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Clinical Introduction to Lacanian Psychoanalysis Bruce Fink

Clinical Introduction to Lacanian Psychoanalysis Bruce Fink

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Introdução clínica à psicanálise lacaniana by Bruce Fink .Fink, Bruce. (z-lib.org)

fazer os pacientes se engajarem na terapia, lidar com sua angústia e suas demandas, manejar o amor transferencial, pôr de lado nossos sentimentos favoráveis (ou contrários) ao paciente, manter nossos preconceitos fora do contexto terapêutico, trabalhar com a agressão, o sarcasmo e a crítica do paciente, e assim por diante.


Ninguém na França passa a compreender Lacan pela leitura da principal obra que ele escreveu, os Escritos; como ele próprio disse, “eles não eram para ser lidos”


Aprenderam sobre o trabalho de Lacan em primeira mão – como uma prática


conceitos fundamentais: imaginário, simbólico e real; necessidade, demanda, amor, desejo, fantasia e gozo; sujeito, objeto e Outro; significante e significado; as três formas de negação (foraclusão, renegação e recalcamento) e as estruturas clínicas determinadas por elas; o desejo do analista, a pontuação e a sessão de duração variável


É claro que o paciente não quer realmente mudar. Se surgiram sintomas, se o paciente se empenha num comportamento sintomático, é porque uma grande quantidade de energia ficou presa nesses sintomas. O paciente investiu muito na manutenção das coisas do jeito que estão porque extrai dos sintomas aquilo a que Freud se referia como uma “satisfação substituta”, e não se pode induzi-lo facilmente a abrir mão dela (


Na verdade, é comum os pacientes procurarem a terapia por já não terem qualquer vontade de viver, ou de fazer coisa alguma, ou por intuírem que sua libido está sufocada e murchando. Em suma, seu desejo está morrendo.


É o desejo do analista, e não o enfraquecido desejo dos analisandos, que lhes permite prosseguir


Tais pacientes terminarão o tratamento quando seu próprio desejo de seguir adiante houver se tornado suficientemente forte e decidido


desejo de que o paciente fale, sonhe, fantasie, faça associações e interprete


contratransferência: os sentimentos do terapeuta despertados em suas relações com o paciente.


Se a percepção da realidade acarreta desprazer, essa percepção – isto é, a verdade – tem de ser sacrificada.


Satisfação”, contudo, talvez seja um termo “limpo” ou “arrumado” demais para descrever o tipo de prazer que os sintomas proporcionam. Todos nós conhecemos pessoas que vivem reclamando de falta de prazer na vida, porém nunca buscam a terapia. É que elas obtêm certa satisfação da sua própria insatisfação, bem como das queixas: de culpar os outros por sua falta de satisfação. Do mesmo modo, algumas pessoas extraem enorme prazer de se torturar, de se submeter a experiências dolorosas e assim por diante. Os franceses têm uma ótima palavra para esse tipo de prazer na dor, ou de satisfação na insatisfação: jouissance .gozo..


sintoma que proporcionava o gozo já não funciona, ou se encontra em perigo.


o que o terapeuta oferece, no começo, é uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente.


Ser “cliente” sugere que alguém é consumidor, que sabe exatamente o que está pedindo e o que vai receber


Embora “cliente” possa ser preferível, em alguns aspectos, a “paciente”, que tende a patologizar ou estigmatizar a pessoa em terapia, Lacan propõe um termo diferente: “analisando”


a pessoa em terapia quem faz o trabalho de analisar, não o analista


Embora não seja possível ao terapeuta lhe prometer felicidade nem cura, se necessário ele pode estender ao analisando a promessa de uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com as pessoas, um novo modo de funcionar no mundo


o analista não está interessado em ouvir a maior parte daquilo sobre que o analisando se dispõe a falar


o analista não pode tratar psicóticos do mesmo modo que neuróticos


diagnóstico de perversão ou psicose


Por isso as entrevistas preliminares, nas quais o analista pode fazer perguntas muito específicas, a fim de esclarecer alguns pontos cruciais para a formulação de um diagnóstico preliminar, permitem que ele forme uma visão geral da vida e da estrutura clínica do paciente.


Todavia, quando persiste na mente do analista uma dúvida a respeito do diagnóstico, a qual pode ser tamanha que o impeça de tratar esse paciente (por exemplo quando o analista não está familiarizado com o tratamento da psicose, como é examinado no Capítulo 7, ou quando não se sente à vontade com a posição em que tenderá a ser colocado ao se empenhar no tratamento da perversão, conforme discutido no Capítulo 9), as perguntas diretas são apropriadas.


o analista, no começo, é uma pessoa como outra qualquer, e só aos poucos é que a “pessoa” do analista cede lugar ao analista como ator, função, ocupante de um lugar, tela em branco ou espelho


A interpretação não tem praticamente nenhum efeito benéfico até que o analisando formule uma verdadeira demanda de análise e o analista comece a funcionar como pura função.


o analista sugere, com sua pontuação, que há outra leitura


possível, mas sem dizer qual é, nem sequer se ela é clara ou coerente


Ao enfatizar as ambiguidades, os duplos sentidos e os lapsos, o analista não chega propriamente a transmitir a ideia de que sabe o que o paciente “realmente quis dizer”, mas insinua que outros sentidos, talvez sentidos reveladores, são possíveis.


A pontuação do analista menos aponta ou amarra uma significação particular do que sugere um nível de significados a que o paciente não tem prestado atenção: significados não intencionais, significados inconscientes.


Outra maneira pela qual o analista pode intervir nos primeiros estágios é interromper a sessão num ponto que lhe parece de particular importância: talvez o paciente esteja negando algo vigorosamente, ou afirmando algo que descobriu, ou contando uma parte reveladora de um sonho, ou talvez tenha acabado de cometer um lapso. Ao interromper a sessão nesse ponto, o analista o acentua de forma não verbal, deixando claro ao paciente que acredita que aquilo é significativo e não deve ser tratado levianamente.


Depois de eles terem dito o que importa, não há necessidade de dar prosseguimento à sessão


Escandir a sessão numa formulação particularmente marcante do analisando é um modo de manter a atenção concentrada no essencial.


a frustração do analista por ter perdido a oportunidade de intervir.


É comum as manifestações do inconsciente serem acompanhadas pela surpresa


Freud e muitos outros analistas mencionam que os analisandos que tendem a faltar alegando estar fisicamente doentes curiosamente param de adoecer e de faltar a tantas delas quando lhes são cobradas as sessões a que faltam


À parte o fato de que toda afirmação pode constituir uma negação, o sentido nunca é óbvio.


O sentido é extremamente individual, em certos aspectos, e todos usam as palavras e expressões em sentidos sumamente particulares.


O sentido nunca é transparente, e o analista deve agir como quem não compreende, a ponto de se fingir de surdo, se necessário, para levar o paciente a explicitar o que quer dizer


a psicanálise está menos interessada no que ele quis dizer do que no que efetivamente disse.


No entanto, a fala truncada – na qual o contexto pode ficar bem pouco claro – certamente merece ser enfatizada, porque sua elucidação pode levar a um material novo e particularmente inesperado.


É por isso que Lacan dizia que o sentido é imaginário (Seminário 3, p.65.68.). Com isso não indicava que o sentido não existe, ou que é simplesmente algo que sonhamos na nossa imaginação. Lacan deixava implícito que o sentido está ligado a nossa autoimagem, à imagem que temos de quem e do que somos.


o sentido exclui aquilo que não combina com nossa autoima


Ao privilegiar o que os pacientes efetivamente diziam, e não o que pretendiam dizer, ao frisar as ambiguidades e lapsos que apareciam em suas falas, Lacan, como Freud, deu prioridade ao inconsciente em relação ao ego


Ao nunca presumir que compreendia o que eles queriam dizer, ao nunca dar a impressão de que falava a língua deles, ao atentar para as ambiguidades da fala deles e ao que se expressava como que nas entrelinhas, ele deu margem à emergência de novos sentidos, bem como à percepção de seus analisandos de que, na verdade, eles pouco tinham ideia do que diziam, de por que o diziam, ou até de quem falava quando abriam a boca.


receptivos à escuta do inconsciente, a ouvir a outra voz que fala através deles, e a tentar decifrá-la


os pacientes fazem novas demandas ao analista ao longo de toda a análise: demanda de interpretação, de reconhecimento, de aprovação e assim por diante.


O termo de Lacan para essa mudança – essa troca da demanda pelo desejo, esse abrir mão da fixação em prol do movimento – é “dialetização


Significa que o desejo é posto em movimento, libertado da fixação inerente à demanda.


O inconsciente nunca é aceito, o (sentido) imaginário predomina. Isso pode implicar uma de duas coisas. Talvez o paciente seja psicótico


talvez o analista não tenha criado um espaço em que o desejo possa se manifestar


Se seus pacientes presumissem que ele possuía um vasto conhecimento, e por isso fossem mais receptivos ao efeito do tratamento, tanto melhor; caso contrário, ele poderia prescindir dessa suposição.


O sujeito que se supõe saber algo de importância na psicanálise é o inconsciente do analisando.


A “autoridade final” no setting analítico, portanto, reside no inconsciente do analisando, não no analista como uma espécie de mestre do saber que apreende de imediato o que o analisando diz e o significado de seus sintomas. O analista, ao enfatizar sistematicamente o inconsciente e, no princípio, ao restringir suas intervenções à pontuação e à escansão, não se apresenta como alguém que já tenha visto aquilo tudo centenas de vezes e que, portanto, compreenda de imediato.5 Contudo, o analisando, que talvez esteja prestando atenção a manifestações do inconsciente pela primeira vez, tende a ver o analista como representante ou agente de cada uma dessas manifestações. O analisando não assume tais manifestações, e sim recusa a responsabilidade por elas. A responsabilidade é jogada no analista, e este deve concordar em ocupar o lugar dessas manifestações, dessas incógnitas. Portanto, talvez possamos dizer que não é o inconsciente do analisando que é a autoridade suprema, e sim o inconsciente tal como se manifesta através do analisando, pois essas manifestações são renegadas por ele como alheias ou estranhas, e não suas


analistas devem manter seus sentimentos pessoais e seus traços de caráter fora da terapia, revelando o mínimo possível deles mesmos, de seus hábitos, preferências e antipatias. Todo traço individualizante do analista atrapalha as projeções do analisando. Quanto menos concreto e nítido o analista parecer aos olhos do analisando, mais fácil será usá-lo como uma tela em branco.


a perspectiva de Lacan não é a de que os sentimentos contratransferenciais não existem, mas de que eles se situam no nível imaginário e, por isso, devem ser postos de lado pelo analista. Não devem ser revelados ao analisando, já que isso situaria analista e analisando no mesmo nível, como outros imaginários um para o outro, sendo ambos capazes de ter sentimentos, “grilos” e inseguranças semelhantes.8 Isso impede que o analisando ponha o analista no papel de Outro.


Em suma, qual é a postura que adotam com respeito aos objetos ideais designados pelo Outro parental, pelo Outro educacional, pelo Outro social?


A análise almeja dissipar progressivamente as relações imaginárias12 do analisando com seus amigos, colegas e irmãos (relações que tendem a preocupá-lo nas etapas iniciais da análise) mediante o trabalho de associação – conhecido como “elaboração”, ou, como costuma dizer Lacan, como “o trabalho da transferência”13 –, a fim de pôr em foco as relações simbólicas do paciente


Assim, a meta da análise, tal como conceituada por Lacan no início da década de 1950, é penetrar na dimensão imaginária que encobre o simbólico e confrontar as relações do analisando com o Outro. Nessa conceitualização, o imaginário e o simbólico operam em sentidos conflitantes.14 Enfatizar o simbólico é diminuir a importância do imaginário. No entanto, se o analista se deixar colocar no papel de alguém parecido com o analisando (um outro imaginário, em contraste com o Outro simbólico), o ego do analista é que ficará situado num extremo do eixo imaginário, justapondo-se ao ego do analisando, e a análise ficará empacada em disputas de poder e identificações rivalizantes. Ao cair na armadilha das identificações imaginárias, o analista perde de vista a dimensão simbólica – “a única dimensão que cura”, no dizer de Lacan.


investigar suas próprias apreensões e reservas


Toda vez que o analisando expressa sua impressão de que o analista reprovou alguma coisa, cabe a este transformar isso em tema de interpretação: o analista não aceita nem recusa a projeção, mas a trata como um campo fecundo para associação, elaboração e interpretação


o analista permite que as projeções transferenciais continuem, interpretando não o fato da transferência (“você está projetando essa atitude em mim”), mas seu conteúdo – aquilo que é transferido ou projetado – e procurando religá-lo a sua fonte ou ponto de origem.


Pela própria natureza de seu trabalho, é comum o analista ser associado, aos olhos do analisando, com os valores da ordem estabelecida: trabalho árduo, sucesso acadêmico, seriedade, capitalismo etc. O fato de o analista se vestir de uma dada maneira, viver numa certa parte da cidade, decorar sua casa ou seu consultório num certo estilo e assinar as revistas específicas encontradas na sala de espera leva o analisando, muitas vezes, a vê-lo como representante de certos valores – valores que o analisando pode rejeitar por completo, tentar em vão abraçar ou buscar com sucesso, embora sentindo-se alienado nessa busca. É óbvio que tais valores estão ligados à “pessoa do analista”, ou seja, ao analista como indivíduo


Assim, o analista deve estar vigilante para destacar essas atribuições como interpretáveis – como mais reveladoras sobre o analisando que sobre o analista.


analista na posição de causa do desejo do analisando é, segundo Lacan, a força motriz da análise; em outras palavras, essa é a posição que o analista deve ocupar para que a transferência leve a algo além da identificação com o analista como ponto final da análise (identificação que é considerada a meta da análise por alguns psicanalistas).


Em outras palavras, somente ao presentificar na relação com o analista os conflitos psíquicos – como a agressão contra um dos pais ou o ódio a um parente – é que o paciente pode elaborá-los. Elaborá-los não significa que eles sejam intelectualmente vistos e “processados”, mas que o conflito libidinal interno que mantém instaurada uma relação sintomática com alguém precisa ter a possibilidade de se repetir na relação com o analista, e de se desenrolar.


Convém lembrar que uma das primeiras lições dos Estudos sobre a histeria, de Freud e Breuer, foi que verbalizar os acontecimentos traumáticos sem reviver o afeto concomitante deixava intactos os sintomas.22


Quando o analista tem a preocupação de “ser ele mesmo” ou “ela mesma”, ou de ser o “bom pai” ou a “boa mãe”, é provável que tente se distanciar imediatamente do papel em que o analisando o coloca, dizendo algo como “Não sou seu pai”, ou “Você está projetando”. A mensagem transmitida por esse tipo de afirmação é “Não me confunda com ele”, ou “Projetar não é apropriado”. Mas melhor seria o analista não estimular nem desestimular a situação de confusão de identidade que surge por meio da transferência de afetos e deixar a projeção de personas diferentes ocorrer como for o caso – a não ser, claro, que vá tão longe que chegue a pôr em risco a própria continuidade da terapia.


Apesar da intenção consciente de comunicar algo muito específico, o significado das palavras do indivíduo é sempre determinado por outras pessoas, pelo Outro.


Mas essa é a natureza da “comunicação”: falamos para expressar algo a outras pessoas, mas elas determinam – para nossa desolação, muitas vezes – o sentido do que foi dito, e às vezes baseiam decisões sérias na sua interpretação do que dissemos. O poder do ouvinte é considerável.3


levar os analisandos a sondarem seus próprios motivos de maneira mais aprofundada


Assim, a estratégia de “frustrar as demandas do paciente” é adotada não tanto para “manter os limites da situação analítica”, mas para trazer o desejo à tona


Ceder a todas as demandas do paciente pode até, no final, deixá-lo angustiado, porque quando não há falta – quando tudo que se pede é atendido – o desejo fica bloqueado. Não resta nada para desejar.


Entendida dessa maneira, a interpretação é familiar para os pais que acalmam o filho quando ele tem pesadelos interpretando-os para a criança. Esses pais procuram oferecer uma interpretação simples e tranquilizadora, destinada a acalmar o nervosismo da criança e lhe dar algo tangível a que ligá-lo: um programa de televisão visto mais cedo naquele dia, um personagem de um conto de fadas ou algo assim. Os pais que fazem essas interpretações podem saber ou não que, ao prenderem uma associação possível ao sonho, estão bloqueando o caminho de outras (por exemplo, o fato de que o personagem assustador do conto de fadas foi associado, na cabeça da criança, ao seu pai). Mas a preocupação dominante neles é muito prática: acalmar o filho.7


Em vez de fixar um significado em particular, ela deve procurar sugerir numerosos significados.


O que nos interessa é o que o inconsciente do analisando acha da interpretação – ou seja, o que é visto ou projetado por seu inconsciente quando lhe é concedido o papel de Outro (aqui, o Outro que sabe)


o analista diz algo polivalente o bastante para que tenha repercussão mesmo não sendo compreendido, para que desperte a curiosidade e o desejo de saber por que o analista disse o que disse, e para que convide a novas projeções.


quanto mais claro o significado atribuído pelo terapeuta, mais fácil para o paciente é identificar o terapeuta com determinada visão, opinião ou teoria e se rebelar contra ela no nível consciente


terapeuta com determinada visão, opinião ou teoria e se rebelar contra ela no nível consciente. O terapeuta passa a representar uma perspectiva específica (social, econômica, política, psicanalítica) e, seja o paciente favorável ou contrário a ela, isso impede o progresso da terapia.


Os analisandos, em sua maioria, acabam captando as motivações sexuais repetidamente frisadas pelo analista e começam, eles mesmos, a frisar esses temas sem qualquer ajuda externa. Mas há sempre algo que os analisandos não compreendem.


Uma das observações mais notáveis de Lacan sobre a interpretação é que ela bate no real,12 e uma das coisas que ele pretende dizer com isso é que ela bate naquilo em torno do qual o analisando gira repetidamente, sem conseguir formulá-lo. Há momentos em que o analista tem a impressão de que o analisando volta reiteradas vezes a alguma coisa, abordando-a por numerosos ângulos, mas sem nunca se dar por satisfeito com o que consegue dizer sobre ela.


Num caso assim, se o analista tiver uma boa ideia do que é aquilo em torno do qual o analisando gira sem parar, ele pode oferecer uma interpretação que tente enunciá-lo


A interpretação restabeleceu um elo que faltava na cadeia de seus pensamentos e sentimentos, e poderíamos dizer que “bateu no real”, no sentido de ter verbalizado (ou simbolizado) algo que, até então, nunca tinha sido posto em palavras


O REAL, tal como o apresentei até aqui, é aquilo que ainda não foi posto em palavras ou formulado. Podemos pensar nele, em certo sentido, como a ligação ou o elo entre dois pensamentos que sucumbiu ao recalcamento, e que precisa ser restabelecido.13 O real também pode ser pensado como aquilo que Freud chama de trauma – acontecimentos traumáticos (geralmente sexuais ou envolvendo pessoas em quem o sujeito fez um investimento libidinal) que nunca foram discutidos, postos em palavras ou verbalizados. Esse real, segundo Lacan, tem de ser simbolizado através da análise: tem de ser falado, posto em significantes (“significantizado”). Como disse Jacques-Alain Miller, a análise envolve a “drenagem” progressiva do real para o simbólico.14 Visando ao real, a interpretação ajuda o analisando a pôr em palavras aquilo que levou seu desejo a ficar fixado ou entravado


O desejo humano, estritamente falando, não tem objeto. Na verdade, ele não sabe muito bem o que fazer com objetos. Quando você consegue o que quer, não pode mais querê-lo, porque já o possui. O desejo desaparece ao atingir seu objeto aparente.


O obsessivo deseja algo inatingível, daí a realização de seu desejo ser estruturalmente impossível. O histérico, por outro lado, trabalha para manter insatisfeito um certo desejo;


Mas a afirmação de Lacan é que, mesmo depois de uma “análise bem-sucedida”, o desejo busca, essencialmente, sua própria continuação; todavia, graças a uma reconfiguração do sujeito em relação à causa de seu desejo, o desejo já não impede a busca de satisfação pelo sujeito (como veremos mais adiante).4


O analista, ao atribuir sentido a todas essas coisas, torna-se a causa das indagações, ponderações, ruminações, sonhos e especulações do analisando – em suma, a causa do desejo do analisando.8


descobrimos que certos objetos são cobiçados pelo Outro e aprendemos a querê-los, nós mesmos, moldando nosso desejo no desejo do Outro.


todo sintoma provém de pelo menos dois desejos, forças ou impulsos conflitantes: amor e ódio, apetite sexual e inibição, e assim por diante


A análise, nesses casos, pareceria simplesmente envolver um desatamento dos nós do desejo do analisando.
Mas a sujeição, submissão ou subjugação do neurótico ao Outro é muito maior do que essa metáfora (“desatar os nós do desejo”) sugere. O desejo do neurótico não é “dele”, para começo de conversa, porque nunca foi subjetivado. A subjetivação é a meta da análise – a subjetivação da causa, isto é, do desejo do Outro como causa.


a relação fundamental entre o sujeito (não o ego) e sua causa eletiva, o sujeito tal como posicionado em relação à causa. A notação ou fórmula lacaniana para isso é , onde o S atravessado pela barra representa o sujeito dividido em consciente e inconsciente, o representa a causa do desejo e o losango representa a relação entre os dois.15


O analista não pede que o sujeito melhore nem que se torne normal;o analista não solicita nada, não impõe nada. Está ali para que o sujeito possa ganhar acesso à verdade do seu desejo, seu próprio desejo, e não para responder à demanda do Outro.


a reiterada tentativa dos neuróticos de adotar o ideal do eu do Outro encontra-se no próprio âmago de sua neurose: eles ficam presos à demanda do Outro.


tão logo surge um novo representante do Outro – quando, por exemplo, o analisando não se identificou inteiramente com o analista, de sorte que ainda é capaz de seguir uma profissão diferente, com um chefe a impressionar, outros profissionais de sucesso a imitar e assim por diante –, o mesmo problema tende a ressurgir: o neurótico tenta discernir o que esse novo Outro quer dele e conformar-se a isso (ou revoltar-se contra isso, mas pelas mesmas razões).


Em certo sentido, portanto, há aí duas etapas do trabalho da transferência: 1. o analista deve contornar as demandas do analisando, a fim de incentivar seu desejo a vir à tona, por mais sufocante que seja isso sob a influência coercitiva do desejo do Outro, o que implica uma transição de e 2. o analista deve acarretar uma reformulação da interpretação que o analisando faz do desejo do Outro e uma mudança em sua posição subjetiva, que se baseia nessa interpretação. Podemos nos referir à primeira etapa como dialetização (do desejo) e à segunda como reconfiguração (ou travessia da fantasia fundamental).


analisando transita de ser o sujeito que demanda (bem como sujeitado à demanda do Outro) para ser o sujeito que deseja (além de estar sujeito ao desejo do Outro), e, mais adiante, para ser o sujeito que goza (e que não mais está sujeito ao Outro)


progressivamente desestimulado (chupar o dedo


É à perda da satisfação, seja ela autoerótica ou aloerótica (envolvendo outra pessoa, como a mãe), que Lacan se refere como “castração”


sujeito constitui-se como uma postura adotada em relação a essa perda de gozo. O objeto pode ser entendido como o objeto (agora perdido) que proporcionava esse gozo, como uma espécie de resto-lembrete desse gozo perdido.35


Pois o prazer, quando proibido pelos pais, assume um significado adicional, um significado que envolve os pais e o desejo dos pais. O prazer corporal “ingênuo”, “simples”, é transformado em gozo – algo muito mais erótico, sujo, travesso e malvado, algo realmente excitante –, graças à proibição. A proibição erotiza. Quanto mais forte a proibição, maior se torna a carga erótica do ato específico que é proibido.


Isso é uma maravilha.
Pode-se matar o pai por isto.”


Embora o Homem dos Ratos tenha aberto mão de uma boa parcela de seu prazer diretamente sexual na vida, ele continua tentando encontrar um pouquinho desse prazer aqui e ali. Não consegue achar ânimo para se rebelar abertamente contra os desejos do pai morto, casando-se com alguém com quem possa assegurar-se de tais prazeres,38 mas estabelece relações clandestinas com uma enfermeira, num sanatório onde supostamente faz hidroterapia, e, vez por outra, com criadas e garçonetes. Continua a tecer fantasias sobre conquistar a estima do pai (por exemplo, ao estudar até tarde da noite, às vezes ele abre a porta da entrada, imaginando que o fantasma do pai chega para vê-lo e o encontra empenhado no trabalho), mas, ao mesmo tempo, tenta afirmar sua própria sexualidade (na mesma fantasia em que o pai o vê estudando, o Homem dos Ratos para diante do espelho e contempla seu pênis ereto (p.204)). Todas essas atividades e fantasias (embora muito mais complicadas e multifacetadas do que sugeri aqui) indicam que ele continua a lamentar ter sacrificado o prazer sexual: de modo algum fez as pazes com sua castração.


A luta suprema da análise – a de fazer o analisando assumir a responsabilidade por sua castração, em vez de exigir do Outro uma compensação por ela – é travada entre o analisando e o analista, que fica no lugar do Outro (e, ao mesmo tempo, do objeto perdido). O analisando deve ser levado até o ponto de não mais culpar o analista (como objeto ou Outro) por seus problemas, e de não mais buscar compensação ou retribuição. Ao mesmo tempo, confrontado com o desejo constante do analista de que ele continue em análise, o analisando deve chegar a um ponto em que os desejos do analista não tenham poder ou influência sobre ele.


os diagnósticos lacanianos encontram aplicação imediata, orientando os objetivos do clínico e indicando a posição que o terapeuta deve adotar na transferência.


algumas metas e técnicas usadas com os neuróticos são inaplicáveis aos psicóticos. Não só elas são inaplicáveis, como podem até se revelar perigosas, desencadeando um surto psicótico


ele é crucial para determinar a abordagem geral do terapeuta no tratamento de um paciente individual, para situá-lo corretamente na transferência e para que o terapeuta faça tipos específicos de intervenções.


Entretanto, situar o paciente em termos preliminares como mais provavelmente neurótico ou psicótico é muito importante, e a própria impossibilidade de o clínico situar um paciente nesse nível deve incliná-lo a agir com cautela nas entrevistas preliminares


Por ora, basta dizer que Freud o emprega para descrever não uma simples rejeição de uma coisa do ou pelo ego (poderíamos falar dessa maneira do recalcamento), nem a recusa a admitir algo todavia visto e guardado na memória (poderíamos falar do desmentido dessa maneira), mas sim para descrever o ejetar de dentro de si – e não apenas do ego – uma parte da “realidade”.


três formas fundamentalmente diferentes de negação (Verneinung):


O indivíduo torna-se neurótico por causa do recalcamento


a foraclusão é a causa da psicose


O paciente não está na fronteira entre duas estruturas clínicas: o clínico é que hesita na fronteira em suas ponderações diagnósticas.8


A foraclusão, assim como o recalcamento, não é algo que o clínico possa “ver” diretamente, não está disponível à percepção. Ela deve ser inferida do material clínico apresentado aos analistas e no que eles conseguem provocar.


A foraclusão envolve a rejeição radical de determinado elemento da ordem simbólica


ela envolve o elemento que, em certo sentido, lastreia ou ancora a ordem simbólica como um todo. Quando esse elemento é foracluído, toda a ordem simbólica é afetada


a linguagem funciona de maneira muito diferente na psicose e na neurose.


De acordo com Lacan, o elemento foracluído na psicose concerne intimamente ao pai.


a função paterna numa família nuclear coloca-se geralmente entre a mãe e o filho, impedindo que a criança seja inteiramente atraída para dentro da mãe e impedindo a mãe de tragar seu filho. Lacan não afirma que todas as mães tendem a sufocar ou devorar seus filhos (embora algumas o façam); o que ele diz, antes, é que as crianças “percebem” o desejo da mãe/Outro maternod como perigoso ou ameaçador


desejo do filho de que a mãe o tome como a única coisa que importa (o que, em última instância, aniquilaria a criança como ser separado da mãe), e em outros, a reação a uma autêntica tendência, por parte da mãe, a obter com o filho uma espécie de satisfação que ela não conseguiu obter em outros lugares.


Em qualquer dos casos o resultado é o mesmo: o pai mantém a criança a certa distância da mãe, frustrando a tentativa do filho de se tornar ou permanecer eternamente uma coisa só com a mãe, ou proibindo a mãe de obter certas satisfações com o filho, ou ambas as coisas. Dito de outra maneira, o pai protege o filho do désir de la mère (que tanto significa o desejo da criança pela mãe quanto o desejo materno) – ou seja, de um perigo potencial. O pai protege a criança da mãe como desejo (como desejante ou desejada), instalando-se como aquele que proíbe, impede, frustra e protege: em síntese, como aquele que dita a lei em casa, dizendo à mãe e ao filho o que é e o que não é permitido.


A função paterna é uma função simbólica


o funcionamento do pai como parte da fala – isto é, como um elemento no discurso da mã


Aqui, a função paterna é exercida pelo nome “pai”, na medida em que a mãe se refere a ele como uma autoridade que está além dela, um ideal que está além dos seus próprios desejos


Na psicanálise lacaniana, a função paterna é considerada tudo ou nada: ou o pai (como nome, substantivo ou “Não.”) foi capaz de assumir a função simbólica em questão, ou não foi. Não há meio-termo.4


De modo similar, ou a função paterna é atuante numa certa idade, ou nunca o será.


A psicanálise lacaniana, embora proponha ajudar o psicótico, não tem como modificar sua estrutura: uma vez psicótico, sempre psicótico


A alucinação é uma forma típica de “pensamento” do processo primário e desempenha um papel nos devaneios, fantasias e sonhos. Portanto, está presente em todas as categorias estruturais – neurose, perversão e psicose


Ao sondarmos a natureza subjetiva da experiência, alguns traços distintivos se destacam. Por exemplo, o paciente havia ficado surpreso com essa imagem ou visão e dissera a si mesmo que sua ex-mulher não poderia ter entrado na casa sem ele notar, e com isso questionou a realidade não da sua experiência (a imagem ou visão), mas do conteúdo da imagem. Ele havia olhado de relance para duas pessoas sentadas ali perto e, ao olhar novamente para o corredor, a ex-mulher tinha sumido. Em momento algum ele acreditou que a pessoa estivesse realmente lá; achou que tinha visto alguma coisa – isto é, acreditou na visão –, mas não confiou nela.7 Não acreditou que aquilo que se havia apresentado fosse real ou tivesse qualquer motivo para ser tomado como real.
Em termos superficiais, poderíamos dizer que ele soube distinguir entre a fantasia (a realidade psíquica) e a realidade (a concepção ocidental da realidade social/física que ele havia assimilado ao longo da vida inteira).


A certeza é característica da psicose, ao passo que a dúvida não o é


Em contraste, o que domina o quadro clínico no caso da neurose é a dúvida


Mas a alucinação autêntica requer um sentimento de certeza subjetiva por parte do paciente, a atribuição de uma autoria externa, e está relacionada ao retorno de fora de algo que tinha sido foracluído


e nesse processo tal língua nos moldará: ela molda nossos pensamentos, nossas demandas e nossos desejos


como vir a estar na linguagem, como encontrar nela um lugar para nós mesmos e como torná-la nossa no máximo grau possível


De modo ainda mais radical, podemos rejeitar quase completamente a nossa língua materna, se a associarmos a nossos pais e a um discurso (educacional, religioso, político etc.) que execramos, só nos sentindo à vontade numa língua estrangeira.20


A alienação nunca é completamente superada, porém ao menos uma parte da língua acaba sendo “subjetivada”, tornada própria.


o psicótico tem a impressão de ser possuído por uma língua que fala como se viesse não de dentro, mas de fora.


A NÃO REESCRITA DO IMAGINÁRIO PELO SIMBÓLICO


espelho corresponde à época em que a vida da criança ainda é extremamente incoordenada, um mero feixe de percepções e sensações sem qualquer unidade. De acordo com Lacan, a imagem especular da criança é a primeira a lhe proporcionar uma imagem de sua unidade e coerência, uma imagem que ultrapassa tudo que já foi alcançado em termos de desenvolvimento. A imagem especular é jubilantemente investida de libido pela criança e internalizada, tornando-se o núcleo, o cerne, a matriz ou o molde do ego infantil. Sucessivas “autoimagens”, refletidas para a criança por pais, professores e outras pessoas, cristalizam-se em torno dela. Lacan considera que o estádio do espelho proporciona uma imagem estruturante, que introduz ordem no caos anterior de percepções e sensações. Ele leva ao desenvolvimento de um sentimento do eu, antecipando uma espécie de unidade ou identidade pessoal que ainda está por ser realizada. E é ele que finalmente torna a criança capaz de dizer “eu


O registro imaginário – o das imagens visuais, auditivas, táteis, olfativas e de outras percepções sensoriais de toda sorte,


é reestruturado, reescrito ou “substituído” pelo simbólico, pelas palavras e frases usadas pelos pais para expressar sua visão do filho


A substituição do imaginário pelo simbólico (a via do “normal” ou do “neurótico comum”) leva à eliminação ou pelo menos à subordinação de relações imaginárias, caracterizadas por rivalidade e agressividade (como foi visto no Capítulo 3), a relações simbólicas, dominadas pela preocupação com ideais, figuras de autoridade, lei, desempenho, realização, culpa etc


Na psicose, essa reescrita não ocorre. No nível teórico, podemos dizer que isso se deve ao estabelecimento malsucedido do ideal do eu, ao não funcionamento da metáfora paterna, à não iniciação do complexo de castração e a uma variedade de outras coisas. O importante é que o imaginário continua a predominar na psicose, e que o simbólico, na medida em que chega a ser assimilado, é “imaginarizado”: é assimilado não como uma ordem radicalmente diferente, que reestrutura a primeira, mas assimilado simplesmente por imitação de outras pessoas.


Na medida em que o ideal do eu serve para ancorar o senso que se tem de si mesmo, para ligá-lo à aprovação ou ao reconhecimento por um Outro parental, sua ausência deixa o indivíduo com uma ideia precária de si, com uma autoimagem passível de murchar ou evaporar em certos momentos cruciais


Não sei de onde vem a minha voz.” As “fronteiras” do ego não são simplesmente flexíveis, como às vezes são descritas na neurose, mas praticamente inexistentes, levando a um perigoso sentimento de que outra pessoa ou força está tentando usurpar o lugar do doente.31 Sem a ajuda da linguagem, que denomina e delimita – quando sua estrutura é assimilada, e não apenas imitada32 –, as relações imaginárias prevalecem, como veremos adiante.


Comprova-se que a linguagem não é assimilada pelos psicóticos pelo fato de eles serem incapazes de criar metáforas como os neuróticos sabem fazer. É óbvio que usam metáforas, já que estas são parte de toda língua natural; e são bem capazes de empregar as metáforas utilizadas pelos que os cercam, as encontradas em suas leituras etc. Entretanto, são incapazes de cunhar novas metáforas.


O discurso do psicótico é curiosamente desprovido de metáforas originais, especificamente dos recursos poéticos por meio dos quais a maioria das pessoas consegue criar novos significados.


a criança é forçada a abrir mão de certo gozo, de certa relação com a mãe, em função de uma demanda ou uma ameaça feita pelo pai. Em suma, isso corresponde ao que Freud chama de “recalcamento primário”, ou ao que poderíamos denominar “recalcamento inicial”.34


A proibição, como vimos, cria o desejo: só quando algo me é recusado é que vejo pela primeira vez o que quero, o que me falta, o que não posso ter


O sentido primário, o significado fundamental originado pela metáfora paterna, é que meu desejo por minha mãe é errado. Não importa o que eu venha a pensar dele mais tarde – achando, por exemplo, que eu não deveria ter cedido à proibição do meu pai, porque ele nunca me ofereceu nada em troca, nunca me proporcionou satisfações substitutas –, esse primeiro sentido, uma vez estabelecido, é inabalável e não pode ser extirpado.


O resultado da metáfora paterna é, antes, ligar um significado específico a determinadas palavras (Figura 7.3), sem considerar um referente absoluto (isto é, sem recorrer a uma realidade absoluta mítica que ultrapasse a realidade criada ou recortada do real pela linguagem). A metáfora paterna cria um significado fundador, inabalável.


Quando, posteriormente, todo o resto pode ser questionado, inclusive os porquês desse sentido fundador, é precisamente pelo fato de, antes de mais nada, aquele ponto de capitonê original – uma espécie de nó – ter sido atado. Sem ele, tudo se desarticula. Como disse Rachel Corday, por mais que ela tentasse juntar um sentimento de eu numa ponta, ele “se desatava .constantemente. na outra”. Sem esse ponto importantíssimo, o tecido do seu eu se desfazia, e era por isso que tantas vezes ela “perdia o fio da meada”.39


Na psicose, a metáfora paterna não funciona, e a estrutura da linguagem (que permite a possibilidade da substituição metafórica) não é assimilada


interrupção de uma frase proferida pela voz ouvida pelo psicótico rompe a cadeia que vinha se formando e expõe seus componentes como unidades ou coisas isoladas, e não como elos.41 Isso sugere uma perturbação no processo habitual de criação de sentido, e se relaciona com a ideia de que para o psicótico as palavras são coisas.


Muitas vezes já se observou que os psicóticos mostram certa predileção por neologismos.
Incapaz de criar novos sentidos usando as mesmas velhas palavras e a metáfora, o psicótico é levado a cunhar novos termos, aos quais atribui uma importância que frequentemente descreve como inefável ou incomunicável


A distinção lacaniana elementar entre imaginário e simbólico pode servir como poderosa ferramenta clínica na distinção entre psicose e neurose. O neurótico, embora tenda a expor uma multiplicidade de conflitos mais ou menos significativos com amigos e colegas – isto é, com outros semelhantes a ele –, comumente deixa claro ao terapeuta, desde as primeiras sessões, que sua queixa principal é quanto ao Outro simbólico. Isso pode expressar-se através de reclamações sobre pais, figuras de autoridade, expectativas sociais ou problemas de autoestima, todos os quais sugerem um conflito no nível em que o paciente se vê, em termos dos ideais do Outro (ou seja, no nível do seu ideal do eu ou supereu), como insatisfatório, insuficiente, culpado


O psicótico, por outro lado, apresenta as coisas de outra maneira: o conflito parece dar-se com outros da sua idade – rivais, concorrentes ou amores. Eles não estão todos tentando obter a aprovação de uma mesma figura de autoridade; em vez disso, um deles está usurpando o lugar do psicótico


Na psicose, assim como o imaginário não é sobrescrito pelo simbólico, as pulsões nunca são hierarquizadas no corpo, exceto por imitação. Em outras palavras, a hierarquia que pode ser aparente não é irrevogável: não representa um sacrifício tão definitivo do gozo quanto a hierarquização por que passa o neurótico durante a socialização, e na qual a libido é canalizada (mais ou menos completamente) do corpo em geral para as zonas erógenas.


as zonas erógenas.45 Somente nessas zonas o corpo continua vivo, em certo sentido, ou real. Nelas, a libido (ou gozo) é canalizada e contida. Não é o que acontece na psicose: a hierarquia das pulsões que é obtida imaginariamente pode desabar quando a ordem imaginária que a sustenta vacila. O corpo, que em sua maior parte fora libertado do gozo, é subitamente inundado por ele, invadido por ele. E o gozo volta violentamente, diríamos, porque é bem possível que o psicótico o vivencie como um ataque, uma invasão ou um arrombamento.


A ausência da função paterna afeta todas as funções simbólicas, de modo que não é de admirar que afete tudo que comumente associamos à moral e à consciência.


significa, antes, que até a menor provocação pode levá-lo a ter um comportamento gravemente punitivo


Por isso, o psicótico é mais propenso à ação imediata, e é atormentado por pouca ou nenhuma culpa


O psicótico pode manifestar vergonha, mas não culpa. A culpa exige o recalcamento: só é possível sentir culpa quando se sabe ter desejado secretamente infligir danos, ou ter se comprazido em fazê-lo. Na psicose, nada é recalcado, de modo que não há segredos guardados de si mesmo.


Essa posição feminina pode ficar encoberta durante um longo período, enquanto o homem psicótico se identifica com os irmãos e amigos varões, imitando-os em sua tentativa de agir como homem. Quando ocorre um surto psicótico,52 as identificações imaginárias ou “muletas imaginárias” (Seminário 3, p.231.240.) do paciente desmoronam, e sua posição essencialmente feminina reemerge ou se impõe a ele


pai que estabeleceu apenas uma relação imaginária com seu filho varão, não uma relação simbólica


quando falta a função paterna na vida do menino, a totalização não ocorre, e o menino adota um certo elemento da estrutura feminina


O psicótico, por outro lado, caracteriza-se pela inércia, pela falta de movimento ou dialética em seus pensamentos e interesses


O psicótico, porém, reitera vez após outra as mesmas frases; a repetição substitui a explicação. A “dialética do desejo” não tem lugar. Não há nenhum desejo propriamente humano nas psicoses. Onde falta a estrutura da linguagem, falta também o desejo. Onde falta o recalcamento – onde a transparência não deu lugar à opacidade, no tocante a meus pensamentos e sentimentos, que resulta do recalcamento –, faltam também o questionamento e a reflexão intrigada: não posso questionar meu passado, minhas motivações nem sequer minhas ideias e sonhos. Eles simplesmente existem.


Quando falta na ordem simbólica um elemento crucial (o Nome-do-Pai), ela não pode ser consertada estruturalmente, ao que saibamos; mas pode ser respaldada ou “suplementada” (para usar o termo lacaniano) por outra ordem. No trabalho inicial de Lacan, é com o imaginário que se conta para tapar o buraco do simbólico


A meta, enunciada em termos superficiais, é devolver o imaginário ao estado estável que o caracterizava antes do surto psicótico.57


querendo recomeçar, construir do zero um relacionamento com o pai, Roger lhe pediu que deixasse o passado para trás e lhe disse que “o pai precisa de um filho para viver, assim como o filho precisa de um pai”. A resposta dada pelo pai diz tudo: “Prefiro me apegar a um cachorro” .Je m’attacherais plutôt à un chien..
A tentativa de Roger de estabelecer uma relação com o pai não difere muito, à primeira vista, da tentativa comuníssima do neurótico de reatar os vínculos com um pai que, a seu ver, não proporcionou elogios, reconhecimento nem amor suficientes.


Vemos aí, num caso muito concreto, que o pai, tal como geralmente o entendemos em nossa sociedade, é uma função simbólica, não uma função biológica (real, física, genética). O pai é alguém que desempenha um papel específico na vida dos filhos, não simplesmente alguém cujo nome aparece num pedaço de papel, por mais oficial que este seja. É óbvio que algum varão forneceu à mãe de Roger o esperma necessário para que ela concebesse o filho, mas este, ainda assim, não se sente filho de homem algum, não sente ter um pai.


Durante dois anos, Roger comparece mecanicamente às sessões com seu primeiro terapeuta, levando montanhas de textos para ele: escreve meticulosamente seus sonhos, os quais datilografa, decora e recita de cor em suas sessões. (Esse tipo de produção “literária” abundante é uma característica extremamente comum na psicose


Ao fornecer uma espécie de interpretação, o terapeuta sugere a Roger que seus sonhos têm um significado do qual ele não tinha conhecimento; até então, Roger via seus sonhos como nada além de bonitas imagens e histórias, as quais achava muito agradáveis. Com essa intervenção, o terapeuta tenta situar-se não no lugar da testemunha, do repositório voluntário dos sonhos, escritos e pensamentos do paciente, mas no lugar do Outro: no lugar ou lócus em que o sentido é determinado.


No trabalho com neuróticos, como vimos em capítulos anteriores, o terapeuta deve situar-se como o Outro que escuta naquilo que o neurótico diz algo que não é o que o neurótico pretendia conscientemente. Pois é dessa maneira que o sentido é problematizado e o analisando começa a se dar conta de que nem sempre sabe o que está dizendo.


Em outras palavras, tentou situar-se numa relação simbólica com Roger quando esses lugares, sujeito e Outro, não existiam para o paciente


Em vez de um sujeito capaz de responder ao Outro, o que aparece é um buraco ou um vazio gigantesco. Na ausência de um sujeito do sentido – um sujeito radicado num significado inicial, estabelecido pela metáfora paterna –, Roger começa a atribuir um significado ameaçador a toda sorte de coisas que, antes da interpretação do terapeuta, não tinham tal significação


A presença do terapeuta se manteve tranquilizadora para Roger até o terapeuta tentar se tornar algo mais semelhante a um pai simbólico, tentar “.situar-se. na posição terceira em alguma relação que tenha por base o par imaginário - ’ .ego/alter-ego.”


Roger parou quase completamente de recitar os sonhos de cor ao sentir que, ao contrário do primeiro terapeuta, Schaetzel não tentaria explodir o significado de sua fala (que já era tênue em sua própria mente), não tentaria evocar ou insinuar significados que Roger não pretendia lhe dar.


O Nome-do-Pai assim como a proibição paterna, nunca tinha sido aceito por Roger nem imposto a ele, para começo de conversa, e o Outro como lócus nunca havia surgido. O recalcamento primário nunca tinha ocorrido, de modo que vemos no caso de Roger aquilo a que Lacan se refere como foraclusão do Nome-do-Pai ou do “Não.” do pai. Embora “foraclusão” sugira uma tentativa ativa de recusar ou rejeitar algo, vemos aí, como tantas vezes acontece, uma simples ausência da proibição paterna levando à não inscrição ou não instalação do pai como Outro simbólico.


Agora o terapeuta não pode ter esperança de fazer uma triangulação; deve concentrar todos os seus esforços no registro imaginário, que está presente e atuante, para torná-lo tão resistente e sólido quanto possível


O que significa isso, exatamente, no caso de Roger? Ele diz a Schaetzel que quer “compreender o que .lhe. aconteceu” (p.193). E é precisamente isso que o terapeuta pode ter esperança de conseguir com um psicótico: ajudar o paciente a construir uma compreensão, edificar um mundo de significação que permita ao indivíduo viver e encontrar um lugar para si.


Com os neuróticos, o terapeuta tem de trabalhar muito para impedir que eles entendam depressa demais, porque eles veem o que querem ver e compreendem o que lhes agrada compreender. Uma vez que o ego volta a se cristalizar ou a se constituir em torno de cada novo significado, cada nova compreensão, o terapeuta tenta perturbar a atividade demasiadamente rápida e convencional de criação de sentido no neurótico, na esperança de afetar


afetar o que é inconsciente, e não o ego. Com o psicótico, porém, o terapeuta deve incentivar essa atividade de criação de sentido, porque o ego é a única coisa com que se pode trabalhar: o terapeuta precisa construir no psicótico um senso de eu que defina quem ele é e qual é seu lugar no mundo.


“metáfora delirante” (Escritos, p.577.584.): um novo ponto de partida com base no qual o psicótico estabelece o significado do mundo e de tudo que existe nele


Lacan refere-se a essa nova visão de mundo como metáfora delirante porque, em alguns aspectos, ela faz as vezes da metáfora paterna, permitindo que palavras e significados se liguem de maneira relativamente estável e duradoura.


Ele conseguiu finalmente encontrar um lugar para si num mundo de sua própria criação.


O questionamento lacaniano dos discursos que incentivam a eliminação da função paterna seria mais ou menos assim: “Pode alguma coisa da ordem da metáfora paterna – que proporciona o vínculo fundamental entre significante e significado, entre linguagem e sentido – ser instaurada sem o pai como função simbólica? Caso contrário, há alguma outra maneira de introduzir um terceiro, isto é, de triangular a relação mãe/filho e prevenir a psicose? Como se pode fazer isso sem contar com a ordem simbólica e com sua capacidade de interceder no imaginário, no mundo da rivalidade e da guerra? Será que um dos sexos não tem que desempenhar o papel do representante simbólico?”


A neurose, claro, pode ser caracterizada de muitas maneiras. Em contraste com a psicose, ela implica a instalação da função paterna, a assimilação da estrutura essencial da linguagem, a primazia da dúvida em relação à certeza, uma inibição considerável das pulsões, em oposição à sua desinibida colocação em ato,1 uma tendência a encontrar mais prazer na fantasia do que no contato sexual direto, o mecanismo de recalcamento em contraste com a foraclusão, o retorno do recalcado como que de dentro, sob a forma de lapsos freudianos, atos falhos e sintomas – e a lista continua… Diversamente da perversão, a neurose envolve a predominância da zona genital sobre as outras zonas erógenas, certo grau de incerteza sobre o que excita o indivíduo, considerável dificuldade para buscar isso, mesmo quando se sabe o que é, uma recusa a ser a causa do gozo do Outro, e assim por diante.


O mecanismo fundamental que define a neurose é o recalcamento. O recalcamento é responsável pelo fato de que, enquanto o psicótico pode revelar toda a sua “roupa suja” sem dificuldade visível, expondo abertamente todos os sentimentos e atos escabrosos que qualquer outra pessoa teria vergonha de divulgar, o neurótico esconde essas coisas longe dos olhos, tanto dos dele quanto dos de terceiros. Lacan expressa a situação do psicótico dizendo que o seu inconsciente fica abertamente exposto para quem quiser ver (à ciel ouvert).2 Em certo sentido, na verdade, não há inconsciente na psicose, visto que o inconsciente é resultado do recalcamento.


Lacan sugere que o inconsciente é uma linguagem (Seminário 3, p.20.21.), uma espécie de língua estrangeira que não sabemos ler de imediato. Seguindo as


o que é recalcado não é a percepção nem o afeto, mas os pensamentos referentes às percepções,5 os pensamentos a que o afeto está ligado. Em outras palavras, o inconsciente compõe-se de pensamentos, e os pensamentos só podem se expressar ou formular em palavras – ou seja, em significantes


O “esquecimento” do pensamento, acompanhado pela persistência do afeto, é especialmente comum na histeria.


Muito comum na neurose obsessiva é a situação em que um pensamento – por exemplo, a lembrança de determinado acontecimento infantil – é perfeitamente acessível à consciência, porém não evoca nenhum afeto. O obsessivo recorda o acontecimento mas não sua reação ou emoção na ocasião


Freud deixou que o analisando reproduzisse esses sentimentos no cenário analítico e o cobrisse de insultos, no lugar de um substituto extremamente paciente do pai do Homem dos Ratos. Graças a um deslocamento (do pai para o analista), o afeto pôde vir à tona.


O sintoma neurótico desempenha o papel da língua .langue. que permite exprimir o recalque”


No caso dos sintomas conversivos – isto é, sintomas que se expressam no corpo (e vão desde pequenas dores e mal-estares, apertos no peito, sensações de formigamento, ardência e tonteira até enxaquecas, paralisias, cegueira, mutismo e surdez) –, o meio adotado pelos sintomas é um corpo inscrito pela linguagem, um corpo cheio de inscrições de significantes.


É lugar-comum dizer que a obsessão se caracteriza pelo retorno do recalcado na mente, enquanto a histeria se caracteriza pelo retorno do recalcado no corpo. Embora seja verdade que o obsessivo tende a ser atormentado por ideias perturbadoras (pensamentos que parecem absurdos, compulsivos ou até persecutórios), e o histérico por queixas físicas que podem modificar-se consideravelmente com o tempo, essa não é uma regra inflexível e não proporciona uma distinção confiável entre obsessão e histeria


As diferentes “estruturas clínicas” (isto é, categorias diagnósticas) dentro da categoria estrutural mais ampla da neurose – todas as quais são definidas pelo mecanismo do recalcamento – correspondem, segundo Lacan, a diferentes posições do sujeito, não a sintomas diferentes.


Em seus primeiros trabalhos, Freud fez várias tentativas de definir a obsessão e a histeria com base nas maneiras bastante específicas de as pessoas reagirem às experiências sexuais primeiras (primárias); uma das definições mais notáveis que ele propõe é que os obsessivos reagem com culpa e aversão, enquanto os histéricos reagem com nojo ou repugnância


a fantasia do obsessivo implica uma relação com um objeto, mas o obsessivo se recusa a reconhecer que esse objeto está relacionado com o Outro


Embora o objeto sempre surja, segundo Lacan, como aquilo que cai ou é perdido quando o sujeito se separa do Outro (ver Figura 8.1), o obsessivo se recusa a reconhecer qualquer afinidade entre o objeto e o Outro


o obsessivo toma o objeto para si e se recusa a reconhecer a existência do Outro, muito menos o desejo do Outro.


Ao contrário, na fantasia da histérica (e vou me referir à histérica como “ela”, já que quase todas as histéricas são mulheres), a separação é superada à medida que o sujeito se constitui não em relação ao objeto erótico que “perdeu”, mas ao objeto que falta ao Outro. A separação leva a histérica a apreender sua perda em termos da perda da mãe/Outro materno, da queda do objeto que ela fora para a mãe/Outro materno. Ela intui que a mãe não é completa como mãe/Outro materno sem seu filho, e se constitui como o objeto necessário para tornar a mãe/Outro materno inteira ou completa (o objeto que veda ou tapa o desejo da mãe/Outro materno).21 Se essa relação não for triangulada por meio do Nome-do-Pai, o resultado pode ser a psicose; mas, quando ela é triangulada, a histérica se constitui como o objeto que faz o Outro desejar, já que, desde que o Outro deseje, sua posição de objeto está garantida: um espaço lhe é assegurado dentro do Outro.


Em vez de tomar o objeto para si, como na obsessão, a histérica procura adivinhar o desejo do Outro e se tornar o objeto específico que, quando falta, faz o Outro desejar. Ela se constitui, no lado do sujeito da “equação”, como objeto (ver Figura 8.3). A fantasia fundamental pode ser vista como uma resposta à separação. Vemos aí que o obsessivo tenta superar ou reverter os efeitos da separação no sujeito, ao passo que a histérica tenta superar ou reverter os efeitos da separação no Outro


Portanto, o objeto ou “parceiro” da histérica não é um outro imaginário, uma pessoa que ela considere igual a ela mesma, nem é um objeto real que lhe sirva de causa do desejo (por exemplo, a voz ou o olhar). Antes, trata-se de um Outro ou senhor simbólico: alguém imbuído de saber e/ou poder, seja ele homem ou mulher. A fantasia fundamental da histérica, portanto, poderia ser grafada ( ).23


Portanto, o obsessivo se vê como um sujeito inteiro (designado pelo S não atravessado por uma barra), e não como alguém constantemente inseguro do que diz ou do que quer – em outras palavras, não como alguém sujeito à falta. Recusa-se ferozmente a se ver como dependente do Outro e tenta manter uma relação fantasística com uma causa do desejo que não dependa de ninguém – donde sua preferência pela masturbação, na qual não há nenhuma outra pessoa envolvida. O obsessivo é completo em si.


A histérica, por outro lado, enfatiza o parceiro ou Outro, transformando-se no objeto do desejo do Outro, a fim de dominá-lo. O Outro é o sujeito desejante na fantasia da histérica – em geral um parceiro (amante ou cônjuge) que deseja quando e como convém à histérica como objeto. Com efeito, a histérica orquestra as coisas de modo a assegurar que o desejo do Outro se mantenha insatisfeito, deixando a ela o papel permanente de objeto. Aqui, o Outro como sujeito desejante não passa de um fantoche: é o Outro cujo desejo é mantido insatisfeito pela histérica, a fim de que esta possa conservar seu papel de objeto desejado, daquilo que falta ao desejo.
Veremos que a histérica também se caracteriza por algo mais conhecido, que é seu “desejo de um desejo insatisfeito


O desejo é impossível na obsessão porque, quanto mais o obsessivo se aproxima de reconhecer seu desejo (de fazer sexo com alguém, digamos), mais o Outro começa a ter precedência sobre ele, eclipsando-o como sujeito


Para evitar essa presença, uma estratégia obsessiva extremamente típica é apaixonar-se por alguém que seja total e absolutamente inacessível, ou, como alternativa, estabelecer para os amantes em potencial padrões tão rigorosos que ninguém tenha condição de ficar à altura deles.


Quando Lacan afirma que “o desejo do homem é o desejo do Outro”, uma das coisas que pretende dizer é que adotamos o desejo do Outro como nosso: desejamos como se fôssemos outra pessoa. A histérica deseja como se fosse o Outro


Lacan caracteriza a histeria com a ideia “a histérica banca o homem” (Seminário 20, p.79.91.), que pode ser entendida de duas maneiras, ambas intencionais: a histérica faz o homem e a histérica faz o papel do homem .banca o homem.. Ela o faz ser o que ele é, expondo sua falta/desejo; ao mesmo tempo, usurpa seu lugar, ou faz o papel dele.39 No caso da mulher do açougueiro, vemos que ela se identifica com a amiga, como objeto enigmático do desejo de seu marido, e com o marido, no nível do desejo dele pela amiga da esposa. Vemos aí a pertinência da pergunta da histérica: “Sou homem ou mulher?” Identificada com as duas posições – com o enigmático objeto do desejo e com o desejar que parece enigmático, em vista da aparente satisfação do marido –, como pode a histérica situar sua sexualidade?


Não quero dizer que o obsessivo não se indague sobre sua sexualidade, pois, como nos diz Freud nas Conferências introdutórias sobre psicanálise (SE XVI, p.307), todo neurótico tem tendências homossexuais, e, como ele nos diz em O eu e o isso (SE XIX, cap.3), os filhos sempre se identificam em alguns aspectos com os pais de ambos os sexos (quando os dois estão presentes, claro). Em outras palavras, “Sou homem ou mulher?” é uma pergunta de todos os neuróticos. Porém é mais pungente ou presente na histérica, do mesmo modo que a pergunta “Estou morto ou vivo?” é a mais premente ou invasiva no obsessivo


O prazer derivado da autoprivação é significativo na histeria


Ao orquestrar o circuito, a histérica se torna senhora do desejo do Outro – causa do desejo dele –, mas ao mesmo tempo procura não ser a pessoa com quem ele satisfaz seu desejo. Para Lacan, assim como para Freud, a histérica é alguém que acha desagradável a satisfação sexual do Outro e tenta não ser o objeto com o qual o Outro goza. Recusa-se a ser a causa do seu gozo. Quer ser a causa do desejo dele, mas não do gozo.


Não existe relação sexual.” O obsessivo relaciona-se com seu objeto , neutralizando a mulher que está presente, e a histérica mantém vivo o seu desejo estando mentalmente em outro lugar durante o sexo


o problema não está na incapacidade do analisando de encontrar amor, desejo e excitação sexual num mesmo lugar, mas no fato de ele desistir da busca do desejo e da excitação sexual, digamos, em prol de um ideal como “o amor perfeito”.


estimular a dialetização do desejo do analisando e fomentar a separação entre o analisando e o desejo do Outro


Tanto a histérica quanto o obsessivo recusam-se a ser a causa do gozo do Outro.


Mas há uma espécie de limiar na própria fantasia, um ponto além do qual ela se transforma em horror


o supereu ordena que satisfaçamos nossas pulsões satisfazendo-o, ao próprio supereu, aquele Outro sádico que existe em nós. É óbvio que, ao mesmo tempo, nós “nos” satisfazemos em algum sentido, se bem que com certeza não seja no nível do ego ou do eu que achamos isso satisfatório. Quando obedecemos a esses comandos do supereu, é como se obtivéssemos um gozo para o Outro, não para “nós mesmos”.


Em certo sentido, o obsessivo que vive para a “posteridade”, e não para hoje, transfere todo o gozo para o Outro


Sempre que nos forçamos a nos conformarmos a nossos ideais, à custa de nossa satisfação, garantimos o gozo do Outro


O obsessivo tenta neutralizar o Outro


Em termos intelectuais, ele pode vir a aceitar a existência do inconsciente, mas não a ideia de que ele é inacessível sem a ajuda de outra pessoa. Ele se dá conta de ter problemas, mas só se engaja na “autoanálise”, mantendo um diário, anotando seus sonhos etc


Nas situações mais próprias da vida cotidiana, o obsessivo se recusa a ser ajudado por outras pessoas: “Eu mesmo posso fazer isso”, ou “Por que eu haveria de chamar um especialista, se eu mesmo posso instalar esse aquecedor?”. O obsessivo perfeito é o “self-made man” nos moldes de Ayn Rand, que acredita não dever nada a ninguém e ter feito fama e fortuna num contexto completamente anistórico, independentemente de qualquer sistema econômico específico, de qualquer governo, indústria ou pessoas. De maneira mais típica, o obsessivo leva sua vida rebelando-se contra um ou todos os desejos de seus pais, porém nega qualquer relação entre aquilo que faz e o que os pais queriam que ele fizesse ou fosse. Sua vida inteira pode ser um protesto contra os ideais do Outro, mas é provável que ele descreva o que faz em termos autônomos: “Faço isso porque acredito em x, y e z”, e não “Meus pais tentaram me obrigar a fazer p, e é por isso que faço q”.


O obsessivo se “histericiza”, para usar o termo de Lacan – abre-se para o Outro.


Os analistas que trabalham com obsessivos estão bem familiarizados com a tendência desses pacientes a falar ininterruptamente, a fazer associações e interpretar tudo sozinhos, sem prestar atenção às pontuações nem às interpretações do analista


Mas, além de esperar do Outro o ser, ela também espera o saber: recorre ao Outro para preencher sua falta de ser (ou querer ser) e sua falta de saber (ou querer saber). É isso que lhe torna fácil pedir ajuda ao analista – ela reconhece sua dependência do Outro –, mas lhe dificulta trabalhar depois que entra em análise


Cedo ou tarde, os analistas que fazem o jogo de alimentar o analisando com conhecimentos descobrem que é a histérica que sempre vence esse jogo: ela se assenhoreia do saber do analista, fazendo-o produzir esse saber o mais depressa possível. Quando o analista logra, através de intervenções e interpretações, fazer a histérica abrir mão de ou “resolver” um sintoma, é provável que ela relate novos sintomas na sessão seguinte.53 Na sua posição daquela que aponta ou demonstra a falta no saber do Outro, ela se torna uma exceção ou enigma vivo, sempre um passo à frente de qualquer teoria ou técnica conhecida.


A histérica se apodera do saber do analista e, a rigor, também do seu desejo, estipulando os termos da terapia e dizendo ao analista o que ele deve querer da analisanda. Por isso, no trabalho com histéricas, a manobra exigida do analista é virar a mesa. Quando a histérica pede “Fale-me de mim, doutor. O que há comigo?”, o analista tem de direcionar a pergunta para ela: “O que você quer?”


O discurso da histérica é o discurso espontaneamente adotado pela histérica (como sujeito barrado, ): a histérica se dirige (esse endereçamento é designado pela seta →) a um mestre ou senhor (S1), que no caso é o analista, e tenta fazê-lo produzir saber (S2).55 No discurso do analista, a histérica ou o analisando histericizado ( ) é posto na posição do trabalhador (a posição superior direita é a da produção ou trabalho), e é o desejo enigmático do analista (a) que constitui o agente que põe em movimento o discurso (a posição superior esquerda é a da ação)


Portanto, enquanto o obsessivo tem que ser histericizado no início e ao longo do curso de sua análise, a histérica deve ser levada a mudar de discurso e interromper a espera ou a expectativa de receber o saber do Outro


e então descobrir que os pedidos da analisanda multiplicam-se por dez, uma demanda levando a uma multidão de outras


convém considerar que as sessões cara a cara têm mais importância para a histérica do que para o obsessivo.


Reiterei que eu terminava as sessões em pontos particularmente importantes e que a duração da sessão não tinha nada a ver com o valor que ele me pagava


Primeiro, ele tivera um confronto com alguém que, embora fosse inicialmente um amigo, tinha se tornado uma “figura de autoridade” para ele: seu sócio na empresa


autêntico em direção ao ideal, e, sendo assim, eles não fazem nada


a mesma inércia característica resultava de sua postura rebelde em relação a eles.


O obsessivo contenta-se em poder externalizar as vozes de exortação e crítica que tem na cabeça, nem que seja por um momento; esse processo lhe dá um inimigo externo em quem se concentrar e o traz de volta à vida, por assim dizer: revela seu “espírito de combatente” na “batalha de vontade contra vontade”


Pois o conflito interno do obsessivo é tão absorvente que deixa pouca vitalidade para outras atividades


tentativa de fazer o Outro existir característica da perversão


A lei existe com extrema evidência na obsessão, prostrando e oprimindo o sujeito.


o desejo do obsessivo também é o desejo do Outro, mas o Outro, nesse caso, é do mesmo sexo: Robert desejava o mesmo que aquele “homem másculo”, e o desejo deste apontava o caminho do seu.


seu desejo desapareceria graças à satisfação sexual


a “desvalorização” de um parceiro depois do ato sexual).


Quando confrontado com demandas diretas, eu contornava o problema pedindo-lhe que me falasse mais de determinado elemento onírico que ele ainda não havia elucidado, ou de uma fantasia sobre a qual ainda não tinha feito associações, e assim o fazia saber que eu estivera escutando atentamente e levando suas palavras a sério. Sem nunca sugerir que suas demandas eram “impróprias” ou “sem validade”, eu lhe oferecia outra coisa em vez do atendimento delas: minha escuta, minha presença e minha fala, esta última sob a forma de pontuações e expressões do meu desejo de que ele continuasse a se analisar comigo.


Quando ele me atribuía ideias severas – como quando acreditou que eu criticaria seu “lado feminino” –, eu evitava me definir como aceitando ou rejeitando algo, e permitia que ele continuasse a projetar em mim sua crítica interna e a se rebelar contra mim; com isso, eu


esperava incentivá-lo a reviver certos afetos comigo no ambiente controlado do contexto da terapia, não para que ele “soltasse tudo”, mas no intuito de religar pensamento e afeto


sugeriu que era mais fácil para ele (como para todos os neuróticos) lidar com as demandas do Outro do que com o desejo do Outro, uma vez que este, afinal, nunca é explícito e está sempre aberto a interpretação


Dar-lhe tarefas específicas teria equivalido a lhe dizer o que ele precisava fazer para ser digno de amor a meus olhos – permitindo que se esforçasse para se tornar cativante ou um anátema para mim – e o teria poupado de uma pergunta mais angustiante: “O que ele quer de mim?” Se eu não o repreendia seriamente por chegar atrasado e sem dinheiro às sessões, se eu meramente lhe pedia para falar de seus lapsos, em vez de impor punições, devia haver alguma outra coisa que eu buscava, alguma outra coisa que eu queria. Mas ponderar sobre isso era questionar a fantasia fundamental…


A mãe reclamava sem parar de que o pai prometia dinheiro mas nunca o mandava, e de que adoraria divorciar-se, não fossem as filhas


continuou com ele muito depois de todas as filhas estarem criadas e irem embora


Ele esbravejava e tinha acessos de cólera, usava uma linguagem extremamente grosseira e humilhava publicamente todas as filhas.


Ainda assim, Jeanne havia permanecido fiel ao pai, em algum nível, convencida de que ele realmente a amava, embora nunca o houvesse expressado: “Ele nunca soube expressar amor.”
Em sua vida cotidiana, ela se mantivera fiel a tudo o que o pai dizia: ele lhe dissera que ela nunca seria ninguém, e por isso ela sabotava as coisas, de modo a cumprir as profecias paternas. Por exemplo, em meados da casa dos trinta anos, começou a pintar, desenhar e fazer peças de cerâmica – atividades que não havia praticado desde os tempos da escola secundária –, e era frequente receber elogios por seu talento. Após uma pequena exposição de seu trabalho, ela começou a ter problemas associados com a visão (la vue),69 os quais associou às previsões de seu pai: se não enxergasse bem, ela não poderia pintar, donde nunca poderia vir a ser ninguém. O pai tinha dito que a vida dela seria um desastre, e Jeanne tinha a sensação de que, sem querer, confirmava essa predição. Pois ter sucesso na vida seria traí-lo, não apenas externamente, mas também internamente


Para começar, toda a maneira de Jeanne falar de si e da sua vida envolvia outras pessoas – outros significativos. Seu discurso contrastava nitidamente com o de Robert, que girava quase exclusivamente em torno dele mesmo – um obsessivo envolto em seu próprio mundo e se vendo como uma ilha. O mundo de Jeanne era povoado, e ela se definia em relação às pessoas.


A postura fundamental de Jeanne consistia em completar o Outro


A identidade sexual de Jeanne, portanto, baseava-se parcialmente na mãe e parcialmente no pai – falando em linguagem convencional, era em parte feminina, em parte masculina.72 Sua sexualidade, que permaneceu predominantemente não elucidada, parecia ser dominada pelo nojo, aversão e recusa da satisfação sexual física direta; como adulta, ela disse que quase nunca aceitava as investidas do marido, nunca se masturbava e só tivera uma aventura


em suas associações com esse sonho, pareceu que ser rejeitada, e por isso poder continuar a desejar, excitava-a mais do que a sexualidade em si.


O sonho, portanto, pareceu realizar seu desejo de um desejo insatisfeito


mesmo assim Jeanne parecia querer discernir um desejo dele por outra mulher.


Jeanne buscava ser a causa do desejo dele, mas se recusava a satisfazer esse desejo, recusava-se a ser objeto da satisfação sexual do marido. O desejo insatisfeito encontra-se em ambos os lados na histeria – na histérica e em seu parceiro


No entanto, após três anos de análise, ela disse estar “cansada do .seu. próprio comportamento” – cansada de se recusar a fazer amor com Bertrand e de ser agressiva com ele o tempo todo. Ao que parece, ao negar a si mesma o que queria, ela o fazia, ao menos em parte, por “solidariedade” com a mãe.


Ao declarar que estava “cansada do próprio comportamento”, porém, Jeanne sugeriu que não estava satisfeita com o desejo insatisfeito – em outras palavras, que o desejo não era a história toda. “A mulher não vive só de desejo”, pareceu dizer, sugerindo que não estava desinteressada da satisfação em todos os níveis. Em qual nível estava interessada? Enquanto algumas histéricas fazem o jogo do desejo com homens mas satisfazem seus impulsos sexuais com mulheres, nenhuma corrente homossexual jamais se manifestou com clareza no trabalho de Jeanne comigo.


O gozo sexual desinibido só parece possível quando é forçado ou obrigatório – quando impedi-lo está fora do alcance. Se as fantasias de prostituição surgem com tanta frequência na análise com histéricas, é porque a prostituição é comumente associada, na mentalidade popular, com a miséria extrema e a compulsão – por exemplo, uma mãe abandonada que tem de fazer a vida para alimentar os filhos, ou uma jovem sem instrução, de origem extremamente pobre, mas decente, que é obrigada a vender o corpo por ter de alimentar irmãos mais novos e pais inválidos.


ideia essencial é de que a mulher não tem alternativa senão praticar a atividade sexual.


Uma regra prática útil seria: “Se produz inibições, é um ideal.”78


Convém ainda assinalar que a diferença estrutural entre a histeria e a obsessão – a superação da separação através da complementação do Outro, na primeira, e através da complementação do sujeito, na segunda – tem por base ideais sociais e sexuais


O real é aquilo que ainda não foi simbolizado, ainda não foi posto em palavras; é aquilo que, num certo momento, é indizível (o “impossível de dizer”) para o analisando, mas não necessariamente para o analista


Na medida em que a interpretação bate no real, ela menos toca a verdade do que a cria. É que a verdade só existe na linguagem (é uma propriedade dos enunciados) e, por conseguinte, não há verdade do que ainda não pode ser dito.


Se a interpretação cria a verdade, o terreno deve estar preparado para ela (como para uma planta, se tivermos a expectativa de que ela crie raízes e cresça): o material circundante deve estar elucidado e a relação com o terapeuta tem de ser sólida. Caso contrário, a interpretação não terá mais que um valor de choque (na melhor das hipóteses). Os enunciados chocantes podem ser apropriados no ensino, às vezes, quando se tem o objetivo de sacudir os estudantes para tirá-los de seus modos de pensar habituais, mas têm pouco lugar na terapia.79


É óbvio que o tratamento de Jeanne estava longe de ter se concluído quando ela regressou à França. Embora houvesse começado a culpar um pouco menos o pai e a mãe por seus problemas, ela de modo algum se havia separado deles; num dado nível, ainda tomava o partido da mãe contra o pai, ao mesmo tempo em que se mantinha fiel ao pai, realizando suas profecias (a de que não seria ninguém, por exemplo). A terapia nunca atingiu a intensidade necessária para “destruir” essas figuras parentais – em outras palavras, destruir o poder de suas proibições e ideais, que levavam às inibições de Jeanne – por meio da transferência


a subjetivação – o processo de fazer surgir o sujeito onde o Outro era considerado o responsável – não fora inteiramente alcançada


. Não existe caso “puro” de obsessão, livre de aspectos histéricos ou perversos, assim como não há casos de histeria “pura”. Cada um confirma certas coisas que já aprendemos sobre a neurose e, se formos receptivos a ouvir o que ainda não é explicável num sistema teórico em particular, cada um também nos ensinará coisas novas.


ele sugere a hipótese de que a obsessão é causada por uma experiência sexual precoce que resulta num excesso de prazer (e num subsequente sentimento de culpa, que leva, por sua vez, a um comportamento de evitação – culpa e evitação estas que depois são entendidas como efeitos retroativos de uma segunda experiência, na qual a pessoa aprende o significado social/sexual do primeiro evento


O que parece mais importante nas caracterizações de Freud é o fato de que os clínicos realmente recebem pacientes cuja sexualidade é dominada pela culpa, num caso, e pela repugnância, em outro. Não é que a culpa jamais apareça ao lado da repugnância, mas, no panorama clínico geral, uma ou a outra tende a predominar.


– o que o sujeito teme encontrar é uma espécie de desejo, que seria de natureza a fazer voltar, antecipadamente, ao nada toda criação significante, todo o sistema significante


“a forma mais radical da neurose” (Seminário 8, p.425.445.), no sentido de que é uma resposta a um problema do estabelecimento da metáfora paterna.


o fóbico só é capaz de instalar a metáfora paterna cancelando a mãe com algo diferente do “Não.” do pai, ou do Nome-do-Pai.


A separação entre a criança e a mãe torna-se extremamente difícil na fobia, em decorrência da relativa fraqueza do pai ou da figura paterna – isto é, da função paterna


A fobia pode ser vista, portanto, como uma estratégia que o indivíduo adota para respaldar um elemento crucial do Outro (sendo esse elemento o Nome-do-Pai),


a perversão envolve a tentativa de respaldar a lei para que possam ser estabelecidos limites para o gozo


o sujeito, na perversão, luta para dar vida à lei – em síntese, para fazer o Outro existir.


o obsessivo reduz seu parceiro ao objeto , neutralizando a Outridade/Alteridade dele, e a histérica não chega propriamente a desejar seu parceiro, mas deseja através do parceiro e anseia por ser o objeto que lhe falta.


mas buscado por possuir alguma coisa (nem que seja apenas uma falta geradora de desejo) que faz algo por nós.


O que interessa aos analistas lacanianos, entretanto, é um mecanismo específico de negação – o “desmentido” (a Verleugnung de Freud)


uma atitude curiosa detectada em alguns meninos que, ao se confrontarem com a genitália de uma menina, negam que ela não tenha pênis e afirmam estar vendo um pênis, de fato.


o desmentido parece muito semelhante ao recalcamento: a expulsão de uma lembrança da consciência e o retorno dessa lembrança sob a forma de sintomas.


no recalcamento, o pensamento associado a uma das pulsões do paciente é excluído da mente, ao passo que, no desmentido, um pensamento ou complexo de pensamentos – relacionados com uma percepção da genitália feminina, com a suposta ameaça de castração paterna (enunciada para manter o menino afastado da mãe e para impedi-lo de se masturbar) – são excluídos da mente.


Uma das coisas importantes a ressaltar aqui é que, se o que é excluído da mente é um pensamento, é porque ao menos ocorreu uma primeira simbolização: na perversão, alguma coisa relacionada com o pai e sua vontade de separar o filho da mãe é simbolizada e, por isso, em contraste com a psicose, ocorre uma aceitação ou admissão (Bejahung) inicial do pai como separador simbólico


“Sei muito bem que meu pai não me forçou a abrir mão da minha mãe e do gozo que extraio da presença dela (real e/ou imaginada na fantasia), não exigiu ‘a libra de carne’,16 mas vou encenar essa exação ou essa imposição forçada com alguém que ocupe o lugar dele; farei essa pessoa pronunciar a lei


o desmentido implica certa encenação ou faz de conta a respeito da função paterna


Por exemplo, “Quero dormir com minha cunhada” é recalcado e persiste no inconsciente, enquanto a ideia “Não quero dormir com minha cunhada” é a que se torna consciente.


Na perversão, por outro lado, o próprio ego se divide (SE XXIII, p.204), e as ideias contraditórias – a mulher tem e não tem pênis – são mantidas lado a lado na mesma instância.


Um dia, a babá o apanha nesse ato e lhe diz que seu pai vai “cortar” aquilo fora, se ele não parar. Freud nos diz: “O resultado geral do medo da castração, o resultado que passa pelo normal .neurótico., é que, seja imediatamente, seja após uma luta considerável, o menino cede à ameaça e obedece à proibição, no todo ou ao menos em parte (isto é, não mais tocando os órgãos genitais com a mão). Em outras palavras, ele desiste, no todo ou em parte, da satisfação da pulsão” (SE XXIII, p.277). O menino em questão, porém, continuou a se masturbar, como se não tivesse sido proferida ameaça alguma. Recusou-se a abrir mão desse gozo em nome do pai. A babá lhe pediu que desistisse dele pelo bem do pai (caso contrário, o pai o castraria, diz-nos Freud), porque o pai não o aprovaria, mas o menino se recusou a fazer isso.


Confrontados com a possível perda do gozo, o perverso e o obsessivo reagem de maneiras diferentes,


O perverso, por outro lado, não entrega esse prazer, não cede esse prazer ao Outro. Freud insiste repetidas vezes em que o perverso se recusa a abrir mão do seu prazer – isto é, do prazer masturbatório relacionado (em suas fantasias) com a mãe ou a substituta materna


Em termos psicanalíticos, a perversão é quase um diagnóstico exclusivamente masculino


uma tentativa de fazer o Outro proferir a lei, ou de apontar pessoalmente o lugar da lei –, para que possa ocorrer a separação que alivia a angústia.


“medo” de que sua mãe vá embora, mas, inconscientemente, gostaria que ela fosse embora e o deixasse ter desejos que não a envolvessem.


Sua “angústia de separação” reflete o desejo de continuar a “seduzir” a mãe – em outras palavras, a obter certos prazeres com ela –, mas também um desejo simultâneo de que se ponha fim a essa “sedução”, a esse gozo, já que este o absorve e o impede de vir a ser como sujeito desejante.31 Assim, sua “angústia de separação” é indicativa, na verdade, de um desejo de separação – separação da mãe.


A perversão também é uma estratégia a respeito do gozo: envolve a tentativa de estabelecer limites para ele


Freud nos revela que é graças ao Nome-do-Pai que o homem não permanece preso ao serviço sexual da mãe.


Tenta ser sua possezinha valorizada, seu pequeno pênis substituto, como Freud poderia dizer; e o pai, muitas vezes, não se interessa por interferir (talvez preferindo que o deixem sossegado), ou é ineficaz em suas tentativas de intervenção.


Ao compararmos essa configuração com a da neurose, vemos que a “posição do sujeito”, no perverso, não implica algo fora ou além do


Ao compararmos essa configuração com a da neurose, vemos que a “posição do sujeito”, no perverso, não implica algo fora ou além do Outro.


Ao contrário, como sujeito, ele desempenha o papel do objeto: o objeto que preenche o vazio da mãe/Outro materno.


Isso explica por que é tão difícil fazer um trabalho analítico com perversos: o perverso coloca-se no papel do objeto , na expectativa de desempenhar o papel do objeto capaz de satisfazer (tamponar) o desejo do analista. O analista pode ter muita dificuldade de manobrar a transferência de maneira a se tornar a causa do desejo do analisando perverso, quando este se empenha tanto em ocupar a posição de causa do desejo. O perverso prefere servir de causa da angústia e do desejo do analista a deixar que o analista se torne a causa de suas ruminações. É por isso que é tão difícil fazer um trabalho genuinamente analítico com perversos, levá-los a se intrigar com as formações inconscientes e com o que o analista sublinha nelas, e pôr seu desejo em movimento. Como diz Lacan, o objeto deve ser situado pelo sujeito no Outro – aqui, o Outro como analista –, a fim de que a transferência seja possível


perverso menos lida com o desejo da mãe/Outro materno do que com sua demanda.


O que isso implica é que não podemos nem falar que falta alguma coisa à mãe (no que concerne a seu filho) até se dizer que ela é carente em algum aspecto – até ela mesma verbalizar o anseio de algo ou alguém


Como diz Lacan, a palavra é a morte da coisa; a coisa (a “falta real”), uma vez denominada, passa a existir como uma palavra que pode ser ligada a outras, sobre a qual se pode fazer piada e assim por diante.


A palavra é


muito menos perigosa do que a coisa que ela supostamente significa ou designa, pois de fato aniquila a coisa, drena parte de sua força opressiva.


Uma vez denominado aquilo que falta à mãe/Outro materno, o objeto que o filho era para ela não pode mais existir. Isso porque, uma vez articulado em palavras, o desejo não para, mas se desloca, vagando metonimicamente de uma coisa para outra. O desejo é produto da linguagem e não pode se satisfazer com um objeto. A denominação do desejo da mãe/Outro materno força a criança a sair de sua posição de objeto e a impele a buscar a elusiva chave do seu desejo. O que ela quer? Algo inefável, que parece caracterizar a série interminável de coisas sobre as quais seu desejo pousa – aquilo que, na sociedade ocidental, é conhecido como falo. Já não sendo o objeto real (o órgão real) necessário para completá-la, o filho pode partir em busca da posse daquilo que o desejo dela aponta, que conota como desejável, como fálico


o primeiro momento leva a uma divisão na mãe/Outro materno, mediante a qual a criança passa a existir como objeto com que o Outro obtém satisfação; ao passo que o segundo leva ao advento de um sujeito desejante (separado do Outro como fonte de gozo). O primeiro corresponde ao que Lacan chama de alienação; o segundo, à separação. O primeiro também pode ser fecundamente associado ao que Freud chama de recalcamento primário e o segundo, ao recalcamento secundário.


embora o perverso tenha passado pela alienação, não passou pela separação. O psicótico não passou por nenhuma das duas, enquanto o neurótico passou por ambas


uma atividade de busca irrestrita do gozo, seu objetivo menos evidente é dar existência à Lei: fazer com que exista o Outro como lei


a angústia, na verdade, domina a sexualidade do perverso. Suas fantasias inconscientes podem envolver uma espécie de gozo interminável


o órgão sexual masculino nunca manifesta qualquer limite a sua capacidade de reiniciar a atividade sexual), mas não devemos confundir fantasias conscientes com atividade concreta, e esta última está fadada a impor limites ao gozo.43


No decorrer da análise, Jean explicou que, quanto maior o número de botões, mais pesada era a contribuição de seu pai (la part du père). Quanto mais botões, menos ele sentia que a falta/desejo de sua mãe/Outro materno era desmedida (démesuré), esmagadora.


Logo, a perversão (isto é, o fetiche) serviu para multiplicar a força do ato simbólico do pai (ao pôr em palavras a falta da mãe/Outro materno), para complementar ou respaldar a função paterna


há uma relação muito íntima entre castração e gozo. Há uma espécie de gozo no ser separado do seu próprio gozo.50 Jean, em certo sentido, era repetidamente levado a tentar completar sua castração


A falta só é apreensível por intermédio do simbólico.


Parece claro que, apesar de anos de uma psicanálise fecunda, Jean não modificou sua estrutura: continuou perverso. Aliás, como costuma ser verdade, as estruturas parecem inalteráveis a partir de certa idade


Isso não quer dizer que Jean não pudesse extrair nada de sua análise; com certeza, grande parte de sua angústia e sofrimento se atenuaram no curso dela.


Em alguns casos que eu mesmo supervisionei, observei uma mudança gradativa por parte de sujeitos genuinamente perversos, que passaram de posições em que não se engajavam em qualquer tipo de indagação a respeito de seus atos, sentimentos e pensamentos – sua única motivação para frequentarem as sessões pareciam ser mandados judiciais obrigando-os a isso, ou a esperança de irritar o terapeuta –, para posturas de verdadeiro questionamento. Se nunca ocorre uma perda da certeza sobre a fonte de onde vem o gozo, há pelo menos uma redução da certeza quanto aos motivos. Isso é acompanhado por uma renúncia parcial ao papel de objeto do


Em alguns casos que eu mesmo supervisionei, observei uma mudança gradativa por parte de sujeitos genuinamente perversos, que passaram de posições em que não se engajavam em qualquer tipo de indagação a respeito de seus atos, sentimentos e pensamentos – sua única motivação para frequentarem as sessões pareciam ser mandados judiciais obrigando-os a isso, ou a esperança de irritar o terapeuta –, para posturas de verdadeiro questionamento. Se nunca ocorre uma perda da certeza sobre a fonte de onde vem o gozo, há pelo menos uma redução da certeza quanto aos motivos. Isso é acompanhado por uma renúncia parcial ao papel de objeto do terapeuta.


O sujeito perverso … oferece-se lealmente … ao gozo do Outro.


Embora o masoquista talvez pareça dedicar-se a dar prazer a seu parceiro (o parceiro que ocupa o lugar do Outro, nesse caso) sem pedir nada em troca – em outras palavras, sacrificar-se, tornando-se instrumento do gozo do Outro, sem obter prazer algum para si –, Lacan sugere que isso é apenas uma capa: a fantasia do masoquista dissimula o verdadeiro objetivo de seus


Embora o masoquista queira acreditar e nos levar a crer que “visa ao gozo do Outro”,53 na verdade ele “visa realmente à angústia do Outro” (Seminário 10, p.207.195.). Por que age assim?


O parceiro, entretanto, não se dispõe, necessária e imediatamente, a legislar, dar ordens, fazer decretos etc. num relacionamento; muitas vezes, tem de ser forçado, até certo ponto, levado pela intimidação a estabelecer limites, a expressar sua vontade de que as coisas aconteçam de um jeito e não de outro


“O masoquista tenciona evidenciar … é que o desejo do Outro produz a lei” (Seminário 10, p.126.120.), e, muitas vezes, primeiro é preciso deixar o Outro extremamente angustiado, para que ele concorde em enunciar a lei.


Quando o desejo paterno (de separar o filho) é falto, o masoquista usa seu próprio desejo para forçar um substituto paterno a legislar e cobrar a punição. Finge que é o Outro quem dita a lei, quando é ele mesmo que mexe os pauzinhos. Seu desejo toma o lugar do desejo do Outro como lei, encenando-o ou validando-o, por assim dizer, e lhe dando


O castigo pode proporcionar ao masoquista, momentaneamente, uma forma de alívio: é a prova de que existe alguém que lhe pede um sacrifício e cobra a libra de carne.


O masoquista continua a ser um objeto imaginário para o desejo de sua mãe/Outro materno, nunca se tornando alguém dotado de status simbólico, que possa ver-se valorizado por suas realizações sociais ou culturais, ou outras simbolicamente


O masoquista continua a ser um objeto imaginário para o desejo de sua mãe/Outro materno, nunca se tornando alguém dotado de status simbólico, que possa ver-se valorizado por suas realizações sociais ou culturais, ou outras simbolicamente designadas.


que um princípio não é nada na realidade psíquica de alguém enquanto a ele não se liga um quantum de libido; em outras palavras, um princípio moral, como qualquer outro pensamento (Vorstellung), tem de ser investido de afeto, para que possa desempenhar um papel na economia psíquica de alguém


o marquês de Sade (mais conhecido como sádico, porém nesse caso manifestando tendências decididamente masoquistas) pressiona sua sogra, madame de Montreuil, até ela expressar sua vontade de que ele seja punido. É o desejo ou vontade dela que tem de servir de lei para Sade. Não lei, porém uma lei.


Mas o encarceramento continua a servir de forma de castigo comumente buscada pelo masoquista, que quer algum tipo de castração simbólica substituta. Como diz Lacan, “o recurso ao imaginário da castração … pode surgir como uma saída tranquilizadora, salutar, para a angústia do masoquista” (Seminário 10, p.239.227.). O sujeito necessitado da separação recorre e retorna, em busca de alívio, a qualquer castração substituta que possa encontrar


a importância da angústia da vítima para o sádico é reconhecida pela mentalidade popular, assim como pelo próprio sádico; aliás, em suas fantasias, ele a vê como uma condição absoluta, isto é, absolutamente necessária para que elas proporcionem prazer. Mas, como vimos, o que é crucial nas fantasias não passa de um anteparo.


O que é encoberto pelas fantasias do sádico, diz-nos Lacan, é que ele busca isolar o objeto a (Se


um objeto se torna o objeto a no exato momento em que se é ameaçado de perdê-lo.


A angústia, diz-nos Lacan, não é como a fantasia, que pode servir de capa ou véu; a angústia nunca engana (ne trompe pas); sempre indica que o objeto está prestes a ser perdido. A angústia nunca mente. A meta do sádico, portanto, não é a angústia em si, mas aquilo que ela atesta: o objeto ao qual se aplica a lei.


o sádico desempenha os dois papéis, o de legislador e o de submetido à lei, o daquele que legisla e o daquele a quem é imposta a cobrança ou limite. Para o sádico, a angústia da vítima, por causa do isolamento ou da designação do objeto prestes a ser perdido, é prova da enunciação da lei, prova de que a lei que exige a separação foi proferida. Parece irrelevante se a lei assim enunciada se aplica ao outro ou a ele próprio, visto que, em certo nível, ele se identifica com sua vítima.62


Tal como se verificou no caso do masoquista, essa encenação da enunciação da lei pelo sádico não é suficiente para acarretar nenhum tipo de separação duradoura, ou para lhe proporcionar um lugar simbólico. Ele continua a ser um objeto (imaginário ou real) do desejo da mãe/Outro materno, nunca se tornando alguém que possa se ver como valorizado por suas realizações simbólicas. A castração nunca se completa e, também nesse caso, o desmentido concerne à função de castração ou separação exercida pelo pai: “Sei muito bem que ele não exigiu isso de mim, mas…” É a encenação eternamente repetida da castração que leva ao sádico, assim como ao masoquista e ao fetichista, uma espécie de gozo. Não se trata de algum tipo de gozo “perverso-polimorfo” que eles obtenham de todas as zonas do corpo; não se trata de um retorno a alguma espécie de estágio pré-simbólico em que o corpo ainda não tenha sido grafado por significantes. Eles gozam com a encenação da castração


Enquanto o psicótico pode sofrer com o que é vivido como uma invasão de gozo em seu corpo, e o neurótico tenta sobretudo evitar o gozo (mantendo um desejo insatisfeito ou impossível), o perverso goza com a própria tentativa de impor limites a seu gozo. Enquanto na psicose o Outro não existe (já que seu principal ponto de ancoragem, o Nome-do-Pai, não foi instaurado), e na neurose o Outro só existe com um excesso de peso (que o neurótico deseja tirar de suas costas), na perversão é preciso fazer o Outro existir: o perverso tem que encenar a existência do Outro, respaldando o desejo ou vontade dele com os seus.64


O perverso e o psicótico empenham-se numa tentativa de complementar a função paterna que dá existência ao Outro simbólico – o perverso, encenando ou validando a enunciação da lei;
o psicótico, fomentando uma metáfora delirante. Até algumas fobias nas quais o objeto fóbico é posto no lugar do Nome-do-Pai envolvem uma forma de complementação da função paterna. No entanto, a complementação do psicótico visa à alienação, enquanto a do perverso e do fóbico almeja a separação.


A psicose significa que não houve uma proibição efetiva do gozo da criança em sua relação com a mãe – ou seja, não houve inscrição do “Não.” paterno –, em decorrência da ausência do pai ou de sua incapacidade de se impor como pai simbólico, por um lado, ou da recusa da criança a aceitar essa proibição, por outro (ou de uma combinação das duas coisas). A perversão envolve a impossibilidade de dar nome a alguma coisa que tenha a ver com o desejo da mãe/Outro materno (o pai não parece ser o que ela quer), de dar nome ou simbolizar alguma coisa que tenha a ver com o sexo – com a falta na mãe/Outro materno65 –, daí resultando que o perverso se vê diante de uma falta de falta que é geradora de angústia. A neurose envolve a impossibilidade de ter prazer, em decorrência de todos os ideais do Outro – ou seja, a impossibilidade de separar-se do Outro como linguagem.


É comum os neuróticos serem muito inseguros a respeito do que querem ou do que os excita, enquanto é comum os perversos terem bastante certeza. Mesmo quando os neuróticos sabem o que é isso, não raro são sumamente inibidos em sua capacidade de buscá-lo. Os perversos, em contraste, em geral são muito menos inibidos em sua busca. É frequente os neuróticos terem fantasias perversas em que agem de modo muito desinibido, mas isso não os torna perversos, olhando do ponto de vista estrutural


Na travessia da fantasia, o sujeito subjetiva a causa da sua existência (o desejo do Outro: objeto ) e se caracteriza por ser desejante; isso não acontece na neurose.


A travessia da fantasia leva o sujeito para além da castração, para além da neurose, para um território basicamente inexplorado


Lacan fornece de propósito os seus próprios mitos.68 Mas seu trabalho sobre as relações entre as palavras e o mundo (os significantes e a “realidade”) e sobre os movimentos e deslocamentos na própria linguagem (metáfora e metonímia) fornece a base linguística necessária para se compreender o papel crucial do pai


sua função é simbólica


Seu papel crucial não é dar amor – como a mentalidade popular politicamente correta é tão propensa a afirmar, excluindo todo o resto –, e sim representar, incorporar e denominar algo sobre o desejo da mãe e sobre sua diferença sexual: metaforizá-lo.69 No exercício da função simbólica, ele não precisa ser o pai biológico, nem sequer ser homem. É a função simbólica em si que é essencial.


A metáfora delirante construída por um psicótico serve para compensar justamente a falta de um princípio explicativo dessa ordem


os delírios do psicótico – quando liberados para seguir seu curso – movem-se no sentido de criar um mundo em que lhe seja atribuído um lugar importante, um papel crucial. A cosmologia delirante do psicótico serve para explicar o porquê do seu nascimento e o propósito de sua vida na Terra. Portanto, também ela tenta unir a palavra ao sentido, como a metáfora paterna.


Numa fase posterior da vida, é possível que a criança venha a rejeitar praticamente todas as facetas da construção do terapeuta, passando a acreditar, ao contrário, que os motivos da mãe tinham sido predominantemente maldosos e egoístas, mas rejeitará a construção do ponto de vista da construção. Em outras palavras, terá um ponto de apoio que permanecerá inabalável, uma perspectiva a partir da qual poderá lançar dúvidas sobre a exatidão da construção. Antes da construção, a criança não tem um lugar onde se posicionar, não tem chão e, portanto, não tem possibilidade de questionar nem de se intrigar. Depois da construção, ela pode questionar tudo, sem jamais tirar o chão de sob seus pés. Em condições extremas, ela poderá vir a desejar não ter nascido, porém ao menos haverá um lugar em que poderá formular esse desejo. Esse lugar é o sujeito, o sujeito lacaniano.


Minha ênfase na importância de “abrir o espaço do desejo” e “pôr em movimento o desejo do analisando” talvez tenha dado a alguns leitores a impressão de que a meta suprema da análise, de acordo com Lacan, é dialetizar o desejo do analisando e libertá-lo das garras mortíferas do desejo do Outro.


uma diminuição da fixação e uma redução da angústia (“O desejo é um remédio para a angústia”


o desejo é um fenômeno da linguagem, e não existe desejo humano, estritamente falando, sem a linguagem


o desejo se desloca e se move em função da ordem simbólica – isto é, em função da linguagem


“A carta roubada”, de Edgar Allan Poe, detalha como o desejo dos diferentes personagens do conto de Poe é determinado por sua posição numa certa estrutura simbólica ou significante. Ele enfatiza que a vida dos pacientes é determinada por suas “cartas roubadas” – pelos retalhos de conversa de seus pais (isto é, do discurso do Outro), amiúde não destinados aos seus ouvidos, que ficaram indelevelmente gravados em sua memória e selaram seu destino. Os pacientes trazem essas cartas para a análise e os analistas tentam torná-las legíveis para os analisandos, tentam desvendar os determinantes ocultos de seu desejo.2


Esse é o Lacan que frisa que a análise deve atentar constantemente para a letra do que dizem seus analisandos, não para o que eles pretendem dizer, não para seu sentido intencionado, porque eles não sabem o que dizem: são falados pelos significantes (ou seja, pelo discurso do Outro) que os habitam


que se ligam não por causa de seus significados, mas pelas relações literais entre as próprias palavras


Lacan que declara que, por meio da análise, devemos vir a aceitar que somos mortificados pela linguagem e, portanto, em certo sentido, somos os mortos-vivos


nossos corpos são cobertos pela escrita e somos habitados por uma linguagem que vive através de nós)


Devemos subjetivar esse destino mortal, torná-lo nosso; devemos assumir a responsabilidade pelo rolar dos dados no começo do nosso universo – o desejo de nossos pais, que nos trouxe ao mundo –, fazendo-nos existir onde o desejo deles serviu de causa para o nosso.


Esse é o Lacan que formula o processo da análise como um desatamento dos nós no desejo do analisando, não sendo o objetivo da análise “nada mais é que a emergência da manifestação do desejo do sujeito” (Seminário 8, p.234.238.), e que vê o término exitoso da análise como o desenvolvimento de um “desejo decidido” ou de um “desejo determinado”: um desejo que não se deixa desanimar pelos obstáculos nem dominar pelo Outro, um desejo antes inconsciente que já não se submete à inibição, o tipo de desejo que – após um período reconhecidamente longo de análise – pode dizer “não” ao pedido do analista de que o analisando volte no dia seguinte para mais análise ainda, o tipo de desejo que já não se importa com o que o Outro quer ou diz.4


Esse é o período da obra de Lacan em que o desejo é dotado de certo toque utópico: ele pode nos levar aonde queremos ir, ou seja, além da neurose.


A meta continua a ser a separação do Outro, para permitir que o sujeito siga seu rumo sem todas as inibições e influências derivadas dos outros concretos que o cercam, ou dos valores e juízos internalizados do Outro.


O desejo é subserviente à lei. O que a lei proíbe, o desejo busca. Busca apenas a transgressão, e isso o torna inteiramente dependente da lei (ou seja, do Outro) que o faz existir. Por isso, o desejo nunca pode libertar-se completamente do Outro, já que o Outro é responsável pelo próprio ser do desejo


Do que podemos falar como algo existente fora do Outro, independente do Outro? Em termos freudianos, trata-se do id .isso., da sede ou lócus das pulsões, pois as pulsões freudianas parecem ser não socializadas, não educadas e não controladas, pelo menos no início.6 Elas seguem seu curso sem a menor consideração para com o que é apropriado ou aprovado.


Em suma, podemos dizer que Lacan passa da identificação do sujeito (e, quando diz “sujeito”, ele quer dizer o que é mais essencial) com o desejo inconsciente para a identificação do sujeito com a pulsão


No trabalho anterior de Lacan, o sujeito era, precisamente, a postura defensiva que cercava, refreava e silenciava o clamor das pulsões por satisfação, a postura adotada com respeito a uma experiência opressiva de gozo. Agora, em contraste, com o sujeito visto como pulsão, a meta da análise no trabalho clínico com neuróticos (não com psicóticos nem perversos)8 é transformar a fantasia do analisando que sustenta seu desejo, porque esse desejo impede que ele busque a satisfação.9 O analisando deve reconstituir-se não em relação às demandas ou desejos do Outro, mas em relação ao objeto parcial que traz satisfação: o objeto .


a pulsão continua a se estruturar gramaticalmente (alternando da voz ativa para a voz passiva, do impulso de comer para o impulso de ser comido, da ânsia de bater para a ânsia de ser surrado)11 – e, como tal, não é totalmente separada do registro simbólico, do Outro como linguagem –, porém não recorre a ninguém, a nenhum Outro, para obter orientação ou permissão


a transformação pela qual a pulsão passa no decorrer da análise:
inicialmente subjugada pelas demandas do Outro, depois pelo desejo do Outro, a pulsão finalmente fica livre para buscar o objeto .12


o sujeito teria uma face imaginária, uma face simbólica e uma face real, cada qual predominando num certo ponto do processo analítico, e a meta da análise seria fazer o analisando atravessar esses diferentes momentos até o ponto em que o sujeito como pulsão – ou seja, o sujeito como real – apareça em primeiro plano.


Ao se referir à meta de “viver a pulsão” .vivre la pulsion., Lacan não implica que o sujeito “plenamente analisado” se torne uma espécie de máquina que busca ininterruptamente o prazer, mas sim que o desejo cessa de inibir o sujeito de obter satisfação


o analisando é finalmente autorizado a ser capaz de se comprazer com seu prazer.


ao ponto de aceitar de uma nova maneira as pulsões e o tipo de satisfação que elas buscam


o sujeito “permite sua perversão”, na medida em que as pulsões sempre buscam uma forma de satisfação que, de um ponto de vista ‘freudiano ou moralista tradicional, é considerada perversa. O que as pulsões buscam não é a sexualidade reprodutora heterossexual genital, mas um objeto parcial que proporcione gozo.


Lacan já havia frisado que a análise almeja promover o Eros do analisando.


o sujeito da representação pode associar-se ao inconsciente e, portanto, à articulação e ao desenvolvimento do desejo inconsciente – o sujeito do desejo ou sujeito desejante de Lacan –, enquanto o sujeito do afeto, ou sujeito “emotivo”, é o sujeito do gozo, ou “sujeito que goza”.18 Isso porque, como logo aprendem os clínicos, onde há afeto há gozo.


o desejo é uma defesa contra a satisfação, e o sujeito como desejo, portanto, é uma defesa contra o sujeito como pulsão: o primeiro mexe e interfere no gozo do segundo.


o desejo é visto como associado à linguagem (ao significante), à identificação (que se baseia na linguagem) e à interpretação, ao passo que o gozo fica fora da linguagem, não tem laços com a identificação e requer ferramentas que ultrapassam a interpretação.


A análise não deve, de acordo com ele, ser um processo infinito; ao contrário, deve envolver um movimento


concreto, uma mudança da posição subjetiva – o que ele chama de travessia da fantasia fundamental.


uma compreensão maior dos resultados da análise – de como “um sujeito que atravessou a fantasia radical pode viver a pulsão” (Seminário 11, p.246.264.), de como ele ou ela vivencia a pulsão depois que sua fantasia, nos melhores casos, é radicalmente transformada ou eliminada, ou de como e por que a análise não foi capaz de levar o analisando a esse passe, por assim dizer.


.O desejo do analista. é expor às claras o gozo do sujeito, ao passo que o desejo do sujeito só é sustentado pelo reconhecimento equivocado da pulsão conhecido como fantasia.


Em vez disso, o terapeuta deve pontuar e enfatizar a excitação, a empolgação, o prazer disfarçado ou sistematicamente não reconhecido/erroneamente reconhecido. Mesmo quando o analisando fica enojado com seu prazer este deve ser destacado


A tendência natural do analisando – “natural” no sentido de que a fantasia nos cega para o gozo – é esquecer ou equivocar-se no reconhecimento da satisfação, descartá-la com uma explicação, ou não se responsabilizar por ela.


angústia sinaliza uma emoção – isto é, uma satisfação – que é indesejada ou perturbadora em algum nível.2


Quando o analisando diz “Tive uma sensação estranha”, o sujeito está relatando um tipo de satisfação não reconhecido. Quando relata estar sofrendo ou em grande tristeza, está em jogo um gozo disfarçado. Há uma espécie de equivalência básica entre o afeto e o gozo


o analista não deve deixar escapar a oportunidade de apontar para a satisfação no que o analisando caracteriza como um afeto “doloroso”. Isso envolve superar a resistência do paciente a ver de onde realmente vem o gozo, a ver o que realmente o excita, e só mediante a superação dessa resistência é que ele pode adotar uma postura diferente – uma posição diferente de sujeito – em relação a esse gozo, em relação às pulsões que trazem satisfação. Só então o analisando pode parar de inibir sua “própria” busca de satisfação no nível do isso/id.


O fato de ela reconhecer as pulsões como suas, ao contrário, é o que Lacan chama de subjetivação:


só mediante o questionamento dessa interpretação (o que só foi parcialmente conseguido no decorrer da análise) é que ela poderia vivenciar o sexo de outra maneira


O paciente chega à análise com uma “crise de satisfação”


“o sujeito está sempre feliz”24 em algum aspecto, sempre gozando com alguma coisa, nem que seja com sua própria insatisfação.


“o gozo é vedado a quem fala


um “manejo do”, uma “interferência no” ou até uma “retificação do” desejo (Seminário 10, p.286.271.), envolve a promoção de uma mudança na relação entre satisfação e desejo – isto é, entre as pulsões e sua inibição, entre o sujeito do gozo e o sujeito do desejo


Em vez de desatar os nós do desejo do analisando, para que ele possa buscar seu “desejo verdadeiro”, devemos desatar os nós do gozo do analisando: os nós que se formam na inter-relação entre desejo e gozo


“O discurso do analista … deve se encontrar no polo oposto a toda vontade, pelo menos confessada, de dominar


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