ser marcadas por um reforço alucinatório. Logo de saída, ficou claro que “as vozes” não poderiam serlembrançasproduzidas de modo alucinatório, como as imagens e as sensações, mas erampensamentos“ditos em voz alta”.


Na neurose obsessiva, a auto-acusação inicial é recalcada pela formação do sintoma primário da defesa: aautodesconfiança. Com isso, a auto-acusação é reconhecida como justificável; e, para contrabalançá-la, a conscienciosidade que o sujeito adquiriu durante seus intervalos sadios protege-o então de dar crédito às auto-acusações que retornam sob a forma de representações obsessivas. Na paranóia, a auto-acusação é recalcada por um processo que se pode descrever comoprojeção. É recalcada pela formação do sintoma defensivo dedesconfiança nas outras pessoas. Dessa maneira, o sujeito deixa de reconhecer a auto-acusação; e, como que para compensar isso, fica privado de proteção contra as auto-acusações que retornam em suas representações delirantes.


A ETIOLOGIA DA HISTERIA (1896)


uma crescente tendência a proferir as explicações psicológicas às neurológicas (v


Um dermatologista, por exemplo, pode reconhecer uma chaga como sendo luética pelo caráter de suas bordas, de sua crosta e de sua forma, sem se deixar enganar pelos protestos do paciente, que nega qualquer fonte dessa infecção; e um médico-legista pode chegar à causa de um ferimento mesmo tendo que prescindir de qualquer informação da pessoa ferida. Também na histeria existe uma possibilidade similar de penetrarmos, a partir dos sintomas, no conhecimento de suas causas


até onde a memória humana é capaz de alcançar


deverei primeiro tentar fazer face à multidão de objeções e dúvidas


montar as peças de um quebra-cabeça infantil


A SEXUALIDADE NA ETIOLOGIA DAS NEUROSES (1898)


reconhecimento gradual da sexualidade infantil como um fato normal e universal


O médico, segundo ouço dizer, não tem o direito de se intrometer nos segredos sexuais de seus pacientes, nem de ferir grosseiramente seu recato (especialmente tratando-se de pacientes do sexo feminino) com interrogatórios desse tipo. Sua mão inábil só conseguirá arruinar a felicidade da família, ofender a inocência dos jovens e usurpar a autoridade dos pais; e no que concerne aos adultos, ele passará a partilhar de conhecimentos incômodos e destruirá suas próprias relações com os pacientes. A conclusão, portanto, é que é seu dever ético manter-se afastado de toda a questão sexual.


propus a fórmula de que a angústia é sempre a libido que foi desviada de seu emprego |normal|.


Os médicos terão que se acostumar a explicar aos empregados de escritório que se “esgotaram” em suas escrivaninhas, ou às donas-de-casa para quem se tornaram pesadas demais as tarefas domésticas, que eles adoeceram, não por terem tentado executar tarefas facilmente realizáveis por um cérebro civilizado, mas porque, durante todo o tempo, negligenciaram e prejudicaram flagrantemente sua vida sexual.


Arrancar o paciente do hábito da masturbação é apenas uma das novas tarefas terapêuticas impostas ao médico que leva em conta a etiologia sexual dessa neurose;


narcóticos visam a servir - direta ou indiretamente - de substitutos da falta de satisfação sexual


Tudo o que impede a ocorrência de satisfação é nocivo


é de interesse público queos homens ingressem nas relações sexuais com toda a sua potência


Tem que ser possível falar sobre essas coisas sem que se seja estigmatizado como um arruaceiro ou uma pessoa que tira proveito dos mais baixos instintos. E também aqui há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos - nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade.


A terapia psicanalítica não é, no momento, aplicável a todos os casos. Tem, a meu ver, as seguintes limitações. Requer um certo grau de maturidade e compreensão nos pacientes, e portanto não é adequada para os jovens ou os adultos com debilidade mental ou sem instrução. Fracassa também com as pessoas muito idosas porque, devido ao acúmulo de material nelas, o tratamento tomaria tanto tempo que, ao terminar, elas teriam chegado a um período da vida em que já não se dá valor à saúde nervosa. Finalmente, o tratamento só é possível quando o paciente tem um estado psíquico normal a partir do qual o material patológico pode ser controlado. Durante um estado de confusão histérica ou uma mania ou melancolia interpolada, nada se pode fazer por meios psicanalíticos. Tais casos, contudo, podem ser tratados pela análise depois de se acalmarem as manifestações violentas pelas medidas usuais.


O leigo está, por assim dizer, profundamente convencido de que todas essas psiconeuroses são desnecessárias; portanto, não tem paciência com os processos da doença, nem nenhuma disposição de fazer sacrifícios para seu tratamento


atividade sexual infantil (seja ela espontânea ou provocada) prescreve o rumo a ser tomado pela vida sexual posterior após a maturidade.


no curso do desenvolvimento, a atividade sexual infantil era amiúde interrompida por um ato de recalcamento


Quase nunca basta uma única influência patogênica; na grande maioria dos casos exige-se uma multiplicidade de fatores etiológicos que apóiam uns aos outros e que, portanto, não devem ser colocados em oposição. Também por isso, o estado neurótico não pode ser nitidamente distinguido da saúde. O adoecimento é resultado de uma soma, e esse total de determinantes etiológicos pode ser completado por qualquer lado. Buscar a etiologia das neuroses exclusivamente na hereditariedade ou na constituição seria tão unilateral quanto pretender atribuir essa etiologia unicamente às influências acidentais que atuam sobre a sexualidade durante a vida, quando o discernimento mostra que a essência dessas situações de adoecimento reside apenas numa perturbação dos processos sexuais no organismo.


ATOS OBSESSIVOS E PRÁTICAS RELIGIOSAS (1907)


o cobertor preso embaixo do colchão e o lençol bem esticado, os travesseiros arrumados de maneira especial, e o corpo da pessoa deve adotar uma posição bem determinada


todos os detalhes dos atos decisivos possuem um sentido, que servem a importantes interesses da personalidade, e que expressam experiências ainda atuantes e pensamentos catexizados com afeto


A análise de atos obsessivos já nos possibilitou alguma compreensão interna (insight) de suas causas e da seqüência de motivos que os tornam ativos. Podemos dizer que aquele que sofre de compulsões e proibições comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual, entretanto, nada sabe, de modo que podemos denominá-lo de sentimento inconsciente de culpa, apesar da aparente contradição dos termos. Esse sentimento de culpa origina-se de certos eventos mentais primitivos, mas é constantemente revivido pelas repetidas tentações que resultavam de cada nova provocação. Além disso, acarreta um furtivo sentimento de ansiedade expectante, uma expectativa de infortúnio ligada, através da idéia de punição, à percepção interna da tentação. Quando o cerimonial é formado, o paciente ainda tem consciência de que deve fazer isso ou aquilo para evitar algum mal, e em geral a natureza desse mal que é esperado ainda é conhecida de sua consciência. Contudo, o que já está oculto dele é a conexão - sempre demonstrável - entre a ocasião em que essa ansiedade expectante surge e o perigo que ela provoca. Assim o cerimonial surge com umato de defesaou desegurança, umamedida protetora.


O sentimento de culpa dos neuróticos obsessivos corresponde à convicção dos indivíduos piedosos de serem, no íntimo, apenas miseráveis pecadores; e as práticas devotas (tais como orações, invocações, etc.) com que tais indivíduos precedem cada ato cotidiano, especialmente os empreendimentos não habituais, parecem ter o valor de medidas protetoras ou de defesa.


os atos de penitência, que têm seu correlato na neurose obsessiva.


restrições e regulamentações tolas


descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal


FANTASIAS HISTÉRICAS E SUA RELAÇÃO COM A BISSEXUALIDADE (1908)


relação entre fantasias e sintomas


Estamos familiarizados com as imaginações delirantes do paranóico acerca da grandeza ou dos sofrimentos do seu próprio eu (self)


Todas essas criações de fantasia têm sua fonte comum e seu protótipo normal nos chamados devaneios da juventude. Estes já foram examinados, embora insuficientemente, na literatura do assunto. Ocorrem talvez com igual freqüência em ambos os sexos, sendo invariavelmente de natureza erótica nas jovens e mulheres, enquanto nos homens são tanto ambiciosos como eróticos. Não se deve, entretanto, atribuir uma importância secundária ao fator erótico nos homens; se investigarmos mais de perto os devaneios de um homem, veremos que seus feitos heróicos e seus triunfos só têm por finalidade agradar a uma mulher para que ela o prefira aos outros homens. Essas fantasias são satisfações de desejos originários de privações e anelos.


As fantasias inconscientes podem ter sido sempre inconscientes e formadas no inconsciente; ou, o que acontece com maior freqüência, foram inicialmente fantasias conscientes, devaneios, desde então deliberadamente esquecidas, tornando-se inconscientes através da ‘repressão’. O conteúdo delas pode, posteriormente, ter permanecido o mesmo ou sofrido alterações, de modo que as fantasias inconscientes atuais são derivadas das conscientes. Uma fantasia inconsciente tem uma conexão muito importante com a vida sexual do sujeito, pois é idêntica à fantasia que serviu para lhe dar satisfação sexual durante um período de masturbação. Nesse período, o ato masturbatório (no sentido mais amplo da palavra) compunha-se de duas partes. Uma era a evocação de uma fantasia e a outra um comportamento ativo para, no momento culminante da fantasia, obter autogratificação.


logo transferirá seu interesse dos sintomas para as fantasias


Também conhecemos casos, com sua importância prática, nos quais os histéricos não dão expressão às suas fantasias sob a forma de sintomas, mas como realizações conscientes, e assim tramam e encenam estupros, ataques ou atos de agressão sexual.


Os sintomas histéricos são a realização de uma fantasia inconsciente que serve à realização de um desejo.


ter duas fantasias sexuais, uma de caráter feminino e outra de caráter masculino. Assim uma dessas fantasias origina-se de um impulso homossexual.


(9) Os sintomas histéricos são a expressão, por um lado, de uma fantasia sexual inconsciente masculina e, por outro lado, de uma feminina.


A natureza bissexual dos sintomas histéricos, que pode ser demonstrada em numerosos casos, constitui uma interessante confirmação da minha concepção de que, na análise dos psiconeuróticos, se evidencia de modo especialmente claro a pressuposta exigência de uma disposição bissexual inata no homem. Uma situação exatamente análoga ocorre no mesmo campo quando uma pessoa que se masturba tenta em suas fantasias conscientes ter tanto os sentimentos do homem quanto os da mulher na situação por ela concebida


CARÁTER E EROTISMO ANAL (1908)


Quando bebês, parecem ter pertencido ao grupo que se recusa a esvaziar os intestinos ao ser colocado no urinol, porque obtém um prazer suplementar do ato de defecar, pois nos revelam que em anos posteriores gostavam de reter as fezes, e se lembram - embora atribuam o fato mais facilmente em relação a irmãos e irmãs do que a si mesmos - de ter feito toda uma série de coisas indecorosas com suas fezes


A ‘excitação sexual’ recebe importantes contribuições das excitações periféricas de determinadas partes do corpo (os genitais, a boca, o ânus, a uretra), que assim merecem a designação especial de ‘zonas erógenas’.


Ora, o erotismo anal é um dos componentes do instinto .sexual. que, no decurso do desenvolimento e de acordo com a educação que a nossa atual civilização exige, se tornarão inúteis para os fins sexuais. Portanto, é plausível a suposição de que esses traços de caráter - a ordem, a parcimônia e a obstinação -, com freqüência relevantes nos indivíduos que anteriormente eram anal-eróticos, sejam os primeiros e mais constantes resultados da sublimação do erotismo anal. A limpeza, a ordem e a fidedignidade dão exatamente a impressão de uma formação reativa contra um interesse pela imundície perturbadora que não deveria pertencer ao corpo


o ouro são ‘as fezes do Inferno’


Se houver realmente alguma base para a relação que aqui estabelecemos entre o erotismo anal e essa tríade de traços de caráter, provavelmente não encontraremos um acentuado grau de ‘caráter anal’ nos indivíduos que conservaram na vida adulta o caráter erógeno da zona anal, como acontece, por exemplo, com certos homossexuais. A menos que esteja enganado, a experiência comprova amplamente essa conclusão.


ALGUMAS OBSERVAÇÕES GERAIS SOBRE ATAQUES HISTÉRICOS (1909 .1908.)


representar simultaneamente várias fantasias em um mesmo material, ou seja, através dacondensação


O desencadeamento de ataques histéricos segue leis de fácil compreensão. Como o complexo reprimido consiste numa catexia libidinal e num conteúdo ideativo (a fantasia), o ataque pode ser determinado (1)associativamente, quando o conteúdo do complexo (se suficientemente catexizado) é atingido por um acontecimento da vida consciente a ele ligado; (2)organicamente, quando por razões somáticas internas resultantes de influências psíquicas externas a catexia libidinal eleva-se acima de um determinado nível; (3) a serviço doobjetivo primário, como uma expressão da ‘fuga para a doença’, quando a realidade torna-se penosa ou temível, isto é, como umconsolo; (4) a serviço deobjetivos secundáriosaos quais a doença se alia para que através do ataque o paciente atinja uma meta útil para ele. Neste último caso o ataque é endereçado a determinados indivíduos, podendo ser adiado até que estes estejam presentes e dando a impressão de ser conscientemente simulado.


Já na Antiguidade o coito era descrito como uma ‘pequena epilepsia’. Alterando isso um pouco, podemos dizer que um ataque histérico convulsivo é equivalente de um coito. A analogia com um ataque epiléptico é de pouca valia, pois a gênese deste é ainda mais obscura do que a dos ataques histéricos.


Podemos observar com freqüência que aquelas jovens que mostravam natureza e tendências masculinas nos anos anteriores à puberdade, são justamente as que se tornam histéricas daí em diante. Em grande número de casos a neurose histérica representa apenas uma intensificação excessiva daquele influxo típico de repressão que, apagando a sexualidade masculina, permite o aparecimento da mulher.


ROMANCES FAMILIARES (1909 .1908.)


Os pais constituem para a criança pequena a autoridade única e a fonte de todos os conhecimentos. O desejo mais intenso e mais importante da criança nesses primeiros anos é igualar-se aos pais (isto é, ao progenitor do mesmo sexo), e ser grande como seu pai e sua mãe. Contudo, ao desenvolver-se intelectualmente, a criança acaba por descobrir gradualmente a categoria a que seus pais pertencem. Vem a conhecer outros pais e os compara com os seus, adquirindo assim o direito de pôr em dúvida as qualidades extraordinárias e incomparáveis que lhes atribuíra. Os pequenos fatos da vida da criança que a tornam descontente, fornece-lhe um pretexto para começar a criticar os pais; para manter essa atitude crítica, utiliza seu novo conhecimento de que existem outros pais que em certos aspectos são preferíveis aos seus. A psicologia das neuroses nos ensina que, entre outros fatores, contribuem para esse resultado os impulsos mais intensos da rivalidade sexual. O sentimento de estar sendo negligenciado constitui obviamente o cerne de tais pretextos, pois existe sem dúvida um grande número de ocasiões em que a criança é negligenciada, ou pelo menossenteque é negligenciada, ou que não está recebendo todo o amor dos pais, e principalmente em que lamenta ter de compartilhar esse amor com seus irmãos e irmãs. Sua sensação de que sua afeição não está sendo retribuída encontra abrigo na idéia, mais tarde lembrada conscientemente a partir da infância inicial, de que é uma criança adotada, ou de que o pai ou a mãe não passam de um padrasto ou de uma madrasta


Nessa conexão ela lançará mão de quaisquer coincidências oportunas de sua experiência real, tal como quando trava conhecimento com o senhor da Casa Grande ou com o dono de alguma grande propriedade, se mora no campo, ou com algum membro da aristocracia, se mora na cidade. Esses acontecimentos fortuitos despertam a inveja da criança, que encontra expressão numa fantasia em que seus pais são substituídos por outros de melhor linhagem


Via de regra, são precisamente essas crianças neuróticas, que foram punidas pelos pais por travessuras sexuais, que agora se vingam dos mesmos através de tais fantasias.


A infidelidade e a ingratidão são apenas aparentes. Se examinarmos em detalhe o mais comum desses romances imaginativos, a substituição dos pais, ou só do pai, por pessoas de melhor situação, veremos que a criança atribui a esses novos e aristocráticos pais qualidades que se originam das recordações reais dos pais mais humildes e verdadeiros. Dessa forma a criança não está se descartando do pai, mas enaltecendo-o. Na verdade, todo esse esforço para substituir o pai verdadeiro por um que lhe é superior nada mais é do que a expressão da saudade que a criança tem dos dias felizes do passado, quando o pai lhe parecia o mais nobre e o mais forte dos homens, e a mãe a mais linda e amável das mulheres. Ela dá as costas ao pai, tal como o conhece no presente, para voltar-se para aquele pai em quem confiava nos primeiros anos de sua infância, e sua fantasia é a expressão de um lamento pelos dias felizes que se foram. Assim volta a manifestar-se nessas fantasias a supervalorização que caracteriza os primeiros anos da criança


A SIGNIFICAÇÃO ANTITÉTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS


TIPOS DE DESENCADEAMENTO DA NEUROSE (1912)


um desencadeamento da neurose deve ser vista no fator externo que pode ser descrito, em termos gerais, comofrustração. O indivíduo foi sadio enquanto sua necessidade de amor foi satisfeita por um objeto real no mundo externo; torna-se neurótico assim que esse objeto é afastado dele, sem que um substituto ocupe seu lugar.


um substituto para a possibilidade de satisfação que perdeu.


A frustração tem efeito patogênico por represar a libido e submeter assim o indivíduo a um teste de quanto tempo ele pode tolerar este aumento de tensão psíquica e que métodos adotará para lidar com ela. Há apenas duas possibilidades de permanecer sadio quando existe uma frustração persistente de satisfação no mundo real. A primeira é transformar a tensão psíquica em energia ativa, que permanece voltada para o mundo externo e acaba por arrancar dele uma satisfação real da libido. A segunda é renunciar à satisfação libidinal, sublimar a libido represada e voltá-la para a consecução de objetivos que não são mais eróticos e fogem à frustração. O fato de estas duas possibilidades serem realizadas nas vidas dos homens prova que a infelicidade não coincide com a neurose e que a frustração não decide sozinha se sua vítima permanece sadia ou tomba enferma. O efeito imediato da frustração reside em ela colocar em jogo os fatores disposicionais que até então haviam sido inoperantes.


Cai enfermo por causa de sua tentativa de adaptar-se à realidade e de atender àsexigências da realidade- tentativa no curso da qual se defronta com dificuldades internas insuperáveis.


No primeiro, o indivíduo cai doente a partir de uma experiência; no segundo, a partir de um processo de desenvolvimento. No primeiro caso, defronta-se com a tarefa de renunciar à satisfação e cai enfermo devido à sua incapacidade de resistência; no segundo, sua tarefa é trocar um tipo de satisfação por outro, e sucumbe devido à sua inflexibilidade. No segundo caso, o conflito entre o esforço do indivíduo para permanecer tal como é e o esforço para modificar-se, a fim de atender a novos intuitos e novas exigências da realidade, acha-se presente desde o início. No primeiro caso, o conflito só surge após a libido represada haver escolhido outras, e incompatíveis, possibilidades de satisfação. O papel desempenhado pelo conflito e pela fixação anterior da libido é incomparavelmente mais óbvio no segundo tipo que no primeiro, onde tais fixações imprestáveis podem talvez surgir apenas como resultado da frustração externa.


vemos as pessoas caírem enfermas tão freqüentemente quando põem de lado um ideal como quando buscam atingi-lo.


É verdade que a realidade não frustra aquitodosos tipos de satisfação, mas frustra aquele que o indivíduo declara ser o único possível. Tampouco a frustração provém imediatamente do mundo externo, mas, em primeiro lugar, de certas tendências no ego do indivíduo


A psicanálise alertou-nos de que devemos abandonar o contraste infrutífero entre fatores externos e internos, entre experiência e constituição, e ensinou-nos que invariavelmente encontraremos a causa do desencadeamento da enfermidade neurótica numa situação psíquica específica que pode ser ocasionada de várias maneiras.


CONTRIBUIÇÕES A UM DEBATE SOBRE A MASTURBAÇÃO (1912)


A DISPOSIÇÃO À NEUROSE OBSESSIVA
UMA CONTRIBUIÇÃO AO PROBLEMA DA ESCOLHA DA NEUROSE (1913)


Primeiramente, houve a teoria passiva e ativa mencionada no presente artigo (ver em .1.), a teoria de que experiências sexuais passivas na primeira infância predispunham à histeria, e as ativas à neurose obsessiva. Dez anos depois, num exame do papel desempenhado pela sexualidade nas neuroses (1906a), Freud repudiou inteiramente essa teoria


A paranóia desfaz a identificação novamente; ela restabelece todas as figuras amadas na infância, que foram abandonadas


Essa maneira, a ordem de publicação dos achados de Freud sobre as sucessivas organizações prematuras do instinto sexual pode ser assim resumida: estádio auto-erótico, 1905 (já descrito em particular, em 1899); estádio narcísico, 1911 (em particular, 1909); estádio anal-sádico, 1913; estádio oral, 1915; estádio fálico, 1923.


A vida sexual da paciente começou, em sua mais remota infância, com fantasias de espancamento


É fato bem conhecido, e que tem dado muito motivo para queixas, que após as mulheres perderem a função genital seu caráter, amiúde, sofre uma alteração peculiar. Tornam-se briguentas, irritantes, despóticas, mesquinhas e sovinas, o que equivale a dizer que apresentam tipicamente traços sádicos e anal-eróticos que não possuíam antes, durante seu período de feminilidade. Os autores de comédias e os satiristas em todas as épocas dirigiram suas invectivas contra o ‘velho dragão’ no qual a moça encantadora, a esposa amante e a terna mãe se transformaram. Podemos ver que esta alteração de caráter corresponde a uma regressão da vida sexual ao estádio pré-genital sádico e anal-erótico, na qual descobrimos a disposição à neurose obsessiva.


LUTO E MELANCOLIA (1917.1915.)


Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto


O teste da realidade revelou que o objeto amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível - é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena. Esta oposição pode ser tão intensa, que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo


Num conjunto de casos é evidente que a melancolia também pode constituir reação à perda de um objeto amado. Onde as causas excitantes se mostram diferentes, pode-se reconhecer que existe uma perda de natureza mais ideal. O objeto talvez não tenha realmente morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor


ver claramente o que foi perdido, sendo de todo razoável supor que também o paciente não pode conscientemente receber o que perdeu.


no sentido de que sabequemele perdeu, mas não oqueperdeu nesse alguém


a inibição do melancólico nos parece enigmática porque não podemos ver o que é que o está absorvendo tão completamente. O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto - uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua autocrítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e - o que é psicologicamente notável - por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida.


Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie.


uma insistente comunicabilidade, que encontra satisfação no desmascaramento de si mesmo.


Ele perdeu seu amor-próprio e deve ter tido boas razões para tanto


A analogia com o luto nos levou a concluir que ele sofrera uma perda relativa a um objeto; o que o paciente nos diz aponta para uma perda relativa a seu ego.


as auto-recriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente.


Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa particular; então, devido a uma real desconsideração ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relação objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal - uma retirada da libido desse objeto e um deslocamento da mesma para um novo -, mas algo diferente, para cuja ocorrência várias condições parecem ser necessárias. A catexia objetal provou ter pouco poder de resistência e foi liquidada. Mas a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali, contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer umaidentificaçãodo ego com o objeto abandonado. Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pôde, daí por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado. Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do ego e o ego enquanto alterado pela identificação.


Se o amor pelo objeto - um amor que não pode ser renunciado, embora o próprio objeto o seja - se refugiar na identificação narcisista, então o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo, dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. A autotortura na melancolia, sem dúvida agradável, significa, do mesmo modo que o fenômeno correspondente na neurose obsessiva, uma satisfação das tendências do sadismo e do ódio relacionadas a um objeto, que retornaram ao próprio eu do indivíduo nas formas que vimos examinando. Via de regra, em ambas as desordens, os pacientes ainda conseguem, pelo caminho indireto da autopunição, vingar-se do objeto original e torturar o ente amado através de sua doença, à qual recorrem a fim de evitar a necessidade de expressar abertamente sua hostilidade para com ele.


É exclusivamente esse sadismo que soluciona o enigma da tendência ao suicídio, que torna a melancolia tão interessante - e tão perigosa. Tão imenso é o amor de si mesmo do ego (self-love), que chegamos a reconhecer como sendo o estado primevo do qual provém a vida instintual, e tão vasta é a quantidade de libido narcisista que vemos liberada no medo surgido de uma ameaça à vida, que não podemos conceber como esse ego consente em sua própria destruição. De há muito, é verdade, sabemos que nenhum neurótico abriga pensamentos de suicídio que não consistam em impulsos assassinos contra outros, que ele volta contra si mesmo, mas jamais fomos capazes de explicar que forças interagem para levar a cabo esse propósito. A análise da melancolia mostra agora que o ego só pode se matar se, devido ao retorno da catexia objetal, puder tratar a si mesmo como um objeto - se for capaz de dirigir contra si mesmo a hostilidade relacionada a um objeto, e que representa a reação original do ego para com objetos do mundo externo. Assim, na regressão desde a escolha objetal narcisista, é verdade que nos livramos do objeto; ele, não obstante, se revelou mais poderoso do que o próprio ego. Nas duas situações opostas, de paixão intensa e de suicídio, o ego é dominado pelo objeto, embora de maneiras totalmente diferentes.


O fato de desaparecer após certo tempo, sem deixar quaisquer vestígios de grandes alterações, é uma característica que ela compartilha com o luto


se um empobrecimento da libido do ego, diretamente por causa de toxinas, não será capaz de produzir certas formas da doença.


A impressão que vários investigadores psicanalíticos já puseram em palavras é que o conteúdo da mania em nada difere do da melancolia, que ambas as desordens lutam com o mesmo ‘complexo’, mas que provavelmente, na melancolia, o ego sucumbe ao complexo, ao passo que, na mania, domina-o ou o põe de lado. Nosso segundo indicador é proporcionado pela observação de que todos os estados, tais como a alegria, a exultação ou o triunfo, que nos fornecem o modelo normal para a mania, dependem das mesmas condições econômicas.


Aqui, aconteceu que, como resultado de alguma influência, um grande dispêndio de energia psíquica, de há muito mantido ou que ocorre habitualmente, finalmente se torna desnecessário, de modo que se encontra disponível para numerosas aplicações e possibilidades de descarga - quando, por exemplo, algum pobre miserável, ganhando uma grande soma de dinheiro, fica subitamente aliviado da preocupação crônica com seu pão de cada dia, ou quando uma longa e árdua luta se vê afinal coroada de êxito, ou quando um homem se encontra em condições de se desfazer, de um só golpe, de alguma compulsão opressiva, alguma posição falsa que teve de manter por muito tempo, e assim por diante. Todas essas situações se caracterizam pela animação, pelos sinais de descarga de uma emoção jubilosa e por maior disposição para todas as espécies de ação - da mesma maneira que na mania, e em completo contraste com a depressão e a inibição da melancolia. Podemos aventurar-nos a afirmar que a mania nada mais é do que um triunfo desse tipo; só que aqui, mais uma vez, aquilo que o ego dominou e aquilo sobre o qual está triunfando permanecem ocultos dele. A embriaguez alcoólica, que pertence à mesma classe de estados, pode (na medida em que é de exaltação) ser explicada da mesma maneira; aqui, provavelmente, ocorre uma suspensão, produzida por toxinas, de dispêndios de energia na repressão. A opinião popular gosta de presumir que uma pessoa num estado maníaco desse tipo se deleita no movimento e na ação porque ela é muito ‘alegre’. Naturalmente, essa falsa conexão deve ser corrigida. O fato é que a condição econômica na mente do indivíduo, mencionada acima, foi atendida, sendo essa a razão por que ele se acha tão animado, por um lado, e tão desinibido em sua ação, por outro.


Na mania, o ego deve ter superado a perda do objeto (ou seu luto pela perda, ou talvez o próprio objeto), e, conseqüentemente, toda a quota de anticatexia que o penoso sofrimento da melancolia tinha atraído para si vinda do ego e ‘vinculado’ se terá tornado disponível .ver em .1… Além disso, o indivíduo maníaco demonstra claramente sua liberação do objeto que causou seu sofrimento, procurando, como um homem vorazmente faminto, novas catexias objetais.


Do mesmo modo que o luto compele o ego a desistir do objeto, declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo de continuar a viver .ver em .1.., assim também cada luta isolada da ambivalência distende a fixação da libido ao objeto, depreciando-o, denegrindo-o e mesmo, por assim dizer, matando-o.


O acúmulo de catexia que, de início, fica vinculado e, terminado o trabalho da melancolia, se torna livre, fazendo com que a mania seja possível, deve ser ligado à regressão da libido ao narcisismo. O conflito dentro do ego, que a melancolia substitui pela luta pelo objeto, deve atuar como uma ferida dolorosa que exige uma anticatexia extraordinariamente elevada


UM CASO DE PARANÓIA QUE CONTRARIA A
TEORIA PSICANALÍTICA DA DOENÇA (1915)


em expressões de pesar pelo fato de que uma relação tão bela e terna tivesse sido destruída por uma ‘infeliz idéia mórbida.’


Uma coisa, contudo, é ler a respeito de tais casos, e outra bem diversa é entrar em contato pessoal com um deles.


Entre o acervo de fantasias inconscientes de todos os neuróticos, e provavelmente de todos os seres humanos, existe uma que raramente se acha ausente e que pode ser revelada pela análise: é a fantasia de observar as relações sexuais dos pais. Chamo tais fantasias - da observação do ato sexual dos pais, da sedução, da castração e outras - de ‘fantasias primevas’


AS TRANSFORMAÇÕES DO INSTINTO EXEMPLIFICADAS
NO EROTISMO ANAL (1917)


cada uma das três qualidades, avareza, formalismo e obstinação, provém de fontes anal-eróticas ou - para expressá-lo mais cautelosa e completamente - retira poderosas contribuições dessas fontes


nos produtos do inconsciente - idéias espontâneas, fantasias e sintomas - os conceitos defezes(dinheiro, dádiva),bebêepênismal se distinguem um do outro e são facilmente intercambiáveis


Se penetramos profundamente na neurose de uma mulher, não poucas vezes deparamos com o desejo reprimido de possuir um pênis, como um homem. Chamamos a esse desejo ‘inveja do pênis’ e incluímo-lo no complexo de castração


É como se tais mulheres houvessem compreendido (embora isso não possa ter atuado como motivo) que a natureza dá bebês às mulheres como substitutos para o pênis que lhes negou


O erotismo anal encontra uma aplicação narcísica na realização do desafio, que constitui uma importante reação por parte do ego contra as exigências feitas por outras pessoas. O interesse pelas fezes é transportado, de início para um interesse pela dádiva e, depois, para o interesse pelo dinheiro. Nas meninas, a descoberta do pênis dá origem a uma inveja desse órgão, que depois se transforma em desejo por um homem, como possuidor do pênis. Ainda antes disso, o desejo de um pênis foi convertido num desejo de um bebê, ou este último tomou o lugar do primeiro


ALGUNS MECANISMOS NEURÓTICOS NO CIÚME, NA PARANÓIA E NO HOMOSSEXUALISMO (1922)


As três camadas ou graus do ciúme podem ser descritas como ciúme (1)competitivoou normal, (2)projetado, e (3)delirante.


O ciúme emergente de tal projeção possui efetivamente um caráter quase delirante; é, contudo, ameno ao trabalho analítico de exposição das fantasias inconscientes da própria infidelidade do sujeito. A posição é pior com referência ao ciúme pertencente à terceira camada, o tipo delirante verdadeiro. Este também tem sua origem em impulsos reprimidos no sentido da infidelidade, mas o objeto, nesses casos, é do mesmo sexo do sujeito. O ciúme delirante é o sobrante de um homossexualismo que cumpriu seu curso e corretamente toma sua posição entre as formas clássicas da paranóia. Como tentativa de defesa contra um forte impulso homossexual indevido, ele pode, no homem, ser descrito pela fórmula: ‘Eunão o amo; éelaque o ama.’ Num caso delirante deve-se estar preparado para encontrar ciúmes pertinentes a todas as três camadas, nunca apenas à terceira.


Recordamo-nos de que os que sofrem de paranóia persecutória agem exatamente da mesma maneira. Eles, também, não podem encarar nada em outras pessoas como indiferente e tomam indicações insignificantes que essas outras pessoas desconhecidas lhes apresentam e as utilizam em seus delírios de referência. O significado de seu delírio de referência é que esperam de todos os estranhos algo semelhante ao amor. No entanto essas pessoas não lhes demonstram nada desse tipo; riem consigo próprias, fazem floreios com as bengalas e até mesmo cospem no chão enquanto passam; e, na realidade, tais coisas não se fazem quando uma pessoa em que se tem um interesse amigável se acha perto. A não ser quando nos sentimos inteiramente indiferentes ao passante, quando se pode tratá-lo como se fosse ar e, considerando também o parentesco fundamental dos conceitos de ‘estranho’ e ‘inimigo’, o paranóico não se acha tão errado em considerar essa indiferença como ódio, em contraste com sua reivindicação de amor.


Começamos a perceber que descrevemos o comportamento tanto dos paranóicos ciumentos quanto dos persecutórios muito inadequadamente, ao dizer que projetam exteriormente para os outros o que não desejam reconhecer em si próprios. Certamente o fazem, mas não o projetam, por assim dizer, no vazio, onde já não existe algo dessa espécie. Deixam-se guiar por seu conhecimento do inconsciente e deslocam para as mentes inconscientes dos outros a atenção que afastaram da sua própria. O nosso ciumento marido percebia as infidelidades da esposa, em vez das suas; tornando-se consciente das infidelidades dela e amplificando-as enormemente, conseguia manter as suas inconscientes. Se aceitamos seu exemplo como típico, podemos inferir que a amizade vista nos outros pelo paranóico perseguido é o reflexo de seus próprios impulsos hostis contra eles. Sabendo que, no paranóico, é exatamente a pessoa mais amada de seu próprio sexo que se torna seu perseguidor, surge a questão de saber onde essa inversão de afeto se origina. Não se precisa ir longe para buscar a resposta: a sempre presente ambivalência de sentimento fornece-lhe a fonte e a não-realização de sua reivindicação de amor a fortalece. Essa ambivalência serve assim, para o paranóico, ao mesmo objetivo que o ciúme servia ao meu paciente: o de uma defesa contra o homossexualismo.


impulso de enriquecer a mãe


produzia grande número de sonhos persecutórios que podemos considerar como precursores os substitutos das idéias delirantes


os sonhos são meramente uma forma de pensar


há a fixação na mãe, que fica difícil de passar para outra mulher. A identificação com a mãe é um resultado dessa ligação e ao mesmo temppo, em certo sentido, permite que o filho lhe permaneça fiel, a ela que foi seu primeiro objeto. Há em seguida inclinação no sentido de uma escolha de objeto narcísico, que em geral se encontra mais à mão e é mais fácil de efetuar que um movimento no sentido do outro sexo. Por trás desse último fator jaz oculto um outro, de força bastante excepcional, ou talvez coincida com ele: o alto valor atribuído ao órgão masculino e a incapacidade de tolerar sua ausência num objeto amoroso. A depreciação das mulheres, a aversão e até mesmo o horror a elas derivam-se geralmente da precoce descoberta de que as mulheres não possuem pênis. Subseqüentemente descobrimos, como outro poderoso motivo a compelir no sentido da escolha homossexual de objeto, a consideração pelo pai ou o medo dele, porque a renúncia às mulheres significa que toda a rivalidade com aquele (ou com todos os homens que podem tomar seu lugar) é evitada. Os dois últimos motivos - o apego à condição de existência de um pênis no objeto, bem como o afastamento em favor do pai - podem ser atribuídos ao complexo de castração. A ligação à mãe, o narcisismo, o medo da castração são os fatores (que, incidentalmente, nada têm em si de especial) que até o presente encontramos na etiologia psíquica do homossexualismo; com eles é preciso computar o efeito da sedução responsável por uma fixação prematura da libido, bem como a influência do fator orgânico que favorece o papel passivo no amor.


Na história dos homossexuais ouve-se amiúde que neles a mudança se efetuou após a mãe ter elogiado outro rapaz e tê-lo estabelecido como modelo


UMA NEUROSE DEMONÍACA DO SÉCULO XVII (1923 .1922.)


as neuroses de nossos pouco psicológicos dias de hoje assumem um aspecto hipocondríaco e aparecem disfarçadas como enfermidades orgânicas, as neuroses daqueles antigos tempos surgem em trajes demoníacos


A teoria demonológica daquelas épocas sombrias levou a melhor, ao final, sobre todas as visões somáticas do período da ciência ‘exata’. Os estados de possessão correspondem às nossas neuroses, para cuja explicação mais uma vez recorremos aos poderes psíquicos. A nossos olhos, os demônios são desejos maus e repreensíveis, derivados de impulsos instintuais que foram repudiados e reprimidos. Nós simplesmente eliminamos a projeção dessas entidades mentais para o mundo externo, projeção esta que a Idade Média fazia; em vez disso, encaramo-las como tendo surgido na vida interna do paciente, onde têm sua morada.


o homem havia admitido que, nove anos antes, encontrando-se em estado de desalento quanto à sua arte e duvidoso sobre a possibilidade de se sustentar, entregara-se ao Demônio, que o havia tentado nove vezes, e dera-lhe seu compromisso por escrito de pertencer-lhe em corpo e alma após um período de nove anos. Esse período expiraria no 24º dia do mês corrente. A carta prosseguia dizendo que o infeliz se havia arrependido e estava convencido de que só a graça da Mãe de Deus em Mariazell poderia salvá-lo, obrigando o Maligno a liberá-lo do compromisso, escrito com sangue


Se tivesse sido afirmado que também eles viram o Demônio aparecer sob a forma de dragão e oferecer ao pintor o documento redigido em vermelho (Schedam sibi porrigentem conspexisset), depararíamos com diversas possibilidades desagradáveis, dentre elas a de uma alucinação coletiva seria a mais branda. Mas o testemunho do Abade Franciscus dissipa essa dúvida. Longe de asseverar que os clérigos assistentes também viram o Diabo, declara apenas, em palavrasfrancas e sóbrias, que o pintor subitamente se desvencilhou dos padres que o seguravam, correu para o canto da capela onde vira a aparição, e depois retornou com o documento na mão.
O milagre era grande, e a vitória da Santa Mãe sobre Satã, indiscutível; infelizmente, porém, a cura não foi duradoura. Mais uma vez conta em favor do clero não terem eles ocultado isso. Após curto tempo, o pintor deixou Mariazell com a melhor saúde e foi para Viena, onde residiu com uma irmã casada. Em 11 de outubro, começaram novas crises, algumas delas muito graves, as quais foram relatadas no diário até 13 de janeiro .de 1678.. Consistiam em visões e ‘absences‘, nas quais via e experimentava todo tipo de coisas, em acessos convulsivos acompanhados das sensações mais penosas; em certa ocasião, com paralisia das pernas, e assim por diante. Desta vez, porém, não era o Demônio que o atormentava, mas por figuras sagradas é que era afligido - por Cristo e pela própria Santa Virgem. É digno de nota que ele não sofresse menos por essas manifestações celestiais e pelos castigos que lhe infligiam, do que anteriormente sofrera por seu intercâmbio com o Demônio. Em seu diário, em verdade, incluiu essas novas experiências também como manifestações do Diabo, e quando, em maio de 1678, retornou a Mariazell, queixou-se demaligni Spiritûs manifestationes.‘manifestações do Espírito Mau’..


Temos aqui, portanto, uma pessoa que assinou um compromisso com o Diabo, a fim de ser libertado de um estado de depressão


o Demônio compromete-se a substituir o pai perdido pelo pintor durante nove anos. Ao final desse tempo, o pintor se torna propriedade, em corpo e alma, do Demônio, como era o costume usual em tais barganhas. A seqüência de pensamento que motivou o pintor a fazer o pacto parece ter sido esta: a morte do pai o fizera perder sua disposição de ânimo e capacidade de trabalhar; se pudesse conseguir um substituto paterno, poderia esperar reconquistar o que perdera.


O DEMÔNIO COMO SUBSTITUTO PATERNO


Com respeito ao Demônio Maligno, sabemos que ele é considerado como a antítese de Deus, e, contudo, está muito próximo dele em sua natureza


aviltamento


Entre as observações feitas pela psicanálise sobre a vida mental das crianças, dificilmente existe alguma que soe tão repugnante e inacreditável a um adulto normal quanto a da atitude feminina de um menino para com o pai e a fantasia de gravidez que dela surge. Somente depois que o Senatspräsident Daniel Paul Schreber, juiz presidente de uma divisão da Corte de Apelação da Saxônia,publicou a história de sua doença psicótica e seu amplo restabe lecimento dela, que podemos debater o assunto sem agitação ou escusas. Informa-nos esse valiosíssimo livro que, por volta da idade de 50 anos, o Senatspräsident ficou firmemente convencido de que Deus - ele, incidentalmente, apresentava traços distintos de seu pai, o digno médico Dr. Schreber - decidira emasculá-lo, utilizá-lo como mulher e engendrar nele ‘uma nova raça de homens, nascidos do espírito de Schreber.’ (Seu próprio matrimônio era sem filhos.) Em sua revolta contra essa intenção de Deus, que lhe parecia altamente injusta e ‘contrária à Ordem das Coisas’, caiu enfermo com sintomas de paranóia, os quais, entretanto, experimentaram um processo de involução no decorrer dos anos, deixando atrás de si apenas um pequeno resíduo. O dotado autor de seu próprio caso clínico não poderia ter adivinhado que, nele, revelara um fator patogênico típico.


O Senatspräsident Schreber encontrou o caminho da cura quando decidiu abandonar sua resistência à castração e acomodar-se ao papel feminino que lhe fora estabelecido por Deus. Passado isso, ficou lúcido e calmo, foi capaz de levar a cabo sua própria alta do asilo e levou uma vida normal - com a única exceção de dedicar algumas horas de cada dia ao cultivo de sua própria feminilidade, de cujo avanço gradual no sentido do objetivo determinado por Deus permaneceu convencido.


Estava fadado a haver uma reviravolta nisso, e com efeito, iniciou-se uma reação ascética. Em 20 de outubro apareceu uma grande luz e dela saiu uma voz, identificando-se como Cristo, e ordenou-lhe renegar este mundo perverso e servir Deus no deserto durante seis anos. O pintor claramente sofreu mais com essas aparições sagradas do que com as anteriores, demoníacas; somente duas horas e meia depois despertou dessa crise. Na seguinte, a figura santa cercada de luz mostrou-se muito mais inamistosa. Lançou ameaças contra ele por não haver obedecido o mandado divino e desceu com ele ao Inferno, a fim de que se aterrorizasse com a sorte dos malditos. Evidentemente, contudo, isso fracassou em seu efeito, pois as aparições da figura rodeada de luz, que passava por Cristo, repetiram-se diversas vezes mais. A cada vez o pintor experimentava umaabsencee êxtase que duravam horas. No maior desses êxtases, a figura rodeada de luz levou-o primeiro a uma cidade em cujas ruas o povo perpetuava todos os atos sombrios; e, então, em contraste, conduziu-o a um prado encantador em que anacoretas levavam uma vida devota e recebiam provas tangíveis da graça e do cuidado de Deus. Lá apareceu, em vez de Cristo, a própria Santa Mãe que, lembrando-o do que já fizera por ele, invocou-o a obedecer às ordens de seu amado filho. ‘De vez que não podia verdadeiramente decidir-se a assim proceder’, Cristo apareceu-lhe novamente no dia seguinte e repreendeu-o vigorosamente com ameaças e promessas. Por fim, ele cedeu e resolveu abandonar o mundo e fazer o que era exigido dele. Com essa decisão, terminou a segunda fase. O pintor declara que, dessa época em diante, não teve mais visões ou tentações.


Vemos como as fantasias de tentação de nosso desafortunado pintor foram sucedidas por outras ascéticas e, finalmente, por fantasias de punição


NEUROSE E PSICOSE (1924 .1923.)


é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo externo.


uma confusão alucinatória aguda que constitui talvez a forma mais extrema e notável de psicose - o mundo exterior não é percebido de modo algum ou a percepção dele não possui qualquer efeito. Normalmente, o mundo externo governa o ego por duas maneiras: em primeiro lugar, através de percepções atuais e presentes, sempre renováveis; e, em segundo, mediante o armazenamento de lembranças de percepções anteriores, as quais, sob a forma de um ‘mundo interno’, são uma possessão do ego e parte constituinte dele. Na amência não apenas é recusada a aceitação de novas percepções; também o mundo interno, que, como cópia do mundo externo, até agora o representou, perde sua significação (sua catexia). O ego cria, autocraticamente, um novo mundo externo e interno, e não pode haver dúvida quanto a dois fatos: que esse novo mundo é construído de acordo com os impulsos desejosos do id e que o motivo dessa dissociação do mundo externo é alguma frustração muito séria de um desejo, por parte da realidade - frustração que parece intolerável. A estreita afinidade dessa psicose com os sonhos normais é inequívoca.Uma precondição do sonhar, além do mais, é o estado de sono, e uma das características do sono é o completo afastamento da percepção e do mundo externo.


O princípio de Nirvana expressa a tendência do instinto de morte; o princípio de prazer representa as exigências da libido, e a modificação do último princípio, o princípio de realidade, representa a influência do mundo externo.


um masoquismo erógeno, um masoquismo feminino e um masoquismo moral.


A terceira forma de masoquismo, o masoquismo moral, é principalmente notável por haver afrouxado sua vinculação com aquilo que identificamos como sexualidade. Todos os outros sofrimentos masoquistas levam consigo a condição de que emanem da pessoa amada e sejam tolerados à ordem da pessoa. No masoquismo moral essa restrição foi abandonada. O próprio sofrimento é o que importa; ser ele decretado por alguém que é amado ou por alguém que é indiferente não tem importância. Pode mesmo ser causado por poderes impessoais ou pelas circunstâncias; o verdadeiro masoquista sempre oferece a face onde quer que tenha oportunidade de receber um golpe. É muito tentador, ao explicar essa atitude, deixar a libido fora de consideração e confinar-se a presumir que, nesse caso, o instinto destrutivo se voltou novamente para dentro e agora se enfurece contra o eu (self); contudo, deve haver algum significado no fato de o uso lingüístico não ter abandonado a vinculação entre essa forma de conduta e o erotismo, e chamar também de masoquistas esses ofensores de si próprios.


O ego reage com sentimentos de ansiedade (ansiedade de consciência) à percepção de que não esteve à altura das exigências feitas por seu ideal, ou superego.


O superego reteve características essenciais das pessoas introjetadas - a sua força, sua severidade, a sua inclinação a supervisar e punir.


O complexo de Édipo mostra assim ser - como já foi conjecturado num sentido histórico - a fonte de nosso senso ético individual, de nossa moralidade. O curso do desenvolvimento da infância conduz a um desligamento sempre crescente dos pais e a significação pessoal desses para o superego retrocede para o segundo plano. Às imagos que deixam lá atrás estão, pois, vinculadas as influências de professores e autoridades, modelos auto-escolhidos e heróis publicamente reconhecidos, cujas figuras não mais precisam ser introjetadas por um ego que se tornou resistente


Dificilmente, então, pode ser um pormenor insignificante que o sadismo do superego se torne, na maior parte, ofuscantemente consciente, ao passo que a tendência masoquista do ego permaneça, via de regra, oculta ao indivíduo e tenha de ser inferida de seu comportamento


Sabemos agora que o desejo, tão freqüente em fantasias, de ser espancadopelo pai se situa muito próximo do outro desejo, o de ter uma relação sexual passiva (feminina) com ele, e constitui apenas uma deformação regressiva deste último. Se inserirmos essa explicação no conteúdo do masoquismo moral, seu conteúdo oculto se torna claro para nós. A consciência e a moralidade surgiram mediante a superação, a dessexualização do complexo de Édipo; através do masoquismo moral, porém, a moralidade mais uma vez se torna sexualizada, o complexo de Édipo é revivido e abre-se o caminho para uma regressão, da moralidade para o complexo de Édipo.


A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO (1924)


Acontece com especial freqüência que o menininho seja ameaçado com a castração, não porque brinca com o pênis com a mão, mas porque molha o leito todas as noites e não pode ser levado a ser limpo. Os encarregados dele se comportam como se essa incontinência noturna fosse resultado e prova de ele estar indevidamente interessado em seu pênis, e provavelmente têm razão. De qualquer modo, a enurese na cama, de longa duração, deve ser igualada à polução dos adultos, e é uma expressão da mesma excitação dos órgãos genitais que impeliu a criança a masturbar-se nesse período.


Se a satisfação do amor no campo do complexo de Édipo deve custar à criança o pênis, está fadado a surgir um conflito entre seu interesse narcísico nessa parte de seu corpo e a catexia libidinal de seus objetos parentais. Nesse conflito, triunfa normalmente a primeira dessas forças: o ego da criança volta as costas ao complexo de Édipo.


Dá-se assim a diferença essencial de que a menina aceita a castração como um fato consumado, ao passo que o menino teme a possibilidade de sua ocorrência.


A PERDA DA REALIDADE NA NEUROSE E NA PSICOSE (1924)


Recentemente indiquei como uma das características que diferenciam uma neurose de uma psicose o fato de em uma neurose o ego, em sua dependência da realidade, suprimir um fragmento do id (da vida instintual), ao passo que, em uma psicose esse mesmo ego, a serviço do id, se afasta de um fragmento da realidade. Assim, para uma neurose o fator decisivo seria a predominância da influência da realidade, enquanto para uma psicose esse fator seria a predominância do id. Na psicose a perda de realidade estaria necessariamente presente, ao passo que na neurose, segundo pareceria, essa perda seria evitada.


a neurose não repudia a realidade, apenas a ignora; a psicose a repudia e tenta substituí-la


A NEGATIVA (1925)


o conteúdo de uma imagem ou idéia reprimida pode abrir caminho até a consciência, com a condição de que sejanegado. A negativa constitui um modo de tomar conhecimento do que está reprimido; com efeito,já é uma suspensão da repressão, embora não, naturalmente, uma aceitação do que está reprimido. Podemos ver como, aqui, a função intelectual está separada do processo afetivo. Com o auxílio da repressão apenas uma conseqüência do processo da repressão é desfeita, ou seja, o fato de o conteúdo ideativo daquilo que está reprimido não atingir a consciência.


Julgar é a ação intelectual que decide a escolha da ação motora que põe fim ao adiamento devido ao pensamento e conduz do pensar ao agir. Esse adiamento devido ao pensamento


Não há prova mais contundente de que fomos bem-sucedidos em nosso esforço de revelar o inconsciente, do que o momento em que o paciente reage a ele com as palavras ‘Não pensei isso’ ou ‘Não pensei (sequer) nisso’.


O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO (1930 .1929.)


Talvez devêssemos contentar-nos em afirmar que o que se passou na vida mentalpodeser preservado, não sendo,necessariamente, destruído. É sempre possível que, mesmo na mente, algo do que é antigo seja apagado ou absorvido - quer no curso normal das coisas, quer como exceção - a tal ponto, que não possa ser restaurado nem revivescido por meio algum, ou que a preservação em geral dependa de certas condições favoráveis. É possível, mas nada sabemos a esse respeito. Podemos apenas prender-nos ao fato de ser antes regra, e não exceção, o passado achar-se preservado na vida mental.
Assim, estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento ‘oceânico’ existe em muitas pessoas, e nos inclinamos a fazer sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego. Surge então uma nova questão: que direito tem esse sentimento de ser considerado como a fonte das necessidades religiosas.
Esse direito não me parece obrigatório. Afinal de contas, um sentimento só poderá ser fonte de energia se ele próprio for expressão de uma necessidade intensa. A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocado de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente, ainda está envolto em obscuridade.


àquilo que os próprios homens, por seu comportamento, mostram ser o propósito e a intenção de suas vidas. O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar?


Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes


O eremita rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele. Pode-se, porém, fazer mais do que isso; pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir um outro mundo, no qual os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos. Mas quem quer que, numa atitude de desafio desesperado, se lance por este caminho em busca da felicidade, geralmente não chega a nada. A realidade é demasiado forte para ele. Torna-se um louco; alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio. Afirma-se, contudo, que cada um de nós se comporta, sob determinado aspecto, como um paranóico, corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade. Concede-se especial importância ao caso em que a tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade, é efetuada em comum por um considerável número de pessoas. As religiões da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo. É desnecessário dizer que todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como tal.


todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo


Aqui, porém, a voz da crítica pessimista se faz ouvir e nos adverte que a maioria dessas satisfações segue o modelo do ‘prazer barato’ louvado pela anedota: o prazer obtido ao se colocar a perna nua para fora das roupas de cama numa fria noite de inverno e recolhê-la novamente. Se não houvesse ferrovias para abolir as distâncias, meu filho jamais teria deixado sua cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir sua voz; se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas, meu amigo não teria partido em sua viagem por mar e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito. Em que consiste a vantagem de reduzir a mortalidade infantil, se é precisamente essa redução que nos impõe a maior coerção na geração de filhos, de tal maneira que, considerando tudo, não criamos mais crianças do que nos dias anteriores ao reino da higiene, ao passo que, ao mesmo tempo, criamos condições difíceis para nossa vida sexual no casamento e provavelmente trabalhamos contra os efeitos benéficos da seleção natural? Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?


A ordem é uma espécie de compulsão a ser repetida, compulsão que, ao se estabelecer um regulamento de uma vez por todas, decide quando, onde e como uma coisa será efetuada, e isso de tal maneira que, em todas as circunstâncias semelhantes, a hesitação e a indecisão nos são poupadas. Os benefícios da ordem são incontestáveis. Ela capacita os homens a utilizarem o espaço e o tempo para seu melhor proveito, conservando ao mesmo tempo as forças psíquicas deles. Deveríamos ter o direito de esperar que ela houvesse ocupado seu lugar nas atividades humanas desde o início e sem dificuldade, e podemos ficar admirados de que isso não tenha acontecido, de que, pelo contrário, os seres humanos revelem uma tendência inata para o descuido, a irregularidade e a irresponsabilidade em seu trabalho, e de que seja necessário um laborioso treinamento para que aprendam a seguir o exemplo de seus modelos celestes.


Um amor que não discrimina me parece privado de uma parte de seu próprio valor, por fazer uma injustiça a seu objeto, e, em segundo lugar, nem todos os homens são dignos de amor.


Além do mais, as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora - as mesmas mulheres que, de início, estabeleceram os fundamentos da civilização pelas reivindicações de seu amor. As mulheres representam os interesses da família e da vida sexual. O trabalho de civilização tornou-se cada vez mais um assunto masculino, confrontando os homens com tarefas cada vez mais difíceis e compelindo-os a executarem sublimações instintivas de que as mulheres são pouco capazes. Já que o homem não dispõe de quantidades ilimitadas de energia psíquica, tem de realizar suas tarefas efetuando uma distribuição conveniente de sua libido. Aquilo que emprega para finalidades culturais, em grande parte o extrai das mulheres e da vida sexual. Sua constante associação com outros homens e a dependência de seus relacionamentos com eles o alienam inclusive de seus deveres de marido e de pai. Dessa maneira, a mulher se descobre relegada a segundo plano pelas exigências da civilização e adota uma atitude hostil para com ela.


O trabalho psicanalítico nos mostrou que as frustrações da vida sexual são precisamente aquelas que as pessoas conhecidas como neuróticas não podem tolerar. O neurótico cria em seus sintomas satisfações substitutivas para si, e estas ou lhe causam sofrimento em si próprias, ou se lhe tornam fontes de sofrimento pela criação de dificuldades em seus relacionamentos com o meio ambiente e a sociedade a que pertence.


O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo.


Se eliminamos os direitos pessoais sobre a riqueza material, ainda permanecem, no campo dos relacionamentos sexuais, prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte da mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens que, sob outros aspectos, se encontram em pé de igualdade. Se também removermos esse fator, permitindo a liberdade completa da vida sexual, e assim abolirmos a família, célula germinal da civilização, não podemos, é verdade, prever com facilidade quais os novos caminhos que o desenvolvimento da civilização vai tomar; uma coisa, porém, podemos esperar; é que, nesse caso, essa característica indestrutível da natureza humana seguirá a civilização.


a tentativa de estabelecer uma civilização nova e comunista na Rússia encontre o seu apoio psicológico na perseguição aos burgueses. Não se pode senão imaginar, com preocupação, sobre o que farão os soviéticos depois que tiverem eliminado seus burgueses.


se permitem fazer qualquer coisa má que lhes prometa prazer, enquanto se sentem seguras de que a autoridade nada saberá a respeito, ou não poderá culpá-las por isso; só têm medo de serem descobertas. A sociedade atual, geralmente, vê-se obrigada a levar em conta esse estado mental. Uma grande mudança só se realiza quando a autoridade é internalizada através do estabelecimento de um superego. Os fenômenos da consciência atingem então um estágio mais elevado. Na realidade, então devemos falar de consciência ou de sentimento de culpa.


O superego atormenta o ego pecador com o mesmo sentimento de ansiedade e fica à espera de oportunidades para fazê-lo ser punido pelo mundo externo.


quanto mais virtuoso um homem é, mais severo e desconfiado é o seu comportamento, de maneira que, em última análise, são precisamente as pessoas que levaram mais longe a santidade as que se censuram da pior pecaminosidade. Isso significa que a virtude perde direito a uma certa parte da recompensa prometida; o ego dócil e continente não desfruta da confiança de seu mentor, e é em vão que se esforça, segundo parece, por adquiri-la. Far-se-á imediatamente a objeção de que essas dificuldades são artificiais, e dir-se-à que uma consciência mais estrita e mais vigilante constitui precisamente a marca distintiva de um homem moral. Além disso, quando os santos se chamam a si próprios de pecadores, não estão errados - considerando-se as tentações à satisfação instintiva a que se encontram expostos em grau especialmente alto -, já que, como todossabem, as tentações são simplesmente aumentadas pela frustração constante, ao passo que a sua satisfação ocasional as faz diminuir, ao menos por algum tempo. O campo da ética, tão cheio de problemas, nos apresenta outro fato: a má sorte - isto é, a frustração externa - acentua grandemente o poder da consciência no superego. Enquanto tudo corre bem com um homem, a sua consciência é lenitiva e permite que o ego faça todo tipo de coisas; entretanto, quando o infortúnio lhe sobrevém, ele busca sua alma, reconhece sua pecaminosidade, eleva as exigências de sua consciência, impõe-se abstinência e se castiga com penitências.


O povo de Israel acreditava ser o filho favorito de Deus e, quando o grande Pai fez com que infortúnios cada vez maiores desabassem sobre seu povo, jamais a crença em Seu relacionamento com eles se abalou, nem o Seu poder ou justiça foi posto em dúvida. Pelo contrário, foi então que surgiram os profetas, que apontaram a pecaminosidade desse povo, e, de seu sentimento de culpa, criaram-se os mandamentos superestritos de sua religião sacerdotal. É digno de nota o comportamento tão diferente do homem primitivo. Se ele se defronta com um infortúnio, não atribui a culpa a si mesmo, mas a seu fetiche, que evidentemente não cumpriu o dever, e dá-lhe uma surra, em vez de se punir a si mesmo.


duas origens do sentimento de culpa: uma que surge do medo de uma autoridade, e outra, posterior, que surge do medo dosuperego


a continuação dos desejos proibidos não pode ser escondida do superego


renunciava-se às próprias satisfação para não se perder o amor da autoridade. Se se efetuava essa renúncia, ficava-se, por assim dizer, quite com a autoridade e nenhum sentimento de culpa permaneceria. Quanto ao medo do superego, porém, o caso é diferente. Aqui, a renúncia instintiva não basta, pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego. Assim, a despeito da renúncia efetuada, ocorre um sentimento de culpa. Isso representa uma grande desvantagem econômica na construção de um superego ou, como podemos dizer, na formação de uma consciência. Aqui, a renúncia instintiva não possui mais um efeito completamente liberador; a continência virtuosa não é mais recompensada com a certeza do amor. Uma ameaça de infelicidade externa - perda de amor e castigo por parte da autoridade externa - foi permutada por uma permanente infelicidade interna, pela tensão do sentimento de culpa.


A seqüência cronológica, então, seria a seguinte. Em primeiro lugar, vem a renúncia ao instinto, devido ao medo de agressão por parte da autoridadeexterna. (É a isso, naturalmente, que o medo da perda de amor equivale, pois o amor constitui proteção contra essa agressão punitiva.) Depois, vem a organização de uma autoridadeinternae a renúncia ao instinto devido ao medo dela, ou seja, devido ao medo da consciência. Nessa segunda situação, as más intenções são igualadas às más ações e daí surgem sentimento de culpa e necessidade de punição. A agressividade da consciência continua a agressividade da autoridade


Criou o superego pela identificação com o pai


o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização


Mesmo na neurose obsessiva há tipos de pacientes que não se dão conta de seu sentimento de culpa, ou que apenas o sentem como um mal-estar atormentador, uma espécie de ansiedade, se impedidos de praticar certas ações


É a percepção que o ego tem de estar sendo vigiado dessa maneira, a avaliação da tensão entre os seus próprios esforços e as exigências do superego. O medo desse agente crítico (medo que está no fundo de todo relacionamento), a necessidade de punição, constitui uma manifestação instintiva por parte do ego, que se tornou masoquista sob a influência de um superego sádico; é, por assim dizer, uma parcela do instinto voltado para a destruição interna presente no ego, empregado para formar uma ligação erótica com o superego


a prevenção de uma satisfação erótica exige uma agressividade contra a pessoa que interferiu na satisfação, e que essa própria agressividade, por sua vez, tem de ser recalcada. Se as coisas se passam assim, é em suma, apenas a agressividade que é transformada em sentimento de culpa, por ter sido recalcada e transmitida para o superego.


Por conseguinte, somos freqüentemente obrigados, por propósitos terapêuticos, a nos opormos ao superego e a nos esforçarmos por diminuir suas exigências. Exatamente as mesmas objeções podem ser feitas contra as exigências éticas do superego cultural. Ele também não se preocupa de modo suficiente com os fatos da constituição mental dos seres humanos. Emite uma ordem e não pergunta se é possível às pessoas obedecê-la. Pelo contrário, presume que o ego de um homem é psicologicamente capaz de tudo que lhe é exigido, que o ego desse homem dispõe de um domínio ilimitado sobre seu id. Trata-se de um equívoco e, mesmo naquelas que são conhecidas como pessoas normais, o id não pode ser controlado além de certos limites. Caso se exija mais de um homem, produzir-se-á nele uma revolta ou uma neurose, ou ele se tornará infeliz


a diagnose das neuroses comunais se defronta com uma dificuldade especial. Numa neurose individual, tomamos como nosso ponto de partida o contraste que distingue o paciente do seu meio ambiente, o qual se presume ser ‘normal’. Para um grupo de que todos os membros estejam afetados pelo mesmo distúrbio, não poderia existir esse pano de fundo; ele teria de ser buscado em outro lugar. E, quanto à aplicação terapêutica de nosso conhecimento, qual seria a utilidade da mais corretaanálise das neuroses sociais, se não se possui autoridade para impor essa terapia ao grupo? No entanto, e a despeito de todas essas dificuldades, podemos esperar que, um dia, alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais.


FETICHISMO (1927)


Nos últimos anos tive oportunidade de estudar analiticamente certo número de homens cuja escolha objetal era dominada por um fetiche. Não é preciso esperar que essas pessoas venham à análise por causa de seu fetiche, pois, embora sem dúvida ele seja reconhecido por seus adeptos como uma anormalidade, raramente é sentido por eles como o sintoma de uma doença que se faça acompanhar por sofrimento. Via de regra, mostram-se inteiramente satisfeitos com ele, ou até mesmo louvam o modo pelo qual lhes facilita a vida erótica. Via de regra, portanto, o fetiche aparece na análise como uma descoberta subsidiária.


o fetiche é um substituto do pênis da mulher (da mãe) em que o menininho outrora acreditou e que - por razões que nos são familiares - não deseja abandonar.O que sucedeu, portanto, foi que o menino se recusou a tomar conhecimento do fato de ter percebido que a mulher não tem pênis.


uma aversão, que nunca se acha ausente em fetichista algum, aos órgãos genitais femininos reais, permanece umstigma indelebileda repressão que se efetuou. Podemos perceber agora aquilo que o fetiche consegue e aquilo que o mantém. Permanece um indício do triunfo sobre a ameaça de castração e uma proteção contra ela. Também salva o fetichista de se tornar homossexual, dotando as mulheres da característica que as torna toleráveis como objetos sexuais. Na vida posterior, o fetichista sente desfrutar de ainda outra vantagem de seu substituto de um órgão genital. O significado do fetiche não é conhecido por outras pessoas, de modo que não é retirado do fetichista; é facilmente acessível e pode prontamente conseguir a satisfação sexual ligada a ele. Aquilo pelo qual os outros homens têm de implorar e se esforçar pode ser tido pelo fetichista sem qualquer dificuldade.


Reading books with ReadEra
https://play.google.com/store/apps/details?id=org.readera.hl=en