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Child Psychoanalysis Melanie Klein

Child Psychoanalysis Melanie Klein

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A psicanálise da criança

Parte I - A TÉCNICA DA ANÁLISE DE CRIANÇAS
1. Fundamentos psicológicos da análise de crianças
2. A técnica da análise de crianças pequenas
3. Uma neurose obsessiva em uma menina de seis anos de idade
4. A técnica de análise no período de latência
5. A técnica da análise na puberdade
6. Neurose em crianças
7. As atividades sexuais das crianças
Parte II - SITUAÇÕES DE ANSIEDADE ARCAICAS E SEUS EFEITOS SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
8. Estágios iniciais do conflito edipiano e da formação do superego
9. As relações entre a neurose obsessiva e os estágios iniciais do superego
10. A importância das situações de ansiedade arcaicas no desenvolvimento do ego
11. Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual da menina
12. Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual do menino
Apêndice — Alcances e limites da análise de crianças
Nota explicativa
Bibliografia
Lista de pacientes

Objetos Parciais

Sanclor Ferenczi


Karl Abraham


O futuro da psicanálise está na técnica através do brincar


Ernestjones


A psicologia do adulto à luz da análise de crianças


James Strachey


Edwarcl Glover


nos primeiros meses de vida, o bebê passa por estados de ansiedade persecutória que estão vinculados com a “fase de sadismo máximo”; o bebezinho também vivência sentimentos de culpa com respeito a seus impulsos e fantasias destrutivos dirigidos contra seu objeto primário — a mãe e, acima de tudo, seu seio. Esses sentimentos de culpa dão origem à tendência de fazer reparação ao objeto danificado.


duas fases principais nos primeiros seis a oito meses de vida, descrevendo-as como a “posição paranóide” e a “posição depressiva”


A posição paranóide é o estágio em que os impulsos destrutivos e as ansiedades persecutórias predominam, e se estende do nascimento até os três, quatro ou mesmo cinco meses de vida. Isso requer uma alteração ao datar a fase quando o sadismo se encontra no auge, mas não envolve uma mudança de visão com respeito à íntima interação entre o sadismo e a ansiedade persecutória em seus pontos máximos.
A posição depressiva, que se segue a esse estágio e está vinculada a passos importantes do desenvolvimento do ego, se estabelece por volta da metade do primeiro ano de vida. Nesse estágio, os impulsos e fantasias sádicos, bem como a ansiedade persecutória, perdem o seu poder. O bebê introjeta o objeto como um todo e, simultaneamente, se torna em alguma medida capaz de sintetizar os vários aspectos do objeto assim como suas emoções com relação a ele. Amor e ódio se aproximam em sua mente e isso leva à ansiedade de que o objeto, interno e externo, esteja danificado ou destruído. Sentimentos depressivos e culpa dão origem à premência de preservar ou fazer reviver o objeto amado, e assim fazer reparação pelos impulsos e fantasias destrutivos.


os estágios iniciais do complexo de Édipo. Eu ainda acredito que eles começam por volta da metade do primeiro ano. Mas, na medida em que não mais sustento que o sadismo se encontra em seu ponto culminante nesse período, coloco uma ênfase diferente no começo da relação emocional e sexual com ambos os pais. Portanto, enquanto em algumas passagens (ver capítulo vm) sugeri que o complexo de Édipo começa sob a dominância -do sadismo e do ódio, eu agora diria que o bebê se volta para o segundo objeto, o pai, com sentimentos tanto de amor quanto de ódio


Vejo nos sentimentos depressivos derivados do medo de perder a mãe amada —como um objeto externo e interno — um ímpeto importante em direção a desejos edipianos arcaicos. Isso significa que eu agora correlaciono os estágios arcaicos do complexo de Édipo com a posição depressiva.


processos de introjeção e de projeção


objetos internalizados, dos quais, ao longo de anos, o superego se desenvolve em todos os seus aspectos; a relação com objetos externos e internos interagindo desde a mais remota infância e influenciando vitalmente tanto o desenvolvimento do superego como as relações de objeto; o início muito cedo do complexo de Édipo; ansiedades infantis de natureza psicótica fornecendo os pontos de fixação para a psicose. Além de tudo, a técnica do brincar — que comecei a desenvolver em 1922 e 1923 e que apresentei neste livro — ainda se sustenta em tudo que é essencial; ela foi elaborada mas não alterada pelo desenvolvimento ulterior do meu trabalho.


Introdução

também as crianças desenvolvem uma neurose de transferência análoga à das pessoas adultas, contanto que empreguemos um método que seja o equivalente da análise de adultos, isto é, que evite todas as medidas educacionais e que analise plenamente os impulsos negativos dirigidos ao analista. Ensinaram-me também que, nas crianças de todas as idades, é muito difícil mitigar a severidade do superego mesmo numa análise profunda. Além disso, na medida em que não recorre a nenhuma influência educacional, a análise não apenas não faz mal ao ego da criança, como na realidade o fortalece.


Parte I - A TÉCNICA DA ANÁLISE DE CRIANÇAS
1. Fundamentos psicológicos da análise de crianças

Minha paciente Rita, que no início do tratamento tinha dois anos e nove meses de idade, tinha uma preferência pela mãe até o fim do seu primeiro ano de vida. Depois disso passou a mostrar uma afeição marcadamente maior pelo pai, acompanhada de fortes ciúmes em relação à mãe. Por exemplo, com quinze meses costumava expressar com frequência o desejo de ficar a sós com o pai na sala, sentar no seu colo e ficar olhando livros com ele. Aos dezoito meses, sua atitude mudou novamente e a mãe foi reinstalada como a favorita. Começou, ao mesmo tempo, a sofrer terrores noturnos e medo de animais. Foi ficando cada vez mais fortemente fixada na mãe e desenvolveu uma aversão intensa pelo pai. No início do seu terceiro ano de vida, tornou-se cada vez mais ambivalente e difícil de ser controlada até que, finalmente, com a idade de dois anos e nove meses, ela me foi trazida para ser analisada. Por essa época, tinha uma pronunciada neurose obsessiva. Apresentava cerimoniais obsessivos e alternava entre ser “um amorzinho” mesclado com sentimentos de remorso e “uma ruindade” incontrolável.
Tinha ataques de mau-humor, que mostravam todos os sinais de uma depressão melancólica; além disso, sofria de uma ansiedade grave e uma extensa inibição no seu brincar, uma completa incapacidade de tolerar qualquer tipo de frustração e uma excessiva tristeza. Essas dificuldades tornavam praticamente impossível lidar com a criança


Rita havia dormido no quarto dos pais até quase dois anos e mostrou na sua análise as consequências de ter presenciado a cena primária. Quando tinha dois anos, seu irmão nasceu e esse evento levou à erupção de sua neurose em toda a sua intensidade. Sua análise durou oitenta e três sessões e foi interrompida, uma vez que seus pais foram viver no exterior. Resultou em uma melhora bastante considerável em todos os pontos mais importantes. A ansiedade da criança foi


Trude, com a idade de três anos e nove meses, repetidamente fazia de conta em sua análise que era noite e nós duas estávamos dormindo. Ela aí se aproximava silenciosamente de mim vindo do canto oposto da sala (que supostamente era o seu quarto) e me ameaçava de várias maneiras, tais como: me esfaquearia na garganta, me atiraria para fora da janela, me queimaria, me entregaria para a polícia, etc. Amarrava meus pés e minhas mãos ou levantava a manta sobre o sofá e dizia que estava fazendo “Po-Kaki-Ku-ki”. Isto, revelou-se, significava que ela queria olhar dentro do traseiro de sua mãe à procura de “Kakis” (fezes), que para ela representavam crianças. Em uma outra ocasião, quis me bater no estômago e declarou que estava extraindo meus “A-As” (excrementos) e me deixando pobre. Agarrou, então, as almofadas , que com frequência chamava de crianças, e escondeu-se com elas atrás do sofá. Lá, agachou-se no canto com uma intensa expressão de medo, cobriu-se, chupou os dedos e molhou-se. Costumava repetir esse processo inteiro toda vez que fazia um ataque a mim. Correspondia detalhe por detalhe à maneira abrandada e seus cerimoniais obsessivos desapareceram. Seus sintomas depressivos, junto com sua incapacidade de tolerar frustrações, ficaram bem moderados. Ao mesmo tempo em que a análise diminuiu sua ambivalência pela mãe e melhorou seu relacionamento com o pai e o irmão, reduziu as dificuldades de sua educação a um nível normal. Convenci-me inicialmente da natureza duradoura dos resultados de sua análise alguns anos após o seu término. Descobri, então, que ela havia entrado no período de latência de um modo satisfatório e que o seu desenvolvimento intelectual e de caráter era satisfatório. Contudo, quando a vi novamente, tive a impressão de que teria sido aconselhável ter continuado sua análise um pouco mais. Todo o seu caráter e natureza mostravam traços inequívocos de uma disposição obsessiva. A esse respeito é preciso notar que sua mãe sofria de uma grave neurose obsessiva e tinha tido uma relação ambivalente para com a criança desde o início. Um resultado dentre as mudanças para melhor que a análise havia produzido em Rita era que a atitude de sua mãe para com ela havia também melhorado enormemente; mas ainda assim subsistiu um déficit sério no desenvolvimento da criança. Não há dúvida de que se sua análise tivesse sido conduzida até o fim e seus traços neuróticos sido mais esclarecidos, ela teria alcançado um contrabalanceamento mais eficaz do ambiente neurótico e neurotizante em que vivia. Sete anos após o fim de seu tratamento, ouvi de sua mãe que ela continuava a se desenvolver satisfatoriamente.


como se havia comportado na cama quando, numa época em que ainda não tinha dois anos, começou a ter terrores noturnos muito intensos. Naquela época também ela costumava correr para o quarto dos pais repetidamente, sem ser capaz de dizer o que é que queria. Através da análise do seu urinar-se e sujar-se, que representavam ataques aos pais em cópula, esses sintomas foram removidos.
Trucle havia desejado roubar os bebês à sua mãe grávida, matá-la e tomar o seu lugar no coito com o pai. Tinha dois anos de idade quando a irmã nasceu. Foram esses impulsos de ódio e agressividade que, em seu segundo ano, haviam dado origem a uma fixação cada vez mais forte na mãe, e a uma ansiedade e sentimento de culpa graves que encontraram expressão, entre outras coisas, em seus terrores noturnos. Concluo a partir disso que a ansiedade e os sentimentos de culpa que a criança pequena experimenta muito cedo na vida têm sua origem nas tendências agressivas relacionadas com o conflito edipiano. Na ocasião em que Trude estava mais claramente exibindo na análise a conduta que descrevi, ela com íreqüência dava um jeito de machucar-se de algum modo quase todas as vezes antes de vir para a sua sessão analítica. Revelou-se que os objetos contra os quais se havia machucado —uma mesa, um armário, uma lareira, etc. —representavam, em consonância com a identificação primitiva e infantil, a mãe e o pai que a estavam punindo.


Certa disposição para choramingar e uma tendência a cair ou se machucar, coisas tão absolutamente comuns em crianças pequenas, são, segundo minha experiência, efeitos do sentimento de culpa.


Esses jogos provavam também que essa ansiedade se referia não apenas aos pais reais da criança como também, e mais especialmente, a seus excessivamente severos pais introjetados. O que estamos vendo aqui corresponde ao que chamamos de superego nos adultos.1 Os sinais típicos, que são mais pronunciados quando o complexo de Édipo alcançou o auge e que precedem o seu declínio, são eles próprios apenas o estágio final de um processo que vem se dando há anos. A análise de crianças muito pequenas mostra que o conflito edípico se instala já na segunda metade do primeiro ano de vida e que a criança começa simultaneamente a construir o seu superego.


A criança expressa suas fantasias, seus desejos e suas experiências reais de um modo simbólico, através de brincadeiras e jogos.


Crianças neuróticas não toleram bem a realidade porque não podem tolerar frustrações. Protegem-se da realidade negando-a. O que é fundamental e decisivo para sua adaptação futura à realidade é sua maior ou menor capacidade de tolerar aquelas frustrações que surgem da situação edipiana. Em crianças pequenas também uma rejeição excessiva da realidade (frequentemente disfarçada debaixo de uma aparente docilidade e adaptabilidade) é, portanto, uma indicação de neurose e só difere da fuga da realidade do neurótico adulto na sua forma de expressão.


Por essa razão, um dos resultados da análise de crianças muito pequenas deveria ser capacitar a criança a se adaptar à realidade. Se isso for alcançado com êxito, vemos nas crianças, entre outras coisas, uma diminuição de suas dificuldades educacionais à medida que elas se tornam capazes de tolerar as frustrações inerentes à realidade.


Em crianças pequenas essa ansiedade habitualmente encontra um escoamento em ataques de ansiedade; durante o período de latência mais freqüentemente toma a forma de uma rejeição carregada de suspeita, ao passo que na idade intensamente emocional da puberdade leva uma vez mais a uma aguda geração de ansiedade, que agora, contudo, em conformidade com o ego mais desenvolvido da criança, freqüentemente se expressa por meio de resistências de uma natureza violenta e desafiadora, que podem facilmente fazer com que a análise se interrompa. Uma certa quantidade de ansiedade pode rapidamente ser resolvida em crianças de todas as idades se a transferência negativa for sistematicamente tratada e dissolvida desde o início.


Contudo, acredito que nenhuma análise de criança, qualquer que seja a sua idade, pode ser considerada terminada a não ser que ela tenha empregado a fala em toda a sua capacidade, pois a linguagem constitui a ponte para a realidade.


A natureza mais primitiva da mente da criança torna necessário encontrar uma técnica analítica especialmente adaptada a ela, e isso nós encontramos na análise através do brincar. Por meio da análise do brincar, ganhamos acesso às fixações e experiências mais profundamente reprimidas da criança e tornamo-nos assim capazes de exercer uma influência radical sobre o seu desenvolvimento.


A análise da situação transferencial e da resistência, a remoção da amnésia infantil arcaica e dos efeitos da repressão, bem como o desvelamento da cena primária — tudo isso a técnica do brincar faz


2. A técnica da análise de crianças pequenas

Em uma mesinha, na minha sala de análise, são postos alguns brinquedos pequenos e simples — homenzinhos e mulherzinhas de madeira, carrocinhas, vagões, automóveis, trens, animais, blocos e casinhas, e também papel, tesoura e lápis. Até mesmo uma criança normalmente inibida na sua atividade de brincar pelo menos lançará um olhar nos brinquedos ou tentará tocá-los, e logo me dará um primeiro vislumbre de seus complexos, pela maneira como começa a brincar com eles ou como os põe de lado, ou por sua atitude geral com relação a eles.


Peter, com a idade de três anos e nove meses, era uma criança muito difícil. Tinha uma fixação muito forte na mãe e era muito ambivalente. Era incapaz de tolerar frustrações, totalmente inibido no seu brincar, e dava a impressão de ser alguém extremamente tímido, queixoso e pouco masculino. Seu comportamento era por vezes agressivo e desdenhoso e ele se dava mal com as outras crianças, em especial com seu irmão menor. O propósito de sua análise era o de ser fundamentalmente uma medida profilática, já que havia vários casos de neurose grave na família. Mas, ao longo dela, tornou-se óbvio que ele próprio estava sofrendo de uma neurose tão grave e de um tal grau de inibição que quase com toda certeza não teria sido capaz de corresponder às exigências da vida escolar e, mais dia menos dia, entraria em crise.1


Devo acrescentar que ao final de sua análise, que levou 278 sessões, suas dificuldades haviam desaparecido e houve uma ampla mudança para melhor em todo o seu caráter e disposição. Havia perdido não só seus medos mórbidos, como sua timidez geral, e havia se tornado uma criança alegre e cheia de vivacidade. Superou sua inibição no brincar e tinha começado a se dar bem com outras crianças, em particular com seu irmãozinho. Seu desenvolvimento desde então tem sido excelente. Segundo as últimas notícias que tenho dele, seis anos após o fim da análise, estava se saindo bem na escola, estava interessado nas coisas, aprendia bem e era bom em jogos. Convivia bem com os outros e era capaz de corresponder a todas as exigências sociais próprias à sua idade.
Vale notar, além disso, que tanto durante sua análise quanto nos anos seguintes ele teve que atravessar tensões excepcionalmente grandes em virtude de várias vicissitudes em sua vida familiar.


Ao revelar pedacinho por pedacinho a cena primária, foi-me possível obter acesso à atitude homossexual passiva muito forte de Peter. Depois de ter exposto o coito dos pais, teve fantasias de coito entre três pessoas. Elas suscitavam nele uma ansiedade forte e foram seguidas por outras fantasias nas quais ele estava copulando com seu pai; isso aparecia no seu brincar com o cachorro ou carrinho ou locomotiva — todos representando o pai — subindo em cima de uma carroça ou de um homem, que o representavam. Nesse processo a carroça ficaria danificada ou o homem teria alguma coisa arrancada a mordidas; e aí Peter mostrava muito medo ou grande agressividade em relação ao brinquedo que representava seu pai.


ela queria destruir o pênis do pai, porque este produzia devastação na mãe (representada pelo vaso, pela carrocinha, o livro de figuras e a almofada), imediatamente diminuiu sua ansiedade, e ela foi embora com um estado de espírito de muito maior confiança do que quando chegou, e disse em casa que gostaria de voltar a me ver de novo. Quando, seis meses depois, pude retomar a análise dessa menininha, revelou-se que ela havia lembrado de detalhes da sua única hora de análise e que as minhas interpretações haviam produzido certa transferência positiva, ou melhor, uma diminuição da sua transferência negativa.


não prejudicaram de modo nenhum a elucidação das conexões entre a experiência e o desenvolvimento sexual da criança como um todo (e em particular o curso de suas relações com o irmão), nem impediram uma elaboração do material envolvido.


Assim, ao dar uma interpretação no momento oportuno — quer dizer, tão logo o material o permita — o analista pode abreviar a ansiedade da criança ou, então, regulá-la.


a interpretação imediata era o único meio de diminuir a ansiedade e de pôr a análise em movimento


interpretar em reduzir a ansiedade e a transferência negativa.


as bolas dentro do copo, as moedas dentro do moedeiro e os conteúdos da bolsa, tudo isso significava crianças dentro da mamãe e o desejo de mantê-las trancadas com toda a segurança para que ela não viesse a ter mais nenhum irmão ou irmã. O efeito da minha interpretação foi surpreendente.
Pela primeira vez Ruth voltou sua atenção para mim e começou a brincar de uma maneira diferente, mais espontânea


Nesta situação bastante penosa, comecei de novo tentando acalmar a criança de um modo não analítico, maternal, como qualquer outra pessoa faria. Tentei confortá-la e animá-la e fazê-la brincar comigo, mas foi tudo em vão. Quando se viu sozinha comigo, ela apenas deu conta de me seguir para dentro da sala, mas, uma vez lá, não havia o que fazer com ela. Ficou muito pálida, pôs-se a gritar e mostrou todos os sinais de um severo ataque de ansiedade. Entrementes, sentei-me à mesinha e pus-me a brincar por minha conta


Interpretei agora este material em conexão com seu protesto a respeito da esponja grande, que representava o pênis do pai. Mostrei-lhe detalhe por detalhe como ela invejava e odiava a mãe por esta haver incorporado o pênis do pai durante o coito e como queria roubar o pênis dele e as crianças que estavam dentro da mãe e matar a mãe. Expliquei-lhe que era por isso que ela estava assustada, e acreditava que havia matado a mãe ou seria abandonada por ela. Dei-lhe essas interpretações neste caso da seguinte maneira. O tempo todo comecei dirigindo a interpretação à boneca —mostrando a Ruth à medida, que eu brincava com a boneca que esta estava com medo e gritando e contando à menina o motivo — e, em seguida, eu prosseguia repetindo a interpretação que havia dado à boneca aplicando-a desta vez a ela própria.

Em seu artigo “The Genesis of Agoraphobia” (1928), Helene Deutsch aponta que o medo da morte da mãe, baseado em vários desejos hostis contra esta, é uma das formas mais comuns de neurose infantil e está intimamente ligado com um medo de ser separado da mãe e de sentir saudades de casa.


foi capaz de se adaptar inteiramente às exigências de sua casa e da vida escolar. Sua fixação na mãe diminuiu e sua atitude com o pai melhorou.


A neurose de Trude se mostrava por meio de graves terrores noturnos, ansiedade durante o dia quando ficava sozinha, molhar a cama, uma timidez em geral, uma fixação excessiva na mãe e uma aversão pelo pai, ciúmes intensos das irmãs e várias dificuldades na sua educação. Sua análise, que abrangeu oitenta e duas sessões em sete meses, levou à interrupção do hábito de molhar a cama e a uma grande diminuição da ansiedade e da timidez em vários aspectos e a uma mudança muito favorável no seu relacionamento com os pais, irmãos e irmãs. Ela também tinha muitos resfriados, que se revelou através da análise serem em grande medida psicogenicamentc determinados, e também esses resfriados diminuíram em freqüência e em intensidade. Apesar dessa melhora, sua neurose ainda não estava plenamente resolvida quando, por razões externas, sua análise teve que ser interrompida.


Estou aqui

idéia da menina de que a mãe destruirá o seu corpo, eliminará os conteúdos e tirará as crianças de dentro dele


Esses impulsos geram não apenas ansiedade ou medo de ser atacada pela mãe, como também medo de que a mãe a abandone ou morra.


Os brinquedos não são o único requisito para uma análise através do brincar. É preciso haver vários recursos ilustrativos na sala. Dentre eles, o mais importante é uma pia com água corrente. A pia normalmente não é muito usada até um estágio bem mais tardio na análise, mas nesse ponto torna-se de grande importância. Atravessei toda uma fase da análise de uma criança brincando em torno da pia (onde também se encontrava à disposição uma esponja, um copo de vidro, um ou dois pequenos recipientes, algumas colheres e papel). Esses jogos com água proporcionam-nos um insight profundo dos impulsos pré-genitais fundamentais da criança e são também um meio de ilustrar suas teorias sexuais, dando-nos um conhecimento da relação entre suas fantasias sádicas e suas formações reativas e mostrando-nos a conexão direta entre os seus impulsos pré-genitais e os genitais.


Em muitas análises, desenhar ou recortar tem um papel muito importante.
Em outras — especialmente com meninas — a maior parte do tempo é gasta fazendo roupinhas e coisas bonitas para a própria criança, suas bonecas ou seus bichinhos de brinquedo, ou em se enfeitar com fitas e outros ornamentos. Toda criança tem à sua disposição papel, lápis de cor, tesoura, agulha e linha e pedaços de madeira e barbante. É muito frequente as crianças trazerem seus próprios brinquedos.


Algumas crianças mostram uma preferência por jogos de faz-de-conta, outras pela forma mais indireta de representação por meio de objetos para brincar.
Brincadeiras típicas de fingir são brincar de mamãe e filhinho, brincar de escolinha, construir ou mobiliar uma casa (com a ajuda de cadeiras, peças do mobiliário, almofadas, etc.), viajar para o exterior, viajar de trem, ir ao teatro, brincar de médico, trabalhar em um escritório, brincar de loja, etc. O valor dessas atividades de faz-de-conta, de um ponto de vista analítico, está no seu método direto de representação e, consequentemente, na maior riqueza de associações verbais que proporcionam. Pois, como já foi dito no primeiro capítulo, uma das condições necessárias para um tratamento levado a termo com êxito é que a criança, por pequena que seja, faça uso da linguagem na análise ao máximo da sua capacidade.


3. Uma neurose obsessiva em uma menina de seis anos de idade

Erna, uma criança de seis anos, tinha uma série de sintomas graves. Sofria de insônia, que era em parte causada por ansiedade (em particular por um medo de ladrões e assaltantes invasores) e, em parte, por uma série de atividades obsessivas. Essas atividades consistiam em deitar com o rosto para baixo e bater a cabeça no travesseiro, em fazer um movimento de balançar-se, durante o qual se sentava ou se deitava de costas, em chupar o dedo obsessivamente e em uma masturbação excessiva e compulsiva. Todas essas atividades obsessivas, que a impediam de dormir à noite, eram também executadas durante o dia. Isso acontecia em especial com a masturbação, que ela praticava até mesmo na presença de estranhos e, por exemplo, quase continuamente no jardim de infância. Sofria de depressões graves que descrevia dizendo: “Tem alguma coisa na vida que eu não gosto.” Era excessivamente afetuosa no relacionamento com a mãe, mas por vezes dava uma guinada para uma atitude hostil. Dominava completamente a mãe, não lhe deixando qualquer liberdade de movimento e atormentando-a continuamente com seu amor e seu ódio. Como sua mãe dizia:
“Ela me engole.” A criança poderia também ser com justiça descrita como ineducável. Um pensar obsessivo e uma natureza curiosamente pouco infantil eram visíveis no olhar de sofrimento que havia no rosto da menininha. Além disso, ela causava uma impressão estranha e sexualmente precoce. Um sintoma que logo se tornou óbvio durante a análise era que tinha uma inibição muito acentuada de aprendizagem. Foi mandada para a escola alguns meses depois do início da análise e logo ficou evidente que era totalmente incapaz de aprender e que tampouco conseguia se adaptar aos colegas. O fato de que ela própria sentia que estava doente —já no início de seu tratamento me implorava para ajudá-la — íbi de grande auxílio para mim em sua análise.


Essas brincadeiras com água permitiram ir fundo na análise de suas fantasias sádico-orais, sádico-uretrais e sádico-anais.


impulsos coprofílicos e canibalescos claramente à vista quando mastigava os pedaços de papel, que representavam excrementos e crianças bem como lençóis sujos.)


oportunidades de punir e humilhar a criança, e desempenhava o papel da mãe cruel. Mas, uma vez que também se identificava com a criança maltratada, ela estava também gratificando seus desejos masoquistas. Muitas vezes fingia que a mãe fazia o pai punir a criança e bater nas suas nádegas. Essa punição era recomendada por Erna, no seu papel de lavadeira, como meio de curar a criança do seu amor pela sujeira.


o significado simbólico do teatro, de representações, produções, etc., como representando o ato sexual entre os pais


Durante muito tempo, Erna costumava ter ataques de raiva e ansiedade no começo e no fim da sua sessão comigo, e esses ataques eram em parte precipitados pelo seu encontro com a criança que vinha para se analisar imediatamente antes ou depois dela e que ficava para ela como o irmão ou irmã cuja chegada ela estava sempre esperando.1 Por outro lado, embora não se desse bem com outras crianças, sentia por vezes grande necessidade de ter a sua companhia


Mas essas fantasias de Erna eram rapidamente seguidas de sentimentos de ódio contra seus irmãos e irmãs imaginários —pois eles eram, em última análise, apenas substitutos do pai e da mãe — e de sentimentos de culpa muito intensos em função dos atos destrutivos que ela, junto com os outros, havia perpetrado contra os pais em suas fantasias. E ela normalmente acabava tendo uma crise de depressão.
Essas fantasias tinham também sua parcela em tornar Erna incapaz de se dar com outras crianças.


sentia-se continuamente espionada. Um motivo da sua excessiva fixação na mãe era a compulsão de ficar o tempo todo observando-a. A análise mostrou que Erna se sentia responsável por toda e qualquer doença que a mãe tivesse e tinha a expectativa de uma punição correspondente em função de suas próprias fantasias agressivas. A mãe severa e punitiva e a criança cheia de ódio, entre as quais ela permanentemente se alternava em suas brincadeiras e fantasias, mostravam com muitos pormenores a ação de um superego excepcionalmente duro.


A experiência que adquiri desde que anotei pela primeira vez esta história clínica levou-me à conclusão de que o caráter peculiar da ansiedade de Erna, de suas fantasias e da sua relação com a realidade é típico de casos com fortes traços paranóides


Depois que essas fantasias e impulsos sádicos pertencentes a um estágio muito arcaico de desenvolvimento foram mais profundamente analisados, a fixação homossexual de Erna na mãe diminuiu e seus impulsos heterossexuais se fortaleceram. Até esse momento, o determinante essencial de suas fantasias tinha sido sua atitude de amor e de ódio em relação à mãe. O pai havia figurado principalmente como um mero instrumento para o coito; parecia que toda a sua importância decorria da relação mãe-filha.


Assim, a análise das suas idéias de perseguição e a diminuição da sua ansiedade tiveram êxito não apenas em fortalecer sua atitude heterossexual mas também em melhorar suas relações com a mãe e em capacitá-la a ter ela própria mais sentimentos maternais. Gostaria de dizer aqui que, na minha opinião, o ajuste satisfatório dessas atitudes fundamentais, que determinam a escolha futura de um objeto de amor pela criança e toda a natureza das experiências do adulto, é um dos critérios de uma análise infantil bem-sucedida.


Em cada relação, por exemplo, com a babá e as outras pessoas que cuidavam dela e também na análise, tentava repetir a situação de ser seduzida em alternância com a acusação de estar sendo seduzida. Através da análise dessa situação transferencial específica, foi possível fazer remontar sua atitude através de situações anteriores até as situações mais arcaicas —à experiência de ser cuidada quando era um bebezinho.


Apesar desses resultados favoráveis, não considerei de modo algum que a análise estivesse completa quando foi interrompida por razões externas depois de 575 sessões, transcorridas em um período de dois anos e meio. A gravidade extraordinária do caso, que se manifestava não apenas nos sintomas da criança como também no desenvolvimento distorcido do seu caráter e na sua personalidade completamente anormal, exigia mais análise para que fossem removidas as dificuldades de que ainda sofria. Que ela ainda se encontrava em uma condição insuficientemente estável podia ser visto pelo fato de que, numa situação de pressão, tinha uma tendência a recair em alguns de seus velhos problemas, embora tais recaídas fossem sempre menos graves do que eram originalmente. Nessas circunstâncias era sempre possível que uma tensão mais grave ou mesmo o início da puberdade poderia dar origem a uma nova enfermidade ou a alguma outra dificuldade.


Desde o comecinho, deixei muito claro a Erna que ela não deveria me atacar fisicamente. Mas tinha liberdade de ab-reagir seus afetos de muitas outras maneiras; e ela costumava quebrar seus brinquedos ou cortá-los, derrubar as cadeirinhas, atirar as almofadas, sapatear no sofá, derrubar água, borrar papéis, sujar os brinquedos ou a pia


Considero de absoluta necessidade na análise de crianças que a sala em que se dá o tratamento seja mobiliada de modo que a criança possa ab-reagir com toda liberdade. Danos ao mobiliário, ao chão, etc., devem ser aceitos até um certo limite.


Há, portanto, três fatores que tecnicamente têm de ser considerados ao lidarmos com as explosões de emoção de uma criança durante o tratamento: (1) a criança tem de manter parte de seu afeto sob controle, mas isso só lhe deveria ser exigido na medida em que haja uma necessidade para tal na realidade; (2) pode dar vazão a seus afetos por meio de impropérios e das outras maneiras acima mencionadas; e (3) seus afetos são reduzidos ou eliminados por meio de interpretação contínua e fazendo-se remontar a situação atual à original.


A visão dos pais no ato sexual havia, portanto, induzido um desejo de roubar o pênis do pai e o que quer que estivesse dentro do corpo da mãe. A reação de Erna contra essa intenção de assaltar e destruir completamente o corpo da mãe se expressava no medo que tinha, depois de suas lutas com a vendedora de peixes, de que uma ladra tiraria tudo o que havia dentro dela. É esse medo que eu descrevi como pertencente à mais arcaica situação de perigo da menina e que considero como o equivalente da ansiedade de castração nos meninos


4. A técnica de análise no período de latência

contei-lhe que ela estava preocupada com a diferença sexual entre o pai e a mãe e entre ela e o irmão e também com a diferença entre os adultos e as crianças


Explicações exclusivamente intelectuais em geral não apenas fracassam em responder às questões mais prementes na mente da criança, como também estimulam material reprimido sem dissolvê-lo. Quando isto acontece, a criança reage com aversão à explicação. Em meu artigo “A resistência da criança à análise” .que aparece como parte de “O desenvolvimento de uma criança” — 1921, Obras Completas, I., apresentei a visão de que as crianças só podem aceitar elucidação sexual na medida em que sua própria ansiedade e conflitos internos não a impedirem, e que, portanto, a resistência delas a tais esclarecimentos deveria ser tomada como um sintoma.


É aqui que eu vejo a razão pela qual não podemos esperar auxílio por parte de ego para o trabalho analítico, que corre em sentido contrário a todas as tendências do ego, e por que devemos nos pôr de acordo tão logo quanto possível com as agências inconscientes a fim de assegurar a cooperação do ego passo a passo por esses meios.


Sempre que uma explicação intelectual não produz alívio, ela em geral consegue resolver um tanto de material reprimido nos níveis mais superficiais da mente.
Explicações francas em resposta a perguntas espontâneas sobre este assunto são recebidas pela criança como prova de confiança e amor e ajudam a aliviar o seu sentimento de culpa ao colocai- as questões sexuais em discussão abertamente,


Deve-se notar que não só ela achava as lições difíceis e desagradáveis, como tinha uma enorme aversão pela própria escola. Ela agora brincava de escola comigo por longos períodos, assumindo o papel da professora, enquanto eu era a aluna; o tipo de erros que ela me fazia cometer me dava pistas importantes a respeito do seu fracasso na escola.


A análise de Inge, de 375 sessões no total, tinha o caráter de um tratamento profilático. Sua dificuldade principal era uma inibição com relação à escola, que não me pareceu muito acentuada quando ela veio me ver pela primeira vez, mas que, no decorrer da análise, apareceu como profundamente enraizada. Inge era uma criança vivaz e ativa, bem adaptada à vida de sociedade e que poderia ser em tudo chamada de uma criança normal. No entanto, sua análise produziu algumas mudanças notáveis nela. Ficou claro que sua vivacidade estava baseada em uma atitude homossexual ativa e que as suas relações com meninos, em geral boas, estavam assentadas sobre uma identificação com eles. Além disso, a análise revelou em primeiro lugar a severidade das depressões a que estava sujeita e mostrou que por trás da sua aparente autoconfiança havia um intenso sentimento de inferioridade e um medo do fracasso que eram responsáveis por suas dificuldades no que se referia à vida escolar. Após o término da análise, ela tornou-se muito mais livre, mais feliz e mais aberta, o relacionamento com a mãe ficou mais afetuoso e franco e suas sublimações aumentaram em número e estabilidade. Inge conseguiu entrar na puberdade sem dificuldade e se desenvolveu satisfatoriamente. Uma mudança em sua atitude sexual, em função da qual seus componentes femininos puderam aparecer em grau muito maior, foi um bom prenuncio para a sua vida futura. Nos sete anos que passaram desde o fim de seu tratamento, ela se desenvolveu de modo muito satisfatório e entrou bem na puberdade.


A isto se agregava o seu sentimento de incapacidade de fazer, em consequência da sua incapacidade de saber (isto é, a frustração arcaica do seu desejo pelo conhecimento), a que a sua posição como caçula havia contribuído. Ela, portanto, fracassava na escola naquelas atividades que respondiam aos seus componentes masculinos; e, já que ela não conseguia manter a posição feminina, que envolvia a concepção de crianças e dar a luz a estas em fantasia, tampouco conseguia desenvolver sublimações femininas


devido à sua ansiedade e sentimentos de culpa, ela também fracassava na relação de criança — mãe (por exemplo, na sua relação com a professora), uma vez que, inconscientemente, equacionava a absorção de conhecimento com a gratificação de desejos sádico-orais, o que envolvia a destruição do seio da mãe e do pênis do pai.


Kenneth, de nove anos e meio, um menino muito infantil para a sua idade, era medroso, tímido e gravemente inibido, e sofria de uma ansiedade intensa.
Desde a mais tenra idade sofria de ruminações mórbidas em um grau muito acentuado. Era um completo desastre com seus estudos, sendo o seu conheci­ mento das matérias da escola igual ao de uma criança de sete anos. Em casa era extremamente agressivo, arrogante e difícil de ser controlado. Seu interesse não sublimado e aparentemente desinibido em todas as questões sexuais era incomum; empregava palavras obscenas por gosto e exibia-se e masturbava-se desavergonhadamente, o que era inabitual para uma criança da sua idade


O tratamento de Kenneth ocupou 225 sessões e não pôde ser levado adiante por circunstâncias externas. Sua neurose, ainda que não verdadeiramente removida, havia por essa época sido consideravelmente reduzida. Quanto à sua vida prática, os resultados parciais obtidos levaram a uma diminuição de várias dificuldades: entre outras coisas ele pôde corresponder melhor às exigências da vida acadêmica e da sua educação em geral.


Um pouco depois do começo da análise, ele teve o seguinte sonho de ansiedade. Sem mais nem menos era um homem que estava sentado na minha cadeira em vez de mim. Eu, então, me despi e ele ficou horrorizado de ver que eu tinha um genital masculino excepcionalmente grande. Em conexão com a interpretação deste sonho, um rico material surgiu com respeito à sua teoria sexual da “mãe com pênis”


Na parte final da análise, produzia seu material principalmente na forma de associações livres. Deitado no divã


Werner apresentava os seguintes sintomas: ansiedade e timidez que se mostravam de várias formas, mas especialmente em ansiedade na escola e em grandes e crescentes dificuldades na aprendizagem; cerimoniais obsessivos que estavam constantemente se tornando mais elaborados e que tomavam horas de cada vez; e um caráter gravemente neurótico que tornava a sua educação extremamente difícil. Sua análise, que teve 210 sessões, removeu essas dificuldades em grande medida. O desenvolvimento geral do menino no presente (cinco anos após o final do tratamento) é muito favorável. Os cerimoniais obsessivos cessaram, ele é bom no trabalho, gosta de ir para a escola, dá-se bem com seus companheiros tanto em casa quanto na escola e está bem ajustado socialmente. Suas relações tanto com o ambiente mais próximo quanto com o mais amplo são boas. Contudo, acima de tudo — o que não acontecia antes — ele sente prazer nos mais variados tipos de atividades e de esportes e sente-se bem.


Egon, de nove anos e meio, não apresentava nenhum sintoma definido, mas o seu desenvolvimento como um todo passava uma impressão inquietante.
Era completamente retraído, mesmo com aqueles mais próximos a ele, falava apenas o que fosse absolutamente necessário, quase não tinha laços emocionais e nenhum amigo, e não havia nada que o interessasse ou o agradasse. Ele era, é verdade, um bom aluno, mas, como a análise mostrou, apenas numa base obsessiva. Quando lhe perguntavam se queria alguma coisa ou não, sua resposta estereotipada era: “Tanto faz”. Esse jeito tão pouco de criança, a expressão tensa do seu rosto e a rigidez impressionavam muito. Seu retraimento da realidade ia tão longe que ele não via o que se passava ao seu redor e deixava de reconhecer pessoas familiares quando as encontrava. A análise revelou a presença de fortes características psicóticas, que eram crescentes e que, com toda probabilidade, o teriam levado ao começo de uma esquizofrenia na época da puberdade.


A rivalidade com a mãe, baseada em sua forte atitude homossexual passiva, e a ansiedade que sentia por isso, tanto em relação ao pai quanto à mãe, tornaram-se mais e mais evidentes.


Foi só muito mais tarde e durante a última parte do tratamento, que levou no total 425 sessões, que pudemos reconhecer e explorar plenamente os fatores paranóides subjacentes à sua inibição na fala, que foi então completamente eliminada.1 À medida que sua ansiedade diminuía substancialmente, ele começou por vontade própria a me dar associações isoladas por escrito. Mais adiante passou a cochichá-las para mim e pedia-me que lhe respondesse em voz baixa. Foi ficando cada vez mais claro que ele tinha medo de ser ouvido por alguém na sala, e havia certas partes da sala de que ele não se aproximava por nada nesse mundo. Se, por exemplo, sua bola rolasse para debaixo do divã ou do armário ou para um canto escuro, eu tinha de pegá-la para ele; ao mesmo tempo, à medida que sua ansiedade aumentava, ele novamente assumia a mesma postura rígida e expressão fixa tão marcantes nele no início da análise. Foi aparecendo que ele suspeitava da presença de perseguidores ocultos que o observavam de todos esses lugares e mesmo do teto, e que suas idéias de perseguição remontavam, em última análise, a seu medo de muitos pênis dentro do corpo da mãe e do seu próprio corpo.
Esse medo paranóico do pênis como um perseguidor fora grandemente aumentado pela atitude do pai de observá-lo e de interrogá-lo com respeito à mastur­ bação e fez com que se afastasse também da mãe, já que ela estava em aliança com o pai (“a mulher com pênis”). À proporção que sua crença em uma mãe


“boa” se tornou mais forte no curso da análise, ele passou a me tratar cada vez mais como uma aliada e como um protetor contra perseguidores que o ameaçavam de todos os lados. Só depois que sua ansiedade com relação a isso diminuiu, diminuindo com isso o número e periculosidade de seus perseguidores no seu modo de ver, que ele pôde falar e se movimentar mais livremente.


Melitta Schmideberg discutiu um caso parecido em seu artigo “A Contribution to the Psychology of Persecutory Ideas and Delusions” (1931). O paciente era um menino de cerca de dezesseis anos que na análise mal falava. Aqui, novamente, a inibição da fala era causada por idéias de perseguição e o menino só começou a associar livremente no momento em que a análise diminuiu sua ansiedade paranóica.


Inge, que, como já mencionei, sofria de uma grave inibição da escrita, tinha um desejo ardente de escrever “rapidamente e lindamente” como os adultos. A solução de compromisso entre esse desejo e sua inibição era rabiscar, que, na sua fantasia, representava uma letra linda e caprichada.
Seu desejo era, se fosse possível, superar os adultos na escrita, e sua ambição c curiosidade muito intensas,. existentes lado a lado com um profundo sentimento de que ela não sabia nada e não podia fazer nada, desempenhavam um grande papel no seu fracasso na vida real.


há sempre alguma oportunidade para começar e para continuar o trabalho de análise


a análise não se aplica ao ego enquanto tal (como o fazem os métodos educacionais), mas só procura abrir um caminho para as instâncias inconscientes da mente — aquelas que são decisivas para a formação do ego.


relações do analista com os pais de seus pacientes. Para que ele possa realizar o seu trabalho, é preciso que haja certa relação de confiança entre ele e os pais da criança. A criança depende deles e, assim, eles estão incluídos no campo da análise; contudo, não são eles que estão sendo analisados e, portanto, só podem ser influenciados pelos meios psicológicos habituais. O relacionamento dos pais com o analista do filho encerra dificuldades de um tipo particular, uma vez que toca de perto seus próprios complexos. A neurose do filho pesa muito no sentimento de culpa dos pais, e, ao mesmo tempo que eles se voltam para a análise pedindo ajuda, encaram a necessidade dela como uma prova de sua culpa no que diz respeito à doença do filho. Além disso, é muito penoso para eles que os pormenores da vida da família sejam revelados para o analista. A isto se acresce, em particular no caso da mãe, os ciúmes da confiança que se estabelece entre a criança e uma analista mulher. Esses ciúmes, que em grande medida se baseiam na rivalidade dela com sua própria imago materna, são também bastante perceptíveis em governantas e babás, que, com frequência são tudo menos amistosas em sua atitude para com a análise. Esses e outros fatores, que permanecem na sua maior parte inconscientes, dão origem a uma atitude mais ou menos ambivalente nos pais, especialmente na mãe, com respeito ao analista, e isso não é eliminado pelo fato de terem consciência quanto à necessidade de 0 filho ter tratamento analítico. Assim, mesmo que os parentes da criança conscientemente se sintam bem dispostos com relação à análise, devemos esperar que, em alguma medida, eles venham a ser um elemento perturbador nela. O grau de dificuldade que venham a causar dependerá naturalmente da sua atitude inconsciente e do seu grau de ambivalência. É por esse motivo que encontrei igual obstaculização por parte de pais familiarizados com análise e por aqueles que não sabiam praticamente nada a respeito. Pela mesma razão, considero também que quaisquer explicações teóricas muito extensas aos pais antes do início de uma análise sejam não apenas desnecessárias como deslocadas, já que tais explicações são passíveis de terem um efeito desfavorável sobre seus próprios complexos. Contento-me em fazer algumas afirmações de caráter geral sobre o significado e o efeito da análise; menciono o fato de que ao longo dela serão dadas à criança informações sobre questões sexuais e preparo os pais para a eventualidade de outras dificuldades que possam surgir temporariamente durante o tratamento. Recuso-me absolutamente em cada caso a relatar qualquer


pormenor da análise para eles. A criança que deposita em mim sua confiança tem tanto direito à minha discrição quanto um adulto.


Segundo o meu julgamento, o que deveriamos ter como meta ao estabelecer relações com os pais é, em primeiro lugar, conseguir que eles ajudem no nosso trabalho, principalmente restringindo tanto quanto possível qualquer interferência, tanto externa quanto interna, tal como encorajar a criança, por meio de perguntas ou outros meios, a falar sobre a análise, ou dar apoio a qualquer resistência contra a análise qua a criança possa expressar.


cabe àqueles encarregados da criança encontrar modos de fazê-la vir apesar de suas dificulda­ des. Na minha experiência, isso sempre tem sido difícil, pois, em geral, mesmo quando a resistência é forte, há também uma transferência positiva para o analista;
quer dizer, a atitude da criança para com a análise é ambivalente.


Sempre enfatizo com os pais a necessidade de não dar à criança oportunidade de acreditar que qualquer medida que eles possam tomar na sua educação se deva a conselho meu, e de manter a educação e a análise completamente separadas.


a análise se mantém, como deve ser mesmo, um assunto puramente pessoal entre mim e meu paciente


A remoção ou diminuição da neurose da criança tem um efeito bom sobre os pais. À medida que as dificuldades da mãe em lidar com a criança diminuem, diminui também seu sentimento de culpa, o que melhora sua atitude para com a criança. Ela se torna mais acessível à orientação do analista com respeito à educação da criança e — este é o ponto que importa — tem menos dificuldade interna em seguir essa orientação. Contudo, à luz da minha experiência, não ponho muita fé na possibilidade de afetar o ambiente da criança. É melhor confiar nos resultados obtidos na própria criança, pois são eles que a capacitarão a alcançar uma melhor adaptação mesmo a um ambiente difícil e a colocarão em uma posição melhor de fazer face às tensões que esse ambiente possa lhe impor. Naturalmente, essa capacidade de fazer face às tensões tem seus limites. Quando o ambiente da criança é por demais desfavorável, podemos não ter pleno êxito em nossos esforços e ter que nos defrontar com a possibilidade da recorrência da neurose. Verifiquei, contudo, repetida­mente em casos desse tipo que os resultados alcançados, mesmo quando não envolviam o desaparecimento completo da neurose, deram um grande alívio à criança na sua situação difícil e levaram a uma melhora no seu desenvolvimento.
Além do mais, parece bastante seguro presumir que, se tivermos produzido mudanças fundamentais nos níveis mais profundos, se a doença recorrer não será tão severa. Também é digno de nota que, em alguns casos desse tipo, uma diminuição da neurose da criança exerceu um efeito favorável sobre o seu ambiente neurótico.1 Pode também acontecer por vezes que, depois de um tratamento completado com êxito, a criança é levada para outros ambientes, por exemplo, para uma escola interna, algo que teria sido anteriormente impossível em virtude de sua neurose e falta de adaptabilidade.


A ambivalência que os pais têm em relação à análise da criança também ajuda a explicar um fato que é ao mesmo tempo surpreendente e penoso para o analista inexperiente — a saber, que é pouco provável que mesmo o mais bem-sucedido dos tratamentos tenha muito reconhecimento por parte dos pais. Embora eu tenha muitas vezes encontrado pais com bastante insight, ainda assim percebi que na maioria dos casos os pais se esquecem com muita facilidade dos sintomas que os fizeram trazer o filho para análise e que põem de lado a significância de qualquer melhoria obtida. Além disso, devemos nos lembrar de que eles não se encontram em posição de formar um julgamento sobre uma parte, no caso a parte mais importante, dos nossos resultados. A análise de adultos revela o seu valor removendo as dificuldades que interferem na vida do paciente. Nós sabemos, embora os pais de maneira geral não o saibam, que na análise de crianças estamos evitando a ocorrência de dificuldades do mesmo tipo ou mesmo de psicoses. Um pai, ao encarar sintomas sérios do seu filho como um aborrecimento, via de regra não reconhece a importância plena deles, pela simples razão de que eles não têm um efeito tão grande sobre a vida atual da criança quanto uma doença neurótica tem sobre a vida de um adulto. E, ainda assim, penso que ficaremos contentes em abrir mão do nosso quinhão de reconhecimento por parte deles, se tivermos em mente que o principal objetivo do nosso trabalho é assegurar o bem-estar da criança e não a gratidão do pai e da mãe.


5. A técnica da análise na puberdade

Ludwig, de catorze anos, por exemplo, não conseguiu vir à sua segunda sessão e foi apenas com uma enorme dificuldade que sua mãe persuadiu-o a “dar uma segunda chance à análise”. Na terceira sessão, pude mostrar-lhe que ele me identificava ao dentista. Ele afirmou, é bem verdade, que não tinha medo do dentista (de quem se lembrava pela minha aparência), mas a interpretação do material trazido por ele foi suficiente para que se convencesse de que tinha medo, pois mostrou-lhe que sua expectativa era de que o dentista, como eu também, não iria apenas extrair um dente e sim cortar em pedaços o seu corpo todo. Estabeleci a situação analítica no momento em que diminui sua ansiedade quanto a isto. É verdade que no decurso de sua análise frequentemente grandes quantidades de ansiedade eram geradas, mas sua resistência de modo geral se mantinha dentro da situação analítica, assegurando deste modo a continuidade da análise.


A fantasia do adolescente é, contudo, mais adaptada à realidade e a seus interesses egóicos mais fortes, e o conteúdo delas é, por esse motivo, muito mais facilmente reconhecível do que nas crianças pequenas.


O impulso de provar sua coragem no mundo real e o desejo de competir com outros tornam-se mais proeminentes. Esta é uma das razões pelas quais o esporte, que oferece tanta oportunidade para rivalizar com outros e não menos oportunidade para admirar seus feitos brilhantes e que também propicia um meio de superar a ansiedade, ocupa um espaço tão grande na vida e nas fantasias do adolescente.


Essas fantasias, que dão expressão à rivalidade com o pai pela posse da mãe e que têm a ver com a potência sexual, se fazem acompanhar, como na criança pequena, de sentimentos de ódio e agressividade sob todas as formas e são também frequentemente seguidas por ansiedade e um sentimento de culpa.


Em alguns casos, a repressão levou a uma limitação tão extrema da personalidade que ao adolescente sobra apenas um único interesse definido — digamos, um determinado esporte. Um único interesse desse tipo equivale a uma brincadeira invariável realizada por uma criança pequena com exclusão de todas as demais. Ela se tornou o representante de todas as suas fantasias reprimidas e, em geral, tem o caráter de um sintoma obsessivo mais do que de uma sublimação. Relatos monótonos sobre futebol ou ciclismo podem durante meses ser o único tópico de conversa na sua análise. Temos que extrair dessas associações, por mais pobres que possam parecer, os conteúdos de suas fantasias reprimidas.
Se seguirmos uma técnica análoga àquela da interpretação do sonho e do brincar, e levarmos em consideração os mecanismos de deslocamento, condensação, representação simbólica e assim por diante, e se observarmos as conexões entre sinais mínimos de ansiedade nele e o seu estado afetivo geral, podemos atravessar essa fachada de interesse monótono e pouco a pouco penetrar nos complexos mais profundos de sua mente.


Na análise de Ludwig, de catorze anos, cuja fase introdutória descrevi acima, pude descobrir por meio de material semelhante o motivo dos seus fortes sentimentos de culpa em relação ao irmão menor. Quando, por exemplo, Ludwig falava do seu trem a vapor que precisava ser consertado, ele imediatamente prosseguia dando associações sobre o trenzinho do irmão, que nunca mais prestaria outra vez. Revelou-se que sua resistência em relação a isso e seu desejo de que a sessão acabasse logo eram causados pelo medo que sentia da mãe, que podería descobrir as relações sexuais que haviam acontecido entre ele e o irmão menor, das quais ele se lembrava parcialmente. Essas relações haviam deixado atrás de si intensos sentimentos de culpa inconsciente no menino, pois ele, sendo 0 mais velho e mais forte, havia por vezes forçado o irmão a participar delas.


Desde então ele havia se sentido responsável pelo desenvolvimento deficiente do irmão, que era gravemente neurótico


a viagem com o amigo era a masturbação mútua que ele praticava desde cedo na infância (com seu irmão/amigo).e que deu origem nele a sentimentos de culpa e medo de morrer


Sua análise levou 190 sessões.


junto com a remoção da sua atitude inativa na vida de todo dia, deu-se também uma mudança na sua orientação sexual.
Suas tendências heterossexuais se tornaram muito mais fortes e ele se livrou de determinadas dificuldades que sabidamente são a base de perturbações da potência futuramente. Alcm disso, revelou-se que suas depressões estavam associadas a pensamentos de suicídio e iam mais fundo do que parecia inicialmente. E seu retraimento e aversão a companhia baseavam-se em uma acentuada fuga da realidade. Posso acrescentar que essas eram apenas algumas das dificuldades de que o menino sofria, como sua análise profunda mostrava.


mesmo com as pessoas que não adoecem, o grau das suas inibições intelectuais e sexuais e a incapacidade de ter prazer só podem ser avaliados pela psicanálise, tal como é confirmado pelo tratamento de adultos.


lembrança encobridora das suas relações com um amigo mais velho que o havia seduzido.


As bolas de pingue-pongue representavam o pênis comparativamente menor e inofensivo do seu irmão menor e a bola de futebol, o pênis do seu amigo mais velho. Porém, uma vez que em suas relações com o irmão ele se identificava com o amigo que o havia seduzido, essas relações despertavam nele um forte sentimento de culpa por conta do dano .suposto. que ele havia infligido ao irmão. O esvaziamento da pilha e o medo de sujar a caixa eram determinados por sua ansiedade quanto à corrupção e dano que ele havia ocasionado ao irmão quando pôs o pênis na boca dele e forçou-o a fazer Jellatio, e que ele próprio vivenciou como resultado de ter praticado aquele ato com seu amigo mais velho. Seu medo de ter sujado e danificado o irmão internamente estava baseado em fantasias sádicas a respeito do irmão e conduziu a uma base ainda mais profunda de sua ansiedade e culpa, a saber, suas fantasias masturbatórias sádicas dirigidas contra os pais. Assim, partindo da sua confissão a respeito de suas relações com o irmão —confissão expressa de forma simbólica em suas associações a respeito do trem a vapor que precisava de conserto — tivemos acesso não apenas a outras experiências e eventos de sua vida como também aos níveis mais profundos de ansiedade nele.


Ilse, de doze anos, apresentava marcadas características esquizóides e sua personalidade era incomumente atrofiada.


Seu principal interesse era comida e desapontamentos quanto a isso sempre levavam a ataques de raiva e de depressão


Quando Ilse estava com cerca de onze anos e meio de idade, sua mãe descobriu-a tendo relações sexuais com o irmão mais velho. Esse incidente despertou lembranças na mãe no sentido de que esta não era a primeira vez de algo do gênero. A análise revelou que sua convicção tinha fundamento e também que o relacionamento entre Ilse e o irmão continuou depois de ter sido descoberto.


Sua compulsão para medir e contar derivava do impulso, que havia se tornado obsessivo, de descobrir com toda certeza coisas a respeito do interior do corpo da mãe e o número de crianças que havia lá, a diferença entre os sexos, etc.


Use, de fato, não tinha nenhum interesse real sobre o qual pudesse conversar. Ela era na verdade uma leitora apaixonada; mas não lhe importava qual fosse o livro, pois ler era para ela principalmente um meio de escapar da realidade.


Cf. J. C. Flugcl, The Psychology o. Clothes (1930).


Por mais gratificantes que essas mudanças pudessem ser, a pessoa que eu via diante de mim ainda era uma criança bastante dependente que ainda se encontrava excessivamente fixada na mãe.


Sua atitude homossexual era predominante e, por enquanto, quaisquer impulsos heterossexuais eram escassamente visíveis nela.


depois de uma análise com mais de 425 sessões, Ilse foi capaz de alcançar uma relação estável e afetuosa com a mãe e ao mesmo tempo estabelecer uma posição heterossexual satisfatória


assegurar o desenvolvimento completo da sua vida sexual e personalidade femininas


Seu trabalho interpretativo deve ser direcionado para aquela parte do material que está associada com a maior quantidade de ansiedade latente e deve desvelar as situações de ansiedade que foram ativadas.
Deve também estabelecer a conexão entre essa ansiedade latente e (a) as fantasias sádicas específicas a ela subjacentes e (b) os mecanismos defensivos empregados pelo ego para controlá-la. Em outras palavras, ao resolver por meio de interpretações uma dada situação de ansiedade, ele deveria acompanhar mais extensamente as ameaças do superego, os impulsos do id e as tentativas do ego de conciliar os dois.


Ninguém que não tenha adquirido experiência adequada e realizado um tanto razoável de trabalho com adultos deveria entrar no campo tecnicamente mais difícil da análise de crianças. A fim de poder preservar os princípios fundamentais do tratamento analítico na forma modificada exigida pelos mecanismos da criança nos vários estágios do seu desenvolvimento, ele deve, além de plenamente versado na técnica da análise de crianças muito pequenas, possuir um domínio completo da técnica empregada para analisar adultos.


6. Neurose em crianças

Distúrbios mais acentuados nos hábitos de alimentação e, acima de tudo, manifestações de ansiedade, seja na forma de terrores noturnos seja como fobias, são em geral reconhecidos como manifestações decididamente neuróticas.


Pôr o dedo no nariz, tanto em crianças quanto em adultos, veio a representar, entre outras coisas, um ataque anal aos corpos dos pais.


A atitude da criança em relação a presentes é também muito característica.
Muitas crianças são insaciáveis a esse respeito, na medida em que nenhum presente pode lhes dar alguma satisfação real e duradoura ou leva a qualquer coisa que não desapontamento. Outras têm muito pouco desejo de recebê-los e mostram-se igualmente indiferentes a qualquer presente. Observamos em adultos essas mesmas atitudes em muitas situações. Há entre as mulheres aquelas que estão sempre ansiando por roupas novas mas que nunca realmente sentem prazer com elas e que, aparentemente, nunca “têm nada para vestir”. São mulheres que geralmente estão sempre caçando algum divertimento e que, no mais das vezes, trocam seu objeto de amor com muita facilidade e não podem encontrar uma verdadeira satisfação sexual. E há também aquelas que se sentem entediadas e que não desejam nada com intensidade. Na análise de crianças, torna-se muito claro que presentes significam todas as dádivas de amor que foram negadas à criança — o leite e seio da mãe, o pênis do pai, urina, fezes e bebês. Mas os presentes são também para a criança evidência de todas aquelas coisas das quais ela quis se apropriar de um modo sádico e que agora lhe são dadas voluntariamente, e, desse modo, aliviam seu sentimento de culpa. No seu inconsciente, ela vivencia não ganhar presentes, como todas as demais frustrações, como uma punição pelos impulsos agressivos que se acham interligados aos seus desejos libidinais. Em outros casos, em que o excessivo sentimento de culpa da criança é ainda mais desfavoravelmente situado ou não foi elaborado com êxito, tudo isso e mais o medo de novos desapontamentos podem levá-la a suprimir completamente seus desejos libidinais.


A próxima questão a ser examinada é em que ponto a análise de uma criança deve ser considerada como completada. Com adultos podemos dizer isso a partir de vários sinais, tais como: se o paciente se tornou capaz de trabalhar e amar, de cuidar de si mesmo nas circunstâncias em que se encontra e de tomar as decisões que forem necessárias para a condução da sua vida. Se considerarmos os fatores que levam ao fracasso com os adultos e se estivermos despertos para a presença de fatores similares nas crianças, disporemos de um guia confiável para o término de uma análise.


Defeitos de caráter e dificuldades posteriores são mais bem evitados se forem eliminados na infância. O brincar das crianças que nos permite penetrar tão profundamente em suas mentes, nos dá uma indicação clara de quando a análise pode ser considerada completa com relação à futura capacidade de sublimação das crianças. Antes que possamos considerar a análise de uma criança pequena como completa, suas inibições para brincar devem ter sido grandemente reduzidas.1 Isto terá sido conquistado quando o interesse em brincar próprio da sua idade tenha se tornado não apenas mais profundo e mais estável mas também tenha se espalhado em várias direções.


Quando, como resultado do trabalho analítico, uma criança que começa com um único interesse obsessivo em brincar adquire um interesse cada vez mais amplo por jogos, temos um processo equivalente à expansão de interesses e ao aumento da capacidade de sublimação que é o objetivo da análise de um adulto.
Desse modo, pela compreensão do brincar das crianças podemos avaliar a capacidade de sublimação delas nos anos vindouros; e podemos também dizer quando uma análise é uma proteção suficiente contra futuras inibições da capacidade de aprender e de trabalhar.


O fortalecimento gradual de suas tendências heterossexuais ficou registrado através de várias alterações no seu brincar. De início, os pormenores das suas brincadeiras mostravam que suas fixações pré-genitais ainda predominavam nas suas relações heterossexuais ou, então, repetidamente substituíam suas fixações genitais.


O que o indivíduo enquanto criança nos mostra nessas fantasias através do brincar emergirá nele na idade adulta como uma condição necessária da sua vida amorosa. As fantasias de Kurt dos dois homenzinhos entrando em um edifício por diferentes lados ou pelo mesmo lado, juntos ou se alternando, depois de brigar ou em concordância, apresentam as várias maneiras pelas quais um indivíduo vai de fato se comportar em uma situação “triangular” na qual ele é o terceiro elemento. Numa situação dessas ele pode, por exemplo, fazer o papel do “terceiro ofendido” ou do amigo da família que leva a melhor sobre o marido ou que briga com ele, e assim por diante. Por outro lado, outro efeito da ansiedade pode ser diminuir a frequência de brincadeiras deste tipo, que representam o coito, e esse efeito aparecerá mais tarde na vida na potência rebaixada ou perturbada do indivíduo em questão. Em que medida ele vai ser capaz de vivenciar as fantasias sexuais da infância mais tarde na vida vai depender também de outros fatores do seu desenvolvimento, especialmente suas experiências com a realidade. Mas, fundamentalmente, as condições sob as quais ele pode amar estão prefiguradas em cada pormenor nas fantasias expressas no seu brincar nos primeiros anos.


À medida que sua análise avança, o menino se torna progressivamente capaz de pôr em prática em jogos e sublimações as fantasias heterossexuais em que ousa lutar com o pai pela posse da mãe. Suas fixações pré-genitais diminuem e a própria luta muda muito em caráter. Seu sadismo diminui, o que facilita a luta, uma vez que desperta menos ansiedade e culpa nele. Assim, sua capacidade ampliada de realizar suas fantasias em brincadeiras de maneira calma e sem interrupções e de introduzir o elemento de realidade nelas mais satisfatoriamente é uma indicação de que ele possui os alicerces da potência sexual na vida futura.


7. As atividades sexuais das crianças

relacionamento entre dois irmãos de seis e de cinco anos e o de um menino de catorze com sua irmã de doze anos


Os dois irmãos, Günther e Franz, haviam sido criados em circunstâncias pobres, mas não desfavoráveis. Os pais se davam bem e a mãe, embora tivesse que fazer ela mesma todo o trabalho da casa, tinha um interesse ativo e esclarecido pelos filhos. Mandou Günther para ser analisado em razão de seu caráter-incomumente inibido e tímido e de sua evidente falta de contato com a realidade. Ele era uma criança furtiva e extremamente desconfiada, aparentemente incapaz de qualquer sentimento de afeição. Franz, por outro lado, era agressivo, excessivamente excitável e difícil de se lidar. Os irmãos davam-se muito mal, mas de modo geral Günther parecia ceder espaço para o irmão menor.1 Na análise dos dois, pude retraçar seus atos sexuais mútuos até as idades de cerca de três anos e meio e dois anos e meio respectivamente,2 mas é bastante provável que eles tenham começado ainda mais cedo. A análise revelou que, enquanto nenhum dos dois tivesse qualquer sentimento de culpa consciente sobre esses atos (embora fossem muito cuidadosos em escondê-los), ambos sofriam de um pesado sentimento de culpa no inconsciente. Para o irmão mais velho, que havia seduzido o menor e por vezes forçara-o a executá-los, os atos — que compreendiam jellatio mútuo, masturbação e tocar o ânus com os dedos — eram equivalentes a castrar o irmão (o Jellatio significava arrancar a dentadas o pênis do irmão) e a destruir totalmente todo o seu corpo, cortando-o em pedaços e rasgando-o, envenenando-o ou queimando-o, e assim por diante. Uma análise das fantasias que acompanhavam os atos mostrou que eles não apenas representavam ataques destrutivos ao irmão menor, mas que este representava o pai e a mãe de Günther unidos no ato sexual. Assim, o seu comportamento era em certo sentido uma verdadeira dramatização, embora sob forma mitigada, de suas fantasias masturbatórias sádicas contra os pais.3 Além disso, ao fazer essas coisas ao irmão .menor., às vezes pela força, Günther estava procurando se certificar de que ele também levaria a melhor na sua perigosa luta com os pais. Seu esmagador medo dos pais aumentava seu impulso de destruí-los e os subseqüentes três ataques executados contra eles em fantasia tornavam os pais ainda mais aterrorizadores. Ademais, seu medo de que o irmão pudesse traí-lo intensificava


seu ódio por ele, assim como o seu desejo de matá-lo por meio das suas práticas com ele.
Günther, que tinha um extraordinário sadismo, tinha uma vida sexual quase que inteiramente desprovida de elementos positivos. Na sua fantasia, os vários procedimentos sexuais que empreendia não passavam de uma série de torturas cruéis e sutis, concebidas para no fim levar o objeto à morte. Suas relações com 0 irmão continuamente despertavam sua ansiedade nessa direção e serviam para aumentar aquelas mesmas dificuldades que haviam levado a um desenvolvimento psicossexual completamente anormal nele.
Quanto ao irmão menor, Franz, seu inconsciente tinha uma clara concepção do significado inconsciente dos atos e, em concordância com isso, seu terror de ser castrado e morto pelo irmão mais velho foi intensificado a um grau exagerado. Contudo, ele nunca havia se queixado a ninguém ou de algum modo permitido que as relações entre eles fossem descobertas. O menor reagia a essas atividades que o aterrorizavam com uma grave fixação masoquista e com sentimento de culpa, ainda que ele fosse o que havia sido seduzido. Seguem-se algumas das razões para essa atitude.
Em suas fantasias sádicas, Franz se identificava com o irmão que o violentava e, desse modo, obtinha satisfação de suas tendências sádicas, as quais, como sabemos, são uma das fontes do masoquismo. Porém, ao identificar-se desse modo com o objeto do seu medo, ele estava também procurando dominar sua ansiedade. Na fantasia, era ele agora o assaltante, e o inimigo que ele subjugava era seu id2 e também o pênis do irmão, internalizado e que representava o pênis do pai — o seu superego perigoso — e que ele via como um perseguidor. Esse perseguidor seria destruído dentro dele pelos ataques que estavam sendo feitos a seu próprio corpo.3’4


entre criminosos adultos, atos sexuais perversos freqüentemente acompanham atos criminosos


superação do medo que o paciente tem do demônio dentro dele próprio (o pênis introjetado do pai).


iVl. N. Searl assinalou o mecanismo de fuga para a realidade no seu artigo “The Flight to Realily”


Devo observar que nesse caso particular, em que as consequências malignas das relações entre os meninos eram tão marcantes, eu não achei nada fácil ater-me à minha regra absoluta de me abster de qualquer interferência desse tipo. E, no entanto, foi precisamente esse caso que me trouxe a prova mais convincente da inutilidade de qualquer medida educacional por parte do analista. Mesmo que eu fosse capaz de pôr um fim à prática deles —o que eu não era não teria (cito nada em relação à questão essencial de remover os determinantes subjacentes da situação e, assim, dar uma nova direção a todo o curso do desenvolvimento até esse ponto tão falho desses meninos.


As crianças haviam desistido do Jellatio e cunnilingus e por um certo tempo não foram além de se tocarem e se inspecionarem mutuamente.
Contudo, durante a pré-puberdade, elas começaram a ter um contato semelhante ao coito novamente. Foi o irmão que iniciou esses atos e eles eram de caráter compulsivo. Costumava praticá-los sob um impulso súbito e nunca pensava sobre eles antes ou depois. Ele costumava mesmo “esquecer” completamente o evento nos intervalos. Tinha uma amnésia parcial desse tipo para um certo número cie coisas associativamente ligadas com essas relações sexuais, em especial com respeito à sua infância arcaica. No que se refere à menina, ela fora muitas vezes o parceiro ativo na tenra infância, mas mais tarde ela só desempenhou o papel passivo.


Seja em que caso for, creio que essas relações são muito mais frequentes mesmo durante a latência da puberdade do que habitualmente se supõe.


A questão que surge agora é em que medida é possível impedir que relações dessa natureza venham a ocorrer. Parece altamente duvidoso que isso seja possível sem causar bastante dano de outras formas, uma vez que, por exemplo, as crianças teriam que ser mantidas sob uma vigilância regular e sofreriam um grave cerceamento da sua liberdade; e também, em todo caso, por mais estrita­ mente que elas fossem vigiadas, sempre poderia acontecer. Além do mais, embora experiências antigas como essas possam fazer muito mal em alguns casos, em outros podem influenciar favoravelmente o desenvolvimento geral da criança. Pois, além de satisfazer a libido da criança e o seu desejo por conhecimento sexual, relações desse tipo servem à importante função de reduzir seu excessivo sentimento de culpa. As fantasias ligadas a essas relações estão baseadas em fantasias de masturbação sádicas que geram os mais intensos sentimentos de culpa; por esse motivo, o fato de que suas fantasias condenáveis contra os pais são partilhadas por um parceiro lhe dá o sentimento de ter um aliado, e isto alivia grandemente o peso de sua ansiedade.1 Por outro lado, uma relação desse tipo dá origem a ansiedade e a um sentimento de culpa por si mesma. Se o seu efeito será em última instância bom ou mau — se protegerá a criança da ansiedade ou se a aumentará — parece depender da extensão do seu próprio sadismo e mais particularmente da atitude do parceiro. Por meu conhecimento a partir de muitos casos, eu diria que, onde predominam fatores positivos e libidinais, tal relação tem uma influência favorável sobre as relações de objeto e na capacidade de amar da criança;2 mas, onde predominam impulsos destrutivos e mesmo atos de coerção de um dos lados, isso pode prejudicar seriamente todo o desenvolvimento da criança.


Na questão das atividades sexuais das crianças — como em algumas outras questões —, o conhecimento psicanalítico tem-nos mostrado a importância supre­ma de certos fatores de desenvolvimento, mas sem nos oferecer a possibilidade de sugerir quaisquer medidas realmente confiáveis de tipo profilático. Freud diz nas Introductory Lectures: “Esses fatos têm um certo interesse do ponto de vista da educação, que visa à prevenção das neuroses por meio de uma intervenção em um estágio bem inicial no desenvolvimento sexual das crianças. Na medida em que se focalize a atenção principalmente nas experiências sexuais infantis, costumamos supor que fizemos tudo para a profilaxia das doenças nervosas ao cuidar que o desenvolvimento da criança seja retardado e que ela seja poupada de experiências desse tipo. Já sabemos, contudo, que as precondições para a causação das neuroses são complexas e não podem ser influenciadas em geral, se levarmos em consideração apenas um único fator. A proteção estrita dos pequenos perde o seu valor porque é impotente contra o fator constitucional.
Além disso, é mais difícil de ser realizada do que os educadores imaginam e traz consigo dois novos perigos que não devem ser subestimados: o fato de que pode conseguir demais — pode encorajar um excesso de repressão sexual, com resultados danosos — e o fato de que pode lançar a criança na vida sem qualquer defesa contra o assalto das exigências sexuais que encontrará na puberdade. Assim sendo, permanece extremamente duvidoso em que medida a profilaxia na infância pode ser efetuada com vantagem, e se uma atitude modificada quanto à situação imediata não poderia oferecer um ângulo de abordagem melhor para a prevenção das neuroses.”


Parte II - SITUAÇÕES DE ANSIEDADE ARCAICAS E SEUS EFEITOS SOBRE O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
8. Estágios iniciais do conflito edipiano e da formação do superego

A fase da vida em que predominam as fantasias da criança de atacar sadicamente o interior do corpo da mãe se inicia pelo estágio sádico-oral de desenvolvimento e chega ao fim com o declínio do estágio sádico-anal anterior c compreende o período em que o sadismo está com sua máxima força em todas as áreas.


frustração oral


na criança um conhecimento inconsciente de que os pais desfrutam prazeres sexuais mútuos


ela reage a essa fantasia com inveja


reforça o ódio que sente por eles.


os ataques contra o corpo da mãe são também dirigidos contra o pênis no seu interior


fantasias sádicas que são extraordinariamente ricas em conteúdo e que envolvem a destruição sádica dos pais tanto individualmente quanto juntos


as fantasias masturbatórias da crianças


as fantasias masturbatórias das crianças têm por núcleo fantasias sádicas arcaicas organizadas em torno do coito dos pais.


Erncst Jones, no artigo “Fear, Guilt and Hate” (1929),


o conflito edípico começa sob o primado do sadismo


o ódio seria a base de relações de objeto no fato de que a criança forma sua relação com os pais — uma relação que é tão fundamental e tão decisiva para todas as suas futuras relações de objeto — durante o tempo quando suas tendências sádicas estão no auge.
A ambivalência que ela sente pelo seio da mãe como seu primeiro objeto se fortalece pela crescente frustração oral que sofre e pelo início de seu conflito edipiano, até que ele se desdobre em um sadismo plenamente desenvolvido.


a Fantasia, tão frequentemente mencionada na literatura psicanalítica, da vagina dentata


“Estágios iniciais do conflito edipiano” (1928)


A própria criança deseja destruir o objeto libidinal mordendo-o, devorando-o e cortando-o, o que leva à ansiedade, uma vez que o despertar das tendências edipianas é seguido da introjeção do objeto que, então, se torna um objeto do qual se pode esperar punição. A criança, então, teme uma punição correspondente à ofensa: o superego se torna algo que morde, devora e corta


Com relação à formação do superego, Freud parece seguir duas linhas de pensamento, que são em alguma medida mutuamente complementares. De acordo com uma delas, a severidade do superego provém da severidade do pai real, cujas proibições e ordens ele repete.1 Segundo a outra linha, tal como vem indicado em uma ou duas passagens de seus escritos, sua severidade é um resultado dos impulsos destrutivos do sujeito


Você deve ser como tal (como o seu pai) — isto é, você não pode fazer tudo que ele faz; algumas coisas são prerrogativas dele.


Ernest Jones, Edward Glover, Joan Rivers. e M. N. Searl


“A experiência mostra, contudo, que a severidade do superego desenvolvida por uma criança não corresponde de modo algum à severidade do tratamento que lhe foi dado” e que “a severidade original do superego não representa — ou não representa muito — a severidade que a pessoa vivenciou com ele .o objeto., ou que atribui a clc; ela representa acima de tudo a própria agressividade da pessoa em relação a ele”


Como sabemos, o homem normal não difere do neurótico em fatores estruturais e sim em fatores quantitativos. As citações acima de Abraham mostram que ele também vê a diferença entre o psicótico e o neurótico como sendo uma diferença apenas de grau. Meu próprio trabalho psicanalítico com crianças não apenas me confirmou que os pontos de fixação para as psicoses encontram-se nos estágios de desenvolvimento que precedem o segundo nível anal, como também me convenceu de que esses pontos de fixação se aplicam da mesma maneira às crianças neuróticas e às normais, embora em um grau menor.


A pessoa assim afetada nega e, por assim dizer, elimina não apenas a fonte da sua ansiedade, como o seu afeto também. Um grande número de fenômenos pertencentes à síndrome da esquizofrenia podem ser explicados como uma tentativa de manter à distância, controlar ou lutar com um inimigo interno. A catatonia, por exemplo, poderia ser vista como uma tentativa de paralisar o objeto introjetado e mantê-lo imóvel e, desse modo, torná-lo inócuo/


O primeiro período da fase sádica se caracteriza pela grande violência do ataque feito ao objeto. Em um período posterior desta fase, coincidindo com o primeiro estágio anal, em que os impulsos sádico-anais têm a primazia, métodos mais secretos de ataque predominam, tais como o uso de armas venenosas e explosivas. Os excrementos representam agora venenos,7 e nas suas fantasias a


criança usa as fezes como agências persecutórias’ contra seus objetos e insere-as secreta e sub-repticiamente por um tipo de mágica (que eu considero como sendo -a base da magia negra) dentro do ânus e outros orifícios do corpo daqueles objetos e lá as deixa.1 2 Como conseqüência, ela começa a ter medo do seu próprio excremento, como uma substância que é perigosa e danosa ao seu próprio corpo, e dos excrementos incorporados de seus objetos, de quem ela espera ataques secretos similares através do mesmo meio perigoso. Assim, suas fantasias levam a um medo de ter uma multidão de perseguidores dentro do corpo e de ser envenenada, e são a base dos medos hipocondríacos. Servem também para aumentar o medo suscitado pelo equacionamento do objeto introjetado com fezes, pois aquele objeto é tornado ainda mais perigoso ao ser vinculado com o fecaloma venenoso e destrutivo. E o fato de que, como conseqüência de seus impulsos sádico-uretrais, a criança também concebe a urina como algo perigoso, como algo que queima, corta e envenena, a predispõe a inconscientemente encarar o pênis como um órgão sádico e a temer o pênis perigoso do pai (do perseguidor)4 dentro de si próprio. Desse modo, a transformação sádica de seus excrementos em matéria venenosa, que a criança sente como tendo alcançado em sua fantasia, aumenta a ansiedade quanto ao perseguidor internalizado


No período em que predominam os ataques por meios de excrementos venenosos, os medos que a criança tem de ataques análogos a si própria por parte de seus objetos introjetados e externos se multiplicam, segundo a maior variedade e sutileza dos seus próprios procedimentos sádicos; estes forçam a eficácia de seus mecanismos de projeção até os seus limites máximos. Sua ansiedade se espalha e se distribui por muitos objetos e fontes de perigo no mundo externo, de modo que agora ela se sente temerosa de ser atacada por uma multidão de perseguidores


Cf. Ophuijsen, “On the Origin of the Feeling of Persecution” (1920) e Starcke, “The Reversal of the Libido-Sign in Delusions of Persecution” (1920). Segundo eles, a ideia do paranóico deriva da idéia inconsciente de que o perseguidor e o cíbalo são simplesmente tratados como coisas equivalentes e que o cíbalo representa o pênis do seu perseguidor. Verifiquei que o medo de pedaços de fezes enquanto perseguidores se derivava em última análise das fantasias sádicas em que urina e fezes eram empregadas como armas venenosas e destrutivas contra o corpo da mãe.


Róheim, em “Nach dem Tode des Urvaters” (1923), mostrou que em tribos primitivas o feiticeiro mata um homem ou o toma doente através de magicamente inserir excrementos ou seus equivalentes dentro do corpo dele.


O ponto de fixação para a paranóia é, creio, o período no qual o sadismo está em seu apogeu, em que os ataques da criança ao interior do corpo da mãe e ao pênis que pressupõe estar lá são levados a cabo por meio de excrementos venenosos e perigosos;1 e delírios de referência e de perseguição parecem-me emergir dessas situações de ansiedade.


A interação entre a formação do superego e relações de objeto, baseada numa interação entre projeção e introjeção, influencia profundamente o seu desenvolvimento. Nos estágios iniciais, a projeção de suas imagos aterradoras no mundo externo transforma esse mundo em um lugar de perigos e seus objetos em inimigos, enquanto as introjeções simultâneas de objetos reais que têm de fato uma boa disposição com relação a ela operam na direção oposta e diminuem a força de seu medo das imagos aterrorizadoras. Vistas sob essa luz, a formação do superego, relações de objeto e adaptação à realidade são o resultado de uma interação entre a projeção dos impulsos sádicos do indivíduo e a introjeção dos seus objetos.


9. As relações entre a neurose obsessiva e os estágios iniciais do superego

Róheim argumenta que, por ter devorado o cadáver do pai primordial, os filhos passam a encará-lo como a mãe nutridora. Acredita que desse modo eles transferiram também para o pai o amor que tinham sentido até então apenas pela mãe; e a atitude deles para com o pai, deixando de ser exclusivamente negativa, adquiriu um elemento positivo.


O exemplo a seguir, obtido de observação direta, ilustra o curso de uma tal mudança, do gostar para o deixar de gostar. Nos meses que se sucederam ao seu desmame, um menininho mostrava preferência por comidas com peixe assim como um grande interesse por peixes em geral. Com a idade de um ano, costumava muitas vezes ficar olhando com um interesse intenso e evidentemente muito prazeroso enquanto a mãe matava e preparava peixes na cozinha. Logo depois, desenvolveu uma grande aversão por comidas de peixe, que se estendeu a uma aversão a ver peixes e daí para uma notória fobia a peixes. A experiência obtida em numerosas análises de crianças pequenas em que se verificou que ataques a peixes, cobras e lagartos representavam ataques ao pênis do pai nos capacitou, creio, a compreender o comportamento da criança. Ver a mãe matar o peixe satisfazia grandemente seus impulsos sádicos contra o pênis do pai e isso o deixava temeroso do pai ou, mais corretamente, do pênis do pai.


A introjeção de uma mãe bondosa influencia a formação de uma imago paterna bondosa, em virtude do equacionamento do seio com o pênis


i Em seu artigo, “The Psychology of Pity” (1930), Jekels mostra que a pessoa que sente compaixão pelo seu objeto trata-o como ela gostaria de ser tratada pelo seu próprio superego.


“The Psychoíogy of Pity” (1930),


Já ouvimos que os pontos de fixação das psicoses devem ser buscados nos estágios mais arcaicos do desenvolvimento e que a fronteira entre o primeiro e o segundo estágio anal forma a linha demarcatória entre a psicose e as neuroses.
Sinto-me inclinada a dar um passo adiante e a encarar esses pontos de fixação como pontos de partida não apenas para doenças subsequentes como também para perturbações que a criança sofre durante os estágios mais arcaicos da sua vida. Vimos no último capítulo que as situações de ansiedade excessivamente poderosas que emergem quando o sadismo se encontra no auge são um fator etiológico fundamental nos distúrbios psicóticos. Mas observei também que, nas fases mais arcaicas do desenvolvimento, a criança normalmente passa por situações de ansiedade de caráter psicótico. Quando, por razões externas ou internas, essas situações arcaicas são ativadas com grande intensidade, a criança exibirá traços psicóticos. E, se ela for muito pressionada por suas imagos amedrontadoras e não conseguir contrabalançá-las suficientemente com a ajuda de suas imagos protetoras e seus objetos reais, a criança sofrerá uma perturbação psicótica que se assemelha à psicose adulta e muitas vezes se transforma em uma verdadeira psicose mais tarde na vida, ou forma a base de doenças graves ou outros danos do desenvolvimènto.


Uma vez que as situações de ansiedade se tornam ativas de tempos em tempos em toda criança e atingem uma certa força, toda criança periodicamente apresentará fenômenos psicóticos. A alternância entre um bom humor exagerado e uma extrema tristeza, característica dos distúrbios melancólicos, é regularmente encontrada em crianças pequenas. A profundidade e o caráter da tristeza que as crianças sentem não são usualmente apreciados por esta ser uma ocorrência tão frequente e passar por mudanças muito rápidas. Mas a observação analítica ensinou-me que a tristeza e a depressão das crianças, embora não tão agudas quanto a depressão melancólica do adulto, têm as mesmas causas e podem ser acompanhadas por pensamentos suicidas. Os acidentes maiores ou menores que ocorrem com as crianças e os machucados que elas mesmas se ocasionam são muitas vezes, como vim a descobrir, tentativas de suicídio empreendidas com meios ainda ineficazes. A fuga da realidade, que é um critério de psicose, é, na


criança, ainda considerada de modo geral como um fenômeno normal. Traços paranóides ativos na criança pequena são menos fáceis de observar, pois eles estão vinculados a uma tendência ao sigilo e à tapeação que são características desse distúrbio. É um fato bem conhecido que crianças pequenas se sentem encurraladas e perseguidas por figuras fantásticas. Descobri, ao analisar algumas crianças muito pequenas,1 que quando elas se encontravam sozinhas, especialmente à noite, tinham o sentimento de estarem rodeadas por todo tipo de perseguidores, como feiticeiros, bruxas, figuras e animais fantásticos e que os seus medos por eles tinham o caráter de uma ansiedade paranóide.


As fobias infantis a animais são uma expressão de ansiedade arcaica desse tipo. Baseiam-se na ejeção do superego aterrorizador, que é característica do primeiro estágio anal. As fobias infantis a animais representam, assim, um processo constituído de diversos movimentos, pelos quais a criança modifica o medo que sente do seu superego aterrador e do id. O primeiro movimento é o de ejetar o superego e o id e projetá-los no mundo externo, onde o superego fica equacionado com o objeto real. O segundo movimento, com que estamos familiarizados na forma de um deslocamento para um animal do medo sentido pelo pai real, está em muitos casos baseado em uma modificação da equação em fantasia do superego e do id com animais selvagens e perigosos, que é característica dos estágios mais arcaicos do desenvolvimento do ego. No lugar do animal selvagem é escolhido um menos feroz como objeto de ansiedade no mundo externo. O fato de que o animal causador de ansiedade atrai para si o medo que/ a criança tem do pai mas muitas vezes também a admiração que ela sente por ele é sinal de que está se dando a formação de um ideal.1 As fobias a animais já são uma extensa modificação do medo do superego; e vemos aqui que existe uma ligação próxima entre superego, relações de objeto e fobias de animais.


superego devorador que está na base das fobias a animais.


Os sentimentos de culpa da criança ligados às suas tendências sádicas-uretrais e sádico-anais se derivam, vim a descobrir, dos ataques fantasiados que ela faz ao corpo da mãe durante a fase em que o sadismo está em seu apogeu.2 Na análise de crianças pequenas, ficamos conhecendo o medo que a criança tem da mãe má que exige de volta as fezes e os bebês que a criança lhe roubou. Assim, a mãe real (ou babá) que lhe faz exigências de asseio se transforma imediatamente em uma pessoa aterradora, uma pessoa que não apenas insiste em que ela se desfaça de suas fezes como também, segundo lhe diz sua imaginação aterrorizada, pretende arrancá-las à força do seu corpo. Uma outra fonte de medo, ainda mais esmagadora, vem das suas imagos introjetadas, das quais, em virtude de suas próprias fantasias destrutivas dirigidas contra objetos externos, ela antecipa ataques de um tipo igualmente selvagem dentro de si própria


Nessa fase, em consequência de ligar excrementos a substâncias perigosas, venenosas, abrasadoras e com armas ofensivas de todos os tipos, a criança se torna aterrorizada com seus próprios excrementos como sendo algo que destruirá o seu corpo. Essa equação sádica de excrementos com substâncias destrutivas, juntamente com suas fantasias de ataques empreendidos com o auxílio delas, levam ainda mais a criança a um medo de que ataques semelhantes possam ser feitos contra ela, tanto pelos seus objetos externos quanto pelos internos, e a sentir um terror de excrementos e de sujeira em geral. Essas fontes de ansiedade, mais esmagadoras ainda por serem tão diversificadas, são, na minha experiência, as causas mais profundas dos sentimentos de ansiedade e culpa da criança com relação ao seu treinamento nos hábitos de higiene.


As formações reativas da criança de nojo, ordem e limpeza se originam, portanto, da ansiedade, alimentada de muitas fontes, que se origina nas mais arcaicas situações de perigo. Quando, no início do segundo estágio anal, as relações da criança com o objeto se desenvolveram, sua formação reativa de piedade, como sabemos, aparece mais claramente. Além disso, como enfatizei anteriormente, o contentamento de seus objetos também é uma garantia da própria segurança da criança e uma salvaguarda contra a destruição de fora e de dentro, e a restauração de seus objetos é uma condição necessária para que 0 seu corpo permaneça intacto


A criança não pode determinar em que grau o seu medo dos danos e ataques internos está bem fundamentado, nem em que medida ela foi capaz de torná-los bons através dos seus atos obsessivos. O estado resultante de incerteza da criança, que se alia à sua intensa ansiedade e a aumenta, junto com a impossibilidade de obter um conhecimento seguro quanto à destruição fantasiada, dá origem a um desejo obsessivo por conhecimento. A criança tenta superar sua ansiedade, cuja natureza imaginária desafia um exame crítico, colocando ênfase extra na realidade, sendo muito precisa, e assim por


clianie. A dúvida que resulta dessa incerteza desempenha um papel não apenas na criação de um caráter obsessivos, mas em estimular a exatidão e a ordem e a observância de certas regras e rituais, e coisas do gênero.


Esse medo de ter que devolver mais do que elas têm é típico nas crianças e pode ser explicado entre outras coisas pela diferença de tamanho entre elas e as pessoas crescidas e pela extensão do seu sentimento de culpa. Elas sentem que não podem dar de volta tirando do seu corpo tão pequeno tudo aquilo que tiraram do corpo da mãe, tão grande em comparação; e o peso dessa culpa que as reprova incessantemente por ter assaltado, roubado e destruído a mãe ou ambos os pais aumenta o sentimento que têm de nunca serem capazes de devolver o suficiente. O sentimento de “não saber” que elas têm com muito pouca idade aumenta consideravelmente a sua ansiedade.


Também as análises de adultos me mostraram que o desejo de ter uma quantia considerável de dinheiro à mão para qualquer contingência é na verdade um desejo cie segurança por meio de estar armado contra um ataque por parte da mãe cie quem eles roubaram —uma mãe que na realidade muitas vezes já havia morrido há muito tempo — e poder devolver a ela aquilo que eles haviam roubado. Por outro lado, o medo de ser despojado dos conteúdos de seu próprio corpo compele-os continuamente a acumular mais dinheiro, de forma a ter “reservas” às quais recorrer.


não sabia se elas seriam “boas o suficiente”


Por outro lado, sua prisão de ventre freqüente se devia a sua necessidade de guardar suas fezes e mantê-las dentro de modo que ele não ficasse vazio.


Sempre que havia um aumento no seu medo de não ser capaz de produzir o tipo certo de coisa ou de dar o suficiente, ou de não ser capaz de reparar aquilo que ele havia estragado, suas tendências destrutivas primárias irrompiam novamente com toda a força


Essa mistura de mágica, desejos malignos e atividades sexuais deve ser encontrada, creio, em uma situação que foi pormenorizadamente descrita no último capítulo —nas atividades masturbatórias do bebê.


Ferenczi chamou a atenção, em “Stages in the Development of a Sense of Reality” (1913), para a conexão entre funções anais e a onipotência de palavras e gestos. Cf. também Abraham, “The Narcissistic Evaluation of Excretory Processes in Dreams and Neurosis” (1920).


Na fantasia da criança, a devastação que os seus poderes destrutivos


Em uma discussão sobre esse assunto a Srta. Searl assinalou que o impulso da criança de restaurar coisas também é obstaculizado pela sua experiência arcaica do fato de que é fácil quebrar coisas mas extremamente difícil juntá-las novamente. Provas factuais desse tipo devem, creio, contribuir para um aumento nas suas dúvidas quanto a seus poderes criativos.


ocasionaram era algo único e gigantesco e, portanto, o efeito de restituição tinha que ser também de uma magnitude extraordinária e de abalar o solo. Isso por si mesmo já seria um impedimento suficiente para a realização das suas tendências construtivas (embora deva ser mencionado que dois dos meus pacientes indubitavelmente possuíam dons artísticos e criativos incomuns), mas esse impedimento foi ainda mais reforçado pelos seguintes fatores. Lado a lado com essas fantasias megalomaníacas, a criança tinha dúvidas muito grandes com respeito a se ela possuía a onipotência necessária para fazer restituição em tal escala.
Como consequência ela tentava negar sua onipotência em seus atos de destruição também. Mas, além disso, todo indício de que estivesse usando sua onipotência em um sentido positivo seria prova de que a tinha usado em um sentido negativo e deveria, portanto, ser evitada até que ela pudesse apresentar uma prova absoluta de que a sua onipotência construtiva contrabalançava plenamente o seu oposto. Nos dois casos de adultos que tenho em mente, a atitude de “tudo ou nada” resultante dessas tendências em conflito levou a graves inibições da sua capacidade de trabalhar; ao passo que, em um ou dois pacientes crianças, contribuiu fortemente para inibir a formação de sublimações.


1 Em “Notes upon a Case of Obsessional Neurosis” (1909) (5.E. 10, p. 241), Freud observa que a dúvida é na realidade uma dúvida quanto ao próprio amor da pessoa e que “um homem que duvida do seu próprio amor pode, ou melhor eleve , duvidar de tudo que é menor”.


10. A importância das situações de ansiedade arcaicas no desenvolvimento do ego

Mas a criança pequena só consentirá em ser convencida por experiências confortantes desse tipo, caso suas situações de ansiedade mais arcaicas não predominem e se, na formação do seu superego, suas relações com seus objetos reais forem suficientemente mobilizadas. Tenho verificado repetidamente que, em crianças mais velhas, a ausência da mãe reativava as situações de ansiedade mais arcaicas sob a pressão das quais elas, quando bem pequeninas, sentiram a ausência temporária da mãe como se fosse permanente. Em meu artigo “Personificação no brincar das crianças’’ (1929), relatei o caso de um menino de seis anos que me fez desempenhar o papel da “mamãe fada” que devia protegê-lo contra os seus pais “maus” combinados e matá-los. Eu Linha, além disso, que mudar repetidamente da “mamãe fada” para a “mamãe má” de repente.
Enquanto “mamãe fada”, eu tinha que curar os ferimentos fatais que ele havia recebido de um imenso animal selvagem (os pais “maus” combinados); mas, no momento seguinte, tinha que ir embora e voltar como a “mamãe má” e atacá-lo. Ele dizia: “Sempre que a mamãe fada sai da sala, não dá nunca para saber se ela não vai voltar de repente como a mamãe má.” Esse menino, que tinha uma fixação incomumente forte à mãe desde o inicio da vida, vivia em uma crença permanente de que algum mal se havia abatido sobre os pais e irmãos. Descobrimos que, mesmo que tivesse acabado de ver a mãe um minuto antes, ele não sentia nenhuma segurança de que nesse meio tempo ela não tivesse morrido.


A estabilização final do indivíduo só é alcançada depois de ele ter atravessado o período da puberdade. Ao término desse período, seu ego e superego são capazes de concordar em estabelecer objetivos adultos. Em vez de ser dependente do seu ambiente imediato, o indivíduo agora se adapta ao mundo mais amplo ao seu redor; embora reconheça as exigências da nova realidade, ele as estabelece como sendo suas próprias exigências internas. À medida que consegue se desligar de seus objetos originais, ele alcança uma independência maior dos objetos em geral.
Um ajuste desse tipo repousa no seu reconhecimento de uma nova realidade


Por esses meios e representando-se copulando com a mãe de muitas maneiras e mostrando nisso suas proezas, o menino tenta se provar que possui um pênis e potência sexual — duas coisas cuja perda suas mais profundas situações de ansiedade o levaram a temer. E, uma vez que junto a suas tendências agressivas também emergem nessas brincadeiras suas tendências restauradoras em relação à mãe, ele também prova para si mesmo que seu pênis não é destrutivo; e, desse modo, alivia seu sentimento de culpa


No brincar de crianças pequenas podemos, assim, reconhecer que o ego arcaico da criança só alcança parcialmente o objetivo de controlar a ansiedade.
Com o início do período de latência, a criança controla melhor sua ansiedade e, ao mesmo tempo, mostra uma capacidade maior de corresponder às demandas da realidade. Suas brincadeiras perdem seu conteúdo imaginativo e o seu lugar é aos poucos ocupado pelo trabalho escolar. A preocupação da criança com as letras do alfabeto, os números aritméticos e o desenho, que de início tem um caráter lúdico, substitui amplamente os jogos com brinquedos. A maneira pela qual as letras são juntadas, o zelo da criança em acertar sua forma e ordem e em fazê-las do mesmo tamanho, e o deleite ao conseguir a correção em cada um desses pormenores, tudo isso está baseado nas mesmas condições internas que a sua atividade anterior de construir casas e brincar com bonecas. Um caderno bonito e ordeiro tem o mesmo significado simbólico para a menina que uma casa e o lar, a saber, o de um corpo sadio, não danificado. As letras e números representam para ela os pais, irmãos e irmãs, crianças, genitais e excrementos e são os veículos das suas tendências agressivas originais bem como das suas tendências reparadoras. A menina extrai a prova que refuta seus medos da lição de casa,. completada com êxito, e isso toma o lugar do brincar com bonecas e mobiliar casas. Análises de crianças no período de latência mostram que não apenas cada pormenor dos seus deveres de casa, como também todas as suas várias atividades em trabalho manual, desenho e assim por diante, são utilizados em fantasia para restaurar seus próprios genitais e corpo, bem como o corpo da mãe e os seus conteúdos, o pênis do pai, os irmãos e irmãs, etc. Do mesmo modo, cada item isolado do seu próprio vestuário ou da boneca, tais como colarinhos, punhos, chalés, chapéus, cintos, meias, sapatos, tem um significado simbólico.1


No menino, a escrita é a expressão dos seus componentes masculinos.1 O golpe da caneta e o sucesso com que ele forma as letras representam um desempenho ativo do coito e são prova de que ele possui um pênis e potência sexual. Os livros e os cadernos representam os genitais ou o corpo da mãe ou da irmã.2 Para um menino de seis anos, por exemplo, a letra maiúscula “L” significava um homem sobre um cavalo (ele e o seu pênis) cavalgando através de um arco (os genitais da mãe); o “i” era o pênis e ele próprio, “e” era a mãe e os genitais dela e “ie” a união dele com ela no coito. Letras maiúsculas e minúsculas representam em geral pais e filhos.3 As fantasias de cópula ativa dos meninos também emergem em jogos ativos e no esporte e encontramos nos pormenores desses jogos as mesmas fantasias expressas na sua lição de casa. O desejo do menino de superar seus rivais e, assim, obter um reasseguramento contra o perigo de ser castrado pelo pai — desejo que corresponde ao modo masculino de lidar com situações de ansiedade e que é de tamanha importância mais tarde na idade da puberdade — faz o seu aparecimento enquanto ele ainda está no período de latência. Em geral o menino é menos dependente do que a menina da aprovação do seu ambiente mesmo nesse período e a conquista por si mesma já desempenha um papel muito maior na sua vida psicológica do que na dela


criança necessita receber proibições de fora, uma vez que elas, como sabemos, sustentam as proibições internas. Ela precisa, em outras palavras, ter representantes do superego no mundo externo. Essa dependência em relação aos objetos com a finalidade de ser capaz de controlar a ansiedade é muito mais forte no período de latência do que em qualquer outra fase do desenvolvimento. De fato, parece-me ser um pré-requisito definido para uma transição bem-sucedida para o período de latência que o controle da ansiedade por parte da criança se apoie nas suas relações de objeto e adaptação à realidade.


Sua relação com os homens, além do mais, está determinada grandemente por sua necessidade de se convencer por meio da admiração deles de que seu corpo está intacto. Seu narcisismo, portanto, desempenha um papel importante no seu domínio da ansiedade. É como resultado desse modo feminino de controle da ansiedade que as mulheres são muito mais dependentes do amor e da aprovação dos homens —e dos objetos em geral —do que os homens o são das mulheres. Mas também os homens obtêm das suas relações amorosas uma tranquilização da sua ansiedade que contribui de modo essencial para a satisfação sexual que eles extraem delas.


11. Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual da menina

o medo mais profundo da menina é o de ter o interior do seu corpo assaltado e destruído


Como resultado das frustrações orais que ela vive com a mãe, a menina se afasta desta e toma o pênis do pai como seu objeto de satisfação. Esse desejo cria uma pressão para que ela dê novos e importantes passos no seu desenvolvimento. Ela desenvolve fantasias da mãe que introduz o pênis do pai em seu corpo e que dá a ele o seio;


Em seu artigo “The Early Development of Female Sexuality” (1927), Ernest Jones dá o nome de afânise à destruição completa e duradoura da capacidade de obter satisfação libidinal, que ele considera uma situação de ansiedade arcaica e dominante para crianças de ambos os sexos


Parece-me que a destruição da capacidade de obter gratificação libidinal implica a destruição daqueles órgãos que são necessários para esse propósito. E a menina cria a expectativa de ter esses órgãos destruídos no decurso dos ataques que serão feitos, principalmente pela mãe, ao seu corpo e os conteúdos deste. Seus medos referentes aos seus genitais são especialmente intensos, em parte porque seus próprios impulsos sádicos estão muito fortemente dirigidos contra os genitais da mãe e contra os prazeres eróticos que a mãe extrai deles e em parte porque o seu medo de ser incapaz de desfrutar satisfação sexual concorre, por sua vez, para aumentar o medo de que os seus próprios genitais tenham ficado danificados.


O seu desejo de roubar da mãe o pênis do pai e incorporá-lo a ela, vim a descobrir, é um fator fundamental no desenvolvimento da sua vida sexual. O ressentimento que a mãe despertou nela ao retirar-lhe o seio nutridor é intensificado ainda mais pela maldade que a mãe lhe faz ao não lhe conceder o pênis do pai como um objeto de satisfação; e essa dupla queixa é a fonte mais profunda do ódio que a menina sente pela mãe como resultado das suas tendências edipianas.


incorporar o pênis do pai como um objeto de satisfação oral


Karen Horney


Ela encara o pênis desejado como uma parte do pai e como um substituto dele.


em uma fase do seu desenvolvimento, seu inconsciente iguala o pênis do pai com o seio da mãe como um órgão a ser sugado


a vagina assume o papel passivo de uma boca que suga “no processo de deslocamento de cima para baixo”


na imaginação dela o pênis é um objeto que possui poderes mágicos de proporcionar satisfação oral.


Mas, desde que a frustração oral que ela sofreu por parte da mãe estimulou também todas as suas outras zonas erógenas e despertou suas tendências e desejos genitais com relação ao pênis do pai, este último se torna o objeto dos seus impulsos orais, uretrais, anais e genitais. Outro fator que serve para intensificar seus desejos nessa direção é a sua teoria sexual inconsciente de que a mãe incorporou o pênis do pai, e sua consequente inveja da mãe.
Creio que é a combinação de todos esses fatores que dota o pênis do pai com tais enormes poderes aos olhos da menininha e torna-o o objeto da sua mais ardente admiração e desejo.1 Se ela mantiver uma posição predominantemente feminina, essa atitude com relação ao pênis do pai muitas vezes a levará a assumir uma atitude humilde e submissa em relação ao sexo masculino. Mas pode também lazer que ela tenha intensos sentimentos de ódio por lhe terem sido negadas as coisas que ela tão apaixonadamente adorava e pelas quais ansiava;
e, se ela assumir uma posição masculina, pode dar origem a todos os sinais e sintomas de inveja do pênis.


Mas, uma vez que as fantasias da menininha sobre os enormes poderes e tamanho e força gigantescos do pênis do pai emergem dos seus próprios impulsos sádico-orais, sádico-uretrais e sádico-anais, ela também atribuirá a ele propriedades extremamente perigosas. Esse aspecto dele fornece o substrato de seu terror do pênis “mau”, que se instala como uma reação aos impulsos destrutivos que, em combinação com os libidinais, são dirigidos a ele


É uma questão de importância decisiva para a formação do superego e para o desenvolvimento da vida sexual se as fantasias prevalentes são as de um pênis “bom” ou de um pênis “mau”


E a sua ansiedade e sentimento de culpa em relação à mãe servem para complicar ainda mais os seus sentimentos divididos com respeito ao pênis do pai.


Como resultado dessa atitude ambivalente, é gerada uma ansiedade que compele a criança muito pequena e também o adulto a buscar experiências sexuais. Esse ímpeto que fortalece seus desejos libidinais por um pênis


Ela os dota de instrumentos de destruição mútua, transformando seus dentes, unhas, genitais, excrementos e assim por diante em armas e animais perigosos, etc., e os imagina, de acordo com os próprios desejos da criança, como atormentando e destruindo um ao outro no ato da cópula.


militar contra a afânise


seu medo de perder a capacidade de alcançar satisfação libidinal.


testar suas situações de ansiedade específicas em suas relações com o seu parceiro amoroso, 0 que fortalece e dá colorido a suas fixações libidinais; assim, o ato sexual sempre ajuda a pessoa normal a controlar a ansiedade. As situações de ansiedade dominantes e as quantidades de ansiedade presentes são elementos específicos das condições para amar que se aplicam a qualquer pessoa.


Se a menina, que testa as suas situações de ansiedade através do ato sexual, que corresponde a um teste por meio da realidade, é sustentada por sentimentos de tipo confiante e esperançoso, ela será levada a tomar por objeto uma pessoa que representa o pênis “bom”. Nesse caso, o alívio da ansiedade alcançado por meio do ato sexual lhe proporcionará um grande prazer e será um acréscimo considerável à satisfação puramente libidinal que ela experimenta; e, além disso, lança os alicerces de relações amorosas duradouras e satisfatórias. Mas, se as circunstâncias forem desfavoráveis e o seu medo do pênis “mau” introjetado predominar, a condição necessária para a sua capacidade no amor será em termos de que ela fará esse teste de realidade por meio de um pênis “mau” —isto é, seu parceiro no amor será uma pessoa sádica. O teste que ela faz neste caso tem por objetivo informá-la de que tipo de dano seu parceiro lhe infligirá por meio do ato sexual. Mesmo os danos que antecipa a esse respeito servem para dissipar sua ansiedade e têm grande importância na economia da sua vida mental/ A propensão a aliviar o medo de perigos internos e externos por meio de provas no mundo externo me parece ser um fator essencial na compulsão à repetição.3 Quanto mais neurótico o indivíduo, mais essas provas se acham ligadas à necessidade de punição. Quanto mais forte for a ansiedade das situações de ansiedade mais arcaicas e quanto mais fracas as correntes de sentimentos esperançosos, tanto menos favoráveis serão as condições com as quais estão vinculadas essas contraprovas. Nesses casos, apenas uma punição severa ou experiências bastante infelizes (que são assumidas como punição) podem substituir a punição temida que é antecipada em fantasia. A escolha da menina de um parceiro sádico também está baseada em um impulso para incorporar uma vez mais um pênis sádico “mau” (pois é assim que ela vê o ato sexual) que destruirá os objetos perigosos dentro dela. Assim, a raiz mais profunda do masoquismo feminino pareceria ser o medo da mulher dos objetos perigosos que ela internalizou; e o seu masoquismo não seria outra coisa, em última instância, do que suas pulsões sádicas voltadas para dentro contra esses objetos internalizados.1


As mulheres, que além de ter fortes inclinações masoquistas abrigam correntes mais esperançosas de sentimento, muitas vezes tendem a confiar seus afetos a um parceiro sádico e, ao mesmo tempo, a fazer esforços de todos os tipos —esforços que muitas vezes consomem todas as energias do seu ego —para transformá-lo em um objeto “bom”. Mulheres desse tipo, em quem o medo do pênis “mau” e crença no “bom” se encontram uniformemente equilibrados, muitas vezes flutuam entre a escolha de um objeto externo “bom” e um “mau”.


Seu medo pelo ato sexual baseia-se, assim, tanto nos danos que ela sofrerá por parte do pênis quanto nos danos que ela própria infligirá ao seu parceiro.


a frigidez nas mulheres seria em parte devida a uma evitação fóbica de uma situação de ansiedade. Tanto quanto se pode ver, há uma íntima relação entre condições específicas de controle da ansiedade e obtenção de satisfação sexual.


A Onipotência dos Excrementos


Assim que começa a ter medo do pênis “mau” introjetado, ela também começa a correr de volta para a mãe, a qual, tanto como uma pessoa real, quanto como uma figura introjetada, deveria auxiliá-la


A importância que a imago materna da menina tem para esta como uma figura “que ajucla” e a força da sua ligação com a mãe são muito grandes, uma vez que na sua fantasia a mãe é a possuidora do seio nutridor, do pênis do pai e das crianças e, assim, tem o poder de satisfazer todas as suas necessidades.
Pois, quando as situações de ansiedade arcaicas da menininha se estabelecem, seu ego faz uso da sua necessidade de alimento no sentido mais amplo como um auxílio para superar a ansiedade. Quanto mais ela teme que seu corpo seja envenenado e exposto a ataques, mais ela anseia pelo leite “bom”, pelo pênis “bom” e pelas crianças,2 coisas sobre as quais, como lhe diz sua fantasia, sua


mãe exerce um comando ilimitado. Ela precisa dessas coisas “boas” para protegê-la contra as “más” e para estabelecer um certo equilíbrio interno. Na fantasia, o corpo da mãe é, portanto, um tipo de armazém que contém os meios de satisfazer todos os seus desejos e de dissipar todos os seus medos. São essas fantasias, que levam de volta ao seio da mãe como a fonte mais arcaica de satisfação e a mais prenhe de consequências, que são responsáveis por sua ligação imensamente forte com a mãe. E a frustração que ela sente por parte da mãe dá origem, sob a pressão da sua ansiedade, a renovadas queixas contra ela e a ataques sádicos mais fortes contra o seu corpo.


Deve-se lembrar que na imaginação da menina, além de ter atacado os pais, ela machucou ou matou os irmãos e irmãs dentro da mãe. O medo que ela sente de retaliação e seu sentimento de culpa por causa disso dá origem a perturbações em sua relação com os irmãos e irmãs reais e consequentemente na sua capacidade para a adaptação social em geral.


Devo mencionar que cada criança tem uma gaveta própria, na qual os brinquedos, papel e lápis, etc., que eu tiro para ela no início da sua sessão e renovo periodicamente, são guardados, junto com as coisas que ela traz de casa.


É essa incapacidade de saber o que quer que seja sobre a sua condição que agrava o que, na minha opinião, é o medo mais profundo da menina — a saber, que o interior do seu corpo foi danificado ou destruído 3 e que ela não tem nenhuma criança ou só possui crianças danificadas.


um órgão que pode ser submetido a testes de realidade


Crianças de ambos os sexos encaram a urina no seu aspecto positivo como equivalente ao leite da mãe, dado que inconscientemente elas igualam todas as substâncias corporais umas às outras. Minhas observações sugerem que o molhar-se, no seu significado mais arcaico no sentido de um ato positivo de doação e de uma inversão sádica, é uma expressão de uma posição feminina em meninos bem como em meninas.1 Pareceria que o ódio que as crianças sentem em relação ao seio da mãe por haver frustrado seus desejos desperta nelas, simultaneamente a seus impulsos canibalescos ou proximamente a eles, fantasias de machucar e de destruir seu seio com a urina delas.2


Ao fazer isso, empregam um mecanismo que é, eu penso, de importância geral na formação das fantasias sádicas. Convertem o prazer que dão ao seu objeto no seu oposto acrescentando a ele elementos destrutivos. Como vingança por não obter leite suficiente da mãe, elas produzem na imaginação uma excessiva quantidade de urina e, desse modo, destróem o seu seio, inundando-o ou derretendo-o até desaparecer; e, como vingança por não obter leite “bom” da mãe, elas produzem um líquido danoso com o qual queimam ou envenenam o seio dela e o leite que ele contém. Esse mecanismo também dá origem a fantasias de atormentar e machucar pessoas, dando a elas comida boa em doses excessivas. Nesse caso, a pessoa pode sofrer, como eu observei em mais de um caso, de uma ansiedade retaliatória de ser sufocada ou de ficar muito cheia, etc., em relação à ingestão de alimento. Um paciente meu mal podia controlar sua raiva se a ele fosse oferecido, mesmo que da maneira mais amistosa possível, comida, bebida ou cigarro mais de uma vez. Ele imediaiamcnic se sentia “entupido” e perdia todo desejo de comer, beber ou fumar. A análise mostrou que o seu comportamento era causado em última instância por fantasias do caráter sádico arcaico


Em meu artigo “Situações de ansiedade infantil refletidas em uma obra de arte e no impulso criativo” (1929), analisei um relato de Karen Michaelis sobre uma mulher jovem que repentinamente desenvolveu um grande talento para pintar retratos de mulheres sem jamais haver tocado antes em um pincel. Procurei mostrar que o que causou essa súbita eclosão de produtividade artística foi a ansiedade proveniente das suas mais profundas situações de perigo e que pintar retratos de mulheres simbolizava uma restauração sublimada do corpo da mãe, que ela havia atacado em fantasia, e do seu próprio, cuja destruição ela antecipava por conta do medo da retaliação; assim, desse modo ela era capaz de dissipar os medos provenientes dos níveis mais profundos da sua mente.


Ao dividir a mãe em uma mãe “boa” e uma mãe “má” e o pai em um pai “bom” e um pai “mau”, ela liga o ódio que sente pelo objeto ao objeto “mau” e afasta-se dele, enquanto dirige suas tendências restauradoras para a mãe “boa” e para o pai “bom”, e, na fantasia, tenta compensar o dano que fez às imagos parentais nas suas fantasias sádicas.” Mas se, por sua ansiedade ser excessivamente grande ou por razões realistas, seus objetos edipianos não se tornaram imagos bons, outras pessoas, tais como uma babá carinhosa, irmão ou irmã, um avô ou uma tia ou tio, podem, em certas circunstâncias, assumir o papel da mãe “boa” ou do pai “bom”.3 Desse modo, seus sentimentos positivos, cujo desenvolvimento foi inibido devido ao seu excessivo medo dos objetos edipianos, podem vir para primeiro plano e vincular-se a um objeto de amor.


Um animal de estimação pode também desempenhar o papel de um objeto “que auxilia” na imaginação das crianças e, assim, ajudar a diminuir sua ansiedade. Isso vale também para uma boneca ou um animal de brinquedo, a que elas frequentemente atribuem a função de protegê-las enquanto dormem.


Onde um medo excessivo de ambos os pais, junto com certos fatores externos, teria produzido uma situação edipiana que teria prejudicado sua atitude com relação ao sexo oposto e lhe dificultado grandemente a manutenção da posição feminina e sua capacidade de amar, o fato de ela ter tido relações sexuais com um irmão ou um irmão substituto na infância e que esse irmão tenha também mostrado afeição real por ela e sido seu protetor, forneceu-lhe a base para uma posição heterossexual e desenvolveu sua capacidade de amar. Em alguns dos casos que tenho em mente, a menina teve dois tipos de objeto de amor, um que representava o pai severo e o outro o irmão carinhoso. Em outros casos, ela havia desenvolvido uma imago que era uma mistura dos dois tipos; e aqui também suas relações com o irmão haviam diminuído seu masoquismo.


Helene Deutsch assinala que a menstruação também significa urna punição por se ter gratificado com a masturbação clitoridiana e, além disso, regressiva­ mente faz reviver a visão infantil da cópula para a menina, segundo a qual é quase sempre um ato sádico, envolvendo crueldade e fluxo de sangue.


A menstruação, ao confirmar à menina o conhecimento de que ela não tem pênis e a crença de que seu clitóris é a cicatriz ou ferida deixada no lugar do pênis castrado, faz que seja mais difícil para ela manter uma posição masculina.


o comportamento sexual tem um caráter sádico.


expectativa de receber gratificação sexual e de ter filhos


Ao analisar meninas pequenas podemos ver com clareza quão intimamente ligados estão o anseio delas de possuir uma criança “bonita” (isto é, “boa” e saudável) e seus esforços infatigáveis de embelezar o bebê imaginário e seus próprios corpos com o medo que têm de ter produzido em si mesmas e de ter posto dentro da mãe crianças “más” e feias que elas comparam a excrementos venenosos.


Ferenczi descreveu as mudanças sofridas pelo interesse que a criança tem por fezes nos vários estágios de seu desenvolvimento e chegou à conclusão de que suas tendências coprofílicas são precocemente sublimadas em parte em um prazer por coisas brilhantes. Um elemento desse processo de sublimação é, creio, 0 medo que a criança tem de pedaços “maus” e perigosos de fezes. A partir daí há um caminho sublimatório direto que leva ao tema da “beleza”.3 A enorme necessidade que as mulheres sentem de ter um corpo bonito e uma linda casa e de beleza em geral se baseia em seu desejo de possuir um interior bonito de seu corpo, no qual objetos “bons” e graciosos e excrementos inócuos se alojam.
Outra linha de sublimação a partir do medo da menina por excrementos “maus” e “perigosos” leva à idéia de produtos “bons” no sentido de promotores de saúde (embora, por falar nisso, “bom” e “bonito” muitas vezes signifiquem a mesma coisa para a criança pequena) e, desse modo, vai fortalecer nela aqueles sentimentos e desejos maternais originais de dar que brotam da sua posição feminina.


em cada caso é a atitude da mulher com seus objetos introjetados, especialmente o pênis do pai, que determinará sua atitude para com o marido e filho.


O nascimento da sua criança não apenas significa no seu inconsciente que o interior do seu corpo e as crianças imaginárias que lá estão não estão danificados ou foram novamente restaurados, como invalida todos os tipos de medos associados com a ideia de crianças. Mostra que as crianças dentro da mãe — seus irmãos e irmãs — e o pênis do pai (ou o pai) que ela atacou lá, e também a mãe, estão todos não danificados ou, então, foram restaurados. Dar à luz um bebê representa, assim, restaurar um grande número de objetos — até mesmo, em alguns casos, recriar o mundo todo.


Pois, em seu inconsciente, ela vê o fato de que está dando à criança um leite nutriente e benéfico como uma prova de que suas próprias fantasias sádicas arcaicas não se realizaram ou de que ela conseguiu restaurar o objeto delas


a imagem que ela formou quando criança do pênis do pai dentro dela e que determina os padrões que ela estabelece para si evoluiu a partir de fantasias extremamente ricas e é, desse modo, mais exagerada do que a do menino, tanto na direção da “bondade” quanto da “maldade”.


12. Os efeitos das situações de ansiedade arcaicas sobre o desenvolvimento sexual do menino

a homossexualidade de Leonardo pode ser remetida a uma excessiva fixação na mãe — em última instância em seu seio —e pensa que essa fixação foi deslocada para o pênis como um objeto de satisfação. Na minha experiência, todo menino se move de uma fixação oral ao seio da mãe para uma fixação oral ao pênis do pai. É isso que forma a base da homossexualidade.


Para um relato pormenorizado dos fenômenos que surgem em conexão com a fase feminina no homem, posso remeter o leitor a meu artigo “Estágios iniciais do conflito edipiano” (1928, Obras ’ Completas, i). Cf. também Karen Horney, “The Flight from Womanhood” (1926), e Felix Boehm, “The Femininity Complex in Men” (1929).


a menina retém o corpo da mãe como o objeto direto de seus impulsos destrutivos por um tempo muito mais longo e em um grau muito mais intenso do que o menino; e os impulsos positivos da menina com relação ao pênis cio pai — tanto o real quanto o imaginário dentro do corpo da mãe — são normalmente muito mais fortes e mais duradouros do que os cio menino. No caso dele, é apenas durante um certo período daquele estágio arcaico que seus ataques ao corpo da mãe dominam o quadro em que a mãe é o verdadeiro objeto de destruição. Bem depressa é o pênis do pai, supostamente dentro da mãe, que em um grau ainda maior atrai para si suas tendências agressivas contra ela.


Parece certo que a claustrofobia pode ser remetida ao medo de ser encerrado e trancado dentro do corpo perigoso da mãe. No terror particular de não ser capaz de desemaranhar o pênis do corpo da mãe, parecería que esse medo foi afunilado para um medo pela integridade do pênis.


No menino, a onipotência dos excrementos e dos pensamentos está parcialmente centrada na onipotência do pênis e, especialmente no caso dos excrementos, é em parte substituída por ele. Ele dota seu pênis na imaginação de poderes destrutivos e equipara-o a feras devoradoras e assassinas, armas de fogo, e assim por diante.


Essa concentração de onipotência sádica no pênis é de importância funda­mental para a posição masculina do menino. Se ele tem uma crença primária forte na onipotência do seu pênis, pode opô-lo à onipotência do pênis do pai e assumir a luta contra aquele órgão temido e admirado. Para que um processo de concentração deste tipo se dê, parece que seu pênis deve ser fortemente investido pelas várias formas do seu sadismo;2 e a capacidade do seu ego de tolerar a ansiedade e a força de seus impulsos genitais (que, em última instância, são impulsos libidinais) parece ter uma parcela decisiva na consecução desse processo. Mas se, quando os impulsos genitais passam para primeiro plano, o ego tiver que apresentar subitamente uma defesa muito eficaz contra os impulsos destrutivos, esse processo de focalizar o sadismo no pênis sofrerá uma interferência.


Foi-me possível em alguns casos confirmar que o menino usa seu próprio pênis como uma arma contra o pênis internalizado do pai também, voltando-o para dentro de si. Ele equipara seu fluxo de urina ao seu pênis e encara-o como um bastão ou um chicote ou uma espada com que subjuga o pênis do pai dentro de si mesmo. Deparei-me muitas vezes com uma fantasia em que o menino puxa o pênis para fora até pô-lo na boca —em um caso, pô-lo no ânus. Esta fantasia é, novamente, instigada por seu desejo de engajar seu pênis em uma luta direta com seu superego.


o ato sexual é um meio muito importante de dominar a ansiedade para ambos os sexos


Nos estágios iniciais do desenvolvimento da criança, o ato sexual, além dos seus propósitos libidinais, serve para destruir ou danificar o objeto (embora tendências positivas já estejam em operação por trás da cena)


Em estágios posteriores, além da satisfação libidinal que proporciona, o ato sexual serve para restaurar o corpo ferido da mãe e, desse modo, para dominar a ansiedade e a culpa.


Em seu artigo “Über die Wurzel der Wissbegierde” (1925), Mary Chadwick considera que o menino se reconcilia com sua incapacidade de ter um filho pelo exercício do seu desejo por conhecimento c que a descoberta científica e as conquistas intelectuais tomam o lugar para ele dc ter uma criança. É, segundo ela, este deslocamento para o plano mental da sua inveja das mulheres por poderem ter um filho que o faz assumir uma atitude de rivalidade para com elas em questões intelectuais.


Reforçamento Secundário do Orgulho do Pênis Ao descrever o desenvolvimento do menino, chamei a atenção para certos fatores que tendem, na maneira como penso, a aumentar ainda mais o significado central que o pênis possui para ele. Eles podem ser resumidos da seguinte forma: (1) a ansiedade que surge das suas situações de perigo mais arcaicas — seus medos de ser atacado em todas as partes do seu corpo e dentro dele —, que inclui todos os seus medos que derivam da posição feminina, é deslocada para o pênis como um órgão externo, onde pode ser mais bem controlada. O orgulho maior que o menino sente pelo seu pênis e tudo que isso envolve pode ser considerado como um método de dominar esses medos e desapontamentos a que sua posição feminina o expõe mais particularmente.3 (2) O fato de que o pênis é um veículo, primeiro da onipotência destrutiva do menino, depois de sua onipotência


construtiva, aumenta o seu significado como um meio de dominar a ansiedade.
Além do mais, ao preencher assim todas essas funções —isto é, ao promover seu sentimento de onipotência, seu teste de realidade e sua relação com os objetos e, por meio dessas funções, servir à função dominante de controlar a ansiedade — o pênis, ou melhor, seu representante psíquico, é posto em uma relação especialmente próxima com o ego e é transformado em representante do ego c da consciência,1 ao passo que o interior do corpo, as imagos e as fezes — isto é, aquilo que é invisível e desconhecido — são comparados ao inconsciente. Além do mais, ao analisar pacientes do sexo masculino, meninos ou homens, tenho observado que, à medida que o medo das suas imagos más e de suas fezes (isto é, do inconsciente), que dominavam internamente, diminuía, sua crença em sua própria potência sexual era fortalecida e o desenvolvimento de seu ego ganhava terreno.2 Este último efeito se deve em parte ao fato de que o medo menor do menino do seu superego “mau” e dos conteúdos “maus” do seu corpo capacita-o a se identificar melhor com seus objetos “bons” introjetados e, desse modo, permite um maior enriquecimento do seu ego.
Assim que sua confiança na onipotência construtiva do seu pênis esteja firmemente estabelecida, sua crença no poder do pênis “bom” do pai dentro de si tornará a base de uma crença secundária na sua onipotência, que suportará e fortalecerá a linha de desenvolvimento já traçada para ele por seu próprio pênis.
E, como já foi dito, o resultado do seu crescente relacionamento com os objetos será de que suas imagos irreais retrocedem para segundo plano, enquanto seus sentimentos de ódio e medo à castração surgem com um relevo mais nítido e se lixam em seu pai real. Ao mesmo tempo, suas tendências restitutórias são progressivamente dirigidas a objetos externos e seus métodos de controle de ansiedade se tornam mais realistas. Todos esses avanços no seu desenvolvimento se dão paralelamente à supremacia crescente do seu estágio genital e caracterizam os estágios posteriores do seu conflito edipiano.


Nas minhas análises de meninos e de homens adultos, tenho observado que, quando fortes impulsos orais de sucção se combinaram com fortes impulsos sádico-orais, o bebê se afasta muito cedo e com ódio do seio da mãe.3 Suas tendências destrutivas arcaicas e intensas contra o seio levam-no a introjetar uma mãe “má” na sua maior parte; e o seu abandono concomitante e súbito do seio materno é seguido por uma introjeção excessivamente forte do pênis paterno.
Sua fase feminina é governada por sentimentos de ódio e inveja em relação à mãe e, ao mesmo tempo, como resultado de seus poderosos impulsos sádico-orais, ele passa a ter um intenso ódio e um correspondentemente intenso medo do pênis internalizado do pai. Seus impulsos orais de sucção extremamente fortes dão origem a fantasias de um processo ininterrupto e eterno de ingestão de alimento; mas, ao mesmo tempo, a recepção de alimento e a satisfação sexual (ambas por meio da cópula com o pênis do pai) se transformam em tortura e destruição. Isso o leva à pressuposição de que o interior do corpo da mãe está repleto até o ponto de estourar com seus enormes pênis “maus”, que a estão destruindo de todos os modos possíveis. Na sua imaginação, ela se tornou não apenas a “mulher com pênis” mas também um tipo de recipiente para os pênis do pai e para o seu excremento perigoso, que está equacionado a eles.5


Se os ataques do menino ao seio e corpo maternos foram excepcionalmente intensos, de modo tal que, na sua imaginação, ela foi destruída pelo pênis do pai e pelo seu próprio, ele terá ainda mais necessidade de um pênis “bom” com o qual restaurá-la; e terá de ter uma confiança especial na sua potência a fim de dissipar seus terrores do corpo perigoso e em perigo da mãe cheio com os pênis do pai.


Em casos extremos, sua libido será incapaz de manter qualquer posição que seja.


Suas fantasias masturbatórias (satisfação de desejos), em que imaginava que os pais se haviam destruído um ao outro de diversas maneiras, tornaram-se uma fonte de muita preocupação,4


esse estado de tensão era uma repetição da situação em que, menino pequeno, ele ficava atento de noite aos barulhos que vinham da cama dos pais. Mal podia se conter até que por fim ouvia os primeiros sinais da relação sexual (o riscar do fósforo) para se certificar de que o evento todo logo estaria terminado


mulher enfermiça e o pai era um homem duro e tirânico, temido por toda a família.


Estou aqui

Essa fantasia pode também fornecer um estímulo para o alcoolismo. O álcool, representando o pênis mau ou a urina má, serve para destruir o pênis mau internalizado. Melitta Schmideberg, em seu artigo “The Role of Psychotic Mechanisms in Cultural Development” (1930) assinalou que as drogas representam o pênis “bom” que oferece proteção contra os objetos “maus” introjetados. Devido à ambivalência .do viciado. a droga incorporada muito prontamente recebe o significado de um pênis “mau”, e esse fato imprime um novo ímpeto à adição.


Adoção da Homossexualidade


Com o deslocamento de tudo que é assustador e estranho para o interior invisível do corpo de uma mulher, ocorre muitas vezes um outro processo associado, que parece ser uma precondição para o pleno estabelecimento da posição homosse­xual. Na atitude normal, o pênis do menino representa seu ego e a sua consciência, em oposição ao seu superego e aos conteúdos do seu corpo, que representam seu inconsciente. Na atitude homossexual, esse significado se estende, pela sua escolha narcísica de objeto, ao pênis de um outro homem, e esse pênis agora serve como uma contraprova em relação a todos os seus medos relativos ao pênis dentro dele e ao interior do seu corpo. Assim, na homossexualidade um modo de dominar a ansiedade é o ego se esforçar para negar, controlar ou levar a melhor sobre o inconsciente por meio de uma ênfase excessiva da realidade e do mundo externo e de tudo que é tangível, visível e perceptível à consciência.


Verifiquei em casos assim que, quando o menino teve uma relação homos­sexual na infância, ele teve uma boa oportunidade de moderar seus sentimentos de ódio e de medo ao pênis do pai e de fortalecer sua crença no pênis “bom”.
Além disso, todos os seus casos homossexuais futuros repousarão sobre essa relação. Eles estarão destinados a fornecer-lhe vários reasseguramentos, dos quais mencionarei alguns dos mais comuns: (1) que o pênis do pai, o internali­zado e o real, não é um perseguidor perigoso seja (a) para ele, seja (b) para a mãe; (2) que seu próprio pênis não é destrutivo; (3) que seus medos, quando era pequeno, de que as relações sexuais com o irmão ou um substituto do irmão fossem descobertas e ele fosse expulso de casa, castrado ou morto não têm fundamento e, mesmo como adulto, podem ser refutados, já que seus atos homossexuais não são seguidos por nenhuma conseqüência maligna; (4) que ele tem aliados secretos e cúmplices, pois no início da vida suas relações sexuais com o irmão (ou substituto) significavam que os dois tinham se agrupado para destruir os pais separadamente ou combinados na cópula. Na sua fantasia, seu parceiro no amor assume por vezes o papel do pai, com quem empreendia ataques secretos à mãe durante o ato sexual e por meio deste (lançando, desse modo, um dos pais contra o outro); às vezes, ele assume o papel do irmão que, junto com ele, instigava e destruía o pênis do pai dentro da mãe e dele mesmo.
O sentimento (baseado em fantasias sádicas masturbatórias em comum) de fazer uma liga com outro contra os pais por meio do ato sexual, um sentimento que é, creio, de importância geral para as relações sexuais de crianças pequenas, está intimamente ligado a mecanismos paranóicos. Onde esses mecanismos se encontram muito fortemente atuantes, a criança terá um viés forte para procurar aliados e cúmplices na sua posição libidinal e no seu relacionamento objetal. A possibilidade de conquistar a mãe para o seu lado contra o pai —isto é, em última instância, de destruir o pênis do pai dentro dela copulando com ela — pode se tornar uma condição necessária para que ele adote uma posição heterossexual; e pode capacitá-lo quando crescer a manter a posição heterossexual apesar de ele ter traços paranóides acentuados. Por outro lado, se o seu medo do corpo perigoso da mãe for muito forte e a sua imago materna boa não tiver podido se desenvolver, suas fantasias de se aliar com o pai contra a mãe e de se juntar com o irmão contra ambos os pais o farão inclinar-se a estabelecer uma posição homossexual.
O impulso da criança de lançar seus objetos um contra o outro e de obter poder sobre eles ao assegurar aliados secretos tem suas raízes, tanto quanto posso ver, em fantasias de onipotência em que, por meio dos atributos mágicos dos excrementos e dos pensamentos, as fezes e flatos venenosos são introduzidos nos corpos de seus objetos a fim de dominá-los ou destruí-los.


Em “Homosexualitàt und Òdipuskomplex”, Felix Boehm voltou sua atenção para “a parte desempenhada por aquele aspecto do complexo de Édipo que consiste no ódio da criança ao pai e nos seus desejos de morte e desejos ativos de castração contra ele.1 Mostrou que, ao realizar atos homossexuais, o indivíduo masculino muito freqüentemente tem dois objetivos: (1) tornar o parceiro impo­tente para o ato heterossexual, e, nesse caso, trata-se em grande parte meramente de uma questão de mantê-lo afastado das mulheres, e (2) castrá-lo, caso em que deseja se apossar também do pênis do parceiro de modo a aumentar sua própria potência sexual com as mulheres.


ele quer por pênis “bons” e sêmen “bom” dentro de si, de modo a tornar o interior do seu corpo intacto e em bom estado.


A desproporção entre o pênis gigantesco e as vastas quantidades de sêmen que ele pensa serem necessárias para satisfazer a mãe e a pequenez do seu próprio pênis é uma das coisas que ajudam a torná-lo impotente mais tarde na vida.


Já foi dito mais de uma vez que o desejo pelo conhecimento fornece uma força motivacional em geral para o desempenho do ato sexual. Mas, quando o indivíduo obtém satisfação do seu desejo pelo conhecimento em conexão com atividades homossexuais, ele o emprega em parte para aumentar sua eficiência na posição heterossexual. O ato homossexual é destinado a realizar o seu desejo de infância arcaico de ter a oportunidade de ver em que o pênis do pai difere do seu e descobrir como ele se comporta ao copular com a mãe. Ele quer se tornar mais apto e potente no ato sexual com a mãe.


O Sr. B, um homem de trinta e poucos anos, veio me procurar para tratamento por conta de uma grave inibição no trabalho e depressão profunda.


Bochm se refere (loc. cit.) a um paciente que costumava, entre outras coisas, descobrir nos seus casos homossexuais com homens qual era a “técnica sexual” deles com as mulheres.


Era notável 0 fato de ele não se ressentir pela alegada tentativa de assassinato. Isso se devia em parte ao seu enorme deslocamento de afetos, em parte à sua tolerância e compreensão intuitiva de outras pessoas. Além desses fatores, o seu extraordinário poder de dissimulação contribuiu para o fato de que suas idéias de referência e de perseguição, sua ansiedade hipocondríaca e mesmo, em algum grau, seus graves sintomas obsessivos não fossem aparentes para as pessoas próximas a ele. Esse poder extraordinário de dissimulação acompanhava suas características paranóides, que eram muito fortes. Embora sentisse que estava sendo observado e espiado por pessoas e tivesse muitas suspeitas delas, sua compreensão psicológica era tão grande que ele sabia esconder seus pensamentos e sentimentos inteiramente. Mas, lado a lado com esse traço dissimulador e calculista, havia nele um grande frescor e espontaneidade de sentimentos que brotavam do seu relacionamento positivo de objetos e que remontavam a fortes sentimentos de esperança que originalmente existiram nas profundezas da sua mente; tais sentimentos também o haviam ajudado a ocultar sua doença, mas deixaram de funcionar quase que totalmente nos últimos anos.


O Sr. B era um verdadeiro homossexual. Embora tivesse boas relações com mulheres (e com homens) como seres humanos, como objetos sexuais ele as rejeitava tão completamente que não podia absolutamente compreender como é que elas podiam supostamente ter qualquer atrativo.2 Do ponto de vista físico, elas eram algo estranho, misterioso e sinistro para ele. A forma de seus corpos lhe era repelente, especialmente os seios e as nádegas e a falta de um pênis.1 Sua aversão pelos seios e nádegas se baseava em impulsos sádicos intensamente fortes. Tinha fantasias de bater naquelas partes “que saíam para fora” do corpo delas até que ficassem, por assim dizer, “batidas para dentro” e, assim, “reduzidas”, e aí, talvez, dizia, ele poderia amar as mulheres. Essas fantasias eram determinadas por sua idéia inconsciente de que a mulher estava tão cheia dos pênis do pai e de excrementos perigosos equacionados ao pênis, que eles a fizeram estourar e produziam essas protuberâncias para fora. Assim, seu ódio das partes que “saíam para fora” era na realidade dirigido aos pênis internalizados do pai e que ficavam reemergindo.2 Na sua imaginação, o interior do corpo da mulher era uma expansão infinita e inexplorável onde espreitavam toda sorte de perigos e de morte e ela mesma só se apresentava para ele como um tipo de continente de pênis aterradores e de excrementos perigosos. Encarava sua pele delicada e todos os outros atributos femininos como uma cobertura bastante artificial para a destruição que estava se dando em seu interior e, embora em si mesmos lhe agradassem, ele os temia ainda mais como sendo inúmeros sinais da sua natureza enganadora e traiçoeira.


Teve relações sexuais uma ou duas vezes em sua vida com mulheres, mas nunca obteve nenhuma satisfação real com isso. Seus motivos principais para se engajar em um caso passageiro desse tipo eram curiosidade, desejo de fazer o que outros homens, heterossexuais, faziam, e, em especial, um desgosto por ferir os sentimentos da outra pessoa, que em cada caso havia sido a pessoa mais desejosa.



A adoção de uma atitude homossexual foi grandemente facilitada pelo fato de que havia sido seduzido muito cedo na vida — em algum momento do seu segundo ano — por seu irmão, Leslie, cerca de dois anos mais velho que ele. Na medida em que o ato de felatio satisfazia seus desejos orais de sucção até o momento insatisfeitos, esse evento levou-o a se tornar excessivamente fixado no pênis. Outro fator era que o pai, que havia sido até então um homem monossilábico e muito pouco efusivo, tornou-se mais afetuoso sob a influência do filho menor. O menininho havia se determinado a conquistar o seu amor e conseguiu. A análise mostrou que ele encarava essa vitória como uma prova de que fora capaz de transformar o pênis “mau” do pai em um pênis “bom”. E seus esforços para efetuar uma transformação desse tipo e desse modo dissipar um grande número de medos tornou-se em anos ulteriores um dos seus motivos para ter casos com homens.


A formação malsucedida do superego de B (isto é, a ação exagerada de suas formações de ansiedade mais arcaicas) não apenas levou a graves distúrbios na sua saúde mental, a um prejuízo do seu desenvolvimento sexual e a uma inibição da sua capacidade de trabalho, mas foi também a razão pela qual seus relacionamentos objetais, embora bons em si mesmos, ficassem por vezes sujeitos a sérias perturbações.


Mas suas esperanças foram frustradas e David morreu. Foi esse golpe que o quebrou e desencadeou sua doença. A análise mostrou que esse segundo golpe o havia atingido muito mais duramente do que o primeiro porque ele tinha um intenso sentimento de culpa em relação ao irmão mais velho. Acima de tudo, sua crença de que poderia restaurar o pênis danificado fora minada. Isso significava que tinha que abandonar a esperança de todas as coisas que em seu inconsciente estava procurando restaurar — em última instância, a mãe e o seu próprio corpo. A grave inibição no trabalho que o acometeu foi outra consequência da sua perda de esperança.


À medida que sua crença na mãe “boa” se fortalecia e, consequentemente, sua ansiedade paranóide e hipocondríaca e também suas depressões se tornavam menos intensas, o Sr. B tornou-se proporcionalmente mais capaz de dar continuidade ao seu trabalho, mostrando de início todos os sinais de ansiedade e compulsão, mas mais tarde fazendo-o com muito mais facilidade. Lado a lado com isso, houve uma diminuição uniforme de seus impulsos homossexuais. Sua adoração ao pênis se abrandou e seu medo ao pênis “mau”, até então encoberto por sua admiração pelo pênis “bom” (o pênis bonito), veio à luz. Nessa fase, familiarizamo-nos com um medo particular, a saber, de que o pênis “mau” internalizado do pai havia se apossado do seu próprio pênis forçando a entrada nele e controlando-o de dentro.1 O Sr. B sentiu que havia desse modo perdido o controle sobre o seu próprio pênis e não podia usá-lo de um modo “bom” e produtivo. Esse medo havia surgido muito fortemente quando ele estava na idade da puberdade. Por essa época, estava tentando com todas as suas forças evitar masturbar-se. Como consequência, tinha poluções noturnas. Isso deu início a um medo nele de que não controlaria seu pênis e de que este estava possuído pelo diabo. Pensava também que era porque estava possuído pelo diabo que podia mudar de tamanho e se tornar maior ou menor, e atribuía todas as mudanças por que passava em seu desenvolvimento à mesma causa.


situação de perigo especial, em o que o pênis “mau” do pai enche o pênis do sujeito a partir do interior deste e, desse modo, toma posse completa dele.


No caso sob discussão, veremos que os fatores de cuja operação mais forte depende a mudança completa do paciente da homossexualidade para a heterossexualidade são os mesmos fatores cuja presença foi mencionada na primeira parte deste capítulo como uma condição necessária para o firme estabelecimento de uma posição heterossexual. Ao traçar o desenvolvimento do indivíduo mascu­lino normal, assinalei lá que os alicerces de um desenvolvimento sexual bem-sucedido do homem são a supremacia da imago materna “boa”, que auxilia o menino a superar seu sadismo e trabalha contra todos os seus medos. Como no caso de seus medos do corpo da mãe e do seu próprio interior, o desejo do menino de restaurar o corpo da mãe e seu desejo de restaurar o próprio corpo interagem, sendo a realização de um essencial para a realização do outro. No estágio genital, eles são uma precondição para que ele atinja a potência sexual.


Em casos razoavelmente graves, achei necessário prosseguir com a análise por um longo tempo — para crianças entre cinco e treze anos de idade, entre dezoito e trinta e seis meses de trabalho, e, em um caso, quarenta e cinco meses, e para alguns adultos por um tempo mais longo ainda —, até que a ansiedade tivesse sido suficientemente modificada, tanto em quantidade quanto em qualidade, para que eu me sentisse justificada em terminar o tratamento. Por outro lado, a desvantagem de um tratamento tão longo é plenamente compensada pelos resultados de maior alcance e mais duradouros que uma análise profunda alcança. E em muitos casos um tempo muito menor é suficiente —não mais do que de oito a dez meses de trabalho —para obter resultados bastante satisfatórios.


Por essa época, ela já havia desenvolvido a sua própria concepção geral do funcionamento mental


O ego forma um mundo interno de figuras internalizadas, as quais, pelos processos de projeção e de introjeção, interagem com objetos reais. Como resultado do sadismo para com seus objetos, o ego sofre de ansiedade e sua principal tarefa arcaica é elaborar suas ansiedades, que são de caráter psicótico, e que aos poucos, à medida que o desenvolvimento se dá, se transformam em ansiedades neuróticas.


a ansiedade se origina da presença da pulsão de morte no id e do perigo que ela representa para ele


ela vê a neurose obsessiva como uma tentativa de ligar ansiedades psicóticas arcaicas.


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