
Clinic - Sisters Papin
Paranóia
O caso das irmãs Papin
O personagem Materno Delírio de Reivindicação Delírio a Dois
Estrutura Clínica
Structure
Structure
- Personagens
- A mãe, as filhas
- Imprestável, Inútil
- Clémence
- Duplicação da fala
- Delírio de Reivindicação
- Transferência
- A loucura de Christine
Highlights do Livro, Notas
Sumário
Narrativa do ato homicida
A singularidade do ato criminoso
A personalidade das irmãs Papin
Efeitos do ato criminoso em Léa e Christine
Os móbeis teóricos do crime das irmãs Papin
As condições de um delírio a dois
O personagem materno
Fatores desencadeantes do crime
A dinâmica paranóica do crime
A alucinação e a inelutabilidade da passagem ao ato
Personagens
Mãe: Clémence Filhas: Léa e Christine Filha do convento: Emília
Resumo: Assassinato da Patroa e sua filha pelas empregadas Christiane e Lea. Carníficina. Paranóia. O olhar, a posição materna, perseguição. Antes elas do que nós.
Primeira condição: tentativa de romper o vínculo materno. Christine tentou furtar-se à dominação de Clémence, objeto invasivo e persecutório. Seu primeiro movimento foi romper todas as relações com ela. Incidente com o Prefeito: a emancipação de Léa. Segunda condição: transferência materna para a futura vítima. Terceira condição: o olhar.
A mãe, as filhas
Um sujeito ativo, que impõe um delírio a outro sujeito sobre quem exerce uma influência segura. Este último, receptivo e disposto à docilidade, aos poucos se deixa dominar pela loucura do outro. Confidência, convívio. Verossimilhança do delírio: quanto menos brutal ele é, mais se torna comunicável.
Como era estranho, de fato, o funcionamento dessa mãe que não criou Christine nem Léa, mas que as internou e as mudou de lugar a seu critério, durante toda a infância e a adolescência delas, até o momento em que as duas foram trabalhar para os Lancelin. Christine tinha apenas vinte e oito dias de nascida quando Clémence, sua mãe, confiou-a a Isabelle, uma cunhada solteira. Com Isabelle, Christine viveu sete anos de dias tranqüilos e felizes, cujo curso Clémence interrompeu, para retomá-la e interná-la logo em seguida no Instituto do Bom Pastor, com sua irmã mais velha, Emília — sim, porque as irmãs Papin eram três, e não duas.
Assim, ela foi buscar Christine antes que fosse tarde demais, enquanto ainda havia tempo de reivindicar seus direitos sobre ela. Christine já estava em idade de trabalhar, de ganhar dinheiro, e portanto, Clémence tratou de lhe arranjar um emprego. E, durante anos, colocou e tirou Christine de uma casa após outra. Em pouco tempo, chegou a vez de Léa, cujo esquema infantil assemelhara-se em todos os pontos ao de Christine: entregue a uma mãe de criação com um mês, na casa de uma tia de Clémence, depois retomada e prontamente internada no orfanato Saint-Charles, de onde Clémence a retirou quando lhe pareceu que ela estava em idade de trabalhar, aos treze anos.
Christine sentia saudade daquele amor encerrado no Bom Pastor, e investiu toda a sua afeição na irmã caçula, Léa, que tinha então dezesseis anos. Christine queria vê-la, vê-la sempre a seu lado, tanto assim que, passadas algumas semanas, pediu à Sra. Lancelin que a contratasse para auxiliá-la, para ajudá-la nas tarefas domésticas. A Sra. Lancelin concordou, radiante: Christine seria cozinheira e governanta, e Léa, arrumadeira.
Não haveria nenhuma familiaridade entre a classe das criadas e a dos patrões. Entre um grupo e outro, nenhum intercâmbio. Eram essas as regras da casa, regras que convinham perfeitamente a Christine, cujo caráter desconfiado e altivo não se adaptava bem a nenhuma familiaridade. Além disso, Léa estava a seu lado, e Léa concordou. Bem alimentadas, bem instaladas e bem tratadas, elas seriam ali o que sempre tinham sido: empregadas perfeitas, limpas, honestas, perfeitamente conhecedoras de seu serviço. Em silêncio, como no convento, trabalhavam duro e bem o dia inteiro, dispondo de uma ou duas horas na parte da tarde para descansar e se recolher a seu quarto. Nunca pediam autorização para sair; sua grande saída era a missa das oito aos domingos, à qual elas compareciam de luvas e chapéu, arrumadas com capricho e elegância certeiros.
De uma altivez distante com todos, mas polidas e deferentes, elas eram e continuaram a ser, até o fim, verdadeiras “pérolas”, pelas quais todos os amigos dos Lancelin os invejavam: empregadas, “criadas-modelo”. Empregadas modelares, sem dúvida, mas, ainda assim, empregadas estranhas, misteriosas. Para começar, havia aquela afeição exclusiva que as unia. Em seis anos de vida na casa dos Lancelin, nunca esboçaram o menor sinal de se encontrarem com qualquer rapaz, nem tampouco com as jovens domésticas empregadas nas casas vizinhas. Nem tampouco com os comerciantes do bairro, que, não conseguindo arrancar delas dez palavras seguidas, achavam-nas esquisitas. Nunca iam a festas, nunca ao cinema. Inseparáveis, sua grande alegria era ficarem em seu quarto, “nossa casinha”, como gostavam de dizer. Assim recolhidas num encerramento amedrontado e delicioso, fora do mundo, fora do tempo, que faziam? Ora, elas bordavam. Bordavam seu enxoval: anáguas de tecido delicado, calcinhas com babados em camadas, camisolas com as iniciais bordadas, adornadas com as mais belas rendas — um enxoval luxuoso, digno das moças de melhor dote na cidade. Mas, para quem eram essas roupas íntimas? Para que noivo? Para que namorado? Elas, que nunca deixariam nenhum homem se aproximar. Isso era uma promessa, um juramento entre as duas: nenhum homem jamais as separariam.
Felicidade a dois, completude narcísica, mundo fechado em que uma era para a outra a totalidade do universo, compartilhando tudo, numa transparência total: o trabalho, o descanso, as diversões, os medos, as apreensões, as mágoas, Clémence, a Senhora e, mais tarde, a responsabilidade igual pelo crime. Era Christine quem protegia, ensinava, ordenava, mimava e consolava, enquanto Léa se deixava amar.
O segundo acontecimento foi o rompimento posterior de Léa e Christine com a mãe, Clémence. Um rompimento súbito, definitivo, sem motivo aparente, sem briga e sem uma só palavra, num domingo de outubro. Clémence, interrogada sobre o acontecimento, viria a declarar: “Eu nunca soube por que motivo minhas filhas não queriam mais me ver.” Léa e Christine, interrogadas por sua vez, evocaram as “observações” de Clémence que as aborreciam. De novo a palavra “observações”. Vemo-nos aí no cerne do espelho das palavras, do espelho dos seres, do espelho das paixões deslocadas umas para as outras.
Imprestável, Inútil
“empregadas imprestáveis”, “empregadas inúteis” Filhos imprestáveis, filhos inúteis Indiferença em ter a cabeça decepada. Como diz minha mãe, o alívio da vida. Ter alívio. Indiferença ao significado disso. Tragédia. Do olhar dos outros. O que os outros vão dizer. O prazer de ter assassinado as patroas. Elas mexeram com quem não devia. Brincaram com a pessoa errada. Não brinquem comigo não. Eu estou falando sério. O uso do imperativo. Tira essa colcha dessa cama. Isso não é colcha de gente dormir não. Anda, sai do caminho.
Clémence
Em relação às filhas, ela estava numa relação de apropriação. E era através das filhas que se sentia perseguida. Suas filhas eram afastadas dela. Podemos supor que o desejo de Clémence de impedir as filhas de vestirem o hábito tenha sido uma decorrência da vocação religiosa de Emília, a primogênita, que só encontrara esse caminho para fugir de sua dominação. A mãe, aliás, nunca a aceitou nem perdoou, e não mais lhe dirigiu a palavra. Ser privada de uma filha era da ordem do insuportável. Acima de tudo, era preciso que isso não se repetisse
A ligação particular que unia as duas irmãs ordenou, deu uma certa forma a esse crime. Mas o que constituiu a dinâmica, o motor desse ato demente, foram duas loucuras, as de duas pessoas que eram habitadas, cada uma delas, por seu próprio delírio: não eram as duas irmãs, e sim Christine e Clémence, a mãe — duas psicóticas frente a frente, com o delírio da filha correspondendo ao delírio da mãe.
As filhas haviam rompido toda e qualquer relação com ela. Até então, ela fazia o que queria com as moças. Colocava-as ou as retirava das casas dos patrões a seu bel-prazer, tirava-lhes os salários e não parava de lhes fazer observações desagradáveis. Christine diria, mais tarde: “Quando essa mulher [Clémence] nos via, ela nos enchia de críticas.” Enquanto esse tipo de relacionamento perdurou, Clémence teve a sensação de estar mandando no jogo. Em síntese, estava de olho nas filhas e as segurava com mão de ferro. Foi desse olhar persecutório e dessa dominação da mãe que Christine tentou escapar. Isso porque, se a mãe fez um delírio de ciúme (tendo as filhas por objeto), Christine fez um delírio paranóico de perseguição e reivindicação (libertar-se, livrar-se dessa dominação).
O Personagem materno
Duplicação da fala
Duplicação da fala: repetir. Cantar Insuportável nela: Ideal do Eu (ninguém faz perfeito como Eu), narcisismo (Eu sou uma mulher muito bonita), melancolia (A vida é uma merda e só piora. Nunca vai para frente). O Outro é desprezível, nojento, burro, mesquinho, ignorante, mão de vaca, só faz merda, um inútil. Delírio de liberdade: Não quero responsabilidade de filho, de casa, quero ir pro mundo, São Tomé das Letras. Eu já criei esses filhos, não era para eles estarem aqui. A Cássia me viu e foi embora. Me olhou e fugiu. É no tempo dela, é quando ela pode, tem que ser quando Eu quero. Reivindicação: da casa, das contas, do dinheiro, das coisas no lugar. Viver longe do outro. Tem que enforcar para dar sossego. Afrontar.
Delírio de Reivindicação
Christine e Léa não suportavam “receber ordens”. Sobretudo Christine, cuja natureza desconfiada e altiva não admitia nenhuma observação, nem de sua mãe, Clémence, que a cumulava de críticas, nem de patroa alguma. Qualquer observação lhe era absolutamente intolerável — uma ferida narcísica vivida como persecutória, que comportava para ela, infalivelmente, um suposto prazer do outro em humilhá-la. Por isso, seu “fazer” era perfeito, impecável.
Pois não havia Christine, num dia em que a Senhora puxara com dois dedos a manga de Léa, fazendo-a ajoelhar-se para apanhar um papel que escapara à arrumação, um papel caído no piso reluzente, não havia Christine, “com as bochechas pegando fogo” e a respiração entrecortada, num momento de fúria que aterrorizara Léa, derrubando as chapas de ferro do fogão, com grande estardalhaço, para aplacar sua cólera? Christine e Léa ameaçaram, em eco: “Ela que não comece nunca mais, senão…” Sim, sua sensibilidade à mais ínfima observação, à menor “beliscadura”, ficava à flor da pele, inelutável, extrema.
tentativa de romper o vínculo materno. Christine tentou furtar-se à dominação de Clémence, objeto invasivo e persecutório. Seu primeiro movimento foi romper todas as relações com ela. A irmã caçula representava para Christine um outro eu, uma espécie de prolongamento dela mesma, reforçado por sua presença permanente. Christine a cercava de atenções e a protegia, dando-lhe profundas demonstrações de amor. Agindo assim, reparava a si mesma através dela. Ora, Léa, esse duplo de Christine, era menor e estava realmente sob a tutela materna. Era como se a própria Christine o estivesse. Ao libertar a irmã caçula daquela que a subjugava, era a si mesma que estava tentando libertar; e, ao solicitar ao prefeito a emancipação, era da mãe que ela a exigia, na verdade.
Estar perseguindo-as em vez de protegê-las. Essas eram exatamente as mesmas censuras que ela formulava a respeito da mãe. Ao acusar um de perseguição, na verdade estava acusando o outro (Clémence).
Transferência
Transferência favorecida por sua vontade de escapar à perseguição de Clémence e pela necessidade de preencher o lugar que a mãe deixara vazio. Essa transferência instaurou-se no dia em que a Sra. Lancelin concordou em contratar os serviços de Léa, a pedido de Christine, e se consolidou em decorrência de sua intervenção a respeito dos salários das duas irmãs. No começo, a patroa parecia totalmente diferente de Clémence: não procurava satisfazer seus próprios interesses à custa das moças. Era uma mãe suportável, que se preocupava com o bem-estar delas.
“Observações!” Era assim que Christine chamava as críticas, tanto as provenientes de Clémence quanto as da Sra. Lancelin. Esse significante, “observações”, que remete ao olhar, circulou entre a mãe e a patroa e reforçou a transferência, que aos poucos tornou-se negativa. Decididamente, a patroa não parecia muito diferente da mãe delas. E o fantasma da perseguição ressurgiu.
O Olhar: tratava-se de uma situação explosiva; dali em diante, tudo dependeria do que fosse lido no olhar da patroa: Christine estava “de olho” na Sra. Lancelin.
Um sujeito ativo, que impõe um delírio a outro sujeito sobre quem exerce uma influência segura. Este último, receptivo e disposto à docilidade, aos poucos se deixa dominar pela loucura do outro. Confidência, convívio. Verossimilhança do delírio: quanto menos brutal ele é, mais se torna comunicável.
“O fraco” é menos duramente atingido por essa loucura do que seu parceiro. Muitas vezes, basta separar os dois protagonistas para que o segundo, privado da produção delirante do parceiro, se recupere, chegando até a criticar suas divagações anteriores. Léa estava nesse caso exemplar: sua personalidade era absolutamente aniquilada pela de Christine, esta uma psicótica autêntica, que exercia sobre a irmã um domínio desmedido.
Não entrarei nesse texto, em razão de ter decidido hoje, como vocês estão vendo desde o começo, trabalhar sem rede de proteção.
A loucura de Christine
Um sujeito ativo, que impõe um delírio a outro sujeito sobre quem exerce uma influência segura. Este último, receptivo e disposto à docilidade, aos poucos se deixa dominar pela loucura do outro. Confidência, convívio. Verossimilhança do delírio: quanto menos brutal ele é, mais se torna comunicável.
Book Highlights
Irmãs Papin
Narrativa do ato homicida A singularidade do ato criminoso A personalidade das irmãs Papin Efeitos do ato criminoso em Léa e Christine Os móbeis teóricos do crime das irmãs Papin As condições de um delírio a dois O personagem materno Fatores desencadeantes do crime A dinâmica paranóica do crime A alucinação e a inelutabilidade da passagem ao ato
René Lancelin
Christine e Léa Papin
2 de fevereiro de 1933.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir fizeram das irmãs duas “vítimas” da luta de classes. Simone de Beauvoir escreveu:2 “Somente a violência de seu crime nos faz avaliar a atrocidade do crime invisível no qual, como se percebe, os verdadeiros assassinos ‘apontados’ são os patrões.” Quanto aos surrealistas, eles as transformaram em “heroínas”. Éluard e Benjamin Péret, a partir de maio de 1933,3 passaram a evocá-las como “ovelhas desgarradas”, diretamente saídas de um “canto de Maldoror”.4 Entre os surrealistas instaurou-se uma imagem em cujo cerne o crime das duas irmãs, servindo de painel para o espectador, aparecia como o supremo meio de expressão
O que, portanto: criminosas, vítimas, heroínas ou psicopatas
Motivos do crime paranóico: o crime das irmãs Papin
foi pelos ensinamentos de sua paciente Aimée e das “irmãs dela na psicose”, Léa e Christine, assim como pelos das belas histéricas de Freud, na época deste, que Lacan fez sua entrada no mundo analítico.
Cinco aspectos reterão nossa atenção:
— a subitaneidade do ato;
— sua falta de motivo aparente;
— sua violência e ferocidade;
— seu rigor;
— a simetria entre as protagonistas.
uma agressão instantaneamente levada ao paroxismo da fúria
Então, o que houve? Um ferro de passar com defeito, um fusível queimado que fez a casa espaçosa mergulhar na penumbra, talvez um olhar de censura, um brilho de humor nos olhos da Sra. Lancelin, e tudo desmoronou. A esse motivo fútil, a esse motivo insignificante respondeu a horrível carnificina
Que horror, portanto, aqueles olhos arrancados de vítimas vivas, “as metáforas mais batidas do ódio”, como escreveria Lacan; mas, para Christine e Léa, não havia metáfora: foi ao pé da letra, em sua mais pura literalidade, que elas executaram o “vou te arrancar os olhos”: estamos diante de uma clínica do Real.
Meu crime é grande demais para que eu diga o que é
Por fim, uma última observação a propósito da simetria das protagonistas desse drama. Ao par de patroas correspondia o par de empregadas. Ao par mãe-filha das Lancelin correspondia o par Christine-Léa, irmãs, sem dúvida, mas a natureza profunda de cujo vínculo, como descobriremos, era a de uma ligação entre mãe e filha. Simetria e reversibilidade dos dois pares, muito bem destacada por esta frase de Christine: “Prefiro acabar com a raça de nossas patroas a elas acabarem com a nossa.”
Isabelle e Christine / Christine e Emilia / Christine e Léa / Léa e a sobrinha de Clémence / Léa e Clémence, sua mãe.
dentre os acontecimentos de sua vida, os que nos pareceram constituir as coordenadas obrigatórias do acionamento do ato criminoso
Clémence, sua mãe
Como era estranho, de fato, o funcionamento dessa mãe que não criou Chris-tine nem Léa, mas que as internou e as mudou de lugar a seu critério, durante toda a infância e a adolescência delas, até o momento em que as duas foram trabalhar para os Lancelin.
confiou-a a Isabelle, uma cunhada solteira
Instituto do Bom Pastor
irmã mais velha, Emilia
Clémence tratou de lhe arranjar um emprego. E, durante anos, colocou e tirou Christine de uma casa após outra
Em pouco tempo, chegou a vez de Léa, cujo esquema infantil assemelhara-se em todos os pontos ao de Christine: entregue a uma mãe de criação com um mês, na casa de uma tia de Clémence, depois retomada e prontamente internada no orfanato Saint-Charles, de onde Clémence a retirou quando lhe pareceu que ela estava em idade de trabalhar, aos treze anos.
por que Clémence entregava, retomava, tornava a internar e buscava novamente uma ou outra de suas filhas? É nosso entendimento que, com isso, ela procurava certificar-se repetidamente de seu domínio sobre as filhas, de seu direito de vigiá-las, a elas que, em todas as situações, deveriam continuar-lhe “submissas”. Foi essa a expressão da própria Clémence.
rompimento súbito, completo, sem palavras e sem motivo das filhas com a mãe.
Têm inveja de vocês e de mim
Tratava-se também de perseguição: ela estaria sendo perseguida através das filhas. Era um perseguidor não identificado, designado por um “eles” impessoal. “Eles vão derrubar vocês pra ser donos de vocês, vão fazer o que quiser com vocês.”*
Essas cartas atestam um estado de tensão, um estado de urgência, a urgência de escapar desse “eles” persecutório. Era de um complô que se tratava, de um complô em que os empregadores se fariam cúmplices de Deus para praticar, com toda a impunidade, o seqüestro de crianças que estava em questão. São duas cartas, portanto, que constituem verdadeiras provas materiais de um crime, paradigma do conhecimento paranóico, nas quais foi o funcionamento da própria Clémence com as filhas que, totalmente desconhecido dela como algo que a movia, foi atribuído ao outro, projetado nesse “eles” — um monstro anônimo e devorador de crianças que, por ser anônimo, obviamente estava em toda parte, já que era dela mesma, Clémence, que se tratava. “A gente pensa que tem amigos e são grandes inimigos”, escreveu ela a suas filhas nessas cartas.
“colocou”
Christine sentia saudade daquele amor encerrado no Bom Pastor
Christine seria cozinheira e governanta, e Léa, arrumadeira
Bem alimentadas, bem instaladas e bem tratadas, elas seriam ali o que sempre tinham sido: empregadas perfeitas, limpas, honestas, perfeitamente conhecedoras de seu serviço. Em silêncio, como no convento, trabalhavam duro e bem o dia inteiro, dispondo de uma ou duas horas na parte da tarde para descansar e se recolher a seu quarto. Nunca pediam autorização para sair; sua grande saída era a missa das oito aos domingos, à qual elas compareciam de luvas e chapéu, arrumadas com capricho e elegância certeiros.
Em seis anos de vida na casa dos Lancelin, nunca esboçaram o menor sinal de se encontrarem com qualquer rapaz, nem tampouco com as jovens domésticas empregadas nas casas vizinhas.
Nem tampouco com os comerciantes do bairro, que, não conseguindo arrancar delas dez palavras seguidas, achavam-nas esquisitas. Nunca iam a festas, nunca ao cinema. Inseparáveis, sua grande alegria era ficarem em seu quarto, “nossa casinha”, como gostavam de dizer.
Assim recolhidas num encerramento amedrontado e delicioso, fora do mundo, fora do tempo, que faziam? Ora, elas bordavam. Bordavam seu enxoval: anáguas de tecido delicado, calcinhas com babados em camadas, camisolas com as iniciais bordadas, adornadas com as mais belas rendas — um enxoval luxuoso, digno das moças de melhor dote na cidade. Mas, para quem eram essas roupas íntimas? Para que noivo?
Para que namorado? Elas, que nunca deixariam nenhum homem se aproximar. Isso era uma promessa, um juramento entre as duas: nenhum homem jamais as separaria.
Felicidade a dois, completude narcísica, mundo fechado em que uma era para a outra a totalidade do universo, compartilhando tudo, numa transparência total: o trabalho, o descanso, as diversões, os medos, as apreensões, as mágoas, Clémence, a Senhora e, mais tarde, a
responsabilidade igual pelo crime. A respeito delas, falou-se muito em “almas siamesas”, casal psíquico. Isso merece um esclarecimento. O vínculo foi sempre assimétrico entre Christine e Léa. Era Christine quem protegia, ensinava, ordenava, mimava e consolava, enquanto Léa se deixava amar. Não estamos diante de dois seres idênticos, mas antes, da roupa e seu forro, do original e sua cópia, da voz e seu eco
Christine e Léa não suportavam “receber ordens”
Sobretudo Christine, cuja natureza desconfiada e altiva não admitia nenhuma observação, nem de sua mãe, Clémence, que a cumulava de críticas, nem de patroa alguma. Qualquer observação lhe era absolutamente intolerável — uma ferida narcísica vivida como persecutória, que comportava para ela, infalivelmente, um suposto prazer do outro em humilhá-la.
Por isso, seu “fazer” era perfeito, impecável. Sua “obra” perfeita
sua dedicação inesgotável ao trabalho, era, para Christine, a muralha que mantinha na coleira o monstro persecutório, aquele monstro persecutório que fazia assomar nela uma tensão agressiva cuja pressão a ultrapassava e a inundava. Pois não havia Christine, num dia em que a Senhora puxara com dois dedos a manga de Léa, fazendo-a ajoelhar-se para apanhar um papel que escapara à arrumação, um papel caído no piso reluzente, não havia Christine, “com as bochechas pegando fogo” e a respiração entrecortada, num momento de fúria que aterrorizara Léa, derrubado as chapas de ferro do fogão, com grande estardalhaço, para aplacar sua cólera? Christine e Léa ameaçaram, em eco: “Ela que não comece nunca mais, senão…” Sim, sua sensibilidade à mais ínfima observação, à menor “beliscadura”, ficava à flor da pele, inelutável, extrema. Porém os barulhos e a fúria da cozinha nunca chegavam à sala íntima/escritório onde a Senhora gostava de ficar, para saborear o conforto acolchoado de sua casa, que agora tinha um cheiro muito bom de cera e resplandecia como uma “moedinha nova”, graças ao trabalho das duas moças.
um gesto de afeição, que instaurou entre elas e a Sra. Lancelin um vínculo de outra ordem: um vínculo materno, a face apaziguada e civilizada da maternidade, em enorme contraste com a face possessiva, reivindicatória e invejosa de sua mãe. “Ela é muito boa, a madame”
O segundo acontecimento foi o rompimento posterior de Léa e Christine com a mãe, Clémence. Um rompimento súbito, definitivo, sem motivo aparente, sem briga e sem uma só palavra, num domingo de outubro. Clémence, interrogada sobre o acontecimento, viria a declarar: “Eu nunca soube por que motivo minhas filhas não queriam mais me ver.” Léa e Christine, interrogadas por sua vez, evocaram as “observações” de Clémence que as aborreciam. De novo a palavra “observações”. Vemo-nos aí no cerne do espelho das palavras, do espelho dos seres, do espelho das paixões deslocadas umas para as outras.
A partir de então, com Clémence fora do páreo, foi a Sra. Lancelin que ocupou todo o espaço materno
Foi na prefeitura de Le Mans que se encenou o terceiro ato
Num estado de extrema tensão e hiperexcitação, apresentaram seu pedido ao prefeito: fazer com que Léa fosse emancipada. Mas, de quem e de quê? Elas não sabiam dizer.
Se eu fosse o senhor, não ficaria com essas moças: elas são verdadeiras perseguidas
houve um ferro defeituoso que queimou os fusíveis, mergulhando a grande casa na penumbra e Christine e Léa na confusão, e houve uma suposta observação, um brilho de humor nos olhos daquela mãe e daquela filha unidas, que as enfrentavam, dois olhares em que elas leram algo de terrível: “empregadas imprestáveis”, “empregadas inúteis”.
Silenciar aqueles olhares… Não ver mais os olhos que as lançavam nas trevas, em suas trevas.
Lendo seus depoimentos, é como se lêssemos duas vezes.
a partir do mês de abril, foram as crises de Christine que passaram a ocupar o primeiro plano. Crises cujo objeto, cujo centro era Léa. Com insistência, ela gritava que lhe “dessem Léa”, que lhe “levassem Léa”. Eram crises de extrema violência, que em várias ocasiões exigiram o uso da camisa-de-força. Crises, enfim, que pareciam, sob diversos aspectos, uma repetição do ato criminoso: o mesmo grau de agitação, as mesmas tentativas reiteradas de arrancar os próprios olhos ou os olhos daqueles que supostamente a separavam de Léa: os da carcereira e até os de seu advogado, que nunca deixou de lhe dedicar uma atenção benevolente e afetuosa.
recusando o real que a separava de Léa.
Ver Léa, tê-la a seu lado para apagar a alucinação aterrorizante que agora se impunha a ela: “Léa, pendurada numa árvore, com as pernas cortadas.” Sua agitação foi tamanha, na noite de 12 de julho, que uma carcereira que a acudiu veio depois a declarar: “Christine talvez fosse um monstro, mas uma dor como aquela seria capaz de enternecer uma pedra.” As pedras não se enterneceram e as paredes não se abriram para lhe dar passagem. Mas o coração da carcereira, ao contrário, comoveu-se. Contrariando todas as instruções, ela lhe levou Léa.
Quando Christine a viu, precipitou-se sobre a irmã, segurou-a e a apertou em seus braços até quase sufocá-la. Léa desmaiou e Christine a fez sentar-se na beira da cama, tirou-lhe a blusa e, com olhos assustadores e num estado de exaltação crescente, com a respiração ofegante, suplicou-lhe: “Diga que sim, diga que sim…” Léa começou a sufocar e a se debater, tentando escapar daquele furor. O chefe da carceragem teve que separá-las e amarrar Christine.
Que sombra, que imagem, que marionete de seu teatro teria Christine abraçado nessa noite? Nunca saberemos, mas o que sabemos, em contrapartida, é que, depois desse abraço, que seria o último, Christine mergulhou num desconhecimento total de Léa. Nunca mais reclamou sua presença, nunca mais pronunciou seu nome, até morrer.
Ao mesmo tempo que se operou essa separação, tão selvagem quanto definitiva, e que se rasgou o laço que unia solidamente as duas irmãs, instaurou-se em Christine um delírio místico, que passou a ocupá-la desde então. Como figurante em seu próprio julgamento, numa indiferença e numa ausência radicais, foi de joelhos que ela recebeu o veredicto que a condenou à morte, à cabeça decepada. Não formulou nenhum pedido no sentido de escapar a seu destino, recusando-se a assinar qualquer recurso da sentença e qualquer pedido de clemência.
Foi nas mãos de Deus, do Deus de Emilia, que ela depositou sua sorte.
Christine morreu em 18 de maio de 1937, não no cadafalso, mas no manicômio judiciário de Rennes, de uma morte a que se entregara desde aquela noite de julho em que se havia separado de Léa para sempre.
Léa, condenada a dez anos de trabalhos forçados, saiu da prisão por conduta exemplar em 1943 e voltou para junto da mãe, Clémence, com quem viveu até o fim de seus dias. Morreu em 1982
Foi essa a história das irmãs Papin, filhas de Clémence: Emilia foi destinada a Deus, Christine, à loucura, e Léa, a Clémence, sua mãe
sabemos que Christine e Léa, como afirmaram no tribunal, nunca tinham tido patrões tão corretos quanto a família Lancelin
loucura a dois
contágio de um sujeito pela loucura de outro, a ponto de uni-los, como um par psicológico, num mesmo delírio
um indivíduo equilibrado não se deixaria levar pelo delírio de um alienado. Do mesmo modo, um alienado tem pouquíssima probabilidade de ser contaminado pelas idéias delirantes de outro, ficando cada um encerrado em seu próprio delírio.
As condições de um delírio a dois
um sujeito ativo, que impõe um delírio a outro sujeito sobre quem exerce uma influência segura. Este último, receptivo e disposto à docilidade, aos poucos se deixa dominar pela loucura do outro
duas pessoas de uma mesma família — irmão e irmã, mãe e filha, ou, na situação em exame, duas irmãs. Essa possibilidade também existe entre marido e mulher.
é preciso que esses dois indivíduos, durante um longo período, vivam num mesmo meio e cultivem os mesmos interesses, as mesmas apreensões e as mesmas esperanças, surdos às influências externas
Sob a forma da confidência, os dois atores compartem suas aspirações e sofrimentos, que se tornam um bem comum aos dois, do qual eles falam nos mesmos termos e o qual têm a possibilidade de reformular de maneira quase idêntica. Portanto, é no tempo, simultâneo nas duas mentes, que se realiza esse trabalho, a ponto de transformá-las em mentes siamesas.
— A terceira condição necessária à instauração de uma loucura a dois prende-se à verossimilhança do delírio: quanto menos brutal ele é, mais se torna comunicável. Um louco extremamente alucinado, excessivamente perseguido, implacável em suas reivindicações e afirmações, tem pouca probabilidade de arrastar um outro, mesmo frágil, para sua própria loucura.
Em outras palavras, o contágio é tão mais fácil quanto mais o delírio se mantém dentro de limites aceitáveis.
O personagem materno
Christine e Clémence, a mãe — duas psicóticas frente a frente, com o delírio da filha correspondendo ao delírio da mãe.
Em relação às filhas, ela estava numa relação de apropriação
Conto com vocês 2, apesar da minha dor sofrida porque me disseram que eles fez de tudo pra fazer vocês entrarem num convento.” Nessa mesma carta, ela chegou a denunciar os eclesiásticos, bem como as patroas de suas meninas, por afastarem dela suas filhas: “Afastaram vocês da sua mãe (…) eles vão derrubar vocês pra ser donos de vocês (…) vão fazer o que quiser com vocês. Partam, não dêem os 8 dias de aviso aos patrões, vão embora!”
“Na vida nunca se sabe o que espera a gente (…) têm inveja de vocês e de mim (…). Desconfiem, a gente pensa que tem amigos e muitas vezes são grandes inimigos, inclusive aqueles que cerca a gente mais de perto.”
só encontrara esse caminho para fugir de sua dominação
A mãe, aliás, nunca a aceitou nem perdoou, e não mais lhe dirigiu a palavra. Ser privada de uma filha era da ordem do insuportável. Acima de tudo, era preciso que isso não se repetisse. E, como vimos, por pouco Christine não seguiu Emilia nesse caminho.
as filhas haviam rompido toda e qualquer relação com ela
Até então, ela fazia o que queria com as moças. Colocava-as ou as retirava das casas dos patrões a seu bel-prazer, tirava-lhes os salários e não parava de lhes fazer observações desagradáveis
Quando essa mulher [Clémence] nos via, ela nos enchia de críticas
Enquanto esse tipo de relacionamento perdurou, Clémence teve a sensação de estar mandando no jogo.
estava de olho nas filhas e as segurava com mão de ferro.
Foi desse olhar persecutório e dessa dominação da mãe que Christine tentou escapar. Isso porque, se a mãe fez um delírio de ciúme (tendo as filhas por objeto), Christine fez um delírio paranóico de perseguição e reivindicação (libertar-se, livrar-se dessa dominação).
Se o histérico sofre no corpo e o obsessivo, nos pensamentos, o paranóico, por sua vez, sofre com o outro, o semelhante. Assim era o funcionamento mental de Christine, um funcionamento que se baseava na percepção do outro como perseguidor.
Para que as irmãs chegassem à situação de lhes ser possível cometer um crime, para que chegassem ao ponto extremo a que decaíram
Fatores desencadeantes do crime
Primeira condição: tentativa de romper o vínculo materno. Christine tentou furtar-se à dominação de Clémence, objeto invasivo e persecutório. Seu primeiro movimento foi romper todas as relações com ela.
Depois, não apenas Christine deixou de lhe dar seus salários, como chamou a “Madame” de mãe. Visivelmente, porém, isso não bastou para marcar a separação. Algum tempo depois, sobreveio o incidente da prefeitura, no qual Christine proferiu acusações contra o prefeito da cidade, a quem fora solicitar a emancipação de Léa.
Léa, esse duplo de Christine, era menor e estava realmente sob a tutela materna. Era como se a própria Christine o estivesse. Ao libertar a irmã caçula daquela que a subjugava, era a si mesma que estava tentando libertar;
ao solicitar ao prefeito a emancipação, era da mãe que ela a exigia, na verdade. É que se operou um deslizamento metonímico do significante “mãe” [mère] para o significante “prefeito” [maire]. Esse deslocamento produziu-se sendo favorecido pela semelhança fonética entre as duas palavras.
Em virtude da superposição dos dois significantes, a demanda de emancipação tornou-se indizível. Como demanda que não podia ser dita, transformou-se na queixa persecutória. As irmãs estavam agitadas. O prefeito tentou tranquilizá-las. Christine, entretanto, foi ao comissariado denunciá-lo, por as estar perseguindo em vez de protegê-las. Essas eram exatamente as mesmas censuras que ela formulava a respeito da mãe. Ao acusar um de perseguição, na verdade estava acusando o outro (Clémence).
transferência materna para a futura vítima
uma transferência favorecida por sua vontade de escapar à perseguição de Clémence e pela necessidade de preencher o lugar que a mãe deixara vazio
no dia em que a Sra. Lancelin concordou
não procurava satisfazer seus próprios interesses à custa das moças. Era uma mãe suportável, que se preocupava com o bem-estar delas
vimos as jovens empregadas chamarem a Sra. Lancelin de “mamãe”, em segredo
perseguição e sua expectativa da proteção. Mas, como todo paranóico, ela continuou em estado permanente de alerta, à espreita de qualquer sinal que pudesse representar uma ameaça
Ora, nessa relação, como em qualquer uma, havia contratempos:
palavras indelicadas e gestos defasados
Desnecessário dizer que esse foi um incidente muito mal visto por Christine
Observações!” Era assim que Christine chamava as críticas, tanto as provenientes de Clémence quanto as da Sra. Lancelin. Esse significante, “observações”, que remete ao olhar, circulou entre a mãe e a patroa e reforçou a transferência, que aos poucos tornou-se negativa.
Decididamente, a patroa não parecia muito diferente da mãe delas. E o fantasma da perseguição ressurgiu.
Por algum tempo, no entanto, Christine encontrou um modo de se haver com essa situação, encenando o que se poderia chamar de “cuidar convenientemente de um filho”
Terceira condição: o olhar
O efeito do olhar assumiu toda a sua importância. Christine encenava sua posição de “boa mãe” sob o olhar da Sra. Lancelin, que se tornou a perseguidora, como fora Clémence.
Através desse novo esquema relacional, Christine a faria ver, iria mostrar-lhe como se deve agir com uma criança. O olhar da patroa tinha uma importância capital. Era ele que sustentava toda a cena. Por um lado, permitia a Christine investir numa identidade válida e, por outro, permitia que ela se reparasse através de Léa, que oferecesse a si mesma uma vida imaginária mais feliz. Era isso que estava em jogo.
Com efeito, em sua loucura, nem todos os paranóicos matam as pessoas por quem se sentem perseguidos. Que aconteceu de particular?
A dinâmica paranóica do crime
“Ela me deu um pontapé, e eu a cortei em pedaços para me vingar do chute que ela me deu, no mesmo lugar em que fui atingida.” Mas acrescentou: “Nunca tive nenhum motivo para querer mal a minhas patroas.”
Então, por que ela achou que a Sra. Lancelin queria acabar com sua vida? Christine falou de uma cólera imensa que a teria invadido quando ela se viu na presença da patroa. Sem dúvida, sentiu um impulso furioso de destruir a Sra. Lancelin. Mas, como estamos diante do especular, do jogo de espelhos, da reciprocidade, não foi em si mesma que ela flagrou essa intenção homicida: Christine julgou vê-la no olhar daquela que a confrontava. “Ela quer me matar”, pensou. Essa é a economia mental comum do paranóico, de todo paranóico.
“Vocês não prestam para nada”
para nada” englobava a posição materna de Christine em relação a Léa, essa outra ela que, de repente, viu-se sujeita a todas as ameaças. Mas não foi só isso. Foi não apenas uma anulação da cena
montada por Christine, o desmoronamento de seu universo, como também uma anulação da identidade que ela havia fabricado para si e que só decorria dessa montagem. Com isso, ela foi negada em sua condição de sujeito, remetida ao nada de seu ser, a um dejeto. E o acionamento da pulsão criminosa apareceu como uma tentativa de retomada da consistência do ser.
agira a partir de uma “outra cena”
Quanto à ablação dos olhos, ela decorreu do princípio da reciprocidade: ela está me matando com o olhar, eu mato seu olhar. Isso explica a violência, a crueza do ataque. “Eu não presto para nada, tenho que morrer, não adianta me alimentar”, diria Christine, tempos depois, quando estava na prisão. Isso nos confirma que aquele “imprestável” ressoara, efetivamente, como uma sentença de morte.
A alucinação e a inelutabilidade da passagem ao ato
eve uma alucinação: Léa estava pendurada numa árvore, com as pernas cortadas
ela pediu para ver o marido e o filho;
— declarou que as senhoras Lancelin não haviam morrido e, ao mesmo tempo, implorou perdão por seu crime;
— tentou furar os próprios olhos;
— acabou atirando-se contra as paredes e portas, chamando por Léa, numa recusa dessas realidades tangíveis que a separavam da irmã.
“a alucinação é o aparecimento, no real, daquilo que não pode advir no simbólico”
Esse elemento fundamental que falta, que não pôde ser simboliza-do, é a castração. E foi essa a questão que se descortinou para Christine. Havia alguma coisa de insuportável naquela alucinação: era a representação de um corpo mutilado, de um corpo castrado — o corpo de Léa, isto é, de Christine
gesto de arrancar os olhos
Num caso, o olhar da Sra. Lancelin, e no outro, o próprio olhar de Christine para a alucinação provocaram uma hiperexcitação incontrolável. Em ambos os casos, Christine agiu.
Esse apelo a Deus como salvador seria sua última tentativa de instauração do Nome-do-Pai, do pai simbólico, do portador da lei que, como dissemos, não pudera inscrever-se.
Christine deslizou progressivamente para a esquizofrenia, ou, como chegaram a dizer alguns, para o autismo
Foraclusão
Foi com esse espírito de descoberta que J.-D. Nasio propôs a tese da foraclusão localizada, para explicar as manifestações ditas “psicóticas” — delírios ou alucinações — que ocorrem em pacientes que não apresentam, obrigatoriamente, uma patologia de psicose, e, inversa-mente, para explicar comportamentos ditos “normais” em pacientes diagnosticados como “psicóticos”.
O conceito de foraclusão localizada foi criado por J.-D. Nasio para dar nome ao mecanismo responsável por estados psicóticos e por fenômenos pontuais e transitórios, de caráter psicótico, que ocorrem em sujeitos neuróticos como Mariane, cujo caso apresentaremos. Trata-se do aparecimento de momentos alucinatórios, de convicções delirantes pontuais, de passagens ao ato fulgurantes, de eclosões psicossomáticas marcantes, ou até de pesadelos tão intensamente vividos que o sujeito que lhes serve de palco não consegue voltar a dormir. A esses distúrbios, que desconcertam o paciente e surpreendem o psicanalista, Nasio dá o nome de formações do objeto (a), para contrastá-los com as formações do inconsciente que são o sonho, o lapso, o ato falho e até a interpretação psicanalítica.
Mariane: um exemplo clínico que mostra a necessidade do conceito de foraclusão localizada
Os encontros eram sempre difíceis de marcar e nunca regulares
Na adolescência, Mariane tinha vivido um “momento psicótico”, um episódio de foraclusão. Cometera-se um infanticídio em sua cidade natal. Mariane, então com dezoito anos, tivera uma descompensação:
descobrira-se num estado confusional, com a convicção delirante de ser a autora do assassinato. Assim, ficara deprimida, tornando-se incapaz de se preparar para o exame final do curso secundário: não conseguia mais se concentrar nem memorizar nada. O incidente, que havia durado algumas semanas, tinha sido minimizado pelas pessoas de seu círculo
havia nascido depois de dois irmãos mortos, os quais teria sido encarregada de substituir. Ela fora uma criança extremamente esperta e superprotegida.
A mãe, que nunca tinha feito o luto de seus dois bebês mortos antes do nascimento de Mariane, vivera diversos episódios depressivos; “ela acabou como um dejeto humano”, disse Mariane. Essa mulher também havia exigido que sua filha mais velha, nascida de um primeiro casamento — meio-irmã de nossa paciente —, desse a seu primeiro filho o nome de um dos dois bebês mortos.
no nível consciente, Mariane sabia que não era a assassina, mas isso não reduziu sua crença delirante. Ela se sentiu decididamente culpada. Ficou deprimida e viveu um momento de “confusão mental”. Portanto, ela era habitada por duas correntes contrárias, incompatíveis entre si, e a que predominava não era a corrente consciente, que obedecia à lógica da razão, mas a outra.
um “fato” surgiu no lugar de um “dito”
Um significante foi convocado, mas não se apresentou (foraclusão) e, em seu lugar, surgiu a formação delirante
Foi a intensidade do impacto de um acontecimento trágico que revelou em Mariane sua impossibilidade de simbolizá-lo; foi justamente a força desse apelo que evidenciou sua inca-pacidade de responder. É essa impotência absoluta, essa não resposta radical, que Nasio denomina de “foraclusão localizada”
identificando-se com a mãe infanticida: “fui eu que matei a menina”
“Eu odeio as crianças como minha mãe, que já matou duas.”
“Logo, eu sou mãe.”
“Logo, sou mulher do meu pai, que, aliás, já me tocou…” (conteúdo sexual).
Eis a proposição foracluída: “Tenho toda razão de temer minha mãe, porque minha mãe quer matar a criança que eu sou” — uma proposição intolerável. Aqui, o sujeito da ação é a mãe.
Essa proposição abolida ressurge no real sob a forma delirante:
“Sou a assassina da criança.” Aqui, o sujeito da ação é Mariane.
O afeto ligado à foraclusão é a angústia de morte, a angústia de ser morta pela mãe, que poderia formular-se da seguinte maneira: “Toda mãe odeia o filho, não existe mãe sem ódio.”
“Se um pai pode fazer tudo, ele não é mais pai, e sim um sedutor, não existe mais pai…”
Foi justamente por não ter sabido responder com palavras, imagens e emoções à violência que o infanticídio significava que Mariane mergulhou na confusão. Se, ao contrário, ela tivesse sentido indignação, e caso se houvesse lembrado dos medos que sua própria mãe lhe inspirava, a jovem Mariane teria produzido um significante que a faria existir como sujeito. De fato, o sujeito é gerado no ato simbólico de dizer.
“A culpa é sua se…” Na esteira dessa emergência, Mariane foi como que impelida a fugir da mãe que eu representava, e não tardou a me anunciar que havia decidido espaçar nossos encontros e passar a vir
Esse momento da análise foi fecundo. Mariane nunca havia conhecido seus dois irmãos mortos, mas percebera a que ponto eles ainda estavam presentes para sua mãe; ela nunca vira a menina morta pela mulher infanticida; não tinha nenhuma imagem dela, e, no entanto, essa criança “sem corpo”, sem idade, sem nenhuma característica física que lhe fosse conhecida, provocara na adolescência um semidelírio. No interior do tratamento analítico, nesse momento exato em que Mariane quis fugir, uma criança igualmente sem corpo, morta por uma mãe fantasiada, habitou o entre-dois da relação transferencial, sem que a paciente tivesse consciência disso; mas ela sentiu medo, “isso a interpelou”, como diríamos em linguagem corrente. E se isso acontecesse com ela?… Havia uma criança vagando no primeiro plano da cena — não uma criança precisa, mas uma espécie de abstração desligada do contexto. Para parafrasear Nasio em Os olhos de Laura, eu diria que um filho “de ninguém”, produzido entre “a escuta” da analista e “um dito” da analisanda, havia “materializado” a transferência e dado vida ao inconsciente.
Freud “Há, entretanto, uma espécie de defesa muito mais poderosa e eficaz.
Nela, o eu rejeita a representação incompatível, juntamente com seu afeto, e se comporta como se a representação jamais lhe tivesse ocorrido. (…) o eu rompe com a representação incompatível, mas ela fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade [da castração], de modo que, ao consumar esse ato, o eu também se desliga, no todo ou em parte, da realidade.”1 “Não houve nenhuma formulação de um juízo sobre a questão de sua existência [da castração], mas foi como se ela [a castração] não existisse.”2 “Seria incorreto dizer que a percepção internamente recalcada é projetada para fora; antes, como percebemos agora, deveríamos dizer que o que foi abolido internamente retorna do lado de fora. (…) Um desligamento como esse da libido, devemos admitir, tanto pode ser um processo parcial, uma retirada da libido de um único complexo, quanto um processo geral.”3
“(…) realidades produzidas por foraclusão coexistem com realidades produzidas por recalcamento.”
“Assim é tramada nossa realidade: um tecido em que há constantemente um fio que se rompe e uma bainha que se refaz. (…) não deveríamos escrever ‘nossa realidade’, como se ela fosse a mesma desde sempre, como se a castração adviesse apenas uma vez, de uma vez por todas.
Ao contrário, toda vez que o fio se rompe e que o limite do tecido se instaura, temos uma realidade entre outras.”