
Anti Oedipus Capitalism and Schizophrenia Gilles Deleuze e Felix Guattari
O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia - Gilles Deleuze e Félix Guattari (Highlight: 293; Note: 0.
Sobre Esta Tradução
I. As Máquinas Desejantes
- A Produção Desejante
- O Corpo sem Órgãos
- O Sujeito e o Gozo
- Psiquiatria Materialista
- As Máquinas
- O Todo e as Partes
II. Psicanálise e Familismo: A Santa Família - O Imperialismo de Édipo
- Três Textos de Freud
- A Síntese Conectiva de Produção
- A Síntese Disjuntiva de Registro
- A Síntese Conjuntiva de Consumo
- Recapitulação das Três Sínteses
- Repressão e Recalcamento
- Neurose e Psicose
- O Processo
III. Selvagens, Bárbaros, Civilizados - Socius Inscritor
- A Máquina Territorial Primitiva
- Problema de Édipo
- Psicanálise e Etnologia
- A Representação Territorial
- A Máquina Despótica Bárbara
- A Representação Bárbara ou Imperial
- O Urstaat
- A Máquina Capitalista Civilizada
- A Representação Capitalista
- Édipo, Finalmente
IV. Introdução à Esquizoanálise - O Campo Social
- O Inconsciente Molecular
- Psicanálise e Capitalismo
- Primeira Tarefa Positiva da Esquizoanálise
- Segunda Tarefa Positiva da Esquizoanálise
Apêndice: Balanço-Programa para Máquinas Desejantes - Diferenças Relativas entre as Máquinas Desejantes e os Gadgets
- Máquina Desejante e Aparelho Edipiano
- Máquina e Corpo Pleno
Sobre Autores
Gilles Deleuze
Félix Guattari
Sobre o Tradutor
Notas
I. As Máquinas Desejantes
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1. A Produção Desejante
2. O Corpo sem Órgãos
3. O Sujeito e o Gozo
4. Psiquiatria Materialista
As máquinas desejantes são simultaneamente técnicas e sociais. E é neste sentido que a produção desejante é o lugar de um recalcamento originário, enquanto que a produção social é o lugar da repressão, e que, desta àquela, se exerce algo que se assemelha ao recalcamento secundário “propriamente dito”: tudo depende aqui da situação do corpo sem órgãos, ou do seu equivalente, conforme ele seja resultado interno ou condição extrínseca (o que muda, em especial, o papel do instinto de morte).
O capitalismo tende a um limiar de descodificação que desfaz o socius em proveito de um corpo sem órgãos e que libera, sobre este corpo, os fluxos do desejo num campo desterritorializado. Será correto dizer, neste sentido, que a esquizofrenia é o produto da máquina capitalista, como a mania depressiva e a paranoia são produtos da máquina despótica, ou como a histeria é o produto da máquina territorial?
Quando se diz que a esquizofrenia é a nossa doença, a doença do nosso tempo, não se está dizendo apenas que a vida moderna enlouquece. Não se trata de modo de vida, mas de processo de produção. Tampouco se trata de um simples paralelismo, embora este seja mais exato do ponto de vista da falência dos códigos como, por exemplo, o paralelismo entre os fenômenos de deslizamento de sentido nos esquizofrênicos e os mecanismos de discordância crescente em todos os níveis da sociedade industrial. De fato, queremos dizer que o capitalismo, no seu processo de produção, produz uma formidável carga esquizofrênica sobre a qual ele faz incidir todo o peso da sua repressão, mas que não deixa de se reproduzir como limite do processo. Isto porque o capitalismo nunca para de contrariar, de inibir sua tendência, ao mesmo tempo em que nela se precipita; não para de afastar o seu limite, ao mesmo tempo em que tende a ele.
Neurose, Psicose e Perversão
Não é certamente em relação às pulsões que se pode dar definições atuais suficientes do neurótico, do perverso e do psicótico, mas em relação às territorialidades modernas, pois as pulsões são tão somente as próprias máquinas desejantes. O neurótico permanece instalado nas territorialidades residuais ou factícias da nossa sociedade e as assenta todas sobre Édipo como última territorialidade que se .43. reconstitui no consultório do analista, sobre o corpo pleno do psicanalista (claro, o patrão é o pai, o chefe do Estado também, e o senhor também, doutor…). O perverso é aquele que toma o artifício ao pé da letra: já que assim o querem, hão de ter territorialidades infinitamente mais artificiais do que as que a sociedade nos propõe, hão-de ter novas famílias infinitamente artificiais, sociedades secretas e lunares. Quanto ao esquizo, com o seu passo vacilante, que não para de migrar, de errar, de escorregar, embrenha-se cada vez mais longe na desterritorialização sobre o seu próprio corpo sem órgãos, até o infinito da decomposição do socius, e talvez o passeio do esquizo seja o seu modo particular de reencontrar a terra. O esquizofrênico situa-se no limite do capitalismo: é a tendência desenvolvida deste, o sobreproduto, o proletário e o anjo exterminador. Ele mistura todos os códigos, é o portador dos fluxos descodificados do desejo. O real flui. Os dois aspectos do processo se juntam: o processo metafísico que nos põe em contato com o “demoníaco” na natureza ou no seio da terra, e o processo histórico da produção social que restitui às máquinas desejantes uma autonomia em relação à máquina social desterritorializada. A esquizofrenia é a produção desejante como limite da produção social. A produção desejante e sua diferença de regime em relação à produção social estão, pois, no fim e não no começo. De uma à outra há tão só um devir, que é o devir da realidade. E se a psiquiatria materialista se define pela introdução do conceito de produção no desejo, ela não tem como evitar estabelecer em termos escatológicos o problema da relação final entre a máquina analítica, a máquina revolucionária e as máquinas desejantes.
5. As Máquinas
os cortes operam extrações sobre o fluxo associativo. Como o ânus e o fluxo de merda que ele corta; a boca e o fluxo de leite, mas também o fluxo de ar e o fluxo sonoro; o pênis e o fluxo de urina, mas também o fluxo de esperma
é muito curioso que Melanie Klein, na sua profunda descoberta dos objetos parciais, tenha negligenciado, a esse respeito, o estudo dos fluxos e os declare sem importância: ela provoca, assim, um curto-circuito em todas as conexões
É somente em relação com o corpo sem órgãos (olhos fechados, nariz apertado, ouvidos tapados) que algo se produz, se contraproduz, desviando ou exasperando toda a produção da qual, entretanto, ele faz parte. Mas a máquina continua a ser desejo, posição de desejo que prossegue a sua história através do recalcamento originário e do retorno do recalcado, em toda a sucessão de máquinas paranoicas, máquinas miraculantes e máquinas celibatárias que Joey atravessa à medida que a terapêutica de Bettelheim progride.
Produzir desejo é a única vocação do signo, em todos os sentidos em que isto se maquina.
Como haveria extração parcial de um fluxo, sem desligamento fragmentário num código que informará o fluxo? Dizíamos, há pouco, que o esquizo está no limite dos fluxos descodificados do desejo; seria preciso entender, também assim, os códigos sociais, já que, nestes, um Significante despótico esmaga todas as cadeias, as lineariza, as bi-univociza, e se serve dos tijolos como se fossem elementos imóveis para uma muralha da China imperial. Mas o esquizo os destaca sempre, desliga-os e os leva consigo em todos os sentidos para reencontrar uma nova plurivocidade, que é o código do desejo. Toda composição, assim como toda decomposição, se faz com tijolos móveis.
a introdução do desejo na neurologia.
Sujeito e Resíduo
6. O Todo e as Partes
Em termos kleinianos, diríamos que a posição depressiva serve apenas para encobrir uma posição esquizoide mais profunda
Melanie Klein fez a maravilhosa descoberta dos objetos parciais, esse mundo de explosões, de rotações, de vibrações. Mas como explicar que ela não atina, entretanto, com a lógica desses objetos? É que, em primeiro lugar, ela os pensa como fantasmas, e os julga do ponto de vista do consumo, não de uma produção real. Indica mecanismos de causação (a introjeção e a projeção), de efetuação (gratificação e frustração), de expressão (o bom e o mau), que lhe impõem uma concepção idealista do objeto parcial. Ela não o liga a um verdadeiro processo de produção, que seria o das máquinas desejantes. Em segundo lugar, não se livra da ideia de que os objetos parciais esquizo-paranoicos remetem a um todo, seja este original numa fase .53. primitiva, seja por vir na posição depressiva ulterior (o Objeto completo). Os objetos parciais parecem-lhe, pois, extraídos de pessoas globais; não só entrarão nas totalidades de integração concernentes ao eu, ao objeto e às pulsões, mas constituem já o primeiro tipo de relação objetal entre o eu, a mãe e o pai. Ora, afinal de contas, é bem aí que tudo se decide. É certo que os objetos parciais possuem, em si mesmos, uma carga suficiente para explodir Édipo, para destituí-lo da sua tola pretensão de representar o inconsciente, de triangular o inconsciente, de captar toda a produção desejante.
Os objetos parciais não são representantes de personagens parentais, nem suportes de relações familiares; são peças nas máquinas desejantes, remetem a um processo e a relações de produção irredutíveis, e são primeiros em relação ao que se deixa registrar na figura de Édipo.
Quando se fala da ruptura Freud-Jung, esquece-se muitas vezes o modesto e prático ponto de partida: Jung notava que, na transferência, o psicanalista aparecia muitas vezes como um diabo, um deus, um feiticeiro, e que seus papéis iam singularmente além das imagens parentais. Depois, tudo começou a correr mal, mas o ponto de partida era bom. Ocorre o mesmo com as brincadeiras das crianças. Uma criança não brinca apenas de papai-mamãe. Ela brinca também de feiticeiro, de cowboy, de polícia e ladrão, de trem e automóveis. O trem não é forçosamente papai, nem a estação, mamãe. O problema não incide no caráter sexual das máquinas desejantes, mas no caráter familiar desta sexualidade. Admite—se que, ao crescer, uma criança se acha envolvida em relações sociais que já não são familiares. Mas, como se pensa que essas relações .55. sobrevêm posteriormente, só há duas vias possíveis: ou se admite que a sexualidade se sublima ou se neutraliza nas relações sociais (e metafísicas), sob a forma de um “após” analítico, ou, então, admitimos que essas relações põem em jogo uma energia não sexual, que a sexualidade se contentava em simbolizar como um “além” anagógico. Foi aí que as coisas ficaram mal entre Freud e Jung. Eles têm em comum, pelo menos, o fato de acreditarem que a libido não pode, sem mediação, investir um campo social ou metafísico. E é isso que não ocorre. Consideremos uma criança que brinca ou que, a engatinhar, explora as peças da casa. Ela contempla uma tomada elétrica, maquina seu corpo, serve-se de uma perna como de um remo ou ramo, entra na cozinha, no escritório, manipula carrinhos. É evidente que a presença dos pais é constante e que a criança nada tem sem eles. Mas a questão não é essa. A questão é sabermos se tudo aquilo em que ela toca é vivido como representação dos pais. Desde o nascimento, o berço, o seio, a chupeta, os excrementos, são máquinas desejantes em conexão com as partes do seu corpo. Parece-nos contraditório dizer que a criança vive entre objetos parciais e, ao mesmo tempo, dizer que ela apreende nos objetos parciais pessoas parentais, mesmo que aos pedaços. Não é rigorosamente verdade que o seio seja um destaque do corpo da mãe, pois ele existe como peça de uma máquina desejante, em conexão com a boca, que dele extrai um fluxo de leite não-pessoal, ralo ou denso. Sendo parte de uma máquina desejante, um objeto parcial nada representa: ele não é representativo. Ele é suporte de relações e distribuidor de agentes; mas esses agentes não são pessoas, assim como essas relações não são intersubjetivas. São relações de produção como tais, agentes de produção e de antiprodução.
A criança está sempre em família; mas, em família e desde o início, ela se entretém imediatamente com uma enorme experiência não-familiar que a psicanálise deixa escapar.
uma questão se impõe à criança, que será talvez “reportada” à mulher chamada mamãe, mas que não é produzida em função dela, e sim produzida no jogo das máquinas desejantes, por exemplo, no nível da máquina boca-ar ou da máquina de provar — que é viver? que é respirar? que sou eu? que é a máquina de respirar no meu corpo sem órgãos? A criança é um ser metafísico. Como no cogito cartesiano, os pais nada têm a ver com isso.
Michel Foucault pôde assinalar a que ponto a relação da loucura com a família se funda num desenvolvimento que afetou o conjunto da sociedade burguesa do século XIX, e que confiou à família funções através das quais eram avaliadas a responsabilidade dos seus membros e a sua eventual culpabilidade. Ora, na medida em que a psicanálise envolve a loucura num “complexo parental” e reencontra a confissão de culpabilidade nas figuras de autopunição que resultam do Édipo, ela não inova, mas completa o que a psiquiatria do século XIX tinha começado: erigir um discurso familiar e moralizado da patologia mental, .59. ligar a loucura “à dialética semirreal semi-imaginária da Família”, e nela decifrar “o incessante atentado contra o pai”, “a surda contraposição dos instintos à solidez da instituição familiar e aos seus símbolos mais arcaicos”. Assim, em vez de participar de um empreendimento de efetiva libertação, a psicanálise se inclui na obra mais geral da repressão burguesa, aquela que consistiu em manter a humanidade europeia sob o jugo do papai-mamãe, e a não dar um fim a esse problema.
II. Psicanálise e Familismo: A Santa Família
1. O Imperialismo de Édipo
O que questionamos é a edipianização furiosa a que a psicanálise se entrega, seja prática ou teoricamente, com os recursos conjugados da imagem e da estrutura. E apesar dos belos livros escritos recentemente por certos discípulos de Lacan, perguntamos se o pensamento de Lacan se orienta precisamente nesse sentido. Será que se trata somente de edipianizar até mesmo o esquizo? Ou será que se trata de outra coisa, e mesmo o contrário disso?36 Esquizofrenizar, esquizofrenizar o campo do inconsciente, e também o campo social histórico, de maneira a explodir o jugo de Édipo e a reencontrar em toda parte a força das produções desejantes, reatar no próprio Real o liame da máquina analítica, do desejo e da produção? Isto porque o próprio inconsciente não é estrutural e nem pessoal; ele não simboliza, assim como não imagina e nem figura: ele maquina, é maquínico. Nem imaginário nem simbólico, ele é o Real em si mesmo, o “real impossível” e sua produção.
O inconsciente produtivo é substituído por um inconsciente que sabe apenas exprimir-se — e exprimir-se no mito, na tragédia, no sonho. Mas quem nos diz que o sonho, a tragédia, o mito sejam adequados às formações do inconsciente, mesmo se levarmos em conta o trabalho de transformação? Groddeck, mais do que Freud, permanecia fiel a uma autoprodução do inconsciente na coextensão do homem e da Natureza. É como se Freud tivesse recuado frente a este mundo de produção selvagem e de desejo explosivo, e quisesse introduzir aí, a qualquer custo, um pouco de ordem, a ordem clássica do velho teatro grego. Que significa dizer: Freud descobriu Édipo na sua autoanálise? Foi na sua autoanálise ou na sua cultura clássica goethiana? Na sua autoanálise ele descobre algo do qual ele diz: veja só, isto se assemelha a Édipo. E começou por considerar esse algo como uma variante do “romance familiar”, como o registro paranoico através do qual o desejo explode precisamente as determinações de família. Só pouco a pouco é que ele faz do romance familiar, ao contrário, uma dependência de Édipo, e neurotiza tudo no inconsciente, ao mesmo tempo em que edipianiza, em que encerra todo o inconsciente no triângulo familiar.
O psicanalista torna-se o diretor de um teatro privado — em vez de ser o engenheiro ou o mecânico que monta unidades de produção, que luta com agentes coletivos de produção e de antiprodução.
um inconsciente expressivo e não mais às formações do inconsciente produtivo
Tudo decorre disso, a começar pelo caráter inenarrável da cura, seu caráter interminável altamente contratual, fluxo de palavras em troca de fluxo de dinheiro.
Basta, então, o que chamamos de um episódio psicótico: um clarão de esquizofrenia, trazemos um dia nosso gravador ao consultório do analista — stop, intrusão de uma máquina desejante, e tudo é subvertido, quebramos o contrato, não fomos fiéis ao grande princípio da exclusão do terceiro, introduzimos o terceiro, a máquina desejante em pessoa.38 Porém, todo psicanalista deveria saber .66. que sob Édipo, através de Édipo e atrás de Édipo, é com as máquinas desejantes que ele há de se confrontar. No princípio, os psicanalistas não podiam não ter consciência do forcing .esforço. operado para introduzir Édipo, para injetá-lo em todo o inconsciente. Depois, Édipo se assentou sobre a produção desejante, apropriou-se dela como se todas as forças produtivas do desejo emanassem dele. O psicanalista tornou-se o cabide de Édipo, o grande agente da antiprodução no desejo. A mesma história que a do Capital, e seu mundo encantado, miraculado (no princípio também, dizia Marx, os primeiros capitalistas não podiam não ter consciência…)
Estou aqui
2. Três Textos de Freud
por que retornar ao mito?
Queremos dizer que é a partir do mesmo postulado que Jung é levado a restaurar a mais difusa, a mais espiritualizada religiosidade, e que Freud se vê confirmado em seu mais rigoroso ateísmo. Para interpretar a adequação postulada por ambos, Freud tem tanta necessidade de negar a existência de Deus quanto Jung tem de afirmar a essência do divino. Mas tornar a religião inconsciente, ou tornar religioso o inconsciente, é sempre injetar religiosidade no inconsciente (e o que seria a análise freudiana sem os famosos sentimentos de culpabilidade atribuídos ao inconsciente?). E o que se passou na história da psicanálise? Freud se agarrava a seu ateísmo à maneira de um herói. Acontece que, em torno dele, cada vez mais, deixavam-no falar, deixavam respeitosamente que o velho falasse, mas, às suas costas, ia-se preparando a reconciliação das igrejas e da psicanálise, o momento em que a Igreja formaria seus próprios psicanalistas e no qual se poderia escrever na história do movimento: em que nós também, nós somos ainda piedosos. Lembremo-nos da grande declaração de Marx: aquele que nega Deus faz apenas uma “coisa secundária”, porque nega Deus para estabelecer a existência do homem, para colocar o homem no lugar de Deus (levando em conta a transformação)
Porque, afinal, dos três tempos do fantasma supostos na menina, o primeiro é tal que o pai ainda não aparece nele, e no terceiro tempo o pai já não aparece mais: resta, então, o segundo tempo, no qual o pai brilha com todas as suas luzes, “nitidamente sem equívoco” — mas, justamente, “esta segunda fase nunca tem uma existência real; tendo permanecido inconsciente, nunca pode ser evocada pela lembrança, de modo que ela é uma reconstituição analítica tão somente, mas uma reconstituição necessária”. Do que se trata, de fato, nesse fantasma? Meninos são espancados por alguém, por um professor, por exemplo, à vista de meninas. Assistimos, desde o início, a uma dupla redução freudiana, que de modo algum é imposta pelo fantasma, mas exigida por Freud à maneira de um pressuposto. Por um lado, Freud quer deliberadamente reduzir o caráter de grupo do fantasma a uma dimensão puramente individual: é preciso que as crianças espancadas sejam de certa maneira o eu (“substitutos do próprio sujeito”) e que quem bata seja o pai (“substituto do pai”). Por outro lado, é preciso que as variações do fantasma se organizem em disjunções empregadas de maneira estritamente exclusiva: assim, haverá uma série-menina e uma série-menino, mas dissimétricas, tendo o fantasma feminino três tempos, dos quais o último é “meninos são espancados pelo professor”, e tendo o fantasma masculino apenas dois tempos, dos quais o último é “minha mãe me bate”. O único tempo comum (o segundo das meninas e o primeiro dos meninos) afirma sem equívoco a prevalência do pai nos dois casos, mas é o famoso tempo inexistente. E com Freud é sempre assim. É .70. preciso haver algo em comum aos dois sexos, mas para que esse algo falte tanto a um quanto ao outro, para distribuir a falta pelas duas séries não simétricas e fundar o uso exclusivo das disjunções: você é menina ou menino. É assim a respeito de Édipo e de sua “resolução”, diferentes no caso do menino e no da menina. É assim a respeito da castração e da sua relação com Édipo. A castração é a porção comum, isto é, o Falo prevalente e transcendente, e, ao mesmo tempo, a distribuição exclusiva que se apresenta nas meninas como desejo do pênis e nos meninos como medo de perdê-lo ou recusa de atitude passiva. Esse algo em comum deve fundar o uso exclusivo das disjunções do inconsciente — e nos ensinar a resignação: resignação a Édipo, resignação à castração, renúncia ao desejo do pênis, no caso das meninas, e renúncia à demonstração máscula, no caso dos meninos, em suma, renúncia “a assumir o sexo”.40 Esse algo em comum, o grande Falo, a Falta com duas faces não sobreponíveis, é puramente mítico: é como o Uno da teologia negativa, introduz a falta no desejo, e faz emanar as séries exclusivas às quais fixa um alvo, uma origem e um curso resignado.
Seria preciso dizer o contrário: ao mesmo tempo nada há de comum aos dois sexos e eles não param de se comunicar um com o outro de um modo transversal, modo pelo qual cada sujeito possui os dois sexos, mas compartimentados, de sorte que, com cada um desses sexos, ele comunica com um ou com o outro sexo de outro sujeito. Esta é a lei dos objetos parciais. Nada falta, nada pode ser definido como uma falta; e as disjunções no inconsciente nunca são exclusivas, mas são o objeto de um uso propriamente inclusivo que teremos de analisar. Freud poderia ter dito isto, pois .71. dispunha de um conceito, o de bissexualidade; mas não é por acaso que nunca pôde, ou nunca quis, dar a posição e a extensão analíticas que esse conceito exigia.
o polo revolucionário do fantasma de grupo aparece na potência de viver as próprias instituições como mortais, de destruí-las ou de mudá-las consoante as articulações do desejo e do campo social, fazendo da pulsão de morte uma ver dadeira criatividade institucional. Porque é este o critério, pelo menos formal, para distinguir a instituição revolucionária da enorme inércia que a lei comunica às instituições numa dada ordem estabelecida. Como diz Nietzsche, igrejas, exércitos, Estados, qual de todos estes cães é aquele que quer morrer? Daí decorre uma terceira diferença entre o fantasma de grupo e o fantasma dito individual: é que este tem como sujeito o eu enquanto determinado pelas instituições legais e legalizadas, nas quais ele “se imagina”, a tal ponto que, até mesmo em suas perversões, o eu se conforma com o uso exclusivo das disjunções impostas pela lei (homossexualidade edipiana, por exemplo). Mas o fantasma de grupo tem por sujeito as próprias pulsões e as máquinas desejantes que elas formam com a instituição revolucionária.
Entre o asilo repressivo, o hospital legalista, de um lado, e a psicanálise contratual, de outro, a análise institucional tenta traçar o seu difícil caminho. Desde o começo, a relação psicanalítica foi moldada pela relação contratual da mais tradicional medicina burguesa: a fingida exclusão do terceiro, o papel hipócrita do dinheiro — a que a psicanálise trouxe novas e burlescas justificações, a pretensa limitação no tempo que desmente a si própria ao reproduzir uma dívida tornada infinita, alimentando uma inesgotável transferência, alimentando sempre novos “conflitos”. Espanta-nos ouvir dizer que uma análise terminada é, por isso mesmo, uma análise falhada, ainda que essa afirmação seja acompanhada por um fino sorriso do analista. Espanta-nos ouvir um experimentado analista mencionar, en passant, que um dos seus “doentes” ainda sonha ser convidado para lanchar ou tomar um aperitivo em sua casa, após vários anos de análise, como se isso não fosse o signo minúsculo de uma dependência abjeta à qual a análise reduz os pacientes. Como conjurar na cura esse abjeto desejo de ser amado, o desejo histérico e choramingão que nos faz ajoelhar, deitar no divã e ficar quietos?
O primeiro desses fatores é o “rochedo” da castração; o rochedo com duas vertentes não simétricas, que introduz em nós uma cavidade incurável, na qual a análise vem se apoiar. O segundo é uma aptidão qualitativa ao conflito, que faz com que a quantidade de libido não se distribua por duas forças variáveis correspondentes à heterossexualidade e à homossexualidade, mas que cria, na maior parte das pessoas, oposições irredutíveis entre as duas forças. Finalmente, o terceiro fator — cuja importância econômica é tal que afasta as considerações dinâmicas e tópicas — diz respeito a um gênero de resistências não localizáveis: dir-se-ia que certos sujeitos têm uma libido tão viscosa, ou então, ao contrário, tão líquida que nada se consegue “agarrar” a eles. Seria errôneo ver neste apontamento de Freud uma observação de detalhe, uma anedota.
Já sabíamos que o perverso não se deixa facilmente edipianizar: e por que o faria, se ele inventou outras territorialidades ainda mais artificiais e mais lunares que as de Édipo? Sabíamos que o esquizo não é edipianizável porque está fora de toda territorialidade, porque levou seus fluxos até o deserto.
Pergunta-se: quais são as boas condições da cura? Um fluxo que se deixa carimbar por Édipo; objetos parciais que se deixam subsumir sob um objeto completo, ainda que ausente, falo da castração; cortes-fluxos que se deixam projetar em um lugar mítico; cadeias plurívocas que se deixam bi-univocizar, linearizar, pendurar num significante; um inconsciente que se deixa exprimir; sínteses conectivas que se deixam tomar por um uso global e específico; sínteses disjuntivas que se deixam apanhar num uso exclusivo, limitativo; sínteses conjuntivas que se deixam prender num uso pessoal e segregativo… Pois o que significa “então era isso que isto queria dizer”? Esmagamento do “então” por Édipo e pela castração. Suspiro de alívio: veja, o coronel, o instrutor, o professor, o patrão, tudo isto queria dizer isso, Édipo e a castração, “toda a história em uma nova .80. versão”…
produção desejante: somos todos esquizos. somos todos perversos. somos todos Libidos demasiado viscosas ou demasiado líquidas… não por gosto, mas porque somos levados pelos fluxos desterritorializados… Qual o neurótico um tanto grave que não se encontra apoiado no rochedo da esquizofrenia, nesse rochedo agora móvel, aerólito? Quem não frequenta as territorialidades perversas para além dos jardins de infância de Édipo? Quem não sente nos fluxos do seu desejo a lava e a água? Afinal, de que estamos doentes? Da própria esquizofrenia como processo? Ou da furiosa neurotização a que nos entregam, e para a qual a psicanálise inventou novos meios, o Édipo e a castração? Será que estamos doentes da esquizofrenia como processo — ou da continuação do processo ao infinito, no vazio, essa horrível exasperação (a produção do esquizofrênico-entidade), ou, ainda, da confusão do processo com uma meta (a produção do perverso-artifício) ou, ainda, da interrupção prematura do processo (a produção do neurótico-análise)? Forçam-nos ao confronto com Édipo e a castração, assentam-nos sobre eles: seja para nos medirem por essa cruz, seja para constatarem que não somos mensuráveis por ela. Mas de toda maneira o mal já está feito, a cura escolheu o caminho da edipianização, todo juncado de detritos, contra a esquizofrenização que deve nos curar da cura.
3. A Síntese Conectiva de Produção
Foi rapidamente aplicado a Proust o diagnóstico de uma homossexualidade edipiana, por fixação na mãe, com dominância depressiva e culpabilidade sadomasoquista. De maneira mais geral, e depressa demais, fez-se nos fenômenos de leitura a descoberta de contradições, seja para declará-las irredutíveis, seja para resolvê-las ou mostrar que elas são apenas aparentes, conforme os gostos. N
Se a esquizofrenia é o universal, o grande artista é seguramente aquele que transpõe o muro esquizofrênico e atinge a pátria .82. desconhecida, lá onde ele não é de tempo algum, de meio algum, de escola alguma.
cada um é bissexuado, cada um tem os dois sexos, mas compartimentados, incomunicantes: o homem é apenas aquele em que a parte masculina domina estatisticamente, e a mulher, aquela em que a parte feminina domina estatisticamente. E assim, no nível das combinações elementares, é preciso fazer intervir pelo menos dois homens e duas mulheres para constituir a multiplicidade na qual se estabelecem comunicações transversais, conexões de objetos parciais e de fluxos: a parte masculina de um homem pode comunicar com a parte feminina de uma mulher, mas também com a parte masculina de uma mulher, ou com a parte feminina de um outro homem, ou ainda com a parte masculina de outro homem etc.
Somos heterossexuais estatisticamente ou molarmente, mas homossexuais pessoalmente, quer o saibamos ou não, e, por fim, transexuados elementarmente, molecularmente.
incesto por identificação com o pai, homossexualidade por identificação com a mãe…
Tal como a forma das pessoas, a matéria pessoal da transgressão não preexiste à proibição. Vemos, pois, que a proibição tem a propriedade de deslocar a si própria, visto que, desde o início, ela desloca o desejo. Ela desloca a si própria, no sentido de que a inscrição edipiana não se impõe na síntese de registro sem reagir na síntese de produção e transformar profundamente as conexões desta síntese ao introduzir novas pessoas globais. Essas novas imagens de pessoas são a irmã e a esposa, depois do pai e da mãe. Com efeito, observou-se frequentemente que a proibição existia sob duas formas — uma, negativa, que atinge sobretudo a mãe e impõe a diferenciação; outra, positiva, que diz respeito à irmã e comanda a troca (obrigação de casar com outra mulher que não seja minha irmã, obrigação de reservar minha irmã para outro; deixar minha irmã para um cunhado, receber a minha mulher de um sogro).
Caso-me com outra mulher que não seja minha irmã para constituir a base diferenciada de um novo triângulo, cujo vértice, de cabeça para baixo, será o meu filho — o que se denomina sair do Édipo, mas também reproduzi-lo, transmiti-lo antes do que morrer sozinho, incestuoso, homossexual e zumbi.
Não negamos que haja uma sexualidade edipiana, uma heterossexualidade e uma homossexualidade edipianas, uma castração edipiana — e objetos completos, imagens globais, eus específicos. O que negamos é que sejam produções .88. do inconsciente. Mais ainda, a castração e a edipianização engendram uma ilusão fundamental que nos leva a acreditar que a produção desejante real é dependente das mais altas formações que a integram e que a submetem a leis transcendentes, obrigando-a a servir uma produção social e cultural superior: aparece então uma espécie de “descolamento” do campo social em relação à produção de desejo, em nome do qual todas as resignações estão antecipadamente justificadas.
Ao falar em revolução crítica, o propósito de Kant era descobrir critérios imanentes ao conhecimento para distinguir o uso legítimo e o uso ilegítimo das sínteses da consciência. Em nome de uma filosofia transcendental (imanência dos critérios), ele denunciava, pois, o uso transcendente das sínteses tal como aparecia na metafísica. Devemos também dizer que a psicanálise tem sua metafísica, a saber: Édipo. Assim sendo, uma revolução, agora materialista, tem de passar pela crítica do Édipo, denunciando o uso ilegítimo das sínteses do inconsciente tal como aparece na psicanálise edipiana, de modo a recobrar um inconsciente transcendental definido pela imanência dos seus critérios e uma prática correspondente como esquizoanálise.
4. A Síntese Disjuntiva de Registro
É precisamente neste sentido que as grandes neuroses ditas familiares parecem corresponder a falhas edipianas da função diferenciadora ou da síntese disjuntiva: o fóbico já não é capaz de saber se é pai ou filho, o obsessivo, se está morto ou vivo, o histérico, se é homem ou mulher
Schreber é homem e mulher, pai e filho, está morto e vivo: ou seja, está em toda parte em que há uma singularidade, em todas as séries e ramificações marcadas por um ponto singular, porque ele próprio é essa distância que o transforma em mulher, ao fim da qual já é mãe de uma humanidade nova e pode finalmente morrer.
É por isso que o Deus esquizofrênico tem tão pouco a ver com o Deus da religião, embora ambos se ocupem do mesmo silogismo.
sim, fui meu pai e fui meu filho.
. Ou você segue as linhas do triângulo que estruturam e diferenciam os três termos — ou então você recorrerá sempre a um termo a mais em relação aos dois outros e reproduzirá em todos os sentidos as relações duais de identificação no indiferenciado. Mas é sempre Édipo tanto de um lado como do outro. E todo mundo sabe o que a psicanálise chama de resolver o Édipo: interiorizá-lo para melhor reencontrá-lo fora, na autoridade social, e assim disseminá-lo, passá-lo aos menores. “A criança só se torna homem quando resolve o complexo de Édipo, e é essa resolução que o introduz na sociedade, que é onde ele encontra, na figura da Autoridade, a obrigação de reviver Édipo, mas tendo agora barradas todas as saídas. Situada entre o impossível retorno ao que precede o estado de cultura e o crescente mal-estar que este provoca, a criança também não está segura de que um ponto de equilíbrio possa ser encontrado”.
Tudo se passa como se o principal no sucesso fosse ir mais longe que o pai, e como se fosse sempre proibido que o pai fosse ultrapassado
Mas estamos prevenidos: a sociedade dos irmãos é sombria, instável e perigosa, e deve preparar o reencontro de um equivalente da autoridade paterna, fazer-nos passar para o outro polo
Não é por haver da parte de Lacan uma outra concepção da psicanálise que se deve minimizar o tom reinante nas associações mais reconhecidas: vejam o Dr. Mendel, os Drs. Stéphane, o estado de raiva em que se encontram, sua invocação literalmente policial, assim que surge a ideia de que alguém pretende subtrair-se à ratoeira de Édipo.
Freud, afinal, nunca chegou a sair do mundo do pai, nem da culpabilidade… Mas foi o primeiro que, ao criar a possibilidade de construir uma .97. lógica da relação com o pai, abriu o caminho para o homem se libertar do domínio do pai. A possibilidade de viver para além da lei do pai, para além de qualquer lei, talvez seja a possibilidade mais essencial trazida pela psicanálise freudiana. Mas, paradoxalmente, e talvez por causa de Freud pessoalmente, tudo leva a pensar que essa libertação permitida pela psicanálise se fará, já se faz, fora dela”. Todavia, não podemos compartilhar esse pessimismo e nem esse otimismo. Com efeito, é preciso muito otimismo para pensar que a psicanálise torna possível uma verdadeira solução de Édipo: Édipo é como Deus; o pai é como Deus; o problema será resolvido somente quando se suprimir tanto o problema quanto a solução. A esquizoanálise não se propõe a resolver Édipo, não pretende resolvê-lo melhor do que a psicanálise edipiana. Ela se propõe desedipianizar o inconsciente para chegar aos verdadeiros problemas. Ela se propõe atingir essas regiões do inconsciente órfão, precisamente “para além de toda lei”, ali onde o problema nem mesmo pode ser levantado. Consequentemente, não compartilhamos o pessimismo que consiste em crer que essa mudança e essa libertação só possam ocorrer fora da psicanálise. Ao contrário, acreditamos na possibilidade de uma subversão interna que faça da máquina analítica uma peça indispensável do aparelho revolucionário. E mais: para tanto, as condições objetivas parecem atualmente dadas.
5. A Síntese Conjuntiva de Consumo
síntese conjuntiva de consumo, o corpo sem órgãos era verdadeiramente um ovo, atravessado por eixos, retesado em zonas, demarcado por áreas ou campos, medido por gradientes, percorrido por potenciais, marcado por limiares. Neste sentido, acreditamos na possibilidade de uma bioquímica da esquizofrenia (em ligação com a bioquímica das drogas), que será cada vez mais capaz de determinar a natureza desse ovo e a repartição campo-gradiente-limiar. Trata-se de relações de intensidades através das quais o sujeito passa sobre o corpo sem órgãos e opera devires, quedas e elevações, migrações e deslocamentos
Sobre o pouco de realidade, a perda de realidade, a falta de contato com a vida, o autismo e a atimia, já se disse tudo, os próprios esquizofrênicos já disseram tudo — prontos a serem vertidos no molde clínico esperado. Mundo negro, deserto crescente: uma máquina solitária ronca na praia, uma fábrica atômica instalada no deserto. Mas se o corpo sem órgãos é esse deserto, ele o é como distância indivisível, indecomponível, que o esquizo sobrevoa para estar em toda parte em que o real é produzido, em toda parte em que o real foi e será produzido. É verdade que a realidade deixou de ser um princípio. De acordo com tal princípio, a realidade do real era estabelecida como quantidade abstrata divisível, ao passo que o real era repartido em unidades qualificadas, em formas qualitativas distintas. Agora, porém, o real é um produto que envolve as distâncias com quantidades intensivas. O indivisível está envolvido, o que significa que aquilo que o envolve não se divide sem mudar de natureza ou de forma. O esquizo não tem princípios: ele só é uma coisa sendo outra.
Todos os tipos de substâncias, todos os tipos de materiais, mortos, fervidos, triturados, têm o mesmo efeito.
soldar a loucura a um complexo parental, ligá-la “à dialética meio-real, meio-imaginária da família” — constituir um microcosmo no qual se simbolizam “as grandes estruturas maciças da sociedade burguesa e de seus valores”, Família-Crianças, Falta-Castigo, Loucura-Desordem — fazer com que a desalienação passe pelo mesmo caminho que a alienação, Édipo nas duas extremidades, fundar assim a autoridade moral do médico como Pai e Juiz, Família e Lei — e chegar por fim ao seguinte paradoxo: “Enquanto o doente mental está inteiramente alienado na pessoa real do seu médico, o médico dissipa a realidade da doença mental no conceito crítico de .111. loucura”
Triângulo mal fechado, triângulo poroso ou gotejante, triângulo explodido donde escapam os fluxos do desejo em direção a outros lugares
De modo que é para todos os casos que estabelecemos a seguinte regra: o pai e a mãe só existem aos pedaços, e nunca se organizam numa figura ou numa estrutura ao mesmo tempo capazes de representar o inconsciente e de representar nele os diversos agentes da coletividade, mas explodem sempre em fragmentos que ladeiam esses agentes, confrontam-se, opõem-se ou se conciliam com eles como num corpo a corpo. O pai, a mãe e .116. o eu estão em combate e em contato direto com os elementos da situação histórica e política, com o soldado, o tira, o ocupante, o colaboracionista, o contestatário ou com o resistente, com o patrão, a mulher do patrão, que a cada instante quebram as triangulações e impedem que o conjunto da situação se assente sobre o complexo familiar e nele se interiorize. Em suma, a família nunca é um microcosmo no sentido de uma figura autônoma, ainda que inscrita num círculo maior que ela mediatizaria e exprimiria. Por natureza, a família é excentrada, descentrada. Falam-nos de família fusional, cisional, tubular, forcluinte. Mas de onde vêm os cortes e sua distribuição, que precisamente impedem a família de ser um “interior”? Há sempre um tio da América, um irmão que se deu mal, uma tia que fugiu com um militar, um primo desempregado, falido ou arruinado, um avô anarquista, uma avó louca ou extremamente alquebrada, internada num hospital. A família não engendra seus próprios cortes: as famílias são cortadas por cortes que não são familiares: a Comuna, o caso Dreyfus, a religião e o ateísmo, a guerra da Espanha, a escalada do fascismo, o stalinismo, a guerra do Vietnã, Maio de 68… tudo isso forma os complexos do inconsciente, muito mais eficazes do que o eterno Édipo. E é mesmo do inconsciente que se trata
A esquizoanálise, portanto, não esconde ser uma psicanálise política e social, uma análise militante: não porque generalizaria Édipo na cultura, o que se tem feito atualmente de maneira tão ridícula, mas, ao contrário, porque ela se propõe mostrar a existência de um investimento libidinal inconsciente da produção social histórica, distinto dos investimentos conscientes que coexistem com ele
A chantagem freudiana consiste no seguinte: ou vocês reconhecem o caráter edipiano da sexualidade infantil, ou então vocês abandonam toda posição de sexualidade. Todavia, não é nem mesmo à sombra de um falo transcendente que os efeitos inconscientes de “significado” se colocam sobre o conjunto das determinações de um campo social; ao contrário, é o investimento libidinal dessas determinações que fixa seu uso particular na produção desejante, e o regime comparado desta produção e da produção social, donde decorrem o estado do desejo e a sua repressão, a distribuição dos agentes e o grau de edipianização da sexualidade. Lacan tem razão em dizer que, em função das crises e dos cortes da ciência, há um drama do cientista que por vezes o leva à loucura, e que, “neste caso, ele não incluiria a si mesmo no Édipo sem o pôr em causa”, consequentemente.
6. Recapitulação das Três Sínteses
Mas os psicanalistas insistem
O tom pode ser o do psicanalista raivoso, o psicanalista-tira: os que não reconhecem o imperialismo de Édipo são perigosos desviantes, esquerdistas que devem ser entregues à repressão social e policial, falam demais e carecem de analidade
O inconsciente não levanta problema algum de sentido, mas unicamente problemas de uso. A questão do desejo não é “o que isso quer dizer?”, mas como isso funciona.60 Como funcionam as máquinas desejantes, as suas, as minhas, que falhas fazem parte do seu uso, como passam de um corpo a outro, .130. como se agarram ao corpo sem órgãos, como confrontam seu regime com o das máquinas sociais? Funcionam como dócil engrenagem bem lubrificada ou se preparam, ao contrário, como máquina infernal? Que conexões, que disjunções, que conjunções, que uso fazem das sínteses? Isso nada representa, mas produz; isso nada quer dizer, mas funciona. O desejo se impõe, justamente, na derrocada geral da pergunta “o que isso quer dizer?”.
O Desejo Ignora a Lei, a Falta e o Significante
Os três erros sobre o desejo denominam-se a falta, a lei e o significante. É um só e mesmo erro, idealismo que forma uma concepção piedosa do inconsciente. E de nada adianta interpretar estas noções nos termos de uma combinatória que faz da falta um lugar vazio e não mais uma privação, que faz da lei uma regra de jogo e não mais uma ordem, que faz do significante um distribuidor e não mais um sentido; nada disso adianta, porque isso não as impede de trazer consigo seu cortejo teológico, a insuficiência de ser, a culpabilidade, a significação. A interpretação estrutural recusa toda crença, eleva-se acima das imagens, retém do pai e da mãe somente funções, define a proibição e a transgressão como operações de estrutura — mas que água lavará esses conceitos da religiosidade que constitui seu plano de fundo, seus trasmundos?
signo do desejo nunca é um signo da lei, e sim um signo de potência — e quem .133. ousaria chamar de lei esse fato de que o desejo põe e desenvolve sua potência e de que, onde quer que se encontre, ele faz correr fluxos e cortar substâncias (“Evito falar em leis químicas, a palavra tem um ressaibo moral”)? Desde que façamos o desejo depender do significante, sujeitamos o desejo ao jugo de um despotismo que tem por efeito a castração, aí onde se reconhece o traço do próprio significante; mas o signo do desejo nunca é significante, encontrando-se, isto sim, nos mil e um cortes-fluxos produtivos que não se deixam significar no traço unário da castração, sempre um ponto-signo de várias dimensões, a plurivocidade como base de uma semiologia pontual.
O inconsciente tem os seus horrores
Assim, o problema prático da esquizoanálise é, contrariamente, o da reversão: devolver as sínteses do inconsciente a seu uso imanente. Desedipianizar, desfazer a teia de aranha do pai-mãe, desfazer as crenças para chegar à produção das máquinas desejantes e aos investimentos econômicos e sociais onde atua a análise militante. Nada é feito enquanto não se toca nas máquinas. Na verdade, isto implica intervenções muito concretas: substituir a benevolente pseudoneutralidade .134. do analista edipiano, que só quer e só escuta pai e mãe, por uma atividade malevolente, abertamente malevolente — cago pro seu Édipo, se você continuar a gente para a análise, ou então leva um choque elétrico, chega de dizer papai-mamãe — claro que “Hamlet vive em vocês, e também Werther”, e também Édipo, e tudo o que vocês quiserem, mas “vocês fazem brotar braços e pernas uterinos, lábios uterinos, um bigode uterino; revivendo os mortos reminiscentes, seu eu devém um tipo de teorema mineral que demonstra constantemente a vacuidade da vida… Você já nasceu Hamlet? Ou, antes, não terá feito Hamlet nascer em você? Por que voltar ao mito?”. Ao renunciar ao mito, trata-se de repor um pouco de alegria, um pouco de descoberta na psicanálise, dado que ela foi se tornando muito morna, muito triste, muito interminável, com tudo feito de antemão. Dirão que também o esquizo não é alegre? Mas sua tristeza não virá de não mais poder suportar as forças de edipianização, de hamletização, que o encerram por todos os lados? Mais vale fugir sobre o corpo sem órgãos, fechar-se nele, cingir-se sobre si mesmo. A pequena alegria é a esquizofrenização como processo, não o esquizo como entidade clínica.
7. Repressão e Recalcamento
pode acontecer que a lei proíba algo de perfeitamente fictício na ordem do desejo ou dos “instintos”, para persuadir seus sujeitos de que eles tinham a intenção correspondente a essa ficção. É justamente esta a única maneira que a lei tem de pegar fundo a intenção e de culpabilizar o inconsciente. Em suma, não nos encontramos em face de um sistema de dois termos em que da proibição formal se poderia concluir o que é realmente proibido. Encontramo-nos, isto sim, num sistema de três termos que torna essa conclusão totalmente ilegítima. Devemos distinguir: a representação recalcante, que opera o recalcamento; o representante recalcado, sobre o qual o recalcamento incide realmente; o representado deslocado, que dá do recalcado uma imagem aparente, falsificada, à qual se supõe que o desejo se .137. deixa prender.
O primeiro contato não é pessoal e nem biológico, fato que a psicanálise não conseguiu compreender.
o desejo não ameaça a sociedade por ser desejo de fazer sexo com a mãe, mas por ser revolucionário. E isto não quer dizer que o desejo seja distinto da sexualidade, mas que a sexualidade e o amor não dormem no quarto de Édipo; eles sonham, sobretudo, com outras amplidões e fazem passar estranhos fluxos que não se deixam estocar numa ordem estabelecida. O desejo não “quer” a revolução, ele é revolucionário por si mesmo, e como que involuntariamente, só por querer aquilo que quer.
a estrutura do grupo psicanalítico, sua política, suas tendências e seus focos, suas autoaplicações, seus suicídios e suas loucuras, o enorme superego de grupo, tudo o que se passou sobre o corpo pleno do mestre.
Havia tudo isso em Freud — fantástico Cristóvão Colombo, genial leitor burguês de Goethe, de Shakespeare, de Sófocles, Al Capone disfarçado.
Reich foi o primeiro a tentar fazer com que a máquina analítica e a máquina revolucionária funcionassem conjuntamente. No fim, ele tinha apenas suas máquinas desejantes, suas .142. caixas paranoicas, miraculosas, celibatárias, de paredes metálicas guarnecidas de lã e algodão.
Certamente, nunca nos passou pela cabeça dizer que a psicanálise inventou Édipo. Tudo mostra o contrário: os sujeitos já chegam edipianizados à psicanálise, eles pedem e tornam a pedir isso mesmo… Recorte da imprensa: Stravinsky declara antes de morrer: “Minha infelicidade, estou certo disso, veio do distanciamento de meu pai e do pouco afeto que minha mãe me deu. Então, decidi que um dia eu lhes mostraria…”. Se até os artistas se metem nisso, seria insensato incomodarmo-os com isso e ter os escrúpulos habituais de um psicanalista aplicado.
8. Neurose e Psicose
O esquizo não estaria doente de Édipo, de um Édipo que surgiria tanto mais na sua consciência alucinada quanto mais faltasse na organização simbólica do “seu” inconsciente. Com efeito, a doença do esquizo estaria na edipianização a que é submetido (a mais sombria organização), e que ele, já não podendo suportar, parte para uma viagem ao longe, como se aquele que deriva pelos continentes e culturas fosse constantemente reconduzido a Bécon
Queda de intensidade até ao corpo sem órgãos . 0, autismo: ele não tem outro modo de reagir à barragem de todos os seus investimentos de realidade, barragem que o sistema edipiano repressão-recalcamento lhe opõe.
Um segundo grupo de isolados, no qual estou, constituído sem dúvida por centros de clavículas, foi afastado de toda possibilidade de sucesso individual no momento em que os membros assumiam pesados estudos de ciência infusa. .148. No que me concerne, minha rebelião contra o paternalismo do primeiro grupo me colocou, desde o segundo ano, numa dificuldade social cada vez mais sufocante. Ei, vocês creem que esses dois grupos sejam capazes de se juntar? Quase nada tenho contra esses porcos do paternalismo viril, não sou vingativo… Em todo caso, se ganhei, não mais haverá luta entre o Pai e o Filho… Falo das pessoas de Deus, naturalmente, e não dos próximos que se tomam por…”.
Reencontramos, então, o critério de realidade: o complexo só invade a consciência psicótica à custa de uma ruptura com o real, ao passo que na neurose a identidade continua sendo a de representações inconscientes e não compromete a percepção. Mas o que se ganhou inscrevendo tudo e até a própria psicose em Édipo?
Não há dois grupos, não há diferença de natureza entre neuroses e psicoses. Porque, de qualquer maneira, a produção desejante é que é causa, causa última, seja das subversões psicóticas, que quebram ou submergem Édipo, seja das ressonâncias neuróticas que o constituem.
Vimos o que permanece comum entre Freud e Jung: o inconsciente é sempre medido por mitos (e não por unidades de produção), embora a medida se faça em dois sentidos opostos. Mas, afinal, que importância tem que a moral ou a religião encontrem em Édipo um sentido analítico e regressivo ou que Édipo encontre na moral ou na religião um sentido anagógico e prospectivo?
E virtual é o complexo de Édipo, seja porque deve ser atualizado numa formação neurótica como efeito derivado do fator atual, seja por ser desmembrado e dissolvido numa formação psicótica como efeito direto desse mesmo fator. É neste sentido que a ideia de um após nos parecia ser um último paralogismo da teoria e da prática psicanalíticas; desde o início, a produção desejante ativa .154. investe no seu próprio processo um conjunto de relações somáticas, sociais e metafísicas que não sucedem às relações psicológicas edipianas, mas que, ao contrário, se aplicarão ao subconjunto edipiano definido por reação, ou o excluirão do campo de investimento da sua atividade. Édipo é indecidível, virtual, reativo ou reacional. Não passa de uma formação reacional. Formação reacional à produção desejante: é um grande erro considerar esta formação por si mesma, abstratamente, independentemente do fator atual com que coexiste e ao qual reage.
Entre os raros psiquiatras e psicanalistas que souberam instaurar com os esquizofrênicos, adultos ou crianças, uma relação direta realmente inspirada, Gisela Pankow e Bruno Bettelheim traçam caminhos que são novos por sua força teórica e eficácia terapêutica. E não é por acaso que ambos põem em questão a noção de regressão. Tomando o exemplo dos cuidados corporais dados a um esquizofrênico — massagens, banhos, envolvimentos etc. — Gisela Pankow pergunta se é preciso atingir o doente no ponto da sua regressão para lhe dar satisfações simbólicas indiretas que lhe permitiriam reatar com uma progressão, retomar uma marcha progressiva. Ora, a questão não é, diz ela, “dar ao esquizofrênico os cuidados que não recebeu quando bebê. Trata-se, isto sim, de dar ao doente sensações corporais táteis e outras que o levem ao reconhecimento dos limites do seu corpo… Trata-se do reconhecimento de um desejo inconsciente, e não da .155. satisfação dele”. Reconhecer o desejo é precisamente recolocar em marcha a produção desejante sobre o corpo sem órgãos, aí mesmo onde o esquizo havia se redobrado para fazê-la calar e sufocar. Este reconhecimento do desejo, esta posição de desejo, este Signo, tudo isto remete a uma ordem de produtividade real e atual, que de modo algum se confunde com uma satisfação indireta ou simbólica, e que, nas suas paradas assim como nas retomadas de sua marcha, é tão distinta de uma regressão pré-edipiana quanto de uma restauração progressiva de Édipo.
9. O Processo
A loucura não é necessariamente um desabamento (breakdown); pode ser também uma abertura de saídas (breakthrough)… O indivíduo que faz a experiência transcendental da perda do ego pode ou não perder de diversas maneiras o equilíbrio. Pode, então, ser considerado louco. Mas ser louco não é necessariamente ser doente, mesmo se em nosso mundo os dois termos se tornaram complementares… Partindo do ponto de vista da nossa pseudossaúde mental, tudo é equívoco.
Literatura e as Interrupções do Processo: Neurose, Psicose e Perversão
homens que sabem partir, misturar os códigos, fazer passar fluxos, atravessar o deserto do corpo sem órgãos.
um autor é grande precisamente por não poder deixar de traçar e fazer correr fluxos que arrombam o significante católico e despótico de sua obra, e que alimentam necessariamente uma máquina revolucionária no horizonte. É isso o estilo, ou antes, a ausência de estilo, a assintaxia, a agramaticalidade: momento em que a linguagem já não mais se define pelo que ela diz, e ainda menos pelo que a torna significante, mas por aquilo que a faz correr, fluir, romper-se — o desejo. Porque a literatura .159. é exatamente como a esquizofrenia: um processo e não uma meta, uma produção e não uma expressão.
É por isso que se julga a obra de arte como devendo inscrever-se entre os dois polos de Édipo, problema e solução, neurose e sublimação, desejo e verdade: um polo regressivo, sob o qual ela mistura e redistribui os conflitos não resolvidos da infância; e um polo prospectivo, pelo qual ela inventa as vias de uma nova solução concernente ao futuro do homem.
a própria obra de arte é que constitui uma psicanálise bem-sucedida, uma sublime “transferência” com virtualidades coletivas exemplares. Ressoa a hipócrita advertência: um pouco de neurose é bom para a obra de arte, é uma boa matéria, mas não a psicose, sobretudo não a psicose; e assim se distingue o aspecto neurótico, eventualmente criador, do aspecto psicótico, alienante e destruidor… Como se as grandes vozes que souberam operar uma abertura da gramática e da sintaxe, e fazer de toda a linguagem um desejo, não falassem do fundo da psicose e não nos mostrassem um ponto de fuga revolucionário eminentemente psicótico. É justo confrontar a literatura estabelecida com uma psicanálise edipiana: é que ela desdobra uma forma de superego que lhe é própria e ainda mais nociva do que o superego não escrito. Com efeito, Édipo é literário antes de ser psicanalítico.
Haverá sempre um Breton contra Artaud, um Goethe contra Lenz, um Schiller contra Hölderlin, para superegonizar a literatura e nos dizer: atenção, não vá muito longe. Nada de “falta de tato”. Werther sim, Lenz não. A forma edipiana da literatura é a sua forma mercantil. Não que pensemos que haja, afinal, menos desonestidade na psicanálise do que nessa literatura, pois o neurótico simplesmente .160. faz uma obra solitária, irresponsável, ilegível e não vendável, que, ao contrário, tem de pagar para ser não apenas lida, mas traduzida e reduzida. Ele, pelo menos, comete um erro econômico, uma falta de tato, e não difunde seus valores. Como bem dizia Artaud: toda escrita é porcaria — ou seja, toda literatura que se toma como um fim, que fixa fins para si, em vez de ser um processo que “escave a caca do ser e da sua linguagem”, que carreie débeis, afásicos e iletrados. Dispensem-nos pelo menos da sublimação. Todo escritor é um vendido. A única literatura é aquela que faz do seu embrulho uma armadilha, fabricando uma falsa moeda, explodindo o superego de sua forma de expressão e o valor mercantil de sua forma de conteúdo. Mas uns respondem: Artaud não pertence à literatura, está fora dela porque ele é um esquizofrênico. Outros dizem: ele não é um esquizofrênico porque pertence à literatura, e à maior delas, à textual. Uns e outros têm pelo menos em comum uma concepção pueril e reacionária da esquizofrenia e uma concepção neurótica e mercantil da literatura. Um crítico pernicioso escreveu: é preciso nada compreender do significante “para declarar peremptoriamente que a linguagem de Artaud é a de um esquizofrênico; o psicótico produz um discurso involuntário, entravado, submetido: absolutamente o contrário, em todos os pontos, da escrita textual”. Mas que enorme arcaísmo textual é esse, o significante, que submete a literatura à marca da castração e santifica os dois aspectos de sua forma edipiana? E quem disse a esse pernicioso que o discurso do psicótico é “involuntário, entravado, submetido”?
eles se imobilizam, calam-se e se redobram sobre o corpo sem órgãos, ainda uma territorialidade, mas desta vez totalmente desértica, na qual toda a produção desejante para ou cristaliza, finge parar: é a psicose. Corpos catatônicos que caíram no rio como chumbo, imensos hipopótamos fixos que não mais voltarão à superfície. Confiaram com todas as suas forças no recalcamento originário para escapar ao sistema repressão-recalcamento que fabrica os neuróticos. Mas uma repressão ainda mais nua se abate sobre eles e os identifica ao esquizo de hospital, o grande autista, entidade clínica a quem “falta” o Édipo. Por que a mesma palavra, esquizo, para designar o processo que transpõe o limite e, ao mesmo tempo, o resultado do processo que se choca com o limite e aí se encrava para sempre?
As relações entre a neurose, a psicose e também a perversão, dependem da situação de cada uma relativamente ao processo, e da maneira como cada uma representa um modo de interrupção, uma terra residual à qual alguém ainda se agarra para não ser arrastado pelos fluxos desterritorializados do desejo. Territorialidade neurótica de Édipo, territorialidades perversas do artifício, territorialidade psicótica do corpo sem órgãos; ora o processo é apanhado na armadilha e volteia no triângulo, ora ele toma a si próprio como um fim, ora ele persegue a si próprio no vazio e substitui sua efetuação por uma horrível exasperação. Cada uma destas formas tem como fundo a esquizofrenia, a esquizofrenia como processo é o único universal. A esquizofrenia é, ao mesmo tempo, o muro, a abertura no muro e os fracassos desta abertura: “A meu ver, para atravessar esse muro, já que de nada adianta bater-lhe com força, é preciso miná-lo e limá-lo lentamente e com paciência”. E isto não diz respeito apenas à arte e à literatura. Com efeito, ou a máquina artística, a máquina analítica e a máquina revolucionária permanecerão nas relações extrínsecas que as fazem funcionar no quadro amortecido do sistema repressão-recalcamento, ou se tornarão peças e engrenagens umas das outras no fluxo que alimenta uma só e mesma máquina desejante, como outros tantos fogos locais pacientemente acesos para uma explosão generalizada — a esquiza e não o significante.
III. Selvagens, Bárbaros, Civilizados
1. Socius Inscritor
o capitalismo liberta os fluxos do desejo, mas nas condições sociais que definem o seu limite e a possibilidade da sua própria dissolução; de modo que ele não para de contrariar com todas as suas forças exasperadas o movimento que o impele para este limite. No limite do capitalismo, o socius desterritorializado dá lugar ao corpo sem órgãos, e os fluxos descodificados se lançam na produção desejante.
Foi preciso chegar-se ao capitalismo para se ter um regime de produção técnica semiautônoma, que tende a se apropriar da memória e da reprodução, e modifica assim as formas de exploração do homem; mas este regime, precisamente, supõe um desmantelamento das grandes máquinas sociais precedentes.
Fluxo de mulheres e de crianças, fluxo de rebanhos e sementes, fluxo de merda, de esperma e de menstruações, nada deve escapar. A máquina territorial primitiva, com o seu motor imóvel, a terra, já é máquina social ou megamáquina que codifica os fluxos de produção, os meios de produção, os produtores e consumidores: o corpo pleno da deusa Terra reúne sobre si as espécies cultiváveis, os instrumentos aratórios e os órgãos humanos.
É preciso até dizer que, se o falo tomou nas nossas sociedades a posição de um objeto separado que distribui a falta às pessoas dos dois sexos e organiza o triângulo edipiano, é o ânus que o separa assim, é ele que suprime e sublima o pênis numa espécie de Aufhebung72 constitutiva do falo. A sublimação está profundamente ligada à analidade, mas não no sentido em que esta, por lhe faltar outro uso, forneceria uma matéria para sublimar. A analidade não representa o mais baixo que seria preciso converter num mais elevado. É o próprio ânus que passa para cima, o que ocorre nas condições de sua exclusão do campo, condições que teremos de analisar e que não pressupõem a sublimação, pois é esta que, ao contrário, deriva delas. Não é o anal que se propõe à sublimação; .168. a sublimação é que é inteiramente anal;
A Crueldade: Dar ao Homem uma Memória
Não só o criminoso é privado de órgãos segundo uma ordem de investimentos coletivos, não só aquele que deve ser comido o é segundo regras sociais tão precisas quanto as que orientam o corte e repartição de um boi, mas também o homem que goza plenamente dos seus direitos e deveres tem todo seu corpo marcado sob um regime que reporta os seus órgãos e o seu exercício à coletividade (a privatização dos órgãos só começará com a “vergonha que o homem experimenta à vista do homem”)
E se quisermos chamar “escrita” a esta inscrição em plena carne, então é preciso dizer, com efeito, que a palavra falada supõe a escrita, e que é este sistema cruel de signos inscritos que leva o homem a ser capaz de linguagem, e lhe dá uma memória de palavras.
2. A Máquina Territorial Primitiva
É preciso perguntar se nos sistemas de aliança assimétrica existe uma tendência fundamental à troca generalizada, isto é, ao fechamento do ciclo. Nada pude encontrar de semelhante a isto entre os Mru… Cada um se comporta como se ignorasse a compensação que resultará do fechamento do ciclo, e acentua a relação de assimetria, insistindo no comportamento credor-devedor”.77 Um sistema de parentesco só aparece como fechado quando é separado das referências econômicas e políticas que o mantêm aberto, e que fazem da aliança algo totalmente distinto de um arranjo entre classes matrimoniais e linhagens filiativas.
A mola de tal economia consiste, ao contrário, numa verdadeira mais-valia de código: cada desligamento de cadeia produz, de um lado ou de outro nos fluxos de produção, fenômenos de excesso e de carência, de falta e de acumulação, que são compensados por elementos não cambiáveis de tipo prestígio adquirido ou consumo distribuído (“O chefe converteu os valores perecíveis num prestígio imperecível por meio de festividades espetaculares; desta maneira os consumidores de bens são no fim os produtores do início”).78 A mais-valia de código é a forma primitiva da mais-valia, tal como ela corresponde à célebre fórmula de Mauss: o espírito da coisa dada, ou a força das coisas, faz com que os dons devam ser retribuídos de maneira usurária, porque estes são signos territoriais de desejo e de poder, princípios de abundância e de frutificação dos bens.
O Desequilíbrio Funcional: Mais-Valia de Código. Isso só Funciona Desarranjando-se
é para funcionar que uma máquina social deve não funcionar bem. Foi possível mostrar isto precisamente a propósito do sistema segmentar, sempre levado a se reconstituir sobre suas próprias ruínas; e é também o que acontece com a função política nesses sistemas, função que só se exerce efetivamente ao indicar sua própria impotência.
Nunca uma discordância ou um disfuncionamento anunciaram a morte de uma máquina social que, ao contrário, se alimenta habitualmente das contradições que provoca, das crises que suscita, das angústias que engendra e das operações infernais que a revigoram: o capitalismo aprendeu isso e deixou de duvidar de si, e até os socialistas deixavam de acreditar na possibilidade da sua morte natural por desgaste. As contradições nunca mataram ninguém. E quanto mais isso se desarranja, quanto mais isso esquizofreniza, melhor isso funciona, à americana.
3. Problema de Édipo
São estes os dois aspectos do corpo pleno: .182. superfície encantada de inscrição, lei fantástica ou movimento objetivo aparente; mas também agente mágico ou fetiche, quase-causa
Contra Malinowski, Lévi-Strauss mostrou claramente que a mistura de gerações de modo algum é temida como tal, e que a proibição do incesto não se explicava assim. Há proibição porque a mistura de gerações no caso filho-mãe tem o mesmo efeito que a sua correspondência no caso tio-irmã, isto é, porque dá testemunho .188. de uma só e mesma filiação germinal intensiva que se trata de recalcar em ambos os casos. Em suma, um sistema somático em extensão só se constitui à medida que as filiações se tornem extensas correlativamente às alianças laterais que se instauram. É pela proibição do incesto com a irmã que se ata a aliança lateral, é pela proibição do incesto com a mãe que a filiação se torna extensa. Não há aí recalcamento algum do pai e forclusão alguma do nome do pai; a posição respectiva da mãe ou do pai como parente ou aliado, o caráter patrilinear ou matrilinear da filiação, o caráter patrilateral ou matrilateral do casamento, são elementos ativos do recalcamento, e não objetos sobre os quais ele incide. Nem sequer é a memória de filiação em geral que se encontra recalcada por uma memória de aliança. É a grande memória noturna da filiação germinal intensiva que é recalcada em proveito de uma memória somática extensiva, feita das filiações tornadas extensas (patrilineares ou matrilineares) e das alianças que elas implicam. Todo o mito dogon é uma versão patrilinear da oposição entre as duas genealogias, as duas filiações: em intensidade e em extensão, a ordem germinal intensa e o regime extensivo das gerações somáticas.
Em que Sentido o Incesto é Impossível
Voltemos ao casamento preferencial dogon tal como Griaule o analisa: o que está bloqueado é a relação com a tia como substituta da mãe, sob a forma de parente para brincar; o que passa é a relação com a filha da tia, como substituta da tia, como primeiro incesto possível ou permitido; o que bloqueia ou o que faz passar é o tio uterino. O que passa comporta — para compensar o que é bloqueado — uma verdadeira mais-valia de código que reverte em favor do tio quando ele faz passar, ao passo que ele sofre uma espécie de “menos-valia” quando bloqueia (é o caso dos roubos rituais feitos pelos sobrinhos na casa do tio mas também, como diz Griaule, “do aumento e frutificação” .193. dos bens do tio quando o mais velho dos sobrinhos vem morar com ele). O problema fundamental, qual seja, o de se saber a quem revertem as prestações matrimoniais em tal ou qual sistema, não pode ser resolvido independentemente da complexidade das linhas de passagem e das linhas de bloqueio — como se o que fora bloqueado ou proibido reaparecesse “nas núpcias como um fantasma”, reclamando o que lhe é devido.
a jovem deixa o antigo grupo familiar de sua mãe. A sobrinha, por sua vez, também se torna mãe e ponto de partida de uma nova relação irmão-irmã, sobre a qual se funda uma nova aliança”. O que se prolonga, o que para, o que se desliga, e as diferentes relações segundo as quais se distribuem estas ações e paixões, tudo isto leva a compreender o mecanismo de formação da mais-valia de código enquanto peça indispensável a toda codificação de fluxos.
Por toda parte em que homens se encontram e se reúnem para apanhar mulheres, negociá-las, reparti-las etc., é possível reconhecer o laço perverso de uma homossexualidade primária entre grupos locais, entre cunhados, co-maridos, parceiros de infância. Sublinhando o fato universal de que o casamento não é uma aliança entre um homem e uma mulher, mas “uma aliança entre duas famílias”, “uma transação entre homens a propósito de mulheres”, Georges Devereux tirava disso a correta conclusão de uma motivação homossexual de base e de grupo. Através das mulheres, os homens estabelecem suas próprias conexões; através da disjunção homem-mulher, que é a cada instante o resultado da filiação, a aliança põe em conexão os homens de filiação diferente. A questão: por que uma homossexualidade feminina não resultou em grupos amazônicos capazes de negociar os homens? — talvez encontre sua resposta na afinidade das mulheres com o influxo germinal, portanto sua posição fechada no seio de filiações extensas (histeria de filiação, por oposição à paranoia de aliança). A homossexualidade masculina é, pois, a representação de aliança que recalca os signos ambíguos da filiação intensa bissexuada.
tudo começa na cabeça de Laios, o velho homossexual de grupo, o perverso que arma uma armadilha ao desejo. Porque o desejo é também isto, uma armadilha. A representação territorial comporta essas três instâncias: o representante recalcado, a representação recalcante, o representante deslocado.
4. Psicanálise e Etnologia
o pai, a mãe, a irmã sempre funcionam aí como outra coisa além de pai, mãe ou irmã.
O doente K, afeminado, insuportável, vaidoso, que fracassa em todos os seus empreendimentos, vive à sombra do seu avô materno que lhe faz enérgicas censuras.
Interpretar é nossa maneira moderna de crer e de ser piedoso.
Roheim é quem dizia, sem humor, que o complexo de Édipo não era achado se não fosse procurado; e que ele só seria procurado por aquele que tivesse se submetido à análise. E eis por que sua filha é muda, isto é: as tribos, filhas do etnólogo, não dizem o Édipo que, todavia, as faz falar. Roheim acrescentava ser ridículo acreditar que a teoria freudiana da censura dependia do regime da repressão no império de Francisco José. Ele parecia .203. não ver que Francisco José não era um corte histórico pertinente, mas que as civilizações orais, escritas, ou até “capitalistas”, talvez o sejam, e que com elas varia a natureza da repressão, o sentido e o alcance do recalcamento.
Reich, pondo-se como partidário das teses de Malinowski, acrescenta uma observação profunda: o desejo só é edipiano precisamente porque as proibições incidem, não simplesmente sobre o incesto, mas “sobre as relações sexuais de .204. qualquer outro tipo”, tapando as outras vias. Em suma, a repressão do incesto não nasce de uma representação edipiana recalcada, nem provoca esse recalcamento. Eis o que se passa e que é totalmente diferente: o sistema geral repressão-recalcamento faz nascer uma imagem edipiana que é desfiguração do recalcado. Que esta imagem, por sua vez, termine por sofrer um recalcamento, que ela advenha no lugar do recalcado ou do efetivamente desejado, na precisa medida em que a repressão sexual incide sobre algo que não o incesto, tudo isto é uma longa história que é a da nossa sociedade. Porém, inicialmente, o recalcado não é a representação edipiana. O que é recalcado é a produção desejante. Recalcado é aquilo que, desta produção, não passa para a produção ou reprodução sociais, é o que aí introduziria desordem e revolução, os fluxos não codificados do desejo. Ao contrário, o que passa da produção desejante para a produção social forma um investimento sexual direto desta produção social, sem recalcamento algum do caráter sexual do simbolismo e dos afetos correspondentes, e, sobretudo, sem referência alguma a uma representação edipiana que se suporia originalmente recalcada ou estruturalmente forcluída.
Certamente, começar com dinheiro e findar com dinheiro, eis uma operação que não se pode exprimir em termos de código; vendo os caminhões que partem para exportação, “os Tiv mais velhos deploram esta situação e sabem o que se passa, mas não sabem onde situar a sua censura” — dura realidade.
Édipo é este limite deslocado. Sim, Édipo é universal. Mas o erro é ter acreditado na seguinte alternativa: ou ele é um produto do sistema repressão-recalcamento, não sendo, pois, universal; ou então ele é universal e é posição de desejo. Na verdade, ele é universal por ser o deslocamento do limite que persegue assombra as sociedades, o representado deslocado que desfigura o que todas as sociedades temem absolutamente como o seu mais profundo negativo, a saber, os fluxos descodificados do desejo.
Que o pai seja primeiro em relação ao filho, é o que só se pode compreender analiticamente em função deste outro primado, o dos investimentos e contrainvestimentos sociais relativamente aos investimentos familiares
etnólogo
A esquizoanálise renuncia a toda interpretação, porque renuncia deliberadamente a descobrir um material inconsciente: o inconsciente não quer dizer nada. Em contrapartida, o inconsciente faz máquinas, que são as do desejo, e das quais a esquizoanálise descobre o uso e o funcionamento na imanência da relação delas com as máquinas sociais.86 O inconsciente nada diz, ele maquina. Não é expressivo ou representativo, mas produtivo. Um símbolo é unicamente uma máquina social que funciona como máquina desejante, uma máquina desejante que funciona na máquina social, um investimento da máquina social pelo desejo.
A sexualidade já não é considerada como uma energia específica que une pessoas derivadas dos grandes conjuntos, mas como a energia molecular que põe em conexão moléculas-objetos parciais (libido), que organiza disjunções inclusivas sobre a molécula gigante do corpo sem órgãos (numen) e distribui estados segundo domínios de presença ou zonas de intensidade (voluptas). É porque as máquinas desejantes são exatamente isto: a microfísica do inconsciente, os elementos do microinconsciente. Mas, enquanto tais, elas nunca existem independentemente dos conjuntos molares históricos, das formações sociais macroscópicas que elas constituem estatisticamente. É neste sentido que há tão somente o desejo e o social. Sob os investimentos conscientes das formações econômicas, políticas, religiosas etc., há investimentos sexuais inconscientes, microinvestimentos que dão testemunho da maneira pela qual o desejo está presente num campo social e da maneira pela qual ele associa a si este campo como o domínio estatisticamente determinado que lhe está ligado.
5. A Representação Territorial
Dívida e Troca
A sociedade não se baseia na troca, o socius é inscritor: não trocar, mas marcar os corpos, que são da terra. Já vimos que o regime da dívida decorria diretamente das exigências desta inscrição selvagem. Porque a dívida é a unidade de aliança, e a aliança é a própria representação. É a aliança que codifica os fluxos do desejo e que, pela dívida, dá ao homem uma memória de palavras. É ela que recalca a grande memória filiativa intensa e muda, o influxo germinal como representante dos fluxos não codificados que submergiriam tudo. É a dívida que compõe as alianças com as filiações tornadas extensas, para formar e forjar um sistema em extensão (representação) sobre o recalcamento das intensidades noturnas.
É o roubo que impede o dom e o contradom de entrarem numa relação de troca. O desejo ignora a troca, ele só conhece o roubo e o dom, e por vezes um no outro sob o efeito de uma homossexualidade primária: é assim com a máquina amorosa antitroca que Joyce reencontrará em Os exilados e Klossowski em Roberte.
Com efeito, do ponto de vista das relações de produção, a circulação das mulheres aparece como uma repartição da força de trabalho, mas, na representação ideológica que a sociedade tem da sua base econômica, este aspecto desaparece diante das relações de troca que, contudo, são simplesmente a forma que esta repartição toma na esfera da circulação: isolando o momento da circulação no processo de reprodução a etnologia ratifica esta representação” e dá toda sua extensão colonial à economia burguesa.
Voz, Grafismo e Olho: O Teatro da Crueldade
Nietzsche
é a dívida, são os blocos de dívida, blocos abertos, móveis e finitos, esse extraordinário composto da voz falante, do corpo marcado e do olho apreciador. Toda a estupidez e a arbitrariedade das leis, toda a dor das iniciações, todo o aparelho perverso da representação e da educação, os ferros em brasa e os procedimentos atrozes têm precisamente este sentido: adestrar o homem, marcá-lo em sua carne, torná-lo capaz de alianças, constituí-lo na relação credor-devedor que é por ambos os lados uma questão de memória (memória orientada para o futuro).
O mau devedor é que deve ser compreendido como se as marcas não o tivessem “marcado” suficientemente, como se ele fosse ou tivesse sido desmarcado. Ele nada mais fez do que ampliar para além dos limites permitidos a distância que separava a voz de aliança do corpo de filiação, e a um tal ponto que se tornou necessário restabelecer o equilíbrio por um acréscimo de dor
A dor faz parte de uma vida ativa e de um olhar complacente. A equação prejuízo . dor nada tem a ver com a troca, e mostra, neste caso-limite, que a própria dívida nada tem a ver com a troca. Acontece, simplesmente, que o olho tira da dor que ele contempla uma mais-valia de código que compensa a relação rompida entre a voz de aliança, a que o criminoso se furtou, e a marca que não penetrou suficientemente no seu corpo. O crime, ruptura de conexão fono-gráfica, é restabelecido pelo espetáculo do castigo: a justiça primitiva, a representação territorial previu tudo.
6. A Máquina Despótica Bárbara
Apoiando-se nas pesquisas de Will, Michel Foucault mostra como em certas tiranias gregas o imposto sobre os aristocratas e a distribuição de dinheiro aos pobres são um meio de trazer o dinheiro de volta aos ricos, de alargar singularmente o regime das dívidas, de o tornar ainda mais forte, prevenindo e reprimindo toda reterritorialização que pudesse ocorrer através dos dados econômicos do problema agrário. (Como se os gregos tivessem descoberto, à sua maneira, o que os americanos .234. reencontrarão com o New Deal: que os pesados impostos do Estado são propícios aos bons negócios.) Em suma, o dinheiro, a circulação do dinheiro, é o meio de tornar a dívida infinita. Eis o que os dois atos do Estado escondem: a residência ou territorialidade do Estado inaugura o grande movimento de desterritorialização que subordina todas as filiações primitivas à máquina despótica (problema agrário); a abolição das dívidas ou sua transformação contábil inaugura um interminável serviço de Estado interminável, que subordina a si todas as alianças primitivas (problema da dívida).
Há sempre um monoteísmo no horizonte do despotismo: a dívida devém dívida de existência, dívida da existência dos próprios sujeitos. Vem o tempo em que o credor nada emprestou ainda, ao passo que o devedor não para de pagar, porque pagar é um dever, mas emprestar é uma faculdade: como na canção de Lewis Carroll, longa canção da dívida infinita
7. A Representação Bárbara ou Imperial
O incesto com a irmã e o incesto com a mãe são coisas muito diferentes. A irmã não é um substituto da mãe: uma pertence à categoria conectiva de aliança, a outra à categoria disjuntiva de filiação. Se a irmã é proibida, .237. isto ocorre porque as condições de codificação territorial exigem que a aliança não se confunda com a filiação; e se a mãe é proibida, isto ocorre porque essas condições exigem que a descendência na filiação não se assente sobre a ascendência. Eis por que o incesto do déspota é duplo, em virtude da nova aliança e da filiação direta. Ele começa por esposar a irmã. Mas este casamento endogâmico proibido é feito por ele como quem se acha fora da sua tribo, fora ou nos limites do território. É o que Pierre Gordon mostrou num estranho livro: a mesma regra que proscreve o incesto deve prescrevê-lo a alguns. A exogamia deve ligar-se à posição de homens fora da tribo, homens habilitados a fazer um casamento endogâmico e a servir, dado o caráter temível desse casamento, de iniciadores aos sujeitos exogâmicos dos dois sexos (o “deflorador sagrado”, o “iniciador ritual”, na montanha ou do outro lado da água).93 Deserto, terra de noivados. Todos os fluxos convergem para este homem, todas as alianças são recortadas por esta nova aliança que as sobrecodifica. O casamento endogâmico fora da tribo põe o herói em situação de sobrecodificar todos os casamentos exogâmicos na tribo. É claro que o incesto com a mãe tem um sentido muito diferente: trata-se agora da mãe da tribo, tal como existe na tribo, tal como o herói a encontra quando penetra na tribo ou a reencontra no seu regresso, depois do seu primeiro casamento.
Jacques Derrida tem razão quando diz que toda língua supõe uma escrita originária, se ele entende com isso a existência e a conexão de um grafismo qualquer (escrita em sentido amplo). Ele tem razão também quando diz que não se pode estabelecer cortes, na escrita em sentido estrito, entre os procedimentos pictográficos, ideogramáticos e fonéticos: há sempre e já ajustes à voz, ao mesmo tempo que uma substituição da voz (suplementaridade), e o “fonetismo nunca é todo poderoso, mas desde sempre já começou também a trabalhar o significante mudo”. E ele tem ainda razão ao ligar misteriosamente a escrita ao incesto. Porém, não vemos nisto motivo algum para concluir pela constância de um aparelho de recalcamento ao modo de uma máquina gráfica que procederia tanto por hieróglifos quanto por fonemas. Com efeito, há certamente um corte que muda tudo no mundo da representação, entre essa escrita em sentido estrito e a escrita em sentido amplo, isto é, entre dois regimes de inscrição totalmente diferentes: grafismo que deixa a voz como dominante à força de ser independente dela justamente conectando-se a ela; e grafismo que domina ou suplanta a voz à força de depender dela por diversos procedimentos e de subordinar-se a ela. O signo primitivo territorial só vale por si próprio, é posição de desejo em conexão múltipla; não é signo de um signo ou desejo de um desejo, ele ignora a subordinação linear e sua reciprocidade: nem pictograma, nem ideograma, ele é ritmo e não forma, zigue-zague e não linha, artefato e não ideia, produção e não expressão.
Jean-François Lyotard, em outro contexto, tentou descrever um tal sistema, em que a palavra só tem função designadora, mas não constitui por si só o signo; o que devém signo é, sobretudo, a coisa ou o corpo designado como tal por revelar uma face desconhecida definida sobre ele, traçada pelo grafismo que responde à palavra; o desvio entre os dois é preenchido pelo olho que “vê” a palavra sem a ler, na medida em que aprecia a dor emanada do grafismo em pleno corpo: o olho salta.94 Regime de conotação, sistema da crueldade, foi o que nos pareceu ser o triângulo .242. mágico com os seus três lados, voz-audição, grafismo-corpo, olho-dor: onde a palavra é essencialmente designadora, mas onde o próprio grafismo faz um signo com a coisa designada, e onde o olho vai de um ao outro, extraindo e medindo a visibilidade de um pela dor do outro. Tudo é ativo, agido, reagindo no sistema, tudo está em uso e em função. De modo que, quando se considera o conjunto da representação territorial, o que impressiona é constatar a complexidade das redes com que ela cobre o socius: a cadeia dos signos territoriais não para de saltar de um elemento para outro, irradiando em todas as direções, expondo separações em toda parte em que há fluxos a extrair, incluindo disjunções, consumindo restos, extraindo mais-valias, conectando palavras, corpos e dores, fórmulas, coisas e afetos — conotando vozes, grafias, olhos, sempre num uso plurívoco: uma maneira de saltar que não se recolhe num querer-dizer, e menos ainda num significante
o significante é tão somente o próprio signo desterritorializado. O signo que deveio letra. O desejo já não ousa desejar, deveio desejo do desejo, desejo do desejo do déspota. A boca já não fala, ela bebe a letra. O olho já não vê, ele lê. O corpo não mais se deixa gravar como a terra, mas se prosterna diante das gravuras do déspota, o além-terra, o novo corpo pleno.
imagem acústic
E conquanto o inconsciente comporte efetivamente o regime tópico de uma dupla inscrição, ele não é estruturado como uma linguagem, mas como duas. O significante não parece cumprir sua promessa, a de nos dar acesso a uma compreensão moderna e funcional da língua. O imperialismo do significante não nos faz sair da .247. questão “o que isto quer dizer?”; ele se contenta em barrar de antemão a questão e tornar insuficientes todas as respostas, remetendo-as ao nível de um simples significado. Ele recusa a exegese em nome da recitação, pura textualidade, cientificidade superior.
O significante como representação recalcante, e o novo representado deslocado que ele induz, as famosas metáforas e metonímias — tudo isto constitui a máquina despótica sobrecodificante e desterritorializada.
O significante despótico tem por efeito sobrecodificar a cadeia territorial. O significado é precisamente o efeito do significante (não o que ele representa ou designa). O significado é a irmã dos confins e a mãe do interior. I
trata-se sempre de outra coisa no incesto de realeza: bissexualidade, homossexualidade, castração, travestismo, como outros tantos gradientes e passagens no ciclo das intensidades. É que o significante despótico propõe-se reconstituir o que a máquina primitiva tinha recalcado, o corpo pleno da terra intensa, mas sobre novas bases ou novas condições dadas no corpo pleno desterritorializado do próprio déspota. É por isto que o incesto muda de sentido ou de lugar e devém a representação recalcante. Com efeito, através do incesto, trata-se do seguinte na sobrecodificação: que todos os órgãos de todos os sujeitos, que todos os olhos, todas as bocas, todos os pênis, todas as vaginas, todas as orelhas, todos os ânus se enganchem ao corpo pleno do déspota como ao rabo de pavão de uma cauda real, e aí tenham os seus representantes intensivos. O incesto real é inseparável da intensa multiplicação dos órgãos e da sua inscrição sobre o novo corpo pleno (Sade viu muito bem este papel sempre real do incesto)
Toda a história do fluxo gráfico vai da onda de esperma ao berço do tirano, até à onda de merda no seu túmulo-esgoto — “toda a escrita é porcaria”, toda escrita é esta simulação, esperma e excremento.
O Terror, a Lei
se necessário, tomar o partido do devedor contra o credor para consolidar a dívida infinita
A Forma da Dívida Infinita: Latência, Vingança e Ressentimento
E será sempre esta a força de Lacan, ter salvo a psicanálise da edipianização furiosa a que ela ligava seu destino, ter procedido a esta salvação, ainda que à custa de uma regressão, mesmo que à custa de manter o inconsciente sob o peso do aparelho despótico, de reinterpretá-lo a partir deste aparelho, a lei e o significante, falo e castração sim, Édipo não. — a era despótica do inconsciente.
8. O Urstaat
Com efeito, que significam a propriedade privada, a riqueza, a mercadoria, as classes? A falência dos códigos. Significam o aparecimento, o surgimento de fluxos agora descodificados que escorrem sobre o socius e o atravessam de um lado a outro. O Estado já não pode se contentar em sobrecodificar elementos territoriais já codificados; ele deve inventar códigos específicos para fluxos cada vez mais desterritorializados: pôr o despotismo a serviço da nova relação de classes; integrar as relações de riqueza e de pobreza, de mercadoria e de trabalho; conciliar o dinheiro mercantil com o dinheiro fiscal; reinsuflar em toda parte o Urstaat no novo estado de coisas.
Eis por que, no marxismo, não se sabia muito bem o que fazer com essa instituição, uma vez que ela não entra nos famosos cinco períodos, comunismo primitivo, cidade antiga, feudalidade, capitalismo, socialismo.105 Ela não é uma formação entre as outras, nem a passagem de uma formação a outra. Dir-se-ia que ela está em atraso em relação ao que corta e ao que recorta, como se desse testemunho de uma outra dimensão, idealidade cerebral que se acrescenta à evolução material das sociedades, ideia reguladora ou princípio de reflexão (terror) que organiza as partes e os fluxos num todo.
Desejo — é esta a operação que consiste sempre em reinsuflar o Urstaat original no novo estado de coisas, em torná-lo tanto quanto possível imanente ao novo sistema, interior a este. E, quanto ao resto, partir novamente de zero: fundar aí um império espiritual sob formas tais que o Estado já não possa funcionar como tal no sistema físico.
9. A Máquina Capitalista Civilizada
Eis por que o capitalismo e seu corte não se definem simplesmente por fluxos descodificados, mas pela descodificação generalizada dos fluxos, pela nova desterritorialização .266. maciça e pela conjunção de fluxos desterritorializados.
Como Maurice Dobb mostrou, é preciso haver, num primeiro tempo, uma acumulação de títulos de propriedade, por exemplo da terra, numa conjuntura favorável, num momento em que esses bens custem pouco (desintegração do sistema feudal); e é preciso haver um segundo tempo, em que estes bens são vendidos num momento de alta de preços, e em condições que tornam particularmente interessante o investimento industrial (“revolução dos preços”, reserva abundante de mão de obra, formação de um proletariado, acesso fácil a fontes de matérias-primas, condições favoráveis à .268. produção de instrumentos e máquinas)
Mas o capitalismo só começa, a máquina capitalista só está montada, quando o capital se apropria diretamente da produção, e quando o capital financeiro e o capital mercantil nada mais são do que funções específicas correspondentes a uma divisão do trabalho no modo capitalista da produção em geral. Reencontramos, então, a produção de produções, a produção de registros, a produção de consumos — mas, precisamente, reencontramos isso tudo nesta conjunção de fluxos descodificados que faz do capital o novo corpo pleno social, ao passo que o capitalismo comercial e financeiro, nas suas formas primitivas, se instalava somente nos poros do antigo socius, cujo modo de produção anterior ele não modificava.
O comerciante não para de jogar com as territorialidades que se mantiveram, comprando onde é mais barato e vendendo onde é mais caro
Transformação da Mais-Valia de Código em Mais-Valia de Fluxo
a dualidade bancária entre a formação de meios de pagamento e a estrutura de financiamento, entre a gestão da moeda e o financiamento da acumulação capitalista, entre a moeda de troca e a moeda de crédito. Que o banco participe de ambos os lados, que se situe como dobradiça dos dois, financiamento e pagamento, isto somente mostra suas múltiplas interações.
sem darem suficiente importância à prática bancária, às operações financeiras e à circulação específica da moeda de crédito (e seria este o sentido de um retorno a Marx, à teoria marxista da moeda).
O capitalismo esquizofreniza cada vez mais na periferia. Pode-se dizer que, nem por isso, deixa de ser verdade que a baixa tendencial mantém, no centro, o seu sentido restrito, isto é, a diminuição relativa da mais-valia em relação ao capital total, assegurada pelo desenvolvimento da produção, da automação, do capital constante.
Mais-Valia Humana e Mais-Valia Maquínica
Sem dúvida, ela pode deixar certos pesquisadores, matemáticos por exemplo, “esquizofrenizar” no seu canto, e fazer passar fluxos de código socialmente descodificados que eles organizam em axiomáticas de pesquisa dita fundamental. Mas a verdadeira axiomática não está aí (os pesquisadores são deixados tranquilos até certo ponto, podem fazer sua própria axiomática; mas chega o momento das coisas sérias: por exemplo, a física indeterminista, com seus fluxos corpusculares, deve reconciliar-se com “o determinismo”). A verdadeira axiomática é a da própria máquina social, que substitui as antigas codificações, e que organiza todos os fluxos descodificados, inclusive os fluxos de código científico e técnico, em proveito do sistema capitalista e a serviço dos seus fins.
Vê-se bem o objetivo da teoria, que, no entanto, evita toda referência moral. Quem é roubado? Esta é a questão séria subentendida, e que faz eco à questão irônica de Clavel, “Quem é alienado?”. Ora, ninguém é nem pode ser roubado (tal como Clavel dizia que já não se sabe quem é alienado nem quem aliena). Quem rouba? Seguramente não é o capitalista financeiro, como representante do grande fluxo criador instantâneo, que nem sequer é posse nem tem poder de compra. Quem é roubado? Seguramente, não é o trabalhador que nem sequer é comprado, visto que foi o refluxo ou a distribuição em salários que criou o poder de compra, em vez de supô-lo. Quem poderia roubar? Seguramente, não o capitalista industrial como representante do afluxo de lucro, já que “os lucros correm não no refluxo mas lado a lado, em desvio e não como sanção do fluxo criador de rendimentos”. Quanta flexibilidade na axiomática do capitalismo, sempre pronto a ampliar seus próprios limites para acrescentar mais um axioma a um sistema já saturado. Querem um axioma para os assalariados, para a classe operária e para os sindicatos, mas então vejamos, e a partir de então o lucro escorrerá ao lado do salário, ambos lado a lado, refluxo e afluxo.
A psicanálise .285. ajuda pouco, considerando-se suas íntimas relações com o dinheiro, pois que registra, embora evite reconhecê-lo, todo um sistema de dependências econômico-monetárias no coração do desejo de cada sujeito que ela trata, constituindo-se, por sua vez, numa enorme empresa de absorção de mais-valia. Mas haverá alguma via revolucionária? — Retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselha aos países do Terceiro Mundo, numa curiosa renovação da “solução econômica” fascista? Ou ir no sentido contrário, isto é, ir ainda mais longe no movimento do mercado, da descodificação e da desterritorialização? Pois talvez os fluxos ainda não estejam suficientemente desterritorializados e suficientemente descodificados, do ponto de vista de uma teoria e de uma prática dos fluxos com alto teor esquizofrênico. Não retirar-se do processo, mas ir mais longe, “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche: na verdade, a esse respeito, nós ainda não vimos nada.
10. A Representação Capitalista
Os Dois Sentidos do Fluxo-Esquiza: Capitalismo e Esquizofrenia
É de extrema importância o livro de Jean-François Lyotard recentemente publicado, pois temos nele a primeira crítica generalizada do significante. Com efeito, ele mostra em sua proposta mais geral que o significante encontra-se tão ultrapassado em direção ao exterior pelas imagens figurativas quanto, em direção ao interior, pelas puras figuras que as compõem, ou melhor, pelo “figural” que vem agitar totalmente os desvios codificados do significante, introduzir-se entre eles, trabalhar sob as condições de identidade dos seus elementos. Na linguagem e na própria escrita, ora as letras como cortes, como objetos parciais despedaçados, ora as palavras como fluxos indivisos, como blocos indecomponíveis ou corpos plenos de valor tônico, constituem signos a-significantes que se entregam à ordem do desejo, sopros e gritos. (Notadamente, as pesquisas formais da escrita manual ou impressa mudam de sentido, conforme os caracteres das letras e as qualidades das palavras estejam a serviço de um significante cujos efeitos eles exprimem segundo regras exegéticas ou, ao contrário, atravessam esse muro para fazer escorrer os fluxos, instaurar cortes que ultrapassam ou quebram as condições de identidade do signo, que fazem escorrer e eclodir livros “no livro”, entrando em configurações múltiplas de que já são testemunhas os exercícios tipográficos de Mallarmé — sempre passar sob o significante, limar o muro: o que mostra ainda que a morte da escrita é infinita, enquanto sobe e vem de dentro)
nem o capitalismo, nem a revolução, nem a esquizofrenia passam pelas vias do significante, mesmo e sobretudo em suas violências extremas.
Todos os processos são bons para assegurar esta descodificação universal: a privatização que incide sobre os bens, os meios de produção, mas também sobre os órgãos do próprio “homem privado”; a abstração das quantidades monetárias, mas também da quantidade de trabalho; a ilimitação da relação entre o capital e a força de trabalho, e também da relação entre os fluxos de financiamento e os fluxos de rendas ou meios de pagamento; a forma científica e técnica que os próprios fluxos de código tomam; a formação de configurações flutuantes a partir de linhas e de pontos sem identidade discernível
A linguagem de um banqueiro, de um general, de um industrial, de um médio ou alto funcionário, de um ministro, é uma linguagem perfeitamente esquizofrênica, mas que só funciona estatisticamente na axiomática uniformizadora de ligação que a coloca ao serviço da ordem capitalista.
descodificação generalizada dos fluxos
o desaparecimento do gozo como fim, a nova concepção de conjunção segundo a qual o único fim é a riqueza abstrata e sua realização sob outras formas que não as do consumo. A escravidão generalizada do Estado despótico implicava pelo menos senhores, e um aparelho de antiprodução distinto da esfera da produção. Mas o campo de imanência burguês, tal como é definido pela conjunção dos fluxos descodificados, pela negação de toda transcendência ou limite exterior, pela efusão da antiprodução na própria produção, tudo isso instaura uma escravidão incomparável, uma sujeição sem precedente: já não há senhores; agora, só escravos comandam escravos; já não há necessidade de pôr carga no animal de fora, pois ele próprio se encarrega dela.
Eu também sou escravo, são estas as novas palavras do senhor. “O capitalista só é respeitável como capital tornado .303. homem. Nesse papel, ele é, como o entesourador, dominado por sua paixão cega pela riqueza abstrata, pelo valor. Mas o que parece ser uma mania individual em um, é no outro o efeito do mecanismo social do qual ele é uma engrenagem”.
só há uma máquina, a do grande fluxo mutante descodificado, separado dos bens, e uma só classe de servidores, a burguesia descodificante, aquela que descodifica as castas e os níveis hierárquicos e que tira da máquina um fluxo indiviso de renda, conversível em bens de consumo ou de produção, e no qual se fundam os salários e os lucros. Em suma, a oposição teórica não é entre duas classes, pois é a própria noção de classe, enquanto designa o “negativo” dos códigos, que implica que haja apenas uma. A oposição teórica é outra: ela ocorre entre os fluxos descodificados, tal como entram numa axiomática de classe sobre o corpo pleno do capital, e os fluxos descodificados que se libertam tanto desta axiomática quanto do significante despótico, fluxos que atravessam esse muro e o muro do muro, e se põem a correr sobre o corpo pleno sem órgãos.
A análise feita por Sartre na Crítica da razão dialética parece-nos profundamente justa, quando estabelece que não há espontaneidade de classe, mas somente de “grupo”: donde a necessidade de distinguir os “grupos em fusão” e a classe que permanece “serial”, representada pelo partido ou pelo Estado.
Desejo e Interesse
É que o desejo nunca é enganado. O interesse pode ser enganado, desconhecido ou traído, mas não o desejo. Daí o grito de Reich: não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo, e é isso que é preciso explicar… Acontece desejar-se contra seu interesse: o capitalismo se aproveita disso, mas também o socialismo, o partido e a direção do partido. Como explicar que o desejo se dedique a operações que não são desconhecimentos, mas investimentos inconscientes perfeitamente reacionários? E o que Reich quer dizer quando fala de “fixações tradicionais”? Elas também fazem parte do processo histórico, e nos conduzem às modernas funções do Estado.
o Estado socialista também tem suas próprias minorias, suas próprias territorialidades, que voltam a se formar contra ele, ou que ele mesmo suscita e organiza (nacionalismo russo, territorialidade de partido: o proletariado só pode constituir-se como classe com apoio em neoterritorialidades artificiais; paralelamente, a burguesia reterritorializa-se às vezes sob as mais arcaicas formas). A famosa personalização do poder é como que uma territorialidade que vem duplicar a desterritorialização da máquina
uma máquina despótica “fazedora de dinheiro”;
movimentos de desterritorialização e de reterritorialização
Os Dois Polos da Axiomática: O Significante Despótico e a Figura Esquizofrênica; Paranoia e Esquizofrenia
homossexuais em fúria
Como isso vira fascista ou revolucionário? Aí está o problema do delírio universal sobre o qual todo mundo se cala, primeiramente e sobretudo os psiquiatras (não têm ideia sobre isso; e por que a teriam?). O capitalismo e também o socialismo estão como que dilacerados entre o significante despótico, que adoram, e a figura esquizofrênica que os arrasta. Assim, temos o direito de manter duas conclusões precedentes que pareciam opor-se. Por um lado, o Estado moderno forma um verdadeiro corte para frente em relação ao Estado despótico, graças à efetuação de um devir-imanente, à sua generalizada descodificação de fluxos e à sua axiomática que vem substituir os códigos e as sobrecodificações.
Recapitulação das Três Grandes Máquinas Sociais: Territorial, Despótica e Capitalista (Codificação, Sobrecodificação, Descodificação)
11. Édipo, Finalmente
a família é uma práxis aberta, uma estratégia coextensiva ao campo social; as relações de filiação e de aliança são determinantes, ou melhor, “determinadas a serem dominantes”. Com efeito, os produtores (ou não produtores) é que são imediatamente marcados, inscritos no socius, segundo a posição de sua família e sua posição na família.
a miséria, o desespero, a revolta e, por outro lado, a violência e a opressão do capital, devêm imagens de miséria, de desespero, de revolta, .315. de violência ou de opressão. Porém, a partir das figuras não figurativas ou dos cortes-fluxos que as produzem, estas próprias imagens só serão figurantes e reprodutivas ao informarem um material humano cuja forma especifica de reprodução recai fora do campo social que, todavia, a determina.
No conjunto de partida há o patrão, o chefe, o padre, o tira, o fiscal da receita, o soldado, o trabalhador, todas as máquinas e territorialidades, todas as imagens sociais da nossa sociedade; mas, no conjunto de chegada, só há, no limite, papai, mamãe e eu: o signo despótico recolhido pelo papai, a territorialidade residual assumida pela mamãe, e o eu dividido, cortado, castrado. Esta operação de assentamento, de dobragem ou de aplicação é o que certamente leva Lacan a dizer, traindo voluntariamente o segredo da psicanálise como axiomática aplicada: aquilo que parece “desenrolar-se mais livremente no diálogo psicanalítico depende, de fato, de embasamento redutível a algumas articulações essenciais e formalizáveis”.
Vimos em que sentido a esquizofrenia era o limite absoluto de toda sociedade, pois que ela faz passar fluxos descodificados e desterritorializados que, “no limite” de toda produção social, ela restitui à produção desejante. E vimos em que sentido o capitalismo é o limite relativo de toda sociedade, pois que ele axiomatiza os fluxos descodificados e reterritorializa os fluxos desterritorializados. Vimos também que o capitalismo encontra na esquizofrenia seu próprio limite exterior, que ele não para de repelir e esconjurar, enquanto ele próprio produz seus limites imanentes que ele desloca e amplia sem cessar.
Eis a série toda: fetiches, ídolos, imagens e simulacros — fetiches territoriais, ídolos ou símbolos despóticos, tudo é retomado pelas imagens do capitalismo que as impele e as reduz ao simulacro edipiano. O representante do grupo local com Laios, a territorialidade com Jocasta, o déspota com o próprio Édipo: “pintura pintalgada de tudo aquilo em que se acreditou”.128 Não surpreende que Freud tenha buscado em Sófocles a imagem central de Édipo-déspota, o mito que deveio tragédia, para fazê-la irradiar em duas direções opostas, a direção ritual primitiva de Totem e tabu, e a direção privada do homem moderno que sonha (Édipo pode ser um mito, uma tragédia, um sonho: ele exprime sempre o deslocamento do limite). Édipo nada seria se a posição simbólica de um objeto das alturas, na máquina despótica, não tornasse inicialmente possíveis as operações de dobragem e de assentamento que o constituirão no campo moderno: a causa da triangulação.
De um objeto transcendente cada vez mais espiritualizado a um campo de forças cada vez mais imanente, cada vez mais interiorizado: é esta a evolução da dívida infinita, através do catolicismo, e depois através da Reforma protestante. A extrema espiritualização do Estado despótico e a extrema interiorização do campo capitalista definem a má consciência. Esta não é o contrário do cinismo; ela é, nas pessoas privadas, o correlato do cinismo das pessoas sociais. Todos os procedimentos cínicos da má consciência, tal como Nietzsche, Lawrence e Miller os analisaram para definir o homem europeu da civilização — o reino das imagens e da hipnose, o torpor que elas propagam —, o ódio contra a vida, contra tudo o que é livre, que passa e que flui; a universal efusão do instinto de morte —, a depressão, a culpabilidade utilizada como meio de contágio, o beijo do vampiro: você não tem vergonha de ser feliz? siga o meu exemplo, não o largarei até que você também me diga “é minha culpa”, ó ignóbil contágio dos depressivos, a neurose como única doença, que consiste em tornar doentes os outros —, a estrutura permissiva: que eu possa enganar, roubar, degolar, matar. mas em nome da ordem social, e que papai-mamãe se orgulhem de mim —, a dupla direção dada ao ressentimento, volta contra si mesmo e projeção contra o outro: o pai morreu, a culpa é minha, quem é que o matou? a culpa é sua, foi o judeu, o árabe, o chinês, todos os recursos do racismo e da segregação —, o abjeto desejo de ser amado, o choramingo de não sê-lo o bastante, de não ser “compreendido”, ao mesmo tempo em que há redução da sexualidade ao “pequeno segredo sujo”, toda esta psicologia do padre —, todos estes .321. procedimentos encontram em Édipo sua terra nutritiva e seu alimento. E todos estes procedimentos servem à psicanálise e nela se desenvolvem: aparecendo ela como novo avatar do “ideal ascético”.
o analista déspota e receptor de dinheiro.
Sim, desejei minha mãe e quis matar meu pai; um só sujeito de enunciação, Édipo, para todos os enunciados capitalistas e, entre os dois, o corte de assentamento, a castração
É preciso dizer o mesmo de Freud: sua grandeza foi ter determinado a essência ou a natureza do desejo não mais em relação a objetos, fins e mesmo fontes (territórios), mas como essência subjetiva abstrata, libido ou sexualidade
Tudo se passa como se Freud se desculpasse pela sua profunda descoberta da sexualidade, dizendo-nos: pelo menos isto não sairá da família. O pequeno segredo sujo, em vez da imensidão entrevista. O assentamento familista, em vez da deriva do desejo. Os pequenos riachos recodificados no leito de mamãe, em vez dos grandes fluxos descodificados. A interioridade, em vez de uma nova relação com o fora. Através da psicanálise é sempre o discurso da má consciência e da culpabilidade que se alça e encontra seu alimento (o que se chama curar).
Foi o que Foucault mostrou em páginas tão belas: o familismo inerente à psicanálise destruiu menos a psiquiatria clássica do que a coroou. Depois do louco da terra e do louco do déspota, o louco da família; o que a psiquiatria do século XIX pretendera organizar no asilo — “a ficção imperativa da família”, a razão-pai e o louco-menor, os pais são doentes tão só de sua própria infância — tudo isto encontra seu acabamento fora do asilo, na psicanálise e no consultório do analista. Freud é o Lutero e o Adam Smith da psiquiatria. Ele mobiliza todos os recursos do mito, da tragédia e do sonho para reencadear o desejo, mas agora no interior: um teatro íntimo.
Descobrir sob o fantasma individual a natureza dos fantasmas de grupo. Ou, o que dá no mesmo, levar o simulacro ao ponto em que ele deixa de ser imagem de imagem para encontrar as figuras abstratas, os fluxos-esquizas que ele recepta, ocultando-os. Substituir o sujeito privado da castração — clivado em sujeito de enunciação .324. e em sujeito de enunciado, e que apenas remete às duas ordens de imagens pessoais —, pelos agentes coletivos que por sua conta remetem a agenciamentos maquínicos. Reverter o teatro da representação, fazê-lo verter, correr na ordem da produção desejante: eis toda a tarefa da esquizoanálise.
IV. Introdução à Esquizoanálise
1. O Campo Social
Lévi-Strauss diz muito bem: “O motivo inicial do mito de referência consiste num incesto com a mãe de que o herói se torna culpado. Todavia, essa culpabilidade parece existir sobretudo no espírito do pai, que deseja a morte de seu filho e se empenha para provocá-la. Afinal de contas, o pai, sozinho, faz papel de culpado: culpado de ter querido vingar-se. E ele é quem será morto. Este curioso desprendimento em face do incesto aparece em outros mitos”. Primeiramente, antes de ser um sentimento infantil de neurótico, Édipo é uma ideia de paranoico adulto. Assim, a psicanálise se sai mal de uma regressão infinita: o pai teve que ser filho, mas só o foi em relação a um pai, que também foi filho em relação a um outro pai.
todo delírio é, primeiramente, investimento de um campo social, econômico, político, cultural, racial e racista, pedagógico, religioso: o delirante aplica à sua família e ao seu filho um delírio que os excede por todos os lados.
Freud era um darwinista, um neodarwinista, quando dizia que no inconsciente tudo era problema de população (assim como via um signo da psicose na consideração das multiplicidades).138 Trata-se, sobretudo, da diferença entre dois tipos de coleções ou de populações: os grandes conjuntos e as micromultiplicidades. Em ambos os casos, o investimento é coletivo, é o de um campo coletivo; mesmo uma só partícula tem uma onda associada como fluxo que define o espaço coexistente de suas presenças. Todo investimento é coletivo, todo fantasma é de grupo e, neste sentido, posição de realidade.
2. O Inconsciente Molecular
E também não pretendemos ressuscitar a questão de uma psicologia individual e de uma psicologia coletiva, e a da anterioridade de uma ou de .337. outra; esta distinção, tal como é apresentada em Psicologia de grupo e análise do ego, permanece inteiramente presa a Édipo. No inconsciente há tão somente populações, grupos e máquinas. Quando, num caso, estabelecemos um involuntário das máquinas sociais e técnicas, e, no outro caso, um inconsciente das máquinas desejantes, trata-se de uma relação necessária entre forças inextrincavelmente ligadas, sendo umas as forças elementares através das quais o inconsciente se produz, e outras as resultantes que reagem sobre as primeiras, conjuntos estatísticos através dos quais o inconsciente se representa, já sofrendo recalcamento e repressão de suas forças elementares produtivas.
Samuel Butler, “O livro das máquinas”
Ele rompe a tese vitalista ao pôr em questão a unidade específica ou pessoal do organismo, e rompe ainda mais a tese mecanicista ao pôr em questão a unidade estrutural da máquina. Diz-se que as máquinas não se reproduzem, ou que só se reproduzem por intermédio do homem, mas “haverá alguém que possa pretender que o trevo vermelho não tem sistema de reprodução só porque o zangão, e somente o zangão, deve servir de intermediário para que ele possa reproduzir-se? O zangão faz parte do sistema reprodutor do trevo. Cada um de nós saiu de animálculos infinitamente pequenos cuja identidade era inteiramente distinta da nossa e que fazem parte do nosso próprio sistema reprodutor; então, por que não faríamos parte do sistema reprodutor das máquinas? O que nos engana é considerarmos toda máquina complicada como um objeto único. Na realidade, trata-se de uma cidade ou uma sociedade em que cada membro é procriado diretamente segundo sua espécie
a verdadeira diferença está entre as máquinas molares, .341. sejam elas sociais, técnicas ou orgânicas, e as máquinas desejantes, que são de ordem molecular. Eis o que são as máquinas desejantes: são máquinas formativas, em que até as próprias falhas são funcionais, e cujo funcionamento é indiscernível da formação; são máquinas cronógenas141 que se confundem com sua própria montagem, que operam por ligações não localizáveis e por localizações dispersas, fazendo intervir processos de temporalização, formações em fragmentos e peças destacadas, com mais-valia de código, e em que o próprio todo é produzido ao lado das partes, como uma parte à parte, ou, segundo Butler, “num outro departamento” que o assenta nas outras partes; são máquinas propriamente ditas, porque procedem por cortes e fluxos, ondas associadas e partículas, fluxos associativos e objetos parciais, induzindo sempre à distância conexões transversais, disjunções inclusivas, conjunções plurívocas, produzindo assim extrações, desligamentos e restos, com transferência de individualidade numa esquizogênese generalizada cujos elementos são os fluxos-esquizas.
Ao contrário, as máquinas desejantes nada representam, nada significam, nada querem dizer, e são exatamente o que se faz delas, aquilo que se faz com elas, o que elas fazem em si mesmas.
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que são, para você, suas máquinas desejantes pulsionais? em qual funcionamento, em quais sínteses elas entram, operam? que uso você faz delas em todas as transições do molecular ao molar e inversamente, e que constituem o ciclo em que o inconsciente, permanecendo sujeito, se produz a si próprio?
Damos o nome de libido à energia própria das máquinas desejantes; e as transformações dessa energia (Numen e Voluptas) nunca são dessexualizações nem sublimações. Mas, justamente, é esta terminologia que parece extremamente arbitrária. Nenhuma das duas maneiras de considerar as máquinas desejantes nos permite ver bem o que elas têm a ver com uma energia propriamente sexual: .346. quer as reportemos à ordem molecular, que é a delas, quer as reportemos à ordem molar, na qual elas formam máquinas orgânicas ou sociais e investem meios orgânicos ou sociais. É difícil, com efeito, apresentar a energia sexual como diretamente cósmica e intra-atômica, e também como diretamente social e histórica. E é inútil redizer que o amor tem muito a ver com as proteínas e com a sociedade.
Gigantismo e Nanismo do Desejo. O Sexo Não-Humano: Nem um Nem Dois Sexos, mas n Sexos
Hitler dava tesão nos fascistas. As bandeiras, as nações, os exércitos e os bancos dão tesão em muita gente. Uma máquina revolucionária nada é enquanto não adquirir pelo menos tanta potência de corte e de fluxo quanto essas máquinas coercivas. Não é por extensão dessexualizante que a libido investe os grandes conjuntos; ao contrário, é .349. por restrição, bloqueio e assentamento que ela é determinada a recalcar seus fluxos para contê-los em células estreitas do tipo “casal”, “família”, “pessoas”, “objetos”.
Isto porque, se a mulher se define por uma falta em relação ao homem, ao homem falta, por sua vez, o que falta à mulher, mas simplesmente de outra maneira: a ideia de um único sexo conduz necessariamente à ereção de um falo como objeto das .351. alturas, o que distribui a falta às duas faces não sobreponíveis e que leva a comunicação entre os dois sexos a depender de uma ausência comum, a castração. Psicanalistas ou psicanalizadas, as mulheres podem então regozijar-se por mostrarem o caminho ao homem, e por recuperarem a igualdade na diferença. Donde a irresistível comicidade das fórmulas segundo as quais se chega ao desejo pela castração. Por outro lado, também não é melhor, afinal, a ideia de que haveria realmente dois sexos. Neste caso, como faz Melanie Klein, tenta-se definir o sexo feminino por caracteres positivos, mesmo que terrificantes. Se não se escapou do antropomorfismo, escapou-se ao menos do falocentrismo. Acontece que, neste caso, longe de fundar a comunicação dos dois sexos, funda-se sobretudo sua separação em duas séries homossexuais ainda estatísticas. E de modo algum se escapa da castração, pois esta, em vez de ser o princípio do sexo concebido como sexo macho (o grande falo cortado, sobrevoante), devém, simplesmente, o resultado do sexo concebido como sexo feminino (o pequeno pênis absorvido, soterrado). Dizemos, portanto, que a castração é o fundamento da representação antropomórfica e molar da sexualidade. Ela é a crença universal que reúne e ao mesmo tempo dispersa os homens e as mulheres sob o jugo de uma mesma ilusão da consciência, e que os faz adorar esse jugo. Todo esforço para determinar a natureza não humana do sexo, por exemplo, o “grande Outro”, conservando o mito da castração, fracassa de antemão
Ao contrário, o inconsciente molecular ignora a castração, porque nada falta aos objetos parciais que, enquanto tais, formam multiplicidades livres; porque os múltiplos cortes não param de produzir fluxos, em vez de os recalcar num mesmo e único corte capaz de estancá-los; porque as sínteses constituem conexões locais e não-específicas, disjunções .352. inclusivas, conjunções nômades: uma transexualidade microscópica em toda parte, que faz com que a mulher contenha tantos homens quanto o homem, e o homem mulheres, capazes de entrar, uns com os outros, umas com as outras, em relações de produção de desejo que subvertem a ordem estatística dos sexos. Fazer amor não é fazer só um, nem mesmo dois, mas cem mil. Eis o que são as máquinas desejantes ou o sexo não humano: não um, nem mesmo dois, mas n sexos. A esquizoanálise é a análise variável dos n sexos num sujeito, para além da representação antropomórfica que a sociedade lhe impõe e que ele mesmo atribui à sua própria sexualidade. A fórmula esquizoanalítica da revolução desejante será primeiramente esta: a cada um, seus sexos.
3. Psicanálise e Capitalismo
censuramos a psicanálise por ter esmagado esta ordem da produção, por tê-la revertido à ordem da representação. Longe de ser a audácia da psicanálise, a ideia de representação inconsciente marca, desde o início, sua falência ou sua renúncia: um inconsciente que não mais produz, mas que se limita a acreditar. O inconsciente acredita no Édipo, ele crê na castração, na sua lei. Sem dúvida, o psicanalista foi o primeiro a dizer que a crença, a rigor, não é um ato do inconsciente; que é sempre o pré-consciente que crê. E não será mesmo preciso dizer que é o psicanalista que acredita, o psicanalista em nós?
Sempre o caso de Schreber: o pai de Schreber inventava e construía espantosas pequenas máquinas sádico-paranoicas para coagir crianças a se manterem aprumadas; por exemplo: capacete com haste metálica e correias de couro.147 Essas máquinas não desempenham papel algum .354. na análise freudiana. Talvez tivesse sido mais difícil esmagar todo o conteúdo social-político do delírio de Schreber se se levasse em conta essas máquinas desejantes do pai e sua evidente participação numa máquina social pedagógica em geral. Porque a questão é esta: é claro que o pai age sobre o inconsciente do filho — mas será que ele age como pai de família numa transmissão familiar expressiva, ou como agente de máquina numa informação ou comunicação maquínicas?
O papel do pai é unicamente o de agente de produção e de antiprodução
Miller diz tudo nestas páginas: leva Édipo (ou Hamlet) ao ponto de autocrítica, denuncia formas expressivas, o mito e a tragédia, como crenças ou ilusões da consciência, meras ideias, sublinha a necessidade de uma limpeza do inconsciente, deixa ver a esquizoanálise como .356. curetagem do inconsciente, a oposição da fenda matricial à linha de castração, a esplêndida afirmação de um inconsciente-órgão e produtor, a exaltação do processo como processo esquizofrênico de desterritorialização que deve produzir uma nova terra e, no limite, o funcionamento das máquinas desejantes contra a tragédia, contra “o funesto drama da personalidade”, contra “a inevitável confusão da máscara e do ator”. É evidente que Michael Fraenkel, o correspondente de Miller, não compreende, pois fala como um psicanalista ou como um helenista do século XIX: o mito, a tragédia, Édipo, Hamlet, são boas expressões, formas pregnantes; exprimem o verdadeiro e permanente drama do desejo e do conhecimento. Fraenkel recorre a todos os lugares-comuns, a Schopenhauer e ao Nietzsche de O nascimento da tragédia. Além de supor que Miller ignora tudo isto, não se pergunta por um momento sequer por que o próprio Nietzsche rompeu com O nascimento da tragédia, por que deixou de acreditar na representação trágica.
descobrir o segredo de tal ou qual código, mas desfazer os códigos para atingir fluxos quantitativos e qualitativos de libido que atravessam o sonho, o fantasma, as formações patológicas, assim como o mito, a tragédia e as formações sociais. A interpretação psicanalítica não consiste em rivalizar com códigos, em juntar mais um código aos códigos conhecidos, mas em descodificar de maneira absoluta, em destacar algo de incodificável em virtude do seu polimorfismo e da sua polivocidade.153 Parece, então, que o interesse da psicanálise pelo mito (ou pela tragédia) é um interesse essencialmente crítico, uma vez que a especificidade do mito objetivamente compreendido derrete-se quando exposta ao sol subjetivo da libido: é certamente o mundo da representação que desmorona, ou tende a desmoronar.
libido abstrata subjetiva
A psicanálise é a técnica de aplicação, da qual a economia política é a axiomática. Em suma, no movimento próprio do capitalismo, a psicanálise destaca o segundo polo, levando a representação subjetiva infinita a substituir as grandes representações objetivas determinadas. É preciso, com efeito, que o limite dos fluxos descodificados da produção desejante seja por duas vezes esconjurado, por duas vezes deslocado, uma vez pelo estabelecimento de limites imanentes que o capitalismo não para de reproduzir numa escala cada vez mais ampla, e outra vez pelo traçado de um limite interior que assenta essa reprodução social sobre a reprodução familiar restrita. Portanto, a ambiguidade da psicanálise em relação ao mito ou à tragédia explica-se assim: ela os desfaz como representações objetivas e descobre neles as figuras de uma libido subjetiva universal; mas os redescobre e os promove como representações subjetivas que elevam ao infinito os conteúdos míticos e trágicos. Trata o mito e a tragédia, mas os trata como os sonhos e os fantasmas do homem privado, Homo familia — e, com efeito, o sonho e o fantasma estão para o mito e a tragédia como a propriedade privada está para a propriedade comum. O que no mito e na tragédia opera como elemento objetivo é, pois, retomado e exaltado pela psicanálise, mas como dimensão inconsciente da representação subjetiva (o mito como sonho da humanidade).
Mito, tragédia, sonho, fantasma — e o mito e a tragédia reinterpretados em função do sonho e do fantasma —, eis a série representativa com que a psicanálise substitui a linha de produção, produção social e desejante. Série de teatro em vez da série de produção.
o teatro destaca a estrutura finita da representação subjetiva infinita
Lacan traçara uma via totalmente distinta. Ao contrário de um esquilo analítico, ele não se contentava em girar na roda do .368. imaginário e do simbólico, do imaginário edipiano e da estrutura edipianizante, da identidade imaginária das pessoas e da unidade estrutural das máquinas, entrando a todo momento em choque com os impasses de uma representação molar que a família fecha sobre si própria. Para que serve passar do dual imaginário à relação a três (ou a quatro) simbólica, se esta é bi-univocizante, ao passo que aquela é bi-univocizada? Enquanto objetos parciais, as máquinas desejantes sofrem duas totalizações: uma, quando o socius lhes confere uma unidade estrutural sob um significante simbólico que age como ausência e falta num conjunto de partida; outra, quando a família lhes impõe uma unidade pessoal com significados imaginários que distribuem, que “vacuolizam”158 a falta num conjunto de chegada: são dois raptos de máquinas, pois, enquanto a estrutura lhes aplica sua articulação, os pais lhes põem seus dedos.
É todo este avesso da estrutura que Lacan descobre, com o “a” como máquina, e o “A”161 como sexo não humano: esquizofrenizar o campo analítico, em vez de edipianizar o campo psicótico.
aí que a trajetória de Lacan ganha toda sua complexidade; porque, certamente, ele não fecha o inconsciente numa estrutura edipiana. Ao contrário, ele mostra que Édipo é imaginário, nada mais do que uma imagem, um mito; e que essa ou essas imagens são produzidas por uma estrutura edipianizante; que essa estrutura só atua na medida em que reproduz o elemento da castração que, ele sim, não é imaginário mas simbólico. Eis os três grandes planos de estruturação, que correspondem aos conjuntos molares: Édipo como reterritorialização imaginária do homem privado, produzida nas condições estruturais do capitalismo, na medida em que este reproduz e ressuscita o arcaísmo do símbolo imperial ou do déspota desaparecido. Os três são ao mesmo tempo necessários, precisamente para levar Édipo ao ponto de sua autocrítica. Levar Édipo a esse ponto é a tarefa empreendida por Lacan.
o inconsciente da esquizoanálise ignora as pessoas, os conjuntos e as leis; as imagens, as estruturas e os símbolos. Ele é órfão, assim como é anarquista e ateu. Ele é órfão, não no sentido de uma ausência designada pelo nome do pai, mas no sentido de que produz a si próprio onde quer que os nomes da história designem intensidades presentes (“o mar dos nomes próprios”). Ele não é figurativo, pois seu figural é abstrato, a figura-esquiza. Ele não é estrutural nem simbólico, pois sua realidade é a do Real em sua produção e mesmo em sua inorganização. Ele não é representativo, mas somente maquínico e produtivo.
Não é o perverso e nem mesmo o autista que escapam à psicanálise, é toda a psicanálise que é uma gigantesca perversão, uma droga, um corte radical com a realidade, a começar pela realidade do desejo, um narcisismo, um autismo monstruosos: o autismo próprio e a perversão intrínseca da máquina do capital. No limite, a psicanálise não mais se confronta com realidade alguma, nem mais se abre a algum fora, mas ela própria devém a prova de realidade e a garantia de sua própria prova, a realidade como falta à qual se reconduz o fora e o dentro, a partida e a chegada: a psicanálise index sui, sem outra referência além de si mesma ou “a situação analítica”.
Há tão somente resistências, e depois máquinas, máquinas desejantes. Édipo é uma resistência; se pudemos falar do caráter intrinsecamente perverso da psicanálise, é porque a perversão em geral é a reterritorialização artificial dos fluxos de desejo, cujas máquinas, ao contrário, são os índices de produção desterritorializada
A psicanálise fixa-se nos representantes imaginários e estruturais de reterritorialização, ao passo que a esquizoanálise segue os índices maquínicos de desterritorialização. Há sempre a oposição entre o neurótico no divã, como terra última e estéril, derradeira colônia esgotada, e o esquizo em passeio num circuito desterritorializado
A maior parte das tentativas modernas — hospital diurno, noturno, clube de doentes, hospitalização em domicílio, instituição e até antipsiquiatria — continuam ameaçadas por um perigo, que Jean Oury soube analisar profundamente: como evitar que a instituição volte a formar uma estrutura asilar, ou que constitua sociedades artificiais perversas e reformistas, ou pseudofamílias residuais, maternais ou paternalistas? Não nos referimos às tentativas da psiquiatria dita comunitária, cujo objetivo confessado é triangular, edipianizar todo mundo, pessoas, animais e coisas, a tal ponto que se verá uma nova raça de doentes suplicar, por reação, que voltem a lhes dar um asilo, ou uma pequena terra beckettiana, uma lata de lixo para se catatonizarem num canto.
Porém, num gênero menos abertamente repressivo, quem diz que a família é um bom lugar, um bom circuito para o esquizo desterritorializado? De qualquer modo, seria espantoso ouvir falar nas “potencialidades terapêuticas do meio familiar”… .382. Então, e a cidade inteira, o bairro? Que unidade molar formará um circuito suficientemente nômade? Como impedir que a unidade escolhida, mesmo que seja uma instituição específica, não constitua uma perversa sociedade de tolerância, um grupo de ajuda mútua que oculte os verdadeiros problemas? Será a estrutura da instituição que a salvará? Mas como a estrutura romperá sua relação com a castração neurotizante, pervertizante, psicotizante? Como produzirá algo distinto de um grupo sujeitado? Como dará livre curso ao processo, se toda sua organização molar tem a função de ligar o processo molecular? E até a antipsiquiatria, particularmente sensível à abertura esquizofrênica e à viagem intensa, se esgota na proposta da imagem de um grupo sujeito que volta a se perverter logo em seguida, com antigos esquizos encarregados de guiar os mais recentes e encarregados, por revezamento, de pequenas capelas ou, melhor, de um convento ao modo do Ceilão
4. Primeira Tarefa Positiva da Esquizoanálise
A primeira tarefa positiva consiste em descobrir num sujeito a natureza, a formação ou o funcionamento de suas máquinas desejantes, independentemente de toda interpretação. O que são as suas máquinas desejantes? o que você faz entrar nelas? o que você faz sair delas? como isso funciona? quais são os seus sexos não humanos? O esquizoanalista é um mecânico, e a esquizoanálise é unicamente funcional. Em função disso, ela não pode ater-se a exames que, do ponto de vista do inconsciente, são ainda muito interpretativos: não pode ater-se ao exame das máquinas sociais, nas quais o sujeito está tomado como engrenagem ou como usuário; não pode ater-se ao exame das máquinas técnicas que estão em sua posse favorita, que ele, o sujeito, aperfeiçoa e até fabrica por bricolagem; nem pode ater-se ao exame do uso que o sujeito faz das máquinas nos seus sonhos e fantasmas. Essas máquinas são ainda demasiado representativas e representam unidades grandes demais — mesmo as máquinas perversas do sádico ou do masoquista, ou as máquinas de influenciar do paranoico.
As máquinas desejantes têm como peças os objetos parciais; os objetos parciais definem a working machine ou as peças trabalhadoras, mas num tal estado de dispersão que uma peça não para de remeter a uma peça de uma máquina totalmente distinta, como o trevo vermelho e o zangão, a vespa e a orquídea, a buzina da bicicleta e o cu de rato morto.
É que, como órgãos ou fragmentos de órgãos, eles de modo algum remetem a um organismo que funcionaria fantasmaticamente como unidade perdida ou totalidade por vir. Sua dispersão nada tem a ver com uma falta; ela constitui, isto sim, o seu modo de presença na multiplicidade que eles formam sem unificação nem totalização. Deposta toda estrutura, abolida toda memória, anulado todo organismo, desfeito todo liame, eles valem como objetos parciais brutos, peças trabalhadoras dispersas de uma máquina também dispersa. Em suma, os objetos parciais são as funções moleculares do inconsciente
as verdadeiras atividades do inconsciente, fazer escorrer e cortar, consistem na própria síntese passiva, porque é ela que assegura a coexistência e o deslocamento relativos das duas funções diferentes. Suponhamos agora que os respectivos fluxos associados a dois objetos parciais se recubram pelo menos parcialmente: a produção desses fluxos permanece distinta em relação aos objetos x e y que os emitem, mas não os campos de presença em relação aos objetos a e b que os povoam e os cortam, de modo que o parcial a e o parcial b devêm indiscerníveis sob este aspecto (assim a boca e o ânus, a boca-ânus do anoréxico)
descobrem-se franjas de interferência na borda de cada campo de presença, franjas que testemunham o resto de um fluxo no outro e que formam sínteses conjuntivas residuais que guiam a passagem ou o devir sentido de um ao outro. Permutação de 2, 3, n órgãos; polígonos abstratos deformáveis que brincam com o triângulo edipiano figurativo e não param de desfazê-lo. Todas estas sínteses passivas .389. indiretas, por binaridade, recobrimento ou permutação, são uma única e mesma maquinaria do desejo.
A máquina desejante de Mozart? “Estenda seu cu até sua boca, … ah, meu cu queima como fogo, o que isso pode querer dizer? Talvez um excremento queira sair? Sim, sim, excremento, eu te conheço, eu te vejo e te sinto. O que é isso, será possível?…”
Os objetos parciais são as potências diretas do corpo sem órgãos, e o corpo sem órgãos é a matéria bruta dos objetos parciais.175 O corpo sem órgãos é a matéria que preenche sempre o espaço com este ou aquele grau de intensidade, e os objetos parciais são esses graus, essas partes intensivas que produzem o real no espaço a partir da matéria como intensidade . 0. O corpo sem órgãos é a substância imanente, no sentido mais espinosista da palavra; e os objetos parciais são como seus atributos últimos, que lhe pertencem justamente porque são realmente distintos e não podem, assim, excluir-se ou opor-se. Os objetos parciais e o corpo sem órgãos são os dois elementos materiais das máquinas desejantes esquizofrênicas: uns como peças trabalhadoras, o outro como motor imóvel; uns como micromoléculas, o outro como molécula gigante — e ambos estão juntos numa relação de continuidade nos dois extremos da cadeia molecular do desejo.
Cadeia Significante e Códigos
A função da cadeia já não é codificar os fluxos sobre um corpo pleno da terra, do déspota ou do capital, mas, ao contrário, descodificá-los sobre o corpo pleno sem órgãos. É uma cadeia de fuga, não mais de código. A cadeia significante deveio cadeia de descodificação e de desterritorialização, que deve e só pode ser apreendida como o avesso dos códigos e das territorialidades. Esta cadeia molecular é ainda significante porque é feita de signos do desejo; mas estes signos já não são de modo algum significantes, uma vez que estão sob o regime das disjunções inclusas nas quais tudo é possível. Estes signos são pontos de natureza qualquer, figuras maquínicas abstratas que atuam livremente no corpo sem órgãos e ainda não formam configuração estruturada alguma (ou melhor, já não formam).
Em Lacan, igualmente, a organização simbólica da estrutura, com suas exclusões derivadas da função do significante, tem como avesso a inorganização real do desejo. Dir-se-ia que o código genético remete a uma descodificação gênica: basta apreender as funções de descodificação e de desterritorialização na sua positividade própria, enquanto implicam um estado de cadeia particular, metaestável, distinto a um só tempo de toda axiomática e de todo código. A cadeia molecular é a forma sob a qual o inconsciente gênico, permanecendo sempre sujeito, reproduz a si próprio.
fazer passar fluxos de desejo absolutamente descodificados, Libido, e para encontrar no desejo aquilo que mistura todos os códigos e desfaz todas as terras
Corpo sem Órgãos, Morte e Desejo
O corpo sem órgãos é o modelo da morte. Como bem compreenderam os autores da literatura de terror, não é a morte que serve de modelo à catatonia; é a esquizofrenia catatônica que dá seu modelo à morte. Intensidade-zero. O modelo da morte aparece quando o corpo sem órgãos repele e depõe os órgãos — nem boca, nem língua, nem dentes… até à automutilação, até ao suicídio. Todavia, não há oposição real entre o corpo sem órgãos e os órgãos enquanto objetos parciais; sua única oposição real é com o organismo molar que é seu inimigo comum. Na máquina desejante, vê-se o mesmo catatônico inspirado pelo motor imóvel que o força a depor seus órgãos, a imobilizá-los, a fazê-los calar, mas também, quando impelido pelas peças trabalhadoras, que funcionam então de maneira autônoma ou estereotipada, a reativá-los, a reinsuflá-los com movimentos locais. Trata-se de peças diferentes da máquina, diferentes e coexistentes, diferentes em sua própria coexistência.
Esquizofrenizar a Morte
A experiência da morte é a coisa mais ordinária do inconsciente, precisamente porque ela se faz na vida e para a vida, ela se faz em toda passagem ou todo devir, em toda intensidade como passagem e devir. É próprio de cada intensidade investir em si própria a intensidade-zero a partir da qual ela é produzida num momento como o que cresce ou diminui sob uma infinidade de graus (como dizia Klossowski, “um afluxo é necessário, mesmo que para significar a ausência de intensidade”)
São esses devires e sentimentos intensos, são essas emoções intensivas .395. que alimentam delírios e alucinações. Mas, em si mesmas, elas estão o mais próximo da matéria cujo grau zero investem em si próprias. Elas são as portadoras da experiência inconsciente da morte, já que a morte é o que volta a ser sentido em todo sentimento, é o que não para e não acaba de advir em todo devir — no devir-outro sexo, no devir-deus, no devir-raça etc., formando as zonas de intensidade sobre o corpo sem órgãos. Toda intensidade é portadora, em sua própria vida, da experiência da morte, e a envolve. E, sem dúvida, toda intensidade se extingue ao final, todo devir devém ele próprio um devir-morte. Então a morte sobrevém efetivamente.
Nós dizemos o contrário: não há instinto de morte porque há modelo e experiência da morte no inconsciente. Então, a morte é uma peça de máquina desejante, peça que deve ser julgada, avaliada no funcionamento da máquina e no sistema de suas conversões energéticas, e não como princípio abstrato.
Em si mesmo, o desejo não é desejo de amar, mas força de amar, virtude que dá e que produz, que maquina (pois, como poderia desejar a vida o que está na vida? quem quereria chamar desejo a isso?)
Mas é preciso, em nome de uma horrível ananke,182 a ananke dos fracos e dos deprimidos, a ananke neurótica e contagiosa, que o desejo se volte contra si próprio, produza a sua sombra e o seu macaco, e encontre a estranha força artificial de vegetar no vazio, no seio da sua própria falta.
À espera de melhores dias? É preciso — mas quem fala assim? que abjeção? — que devenha desejo de ser amado e, pior ainda, desejo chorão de ter sido amado, desejo que renasce da sua própria frustração: não, papai-mamãe não me amou o suficiente. O desejo doente deita-se no divã, pântano artificial, pequena terra, mãezinha. “Olhe: você não pode andar, vacila, já não sabe usar suas pernas… e a única causa disso é seu desejo de ser amado, um desejo sentimental e chorão que tira toda a firmeza dos seus joelhos.”
Se você se der conta de que o analista é um ser humano como você, com os aborrecimentos, defeitos, ambições, fraquezas e tudo mais, que ele não é depositário de uma sabedoria universal (= código), mas um vagabundo como você (desterritorializado), talvez você deixe .400. de vomitar suas águas de esgoto, por mais melodioso que isso ressoe em seus ouvidos; talvez você se erga sobre suas duas patas e se ponha a cantar com a voz com que Deus (numen) lhe presenteou. Confessar-se, fingir, queixar-se, lamentar-se, tudo isto custa sempre caro. Cantar é grátis. E não somente grátis — a gente enriquece os outros (em vez de infectá-los). O mundo dos fantasmas é aquele que nunca acabamos de conquistar. É um mundo do passado, não do futuro. Ir adiante agarrado ao passado é arrastar consigo os grilhões do condenado. Ninguém entre nós deixa de ser culpado de um crime: o enorme crime de não viver plenamente a vida”
Que vá à merda todo esse seu teatro mortífero, imaginário ou simbólico. Que pede a esquizoanálise? Nada além de um pouco de verdadeira relação com o fora, um pouco de realidade real. E reclamamos o direito a uma leveza e a uma incompetência radicais, o direito de entrar no consultório do analista e dizer que lá cheira mal. Cheira à grande morte e a euzinho.
O homem moderno “delira muito mais. Seu delírio é uma central com treze telefones. Ele dá suas ordens ao mundo. Ele não gosta das senhoras. É também valente. Ele é efusivamente condecorado. No jogo do homem, o instinto de morte, o instinto silencioso está decididamente bem colocado, talvez ao lado do egoísmo. O seu lugar é o zero na roleta. O cassino ganha sempre. A morte também. A lei dos grandes números trabalha a seu favor”
Não se deseja a morte, mas o que se deseja está morto, já está morto: imagens. Tudo trabalha na morte, tudo deseja para a morte. Na verdade, o capitalismo nada tem para recuperar; ou melhor, suas potências de recuperação coexistem quase sempre com o que se há de recuperar, e até se lhe antecipam. (Quantos grupos revolucionários enquanto tais estão já prontos para uma recuperação que só se fará no futuro, e formam um aparelho para a absorção da mais-valia que ainda nem sequer está produzida: o que lhes dá precisamente uma posição revolucionária aparente.) Num mundo assim, um único desejo vivo bastaria para explodir o sistema, ou para fazê-lo fugir por um extremo onde tudo findaria por ir atrás e precipitar-se — questão de regime.
Eis as máquinas desejantes com as suas três peças (as peças trabalhadoras, o motor imóvel, a peça adjacente), com suas três energias (Libido, Numen, Voluptas) e com suas três sínteses (as sínteses conectivas de objetos parciais e fluxos, as sínteses disjuntivas de singularidades e cadeias, as sínteses conjuntivas de intensidades e devires). O esquizoanalista não é um intérprete, e muito menos um encenador; ele é um mecânico, um micromecânico. Não há escavações ou arqueologia no inconsciente, não há estátuas: apenas pedras para chupar, à Beckett, e outros elementos maquínicos de conjuntos desterritorializados. Em cada caso, trata-se de saber quais são as máquinas desejantes de alguém, como elas funcionam, com que sínteses, com que entusiasmos, com que falhas constitutivas, com que fluxos, com que cadeias, com que devires.
destruição dos conjuntos molares, estruturas e representações que impedem a máquina de funcionar. Não é fácil encontrar as moléculas, .405. mesmo que se trate da molécula gigante, os seus caminhos, suas zonas de presença e suas sínteses próprias, através dos grandes amontoados que preenchem o pré-consciente, e que delegam seus representantes ao próprio inconsciente, imobilizando as máquinas, fazendo-as calar, cativando-as, sabotando-as, sujeitando-as, retendo-as. Não são as linhas de pressão do inconsciente que contam mas, ao contrário, suas linhas de fuga. Não é o inconsciente que pressiona a consciência, mas a consciência que o pressiona e garroteia para impedi-lo de fugir. Quanto ao inconsciente, ele é como o contrário platônico: ele foge ou perece à aproximação de seu contrário.
É este o ponto focal e delicado, que vale pela transferência na esquizoanálise (dispersar, esquizofrenizar a transferência perversa da psicanálise).
5. Segunda Tarefa Positiva da Esquizoanálise
nas declarações esquizoides “Sou eternamente de raça inferior”, “Sou um animal, um negro”, “Somos todos judeus alemães”, o campo histórico-social é tão investido quanto na fórmula paranoica “Sou um de vocês, de casa, sou um ariano puro e de raça superior para todo o sempre”. E de uma fórmula à outra todas as oscilações são possíveis do ponto de vista do investimento libidinal inconsciente. Como isso é possível? Como a fuga esquizofrênica, com a sua dispersão molecular, pode formar um investimento tão forte e determinado quanto o outro? E por que há dois tipos de investimento social correspondentes aos dois polos? É que há em toda parte o molar e o molecular: sua disjunção é uma relação de disjunção inclusa, que varia somente segundo os dois sentidos da subordinação, conforme os fenômenos moleculares se subordinem aos grandes conjuntos ou, ao contrário, os subordinem a si. Num dos polos, os grandes conjuntos, .408. as grandes formas de gregarismo não impedem a fuga que os arrasta, e só impõem o investimento paranoico como uma “fuga diante da fuga”
Mas, no outro polo, a própria fuga esquizofrênica não consiste apenas em afastar-se do social, em viver à margem: ela faz fugir o social pela multiplicidade de buracos que o corroem e o perfuram, sempre ligados a ele, dispondo em toda parte as cargas moleculares que explodirão o que deve explodir, que farão tombar o que deve cair, que farão fugir o que deve fugir, assegurando em cada ponto a conversão da esquizofrenia, como processo, em força efetivamente revolucionária.
O esquizo não é revolucionário, mas o processo esquizofrênico (de que o esquizo é só a interrupção, ou a continuação no vazio) é o potencial da revolução. Aos que dizem que fugir não é corajoso, responde-se: o que não é fuga e investimento social ao mesmo tempo? Só se pode escolher entre dois polos: a contrafuga paranoica que anima todos os investimentos conformistas, reacionários e fascistizantes e a fuga esquizofrênica convertível em investimento revolucionário.
a coragem está em aceitar fugir em vez de viver quieta e hipocritamente em falsos refúgios. Os valores, as morais, as pátrias, as religiões e essas certezas privadas que nossa vaidade e a nossa complacência para conosco generosamente nos outorgam, são outras tantas moradas enganadoras que o mundo arranja para aqueles que pensam manter-se firmes e em repouso entre as coisas estáveis. Eles nada sabem dessa imensa ruína para a qual vão indo, ignorantes de si mesmos, no monótono burburinho dos seus passos cada vez mais rápidos que os levam impessoalmente num grande movimento imóvel. Fuga perante a fuga
Se Reich, no próprio momento em que levantava a questão mais profunda, “por que as massas desejaram o fascismo?”, se contentou com uma resposta que invocava o ideológico, o subjetivo, o irracional, .413. o negativo e o inibido, foi porque permanecia preso a conceitos derivados que o fizeram executar mal a psiquiatria materialista com que sonhava, que o impediram de ver como o desejo faz parte da infraestrutura, e o encerraram na dualidade do objetivo e do subjetivo (e, assim, a psicanálise foi remetida à análise do subjetivo definido pela ideologia)
Há um investimento libidinal inconsciente de desejo que não coincide necessariamente com os investimentos pré-conscientes de interesse, e que explica como estes podem ser perturbados, pervertidos na “mais sombria organização”, sob qualquer ideologia.
Portanto, é concebível que um grupo possa ser revolucionário do ponto de vista do interesse de classe e dos seus investimentos pré-conscientes, mas não sê-lo do ponto de vista dos seus investimentos libidinais, e manter-se até mesmo fascista e policial. Interesses pré-conscientes realmente revolucionários não implicam necessariamente investimentos inconscientes de mesma natureza; nunca um aparelho de interesse vale por uma máquina de desejo.
A tarefa da esquizoanálise, portanto, é atingir os investimentos de desejo inconsciente do campo social, enquanto distintos dos investimentos pré-conscientes de interesse, sendo que aqueles podem não somente contrariar a estes, mas coexistir com estes em modos opostos. No conflito de gerações, é comum ouvir velhos censurarem jovens de maneira acentuadamente malévola, dizendo que estes fazem passar seus desejos (carro, crédito, empréstimo, relações moças-rapazes) antes do seu interesse (trabalho, poupança, bom casamento). Porém, naquilo que parece desejo bruto a outrem, há ainda complexos de desejo e de interesse, e uma mistura de formas precisamente reacionárias e vagamente revolucionárias tanto de um quanto do outro
Não que a capacidade revolucionária possa ser julgada pelos objetos, pelos objetivos e pelas fontes das pulsões sexuais que animam um indivíduo ou um grupo; é certo que as perversões, e até a emancipação sexual, não configuram privilégio algum enquanto a sexualidade ficar fechada no quadro do “pequeno segredo sujo”. É inútil tornar público o segredo, exigir seu direito à publicidade, ou ainda desinfetá-lo, tratando-o científica e psicanaliticamente, porque nos arriscamos, sobretudo, a matar o desejo ou a inventar para ele formas de liberação mais sombrias do que a prisão mais repressiva — enquanto não se separar a sexualidade da categoria do segredo, ainda que público, ainda que desinfetado, isto é, enquanto não se separar a sexualidade da origem edipiana-narcísica que lhe é imposta como a .420. mentira sob a qual ela só pode se manter cínica, vergonhosa ou mortificada. É uma mentira pretender liberar a sexualidade, reclamar seus direitos sobre o objeto, o objetivo e a fonte e, ao mesmo tempo, manter os fluxos correspondentes nos limites de um código edipiano (conflito, repressão, solução, sublimação de Édipo…), continuando a impor-lhe uma forma ou motivação familista e masturbatória que, de antemão, torna vã qualquer perspectiva de liberação. Por exemplo, “frente homossexual” alguma é possível enquanto a homossexualidade for apreendida numa relação de disjunção exclusiva com a heterossexualidade, relação que refere as duas a um tronco edipiano e castrador comum, encarregado de assegurar apenas sua diferenciação em duas séries não comunicantes, em vez de fazer com que apareça sua inclusão recíproca e sua comunicação transversal nos fluxos descodificados do desejo (disjunções inclusas, conexões locais, conjunções nômades). Em suma, a repressão sexual, mais viva do que nunca, sobreviverá a todas as publicações, manifestações, emancipações, protestos a favor da liberdade dos objetos, das fontes e dos objetivos, enquanto a sexualidade for mantida, conscientemente ou não, nas coordenadas narcísicas, edipianas e castradoras que bastam para assegurar o triunfo dos mais rigorosos censores, os homens cinzentos de que falava Lawrence.
De maneira profunda, Lawrence mostra que a sexualidade, incluindo a castidade, é uma questão de fluxos, “uma infinidade de fluxos diferentes e até opostos”. Tudo depende da maneira como esses fluxos, seja qual for o objeto, a fonte e o objetivo, são codificados e cortados segundo figuras constantes ou, ao contrário, tomados em cadeias de descodificação que os recortam segundo pontos móveis e não figurativos (os fluxos-esquizas).
noiva, amante, mulher, mãe
A diferença fundamental entre a psicanálise e a esquizoanálise é a seguinte: é que a esquizoanálise atinge um inconsciente não figurativo e não simbólico, puro figural abstrato no sentido em que se fala em pintura abstrata, fluxos-esquizas ou real-desejo, apanhando-os abaixo das condições mínimas de identidade.
Certamente, não é a libido, como acreditava Freud, que deve dessexualizar-se e sublimar-se para investir a sociedade e seus fluxos, mas, ao contrário, é o amor, o desejo e seus fluxos que manifestam o caráter imediatamente social da libido não sublimada e dos seus investimentos sexuais.
Lacan foi o primeiro a sublinhar esses temas que bastam para pôr em questão todo o Édipo; e a mostrar a existência de um “complexo social” em que o sujeito tende ora a assumir seu próprio papel, mas ao preço de um .424. desdobramento do objeto sexual em mulher rica e mulher pobre, ora a assegurar a unidade do objeto, mas, desta vez, ao preço de um desdobramento da “sua própria função social”, no outro extremo da cadeia.
Consideremos por um instante as motivações que levam alguém a deixar-se psicanalisar: trata-se de uma situação de dependência econômica devinda insuportável ao desejo, ou cheia de conflitos para o investimento de desejo. O psicanalista, que diz tantas coisas acerca da necessidade do dinheiro na cura, mantém-se soberbamente indiferente à questão: quem paga? Por exemplo, a análise revela os conflitos inconscientes de uma mulher com seu marido, mas é o marido que paga a análise da mulher. Não é esta a única vez que reencontramos a dualidade do dinheiro, como estrutura de financiamento externo e como meio de pagamento interno, com a “dissimulação” objetiva que ela comporta, essencial ao sistema capitalista. Mas é interessante encontrar esta essencial dissimulação, miniaturizada, pavoneando-se no consultório do analista. O analista fala do Édipo, da castração e do falo, da necessidade de assumir o sexo, como diz Freud, o sexo humano, e que a mulher renuncie ao seu desejo do pênis, e que o homem também renuncie ao seu protesto de macho. Dizemos que não há .428. mulher alguma, nem criança alguma, notadamente, que possa, enquanto tal, “assumir” sua situação numa sociedade capitalista, precisamente porque essa situação nada tem a ver com o falo e a castração, mas diz respeito estritamente a uma dependência econômica insuportável. E as mulheres e as crianças que conseguem “assumir”, só o fazem por meio de rodeios e determinações totalmente distintas do seu ser-mulher ou do seu ser-criança. Isto nada tem a ver com o falo, mas tem muito a ver com o desejo, com a sexualidade como desejo. Porque o falo nunca foi o objeto e nem a causa do desejo, dado que ele é o próprio aparelho de castração, a máquina de meter a falta no desejo, de esgotar todos os fluxos, e de fazer de todos os cortes do fora e do real uma única e mesma ruptura com o fora, com o real
A psicanálise deveio uma droga embrutecedora, em que a mais estranha dependência pessoal permite que os clientes esqueçam, durante o tempo das sessões no divã, as dependências econômicas que os levaram lá (um pouco como a descodificação dos fluxos acarreta um reforço da servidão). Será que sabem o que andam fazendo, esses psicanalistas que edipianizam mulheres, crianças, negros, animais? Sonhamos entrar nos seus consultórios, abrir as janelas, e dizer: aqui cheira a mofo, há de haver um pouco de relação com o fora. Porque o desejo não sobrevive separado do fora, separado dos seus investimentos e contrainvestimentos econômicos e sociais. E se há um “móbil puramente erótico”, para falar como Freud, não é certamente Édipo que o recolhe, nem o falo que o move, nem a castração que o transmite. O móbil erótico, puramente erótico, percorre os quatro cantos do campo social, em toda parte onde máquinas desejantes se aglutinam ou se dispersam em máquinas sociais, e onde escolhas de objeto amoroso se produzem no cruzamento, segundo linhas de fuga ou de integração.
Seguindo Foucault, vimos como a psiquiatria do século XIX tinha concebido a família ao mesmo tempo como causa e juiz da doença, e o asilo fechado como uma família artificial encarregada de interiorizar a culpabilidade e de provocar o advento da responsabilidade, envolvendo a loucura não menos que sua cura numa relação pai-filho sempre presente. A esse respeito, longe de romper com a psiquiatria, a psicanálise transportou suas exigências para fora do asilo, e impôs inicialmente um certo uso “livre”, interior, intensivo, fantasmático da família, que parecia particularmente convir ao que se isolava como neurose.
Talvez esta contradição seja particularmente perceptível em Laing, porque ele é o antipsiquiatra mais revolucionário. Porém, no próprio momento em que rompe com a prática psiquiátrica, buscando consignar uma verdadeira gênese social da psicose e reclamando como condição da cura a necessidade de uma continuação da “viagem” enquanto processo e de uma dissolução do “ego normal”, ele volta a cair nos piores postulados, o familista, o personológico e o egoico, de modo que os remédios invocados não passam de uma “confirmação sincera entre pais”, um “reconhecimento de pessoas”, uma descoberta do verdadeiro eu ou si mesmo à Martin Buber. Além da hostilidade das autoridades tradicionais, talvez seja esta a razão do atual fracasso das tentativas da antipsiquiatria, da sua recuperação em proveito das formas adaptativas de psicoterapia familiar e de psiquiatria de setor, e do retiro do próprio Laing no Oriente. E não haverá também uma contradição análoga a essa, embora noutro plano, na tentativa de precipitar o ensino de Lacan, recolocando-o num eixo familiar e personológico — ao passo que Lacan situa a causa do desejo num “objeto” não humano, heterogêneo à pessoa, abaixo das condições de identidade mínima, escapando tanto às coordenadas intersubjetivas como ao mundo das significações?
que a sociedade é esquizofrenizante no nível da sua infraestrutura, do seu modo de produção, dos seus mais precisos circuitos econômicos capitalistas; que a libido investe esse campo social, não sob uma forma em que este seria expresso e traduzido por uma família-microcosmo, mas sob a forma em que este faz passar na família seus cortes e seus fluxos não familiares, investidos como tais; que os investimentos familiares, portanto, são sempre um resultado de investimentos libidinais sociais-desejantes, os únicos primários; finalmente, que a alienação mental remete diretamente a estes investimentos e não é menos social do que a alienação social que, por sua vez, remete aos investimentos pré-conscientes de interesse.
E mais, novamente: talvez um dia se descubra que unicamente incurável é a neurose (donde a psicanálise interminável). Felicita-se quando se consegue transformar um esquizo em paranoico ou em neurótico. Talvez haja nisso muitos mal-entendidos, pois o esquizo é aquele que escapa a toda referência edipiana, familiar e personológica — nunca mais direi eu, nunca mais direi papai-mamãe — e ele mantém sua palavra. Ora, a questão é, primeiramente, saber se é disso que ele está doente, ou se isso é, ao contrário, o processo esquizofrênico, que não é uma doença e nem um “desmoronamento”, mas uma “abertura”, por mais angustiante e aventurosa que ela seja: transpor o muro ou o limite que nos separa da produção desejante, fazer passar os fluxos de desejo.
nem o homem nem a mulher são, seguramente, personalidades bem definidas — mas vibrações, fluxos, esquizas e “entrelaçamentos”.1
A tarefa da esquizoanálise é desfazer incansavelmente os eus e seus pressupostos, é libertar as singularidades pré-pessoais que eles encerram e recalcam, é fazer correr os fluxos que eles seriam capazes de emitir, de receber ou de interceptar, de estabelecer as esquizas e os cortes cada vez mais longe e de maneira mais fina, bem abaixo das condições de identidade, de montar as máquinas desejantes que recortam cada um e o agrupam com outros. Pois cada um é um grupúsculo e deve viver assim, ou melhor, como a caixa de chá zen, quebrada e múltipla, que tem as fendas reparadas com argamassa de ouro, ou como a laje de igreja cuja fissura é sublinhada pela pintura ou pela cal (o contrário da castração, unificada, molarizada, ocultada, cicatrizada, improdutiva). A esquizoanálise tem este nome porque em todo o seu procedimento de cura ela esquizofreniza, em vez de neurotizar como a psicanálise.
De modo que tudo é perversão. Mas tudo é também psicose e paranoia, porque tudo é desencadeado pelo contrainvestimento do campo social que produz o psicótico. E tudo é neurose, ainda, já que é fruto da neurotização que se opõe ao processo. Por fim, tudo é processo, esquizofrenia como processo, visto que é por ela que tudo é medido: seu próprio percurso, suas paradas neuróticas, suas continuações perversas no vazio, suas finalizações psicóticas
O paranoico maquina massas, e não para de formar grandes conjuntos, de inventar aparelhos pesados para o enquadramento e a repressão de máquinas desejantes. Certamente, não lhe é difícil passar por racional, invocando objetivos e interesses coletivos, reformas a serem feitas, às vezes até a necessidade de fazer revoluções. Mas a loucura irrompe sob os investimentos reformistas ou sob os investimentos reacionários e fascistas, que só ganham um ar racional à luz do pré-consciente, e que animam o estranho discurso de uma organização da sociedade. Até sua linguagem é demente. Ouçam um ministro, um general, um chefe de empresa, um técnico. Ouçam o grande rumor paranoico sob o discurso da razão que fala pelos outros, em nome .437. dos mudos. É que, sob os objetivos e interesses pré-conscientes invocados, é erigido um investimento bem mais inconsciente, que se dirige ao corpo pleno enquanto tal, independentemente de qualquer objetivo, que se dirige a um grau de desenvolvimento enquanto tal, independentemente de qualquer razão: esse grau aí e não outro, nem mais um passo, esse socius aí e não outro, não perturbe. Um amor desinteressado pela máquina molar, um verdadeiro gozo, com o que isso comporta de ódio por aqueles que não se submetem a ela: é toda a libido que está em jogo.
Do ponto de vista do investimento libidinal, nota-se bem que há pouca diferença entre um reformista, um fascista, às vezes até certos revolucionários, que só se distinguem de maneira pré-consciente, mas cujos investimentos inconscientes são do mesmo tipo, mesmo quando não esposam o mesmo corpo.
De modo que toda a psicanálise familista, inclusive o psicanalista em primeiro lugar, é passível de uma esquizoanálise. A única maneira de passar o tempo no divã é para esquizoanalisar o psicanalista. Dizíamos que, em virtude da sua diferença de natureza em relação aos investimentos pré-conscientes de interesse, os investimentos inconscientes de desejo tinham a sexualidade como índice do seu próprio alcance social. Não que baste investir a mulher pobre, a empregada ou a puta para ter amores revolucionários. Não há amores revolucionários ou reacionários; isto quer dizer que os amores não se definem nem pelos seus objetos, nem pelas fontes e fins dos desejos ou das pulsões. Mas há formas de amor que são os índices do caráter reacionário ou revolucionário do investimento pela libido de um campo social, histórico ou geográfico, do qual os seres amados e .439. desejados recebem suas determinações
Quarta Tese: Os Dois Polos do Investimento Libidinal Social
A quarta e última tese da esquizoanálise é, pois, a distinção dos dois polos do investimento libidinal social, o polo paranoico, reacionário e fascista, e o polo esquizoide revolucionário
Os dois polos se definem assim: um, pela sujeição da produção .440. e das máquinas desejantes aos grandes conjuntos gregários que elas constituem em grande escala sob tal forma de potência ou de soberania seletiva, o outro, pela subordinação inversa e pela subversão de potência; um, por estes conjuntos molares e estruturados, que esmagam as singularidades, selecionando-as e regularizando aquelas que eles retêm em códigos ou axiomáticas, o outro, pelas multiplicidades moleculares de singularidades que, ao contrário, tratam os grandes conjuntos como outros tantos materiais próprios para sua elaboração; um, por linhas de integração e territorialização que param os fluxos, que os estrangulam, que os fazem retroceder ou os recortam segundo os limites interiores ao sistema, de tal maneira que eles produzem as imagens que vêm preencher o campo de imanência próprio a esse sistema ou esse conjunto, o outro, por linhas de fuga que os fluxos descodificados e desterritorializados seguem, inventando os seus próprios cortes ou esquizas não figurativas que produzem novos fluxos, transpondo sempre o muro codificado ou o limite territorial que os separam da produção desejante; e, resumindo todas as determinações precedentes, um dos polos se define pelos grupos sujeitados, o outro pelos grupos sujeitos
esquizorrevolucionário
As pessoas e os órgãos deixam de ser codificados segundo investimentos coletivos hierarquizados; cada uma, cada um vale por si e faz o que lhe diz respeito: o menino Jesus olha para um lado enquanto a Virgem ouve de outro, Jesus vale por todas as crianças desejantes, a Virgem vale por todas as mulheres desejantes, uma alegre atividade de profanação se estende sob esta privatização generalizada. Um Tintoretto200 pinta a criação do Mundo como uma corrida em distância, em que o próprio Deus, na última fila, comanda a partida, da direita para a esquerda
o valor mercantil da arte e da literatura: uma forma de expressão paranoica que já nem sequer tem necessidade de “significar” seus investimentos libidinais reacionários, uma vez que estes lhes servem, ao contrário, de significante: uma forma de conteúdo edipiana que já nem sequer tem necessidade de figurar Édipo, pois a “estrutura” lhe basta. Porém, no outro polo, esquizorrevolucionário, o valor da arte é tão somente determinado pelos fluxos descodificados e desterritorializados que ela faz passar sob um significante reduzido ao silêncio, abaixo das condições de identidade dos parâmetros, através de uma estrutura reduzida à impotência; escrita com suportes indiferentes, pneumáticos, eletrônicos ou gasosos, e que parece tanto mais difícil e intelectual aos intelectuais quanto mais acessível é aos débeis, .445. aos analfabetos, aos esquizos, escrita que esposa tudo o que corre e tudo o que recorta, entranhas de misericórdia que ignoram sentido e objetivo (a experiência Artaud, a experiência Burroughs)
porque a máquina funciona, estejam certos disso”). Ela não corre o risco de devir louca, pois já é louca de uma ponta a outra desde o início, e é disto que sai sua racionalidade. O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de .448. fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz é nos levar a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva. Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.)
o desejo é um deserto que atravessa o corpo sem órgãos, e nos faz passar de uma das suas faces à outra. Ele nunca é um exílio individual, ele nunca é um deserto pessoal, mas um exílio e um deserto coletivos. É muito evidente que a sorte da revolução está unicamente ligada ao interesse das massas exploradas e dominadas. Mas o problema está na natureza desse liame: como liame causal determinado ou como ligação de um outro tipo. Trata-se de saber como se realiza um potencial revolucionário em sua própria relação com as massas exploradas ou com os “elos mais frágeis” de um dado sistema
É como a morte: onde, quando? Um fluxo descodificado, desterritorializado, que corre demasiado longe, que corta fino demais e que escapa à axiomática do capitalismo. E o quê, no horizonte? um Castro, um árabe, um Black Panther, um chinês? Um Maio de 68, um maoista do interior plantado como um anacoreta numa chaminé de fábrica? Acrescentar sempre um axioma para tapar a brecha precedente, os coronéis fascistas começam a ler Mao, nunca mais nos deixaremos apanhar, Castro deveio impossível, mesmo em relação a si próprio, isolam-se os vacúolos, formam-se guetos, pede-se ajuda aos sindicatos, inventam-se as formas mais sinistras da “dissuasão”, reforça-se a repressão de interesse — mas de onde virá a nova irrupção de desejo?
Relação da Esquizoanálise com a Política e com a Psicanálise
Aqueles que nos leram até aqui teriam talvez muitas censuras a nos fazer: acreditar em demasia nas puras potencialidades da arte e até da ciência; negar ou minimizar o papel das classes e da luta de classes; militar por um irracionalismo do desejo; identificar o revolucionário com o esquizo; cair em todas estas conhecidas armadilhas, demasiado conhecidas. Isto seria uma má leitura — e não sabemos o que é pior: se uma má leitura ou se leitura alguma. Seguramente, há outras censuras bem mais graves, nas quais não pensamos. Mas, em relação às precedentes, dizemos, em primeiro lugar, que a arte e a ciência têm uma potencialidade revolucionária e nada mais, e que .455. esta potencialidade aparece tanto mais quanto menos se pergunta pelo que elas querem dizer do ponto de vista de significados, ou de um significante, forçosamente reservados aos especialistas; mas elas fazem passar pelo socius fluxos cada vez mais descodificados e desterritorializados, fluxos sensíveis a todo mundo, que forçam a axiomática social a complicar-se cada vez mais, a saturar-se ainda mais, a tal ponto que o artista e o cientista podem ser determinados a se juntarem a uma situação objetiva revolucionária como reação às planificações autoritárias de um Estado essencialmente incompetente e sobretudo castrador (pois o Estado impõe um Édipo propriamente artístico, um Édipo propriamente científico).
Esta não é algo que pretenda falar em nome de quem quer que seja, nem mesmo e sobretudo não em nome da psicanálise: apenas impressões, a impressão que a coisa vai mal na psicanálise, e que isso vai mal desde o início. Somos ainda demasiado competentes, e gostaríamos de falar em nome de uma incompetência absoluta. Alguém nos perguntou se já tínhamos visto um esquizofrênico; não e não, nunca vimos. Se alguém acha que isso vai bem na psicanálise, não é para ele que falamos e para ele retiramos tudo o que dissemos. Então, qual é a relação da esquizoanálise com a política, de um lado, e com a psicanálise, de outro? Tudo gira em torno das máquinas desejantes e da produção de desejo. A esquizoanálise enquanto tal não estabelece o problema da natureza do socius que deve sair da revolução; de modo algum ela pretende valer pela própria revolução. Dado um socius, ela somente pergunta pelo lugar que ele reserva à produção desejante, que papel motor o desejo tem nele, sob que formas nele se faz a conciliação do regime da produção desejante e do regime da produção social, uma vez que, de toda maneira, é a mesma produção, mas sob dois regimes diferentes; ela pergunta, portanto, se nesse socius como corpo pleno há possibilidade de passar de uma face a uma outra, ou seja, da face em que se organizam os conjuntos molares de produção social a esta outra face não menos coletiva em que se formam as multiplicidades moleculares de produção desejante; pergunta se um tal socius pode, e até que ponto, suportar a subversão de potência que faz com que a produção desejante .457. sujeite a si a produção social sem contudo destruí-la, visto que é a mesma produção sob diferença de regime; pergunta se há, e como, formação de grupos sujeitos etc.
Um destes adolescentes dado como inapto para os estudos tem seguido com muito bom aproveitamento o terceiro ano, desde que se dedique à mecânica. A mecânica apaixona-o. O garagista foi quem melhor o soube tratar. Se lhe tirarmos a mecânica, voltará a ser esquizofrênico
Apêndice: Balanço-Programa para Máquinas Desejantes
1. Diferenças Relativas entre as Máquinas Desejantes e os Gadgets
É verdade que no próprio momento em que acredita ater-se, assim, a uma abordagem puramente tecnológica, ela levanta problemas de poder, de opressão, de revolução e de desejo, com um vigor involuntário infinitamente maior do que nas abordagens adaptativas.
Num dos mais belos textos escritos sobre o masoquismo, Michel de M’Uzan mostra como as máquinas perversas do masoquista, que são máquinas propriamente ditas, .468. não se deixam compreender em termos de fantasma ou de imaginação, assim como não se explicam a partir de Édipo ou da castração por via de projeção: não há fantasma, diz ele, mas, o que é totalmente diferente, programação “essencialmente estruturada fora da problemática edipiana” (finalmente um pouco de ar puro em psicanálise, um pouco de compreensão para com os perversos
2. Máquina Desejante e Aparelho Edipiano
Quatro é o famoso quarto termo simbólico; três é a triangulação; dois são as .471. imagens duais; um é o narcisismo; zero a pulsão de morte. Édipo é a entropia da máquina desejante, sua tendência à abolição externa. É a imagem ou a representação introduzida na máquina, o clichê que para as conexões, exaure os fluxos, que põe a morte no desejo e substitui os cortes por uma espécie de emplastro — é a Interruptora (os psicanalistas como sabotadores do desejo). Devemos substituir a distinção entre conteúdo manifesto e conteúdo latente, a distinção entre recalcante e recalcado, pelos dois polos do inconsciente: a máquina esquizo-desejante e o aparelho paranoico edipiano, os conectores do desejo e os repressores. Sim, vocês sempre encontrarão tantos Édipos quantos quiserem para colocar nas máquinas e fazê-las calar (o que acontece forçosamente, pois Édipo é, ao mesmo tempo, o recalcante e o recalcado, ou seja, a imagem-clichê que para o desejo e que se encarrega dele, que o representa parado. Uma imagem só se pode ver… É o compromisso, mas o compromisso deforma ambas as partes, a saber, a natureza do repressor reacionário e a natureza do desejo revolucionário. No compromisso, ambas as partes passaram para um mesmo lado, em oposição ao desejo que fica do outro lado, fora do compromisso)
psicanalítica. E, na verdade, todas estas máquinas desejantes são profundamente desedipianizantes.
Ou ainda, são relações aleatórias que asseguram esta ligação sem liame dos elementos realmente distintos enquanto tais, ou das suas estruturas autônomas, segundo um vetor que vai da desordem mecânica ao menos provável, e que será denominado “vetor louco”. Ressaltemos aqui a importância das teorias de Pierre Vendryes, que permitem definir as máquinas desejantes pela presença dessas relações aleatórias na própria máquina, e como que produzindo movimentos brownianos do tipo passeio ou paquera.
É uma relação de povoamento: nós povoamos as máquinas sociais técnicas de máquinas desejantes, e não podemos fazer de outra maneira. É ao mesmo tempo que devemos dizer o seguinte: as máquinas sociais técnicas são tão somente conglomerados de máquinas desejantes em condições molares historicamente determinadas; as máquinas desejantes são máquinas sociais e técnicas restituídas às suas condições moleculares determinantes.