
Loveless
Sumário
Discurso sobre a Subjetividade
Lista de Perrengues, Dificuldades, estrutura da tragédia
Análise com a Garrafa de Klein
Discurso sobre a Subjetividade da Criança: Representações Cinematográficas
A infância não é apenas uma fase biológica, mas um espaço de construção subjetiva, onde a criança emerge como um sujeito complexo, capaz de experienciar conflitos, traumas, descobertas e transformações. O cinema, como arte que captura a condição humana, frequentemente explora essa subjetividade infantil, revelando como as crianças navegam em mundos muitas vezes hostis, ambíguos ou repletos de afeto. A seleção de filmes abaixo, organizada por origens culturais, demonstra como diferentes sociedades retratam a criança como um ser em formação, mas já dotado de agência, emoções e uma visão singular da realidade.
I. Ritos de Passagem / Subjetividade Infantil
Alemanha:
- System Crasher (Sistema em Colapso, 2019) – A turbulenta jornada de Benni, uma criança problemática, expõe as falhas do sistema social e a intensidade emocional de uma infância marcada pelo abandono e pela violência.
Japão:
- Nobody Knows (Ninguém Sabe, 2004) – Baseado em fatos reais, retrata o abandono de quatro crianças, mostrando sua resistência silenciosa e a perda da inocência.
- True Mothers (As Verdadeiras Mães, 2020) – Aborda adoção e identidade, questionando o que define uma “mãe real” na perspectiva de uma criança.
- Monster (Monstro, 2023) – Uma narrativa multifacetada sobre bullying, percepção infantil e a dificuldade dos adultos em compreender o universo das crianças.
- Shoplifters (Assunto de Família, 2018) – Família marginalizada onde uma criança adotada questiona os laços de sangue e afeto.
- Our Little Sister (Nossa Irmãzinha, 2015) – Uma visão delicada sobre irmandade e crescimento.
- A Silent Voice: The Movie (Uma Voz Silenciosa, 2016) – Bullying, arrependimento e redenção através da perspectiva de uma criança surda.
França:
- Close (Perto, 2022) – A amizade entre dois meninos e a pressão das normas sociais sobre a masculinidade infantil.
- The 400 Blows (Os Incompreendidos, 1959) – Clássico da Nouvelle Vague sobre rebeldia e abandono.
- My Life as a Zucchini (Minha Vida como Abobrinha, 2016) – Animação sensível sobre crianças em um orfanato.
China:
- Better Days (Dias Melhores, 2019) – Bullying escolar e a luta por dignidade na adolescência.
Brasil/Portugal:
- Central Station (Central do Brasil, 1998) – Uma criança em busca do pai e uma jornada de afeto inesperado.
- The Second Mother (Que Horas Ela Volta?, 2015) – Conflitos de classe e maternidade.
- I Don’t Want to Go Back Alone (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014) – Adolescência e descoberta da sexualidade.
Índia:
- Mother India (Mãe Índia, 1957) – Uma criança em meio à pobreza e ao sacrifício materno.
Líbano:
- Capernaum (Cafarnaum, 2018) – Uma criança que processa os pais por tê-lo trazido ao mundo em condições desumanas.
EUA:
- The Florida Project (O Projeto Florida, 2017) – Infância na pobreza, visto através dos olhos de uma criança.
- The Wild Robot (O Robô Selvagem, 2024) – Animação sobre uma criança-robô aprendendo a existir na natureza.
Conclusão
Esses filmes mostram que a criança não é um ser passivo, mas um sujeito ativo que interpreta, sofre, resiste e se reinventa. Seja no abandono (Nobody Knows), na marginalização (System Crasher), na descoberta do afeto (Central Station) ou na luta por identidade (Close), o cinema revela que a infância é um território de profunda subjetividade, onde a inocência convive com a dor e a resiliência. Cada cultura retrata essa jornada de forma única, mas todas convergem em uma verdade universal: a criança é um ser completo, não apenas um “adulto em construção”.
Pergunta para reflexão: Como a sociedade pode aprender com essas narrativas para respeitar a agência e a complexidade emocional das crianças?
Aqui está sua lista com foco nos “perrengues” (ou seja, situações difíceis, vulnerabilidade ou marginalização) em filmes de Coming-of-Age / Child Subjectivity, organizada por idioma:
🎒 I. COMING-OF-AGE / CHILD SUBJECTIVITY – PERRENGUES
| Idioma | Filmes | Tipo de Perrengue |
|---|---|---|
| German | System Crasher | Violência doméstica, trauma, institucionalização, abandono afetivo |
| Japanese | Nobody Knows, True Mothers, Monster, Shoplifters, Our Little Sister, A Silent Voice | Negligência parental, adoção, bullying, pobreza, marginalização infantil, suicídio adolescente |
| French | Close, The 400 Blows, My Life as a Zucchini | Suicídio de amigo, abandono escolar, orfandade, tristeza profunda |
| Chinese | Better Days | Bullying extremo, violência escolar, ansiedade social, pressão do gaokao |
| Portuguese | Central Station, The Second Mother, I Don’t Want to Go Back Alone | Orfandade, pobreza, desigualdade de classe, desejo e exclusão (no caso LGBT) |
| Hindi | Mother India | Pobreza rural extrema, maternidade solitária, tragédia, trabalho infantil |
| Arabic | Capernaum | Abandono, migração ilegal, infância nas ruas, abuso, sobrevivência urbana |
| USA | The Florida Project, The Wild Robot | Pobreza invisível, moradia precária, abandono infantil, solidão na natureza |
Análise com a Garrafa de Klein
Ótimo. Vamos analisar o tema “Coming-of-Age / Perrengues infantis” do ponto de vista da Garrafa de Klein, articulando a subjetividade infantil em formação, falha de inscrição simbólica e exclusão social, num registro topológico-lacaniano:
🌀 A Garrafa de Klein como Topologia da Subjetividade Infantil
A Garrafa de Klein, enquanto superfície não orientável e sem dentro ou fora, permite pensar o sujeito como algo que não se fecha sobre si, mas se constitui em torção, em passagem contínua entre o Imaginário, o Simbólico e o Real. Quando falamos de crianças em situação de “perrengue”, o que está em jogo é:
🧩 1. Ruptura ou falha no ponto de costura do Simbólico
A subjetividade infantil exige uma inscrição no campo do Outro, geralmente via Nome-do-Pai, leis, regras e limites. Nos filmes citados, frequentemente essa inscrição está faltando ou é fraturada:
- Em System Crasher e Nobody Knows, o laço simbólico com o Outro falha: os adultos não sustentam a função de corte ou proteção.
- A Garrafa de Klein, aqui, não se torce o suficiente para produzir o fechamento simbólico mínimo – o sujeito escapa pelas bordas, se esvai, se desintegra.
🧠 2. Passagens Impossíveis: da Margem ao Centro
A criança nesses contextos é como um “ponto de borda” da Garrafa, nem dentro, nem fora, habitando um Real cru que o discurso não captura:
- Capernaum e The Florida Project mostram crianças que vivem na dobra da estrutura social, num fora-do-discurso.
- A Garrafa de Klein permite visualizar essa condição: o sujeito está em constante trânsito, mas nunca encontra um ponto de ancoragem.
🪞 3. Imaginário Fraturado, Sem Espelho Estável
Segundo Lacan, a constituição do “eu” infantil depende do Estádio do Espelho – uma imagem coesa oferecida pelo Outro. Nas obras listadas:
- Não há um Outro estruturante que ofereça esse espelho: temos mães ausentes, pais falhos, adultos indiferentes.
- A Garrafa de Klein aqui revela uma imagem sem bordas fixas: um Eu que se desdobra sobre si mesmo, sem contorno estável, como vemos em Better Days ou A Silent Voice.
💥 4. O Real do Gozo como Trauma
Quando o simbólico falha e o imaginário colapsa, o que aparece é o Real do gozo traumático:
- Violência, abuso, abandono, pobreza, todas essas formas de “perrengue” são intraduzíveis em palavras, são furos no tecido simbólico.
- Na Garrafa de Klein, esse ponto de furo pode ser pensado como um ponto de retorno eterno, uma dobra que não cicatriza, como em System Crasher ou Mother India.
💫 Conclusão: A Garrafa como Espaço para o Sujeito em Suspensão
O Coming-of-Age nos filmes analisados mostra crianças que não conseguem completar a torção topológica que constituiria o sujeito “civilizado”, pois os registros RSI (Real, Simbólico, Imaginário) não se acoplam harmonicamente.
A Garrafa de Klein aqui não é uma forma perfeita: é quebrada, rachada, permeável ao trauma. O sujeito infantil está em trânsito, buscando um ponto de apoio, uma inscrição, uma imagem de si – mas caindo nas falhas do Outro.